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Paulo
Joseph A. Fitzmyer, S.J.

B IB L IO G R A F IA

1 B orn kam m , G ., Paul (New Y o r k , 1 9 7 1 ) 1­ 6 4 8 -5 1 ; "T h e Sequence of P a u l’s L etters", C/T


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2 ESBOÇO

Introdução (§ 3 -1 3 ) (B ) Visita do "concílio" (§ 3 1 -3 3 )


(I) O nome de Paulo (§ 3) (C) Incidente em Antioquia (§ 34 )
(II) Fontes e cron ologia da vid a de Paulo (D) Decreto de Jerusalém sobre os alimen­
(§ 4 -1 3 ) tos (§ 3 5 -3 7 )
(D) Segunda missão (§ 3 8 -3 9 )
Trajetória de Paulo (§ 1 4 -5 4 ) (E ) Terceira missão (§ 4 0 -4 5 )
(I) Juventude e conversão (IV) Ultima prisão de Paulo
(A ) Juventude de Paulo (§ 1 4 -1 9 ) (A) Ultima visita a lerusalém e prisão (§
(B ) Conversão de Paulo (§ 2 0 -2 3 ) 47)
(II) Visitas de Paulo a Jerusalém (§ 2 4 -2 7 ) (B ) Apelo a César; viagem para Roma (§
(III) Missões paulinas 4 8 -4 9 )
(A ) A primeira missão (§ 2 9 -3 0 ) (C) Fim da vida de Paulo (§ 5 0 -5 4 )
IN T R O D U Ç Ã O

3 (I) O nome de Paulo. Em suas cartas, 4 (II) Fontes e cronologia da vida de


o apóstolo chama a si mesmo de Paulos, o Paulo. O pouco que se conhece acerca de
nome também usado em 2Pd 3,15 e de At Paulo chega até nós a partir de duas fon­
13,9 em diante. Antes disso, em At ele é cha­ tes principais: (1) passagens em suas cartas
mado de Saulos (7,58; 8,1.3; 9,1, etc.), a forma autênticas, principalmente lT s 2,1-2.17­
grega de Saoul. Esta última grafia é encontra­ 18; 3,l-3a; G1 1,13-23; 2,1-14; 4,13; F1 3,5-6;
da apenas nos relatos da conversão (9,4.17; 4,15-16; ICor 5,9; 7,7-8; 16,1-9; 2Cor 2,1.9-13;
22,7.13; 26,14) e representa a forma hebrai­ 11,7-9.23-27.32-33; 12,2-4.14.21; 13,1.10; Rm
ca Sãul, o nome do primeiro rei do antigo 11,1c; 15,19b.22-32; 16,1; e (2) At 7,58; 8,1-3;
Israel (p.ex., ISm 9,2.17; cf. Atos 13,21). Ele 9,1-30; 11,25-30; 12,25; 13,1-28,31. (Os deta­
significa "pedido" (de Deus ou de Iahweh). lhes nas epístolas deuteropaulinas e pas­
Atos 13,9 marca a transição de "Saulo" para torais são de valor duvidoso e podem ser
"Paulo" (exceto pelo Saoul posterior): Saulos âe usados apenas para apoiar o que se sabe a
kaí Paulos, "Saulo, também conhecido como partir das duas outras fontes.)
Paulo". O nome Paulos é a forma grega do
conhecido cognome (nome da família) ro­ 5 As duas fontes mencionadas, contu­
mano Paul(l)us, usado pela gens aemiliana, do, não são de igual valor. Na reconstrução
os Vettenii e os Sergii. Podemos apenas espe­ da vida de Paulo, deve se dar preferência
cular sobre como Paulo recebeu este nome ao que Paulo nos conta acerca de si mesmo,
romano. E pura coincidência o fato de Saulo pois a história de Lucas sobre a atividade
começar a ser chamado de Paulo, no regis­ missionária de Paulo está condicionada por
tro de Atos, na ocasião em que o procônsul suas pronunciadas tendências literárias e
romano, Sérgio Paulo, se converteu (13,7­ preocupações teológicas. Escritores recen­
12), pois é pouco provável que Paulo tenha tes, como J. Knox, D. W. Riddle, R. Jewett,
assumido o nome deste ilustre convertido G. Lüdemann, J. M urphy-0’Connor et al.
romano de Chipre (contra Jerônimo, In Ep. tentaram elaborar uma "vida" de Paulo ou
Aâ Philem. 1; PL 26. 640; H. Dessau et aí).
uma cronologia de suas cartas somente ou
É mais provável que o apóstolo se chamas­
principalmente com base em seus próprios
se Paulos desde o nascimento, e Saoul fosse o
escritos, expressando frequentemente uma
signum ou supernomen (nome acrescentado)
relutância em admitir informações a partir
usado nos círculos judaicos. Muitos judeus
de Atos. Todavia, de modo bastante enig­
da época tinham dois nomes, um semítico
mático, estes escritores admitem, às vezes,
(Saulo) e outro grego ou romano (Paulo);
detalhes que apenas Lucas narra - detalhes
cf. At 1,23; 10,18; 13,1. Os nomes frequente­
que eles precisam para suas soluções va­
mente eram escolhidos por sua semelhança
riadas (p.ex., o comparecimento de Paulo
de som. Não há evidência de que "Saulo" te­
diante de Gálio [18,12], a permanência de
nha sido mudado para "Paulo" por ocasião
18 meses de Paulo em Corinto [18,11], ou a
de sua conversão; de fato, Saulos é usado em
origem de Timóteo em Listra [16,2-3])! Na
Atos mesmo após este evento. A mudança
reconstrução que segue do ministério de
em 13,9 provavelmente se deve a diversas
fontes de informação de Lucas. Paulus, em Paulo, usarei de cuidado e de um sentido
latim, significa "pequeno", "insignificante", crítico, e admitirei detalhes adicionais dos
mas isto nada tinha a ver com a estatura de quais Atos é a única fonte, desde que não
Paulo ou com a modéstia. contradigam ou conflitem com dados pau­
linos. (O leitor observará que meu relato
(D essau, H., Hermes 45 [1910] 347-68. H arrer, usa o tempo passado para os dados pauli­
G. H ., HTR 33 [1940] 19-33. Sobre supernomen: nos, mas o tempo presente para os dados de
L ambertz, M., Glotta 4 [1913] 78-143.) Atos.)
6 Anos atrás, T. H. Campbell ("Paul’s em 39 d.C. (veja PW 2/1 [1895] 674). A con­
'Missionary Journeys'") mostrou que, nas versão de Paulo ocorreu aproximadamente
passagens paulinas mencionadas acima, há três anos antes, provavelmente em 36 d.C.
uma sequência das ações de Paulo, desde
sua conversão até sua chegada a Roma, que 9 Quanto a Atos, encontram-se dados
é paralela às ações mais detalhadas em Atos. extrabíblicos para cinco acontecimentos no
Na Tabela Sequencial abaixo, adaptei seu es­ ministério de Paulo. Em ordem descendente
tudo fundamental, fazendo uso das discus­ de importância, são eles:
sões mais recentes dos dados e acrescentan­ (1) O proconsulado de L. Júnio Galião
do referências a colaboradores de Paulo. Aneu, na Acaia, diante de quem Paulo foi
levado em Corinto (At 18,12). Este é o "único
7 Devem se observar diferenças na Ta­ elo entre o ministério do apóstolo e a história
bela Sequencial das ações de Paulo: (1) Lu­ geral que é aceito por todos os estudiosos"
cas deixa de mencionar a retirada de Paulo (M urphy-0’Connor, Corinth 141), ainda que
para a "Arábia" (G11,17b); (2) Lucas agrupa seja registrado apenas por Lucas. O pro­
as, atividades missionárias de Paulo em três consulado de Galião é mencionado numa
blocos (1:13,1-14,28; II: 15,36-18,22; III: 18,23­ inscrição grega localizada em um templo
21,16). Alguns críticos pensam que a Primei­ de Apoio e descoberta por E. Bourguet em
ra Missão é uma invenção completamente Delfos, em 1905 e 1910. Ela é fragmentária, e
lucana; mas uma parte significativa do pro­ a publicação completa de todos os fragmen­
blema é a questão das fontes nesta parte de tos (feita por A. Plassart) ocorreu apenas em
Atos (—> Atos, 44:10). (3) A ocasião da fuga 1970. E uma cópia de uma carta enviada por
de Paulo de Damasco segundo Lucas: uma Cláudio à cidade de Delfos acerca de seu
conspiração feita por judeus (At 9,23; con­ problema de despovoamento.
trasta com 2Cor 11,32). (4) A descrição de
Lucas do "consentimento" de Paulo com a 'Tibertius Claudius Caes]ar Au[gust]us
morte de Estêvão (At 7,58-8,1; cf. 22,20), en­ Ge[rmanicus], investido com pojder tribuní-
quanto o próprio Paulo fala apenas de perse­ cio 2[pela 12a vez, aclamado Imperador pel]a
26a vez, P[ai da Pá]tri[a ... envia saudações...].
guir "a igreja de Deus" (G11,13) ou "a igreja"
3Por um l[ongo tempo eu estou não apen]as
(F13,6) e nunca menciona Estêvão.
[bem disposto para com] a cidafde] de Delf [os,
mas também solícito por sua 4pro]speridade, e
8 A Tabela Sequencial fornece, na me­ eu sempre guar[do o] cul[to do] [pítio] Apo[lo.
lhor das hipóteses, apenas uma cronologia Mas] 5agora [visto que[ é dito estar desti[tu]ída
relativa. Nas cartas do próprio Paulo, o úni­ de [cida]dãos, como [L. Jún]io 6Galião, meu
co incidente que pode ser datado, de modo ami[go] e [procôn]sul, [recentemente relatou-
extrabíblico, é sua fuga de Damasco (2Cor me, e estando desejoso de que Delfos] Con­
11,32-33): a etnarquia do rei Aretas isolou tinue a manter inta[cta sua ante[rior posição,
a cidade para capturar Paulo, mas ele esca­ eu] vos orde[no (pl.) a con]vidar tam bém
pessoas nascidas de 8ou]tras cidades [para
pou descendo num cesto por meio de uma
Delfos como novos habitantes e a] 9permi[tir]-
janela no muro da cidade (cf. At 9,24-25).
lhes [e a seus filhos terem todos os] privilégios
Isto ocorreu no final dos três anos de Paulo de Delfos “ com o cid a[d ãos em (base) de
em Damasco (G1 l,17c-18). Visto que Da­ igualdade e semelhança]. Pois s[e al[guns...]
masco aparentemente esteve sob o governo "forem trans[feridos com o cida]dãos [para
romano até a morte de Tibério (16 de Março essa região,... (O restante é sem importância;
de 37 d.C.; cf. Josefo, Ant. 18.5.3 § 124), e o minha tradução segue o texto de Oliver, e os
nabateu Aretas IV Filopátris (9 a.C.-39 d.C.) colchetes incluem restaurações.)
recebeu o controle sobre ela pelo impera­
dor Caio Caligula, a fuga de Paulo deve ter A partir deste texto podemos dedu­
ocorrido entre 37 e 39 d.C., provavelmente zir que Galião era procônsul na Acaia no
TABELA SEQUENCIAL DAS AÇÕES DE PAULO

Cartas Atos
Conversão próximo a Damasco (sugerida em Damasco (9,1-22)
G11,17c)
Para a Arábia (G11,17b)
Retomo para Damasco (1,17c): 3 anos
Fuga de Damasco (2Cor 11,32-33) Fuga de Damasco (9,23-25)
Para Jerusalém (G11,18-20) Para Jerusalém (9,26-29)
"As regiões da Síria e Cilicia" (G1 2,21-22) Cesareia e Tarso (9,30)

Antioquia (11,26a)
(Jerusalém [11,29-30; 12,25]; —>25 abaixo)
Primeira Missão: Antioquia (13,l-4a)
Selêucida, Salamina, Chipre (13,4b-12)
Igrejas evangelizadas antes da macedônica Filipos (F1 Sul da Galácia (13,13-14,25)
4,15) Antioquia (14,26-28)
"Em seguida, quatorze anos mais tarde, subi novamente Jerusalém (15,1-12)
a Jerusalém" (para o "Concílio", G12,1)
Incidente em Antioquia (G12,11-14) Antioquia (15,35); Segunda Missão
Síria e Cilicia (15,41)
Sul da Galácia (16,1-5)
Galácia (ICor 16,1) evangelizada pela primeira Frigia e Norte da Galácia (16,6)
vez (G14,13)
Mísia e Trôade (16,7-10)
Filipos (lTs 2,2 [= Macedonia, 2Cor 11,9]) Filipos (16,11-40)
Tessalônica (lTs 2,2; cf. 3,6; F14,15-16)
Anfípolis, Apolônia, Tessalônica (17,1-9)
Bereia (17,10-14)
Atenas (lTs 3,1; cf. 2,17-18 Atenas (17,15-34)
Corinto evangelizada (cf. 2Cor 1,19; 11,7-9) Corinto por 18 meses (18,l-18a)
Timóteo chega a Corinto (lTs 3,6), provavelmente Silas e Timóteo chegam da Macedônia (18,5)
acompanhado por Silvano (lTs 1,1)
Paulo parte de C^ncreia (18,18b)
Deixa Priscila e Aquila em Éfeso (18,19-21) ,
Apoio (em Éfeso) estimulado por Paulo a ir a Corinto Apoio enviado para a Acaia por Priscila e Aquila
(ICor 16,12) (18,17)
Paulo para Cesareia Marítima (18,22a)
Paulo para Jerusalém (18,22b)
Em Antioquia por algum tempo (18,22c)
l^Iorte da Galácia, segunda visita (G14,13) Terceira Missão: Norte da Galacia e Frigia (18,23)
Éfeso (ICor 16,1-8) Éfeso por 3 anos, ou 2 anos e 3 meses. (19,1-20,1;
cf. 20,31)
Visita de Cloé, Estéfanas et al. a Paulo em Éfeso (ICor
1,11; 16,17), trazendo uma carta (7,1)
Paulo aprisionado (? cf. ICor 15,32; 2Cor 1,8)
Timóteo enviado a Corinto (ICor 4,17; 16,10)
Segunda visita "dolorosa" de Paulo a Corinto (2Cor
13,2); retorno a Éfeso
Tito é enviado a Corinto com uma carta "escrita em
lágrimas" (2Cor 2,13)
(Planos de Paulo de visitar a Macedonia, Corinto (Planos de Paulo de visitar a Macedônia, Acaia, Je­
e Jerusalém/Judeia, ICor 16,3-8; 2Cor 1,15-16) rusalém e Roma, 19,21)
Ministério em Trôade (2Cor 2,12)
Para a Macedonia (2Cor 2,13; 7,5; 9,2b-4); chegada de Macedônia (20,1b)
Tito (2Cor 7,6)
Tito é enviado à frente para Corinto (2Cor 7,16-17), com
parte de 2 Coríntios
lhria (Rm 15,19)?
Acaia (Rm 15,26; 16,1); terceira visita de Paulo 3 meses na Grécia (Acaia) (20,2-3)
a Corinto (2Cor 13,1)
Paulo começa a retomar para a Síria (20,3), mas vai
via Macedonia e Filipos (20,3b-6a)
Trôade (20,6b-12)
Mileto (20,15c-38)
Tiro, Ptolemaida, Cesareia (21,7-14)
(Planos para visitar Jerusalém, Roma, Espanha Jerusalém (21,15-23,30)
Rm 15,22-27])
Cesareia (23,31-26,32)
Viagem para Roma (27,1-28,14)
Roma (28,15-31)
décimo segundo ano do reinado de Cláu­ estivera ali no final da primavera e verão de
dio, após a vigésima sexta aclamação do 52 e a deixou até o final de outubro (antes
último como "imperador". Enquanto o po­ da mare clausum, quando a viagem por mar
der tribunício, com o qual o imperador era se tornava impossível). Consequentemente,
investido a cada ano, marcava seus anos Paulo foi levado perante Galião em alguma
de reinado, a aclamação como imperador ocasião no verão ou início do outono de
era esporádica, sendo conferido a ele após 52. Tendo estado em Corinto por 18 meses,
triunfos ou vitórias militares importan­ Paulo teria chegado ali no início de 51 (veja
tes. Para se datar um acontecimento com At 18,11).
base nela, deve-se saber quando a acla­
mação específica aconteceu. A partir de (B ourguet, E., De rebus delphicis imperatoriae
outras inscrições, sabe-se que a vigésima aetatis capita duo [Montpellier, 1905]. B rassac, A.,
RB 19 [1913] 36-53, 207-17. M urphy-O ’C onnor,
segunda e a vigésima quinta aclamações
Corinth 141-52, 173-76. O liver, J. H ., Hesperia 40
ocorreram no décimo primeiro ano do rei­ [1970] 239-40. P lassart, A., REG 80 [1967] 372-78;
nado de Cláudio, e que a vigésima sétima Les inscriptions du temple du IV siècle [Fouilles de
ocorreu em seu décimo segundo ano, an­ Delphes m / 4 ; Paris, 1970] § 286.)
tes de l 2 de agosto de 52 d.C. (CIL 6. 1256;
Frontinus, D eAquis 1.13). A vigésima sexta 10 (2) A expulsão dos judeus de Roma
aclamação pode ter ocorrido antes do in­ pelo imperador Cláudio (At 18,2c), relacio­
verno de 51 d.C., ou na primavera de 52 nada por Lucas à chegada de Aquila e Pris­
d.C. Mas o décimo segundo ano de reina­ cila em Corinto, com quem Paulo acabou
do começou em 25 de janeiro de 52, e uma residindo. Suetônio (Claudius 25) registra:
inscrição cariana combina a vigésima sexta ludaeos impulsore Chresto assidue tumultan-
aclamação com o décimo segundo ano de tes Roma expulit, "Ele expulsou de Roma
reinado (dêmarchikês exousias to ãõàekaton os judeus que faziam constantes perturba­
... autokratora to eikoston kai hekaton, BCH 11 ções sob a instigação de Chrestus". Se "sob
[1887] 306-7; A. Brassac, RB 10 [1913] 44; cf. a instigação de Chrestus" (que nos dias
CIL 8. 14727). de Suetônio teria sido pronunciado como
A Acaia era uma província senatorial, Christos) for um modo confuso de se refe­
governada por um procônsul indicado pelo rir às disputas sobre se Jesus era o Cristo,
senado romano. Este governador provincial Suetônio estaria relatando a discórdia entre
normalmente ficava no cargo por um ano, e os judeus e os judeus cristãos, em Roma.
esperava-se que ele assumisse seu posto em Um historiador do séc. V, P. Orósio (Hist.
Ia de junho (Dio Cassius, Rom. Híst. 57.14.5) Adv. pag. 7.6.15-16; CSEL 5. 451), cita o texto
e o deixasse por volta da metade de abril de Suetônio e data a expulsão no nono ano
(ibid., 60.11.6; 60.17.3). A carta de Cláudio do reinado de Cláudio (25 de janeiro de 49
menciona que Galião lhe relatara acerca d.C. a 24 de janeiro de 50 d.C.). Porém, vis­
das condições em Delfos. Portanto, Galião to que Orósio diz que Josefo falou desta ex­
já estava na Acaia e fizera seu relato no fi­ pulsão, enquanto o historiador judeu nada
nal da primavera ou início do verão de 52 diz sobre ela, seu testemunho parece sus­
d.C. Isto pode ter ocorrido perto do final do peito para alguns estudiosos. Não se sabe
ano proconsular de Galião (junho de 51 a onde Orósio obteve sua informação sobre o
maio de 52) ou no início deste ano (junho nono ano. Esta data da expulsão, contudo,
de 52 até maio de 53). Visto que Sêneca, ir­ continua sendo a mais provável (veja E. M.
mão mais jovem de Galião, diz que Galião Smallwood, The Jews under Roman Rule [SJLA
contraiu uma febre na Acaia e "embarcou 20; Leiden, 1976] 211-16; Jewett, Chronology
imediatamente" (Ep. 104.1), parece que Ga­ 36-38; G. Howard, ResQ 24 [1981] 175-77).
lião encurtou sua estadia na Acaia e apres­ Mas alguns estudiosos tentam, em vez dis­
sou-se para retornar. Isto sugere que Galião so, interpretar o testemunho de Suetônio
como uma referência a uma decisão tomada oriental por vários anos; algumas evidências
por Cláudio em seu primeiro ano de reina­ sugerem que ela ocorreu na Judeia por volta
do (41 d.C.), registrada por Dio Cassius (Rom. do começo da procuradoria de T. Júlio Ale­
Hist. 60.6.6). O imperador, percebendo o au­ xandre (46-48 d.C.; cf. Josefo, Ant. 20.5.2 § 101;
mento do número de judeus romanos, "não —» História, 75:178). Sobre sua relação com a
os expulsou", mas antes lhes ordenou a "não chamada Visita da Fome, —>25,27 abaixo.
realizarem encontros" (veja Lüdemann, Paul
165-71; M urphy-0’Connor, Corinth 130-40). 12 (4) Pórcio Festo sucedeu Félix como
Isto, contudo, não é convincente, visto que procurador da Judeia (At 24,27). É difícil es­
Dio Cassius diz explicitamente que Cláudio tabelecer a data precisa desta sucessão, mas
não expulsou os judeus (naquela ocasião). ela pode ter ocorrido em torno de 60 d.C.
Ele pode ter expulso alguns judeus mais (veja HJPAJC 1. 465-66; HBC 322-24). Por
tarde, como Suetônio afirma. (A história de ocasião da chegada de Festo, Paulo apelou
Dio Cassius sobre 49 d.C. existe apenas em por julgamento perante César (25,9-12).
epítomes.). Contudo, deve-se abstrair da hi­
pérbole lucana, "todos os judeus" (At 18,2), 13 (5) A chamada de Pôncio Pilatos
e perguntar quão "recentemente" Aquila e de volta para Roma, em 36 d.C., para res­
Priscila teriam chegado da "Itália" (não es­ ponder por sua conduta (veja Josefo, Ant.
pecificamente de Roma). Se a expulsão de 18.4.2 § 89; —» História, 75:168). A remoção
Cláudio foi um acontecimento no nono ano de Pilatos e a chegada do novo prefeito,
de seu reinado, a chegada de Paulo a Corin­ Marcelo, podem ser uma ocasião plausível
to teria sido algum tempo depois disto. para o apedrejamento de Estêvão (At 7,58­
60) e o começo da perseguição da igreja de
11 (3) A fome no reinado de Cláudio Jerusalém (At 8,1). A conversão de Paulo
(At 11,28b) não é fácil de se datar. Aparente­ pode estar relacionada a estes aconteci­
mente ela afetou toda a área do Mediterrâneo mentos.

TRAJETÓRIA DE PAULO

14 (I) Juventude e conversão. riseu" (F1 3,6), uma pessoa distinguindo-se


(A) Juventude de Paulo. Não se sabe a"no zelo pelas tradições paternas" e alguém
data de nascimento de Paulo. Ele chama a si que excedia seus compatriotas da mesma
mesmo de "velho" (presbytês) em Fm 9 (—» idade "no judaísmo" (G11,14). Ao chamar-
Filêmon, 52:10), i.e., tendo entre 50 e 56 anos se a si mesmo de "um hebreu" (hebraios), ele
de idade (TDNT 6.683); isto significaria que talvez quisesse dizer que era um judeu de
ele nasceu na primeira década d.C. Lucas fala grega que também sabia falar aramai­
descreve Saulo como um "jovem" (neanias) co (veja C. F. D. Moule, ExpTim 70 [1958-59]
em pé no apedrejamento de Estêvão, i.e., 100-2) e ler o AT no original. As cartas de
tendo entre 24 e 40 anos (cf. Diógenes Laér- Paulo, contudo, revelam que ele conhecia
cio 8.10; Filo, De cher. 114). bem o grego e podia escrever nessa língua
e que, ao se dirigir às igrejas gentílicas, ele
15 Paulo nunca diz onde nasceu, mas usualmente citava o AT em grego [LXX]. Os
seu nome, Paulos, o ligaria a alguma cidade vestígios de diatribe retórica estóica em suas
romana. Ele se orgulha de sua formação ju­ cartas (—>Teologia paulina, 82:12) mostram
daica e remontava sua linhagem até a tribo que ele recebeu uma educação grega.
de Benjamim (Rm 11,1; F1 3,5; 2Cor 11,22).
Ele era um "israelita" (Md.), "um hebreu, 16 Lucas também apresenta Paulo
nascido de hebreus..., segundo a lei um fa­ como "um judeu", como "um fariseu" nas-
eido em Tarso, uma cidade helenística da 18 O Paulo lucano também se vanglo­
Cilicia (At 22,3.6; 21,39), como tendo uma ria de ser "criado nesta cidade de Jerusalém
irmã (23,16) e como um cidadão romano e educado aos pés de Gamaliel" (At 22,3),
por nascimento (22,25-29; 16,37; 23,27). Se i.e., Gamaliel I, o Ancião, cujo floruit em Je­
as informações de Lucas sobre as origens rusalém foi por volta de 20-50 d.C. (veja W.
de Paulo estão corretas, elas ajudam a ex­ C. van Unnik, Tarsus or Jerusalem: The City of
plicar tanto a formação helenística quanto Paul ’s Youth [London, 1962]). Embora o re­
a judaica de Paulo. Tarso é atestada pela trato lucano da juventude de Paulo vivida
primeira vez como Tarzi, no séc. IX a.C., no em Jerusalém possa explicar sua formação
Obelisco Negro de Salmaneser III (1.138; e seu modo de pensar semíticos, o próprio
cf. D. D. Luckenbill, ARAB 1. 207). No séc. Paulo nunca profere uma palavra acerca
IV, Xenofontes (Anab. 1.2.23) a chamou de deste aspecto de sua juventude. Além dis­
"uma grande e próspera cidade", e moedas so, ele cria uma dificuldade: os escritos de
gregas dos séc. V e IV revelam sua heleniza- Paulo nunca sugerem que ele tenha encon­
ção antiga. Ela foi pesadamente helenizada trado ou que tenha tido qualquer familia­
por Antíoco IV Epífanes (175-164), que tam­ ridade com o ministério público de Jesus
bém estabeleceu uma colônia de judeus ali (veja 2Cor 5,16; 11,4, que não precisa signi­
(por volta de 171) para fomentar o comércio ficar que ele teve, ainda que alguns comen­
e a indústria. Veja W. M. Ramsay, ExpTim taristas entendam 5,16 assim) - se ele pas­
16 (1904-5) 18-21; cf. Filostrato, Vida áeApol. sou sua mocidade em Jerusalém, ele teria
6.34; Sherwin-White, Roman Society 144-93. escapado de tal encontro? Embora o modo
de argumentação de Paulo e o uso do AT
17 Na reorganização da Ásia Menor se assemelhem aos dos eruditos judeus con­
por Pompeu, em 66 a.C., Tarso se tornou a temporâneos da Palestina, sua dependência
capital da província da Cilicia. Mais tarde, das tradições rabínicas é mais suposta que
foram concedidas à cidade liberdade, imu­ provada (veja E. P. Sanders, Paul anã Pales­
nidade e cidadania por Marco Antônio, e tinian Juãaism [Philadelphia, 1977], mas cf.
Augusto confirmou esses direitos, o que J. Neusner, HR 18 [1978] 177-91). No final
pode explicar as ligações romanas de Paulo. das contas, a única evidência de que Paulo
Tarso era um conhecido centro de cultura, foi treinado por um personagem rabínico
filosofia e educação. Estrabão (Geogr. 14.673) como Gamaliel é a declaração de Atos.
conhecia suas escolas como sobrepujando as
de Atenas e Alexandria e seus alunos como 19 Segundo J. Jeremias (ZNW 25 [1926]
cilícios nativos, não estrangeiros. Atenodo- 310-12; ZNW 28 [1929] 321-23), quando de
ro Cananita, filósofo estoico e professor do sua conversão, Paulo não era meramente
imperador Augusto, retirou-se para lá em 15 um discípulo rabínico (talmid hãkãm), mas
a.C. e recebeu a tarefa de revisar os proces­ um mestre reconhecido, com direito de to­
sos democráticos e civis da cidade. Outros mar decisões legais. Esta autoridade estaria
filósofos, estoicos e epicureus, também se pressuposta em sua ida a Damasco para
estabeleceram e ensinaram ali. Romanos fa­ prender cristãos (At 9,1-2; 22,4-5; 26,12) e
mosos visitaram Tarso: Cícero, Júlio César, em seu voto contra os cristãos como mem­
Augusto, Marco Antônio e Cleópatra. Por bro do sinédrio (26,10). A partir disso, Jere­
isso, o Paulo lucano pode gabar-se de ser um mias concluiu que, visto que 40 anos era a
"cidadão de uma cidade insigne" (21,39). idade requerida para a ordenação rabínica,
Paulo teria se convertido na meia idade e
(B õhlig , H ., D ie G eistesk ultu r von T arsus era casado, porque também se requeria dos
[Gottingen, 1913]. W elles, C. B., “Helienistic Tarsus", rabinos o casamento. Jeremias harmoniza os
M U S f 38 [1942] 41-75. Jones, A. H. M., The Cüíes ofthe dados lucanos precedentes com o material
Eastem Roman Prouinces [Oxford, 1971] 192-209.) paulino ao interpretar ICor 7,8 ("Contudo,
digo aos celibatários e às viúvas que é bom I,10), alguém com uma compulsão (anankê,
ficarem como eu") como significando que ICor 9,16) para pregar o evangelho de Cris­
Paulo estava classificando-se como viúvo to, e, por isso, ele se tornou "tudo para to­
(ichèrai) em vez de solteiro (agamov, —> ICor, dos" (ICor 9,22).
49:36). Novamente, ICor 9,5 significaria
que Paulo não se casou de novo. Mas quase 22 A conversão de Paulo não deve ser
todos os pontos nesta concepção intrigante considerada o resultado da condição huma­
são dúbios: harmonização questionável, a na descrita em Rm 7,7-8,2, como se este fos­
idade de Paulo, a data tardia das evidências se um relato autobiográfico de sua própria
rabínicas usadas, o status de Paulo. Veja experiência. Paulo, como cristão, olhava
mais em E. Fascher, ZNW 28 (1929) 62-69; para sua trajetória judaica passada com uma
G. Stáhlin, TDNT 9. 452 n. 109. consciência clara: "Quanto à justiça que há
na lei, irrepreensível" (F1 3,6b). Ele não foi
20 (B) Conversão de Paulo. Paulo es­ esmagado pela lei. As origens psicológicas
creveu sobre a mudança crucial em sua vida da experiência de Paulo permanecem basi­
em G 11,16: "(Deus houve por bem) revelar camente inacessíveis a nós, mas de algum
em mim seu Filho, para que eu o evange­ modo houve uma "inversão ou mudança
lizasse entre os gentios". Esta revelação de valores" (J. G. Gager) que levou a um
aconteceu após uma carreira no judaísmo e novo autoentendimento de si mesmo como
uma perseguição da "igreja de Deus" (1,13; um apóstolo do Evangelho entre os gentios
cf. F1 3,6 e A. J. Hultgren, JBL 95 [1976] 97­ e a uma interpretação do evento Cristo sob
111). Depois ele se retirou para a "Arábia" imagens diferentes. (Quanto ao significado
e então "retornou" para Damasco (G11,17). da conversão de Paulo, —>Teologia paulina,
O fato de a conversão ter ocorrido próximo 82:13-15.)
a Damasco é inferido do vb. "retornou".
Três anos mais tarde ele escapou de Da­ 23 Lucas também associa a conversão
masco (por volta de 39 d.C.; —» 8 acima) e de Paulo à perseguição da igreja - em Jeru­
foi para Jerusalém (1,18). Assim, em torno salém, em virtude da qual (judeus helenis-
de 36, Paulo o ex-fariseu se tornou cristão e tas) cristãos se dispersaram para a Judeia
"apóstolo aos gentios" (Rm 11,13). (Depen­ e Samaria (At 8,1-3) e posteriormente (9,2;
dendo de por quanto tempo se reconhece o II,19). Lucas conta a experiência de Da­
controle de Aretas sobre Damasco, as da­ masco três vezes em Atos: uma vez numa
tas da conversão e da fuga de Paulo são narrativa que descreve Paulo permanecen­
avaliadas de modo diferente: Lüdemann do, por fim, vários dias em Damasco (9,3­
data a conversão em 30 ou 33, a fuga em 19 - mas sem mencionar a retirada para a
33 ou 36; Jewett data a conversão em 34, a Arábia); e duas vezes em discursos, diante
fuga em 37). de uma multidão em Jerusalém (22,6-16) e
diante de Festo e do rei Agripa (26,12-18).
21 Paulo claramente considerava a ex­ Cada um desses relatos enfatiza o cará­
periência próxima a Damasco um ponto crí­ ter irresistível e inesperado da experiên­
tico em sua vida e, neste sentido, uma "con­ cia que ocorreu durante a perseguição de
versão". Ela foi, para ele, um encontro com Paulo aos cristãos. Enigmáticos, contudo,
o Senhor ressurreto (Kyrios) que ele nunca são os detalhes que variam nos relatos: se
esqueceu. Quando seu apostolado era, pos­ os companheiros de Paulo permaneceram
teriormente, desafiado, ele costumava obje­ mudos ou caíram ao chão; se eles ouviram
tar: "Não sou apóstolo? Não vi Jesus, nosso ou não a voz celestial; embora Jesus te­
Senhor?" (ICor 9,1; cf. 15,8). Como resul­ nha se dirigido a Paulo "na língua hebrai­
tado desta "revelação de Jesus Cristo" (G1 ca", ele cita um provérbio grego (26,14).
1,12), ele tornou-se "servo de Cristo" (G1 O fato de não harmonizar estes detalhes
reflete a falta de preocupação de Lucas com como referências ao mesmo acontecimento,
a consistência. Todavia, em cada relato a o "Concílio" (= G1 2,1-10). Indubitavelmen­
mensagem essencial é transmitida a Pau­ te, Lucas tornou históricas e transformou
lo: "Saulo, Saulo, por que me persegues?" em visitas separadas referências a uma úni­
- "Quem és tu, Senhor?" - "Eu sou Jesus ca visita encontradas em fontes diferentes.
(de Nazaré) a quem tu persegues". A visita lucana 5 não cria problema, e a visi­
ta 6 é a planejada por Paulo em Rm 15,25.
(Q uanto à "co n v ersão ": B ornkamm, G ., in
Reconciliation and Hope [Festschrift L. L. M orris; ed. 26 Assim, após Paulo ter escapado de
R. J. B anks; Grand Rapids, 1974] 90-103. D upont, J., Damasco, em 39 d.C., ele foi para Jerusa­
em Apostolic History and the Gospel [Festschrift F.
lém pela primeira vez historêsai Kêphan (G1
F. B ruce; ed. W. W. G asque e R. P. M artin; Grand
1,18), cujo significado é controverso: "para
Rapids, 1970] 176-94. G ager, J. G., N T S 27 [1980­
81] 697-704. M enoud, P. H „ Int 7 [1953] 131-41.
receber informação de Cefas" ou "para visi­
Stanley, D. M ., C B Q 15 [1953] 315-38. W ood, H. G., tar Cefas" (—> Gálatas, 47:16). Durante seus
N T S 1 [1954-55] 276-82. Também M einardus, O. 15 dias ali, ele encontrou-se com Tiago, "o
F. A., "The Site of Paul’s Convertion at Kaukab", irmão do Senhor", mas com nenhum dos
BA 44 [1981] 57-59.) outros apóstolos; ele, por outro lado, era
pessoalmente desconhecido das igrejas da
24 (II) Visitas de Paulo a Jerusalém. Judeia. Segundo a versão lucana desta pri­
Segundo as cartas de Paulo, ele visitou Je­ meira visita, Barnabé apresenta Paulo aos
rusalém duas vezes após sua conversão, "apóstolos" e lhes conta como ele pregou
uma vez após três anos (G11,18) e "quator­ ousadamente em Damasco em nome de Je­
ze anos mais tarde, subi novamente" (G1 sus. Paulo circula em Jerusalém entre eles,
2,1). Em Rm 15,25, ele planejava uma outra continuando a pregar ousadamente e pro­
visita, antes de ir para Roma e a Espanha. vocando os helenistas, que procuram matá-
lo (At 9,27-29).
25 Segundo At, contudo, Paulo visi­
ta Jerusalém cinco ou possivelmente seis 27 Após os 15 dias em Jerusalém, se­
vezes após sua conversão: (1) 9,26-29, após gundo G 11,21, Paulo se retirou para a Síria
sua fuga de Damasco; cf. 22,17; (2) 11,29-30, e Cilicia - ele não diz por quanto tempo. Por
Barnabé e Saulo levam uma coleta de Antio- essa época ele deve ter tido a visão à qual se
quia para os irmãos da Judeia - relacionada refere em 2Cor 12,2-4; ela ocorreu 14 anos
por Lucas à fome na época de Cláudio (—» antes de 2Cor ser escrita, mas dificilmente
11 acima); (3) 12,25, Barnabé e Saulo vão a pode ser equiparada à experiência da con­
Jerusalém (novamente? Alguns mss. leem versão. Segundo At 22,17-21, Paulo teve um
"de" [Jerusalém], o que significaria seu re­ êxtase enquanto orava no Templo em Jeru­
torno para Antioquia após a visita anterior; salém durante a primeira visita. E o perigo
mas eis, "para", é a leitura preferida; —>Atos, apresentado pelos helenistas provocados
44,67); (4) 15,1-2, a visita de Paulo e Barna­ que leva os irmãos a conduzirem Paulo de
bé ao "Concílio"; (5) 18,22, após a Segunda Jerusalém para Cesareia e a enviá-lo para
Missão, Paulo vai e saúda a igreja antes de ir Tarso (At 9,30). Atos não especifica quanto
para Antioquia; (6) 21,15-17, a visita no final tempo Paulo permaneceu nesta cidade da
da Terceira Missão, quando Paulo é preso. Cilicia, mas a sequência torna vários anos
A correlação entre os dados paulinos e algo não improvável (talvez 40-44 d.C.).
lucanos acerca das visitas a Jerusalém após A permanência termina com uma visita
a conversão é o aspecto mais difícil de qual­ de Barnabé, que o leva de volta para An­
quer reconstrução da vida de Paulo. A me­ tioquia, onde ele permanece um ano todo
lhor solução é equiparar a visita lucana 1 a (11,25-26) envolvido na evangelização. Lu­
G11,18 e considerar as visitas lucanas 2,3 e 4 cas relaciona a visita 2 a Jerusalém, a "Visita
da Fome", a este período. Veja W. A. Meeks Trôade no início da Segunda Missão (—» 38
e R. Wilken, Jezvs and Christians in Antioch abaixo). De qualquer modo, dificilmente a
(Missoula, 1978). Macedônia foi a primeira área evangelizada
por Paulo (contra M. J. Suggs, NovT 4 [1960]
28 (III) Missões paulinas. Atos orga­ 60-68), e o relato da Primeira missão em Atos
niza a atividade missionária de Paulo em não contradiz os raros detalhes paulinos.
três segmentos, porém, "se você tivesse pa­
rado Paulo nas ruas de Éfeso e tivesse dito 30 Movidos pelo Espírito, profetas e
a ele: 'Paulo, em qual de suas viagens mis­ mestres antioquenses impuseram as mãos
sionárias você se encontra agora?', ele teria sobre Barnabé e Saulo e os enviaram na
olhado para você perplexo, sem ter a mais companhia de João Marcos, primo de Bar­
remota ideia do que você tinha em mente" nabé (Cl 4,10). Eles partem de Selêucia, o
(Knox, Chapters 41-42). Todavia, a dificul­ porto de Antioquia da Síria, dirigem-se
dade não é apenas lucana; ela se origina do para Chipre e passam pela ilha, de Salami-
modo como lemos At, visto que Lucas não na para Pafos. Ali o procônsul Sérgio Paulo
distingue as missões primeira, segunda e é convertido (13,7-12). De Pafos os missio­
terceiracomo se tende a fazer atualmente. nários navegam para Perge, na Panfília (na
Mas vimos (—» 6 acima [tabela] que existe costa sul da Ásia Menor central), onde João
uma certa correlação nos dados paulinos Marcos abandona Barnabé e Paulo e retor­
e lucanos para as jornadas missionárias de na para Jerusalém. Barnabé e Paulo se di­
Paulo, excetuada a primeira. Suas jornadas rigem para cidades no sul da Galácia: para
abrangem aproximadamente 46-58 d.C., os Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe.
anos mais ativos de sua vida, quando ele Em Antioquia, Paulo prega primeiro para
evangelizou a Ásia Menor e a Grécia. os judeus na sinagoga; e, quando enfrenta
resistência, anuncia que se volta a partir de
29 (A ) Primeira Missão (46-49 d.C.). então em direção aos gentios (13,46). Após
A história desta missão pré-"Concílio" é evangelizar a área e enfrentar a oposição
contada apenas por At (13,3-14,28) e está de judeus em várias cidades (até mesmo
limitada ao essencial para ajustar-se ao apedrejamento em Icônio), Paulo e Barna­
propósito literário de Lucas (cf. 2Tm 3,11). bé refazem seus passos de Derbe, passando
Paulo não nos dá detalhes acerca de sua ati­ por Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia, até
vidade missionária no período de 14 anos Perge e navegam de Atalia para Antioquia
pré~"Concílio" (G1 2,1). Por um período, da Síria, onde Paulo passa "não pouco tem­
ele esteve nas "regiões da Síria e Cilicia" po" com os cristãos (14,28). Um dos pro­
(1,21) e "evangelizava a fé" (1,23) "entre os blemas que emerge na Primeira missão é a
gentios" (2,2). Mais tarde, quando ele es­ relação da nova fé com o judaísmo, e mais
creveu Fl, ele relembra que "no início da especificamente a relação dos cristãos gen­
pregação do Evangelho, quando parti da tílicos com os judeus convertidos mais anti­
Macedônia, nenhuma Igreja teve contato gos. Devem os gentios convertidos ser cir­
comigo em relação de dar e receber" (4,15). cuncidados e se exigir deles que observem
Quando ele deixou a Macedônia, então (em a lei mosaica? Veja Ogg, Chronology 58-71.
torno de 50 d.C.; —>39 abaixo), havia outras
igrejas, presumivelmente evangelizadas 31 (B) Visita do "concílio" (49 d.C.).
por Paulo. Onde eram? Visto que passou Segundo Lucas, durante a estadia de Pau­
para Filipos na Macedônia vindo da Ásia lo em Antioquia (final da Primeira missão),
Menor, ele pode estar se referindo a igre­ chegam convertidos da Judeia e começam a
jas do sul da Galácia no relato da Primeira insistir na circuncisão como necessária para
missão (At 13,13-14,25) - ou menos prova­ a salvação (15,1-3). Quando isto leva a uma
velmente às do norte da Galácia, Mísia ou disputa entre eles e Paulo e Barnabé, a igreja
antioquense envia Paulo e Barnabé e outros i.e., cristãos com pronunciada inclinação
a Jerusalém para consultar os apóstolos e judaica, chegaram e criticaram Pedro por
anciãos acerca do status dos gentios conver­ comer com gentios convertidos. Cedendo
tidos. Esta visita resulta no assim chamado à sua crítica, Pedro se separou; e sua ação
Concílio de Jerusalém. levou outros judeus cristãos, até mesmo
Barnabé, a fazerem o mesmo. Paulo pro­
32 Em G1 2,1-10, Paulo fala desta visi­ testou e se opôs abertamente a Pedro, por­
ta; ele foi novamente a Jerusalém com Bar­ que ele "não andava segundo a verdade
nabé e Tito "quatorze anos mais tarde" (a do evangelho" (2,11). Pode se depreender
ser contado a partir de sua conversão, i.e., que Paulo foi bem sucedido em sua crítica,
no ano 49-50). Paulo falou desta visita como mas mesmo assim a questão disciplinar dos
o resultado de "uma revelação" (2,2), e ele regulamentos alimentares judaicos para os
expôs diante "dos notáveis" em Jerusalém gentios convertidos estava colocada agora.
o evangelho que estivera pregando aos gen­ Veja Brown e Meier, Antioch and Rome 28-44.
tios, e eles "nada me acrescentaram". Tiago,
Cefas e João compreenderam a graça dada 35 (D) Decreto de Jerusalém sobre
a Paulo e a Barnabé e estenderam a eles a os alimentos. A oposição de Paulo a Pe­
destra da comunhão - não influenciados dro não resolveu o problema alimentar em
pelos "falsos irmãos" que tinham se infil­ Antioquia. Parece que emissários foram
trado para espiar a liberdade (da lei) obtida enviados de novo a Jerusalém, presumivel­
em Cristo e a quem Paulo não tinha cedido mente após a partida de Paulo e de Pedro
"para que a verdade do evangelho perma­ de Antioquia. Tiago convoca novamente os
necesse" (2,4-5). O problema resolvido nes­ apóstolos e anciãos, e sua decisão é enviada
ta ocasião foi o da circuncisão: ela não era como uma carta às igrejas locais de Antio­
obrigatória para a salvação; e Tito, embora quia, Síria e Cilicia (At 15,13-19). O próprio
grego, não foi forçado a circuncidar-se. (So­ Paulo nada diz sobre esta decisão, e mesmo
bre G12,7-8, -» Gálatas, 47:17.) em At ele só é informado depois sobre ela
por Tiago, quando de sua chegada a Jerusa­
33 A primeira parte de At 15 (vv. 4-12) lém após a Terceira missão (21,25).
lida com este mesmo problema doutrinário.
Aqueles a quem Paulo rotulou como "falsos 36 Atos 15 é um capítulo problemáti­
irmãos" são identificados aqui como "al­ co e complexo, no qual Lucas sem dúvida
guns crentes da seita dos fariseus" (15,5). resumiu dois incidentes que eram distin­
Quando o assunto é discutido pelos após­ tos quanto ao assunto e ao tempo. Deve
tolos e anciãos, aparentemente prevalece a se observar o seguinte: (1) Os vv. 1-2 são
voz de Pedro; e a assembleia aquiesce em uma sutura literária que une informações
sua decisão (baseada em sua própria expe­ de fontes diferentes. (2) O v. 34 está ausen­
riência em At 10,1-11,18). O "Concílio" de te nos melhores mss. gregos, mas é acres­
Jerusalém livra dessa forma a igreja nas­ centado na tradição textual Ocidental para
cente de suas raízes judaicas e a abre para explicar onde Silas estava no começo da
o apostolado mundial com o qual ela se de­ Segunda missão. (Se o v. 34 for omitido, a
parava. A posição de Paulo é justificada. localização de Silas torna-se um problema:
Quando ele se junta a Paulo na Segunda
34 (C) Incidente em Antioquia (49 missão?) (3) Simeão (15,14), que usual­
d.C.). Após o "Concílio" de Jerusalém, mente é identificado como Simão Pedro
Paulo foi para Antioquia, e em breve Pe­ (e deve ser entendido assim na história re­
dro o seguiu. Inicialmente ambos comeram sumida de Lucas), era provavelmente ou­
com os cristãos gentílicos, mas logo "al­ tra pessoa na fonte usada. Em outra parte
guns vindos da parte de Tiago" (G1 2,12), em At, Pedro é chamado de Petros (15,7)
ou Simõn Petros (10,5; 18,32), mas nunca Tavium) e funda novas igrejas. Impedido de
de Symeõn. O Simeão de 15,14 na fonte de ir para a Bitínia, ele vai da Galácia para Mísia
Lucas pode ser o Simeão Níger, um dos e Trôade. Aqui parece que Lucas juntou-se a
profetas ou mestres de Antioquia (13,1); ele - ou pelos menos os dados do diário de
provavelmente ele é enviado como um dos Lucas começam neste ponto (At 16,10-17, a
emissários a Tiago de Jerusalém acerca dos primeira das "Seções Nós"; —>Atos, 44:2).
regulamentos alimentares. (4) O discurso
de Pedro acerca da circuncisão e da lei mo­ 39 Em resposta a uma visão-sonho,
saica (15,7-11) dificilmente coincide com o Paulo atravessa para Neápolis, o porto de
tópico discutido por Tiago (15,14-21). Filipos, e o último torna-se o lugar de sua
primeira igreja cristã na Europa (—» 6 acima
37 Como resultado da consulta, Tiago [tabela]). Após ser preso e chicoteado em
envia uma carta a Antioquia, Síria e Cilicia Filipos por ter exorcizado uma escrava que
(15,22-29), recomendando que os cristãos tinha sido fonte de muito lucro para seus
gentílicos destas comunidades mistas se senhores, ele seguiu para Tessalônica via
abstenham de comer carne sacrificada aos Anfípolis e Apolônia (At 17,1-9). Sua cur­
ídolos, do sangue, da carne de animais es­ ta permanência em Tessalônica é ocupada
trangulados e de relações sexuais ilícitas. pela evangelização e controvérsia com os ju­
Ela teria sido enviada com Judas Barsabás deus; ela termina com sua fuga para Bereia
e Silas (15,22) para Antioquia e a Paulo e (17,10) e, finalmente, para Atenas (17,15).
Barnabé que presumidamente ainda esta­ Aqui Paulo tenta atrair os atenienses, famo­
vam ali. Atos 15,35-36 menciona Paulo e sos por seu amor por novas ideias, para o
Barnabé pregando em Antioquia, mas isto evangelho do Cristo ressurreto (17,22-31).
deveria ser entendido como se referindo Mas ele fracassa: "A respeito disso te ou­
à sua permanência imediatamente após o viremos outra vez" (17,32). Após este de­
"Concílio", após o que Paulo teria deixado sapontamento, Paulo segue para Corinto
Antioquia para a Segunda missão. Paulo é (51 d.C.), naquela época uma das mais im­
informado sobre a carta mais tarde (21,25; portantes cidades do mundo mediterrâneo.
-»A tos, 44:110). (Para uma coleção de antigos textos descri­
tivos sobre Corinto e um relato do traba­
(Quanto à relação de A t 15 com G12 e ao pro­ lho arqueológico, veja M urphy-0’Connor,
blema das visitas de Paulo a Jerusalém: B enoit, Corinth.). Aí ele mora com Aquila e Priscila
P., Btb 40 [1959] 778-92. D upont, J., R SR 45 [1957]
(18,2-3), judeus cristãos recentemente che­
42-60. F unk, R. W ., JBL 75 [1956] 130-36. Giet, S.,
gados da Itália (—> 10 acima) e fabricantes de
RevScRel 25 [1951] 265-69; RSR 39 [1951] 203-20;
RSR 41 [1953] 321-47; RevScRel 31 [1957] 329-42. tendas por profissão como Paulo (veja R. F.
P arker, P., JBL 86 [1967] 175-82. R igaux, Letters Hock, JBL 97 [1978] 555-64). Durante sua es­
68-99. S trecker, G., Z N W 53 [1962] 62-77.) tadia em Corinto, que dura 18 meses, ele con­
verte muitos judeus e gregos e funda uma
38 (D) Segunda Missão (50-52 d.C.). igreja cristã vigorosa e predominantemente
Segundo Atos 15,37-39, Paulo se recusou a gentílica. Em 51 d.C., Paulo escreveu sua
levar João Marcos consigo na Segunda mis­ primeira Carta aos Tessalonicenses. Perto do
são, por causa de sua deserção anterior. Em final de sua estadia (52 d.C.; —>9 acima), Pau­
seu lugar, Silas acompanha Paulo, e, partin­ lo é levado perante o procônsul L. Júnio Ga-
do de Antioquia, eles se dirigem através da lião, que rejeita o caso como uma questão de
Síria e Cilicia até as cidades do sul da Galá­ palavras, de nomes e da lei judaica (18,15).
cia, Derbe e Listra (onde Paulo toma Timóteo Algum tempo mais tarde, Paulo se retira de
como companheiro, tendo o circuncidado, Corinto, navegando de seu porto, Cencreia,
At 16,1-3!). Daü ele passa através da Frigia para Éfeso e Cesareia Marítima. Depois de
para o norte da Galácia (Pessino, Ancira e visitar a igreja de Jerusalém (18,22), ele vai
para Antioquia, onde permanece por mais pida visita a Corinto (2Cor 12,14; 13,1-2;
de um ano (possivelmente do final do outo­ 2,1 ["uma visita dolorosa"; 12,21), que de
no de 52 até a primavera de 54). fato nada conseguiu. Quando de seu re­
torno a Éfeso, Paulo escreveu aos coríntios
(D avies, P. E., "The M acedonian Scene of uma terceira carta, composta "com muitas
P a u l’s Jo u rn ey s", B A 26 [1963] 91-106. O gg, lágrimas" (2Cor 2,3-4.9; 7,8.12; 10,1.9). Esta
Chronology 112-26.) carta pode ter sido levada por Tito, que vi­
sitou os coríntios pessoalmente numa ten­
40 (E) Terceira Missão (54-58 d.C.). tativa de facilitar as relações.
Deixando Antioquia (At 18,23), Paulo via­
ja novamente por terra através do norte da 42 Provavelmente durante a ausência
Galácia e Frigia até Éfeso. A capital da pro­ de Tito ocorreu a revolta dos ourives de
víncia da Ásia torna-se o centro de sua ativi­ Éfeso (At 19,23-20,1). A pregação de Paulo
dade missionária pelos próximos três anos sobre o novo "caminho" cristão encoraja
(At 20,31), e por "dois anos" ele leciona na Demétrio, um fabricante de nichos de Árte-
escola de Tiranos (19,10). Pouco depois de mis de Éfeso, a liderar uma multidão revol­
sua chegada a Éfeso, Paulo escreve Gálatas tosa ao teatro em protesto contra Paulo e a
(em torno de 54). A este período missionário propagação do cristianismo.
também pertencem a Carta aos Filipenses e,
possivelmente, a Carta a Filêmon (em torno 43 Esta experiência motivou Paulo a
de 56-57). Atos nada diz sobre uma prisão deixar Éfeso e ir trabalhar em Trôade (2Cor
de Paulo em Éfeso, mas veja ICor 15,32; 2,12). Não encontrando Tito ali, decidiu ir
2Cor 1,8-9; cf. F1 1,20-26. Alguns dos pro­ para a Macedônia (2,13). Em algum lugar
blemas que Paulo experimentou e descreve na Macedônia (possivelmente Filipos), en­
em 2Cor 11,24-27 podem ter lhe acontecido controu-se com Tito e foi informado por
neste período de atividade missionária. ele que uma reconciliação entre Paulo e os
coríntios tinha sido obtida. Da Macedônia,
41 Durante este período chegaram a Paulo escreveu aos coríntios sua quarta
Paulo relatos sobre a situação da igreja de carta (a Carta A de 2 Coríntios; —» 50:4) no
Corinto. Para enfrentar a situação ali - dú­ outono de 57. Não é possível dizer se Paulo
vidas, facções, ressentimento para com o prosseguiu imediatamente para Corinto ou
próprio Paulo, escândalos - ele escreveu se foi primeiro da Macedônia para llíria (cf.
pelo menos cinco cartas aos coríntios, das Rm 15,19), de onde pode ter escrito 2 Corín­
quais apenas duas sobrevivem (uma das tios 10-13 (Carta B). Finalmente, Paulo che­
quais é composta; —» 2 Coríntios, 50:2-3). gou a Corinto, em sua terceira visita, pro­
Uma carta precedeu ICor (veja IC or 5,9), vavelmente no inverno de 57 e permaneceu
advertindo os coríntios acerca da asso­ por três meses na Acaia (At 20,2-3; cf. ICor
ciação com cristãos imorais (e provavel­ 16,5-6; 2Cor 1,16).
mente recomendando também uma coleta
para os pobres de Jerusalém, uma questão 44 Por essa época Paulo estava pen­
acerca da qual os coríntios enviaram uma sando em retornar a Jerusalém. Atento à
consulta posterior [veja ICor 16,1]). Então, prescrição do "Concílio" de que se deveria
para comentar sobre relatos e responder lembrar dos pobres (G1 2,10), ele cuidou
perguntas enviadas a ele, Paulo escreveu para que suas igrejas gentílicas levantassem
1 Coríntios pouco depois de Pentecostes uma oferta para os pobres de Jerusalém.
(provavelmente em 57). Esta carta, contu­ Isto foi feito nas igrejas da Galácia, Macedô­
do, não foi bem recebida, e suas relações nia e Acaia (ICor 16,1; Rm 15,25-26). Paulo
com a igreja de Corinto, dividida em fac­ planejou levar a oferta para Jerusalém e as­
ções, pioraram. A situação exigiu uma rá- sim terminar sua evangelização do mundo
mediterrâneo oriental. Ele desejava visitar que estavam para realizar a cerimônia do
Roma (Rm 15,22-24) e dali ir para a Espa­ voto de nazireu e a pagar as despesas por
nha e o Ocidente. Durante a estadia de três eles como um gesto de boa vontade para
meses na Acaia, Paulo escreveu a Carta aos com os judeus cristãos. Paulo concorda,
Romanos (provavelmente de Corinto, ou e o período cerimonial de sete dias está
de seu porto, Cencreia [Rm 16,1]) no início quase para terminar quando ele é visto no
de 58. Veja mais em Brown e Meier, Antioch recinto do Templo por judeus da provín­
anã Rome 105-27. cia da Ásia. Eles o acusam de defender a
violação da lei mosaica e de corromper a
45 Quando chegou a primavera, Pau­ santidade do Templo trazendo um grego
lo decide navegar de Corinto (At 20,3) para para dentro dele. Eles o atacam, arrastam
a Síria. Porém, quando ele está prestes a do Templo e tentam matá-lo. Ele é sal­
embarcar, é planejada uma conspiração vo, contudo, pelo tribuno da coorte ro­
contra ele por alguns judeus; e ele resolve mana estacionada na Fortaleza Antônia.
viajar por terra, via Macedônia. Discípu­ O tribuno finalmente coloca Paulo sob pri­
los de Bereia, Tessalônica, Derbe e Éfeso são protetora (22,27) e o leva perante o si­
o acompanham. Eles passam a Páscoa de nédrio. Mas o medo dos judeus faz o tribu­
58 em Filipos (onde Lucas se reúne a ele no enviar Paulo ao procurador da Judeia,
- At 20,5, uma "Seção Nós"). Após a festa, Antônio Félix, que residia em Cesareia
eles viajam de navio para Trôade e viajam Marítima (23,23-33). Félix, que espera que
por terra até Assos, onde tomam um na­ Paulo o suborne (24,26), mantém Paulo na
vio novamente para Mitilene. Margeando prisão por dois anos (58-60; —> História,
a costa da Ásia Menor, Paulo navega de 75:179). -
Quio para Samos, então para Mileto, onde
ele se dirige aos anciãos de Éfeso reuni­ 48 (B) Apelo a César; viagem para
dos ali (At 20,17-35). Ele não é impedido Roma (60 d.C.). Quando o novo procura­
por suas predições sobre sua prisão vindou­ dor, Pórcio Festo, chega (possivelmente em
ra, mas navega para Cós, Rodes, Pátara na torno de 60; —»12 acima), Paulo "apela para
Lícia, Tiro na Fenícia, Ptolemaida e Ce- César", i.e., exige um julgamento em Roma
sareia Marítima. Uma viagem por terra (25,11), em virtude de sua cidadania roma­
o conduz a Jerusalém, aonde ele espe­ na. Festo tem de aceitar este pedido. Veja
ra chegar por ocasião do Pentecoste de Sherwin-White, Roman Society 48-70.
58 (20,16; 21,17). Veja Ogg, Chronology 133-45. Escoltado por um centurião romano (e
provavelmente por Lucas, como a "Seção
46 (IV) Última Prisão de Paulo. Para Nós" indica), ele viaja de navio de Cesareia
o restante do ministério de Paulo depende­ Marítima para Sidom e passa por Chipre
mos apenas da informação lucana em Atos; para chegar a Mira na Lícia. No final do
ela abrange vários anos após 58, durante os outono de 60 (27,9), eles deixam Mira num
quais Paulo sofreu um longo cativeiro. navio alexandrino de viagem para a Itália,
esperando mau tempo. Sua rota os leva
47 (A) Última visita a Jerusalém e primeiro para Cnido (na costa sul da Ásia
prisão (58 d.C.). Chegando a Jerusalém, Menor), então em direção ao sul "rente a
Paulo e seus companheiros prestam res­ Creta, junto ao cabo Salmone" até chegar a
peito a Tiago na presença dos anciãos Bons Portos, próximo à cidade cretense de
daquela igreja (At 21,18). Tiago imediata­ Lasaia (27,7-8). Quando tentam alcançar o
mente compreende que a presença de Pau­ porto de Fênix, um vento noroeste sopra
lo em Jerusalém poderia causar um dis­ e os leva por dias através do Adriático até
túrbio entre os judeus cristãos. Assim ele Malta, onde eles finalmente naufragam
aconselha Paulo a unir-se a quatro homens (28,1).
49 Após passarem o inverno em Mal­ esta carta teria sido escrita da prisão. Mas
ta, Paulo e sua escolta navegaram para Sira­ estas cartas atualmente são, em geral, con­
cusa na Silícia, então para Régio (a moder­ sideradas pseudepigráficas, possivelmente
na Régio Calábria) e, por fim, para Putéoli escritas por um discípulo de Paulo (—» Pas­
(a moderna Pozzuoli, perto de Nápoles). torais, 56:6-8; cf. Brown, Churches [—>49 aci­
Sua jornada por terra para Roma os levou ma] 31-46).
através do Foro de Apio e Três Tabernas
(28,15). Paulo chega à capital do império na 52 Para outros detalhes acerca do fi­
primavera de 61 e por dois anos é mantido nal da vida de Paulo dependemos das tra­
em prisão domiciliar (61-63) com um solda­ dições eclesiásticas posteriores, as quais
do a guardá-lo. Esta situação, contudo, não se tornaram acentuadamente misturadas
o impede de reunir judeus romanos em seu com lendas. Paulo alguma vez visitou
alojamento e de evangelizá-los (28,17-28). a Espanha? Talvez esteja implicado um
A interpretação tradicional atribui os es­ pouco mais que uma historização de pla­
critos de Paulo a Filêmon, aos Colossenses nos expressos em Rm 15,24. 28; a tradição
e aos Efésios a este aprisionamento, mas —» subsequente fala de Paulo, liberto após
Filêmon, 52:5; Colossenses, 54:7; Efésios, dois anos de prisão domiciliar, ir para a
55:13. Veja Sherwin-White, Roman Society Espanha. Clemente de Roma (ICor. 5:7) re­
108-19; R. E. Brown, The Churches the Apos­ gistra que Paulo "ensinou a todo mundo
tles Left Behind (New York, 1984) 47-60. a retidão e viajou até o extremo oeste [epi
to terma tês dyseõs elthõn]. E, após ter dado
50 (C) Fim da vida de Paulo. Atos testemunho diante das autoridades, ele foi
termina com o breve relato da prisão domi­ levado deste mundo e foi para o lugar san­
ciliar de Paulo. Sua chegada a Roma e sua to, tendo se mostrado o maior modelo de
pregação desimpedida do evangelho ali persistência". O testemunho de Clemente
formam o clímax da história da propagação (em torno de 95) sugere a visita à Espanha,
da palavra de Deus, de Jerusalém até a ca­ um outro julgamento e o martírio. Por vol­
pital do mundo civilizado da época - Roma ta de 180, o Fragmento Muratoriano (li­
simbolizando "os confins da terra" (At nhas 38-39; EB 4) sugere que a última parte
1,8). Mas este não é o fim da vida de Paulo. de At, que relata "a partida de Paulo da
A menção a "dois anos inteiros" (28,30) não Cidade [Roma] quando ele viajou para a
sugere que ele tenha morrido imediatamen­ Espanha", foi perdida.
te depois disso, não importa que interpreta­
ção se dê ao fim enigmático de Atos. 53 Eusébio (HE 2.22.3) é o primeiro
a mencionar a segunda prisão de Paulo
51 As Cartas Pastorais (Tito; 1-2 Ti­ em Roma e seu martírio sob Nero: "Após
móteo) foram frequentemente tidas como defender-se, Paulo foi novamente envia­
escritos autênticos de Paulo e como com­ do para o ministério da pregação e, vindo
postas por ele após sua prisão domiciliar uma segunda vez à mesma cidade, sofreu
romana. De fato, elas sugerem que ele vi­ martírio sob Nero. Durante esta prisão, ele
sitou o Oriente novamente (Efeso, Mace- escreveu a segunda epístola a Timóteo, in­
dônia e Grécia). Segundo elas, Paulo esta­ dicando ao mesmo tempo que sua primei­
beleceu Tito como líder da igreja de Creta ra defesa ocorreu e que seu martírio esta­
e Timóteo como líder da igreja de Efeso. 2 va próximo." Eusébio ainda cita Dionísio
Timóteo se propõe ser a última vontade e de Corinto (em torno de 170), que afirmou
testamento de Paulo, escrita quando ele es­ que Pedro e Paulo "foram martirizados na
tava próximo da morte. Ela sugere que ele mesmo época" (HE 2.25.8). Tertuliano (De
pode ter sido preso em Trôade (4,13) e con­ Praescr. 36) compara a morte de Paulo à de
duzido para Roma novamente (1,17), onde João (Batista), i.e., por decapitação.
O testemunho de Eusébio acerca da 54 Diz-se que Paulo foi sepultado na
morte de Paulo quando da perseguição de Via Ostiensis, próximo ao lugar da moderna
Nero é amplamente aceito. Esta persegui­ Basílica de San Paolo fuori le Mura. Em 258,
ção durou, contudo, do verão de 64 d.C. até quando túmulos cristãos em Roma foram
a morte do imperador (9 de junho de 68); e é ameaçados de profanação durante a per­
difícil datar com precisão o ano do martírio seguição de Valeriano, os restos mortais de
de Paulo. A nota de Dionísio de Corinto de Paulo foram transferidos provisoriamente
que Pedro e Paulo "foram martirizados na para um lugar chamado de Ad Catacumbas
mesma ocasião" (kata ton auton kairon) é fre­ na Via Apia. Mais tarde, eles retornaram a
quentemente entendida como significando seu lugar de repouso original, sobre o qual
no mesmo ano, mas o ano preferido para a Constantino construiu sua basílica.
morte de Paulo é 67, perto do final da per­
seguição de Nero, como o relato de Eusébio (M einardus , O. F. A ., "P a u l’s M issionary
parece sugerir. Esta cronologia, contudo, Journey to Spain: Tradition and Folklore", BA 41
não é universalmente aceita e não está isen­ [1978] 61-63. P herigo, L. P., "P au l’s Life after the
ta de dificuldades. Close of A cts", JBL 70 [1951] 277-84.)

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