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Noções básicas sobre o núcleo e o declínio

radioactivo

26 de Setembro de 2005

1 Constituição do núcleo
O átomo é uma nuvem de Z electrões que rodeia um núcleo constituído por Z
protões e N neutrões.

Figura 1: O núcleo tem Z protões e N neutrões (nucleões). Os nucleões são por


sua vez constituidos por quarks.

Temos então que o número de massa A é dado por

A = Z + N. (1)

♦ A designação número de massa quer dizer a massa do núcleo


em unidades de nucleão, já que protões e neutrões têm praticamente a
mesma massa.

1
A
Os núcleos são geralmente representados na forma Z X , em que X é o símbolo
56
químico do elemento. Por exemplo, o núcleo do Ferro é 26 Fe, o que quer dizer
que tem 26 protões (e portanto o átomo também tem 26 electrões) e que tem 56
nucleões. Daqui se deduz que o número de neutrões é 30.
É o Z que determina o elemento. Para o mesmo Z podem haver vários valores
possíveis de N , e portanto de A. Aos núcleos com igual Z e diferente A chamamos
isótopos.

♦ Isótopos famosos:

1
• O Hidrogénio tem três isótopos: o hidrogénio normal, 1 H , o deutério,
2 3
1 H e o trítio, 1 H .
11 12 13 14
• O carbono tem 4 isótopos, 6 C , 6 C , 6 C e 6 C , sendo que o mais
12
abundamnte é o 6 C , com aproximadamente 98.9% de abundância
13
relativa e que o 6 C tem aproximadamente 1.1% de abundância
relativa.

Os nucleões são constituídos, por sua vez, por quarks. Existem seis tipos
de quarks: up (u), down (d), charm (c), strange (s), top (t) e bottom (b). Os
quarks têm carga fraccionária. Up, charm e top têm carga +2/3 e down, starnge
e bottom têm carga -1/3. Os anti-quarks têm carga oposta. São fermiões, e por
isso têm spin 1/2. Os nucleões são costituídos por quarks u e d. Assim,

1
• o protão é dado por 1 p = uud
1
• o neutrão é dado por 0 n = udd.

Porque é que os nucleões não se repelem?

Com efeito, os protões dever-se-iam repelir, já que têm a mesma carga. A


resposta é que no interior do núcleo faz-se sentir a força nuclear forte, que é
muito mais intensa que a força electromagnética, embora de muito mais curto
alcance.
Tal como a força electromagnética é mediada pelos fotões (a interacção elec-
tromagnética é a troca de um fotão), a força nuclear forte é mediada pelos gluões,
que são trocados entre os quarks. Tal como cargas eléctricas opostas se atraem,
os quarks têm uma carga de côr (vermelho, azul, verde, anti-vermelho, anti-azul
e anti-verde). A atracção dá-se entre cores diferentes e entre anti-cores. Cores
iguais repelem-se.

2
Figura 2: Os nucleões são constituídos por quarks

2 Declínios Radioactivos
A maior parte dos núcleos que podem existir não são estáveis. Isto quer dizer
que podem passar a um estado de mais baixa energia. Este estado por sua vez
pode ou não ser estável. A cadeia acaba no estado de mais baixa energia, que é
o núcleo estável.
A forma que o núcleo tem de procurar a estabilidade é livrar-se de partículas.
Assim, os três tipos de emissão radioactiva são os seguintes

• Emissão α: o núcleo emite uma partícula α, que é um núcleo de Hélio, ou


seja, dois protões e dois neutrões. Como as partículas α são muito massivas
têm um fraco poder penetrante na matéria.

A emissão α corresponde a uma ssão do núcleo. Este decaimento pode ser


esrito como
A
ZX →A−4 4
Z−2 Y +2 He. (2)

♦ Exemplos de declínios α:
238
92 U →234 4
90 Th +2 He

226
88 Ra →222 4
86 Rn +2 He

• Emissão β: o núcleo emite uma partícula β, que pode ser um electrão ou


um positrão. São muitissimo mais leves do que as partículas α. Por isso
têm um poder penetrante maior, precisamente porque a sua capacidade de
interactuar com a matéria também é mais reduzida.

3
A origem da emissão β está noutra força: a força electrofraca. Esta in-
teracção, que é mediada pelos bosões W ± e Z 0 , permite que um quark u
(ou d) se tranforme num quark d (ou u), com a emissão de um positrão
(ou electrão) e um neutrino (ou antineutrino). Assim aparece a partícula
β que é emitida pelo núcleo. Portanto, a partícula β tem origem numa
transformação de um quark noutro. A transformação de um neutrão num
protão está ilustrada na gura 3. Deve imaginar-se este processo a decorrer
dentro de um núcleo e que os outros nucleões são apenas expectadores do
processo.

Figura 3: Diagrama de Feynman que ilustra a transformação de um neutrão num


protão com emissão de um electrão e um antineutrino.

O decaimento beta pode ser escrito como

A −
ZX →A
Z+1 Y + β + ν̄ (3)
A
ZX →A +
Z−1 Y + β + ν (4)

♦ Exemplos de desintegrações beta:

137 −
55 Cs →137
56 Ba + β + ν̄

22
11 Na →22 +
10 Ne + β + ν

• Emissão γ: o núcleo emite uma partícula γ, que é um fotão. Estes fotões


têm uma grande energia (têm uma frequência muito superior à da luz visível,
na banda dos raios-X). Têm portanto um grande poder de penetração na
matéria.

A emisão γ tem origem na interacção electromagnética nos núcleos. Muitas


vezes dá-se após um declínio beta ou alfa, que ainda deixaram o núcleo num

4
estado excitado. A desexcitação dá-se através da emissão de um fotão. O
decçíbio gama não altera portanto os números atómico e de massa. Pode
escrever-se
A ∗
ZX →A
Z X + γ, (5)

onde o asterisco indica que o núcleo está num estado excitado.

3 Esquemas de declínio
Vejamos agora alguns esquemas de declínios radioactivos

12 12 −
• O 5 B pode decair directamente para o 6 C através de um declínio β ou
12 ∗
pode primeiro decair para um estado excitado 5 C , que por seua vez decai
para o estado nal através de uma emissão gama.

12
Figura 4: Declínio do 5B


De passagem note-se que a partícula β também se pode escrever como
0
−1 e e que portanto a equação do declínio se pode escrever numa forma que
mostra directamente a conservação dos números atómico e de massa:

12
5B →126 C∗ +−10 e + ν̄ (6)

12 ∗
6C →126 C + γ. (7)

♦ Uma nota sobre as energias: as energias em Física


Nuclear são expressas e múltiplos do electrão-Volt (eV). O que é
um eV? É a energia adquirida ou (perdida) por um electrão que se
move através de uma diferença de potencial de 1 V. E quanto é essa

5
energia? Sabemos que a variação da energia potencial ∆U de uma
carga q que atravessa uma ddp de ∆V é ∆U = q∆V . Assim, no
caso de um electrão e 1 V,

1 eV = 1, 60 × 10−19 C · 1V = 1, 60 × 10−19 J. (8)

12 12
Assim, a diferença de energia entre o 5 B e o 6 C é de 13.4 MeV, ou
−12
seja 2.144 × 10 J.

• O declínio do Tório 228 para o Rádio 224:

Figura 5: O declínio do Tório 228 para o Rádio 224

Neste esquema estão indicadas as probabilidades de cada declínio. As en-


ergias estão indicadas em MeV.

238
• Por vezes a série de declínios é longa. Uma série famosa, a série do92 U,
está representada na gura 6. A variação total do número de massa é 38 e
do número atómico é 10.

4 Probabilidade de Desintegração
Consideremos uma colecção muito grande de núcleos radioacticos. Consideremos
que λ é a probabilidade de decaimento de um núcleo por unidade de tempo:

λ = probabilidade de desintegração, (9)

[λ] = s−1 . (10)

6
Figura 6: A série do Urânio 238

λ não depende do tempo, isto é, não importa se um dado núcleo está à espera
de decair há 1 milhão de anos ou há 1 dia  a probabilidade de que ele decaia
no próximo segundo é sempre a mesma.

20
Como se determina λ? Suponhamos que temos 10 núcleos e que durante 5
5
segundos decaem 10 núcleos. Então a probabilidade de decaimento em 5 s é

105
P [5s] = 20 = 10−15 . (11)
10
A probabilidade por unidade de tempo é então

105
P (s−1 ) = = 2 × 10−16 s−1 ≡ λ. (12)
1020 · 5s
De uma forma geral, se temos n(t) núcleos por decair num dado instante
de tempo e se num intervalo innitésimal dt decaem dn(t) núcleos, então, por
analogia com exemplo anterior compreendemos que λ é dado por

−dn(t)
λ= (13)
dt · n(t)
(o sinal (-) é porque λ > 0 mas dn < 0 já que n está a diminuir). Podemos
reescrever esta equação na forma

dn(t)
= −λn(t). (14)
dt

7
Esta equação também se pode interpretar assim:

taxa de variação de n(t) = prob. de desint. ×


o
n de núcleos por decair, (15)

já que λn(t) deve dar o número de núcleos que decai por unidade de tempo, pela
própria denição de λ.

5 Equação do declínio radioactivo


Esta equação (14) é fácil de integrar, pois é a equação a que satisfaz uma expo-
nencial. Assim, n(t) tem a forma

n(t) = Ce−λt , (16)

em que C é uma constante a determinar. Essa determinação é trivial. Sabemos


que em t = 0 ainda nenhum núcleo decaíu e portanto n(t = 0) = n0 , em que n0
é o número inicial de núcleos. Temos então

n(t = 0) = Ce0 = n0 ⇒ C = n0 . (17)

Portanto, a expressão nal para n(t) é

n(t) = n0 e−λt . (18)

Este é o número de núcleos que restam em cada instante t. A equação (18) é a


equação do declínio radioactivo. Mostra que o número de núcleos por decair
diminui de forma exponencial ao longo do tempo. A gura 7 ilustra a evolução
de uma população de núcleos radioactivos com probabilidade de desintegração
λ = 0.02s−1 .

6 Vida Média
Dada uma amostra com um número muito grande de núcleos e probabilidade de
declínio λ, quanto é que um núcleo vive em média? Por outras palavras, qual é a
sua vida média? A gura 8 que se segue mostra o raciocínio básico para chegar
à expressão da vida média:

Nesta gura estamos a tomar um incremento de ∆t = 1s. Se tomarmos agora


∆t → dt, então o número de núcleos que viveram entre t e t + dt é dado por
n(t) − n(t + dt) = −dn.

8
Figura 7: O número de núcleos por decair para uma espécie com λ = 0.02s−1 .

No caso ∆t = 1s calcularíamos a vida média como uma média pesada,


tomando o peso do intervalo i como sendo n(ti−1 ) − n(ti ) e o intervalo seria
representado pelo seu valor médio. Assim,

0.5 · (n(0) − n(1)) + 1.5 · (n(1) − n(2)) + . . .


τ= (19)
n(0)
n(ti−1 ) − n(ti ) → −dn →
P R
No caso em que ∆t passa a dt temos e , pelo que
Z ∞
1 1
τ= t(−dn) = . (20)
n(0) 0 λ
♦ Este resultado mostra-se de forma simples. Começamos por no-
tar que de acordo com a equação do declínio radioactivo se tem dn =
−λn0 e−λt dt. Fica então
Z ∞
1 t ∞ 1
  
−λt −λt
τ =λ te dt = λ −e + = .
0 λ2 λ 0 λ
Chegamos então à conclusão de que a vida média é o inverso da proba-
bilidade de desintegração (e tem unidades de s, claro).

7 Período
O Período de desintegração, T, é o intervalo de tempo em que o número de
núcleos por decair se reduz a metade do número inicial. Assim,
n0 n0
n(T ) = ⇒ no e−λT = ⇒ −λT = − ln 2, (21)
2 2

9
Figura 8: O tempo de vida dos núcleos em função de n(t).

ou seja
ln 2
T = = τ ln 2. (22)
λ

8 Actividade
Não podemos medir n(t) [teríamos de contar todos os núcleos radioactivos de
uma amostra, o que é uma tarefa impossível] e portanto a equação do declínio
radioactivo, como está, não nos serve de muito. No entanto podemos medir o
número de declínios por unidade de tempo. Como já vimos, isso vale

dn
λn(t) = − ≡ A(t). (23)
dt
A(t) é a actividade. É uma grandeza que já podemos medir, por exemplo, com
um contador Geiger. É fácil de ver que a actividade satisfaz à mesma equação
que n(t):
dA dn
=λ = λ[−λn(t)] ≡ λA(t). (24)
dt dt
Se A(t) satisfaz à mesma equação diferencial que n(t), então também satisfaz à
mesma equação de declínio:
A(t) = A0 e−λt , (25)

10
com A0 = A(t = 0) = λn(t = 0) = λn0 .
Podemos medir a actividade com um contador Geiger e através desta con-
tagem determinar λ e assim n0 .

Figura 9: Determinando τ a partir das medidas da actividade.

♦ Como determinar a vida média do elemento a partir do qual se


zeram as contagens mostradas na gura 9?

De (25) temos
ln A(t) = ln A0 − λt. (26)

Isto quer dizer que se tomarmos o logaritmo das contagens em função


do tempo, o declive da recta será λ. Neste caso

λ = 0.0112s−1 ⇒ τ = 89.3 s ⇒ T = 61.9 s. (27)

8.1 unidades da actividade

A unidade do sistema internacional é o becquerel (Bq), que é igual é uma desin-


tegração por segundo. Na prática usa-se o Curie (Ci),

1 Ci = 3.7 × 1010 declínios/s. (28)

11
9 A Estatística do declínio radioactivo
A desintegração de um núcleo radioactivo é um processo aleatório: numa colecção
de núcleos não podemos prever qual será o próximo a decair e para um núcleo
em particular não sabemos quando decairá. Vimos no entanto que se λ é a
probabilidade de desintegração por unidade de tempo, então λn(t) é a taxa de
variação temporal de n(t), o número de núcleos por decair. Isto ainda quer dizer
que podemos interpretar λn(t) como o número de declínios por unidade de tempo.
Suponhamos agora que fazemos repetidas medidas do número de desinte-
grações num intervalo de tempo ∆t. Então, se n(t) praticamente não variar em
∆t temos que o número médio de desintegrações em ∆t é

∆n = λn(t)∆t. (29)

Se ∆n  n(t), então podemos considerar que n(t) não varia e tomamos n(t) ≡
N =Const. Para que isto aconteça devemos ter, por (29),
∆n
= λ∆t  1 ⇒ τ  ∆t. (30)
N
Agora é fácil de compreender que

• τ  ∆t é uma condição necessária e suciente (vimos apenas a necessária)


para que

1. n(t) se possa considerar constante, =N , e

2. λn(t)∆t = λN ∆t é o valor médio de desintegrações em ∆t.

Mas seµ = λN ∆t é o valor médio, isto quer dizer que todas as medidas vão
dar o valor µ de contagens? Claro que não. Se zermos muitas contagens de
∆t segundos, os resultados vão oscilar em torno de µ. A forma como se dá essa
oscilação é descrita pela distribuição de Poisson:

µn e−µ
P (n, µ) = , (31)
n!
em que n é o número de contagens, µ = λN ∆t é o número médio de contagens e
P (n, µ) é a probabilidade de ter n contagens se µ for o número médio de contagens.
Assim, no nosso caso pobemos ainda escrever

(λN ∆t)n e−λN ∆t


P (n, λN ∆t) = . (32)
n!

A forma da distribuição está ilustrada na gura. À medida que µ → ∞ a


distribuição de Poisson tende para uma distribuição do tipo gaussiano.

Vejamos agora as propriedades da distribuição de Poisson;

12
Figura 10: A distribuição de Poisson para µ = 5.

• Normalização A soma de todas as probabilidades deve dar 1, ou seja



X
P (n, µ) = 1. (33)
n=0

♦ É fácil ver:

∞ ∞
µn
!
e−µ .
X X
P (n, µ) =
n=0 n=0 n!
Mas a expansão em série de eµ é precisamente pela soma entre
parêntesis. Assim,


P (n, µ) = eµ e−µ = 1.
X

n=0

• Valor Médio O valor médio para qualquer distribuição de probabilidade


P
não é mais do que a média pesada: n̄ = n npn . Assim, neste caso temos
que o número médio de contagens é


X
n̄ = nP (n, µ) = µ. (34)
n=0

♦ Este resultado tinha de ser ser assim, já que a µ é, por


hipótese, o valor médio. Temos

∞ ∞ ∞
X µn −µ
X
−µ
X µn−1
n̄ = nP (n, µ) = n e = µe = ...
n=0 n=0 n! n=1 (n − 1)!

13
onde só se usou o facto de que o termo n=0 é nulo e se passaram
os elementos constantes para fora da soma. Se zermos agora a
mudança de variável k =n−1 temos


µk
. . . = µe−µ = µe−µ eµ = µ.
X

k=0 k!

• Variância De uma forma geral, a variância é dada por


1 X
σ2 = (xi − x̄2 ). (35)
N − 1 i=0

É fácil ver que se N → ∞, então σ2 se pode antes escrever


1 X
σ2 = x2 − x̄2 . (36)
N i=0 i

No nosso caso isto vai implicar


σ= n. (37)

♦ Mostremos este resultado: a aplicação directa de (36) dá

∞ ∞
µn −µ µn
σ2 = n2 e − µ2 = e−µ − µ2 =
X X
n
n=0 n! n=0 (n − 1)!
∞ ∞
nµn−1 d X µn
= µe−µ − µ2 = µe−µ − µ2
X

n=1 (n − 1)! dµ n=1 (n − 1)!

Se agora zermos de novo a mudança de índice k = n−1, a expressão


ca

∞ ∞
µk+1 µk
" #
d X
−µ 2 −µ d
− µ2
X
µe − µ = µe µ
dµ k=0 k! dµ k=0 k!
d
= µe−µ [µeµ ] − µ2 = µe−µ (eµ + µeµ ) − µ2 = µ

Este resultado quer dizer que quando fazemos contagens a variância aumenta

com o número de contagens, já que σ= n.

♦ Imaginemos que fazemos muitas medições num dado intervalo de


contagem e que o valor médio de contagens é 9. Isto quer dizer que
as contagens se distribuem à volta do valor 9 com uma dispersão de

± 9 = ±3. Se agora aumentarmos o tempo de contagem e passarmos
a ter µ = 100, então passamos a ter valores de contagem distribuídos em

torno de n = 100, com uma dispersão de ± 100 = ±10.

14
Questão Quer isto dizer que a estatística piora com o número de
contagens?

Para uma contagem individual também assumimos uma variância de



n, porque a contagem já é em si uma amostra estatística (p.
√ ex.:
medida única de 547 contagens. Então o resultado é n = 547 ± 547).

10 Detectores de radiação com gás


10.1 Câmaras de ionização

A ideia básica do funcionamento das câmaras de ionização está ilustrada na gura


11.

Figura 11: Ionozação numa câmara de gás.

Um gás é mantido entre as placas de um condensador. Entre as placas aplica-


se uma tensão e gera-se um campo eléctrico entre elas. Quando uma partícula
radioactiva (alfa, beta ou gama) ioniza um dos átomos do gás gera-se um electrão
e um ião positivo. Se o campo for sucientemente forte electrões e iões não se
recombinam e migram em direcção às placas com carga de sentido oposto ao seu.
Consideremos agora um caso particular, em que o gás é o ar. A energia média
de ionização para o ar (média sobre os diferentes componentes do ar) é 34 eV.

15
Suponhamos que uma partícula radioactiva de 1 MeV entra na câmara. Esta
partícula vai ionizar um número de átomos igual a

Energia da radiação 106


N= = ∼ 3 × 104 . (38)
Energia de ionização 34
Formar-se-ão portanto aproximadamente 30.000 pares electrão-ião. Os electrões
dirigem-se para a placa positiva e os iões para a placa negativa. Os electrões são
muito mais rápidos que os iões porque estes são muito mais massivos. Quando a
carga correspondente a estas electrões se deposita na placa positiva gera-se uma
tensão extra aos terminais do circuito das placas (isto é, esta tensão sobrepõ-se
à alta tensão aplicada às placas para fazer a ionização). Essa tensão é dada pela
equação habitual dos condensadores:

Q
Q = CV ⇔ V = , (39)
C
em que Q é a carga dos electrõs, Q = N e = 3 × 104 e = 5.7 × 10−15 C (e é a
carga elementar). A capacidade C tem se ser calculada para um caso particular.
Suponhamos que as placas têm dimensão de 10 × 10 cm (área A = 10−2 m2 ),
com uma separação de d=1 cm. Então

A
C = 0 = 8.9 × 10−12 F, (40)
d
em que 0 = 8.85 × 10−12 F/m é a permitividade do vazio. Vem nalmente que
a tensão originada pelos electrões aos terminais da placa é

5.7 × 10−15
V = = 0.6 mV. (41)
8.9 × 10−12
Esta tensão é muito pequena, e tem de ser amplicada.
De acordo com o que vimos, se a radiação incidente passar a ser de 2 MeV,
o sinal do detector passa a ser aproximadamente 1.2 mV. Portanto o sinal é
proporcional à energia da radiação. Por outro lado a voltagem aplicada às placas
não inuencia a magnitude do sinal. O único efeito que se espera da variação
da tensão aplicada é a variação da velocidade dos electrões e iões. Com uma
tensão aplicada maior as cargas livres devem chegar mais rápidamente às placas
de carga oposta. Portanto, para uma câmara de ionização,

• o sinal é proporcional à energia da partícula radioactiva

• o sinal não depende da tensão aplicada às placas

E qual é a rapidez desde detector? Valores típicos são os seguintes: tensão


aplicada: 100 V, velocidade de deriva dos iões ∼ 1 m/s. Para uma distância
de 1 cm temos portanto um tempo de resposta de 0.01 s. Se quiséssemos fazer

16
contagens de radiação com este detector estaríamos limitados a valores da ordem
de 100 partículas por segundo. Para valores superiores a este os sinais sobrepor-
se-iam e não seria possível discriminá-los individualmente. Ora, uma amostra de
4
1µCi (valor típico de uma fonte radioactiva relativamente fraca) tem um 3.7×10
declínios por segundo, muito mais do que o valor limite referido de 100.
Em suma, as câmaras de ionização não são aptas para fazer a contagem dos
declínios de uma amostra radioactiva. Servem no entanto para monitorizar a
radiação. Em ambientes radioactivos a tensão gerada nas placas é diferente de
zero, indicando a presença de partículas radioactivas.
O circuito eléctrico genérico de uma câmara de ionização está esquematizado
na gura 14.

Figura 12: Ionização numa câmara de gás [www.euronuclear.org].

Note-se que a tensão entre as placas gera uma ddp no sentido ⊕ → dos
terminais das baterias, enquanto que a ddp originada pela deposição de iões e
electrões nas placas tem o sentido oposto. Por isso é que se pode introduzir um
amperímetro no circuito e medir a corrente gerada pelos iões e electrões (a tensão
de polarização das placas não gera corrente).
Assim, acorrente medida é proporcional à actividade da fonte e à energia das
radiações.

10.2 Contadores proporcionais

Para conseguir contar pulsos aumenta-se a tensão entre as placas. Na verdade,


passa a ser mais conveniente usar uma geometria cilíndrica, como está ilustrado
na gura 13.
A diferença de potencial entre o o do ânodo (⊕) e o cilindro do cátodo ( )

17
Figura 13: Geometria cilíndrica dos contadores proporcionais [www.tpub.com].

atinge mais de 1000 V. O campo eléctrico tem a forma

V
E(r) = , (42)
r ln(b/a)

em que V é a ddp entre o e cilindro, r é a coordenada cilíndrica com origem no


o, b é o raio interno do cátodo e a é o raio exterior do o.
O efeito de um campo tão forte faz-se sentir não apenas na velocidade dos elec-
trões e iões, mas também no aparecimento das avalanches de Townsend. Quando
um electrão tem suciente energia pode chocar com um átomo e ionizá-lo:

e− + A0 → e− + e− + I + = 2e− + I + . (43)

Assim, antes da colisão havia um electrão e depois da colisão passam a haver dois
electrões. O processo está esquematizado na gura 14.
O sinal observado depende, tal como no caso da câmara de ionização, da
energia da radiação incidente. Com efeito, o número de electrões originados
por ionização primária é calculado como no exemplo do cálculo (38). Portanto,
quanto maior a energia incidente, mais electrões primários. Um facto importante
é que no regime que estamos a considerar cada electrão primário gera apenas
uma avalanche (é nítido da gura). Portanto, relativamente ao caso da câmara
de ionização o sinal é ainda proporcional à energia da radiação incidente, mas
maior, porque o número de electrões que chegam ao ânodo é amplicado por
acção das avalanches.
Uma diferença importante, no entanto, é que agora o sinal depende do campo
aplicado entre as placas. Com efeito, se a tensão entre as placas for maior a zona
de campo elevado à volta do ânodo onde se iniciam as avalanches aumentam.
Isto quer dizer que as avalanches têm mais espaço para crescer e chegam mais
electrões ao ânodo. Portanto, para um contador proporcional,

18
Figura 14: Avalanche de Townsend. Ilustram-se apenas quatro avalanches. O
3 5
número típico de avalanches varia entre 10 e 10 .

• o sinal é proporcional à energia da partícula radioactiva

• o sinal aumenta com a tensão aplicada às placas

Como se pode ver de (42), o campo é muito elevado junto ao ânodo, e é nesta
zona que se dão as avalanches. A propagação das avalanches é muito rápida e por
isso o que determina o tempo de reacção do contador é o tempo que os electrões
primários levam desde a zona da sua formação até à vizinhança do ânodo. Se a
isto acrescentarmos o facto de que agora os electrões viajam muito mais rápido
do que na câmara de ionização por causa da tensão aplicada, obtém-se um tempo
6
de resposta da ordem de µs e portanto contagens da ordem de 10 /s.

10.3 Contador de Geiger-Müller

O que é que acontece se o campo aplicado entre ânodo e cátodo aumentar ainda
mais? Quando as energias se tornam muito elevadas os átomos que participam
nas avalanches podem car em estados excitados de muito alta energia após a
colisão e emitir um fotão UV ou X, também de alta energia. Podem também
haver recombinações entre electrões e iões, com emissão de fotões. Estes fotões
podem agora induzir o efeito fotoeléctrico num átomo do tubo, que geralmente
não está na avalanche. Como o efeito fotoeléctrico é

γ + A0 → e− + I + , (44)

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o novo fotoelectrão vai iniciar uma nova avalanche. Gerou-se pois uma avalanche
secundária. Esta é uma grande diferença relativamente ao caso anterior do
contador proporcional. Enquanto no caso do contador proporcional um electrão
primario gera apenas uma avalanche, neste caso um electrão primário pode gerar
muitas avalanches secundárias.
A geração de uma avalanche secundária está ilustrada na gura 15

Figura 15: Formação de uma avalanche secundária.

Os fotões viajam para todas as partes do tubo e geram fotoelectrões e avalanches


secundárias por todo o tubo. Por isso nesta região, chamada de Geiger-Müller,
todo o tubo participa no processo. Isso quer dizer que a radiação inicial acaba
sempre por gerar o mesmo sinal: se tiver energia E gera uma cascata de avalanches;
se tiver energia 2E acaba por gerar a mesma cascata. A amplicação do tubo é
agora tão grande (∼ 1010 ) que basta uma pequena perturbação para fazer gerar
a cascata. A energia das radiações incidentes não é discernível. O tubo dá o
mesmo sinal para todas as radiações (e é cerca de 1 V, mesmo sem amplicação).
Os contadores Geiger operam nesta região.
Os iões são muito mais lentos do que os electrões. Isto quer dizer que quando
os electrões chegam ao ânodo ainda os iões estão quase no mesmo sítio, ou seja,
nas imediações do ânodo, onde as avalanches se iniciam. Mas então o que acontece
é que os iões formam uma nuvem de carga positiva que blinda o campo eléctrico
do ânodo. O campo eléctrico efectivo reduz-se muito e a possibilidade de se darem
novas avalanches é quase nula. Vemos portanto que o sistema se auto-regula. A
chegada dos electrões ao ânodo limita a possibilidade de novas avalanches.

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No entanto ainda há uma possibilidade. Os iões acabam por chegar ao cátodo
(num tempo da ordem dos ms) e como o campo é elevado, chocam com energia
suciente para lhe arrancar electrões. Ora, estes electrões poderiam, agora sim,
iniciar nova avalanche. Para evitar este processo adiciona-se ao tubo um gás
quenching gas ), que tem por missão absorver a energia cinética dos iões através
(
de colisões.
O que acontece se se aumentar mais a tensão? Dentro da zona de Geiger-
Müller não acontece nada, isto é, o valor do sinal não se altera porque todos os
átomos do tubo já estão a participar nas avalanches  já não há mais para dar.
No entanto, aumentando ainda mais a tensão o gás entra em disrupção  dá-se
uma descarga entre as placas através do gás. O contador poderá car inutilizado.
Portanto, para um contador de Geiger,

• o sinal não depende da energia da partícula radioactiva

• o sinal não depende da tensão aplicada às placas

Um resumo dos três regimes das câmaras de gás está na gura 16.

Figura 16: Um resumo dos três regimes das câmaras de gás.

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