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Pronunciamentos da Igreja

Raymond E. Brown, S.S. e


Thomas Aquinas Collins, O.P.*

BIBLIOGRAFIA

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(1895) 48-64; " L e d écre t Lamentabili sane exitu e t la citações de documentos oficiais são transcritas do
critiq u e h isto riq u e ", RB 16 (1907) 542-54; Personal site oficial do Vaticano nos casos em que há uma
Reflections and Memories (N ew Y ork , 1985; o riginal versão em português.]

2 ESBOÇO

Pano de fundo histórico de pronunciam entos (A) Florença (§ 10)


recentes (§ 3-9) (B) Trento (§ 11)
(I) Introdução (C) Vaticano I (§ 12)
(A) 1870-1900 (§ 4) (D) Vaticano II (§ 13-16)
(B) 1900-1940 (§ 5) (II) Cartas encíclicas
(C) 1941-1965 (§ 6-8) (A) Providentissimus Deus (§ 17)
(D) 1966-1990 (§ 9) (B) Pascendi Dominici Gregis (§ 18)
(C) Spiritus Paraclitus (§ 19)
Resumos dos pronunciamentos (§ 10-41) (D) Divino Afflante Spiritu (§ 20-23)
(I) Concílios da igreja (E) Humani Generis (§ 24)

* As seções 3-9,13-16,36-41 são obra de R. E. B ro w n ; 10-12,17-24 são de T. A. C ollin s ; 25-35


foram escritas em conjunto.
(III) Documentos das comissões romanas (e) Declaração da PCB sobre os en­
(A) P rim eiros d ecreto s da PCB (1 9 0 5 ­ contros p ara o estudo da Bíblia
1933) (§ 33)
(a) Historicidade geral (§ 26) (f) Monitoria do Santo Ofício sobre a
(b) Antigo Testamento (§ 27) historicidade (§ 34)
(c) N ovo Testamento (§ 28) (g) Declaração da PCB sobre historici­
(B) Documentos mais recentes (1941-1990) dade dos evangelhos (§ 35)
(a) C arta da PCB p ara a hierarquia (h) Monitum Ecclesiae (§ 36)
italiana (§ 29) (i) D eclarações da PCB entre 1965­
(b) Declaração da PCB sobre as tradu­ 1975 (§ 37)
ções bíblicas (§ 30) (j) Informe da PCB sobre a ordenação
(c) Resposta da PCB para o cardeal sacerdotal das mulheres (§ 38)
S uhard de Paris (§ 3 1 ) (k) Informe da PCB sobre questões
(d) Declaração da PCB sobre o ensino cristológicas (§ 39)
da Escritura nos seminários (§ 32) (IV) Alocuções papais recentes (§ 40-41)

PANO DE FUNDO HISTÓRICO DE PRONUNCIAMENTOS RECENTES

3 (I) Introdução. No que segue, apre­e assim talvez seja útil resumir a atitude
sentaremos um rápido resumo de decla­ de Roma para com o estudo da Bíblia du­
rações eclesiásticas que dizem respeito à rante este período, a fim de mostrar a at­
Bíblia. Algum pano de fundo é necessário mosfera na qual as declarações devem ser
para a avaliação destas declarações; pois, avaliadas.
embora todas exijam respeito e compreen­
são, nem todas essas declarações requerem 4 (A) 1870-1900. Este período presen­
uma adesão igual. Obviamente, os decretos ciou o primeiro encontro católico real com
de concílios ecumênicos são mais vinculan- uma vigorosa crítica protestante da Bíblia
tes do que encíclicas papais. Em particular, (—>Crítica do NT, 70:5ss.; —>Crítica do AT,
houve um certo caráter temporal para a for­ 69:23ss.). Para pessoas religiosas acostuma­
ça vinculante dos decretos da Pontifícia Co­ das a considerar a Escritura como inspirada
missão Bíblica (PCB), pois elas foram deci­ e inerrante, os novos conhecimentos levan­
sões prudenciais sobre problemas práticos. tavam problemas acerca da inerrância bí­
Exigiam obediência quando emitidos, mas blica tanto em questões de ciência natural
estavam sujeitos a revisões subsequentes e quanto de história (—» Inspiração, 65:38-41).
de modo algum devem ser considerados in­ O fato de que alguns não católicos estavam
falíveis. Além disso, todos esses documen­ sendo levados por seu estudo da Bíblia a
tos, conciliares, papais e curiais, devem ser desvalorizar a importância religiosa das Es­
avaliados à luz da época em que foram pro­ crituras criou uma certa atitude defensiva
duzidos e dos problemas de que tratavam. por parte das autoridades da igreja, sempre
Uma interpretação fundamentalista deles ansiosas por preservar a Escritura como
é tão censurável quanto uma interpretação palavra de Deus. O Vaticano I evidenciou
fundamentalista das Escrituras. Deve-se esta atitude em questões gerais de teologia,
distinguir entre a verdade precisa que é re­ mas a brevidade deste concílio não permi­
afirmada e sua expressão conceituai ou ver­ tiu que se visse uma atitude plena para com
bal, que é determinada pelas circunstâncias a Bíblia. Ele fez pouco mais do que repetir a
históricas (—» 36 abaixo). declaração tridentina sobre a canonicidade
Com exceção dos decretos dos Concílios e enfatizar a inspiração da Escritura (—»Ins­
de Florença e Trento, todos os documen­ piração, 65:29). A encíclica Providentissímus
tos expostos datam dos últimos 125 anos, Deus (1893), de Leão XIII, é a principal tes­
temunha da atitude eclesiástica oficial para entre 1905 e 1915, eram preventivos e, em­
com o estudo da Bíblia durante este perío­ bora fossem conservadores quanto ao tom,
do. É interessante que, apesar dos perigos eram frequentemente expressos de modo
da época, este papa erudito e humanista perceptivo e nuançado. Mas como obriga­
assumiu uma posição um tanto matizada. vam os biblistas católicos a aquiescer, eles
A encíclica mostra uma certa hostilidade deram ao mundo não católico a imagem
para com a alta crítica e o trabalho de pes­ inadequada de uma atitude católica mono-
quisadores não católicos: "O sentido da Sa­ liticamente conservadora que não discutia
grada Escritura não pode ser encontrado in­ as questões com base em uma troca de opi­
corrupto em nenhum lugar fora da igreja e niões científicas, mas resolvia tudo median­
não se pode esperar que seja encontrado em te ordens de uma autoridade centralizada.
escritores que, não tendo a fé verdadeira, Ainda que os decretos da PCB, quando
somente roem a casca da Escritura Sagra­ interpretados com discernimento jurídico,
da e nunca alcançam sua medula" (EB 113; permitissem um certo espaço para a inves­
RSS, p. 1 7 - o quanto avançamos desde esta tigação científica, a atmosfera não conduzia
época pode ser visto no incentivo do Va­ a isto; e pesquisadores avançados como
ticano II [De Rev. 6:22] para trabalhar com M.-J. Lagrange (—>Crítica do AT, 69:35, 55)
pesquisadores não católicos em traduções foram virtualmente silenciados em ques­
bíblicas!). Não obstante, o papa mostrou- tões sensíveis. F.-M. Braun intitula bem
se consciente das vantagens dos estudos este período na vida de Lagrange de "Pro­
linguístico e exegético científicos, e estavavações e lutas" (The Work of Père Lagrange
afinado com o fato de que as concepções [Milwaukee, 1963] 66-100). Levie (Bible 73)
dos autores bíblicos em questões de ciência descreve a rede de espionagem reacioná­
não estavam investidas de infalibilidade es- ria estabelecida para delatar a Roma todas
criturística. Assim, no início do séc. XX, a as pessoas cujas ideias pudessem mostrar
atitude católica oficial para com os avanços qualquer sinal de modernismo, uma rede
no estudo da Escritura era de cautela, mas tão desprezível que o próprio papa Bento
também do início do apreço que pressagia­ XV a censurou formalmente. A encíclica
va um bom futuro. Spiritus Paraclitus de Bento XV, em 1920,
foi afetada pelo período difícil que a pre­
5 (B) 1900-1940. O advento do moder­cedera. O papa foi mais negativo, quanto
nismo, particularmente nos escritos de A. ao tom, ao lidar com os avanços modernos
Loisy, mudou toda a situação (—> Crítica do que Leão XIII o fora e foi fortemente de­
do NT, 70:38). Havia agora o perigo de uma fensivo no tocante à historicidade da Bíblia.
heresia virulenta, e o piedoso Pio X estava A década de 1920 presenciou uma ação
mais interessado em proteger os fiéis do eclesiástica vigorosa por parte do Santo Ofí­
que nas minúcias da atitude científica. Nas cio sob o cardeal Merry Del Vai contra os
Escrituras os modernistas usavam a nova escritos de estudiosos católicos importantes
abordagem inaugurada pelos protestantes como J. Touzard, F. Vigouroux, M. Bacuez e
alemães; e em Pascendi e Lamentabili, nas A. Brassac (veja Levie, Bible 124). A PCB não
condenações católicas oficiais do modernis­ emitiu nenhum decreto nestes anos, exceto
mo, foi feita pouca distinção entre a possí­ uma solitária declaração sobre a exegese de
vel validade intrínseca dessas abordagens e dois textos em 1933.
o uso teológico errado delas por parte dos
modernistas. Ao mesmo tempo a PCB, es­ 6 (C) 1941-1965. Este período assistiu
tabelecida por Leão XIII em 1902, começou ao renascimento do estudo católico da Bí­
a emitir uma série de decisões sobre muitos blia. Houve alguns sinais de mudança de
pontos mais detalhados da interpretação e atitude na parte final do pontificado de
autoria da Bíblia. Estes decretos, emitidos Pio XI, mas é Pio XII que merece o título de
patrono do estudo católico da Bíblia. Seu aprovação do secretário da PCB e do car­
pontificado marcou uma reviravolta com­ deal Bea. No início do pontificado do papa
pleta e inaugurou a maior renovação do in­ João XXIII, foram feitos sérios ataques con­
teresse na Bíblia que a Igreja Católica Roma­ tra a importantes biblistas católicos como
na jamais viu. Os sinais desta mudança se L. Alonso Schõkel, J. Levie, S. Lyonnet e
tornaram visíveis na nova atitude da PCB, M. Zerwick, e na sequência os dois últimos
que em 1941 condenou uma desconfiança foram removidos de seu cargo letivo no
excessivamente conservadora para com a Pontifício Instituto Bíblico. A controvérsia
moderna pesquisa bíblica. A encíclica Divi­ penosa deste período difícil é bem relatada
no Afflante Spiritu de 1943 foi a Carta Magna por J. A. Fitzmyer em TS 22 (1961) 426-44.
do progresso bíblico. Embora o papa tenha Finalmente, em 1961 o Santo Ofício emitiu
saudado as encíclicas de seus predecesso­ uma advertência contra ideias que coloca­
res, ele anunciou que o tempo do medo vam em dúvida a genuína verdade históri­
havia passado e os pesquisadores católicos ca e objetiva da Escritura. A atmosfera de
deveriam usar as ferramentas modernas em pessimismo foi aumentada por relatos (não
sua exegese. O uso do princípio das formas publicados) de que o esquema "As fontes
literárias para resolver problemas históri­ da revelação", que seria apresentado no
cos e o incentivo a fazer novas traduções futuro Vaticano II no outono de 1962, era
da Bíblia a partir das línguas originais (e negativo em sua abordagem sobre os avan­
não a partir da Vulgata), foram um convi­ ços bíblicos recentes. Contudo, o pessimis­
te para os estudiosos católicos começarem mo deixou de levar em conta os ventos do
a escrever livremente de novo e a alcançar aggiornamento [atualização] que passavam
o estágio da pesquisa protestante, que tinha pela janela aberta por João XXIII. Em no­
se distanciado muito deles durante os anos vembro de 1962, foram tantos os padres
precedentes de "provações e lutas". As di­ conciliares que expressaram seu desagrado
retrizes do papa foram reforçadas pelas de­ com este esquema que o papa João ordenou
clarações da PCB em 1948 ao cardeal Suhard que ele fosse retirado e reescrito por uma
sobre Gn e em 1950 sobre o ensino da Escri­ comissão mista, na qual os biblistas estives­
tura nos seminários. Em 1955, o secretário sem melhor representados.
da PCB deu um passo muito corajoso, mas
extremamente necessário, ao afirmar que 8 O pontificado de Paulo VI restau­
os biblistas católicos tinham agora comple­ rou a atmosfera calorosamente favorável
ta liberdade (plena libertate) com relação aos da época de Pio XII. Os professores acima
decretos anteriores da PCB de 1905-1915, mencionados foram reconduzidos a suas
exceto onde eles diziam respeito à fé e à cátedras. Em abril de 1964, a PCB publicou
moral (e pouquíssimos deles o faziam). Isto uma "Instrução sobre a verdade histórica
significava que os católicos estavam agora dos evangelhos", um documento encoraja-
livres para adotar posições modernas sobre dor que abriu o caminho para a crítica bíbli­
autoria e datação. ca séria no delicado campo da historicidade
dos evangelhos. A forma final do esquema
7 Uma crise no avanço do estudo ca­De Revelatione aprovado pelo Vaticano II
tólico da Bíblia surgiu com a enfermidade em 1965 tinha muito do tom da "Instrução"
e morte de Pio XII. No último ano de seu da PCB, dando a bênção oficial da igreja a
pontificado (abril de 1958), a Congregação avanços na linha estabelecida por Pio XII.
dos Seminários expressou desagrado com o
vol. 1 da Introduction à la Bible publicada sob 9 ( D ) 1 9 6 6 - 1 9 9 0 . Este histórico da vee­
a direção de A. Robert e A. Feuillet. (Subse­ mente rejeição católica das abordagens bí­
quentemente uma 2a ed. foi publicada pra­ blicas modernas do primeiro terço do séc.
ticamente sem nenhuma mudança e com a XX (período B acima) e, depois, de aceitação
rápida no segundo terço (período C acima) simples demais a concepção virginal, a res­
produziu, previsivelmente, desigualdades surreição corporal, os milagres, a fundação
no último terço do século. Primeiro, para os da igreja e a legitimidade do ministério or­
seminários e colégios havia a tarefa de fazer denado. Relativamente poucos pesquisa­
com que uma geração de biblistas católicos dores bíblicos católicos, contudo, adotaram
fossem certamente capacitados nos novos estas concepções, de modo que a principal
métodos. Segundo, para as paróquias e es­ corrente do movimento bíblico permane­
colas, os sacerdotes e professores formados ceu solidamente centrista (veja R. E. Brown,
nas ideias anteriores a 1960 ficaram choca­ Biblical Exegesis and Church Doctrine [New
dos ao ficarem sabendo da aprovação de York, 1985]. A predição de 20 anos atrás do
ideias acerca da historicidade bíblica que JBC 72:9 provou ser verdadeira: O moder­
eles tinham sido ensinados a condenar. no movimento bíblico católico inaugurado
Terceiro, para o ecumenismo e a teologia por Pio XII e confirmado pelo Vaticano II
dogmática, as implicações das abordagens faz agora de tal maneira parte da igreja que
bíblicas contemporâneas exigem que as an­ não pode ser rejeitado. Neste último terço
tigas ideias sejam repensadas. Um grupo do séc. XX não houve qualquer condenação
pequeno, mas articulado, de ultraconser- magisterial de qualquer biblista católico
vadores preparou um ataque sem êxito a destacado. De fato, alguns que tinham ir­
biblistas católicos renomados, com o dese­ ritado os ultraconservadores se tornaram
jo de retroceder à situação de 1910. Houve membros da PCB romana (—» 37 abaixo), en­
ocasionais abusos liberais das informações quanto os papas recentes insistem no contí­
bíblicas na catequese popular e em alguns nuo uso da crítica bíblica pelos pesquisado­
escritos teológicos, p.ex., negando de forma res católicos (—>40 abaixo).

RESUM OS DOS PRONUNCIAMENTOS

10 (I) Concílios da igreja. votou afirmativamente sobre dois decretos:


(A) Florença. O Concílio de Florença (1) concernente às Escrituras canônicas (EB
(1438-1445) proclamou a doutrina tradicio­ 57-60) e (2) concernente à edição e ao uso dos
nal da igreja em relação ao cânone (—»Cano- livros sagrados (EB 61-64). O primeiro decre­
nicidade, 66:13) no Decreto para os jacobitas to, que adotou o cânone de Florença, foi "a
(da bula Cantate Domino, de 4 de fevereiro primeira declaração infalível e efetivamente
de 1441 - EB 47). Este decreto continha uma promulgada sobre o cânone das Sagradas
lista de livros inspirados, tanto protocanô- Escrituras". Como observa H. Jedin, ele tam­
nicos quanto deuterocanônicos, que é idên­ bém colocou um ponto final no processo de
tica àquela feita no Concílio de Hipona, em desenvolvimento do cânone bíblico de mil
393, repetida no III e IV Concílios de Carta- anos (History of the Council ofTrent [London,
go, em 397 e 419, e se encontra também na 1961] 91). A partir de então os livros do AT
"Consulenti tibi", uma carta que diz respei­ e do NT, tanto protocanônicos quanto deu­
to ao cânone enviada pelo papa Inocêncio I, terocanônicos, em sua integridade e com to­
em 405, a Exuperius, bispo de Toulouse (EB das as suas partes, constituem o cânone e são
16-21; —» Canonicidade, 66:11-12). considerados de igual autoridade (—>Cano­
nicidade, 66:13,42-43,90-91).
11 (B) Trento. Dúvidas e incertezas O segundo decreto declara "que a anti­
de peso concernentes ao cânone foram fi­ ga edição da Vulgata, que foi aprovada pela
nalmente resolvidas pelo Concílio de Tren­ própria igreja mediante longo uso por tan­
to (1545-1563), em sua quarta sessão em tos séculos, deveria ser considerada a edição
8 de abril de 1546. Nesta sessão, o concílio autêntica para a leitura pública, disputas,
sermões e explicações" (—» 20 abaixo quan­ a revelação divina ocorreu tanto em ações
to à encíclica DAS, que esclareceria o signi­ quanto em palavras - uma concepção que
ficado deste decreto tridentino). O decreto toma conhecimento da ênfase bíblica mo­
continua proibindo qualquer pessoa de ou­ derna no "Deus que age", juntamente com a
sar, em matéria de fé e moral, "distorcer a ênfase tradicional no "Deus que fala". O cap.
Escritura para adaptá-la a significados par­ 2 lida com as questões teológicas controver­
ticulares que sejam contrários ao significado sas das fontes de revelação. Defrontando-se
que a santa Mãe Igreja sustentou e sustenta com concepções nitidamente opostas - duas
agora, pois é encargo dela julgar acerca do fontes (Escritura e Tradição) versus uma fon­
verdadeiro sentido e interpretação da Es­ te (somente a Escritura, interpretada pela
critura. Ninguém tampouco deveria ousar Tradição) - o Concílio não resolve a questão.
interpretar a Escritura de modo contrário ao Ele enfatiza (2:9) que a Tradição e a Escritu­
acordo unânime dos Padres" (—»Hermenêu­ ra, "derivando ambas da mesma fonte divi­
tica, 71:88-89). Foram dadas instruções para na, fazem como que uma coisa só e tendem
a publicação da Vulgata, cujo texto devia ser ao mesmo fim", mas "a Igreja não tira só da
impresso tão corretamente quanto possível. Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de
O resultado disso foi a Vulgata Sixto-Cle- todas as coisas reveladas". Quanto à relação
mentina (—»Textos, 68:146). Quanto à atitude entre a igreja e a Escritura, o concüio (2:10)
de Trento para com as Bíblias no vernáculo, insiste que o magistério da igreja interpreta
veja R. E. McNally, TS 27 (1966) 204-27. autenticamente a palavra de Deus, mas que
este magistério não está acima da palavra de
12 (C) Vaticano I. Em sua terceira Deus, e sim lhe serve.
sessão, em 24 de abril de 1870, o Concílio
Vaticano I (1869-1879) reafirmou o decreto 14 O cap. 3 trata da inspiração e iner-
de Trento concernente à fonte de revelação rância. Quanto à inspiração ele recapitula o
(DS 1501) e, a seguir, declarou claramente ensinamento tradicional e acrescenta pou­
que a igreja considera os livros da Sagrada ca novidade. Todavia, o foco geral da Dei
Escritura como sagrados e canônicos, não Verbum sobre o papel dos autores humanos
porque ela os tenha aprovado subsequen­ contribuiu para a abordagem a posteriori pós-
temente, nem porque eles contenham re­ Vaticano II na teorização católica sobre a ins­
velação sem erro, mas justamente porque, piração, i.e., concentrar-se no que sabemos a
"tendo sido escritos pela inspiração do Es­ partir do texto, e não especular sobre o que
pírito Santo, eles têm Deus como seu autor Deus poderia ter feito (—» Inspiração, 65:3-7,
e, como tais, foram transmitidos à própria 58). Quanto à inerrância, o Vaticano II fez
igreja" (EB 77; —>Inspiração, 65:45). uma restrição importante, como indica nos­
so grifo: "[...] se deve acreditar que os livros
13 (D) Vaticano II. A Constituição da Escritura ensinam com certeza, fielmen­
Dogmática sobre a Revelação Divina (Dei te e sem erro a verdade que Deus, para nossa
Verbum), proclamada em 18 de novembro de salvação, quis que fosse consignada nas sagradas
1965, é um documento cuja atitude para com Letras" (3:11). Alguns tentaram interpretar a
o estudo moderno da Bíblia é em grande par­ frase em itálico como abrangendo tudo que
te positiva, mas cujas afirmações sobre as­ o autor humano expressou; mas os debates
suntos controversos refletem uma cuidadosa anteriores à votação mostram uma cons­
solução conciliatória, proveniente das cinco ciência da existência de erros na Bíblia (—»
revisões pelas quais o documento passou Inspiração, 65:50, 70). Assim, é apropriado
entre 1962 e 1965 (—>7 acima). Mencionamos entender a oração como especificando que
aqui apenas os pontos mais importantes re­ o ensino escriturístico é verdade sem erro
lativos ao estudo da Bíblia. O cap. 1 da cons­ na medida em que ele se conforma ao pro­
tituição expõe a revelação. Enfatiza-se que pósito salvador de Deus. A decisão acerca
deste propósito implica uma abordagem a pela Escritura; a Bíblia deve ser traduzida
posteriori na igreja, que dá atenção às formas a partir âas línguas originais e, onde isto for
literárias (como na DAS; —> 22 abaixo) e ao praticável, com a cooperação de não católi­
condicionamento histórico (—» 36 abaixo). cos (6:22); dá-se um incentivo explícito aos
biblistas para continuar seu trabalho (6:23
15 O cap 4. é dedicado ao AT, uma - importante à luz das dificuldades que
indicação do desejo da igreja de chamar a lançaram sombras sobre a pesquisa bíblica
atenção dos clérigos e dos leigos para esta entre 1958 e 1962; —» 7 acima); o estudo da
parte de sua herança tão mal conhecida en­ Escritura é a alma da teologia (6:24); o cle­
tre os cristãos na atualidade. A concepção ro deve ser bem formado na Escritura para
do AT nesta constituição é acentuadamente pregar e catequizar (6:25); os bispos têm a
cristológica (4:15 - o AT prepara para o NT; obrigação de providenciar os meios pelos
ele anuncia a vinda do reino messiânico me­ quais o povo seja instruído na Escritura,
diante profecias). No juízo de muitos, en­ tanto por meio de traduções quanto de co­
tão, o Vaticano II não dá atenção suficiente mentários. Quanto à posição do Vaticano
à importância do AT em si (—» Pensamento II sobre a tradução da Escritura, veja L. Le-
do AT, 77:176; —> Hermenêutica, 71:21). A grand, RB 64 (1967) 413-22.
exposição sobre o NT no cap. 5 diz basica­
mente respeito aos evangelhos e é extraída (A . G r illm eie r em C om m entary on the
da Instrução da PCB de 1964 (—» 35 abaixo). Documents of Vatican II [ed. II. V orgrimler; New
Indicam-se os mesmos três estágios no de­ York, 1969] 3.199-246. B aum, G., TS 28 [1967] 51­
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L oretz, O., TRev 63 [1967] 1-8. T avard, G. I I ,,JES
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3 [1966] 1-35. Z erwick, M„ VD 44 [1966] 17-42.)
dos. Reconhece-se (5:19) que os evangelhos
selecionaram, sintetizaram e-explicaram o
que Jesus fez e ensinou, mas o concílio não 17 (II) C a r ta s e n c íc lic a s .
especifica as normas para se determinar (A ) P r o v i d e n t i s s i m u s D e u s . (EB 81-134;
quanto desenvolvimento houve. A distin­ RSS, p. 1-29). Emitida por Leão XIII em 18
ção entre os apóstolos e os escritores sagra­ de novembro de 1893, esta encíclica inaugu­
dos parece favorecer a opinião moderna rou uma nova era ao apresentar um plano
de que os próprios evangelistas não foram para o estudo católico da Bíblia. Professores
testemunhas oculares apostólicas, embora adequados deveriam primeiro ministrar um
anteriormente a constituição (2:7) recorra curso sólido de introdução à Bíblia e, então,
à terminologia tradicional de "apóstolos e formar seus alunos em "um método claro
varões apostólicos" para designar os com­ e comprovado de interpretação" (EB 103­
positores do registro escrito da salvação; e 5; RSS, p. 11-12). A versão "autêntica" da
isto foi usado no passado para distinguir Vulgata deveria ser o texto bíblico usado,
entre Mateus e João ("apóstolos") e Marcos embora outras versões, assim como os mss.
e Lucas ("varões apostólicos"). mais antigos, não devessem ser negligen­
ciados (EB 106; RSS, p. 13). Um texto bíblico
16 O cap. 6 descreve o papel da Bíblia não pode ser interpretado de modo contrá­
na vida da igreja; ele fornece abundantes rio a um sentido determinado pela igreja ou
conselhos verdadeiramente pastorais. Ob­ apoiado pelo consentimento unânime dos
servemos apenas os seguintes pontos: traça- Padres (EB 108; RSS, p. 14 - para uma in­
se um paralelo estreito entre a Escritura e os terpretação correta disto, veja DAS [EB 565;
sacramentos ("A Igreja venerou sempre as RSS p. 102]). Os pesquisadores católicos
divinas Escrituras como venera o próprio continuam livres para prosseguir em seus
Corpo do Senhor" [6:21]); insiste-se que a estudos privados, especialmente das passa­
pregação deve ser alimentada e dirigida gens bíblicas difíceis. Tais estudos "podem,
na benigna providência de Deus, preparar livros sagrados (EB 257), sobre a inspiração
e conduzir à maturidade o juízo da igreja" (EB 258-59), sobre a distinção entre o Cristo
(EB 109; RSS, p. 15). Ao interpretar passa­ puramente humano da história e o Cristo
gens difíceis, os exegetas devem seguir a divino da fé (EB 260), sobre a origem e o de­
analogia da fé, i.e., não podem chegar a uma senvolvimento das Escrituras (EB 262-63) e
interpretação do significado do autor inspi­ sobre a apologética deficiente que procura
rado que estivesse em contradição direta e resolver as controvérsias sobre a religião
formal com um dogma ensinado pela igreja com base em investigações históricas e psi­
(—> Teologia paulina, 82:7). Eles devem se cológicas (DS 3499). O decreto Lamentabili,
lembrar de que a lei suprema é a doutrina uma relação de 65 proposições modernis­
católica proposta autoritativamente pela tas condenadas pela Sagrada Congregação
igreja (EB 109; RSS, p. 15). da Inquisição, foi emitido em 3 de julho de
A encíclica estimula o estudo das línguas 1907, pouco antes da publicação da Pascen­
orientais e da arte da crítica (EB 118; RSS, p. di (EB 190-256). [O leitor deve ser advertido
20). Ela também chama a atenção para os de que as proposições são condenadas no
perigos da "alta crítica" contemporânea (EB sentido defendido pelos modernistas, e o grau
119; RSS, p. 20). Ao descrever o mundo físi­ de condenação (desde herético até perigo­
co, os autores sagrados não pretendiam en­ so) não é especificado.]
sinar ciência natural de modo formal. Pelo
contrário, eles usaram termos comuns da 19 (C) Spiritus Paraclitus. (EB 440-95;
época, e os quais, em muitos casos, ainda são RSS, p. 43-79). Esta encíclica foi emitida por
usados até mesmo por cientistas eminentes. Benedito XV, no 152 centenário da morte de
Deus falou aos seres humanos da maneira São Jerônimo, em 15 de setembro de 1920.
em que eles podiam entender - uma ma­ Após um comovente tributo à vida santa e
neira á qual estavam acostumados (EB 121; aos labores bíblicos do santo, o papa com­
RSS, p. 22). Estes princípios se aplicarão às para concepções modernas com as de Jerô­
ciências cognatas, e especialmente à história nimo. Ele elogia brevemente as pessoas que
(EB 123; RSS, p. 23). (A referência à história, usam métodos críticos modernos em seu
neste contexto, suscitou alguma controvér­ estudo da Bíblia (EB 453; RSS, p. 51). La­
sia; —> 19 abaixo.). O papa Leão também fez menta que alguns estudiosos não tenham
uma descrição agora célebre da inspiração: observado as diretrizes da Providentissimus
Pelo poder sobrenatural Deus moveu e im­ Deus e dos Padres (EB 454; RSS, p. 51). Re­
peliu os autores humanos a escrever de tal gistra o ensinamento que limita a inspira­
modo - ele os assistiu, quando escreveram, ção a alguns trechos da Escritura somente
de tal modo - que eles primeiro entendes­ (EB 455; RSS, p. 52.). Ao tratar dos trechos
sem corretamente as coisas que ele ordenou, históricos da Escritura, não se pode aplicar
e somente elas, e a seguir fielmente quises­ universalmente o princípio que Leão XIII es­
sem registrar por escrito e, finalmente, ex­ tabeleceu para julgar as afirmações bíblicas
pressassem em palavra aptas e com verdade sobre questões científicas, a saber, que o au­
infalível. A inspiração, que é incompatível tor falou apenas segundo as aparências (EB
com o erro, estende-se às Escrituras canôni­ 456; RSS, p. 52). Não podemos dizer que os
cas e a todas as suas partes. (EB 125; RSS, p. escritores sagrados de acontecimentos histó­
24; —>Inspiração, 65:41,42,45). ricos ignorassem a verdade e simplesmente
adotassem e transmitissem falsas concep­
18 (B) Pascendi Dominici Gregis. ções correntes na época (EB 459; RSS, p. 53).
(EB 257-67; DS 3475-3500). Esta encíclica O exegeta deve evitar um uso fácil demais,
foi emitida em 8 de setembro de 1907 por ou mau uso, daqueles princípios que deter­
Pio X para refutar os erros dos modernis­ minam "citações implícitas" ou "narrativas
tas, p.ex.., sobre a origem e a natureza dos pseudo-históricas" ou "tipos de literatura"
(EB 461; RSS, p. 54). Como insistiu Jerôni- RSS, p. 94; —» Hermenêutica, 71:78-79). Os Pa­
mo, toda interpretação bíblica se baseia no dres da Igreja deveriam ser estudados mais
sentido literal, e não se deve pensar que não assiduamente (EB 554; RSS, p. 95).
haja sentido literal meramente porque algo é
dito metaforicamente (EB 485; RSS, p. 67 [—» 22 Em particular, os intérpretes bí­
Hermenêutica, 71:9]). O objetivo do estudo blicos, com cuidado e sem negligenciar a
da Bíblia é aprender a perfeição espiritual, pesquisa recente, deveriam se esforçar para
defender a fé e pregar a palavra de Deus de determinar o caráter e as circunstâncias do
modo frutífero (EB 482-84; RSS, p. 65-66). escritor sagrado, a época em que ele viveu,
suas fontes escritas ou orais e as formas de
20 (D) Divino Afflante Spiritu. (EB expressão que empregou (EB 557; RSS, p.
538-69; RSS, pp. 80-107). Publicada por Pio 97). A história, a arqueologia e outras ciên­
XII em 30 de setembro de 1943, a DAS co­ cias deveriam ser empregadas a fim de se en­
memorava o quinquagésimo aniversário tender mais perfeitamente os modos antigos
da Providentissimus Deus "ao confirmar e de escrita (EB 558; RSS, p. 97); e o estudo das
inculcar quanto aquele nosso predecessor formas literárias não pode ser negligenciado
sapientemente ordenou [...] e ordenar o que sem sério prejuízo para a exegese católica
os tempos atuais parecem exigir [...]" (EB (EB 560; RSS, p. 99). Esta ênfase no reconhe­
538; RSS, p. 81). Refletindo a história com­ cimento de diferentes tipos de literatura ou
plexa da exegese naqueles 50 anos (—> 4, 5 diferentes formas literárias na Bíblia prova­
acima), a DAS, de fato, completa muitos en­ velmente foi a maior contribuição da DAS,
sinamentos da Providentissimus Deus, p.ex., pois ela ofereceu ao pesquisador católico
enquanto em relação à Vulgata a Providen­ uma maneira inteligente e honesta de enca­
tissimus permitiu aos pesquisadores presta­ rar os problemas históricos óbvios presentes
rem atenção aos textos das Escrituras nas na Bíblia. No passado, um número excessivo
línguas originais, a DAS ordena que eles de livros da Bíblia foram considerados como
expliquem os textos originais, a partir dos história no sentido estrito do termo; agora se
quais novas traduções deveriam ser feitas. podia mostrar que muitos desses livros não
Há uma mudança de ênfase semelhante em eram história de forma alguma, ou eram his­
questões como a relação entre o sentido lite­ tória num sentido mais amplo e menos téc­
ral e o espiritual das Escrituras, a extensão nico (—> 14 acima; Hermenêutica, 71:23-26).
vinculante do consentimento unânime dos
Padres e a interpretação de fatos históricos 23 A DAS instou os exegetas católicos
em termos de formas literárias. (Levie, Word a enfrentar problemas difíceis, até então não
of God 139-44). A DAS ensina a grande im­ solucionados, e a chegar a soluções que es­
portância da crítica textual e especifica que tejam em pleno acordo com a doutrina da
a "autenticidade" da Vulgata (Trento; —>11 igreja, bem como em harmonia com as con­
acima) é primordialmente jurídica (livre de clusões indubitáveis das ciências profanas
erro em questões de fé e moral), e não críti­ (EB 564; RSS, p. 101). Esta foi uma mudança
ca (sempre uma tradução acurada). reanimadora da atmosfera após a crise mo­
dernista, quando os exegetas católicos pro­
21 O exegeta deve se preocupar princi­ curavam deliberadamente áreas "seguras"
palmente com o sentido literal da Escritura para sua pesquisa bíblica. O papa afirma que
(EB 550; RSS, p. 92); também a doutrina teo­ só há uns poucos textos cujo sentido foi de­
lógica (fé e moral) dos livros ou textos indivi­ terminado pela autoridade da igreja ou em
duais deve ser cuidadosamente apresentada relação aos quais o ensino dos Santos Padres
(EB 550; RSS, p. 93). O exegeta deve procurar é unânime (EB 565; RSS, p. 102). Esta afirma­
e expor o sentido espiritual, contanto que ele ção contraria a frequente compreensão errô­
seja claramente tencionado por Deus (EB 552; nea de que os católicos não têm liberdade na
interpretação da Escritura. Os efeitos do in­ 63-65; C B Q 18 [1956] 23-29; RSS, p. 175 - ob­
centivo positivo dado aos biblistas pela DAS serve que o último omite por engano a im­
(EB 565; RSS, p. 102) foram mencionados aci­ portante cláusula "com plena liberdade":
ma (—>6 acima). plena libertate; in aller Freiheit). Diz Miller:
"Na medida em que estes decretos [antigos
24 (E) H u m a n i G e n e r i s . (EB 611-20; da PCB] proponham concepções que não
RSS, p. 113-15). Publicada por Pio XII em 12 estejam nem imediata nem mediatamen­
de agosto de 1950, ela instrui os exegetas so­ te ligados às verdades da fé e da moral, o
bre a evolução, o poligenismo e as narrativas intérprete da Sagrada Escritura pode em­
históricas do AT. Concede-se liberdade para preender suas investigações científicas com
discutir a evolução do corpo humano, mas plena liberdade e aceitar os resultados des­
não se deveria presumir que a evolução seja sas investigações, contanto que sempre res­
completamente certa ou provada. Quanto peite a autoridade magisterial da igreja."
ao poligenismo, "não se vê claramente de Os ultraconservadores tentaram salvar
que modo tal afirmação pode harmonizar- a autoridade dos antigos decretos da PCB
se" com o que foi ensinado sobre o pecado citando a opinião de J. E. Steinmueller (The
original, a saber, que ele procede de um Sword ofthe Spirit [Waco, 1977] 7) de que este
pecado realmente praticado por um Adão esclarecimento era inválido e não autorizado,
individual. [Observe, contudo, que o papa porque ele ouviu dizer que Miller e Kleinhans
não condena de modo absoluto a teoria do foram repreendidos pelo Santo Ofício por
poligenismo.] O tipo de história popular que causa disso (mas poupados pela intervenção
se encontra no AT ainda desfrutava do caris­ do cardeal Tisserant). Uma lembrança não
ma da inspiração e não pode ser considerada documentada publicada muito depois dificil­
em pé de igualdade com mitos que são mais mente constitui prova, especialmente porque
produto de uma imaginação extravagante também havia cesmas em Roma em outra di­
do que de uma busca da verdade (—> Pen­ reção: Pio XII propôs revogar os decretos da
samento do AT, 77:31). E digno de nota que PCB oficialmente, mas A. Bea o persuadiu de
nesta encíclica predominantemente admoes- que o esclarecimento de Miller-Kleinhans era
tatória não existe crítica aos biblistas. Apa­ suficiente. O fato certo é que o esclarecimento
rentemente Pio XII permaneceu firme em nunca foi retirado e Roma agiu de modo con­
sua fé na crítica moderna até sua morte. sistente no espírito dele, nunca corrigindo as
centenas de estudiosos católicos que usaram
25 (III) D o cu m e n to s das c o m is s õ e s a "plena liberdade" para contestar quase cada
ro m a n a s. um dos antigos decretos da PCB. No resumo
(A ) P r i m e i r o s d e c r e t o s d a P C B . Os de­abaixo, serão usados parênteses para nossas
cretos publicados entre 1905 e 1915 e em explicações.
1933 serão brevemente resumidos abaixo;
esta é uma tarefa difícil porque os decre­ 26 (a) Historicidade geral.
tos foram emitidos na forma de resposta (i) Contra um uso livre demais da teoria
a questões intrincadas (frequentemente da citação implícita, i.e., de que o autor bíbli­
numa formulação negativa). Muitos deles co está citando implicitamente uma fonte
têm hoje pouco mais que interesse histó­ não inspirada cujas conclusões ele não as­
rico, sendo implicitamente revogados por sume (13 de fevereiro de 1905; EB 160; RSS,
decretos posteriores, pela DAS e pelo Vati­ p. 117).
cano II. Eles devem ser avaliados segundo o (ii) Contra um recurso excessivamente
esclarecimento de 1955 publicado em latim livre à teoria de que um livro considerado
e alemão por A. Miller e A. Kleinhans, se­ histórico não é realmente histórico, mas só
cretário e secretário assistente da PCB (Ben- tem a aparência de história (23 de junho de
Mon 31 [ 1955] 49-50; Antonianum 30 [1955] 1905; EB 161; RSS, p. 117-18).
Tl (b) Antigo Testamento. contemporâneos, mas também de coisas a
(i) O Pentateuco. Moisés é substancial­ serem cumpridas depois de muitas eras.
mente o autor, e há evidências insuficientes As evidências de que o livro foi escrito por
de que ele foi compilado a partir de fontes diversos autores [—» Deuteroisaías, 21:2-4]
posteriores a Moisés. Moisés pode ter re­ que viveram em séculos diferentes são in­
corrido a fontes existentes; e, como o autor suficientes (28 de junho de 1908; EB 276-80;
principal, pode ter encarregado da compo­ RSS, p. 120-22).
sição outros que escreveram de acordo com (iv) Salmos. Davi não é o único autor,
a vontade dele. Pode ter havido modifica­ mas ele é o autor dos seguintes Salmos: 2,
ções subsequentes, acréscimos inspirados, 16 (em latim 15), 18 (17), 32 (31), 69 (68),
modernizações da linguagem e até mesmo 110 (109). Os títulos dos Salmos represen­
erros de escribas ao copiá-lo (27 de junho tam uma tradição judaica muito antiga, não
de 1906; EB 181-84; RSS, p. 118-19 [-> Pen­ devendo ser questionados sem uma razão
tateuco, 1:5-8].) sólida. Os Salmos foram divididos para fins
(ii) Gênesis. Defende-se o caráter histórico litúrgicos, etc.; outros consistem de partes
literal.de Gn 1-3, especialmente com relação separadas unidas em uma só; outros foram
às questões religiosas fundamentais. Estes levemente modificados por eliminação ou
capítulos não são narrativas ficcionais, nem acréscimo, p.ex., 51 (50). Não há prova de
fábulas purificadas derivadas de mitologias que muitos Salmos tenham sido compostos
pagãs, nem alegorias destituídas de fun­ após o período de Esdras-Neemias [cerca de
damento na realidade objetiva; tampouco 400], Alguns Salmos são proféticos e messi­
contêm lendas edificantes, em parte histó­ ânicos, predizendo a vinda e a trajetória do
ricas e em parte ficcionais. Todavia, deve-se redentor futuro (l2 de maio de 1910; EB 332­
reconhecer a existência de metáfora, lingua­ 39; RSS, p. 124-26 [-> Salmos, 34:4,10]).
gem figurada e ingenuidade científica do
autor. A palavra yôm [Gn 1,5.8, etc.] pode 28 (c) Novo Testamento.
significar um dia natural ou um espaço de (i) Mateus. O apóstolo Mateus escreveu
tempo. Em particular, a PCB insistiu no sig­ seu evangelho antes dos outros evangelhos
nificado literal e histórico de passagens que e antes da destruição de Jerusalém (70 d.C.),
tratam do seguinte: (1) a criação de todas e não necessariamente após a chegada de
as coisas por Deus no início do tempo; (2) a Paulo em Roma [em cerca de 61; —>Mateus,
criação especial do homem; (3) a formação 42:2-4], Foi escrito originalmente no dialeto
da primeira mulher a partir do homem; (4) usado pelos judeus na Palestina [aramaico
a unidade do gênero humano; (5) a felicida­ ou hebraico], e o Evangelho de Mateus canô­
de original de nossos primeiros pais num nico em grego é substancialmente idêntico
estado de justiça, integridade e imortalida­ ao evangelho original; não é simplesmente
de; (6) a ordem divina dada ao homem para uma coletânea de ditos e discursos feita por
provar sua obediência; (7) a transgressão um autor anônimo. O reconhecido propósi­
desta ordem por instigação do diabo na for­ to dogmático e apologético de Mateus e sua
ma de uma serpente; (8) a queda de nossos ocasional falta de ordem cronológica não
primeiros pais de seu estado primitivo de nos permitem considerar sua narrativa das
inocência; (9) a promessa de um redentor ações e palavras de Cristo como não verda­
futuro (30 de junho de 1909; EB 324-31; RSS, deira, ou achar que esta narrativa passou
p. 122-24 [—» Gênesis, 2:4-5]). por mudanças sob a influência do AT ou
(iii) Isaías. O livro contém profecias re­ do desenvolvimento da igreja. Enfatiza-se a
ais, não apenas vaticinia ex eventu [vaticí­ autenticidade histórica de várias passagens
nios feitos depois dos acontecimentos] ou peculiares de Mt; caps. 1-2; 14,33; 16,17-19;
palpites perspicazes; os profetas falaram 28,19-20 (19 de junho de 1911; EB 383-89;
não apenas do futuro imediato a ouvintes RSS, p. 126-28). Mateus 16,26 (Lc 9,25) se
refere, num sentido literal, à vida eterna da abrupto de Atos não precisa significar que
alma e não apenas à vida temporal (1Qde o autor tenha escrito um outro volume ou
julho de 1933; EB 514; RSS, p. 138). pretendesse fazê-lo. Lucas possuía fon­
(ii) Marcos, Lucas. A ordem cronológica tes confiáveis e as usou correta, honesta e
dos sinóticos é: Mt original, Mc, Lc - em­ fielmente; portanto, podemos reivindicar
bora o Mt em grego talvez seja posterior a autoridade histórica completa para Lu­
Mc e a Lc. Marcos, que escreve de acordo cas. A autoridade histórica de Atos não é
com a pregação de Pedro, e Lucas, que es­ enfraquecida pelo fato de que ele contém
creve de acordo com a pregação de Paulo, acontecimentos sobrenaturais, discursos
são realmente os autores de Mc e de Lc, que que alguns consideram inventados e apa­
foram escritos antes da destruição de Jeru­ rentes discrepâncias (12 de junho de 1913;
salém [70 d.C.]. Lucas compôs o evangelho EB 410-6; RSS, p. 132-34).
antes de Atos, o qual foi concluído perto (v) Escritos paulinos. As Pastorais [l-2Tm,
do fim da prisão de Paulo pelos romanos Tt], sempre consideradas genuínas e canô­
[cerca de 63; —>Canonicidade, 66:58,66]. Os nicas, foram escritas pelo próprio Paulo en­
evangelistas tiveram à sua disposição fon­ tre sua primeira prisão e sua morte [cerca
tes dignas de confiança, orais ou escritas; e de 63-67], A genuinidade dessas cartas não
suas narrativas reivindicam pleno crédito é enfraquecida por argumentos, nem pela
histórico. A PCB insiste na inspiração de "hipótese dos fragmentos", segundo a qual
certas passagens controversas e considera elas foram juntadas mais tarde a partir de
não convincentes os argumentos propostos fragmentos paulinos com acréscimos consi­
contra sua genuinidade e autoria: Mc 16,9­ deráveis (12 de junho de 1913; EB 407-10;
20; Lc 1-2; e 22,43-44. O Magnificat [Lc 1,46­ RSS, pp. 134-35 [—> Pastorais, 56:6-8]). He­
55] deve ser atribuído a Maria, não a Isabel, breus é canônica e genuinamente pauli­
como querem algumas poucas testemunhas na; contudo, deixa-se em aberto a questão
textuais. É concedida liberdade aos biblis­ quanto a se Paulo a produziu como ela é
tas católicos na discussão do problema si- agora (24 de junho de 1914; EB 411-13; RSS,
nótico, mas eles não são livres para defen­ p. 135-36 [—> Hebreus, 60:2-3]). Os proble­
der a teoria das duas fontes, segundo a qual mas relativos à parúsia não são resolvidos
Mt e Lc dependeram de Mc e dos "Ditos do mediante a afirmação de que, às vezes, os
Senhor" ["Q"] (26 de junho de 1912; EB 390­ autores inspirados expressaram suas pró­
400; RSS, p. 129-32). prias concepções humanas, possivelmente
(iii) João. Por várias razões apresentadas, errôneas. Paulo escreveu em harmonia com
o apóstolo João deve ser reconhecido como a ignorância da época da parúsia proclama­
o autor [—» João, 61:12]. As diferenças entre da pelo próprio Cristo. 1 Tessalonicenses
João e os sinóticos estão abertas a soluções ra­ 4,15-16 não implica necessariamente que
zoáveis. Os fatos narrados em Jo não foram Paulo pensasse que ele mesmo e seus lei­
inventados, no todo ou em parte, para servir tores sobreviveriam para se encontrar com
como alegorias ou símbolos doutrinários; e os Cristo (18 de junho de 1915; EB 414-16; RSS,
discursos de Jesus são realmente dele e não p. 136-37 [—»Teologia paulina, 82:45]).
composições teológicas do evangelista (29 de
maio de 1907; EB 187-89; RSS, p. 119-20). 29 (B ) D o cu m e n to s m a is re ce n te s.
(iv) Atos. Lucas é o único autor, como Estes refletem a atitude cada vez mais pro­
é confirmado por muitos argumentos tra­ gressista para com o estudo católico da Bí­
dicionais e críticos, inclusive as passagens blia a partir de Pio XII.
que usam "nós" [—» Atos, 44:2-3]. A com­ (a) Carta da PCB para a hierarquia italiana
posição não pode ser situada muito mais (20 de agosto de 1941; EB 522-33; RSS, p. 138­
tarde do que o final do primeiro cativeiro 47). Uma resposta a um opúsculo rancoroso
de Paulo em Roma [cerca de 63], e o fim contra o estudo científico da Bíblia escrito
(anonimamente) pelo Pe. D. Ruotolo (Levie, epigrafia) para descobrir melhor como os
Bible 133), que minimizava o sentido literal povos orientais pensavam e expressavam
em favor de um sentido espiritual fantasioso suas ideias, bem como seu próprio conceito
e exagerava a importância da Vulgata contra de pensamento histórico.
a crítica textual e o estudo das línguas orien­
tais. Ao corrigir estes erros, a PCB preanun­ 32 (d) Declaração da PCB sobre o ensino
ciou a DAS (—>20-22 acima). da Escritura nos seminários (13 de maio de
1950; EB 582-619; RSS, pp. 154-67). Foram
30 (b) Declaração da PCB sobre as tradu­ enfatizados os seguintes pontos: (1) a dife­
ções bíblicas (22 de agosto de 1943; EB 535­ rença entre a formação de biblistas e a dos
37; RSS, p. 148-49). Este decreto estabeleceu futuros pastores do rebanho do Senhor (EB
normas para as traduções a partir das lín­ 583); (2) o professor de Escritura deve gozar
guas originais que os bispos poderiam re­ de liberdade para dedicar-se inteiramente
comendar aos fiéis; mas a versão a ser lida a seu trabalho e não ser compelido a ensi­
na missa deve estar em conformidade com nar outras matérias importantes ao mesmo
a Vulgata. (Agora, como permitiu o Vatica­ tempo (EB 586-90); (3) o método apropriado
no II, as versões aprovadas para a missa são de ensinar matérias bíblicas nos seminários
traduzidas a partir das línguas originais.) e colégios religiosos. Os alunos devem ser
ensinados de um modo estritamente cien­
31 (c) Resposta da PCB para o cardeal tífico e ser familiarizados com problemas
Suhard de Paris (16 de janeiro de 1948; EB bíblicos atuais (EB 593). As dificuldades e
577-81; RSS, p. 150-53). Quanto ao Penta­ obscuridades no AT devem ser enfrentadas
teuco e a Gn 1-11: (1) Opiniões anteriores seriamente e soluções racionais devem ser
da igreja sobre a autoria e historicidade dadas (EB 600).
(EB 161, 181-84, 324-31) não estão de modo
algum em oposição ao exame adicional, 33 (e) Declaração da PCB sobre os encon­
verdadeiramente científico, dos problemas tros para o estudo da Bíblia (15 de dezembro
conforme os resultados obtidos durante os de 1955; EB 622-33; RSS, p. 168-72). Devem-
últimos 40 anos. Consequentemente, não se encorajar as associações bíblicas; deveria
há necessidade de promulgar novos decre­ haver encontros, "Dias e Semanas da Es­
tos. Ninguém hoje duvida da existência de critura"; as matérias devem ser escolhidas
fontes escritas ou de tradições orais no Pen­ adequadamente. Enfatiza-se a jurisdição do
tateuco ou se recusa a admitir um desenvol­ superior eclesiástico competente sobre to­
vimento progressivo das leis mosaicas, um das essas reuniões (EB 627-30), e os encon­
desenvolvimento que também se manifesta tros técnicos e científicos não deveriam es­
nas narrativas históricas. (2) Os gêneros li­ tar abertos a pessoas de fora que não estão
terários de Gn 1-11 não correspondem a ne­ suficientemente preparadas para avaliar e
nhuma de nossas categorias clássicas e não entender o que está sendo dito (EB 631).
podem ser julgadas à luz dos estilos literá­
rios grego-romanos ou modernos. Embora 34 (f) Monitum do Santo Ofício sobre a his­
não contenham história em nossa acepção toricidade (20 de junho de 1961; A AS 35 [1961]
moderna, essas narrativas históricas rela­ 507; RSS, p. 174). Com a concordância dos
tam, em linguagem simples e figurada, as cardeais da PCB, o Santo Ofício emitiu uma
verdades fundamentais pressupostas para advertência a todos os que trabalham com a
a economia da salvação, bem como a des­ Escritura, quer oralmente, quer por escrito.
crição popular sobre a origem do gênero O alvo da advertência eram opiniões e afir­
humano e do povo eleito (Gn 2,4-18). A pri­ mações que questionavam "a genuína" (ger­
meira tarefa do exegeta é examinar os dados mana) verdade histórica e objetiva da Sagrada
das várias ciências (paleontologia, história, Escritura", não apenas do AT, mas também
do NT, mesmo até com relação às palavras transmitir a seus ouvintes o que realmente
e ações de Jesus. O documento aconselha foi dito e feito pelo Senhor. As formas de
prudência e reverência, pois opiniões como se expressar com as quais esses pregadores
estas criam inquietações tato para os pasto­ proclamaram a Cristo devem ser distingui­
res quanto para os fiéis. (J. A. Fitzmyer, TS das e avaliadas adequadamente: catequese,
22 [1961] 443-44, comenta este documento, o relatos, testemunhos, hinos, doxologias,
qual, sendo quase totalmente negativo, tem­ orações, etc. - as formas literárias em uso
porariamente lançou uma nuvem escura no na época. (3) Os autores sagrados registraram
futuro da crítica moderna na igreja.) por escrito em quatro evangelhos esta ins­
trução primitiva que tinha sido transmitido
35 (g) Declaração da PCB sobre historici­ oralmente no início e a seguir em escritos
dade dos evangelhos (21 de abril de 1964; em pré-evangélicos. Das muitas coisas trans­
latim e inglês em CBQ 26 [1964[ 299-312; mitidas, os evangelistas "selecionaram al­
AAS 56 [1964] 712-18; comentário por J. A. gumas, reduziram outras a uma síntese, e
Fitzmyer, TS 25 [1964] 386-408). Esta "Ins­ explicaram ainda outras, levando em con­
trução sobre a verdade histórica dos evan­ ta a situação das igrejas". Eles adaptaram
gelhos" começa com um elogio aos biblistas o que narravam à situação de seus leitores
como "filhos fiéis da igreja", e repete a or­ e ao propósito que tinham em mente. Esta
dem de Pio XII para que eles sejam tratados adaptação afetou a sequência do que é nar­
com caridade pelos outros católicos. (Isto rado, mas a verdade não é afetada de modo
foi significativo à luz dos difíceis anos entre algum simplesmente porque as palavras e
1958 e 1962 e do Monitum acima menciona­ ações do Senhor sejam narradas numa or­
do). As instruções da DAS são reiteradas, dem diferente nos diferentes evangelhos.
especialmente as que enfatizam o conceito E, embora os evangelistas às vezes expres­
das diferentes gêneros literários. No "m é­ sem os ditos de Jesus não literalmente, mas
todo da crítica das formas" há elementos de modo diferente, eles, não obstante, man­
razoáveis; mas muitas vezes existem prin­ têm o sentido desses ditos. A partir de um
cípios filosóficos e teológicos inadmissíveis estudo desses três estágios fica evidente
misturados com este método, às vezes cor­ que a doutrina e a vida de Jesus não foram
rompendo o método em si ou, pelo menos, registradas meramente com o propósito de
as conclusões extraídas a partir dele. serem lembradas, mas foram pregadas para
Para julgar apropriadamente, o intérpre­ oferecer à igreja uma base de fé e moral.
te deve prestar atenção a três estágios pelos O conselho ao exegeta termina com um
quais a doutrina e a vida de Jesus nos foram lembrete de que ele deve exercitar sua habili­
transmitidas: (1) Jesus explicou sua doutri­ dade e seu juízo na exegese, mas sempre com a
na, adaptando-se à mentalidade de seus disposição de obedecer ao Magistério (—>Her­
ouvintes. Seus discípulos escolhidos viram menêutica, 71:80-87). A seguir, curtos parágra­
seus atos, ouviram suas palavras e foram, fos de recomendação são dirigidos àqueles que
assim, equipados para serem testemunhas lecionam em seminários, àqueles que pregam
de sua vida e doutrina. (2) Os apóstolos, ao povo e àqueles que escrevem para os fiéis.
após a ressurreição de Jesus, perceberam O povo deveria receber todos os benefícios da
claramente sua divindade e proclamaram ciência bíblica moderna, mas não deveria ser
a morte e ressurreição do Senhor a outros. exposto a novidades insuficientemente estabe­
Ao pregar e explicar a vida e as palavras de lecidas ou a observações apressadas de inova­
Jesus, eles levaram em conta as necessida­ dores (—>Hermenêutica, 71:90-92).
des e circunstâncias de seus ouvintes. A fé
dos apóstolos não deformou a mensagem; 36 (h) Mysterium Ecclesiae (24 de junho
mas, antes, com a compreensão mais plena de 1973; AAS 65 [1973] 394-408; R. E. Brown,
de que eles gozavam agora, conseguiram Biblical Reflections on Crises Facing the Chur-
ch [New York, 1975] 116-17). Publicado a PCB como órgão consultivo para a Con­
pela Congregação para a Doutrina da Fé gregação Doutrinária. Os membros seriam
(Santo Ofício) para refutar a contestação 20 biblistas (designados pelo papa por um
da infalibilidade por H. Küng, ele estende período de cinco anos) "notáveis por sua
para as formulações dogmáticas a ideia do erudição, prudência e respeito católico para
condicionamento histórico que tanto tinha com o Magistério da igreja", com um secre­
marcado o estudo da Bíblia. Embora insis­ tário, encontros anuais para discutir temas
ta na capacidade da igreja de ensinar infa­ específicos sob a orientação do prefeito car­
livelmente, reconhece que, ao expressar a deal da Congregação Doutrinária. Foram
revelação, também "derivam ainda [...] di­ incluídos: secretários A. Descamps e H.
ficuldades do condicionamento histórico": Cazelles; membros P. Benoit, J. Dupont, C.
(1) O significado dos pronunciamentos de Martini, D. Stanley e os norte-americanos R.
fé "depende em parte da peculiar força ex­ E. Brown (1972-78), J. D. Quinn (1978-84), J.
pressiva da língua usada em determinado A. Fitzmyer (1984-89). Os norte-americanos
tempo". (2) "[...] pode suceder também que ultraconservadores criticaram a PCB por
uma certa verdade dogmática, num pri­ ser dominada por modernistas!
meiro momento, seja expressa de modo in­
completo, se bem que nunca falso; e depois 38 (j) Informe da PCB sobre a ordenação
[...] venha a ser mais plena e perfeitamente sacerdotal das mulheres. Em abril de 1976, a
significada." (3) Os pronunciamentos geral­ PCB reformada concluiu, por incumbência,
mente têm uma intenção limitada de "diri­ um estudo da Bíblia sobre se as mulheres
mir controvérsias ou de extirpar erros". (4) poderiam ser ordenadas ao ministério sa­
As verdades que são ensinadas, "embo­ cerdotal da eucaristia. Os resultados confi­
ra se distingam das concepções mutáveis denciais foram "vazados" ilegalmente para
próprias de uma época particular", são às a imprensa (texto e comentário, veja Wo­
vezes enunciadas pelo Magistério "numa men Priests [ed. L. e A. Swidler; New York,
terminologia que se ressente do influxo de 1977] 25-34, 338-46). Segundo as notícias,
tais concepções". Consequentemente, para os membros da PCB votaram por 17 a 0 no
apresentar mais claramente a mesma ver­ sentido de que o NT não resolve a questão
dade, o Magistério, aproveitando-se do de­ de um modo claro; por 12 a 5 no sentido de
bate teológico, pode reformulá-la. que nem a Escritura nem o plano de Cristo,
por si sós, excluem a possibilidade da or­
37 (i) Declarações da PCB entre 1965­ denação. A documentação subjacente aos
1975. A historicidade dos evangelhos (1964; argumentos não foi publicada.
—>35 acima) foi a última declaração da PCB
estabelecida em 1902 (cardeais como mem­ 39 (k) Informe da PCB sobre questões
bros; decretos que obrigavam os católicos à cristológicas. Em abril de 1983, a PCB con­
aceitação interna). Em 1966-1967, o "proble­ cluiu um estudo sobre a cristologia bíblica,
ma singularmente difícil" da historicidade que foi publicado (legalmente desta vez)
das narrativas da infância de Jesus (Mt 1-2; em latim e francês; veja Bible et Christolo­
Lc 1-2) foi submetido por escrito aos con­ gie (ed. H. Cazelles; Paris, 1984). Tradução
sultores especialistas. (A declaração sobre e comentário em inglês de J. A. Fitzmyer,
a historicidade de 1964 dizia respeito ao Scripture and Christology (New York, 1986).
ministério pós-batismal registrado nos evan­ Longa e irregular, a Parte I examina 11
gelhos, quando Jesus falou, agiu e teve se­ abordagens à cristologia, com as vantagens
guidores.). Não se chegou a nenhuma deci­ e riscos de cada uma; a Parte II apresenta
são nem se produziu nenhum documento. um esboço global do testemunho bíblico de
Em 27 de junho de 1971, Paulo VI ("Sedula Cristo. Evitando a harmonização, o docu­
cura", AAS 63 [1971] 665-69) reorganizou mento reconhece a existência de diferentes
cristologias no NT (1.2.7.2; 1.2.10), que in­ forte ataque contra o fundamentalismo:
terpreta geralmente de acordo com o mé­ "Deve-se dar atenção aos gêneros literários
todo histórico-crítico; p.ex., os Evangelhos dos vários livros bíblicos a fim de se deter­
não são necessariamente históricos nos mí­ minar a intenção dos escritores sagrados.
nimos detalhes, tampouco os ditos de Jesus E é extremamente útil, às vezes crucial, es­
estão preservados literalmente (1.2.1.2); a tar consciente da situação pessoal do escri­
ressurreição de Jesus "não pode, por sua tor bíblico, das circunstâncias da cultura, do
própria natureza, ser provada empirica­ tempo, da língua, etc., que influenciaram o
mente" (1.2.6.2); "é legítimo começar uma modo como a mensagem foi apresentada
investigação histórica acerca de Jesus con­ [...]. Desta maneira, é possível evitar um
siderando-o um ser realmente humano [...] fundamentalismo estreito que distorce toda
como judeu" (1.2.7.3). a verdade."

40 (IV) Alocuções papais recen­ 41 Uma indicação final das tendências


tes. Paulo VI, A especialistas em Antigo Tes­ atuais vai além das alocuções papais. Em
tamento, 19 de abril de 1968 (AAS 60 [1968] 27 de janeiro de 1988, em Nova Iorque, o
262-65; MOCT 991-1002): judeus, cristãos e cardeal Joseph Ratzinger (hoje: Papa Bento
católicos "podem juntos estudar e venerar XVI), prefeito da Sagrada Congregação para
estes livros santos" (992). "E a honra de vo­ a Doutrina da Fé, fez uma palestra intitula­
cês que se dediquem de modo profissional da "Interpretação bíblica em crise", na qual
e científico a empregar todos os meios nos criticou algumas das práticas da exegese his-
campos literário, histórico e arqueológico" tórico-crítica (hipóteses infundadas, exegese
(993). Paulo VI, Ano Internacional do Livro da de supostas fontes e não do texto existente) e
Biblioteca Vaticana, 25 de março de 1972 (AAS algumas pressuposições filosóficas subjacen­
64 [1972] 303-7; MOCT 1028-42): "A Bíblia tes a ela (especificamente as de Bultmann e
não é apenas um livro; ela é uma biblioteca Dibelius). Ele rejeitou, contudo, o fundamen­
em si mesma, um conjunto de livros de to­ talismo ou o superliteralismo como alternati­
dos os diferentes gêneros literários" (1037). va; na coletiva de imprensa que acompanhou
Paulo VI, À PCB, 14 de março de 1974 (AAS a conferência, ele elogiou os biblistas críticos
66 [1974] 235-41; MOCT 1046-69): "O NT to­ moderados e, especificamente, resistiu a
mou forma dentro da comunidade do povo um apelo para retornar às atitudes antimo-
de Deus [...]. A igreja foi de algum modo dernistas como corretivo. Observou as con­
a matriz da Escritura Sagrada" (1048). tribuições duradouras da exegese moderna
"Levem em consideração as explorações que devem ser preservadas, tanto quanto as
científicas sobre a história das tradições, da exegese patrística. Pediu aos exegetas que
das formas e da redação (Traditions-Form- pratiquem a autocrítica e desenvolvam uma
-Redaktionsgeschichte) que incentivamos exegese que combine o melhor do passado
- com as necessárias correções metodoló­ com um contexto eclesiástico mais pleno e
gicas" (1050). "Pluralidade de teologias [...] produza frutos teológicos. Para o texto da pa­
os modos variados, mas complementares, lestra, veja Biblical Interpretation in Crisis: The
pelos quais os temas fundamentais do NT Ratzinger Conference on the Bible and the Chur­
são apresentados" (1051). Crítica de uma ch (Encounter Series 9; Grand Rapids, 1989).
exegese liberal que nega o sobrenatural; Para uma crítica do racionalismo e uma ên­
contra a absolutização de uma única me­ fase exagerada nas fontes na busca crítica do
todologia exegética; o biblista deve servir sentido literal, —> Hermenêutica, 71:17, 27;
à tarefa ecumênica e missionária da igreja para a necessidade de ir além do sentido li­
(1056,1057,1063) João Paulo II, À Federação teral detectado pela crítica histórica para um
Católica Mundial do Apostolado Bíblico, 7 de sentido mais-que-literal para o qual a exege­
abril de 1986 (AAS 78 [1986] 1217-19): Um se patrística contribuiu, —» 71:30ss.