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REZAR O NASCER

Era Erich Fromm que dizia que as pessoas felizes são aquelas que
encaram todo o curso da sua vida como um processo de
nascimento, rompendo com a gramática mais comum que
considera que cada um de nós só nasce uma vez, só tem uma
grande oportunidade, só percorre um caminho antes de se
precipitar no fim. Erich Fromm defendia que tal modo de pensar
gera este efeito devastador: vermos tanta gente morrer sem sequer
ter chegado a nascer. De facto, o verdadeiro e exigentíssimo
desafio que se coloca ao ser humano é levar a cumprimento o seu
nascimento. Nisto, nós humanos, diferenciamo-nos das outras
criaturas, que em pouco tempo já são completamente aquilo que
são. Nós, ao contrário, somos inacabados; recebemos a vida como
dom, mas também como tarefa; vivemos no decurso do tempo o
processo do nosso próprio parto; precisamos de muitos anos (e de
mundo trabalho espiritual) para chegar a exprimir o que há em nós
de original.
As nossas sociedades concentraram demasiado a sua aposta de
formação em saberes técnicos e especializados, apontando como
horizonte o resultado sobretudo material e, como consequência,
damos por nós analfabetos, vulneráveis e desprovidos nas
dimensões fundamentais do viver. Uma das patologias
contemporâneas é este défice de sabedoria, esta falta de uma arte
da existência. Na verdade, por sua vocação, o ser humano não se
realiza apenas na luta pela sobrevivência. A par dessa, ele precisa
conhecer-se a si mesmo, viver na exterioridade e na interioridade,
precisa avizinhar-se com vagar da espantosa realidade das coisas,
escutar o visível até ao fim e para lá do visível, sentir o pulsar do
coração de Deus porque a vida é dom e mistério.
Que Maria nos ajude neste ano novo a nascer muitas vezes.

06.01.2020