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PROCESSO N.º 120/89 – 2.

Falsificação de documentos
SUMÁRIO:
O acto de viciação de facturas mediante falsificação do destina-
tário acha-se integrado no crime de desvio de fundos do Estado
quando a falsificação seja um meio usado para conseguir o des-
vio, não constituindo um crime autónomo.

ACÓRDÃO
Acordam, em conferência, na 2.ª Secção Criminal do Tribunal Su-
premo:
Os réus Augusto Nhabongo, José Bene Frederico Langa e Nicolau
David Mbeve, com os demais sinais de identificação nos autos, foram
submetidos a julgamento no então Tribunal Popular Provincial de Ma-
puto, indiciados da prática do crime de burla por defraudação, na forma
continuada, previsto e punido pelas disposições conjugadas dos art.os
421.º, n.os 2 e 3 do C. Penal e art.º 1.º, n.º 1, alínea d) da Lei n.º 1/79, de
11 de Janeiro.
Realizado o julgamento, o Tribunal considerou os réus autores do
crime de desvio de fundos do Estado, previsto e punido pela alínea d),
do n.º 1, do art.º 1.º, da Lei n.º 1/79, de 11 de Janeiro e um crime de
falsificação previsto e punido pelos art.os 219.º e 218.º, ambos do C. Pe-
nal, crimes cometidos na forma continuada. Foram condenados na pena
unitária de 8 (oito) anos de prisão maior e 3 (três) meses de multa, à
taxa diária de 60,00MT (sessenta meticais). Mais foram condenados
no pagamento solidário de 260.820,00MT (duzentos e sessenta mil e
oitocentos e vinte meticais) de indemnização à empresa lesada, entre
outras medidas.
O Digno Agente do Ministério Público junto do Tribunal de primeira
instância interpôs o presente recurso, dizendo que o faz por imposição
legal pois que a sentença colhe a sua inteira concordância por nela ter
sido feita criteriosa apreciação dos factos e correcta aplicação da lei.
Tem o processo os vistos legais, cumprindo agora apreciar e decidir.
Vejamos, pois, os factos imputados aos réus:
Nos meses de Janeiro e Fevereiro de 1980, o co-réu Augusto Nha-
bongo que possuía um pequeno estabelecimento comercial, dirigiu-se
à COGROPA – Empresa Estatal de Comércio Grossista de Produtos
Alimentares, com o intuito de se informar sobre o motivo da suspensão
da sua quota de milho. Foi então informado pelo co-réu Nicolau David

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Mbeve, funcionário daquela empresa estatal que a distribuição daquele
produto a comerciantes retalhistas estava suspensa por ordem da Di-
recção Provincial do Comércio Interno, só sendo permitida tal distribui-
ção a armazenistas. Perante as dificuldades apresentadas pelo Augusto
Nhabongo, o Nicolau David mandou-o regressar no dia seguinte prome-
tendo-lhe que iria expor o assunto ao chefe do departamento comercial,
António Silva. Consultado, este viria a autorizar a venda de 50 sacos de
milho ao co-réu Nhabongo. Todavia, sem o conhecimento do chefe do de-
partamento comercial, o réu Nicolau combinou com o co-réu José Bene
Frederico Langa, também funcionário da mesma Empresa, no sentido
de utilizarem as facturas que já se encontravam passadas em nome do
armazenista Inácio de Sousa, como forma de regularizarem documen-
talmente a venda.
Aproveitando-se do facto de este último comerciante não ter feito o
levantamento da sua parte da quota dentro do prazo legal, o Nicolau
David e o José Langa riscaram o seu nome nas facturas que lhes eram
destinadas, escrevendo por cima o nome do réu Augusto Nhabongo. Só
que em vez dos 50 sacos autorizados pelo chefe do departamento co-
mercial, venderam ao Nhabongo 200 sacos correspondentes à quota do
Inácio de Sousa, no valor de 86.940,00MT (oitenta e seis mil novecentos
e quarenta meticais).
Mais tarde, e sem que tivessem voltado a consultar o chefe do depar-
tamento comercial, os co-réus repetiram por mais de duas vezes esta
operação, utilizando sempre as facturas destinadas ao armazenista
Inácio de Sousa. No total, venderam ao co-réu Nhabongo 600 sacos de
milho pelo preço de 260.820,00MT (duzentos e sessenta mil e oitocen-
tos e vinte meticais). O co-réu Nhabongo recebeu o milho assim ven-
dido, conhecendo da irregularidade quanto à justificação da sua saída
– utilização de facturas rasuradas, anteriormente passadas em nome
do comerciante Inácio de Sousa. Os réus Nicolau David e José Langa
utilizaram, em proveito próprio, a receita proveniente da venda ilícita
do milho ao co-réu Augusto Nhabongo.
O Tribunal a quo considerou os factos dados como provados como
integradores do crime de desvio de fundos do Estado previsto e punido
pelo art.º 1.º, n.º 1, alínea d), da Lei n.º 1/79, de 11 de Janeiro e o crime
de falsificação previsto e punido pelos art.os 219.º e 218.º, n.º 7, ambos
do C. Penal. Procede a qualificação jurídico-penal quanto ao crime de
desvio de fundos. O mesmo já não acontece em relação ao crime de
falsificação porquanto se está perante o artifício fraudulento através
do qual os réus pretendiam justificar a venda ilícita de milho, apode-
rando-se da receita assim obtida. Assim, o acto de viciação de facturas
mediante falsificação do destinatário acha-se integrado no crime de

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desvio de fundos de Estado, não constituindo, consequentemente, um
crime autónomo.
Sucede, porém, que durante a pendência do recurso foram sucessi-
vamente aprovados diplomas que introduziram alterações nas moldu-
ras penais determinativas das penas, designadamente, a Lei n.º 1/89,
de 23 de Março e a Lei n.º 5/99, de 2 de Fevereiro. Em consequência, o
crime dos presentes autos é hoje punido com pena de prisão até um ano,
pelo que se encontra abrangido pela amnistia decretada pela Lei n.º
3/89, de 19 de Julho, conforme o seu art.º 1.º, a). Impõe-se, por isso, que
se decrete a extinção do procedimento criminal ao abrigo do disposto no
art.º 125.º, n.º 3 do C. Penal.
Nestes termos, declaram extinto o procedimento criminal e ordenam
o arquivamento dos autos.
Boletins ao Registo Criminal.

Sem imposto.

Maputo, 28 de Novembro de 2001.


Assinado: Luís António Mondlane e Ozias Pondja.

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