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AULA 1

Pré-Modernismo (1902-1922)
No início do século XX, a literatura brasileira atravessa um período de transi-
ção chamado Pré-Modernismo, que não chega a constituir uma “escola literá-
ria”. Uma denominação genérica que junta tendências mais ou menos conser-
vadoras e inovadoras de diferentes autores, num mesmo período.

Pré-Modernismo pode ser entendido como momento de renovação

Afresco do Palazzo Vecchio de Florença, Itália.

Autores Pré-Modernistas apresentam traços em comum

A expressão Pré-Modernismo é atribuída ao crítico literário brasileiro Tristão de Ataíde (pseu-


dônimo de Alceu Amoroso Lima 1893-1983) para dar nome ao período literário brasileiro que o pró-
prio Tristão descreve como “momento de alvoroço intelectual, marcado pelo fim da grande guerra
(1914-1918) e, entre nós, por toda uma ansiedade de renovação, que, alguns anos mais tarde,
redundaria no movimento modernista”.
Um período que pretende reunir, no espaço de duas décadas (1902 a 1922), os autores que,
pela forma ou conteúdo de seus textos anteciparam-se às mudanças que seriam propostas pelos
modernistas. Apesar de o Pré-Modernismo não constituir uma escola literária, apresentando indi-
vidualidades muito fortes, podemos perceber alguns traços em comum entre as principais obras
pré-modernistas como:
• Regionalismo. É apresentado um vasto painel brasileiro: o Norte e Nordeste com Euclides
da Cunha; o Vale do Paraíba e o interior paulista com Monteiro Lobato; o Espírito do Santo com
Graça Aranha; o subúrbio carioca com Lima Barreto.
• Tipos humanos marginalizados. Como o sertanejo nordestino, o caipira, os funcionários
públicos e os mulatos.
• Ligação com fatos políticos, econômicos e sociais da época. Diminuindo a distância
entre a realidade e a ficção.

Literatura 3 - Aula 1 5 Instituto Universal Brasileiro


Pré-Modernismo (1902-1922)
fone, a lâmpada elétrica, o automóvel e o telé-
Contexto histórico pré-modernista grafo, trouxeram mais conforto e praticidade
às pessoas. E na literatura, é o Pré-Moder-
Na Europa e no Brasil nismo que marca este momento de transição
Pré-Modernismo é o nome que se dá entre o simbolismo e modernismo.
ao período que compreende os 20 primei-
ros anos do século 20, cujos textos come- A novidade trazida pelo Pré-Modernis-
çam a distanciar-se do Parnasianismo e do mo era o interesse pela realidade brasileira,
Simbolismo e antecipam elementos que vão pelo dia a dia dos brasileiros, trazendo obras
de caráter social, com uma análise sobre essa
caracterizar o movimento literário posterior.
realidade, algo diferente do que era apresen-
Em Portugal, o Pré-Modernismo configura
tado. Outra novidade apontada era a busca de
o movimento denominado saudosismo. linguagem simples, muitas vezes ignorando
Nesse período, no Brasil, poetas par- as normas linguísticas da época.
nasianos e simbolistas continuavam a pro-
duzir, enquanto outros escritores começam
a desenvolver o regionalismo e outros se
voltam para questões políticas e sociais.
Por reunir estilos diversos, com indivi-
dualidades muito marcadas, diz-se que o
Pré-Modernismo não constitui uma escola
literária, mas um mosaico de estilos com
algumas características em comum.

O cenário político no Brasil e no mundo.

A Primeira Guerra Mundial e a Re-


pública do “café com leite” foram os mo-
mentos históricos que serviram de cenário
para o Pré-Modernismo. Nesse período, o
Brasil vive sob o domínio político da Velha
República (1894-1930) em que se reve-
Destacam-se como principais caracte- zavam no governo políticos de São Paulo
rísticas a denúncia dos problemas sociais e e de Minas Gerais, onde os grandes lati-
o uso de uma linguagem mais simples. No fundiários do café dominavam a econo-
início do século 20 ocorreram muitas mu- mia. A base da política café com leite tinha
danças na história da humanidade, sendo a nome: coronelismo. Na época, os coronéis,
maior delas o avanço científico e tecnológi- grandes latifundiários, tinham o direito
co, que através de invenções como o tele-
Literatura 3 - Aula 1 6 Instituto Universal Brasileiro
modernos apesar de seu aspecto linguístico
de formar milícias em suas propriedades e ser voltado para o realismo-naturalismo.
combater qualquer levante popular. Assim, Autores como Euclides da Cunha,
trabalhadores e camponeses se viam su- Lima Barreto e Monteiro Lobato são donos
bordinados ao poder militar e, sobretudo, de obras fundamentais para a cultura bra-
ao poder político dos coronéis. Contrariar o sileira. Foram os semeadores de uma nova
candidato preferido do coronel na eleição, visão sobre o Brasil e sua gente, defenso-
por exemplo, era uma atitude que pode- res de uma brasilidade genuína e genero-
ria resultar até mesmo no assassinato do sa, feita da junção de todos os brasileiros,
indivíduo, uma vez que o voto era aberto. rompendo com uma larga tradição cultural e
Essa dinâmica eleitoral ficou conhecida social da exclusão e do preconceito.
como “voto de cabresto”. Embora ainda
não tivesse absorvido toda a mão de obra
negra disponível desde a Abolição, o nos- Euclides da Cunha
so país recebeu nesse período um grande Euclides Rodri-
número de imigrantes italianos para traba- gues Pimenta da Cunha
lhar na lavoura do café e na indústria. Os nasceu em Cantaga-
imigrantes italianos, que trabalhavam na lo, Estado do Rio, em
indústria paulista, trouxeram consigo ideias 1866, e morreu no Rio
anarquistas e socialistas, que provocaram de Janeiro, tragicamen-
greves, crises políticas e incentivaram na te, em 1909. Formou-
formação dos sindicatos. Em vários esta- se engenheiro militar e
dos brasileiros ocorrem revoltas populares, viveu a maior parte de
algumas motivadas por injustiças sociais. sua vida em São Pau-
Destacamos a Guerra de Canudos, de lo, como correspondente de O Estado de São
1893 a 1897, na Bahia; a Guerra do Con- Paulo. Como engenheiro foi o chefe da comissão
testado (1912-1915), em Santa Catarina; mista brasileiro-peruana no estabelecimento das
a Revolta da chibata (1910) liderada por fronteiras. Acompanhou toda a revolta de “Canu-
João Cândido, o “Almirante Negro”, contra dos”. Euclides da Cunha assistiu aos últimos dias
maus tratos na Marinha; Revolta da Vacina do combate, o que lhe serviu de tema para sua
(1904) e Greves Operárias (1917-1921) em grande obra Os sertões, livro escrito em cinco
São Paulo. Paralelamente a isso, ocorria a anos, a partir desta data. Foi professor de Lógica
Primeira Guerra Mundial, (1914-1918), que no Colégio Pedro II.
abalou o mundo todo.
Sua grande obra: Os Sertões

Principais autores pré-modernistas


Entre os principais escritores pré-mo-
dernistas estão: Euclides da Cunha, com
sua obra Os Sertões, em que aborda de for-
ma jornalística a Guerra dos Canudos; Lima
Barreto que com suas obras faz uma críti-
ca da sociedade urbana da época; Monteiro
Lobato que com suas obras retrata o homem
simples do campo numa região onde reina- Os sertões foi publicada, sob a forma
va a decadência econômica; Graça Aranha de reportagem, no jornal O Estado de São
com Canaã, onde relata a imigração alemã Paulo. Em 1909, foi admitido no Instituto His-
para o Brasil; e o poeta Augusto dos Anjos tórico e Geográfico Brasileiro e na Academia
que em suas obras trazia elementos pré-
Literatura 3 - Aula 1 7 Instituto Universal Brasileiro
Brasileira de Letras. Nesse mesmo ano, foi as- A sua aparência, entretanto, ao primeiro
sassinado em sua residência, na Estrada de lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a
Santa Cruz, Rio de Janeiro, por questões de plástica impecável, o desempeno, a estrutu-
família, aos 43 anos de idade. A obra Os ser- ra corretíssima das organizações atléticas.
tões está dividida em 3 partes: “A terra”- em É desgracioso, desengonçado, torto. Hér-
que é apresentada a região das secas -”O ho- cules-Quasímodo, reflete no aspecto a
mem”- descreve os costumes do sertanejo, do fealdade típica dos fracos. O andar sem
jagunço. Apresenta a influência do meio e da firmeza, sem aprumo, quase gingante e
hereditariedade sobre ele - e “A luta” - em que sinuoso, aparenta a translação de mem-
é apresentada a Guerra de Canudos e a der- bros desarticulados. Agrava-o a postura
rota dos jagunços. Euclides deixou também normalmente abatida, num manifestar
vários outros escritos – tratados, cartas, arti- de displicência que lhe dá um caráter de
gos -, todos relacionados ao país, às suas ca- humildade deprimente. A pé, quando pa-
racterísticas regionais, geográficas e culturais. rado, recosta-se invariavelmente ao pri-
meiro umbral ou parede que encontra; a
Leia trechos da obra Os Sertões cavalo, se sofreia o animal para trocar
duas palavras com um conhecido, cai
A Terra logo sobre um dos estribos, descansando
sobre a espenda da sela.(...)
As caatingas Este contraste impõe-se ao mais
leve exame. Revela-se a todo o momento,
“Então, a travessia das veredas ser- em todos os pormenores da vida sertaneja
tanejas é mais exaustiva que a de uma - caracterizado sempre pela intercadência
estepe nua. Nesta, ao menos, o viajante impressionadora entre extremos impulsos
tem o desafogo de um horizonte largo e a e apatias longas.”
perspectiva das planuras francas.
Ao passo que a caatinga o afoga;
abrevia-lhe o olhar, agride-o e estonteia-o; A Luta
enlaça-o na trama espinescente e não o
atrai; repulsa-o com as folhas urticantes, Canudos
com o espinho, com os gravetos estalados
em lanças; e desdobra-se-lhe na frente lé- “Esta circunstância não pesou, porém,
guas e léguas, imutável no aspecto desola- no ânimo dos que se haviam abeirado tão
do: árvores sem folhas, de galhos estorcidos precipitadamente do centro das operações.
e secos, revoltos, entrecruzados, apontando Ao clarear da manhã de 28, reunidos
rijamente no espaço ou estirando-se flexuo- na posição dominante da artilharia, oficiais
sos pelo solo, lembrando um bracejar imen- e praças contemplavam, afinal, a “caverna
so, de tortura, da flora agonizante...” dos bandidos”, segundo o dizer pinturesco
das ordens do dia do comando-em-chefe.
Canudos crescera ainda, porém tendo
O Homem apenas mais amplo o aspecto primitivo: a
mesma casaria vermelha, de tetos de argi-
O sertanejo la, alargando-se cada vez mais esparsa pelo
alto das colinas em torno do núcleo compacto
“O sertanejo é, antes de tudo, um abraçado pela volta viva do rio. Circunvalada
forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos nos quadrantes de sudoeste e noroeste por
mestiços neurastênicos do litoral. aquele, abrangida ao norte e a leste pelas

Literatura 3 - Aula 1 8 Instituto Universal Brasileiro


linhas onde antes dos cerros, emergia a do escrivão Isaías Caminha (1909); Numa e
pouco e pouco, na claridade daquela hora a Ninfa (1915); Vida e Morte de M. J. Gonza-
matinal, com a feição perfeita de uma ci- ga de Sá (1919); Histórias e Sonhos (1920):
dadela de expugnacão dificílima. Perce- Cemitério dos vivos (1953). Lima Barreto foi
bia-se que um corpo de exército ao cair um autêntico escritor brasileiro.
no dédalo de sangas, que lhe enrugam
em rpda o terreno, marcharia como entre
galerias estreitas de uma praça de armas
colossal. Não havia lobrigar-se um ponto
francamente acessível.”

Muitas informações sobre a vida e a


obra de Euclides da Cunha, além de detalhes Leia um trecho da obra
sobre o período em que ele viveu na cidade de Triste fim de Policarpo Quaresma
São José do Rio Pardo, você encontra no site:
www.casaeuclidiana.org.br/ “Desde dezoito anos que o tal patrio-
tismo lhe absorbia e por ele fizera a tolice
de estudar inutilidades. Que lhe importa-
Lima Barreto vam os rios? Eram grandes? Pois que fos-
Afonso Henriques de sem... Em que lhe contribuía para a felicida-
Lima Barreto (1881-1922). de saber o nome dos heróis do Brasil? Em
Lima Barreto viveu uma nada... O importante é que ele tivesse sido
vida boêmia e solitária, feliz. Foi? Não. Lembrou-se das coisas do
no Rio de Janeiro. Suas tupi, do folk-lore, das suas tentativas agrí-
obras contaram experiên- colas... Restava disso tudo em sua alma
cias vividas por ele, além uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
de denúncias sobre a de- O tupi encontrou a incredulidade geral,
sigualdade social da época. Foi considerado o o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura.
romancista da Primeira República, pois mostra Uma decepção. E a agricultura? Nada. As ter-
em seus romances os principais acontecimen- ras não eram ferazes e ela não era fácil como
tos desse período. Em sua obra Recordações diziam os livros. Outra decepção. E, quando
do escrivão Isaías Caminha. Lima Barreto mos- o seu patriotismo se fizera combatente, o que
tra a luta contra o preconceito de cor. achara? Decepções. Onde estava a doçu-
ra de nossa gente? Pois ele a viu combater
como feras? Pois não a via matar prisionei-
Obras
ros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida
Sua principal obra foi Triste fim de Po- era uma decepção, uma série, melhor, um
encadeamento de decepções.
licarpo Quaresma, no qual relata a vida de
A pátria que quisera ter era um mito;
um funcionário público, nacionalista fanático,
um fantasma criado por ele no silêncio de
representado pela figura de Policarpo Qua-
seu gabinete.”
resma. Dentre os desejos absurdos desta
BARRETO, L. Triste fim de
personagem está o de resolver os proble- Policarpo Quaresma.
mas do país e o de oficializar o tupi como Disponível em: www.dominiopublico.gov.br.
língua brasileira. Outras obras: Recordações Acesso em: 8 nov. 2011.

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Monteiro Lobato

José Bento Re-


nato Monteiro Lobato
(1882-1948) é consi-
Lima Barreto nas telas! derado um dos mais
influentes escritores
TV. A vingança e a cobiça eram te- brasileiros de todos os
mas da novela Fera Ferida, trama basea- tempos. Contista, en-
da no universo ficcional de Lima Barreto. saísta e tradutor, este
grande nome da lite-
ratura brasileira nasceu na cidade de Taubaté,
interior de São Paulo, no ano de 1882. Forma-
do em Direito, atuou como promotor público
até se tornar fazendeiro, após receber herança
deixada pelo avô. Diante de um novo estilo de
vida, Lobato passou a publicar seus primeiros
contos em jornais e revistas, sendo que, poste-
riormente, reuniu uma série deles em Urupês,
obra prima deste famoso escritor.
Cinema. No filme, Policarpo Qua-
resma é um sonhador, um visionário que
ama seu país e deseja vê-lo tão grandioso,
quanto pode chegar a ser.

Além de escritor foi também editor

Em uma época em que os livros brasilei-


ros eram editados em Paris ou Lisboa, Monteiro
Lobato tornou-se também editor, fundando edi-
toras e passando a editar livros no Brasil. Com
isso, ele implantou uma série de renovações nos
livros didáticos e infantis. Foi autor de 13 títulos
com temas adultos e 17, com temas infantis.
Durante muitos anos, a obra de
Lima Barreto foi ignorada, ou discrimina-
da. Nas últimas décadas, entretanto, a Obras
crítica parece conferir ao escritor carioca
o valor que lhe cabe. Novas edições de O livro de contos
suas obras têm sido publicadas e muitos Urupês é considerado
de seus textos têm chegado ao cinema por muitos a obra-pri-
e à TV. Com base no conto Nova Cali- ma de Monteiro Lobato,
fórnia, a Rede Globo exibiu em 1993, a um clássico da literatu-
novela Fera Ferida, acrescido de pitadas ra brasileira. Mostra o
de outros romances do autor. Em 1998 choque entre o atraso
chegou ao cinema a obra Triste fim de da vida interiorana e a
Policarpo Quaresma, herói do Brasil, de tendência ao progresso
Paulo Thiago, com base no livro O Triste evidenciada nas grandes cidades. Alguns
Fim de Policarpo Quaresma. dos ingredientes utilizados no relato das

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histórias são: humor, mistério, suspense sem filhos, não a calejara o choro da car-
e, eventualmente, terror. Destaca-se ain- ne de sua carne, e por isso não suporta-
da o registro da linguagem coloquial nas va o choro da carne alheia. Assim, mal
falas dos personagens. As histórias que nele vagia, longe, na cozinha, a triste criança,
estão presentes retratam basicamente a ro- gritava logo nervosa:
tina do caipira que habita a região rural de - Quem é a peste que está chorando aí?
São Paulo, e revelam suas opiniões, hábitos, Quem havia de ser? A pia de lavar
memórias e símbolos. Elas têm algo mais em pratos? O pilão? O forno? A mãe da cri-
comum, um fim dramático e surpreendente. minosa abafava a boquinha da filha e
Estes contos nascem, quase sempre, da vi- afastava-se com ela para os fundos do
vência do autor na vida campestre, como quintal, torcendo-lhe em caminho belis-
fazendeiro. Urupês é a primeira produção cões de desespero.
literária de Lobato. As narrativas se passam - Cale a boca, diabo!”
com frequência na pequena cidade de Itao-
ca, região do interior de São Paulo. O último
enredo, Urupês, considerado o segundo ar- Precursor da literatura
tigo contido nesta obra, introduz a imagem infantil no Brasil
de Jeca Tatu, o sertanejo característico, len-
to, avesso ao trabalho, desprovido de cultu- Uma das obras infantis mais famo-
ra, desnecessário. Outras obras: As ideias sas foi o O Sítio do Pica-Pau Amarelo. Suas
de Mister Slang; Cidades mortas; O ferro; O personagens
petróleo; Negrinha; A onda verde; Mundo da mais conheci-
lua; O macaco que se fez homem. das são: Emília,
uma boneca de
Leia um trecho do conto Negrinha pano com sen-
timento e ideias
“Negrinha era uma pobre órfã de sete independen-
anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escu- tes; Pedrinho,
ra, de cabelos ruços e olhos assustados. personagem
Nascera na senzala, de mãe escrava, que o autor se
e seus primeiros anos vivera-os pelos can- identifica quan-
tos escuros da cozinha, sobre velha esteira do criança; Vis-
e trapos imundos. Sempre escondida, que conde de Sa-
a patroa não gostava de crianças. bugosa, a sabia espiga de milho que tem
Excelente senhora, a patroa. Gor- atitudes de adulto; Cuca, vilã que aterro-
da, rica, dona do mundo, a mimada dos riza a todos do sítio; Saci Pererê e ou-
padres, com lugar certo na igreja e ca- tras personagens que fazem parte dessa
marote de luxo reservado no céu. Enta- inesquecível obra, que até hoje encanta
ladas as banhas no trono (uma cadeira muitas crianças e adultos. Outras obras
de balanço na sala de jantar), ali borda- infantis: Fábulas; O Marquês de Rábico;
va, recebia as amigas e o vigário, dan- A caçada da onça; Viagem ao céu; Histó-
do audiências, discutindo o tempo. Uma rias do mundo para criança; Novas reina-
virtuosa senhora em suma - “dama de ções de Narizinho; Aritmética de Emília;
grandes virtudes apostólicas, esteio da Geografia de Dona Benta; Memórias de
religião e da moral”, dizia o reverendo. Emília; Serões de Dona Benta; Histórias
Ótima, a Dona Inácia. de tia Anastácia; O poço do Visconde; O
Mas não admitia choro de criança. Ai! minotauro; A chave do tamanho; Os doze
Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva trabalhos de Hércules.

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Augusto dos Anjos

Augusto de Car-
valho Rodrigues dos
Anjos (1884-1914). É
o poeta mais original
e único em seu gêne-
ro. Misturou Roman-
tismo com Realismo.
Inspirava-se nas ce-
nas cruas da vida, em
quadros de morte, de
agonias, de apodrecimento humano. É rara a
sua poesia onde não haja pus, matéria, podridão
etc. Chegou a descrever o cadáver de seu pai
sendo devorado por vermes. Mesmo se alguns
Histórias de Lobato chegam à TV. críticos colocam sua obra entre os simbolistas e
Em 1952, a TV Tupi exibiu a primeira ver- parnasianos, é considerado por outros um gran-
são do Sítio do Picapau Amarelo dentro de nome da poesia pré-modernista, por combi-
do programa Teatro Escola de São Paulo nar lirismo com cientificismo. Augusto dos Anjos
– TESP. A Pílula Falante, um dos capítu- deixou um grande legado para os poetas poste-
los do livro Reinações de Narizinho, foi a riores, sobretudo para os primeiros modernistas,
história escolhida para adaptar a obra de que se valeram do antilirismo e da antipoesia
Lobato. O sucesso conquistado por esta como elementos que propiciaram a ruptura com
exibição levou à produção da primeira sé- a tradição literária vigente até a segunda década
rie de TV, que estreou em 3 de junho de do século 20.
1952, reprisando o episódio A Pílula Fa-
lante. A série ficaria no ar por onze anos, Obras
encerrando em 1962 com um total de 360 Em suas obras, a tônica é a temá-
episódios. Em 1964, a TV Cultura produ- tica da morte e da podridão. O vocabu-
ziria uma nova versão que durou apenas lário utilizado pertence, em sua maio-
seis meses. Em 1967, estreou pela TV ria, às ciências biológicas. Os títulos de
Bandeirantes a terceira série do Sítio do suas obras são: Eu (1912); Eu e outros
Picapau Amarelo. Esta produção duraria poemas (1928).
três anos. Na década de 1970, a Rede
Globo investiu em uma nova adaptação Vejamos alguns de seus poemas
do Sítio do Picapau Amarelo. A primeira
versão foi reprisada várias vezes, sendo Versos íntimos
que três de suas histórias já foram lan-
çadas em DVD: Memórias da Emília, em Vês! Ninguém assistiu ao formidável
2008; O Minotauro, em 2009; e Reinações Enterro de tua última quimera.
de Narizinho, em 2010. Visto que a Globo Somente a Ingratidão - esta pantera -
disponibilizou uma história por ano, é de Foi tua companheira inseparável!
se presumir que em 2011 um novo DVD Acostuma-te à lama que te espera!
da série seja lançado. O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Texto adaptado de artigo de Fernanda Furquim, Necessidade de também ser fera.
disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/tempora- Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
das/series/series-brasil/series-classicas-o-sitio-do-
-picapau-amarelo/. Acesso em 10.03.2015. O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

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A mão que afaga é a mesma que apedreja. e coloquial para outros autores. Do con-
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, junto de romances publicados na época
pelos primeiros modernistas, surgem as
Apedreja essa mão vil que te afaga,
tendências que dentro de duas décadas,
Escarra nessa boca que te beija! agitavam como bandeiras: a perda do ca-
ráter sagrado do texto literário, a utilização
Psicologia de um vencido
de um português mais “brasileiro”, a crítica
à realidade social e econômica contempo-
rânea, retratando verdadeiramente o Brasil.
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância, Texto adaptado. Leia mais em: http://www.
Sofro, desde a epigênesis da infância, webartigos.com/artigos/o-pre-modernismo-e-o-
modernismo/60057/#ixzz434lJeyEI
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Pré-Modernismo (1902-1922)
Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas Contexto histórico pré-modernista
Come, e à vida em geral declara guerra,
na Europa e no Brasil

Pré-Modernismo é o nome que se dá


Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
ao período que compreende os 20 primei-
E há de deixar-me apenas os cabelos, ros anos do século 20, cujos textos come-
Na frialdade inorgânica da terra! çam a distanciar-se do Parnasianismo e do
Simbolismo e antecipam elementos que vão
caracterizar o movimento literário posterior.
Características literárias do Nesse período, no Brasil, poetas parnasia-
Pré-Modernismo no Brasil nos e simbolistas continuavam a produzir,
enquanto outros escritores começam a de-
O nacionalismo é uma das princi- senvolver o regionalismo e outros se voltam
pais características do Pré-Modernismo. para questões políticas e sociais. Por reunir
A primeira característica é a intenção de estilos diversos, com individualidades mui-
construir um Brasil “literário” que cor- to marcadas, diz-se que o Pré-Modernismo
responda à realidade do país, abando- não constitui uma escola literária.
nando as visões particularizadas da eli-
te e dos grandes centros urbanos. Os A novidade trazida pelo Pré-Mo-
textos pré-modernistas inovam quanto dernismo era o interesse pela realidade
à aproximação entre o momento históri- brasileira, pelo dia a dia dos brasileiros,
co vivido e a trama desenvolvida nos ro- trazendo obras de caráter social, com
mances. Um exemplo disto é o livro Os uma análise sobre essa realidade, algo
sertões, que foi publicado cinco anos diferente do que era apresentado. Outra
após o conflito da Guerra dos Canudos. novidade apontada era a busca de lin-
Diante a aproximação entre Literatura e guagem simples, muitas vezes ignoran-
realidade, a linguagem utilizada torna-se do as normas linguísticas da época.
mais direta, objetiva para uns, simples

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O cenário político no Monteiro Lobato (1882-1948)
Brasil e no mundo.
Escritor, editor, ensaísta e tradutor
A Primeira Guerra Mundial e a Repú- brasileiro. Em 1918 publica Urupês uma
blica do “café com leite” foram os momen- coletânea regionalista de contos e crô-
tos históricos que serviram de cenário para nicas. Já em 1919 publica Cidades Mor-
o Pré-Modernismo. No Brasil, a época foi tas livro de contos que retrata a queda
marcada por revoltas e conflitos sociais do Ciclo do Café. Um dos mais influen-
como a Guerra de Canudos, Revolta da tes escritores do século XX, Monteiro
Vacina, Revolta da Chibata. Lobato ficou muito conhecido por suas
obras infantis de caráter educativo
Principais autores pré-modernistas como, por exemplo, a série de livros do
Sítio do Picapau Amarelo.

Augusto dos Anjos

Grande poeta, tem sua obra é


marcada pelo pessimismo, pela an-
gústia e pelo medo. É considerado um
poeta de transição à procura de novos
caminhos. Falou sobre morte e decom-
posição da matéria, usando um voca-
Vários escritores brasileiros que bulário científico. Sua obra está reu-
surgiram nessa época adotaram uma nida no livro Eu (1912). Augusto dos
postura mais crítica diante dos problemas Anjos deixou um grande legado para os
sociais. Através de seus escritos, Euclides poetas posteriores, sobretudo para os
da Cunha, Monteiro Lobato, Graça Ara- primeiros modernistas, que se valeram
nha e Lima Barreto investigaram e ques- do antilirismo e da antipoesia como ele-
tionaram a realidade brasileira. mentos que propiciaram a ruptura com
a tradição literária vigente até a segun-
Euclides da Cunha (1866-1909) da década do século 20.

Escritor, poeta, ensaísta, jornalista, his- Características literárias do


toriador, sociólogo, geógrafo, poeta e enge- Pré-Modernismo no Brasil
nheiro brasileiro. Colaborador do Jornal “O
Estado de S. Paulo”, em 1887 foi para Ca- O nacionalismo é uma das principais
nudos cobrir a rebelião. Publicou Os Sertões características do Pré-Modernismo. A pri-
em 1902, obra regionalista, dividida em três meira característica é a intenção de cons-
partes: “A Terra”, “O Homem”, “A Luta”; retra- truir um Brasil “literário” que corresponda à
ta a vida do sertanejo e a Guerra de Canu- realidade do país, abandonando as visões
dos (1896-1897) no interior da Bahia. particularizadas da elite e dos grandes cen-
tros urbanos. Os textos Pré-Modernistas
Lima Barreto (1881-1922) inovam quanto à aproximação entre o mo-
mento histórico vivido e a trama desenvolvi-
Jornalista, cronista, contista e escre- da nos romances.
veu romances. Suas obras possuem o rela-
to realista da sociedade carioca do início do Texto adaptado. Leia mais em: http://www.
webartigos.com/artigos/o-pre-modernismo-e-o-mode
século. Seu estilo é simples e comunicativo.
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Literatura 3 - Aula 1 14 Instituto Universal Brasileiro


3. (FCC-BA. Adaptada) Obra pré-mo-
dernista cheia de informações histórias e
científicas, primeira grande interpretação
da realidade brasileira, que, buscando com-
preender o meio áspero em que vivia o ja-
1. Assinale as afirmativas corretas sobre o gunço nordestino, denunciava uma campa-
Pré-Modernismo. nha militar que investia contra o fanatismo
religioso advindo da miséria e do abandono
I - É considerada literatura Pré-Moder- do homem do sertão. Trata-se de:
nista tudo o que, nas primeiras décadas do
século 20, problematiza a realidade social e a) ( ) O sertanejo, de José de Alencar.
cultural do Brasil. b) ( ) Pelo sertão, de Afonso Arinos.
c) ( ) Os Sertões, de Euclides da Cunha.
II - A busca por uma linguagem mais d) ( ) Grande Sertão: veredas, de Gui-
simples e coloquial é uma das preocupa- marães Rosa.
ções dos escritores pré-modernistas.
4. Na poesia, um dos principais represen-
III - O período pré-modernista foi mar- tantes do Pré-Modernismo foi ______________
cado pela convivência entre várias tendên- que se destacou pela originalidade e pelo
cias artísticas, ocasionando uma espécie __________________ de sua única obra publi-
de sincretismo cultural. cada em vida, o livro Eu.

a) ( ) I e II a) ( ) Manuel Bandeira / lirismo.


b) ( ) I e III b) ( ) Augusto dos Anjos / antilirismo.
c) ( ) II e III c) ( ) Olavo Bilac / lirismo.
d) ( ) I, II e III d) ( ) Oswald de Andrade / antilirismo.

2. (UFR-RJ) O autor de Triste fim de Poli- 5. Apesar de ter feito grande sucesso
carpo Quaresma é um pré-modernista que abor- com as obras de literatura infantil, Montei-
da em seus romances a vida simples dos pobres ro Lobato, em um de seus livros de contos,
e dos mestiços. Reveste seu texto com a lingua- aborda a problemática do povo brasileiro, re-
gem descontraída dos menos privilegiados so- ferindo-se às péssimas condições de vida do
cialmente. O autor descrito é: caboclo desprovido de perspectivas de mu-
danças sociais e culturais. O livro em questão
é intitulado:

a) ( ) Urupês
b) ( ) Negrinha
c) ( ) Cidades Mortas
d) ( ) A onda verde

a) ( ) Euclides da Cunha
b) ( ) Graça Aranha
c) ( ) Lima Barreto
d) ( ) Graciliano Ramos
Literatura 3 - Aula 1 15 Instituto Universal Brasileiro
blemas humanos e revelar a face trágica da
nação brasileira.

4. b) ( x ) Augusto dos Anjos / anti-


lirismo.
1. d) ( x ) I, II e III
Comentário. O poeta pré-modernista
Comentário. As afirmativas I, II e III es- em questão é Augusto dos Anjos. O conceito
tão corretas. Uma das principais tendências de antilirismo aqui se refere a uma contrapo-
do período pré-modernista foi uma convivên- sição intencional ao lirismo que caracterizava
cia entre diferentes produções literárias que ti- a tradição literária. O antilirismo e a ruptura
nham em comum a problemática da realidade com os padrões literários da época podem
social e cultural do Brasil (I); traduzida em lin- ser considerados parte do grande legado que
guagem simples e coloquial (II). O Pré-Moder- o poeta Augusto dos Anjos deixou para os
nismo não chega a constituir uma escola lite- movimentos literários posteriores.
rária pelo fato de reunir estilos diversos, com
individualidades muito marcadas, ocasionan- 5. a) ( x ) Urupês
do uma espécie de sincretismo cultural (III).
Comentário. A obra em questão é Uru-
2. c) ( x ) Lima Barreto pês, publicada em 1918, reúne 14 contos de
Monteiro Lobato. Apesar de Urupês ser uma
Comentário. O romance Triste fim de das cidades do Vale do Paraíba, os contos se
Policarpo Quaresma foi escrito por Lima Bar- passam numa localidade fictícia: Itaoca. A te-
reto, sendo publicado em 1911 em folhetins mática evidencia o choque entre o atraso da
no Jornal do Comercio; e, em 1915, em for- vida interiorana e a tendência ao progresso
mato de livro. Nesse e em outros romances evidenciada nas grandes cidades, com des-
de Lima Barreto observa-se uma crítica tanto taque para o registro da linguagem coloquial
à sociedade como à linguagem rebuscada, nas falas das personagens. No último conto,
traço que revela a postura moderna do es- que dá nome ao livro, o personagem do cabo-
critor. Por seu estilo coloquial, despojado e clo Jeca Tatu representa toda a miséria e atra-
fluente, Lima Barreto antecipou elementos li- so econômico do país de então, e o descaso
terários que posteriormente seriam encontra- do governo em relação ao Brasil rural. A onda
dos também no Modernismo. Destacam-se verde tem como temática o café, cultura que
na obra de Lima Barreto o retrato do Brasil se espalhou como uma onda. Cidades Mor-
da Primeira República e a luta contra o pre- tas retratada a decadência do Vale do Paraíba
conceito racial. com a queda do ciclo do café; curiosamente,
Urupês seria uma dessas cidades. Em Negri-
3. c) ( x ) Os Sertões, de Euclides da nha, os personagens já são mais urbanos.
Cunha.

Comentário. Apesar da semelhan-


ça entre os títulos das obras apresentadas,
dentre os autores, o único considerado pré-
modernista é Euclides da Cunha. Os demais
fazem parte de períodos literários distintos:
José de Alencar, Romantismo; Afonso Arinos,
Realismo; Graciliano Ramos, Modernismo.
Euclides da Cunha, com a obra Os Sertões,
ultrapassa o relato meramente documental
da batalha de Canudos para fixar-se em pro-
Literatura 3 - Aula 1 16 Instituto Universal Brasileiro

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