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AULA 3 A desconstrução na Pós-Modernidade

A Pós-Modernidade reúne um conjunto de mudanças ocorridas nas ciên-


cias, nas artes e na sociedade em meados do século 20. A Filosofia Pós-
Moderna reflete uma nova tendência de pensamento que se mostra comple-
xo, crítico e reativo em relação aos valores filosóficos tradicionais.

Pós-Modernidade: crítica e negação da modernidade

A condição Pós-Moderna

O filósofo francês Jean-François Lyotard (1924-1998), com a publicação da obra A Condição


Pós-Moderna (1979), expandiu o uso do conceito pós-moderno, definido como "a incredulidade em
relação às metanarrativas". Com isso, ele queria dizer que a experiência da pós-modernidade de-
correria da perda de nossas crenças em visões totalizantes da história, que prescreviam regras de
conduta política e ética para toda a humanidade.
Então, como justificar o saber na sociedade contemporânea? A questão é que não há mais um
acordo em comum sobre os valores da moral e da estética. Para a civilização ocidental, fundada em
ideais como a democracia, a liberdade e os direitos individuais, essa desconstrução representa um
sério risco. Lyotard busca então uma alternativa para justificar o saber contemporâneo em um dos
aspectos mais positivos da pós-modernidade: o reconhecimento e o convívio com as diferenças.

Filosofia 3 - Aula 3 27 Instituto Universal Brasileiro


A desconstrução na Pós-Modernidade
Filosofia Pós- Moderna: Descartes. A Pós-Modernidade emerge como
a desconstrução de princípios, conceitos e
reação e crítica sistemas construídos na modernidade.
Vamos iniciar a aula explicando um pou-
co sobre a terminologia pós-moderna. Na Fi- A filosofia pós-moderna será ao
losofia contemporânea, surgiu o hábito de se mesmo tempo uma crítica ao humanis-
denominar de pós-modernas as ideias que se mo e uma crítica ao racionalismo. Esta
preocupavam em fazer críticas ao humanismo filosofia atinge seu ápice com Nietzs-
moderno, especialmente à Filosofia das Lu- che, o filósofo mais controverso e me-
zes, a partir de meados do século 19. nos entendido, que aprofunda o niilis-
mo que seria a expressão máxima de
negação e recusa a todas as crenças e
convicções tradicionais.

Humanismo é a filosofia baseada em


princípios estoicos, o qual propunha que o ho- Nietzsche: o pensador da
mem seja a medida para todas as coisas. Pós-Modernidade

Assim como a Filosofia das Luzes rom- Nietzsche


peu com as grandes cosmologias da Antigui-
dade e inaugurou uma crítica à religião, os
chamados pós-modernos atacam importan-
tes convicções representativas do século 17
ao 19: a primeira é "o homem como centro do
mundo", o princípio de todos os valores mo-
rais e políticos; a segunda é a que considera
a razão um formidável poder liberador e, com
isso, torna os homens mais livres e felizes.

Influente filósofo alemão do século


19, Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-
1900), filho de um pastor luterano, imagi-
nava que também seria um religioso como
seu pai, porém, na universidade, começou
a questionar sua criação concluindo que a
religião roubava das pessoas o desejo de
se superarem. Tornou-se um grande crí-
tico do cristianismo quando adulto, dizia
O Pós-Modernismo é um movimento fi- que a era cristã já tinha tido seus dias e
losófico relativamente recente e recebeu esse chegou a escrever sobre um profeta que
nome porque começou como uma reação con- anunciou: "Deus está morto."
tra a idade moderna da Filosofia, iniciada com
Filosofia 3 - Aula 3 28 Instituto Universal Brasileiro
Aos 24 anos, Nietzsche tornou-se pro- Filosofia Moderna x Filosofia
fessor e escreveu vários livros que aborda- Pós-Moderna
vam sobre como as pessoas deveriam tentar
alcançar seu potencial pleno. Acreditava que
as pessoas não eram iguais, que havia ho-
mens e super-homens e que esses seres "ele-
vados" eram a chave para o futuro. Para ele,
este super-homem era um amante da vida,
combinando força, intelecto e criatividade, e
que festejaria a possibilidade de repetir a vida
em detalhes.
Nietzsche já fazia a crítica à modernida-
de: o pensamento tradicional desde Aristóte-
les era totalizante e coerente com a realidade,
a verdade era procurada em um sistema lógi-
co e formal. Com Nietzsche há uma descons-
trução do modo de pensar tradicional. Desfa-
zendo a idéia de um pensamento sistemático, Uma característica da Filosofia mo-
ele fundamenta sua linguagem filosófica na derna foi a destituição do cosmos e o en-
vontade e a própria verdade é colocada em fraquecimento da autoridade religiosa,
questão. Agora a verdade não está mais pau- em um primeiro momento, substituindo-os
tada na razão, mas na vontade. pela razão, pela liberdade humana, pelo
ideal democrático e por valores morais hu-
manísticos a partir da dúvida radical. Des-
te modo, os filósofos liberaram um espírito
crítico que, uma vez posto em ação, jamais
poderia ser detido.
Heráclito & Nietzsche O mundo ideal, construído pelos filóso-
fos humanistas, foi vítima dos próprios princí-
O filósofo grego Heráclito de Éfe- pios nos quais repousava.
so (535 a.C. – 475 a.C.) foi o primeiro a A ciência moderna, fruto deste espírito
sugerir que nunca podemos ter conhe- crítico e da dúvida, não conseguiu destruir
cimentos que durem para sempre. Esse inteiramente uma estrutura religiosa funda-
pensamento tem sua síntese no conceito mental: a crença supersticiosa em forças do
filosófico “se tornar”, “vir a ser” ou “devir”. mal, no além e no paraíso, em oposição à
Acreditava que a única coisa que parece realidade terrestre, permanecia. E assim,
constante no universo é que tudo muda: segundo Nietzsche, os herdeiros das luzes
nada neste mundo é permanente, exceto continuavam a venerar quimeras, acreditan-
a mudança e a transformação. Nietzsche do em valores superiores à vida, e o real de-
rejeitava a ideia de uma verdade superior via ser moldado e transformado de acordo
e, concordando com Heráclito, acreditava com os ideais superiores.
que o mundo estava em constante mu- Para a Filosofia Pós-Moderna, o huma-
dança: o mundo real seria mera mentira nismo das luzes permanece prisioneiro das
e o mundo aparente seria o único mundo. estruturas essenciais da religião que tanto
Para Nietzsche, o conflito produz um “de- criticaram. Por este motivo, criticar estes hu-
vir”, porém o “devir” de Nietzsche, a partir manistas se fez necessário, desconstruindo,
de Heráclito, não se caracteriza como sín- com isso, a Filosofia Moderna, reiterando a
tese, mas provém da diferenciação e da crença no progresso, na difusão das ciên-
separação geradas na disputa. cias e das técnicas para a produção de dias
melhores.
Filosofia 3 - Aula 3 29 Instituto Universal Brasileiro
O pintor espanhol Pablo Picasso (1881-
Segundo Nietzsche, política e histó- 1973) e o compositor austríaco Arnold Schön-
ria deveriam se guiar por um ideal ou uto- berg (1874-1951), fundadores da arte contem-
pia, que permitiria tornar a humanidade porânea, estavam em sintonia com Nietzsche,
mais respeitosa em relação a si mesma. pois apresentaram, também, em seus quadros
e música, um mundo desestruturado, caótico,
fragmentado e despojado da bela unidade das
artes do passado. Nietzsche tentou passar es-
tas concepções em ideias.

Filósofos da suspeita

Os filósofos pós-modernos reafirma-


ram o espírito crítico, a dúvida e a razão
lúcida, ingredientes essenciais à Filoso-
fia, mas por lançar duras críticas a ele-
mentos importantes da cultura do mundo
ocidental serão chamados de "filósofos
da suspeita". Entre eles estão grandes
pensadores pós-modernos como Nietzs-
che, Marx e Freud. A designação foi dada
a esses pensadores que adotaram, como
princípio de análise, o pressentimento
de que há sempre, por trás das crenças
tradicionais, dos velhos e bons valores
que se dizem nobres, puros e transcen-
dentes, interesses escusos, escolhas in-
conscientes, verdades mais profundas e
inconfessáveis. O perfil “desconstrutivista”
de Nietzsche

Embora não se espere que todos


Ambiente pós-moderno & a
compartilhem das ideias de Nietzsche,
Filosofia de Nietzsche
podendo até mesmo detestá-las, um
O ambiente pós-moderno é caracteriza- fato, porém, é certo: depois dele, não po-
do pelo lado irreverente, por contestar os bons demos mais pensar como antes, e isso
sentimentos e valores burgueses, tão seguros é, sem dúvida, a incontestável marca do
de si e bem estabelecidos. Os vanguardistas gênio. Por conta desta filosofia irreveren-
se empenham em refutar tudo: a verdade cien- te, ele é conhecido como “o espancador
tífica, a razão, a moral de Kant, a democracia, do racionalismo”, alguém que passou a
o socialismo etc., empenhando-se em desven- vida dando surras nas ilusões da tradi-
dar o que se esconde por trás de tudo. ção filosófica, um "desconstrutivista". To-
davia, apesar de sua obra desconstruir
Vanguarda refere-se a uma parce- todas as ideias antigas, todos os "ídolos"
la de indivíduos que exerce papel pio- da metafísica tradicional, Nietzsche não
neiro entre outros do mesmo grupo. A desconstrói tudo pelo simples prazer de
Filosofia, mais que as artes, sempre es- negar ou destruir, mas para abrir espaço
teve à frente de seu tempo. a pensamentos novos, inéditos, radicais,

Filosofia 3 - Aula 3 30 Instituto Universal Brasileiro


niilismo, os valores tradicionais são depre-
que efetivamente irão modificar toda a ciados e os princípios e critérios absolutos,
filosofia de dentro para fora. Podemos di- disolvidos.
zer que Nietzsche é um desconstrutor por No nietzschianismo, niilismo seria a ne-
excelência, aquele que, como ele mesmo gação, o declínio ou a recusa de todas as cren-
se identifica, "filosofa a marteladas". ças e convicções em curso na história humana,
e especialmente na modernidade ocidental -
com seus respectivos valores morais, estéticos
Pontos fundamentais da "desconstrução"
ou políticos - que ofereçam um sentido consis-
tente e positivo para a experiência imediata da
vida. Portanto, uma rejeição radical às leis e às
instituições formais.

Nietzsche, está para a Filosofia,


como os vanguardistas para a história
da arte: foi o primeiro a levar até o fim a
lógica revolucionária da desconstrução
das tradições.

3. Mudança de toda a teoria

1. Espírito crítico Deste decorre o terceiro ponto, essen-


cial, que, sob as “marteladas” de Nietzsche,
Em relação à filosofia de Nietzsche, o pri- pede que se mude toda a teoria, de fio a
meiro ponto fundamental diz respeito ao espí- pavio. Segundo Nietzsche, trata-se de fazer
rito crítico que, no seu pensar, deveria voltar a genealogia.
a acontecer, criticando fatos como se fez an-
teriormente, denunciando a conservação de Genealogia é o estudo que esta-
um elemento fundamental da metafísica e da belece a origem de um indivíduo ou fa-
religião, ou seja, a estrutura do além oposto ao mília. Assim, Nietzsche queria desven-
aqui em baixo, à realidade. dar as realidades psíquicas e pulsionais
das nossas escolhas (origem), o que
Metafísica é parte da Filosofia que haveria por trás das nossas tendências
trata da natureza fundamental da reali- ao niilismo, das nossas crenças em al-
dade e do ser. gum ídolo.

Nietzsche acreditava que estes ideais Este ponto é identificado por Nietzsche
religiosos ou humanísticos não mudavam em como a arqueologia das ideias e dos valores
nada, que as religiões de salvação terrestre, e a descoberta do que nos move, do que,
ateias ou materialistas continuavam sendo re- material e inconscientemente, comanda as
ligiões que tentavam inventar um além melhor escolhas que fazemos.
que este mundo.
4. Materialismo total
2. Noção de niilismo
O último e quarto ponto referem-se
O segundo ponto diz respeito ao nii- ao materialismo também total. No livro O
lismo que para Nietzsche significa a nega- Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche diz que
ção. O sentido da palavra niilismo remete "todo juízo é um sintoma", uma emanação
à “redução a nada”, ao “aniquilamento to- da vida que faz parte da vida e nunca se
tal”. De acordo com o conceito filosófico de situa fora dela.
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"vida". Essas forças seriam de duas ordens:
forças reativas e forças ativas.

► Forças reativas

Tese central do pensamento As forças reativas, no plano intelectual,


de Nietzsche seriam aquelas responsáveis pela "vontade de
verdade", a procura pela verdade que brota do
Não existe nada fora da realidade choque das opiniões contraditórias, ou melhor,
da vida, nem acima nem abaixo, nem no que se obtém por eliminação ou refutação do
céu nem no inferno, e todos os célebres erro. Essas forças só podem se expandir no
ideais da política, da moral e da religião mundo reprimindo e aniquilando outras forças
são apenas "ídolos", inchados metafísi- pela busca da verdade; são elas que animam
cos, ficções, que não visam a nada, a não as ciências e a Filosofia clássica.
ser fugir da vida, antes de se voltar con-
tra ela. Para Nietzsche, a Filosofia deve
trazer à tona a origem escondida dos va-
lores e das ideias que se acreditam imutá-
veis, sagradas, vindas do céu para, então,
devolvê-los à Terra e desvendar o modo Existe, ainda, um vínculo entre a
como foram inventados. ciência e a democracia (política), pois as
verdades a que a ciência pretende che-
gar, por eliminação da mentira e da má-
O mundo segundo Nietzsche fé, devem valer para todos os homens,
Segundo Nietzsche, todo filósofo deve em todos os tempos e lugares.
tentar compreender o real que nos cerca,
apreender a natureza profunda desse mun- ► Forças ativas
do em que, mesmo caótico, temos de apren-
der a nos situar. As forças ativas se instalam no mundo
sem a necessidade de alterar ou reprimir ou-
tras forças. Elas pertencem ao domínio da arte
podendo se espalhar pelo mundo e nele produ-
zir todos seus efeitos sem negar outras forças.
Os artistas seriam um modelo destas forças,
pois colocam valores sem discutir, sem a ne-
cessidade de refutar qualquer coisa, sem pre-
cisar argumentar ou destruir. O artista anuncia
valores sem discutir, abre perspectivas de vida,
inventa mundos novos sem a necessidade de
demonstrar a legitimidade do que propõe.

Campo de energia com forças


reativas e ativas
Explicando melhor e na prática, pode-
Para ele, o mundo orgânico, ou inor- mos gostar de arte clássica e de arte mo-
gânico, é um vasto campo de energia, de derna sem nenhuma contradição. Porém,
pulsões, um tecido de forças contraditórias quanto às ideias de Galileu e Prometeu,
que é o universo, o real, e que ele chama de
Filosofia 3 - Aula 3 32 Instituto Universal Brasileiro
Essa conciliação é o novo ideal aceitável
ao afirmarmos a verdade de Galileu, te- porque não é exterior à vida, mas sustentado
mos de descartar a verdade de Prometeu; por ela. Por meio da harmonização e hierar-
a aceitação de uma verdade inevitavel- quização de todas as forças, mesmo as reati-
mente lança no vazio os erros da outra. vas, o poder desabrocha, e a vida deixa de ser
Por esse motivo, o artista seria um aris- enfraquecida ou diminuída.
tocrata, um ser que comanda com autori- É este grande estilo, ou grandeza, que
dade e não um democrata, cuja verdade constitui a moral nietzschiana, que deve guiar
deve valer para todos. as pessoas na procura de uma vida boa, pois
só ela possibilita integrar as forças nas pes-
Tentando amenizar o conflito entre soas, autorizando-as a levar uma vida mais
essas forças, Nietzsche diz que "o autên- intensa, mais rica em diversidade e mais po-
tico sábio é aquele que consegue pôr fim derosa, aquilo que ele chama de "vontade de
aos conflitos interiores que se esgotam e poder", já que é mais harmoniosa.
enfraquecem para, hierarquizando dentro
de si as forças, alcançar a serenidade".

"Grande estilo": a moral de Nietzsche Vontade de poder e moral da grandeza


O mundo não seria uma ordem, como pen-
Para Nietzsche, "vontade de poder" é a
savam os antigos, nem constituído pela vontade
vontade da vontade, é aquela que quer evitar
dos homens como pensavam os modernos, mas dilaceramentos internos que aniquilam as pes-
um caos, uma pluralidade irredutível de forças, soas, fazendo-as se diminuir, pois as forças se
de instintos e de pulsões que vivem em confron- anulam umas às outras. Não significa em nada
to, nos ameaçando dentro e fora de nós. É no vontade de conquistar mais dinheiro ou poder,
conflito que a vida definha, tornando-se menos mas o desejo de uma vida intensa, que quer sua
livre, menos alegre e menos poderosa. própria força, já que os dilaceramentos esgotam
as pessoas, tornando-as pesadas. Nessa moral
“Grande estilo”: harmonia de da grandeza, é a intensidade que tem primazia,
forças cooperativas é a vontade de poder que se sobrepõe a qual-
quer outra consideração, o que significa que há
valores para o imoralista. "Nada na vida vale
mais do que o grau de poder!", diz Nietzsche.

Um novo pensar sobre a salvação


Nietzsche criticava a ideia de qualquer
doutrina da salvação que justifique a vida, dan-
do-lhe um sentido ou salvando-a da imortalida-
de através de um "além ideal", um Deus ou o
nirvana. Ele diz que elas ensinam a desprezar
a vida como uma passagem e a cobiçar outra
Apesar de se apresentar como "imoralis- vida, prometida como melhor e ideal, além de
ta", Nietzsche procurava fazer uma distinção propor que é aqui e agora, no plano terrestre,
entre formas de vida ruins, malsãs, e formas que se deve saber separar as formas de vida
de vida boas, mais generosas. Ele chamava de frustradas, medíocres e reativas das formas
"grande estilo" esta harmonia das forças que intensas, grandiosas, ricas em diversidades; o
cooperam entre si ao invés de se mutilarem e que vale ser vivido e o que merece ser vivido
bloquearem reciprocamente. encontra-se nesta vida.
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em proveito da lógica da vontade de po-
der. É estudar aquele que destruiu in-
tegralmente a ideia de que haveria, na
existência humana, um sentido a bus-
car, objetivos a perseguir, enfim, uma
finalidade. Nietzsche abre caminho para
os grandes materialismos do século 20
que, mesmo apresentando os mesmos
defeitos do modelo de origem, também
influenciarão a posteridade.

Eterno retorno. Para resolver a


questão do que vale a pena ser vivido e
o que é medíocre, ele criou a doutrina Marilena Chauí expões suas ideias
do eterno retorno que consiste em se sobre a Pós-Modernidade
perguntar: "Tenho certeza de que desejo
fazer isto infinitas vezes?". "Viva de for- Poder-se-ia imaginar o Pós-Mo-
ma a ter de desejar reviver - é o dever dernismo como uma nova expressão
- pois em todo caso você reviverá". cultural para além do Modernismo. Isso
seria verdade se as condições objetivas
Doutrina do amor fati tivessem desaparecido. Mas essas con-
dições objetivas são as condições ob-
É a noção de eternidade que nos mos- jetivas do sistema capitalista, que está
tra o caminho e, para se chegar a ela, é pre- aqui. E a minha tendência, que não tem
ciso ter fé e cultivar o amor. Nesta doutrina originalidade nenhuma pois é uma ten-
do amor fati, “amor do que é no presente”, fu- dência que eu compartilho com outros
gindo do peso do passado e das promessas autores, é de considerar que o Pós-Mo-
do futuro, deve-se viver todo o real (presen- dernismo é uma variante desencantada
te) como se a cada instante ele fosse a eter- do Modernismo e que exprime a crise
nidade. Assim, o passado e o futuro perderão atual do capitalismo. Então, eu não vejo
a capacidade de nos culpar por não agir de uma originalidade no Pós-Modernismo.
outro modo, emancipando-nos dos remorsos É uma posição reativa. O que ele pro-
e dos arrependimentos do passado, das dú- põe é a negação imediata e simples de
vidas e hesitações do futuro, que enfraque- categorias, normas e valores que foram
cem nossas forças vitais. Somente o sábio defendidos pelo Modernismo.
que pratica ao mesmo tempo o grande estilo Em parte o Pós-Modernismo tem
e segue os princípios do eterno retorno po- toda a razão, pois percebe o lado
derá alcançar a verdadeira serenidade, que opressivo, repressivo, instrumental e
Nietzsche chama de "inocência do devir"; as- de exacerbação na admiração exis-
sim, salvo do medo da morte. tente na concepção modernista. Mas
não propõe algo novo, o que propõe é
Estudar Nietzsche é acompanhar o simplesmente essa negação imediata
nascimento de um mundo novo onde as das categorias modernistas. Eu acho
noções de sentido e ideal vão desaparecer que não é casual o uso das palavras

Filosofia 3 - Aula 3 34 Instituto Universal Brasileiro


negativas pelo Pós-Modernismo. Des-
centramento, descontinuidade, des- 19, Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-
construção, diferença, ou sejam ele 1900) tornou-se um grande crítico do
toma ainda como referencial e como pa- cristianismo, dizia que a era cristã já
râmetro as categorias modernistas. [...] tinha tido seus dias e chegou a escre-
Vejo o Pós-Modernismo como uma críti- ver sobre um profeta que anunciou:
ca justificada do lado sombrio do moder- "Deus está morto."
nismo, mas ao mesmo tempo como uma
atitude reativa.

Trecho adaptado de Entrevistas marcantes:


Marilena Chauí e a Filosofia. Disponível em: http://
www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmacha-
do/?p=4176. Acesso em: 20.10.2014.

A desconstrução na Pós-modernidade

Filosofia pós- moderna: reação e crítica

O pós-modernismo é um movimento
filosófico relativamente recente e recebeu Filosofia moderna x Filosofia
esse nome porque começou como uma Pós-Moderna
reação contra a idade moderna da Filoso-
fia, iniciada com Descartes. Para a Filosofia Pós-moderna, o
humanismo das luzes permanece pri-
A filosofia pós-moderna será sioneiro das estruturas essenciais da
ao mesmo tempo uma crítica ao hu- religião que tanto criticaram. Por este
manismo e uma crítica ao raciona- motivo, criticar estes humanistas se
lismo. Esta filosofia atinge seu ápi- fez necessário, desconstruindo, com
ce com Nietzsche, o filósofo mais isso, a Filosofia Moderna, reiterando
controverso e menos entendido, a crença no progresso, na difusão das
que aprofunda o niilismo que seria ciências e das técnicas para a produ-
a expressão máxima de negação e ção de dias melhores.
recusa a todas as crenças e convic-
ções tradicionais. Ambiente pós-moderno &
Filosofia de Nietzsche

O ambiente pós-moderno é carac-


Nietzsche: o pensador da terizado pelo lado irreverente, por con-
pós-modernidade testar os bons sentimentos e valores
burgueses, tão seguros de si e bem es-
Influente filósofo alemão do século tabelecidos. Os vanguardistas se empe-
nham em refutar tudo.

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O mundo segundo Nietzsche
O perfil “desconstrutivista”
de Nietzsche Campo de energia com forças
reativas e ativas
Por conta de sua filosofia ir-
reverente, Nietzsche é conhecido ► Forças reativas.
como “o espancador do raciona-
lismo”, alguém que passou a vida Seriam aquelas responsáveis pela
dando surras nas ilusões da tra- "vontade de verdade", a procura pela ver-
dição filosófica, um "desconstru- dade que brota do choque das opiniões
tivista". Todavia, apesar de sua contraditórias, ou melhor, que se obtém
obra desconstruir todas as ideias por eliminação ou refutação do erro.
antigas, todos os "ídolos" da me-
tafísica tradicional, Nietzsche não ► Forças ativas.
desconstrói tudo pelo simples pra-
zer de negar ou destruir, mas para Instalam-se no mundo sem a neces-
abrir espaço a pensamentos novos, sidade de alterar ou reprimir outras forças.
inéditos, radicais, que efetivamen- Elas pertencem ao domínio da arte poden-
te irão modificar toda a filosofia de do se espalhar pelo mundo e nele produzir
dentro para fora. todos seus efeitos sem negar outras forças.

"Grande estilo": a moral de Nietzsche


Pontos fundamentais da "des-
construção": “Grande estilo”: harmonia de forças
cooperativas entre si ao invés de se mu-
Espírito crítico, noção de niilismo, mu- tilarem e bloquearem reciprocamente.
dança de toda a teoria, materialismo total. É este grande estilo, ou grandeza, que
constitui a moral nietzschiana.

Tese central do pensamento Um novo pensar sobre a salvação


de Nietzsche
Nietzsche criticava a ideia de qual-
Não existe nada fora da reali- quer doutrina da salvação que justifique
dade da vida, nem acima nem abai- a vida, dando-lhe um sentido ou salvan-
xo, nem no céu nem no inferno, e do-a da imortalidade através de um "além
todos os célebres ideais da política, ideal", um Deus ou o nirvana.
da moral e da religião são apenas
"ídolos", inchados metafísicos, fic- Doutrina do amor fati
ções, que não visam a nada, a não
ser fugir da vida, antes de se voltar É a noção de eternidade que nos
contra ela. Para Nietzsche, a Filo- mostra o caminho e, para se chegar a ela,
sofia deve trazer à tona a origem é preciso ter fé e cultivar o amor. Nesta
escondida dos valores e das ideias doutrina do amor fati, “amor do que é no
que se acreditam imutáveis, sa- presente”, fugindo do peso do passado e
gradas, vindas do céu para, então, das promessas do futuro, deve-se viver
devolvê-los à Terra e desvendar o todo o real (presente) como se a cada
modo como foram inventados. instante ele fosse a eternidade.

Filosofia 3 - Aula 3 36 Instituto Universal Brasileiro


a) ( ) Todas estão corretas.
b) ( ) I e III estão corretas.
c) ( ) I e II estão corretas.
d) ( ) II e III estão corretas.
1. Assinale a afirmação incorreta em 4. Muitos pensadores relacionam o filó-
relação ao pensamento pós-moderno. sofo pós-moderno Nietzsche e o filósofo gre-
go Heráclito, a partir do conceito de “vir a ser”.
a) ( ) A experiência da pós-modernida- Coloque (V) para verdadeiro e (F) para falso,
de decorreria da perda das crenças em visões para as afirmativas. Em seguida, assinale a
totalizantes da história, que prescreviam re- alternativa correta.
gras de conduta política e ética para toda a
humanidade. ( ) O conceito filosófico do “devir” ou
b) ( ) Na Filosofia contemporânea, sur- “vir a ser” tem o sentido amplo de movimen-
giu o hábito de se denominar de pós-moder- to, mudança e transformação constantes.
nas as ideias que se preocupavam em fazer ( ) Para Heráclito a verdade do ser é o
críticas ao humanismo moderno. “devir”. E as transformações estão diretamen-
c) ( ) Movimento filosófico relativamen- te ligadas à questão da identidade do ser.
te recente e recebeu o nome de pós-moderno ( ) Para Nietzsche, o “devir” pre-
porque começou como uma reação contra a conizado a partir de Heráclito, provém da
idade moderna da Filosofia, iniciada com Des- diferenciação e da separação geradas no
cartes. conflito.
d) ( ) Os chamados pós-modernos
apoiam as convicções da Época da Luzes, em a) ( ) F – V – V
que o homem é o centro do mundo e o princí- b) ( ) V – V – F
pio dos valores morais e políticos. c) ( ) V – V – V
d) ( ) F – V – F
2. Assinale a alternativa que identifica
os pontos marcantes do pensamento do filó- 5. O mundo, segundo Nietzsche, seria
sofo alemão Nietzsche: um vasto campo de energia, um tecido de for-
ças contraditórias que constituem o universo
a) ( ) a crítica e o niilismo. ou mundo real. Essas forças seriam de duas
b) ( ) a fé e o raciocínio lógico. ordens: forças reativas e forças ativas. Rela-
c) ( ) a razão e o consenso. cione as explicações abaixo às duas forças
d) ( ) o conflito e a reflexão. citadas, colocando (R) para forças reativas e
(A) para forças ativas. Depois, assinale a al-
3. Assinale as características que cor- ternativa correta.
respondem ao ambiente pós-moderno. Em
seguida, escolha a alternativa correspon- ( ) Pertencem ao domínio das artes.
dente. ( ) São responsáveis pela “vontade de
verdade”.
I - ( ) Contestação dos bons senti- ( ) Produzem seus efeitos sem negar
mentos e dos valores burgueses. outras forças.
( ) Expandem-se reprimindo e aniqui-
II - ( ) Reafirmação das crenças e lando outras forças.
dos valores modernos.
a) ( ) A – A – R - R
III - ( ) Postura irreverente, com pro- b) ( ) R – A – A - R
postas de vanguarda. c) ( ) A – R – A - R
d) ( ) R – A – R – A
Filosofia 3 - Aula 3 37 Instituto Universal Brasileiro
res burgueses e a postura irreverente, com pro-
postas de vanguarda, no sentido de exercer um
papel pioneiro no desenvolvimento de técnicas,
ideias e conceitos novos, avançados. Pode-se
dizer que a Filosofia, mais que as Artes, sempre
1. d) ( x ) Os chamados pós-modernos esteve à frente de seu tempo, considerando-se
apoiam as convicções da Época da Luzes, sua dimensão de investigação teórica do ser por
em que o homem seria o centro do mundo e meio da reflexão.
o princípio dos valores morais e políticos.
4. c) ( x ) V – V – V
Comentário. A única alternativa incorreta
é a d, pois os chamados pós-modernos, além de Comentário. Todas as afirmativas estão
não apoiarem, faziam duras críticas ao humanis- corretas. A conceituação filosófica do “devir” ou
mo moderno, especialmente à Época das Luzes. “vir a ser”, em sentido amplo, inclui a significa-
Assim como a Filosofia das Luzes rompeu com as ção de movimento, mudança e transformação
grandes cosmologias da Antiguidade e inaugurou constantes. Heráclito, na tradição filosófica, ficou
uma crítica à religião, os chamados pós-modernos conhecido como o pensador da mudança. A intui-
atacam importantes convicções do século 17 ao ção de Heráclito pode ser resumida na fórmula: a
19: a primeira é a que o homem seria o centro do verdade do ser é o devir. Segundo o filósofo gre-
mundo, o princípio de todos os valores morais e go, as transformações que se originam a partir
políticos; a segunda é a que considera a razão um de cada movimento estão diretamente ligadas à
formidável poder liberador e, com isso, torna os questão da identidade do ser. Por meio das trans-
homens mais livres e felizes. formações, que fazem parte da natureza huma-
na e que constituem o fluir do mundo, chega-se
2. a) ( x ) a crítica e o niilismo. a um conhecimento maior sobre o ser humano.
Heráclito de Éfeso teve forte influência na filoso-
Comentário. A alternativa a indica os pon- fia nietzschiana, mas para Nitzsche, é o conflito
tos mais marcantes do pensamento do filósofo que produz o “devir”. Para o filósofo pós-moder-
Nietzsche. A Filosofia pós-moderna atinge seu no, é pela luta entre forças opostas que o mundo
ápice com Nietzsche, o filósofo mais controverso, se modifica e evolui. Para alguns estudiosos, a
que aprofunda o niilismo como expressão máxima filosofia de Nietzsche pode ser considerada uma
de negação. No nietzschianismo, o niilismo ex- reflexão do conflito como conceito afirmativo.
pressa a recusa de todas as crenças e convicções
em curso na história humana, e especialmente na 5. c) ( x ) A – R – A – R
modernidade ocidental — com seus respectivos
valores morais, estéticos ou políticos — que ofere- Comentário. A alternativa c apresenta a
çam um sentido consistente e positivo para a ex- ordem correta das afirmativas. As forças que se
periência imediata da vida. Portanto, uma rejeição referem ao domínio das artes e que produzem
radical às leis e às instituições formais. seus efeitos sem negar outras forças são as ati-
vas, portanto A. As forças ativas se instalam no
3. b) ( x ) I e III estão corretas. mundo sem a necessidade de alterar ou reprimir
outras forças, pois o artista abre perspectivas de
Comentário. A afirmativa II está incorre- vida e inventa mundos novos sem a necessidade
ta: ao contrário, no ambiente pós-moderno, ocorre de demonstrar a legitimidade do que propõe. Já as
a negação das crenças e dos valores modernos. forças reativas R são responsáveis pela “vontade
O prefixo “pós” acrescenta o sentido de ruptura de verdade”; uma verdade que brota do choque
com as práticas do modernismo e de liberdade de opiniões contraditórias. Essas forças reativas
de pensamento que se reflete no aspecto formal. só podem se expandir no mundo reprimindo e ani-
São características do ambiente pós-moderno a quilando outras forças pela busca da verdade; são
contestação dos bons sentimentos e dos valo- elas que animam as ciências e a Filosofia clássica.
Filosofia 3 - Aula 3 38 Instituto Universal Brasileiro