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Universidade Federal de Pernambuco

Comunicação Social 2019.1

Disciplina: Técnicas de Redação

Aluno: Gabriel Gomes Vila Nova

Análise Crítica do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”

“Brilho eterno de uma mente sem lembranças” é um filme escrito por Charlie Kaufman,
dirigido por Michel Gondry, lançado em 2004 e trata-se da história de um processo de
apagamento de todas as memórias de Joel que estão ligadas a Clementina, com a qual teve
um relacionamento duradouro, após saber que ela teria feito o mesmo procedimento após uma
discussão entre os dois.

Antes de tudo é possível perceber que o cerne da história é o clichê amor intenso entre
pessoas diferentes. Entretanto, a forma como essa relação é contada é totalmente original,
tendo como característica marcante a influência da ficção científica e o mergulho nas memórias
humanas. E o crédito desses aspectos deve-se a Charlie Kaufman, que, diferente do comum
na cinematografia de Hollywood, se destaca não por ser diretor ou ator, mas sim roteirista.
Afinal, não é à toa que ela venceu o Oscar de melhor roteiro original.

No que tange à atuação, o filme é impecável. Isso se deve também à qualidade dos
atores e atrizes que fazem parte do elenco. Os principais personagens são bastante
reconhecidos por outros trabalhos premiados como Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst,
Mark Ruffalo e Elijah Wood.

No roteiro, os pensamentos do personagem ganham voz, fazendo as vezes de


narrador, colocando o espectador dentro da mente do personagem. Isso encaixa perfeitamente
no modo como a história é contada: através das lembranças de Joel.

Esse tem como principal característica ser alguém introvertido e fechado. Sempre
relutante em se abrir com Clementina durante o relacionamento, evita discussões e guarda
muitas coisas que o aborrecem dentro de si mesmo. Isso pode ser interpretado como um dos
principais fatores do relacionamento não ter dado certo. Além disso, essa característica
principal é bastante conveniente com a rotina monótona e a vida não interessante que o
personagem diz viver. Outro ponto que também fortalece sua personalidade é o fato do círculo
de amizades de Joel ser formado apenas por sua irmã e o esposo dela. Dessa forma, podemos
notar o quão Jim Carrey desempenha bem um papel que foge dos personagens abertos e
extrovertidos de suas comédias mais famosas.

Já Clementina tem uma personalidade quase que completamente oposta. Com o seu
cabelo que sempre muda de cor e a constante mudança de opinião traça uma das
características mais fortes de sua personalidade: a impulsividade. Não é à toa que ela é quem
faz primeiro o procedimento para esquecer as lembranças ligadas a Joel. Outro fator
importante que fortalece essa personalidade são as roupas mais usadas pela personagem, de
cores fortes. Tanto que o seu casaco favorito é laranja. Através disso, podemos citar que a
utilização das cores, nas roupas e no cabelo da personagem, é algo pensado pela direção que
fortalece primeiro a personagem Clementina, e, em segundo lugar, o seu contraste com o
personagem Joel.
Vale destacar o bom trabalho do diretor na utilização de câmeras desfocadas, de
contornos de cena sem luz e de mistura de cenários de lembranças diferentes para criar uma
atmosfera de sonho. Além disso, a cena da última lembrança sendo apagada sintetiza o bom
trabalho da direção ao passar toda a nostalgia, emoção e ideia de fim através do
desmoronamento da casa durante a noite, da invasão da água do mar pela qual Joel caminha
e da trilha sonora formada por melódicos pianos e conjunto de cordas.

Ademais, a trilha sonora utilizada é conveniente com as respectivas cenas; entretanto,


a música tema “Everybody’s gotta learn sometime” não parece sintetizar de forma ideal a força
do fim do relacionamento e dos sentimentos nostálgicos, saudosos e românticos do enredo.

Existem duas frases que são principais do filme, uma é uma citação de Friedrich
Nietzsche: “Abençoados sejam os esquecidos, pois recebem a maior desforra de seus erros.” A
importância dessa frase, além de ser repetida em momentos específicos, está no fato do filme
buscar refutar essa frase, mostrando a importância de manter vivas as lembranças, dado que
são partes da história e da formação de cada ser humano, sejam as mais tristes ou mais belas.
Uma cena que confirma isso é a na qual a própria personagem Mary que cita Nietzsche, ao
saber que teve apagada de sua mente toda a história de seu caso com o Dr. Howard, furta e
envia todo o material usado nos procedimentos para os respectivos pacientes.

Outra citação tão importante quanto é o trecho da poesia “Eloisa to Abelard” do poeta
inglês Alexander Pope, que foi inspirado em um romance antigo entre Pedro
Abelardo e Heloísa de Paráclito, que, após serem separados, por muito tempo não mais se
viram e se comunicaram através de correspondências nas quais lembravam os amores vividos.
Dessa forma, há uma valorização das lembranças de amores do passado na qual o filme se
inspira de tal forma que é dessa poesia que o nome “Brilho eterno de uma mente sem
lembranças” é tirado e utilizado como título para o filme.