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AULA 5

Pós-Modernismo
Corresponde à 3ª fase do Modernismo, conhecida como Geração de 45 ou
Pós-Modernismo. Não há um consenso a respeito de seu término. Alguns es-
tudiosos afirmam que essa fase vai até 1960, enquanto outros, 1980. Há ainda
os que consideram sua continuidade em produções contemporâneas.

Pós-modernismo: novas tendências na prosa e na poesia

Estátua de Clarice Lispector, Praia do Leme, Rio de Janeiro

Pós-modernismo na obra de Clarice Lispector (1920-1977)

Surgido no contexto do fim da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria, o conceito de Pós-
-Modernismo ainda não é muito claro para os especialistas, dada a diversidade desse período. Em-
bora com propostas diversas, a partir da década de 1940, surgiu no Brasil uma geração de escritores
marcada pela experimentação e pela pesquisa estética. Um dos expoentes deste período é a prosa-
dora Clarice Lispector que aborda o imprevisto e rompe o rotineiro.
Essa experiência literária chocou críticos e leitores quando a autora, em 1943, publicou Perto
do coração selvagem, obra distante dos pressupostos do Neorrealismo brasileiro. A literatura de
Clarice é marcada pela transgressão, ruptura e inquietação diante da automatização que amortece
a vida. A autora aproximou-se do indizível, daquilo que a palavra não representa, na tentativa de
capturar o agora, mesmo tendo consciência de seu óbvio fracasso.
“A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano”, citação colhida
de Uma aprendizagem ou livro dos prazeres (1969), já lança a questão que pode nortear um olhar sobre
a obra de Clarice Lispector: a necessidade de “tornar-se um ser humano”. Esse necessitar ser o que se é
pode ser interpretado como procura que movimenta toda obra da escritora brasileira.

Literatura 3 - Aula 5 71 Instituto Universal Brasileiro


Pós-Modernismo
Novas tendências na poesia e na prosa Prosa
A prosa desse período dá continuidade
Pós-modernismo. É o nome dado a várias tendências que já vinham se desen-
às mudanças que começam a ocorrer nas volvendo na segunda fase do Modernismo.
ciências, nas artes e nas sociedades des- Observa-se, porém, que ocorre uma renova-
de 1945. Surge com a arquitetura e a com- ção formal com a chamada prosa intimista,
putação nos anos 50. Toma corpo com a em que se faz a análise do mundo interior
arte Pop nos anos 60. Cresce ao entrar das personagens em textos bastante com-
pela filosofia, durante os anos 70, como plexos. A principal representante dessa ten-
crítica da cultura ocidental. E amadurece dência é Clarice Lispector. Há também a
hoje, alastrando-se na moda, no cinema, prosa regionalista que, iniciada no século
na música e no cotidiano programado pela 19 no Romantismo, chega a seu ponto máxi-
ciência e tecnologia invadindo o cotidiano, mo de inovação e ousadia com Guimarães
sem que ninguém saiba se é decadência Rosa, que é considerado o grande renova-
ou renascimento cultural. dor de nosso regionalismo.

Clarice Lispector (1925-1977)

Clarice Lispector nasceu no dia 10 de


dezembro de 1925 na aldeia de Tchetche-
nilk, na Ucrânia. No ano seguinte, veio com
Andy Warhol (1928-1987) é consi- a família para o Brasil e nunca mais voltou à
derado um dos ícones do pós-modernis- aldeia natal. Foram morar em Recife, onde
mo com sua Pop Art entre as décadas de Clarice passou a infância. Quando tinha 12
1950 e 1960. O pós-modernismo invadiu o anos, mudaram-se-se para o Rio de Janei-
cotidiano com a tecnologia eletrônica em ro. Em 1944, então com 19 anos, publicou
massa e individual, a saturação de infor- o seu primeiro livro: Perto do coração selva-
mações, diversões e serviços, causando gem, que foi muito bem recebido pela crítica.
um “rebu” pós-moderno. Foco na capa- Seus textos pertencem à tendência intimista
cidade de consumo, estilos de vida e de da literatura, caracterizando-se pelo questio-
filosofias, a utilização de bens e serviços, namento do ser, pela reflexão sobre o estar
para que as pessoas se entreguem ao no mundo.
presente e ao prazer. Destacam-se a apresentação psicológi-
ca das personagens, o tempo psicológico, já
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que o narrador segue o fluxo do pensamento
das personagens - e o conflito entre a perso- para não deixar de vir”, dissera ela a Zil-
nagem e o contexto social. da, e em seguida sentara-se ofendida.
As duas mocinhas de cor-de-rosa e o
Sua obra é marcada por antíteses, menino, amarelos e de cabelo pentea-
pela oscilação entre o ser e o não-ser, en- do, não sabiam bem que atitude tomar
tre o eu e o não-eu. e ficaram de pé ao lado da mãe, impres-
sionados com seu vestido azul-marinho
De sua obra, destacamos os romances e com os paetês.
Perto do coração selvagem (1944), O lustre Depois veio a nora de Ipanema com
(1946), A maçã no escuro (1961), A paixão se- dois netos e a babá. O marido viria depois.
gundo G.H. (1964), Uma aprendizagem ou O E como Zilda - a única mulher entre os seis
livro dos prazeres (1969), Água viva (1973), A irmãos homens e a única que, estava de-
hora da estrela (1977). Contos: Laços de fa- cidido já havia anos, tinha espaço e tempo
mília (1960), A legião estrangeira (1964), Fe- para alojar a aniversariante - e como Zilda
licidade Clandestina (1971), Imitação da rosa estava na cozinha a ultimar com a empre-
(1973), A via-crúcis do corpo. Escreveu ainda gada os croquetes e sanduíches, ficaram:
literatura infantil: O mistério do coelhinho pen- a nora de Olaria empertigada com seus fi-
sante (1967), A mulher que matou os peixes lhos de coração inquieto ao lado; a nora
(1968), A vida íntima de Laura (1 974) e Qua- de Ipanema na fila oposta das cadeiras
se de verdade (1978). fingindo ocupar-se com o bebê para não
encarar a concunhada de Olaria; a babá
Trecho: “Feliz Aniversário” (In: La- ociosa e uniformizada, com a boca aberta.
ços de Família) E à cabeceira da mesa grande a
“A família foi pouco a pouco chegan- aniversariante que fazia hoje oitenta e
do. Os que vieram de Olaria estavam muito nove anos.”
bem vestidos porque a visita significava ao
mesmo tempo um passeio a Copacabana. Guimarães Rosa
A nora de Olaria apareceu de azul-mari-
nho, com enfeite de paetês e um drapeado
disfarçando a barriga sem cinta. O marido
não veio por razões óbvias: não queria ver
os irmãos. Mas mandara sua mulher para
que nem todos os laços fossem cortados
- e esta vinha com o seu melhor vestido
para mostrar que não precisava de ne-
nhum deles, acompanhada dos três filhos:
duas meninas já de peito nascendo, infan-
tilizadas em babados cor-de-rosa e aná-
guas engomadas, e o menino acovardado
pelo terno novo e pela gravata.
Tendo Zilda - a filha com quem a João Guimarães Rosa nasceu no dia
aniversariante morava - disposto cadeiras 27 de Junho de 1908 em Cordisbugo, Mi-
unidas ao longo das paredes, como numa nas Gerais. Passou a infância nessa cidade
festa em que se vai dançar, a nora de Ola- e depois foi para Belo Horizonte, onde fez o
ria, depois de cumprimentar com cara fe- curso secundário e a Faculdade de Medicina.
chada aos de casa, aboletou-se numa das Publicou seu primeiro livro em 1946, o livro
cadeiras e emudeceu, a boca em bico, de contos Sagarana, com o qual se iniciou a
mantendo sua posição de ultrajada. “Vim renovação do regionalismo. Há uma valoriza-
ção da linguagem regional, recriando-a com
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o uso de neologismos e a valorização da fala
do sertanejo. forte atração por Diadorim - que é cor-
Guimarães Rosa conseguiu também respondida - e isso desperta nele enor-
uma universalização do regional com a am- mes conflitos.
pliação de temas particulares e, ao mesmo No desenrolar da história, o grupo
tempo, o tratamento de questões universais de Riobaldo vence os inimigos. Porém,
como vida e morte, Deus e Diabo, Bem e Mal, Reinaldo/Diadorim é assassinado.
o amor e a violência, a partir de situações que Quando Riobaldo assiste à prepara-
envolvem o sertão e o sertanejo. Tratou assim ção do corpo de Diadorim para o enterro,
de problemas que afligem o ser humano em tem a revelação de que Diadorim era uma
qualquer tempo e lugar. mulher, filha de Joca Ramiro, que estava
Em seus textos, o sertão equivale ao disfarçada para vingar a morte do pai.
próprio universo. Seus textos são narrados Riobaldo então abandona a vida de
como se estivesse “contando casos” e ele jagunço e vai viver como fazendeiro, es-
explora o ritmo, usa muitas aliterações e in- tando sempre atormentado pela dúvida
terrogações. sobre a existência do Diabo e sobre a
possibilidade de se fazer o pacto.
Guimarães Rosa foi devidamente re- A narração dos fatos não obedece
conhecido como escritor com a publicação a ordem cronológica pois é feita a partir
de Grande sertão: veredas (1956). Con- das lembranças de Riobaldo. Ao contá-
siderada uma das principais da literatura -los, ele faz uma reflexão sobre os mis-
brasileira contemporânea, a obra foi cons- térios da vida.
truída a partir de casos, histórias curtas e [Diadorim conta um segredo a Rio-
anedotas. baldo]
Outras obras de Guimarães Rosa são: - “Riobaldo, pois tem um particular
Primeiras estórias (1962), Tutaméia: tercei- que eu careço de contar a você, e que
ras estórias (1967), Estas estórias (1969), esconder mais não
Ave palavra (1970), todos livros de contos. posso... Escuta; eu não me chamo
Reinaldo, de verdade.
Trechos do romance Grande ser- Este é nome apelativo, inventado
tão: veredas por necessidade minha, carece de você
não me perguntar por quê. Tenho meus
“Riobaldo, ex-jagunço, agora um fa- fados. A vida da gente faz sete voltas - se
zendeiro na região do rio São Francisco, diz. A vida nem é da gente...”
relata a uma personagem não identifica- Ele falava aquilo sem rompante e
da sua vida como jagunço no norte de sem entonos, mais antes com pressa,
Minas e no sul da Bahia. Ele foi chefe de quem sabe se com tico de pesar e vergo-
um bando e tinha como objetivo destruir nhosa suspensão.
Hermógenes - líder do bando inimigo e - “Você era menino, eu era menino...
responsável pelo assassinato à traição Atravessamos o rio de canoa... Nos
do ex-chefe dos jagunços, Joca Ramiro, topamos naquele porto. Desde aquele dia
o que ele quer vingar. é que somos amigos”.
Para alcançar seu objetivo, Riobal- Que era, eu confirmei. E ouvi:
do teria feito um pacto com o Diabo, ofe- - “Pois então: o meu nome, verda-
recendo sua alma em troca. deiro, é Diadorim... Guarda este meu se-
Paralelamente a isso, desenvolve- gredo. Sempre, quando sozinho a gente
se uma grande amizade entre Riobaldo e estiver, é de Diadorim que você deve de
Reinaldo, um dos jagunços do grupo, co- me chamar, digo e peço, Riobaldo...”
nhecido como Diadorim. Riobaldo sente Assim eu ouvi, era tão singular. Muito

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fiquei repetindo em minha mente as pala-
vras, modo de me acostumar com aquilo.
E ele me deu a mão. Daquela mão, eu re-
cebia certezas. Dos olhos. Os olhos que
ele punha em mim, tão externos, quase
tristes de grandeza. Deu alma em cara.
Adivinhei o que nós dois queríamos - logo
eu disse: - “Diadorim.,.
Diadorim” - com uma força de afeição.
Ele sério sorriu. E eu gostava dele,
gostava, gostava. Aí tive o fervor de que
ele carecesse de minha proteção, toda
a vida: eu terçando, garantindo, punin- A minissérie Grande Sertão: Veredas
do por ele. Ao mais os olhos me pertur- (1985), exibida na Rede Globo de televisão,
bavam; mas sendo que não me enfra- destaca os laços afetivos entre os jagunços
queciam. Diadorim. Solse-pôr, saímos Riobaldo e Reinaldo, tendo a disputa pela ter-
e tocamos dali, para o Canabrava e o ra como o grande tema da narrativa.Riobaldo
Barra. Aquele dia fora meu, me perten- (Tony Ramos) é um ex-jagunço que ao re-
cia, íamos por um plâino de varjas; lua passar sua trajetória, ele se lembra do amigo
lá vinha. Alimpo de lua. de infância Diadorim (Bruna Lombardi), que
Visinhança do sertão - esse Alto-Nor- fazia parte do bando.
te brabo começava. - Estes rios têm de
correr bem! eu de mim dei. Sertão é isto, o
senhor sabe; tudo incerto, tudo certo. Dia Poesia
da lua. O luar que põe a noite inchada. Além dos autores de fases anteriores que
Reinaldo, Diadorim, me dizendo seguiram escrevendo e se renovando, surge um
que este era real o nome dele - foi como grupo de escritores que se autodenominaram
dissesse notícia do que em terras longes “Geração de 45”: Péricles Eugênio da Silva Ra-
se passava. Era um nome, ver o que. mos, Ledo Ivo, Paulo Bonfim, Geir Campos, Thia-
Que é que é nome? Nome não dá: go de Mello. Esses poetas fundaram duas revis-
nome recebe. Da razão desse encoberto, tas para divulgar a sua obra: a Revista Brasileira
nem resumi curiosidades. de Poesia, em São Paulo, e a revista Orfeu, no
Caso de algum crime arrependido, Rio de Janeiro. A poesia desses autores carac-
fosse, fuga de alguma outra parte; ou teriza-se pelo abandono do verso livre e pela re-
devoção a um santo forte. Mas haven- tomada da versificação e da linguagem precisa.
do o que ele querer que só eu-soubes- Por esses procedimentos, alguns críticos chama-
se, e que só eu esse nome verdadei- ram esse grupo de poetas neoparnasianos.
ro pronunciasse. Entendi aquele valor. Há autores de destaque neste período que
Amizade nossa ele não queria aconte- não pertenceram à chamada “Geração de 45”.
cida simples, no comum, sem enlaço. E Lembrando que o termo “geração” não é em-
amizade dele, ele me dava. E amizade pregado aqui de forma muito precisa, pois esse
dada é amor. Eu vinha pensando, feito grupo não é homogêneo. Trata-se de João Ca-
toda a alegria em brados pede: pensan- bral de Melo Neto, que desenvolveu sua obra
do por prolongar. Como toda a alegria, de forma muito particular e segue até hoje como
no mesmo do momento, abre saudade. nosso maior poeta vivo; e Manoel de Barros que
Até aquela - alegria sem licença, nasci- pertence cronologicamente à “Geração de 45”,
da esbarrada. Passarinho cai de voar, mas tem uma obra personalizada que o torna
mas bate suas asinhas no chão.” um dos mais aclamados poetas brasileiros da
contemporaneidade nos meios literários.
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João Cabral de Melo Neto (1920-1999)
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia
tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
Sua obra poética, que vai de uma ten-
dência surrealista até a poesia popular, porém 2. E se encorpando em tela, entre
caracterizada pelo rigor estético, com poemas todos,
avessos a confessionalismos e marcados pelo se erguendo tenda, onde entrem
uso de rimas toantes, inaugurou uma nova for- todos,
ma de fazer poesia no Brasil. De forma geral, a se entretendendo para todos, no toldo
poesia de João Cabral caracterizou-se pela ob- (a manhã) que plana livre de armação.
jetividade, por um olhar sobre a realidade na ten- A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
tativa de desvendá-la. Volta-se para os objetos, que, tecido, se eleva por si: luz balão.
as paisagens, os fatos sociais, evita a exposição
(In: A educação da pedra)
do eu e jamais se vale do sentimentalismo.
João Cabral de Melo Neto foi o autor
de Morte e Vida Severina, poema dramático
que o consagrou. Morte e Vida Severina

Seus principais temas são: o Nordeste “O meu nome é Severino,


com sua gente, suas tradições e seus proble- como não tenho outro da pia.
mas; a Espanha e suas paisagens: e a própria Como há muitos Severinos,
arte, escrevendo sobre pintores, sobre outros que é santo de romaria,
poetas e sobre o processo de criação artísti- deram então de me chamar
ca. Sua linguagem é enxuta e concisa como Severino de Maria.
a linguagem do sertanejo.Obras de João Ca- Como há muitos Severinos
bral de Melo Neto: Pedra do Sono, 1942; O com mães chamadas Maria,
Engenheiro, 1945; O Rio, 1954; Psicologia fiquei sendo o da Maria
da Composição, 1947; O Cão Sem Plumas, do finado Zacarias.”
1950; Morte e Vida Severina, 1956; Uma Faca (...)
Só Lâmina, 1956; Quaderna, 1960; Dois Par- “Somos muitos Severinos
lamentos, 1961; Terceira Feira, 1961; Poemas iguais em tudo na vida,
escolhidos, 1963; A Educação Pela Pedra, morremos de morte igual,
1966; Museu de Tudo, 1976; A Escola das Fa- mesma morte severina:
cas, 1980; Agreste, 1985; O Crime na Calle que é a morte de que se morre
Relator, 1987; Sevilha Andando, 1989. de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
Trechos de alguns poemas: de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
Tecendo a Manhã é que a morte severina
1. Um galo sozinho não tece uma ataca em qualquer idade,
manhã: e até gente não nascida).”

Literatura 3 - Aula 5 76 Instituto Universal Brasileiro


Os poemas

Os poemas são pássaros que che-


gam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada
par de mãos
Filme Morte e Vida Severina - Na- e partem.
cional. Sinopse: Retirante nordestino E olhas, então, essas tuas mãos va-
atravessa o Agreste e a Zona da Mata fu- zias,
gindo da seca e esperando encontrar em no maravilhoso espanto de saberes
Recife uma vida melhor. Adaptação do po- que o alimento deles já estava em ti...
ema de João Cabral de Melo Neto, musi-
cado por Chico Buarque de Hollanda. O tempo

Mario Quintana (1906-1994) A vida é o dever que nós trouxemos


para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da
nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser repro-
vado...
Se me fosse dado um dia, outra opor-
O ano de 1934 marca a primeira publica- tunidade, eu nem olhava o relógio.
ção de uma tradução de sua autoria: Palavras Seguraria o amor que está a minha
e Sangue, de Giovanni Papini. Em 1962, sob frente e diria que eu o amo...
o título Poesias, reúne em um só volume seus E tem mais: não deixe de fazer algo de
livros A Rua dos Cataventos, Canções, Sapato que gosta devido à falta de tempo.
Florido, Espelho Mágico e O Aprendiz de Feiti- Não deixe de ter pessoas ao seu lado
ceiro. O lirismo, a simplicidade, o bom humor, por puro medo de ser feliz.
a linguagem coloquial, a ironia são traços de A única falta que terá será a desse tem-
sua obra. Ao mesmo tempo, é considerado um po que, infelizmente, nunca mais voltará.
autor multifacetado em que se alternam carac-
terísticas do romantismo e do realismo fantás- Poeminha do Contra
tico, com toques surrealistas que remetem ao
mundo dos sonhos. O poeta Mario Quintana, Todos estes que aí estão
apesar da cronologia com os autores da gera- Atravancando o meu caminho,
ção de 45, ganha contornos de contemporanei- Eles passarão.
dade pela extrapolação da linguagem a partir Eu passarinho!
de aparentes simplicidades.
Literatura 3 - Aula 5 77 Instituto Universal Brasileiro
Manoel de Barros (1916-2014)
artes e nas sociedades desde 1945. O Pós-Mo-
dernismo na literatura brasileira consiste num pe-
ríodo em que os autores apresentam um amadu-
recimento, tanto na poesia quanto na prosa.

Prosa
Ocorre uma renovação formal com a cha-
mada prosa intimista de Clarice Lispector. Há tam-
bém a prosa regionalista de Guimarães Rosa.
Clarice Lispector - continuou com o inti-
mismo de Cecília Meireles. O principal eixo de
sua obra é o questionamento do ser, a pesqui-
Pertencente a geração de escritores de sa do ser humano, resultando num romance
mais introspectivo.
45 ou pós-modernistas, Manoel de Barros é
João Guimarães Rosa - autor conside-
considerado um dos maiores poetas do sécu- rado um bruxo das palavras por apresentar uma
lo 20, importância que se estende até o século linguagem repleta de arcaísmos, neologismo,
21. Suas obras possuem um universo próprio e enfim as mais variadas expressões. Criador de
linguagem profunda, o que exige atenção para uma prosa universal, em que o sertão é palco
sua interpretação. A marca de oralidade no fazer para discussão de dramas humanos, narrados
poético de Manoel de Barros é uma das prin- em linguagem poética e inventiva.
cipais características do autor. Esses recursos
são ferramentas utilizadas pelo escritor a fim de Poesia
que as possibilidades expressivas e comunicati- Destacam-se: João Cabral de Melo
vas sejam, de fato, acessíveis a todos. Neto e Manoel de Barros. A partir de 1950
surgiram várias tendências chamadas van-
guardas poéticas.
Os deslimites da palavra
João Cabral de Melo Neto - caracteriza-
se pela objetividade na constatação da realidade.
Ando muito completo de vazios.
Constrói uma poesia calculada, utiliza-se de uma
Meu órgão de morrer me predomina.
linguagem enxuta e concisa. Sua obra caracteri-
Estou sem eternidades.
za-se pelo rigor formal, pelo equilíbrio e pela bus-
Não posso mais saber quando amanheço
ca da significação máxima da palavra.
ontem.
Mario Quintana - apesar da cronolo-
Está rengo de mim o amanhecer.
gia com os autores da geração de 45, ga-
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
nha contornos de contemporaneidade pela
Atrás do ocaso fervem os insetos.
extrapolação da linguagem a partir de apa-
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
rentes simplicidades.
destino.
Manoel de Barros - considerado um dos
Essas coisas me mudam para cisco.
maiores poetas do século 20. Suas obras pos-
A minha independência tem algemas.
suem um universo próprio e linguagem profun-
da, o que exige atenção para sua interpreta-
ção. A marca de oralidade no fazer poético de
Manoel de Barros é uma das principais carac-
terísticas do autor.

Principais Características da Poesia :


Pós-Modernismo - Maior apuro do verso;
- Mais ênfase na palavra, no ritmo, na rima;
Novas tendências na poesia e na prosa - Tendência para uma arte mais racional,
cerebral, às vezes até hermética;
Pós-modernismo. É o nome dado às mu- - Busca do regionalismo temático e do uni-
danças que começam a ocorrer nas ciências, nas versalismo.

Literatura 3 - Aula 5 78 Instituto Universal Brasileiro


posição de João Cabral de Melo Neto e assi-
nale a alternativa que indica corretamente o
tema do poema.

É mineral o papel
1. Nas afirmativas abaixo, coloque (C) onde escrever
para as corretas (I) para as incorretas e assinale o verso; o verso
a alternativa correspondente. que é possível não fazer.

( ) As manifestações literárias que São minerais


ocorreram a partir de 1945 recebem a deno- as flores e as plantas,
minação geral de 3ª geração do Modernis- as frutas, os bichos
mo ou Pós-Modernismo. quando em estado de palavra.
( ) Guimarães Rosa é considerado
o renovador do regionalismo, narrando dra- (...)
mas humanos em linguagem poética e in-
ventiva. É mineral, por fim,
( ) Clarice Lispector caracterizou-se qualquer livro:
por retratar o sertanejo e os problemas no que é mineral a palavra
Nordeste em seus poemas. escrita, a fria natureza
( ) João Cabral de Melo Neto
trata em seus poemas do Nordeste e da palavra escrita.
da Espanha, numa linguagem enxuta e
concisa. a) ( ) Natureza, o autor critica a explora-
ção mineral.
a) ( ) C – I – C – C b) ( ) Vida, o autor fala sobre Minas Ge-
b) ( ) C – C – I – C rais e suas riquezas naturais.
c) ( ) I – C – C – C c) ( ) Seca, o autor critica o tratamento
d) ( ) C – C – C – I dado à questão social no Brasil.
d) ( ) Criação poética, o autor mate-
2. Entre as principais obras literárias da rializa as coisas do mundo na escrita do
prosa pós-modernista estão: poema.

I. Grande sertão: veredas, de João 4. Observe o estilo da descrição feita no


Guimarães Rosa. trecho abaixo e, de acordo com suas caracterís-
II. Memórias sentimentais de João Mi- ticas literárias, identifique o autor ou a autora em
ramar, de Oswald de Andrade. destaque.
III. Perto do coração selvagem, de Cla-
rice Lispector. “Sou um ser humano. (...) sou mais
IV. Amar, verbo intransitivo, de Mário saudável do que muita gente pensa. (...) Eu
de Andrade. acho que escrevendo, a gente entende o
V. Grande Sertão: Veredas, de Guima- mundo mais um pouquinho do que não es-
rães Rosa. crevendo. Não sei classificar a minha obra.
Em cada livro eu renasço. E experimento o
a) ( ) I, III e V gosto do novo.”
b) ( ) II e IV
c) ( ) II, III e V a) ( ) João Cabral de Melo
d) ( ) I e V b) ( ) Clarice Lispector
c) ( ) Guimarães Rosa
3. Leia este trecho de Psicologia da Com- d) ( ) Rachel de Queiroz
Literatura 3 - Aula 5 79 Instituto Universal Brasileiro
Comentário. Em sua obra poética, João
Cabral aborda a temática da criação poética.
Neste trecho do poema Psicologia da Compo-
sição, o conceito “mineral” é usado como uma
metáfora para referir-se à “materialidade” do
1. b) ( x ) C – C – I – C poema, como são “minerais” as coisas do mun-
do que o poeta interpreta ou coloca em “estado
Comentário. Confira: Clarice Lispec- de palavra”. Com a “mineralização”, João Ca-
tor é representante da prosa e não da poesia bral associa a palavra ao mesmo universo da
pós-modernista. Escreveu romances que se “pedra”, de natureza fria e destituída de senti-
caracterizam pela tendência intimista e pela mentos. O que pode ser verificado nos versos:
reflexão sobre o ser humano. Portanto, afir- “São minerais as flores e as plantas, as frutas,
mativa incorreta (I). As demais afirmativas es- os bichos quando em estado de palavra. É mi-
tão absolutamente corretas (C)! neral a linha do horizonte, nossos nomes, es-
sas coisas feitas de palavras. É mineral, por fim,
( C ) As manifestações literárias que qualquer livro: que é mineral a palavra escrita,
ocorreram a partir de 1945 recebem a deno- a fria natureza da palavra escrita”. Observe que
minação geral de 3ª geração do Modernis- para João Cabral tudo é mineral – as plantas,
mo ou Pós-Modernismo. os bichos, nossos nomes, as palavras etc. Isso
( C ) Guimarães Rosa é considerado significa que a “mineralização” remete à nature-
o renovador do regionalismo, narrando dra- za mais sólida e se aproxima da criação poética
mas humanos em linguagem poética e in- objetiva, e não subjetiva. Para o Poeta, tudo que
ventiva. existe enquanto palavra é sólido, frio, “mineral”
( I ) Clarice Lispector caracterizou- como a pedra. Até mesmo o papel, morada da
se por retratar o sertanejo e os problemas palavra: “É mineral o papel onde escrever o ver-
no Nordeste em seus poemas. so; o verso que é possível não fazer”.
( C ) João Cabral de Melo Neto
trata em seus poemas do Nordeste e 4. b) ( x ) Clarice Lispector
da Espanha, numa linguagem enxuta e
concisa. Comentário. A característica literária
mais marcante deste trecho é o caráter inti-
mista da autora Clarice Lispector. O principal
2. a) ( x ) I, III e V eixo de sua obra é o questionamento do ser,
a pesquisa do ser humano, resultando em
Comentário. Alternativa a. As obras e romances mais introspectivos. Segundo críti-
autores da 3ª fase modernista ou pós-moder- cos, Clarice Lispector continua sendo uma es-
nista são: I. Grande sertão: veredas, de João critora estranha e fascinante na literatura bra-
Guimarães Rosa; III. Perto do coração selva- sileira. Dotada de especial sensibilidade, sua
gem, de Clarice Lispector; V. Grande Sertão: preocupação maior nunca esteve no enredo,
Veredas, de Guimarães Rosa. Os demais: II. no linear das coisas. Exigiu, ao contrário, que
Memórias sentimentais de João Miramar, de o leitor se entregasse em meditação à aventu-
Oswald de Andrade; IV. Amar, verbo intran- ra de ler, se quisesse desfrutar da profundida-
sitivo, de Mário de Andrade; representam a de dos conceitos que se multiplicavam.
primeira tentativa de construção do romance
moderno no Brasil, cronologicamente vincula- “Sou um ser humano. (...) sou mais sau-
dável do que muita gente pensa. (...) Eu acho
dos à 1ª fase modernista.
que escrevendo, a gente entende o mundo
mais um pouquinho do que não escrevendo.
3. d) ( x ) Criação poética, o autor ma- Não sei classificar a minha obra. Em cada livro
terializa as coisas do mundo na escrita do eu renasço. E experimento o gosto do novo.”
poema.
Literatura 3 - Aula 5 80 Instituto Universal Brasileiro

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