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CONCEITOS DE GENÉTICA Genética na Escola

A s definições de dominante e recessivo cunhadas nos primórdios da ciência da genética são

DOMINANTE
muito úteis e se adaptam muito bem a muitas das situações que estudamos. No entanto, elas
requereram ajustes com o passar do tempo, que levaram a criação de termos como codominância e
dominância incompleta. Nesse artigo é feita uma reflexão cautelosa de que a aplicação desses termos

OU
pode em muito depender do que está sendo definido como fenótipo na análise genética e que os
efeitos de um alelo sobre o fenótipo dependem de uma intrincada rede de fenômenos moleculares.
Se um alelo determinará um fenótipo dominante ou recessivo em um dado lócus, isso dependerá: (a)
do tipo de produto que resulta da transcrição e tradução da informação contida nesse alelo; (b) da
relação desse produto com o produto codificado pelo outro alelo no mesmo lócus e (c) da reação do

RECESSIVO? organismo à presença, ausência, ou redução da quantidade dos produtos dos alelos ou a modificações
na função desses produtos. Em resumo, do ponto de vista molecular, cada caso é um caso.

O s conceitos de dominância e recessivi-


dade estão certamente entre os mais
antigos na história da Genética. Os termos
aulas, se ambos os alelos em um lócus gênico
transcrevem. Curiosamente, embora muitos
alunos respondam corretamente que se espe-
Regina Célia Mingroni Netto
aparecem pela primeira vez nos trabalhos de ra que ambos os alelos venham a transcrever,
Departamento de Genética e Biologia Evolutiva, Instituto de Mendel e são empregados até hoje. Contudo, uma fração razoável dos estudantes responde
Biociências, Universidade de São Paulo. como nem todas as situações da análise gené- que alelos dominantes transcrevem e alelos
Endereço para correspondência: renetto@ib.usp.br
tica se encaixam perfeitamente nos conceitos recessivos não transcrevem. Aprofundan-
de dominância e recessividade, é natural que, do essa discussão, indagamos se, no ensino
com o passar do tempo, ajustes e acomoda- médio, ou se nos cursinhos preparatórios
ções tenham sido necessários e tenham sur- pré-vestibulares, algum professor havia en-
gido os conceitos de codominância e domi- sinado essa noção. A resposta tem sido a de
nância incompleta. que, embora os professores não afirmem cla-
ramente isso, vários costumam afirmar que
Na genética clássica, um caráter é dito como
alelos dominantes “impedem” ou “inibem”
dominante quando se manifesta fenotipica-
os alelos recessivos de se manifestarem. Essa
mente no heterozigoto, ocultando completa-
noção distorcida explica porque um núme-
mente o fenótipo recessivo. O fenótipo do-
ro de alunos acaba por imaginar que alelos
minante é aquele presente em F1, que resulta
recessivos são obrigatoriamente inativos do
do cruzamento de duas linhagens puras com
ponto de vista da transcrição. Essa ques-
fenótipos contrastantes. Em outras palavras,
tão merece uma discussão aprofundada do
nessa situação, o fenótipo do heterozigoto é
ponto de vista molecular que permita com-
igual ao do indivíduo com genótipo homozi-
preender por que certos alelos determinam
Alelos goto que possui dois alelos dominantes. No
fenótipos recessivos e outros determinam
são formas alternativas da entanto, há situações em que, do resultado
fenótipos dominantes.
sequência nucleotídica de um do cruzamento de indivíduos de linhagem
gene. Nos organismos diploides pura (homozigotos), surgem indivíduos he- Um exemplo clássico da genética mendeliana
cada lócus gênico alberga dois
alelos. Quando os dois alelos
terozigotos com fenótipo intermediário en- molecularmente reestudado recentemente
em um lócus gênico são iguais, tre os fenótipos apresentados pelos dois indi- (BHATTACHARYYA et al, 1990) ajuda a
o indivíduo é homozigoto nesse víduos parentais. Esse tipo de interação entre ilustrar o porquê da dominância completa e
lócus. alelos é chamado de dominância incompleta. refletir sobre a questão da dominância e re-
Finalmente, há casos de codominância, pois cessividade. Ervilhas lisas e rugosas foram es-
se observa no heterozigoto, simultaneamen- tudadas por Gregor Mendel e a característica
te, ambos os fenótipos determinados pelos ervilha rugosa é dita recessiva, uma vez que
dois alelos no lócus. esse fenótipo não ocorre no heterozigoto,
Elemento genético móvel
que sempre exibe ervilhas lisas. Hoje é bem
é o termo usado para descrever Na tentativa de fazer compreender, do ponto
sequências de DNA presentes conhecido que a mutação presente no alelo
de vista molecular, qual a base desses fenô-
nos genomas de vários recessivo, que determina ervilhas rugosas, é
organismos que são capazes de
menos, quando estudamos a transcrição no
uma inserção de um elemento genético
se deslocar de uma localização curso de graduação em ciências biológicas,
móvel de 800 pares de bases na região codi-
cromossômica para outra. temos indagado regularmente, durante as
ficadora de aminoácidos do gene que codifica

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a enzima ramificadora de amido, gene de antígenos que estão presentes na super- cado. Na verdade, se reduzirmos o fenótipo tecidos do organismo, acarrete uma orga-
O Amido é um polissacarídeo
SBE1. O elemento móvel inserido é transcri- fície das hemácias. Por exemplo, no sistema em análise à presença de RNAm transcrito nização também anormal dessas células ou
produzido pelos vegetais para
to juntamente com a região codificadora do ABO, indivíduos com genótipos IAIB pro- ser utilizado como reserva. O pelos alelos, chegaremos à conclusão de que tecidos. Teríamos assim, uma situação de fe-
gene e passa a fazer parte do RNA mensagei- duzem ambos os tipos de antígenos, por- amido consiste de duas classes a maioria dos alelos dos lócus gênicos dos nótipo anormal na presença de um único ale-
ro. A proteína, traduzida a partir dessa men- tanto dizemos que os alelos IA e IB são co- de polímeros de glicose: amilose organismos diploides comportam-se como lo mutado e, na prática, isso resulta em uma
dominantes. No entanto, no mesmo lócus e amilopectina, que diferem codominantes, pois é possível, hoje, rastrear doença de herança autossômica dominante.
sagem, é uma enzima ramificadora de amido
entre si quanto ao grau de
não funcional. Nesse caso, o alelo mutado podemos ter também o alelo i, incapaz de ramificação do esqueleto linear molecularmente a presença de RNAm pro- Muitas doenças hereditárias humanas re-
não foi de fato impedido de transcrever, mas produzir antígeno e que se comporta como alfa 1-4 glicose da molécula. A venientes da transcrição de ambos os alelos. sultam da produção de proteínas anormais,
acarretou a produção de uma enzima não recessivo em heterozigotos que tenham enzima ramificadora de amido que mesmo em metade da dose, resultam
introduz ligações glicosídicas
Esses experimentos são importantes porque
funcional. O fato de o indivíduo heterozigo- qualquer um dos outros dois alelos. Esse em anomalias do desenvolvimento ou da
1-6 alfa entre essas cadeias, atestam molecularmente que nos lócus gê-
to produzir ervilhas lisas indica claramente exemplo, além de servir para ilustrar a co- manutenção dos tecidos. A função anormal
gerando uma amilopectina nicos dos organismos diploides, a tendência
que, mesmo com metade da quantidade da dominância, ilustra também a ocorrência ramificada. do gene aparece no indivíduo heterozigo-
geral é a de que ambos os alelos transcrevam
enzima funcional, a ramificação do amido de alelos múltiplos pois, nesse caso, três to e provavelmente o fenótipo tem herança
(expressão bialélica), salvo algumas poucas
ocorre normalmente e não há alterações per- alelos distintos podem ocorrer nesse lócus. dominante. Podemos citar, como exemplo, a
exceções. São exemplos dessas exceções casos
ceptíveis na forma dos grãos de ervilha. Esse Tal ocorrência contraria claramente a ideia doença de Huntington, pois, neste caso,
de alelos com alteração na região promotora
raciocínio aplica-se, de modo geral, para ale- distorcida de que, para cada lócus, só po- a proteína traduzida, que tem aminoácidos
da transcrição, ou ainda, o caso notável da
los que codificam enzimas quando mutados. dem existir dois alelos na população, um A inativação do a mais na sua sequência, exerce seus efeitos
cromossomo X inativação do cromossomo X das fême-
Enzimas geralmente atuam em organismos, obrigatoriamente dominante e um obriga- prejudiciais sobre neurônios ainda que o
é um processo no qual uma das as de mamíferos, fenômeno que leva a maior
catalisando reações químicas em pequenas toriamente recessivo. outro alelo produza a proteína normal. Os
duas cópias do cromossomo parte dos genes do cromossomo X das fê-
concentrações. Em muitos dos exemplos de X presente em fêmeas de efeitos dessa doença são essencialmente de-
A anemia falciforme ilustra muito bem o meas terem expressão monoalélica, ou seja,
alelos mutados que codificam enzimas não mamíferos é inativada. A correntes de neurogeneração. Vale a pena ob-
caso de que nem sempre se aplicam os ter- somente a partir de um dos alelos.
funcionais, a redução da atividade enzimáti- inativação do cromossomo X servar que, neste caso, a proteína normal está
mos, dominância, dominância incomple- ocorre para que as fêmeas, que
ca à metade do esperado para o organismo A análise dos efeitos das mutações que criam também sendo produzida, o que contraria o
ta e codominância com facilidade e sem possuem dois cromossomos
(porque um dos alelos codifica enzima não novos alelos levou a uma tentativa de classi- mito de que o alelo recessivo foi impedido de
ambiguidades. A “doença” anemia falcifor- X, não produzam o dobro da
funcional) é bem tolerada pelo organismo e quantidade de produtos gênicos ficação de suas consequências moleculares, o se manifestar pelo dominante.
me manifesta-se fenotipicamente somen-
não há evidência fenotípica visível da hetero- presentes nos X dos machos, que em parte ajuda a compreender a razão
te em indivíduos homozigotos com uma Nos casos das mutações que acarretam perda
zigose. Nesse caso, o produto gênico presen- que possuem somente uma pela qual certos alelos se comportam como
mutação específica, chamada de HbS, que cópia do cromossomo X. de função, especialmente em enzimas impor-
te em metade da dose “dá conta” de exercer a dominantes ou recessivos. Essa classificação
leva, após a tradução do RNAm, à produ- tantes no metabolismo, é frequente que os
função. é muito utilizada por geneticistas humanos,
ção de cadeias beta de hemoglobina altera- alelos mutados se comportem como recessi-
A doença de Huntington na busca de compreender melhor os efeitos
Em outros exemplos, nos casos em que das. Os heterozigotos são assintomáticos vos. Para muitos dos produtos gênicos, espe-
é uma doença de herança de algumas doenças hereditárias. Mutações
ocorre a dominância incompleta, a explica- e, portanto, seu fenótipo é aparentemente cialmente as enzimas, a quantidade exata de
autossômica dominante que acarretam perda de função: nesses
ção molecular é um pouco diferente: o alelo indistinguível dos homozigotos normais. geralmente de início tardio produto não é crucial e mesmo na presença de
casos, o produto do gene não executa a sua
selvagem produz certa dose de seu produto Portanto, podemos dizer que a “doença” (após 40 anos), de caráter metade do produto gênico funcional, a reação
função ou tem sua função reduzida. Quando
proteico. Se houver dois alelos selvagens, anemia falciforme é determinada por um neurogenerativo e progressivo. química ocorre normalmente. Nesse caso, o
Os sintomas mais comuns são a perda de função é completa, pode se falar
a dose do produto é o dobro da produzida alelo recessivo, e, portanto, a doença é re- organismo não sofre de modo notável com a
coréia (movimentos bruscos), em mutação nula. Mutações que acarretam
pelo heterozigoto, que apresenta um alelo in- cessiva. No entanto, o estudo eletroforético redução da quantidade do produto se a mu-
falta de coordenação motora e ganho de função: em tal caso, o produto do
capaz de produzir esse produto e, portanto, das hemoglobinas produzidas por um he- demência. É causada por uma tação estiver em heterozigose e o fenótipo da
gene executa uma função anormal ou au-
produz metade. Se produzir metade do pro- terozigoto mostra claramente a presença mutação em um gene localizado doença só se manifesta se houver homozigose
no cromossomo 4 mentada em virtude da mutação.
duto levar a um efeito fenotípico, distinto da dos dois tipos de hemoglobina: a hemoglo- para alelos com perda de função. Por exem-
situação em que se produz a dose completa, bina A selvagem e a hemoglobina alterada, O modo de herança do fenótipo de uma do- plo, na espécie humana, os diversos tipos de
O albinismo
temos dominância incompleta. Há exemplos denominada hemoglobina S. Se conside- ença hereditária pode estar muito relaciona- albinismo óculo-cutâneo são determina-
óculo-cutâneo
oriundos da genética de plantas em que os rarmos os tipos de moléculas produzidas é um conjunto de doenças de do ao efeito molecular da mutação: se houver dos por herança autossômica recessiva. De-
heterozigotos produzem metade da quanti- como fenótipo, podemos claramente di- herança autossômica recessiva mutação de ganho de função, a presença do correm de mutações em lócus que codifica-
dade de pigmento que dá cor às flores (por zer que se tratam de alelos codominantes. causadas por bloqueios alelo normal pode não conseguir evitar que o dores de enzimas importantes à biossíntese
enzimáticos diversos na alelo com função anormal exerça seus efeitos
exemplo, vermelho) e, portanto, têm cor in- Também temos aqui a evidência molecular síntese do pigmento melanina
de melanina. Nos heterozigotos que possuem
termediária (rosa) entre a cor apresentada de que ambos os alelos estão ativos sob o presente na pele, nos cabelos
prejudiciais. Suponha que um lócus gênico alelos que codificam enzimas não-funcionais,
pelo homozigoto dominante (vermelho) e o ponto de vista da transcrição e da tradução, e nos olhos. Além da falta de codifique uma proteína estrutural e suponha não somos capazes de observar nenhuma alte-
recessivo (branco). já que o produto de ambos pode ser visua- pigmentação da pele, cabelos também que uma mutação em um certo ale- ração na pigmentação da pele e o fenótipo dos
lizado no heterozigoto. Esse exemplo mos- e olhos ocorrem também a lo codifique, após tradução do RNAm, uma heterozigotos é indistinguível do fenótipo do
Finalmente, são exemplos clássicos da codo- fotofobia e grave diminuição da
proteína estruturalmente anormal. Após
tra que o que definimos como dominante acuidade visual dos afetados. homozigoto com o alelo dominante. A essa si-
minância a produção de antígenos que deter- produzir metade da quantidade da proteína
depende do que for considerado, a princí- tuação dá-se o nome de haplossuficiência. O
minam grupos sanguíneos em humanos. Os estruturalmente alterada, suponha que essa
pio, como sendo o fenótipo e qual o tipo de caso das enzimas lisas e rugosas, já explicado,
alelos diferentes produzem tipos diferentes proteína, ao ser incorporada em células ou
análise desse fenótipo que está sendo apli- é muito semelhante a essa situação.

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No entanto, se a redução de um produto fun- minante interfira diretamente na capacidade se alelo; (b) da sua relação com o produto REFERÊNCIA
cional à metade de sua quantidade por causa de funcionamento de um alelo recessivo. codificado pelo outro alelo no mesmo lócus BHATTACHARYYA, M. K.; SMITH, A. M.;
de uma mutação de perda de função não for e (c) da reação do organismo à presença, au- ELLIS, T. H. N.; HEDLEY, C.; MARTIN, C.
Há outros mitos curiosos sobre alelos reces-
bem tolerada pelo organismo, ou seja, se a sência ou redução dos produtos dos alelos ou The wrinkled-seed character of pea described
sivos e dominantes que merecem ser igual-
redução do produto à metade acarretar pro- à modificação da função desses produtos. by Mendel is caused by a transposon-like inser-
mente comentados. Um deles é o de que o
blemas, dizemos que há haploinsuficiência tion in a gene encoding starch-branching en-
alelo dominante é o mais frequente na po- Parece que, do ponto de vista molecular, cada
e é possível que o efeito seja uma doença de zyme. Cell, vol.60, p. 115-122, 1990.
pulação. Os exemplos citados mostram cla- caso é um caso.
herança dominante. Um bom exemplo seria
ramente o oposto: muitas das doenças hu-

Do gene ao fenótipo
a neurofibromatose tipo I, doença au-
manas são causadas por alelos dominantes e
tossômica dominante, em que a redução da
que são raros na população, como é o caso
produção de uma proteína com efeitos sobre
das doenças descritas anteriormente, a neu-
a regulação do ciclo celular acarreta o cres-
rofibromatose e a doença de Huntington;
cimento anormal de certos tipos de células, A neurofibromatose Nos tempos dos trabalhos de Mendel, a cadeias alfa e beta das globinas são codificadas
originando manchas café com leite e tumores O fato de a maior parte dos exemplos citados tipo 1 é uma doença genética transmissão dos fatores hereditários, os ge- por genes diferentes. Assim, o papel do gene é
terem sido casos de doenças hereditárias hu- com transmissão autossômica nes como chamamos hoje, era estudada com codificar uma cadeia polipeptídica.
geralmente benignos.
dominante cujos sinais clínicos
manas pode levar à falsa impressão de que, bases em características das ervilhas de jar-
Um outro tipo especial de efeito de mutação, mais importantes são áreas Na década de quarenta a comunidade cien-
toda vez que ocorrem mutações na sequência de hipo ou hiperpigmentação dim visualmente muito contrastantes e fa-
difícil de se enquadrar na categoria de perda tífica se convenceu de que o material gené-
nucleotídica do DNA, levando à produção (manchas café com leite) na cilmente identificadas após os cruzamentos.
de função ou ganho de função, é o chamado pele, associadas a tumores
tico era o DNA e em 1953 compreendeu-se
de novos alelos, tais mutações tenham efeito No entanto, os primeiros geneticistas no co-
de efeito dominante-negativo. Nessa situ- benignos subcutâneos a estrutura de sua molécula. Na década de
obrigatoriamente prejudicial. Isso, com cer- meço do século vinte que continuaram a se-
ação, o produto proteico do gene mutado (neurofibromas) que ocorrem sessenta desenvolveram-se os estudos sobre
teza, está muito longe da verdade. Não pode- ao longo dos trajetos dos guir os estudos de Mendel ainda não tinham
exerce função alterada mas, ao interagir com a transcrição do RNA a partir do DNA e so-
mos nos esquecer de que a evolução de todas nervos periféricos. O fenótipo a menor noção do que era o gene do ponto
o produto proteico codificado pelo alelo nor- bre os diferentes tipos de RNA presentes na
as espécies decorre da ocorrência casual de é variável, existindo casos de vista físico ou químico. Foi um médico
mal, prejudica sua função. Em outras pala- praticamente assintomáticos e célula. Também nessa época o código genéti-
novas mutações que, juntamente com os me- inglês, Archibald Garrod, quem observou
vras, o produto anormal, nesse caso, interfere outros muito graves. co foi decifrado e compreendeu-se em grande
canismos de recombinação, aumentam mui- na primeira década do século XX, que di-
na função do produto normal. A situação parte o mecanismo da síntese de proteínas.
to o repertório de variabilidade genética das versas doenças humanas pareciam decorrer
descrita pode ser ilustrada com o caso dos Esses estudos destacaram a importância des-
espécies. Mutações desfavoráveis tendem a A osteogênese imperfeita de defeitos metabólicos. Ele supôs que as
colágenos. Os colágenos fibrilares do tecido se grupo de moléculas fundamental ao fun-
ser eliminadas das populações pela seleção é uma patologia do sistema doenças genéticas decorriam da ausência ou
conjuntivo organizam-se em triplas hélices cionamento da célula: os RNAs, ou seja, as
natural; mutações sem efeito bioquímico esquelético de origem do funcionamento incorreto de enzimas que
de cadeias polipeptídicas. Algumas muta- genética. Sob o nome moléculas de ácido ribonucléico. Os RNAs
ou fenotípico podem passar despercebidas realizam reações importantes em nosso me-
ções impedem as interações corretas entre as genérico de osteogênese mensageiros, ribossômicos e transportado-
pela seleção natural, enquanto as mutações tabolismo.
proteínas para formar as hélices e têm forte imperfeita existe uma série res são fundamentais ao processo de síntese
que trazem características vantajosas para de formas com características
efeito dominante negativo. Por exemplo, mu- Estudos realizados na década de quarenta de proteínas. Essas moléculas são transcritas
as espécies correspondem a novos alelos que clínicas, hereditariedade,
tações de sentido errado, em heterozigose, evoluções e conotações com o fungo Neurospora e suas diversas linha- tendo como molde sequências nucleotídicas
tendem a aumentar a sua frequência nas
no gene do colágeno de tipo I, levam a uma bioquímicas diferentes, gens mutantes com defeitos bioquímicos, por de trechos da molécula de DNA. Os RNAs
populações. Ficaria muito difícil explicar a
forma muito grave de osteogênese imper- nas quais o denominador George Beadle e Edward Tatum levaram os mensageiros são traduzidos, com base em sua
enorme diversidade da vida na Terra, que comum é a impossibilidade
feita, doença que acarreta severos proble- autores à hipótese “um gene – uma enzima”, sequência nucleotídica, em cadeias polipeptí-
surgiu em decorrência de evolução por meio dos osteoblastos (células do
mas no desenvolvimento ósseo, também com ou seja, o papel de um gene seria determinar dicas nos ribossomos. Os demais RNAs têm
de mutação, recombinação e seleção natural, tecido ósseo, cuja função é
herança autossômica dominante. sintetizar a parte orgânica a síntese de uma enzima específica, que atua- funções diferentes na tradução dos polipep-
se viéssemos a supor que as mutações são
da matriz óssea) produzirem ria em uma via metabólica. Mas, ainda assim, tídeos. Portanto, nos dias de hoje, uma ma-
Os exemplos de doenças ilustrados mostram sempre prejudiciais. osso estruturalmente e o quadro ainda parecia incompleto: todas as neira de descrever o gene seria considerá-lo
claramente que alelos alterados por mutação quantitativamente normal.
Em resumo, a antiga definição de dominante enzimas são proteínas, mas existem diversos como um trecho da molécula de DNA capaz
também podem transcrever e seus RNAs Há diminuição da densidade
e recessivo sem dúvida ainda é útil, válida e mineral dos ossos e fragilidade outros tipos de proteínas nas células que não de transcrever um RNA com função conhe-
podem ser traduzidos em proteínas dife-
se ajusta muito bem a muitas das situações com muitas fraturas. Os são enzimas: temos proteínas com funções es- cida: esse RNA, por sua vez, pode vir a ser
rentes. Se seus efeitos se comportarão como
que estudamos em genética. No entanto, afetados apresentam geralmente truturais, hormônios, etc. Hoje sabemos que traduzido em uma cadeia polipeptídica, se
dominantes ou recessivos isso dependerá em anormalidades diversas das
deve permanecer a reflexão cautelosa de que essas também são codificadas pelos genes, o for um RNA mensageiro, ou executar outros
muito de como o organismo tolera a produ- articulações e do esqueleto.
a aplicação desses termos depende primor- que fez com que o conceito sobre a função do papéis na célula.
ção de proteínas diferentes ou anormais, ou Existem alguns tipos dessa
dialmente do que está sendo definido como doença com herança dominante gene se ampliasse para incluir a codificação
a redução à metade da função do produto O fenótipo expresso pelo indivíduo vai de-
o fenótipo nessa análise. Além disso, se um e tipos com herança recessiva. de proteínas que não são enzimas. Também
normal, produzindo um fenótipo distinto pender da interação entre os produtos protei-
alelo determina um fenótipo dominante ou a ideia de que o papel do gene era codificar
entre homozigotos selvagens e heterozigotos. cos produzidos pelos RNA mensageiros dos
recessivo em um dado lócus, isso depende: uma proteína também precisou sofrer ajustes.
De fato, ainda não se conhecem mecanismos alelos de origem paterna e materna no inte-
(a) do tipo de produto que resulta da trans- A hemoglobina, por exemplo, é constituída
moleculares que permitam que um alelo do- rior da célula ou da tolerância da célula caso
crição e tradução da informação contida nes- por quatro cadeias polipeptídicas: duas do
falte a função de um determinado produto.
tipo alfa e duas do tipo beta. Sabemos que as

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