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AULA 6

Produções Contemporâneas
Produções Contemporâneas parece um título mais adequado para juntar as
obras do período polêmico identificado como Pós-Modernismo ou Literatura
Contemporânea. Manifestações literárias do final do século 20 e início do sé-
culo 21 continuam marcadas pela diversidade de estilos.

Produções contemporâneas consolidam pluralidade pós-moderna

O conceito pós-modernista nas produções contemporâneas

Em 1979, o pensador francês Jean-François Lyotard lançou o livro A Condição Pós-Moderna,


cujo principal mérito foi colocar a expressão pós-modernidade no vocabulário intelectual e popular. O
conceito tem milhares de definições, mas pode ser resumido como essa nova fase da humanidade
em que os indivíduos estão livres para criar, sem as amarras das forças do passado.
O mundo contemporâneo se apresenta multifacetado, complexo e polêmico. Alguns teóricos
denominam o período de Pós-Modernidade, outros de Modernidade tardia. Na arte, já se fala em
Hipermodernidade. Alguns ainda acreditam que estamos em plena Modernidade. São diversos os
estudos acerca das denominações do momento atual. É em meio a essa pluralidade de posturas,
ideias e fatos que está inserida a literatura e toda a produção artística.
A Literatura Brasileira da metade para o final do século 20 caracteriza-se por uma diversidade
de estilos que permitem designar a estética pós-modernista. E nas produções contemporâneas do
início do século 21 continua a marca da multiplicidade: vários estilos convivem sem conflitos e sem
hierarquia. Não há fórmula única. Essa pluralidade vem se consolidando com o advento das tecno-
logias de comunicação.
As tendências de vanguarda na poesia, como o concretismo, estendem-se às produções con-
temporâneas. Autores como Adélia Prado, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, ou ainda João Ubaldo,
Fernando Sabino e Ariano Suassuna destacam-se por atitudes pós-modernistas, umas estabilizadas
e sedimentadas, outras intensificadas e redimensionadas, mas que, sem dúvida, podem ser reco-
nhecidas no estilo autêntico de cada um.

Literatura 3 - Aula 6 81 Instituto Universal Brasileiro


Produções Contemporâneas
Poesia Contemporânea Vanguardas poéticas
A literatura da primeira década do sé- No cenário nacional dos anos 50, sur-
culo 21 está diretamente ligada às tendên- giram as vanguardas poéticas chamadas de:
cias que se formaram na segunda metade poesia concreta; poesia-práxis; poesia social;
do século 20. Mistura de tendências estéti- poesia marginal, com forte influência nas pro-
cas, experimentalismo formal, engajamento duções contemporâneas.
social, escrita que foco a própria linguagem
(metalinguagem) são alguns dos traços que Poesia Concreta
marcam a produção contemporânea.
A partir de 1950 surgiram várias tendên- O Concretismo, ou Poesia Concreta,
cias poéticas caracterizadas pela inovação caracteriza-se pela reflexão, nos textos que
formal, pela intensa aproximação com outras compõem, do progresso tecnológico, da
manifestações artísticas e pela valorização da exploração de elementos visuais que mar-
forma, em vários movimentos diferenciados en- cam a nossa época. As poesias concretas
tre si que constituíram as também chamadas trazem novas formas de expressão: valori-
vanguardas ou neo-vanguardas e se estendem zação da forma e da comunicação visual,
pela década de 1960 e 1970: Concretismo, Poe- sobrepondo ao conteúdo.
sia-Praxis, Poesia Social e Poesia Marginal. Os Podemos apontar como início do Concre-
poetas do Concretismo desde 1950 lançam ten- tismo o ano de 1952, quando ocorre o lan-
dência que se estende até a contemporaneida- çamento da revista Noigandres - palavra de
de: Augusto de Campos, Haroldo de Campos, origem provençal que significa “antídoto con-
Décio Pignatari e José Paulo Paes. tra o tédio” - por Augusto de Campos, Harol-
Da mesma geração do concretista Pau- do de Campos e Décio Pignatari. Mas seu
lo Leminski, destacam-se Orides Fontela e lançamento oficial ocorreu em 1956, com a
Adélia Prado, com estilos bem marcantes de Exposição Nacional de Arte Concreta que se
poesia na pós-modernidade. Orides Fontela realizou em São Paulo e, no ano seguinte, no
foi uma das mais importantes poetas brasi- Rio de Janeiro, com grande repercussão.
leiras da segunda metade do século 20. Sua Embora não tenha conseguido atingir o
obra se destaca e se diferencia por um alto grande público no Brasil, o Concretismo teve
rigor unido a uma particular beleza áspera, repercussão internacional. Outros autores que
que a tornam, contra a passagem do tempo, integraram o movimento foram José Paulo
cada vez mais contemporânea. Adélia Pra- Paes, José Lino Grunewald, Ronaldo Azevedo,
do costuma colocar a perspectiva da mulher Edgar Braga e Pedro Listo. José Paulo Paes,
em primeiro plano. Seus poemas, através de Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pigna-
um romantismo crítico, repensam o cotidia- tari continuam produzindo textos significativos
no dando-lhe novos significados, a partir da e destacam-se também como tradutores.
perspectiva dos mais simples.
Atualmente, se fala em “nova poesia Haroldo de Campos
brasileira”. Mas, se a nova poesia tem uma
cara, ela é a da diversidade. Não há temas ou Nascemorre
formas que a descrevam, mas há caminhos
pelos quais a única diretriz é a liberdade. En- se
tre os chamados “poetas do século 21” temos: nasce
Arnaldo Antunes, Eucanaã Ferraz, Heitor Fer- morre nasce
raz Mello, Augusto Massi entre outros.
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morre nasce morre Epitáfio para um banqueiro
renasce remorre renasce negócio
remorre renasce
egócio
remorre
ré ócio
ré cio
desnasce o
desmorre desnasce
desmorre desnasce desmorre José Lino Grunewald
nascemorrenasce
morrenasce vai e vem
morre e e
se., e
vem vai

Augusto de Campos Ronaldo Azevedo


VVVVVVVVVV
VVVVVVVVVE
VVVVVVVVEL
VVVVVVVELO
VVVVVVELOC
Amotemor VVVVVELOCI
VVVVELOCID
VVVELOCIDA
VVELOCIDAD
VELOCIDADE

Poesia-Práxis

A Poesia-Práxis é resultado de uma dissi-


Décio Pignatari dência no grupo concretista que ocorreu no final
dos anos 50. O manifesto desse movimento,
beba coca cola chamado Manifesto Didático, só foi lançado em
babe cola 1961, assinado por Mário Chamie, o principal re-
beba coca presentante do grupo.
babe cola caco Os adeptos da Poesia-Práxis considera-
caco vam a palavra como “organismo vivo” que gera
cola outras palavras no contexto do poema. Assim,
cloaca exploram a repetição de palavras e a sonorida-
de, servindo-se das mudanças de sentido e de
José Paulo Paes pronúncia de palavras iguais ou semelhantes. Os
principais autores desse movimento são Mário
Anatomia do Monólogo Chamie, Mauro Gama, Yone Giannetti Fonseca,
Armando Freitas Filho e Antonio Carlos Cabral.
ser ou ser Agiotagem
er ou não er
r ou não r um
ou não dois
onã três

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tadas. Em oposição, o retorno ao verso, o uso
o juro:o prazo de uma linguagem mais simples e a aborda-
o pôr/ o cento/ o mês/ o ágio gem da questão social nos textos, pois con-
porcentágio. sideravam a poesia como um veículo de par-
dez ticipação política. Os principais nomes dessa
cem tendência foram Ferreira Gullar, Thiago de
mil Mello e Affonso Romano de SantAnna.
o lucro: o dízimo
o ágio/ a moral/a monta em péssimo Maio de 1964
empréstimo.
muito Na leiteira a tarde se reparte
nada em iogurtes, coalhadas, copos
tudo de leite
a quebra: a sobra e no espelho meu rosto. São
a monta/ o pé/ o cento/ a quota quatro horas da tarde, em maio.
haja nota Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo a
agiota. vida
(Mário Chamie) que é cheia de crianças, de flores
e mulheres, ávida,
Crime 3 esse direito de estar no mundo,
ter dois pés e mãos, uma cara
“Fuma fuma tabaque e a fome de tudo, a esperança.
bate: que pança? Esse direito de todos
Dança curtido corpo que nenhum ato
de charque charco institucional ou constitucional
em corruto beiço tensão pode cassar ou legar.
charuto e seu sangue Mas quantos amigos presos!
soca seu peito soca e quantos em cárceres escuros
eis que ao lado o onde a tarde fede a urina e terror.
outro Há muitas famílias sem rumo esta tarde
caboclo bate: disputa nos subúrbios de ferro e gás
um ataque à bronca fou onde brinca irremida a infância da clas-
em bloco) de ronco e se operária.
lata. E Estou aqui e não estarei, um dia, em
na mão do primeiro o parte alguma.
punhal se empunha se Que importa, pois?
ergue chispando e em X A luta comum me acende o sangue
pando desce: se crava e me bate no peito
cavo, na caixa como o coice de uma lembrança.”
de som
(colchão murcho coração).” “Como dois e dois são quatro
(Mauro Gama) sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
Poesia Social (Neoconcretismo) e a liberdade, pequena
Como teus olhos são claros
A Poesia Social surgiu como reação ao e atua pele, morena
Concretismo, à Poesia-Práxis. Os poetas des- como é azul o oceano
sa tendência criticavam a valorização exces- e a lagoa, serena
siva da forma e o distanciamento do público, como um tempo de alegria
elementos predominantes nas tendências ci-
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por trás do terror me acena E com vocês a modernidade
é a noite carrega o dia
no seu colo de açucena Meu verso é profundamente romântico.
- sei que dois e dois são quatro Choram cavaquinhos luares se derra-
sei que a vida vale a pena mam e vai
mesmo que o pão seja caro por aí a longa sombra de rumores e ci-
e a liberdade, pequena.” ganos.
(Ferreira Gullar) Ai que saudade que tenho de meus ne-
gros verdes anos!
Poesia Marginal (Cacaso)

A Poesia Marginal surgiu no início dos


anos 70 e foi assim denominada porque os Logia e mitologia
poetas que integraram o movimento não
eram publicados ou divulgados pelas edito- Meu coração
ras. Os poemas eram rodados em mimeó- de mil e novecentos e setenta e dois
grafos, em tiragens pequenas, quase sem já não palpita fagueiro
acabamento. Eram vendidos diretamente, sabe que há morcegos de pesadas
pelo próprio autor ou por amigos deste que olheiras
percorriam bares, restaurantes, portas de ci- que há cabras malignas que há
nema e teatro e as universidades. cardumes de hienas infiltradas
Os poemas caracterizam-se pelo uso da no vão da unha na alma
linguagem coloquial, pela abordagem do co- um porco belicoso de radar
tidiano, pelo uso da paródia e da metalingua- e que sangra e ri
gem. Às vezes, utilizam elementos da poesia e que sangra e ri
concreta, explorando elementos visuais. Ao a vida anoitece provisória
abordar fatos comuns e sentimentos utilizam, centuriões sentinelas
às vezes, um tom confessional. Paralelamen- do Oiapoque ao Chuí
te, fazem crítica política e denúncias diretas (Cacaso)
ou indiretas marcadas pela ironia.
Os principais representantes desse
movimento foram Chacal, Cacaso, Paulo Papo de índio
Leminski, Chico Alvim, Ana Cristina César,
Torquato Neto, Wally Salomão e outros. Al- Veiu uns ômi dl saia preta
guns deles, hoje são publicados por gran- cheiu di caixinha e pó branco
des editoras. qui eles disserum qui chamava açucri
Aí eles falarum e nós fechamu a cara
Aqui depois eles arrepitirum e nós fechamu
nesta pedra o corpo
alguém sentou Aí eles insistirum e nós comemu eles.
olhando o mar (Chacal)

o mar
não parou SOS
para ser olhado
foi mar tem gente morrendo de medo
para tudo quanto é lado tem gente morrendo de esquistosso-
(Paulo Leminski) mose

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tem gente morrendo de hepatite me- a incorporação de outras culturas e de ele-
ningite mentos diversos à manifestação artística.
sifilite As canções do período caracterizam-se
tem gente morrendo de fome pela ironia, o humor e a paródia. Chega-
tem muita gente morrendo por mui- ram a influenciar a literatura do período,
tas causas mas o movimento entrou em decadência
nós que não somos médicos psi- nos anos 1970, devido à censura política.
quiatras Os principais nomes do Tropicalismo são
nem ao menos bons cristãos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Torquato
nos dedicamos a salvar pessoas Neto, que teve poemas musicados. Veja
que como nós a seguir a letra da música “Tropicália”, es-
sofrem de um mal misterioso: o sufoco crita em 1968, por Caetano Veloso; e logo
(Chacal) depois, um poema de Torquato Neto, mu-
Ai de mim, aipim sicado por Jards Macalé, no qual temos
- Ai de mim, aipim. uma paródia do conhecido texto de Drum-
- Ó inhame, a batata é uma puta ba- mond, “Poema de sete faces”.
rata. Deixa ela pró nabo
nababo que baba de bobo. Transa
Tropicália
uma com a cebola.
- Aquele hálito? que hálito, me faz
Sobre a cabeça os aviões
chorar.
Sob os meus pés os caminhões
- Então procura uma cenoura.
Aponta contra os chapadões
- Coradinha, mas muito enrustida.
Meu nariz
- A abóbora tá aí mesmo.
Eu organizo o movimento
- Como eu gosto de abóbora.
Eu oriento o carnaval
- Então namora uma.
Eu inauguro o movimento
- Falo. vou pegar meu gorrinho e saí
No Planalto Central do País
poraí pra procurar uma abóbora maneira.
Vivada Bossa-sã- sã
Té mais aipim.
Viva a palhoça - ca - ca - ca – ca
- Té mais inhame.
O monumento é de papel crepom e
(Chacal)
prata
Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás da verde
mata
Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E nos jardins os urubus passeiam
a tarde inteira
Entre os girassóis
Viva Maria - ia – ia
Viva Bahia - ia - ia - ia - ia – ia
No pulso esquerdo bang-bang
Em suas veias corre muito pouco
sangue
Tropicalismo. Foi o movimento que Mas seu coração balança a um samba
dominou a música entre 1967 e 1968. Re- de tamborim
tomando algumas ideias do Manifesto An- Emite acordes dissonantes
tropófago de Oswald de Andrade, defendia Pelos cinco mil alto-falantes

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Arnaldo Antunes, músico, poeta,
Senhoras e senhores ele põe compositor e artista visual brasileiro, talvez
os olhos grandes seja hoje o maior exemplo do dialogismo
Sobre mim entre a literatura e a música. Nome forte
Viva Iracema - ma – ma do rock nacional da década de 1980, foi
Viva Ipanema - ma - ma - ma – ma um dos fundadores e líderes de uma das
Domingo é o fino da bossa bandas de maior sucesso de nossa músi-
Segunda-feira está na fossa ca, os Titãs. Sua jornada poética começou
Terça-feira vai à roça em 1986, quando teve publicado o livro Ou,
Porém composto de poemas que exploram a di-
O Monumento é bem moderno mensão visual das palavras. “Todas as coi-
Não disse nada do modelo sas do mundo não cabem numa ideia. Mas
do meu terno tudo cabe numa palavra”. É de Arnaldo An-
Que tudo mais vá pró inferno tunes essa ideia e essas palavras que res-
Meu bem gatam, da década de 1950, uma poesia de
Viva a banda - da – da caráter experimental capaz de transcender
Carmem Miranda - da - da - da - da o seu significado e transformar-se em forma
e ritmo para enriquecer seu conceito, com
Caetano Veloso
textos que podem ser classificados como
poesia visual. Um de seus textos considera-
dos híbridos é o poema-canção As coisas,
parceria com Gilberto Gil, que está no disco
e no livro de sua autoria.

Poesia & Música. Muitos poetas se ex- As coisas


pressam também por meio da música popular
e vice-versa. Wally Salomão, Cacaso, Paulo as coisas têm peso,
Leminski e Antônio Cícero, por exemplo, são massa, volume, tamanho,
poetas coautores de composições musicais
tempo, forma, cor,
que fizeram sucesso, enquanto compositores
como Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton
posição, textura, duração,
Nascimento, Fernando Brandt, Beto Guedes, densidade, cheiro, valor.
Djavan, Zeca Baleiro e Lenine apresentam consistência, profundidade,
nas letras de suas canções certa sofisticação contorno, temperatura,
que as aproximam do literário. função, aparência, preço,
destino, idade, sentido.
as coisas não têm paz.
Poetas em destaque
Nome
Arnaldo Antunes (1960)
algo é o nome do homem
coisa é o nome do homem
homem é o nome do cara
isso é o nome da coisa
cara é o nome do rosto
fome é o nome do moço
homem é o nome do troço
osso é o nome do fóssil
corpo é o nome do morto
homem é o nome do outro

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Orides Fontela (1940-1998) Adélia Prado (1935)

Seus textos retratam o cotidiano com per-


Poetisa brasileira de tendência con- plexidade e encanto, norteados pela fé cristã e
temporânea. Publicou trabalhos no O Muni- permeados pelo aspecto lúdico, uma das carac-
cípio, periódico de sua terra natal e no Su- terísticas de seu estilo único. Em termos de lite-
plemento Literário do jornal O Estado de S. ratura brasileira, o surgimento da escritora repre-
Paulo. Foi premiada com o Jabuti de Poesia, sentou a revalorização do feminino nas letras e
em 1983, em função ao livro Alba, recebeu da mulher como ser pensante, tendo-se em con-
também o prêmio da Associação Paulista de ta que Adélia incorpora os papéis de intelectual e
Críticos de Arte, pelo livro Teia, em 1996. de mãe, esposa e dona-de-casa. Adélia Prado é
Em 2007 o Ministério da Cultura homena- o principal nome da poesia contemporânea. Ela
geou-a com a Ordem do Mérito Cultural, ca- é mineira e lançou seu primeiro livro, Bagagem,
tegoria Grã-Cruz. Maria Helena Teixeira de já bastante madura. Visivelmente influenciada
Oliveira, prima da poeta, foi quem recebeu por Carlos Drummond de Andrade e Guimarães
a condecoração das mãos do Presidente da Rosa. Caracteriza-se também pela linguagem
República, Luis Inácio Lula da Silva. A ceri- simples, pela abordagem de temas simples, do
mônia aconteceu no Palácio das Artes, na cotidiano e pela referência a elementos religiosos
cidade de Belo Horizonte. e regionais. Escreve também textos em prosa
poética e contos. Principais obras: Poesias reu-
Adivinha nidas; Solte os cachorros; Os componentes da
banda e Cacos para um vitral (prosa).
O que é impalpável
mas Com licença poética
pesa
o que é sem rosto Quando nasci um anjo esbelto,
mas desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
fere
Cargo muito pesado pra mulher,
o que é invisível
esta espécie ainda envergonhada.
mas
Aceito os subterfúgios que me cabem,
dói sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
Desafio acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Contra as flores que vivo Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
contra os limites Inauguro linhagens, fundo reinos
contra a aparência a atenção pura -- dor não é amargura.
constrói um campo sem mais jardim Minha tristeza não tem pedigree,
que a essência. já a minha vontade de alegria,

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sua raiz vai ao meu mil avô. autores exploram o interior de personagens
Vai ser coxo na vida é maldição pra angustiadas, desnudando seus traumas, pro-
homem. blemas psicológicos, religiosos, morais e me-
Mulher é desdobrável. Eu sou. tafísicos. Entre outros:
• Lygia Fagundes Telles (1923), Ciran-
da de Pedra, As Meninas;
Prosa contemporânea • Autran Dourado (1926-2012), Ópera
Assim como na Poesia, na Prosa o período dos Mortos, O Risco no Bordado;
pós-moderno caracteriza-se por uma pluralidade • Osman Lins (1924-1978) O Fiel e a
de tendências e estilos. A partir dos anos 70, vão- Pedra;
se quebrando limites entre os gêneros literários: • Lya Luft (1938), Reunião de Família;
romance e conto, conto e crônica, crônica e no- • Fernando Sabino (1923-2004), O En-
tícia; desdobram-se e acabam incorporando téc- contro Marcado;
nicas e linguagens, antes fora de seus domínios. • Josué Montello (1917-2006), Os de-
Dessa forma, aparecem romances com ares de graus do Paraíso;
reportagens; contos parecidos com poemas em • Chico Buarque (1944), Estorvo.
prosa ou com crônicas, autobiografias com lan-
ces romanescos narrativos que adquirem contor-
nos de cena teatral; textos que se constroem por Romance urbano-social
justaposição de cenas, reflexões, documentos
... O romance ora segue as linhas tradicionais, Documenta os grandes centros urba-
aprofundando-se e enriquecendo-as com novos nos com seus problemas específicos: a bur-
temas; ora inova, criando novas nuances de pro- guesia e o proletariado em constante luta
sa. Confira as diferentes modalidades de produ- pela ascensão social, luta de classes, violên-
ções contemporâneas. cia urbana, solidão, angústia e marginaliza-
ção. Entre outros:
Romance regionalista • José Condé (1917-1971), Um Ramo
para Luísa;
Seguindo um caminho tradicional, ini- • Carlos Heitor Cony (1926-1918), O
ciado desde o Romantismo, uma safra de ventre;
bons escritores continua a retratar o homem • Marcos Rey (1925-1999), Memórias
no ambiente das zonas rurais, com seus pro- de um gigolô;
blemas geográficos e sociais. Entre outros: • Dalton Trevisan (1925), O vampiro de
• Mário Palmério (1916-1996), Vila dos Curitiba;
Confins, Chapadão do Bugre; • Rubem Fonseca (1925), A grande arte.
• José Cândido de Carvalho (1914-
1989), O Coronel e o Lobisomem; Romance político
• Bernardo Élis (1915-1997), O tronco;
• Herberto Sales (1917-1999), Além A censura calou, durante um tempo, as
dos Maribus; vozes dos meios de comunicação de massa
• Antônio Callado (1917-1997), Quarup. fazendo com que o romance passasse a su-
prir essa lacuna, registrando o dia a dia da
história, fazendo surgir novas modalidades
Romance Intimista de prosa: paródia histórica; romance reporta-
gem e romance policial. Entre outros:
Na mesma linha de sondagem inte- • Márcio de Sousa (1946), Galvez, o
rior, de indagação dos problemas huma- Imperador do Acre;
nos, iniciada por Clarice Lispector, vários • Ariano Suassuna (1927-2014), A Pedra

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do Reino; popular. Autores que se destacam nesses
• João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), dois gêneros:
Sargento Getúlio; Contos: Lygia Fagundes Telles, Ru-
• Ignácio de Loyola Brandão (1936) bem Braga, Osmar Lins, Murilo Rubião,
Zero, não Verás País Nenhum; Autran Dourado, Homero Homem, Moacyr
• Roberto Drummond (1933-2002), Scliar, Oto Lara Resende, Dalton Trevisan,
Sangue de Coca- Cola; J. J. Veiga, Nélida Pinon, Rubem Fonse-
• Rubem Fonseca (1925), A grande ca, João Antônio, Domingos Pelegrim Jr,
arte e Agosto; Ricardo Ramos, Marina Colasanti, Luís Vi-
• Ana Miranda (1951), Boca do Inferno; lela, Marcelo Rubens Paiva, Ivan Ângelo e
• Fernando Morais (1946), Olga. Hilda Hilst.
Crônica: Luís Fernando Veríssi-
mo, Paulo Mendes Campos, Raquel de
Romance memorialista Queiroz, Carlos Drummond de Andrade,
ou autobiográfico Fernando Sabino, Álvaro Moreira, Sérgio
Porto (Stanislau Ponte Preta), Lourenço
Essa tendência surge na ficção brasi- Diaféria, Luís Fernando Veríssimo e João
leira na década de 80, misturando autobio- Ubaldo Ribeiro.
grafia, relatos de viagens memoriais e refle-
xões de intelectuais que viveram no exílio
ou foram testemunhas das atrocidades co-
Escritores de prosa em destaque
metidas pelo regime militar. Entre outros:
• Pedro Nava (1903-1984), Baú de Lygia Fagundes Telles (1923)
Ossos;
• Fernando Gabeira (1941), O que
é isso Companheiro?;
• Ruy Castro (1948), A estrela soli-
tária;
• José Maria Cançado (1956-2006),
Os sapatos de Orfeu;
• Marcelo Rubens Paiva (1959),
Feliz Ano Velho.

Conto e a Crônica
Escritora brasileira. Romancista e con-
A partir dos anos 70, houve uma verda- tista, é a grande representante do pós-mo-
deira explosão editorial do conto e da crônica, dernismo, com produções contemporâneas.
por serem narrativas curtas, condensadas É membro da Academia Paulista de Letras,
e atenderem à necessidade de rapidez do da Academia Brasileira de Letras e da Aca-
mundo moderno. Novas dimensões foram in- demia de Ciências de Lisboa. O estilo de
troduzidas no conto tradicional: subversão da Lygia Fagundes Telles é caracterizado por
sequência narrativa, interiorizarão do relato, representar o universo urbano e por explo-
colagem de flashes e imagens, fusão entre rar de forma intimista, a psicologia feminina.
poesia e prosa, evocação de estados emocio- Em 1944, publicou seu livro de contos Praia
nais. A crônica, texto ligeiro, de interpretação Viva e, em 1949, O cacto vermelho. Em
imediata, com flagrantes do cotidiano, tam- 1954, publicou seu primeiro romance, Ciran-
bém passou a agradar o leitor tornando-se da de Pedra, e, em 1963, Verão no aquário.
Antes do Baile Verde, livro de contos, foi tra-
Literatura 3 - Aula 6 90 Instituto Universal Brasileiro
duzido para o francês e recebeu, em 1969,
o Grande Prêmio consequências, censuras, sofrimentos
Internacional Feminino para Estrangei- que talvez não venham nunca e assim
ros, em Cannes. Foi publicado no Brasil em fugimos ao que é mais vital, mais profun-
1971. do, mais vivo. A verdade, meu querido, é
Em 1973, publicou As meninas, roman- que a vida, o mundo dobra-se sempre às
ce que traz elementos do contexto político nossas decisões. (...)”
dos anos 70 e também fatos autobiográfi-
cos. Seminário dos ratos, em 1977, A disci-
plina do amor, em 1980, são livros de con- Luís Fernando Veríssimo (1936)
tos. Seus livros mais recentes são As horas
nuas, romance publicado em 1990, e A noite
escura e mais eu (1995). Seu livro Inven-
ção e Memória foi agraciado com o Prêmio
Jabuti, na categoria ficção, em 2001. Seus
textos caracterizam-se pelo tom intimista,
pela reflexão sobre a vida, o cotidiano e o
ser humano de forma bastante poética. Uti-
liza elementos autobiográficos e fatos reais
em sua obra.

Fragmento de Ciranda de pedra


Escritor brasileiro, conhecido por suas
“(...) Ouça, Virgínia, é preciso amar crônicas e textos de humor, mais precisa-
o inútil. Criar pombos sem pensar em mente de sátiras de costumes, publicados
comê-los, plantar roseiras sem pensar diariamente em vários jornais brasileiros.
em colher as rosas, escrever sem pen- Em 1973 lançou seu primeiro livro, O Po-
sar em publicar, fazer coisas assim, sem pular, com o subtítulo “crônicas, ou coisa
esperar nada em troca. A distância mais parecida”, uma coletânea de textos já vei-
curta entre dois pontos pode ser a linha culados na imprensa, o que seria o forma-
reta, mas é nos caminhos curvos que se to da grande maioria de suas publicações
encontram as melhores coisas (...)”. até hoje. Mas foi em 1981 que se tornou um
dos maiores fenômenos de vendas em todo
Fragmento de Verão no aquário o país, com o livro O Analista de Bagé, lan-
çado na Feira do Livro de Porto Alegre, que
“Na realidade o amor é uma coisa esgotou sua primeira edição em dois dias.
tão simples... Veja-o como uma flor que Outro sucesso foi a antologia de contos de
nasce e morre em seguida porque tem humor Comédias da Vida Privada (1994),
que morrer. Nada de querer guardar a que se tornou um especial da TV Globo e
flor dentro de um livro, não existe nada depois uma série.
mais triste no mundo do que fingir que há
vida onde a vida acabou.” Lixo

Fragmento de As meninas “Encontram-se na área de serviço.


Cada um com seu pacote de lixo. É a pri-
“(...) Quero te dizer que nós as cria- meira vez que se falam.
turas humanas, vivemos muito (ou deixa- - Bom dia...
mos de viver) em função das imaginações - Bom dia.
geradas pelo nosso medo. Imaginamos - A senhora é do 610.

Literatura 3 - Aula 6 91 Instituto Universal Brasileiro


- E o senhor do 612. - Sinto muito.
- Eu ainda não lhe conhecia pes- - Ele já estava bem velhinho. Lá no
soalmente... Sul. Há tempos não nos víamos.
- Pois é... - Foi por isso que você recomeçou
- Desculpe a minha indiscrição, mas a fumar?
tenho visto o seu lixo... - Como é que você sabe?
- O meu quê? - De um dia para o outro começaram
- O seu lixo. a aparecer carteiras de cigarro amassa-
- Ah... das no seu lixo.
- Reparei que nunca é muito. Sua - É verdade. Mas consegui parar
família deve ser pequena... outra vez.
- Na verdade sou só eu. - Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Mmmm. Notei também que o se- - Eu sei. Mas tenho visto uns vidri-
nhor usa muita comida em lata. nhos de comprimido no seu lixo...
- É que eu tenho que fazer minha - Tranquilizantes. Foi uma fase. Já
própria comida. E como não sei cozi- passou.
nhar... - Você brigou com o namorado, certo?
- Entendo. - Isso você também descobriu no
- A senhora também... lixo?
- Me chame de você. - Primeiro o buque de flores, com o
- Você também perdoe a minha in- cartãozinho, jogado fora. Depois, muito
discrição, mas tenho visto alguns restos lenço de papel.
de comida em seu lixo. Champignons, - É, chorei bastante, mas já passou.
coisas assim... - Mas hoje ainda tem uns lenci-
- É que eu gosto muito de cozinhar. nhos...
Fazer pratos diferentes. Mas como moro — É que eu estou com um pouco
sozinha, às vezes sobra... de coriza.
- A senhora... Você não tem família? - Ah.
- Tenho, mas não aqui. - Vejo muita revista de palavras cru-
- No Espírito Santo. zadas no seu lixo.
- Como é que você sabe? - É. Sim. Bem. Eu fico muito em
- Vejo uns envelopes no seu lixo. casa. Não saio muito. Sabe como é.
Do Espírito Santo. - Namorada?
- É. Mamãe escreve todas as se- - Não.
manas. - Mas há uns dias tinha uma fotogra-
- Ela é professora? fia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Isso é incrível! Como foi que você - Eu estava limpando umas gave-
adivinhou? tas. Coisa antiga.
- Pela letra no envelope. Achei que - Você não rasgou a fotografia. Isso
era letra de professora. significa que, no fundo, você quer que
- O senhor não recebe muitas car- ela volte.
tas. A julgar pelo seu lixo. - Você já está analisando o meu lixo!
- Pois é... - Não posso negar que o seu lixo
- No outro dia tinha um envelope de me interessou.
telegrama amassado. - Engraçado, quando examinei o seu
- É. lixo, decidi que gostaria de conhecê-la.
- Más notícias? Acho que foi a poesia.
- Meu pai. Morreu. - Não! Você viu meus poemas?

Literatura 3 - Aula 6 92 Instituto Universal Brasileiro


Escritor lembrado como um dos me-
- Vi e gostei muito. lhores cronistas brasileiros. Rubem Braga
- Mas são muito ruins! dedicou-se exclusivamente à crônica, que
- Se você achasse eles ruins mesmo, o tornou popular.
teria rasgado. Eles só estavam dobrados. Como cronista mostrava seu estilo
- Se eu soubesse que você ia ler... irônico, lírico e extremamente bem-humo-
- Só não fiquei com eles porque, afi- rado. Sabia também ser ácido e escrevia
nal, estaria roubando. Se bem que, não sei; textos duros defendendo os seus pontos
o lixo da pessoa ainda é propriedade dela? de vista.
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o Fazia crítica social, denunciava in-
particular se torna público. O que sobra justiças e combatia governos autoritá-
da nossa vida privada se integra com a rios. Foi investigado durante a ditadura
sobra dos outros. O lixo é comunitário. É militar por criticar a liberdade de im-
a nossa parte mais social. Será isso? prensa e a violência praticada em nome
- Bom, aí você já está indo fundo da revolução.
demais no lixo. Acho que... Rubem Braga reunia em seus livros
- Ontem, no seu lixo... as diversas crônicas que escrevia, publi-
- O quê? cou: “O Morro do Isolamento” (1944), “Ai
- Me enganei, ou eram cascas de de Ti Copacabana” (1960), “A Traição das
camarão? Elegantes” (1967), “Recado de Primavera”
- Acertou. Comprei uns camarões (1984), “Crônicas do Espírito Santo” (1984),
graúdos e descasquei. “O Verão e as Mulheres” (1986) e “As Boas
- Eu adoro camarão. Coisas da Vida” (1988) entre outros.
- Descasquei, mas ainda não comi.
Quem sabe a gente pode... O jovem casal
- Jantar juntos?
- É. “Estavam esperando o bonde e fazia
- Não quero dar trabalho. muito calor. Veio um bonde, mas tão cheio,
- Trabalho nenhum. com tanta gente pendurada nos estribos
- Vai sujar a sua cozinha. que ela apenas deu um passo à frente, ele
- Nada. Num instante se limpa tudo esboçou com o braço o gesto de quem vai
e põe os restos fora. pegar um balaústre – e desistiram.
- No seu lixo ou no meu?” O homem da carrocinha de pão
obrigou-os a recuar para perto do meio-
(Luís Fernando Veríssimo) fio; depois o negrinho da lavanderia pas-
sou com a bicicleta tão junto que um ves-
Rubem Braga (1913-1990) tido esvoaçante bateu na cara do rapaz.
Ela se queixou de dor de cabeça;
ele sentia uma dor de dente enjoada e
insistente - preferiu não dizer nada.
Ano e meio casados, tanta aventu-
ra sonhada, e estavam tão mal naquele
quarto de pensão do Catete, muito baru-
lhento; “Lutaremos contra tudo” - havia
dito - e ele pensou com amargor que es-
tavam lutando apenas contra as baratas,
as horríveis baratas do velho sobradão.
Ela com um gesto de susto e nojo se

Literatura 3 - Aula 6 93 Instituto Universal Brasileiro


encolhia a um canto ou saía para o cor- fechado. Lá dentro havia um casal, um
redor - ele, com repugnância, ia matar a sujeito de ar importante na direção e
barata; depois, com mais desgosto ain- sua mulherzinha meio gorducha, mui-
da, jogá-la fora. to clara. A mulherzinha deu um rápido
E havia as pulgas; havia a falta olhar ao rapaz e olhou com mais vagar
d’água, e quando havia água, a fila dos a moça, correndo os olhos da cabeça
hóspedes diante da porta do chuveiro. até os sapatos, enquanto o homem di-
Havia as instalações que cheira- zia alguma coisa a respeito de um anel.
vam mal, o papel da parede amarelado No momento de o carro partir com um
e feio. As duas velhas gordas, pintadas, arranco macio, ouviram que a mulher di-
na mesinha ao lado, lhe tiravam o apeti- zia: “Se ele deixar por quinze, eu fico”.
te para a mesquinha comida da pensão. Quinze contos - Isso entrou pelos
Toda a tristeza, toda a mediocridade, ouvidos do rapaz, parece que foi bater,
toda a feiura duma vida estreita, onde o como um soco, em seu estômago mal
mau gosto pretensioso da classe média alimentado -, quinze contos, meses e
se juntava à minuciosa ganância comer- meses, anos de pensão! Então olhou a
cial - um simples ovo era “extraordiná- sua mulher e achou-a tão linda e triste
rio”. Quando eles pediam dois ovos, a com sua blusinha branca, tão frágil, tão
dona da pensão olhava com raiva; esta- jovem e tão querida, que sentiu os olhos
vam atrasados no pagamento. arderem de vontade de chorar.
Passou um ônibus, parou logo Disse: “Viu aquela vaca dizendo
adiante, abriu com ruído a porta, num que vai comprar o anel de quinze con-
grande suspiro de ar comprimido, e ela tos?
nem sequer olhou o ônibus, era tão mais Vinha o bonde.”
caro. Ele teve um ímpeto, segurou-a (Rubem Braga)
pelo braço disposto a fazer uma peque-
na loucura financeira - “Vamos pegar o
ônibus” - Mas o monstro se fechara e João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)
partira, jogando-lhes na cara um jato de
fumaça.
Ele então chegou mais para perto
dela - lá vinha outro bonde, mas aque-
le não servia - enlaçou-a pela cintura,
depois ficou segurando seu ombro com
um gesto de ternura protetora, disse-lhe
vagas meiguices, ela apenas ficou quie-
ta. “Está doendo muito a cabeça?” Ela
disse que não. “Seu cabelo está mais
bonito, meio queimado de sol.” Ela sor-
riu, mas de repente: “Ih, me esqueci da
receita do médico”, pediu-lhe a chave do Membro da Academia Brasileira de Le-
quarto, ele disse que iria apanhar para tras, ocupando a cadeira nº 24. Recebeu o
ela, ela disse que não, ela iria; quando prêmio Camões em 2008. A exemplo de Jor-
voltou foi exatamente o tempo de perder ge Amado, Ubaldo Ribeiro é um grande dis-
um bonde quase vazio; os dois ficaram seminador da cultura brasileira, sobretudo
ali, desanimados. a baiana. Seu primeiro romance foi “Setem-
bro Não Tem Sentido”, publicado em 1963.
Então um grande carro conversível
Entre suas obras que fizeram grande suces-
se deteve perto deles, diante do sinal so encontram-se “Sargento Getúlio” (1971),
que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Revela-
Literatura 3 - Aula 6 94 Instituto Universal Brasileiro
ção de Autor, em 1972. A obra chegou ao ci-
nema nos anos 80, protagonizada pelo ator Trecho de Diário do farol
Lima Duarte. Destacam-se também: “Viva
o Povo Brasileiro” (1984) e “O Sorriso do Porque a realidade
Lagarto” (1989). Algumas publicações mais é inverossímil
recentes: “Diário do farol” (2002) – roman-
ce; “A gente se acostuma a tudo” (2006) – “Escusando-me por repetir truísmo
crônicas; “Dez bons conselhos do meu pai” tão martelado, mas movido pelo conhe-
(2011) – infanto-juvenil. cimento de que os truísmos são parte
inseparável da boa retórica narrativa,
Trecho de Viva o povo brasileiro até porque a maior parte das pessoas
não sabe ler e é no fundo muito igno-
rante, rol no qual incluo arbitrariamente
“Não se deve esposar um determi-
você, repito o que tantos já dizem e vi-
nismo rígido quanto a essas questões,
vem repetindo, como quem usa chupe-
pois fatores outros, tais como a raça,
tas: a realidade é, sim, muitíssimo mais
desempenham papéis cruciais, mas a inacreditável do que qualquer ficção,
verdade é que a clara definição do ano pois esta requer uma certa arrumação
em quatro estações distintas é civilizada falaciosa, a que a maioria dá o nome
e civilizadora. As nações como o Brasil, de verossimilhança. Mas ocorre pre-
em que praticamente só existe inverno e cisamente o oposto. Lê-se ficção para
verão, imperando a mesmice de janeiro fortalecer a noção estúpida de que há
a dezembro, parecem fadadas ao atraso sentido, lógica, causa e efeito lineares e
e são abundantes os exemplos históri- outros adereços que integrariam a vida.
cos e contemporâneos. Até culturalmen- Lê-se ficção, ou mesmo livros de histo-
te, as variações sazonais se revestem riadores ou jornalistas, por insegurança,
de enorme importância, eis que forçam a porque o absurdo da vida é insuportável
diversificação de interesses e atividades para a vastidão dos desvalidos que po-
em função das alterações climáticas, voa a Terra.”
de modo que os povos a elas expostos
têm maior gama de aptidões e sensibi-
lidade necessariamente mais apurada.
Além disso, o frio estimula a atividade
intelectual e obvia a inércia própria dos
habitantes das zonas tórridas e tropicais.
Não se vê a preguiça na Europa e pare-
ce perfeitamente justificada a inferência Sargento Getúlio é considerado um
de que isto se dá em razão do acicate dos romances mais importantes da litera-
proporcionado pelo frio, que, compro- tura brasileira do final do século 20. Tra-
vadamente, ao causar a constrição dos
ta-se de uma obra regionalista, que tem
vasos sanguíneos e o abaixamento da
temperatura das vísceras luxuriosas, como tema o banditismo no sertão e que
não só cria condições orgânicas propí- usa uma linguagem coloquial e repleta
cias à prática do trabalho superior e da de regionalismos, alguns termos sendo
invenção, quer técnica, quer artística, criação do próprio autor, desviando-se do
como coíbe o sensualismo modorrento padrão da norma culta. Ambientado no
dos negros, índios, mestiços e outros ha- Nordeste dos anos 50, Sargento Getúlio
bitantes dos climas quentes, até mesmo narra a história de Getúlio Santos Bezer-
os brancos que não logrem vencer, pela
ra, homem de confiança de um poderoso
pura força do espírito civilizado europeu,
as avassaladoras pressões do meio físi- coronel de Sergipe, que precisa levar um
co. Assim, enquanto um se fortalece e se preso político de Paulo Afonso até Araca-
engrandece, o outro se enfraquece e se ju. No meio do trajeto, uma reviravolta po-
envilece”. lítica faz com que as ordens se alterem:

Literatura 3 - Aula 6 95 Instituto Universal Brasileiro


Getúlio não deve mais prosseguir com que ela vem, querem ver? (Recitando.)
a missão. Desconfiado, determinado a Valha-me Nossa Senhora, Mãe de
cumprir à risca o serviço que lhe fora Deus de Nazaré! A vaca mansa dá leite,
dado, o sargento parte em uma jornada a braba dá quando quer. A mansa dá sos-
que não terá outro destino a não ser o segada, a braba levanta o pé. Já fui barco,
fui navio, mas hoje sou escaler. Já fui me-
da violência e da morte - é inspirado em
nino, fui homem, só me falta ser mulher.
fatos reais que Manoel Ribeiro, chefe da Encourado: Vá vendo a falta de res-
Polícia Militar de Sergipe, contava ao fi- peito, viu?
lho João Ubaldo na infância. João Grilo: Falta de respeito nada,
rapaz! Isso é o versinho de Canário Pardo
Ariano Suassuna (1927- 2014) que minha mãe cantava para eu dormir.
Isso tem nada de falta de respeito!
Já fui barco, fui navio, mas hoje sou
escaler. Já fui menino, fui homem, só me
falta ser mulher. Valha-me. Nossa Senho-
ra, Mãe de Deus de Nazaré.”

Auto da Compadecida: filme

Dramaturgo e escritor nasceu em


João Pessoa, na Paraíba. Em 1955, escre-
veu a peça O Auto da Compadecida, que
divulgou seu nome e se tornou um suces-
so ainda maior quando foi adaptada para
a TV (1999) e para o cinema (2000). Tor-
nou-se professor na Universidade Federal
de Pernambuco, onde se aposentou. Foi
eleito como um dos membros da Academia No vilarejo de Taperoá, sertão da
Brasileira de Letras desde 1990. Principais Paraíba, João Grilo (Matheus Nachterga-
Obras: O Castigo da Soberba (1953); O ele) e Chicó (Selton Mello), dois nordes-
Rico Avarento (1954); Auto da Compade- tinos sem eira nem beira, andam pelas
cida (1955); O Santo e a Porca (1957); A
ruas anunciando A Paixão de Cristo, “o
Pena e a Lei (1959). Apesar de sua obra
apresentar elementos de diferentes estéti- filme mais arretado do mundo”. A sessão
cas literárias, pode-se afirmar que Ariano é um sucesso, eles conseguem alguns
Suassuna esteve alinhado com o movimen- trocados, mas a luta pela sobrevivência
to pós-modernista e sua obra tem projeção continua. João Grilo e Chicó preparam
na fase contemporânea. inúmeros planos para conseguir um pou-
co de dinheiro. Novos desafios vão sur-
Trecho da peça O Auto gindo, provocando mais confusões arma-
da Compadecida das pela esperteza de João Grilo, sempre
em parceria com Chicó, mas a chegada
“João Grilo: Ah isso é comigo. Vou fazer da bela Rosinha (Virgínia Cavendish), fi-
um chamado especial, em verso. Garanto lha de Antonio Moraes (Paulo Goulart),

Literatura 3 - Aula 6 96 Instituto Universal Brasileiro


desperta a paixão de Chicó, e ciúmes Da mesma geração do concretista Paulo
do cabo Setenta (Aramis Trindade). Os Leminski, destacam-se Orides Fontela e
planos da dupla, que envolvem o casa- Adélia Prado. Entre os chamados “poe-
mento entre Chicó e Rosinha e a posse tas do século 21” temos: Arnaldo Antu-
de uma porca de barro recheada de di- nes, Eucanaã Ferraz, Heitor Ferraz Mel-
nheiro, são interrompidos pela chegada lo, Augusto Massi entre outros.
do cangaceiro Severino (marco Nani-
ni) e a morte de João Grilo. Todos os Arnaldo Antunes (1960)
mortos reencontram-se no Juízo Final,
onde serão julgados no Tribunal das
Almas por um Jesus negro (Maurício
Gonçalves) e pelo diabo (Luís Melo). O
destino de cada um deles será decidi-
do pela aparição de Nossa Senhora, a
Compadecida (Fernanda Montenegro)
e traz um final surpreendente, principal-
mente para João Grilo.

As coisas

Produções Contemporâneas as coisas têm peso,


massa, volume, tamanho,
Poesia Contemporânea tempo, forma, cor,
posição, textura, duração,
A literatura da primeira década densidade, cheiro, valor.
do século 21 está diretamente ligada consistência, profundidade,
às tendências que se formaram na se- contorno, temperatura,
gunda metade do século 20. Mistura de função, aparência, preço,
tendências estéticas, experimentalismo destino, idade, sentido.
formal, engajamento social, escrita que as coisas não têm paz.
foco a própria linguagem (metalingua-
gem) são alguns dos traços que marcam
a produção contemporânea. A partir de Orides Fontela (1940-1998)
1950 surgiram várias tendências poéti-
cas caracterizadas pela inovação formal:
poesia concreta; poesia-práxis; poesia
social; poesia marginal. Atualmente, se
fala em “nova poesia brasileira”. Mas,
se a nova poesia tem uma cara, ela é a
da diversidade.
Principais poetas: do Concretis-
mo desde 1950 lançam tendência que
se estende até a contemporaneidade:
Augusto de Campos, Haroldo de Cam-
pos, Décio Pignatari e José Paulo Paes.

Literatura 3 - Aula 6 97 Instituto Universal Brasileiro


Adivinha -- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
O que é impalpável já a minha vontade de alegria,
mas sua raiz vai ao meu mil avô.
pesa Vai ser coxo na vida é maldição
o que é sem rosto pra homem.
mas Mulher é desdobrável. Eu sou.
fere
o que é invisível
Prosa Contemporânea
mas
dói
Assim como na Poesia, na Prosa o
Desafio
período pós-moderno caracteriza-se por
Contra as flores que vivo
uma pluralidade de tendências e estilos.
contra os limites
A partir dos anos 70, vão-se quebran-
contra a aparência a atenção pura
do limites entre os gêneros literários:
constrói um campo sem mais jardim
romance e conto, conto e crônica, crô-
que a essência.
nica e notícia; desdobram-se e acabam
incorporando técnicas e linguagens, an-
Adélia Prado (1935) tes fora de seus domínios. Dessa forma,
aparecem romances com ares de repor-
tagens; contos parecidos com poemas
em prosa ou com crônicas, autobiogra-
fias com lances romanescos narrativos
que adquirem contornos de cena teatral;
textos que se constroem por justaposi-
ção de cenas, reflexões, documentos ...
O romance ora segue as linhas tradicio-
nais, aprofundando-se e enriquecendo-
-as com novos temas; ora inova, crian-
Com licença poética do novas nuances de prosa. Confira as
diferentes modalidades de produções
Quando nasci um anjo esbelto,
contemporâneas: romance regionalista,
desses que tocam trombeta, anun-
ciou: intimista, urbano-social, político, auto-
vai carregar bandeira. biográfico; conto e crônica.
Cargo muito pesado pra mulher, Alguns dos principais autores:
esta espécie ainda envergonhada. Mário Palmério, José Cândido de Car-
Aceito os subterfúgios que me valho, Antônio Callado, Lygia Fagundes
cabem, Telles, Osman Lins, Fernando Sabino,
sem precisar mentir. Chico Buarque, Carlos Heitor Cony, Ru-
Não sou tão feia que não possa bem Fonseca, Ariano Suassuna, João
casar, Ubaldo Ribeiro, Fernando Morais, Pedro
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
Nava, Ruy Castro, Marcelo Rubens Pai-
ora sim, ora não, creio em parto
va, Rubem Braga, Moacyr Scliar, Dalton
sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro Trevisan, Marina Colassanti, Hilda Hirst,
a sina. Luís Fernando Veríssimo, Paulo Men-
Inauguro linhagens, fundo reinos des Campos, Fernando Sabino, Louren-
ço Diaféria.

Literatura 3 - Aula 6 98 Instituto Universal Brasileiro


contorno, temperatura,
função, aparência, preço,
destino, idade, sentido.
as coisas não têm paz.
1. Identifique as afirmativas corretas. (Arnaldo Antunes)

I - As características que a definem a a) ( ) visivelmente influenciado pela poe-


estética da poesia e prosa nas produções sia social.
contemporâneas são a multiplicidade de b) ( ) multifacetado, como a dinâmica
estilos, suas misturas e hibridações. do movimento e do mundo.
II - O romance ora mantém-se tradi- c) ( ) como crônica que trata de fatos
cional; ora inova, criando nuances como: cotidianos.
romance regionalista, intimista, urbano- d) ( ) com estética e versificação clássica.
social, político, biográfico.
III - Destacam-se pela temática polí- 4. O texto da obra Sargento Getúlio, de
tico-social, com abordagem do cotidiano João Ubaldo Ribeiro:
leve, irônica e bem-humorada, crônicas a) ( ) desvia-se do português padrão
e contos publicados em livros, jornais e culto.
revistas. b) ( ) usa a linguagem padrão culta
clássica.
a) ( ) Apenas I e II. c) ( ) apresenta padrão culto, com va-
b) ( ) Apenas II e III. riações regionais.
c) ( ) Apenas I e III. d) ( ) enquadra-se no padrão culto re-
d) ( ) I, II e III. gionalista.

2. O Concretismo brasileiro caracte- 5. Os romances Baú de ossos, de Pedro


riza-se por: Nava; e Agosto de Rubem Fonseca, classifi-
a) ( ) renovação dos temas, privile- cam-se respectivamente como:
giando a revelação dos estados psíquicos do a) ( ) conto e romance intimista.
poeta. b) ( ) romance regionalista e crônica.
b) ( ) preocupação com a correção c) ( ) texto-reportagem e romance re-
sintática e o uso de linguagem formal. gionalista.
c) ( ) exploração estética do som, da le- d) ( ) romance de memórias e romance
tra impressa e dos espaços brancos da página. político.
d) ( ) descaso pelos aspectos formais
do poema e valorização do conteúdo. 6. A obra O Auto da Compadecida foi es-
crita para o teatro por:
3. Pode-se afirmar que o poema abaixo a) ( ) José Cândido de Carvalho, que
apresenta-se: aborda temas regionalistas com recriação da
fala popular.
As coisas b) ( ) Mário Palmério que retrata a di-
mensão teatral da cultura e das particularidades
as coisas têm peso, da região mineira.
massa, volume, tamanho, c) ( ) Ariano Suassuna, tendo como
tempo, forma, cor, base romances e histórias populares do Nor-
posição, textura, duração, deste brasileiro.
densidade, cheiro, valor. d) ( ) João Cabral de Melo Neto que
consistência, profundidade, aborda temas religiosos divulgados pela litera-
tura de cordel.
Literatura 3 - Aula 6 99 Instituto Universal Brasileiro
4. a) ( x ) desvia-se do português pa-
drão culto.
Comentário. No texto da obra Sargento
Getúlio, João Ubaldo Ribeiro usa uma linguagem
coloquial, repleta de regionalismos, alguns termos
1. d) ( x ) I, II e III. sendo criação do próprio autor, desviando-se do
Comentário. Todas as afirmativas estão padrão da norma culta. A narrativa do romance tem
absolutamente corretas. As características cita- formulação complexa: está centrada em um longo
das definem perfeitamente a estética da poesia e monólogo, quebrado por alguns diálogos do sar-
prosa contemporâneas: muitos estilos diferentes gento da Polícia Militar do Sergipe, Getúlio Santos
que podem se misturar, se cruzar, alterando suas Bezerra. A variante de linguagem é a do sertanejo
configurações. O que permite ao romance man- caboclo, que utiliza vocábulos adulterados na fala
ter-se ora tradicional, ora inovador, com diferen- ingênua e criativa do protagonista-narrador.
tes formatações: regionalista, intimista, urbano-
social, político ou biográfico. E ainda a explosão 5. d) ( x ) romance de memórias e ro-
na produção de crônicas e contos publicados não mance político.
só em livros, mas também em jornais e revistas, Comentário. Baú de ossos é um livro de
com abordagem leve, irônica e bem-humorada. memórias, de caráter autobiográfico, de Pedro
Nava. Em 1968, aos 64 anos, o reumatologista
2. c) ( x ) exploração estética do som, e escritor mineiro Pedro Nava começava a es-
da letra impressa e dos espaços brancos da crever o livro de memórias Baú de Ossos (1972).
página. Este seria o primeiro dos sete que comporiam
Comentário. O concretismo brasileiro sua obra e recriariam o gênero literário de memó-
traz novas formas de expressão: valorização da rias no Brasil, até então relegado a segundo pla-
forma e da comunicação visual, sobrepondo ao no. Em Baú de Ossos, com um toque de poesia,
conteúdo. Fase literária voltada para a incorpo- graça e ironia, Nava explora o tempo através da
ração de recursos das artes plásticas. Na poesia sua própria genealogia e infância, desvela a for-
concreta, o verso é abolido; o espaço do papel mação da identidade do povo brasileiro e trata de
é aproveitado para fins significativos; há valori- temas universais. Agosto, de Rubem Fonseca, é
zação do recurso visual e sonoro; os vocábulos um romance político, de caráter histórico, que traz
são representados nos seus aspectos geométri- novas interpretações sobre o período conhecido
cos. Nos versos é possível observar a ausência como Era Vargas. Um dos maiores sucessos de
de sinais de pontuação; uso intensivo de certos crítica do autor, o livro mistura história e ficção,
fonemas; jogos sonoros e uso de justaposição. questionando: em que medida a história de uma
pessoa e a história de um país se determinam, se
3. b) ( x ) multifacetado, como a di- diferenciam e se assemelham?
nâmica do movimento e do mundo.
Comentário. O poema toma uma nova 6. c) ( x ) Por Ariano Suassuna, ten-
forma no mundo pós-moderno e amplia seus do como base romances e histórias popula-
horizontes, suas possibilidades e concepções. res do Nordeste brasileiro.
O texto passa a ser verbal, visual, sonoro, au- Comentário. A obra O Auto da Compa-
diovisual daí apresentar-se multifacetado, enfa- decida foi escrita por Suassuna em 1955. A peça
tizando o dinamismo e a criatividade. O próprio foi encenada com sucesso no Nordeste, e ganha
Arnaldo Antunes afirma não pertencer rigorosa- projeção nacional contemporânea com as produ-
mente a nenhum movimento. Apesar de reco- ções para TV e cinema. A peça retoma elementos
nhecer a influência concretista, o cantor, músi- do teatro popular, contidos nos autos medievais,
co, poeta, entre outras coisas, vê sua arte como e da literatura de cordel para exaltar os humildes
uma mistura de muitos estilos. Sua arte eviden- e satirizar os poderosos e os religiosos que se
cia a valorização do conteúdo sonoro e visual, preocupam apenas com questões materiais. As
possibilitando diversas leituras. demais alternativas estão incorretas.
Literatura 3 - Aula 6 100 Instituto Universal Brasileiro