Você está na página 1de 12

Reflexões sobre a Estética

AULA 2 O significado da palavra estética abrange desde o senso comum referente


à aparência física até a concepção artística que considera a beleza e a har-
monia de formas e cores. Em Filosofia, o conceito designa reflexão, tanto a
respeito da beleza sensível como do fenômeno artístico.

Estética: remete à beleza e ao conhecimento sensível

Psiquê revivida pelo beijo de Eros (1787),


escultura de Antônio Canova (1757-1822).

Etimologicamente, a palavra estética vem do grego aisthesis, que significa “faculdade de sen-
tir; compreensão pelos sentidos ou sensorial; aquilo que pode ser percebido pelos sentidos”. Na
mitologia grega, Eros e Psiquê representam o amor que nasce quase que única e exclusivamente
da percepção estética da beleza física. Já a filosofia do belo reafirma a teoria do conhecimento sen-
sível, ou seja, faz a reflexão das percepções do sistema sensorial.
Ao longo do tempo, a filosofia sempre se interrogou a respeito da essência do belo, o tópico
central da estética. No século XVIII a história da estética atinge o auge. A análise da impressão es-
tética estabelece a diferença entre a beleza experimentada de forma imediata e a beleza relativa;
também se estabelece a separação entre o belo e o "sublime". A estética contemporânea ultrapassa
as concepções tradicionais e esfacela os limites entre arte e realidade, por meio da abstração.

Filosofia 3 - Aula 2 15 Instituto Universal Brasileiro


Reflexões sobre a Estética
tenha se voltado às teorias da criação e
A Estética ao longo da História percepção artísticas. Desde a Antiguidade,
alguns filósofos se ocuparam refletindo so-
Um conceito, vários significados
bre o belo, natural ou artístico. Mas o que
Podemos dizer que a palavra estética, é o belo? Será que todas as pessoas têm a
assim como a política, adquiriu significa- mesma concepção sobre o que é belo?
dos diversos conforme seu uso. Atualmen-
te, essa palavra se refere, no uso comum, Alexander Gottlieb Baumgarten
à estética corporal e facial, tratamentos à (1714-1762)
base de cremes, massagens e, às vezes,
referindo-se a clínicas de cirurgia plástica.
No uso comum, estética está sempre ligada
ao belo, à beleza física e meios para che-
gar ao belo.
Todavia, se fugirmos destes aspectos
e nos aprofundarmos no mundo das artes,
encontramos outros usos para esta pala-
vra, como: estética renascentista, estética
realista e outros, referindo-se agora a um
estilo, a um conjunto de características for-
mais assumidos em um determinado perío- A estética, apesar de ser uma preo-
do no estudo das artes. É também usada cupação antiga do campo filosófico, como
referindo-se ao agradável, em expressões termo, surgiu no século 18, no trabalho do
como: arranjos estéticos, senso estético e filósofo alemão Baumgarten.
decoração estética de ambientes.

Feio ou bonito?
Quando nos referimos a algo ou alguém,
dizendo ser feio ou bonito, fazemos um julga-
mento subjetivo, isto é, pessoal. Aquilo que uma
determinada pessoa julga ser belo nem sempre
é compartilhado por outra pessoa. Como todo
conceito filosófico, o critério da beleza foi alvo
Vista parcial de Davi (1501-1504), de Michelangelo,
de muitos debates e transformações.
pintor e escultor renascentista (1475-1564) Ao longo dos tempos, a Filosofia sempre
se interrogou a respeito da essência do belo,
No campo da Filosofia, emprega-se o tópico central da estética. Desde a Antigui-
o termo “estética” para o ramo que estuda dade, muitos filósofos tentaram fundamentar
racionalmente o belo e o sentimento que a objetividade da arte e da beleza.
ele suscita nos homens. O objeto artístico Platão foi o primeiro a ligar a arte à be-
pode ser entendido como aquele que mais leza. Para ele, o belo era o bem, a verdade
se aproxima do sentimento e da percepção, e a perfeição. Existia a essência ideal e ob-
portanto, a estética seria a filosofia da sensi- jetiva do belo em si, independente das obras
bilidade em relação à beleza. Podemos, en- individuais que deveriam se aproximar do
tão, entender porque, na Filosofia, a estética ideal universal.
Filosofia 3 - Aula 2 16 Instituto Universal Brasileiro
tísticas, políticas e econômicas na época
do Renascimento (século 15). Na arte,
inspirada no mundo greco-romano (Anti-
guidade Clássica), o homem passava a
ser evidenciado, e não mais Deus.

Os filósofos empiristas, por sua vez,


diziam que a beleza era relativa à opinião e
ao gosto de cada um, não podendo por isso
discutir-se a respeito. Origina-se daí o fa-
moso ditado: "Gosto não se discute". O belo
não está mais no objeto, mas nas condições
de recepção do sujeito.
A partir do século 18, a estética recebe
fundamentação filosófica. Tentando superar
essa dualidade, objetividade-subjetividade,
Immanuel Kant (1724-1804), filósofo da an-
tiga Prússia, afirmou que o belo é "aquilo
que agrada universalmente, ainda que não
Afrodite de Milos, estátua clássica, se possa justificá-lo intelectualmente". Para
Museu de Louvre em Paris. ele, a causa do prazer ocasionado pelo belo
reside no sujeito, e o princípio do juízo esté-
Platão foi o primeiro a ligar a arte à beleza. tico é o sentimento do sujeito, e não o con-
Para ele, o belo era o bem, a verdade e a perfei- ceito do objeto.
ção. Existia a essência ideal e objetiva do belo Belo é uma qualidade que atribuí-
em si, independente das obras individuais que mos aos objetos para exprimir um estado
deveriam se aproximar do ideal universal. da nossa subjetividade; portanto, não há
Aristóteles concebe a arte como uma uma ideia de belo, nem regras para produ-
criação especificamente humana, portanto, zi-lo. Há objetos belos, modelos imitáveis e
para ele o belo não pode ser desligado do exemplares.
homem. Aristóteles distingue dois tipos de Atualmente, considera-se belo a qua-
artes: as que possuem uma utilidade prática lidade de alguns objetos singulares dados
e as que imitam a natureza. Segundo suas à nossa percepção. Não existe mais aquela
concepções, o que confere a beleza a uma ideia de um único valor estético a partir do
obra é a sua proporção, simetria, ordem, qual julgamos todas as obras; cada objeto
isto é, uma justa medida. possui seu tipo próprio de beleza. Em con-
Na época do Classicismo, fundava-se trapartida, o feio foi, durante séculos, bani-
a estética normativa a partir de um belo ideal do do território artístico, pelo menos desde
passando o objeto a possuir qualidades que o a Antiguidade grega até a Idade Média, para
tornariam mais ou menos agradável, indepen- ser reabilitado no século 19.
dente do sujeito que o percebesse. Quando a arte rompe com a obriga-
ção de ser a cópia do real para ser uma
criação autônoma que revela as possibi-
lidades do real, ela passa a ser avaliada
de acordo com a autenticidade de sua pro-
posta e capacidade de falar ao sentimento.
Classicismo é o nome dado ao perío- O feio e o belo passam a ser um problema
do de grandes transformações culturais, ar- do modo de representação. Obras feias
eram as obras malfeitas, que não corres-
Filosofia 3 - Aula 2 17 Instituto Universal Brasileiro
pondiam plenamente à proposta; assim,
individual,, não fundado no objeto, mas
uma obra feia não era considerada uma
condicionado somente por sentimentos
obra de arte.
ou afirmações arbitrárias, ou seja, da von-
tade do sujeito.
Objetividade é o conhecimento fun-
dado na observação imparcial, indepen-
dente das preferências individuais; conhe-
cimento resultante da descentralização do
Teoria da arte: forma
sujeito que conhece, pelo confronto com
poética x forma estética
outros pontos de vista.
Segundo a filósofa Marilena Chauí,
do ponto de vista da Filosofia, podemos A subjetividade, assim entendida, refere-
falar em dois grandes momentos de se mais a si mesma, e esse tipo de julgamento
teorização da arte. No primeiro, inaugu- estético decide o que preferimos em virtude do
rado por Platão e Aristóteles, a Filosofia que somos e, com isso, nós passamos a ser a
trata as artes sob a forma da poética; medida absoluta de tudo. Esta atitude leva ao
no segundo, a partir do século 18, sob a preconceito e ao dogmatismo.
forma da estética. Poética é o nome de
uma obra de Aristóteles sobre as artes.
A palavra poética vem do grego poie- A subjetividade, em relação ao obje-
sis, que significa “criação”. A arte poé- to estético, precisa preocupar-se mais em
tica estuda as obras de arte do ponto conhecer as particularidades de cada ob-
de vista da criação artística. Estética é jeto, interessar-se mais em conhecer do
a tradução da palavra grega aesthesis, que em preferir.
que significa “sensibilidade”. Portanto,
refere-se à reflexão das obras de arte
enquanto criação da sensibilidade que
têm como finalidade o belo.

Experiência estética e conceito de "gosto" Dogmatismo é a doutrina que prega


a confiança na razão humana em alcançar
Se formos procurar no dicionário um verdades absolutamente certas e seguras
significado para a palavra “gosto”, encon- (Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa).
tramos: "preferência pessoal; preferência
que revela refinamento, elegância". No en-
tanto, o conceito de gosto não deve ser en- A própria obra de arte é a responsável
carado como uma preferência arbitrária e pela formação do gosto, pois reprime as par-
imperiosa da subjetividade. ticularidades da subjetividade, convertendo
o particular em universal. Quando o sujeito
permite se abrir para a obra de arte, entrando
em seu mundo, ele exerce a aptidão de com-
preendê-la, desenvolve o gosto que nada
mais é do que a "comunicação" com a obra
Subjetividade x Objetividade para além de toda técnica.
Esta atitude propicia uma experiência
Subjetividade é o conhecimento estética, ou experiência do belo, totalmen-
que depende do ponto de vista pessoal, te gratuita e sem nenhum interesse ime-
diato e prático, sem ter em vista nenhum
Filosofia 3 - Aula 2 18 Instituto Universal Brasileiro
conhecimento lógico. Ter gosto, portanto, à razão, mas ao sentimento e à imagina-
é ter capacidade de julgamento sem pre- ção. Assim, dizemos que a arte é um en-
conceitos. tendimento intuitivo do mundo, seja para o
artista, criando obras singulares para o ob-
servador que as aprecia tentando entender
seu sentido.

Estética é a experiência da presença


do objeto e do sujeito que percebe este Afresco antigo, Palazzo Vecchio, em Florença
objeto, a obra de arte. A recepção que a
obra pede é que o sujeito a acolha, en- Obras de arte são entidades abstratas,
tre em seu mundo, jogando suas regras, objetos sensíveis, concretos, individuais e
para que seus múltiplos sentidos possam que representam a experiência vital intuída
aparecer. pelo artista. Elas são representações analó-
A partir daí, o espectador atualiza as gicas, ou seja, por semelhança, reproduzindo
possibilidades de significado da arte e tes- a vivência do artista, o que ele viu, ouviu ou
temunha o surgimento de outras significa- experimentou.
ções contidas na obra. A cada acolhimento Quando nós, observadores, apreciamos
da arte por parte de um espectador, novos uma obra de arte qualquer, fazemos através
significados surgirão, todos igualmente ver- de nossos sentidos e, desta percepção sen-
dadeiros. sível, podemos intuir a vivência que o artista
expressou em sua obra.
Arte: organização e transformação
de experiência em conhecimento Intuição é uma importante forma de co-
nhecimento imediato, feito sem intermediários;
A arte pode ser considerada como é uma visão súbita. Toda intuição tem caráter de
uma maneira de o homem organizar a ex- descoberta, seja do objeto, de uma nova ideia
periência vivida, transformando essa per- ou de um sentimento.
cepção em conhecimento, porém através
do sentimento. Por meio de sua obra, o artista atribui
O homem encontrou várias maneiras significados ao mundo que o espectador
de organizar a experiência humana e trans- capta pela intuição, não pelos conceitos. O
formá-la em conhecimento. Uma das ma- importante, em uma obra de arte, é mais o
neiras foi através da ciência, utilizando a tratamento que se dá ao tema, que se trans-
razão; outro modo era através das explica- forma em símbolos de valores de uma época
ções dos mitos e lendas, desta vez utilizan- do que o tema propriamente dito.
do a emoção. No nosso cotidiano, utilizamos as infor-
O entendimento do mundo não ocorre mações de cor, luz, volume, peso e espaço
unicamente por meio de conceitos organi- para construirmos o conceito do mundo fí-
zados logicamente; ele também se dá atra- sico. Em arte, estes dados servem para se
vés da intuição, do conhecimento imediato alargar os horizontes de nossa experiência
da forma concreta e individual que não fala sensível; o artista não copia a realidade; ele
Filosofia 3 - Aula 2 19 Instituto Universal Brasileiro
cria o que poderia ser e, com isso, abre as
portas da imaginação.

Arte x Imaginação
Como a obra de arte é uma manifesta-
ção da vivência do artista, a imaginação será
a grande mediadora entre o experimentado e
o realizado, entre o vivido e o pensado, entre
o objeto e sua representação.
Caberá à imaginação estruturar
os sentidos do artista (a acolhida dada ao Mona Lisa (1503-1506), de
corpo) e o pensamento analógico (a or- Leonardo da Vinci (1452-1519)
denação do espírito), tornando o mundo
presente em imagens e cores que fazem Neste quadro, a beleza se manifesta no
o apreciador pensar. O mundo imaginário, rosto, na pose e no suave sorriso estático,
criado pelo artista, não é irreal, mas apon- que transmite algo particular a cada apre-
ta possibilidades, em vez de fixá-lo de um ciador, provocando sentimentos diversos de
modo cristalizado. admiração, repúdio ou descaso.
Na experiência estética, a imaginação
serve de mediadora entre a natureza e o su-
A imaginação é responsável por
jeito, numa comunhão em que o sentimento
alargar o campo real percebido, preen-
é a via de acesso; este motiva uma emoção
chendo-o com possibilidades senso-
que atinge a expressão, algo para além da
riais e emocionais.
aparência do objeto.
Diferenciando emoção de sentimento,
A criatividade do artista, unida à sen- podemos ver que o termo “emoção”, etimo-
sibilidade deste, é capaz de traduzir a logicamente, refere-se à agitação física ou
realidade de uma maneira absolutamente psicológica; designa um estado psicológico
atraente, possibilitando a percepção, nes- que envolve profunda agitação afetiva. Já o
ta realidade de um estado diferente das termo “sentimento” é uma reação cognitiva
coisas. de reconhecimento de certas estruturas do
Esta admiração por parte do aprecia- mundo, cujos critérios não são explicados.
dor é algo novo, algo além do olhar; é um Simplificando, dizemos que o sentimento
estado de contemplação sensível, tentando esclarece o que motiva a emoção, na me-
perceber nesta realidade um estado diferen- dida em que as tensões percebidas causam
te, entender a mensagem, muitas vezes, in- agitações psicológicas.
compreensível em termos intelectuais, mas
coerente em termos estéticos. A emoção é uma resposta, um
Tentando decifrar um pouco essa si- modo de lidarmos com o sentimento. O
tuação, quando observamos o quadro riso, por exemplo, expressa um senti-
Mona Lisa, do pintor italiano Leonardo da mento do cômico, e o medo é uma res-
Vinci, percebemos algo além de uma mu- posta a uma ameaça. A expressão é a
lher apoiada sobre seu braço, lançando um manifestação de uma interioridade.
sorriso singelo e, ao mesmo tempo, libidi-
noso. Alguma coisa, além das cores e for-
mas, nos faz continuar a olhar o quadro,
Funções da arte
tentando buscar algo que está visível e in-
visível ao mesmo tempo; esta é uma expe- Em tempos diferentes, as obras de arte
riência estética do belo. tiveram funções diversas, ora servindo para
Filosofia 3 - Aula 2 20 Instituto Universal Brasileiro
se contar uma história, ora para despertar um sua forma ou apresentação. Esta função
sentimento religioso, ou mesmo para reme- pode ser vista na Grécia Antiga, no século
morar um fato importante para época. 5 a.C., em que as esculturas imitavam, co-
piavam a realidade.

• Função formalista. Como o próprio


nome já diz, preocupa-se com a forma de
apresentação da obra que contribui para o
significado da obra de arte. Este é o único
que se ocupa da arte e por motivos que não
são estranhos ao âmbito artístico.

Concepções estéticas
Assim como o belo é eminentemente
histórico, isto é, cada cultura tem seu pa-
drão de beleza próprio, as manifestações
artísticas têm sido diversas e, até, descon-
certantes no curso da história. Muitos fato-
res influenciaram esta diversidade: fatores
econômicos, políticos, sociais e, inclusive,
alguns objetivos artísticos de cada época
A crucificação de São Pedro (1601), ou cultura. Há uma evolução nos conceitos,
de Caravaggio (1571-1610) e algumas tendências voltam com releitu-
ras contextualizadas.
Foi somente no século 19 que uma
obra de arte passou a ser considerada um
objeto desvinculado de interesses não ar- Correntes estéticas determinam as
tísticos, ou seja, um objeto propiciador de relações entre arte e realidade
uma experiência estética por seus valores e a função da obra de arte
intrínsecos.
Deste modo, podemos distinguir três ► Naturalismo grego
funções principais para a arte, dependen- É um exemplo de corrente estética
do de seu propósito: função utilitária ou que pode ser definido como a ambição de
pragmática, função naturalista, e função se colocar o observador diante de uma
formalista. semelhança convincente das aparências
reais das coisas. A admiração pela obra
• Função utilitária ou pragmática. de arte surge da capacidade do artista
Quando a arte serve para se alcançar um de retratar a realidade, de fazê-la pare-
fim não artístico, isto é, a arte não é valo- cer a realidade, e não uma representa-
rizada por si só, mas como meio para se ção dela. Na Grécia Antiga, o artista era
atingir um fim. Um exemplo desta função um artesão, cujas obras eram utensílios
é quando a arte servia, na Idade Média, ou instrumentos educacionais. Estes ar-
para ensinar principais preceitos da religião tistas deveriam produzir cópias da apa-
católica e relatar histórias bíblicas. Esta é rência visível das coisas, imagens que se
uma finalidade pedagógica da arte. assemelhassem à realidade. Aristóteles
dizia que a arte imita a natureza, e que a
• Função naturalista. Refere-se aos arte englobava todos os ofícios manuais:
interesses pelo conteúdo da obra, ou seja, da agricultura às belas artes.
pelo que a obra retrata em detrimento da
Filosofia 3 - Aula 2 21 Instituto Universal Brasileiro
► Estilização medieval básico da arte é a imitação da nature-
Em prol da estilização, surge de- za com cunho idealista. Posteriormente,
pois do abandono ao naturalismo, sim- esses princípios reduzidos deram lugar
plificando traços e esquematizando fi- ao Academismo, isto é, o Classicismo
guras para responder à necessidade ensinado nas academias de arte que li-
de uma universalização dos princípios mitava a criatividade e a individualidade
da religião cristã. A Igreja utilizava essa da intuição artística.
arte para fins didáticos, e as obras de
arte passavam a manifestar a natureza ► Fundamentação filosófica da
divina, canalizando a devoção do ho- estética
mem para o Deus Supremo. No século 18, o filósofo Baumgar-
ten (1735) utilizou a palavra “estética”
► Naturalismo renascentista como conceito moderno de disciplina
Com o Renascimento artístico, da Filosofia. Kant (1790) utilizou o con-
surge o naturalismo renascentista, dig- ceito para a fundamentação filosófica
nificando o trabalho do artista ao elevá- da estética na arte, representada na
-lo à condição de trabalho intelectual. obra Crítica do juízo em que se preocu-
A obra de arte assume, assim, um lu- pa em distinguir a base lógica do juízo
gar na cultura da época, e mantém uma estético da base lógica do juízo de ou-
estreita relação com a ciência empíri- tras fontes de prazer, de utilidade e de
ca que desponta na época, fazendo bondade. Contrário à concepção carte-
uso das descobertas e elaborações em siana e racionalista, dizia que "belo é o
busca do ilusionismo. Nessa fase, in- que agrada independentemente de um
corporam-se às artes: a teoria matemá- conceito". Dividiu também a beleza em
tica das proporções, as conquistas em duas espécies: a beleza livre, que não
botânica, fisiologia e anatomia. Como a depende de nenhum conceito de per-
arte é um ramo do conhecimento, ela feição ou uso; e a beleza dependen-
imita a natureza com a ajuda das ciên- te, que dependeria destes conceitos.
cias; ela é uma criação da inteligência, A universalidade dos juízos estéticos,
e a beleza é vista como uma proprieda- relacionados com a beleza livre, esta-
de objetiva das coisas, consistindo em ria garantida a todos os homens, pois
ordem, harmonia, proporção, e adequa- todos possuem a mesma faculdade de
ção de luz e sombras. julgar, assim como a razão é idêntica
para todos. que se encarregaria de
► Iluminismo e Academismo estudar todas as manifestações artís-
Apesar de René Descartes (1596- ticas.
1650) não ter elaborado nenhuma teoria
estética, seu método foi decisivo para o ► Estética romântica
Iluminismo e Academismo (Estética Nor- As idéias que fundamentam a es-
mativa), no desenvolvimento da estética tética romântica se desenvolveram na
neoclássica em que se combinaram ele- Europa (século 18 e meados do século
mentos cartesianos e aristotélicos; ar- 19) resume-se por algumas expressões:
tistas e críticos identificaram o seguir a gênio (como dom intelectual e espiritual
natureza com o seguir a razão, uma vez nato), imaginação criadora (dom espe-
que a natureza do homem é ser racio- cial do artista), originalidade, expressão,
nal. Deste modo, o racionalismo estético comunicação, simbolismo (arte vista
nos séculos 17 e 18 estabeleceu normas como um símbolo, uma encarnação es-
sólidas para o fazer artístico; o princípio piritual), emoção e sentimento.

Filosofia 3 - Aula 2 22 Instituto Universal Brasileiro


de uma obra de arte não podem ser traduzi-
► Ruptura com o Naturalismo das em outras linguagens e nem se esgotam.
Caracteriza as produções a partir do Elas podem ser lidas, sentidas e interpreta-
século 20, em que a arte não tem de promo- das de várias maneiras, por pessoas diferen-
ver valores morais, religiosos ou políticos; tes, em épocas diferentes; por isso dizemos
nem representar de maneira naturalista o que elas são inesgotáveis, que jamais enve-
mundo. Encontra-se ainda um repúdio à es- lhecem e nem ficam ultrapassadas.
tética sistemática e certo ceticismo quanto Assim, podemos dizer que qualquer obra
às possibilidades de beleza. Isto possibilitou de arte pode servir para um exercício de interpre-
empreender a experimentação e a busca de tação, de conhecimento. A arte não é o conceito
uma linguagem própria, típica das vanguar- abstrato do mundo, mas a percepção da realida-
das: Cubismo, Dadaísmo, Surrealismo. de na medida em que se criam formas sensíveis
que interpretam o mundo, proporcionando o en-
► Pós-Modernismo tendimento através da experiência afetiva. Como
A época "pós-tudo" fez surgir uma esté- diz a especialista em filosofia da arte, Suzanne
tica adequada às condições de vida da Langer: "Entender a ideia de uma obra de arte
sociedade pós-industrial, dominada pelos é mais como ter uma nova experiência do que
meios de comunicação de massa. Esta como admitir uma nova proposição".
estética é caracterizada pela desconstru-
ção da forma, pelo uso da metalinguagem,
A arte constitui um texto especial,
da paródia, pela efemeridade, ou pequena
pois a atribuição de significados está
duração de muitas obras. Não existe, por-
presa à sua forma sensível de apresen-
tanto, um estilo único.
tação e é inseparável dela; sua infor-
mação estética não é lógica e continua
a existir mesmo quando não há um re-
Significado na Arte ceptor apto a recebê-la.
O homem, constantemente, tenta atri-
buir significados ao mundo e a tudo que o
rodeia, procurando compreender e decifrar
todas as informações que recebe e perce-
be. Muitas vezes, ele se depara com infor-
mações não verbais, mas que trazem uma
mensagem implícita, cheia de significados: Reflexões sobre a Estética
para alguns fáceis e acessíveis; para ou-
tros, nem tanto. A Estética ao longo da História

Um conceito, vários significados

A palavra estética adquiriu sig-


nificados diversos conforme seu uso.
Atualmente, no uso comum, refere-se à
estética corporal e facial. Na Filosofia,
a estética está voltada para as teorias
da criação e percepção artísticas.

Feio ou bonito?

Diferentemente das informações se- Como todo conceito filosófico, o critério


mânticas, as informações e os significados
Filosofia 3 - Aula 2 23 Instituto Universal Brasileiro
da beleza foi alvo de muitos debates e Funções da arte
transformações. Ao longo dos tempos,
a Filosofia sempre se interrogou a res- Em tempos diferentes, as obras de arte
peito da essência do belo, o tópico cen- tiveram funções diversas: utilitária ou prag-
tral da estética. Desde a Antiguidade, mática quando tem finalidade pedagógica;
muitos filósofos tentaram fundamentar a naturalista, quando o conteúdo está em evi-
objetividade da arte e da beleza. dência; formalista, quando destaca a forma.

Experiência estética e o
Concepções estéticas
conceito de "gosto"
Correntes estéticas determinam
A própria obra de arte é a res-
as relações entre arte e realidade e a
ponsável pela formação do gosto, pois
função da obra de arte: Naturalismo
reprime as particularidades da subje-
grego (busca retratar a realidade);
tividade, convertendo o particular em
Estilização medieval (esquematiza-
universal.
ção de figuras); Naturalismo renas-
centista (imitação das propriedades
Arte: organização e transformação de
objetivas da natureza); Iluminismo
experiência em conhecimento
e Academismo (racionalismo com
cunho idealista); Fundamentação
A arte pode ser considerada como
filosófica da estética (universali-
uma maneira de o homem organizar a
dade dos juízos estéticos); Estética
experiência vivida, transformando essa
romântica (imaginação criadora da
percepção em conhecimento, porém atra-
arte como símbolo); Ruptura com
vés do sentimento. Obras de arte são
o Naturalismo (experimentação
entidades abstratas, objetos sensíveis,
das vanguardas); Pós-Modernismo
concretos, individuais e que representam
(desconstrução da forma).
a experiência vital intuída pelo artista. Ob-
servadores, apreciam uma obra de arte
através da percepção sensível, intuindo a Significado na Arte
vivência expressa na obra.
Diferentemente das informações
Intuição é uma importante forma
semânticas, as informações e os signifi-
de conhecimento imediato, feito sem cados de uma obra de arte não podem
intermediários; é uma visão súbita. ser traduzidas em outras linguagens e
Toda intuição tem caráter de descober- nem se esgotam.
ta, seja do objeto, de uma nova ideia ou
de um sentimento.

Arte x Imaginação

Como a obra de arte é uma mani-


festação da vivência do artista, a ima-
ginação será a grande mediadora entre
o experimentado e o realizado, entre o
vivido e o pensado, entre o objeto e sua
representação.

Filosofia 3 - Aula 2 24 Instituto Universal Brasileiro


imparcial, independente das preferências
individuais.

a) ( ) Somente I está correto.


b) ( ) Somente II está correto.
1. Assinale a alternativa que classifica c) ( ) I e II estão incorretos.
corretamente o conteúdo das afirmativas d) ( ) I e II estão corretos.
abaixo.
4. Em relação à obra de arte, que aspec-
I – A palavra estética vem do grego tos são destacados no texto abaixo?
aesthesis, que significa “conhecimento sen-
sorial, experiência, sensibilidade”. Em sua “Um quadro não é pensado ou fixado de
acepção original, referia-se ao estudo das antemão. Enquanto o produzimos ele segue a
obras de arte enquanto criações da sensibili- modalidade do pensamento. Depois de termi-
dade, tendo como fim o belo. nado ele continua a mudar, conforme o esta-
do daquele que contempla. Um quadro segue
II – A partir do século 18, a estética de- sua vida como um ser vivo, sofre as mudan-
signa a arte como um produto da racionalida- ças que a vida cotidiana nos impõe.”
de e da formulação lógica do artista e, dessa Excerto de Pablo Picasso, Conversação, 1935.
forma, o belo é igual ao bom, ao verdadeiro, In: CHIPP, Herschel Browning.
alcançado pela proporção e simetria da obra. Teorias da Arte Moderna.
São Paulo: Martins Fontes, 1999.

a) ( ) I e II estão corretas. a) ( ) A experiência estética do artista e


b) ( ) I e II estão incorretas. do observador.
c) ( ) Apenas I está correta. b) ( ) O dogmatismo científico e objetivo
d) ( ) Apenas II está correta. do artista.
c) ( ) O planejamento do artista que não
2. Immanuel Kant, em sua obra Crítica da admite mudanças.
Razão Pura, introduz um novo tipo de juízo que: d) ( ) A subjetividade do observador que
não deve interferir na obra.
a) ( ) distingue a base lógica do juízo
estético. 5. Assinale a concepção estética à qual
b) ( ) critica a base lógica do juízo de o texto abaixo se refere.
outras fontes de prazer.
c) ( ) iguala a base lógica de todos os "Nesse contexto, as artes vão buscar um
tipos de juízo. naturalismo crescente, mantendo estreita liga-
d) ( ) destaca as semelhanças entre juí- ção com a ciência empírica que desponta na
zos diversos. época e fazendo uso de todas as suas desco-
bertas e elaborações em busca do ilusionismo
3. De acordo com a teoria do conheci- visual. A perspectiva científica, a teoria mate-
mento, identifique a alternativa que considera mática das proporções [...], as conquistas da
corretamente os conceitos abaixo. astronomia, da botânica, da fisiologia e da
anatomia são incorporadas às artes"
I – Subjetividade é o conjunto de ideias, (ARANHA, Maria L. A.; MARTINS,
significados e emoções baseados no ponto de Maria H. P. Filosofando:
Introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 2003).
vista do sujeito e influenciados por seus inte-
resses e desejos particulares. a) ( ) Naturalismo grego.
b) ( ) Naturalismo renascentista.
II – Objetividade é a qualidade daqui- c) ( ) Romantismo.
lo que é objetivo, resultado de observação d) ( ) Pós-Modernismo.
Filosofia 3 - Aula 2 25 Instituto Universal Brasileiro
rências individuais. Ambas fazem parte da
racionalidade e representam dimensões com-
plementares da Estética, sobretudo no que se
refere à beleza.

1. c) ( x ) Apenas I está correta. 4. a) ( x ) A experiência estética do


artista e do observador.
Comentário. Apenas a afirmativa I está
correta. Os estudos desta aula confirmam que Comentário. A alternativa a está corre-
a palavra estética vem do grego aesthesis, ta. O artista Pablo Picasso, inicia apresentan-
que significa “conhecimento sensorial, expe- do, em primeira pessoa, a experiência estéti-
riência, sensibilidade”. Em sua acepção origi- ca da criação de uma obra: “Um quadro não
nal, referia-se ao estudo das obras de arte en- é pensado ou fixado de antemão. Enquanto o
quanto criações da sensibilidade, tendo como produzimos ele segue a modalidade do pen-
fim o belo. A definição apresentada na afirma- samento.” Em seguida, fala sobre as suces-
tiva II não se aplica à concepção de Estética sivas experiências estéticas de contemplação
a partir do século 18. Na verdade, aparecem e observação a que um quadro está sujeito:
misturados conceitos da Antiguidade Clássi- “Depois de terminado ele continua a mudar,
ca, ligados a Platão e Aristóteles, e a concep- conforme o estado daquele que contempla.
ção de arte poética (poiesis = “criação”). Um quadro segue sua vida como um ser vivo,
sofre as mudanças que a vida cotidiana nos
2. a) ( x ) distingue a base lógica do impõe.” As demais alternativas apresentam
juízo estético. afirmativas contrárias à citação do artista. Pri-
meiro porque o processo de criação do artista
Comentário. Em sua obra, na parte inti- está distanciado de dogmas ou concepções
tulada Crítica da Faculdade do Juízo Estético, restritas; segundo, porque a experiência es-
Kant analisa o belo e distingue a base lógica tética, tanto do artista como do observador,
do juízo estético, em relação à base lógica do podem apresentar diferentes pontos de vista
juízo de outras fontes de prazer de utilidade sobre determinada obra de arte.
e de bondade. Contrário à concepção carte-
siana e racionalista, dizia que "belo é o que 5. b) ( x ) Naturalismo renascentista.
agrada independentemente de um conceito".
Faz também a divisão da beleza em duas Comentário. O texto se refere à con-
espécies: a beleza livre, que não depende cepção estética do Naturalismo renascentista.
de nenhum conceito de perfeição ou uso; e Neste sentido, destacam-se: a estreita ligação
a beleza dependente, que dependeria destes com a ciência empírica que desponta na épo-
conceitos. A universalidade dos juízos estéti- ca, fazendo uso de todas as suas descobertas
cos, relacionados com a beleza livre, estaria e elaborações em busca do ilusionismo visual;
garantida a todos os homens, pois todos pos- a perspectiva científica; a teoria matemática
suem a mesma faculdade de julgar. das proporções; e as conquistas da astrono-
mia, da botânica, da fisiologia e da anatomia,
3. d) ( x ) I e II estão corretos. incorporadas às artes. Com o Renascimento
artístico, surge o naturalismo renascentista,
Comentário. Segundo a teoria do co- dignificando o trabalho do artista ao elevá-lo
nhecimento, os conceitos de subjetividade à condição de trabalho intelectual. A obra de
e objetividade podem ser entendidos como arte assume, assim, um lugar na cultura da
dualidade, já que o que é subjetivo conside- época, e mantém uma estreita relação com a
ra o ponto de vista do sujeito e é influenciado ciência empírica que desponta na época, fa-
por interesses particulares; e o que é objetivo zendo uso das descobertas e elaborações em
deve ser imparcial, independente das prefe- busca do ilusionismo.
Filosofia 3 - Aula 2 26 Instituto Universal Brasileiro

Você também pode gostar