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Introdução às Epístolas

do Novo Testamento
Joseph A. Fitzmyer, S. J.

BIBLIOGRAFIA

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ESBOÇO

Observações gerais (§ 3-7) (B) Ação de graças


(I) "Epístola" como gênero literário (§ 3) (C) M ensagem
(II) "C arta" ou "epístola" (§ 4-5) (D) Conclusão e saudação final
(III) A forma da carta na Antiguidade (§ 6-7) (II) As "cartas" de Paulo (§ 9-11)
A escrita de cartas no Novo Testamento (§ 8-21) (III) O corpus paulino (§ 12-15)
(I) A forma da carta paulina (§ 8) (IV) Hebreus e as epístolas católicas (§ 16-18)
(A) Fórm ula introdutória (V) Escrita ou ditado (§ 19-21)
OBSERVAÇÕES GERAIS

3 (I) "Epístola" como gênero literário. meio de comunicação entre pessoas que
Dos 27 livros do NT, 21 são chamados epistolai, estão separadas. Sendo de natureza confi­
ao passo que nenhum livro do AT é desig­ dencial e pessoal, dirige-se somente à pes­
nado dessa forma. Há cartas no AT; mas o soa às ou pessoas a quem é destinada e, de
uso desta forma de escrita com uma fina­ maneira alguma, ao público ou a qualquer
lidade religiosa, embora deva muito à po­ tipo de publicidade" (LAE 228). Em termos
pularidade da carta no mundo helenístico, de estilo, tom e forma, ela pode ser tão livre,
torna-se particularmente proeminente com íntima, familiar ou franca quanto uma con­
Paulo, que foi imitado por escritores cris­ versa; pode também ser uma carta oficial
tãos posteriores. destinada a um grupo ou diversos grupos.
Escrever cartas é uma prática antiga, Geralmente ela tem uma finalidade ad hoc.
atestada em correspondência oficial, co­ "Cartas" antigas existem em milhares de
mercial, real e privada durante milênios nas papiros gregos do Egito (A. S. Hunt e E. E.
áreas do Egito e da Mesopotâmia antes do Edgar, Select Papyri [LCL; Cambridge MA,
AT (ANET 475-90), bem como em formas 1952]; D. Brooke, Private Letters Pagan and
em aramaico e hebraico contemporâneas a Christian [London, 1929]). A maioria dos
ele. No AT, há resumos de correspondên­ exemplos do AT citados acima são "cartas"
cia oficial na era dos reis pré-exílicos (2Sm neste sentido.
11,14-15; lR s 21,8-10; 2Rs 5,5-6; 10,1-6). Ou­ "Uma epístola é um gênero literário ar­
tros resumos se encontram nos períodos tístico, um gênero de literatura, assim como
exílico e pós-exílico, mas neste último perí­ o diálogo, o discurso ou o drama. Ela não
odo eles tendem a preservar a forma da car­ tem nada em comum com a carta, exceto sua
ta antiga (em aramaico) (Esd 4,11-16.17-22; forma; à parte disso, pode-se propor o pa­
7,12-26). Em Est 9,20 são mencionados um radoxo de que a epístola é o oposto de uma
memorando de Mardoqueu e uma carta do carta verdadeira. Os conteúdos de uma epís­
rei acerca do Purim; os acréscimos deute- tola visam à publicidade - visam a interessar
rocanônicos ao livro fornecem, de maneira ‘o público’" (Deissmann, LAE 229). A epís­
apropriada, o texto de tais documentos, um tola é uma composição literária cuidadosa,
esforço literário grego (12,4; 13,1-7). Seme­ possivelmente, mas não necessariamente,
lhantemente, Br 6 preserva a chamada carta ocasionada por uma situação concreta e des­
de Jeremias (veja Jr 29,1). Muitas cartas pre­ tinada a um grande público. Desenvolvida
servadas em Macabeus (lM c 5,10-13; 8,23­ em escolas filosóficas gregas do séc. IV a.C.,
32; 10,18-20.25-45; 2Mc 1,1-2,18), escritas ela se assemelha a um tratado, diálogo ou
por judeus, romanos, soberanos selêucidas ensaio dedicado à exposição instrutiva ou
e por espartanos, tratam de aspectos nacio­ polêmica de algum tema. "Epístolas" anti­
nais ou políticos da vida judaica na Pales­ gas se encontram na obra de Sêneca intitu­
tina. Embora o uso religioso do gênero da lada Ad Lucilium epistulae morales, nas epís­
carta se encontre em Jr 29,4-23, tal uso não tolas de Epicuro preservadas por Diógenes
era proeminente; veio a sê-lo nos tempos do Laércio (Lives of Eminent Philosophers 10) e
NT. Algumas cartas do NT, entretanto, não em escritos judaicos como Aristeias (na rea­
são mais especificamente religiosas do que lidade, uma narrativa apologética; —» Apó­
muitas do AT (At 23,26-30). crifos, 67:32), Br 6,1-73 (uma homilia) e 2Mc
1,1-2,18. Atualmente há insatisfação com a
4 (II) "Carta" ou "epístola". Desde os distinção de Deissmann: ela não é incisiva
estudos de G. A. Deissmann, tem-se dis­ demais? O verdadeiro problema é decidir
tinguido frequentemente "carta" de "epís­ se um escrito específico deve ser classificado
tola". "Uma carta é algo não-literário, um como "carta" ou como "epístola".
5 Embora as epistolai do NT constitu­ At 15,29 (e 23,30 em alguns manuscritos).
am um corpus na Bíblia, isto não significa No caso de cartas ditadas, a saudação final
que, originalmente, pretendia-se que fos­ às vezes era escrita pelo remetente; ela fre­
sem "epístolas". As cartas privadas de lite­ quentemente ocupava o lugar de uma assi­
ratos famosos, por vezes, passaram a fazer natura nas cartas modernas. Em cartas ofi­
parte da literatura de um país, e a coleção ciais, geralmente se acrescentava uma data.
das cartas de Paulo num corpus não mudou Em muitas cartas antigas também se podia
radicalmente seu caráter específico. Tam­ também encontrar uma quarta parte, uma
pouco a inspiração, pela qual cartas foram ação de graças, que servia de introdução ao
destinadas pelo Espírito para a edificação corpo da carta e expressava um sentimento
da igreja cristã, altera o fato de um autor religioso ou nãoreligioso de gratidão. Ela
humano as ter destinado a uma pessoa ou geralmente começava com eucharistõ, "dou
um grupo ou a tratar de um problema ou graças", ou charin echõ, "agradeço".
outro. Portanto, o gênero literário do escrito
precisa ser respeitado. 7 A forma das cartas judaicas contem­
porâneas, escritas em aramaico ou hebrai­
6 (ÍII) A forma da carta na Antiguida­ co e derivadas de modelos assírios, babi­
de. A carta greco-romana contemporânea lónicos ou cananeus mais antigos, não era
tinha pelo menos três partes: (1) Fórmu­ muito diferente da forma greco-romana.
la introdutória. Este não é o endereço (que Embora uma ação de graças raramente apa­
geralmente era escrito na parte externa do reça, a fórmula introdutória ou era como
papiro dobrado), mas a praescriptio [escrito a forma greco-romana, mas com sãlõm ou
na frente], uma frase elíptica que contém o sêlãm, "paz", em vez de chairein (veja Mur
nome do remetente (no nominativo) e do 42.43.44.46), ou mais frequentemente com
destinatário (no dativo) e uma breve sau­ uma frase dupla. A primeira parte trazia
dação (geralmente chairein, um infinitivo o nome do remetente e do destinatário ("a
com o significado estereotipado de "Sau­ nosso senhor Bagohi, governador de Judá,
dações!"). Veja lM c 10,18.25; 11,30; no NT, vossos servos Jedanias e seus colegas, os sa­
somente em At 15,23; 23,26; Tg 1,1. (2) Men­ cerdotes...") e a segunda parte expressava
sagem. O corpo da carta. (3) Saudação final. uma bênção ("Que o Deus do céu vos aben­
Geralmente errõsõ (plural: errõsthe, "adeus" çoe em todo o tempo"). Veja ANET 322,491­
[literalmente: "fique bem "; cf. em latim 92; cf. Dn 4,1; 2 Apoc. Bar. 78,3 (OTP 1.648);
vale, valete]). Veja 2Mc 16,21.33.38; no NT, Fitzmyer, "Aramaic Epistolography".

A ESCRITA DE CARTAS NO NOVO TESTAMENTO

8 (I) A forma da carta paulina. A car­Fm 1); Silvano e Timóteo (lTs 1,1); Sóstenes
ta paulina compartilha características das (ICor 1,1). Paulo nunca usa simplesmente
cartas greco-romanas e semitas contempo­ chairein, mas expressa um desejo incluindo
râneas. charis kai eirênê (lTs 1,1), geralmente expan­
(A) Fórmula introdutória. A praescrip­ dido: "Graça e paz a vós da parte de Deus
tio é normalmente uma expansão da forma nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo" (G11,3;
greco-romana, usando elementos semitas; F11,2). A primeira vista, charis kai eirênê pa­
Paulo (no nominativo) para X (no dativo) rece uma adaptação ou combinação paulina
com epítetos apropriados em estilo semita do termo grego chairein com o termo semita
para expressar a relação existente entre ele sãlõm/sèlãm; mas talvez ela implique mais,
e o(s) destinatário(s). As vezes se mencio­ pois a saudação usa as noções de charis (favor
nam coremetentes: Timóteo (2Cor 1,1; F11,1; de aliança) e eirênê (paz) que se encontram
na antiga bênção sacerdotal de Nm 6,24-26. última saudação de Paulo - nunca o cum­
Além disso, charis tem a conotação paulina primento grego comum errõsõ, mas uma
de generosidade misericordiosa de Deus bênção característica: "A graça de nosso
manifesta em Cristo Jesus (cf. Rm 5,1-11). Senhor Jesus Cristo esteja convosco!" (lTs
Assim, as palavras talvez sejam a epítome 5,28; G16,18; F14,23; ICor 16,23; 2Cor 13,13;
paulina dos bona messianica [bens messiâni­ Rm 16,20.[24]; Fm 25).
cos] da era cristã, os dons espirituais que o
apóstolo pede para seus leitores. Esta fór­ 9 (II) As "cartas" de Paulo. Tendo es­
mula ocorre também em 2Jo 3 e Ap 1,4; é tabelecido as categorias "carta" e "epístola",
modificada em lPd 1,2 e 2Pd 1,2 e às vezes Deissmann classificou os escritos de Paulo
se encontra em cartas cristãs posteriores. como cartas, e não como epístolas literárias.
(B) Ação de graças. Em comum com Embora peque por uma certa simplificação
muitas cartas greco-romanas, a maioria das excessiva, ele estava basicamente correto,
cartas de Paulo tem uma ação de graças. Es­ porque os escritos de Paulo são fundamental­
truturalmente, ela é muitas vezes uma frase mente "cartas", compostas para uma ocasião
periódica cuja função é "focalizar a situação específica, geralmente elaboradas às pressas e
da epístola, isto é, introduzir o tema funda­ escritas, na maioria das vezes, de forma com­
mental da carta" (Schubert, Form [—> 15 abai­ pletamente independente das outras. Filêmon
xo] 180). Em Gálatas, Paulo substitui a ação é uma carta privada enviada a um indivíduo;
de graças por uma palavra de repreensão, Gálatas uma carta destinada a um grupo de
thaumazõ, "admiro-me", (1,6-9), que estabe­ igrejas locais e imbuída com a preocupação
lece de forma mais eficaz o tom dessa car­ pessoal de Paulo por seus convertidos. De
ta. Em 2 Coríntios, ele usa apropriadamente forma semelhante, 1 Coríntios, 1 Tessaloni­
uma prolongada bênção sobre a igreja de censes, Filipenses, apesar de todas as grandes
Corinto, enfatizando a reconciliação com a verdades que expõem, são basicamente "car­
congregação que lhe causou muita dor, uma tas" que tratam de assuntos concretos das
nota que é o ônus de parte de 2 Coríntios. igrejas às quais se destinavam. Grande parte
Nesta seção Paulo está geralmente orando; da dificuldade de 2 Coríntios vem de seu ca­
e, embora ela se assemelhe à ação de graças ráter de carta; contém muitas alusões que não
greco-romana, os sentimentos expressos são se compreendem mais completamente, mas
frequentemente colocados em fórmulas "eu­ que expressam bem os sentimentos de Paulo
carísticas" caracteristicamente judaicas, lem­ sobre suas relações com essa igreja. De todas
brando às vezes até mesmo os Hôããyôt de as cartas autênticas de Paulo, Romanos chega
Qumran (Salmos de ação de graças, —» Apó­ mais perto de ser uma epístola enviada a uma
crifos, 67:86). Muitas vezes não é fácil decidir igreja que Paulo ainda não havia evangeliza­
onde a ação de graças termina e o corpo da do (—» Romanos, 51:3-6); talvez a melhor de-
carta começa (como em 1 Tessalonicenses). nominção para ela seja carta-ensaio.
(C) Mensagem. Refletindo, sem dúvida,
a pregação protocristã, que frequentemente 10 Mesmo com a caracterização de
unia uma exortação ética à sua exposição Deissmann, é preciso lembrar que Paulo
doutrinária, o corpo das cartas de Paulo ge­ raramente escreveu suas cartas a título pri­
ralmente se divide em duas partes - uma vado; ele era primordialmente um apóstolo,
doutrinária, apresentando verdades da men­ um missionário, um pregador. Suas cartas
sagem cristã, e a outra exortativa, dando ins­ foram enviadas a comunidades e indivídu­
truções para a conduta cristã. os para expressar sua presença e autoridade
(D) Conclusão e saudação final. A par­ apostólica na edificação de igrejas cristãs.
te final de uma carta paulina muitas vezes Ele utilizou o gênero da carta como um meio
contém notícias pessoais ou conselhos espe­ de difundir sua compreensão do evangelho
cíficos para indivíduos. Ela é seguida pela cristão e especialmente de aplicá-la aos pro­
blemas concretos que surgiram nas áreas que (—» Hebreus, 60:2). Quanto à autenticida­
ele não podia visitar pessoalmente na oca­ de, as cartas de Paulo se dividem em três
sião. Parte de sua genialidade consistiu em categorias: (a) escritos autênticos: 1 Tessa-
adotar uma forma administrável de escrita lonicenses, Gálatas, Filipenses, 1 e 2 Co-
para sua finalidade evangelística. Assim, a ríntios, Romanos e Filêmon; (b) escritos de
melhor forma de caracterizar seus escritos autenticidade duvidosa: 2 Tessalonicenses,
é chamando-os de "cartas apostólicas". Em­ Colossenses e Efésios - chamados às vezes
bora Paulo seja constantemente chamado de "cartas deuteropaulinas", isto é, escritas
de o primeiro teólogo cristão, ele não escre­ por um discípulo de Paulo; e (c) escritos
veu com a precisão de alguém que estivesse pseudônimos: 1 e 2 Timóteo, Tito (veja as
apresentando uma teologia sistemática, uma introduções às várias cartas para obter de­
definição conciliar ou uma legislação canô­ talhes; —» Canonicidade, 66:87-89).
nica. Mais simplesmente, ele moldou seu en­
sino apostólico em forma de carta. 13 Diversas passagens paulinas suge­
rem, entretanto, que ele escreveu outras car­
11 Nessa forma Paulo introduziu - às tas além das 13 assim atribuídas a ele. Em
vezes de maneira um tanto tosca - outros ICor 5,9 Paulo se refere a uma carta escrita
subgêneros literários: fragmentos do proto- anteriormente à igreja de Corinto; 2Cor 2,3­
querigma (lTs 1,9-10; ICor 15,1-7; Rm 1,3-4; 4 menciona uma "carta escrita em meio a
4,25; 10,8-9); homilias (Rm 1,18-32); exorta­ muitas lágrimas", aparentemente compos­
ções (G15,19-24 [lista de vícios e virtudes]; cf. ta entre 1 Coríntios e 2 Coríntios. Visto que
2Cor 12,20); hinos (F12,6-11; Rm 8,31-39; ICor esta última é indubitavelmente uma com­
13,1-13); fórmulas litúrgicas (ICor 11,24-25; binação de textos distintos, a "carta escrita
12,3; 16,22); midráshes (G1 4,21-31; 2Cor 3,4­ em meio a muitas lágrimas" talvez faça par­
18; Rm 4,1-24); testimonia (i.e., cadeias de tex­ te dela (—» 2 Coríntios, 50:3). Em Cl 4,16 se
tos probatórios do AT, Rm 3,10-18; 15,9-12); menciona uma carta aos laodicenses; uma
"diatribes" (no sentido antigo, Rm 2,1-3,9). carta com este nome e uma outra endere­
Em muitos casos, o material assim introdu­ çada aos alexandrinos são rejeitadas como
zido se derivava da incipiente tradição da não canônicas no Cânone Muratoriano (li­
igreja (ICor 11,23; 15,3), mas era remode­ nha 64; EB 5). Debate-se se Rm 16 foi escri­
lado pelo próprio ensinamento e pregação to como uma carta separada (—> Romanos,
de Paulo (Rm 3,24-26). Assim, embora uma 51:10), e Filipenses possivelmente também
composição de Paulo seja basicamente uma seja uma carta que combina textos distintos
"carta", o exame cuidadoso de suas partes (—> Filipenses, 48:4). As referências, conti­
muitas vezes revela outras formulações ho- das em cartas canônicas de Paulo, a outras
miléticas, retóricas e literárias que devem ser cartas provocaram a construção literária
respeitadas na interpretação. de cartas apócrifas de Paulo (veja HSNTA
2. 128-66). 2 Tesssalonicenses 2,2 pode até
12 (III) O corpus paulino. No NT 13 mesmo se referir a tal construção.
cartas são atribuídas nominalmente a Pau­
lo. Este número aparece também no Câno­ 14 O próprio Paulo estava ciente (2Cor
ne Muratoriano (linhas 39-63; EB 4; —» Ca- 10,10) de que algumas de suas cartas esta­
nonicidade, 66:84). Desde a época de Cirilo vam sendo amplamente lidas e provocando
de Jerusalém (Catech. 4.36; PG 33.499 [apro­ comentários. Ao final do séc. 1 d.C., as cartas
ximadamente 348 d.C.]), 14 cartas foram já estavam sendo reunidas (—> Canonicida­
atribuídas a ele, incluindo Hebreus. Pesqui­ de, 66:58). 2 Pedro 3,15-16 se refere a "todas
sadores modernos, entretanto, seguindo o as cartas" de "nosso amado irmão Paulo" e
exemplo de autores antigos como Orígenes, talvez aluda a um corpus paulino coletado.
abandonam a autoria paulina de Hebreus A mais antiga indicação clara de um corpus
nos é dada por Marcião, que compilou em the P au lin e E pistles as a P rob lem in the A n cien t
Roma, por volta de 144 d.C., um cânone C h u rc h ", Neotestamentica et patrística [Festschrift
dentro do qual admitiu 10 cartas, aparen­ O . C u llm an n ; ed. W . C. v an U nnik; N o vT Su p 6;
L eid en , 1962] 261-71. Finegan, J., "T h e O rigin al
temente na seguinte ordem: Gálatas, 1 e 2
Fo rm o f the P au lin e C o llectio n ", H TR 49 [1956]
Coríntios, Romanos, 1 e 2 Tessalonicen-
85-103. Fried rich , G ., "L o h m ey ers T h ese ü b er da's
ses, Efésios (= para ele "Aos laodicenses"), p a u lin isch e B riefp rá sk rip t k ritisc h b e le u c h te t",
Colossenses, Filipenses, Filêmon (veja TLZ 81 [1956] 343-46. Funk, R. W „ "T h e A postolic
Epifânio, Pan 42.9.4; GCS 31.105). Parousia: F o r m a n d S ig n ific a n c e ", in Christian
Flistory and Interpretation [Festschrift J. K nox; ed.
15 Das 13 cartas atribuídas a Paulo noW . R. F arm er, et a l; C a m b rid g e , 1967] 2 49-68.
cânone, Filipenses, Filêmon, Colossenses e Gam ble, H ., "T h e R ed action o f the P au lin e L etters
Efésios são frequentemente chamadas de and the F o rm atio n o f the P au lin e C o rp u s ", JBL
94 [1975] 403-18. K nox, J., "A N o te o n the Form at
"cartas do cativeiro" porque o aprisiona­
o f the P au lin e C o rp u s", H TR 50 [1957] 311-14. L
mento é mencionado nelas (F11,7.13.14; Fm
ohmeyer, E., "B rieflich e G ru ssiib ersch riften ", ZNW
1.9.10.23; Cl 4,3.18; Ef 3,1; 4,1; 6,20). "Cartas 36 [1927] 158-73. M ilto n , C. L ., The Formation of the
pastorais" é o título para 1 e 2 Timóteo e Pauline Corpus of Letters [London, 1955], O ’Brien, P.
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tabelecer a disciplina eclesiástica, inclusive [NovTSup 49; L eid en , 1977]. R o l l e r , O ., Das For­
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não é cronológica; as cartas às sete igrejas Thanksgivings [B Z N W 20; B erlin, 1939].)
precedem as quatro dirigidas a indivíduos.
Esta ordem foi muitas vezes considerada 16 (IV) Hebreus e as epístolas católi­
como uma ordem baseada no critério da cas. "Epístola" é um título mais adequado
dignidade - uma explicação plausível para para Hebreus e as outras sete epístolas do
a precedência geral de Romanos, mas não NT, com exceção de 2 João e de 3 João, que
para a precedência de Gálatas sobre Efésios são "cartas" (mesmo que "a Senhora eleita e
ou de Filipenses sobre 1 Tessalonicenses. seus filhos" [2Jo 1] talvez se refira a uma co­
O fator puramente material do comprimen­ munidade, e não a um indivíduo). Hebreus
to é, mais provavelmente, a razão da ordem é mais um sermão exortativo, rico em ex­
dentro dos grupos, pois o comprimento das posição teológica e exegese alexandrina do
cartas diminui de Romanos a Filêmon. De AT; ao contrário das cartas de Paulo, suas
acordo com algumas contagens, Efésios é li­ exortações estão dispersas por todo o escri­
geiramente mais longa do que Gálatas (veja to. Não há indícios de que alguma vez te­
O. Roller, Das Formular 38); e Efésios pre­ nha tido uma fórmula de abertura, e a seção
cede Gálatas no Papiro Chester Beatty (P46 derradeira com sua saudação e seu pedido
do séc. III, —» Textos, 68:179). Observe que finais (13,24) lhe dá um pouco de forma
Hebreus, apesar de sua extensão, maior do epistolar, mas que talvez seja secundária em
que a maioria das cartas, é deixada signifi­ relação ao conjunto da composição (—» He­
cativamente fora do grupo paulino tradicio­ breus, 60:5). Tiago, 1 e 2 Pedro e Judas são
nalmente ordenado dessa maneira; no P46, "epístolas", porque são homilias em forma
porém, essa carta vem logo após Romanos. de carta: 1 Pedro talvez seja fruto de uma
homilia para uma liturgia batismal; Tiago
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17 As "epístolas católicas" (Tiago, 1 e 19 (V) Escrita ou ditado. Quatro mo­
2 Pedro, 1 a 3 João e Judas) são distingui­ dalidades de escrita de cartas eram usadas
das pelo nome do escritor a quem são atri­ na Antiguidade: (1) escrever de próprio
buídas textual ou tradicionalmente, e não punho; (2) ditar palavra por palavra, síla­
pelo nome dos destinatários. Eusébio (HE ba por sílaba; (3) ditar o sentido, deixando
2.23.25; GCS 9.174) foi o primeiro a falar das a formulação por conta de um secretário;
"sete chamadas católicas". Só se chegou ao (4) fazer com que alguém escrevesse em
número de sete para estas epístolas após nome da pessoa, sem indicar os conteúdos.
uma longa e variegada história (—>Canoni- As modalidades mais comumente usadas
cidade, 66:70-80). eram (1) e (3). Escritores da Antiguidade
O título katholikê epistolê foi, aparente­ se queixavam da modalidade fatigante do
mente, usado pela primeira vez em relação ditado (2), especialmente quando o escriba
a 1 João por Apolônio, um antimontanista não era apto.
(aproximadamente 197 d.C.; veja Eusébio,
HE 5.18.5; GCS 9. 474; cf. o texto corrom­ 20 Que método Paulo usou? Romanos
pido do Cânone Muratoriano, linha 69; 16,22 sugere um ditado para Tércio (isso
EB 5). De 1 João o título parece ter se es­ se refere somente a Rm 16? [—> Romanos,
palhado para o grupo. A Vulgata Sixto- 51:10-11,134]). Em ICor 16,21, Paulo acres­
Clementina, contudo, usa-o somente para centa a saudação de seu próprio punho, o
Tiago e Judas. O significado do título é que pode implicar que o restante tenha sido
debatido: no Oriente ele significava "diri­ ditado. Veja também G16,11, onde ele com­
gidas a todas as igrejas", ao passo que no para sua escrita com a de um escriba for­
Ocidente as sete foram chamadas epistulae mado, que escreveu o que precede. Cf. 2Ts
canonicae [epístolas canônicas], sugerindo 3,17; G14,18. O ditado foi do tipo (2) ou (3)?
que aí "católico" era compreendido como Impossível dizer. Esta última modalidade
"canônico", isto é, reconhecido em todas as poderia explicar a diferença de estilo nas
igrejas. Se o título no sentido oriental for deuteropaulinas. Filêmon 19 pode signifi­
considerado mais apropriado, ele é mais car que Paulo escreveu a carta inteira de seu
difícil de justificar, visto que 2 e 3 João e próprio punho. Anacolutos, incoerências
1 Pedro são endereçadas a comunidades no estilo e falta de terminologia consistente
específicas. podem ser explicados pelo ditado; devem
ter ocorrido distrações que também teriam
18 Em listas orientais (veja Atanásio, afetado o estilo. Uma carta longa como Ro­
Ep. 39.85; PG 26.1177, 1437) as epístolas ca­ manos ou 1 Coríntios dificilmente teria sido
tólicas seguem o livro de Atos e precedem terminada de uma assentada ou em um dia
0 corpus paulino; parecem ter sido conside­ somente. Pouco pode ser dito sobre a escri­
radas mais importantes, sendo atribuídas a ta de outras epístolas do NT. 1 Pedro 5,12
apóstolos ou membros originais da igreja- talvez implique a atuação de Silvano como
mãe de Jerusalém. Em listas latinas, porém, escriba.
elas se seguem às cartas de Paulo, que são
consideradas mais antigas e mais importan­ 21 Os autores do NT teriam ditado
tes. Dentro do grupo, a ordem atual (Tiago, aos escribas que usavam algum tipo de es­
1 e 2 Pedro, 1 a 3 João, Judas) talvez depen­ tenografia? A estenografia era conhecida no
da da ordem dos nomes em G12,9. Uma or­ mundo romano. Pensa-se geralmente que ela
dem diferente encontrada nos decretos dos não foi praticada por escribas gregos antes
concílios de Florença e de Trento (EB 47,59; de aproximadamente 155 d.C. Veja, porém,
DS 1335,1503) reflete uma avaliação da dig­ o texto estenográfico ainda indecifrado em
nidade em uso no Ocidente: 1 e 2 Pedro, 1 a Mur 164 (DJD 2. 275-79) de uma data possi­
3 João, Tiago, Judas. velmente anterior (—>Apócrifos, 67:119).