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AULA 4 Tendências da Filosofia Contemporânea

É chamada Filosofia Contemporânea aquela que atravessou o século 20 e


avançou até o século 21. Portanto, não existe o distanciamento que é ne-
cessário para reconhecer com clareza seus parâmetros exatos, mas é pos-
sível refletir sobre seus fundamentos e seus desdobramentos.

A Filosofia Contemporânea fundamenta-se em conceitos


do século 19 que se desenvolveram ao longo dos séculos 20 e 21

Filosofia Contemporânea: fundamentos e desdobramentos

Alguns dos conceitos que fundamentam a Filosofia Contemporânea foram elaborados no sé-
culo 19: o conceito de história formulado por Hegel e a noção de processo histórico; o desenvolvi-
mento do conceito de humanismo articulado principalmente por Augusto Comte; as utopias políticas
como o anarquismo, o socialismo, o comunismo, associadas ao desenvolvimento como caminho
para uma sociedade mais justa; a confiança no saber científico.
No século 20, foram inúmeros os desdobramentos em teorias que se multiplicam. Dentre es-
sas se destacam: a noção de progresso descontínuo com a consciência de que cada sociedade
tem sua própria história e valores; o questionamento do alcance dos conhecimentos científicos; no
campo político, Marx e a noção de ideologia; no campo da psique, Freud e a noção de inconsciente;
a teoria crítica elaborada por um grupo de alemães; o existencialismo de Sartre; a fenomenologia de
Husserl que serve de base para os estudos de Heidgger; a filosofia analítica, em que a linguagem
é abordada por Wittgenstein e Bertrand Russel. No século 21, Habermas que se evidencia com a
racionalidade comunicativa.

Filosofia 3 - Aula 4 39 Instituto Universal Brasileiro


Tendências da Filosofia Contemporânea
para os grandes materialistas do século 20,
Filosofia Contemporânea: se significaria, esse fato, entregar o mun-
teorias e conceitos básicos do contemporâneo ao puro cinismo, às leis
cegas do mercado e da competição globa-
lizada.
Muitos questionamentos surgiram como:
"Por que desejar ir mais longe e não se con-
tentar em, simplesmente, desenvolver seus
pontos de vista, ou voltar à Filosofia das Lu-
zes, à república, aos direitos dos homens"?
Mas retroceder parece impossível após todas
as revelações feitas por Nietzsche. Isto seria
desdenhar o tempo que ficou para trás, como
se ele fosse vazio; significaria não perceber
que os problemas a serem resolvidos não são
mais os mesmos do século passado.
Com o passar do tempo, as pessoas
mudaram, as relações delas com as autori-
dades e o modo de consumo mudaram, as
minorias étnicas, os jovens e as mulheres
passaram a atuar na vida pública, direitos
foram conquistados, e fechar os olhos a
Aspectos da Filosofia na
isso é impossível. Analisar as possibilida-
contemporaneidade
des nos permite conhecer e refletir antes
Ao falarmos da Filosofia Contemporâ- de escolher.
nea, enfrentamos alguns problemas devido
à proximidade dos acontecimentos, à dificul- Hoje nos encontramos no meio de
dade de se ter um distanciamento e a uma uma encruzilhada: ou continuamos pelo
imparcialidade, adequados à análise. caminho aberto pelos fundadores da des-
Seria uma ilusão imaginar o significa- construção, Nietzsche e seus discípulos
do das mudanças contemporâneas em todos Marx e Freud, ou retomamos o caminho
seus detalhes, dada a proximidade dos fatos. da procura.
Na melhor das hipóteses, pode-se esperar vi-
sualizar algumas tendências gerais, talvez vin-
culadas a acontecimentos anteriores.
Desdobramentos da desconstrução
É possível de se ver, no passado, as fases Nietzsche não foi o único genealogista,
do desenvolvimento em sua plenitude; o presen- desconstrutor e demolidor de ídolos. Marx,
te, porém, está próximo demais para nos permitir Freud e outros milhares de filósofos da sus-
compreender os diversos aspectos do processo peita, bem como a vasta corrente das ciências
com a mesma confiança.
humanas, deram continuidade à obra de des-
construção dos grandes materialistas. Inúme-
ros discípulos tentaram desvendar o que há
Questões fundamentais
por trás de nossa crença nos ídolos, as lógi-
Assim, questiona-se, após ler sobre cas escondidas, inconscientes, que determi-
Nietzsche e sua filosofia que abriram caminho nam nossas vontades.
Filosofia 3 - Aula 4 40 Instituto Universal Brasileiro
Mundo da técnica X Declínio dos ideais

O tremendo crescimento da capacidade


técnica tornou a vida muito mais intrincada
do que costumava ser; as demandas, mais
variadas; e as exigências mais complexas,
afetando, com isso, a esfera intelectual.
O domínio da técnica, que caracteriza
o mundo contemporâneo e resultado do pro-
cesso da ciência do século 17, abrange, aos
poucos, todos os campos da vida democráti-
ca. Com isso, o homem perdeu quase todo o
controle sobre o desenvolvimento do mundo,
bem como na democracia que tanto prometia
a sua participação na construção coletiva de
um universo mais livre e justo. Eis aí a gran-
de traição das promessas do humanismo.

Althusser, Lacan, Foucault, Deleu- No "mundo da técnica", como Hei-


ze e Derrida são exemplos de filósofos degger denomina o mundo no qual vivemos,
da suspeita, cada um numa determina- é a técnica quem prevalece.
da área. Marx, por exemplo, na econo-
mia das relações sociais; Freud, para Devemos lembrar que técnica significa o
a linguagem das pulsões ocultas do in- conjunto dos meios necessários para se rea-
consciente; e Nietzsche, para o niilismo lizar um fim determinado, representando um
e a vitória das forças reativas sob todas instrumento que se põe a serviço de todos os
as formas. objetivos, nos dizendo como realizar, do me-
lhor modo, um objetivo. A técnica, contudo,
A Filosofia contemporânea continuou a nunca estabelece o objetivo por si mesma.
operar no estilo de filosofia inaugurada por O essencial, no mundo da técnica,
Nietzsche, principalmente nos Estados Uni- deixou de ser o domínio da natureza ou da
dos e em menor escala na França. No en- sociedade para ser mais livre e feliz, con-
tanto, questionar o interminável processo trariando, assim, a Filosofia do século 17 e
contra os ídolos do humanismo, em nome da a das Luzes que visavam à felicidade e à
lucidez e do espírito crítico, não era proibido. emancipação dos homens.
De tanto desqualificar os ídolos e de aceitar A técnica, desprovida de objetivos,
a filosofia do martelo como ideal, a Filosofia transformou-se em um processo sem propó-
acabou se curvando diante do real, do jeito sito, numa fábrica de homens que produzem
que ele é e, consequentemente, a uma sa- movidos pela competição e concorrência do
cralização do mundo tal como ele é. mundo globalizado, sem consciência, sem
A desconstrução, com sua tentativa um projeto coletivo ou ideal comum.
de liberar os espíritos e acabar com as tra- Percebe-se, com isso, o direcionamen-
dições, tornou-se, contra sua vontade, um to da ação das sociedades que se encon-
servilismo à realidade do universo da globa- tram animadas integralmente pela compe-
lização no qual estamos mergulhados. Ou tição, pela obrigação absoluta de progredir
defendemos o amor ao presente pela morte ou desaparecer. Esse é o novo imperativo
dos ideais superiores, como Nietzsche, ou absoluto vital. O progresso não tem outro
lamentamos pelo desaparecimento das uto- fim senão se manter no páreo com os ou-
pias e pela dureza do capitalismo triunfante. tros, na concorrência, interligando o desen-
Filosofia 3 - Aula 4 41 Instituto Universal Brasileiro
volvimento técnico ao crescimento econômi- aqueles que não creem, que não querem
co, aumentando o poder dos homens sobre se contentar com a ideia de se retroceder
o mundo de modo incontrolável e cego. a uma situação anterior, nem se fechar no
A diferença entre o século das Luzes, pensamento às marteladas, é preciso acei-
do racionalismo moderno que libertou o tar o desafio de uma sabedoria ou espiri-
homem das servidões naturais, e o mundo tualidade pós-nietzschianas.
contemporâneo, em que a técnica impera,
é a falta de certeza de que o progresso e as Pode-se até declarar que a Fi-
evoluções possam conduzir o homem para losofia morreu e foi substituída pelas
o melhor. Surge, entre os homens, o senti- ciências humanas, porém não se pode
mento da dúvida, e, mesmo a contragosto, mais filosofar preso à dinâmica da des-
a nostalgia de um passado recente e irre- construção sem considerar a questão
mediavelmente perdido. da salvação.

Filosofia Contemporânea - um novo projeto Nesse novo projeto, procura-se pensar


sobre as bases de um humanismo agora livre
dos ídolos da metafísica moderna, refletindo
a teoria, a moral e a problemática da salva-
ção, ou o que poderia ocupar seu lugar, após
a fase da desconstrução.

Materialismo X Humanismo
pós-nietzschiano
Materialismo é a ideia de que a maté-
ria é a única substância que existe e que a
mente não pode existir independentemente
da matéria. O materialismo contemporâ-
neo, mesmo possuindo elementos verda-
deiros e estimulantes para a reflexão, não
conseguiu coerência suficiente para acabar
com o humanismo.

Apesar de todas as mudanças, tanto O novo humanismo surge gra-


no campo filosófico quanto nos demais cam- ças ao fracasso do materialismo con-
pos, a reflexão crítica continua sendo uma temporâneo, cuja doutrina da salva-
qualidade indispensável e uma exigência no ção retoma a ideia grega carpe diem
universo das ciências humanas, e não ape- (aproveita o dia de hoje, ou seja, só
nas um privilégio da Filosofia. vale a pena viver a vida que se situa
Muitos continuam com os debates pu- no presente, no aqui e agora). O hu-
ramente filosóficos, tentando restaurar as manismo pós-nietzschiano, em oposi-
antigas questões sem que haja qualquer ção ao materialismo, reabilita a noção
sentido na tentativa de se retroceder. No en- de transcendência, dando-lhe um novo
tanto, depois da fase da desconstrução e à significado no plano teórico.
margem da Filosofia erudita, a Filosofia se
lança a novos horizontes, tentando susten- O humanismo contemporâneo, ao con-
tar a interrogação não apenas sobre a teoria trário do materialismo, vai fazer de tudo
e a moral, mas também sobre a salvação, para refletir sobre o significado de suas pró-
renovando-a totalmente. prias afirmações, para criticá-las, avaliá-las
Numa linguagem mais fácil, mesmo e tomar consciência delas. O espírito crítico,
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característico da Filosofia moderna (Descar- Fenomenologia
tes), vai aplicar-se a si mesmo, finalmente; e
não apenas aos outros.
A autocrítica e autorreflexão caracte-
rizam o humanismo contemporâneo e pós-
nietzschiano, principalmente após a segun-
da metade do século 20, quando a ciência
começa a aplicar a si mesma os princípios
de espírito crítico e da reflexão, questionan-
do-se sobre os resultados de suas desco-
bertas, sobre a vida do homem, sobre as
consequências da guerra etc.

Edmund Husserl (1859-1938), fi-


lósofo alemão, foi o fundador da feno-
menologia, estudo de como as coisas
Humanismo e suas vertentes aparecem, em oposição a como pen-
mais significativas samos que aparecem. O filósofo ale-
mão estudou a mente em si e os even-
Como o nome indica, os adeptos tos que a mente percebe. Dizia que a
do humanismo são mais empiristas e mente pode pensar em coisas que não
menos espirituais, reafirmando a dig- existem e, como exemplo, mostrava um
nidade do ser humano, recusando ex- cubo, ou uma caixa de fósforo, dizen-
plicações transcendentais e preferindo do que, de onde quer que se olhasse,
o racionalismo. Há várias vertentes do só se poderia ver três faces ao mesmo
pensamento humanista: humanismo tempo, embora o objeto tivesse seis. No
renascentista que propõe a ideia de plano filosófico, isto significa que não
o homem ser o centro do pensamento há saber absoluto, pois o visível (as
filosófico, denominado antropocentris- três faces vistas) se mostra sobre um
mo; humanismo marxista, linha in- fundo invisível (as faces escondidas).
terpretativa de textos de Marx; huma-
nismo positivista do filósofo Augusto Em Husserl o fenômeno é o que está
Comte, intimamente ligado ao cienti- presente à consciência de forma pura, e a
ficismo contemporâneo, que reafirma fenomenologia é o modo através do qual
a moral e rejeita o transcendente; hu- atingimos a essência do fenômeno, que
manismo contemporâneo que tem é o próprio conteúdo intencional da cons-
inúmeros pensadores como o filósofo ciência.
francês de origem judaica Emmanuel Para Husserl, a fenomenologia não
Lévinas (1906-1995) para quem o con- pressupõe nada, nem o mundo natural,
ceito de Ética coincide com a definição nem o senso comum, nem as proposições
de humanismo e se refere à “relação da ciência, nem as experiências psíquicas;
de responsabilidade do eu para com ela se coloca antes de todo julgamento e
outrem”; ou o francês Luc Ferry (1951), de toda crença para explorar simplesmen-
um dos mais representativos defenso- te o “dado”.
res do chamado humanismo secular, O projeto é o de captar as coisas na
visão de mundo que se contrapõe à sua origem, antes de toda dedução e cons-
religião e se fundamenta na razão, na trução. Neste sentido, a fenomenologia de
ética e na justiça. Husserl pode ser entendida como antiespe-
culativa e antimetafísica.
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da técnica e dirige suas críticas aos rituais
do liberalismo e do capitalismo.
O vínculo estabelecido por Heidegger
entre história, verdade, política e arte marca
seu afastamento em relação às abordagens
filosóficas que conceberam a arte como um
domínio específico de produção, reflexão e
fruição, o domínio estético. Na contramão
da tradição, Heidegger pensa a obra de arte
como acontecimento histórico da verdade
essencial, como a instituição de algo novo,
marcado pela ruptura e abertura. Portanto,
uma oferta do ser, e não simplesmente o re-
Martin Heidegger (1889-1976) sultado da ação criativa do artista.
foi um influente filósofo alemão con-
temporâneo. O pensamento filosófico
de Martin Heidegger desvela que a Filosofia analítica
essência do homem e seu significado A Filosofia analítica é uma vertente do
existencial dependem de sua relação pensamento contemporâneo, desenvolvida
com o ser, não de algum tipo de racio- por filósofos bastante diferentes, cujo ponto co-
nalidade. Por meio da Fenomenologia, mum é a ideia de que a filosofia é análise do
Heidegger foi conduzido a refletir a significado dos enunciados, e se concentra na
respeito da questão fundamental, isto pesquisa sobre a linguagem.
é, a problemática do Ser.

Heidegger fez adaptações da Fenome-


nologia, necessárias para a análise das temá-
ticas existenciais. Ele percebeu, no método
fenomenológico, a possibilidade de uma des-
crição dos mais variados aspectos da existên-
cia. Portanto, ao mesmo tempo, a Fenomeno-
logia de Husserl influenciou o pensamento de
Heidegger, e também sofreu influências.
Em sua obra Os conceitos fundamen-
tais da metafísica: mundo, finitude, solidão,
Heidegger apresenta a desconstrução da me-
tafísica tradicional e desenvolve uma nova Ludwig Wittgenstein (1889-1951),
concepção: a metafísica, em Heidegger, não filósofo austríaco, naturalizado britânico,
é uma disciplina ou um saber determinado foi um dos principais autores da filosofia do
convencionalmente, mas pertence à própria século 20. Suas principais contribuições fo-
natureza do homem; pode ser definida como ram feitas nos campos da lógica e filosofia
a metafísica da subjetividade. da linguagem. A obra Tractatus Logico-Phi-
Além disso, Heidegger consegue esta- losophicus (1921) objetiva explicar como a
belecer um vínculo profundo da filosofia com linguagem consegue representar o mun-
a arte e a política. Portanto, conhecer o pen- do; a linguagem e os seus limites é o tema
samento de Heidegger implica em conhecer central desse Tratado. Na obra publicada
a relação entre a política e a verdade, per- após sua morte, Investigações filosóficas
mite compreender a paisagem econômica, (1953), enfatiza que a linguagem expressa
política e cultural que nos cerca. O filósofo o real em suas funções práticas.
alemão denomina o mundo atual de mundo
Filosofia 3 - Aula 4 44 Instituto Universal Brasileiro
Segundo Wittgenstein, a linguagem
seria um aglomerado de "linguagens" e
para esclarecer esse ponto, ele traça uma
analogia entre a noção de linguagem e a
noção de jogo, sendo os jogos de lingua-
gem múltiplos e variados, atendendo a fina- Gottlob Frege (1848-1925), mate-
lidades diversas. mático, lógico e filósofo alemão traba-
lhouna fronteira entre a filosofia e a ma-
temática, Frege foi o principal criador
da lógica matemática moderna, sendo
considerado, ao lado de Aristóteles, o
maior lógico de todos os tempos. O tra-
balho de Frege na lógica tinha pouca
atenção internacional até 1903, quando
Russell escreveu um apêndice em seu
livro, afirmando suas diferenças com
Frege.

Racionalidade comunicativa
na contemporaneidade

Bertrand Russell (1872-1970)


foi um dos mais influentes matemáti-
cos, filósofos e lógicos do século 20.
Durante sua longa vida, Russell elabo-
rou algumas das mais influentes teses
filosóficas do século 20, e, com elas,
ajudou a fomentar uma das suas tra-
dições filosóficas, a assim chamada
Filosofia Analítica com destaque para
a fundamentação da Matemática. Se-
gundo Russell, todas as verdades ma-
temáticas poderiam ser deduzidas a
partir de umas poucas verdades lógi-
cas, e todos os conceitos matemáticos
reduzidos a uns poucos conceitos lógi- Jürgen Habermas (1929): filósofo
cos primitivos. Russel estudou os pro- e sociólogo alemão que ficou conhecido
blemas lógicos das ciências a partir da por suas teorias sobre a racionalidade
linguagem científica. comunicativa e a esfera pública, sendo
considerado um dos mais importantes in-
telectuais contemporâneos.
Um dos elementos impulsionadores des-
se projeto foi a descoberta, em 1901, de um
paradoxo no sistema lógico do filósofo e ma- Ação estratégica
temático alemão Gottlob Frege: o chamado
paradoxo de Russell. Como outro pilar desse Na orientação para o sucesso, o individuo
projeto, Russell concebeu a teoria das descri- persegue os seus interesses individuais, orga-
ções definidas, apresentada em franca oposi- nizando uma estratégia baseada nas conse-
ção a algumas de suas antigas ideias. quências de suas ações. Para alcançar seus
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objetivos, vale influenciar outros indivíduos, por
meio de armas, bens, ameaças e seduções. E não são frutos de um grupo particular, mas
em qualquer eventual cooperação, cada indi- de uma mentalidade global. No entanto,
víduo só está interessado no que pode ganhar para que haja uma ética de responsabilida-
individualmente com isso. Chamaremos esse de mundial deve-se levar em consideração
tipo de ação de “ação estratégica”. a necessidade do ser humano de estar em
relação com outros seres e de se comunicar.
Ação comunicativa Neste sentido, Habermas oferece
uma grande contribuição para a sociedade
Habermas defende, como proposta para contemporânea, apresentando uma racio-
a sociedade, que transitemos progressi- nalidade que possibilita a elaboração de
vamente da ação estratégica para a ação uma ética fundamentada numa razão aber-
comunicativa. Nesse tipo de ação, a orien- ta ao diálogo, portanto, não é o sujeito isola-
tação deixa de ser exclusivamente para o do que lançará luzes aos problemas atuais,
sucesso individual, e passa a se denominar mas, a comunidade que elaborará possíveis
como orientação para o entendimento mú- respostas às questões do mundo atual.
tuo. Nesse novo âmbito, os atores procu-
ram harmonizar seus interesses e planos de
ação, através de um processo de discussão,
Desafios da Filosofia Contemporânea
buscando um consenso.
O homem contemporâneo é um ser social.
Habermas e a concepção ética Teoricamente, cabe à Filosofia, em conjunto com
da corresponsabilidade outras ciências da atualidade, dar sua contribui-
ção para que o homem possa refletir e buscar al-
A ação estratégica e a ação comu- ternativas para as questões relacionadas à exis-
nicativa, embora possuam a marca da tência, à moral e à organização em sociedade.
racionalidade humana, apresentam uma
grande diferença: no agir estratégico a
definição da finalidade não abre espa-
ço para ouvir os argumentos dos outros,
enquanto no agir comunicativo há um
espaço de diálogo, em que se pensa em
conjunto sobre quais devem ser os me-
lhores objetivos a serem buscados por
um grupo social.
Portanto, a racionalidade comu-
nicativa proporciona ao homem uma
oportunidade de repensar sua ação na
sociedade mundial. O projeto de eman-
cipação humana implicou na manipula- O discurso filosófico deve refletir o pensa-
ção dos recursos naturais e do próprio mento crítico e a atitude crítica que caracterizam
ser humano, com sérias consequências a atitude filosófica do homem, em sua dimensão
para a contemporaneidade, como por social. Neste sentido, a Filosofia Contemporâ-
exemplo, a questão do aquecimento glo- nea, mesmo se apresenta múltiplas teorias e
bal e da clonagem humana. tendências, continua a ser essencialmente uma
Segundo Harbermas, os problemas atitude filosófica que apresenta uma face nega-
da contemporaneidade devem ser discu- tiva e outra face positiva. A negativa consiste em
tidos a partir de uma ética de correspon- dizer não ao senso comum: a atitude crítica; a
sabilidade, uma vez que tais problemas positiva, em interrogar sobre como são as coi-
sas, fatos, valores: o pensamento crítico.
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Filosofia Contemporânea -
um novo projeto

Depois da fase da desconstrução


Tendências da Filosofia e à margem da Filosofia erudita, a Filo-
Contemporânea sofia Contemporânea se lança a novos
horizontes, tentando sustentar a inter-
Filosofia Contemporânea: rogação não apenas sobre a teoria e a
teorias e conceitos básicos moral, mas também sobre as ciências
humanas. Nesse novo projeto, procura-
Aspectos da Filosofia na se pensar sobre as bases de um huma-
contemporaneidade nismo.

Ao falarmos da Filosofia Contem- Materialismo X Humanismo


porânea, enfrentamos alguns problemas pós-nietzschiano
devido à proximidade dos acontecimen-
tos, à dificuldade de se ter um distancia- O materialismo contemporâneo,
mento e a uma imparcialidade, adequa- mesmo possuindo elementos verda-
dos à análise. deiros e estimulantes para a reflexão,
não conseguiu coerência suficiente
Questões fundamentais para acabar com o humanismo. A au-
tocrítica e autorreflexão caracterizam
Retroceder parece impossível após to- o humanismo contemporâneo e pós-
das as revelações feitas por Nietzsche. nietzschiano, principalmente após a
segunda metade do século 20, quando
Hoje nos encontramos no meio a ciência começa a aplicar a si mesma
de uma encruzilhada: ou continuamos os princípios de espírito crítico e da re-
pelo caminho aberto pelos fundadores flexão.
da desconstrução, Nietzsche e seus
discípulos Marx e Freud, ou retoma- Fenomenologia
mos o caminho da procura.

Desdobramentos da desconstrução

Nietzsche não foi o único descons-


trutor de ídolos. Marx, Freud e outros mi-
lhares de filósofos da suspeita, bem como
a vasta corrente das ciências humanas,
deram continuidade à obra de descons-
trução dos grandes materialistas. Edmund Husserl (1859-1938),
filósofo alemão foi o fundador da feno-
Mundo da técnica X Declínio dos ideais menologia. Em Husserl o fenômeno é o
que está presente à consciência de for-
ma pura, e a fenomenologia é o modo
No "mundo da técnica", como através do qual atingimos a essência
Heidegger denomina o mundo con- do fenômeno, que é o próprio conteúdo
temporâneo no qual vivemos, é a intencional da consciência. O projeto é
técnica quem prevalece. o de captar as coisas na sua origem,

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antes de toda dedução e construção. Bertrand
Neste sentido, a fenomenologia de Russell (1872-
Husserl pode ser entendida como an- 1970) foi um dos
tiespeculativa e antimetafísica. mais influentes
matemáticos, fi-
Martin Heidegger lósofos e lógicos
(1889-1976) filósofo ale- do século 20, de-
mão contemporâneo cujo senvolveu funda-
pensamento filosófico mentos da Filoso-
desvela que a essência fia Analítica, com
do homem e seu sig- destaque para a
nificado existencial de- fundamentação da Matemática.
pende de sua relação com o ser, não de
algum tipo de racionalidade. Heidegger
fez adaptações da Fenomenologia, ne- Racionalidade comunicativa
cessárias para a análise das temáticas na contemporaneidade
existenciais. Em sua obra Os conceitos
fundamentais da metafísica: mundo, fi-
Jürgen
nitude, solidão, Heidegger apresenta a
Habermas
desconstrução da metafísica tradicional
(1929): filósofo
e desenvolve uma nova concepção que
e sociólogo ale-
pode ser definida como a metafísica da
mão que ficou
subjetividade.
conhecido por
Filosofia analítica suas teorias so-
bre a racionali-
A Filosofia analítica é desenvol- dade comuni-
vida por filósofos bastante diferentes, cativa e a esfera
cujo ponto comum é a ideia de que a pública, sendo
filosofia é análise do significado dos considerado um
enunciados, e se concentra na pesqui- dos mais importantes intelectuais contem-
sa sobre a linguagem. porâneos.

Desafios da Filosofia
Ludwig
Contemporânea
Wittgenstein
(1889-1951),
filósofo austría- A Filosofia Contemporânea,
co, naturaliza- mesmo se apresenta múltiplas teo-
do britânico, foi rias e tendências, continua a ser es-
um dos princi- sencialmente uma atitude filosófica
pais atores da que apresenta uma face negativa e
filosofia do sé- outra face positiva. A negativa con-
culo 20. Suas siste em dizer não ao senso comum:
principais con- a atitude crítica; a positiva, em inter-
tribuições foram feitas nos campos da rogar sobre como são as coisas, fa-
lógica e filosofia da linguagem. tos, valores: o pensamento crítico.

Filosofia 3 - Aula 4 48 Instituto Universal Brasileiro


mesmo possuindo elementos verdadeiros
e estimulantes para a reflexão, não con-
seguiu coerência suficiente para acabar
com o humanismo. O humanismo pós-
nietzschiano, em oposição ao materialis-
1. Assinale a alternativa com as pala- mo, reabilita a noção de transcendência,
vras que completam os respectivos espaços dando-lhe um novo significado no plano
corretamente. teórico. São características do humanismo
contemporâneo:
Alguns dos conceitos que funda-
mentam a Filosofia Contemporânea fo- a) ( ) a experimentação e o espírito
ram elaborados no século 19: o concei- crítico.
to de ___________ formulado por Hegel; b) ( ) a autocrítica e a autorreflexão.
o conceito de _____________ articula- c) ( ) a técnica e o cientificismo.
do principalmente por Augusto Comte; d) ( ) a reflexão e a suposição.
_______________ como o anarquismo, o
socialismo, o comunismo, associadas ao 4. Husserl e Heidegger são pensado-
desenvolvimento como caminho para uma res que desenvolveram e aplicaram a fe-
sociedade mais justa; e a confiança no nomenologia na reflexão filosófica, mas há
____________________. um distanciamento entre ambos. Assinale
a alternativa que aponta esse distancia-
a) ( ) história - humanismo - utopias mento.
políticas - saber científico.
b) ( ) utopias políticas - saber científico - a) ( ) Heidegger, ao contrário de Hus-
história - humanismo. serl, assumia o conceito de ser como depen-
c) ( ) saber científico - história - uto- dente da racionalidade.
pias políticas - humanismo. b) ( ) Heidegger considerava a fenome-
d) ( ) humanismo - história - utopias nologia como um método; e Husserl, como ins-
políticas - saber científico. trumento de análise das temáticas existenciais.
c) ( ) Heidegger evidencia uma preo-
2. “O mundo da técnica” é como Heidegger cupação com a metafísica; Husserl construiu
denomina o mundo contemporâneo. O sig- uma fenomenologia antimetafísica.
nificado da palavra técnica remete a um d) ( ) Heidegger, assim como Husserl,
conjunto de meios necessários para alcan- buscou resolver o problema do ser recorrendo
çar um objetivo. Mas, no mundo contem- à consciência.
porâneo, a técnica deixou de ter objetivos
e transformou-se num processo sem propó- 5. Na obra Tractatus Logico-Philoso-
sito. Neste contexto, o imperativo absoluto phicus, Wittgenstein aborda, dentre outros
vital passa a ser a: assuntos, da relação entre o mundo e a lin-
guagem. Assinale a alternativa que reflete
a) ( ) cooperação e união de todos em essa relação.
busca do mesmo objetivo.
b) ( ) assimilação e organização das a) ( ) Posso afirmar o que o mundo é a
causas comuns a todos. totalidade das coisas.
c) ( ) competição e concorrência, sem b) ( ) Dizer algo do mundo é mostrar
um projeto ou ideal comum. algo para além dos fatos.
d) ( ) objetivação e confluência de to- c) ( ) As expressões da linguagem não
dos na ação comunitária. se relacionam com o mundo.
d) ( ) Posso descrever o mundo dentro
3. O materialismo contemporâneo, dos limites da minha linguagem.
Filosofia 3 - Aula 4 49 Instituto Universal Brasileiro
alternativa b que estão apontadas as carac-
terísticas do humanismo pós-nietzschiano:
autocrítica e autorreflexão; principalmente
após a segunda metade do século 20, quan-
do a ciência começa a aplicar a si mesma
1. a) ( x ) história - humanismo - os princípios de espírito crítico e da reflexão,
utopias políticas - saber científico. questionando-se sobre os resultados de suas
descobertas, sobre a vida do homem, sobre
Comentário. A alternativa a apresen- as consequências da guerra etc.
ta as palavras que completam corretamen-
te os respectivos espaços. Verifique o texto 4. c) ( x ) Heidegger evidencia uma
completo. preocupação com a metafísica; Husserl
Alguns dos conceitos que fundamentam a construiu uma fenomenologia antimetafí-
Filosofia Contemporânea foram elaborados no sica.
século 19: o conceito de história formulado por
Hegel; o conceito de humanismo articulado Comentário. A alternativa c aponta o
principalmente por Augusto Comte; utopias distanciamento da fenomenologia apresen-
políticas como o anarquismo, o socialismo, o tada pelos pensadores Husserl (antimetafí-
comunismo, associadas ao desenvolvimento sica) e Heidegger (metafísica). Nas demais
como caminho para uma sociedade mais justa; alternativas, o pensamento dos dois filó-
e a confiança no saber científico. sofos aparece incompleto ou invertido. Em
Husserl o fenômeno é o que está presente
2. c) ( x ) competição e concorrên- à consciência de forma pura, e a fenome-
cia, sem um projeto ou ideal comum. nologia é o método através do qual atingi-
mos a essência do fenômeno, que é o pró-
Comentário. No mundo contemporâ- prio conteúdo intencional da consciência. O
neo, em que a técnica deixou de ter obje- projeto é o de captar as coisas na sua ori-
tivos e transformou-se num processo sem gem, antes de toda dedução e construção.
propósito, o imperativo absoluto vital passa Neste sentido, a fenomenologia de Husserl
a ser a competição e a concorrência, sem pode ser entendida como antimetafísica.
um projeto ou ideal comum, portanto, a cor- Heidegger fez adaptações da fenomeno-
reta é a alternativa a. Devemos lembrar que logia de Husserl, para fazer a análise das
técnica significa o conjunto dos meios ne- temáticas existenciais. Em sua obra Hei-
cessários para se realizar um fim determi- degger apresenta a desconstrução da me-
nado, representando um instrumento para tafísica tradicional e desenvolve uma nova
realizar, do melhor modo, um objetivo. A téc- concepção que pode ser definida como a
nica, contudo, nunca estabelece o objetivo metafísica da subjetividade.
por si mesma.
5. d) ( x ) Posso descrever o mun-
3. b) ( x ) a autocrítica e a autorre- do dentro dos limites da minha linguagem.
flexão.
Comentário. O pensamento da alter-
Comentário. O humanismo contempo- nativa d reflete a relação entre o mundo e
râneo, ao contrário do materialismo, vai fa- a linguagem segundo Ludwig Wittgenstein,
zer de tudo para refletir sobre o significado que é considerado um dos mais importantes
de suas próprias afirmações, para criticá-las, filósofos do século 20. Em seu Tratado Ló-
avaliá-las e tomar consciência delas. O es- gico-Filosófico o objetivo é explicar como a
pírito crítico, característico da Filosofia Mo- linguagem consegue representar o mundo.
derna, vai aplicar-se a si mesmo, finalmen- A linguagem e os seus limites é o tema cen-
te; e não apenas aos outros. Portanto, é na tral do Tratado.
Filosofia 3 - Aula 4 50 Instituto Universal Brasileiro

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