Você está na página 1de 10

AULA 1

Introdução à Política
A palavra tem sua raiz no grego polis que significa “cidade”, e por extensão
amplia seu significado: política – “arte de governar a cidade”. O termo se
aplica tanto ao governo de maneira geral, como à atividade realizada por
profissionais que atuam como representantes do povo – os políticos.

A palavra política pode ter uso generalizado ou mais específico

Afinal, o que é a política?

É a atividade de governo? É a administração do que é público? É profissão de alguns especia-


listas? É ação coletiva referida aos governos? Ou é tudo que se refira à organização e à gestão de
uma instituição pública ou privada? No primeiro caso (governo e administração), usamos “política”
para nos referirmos a uma atividade que exige formas organizadas de gestão institucional e, no se-
gundo caso (gestão e organização de instituições), usamos “política” para nos referirmos ao fato de
que organizar e gerir uma instituição envolve questões de poder.
A ampliação do campo das atividades políticas permite distinguir entre o uso generalizado e
vago da palavra política e outro, mais específico que fazemos quando damos a ela três significados
principais inter-relacionados:
1. O significado de governo, entendido como direção e administração do poder público, sob a
forma do Estado;
2. O significado de atividade realizada por especialistas – os administradores – e profissionais
– os políticos -, pertencentes a certo tipo de organização sociopolítica – os partidos -, que disputam o
direito de governar, ocupando cargos e postos no Estado. Neste segundo sentido, a política aparece
como algo distante da sociedade, uma vez que é atividade de especialistas e profissionais que se
ocupam exclusivamente com o Estado e o poder. A política é feita “por eles” e não “por nós”, ainda
que “eles” se apresentem como representantes “nossos”;
3. O significado, derivado do segundo sentido, de conduta duvidosa, não muito confiável, um
tanto secreta, cheia de interesses particulares dissimulados e frequentemente contrários aos inte-
resses gerais da sociedade e obtidos por meios ilícitos ou ilegítimos. Este terceiro significado é o
mais corrente para o senso comum social e resulta numa visão pejorativa da política.

Fragmento adaptado da obra de Marilena Chauí. Convite à Filosofia. Ed. Ática, São Paulo, 2000.

Filosofia 3 - Aula 1 5 Instituto Universal Brasileiro


Introdução à Política
Política: um conceito que se constituindo assim as vilas, as cidades e os
Estados. Em sua obra, ele diz que: "... a cida-
amplia ao longo da história
de é uma realidade natural e que o homem é,
A palavra política é utilizada em diversas por natureza, um animal político. Aquele que
situações, sem, contudo, ser empregada em não faz parte de uma cidade é ou um degra-
seu sentido fundamental. Assim, dizemos que dado ou um ser superior ao homem”.
uma pessoa é ou precisa ser mais "política"
em um determinado assunto, que a "política"
da empresa não nos parece adequada etc.
Em outras ocasiões, utilizamos a palavra
em tom pejorativo, nos referindo muito mais
a uma politicagem, predominância de interes-
ses particulares sobre o coletivo em ações de
uma falsa política. E, desta maneira, o mau
uso da palavra faz com que seu verdadeiro
sentido vá se perdendo ao longo do tempo. Estátua do grande filósofo Aristóteles.

Segundo Aristóteles, o dom da fala dis-


tingue os homens de todos os animais; e só o
homem sabe discernir entre o bem e o mal, o
justo e o injusto, e outros sentimentos da mes-
ma ordem que terminam gerando a família e a
cidade. Apenas o homem consegue transmitir
esses ensinamentos através do dom da fala;
enquanto os demais animais exprimem, pelo
som da voz, a dor e o prazer.
O filósofo completa dizendo que a cidade
Tentar explicar política é viajar pela his- é, por natureza, anterior à família e aos indiví-
tória e pelos movimentos ocorridos, é lembrar duos, pois cada um deles, isoladamente, não
a atuação de vários personagens na vida pú- é capaz de bastar-se a si mesmo. O homem,
blica e que, investidos de poder, imprimiram que é incapaz de viver em comunidade, ou
determinados rumos à sociedade. Pensar em que não tem necessidade disso porque bas-
política é pensar na relação entre política e ta a si próprio, não faz parte de uma cidade;
poder, entre autoridade, coerção e persuasão. deve ser, portanto, um bruto ou um deus.
É entender política como a luta pelo poder,
conquista, manutenção e expansão do poder. Aristóteles dizia ainda que todas as coi-
sas se definiam sempre pelas suas funções e
potencialidades e, assim, quando não tinham
Homem: um ser político mais suas características próprias, não se tra-
tavam mais das mesmas coisas; possuíam
Segundo o filósofo grego Aristóteles (384
apenas o mesmo nome.
a.C. – 322 a.C), o homem é um ser político. Ele
escreveu uma obra denominada A Política, or-
ganizada em oito livros, em que se defende a
ideia de que a política integra a natureza huma- O nascimento da polis
na destacando o dom da fala e a necessidade De acordo com o pensador francês Jean-
de associação para além do núcleo familiar, -Pierre Vernant (1914-2007), foi por volta dos
Filosofia 3 - Aula 1 6 Instituto Universal Brasileiro
séculos 8 e 7 a.C., na Grécia Antiga, que se A desigualdade na democracia grega
deu o nascimento da polis (cidade-estado gre-
ga), provocando profundas alterações na vida Ao falarmos da democracia ateniense, te-
social e nas relações entre os homens. Surge, mos de lembrar que a maior parte da população,
então, um novo ideal de justiça, que assume composta por mulheres, crianças e escravos,
um caráter político, pelo qual todo cidadão se achava excluída do processo político, e 10%
tem direito ao poder. A cidade grega encontra- eram considerados cidadãos capacitados para
va-se centralizada na praça pública, denomi- decidir por todos nos debates que ocorriam na
nada ágora, onde se debatiam os interesses ágora. Vemos significativas desigualdades so-
comuns e os problemas da polis. ciais existentes nestas cidades, que restringiam
o direito à cidadania aos nascidos na cidade, do
sexo masculino, adultos e livres.

O surgimento da polis, que aboliu a antiga


organização tribal e estabeleceu novas relações O filósofo grego Platão (428 a.C. – 348
não mais baseadas na consanguinidade, ex- a.C.) criticou a noção de igualdade na demo-
pressa o ideal igualitário da democracia nascen- cracia, baseando-se no valor pessoal, que
te, revogando, assim, o poder aristocrático das é sempre desigual. Para ele, essa desigual-
famílias. Essa nova relação pretendia se estabe- dade não se constituía um problema, desde
lecer entre os homens, não mais assentada nas que cada cidadão se ocupasse da função em
diferenças hierárquicas típicas das relações de conformidade com sua natureza. Também di-
domínio e submissão, mas baseada numa apa- zia que a cidade justa é aquela em que cada
rente semelhança daqueles que compunham a cidadão ocupa uma das três classes, ou or-
polis, apesar da origem, classe e função. dens, que a constituem, fazendo, assim, rei-
Novamente vemos o poder da palavra, nar a harmonia e a prosperidade.
do saber e a expressão da individualidade por
meio do debate, fazendo nascer a política e o Classes fundamentais da
cidadão da polis participando dos destinos da sociedade ateniense
cidade por meio da palavra, do debate e do
exercício da persuasão. • Classe dos magistrados: minoritá-
ria, encarregada de governar, elaborar e fazer
cumprir as leis;
• Classe dos artífices, ou econômica:
composta pelos trabalhadores em geral e res-
ponsáveis pelos bens necessários para sobre-
Democracia: o povo na política vivência;
• Classe dos guerreiros: responsável
A palavra “democracia” se originou do pela defesa da cidade.
grego demos (povo) e kratia (governo, poder,
autoridade). A população de Atenas, cidade
Para Platão, a cidade em que o magistra-
grega, foi a primeira a elaborar teoricamente
do governa, o soldado defende e a classe eco-
o ideal democrático, dando ao cidadão a ca-
pacidade de decidir o destino da polis. nômica se responsabiliza pela subsistência dos
cidadãos é uma cidade justa onde todos se es-
Filosofia 3 - Aula 1 7 Instituto Universal Brasileiro
forçam para a realização do bem comum e da
justiça. Dizia ainda que política é "a arte de go- como o governo de um só; a aristocracia
como o governo de um pequeno grupo; e a
vernar os homens, com seu consentimento", e o
politeia como o governo da maioria.
político é aquele que conhece a ciência política; Segundo o filósofo, cada uma das três
e para que o Estado seja bem governado, é ne- formas retas corresponderia a uma forma de-
cessário que os reis se tornem filósofos, ou os generada: a tirania seria o governo de um só
filósofos se tornem reis. Ele propôs um modelo que objetiva o interesse próprio; a oligarquia, o
aristocrático de poder, e não uma aristocracia da que visa ao interesse dos mais ricos e nobres; e
riqueza, mas da inteligência. a democracia, aquele em que a maioria pobre
governa em detrimento da minoria rica.
O filósofo grego preferia a politeia como
Pensamento político de Aristóteles forma de governo, embora considerasse todas
Para Aristóteles, a vida individual estava adequadas ao exercício do poder, talvez por
conta da constatação da tensão política gera-
sobreposta à vida comunitária. O filósofo dizia
da pela disputa entre os pobres e os ricos, bem
que a cidade era uma associação de homens como da paz social advinda de um regime que
iguais, e a justiça, a responsável por garantir conciliasse esses antagonismos.
esta igualdade; porém a distribuição justa é a
que leva em conta o mérito das pessoas, e
não se podia dar o igual para desiguais, já que
Política na Idade Média: Igreja x Estado
as pessoas são diferentes.
Retomando a tradição grega, ele acre- Este longo período (entre os séculos 5
ditava que a lei era o princípio que regia a e 15), compreendido entre a queda do Im-
ação dos cidadãos, a expressão política da pério Romano do Ocidente e a tomada de
ordem natural. Considerava as leis escritas Constantinopla, em que se estabeleceu uma
importantes, muito embora valorizasse os nova ordem feudal, é de difícil caracteriza-
costumes dizendo que de nada adianta ter ção. O desejo de unidade de poder e restau-
boas leis se os cidadãos não estiverem sub- ração da antiga ordem expressaram-se na
metidos a hábitos e a uma educação presen- difusão do cristianismo, estabelecendo uma
tes na Constituição. ligação entre Estado e Igreja em que esta
De maneira geral, concordava que o legitimava o poder do Estado, atribuindo-lhe
governante deveria ter a virtude prática que uma origem divina.
o tornaria capaz de agir, visando ao bem co-
mum. Também acreditava que nem todos que
moravam em uma cidade tornavam-se cida-
dãos, nem eram aptos a participar da admi-
nistração desta.
Na Idade Média, são configuradas
duas instâncias de poder
Tipologia clássica das formas de
governo, segundo Aristóteles O Estado, caracterizando-se pelo exer-
cício da força física; e a Igreja, preocupando-
A partir de dois critérios básicos –
se com a salvação da alma e o encaminha-
“quem” e “como” governa – Aristóteles esta-
mento dos cidadãos pela força da educação e
beleceu uma tipologia das formas de governo,
persuasão para a religião.
que se tornou clássica. Utilizando o critério de
valor (axiológico), considerou três formas que
podem ser boas, desde que visem ao bem co-
Observa-se, neste período, o monopó-
mum; ou más, quando o objetivo é o interesse lio do saber por parte da Igreja, uma extrema
particular. fragmentação política e descentralização do
Assim, levando em conta a quantidade, poder e uma concepção negativa do Estado;
distinguiu como formas retas: a monarquia ao contrário da Antiguidade, em que a função
do Estado era assegurar a vida boa.
Filosofia 3 - Aula 1 8 Instituto Universal Brasileiro
aparecimento das cidades contribuiu para o
Para o filósofo início do processo laicista da sociedade, isto
Santo Agostinho é, a retirada da influência da Igreja expres-
(354-430), a luta sa numa oposição ao poder religioso. Com
entre estes dois po- o aparecimento de vários teóricos dos no-
deres deveria ser vos tempos, iniciou-se uma profunda e lenta
de ligação e não de transformação, muito embora as novas ideias
oposição, porém a não tenham provocado alterações políticas
superioridade do imediatas.
poder espiritual da
Igreja sobre o poder Principais teóricos dos novos tempos
temporal do Estado
provocou grandes O inglês Guilherme de Ockham
disputas e choques (1288-1347)
pelo poder, indican-
do as tentativas dos Acreditava que a Igreja não era infalível,
que o papa deveria ser passível de expulsão,
reis de recusarem a interferência religiosa
que os governantes e a realeza não estavam
nos assuntos políticos. no poder por causa do direito divino e deve-
riam ser expulsos caso se tornassem tiranos;
e ainda acreditava que a mulher deveria ser
O filósofo Tomás
capaz de desempenhar papel mais ativo nas
de Aquino (1225- questões da Igreja.
1274), assim como
Aristóteles, dizia que O escritor e poeta italiano Dante Alighieri
o homem só encon- (1265-1321)
tra sua realização
na cidade, e o plano Autor de Divina Comédia e De Monar-
político é a possibi- chia, dizia que Deus nos dotou de livre racio-
lidade de o governo cínio e vontade permitindo-nos a perfeita con-
não tirânico de aliar dução do Estado.
ordem e justiça na
O filósofo italiano Marsílio de Pádua
busca do bem comum.
(1275-1342)

Dizia que era pela vontade do povo que


Renascimento urbano melhor se conhecia o que devia ou não ser fei-
to, e que a elaboração de leis regularia as rela-
ções sociais e se alcançaria a cidadania.

Estado e Poder
Quando nos referimos à política, falamos
de poder, um conjunto de relações pelas quais
alguns indivíduos interferem na atividade de
outros, presumindo-se, assim, a existência de
alguém que exerce o poder, e outro, sobre o
qual o poder é exercido. A força é o instrumen-
O renascimento urbano, a partir do final to para a efetivação deste poder, não repre-
do século 11, coincide com o renascimento sentando, necessariamente, meios violentos,
do comércio pelos servos libertos instalados mas os que permitam influir no comportamen-
nos arredores das cidades (os burgos). O to do outro.
Filosofia 3 - Aula 1 9 Instituto Universal Brasileiro
• Poder das minorias dos governos
aristocráticos, em que apenas os melhores,
mais ricos, fortes, de linhagem nobre ou a eli-
te do saber, têm função de mando;
• Poder do consenso, da vontade do
povo nas democracias.

A legitimidade do poder está ligada à obe-


diência voluntária e, portanto, livre; enquanto
que numa situação contrária surge a resistên-
cia que leva à turbulência social.

No período medieval, houve uma disputa O poder personalizado


entre Estado e Igreja pelo poder, e em vários Nos governos não democráticos, em que
territórios, alguns nobres eram mais podero- uma determinada pessoa se apossa do poder por
sos que o próprio rei. No período moderno, toda sua vida, como proprietária dele, o poder não é
com a formação das monarquias nacionais, o legitimado pelo consentimento da maioria, e aque-
Estado se fortalece, significando a posse de les que o possuem passam a depender do pres-
um território em que o comando sobre seus tígio ou da força para mantê-lo. Trata-se, portanto,
habitantes é feito pela centralização cada vez da usurpação do poder e, em virtude de privilégios,
maior do poder. reis cristãos medievais, faraós do Egito e o César
Com esta delimitação territorial e a le- romano se apropriaram do poder e se identificaram
gitimação do poder, o Estado começa a apli- como intérprete humano da suprema razão.
car leis, recolher impostos e ter um exército. O poder, que não é a representação do
Como o poder é uma relação, o Estado que se desejo da maioria, precisa estar sempre vigian-
sustenta apenas na força não é legítimo, não do, controlando as divergências, uniformizando
dura muito, pois esta não é condição suficien- opiniões, crenças e costumes que poderão aba-
te para a manutenção do poder. Entre muitas lar este poder, evitando com isso pensamentos
formas de força e poder, é o poder do Estado diferentes e destruindo a oposição. Cabe ao ci-
que se configura como poder político, desde dadão o olhar crítico, a reflexão sobre o tipo de
os tempos modernos. governo a que está se submetendo.

Aparato administrativo e monopólio


da força no Estado moderno
Segundo o intelectual alemão Max Weber
O poder personalizado
(1864-1920), o Estado moderno é reconhecido
e o totalitarismo
por dois elementos constitutivos: o aparato ad-
ministrativo dos serviços públicos e o monopó- Quando o poder aparece na figura de um
lio da força. homem todo-poderoso, incorporado a um partido
único, surge o risco do totalitarismo. Claude Lefort
Diversos princípios de legitimidade (1924-2010), filósofo francês, referia-se ao ditador
do poder ao longo da História russo Josef Stalin (1879-1953) como um egocra-
ta, que significa "o poder personalizado" o poder
• Poder que vem da vontade de Deus do eu, o ser todo-poderoso que apaga a distinção
nos Estados teocráticos; entre a esfera do Estado e a da sociedade civil, em
• Poder da força da tradição, trans- que o partido, onipresente, se incumbe de difundir
mitidos de geração para geração nas monar- a ideologia dominante, uniformizando as relações
quias hereditárias; sociais conforme o modelo geral.

Filosofia 3 - Aula 1 10 Instituto Universal Brasileiro


Sociedade x Desigualdade de classes e o homem, antes livre, passou a ser escra-
vo de seu semelhante. Como consequência,
Ao fazer uma retrospectiva sobre a his- rompeu-se a igualdade da condição de natu-
tória de todas as sociedades até os nossos reza e instaurou-se a desordem, a desigual-
dias, podemos verificar que tem sido uma his- dade entre os homens. Para Rousseau, a de-
tória de lutas de classes, provocadas pela de- sigualdade se instituiu pelo desenvolvimento
sigualdade das classes vigentes. das faculdades do homem e pelo progresso
Tivemos, assim, exemplificando, as lutas de seu espírito, que se consolidou pelo esta-
entre o homem livre e o escravo, patrícios e ple- belecimento da propriedade e das leis.
beus, barões e servos, proprietários e empre-
gados, lutas que se configuraram sempre entre
opressores e oprimidos em constante oposição; A desigualdade no Brasil
às vezes de modo disfarçado, em outras, nem
tanto. Mas dessas lutas resultaram, sempre, ou
uma transformação da sociedade inteira ou a
destruição das classes em luta.
Já na Antiguidade, havia divisão de clas-
ses, e, apesar das mudanças e evoluções pelas
quais o mundo tem passado, vários fatores como
formação e atividade profissional, etnia, geração,
determinam as diferenças que, nas relações so-
ciais, são transformadas em desigualdade entre
os cidadãos de uma mesma sociedade.
O Brasil é um país de enorme dimensão
A instituição da desigualdade, geográfica, marcado por profundas desigualda-
segundo o filósofo Rousseau des: sociais, econômicas, regionais, etárias e
educacionais, potencializadas pelas desigual-
dades de gênero e de raça. Como consequên-
cia do legado cultural escravocrata e patriarcal,
persiste o tratamento diferente a homens e mu-
lheres, brancos e negros, com oportunidades
e acessos desiguais aos postos de saúde, à
educação, às riquezas do país, aos serviços
públicos e às instâncias de poder.
Mesmo tendo a igualdade garantida por
lei, percebem-se no cotidiano as desigualdades
explícitas de gênero e raça nas relações sociais,
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), resultando, muitas vezes, em exclusões.
filósofo suíço, foi figura marcante do Iluminis- O Brasil apresenta desigualdades entre
mo francês e precursor do Romantismo. Ele mulheres e homens, negros e brancos, ricos
demonstrou a inexistência de uma desigual- e pobres, analfabetos e alfabetizados, nos di-
dade no estado de natureza e, raciocinando ferentes quesitos como saúde, educação, em-
hipoteticamente, atribuiu o aparecimento da prego, distribuição de renda, moradia, entre
desigualdade entre os homens à invenção
tantos outros aspectos, mesmo tendo passa-
da propriedade privada, no desejo de um ho-
do por um grande desenvolvimento econômi-
mem ser mais forte ou poderoso que outro.
O filósofo ainda afirmou que uma série de co, social, tecnológico e político.
ocorrências, ao longo da história, fez com que Podemos distinguir dois tipos de desi-
os mais fortes e habilidosos começassem a gualdades: uma desigualdade natural ou fí-
se destacar, aprofundando a desigualdade; sica, instituída pela natureza, como na dife-
rença de idade, sexo, saúde, força; e outra
Filosofia 3 - Aula 1 11 Instituto Universal Brasileiro
moral ou política, dependendo de convenções
estabelecidas ou autorizadas pelo homem, Democracia: um conceito que se aplica
às relações políticas e sociais
como privilégios concedidos aos mais ricos,
aos políticos, às celebridades etc. Ambas as É importante compreender também que
desigualdades perduram no Brasil, às vezes a democracia diz respeito não só à relação po-
prevalecendo uma, ora a outra, ou as duas si- lítica entre Estado e sociedade, mas à forma
multaneamente, dependendo da situação. como as pessoas se relacionam e se organi-
zam. Neste sentido, é preciso aplicar o concei-
Diminuir estas desigualdades é objeti- to à vida social, ressaltando a necessidade de
vo comum da política dos inúmeros governos democratizar as relações de poder no âmbito
que já se instalaram. Desta maneira, somen- da sociedade civil. Essa dimensão da demo-
te quando a igualdade formal se traduzir em cracia desenvolve uma política cultural.
igualdade real poderemos nos orgulhar da
consolidação da nossa democracia.

A fragilidade da democracia
Toda democracia pressupõe pensamen- Introdução à Política
tos divergentes, vários discursos, e inevitá-
veis conflitos que serão superados a partir da Tentar explicar política é viajar pela história
discussão, do confronto e na possibilidade de e pelos movimentos sociais, focando a atuação
superação. A livre circulação da informação e de vários personagens na vida pública e que,
o acesso à cultura por parte de todos consti- investidos de poder, imprimiram determinados
tuem a base de uma democracia, bem como rumos à sociedade. O homem é um ser político.
a permissão para que todos os setores da so-
Democracia: o povo na política
ciedade sejam legitimamente representados.
Então, numa democracia é importante A palavra “democracia” se originou do
a existência de mecanismos que garantam grego demos (povo) e kratia (governo, poder,
a ampla extensão da educação, a ampliação autoridade).
dos espaços públicos de consumo e produção
de cultura, o pluralismo dos partidos cuja efi- A desigualdade na democracia grega
cácia independa do poder econômico e que
adversários políticos sejam vistos como opo- Para o filósofo Aristóteles, a cidade era
sitores apenas e não inimigos. uma associação de homens iguais, e a justi-
Trata-se, no entanto, de uma tarefa di- ça, a responsável por garantir esta igualdade.
fícil, pois aceitar a diversidade de opiniões, o
Política na Idade Média
desafio do conflito e a grandeza da tolerância
são indicativos de maturidade. Por isso que a Na Idade Média, são configuradas duas
democracia é frágil. Ela permite a expressão instâncias de poder: Igreja e Estado.
dos pensamentos divergentes inclusive da-
quele contrário à democracia, tentando impor Estado e Poder: quando nos referimos
um ponto de vista diferente. à política, falamos de poder e a força é o ins-
Para que haja um fortalecimento da de- trumento para a efetivação deste poder. Por
mocracia, é necessária a politização das pes- meio do: aparato administrativo e monopólio
soas, que estas deixem o hábito da cidadania da força no Estado moderno; poder persona-
passiva, do individualismo, para se tornarem lizado e legitimado de um governante.
pessoas mais participativas e conscientes da
Sociedade, Desigualdade de classes:
coisa pública, e da importância do papel res-
desigualdade no Brasil; e a fragilidade da de-
ponsável de cada um para o estabelecimento mocracia.
da democracia.
Filosofia 3 - Aula 1 12 Instituto Universal Brasileiro
d) ( ) A valorização das opiniões mais
competentes.

3. Em sua obra denominada A Políti-


ca, o filósofo grego Aristóteles defende a
1. Segundo Marilena Chauí, a amplia- ideia de que a política integra a natureza
ção do campo das atividades políticas permite humana: "... a cidade é uma realidade na-
distinguir entre: um uso generalizado e vago tural e o homem é, por natureza, um ani-
da palavra política; e outro, mais específico, mal político.” O filósofo destaca ainda duas
que fazemos quando damos a ela significados características humanas que reforçam sua
inter-relacionados. Qual dos significados abai- tese. Quais?
xo resulta numa visão pejorativa de política?
a) ( ) O dom da fala e a necessidade de
a) ( ) O significado de governo, enten- viver em agrupamentos.
dido como direção e administração do poder b) ( ) A capacidade de raciocinar e de
público, sob a forma do Estado. sobreviver isoladamente.
b) ( ) O significado de atividade realiza- c) ( ) O espírito aventureiro e a tendên-
da por especialistas – os administradores – e cia de viver em família.
profissionais – os políticos, pertencentes à or- d) ( ) A visão aguçada e o desenvolvi-
ganizações sociopolíticas. mento físico e mental.
c) ( ) O significado de organização e
gestão de instituições públicas ou privadas, 4. O conceito de política remete à ideia
envolvendo questões de poder. de poder. Analise as afirmativas abaixo e indi-
d) ( ) O significado de conduta duvido- que as corretas.
sa, cheia de interesses particulares dissimula-
dos e frequentemente contrários aos interes- I - No período medieval, houve uma dis-
puta entre Estado e Igreja pelo poder, em vá-
ses gerais da sociedade.
rios territórios.
II - No período moderno, com as monar-
2. (Enem. Adaptada) Na definição quias, o Estado se fortalece com a posse de
abaixo, o autor entende que a história da po- territórios e o comando de seus habitantes.
lítica está dividida em dois momentos princi- III - Com a delimitação territorial e a
pais: um primeiro, marcado pelo autoritarismo legitimação do poder, o Estado se configu-
excludente, e um segundo, caracterizado por ra como poder político, desde os tempos
uma democracia incompleta. modernos.

A política foi, inicialmente, a arte de im- a) ( ) I e II.


pedir as pessoas de se ocuparem do que lhes
b) ( ) I, II e III.
diz respeito. Posteriormente, passou a ser a
arte de compelir as pessoas a decidirem so-
c) ( ) I e III.
bre aquilo de que nada entendem. d) ( ) II e III.
VALÉRY, P. Cadernos. Apud BENEVIDES, M. V. M. A
cidadania ativa. São Paulo: Ática, 1996. 5. Jean-Jaques Rousseau demonstrou
que a igualdade faz parte da condição de na-
Considerando o texto, qual é o elemento co- tureza. Assinale uma das razões que o filósofo
mum a esses dois momentos da história política? atribuiu como causadora da desigualdade en-
tre os homens.
a) ( ) A distribuição equilibrada do poder.
b) ( ) O impedimento da participação a) ( ) Liberdade de expressão.
popular. b) ( ) Governos não democráticos.
c) ( ) O controle das decisões por uma c) ( ) Instituição da propriedade privada.
minoria. d) ( ) Luta de classes.
Filosofia 3 - Aula 1 13 Instituto Universal Brasileiro
que terminam gerando a família e a cidade.
Apenas o homem consegue transmitir esses
ensinamentos através do dom da fala. Pos-
teriormente, outros estudiosos também rea-
firmam que a natureza social do homem se
1. d) ( x ) O significado de conduta manifesta na linguagem, no falar; e o falar
duvidosa, cheia de interesses particula- tem função social. E em sociedade, o ho-
res dissimulados e frequentemente con- mem pode realizar a vida política.
trários aos interesses gerais da socieda-
de. 4. b) ( x ) I, II e III.

Comentários. A alternativa d apresen- Comentários. As três afirmativas es-


ta o significado que resulta numa visão pe- tão corretas. No período medieval, a Igreja
jorativa da política, entendida como conduta exercia grande influência sobre o Estado e
não muito confiável, que defende interesses havia disputas de poder em vários territó-
particulares obtidos por meio ilícitos ou ilegíti- rios. No período moderno, sob influência das
mos, muitas vezes, contrários aos interesses idéias iluministas, a Revolução Francesa, e
gerais da sociedade. As demais alternativas os governos monárquicos, o Estado se forta-
apresentam outros significados da palavra lece. Historicamente, o Estado surge no mo-
política, que apesar de inter-relacionados, mento em que os conflitos sociais colocam
nem sempre carregam o tom pejorativo que em risco a sociedade e expõem ao perigo os
exprime sentido desagradável, depreciativo meios de produção, fazendo predominar os
ou de desaprovação. interesses da classe social dominante, haja
vista, os interesses da monarquia, da nobre-
2. c) ( x ) O controle das decisões por za, do clero e da burguesia. Neste período,
uma minoria. Estado agrega o significado de sociedade
política.
Comentários. Segundo o texto, nos
dois momentos da história política, o poder de 5. c) ( x ) Instituição da propriedade
decisão fica nas mãos de indivíduos ou gru- privada.
pos que representam minorias dominantes.
O primeiro momento descreve o impedimento Comentários. O filósofo Rousseau,
da participação da maioria na tomada de de- na obra Discurso sobre a Origem da De-
cisões que são monopolizadas, como no caso sigualdade, publicada em 1755, aborda
do absolutismo monárquico. Já no segundo os fundamentos da desigualdade entre os
momento, há uma participação sem aces- homens, analisando qual seria o processo
so pleno aos assuntos em questão, descrita gerador desse fenômeno. O filósofo mostra
como democracia incompleta, em que uma o caminho histórico percorrido pelo ser hu-
minoria, que supostamente representa o con- mano, passando de um suposto estado de
junto da sociedade, continua no controle das natureza para o estado civilizado. Apresen-
decisões. ta todas as contradições que permearam
esse processo e chega à conclusão de que
3. a) ( x ) O dom da fala e a necessi- a desigualdade tem origem na instituição
dade de viver em agrupamentos. da propriedade privada. Segundo Rous-
seau, no estado natural o homem seria li-
Comentários. Segundo Aristóteles, o vre, segundo as leis da natureza. A proprie-
dom da fala distingue os homens de todos dade, entendida como privilégio de uns em
os outros animais; e só o homem sabe dis- detrimento de outros, vem alterar a ordem
cernir entre o bem e o mal, o justo e o injus- natural das coisas, gerando a desigualdade
to, e outros sentimentos da mesma ordem social.
Filosofia 3 - Aula 1 14 Instituto Universal Brasileiro