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O Problema Sinótico
Frans Neirynck

BIBLIOGRAFIA
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Synopsis of the Four Gospels in Greek (Macon, 1983). " / " , como, por exemplo, 8,56/9,1 significa "entre"
S w a n s o n , R. J., The Horizontal Line Synopsis of the os dois versículos).

4 ESBOÇO
(I) A sequência dos evangelhos sinóticos (A) A metodologia da crítica das fontes (§
(A) A sequência dos episódios na tradição 21-23)
tripla (§ 6) (B) Concordâncias secundárias (§ 24-26)
(B) A sequência de Marcos em Mateus (§ (C) Dualidade em Marcos (§ 27)
7-8) (D) Marcos e a fonte Q (§ 28-29)
(C) A sequência de M arcos em Lucas (§ (IV) Soluções alternativas
9-11) (A) A teoria das duas fontes modificada (§
(D) O argumento a partir da sequência (§ 12) 30-31)
(II) A fonte Q (B) A dependência lucana de Mateus (§
(A ) A existência da fonte Q (§ 13) 32-33)
(B) A tabela sinótica da tradição dupla (§ 14) (C) A hipótese de Griesbach ou dos dois
(C) O uso da fonte Q por Mateus (§ 15-17) evangelhos (§ 34)
(D) Duplicados da(s) fonte(s) (§ 18-19) (D) João e os sinóticos (§ 35)
(E) O uso da fonte Q por Lucas (§ 20) (E) Os evangelhos apócrifos (§ 36)
(III) A originalidade de Marcos (F) A continuação da pesquisa (§ 37)
5 Os três prim eiros evangelhos do (A) A sequência dos episódios na tra­
cânon (cham ados "sin ó tico s"), M ateus, dição tripla. O material de Marcos aparece,
Marcos e Lucas, têm muito em comum e em grande medida, na mesma sequência nos
são significativamente diferentes de João. As três evangelhos sinóticos. O esboço geral de
semelhanças e diferenças entre os Sinóticos Marcos pode ser reconhecido em Mateus e
dão origem à questão de sua interrelação, Lucas:
ao chamado problema sinótico. A hipótese
"agostiniana" supunha que a sequência da M ateus M arcos Lucas
composição fosse Mateus, Marcos, Lucas. Preliminares 3,1-4,11 1,1-13 3,1-4,13
Durante certo tempo, esta teoria foi substituí­ Ministério na Galileia 4,12-18,35 1,14-9,50 4,14-9,50
V iagem a Jerusalém 19-20 10 9,51-19,28
da como teoria dominante pela hipótese de
Ministério em
Griesbach (Mateus, Lucas, Marcos). A prio­ Jerusalém 21-25 11-13 19,29-21,38
ridade de Marcos foi sugerida pela primeira Paixão 26-27 14-15 22-23
vez no final do séc. XVIII como uma alter­ Ressurreição 28 16 24
nativa à concepção tradicional da prioridade
mateana e provocou debates decisivos entre Quanto às diferenças na sequência, as
1830 e 1860. Em consequência, a hipótese da principais soluções crítico-literárias para o
prioridade de Marcos se tornou a opinião problema sinótico (a prioridade de Mar­
predominante entre os estudiosos. cos, a hipótese agostiniana e a hipótese de
Marcos contém 661 versículos, dos quais Griesbach) concordam neste ponto: onde
aproximadamente 80% são reproduzidos quer que Mateus se afaste da sequência de
em Mateus e cerca de 65% em Lucas. So­ Marcos, Lucas apoia Marcos, e sempre que
mente algumas perícopes não têm paralelo Lucas se afasta de Marcos, Mateus concorda
em pelo menos um dos outros evangelhos. com Marcos. Esta ausência de concordância
O material de Marcos que se encontra nos entre Mateus e Lucas contra Marcos, em
três evangelhos sinóticos é conhecido como termos de sequência, pode ser interpretada
tradição tripla. O material não constante em de mais de uma maneira. Pode ser explicada
Marcos que Mateus e Lucas têm em comum pela prioridade de Marcos, mas também
(cerca de 220 versículos) é chamado de tra­ por qualquer outra hipótese que proponha
dição dupla. A teoria das duas fontes, ou Marcos como termo médio:
hipótese dos dois documentos, propõe que
Mateus e Lucas dependem de Marcos no M arcos M ateus Lucas M ateus Lucas
tocante à tradição tripla e deriva a tradição
dupla de uma fonte escrita em grego, uma Marcos M arcos
hipotética fonte de logia ou de ditos chamada
de Q (que é a abreviatura do termo alemão M ateus Lucas Lucas Mateus Marcos
Quelle, i.e., Logien-, Spruch- ou Redenquelle).
Mateus e Lucas são muito mais extensos A ideia de que existiu um evangelho pri­
do que Marcos (num total de 1.068 e 1.149 mitivo (chamado às vezes de Protomarcos)
versículos respectivamente) e contêm uma que influenciou os Evangelhos canônicos
grande quantidade de material exclusivo permanece como possibilidade, mas este fe­
que deriva, em parte, da atividade criativa nômeno da sequência não pode ser explicado
dos evangelistas. satisfatoriamente postulando uma depen­
dência apenas de fragmentos dos evangelhos
6 (I) A sequência dos evangelhos si­ ou da tradição oral. Admitindo-se a priori­
nóticos. O estudo da sequência de Marcos dade de Marcos, a ausência de concordância
comparada com a de Mateus e Lucas tem entre Mateus e Lucas contra Marcos se torna
apoiado de maneira influente a prioridade um indicativo da independência de Mateus
de Marcos. e Lucas no uso que fazem de Marcos. Mas o
verdadeiro argumento a partir da sequência paralelos de Mc 4,35-5,20 (Mt 8,18-34); Mc
em favor da prioridade de Marcos é que as 5,21-43 (Mt 9,18-26); Mc 6,6b (Mt 9,35); Mc
diferenças em Mateus e Lucas podem ser 6,7-11 combinado com 3,16-19 (Mt 10,1-16).
explicadas plausivelmente como alterações O restante das perícopes marcanas em Mt 12­
de Marcos feitas de acordo com as tendên­ 13 segue estritamente a sequência de Marcos:
cias redacionais gerais e com os propósitos
composicionais de cada evangelho. M ateus M arcos

3,1-4,22
7 (B) A sequência de Marcos em Mateus.
Deveríamos distinguir entre Mt 4,23-13,58,
onde há alterações notáveis na sequência das
perícopes de Marcos, e o restante de Mateus,
onde a sequência marca na das perícopes
está inalterada. Começamos com este último
fenômeno em (a) e (b) abaixo e depois, em
(c), tratamos do fenômeno anterior mais
extensamente.
(a) Mt 3,1-4,22 (par. Mc 1,1-20). Não há
mudança na sequência das perícopes:

M ateus M arcos

João Batista 3,1-12 1,1-8


Batismo de Jesus 3,13-17 1,9-11
Tentação 4,1-11 1,12-13
Pregação na Galileia '“ 4,12-17 1,14-15
Cham ado dos primeiros
discípulos 4,18-22 1,16-20

(b) Mt 14,1 até o final (par. Mc 6,14-16,8).


Não há mudança na sequência das períco­
pes, mas algumas mudanças na sequência
dentro das perícopes (como forma de ante­ A sinopse precedente do material parale­
cipação): lo em Mt 3,1-13,58 (par. Mc 1,1-6,13) indica
que o Sermão da Montanha (Mt 5-7) está co­
M ateus M arcos locado, na sequência de Marcos, na primeira
Tradição dos anciãos 15 ,3 -6 , menção do ensino de Jesus em Mc 1,21. Mt
15,7-9 ■7,6-8 4,23-25; 5,1-2 é uma composição mateana
‘ 7,9-13
complexa na qual Mc 1,39 e diversas outras
Questões sobre o divórcio 19,4-6
19,7-8 10,3-5 passagens de Marcos foram antecipadas e
~ ''-10,6-9 combinadas na forma de um solene resumo
Purificação do templo 21,12-13 (14-17) introdutório:
-14
11,15-17 (18-19)
M ateus M arcos

8 (c) Mt 4,23-13,58 (par. Mc 1,21-6,13). 4,23 1,39 (1,15); 6,6b


Um movimento de antecipação pode ser 4,24a 1,28
observado também em Mt 4,23-13,58. Todas 4,24b 1,32.34
as transposições das perícopes de Marcos se 4,25 3,7-8
encontram em Mt 8-9 e 10. Estes capítulos 5,1 3,13
contêm, na sequência relativa de Marcos, os 5,2 1,21
A inversão de Mt 8,2-4 (Mc 1,40-45) e Mt M arcos Lucas Interpolação lucana
8,14-16 (Mc 1,29-34) mostra o desmantela­ 1,1-15 3,1-4,15 4,16-30
mento do "dia de Jesus" marcano em Cafar- N azaré (cf. Mc 6,l-6a)
naum (1,21-39). A cura do leproso é passada 1,21-39 4,31-44 5,1-11
para a frente como seção de abertura em Mt Simão (cf. Mc 1,16-20)
8-9 (com o uso de Mc 1,43-45 em Mt 9,30-31 1,40-3,19 5,12-6,19 6,20-8,3
em forma de inclusão). Interpolação m enor
3,31-9,40 8,40-9,50 9,51-18,14
De Mt 8,18 em diante, o tema do discipu- Interpolação maior
lado aparece e prepara o discurso de Mt 10. 10,13-52 18,15-43 19,1-28
A atividade curativa de Jesus (4,23; 9,35) será Zaqueu, Parábola
transmitida aos discípulos (10,1). Mateus 11,1-13,37 19,29-21,38
combinou o material de Marcos com passa­ 14,1-16,8 22,1-24,12
gens de Q, e aqui também há um movimento
semelhante de antecipação antes de Mt 11,2
A visita a Nazaré, de Mc 6,l-6a (contexto
("João, ouvindo falar, na prisão, a respeito
comparável em Lc 8,56/9,1), é colocada
das obras de Cristo"), como podemos ver
no início do ministério de Jesus por Lucas.
pela comparação de Mateus e Lucas (as duas
O chamado dos primeiros discípulos em Mc
testemunhas de Q). 1,16-20 (antes do "dia de Cafarnaum") tem
seu paralelo em Lc 5,1-11, após o "dia de
Cafarnaum". As transposições de perícopes
M ateus Lucas
individuais são explicáveis tendo Marcos
5-7 6,20-49 como base. Por exemplo, a inversão de Mc
8,5-13 7,1-10
3,7-12. 13-19 em Lc 6,12-16.17-19 vem antes
8 , 1 9 - 2 2 ----------
9,37-10,16.40 \
do Sermão da Planície. Mc 3,31-35 (antes da
11,2-19 --------7,18-35 resposta a João Batista, seção da parábola) é transferido para a con­
\ 9,57-60 chamado dos discípulos, clusão da seção da parábola em Lc 8,19-21.
10,2-12.16 missão dos discípulos Veja também as mudanças de sequência na
11,21-24 10,13-15 narrativa da paixão (Lc 22,18.21-23.24-27.33­
11,25-27 (2 8 -3 0 )-----10,21-22
34; 22,56-62.63-65.66-71; 23,26-49 e passim
- Neirynck, Evangélica, 757-69).

Mt 4,23-11,1 concentra-se no ensino e nas 10 A ausência de um episódio na sequên­


curas de Jesus bem como no discipulado. cia de Marcos nem sempre é uma omissão
Esta é uma composição típica de Mateus, no sentido estrito. O episódio pode estar
singular no Evangelho, e todos os desloca­ faltando porque Lucas o transferiu para ou­
mentos de perícopes marcanas se encontram tro contexto (transposição) ou porque Lucas
nesta construção redacional e em nenhum o substituiu, dando preferência a um texto
outro lugar. paralelo de uma fonte diferente (Lucas evita
duplicados). Neste último caso, reminiscên­
9 (C) A sequência de Marcos em Lucas. cias verbais podem revelar o conhecimento
Nenhuma das transposições de Mt 4,23­ que Lucas tinha do texto de Marcos, e, às
11,1 corresponde uma m udança lucana vezes, será difícil distinguir entre o uso lu-
semelhante da sequência de Marcos. Lucas cano de uma tradição especial e a reformu­
segue a ordem de Marcos em todo o Evan­ lação e ampliação de Marcos por Lucas. Na
gelho. Os blocos de material marcano são lista de perícopes de Marcos omitidas por
interrompidos pela interpolação de material Lucas (veja o quadro seguinte), omissões
não-marcano. menos significativas (cf. Mc 1,1.5.6.33.,43;
2,13b. 19b.27b, etc.) não estão incluídas. Além 12 (D) O argumento a partir da sequên­
disso, para algumas delas, pode-se encontrar cia. Expusem os a sequênciacom um das
um eco em um contexto distante (cf. Mc 13,10 perícopes da tradição tripla e explicamos as
e Lc 24,47). diferenças em relação à sequência de Marcos
como divergências editoriais entre Mateus e
11 A mais famosa omissão em Lucas Lucas. O argumento a partir da sequência,
(em 9,17/18) é a de Mc 6,45-8,26 (a chamada da maneira como é compreendido desde
"grande omissão")- Alguns sugeriram que K. Lachmann (1835), constitui a principal
esta seção (74 versículos) estava faltando no razão para postular a prioridade de Marcos.
manuscrito de Marcos usado por Lucas (uma A objeção de que o argumento a partir da
cópia truncada [uma tese que, hoje em dia, sequência explica Mateus em relação a Mar­
praticamente não é mais defendida] ou o Pro- cos, por um lado, e depois Lucas em relação
tomarcos). Deve-se observar, porém, que a a Marcos, por outro, mas que a relação entre
omissão mateana das passagens individuais todos os três permaneceria sem explicação
de Mc 7,3-4; 7,31-37; e 8,22-26 e que a omis­ (W. R. Farmer, NTS 23 [1976-77] 294), difi­
são da seção inteira por Lucas dificilmente cilmente convence. Marcos não precisa ser
poderão ser citadas como concordância explicado "em relação a Mateus e a Lucas
negativa dos dois Evangelhos contra Marcos. em conjunto" porque não se pode decidir a
Tampouco se pode tirar uma conclusão, em priori que todos os três Evangelhos sinóticos
termos de crítica das fontes, da semelhança estão interrelacionados. Seria possível uma
entre Lc 9,10-17.18-21 e Jo 6,1-15.66-69 (a solução que proponha a independência entre
alimentação dos cinco mil seguida pela con­ Mateus e Lucas.
fissão de Pedro), já que Jo 6,16-21 reconta o
caminhar sobre as águas (par. Mc 6,45-52), OMISSÃO E TRANSPOSIÇÃO DE PERÍCOPES
que Lucas omite. É difícil encontrar uma M ARCANAS EM LUCAS
razão convincente para a grande omissão de
Lucas, mas provavelmente há mais de uma Lucas M arcos Lucas

razão. A evitação de duplicados pode ser ao (nos vv. abaixo, (nos w . abaixo,
menos parte da explicação. O duplo milagre uma om issão do um a transposição
que está na e /o u duplicado
da alimentação em Mc 6,30-44 e 8,1-9 (res­
coluna marcana) do que está na
saltado no dito de 8,19-20) é absolutamente coluna marcana)
singular em Marcos, e a omissão de 8,1-9
poderia implicar também a omissão de 8,14­ 4,15 (4,16-30) 1,16-20 5,1-11
21. Mais importante é o fato de notarmos 6,19 (6,20-8,3) 3,20-35 22-26 11,15.17-18
27 11,21-22
possíveis reminiscências do trecho omitido 28-29 12,10
de Mc 6,45-8,26 tanto no contexto lucano 31-35 8,19-21
imediato da omissão (cf. Mc 6,45; 8,22 com Lc 8,18 (8,19-21) 4,26-34 30-32 13,18-19
9,10 quanto a Betsaida, e Mc 6,46 com Lc 9,18 8,5 6 /9 ,1 6,1-6 4,16-30
9 ,9 /1 0 6,17-29 17-18 3,19-20
quanto à oração solitária de Jesus) quanto em 9 ,1 7 /1 8 6,45-8,26 (-> 11 acima)
outras passagens de Lucas (cf. Mc 6,49-50 9 ,2 2 /2 3 8,32-33
com Lc 24,36-40; Mc 6,55-56 com Lc 9,11c e 9 ,3 6 /3 7 9,11-13
At 5,15-16; Mc 7,1-5 com Lc 11,37-38; Mc 7,30 9 ,4 3 a /b 9,28-29
9,50 (9,51-18,14) 9,41-10,12 42 17,2
com Lc 7,10; Mc 8,11 com Lc 11,16.53-54; Mc
50a 14,34
8,15 com Lc 12,1). Tais reminiscências suge­ 10,11 16,18
rem que Lucas conhecia o material do trecho 18,3 4 /3 5 10,35-45 38 12,50
omitido de Marcos e que não há necessidade 42-45 22,25-27
19,40 (19,41-44) 11,12-14 (13,6-9)
de evocar um Protomarcos (Urmarkus) sem
19,48/20,1 11,20-25 22-23 17,6
o texto de 6,45-8,26. 24 (11,10)
25 (11,4)
Lucas Marcos Lucaspassagem de Q é muito incerta para se levar
em consideração (ainda que alguns biblistas
2 0 ,3 9 /4 0 12,28-34 10,25-28
2 1 ,2 4 /2 5 13,21-23 17,23 atribuam a Q os textos de Mt 10,5b-6; 10,23;
2 1 ,2 /3 14,3-9 7,36-50 Lc 6,24-26; 9,61-62; 12,32.35-38.49-50(54-56);
2 2 ,5 3 /5 4 14,51-52 15,8-10; 17,28-29). Por outro lado, a origem em
2 2 ,6 6 /6 7 14,56-61 a (At 6,13-14)
Q de alguns paralelos entre Mateus e Lucas é
2 3 ,2 5 /2 6 15,16-20 23,11 questionada por causa do insuficiente acordo
verbal (Lc 14,16-24; 19,12-27; 22,28-30) e pelo
13 (II) A fonte Q. Nossa exposição so­fato de que alguns ditos proverbiais curtos
bre a sequência (—> 6-12 acima), que sugeriu poderiam ser provenientes da tradição oral.
a prioridade de Marcos como solução para Provavelm ente a sequência original
o problema sinótico, está incompleta porque de Q está melhor preservada em Lucas.
ainda se deve tratar do material que não se A organização diferente do material de Q em
encontra em Marcos, mas é compartilhado Mateus pode ser explicada pela compilação
por Mateus e Lucas. redacional de grandes discursos por Mateus
(A) A existência de Q. A presença em e pela inserção das passagens de Q em con­
Mateus e Lucas de passagens semelhantes não- textos marcanos.
marcanas (a tradição dupla), algumas delas com
um alto grau de concordância verbal, só pode 14 (B) Tabela sinótica da tradição du­
ser explicada se havia uma interdependência pla (na sequência lucana)
entre Mateus e Lucas ou se ambos recorreram
(de forma independente) a uma fonte comum. Mateus Lucas
Falamos de "fonte" no singular porque uma
3,7 b -1 0 ----------:------- 3,7-9 IA
certa coincidência da sequência na tradição
3.11-1 2 ----------------- 3,16b-17 I
dupla milita contra a postulação da existência
4 ,2 b -l la ---------------- 4,2-13 I B
de uma pluralidade de fontes. O fato de que
5,3 .6 .4 -------------------6,20b-21 C
parte do material da tradição dupla duplica 5.11-1 2 --------------- 6,22-23
material da tradição tripla (portanto, material 5 ^ ^ 0 . 4 2 2 ^ ^ ^ 6,27-28
que aparece em Marcos) sugere a existência de 5,44 6,29-30
uma segunda fonte, separada de Marcos. Duas 7,12 6,31
outras razões ainda podem ser indicadas para 5,46-47------------------6,32-33
propor a independência de Mateus e Lucas no 5 ,4 5 .4 8 ----------------- 6.35b-36
uso dessa fonte: (1) A tradição mais original 7 ,1 -2 ---------------------6,37a.38c
pode ser reconhecida às vezes em Mateus e às 15,14 6,39
vezes em Lucas. (2) Na tradição tripla Mateus e 10,24-25a 6,40
Lucas nunca concordam em suas divergências 7 ,3 -5 ---------------------6,41-42
(12,33-35) 7 ,1 6 -2 0 ----------------- 6,43-45
da sequência dos episódios de Marcos (-» 6
7,21---------------------- 6,46
acima), e uma observação semelhante pode ser
7 ,2 4 -2 7 ----------------- 6,46-49
feita em relação à tradição dupla. Com exceção
8 ,5 -1 0 .1 3 -------------- 7,l-2.6b -10 D
das primeiras duas perícopes (a pregação de
11,2-6 7,18-23 E
João Batista e as tentações de Jesus, par. Mc 11,7-11----------------- 7,24-28
1,7-8 e 12-13), Mateus e Lucas nunca inseriram 11,16-17----------------7,31-32
as passagens da tradição dupla no mesmo 1 1 ,1 8 -1 9 --------------- 7,33-35
contexto de Marcos. 8,1 9 -2 2 -------------- --------9,57-60
Estudos recentes tendem a restringir 9,37-38; 1 0 ,7 -1 6 ---------- ----------— 10,2-12
o material de Q às (a todas as) passagens 1 1 ,2 1 -2 3 --------------- 10,13-15
atestadas tanto em Mateus quanto em Lucas. 1 0 ,4 0 --------------- --------------- -------10,16
A possibilidade de que apenas Mateus ou 11,25-27----------------10,21-22
apenas Lucas tenham preservado alguma 13,16-17 10,23-24
kit 5-7 e M t 10 M ateus Lucas de Jesus a João Batista em Mt 11,2-19 (—» 8
11,2-4
acima). Os contextos marcanos em Mateus
6,9-13
11,9-13
são dignos de nota: Mc 1,7-8 para A; 1,12­
7,7-11
(9,32-33) 12,22-30 ------------ - 11,14-15.17-23 13 para B; 1,21/22 para C; 1,40-45/1,29-34
12,38-42 - 11,24-26 para D; 4,35/36; 6,7-11 para F. A primeira
12,43-45 " 11,29-32 seção de Q em Mateus que não foi inserida
5,15 11,33 num contexto marcano é Mt 11,2-6. Isto,
6,22-23 11,34-35 juntamente com a inversão da sequência de
23,25-26.32 -------- 11,39-41.42 Q das seções E e F, confirma que a resposta
6 - 7 ,2 7 ------------- 43-44 de Jesus a João Batista foi preparada pela
4.29-30.13 - 46.47-48.52 composição redacional de Mt 4,23-11,1.
23,34-36 - 11,49-51
O material do sermão de Q em Lc 6,20­
10,26-33 12,2-9
49, com a exceção dos ditos de 6,39.40, tem
12,32 12,10
sua contraparte em Mt 5-7. As diferenças na
10,19-20 12,11-12
sequência são mínimas e o uso de Mt 7,12
6,25-33 12,22-31
12,32-34
na conclusão da seção central é redacional.
6,19-21
24,43-44.45-51 12,39-40.42b-46
Mateus combinou o sermão de Q com outro
10,34-36 12,51-53 material de Q: Mt 5,13.15.18.25-26.32; 6,9­
5,25-26 12,58-59 13.19-21.22-23.24.25-33; 7,7-11.13-14.22-23.
13,31-32 13,18-19 Compare também a ampliação do discurso
33 20-21 acerca da missão em Mt 10,(19-20?).26-33.34-
7,13-14 13,23-24 36.37-38.(39?). A apresentação dessas passa­
7,22-23 13,25-27 gens na sequência dos paralelos em Lc 11-17
8,11-12 13,28-29 (na tabela ao lado) revela alguma coincidência
23,37-39 ------------ - 13,34-35 com as sequências individuais de ditos de
22,1-10 14,16-24 Q em Lucas. A melhor ilustração é Mt 7,13­
10,37-38 14,26-27
14,22-23; 8,11-12. E se deixarmos de lado
5,13 14,34-35
estas passagens de Mt 5-7 e 10 (presumivel­
18,12-14 15,4-7
mente a primeira e a segunda compilações
6,24 16,13
de discursos por Mateus), a sequência dos
11,12-13 16,16
paralelos restantes de Q concorda em grande
5,18 16,17
5,32 16,18
parte com a sequência de Lucas (seções G,
18,7 17,1
H, I). A convergência com nossas conclusões
18,15.21-22 17,3b-4 em relação à sequência lucana em Mateus
17,20 17,6 (—> 8 acima) é im pressionante: primeiro,
2 4 ,2 6 -2 7 .2 8 --------- - 17,23-24.37 existe uma antecipação e concentração do
37-38 -------------- 26-27.30 material da fonte em Mt 5-10 e depois (de
(10,39) (17,33) Mt 12 em diante) não há mais mudanças na
24,40-41 ------------- - 17,34-35 sequência.
25,14-30 -------------- 19,12-27
19,28 22,28.30 16 Inversões da sequência em unida­
des menores, como Lc 4,5-8.9-12; 6,21a.21b;
15 (C) O uso da fonte Q por Mateus. 6,27-28.29-30; 10,5-7.8-9; 11,31.32; e 11,24­
Na primeira parte da tabela da tradição 26.29-32 podem ser explicadas pela reor­
dupla (seções A, B, C, D, E, F em Lc 3-10), a ganização da fonte comum por Mateus
sequência original do material de Q é clara­ ou Lucas. Alguns ditos têm uma forma
mente detectável em Mateus se levarmos em mais esmerada em Mateus. A ampliação
conta a antecipação redacional do discurso das bem-aventuranças em Mt 5,5.7-10 é o
acerca da missão em M 10, antes da resposta exemplo clássico. O versículo 10 pode ser
atribuído à redação de Mateus, mas alguns 18 (D) Duplicados das fontes. Há pas­
estudiosos consideram 5,5.7-9 um acréscimo sagens que ocorrem duas vezes em Mateus
pré-mateano à fonte comum: Q chegou a ou Lucas, uma vez no material da tradição
Mateus em uma forma ampliada. Outros tripla compartilhado com Marcos e uma vez
ditos ocasionalmente atribuídos a QMateus no material da tradição dupla do mesmo
são Mt 5 ,14b.19.41; 6,34; 7,6; 10,5b-6,23; Evangelho. Para quem defende a prioridade
11,28-30; 18,16-17.18; a forma pré-mateana de Marcos, "a prova a partir de duplicados"
das parábolas de Q em 22,1-14 e 25,14-30; e é parte do argumento a favor da existência
a formulação pré-mateana de alguns ditos de uma segunda fonte.
de Q. Este QMateus como estágio interme­ A lista seguinte inclui 14 casos de duplica­
diário entre Q e Mateus tende a reduzir dos em Mateus (n2 5 ,1 0 , 11, 12), em Lucas
Mateus a um redator "conservador". Outros (n2 1, 2, 4, 8, 13, 14), ou em ambos (ns 3,
especialistas, porém, enfatizam mais cor­ 6, 7, 9). As referências aparecem segundo
retamente a revisão redacional do material a sequência de Marcos, com os paralelos
tradicional da fonte Q por Mateus e seus não-marcanos na segunda linha do texto
acréscimos a este material. correspondente em Mateus ou Lucas. Com­
binações em Mateus (duplicados "conden­
17 A influência de Q pode ser vistasados") estão assinaladas com um asterisco
na repetição de expressões por Mateus e (n2 4 ,1 3 ,1 4 ).
em seu uso de algumas expressões de Q
como fórmulas redacionais. A expressão N2 M arcos M ateus Lucas
gennêmata echidnõn, "raça de víboras", em
1 4,21 - 8,16
Mt 3,7 (Q) ocorre novamente em 12,34 e
. 5,15 11,38
23,33; Mt 3,10b (Q) é repetido em 7,19; e Mt 8,17
2 4,22 -
3,12b (Q) tem um eco em 13,30. A palavra 10,26 12,2
oligopistoi, "de pequena fé", em Mt 6,30 (Q) 3 4,25 13,12 8,18
torna-se uma expressão favorita de Ma­ 25,29 19,26
teus: 8,26; 16,8; 14,30; 17,20 (substantivo). 4 6,8-11 *10,7-14 9,3-5
A expressão "onde haverá choro e ranger de 10,4-11
dentes" em Mt 8,12 (Q) aparece novamente 5 8,12 16,4 -
em 13,42.50; 22,13; 24,51; 25,30. A influência 12,39 11,29
do material de Q em Mt 11,12-13; Lc 16,16 6 8,34 16,24 9,23
é perceptível no uso mateano de "a lei e os 10,38 14,27
profetas" (5,17; 7,12; 22,40) e na expressão 7 8,35 16,25 9,24
apo tote, "a partir desse momento", em 4,17. 10,39 17,33
A expressão "condutores cegos" em Mt 8 8,38 (16,27) 9,26
23,16.24 faz eco a 15,14 (Lc 6,39). Mt 10,15 10,33 12,9
(Lc 10,12) é usado novamente em 11,24, e 9 9,37 18,5 9,48
Mt 7,16-20 (Lc 6,43-44) em 12,33. Mt 12,22­ 10,40 10,16
23 (Lc 11,14) é usado já na conclusão dos 10 10,11 19,9 -
milagres dos caps. 8 e 9; portanto: 5,32 16,18
11 10,31 19,30 -
9,27-31 cf. 20,29-34 Mc 10,46-52 20,16 13,30
9,32-33 cf. 12,22-23 Lc 11,14 (Q) 12 11,22-23 21,21 -
17,20 17,6
Mas nem todos os "duplicados" de Ma­ 13 12,38-39 *23,6-7 20,46
teus são redacionais, ou seja, explicáveis 11,43
pela repetição redacional das passagens 14 13,11 *10,19-20 21,14-15
tradicionais. 12,11-12
A origem em Q de alguns desses ditos concluir que a justaposição de Q e L tem
não é certa. Lc 17,33 (nD 7) pode ser uma sua origem em um evangelho pré-lucano
reformulação lucana de Mc 8,35, que é uma (Protolucas) no qual os blocos de material
das inserções "marcanas" no discurso de Q marcano teriam sido inseridos por Lucas.
(17,25.31.33). O dito proverbial de Mt 20,16 E é uma suposição gratuita que o texto de Q
(n2 11) pode ser uma repetição de 19,30 em Lc 9,51-18,14 não possua qualquer influ­
(antes da parábola), e, embora a mesma ência de Marcos. Reminiscências de Marcos
sequência invertida de último/primeiro podem ser mostradas nos duplicados n2 7,
se encontre em Lc 13,30, a origem comum 10, 14, 18, (19), 22, 23, 24 (Lc 10,25-28 vem
não-marcana é apenas uma possibilidade. de Mc 12,28-34).
Mas, no conjunto, a lista dos duplicados da A narrativa lucana da viagem a Jerusalém
fonte é impressionante. Exemplos menos teve sua base em Marcos (10.1,32), mas a
convincentes de sobreposição (como os fonte Q forneceu os materiais. A missão no
paralelos em Mc 4,8c; 9,35; 11,24; e 13,12) início da jornada e o dia do Filho do Homem
não estão incluídos. no final (duplicados de Lc 9,1-6 e 21,5-36)
produzem o efeito de uma duplicação do
19 Além dos n2 4, 13 e 14, há outrosroteiro de Marcos. Isso talvez se deva à
casos de fusão e combinação mateana entre inserção da segunda fonte na estrutura de
Marcos e Q em que a passagem de Marcos é Marcos. A divisão lucana do material de Q
omitida em Lucas (na lista seguinte, os n2 19 em duas interpolações separadas correspon­
e 25 são duvidosos). As omissões de Marcos de à divisão da própria fonte Q: primeiro,
tanto em Mateus quanto em Lucas (n2 15,21) os trechos sobre João Batista envolvendo
são acrescentadas à lista a fim de incluir todos o grande sermão (de Lc 3,7-9 até 7,31-35),
os casos de sobreposição (Marcos e Q). e, depois, a parte central começando com a
missão (Lc 9,57-10,16).
Na M arcos M ateus Lucas (Q)

(15) 1,2 11,10 Q 7,27 (B ib lio g ra fia p e rtin e n te a Q: E dw ards , R. A .,


16 1,7-8 3,11-12 3,16-17 + M arcos A Concordance to Q [S B L S B S 7; M isso u la , 1975]; A
17 1,12-13 4,1-11 4,1-13 + M arcos Theology of Q [P h ila d e lp h ia , 1976]. H avener, ! , Q:
18 3,22-26 12,24-26 11,15.17-18 The Sayings ofJesus [W ilm ington, 1986], H offmann ,
(19) 3,27 12,29 (?) 11,21-22 (?) M arcos
P ., Studien zur Theologie der Logienquelle [N T A b h
20 3,28-29 12,31-32 12,10
8; M ü n ster, 1972]. K loppenborg, J. S., "B ibliog rap h y
(21) 4,24 7,2 (Q) 6,38
22 4,30-32 13,31-32 13,18-19 o n Q ", S B L A S P 2 4 [1985] 10 3 -2 6 ; The Formation
23 9,42 18,6-7 17,1-2 + M arcos of Q [P h ila d e lp h ia , 1 9 8 7 ], L ührm ann , D., Die
24 9,49-50a 5,13 14,34-35 Redaktion der Logienquelle [W M A N T 33; N eukirchen,
(25) 12,21-34 22,34-40 (?) 10,25-28 (?) M arcos 1 9 6 9 ], N eirynck , F., " R e c e n t Developm ents in
26 13,21 (-23) 24,23(-25).26 17,23 th e S tu d y o f Q ", in Logia: Les paroles de Jésus - The
Sayings of Jesus [ed. J. D elobel; B ETL 59; Louvain,
20 (E) O uso da fonte Q por Lucas. 1982] 29 -7 5 . N eirynck , F. e F. V an S egbroeck , "Q
As passagens de Q em Lucas se encontram B ib lio g r a p h y " , ibid., 5 6 1 -8 6 ; E T L 62 [1986] 1 5 7 ­
quase exclusivam ente, junto com o m a­ 65. P olag , A ., Die Christologie der Logienquelle
terial peculiar a Lucas (passagens L), em [W M A N T 4 5 ; N e u k irc h e n , 1 9 7 7 ]; Fragmenta Q
dois blocos de material não-marcano - Lc [N e u k ir c h e n , 1 9 7 9 ], S ch en k , W ., Synopse zur
Redenquelle der Evangelien [D ü s s e ld o rf, 1981].
6,20-8,3 e 9,51-18,14 - que são inseridos
S chulz, S., Q - Die Spruchquelle der Evangelisten
na sequência mar cana em Mc 3/4 e 9/10.
[ Z ü r ic h , 1 9 7 2 ] , S t o l d t , H .-H ., Flistory and
Isto se contrapõe bastante à combinação Criticism of the Marcan Flypothesis [M a co n , 198 0 ;
m ateana do m aterial de Q com M arcos ta m b é m o rig in a l alem ão, 2 a e d ., 1986] — co n tra
e os cenários marcanos e parece sugerir Q. V assiliadis , P ., The Q-Document Hypothesis
que Lucas usou o material de Q de for­ [A t h e n s , 1 9 7 7 ] , Z e l l e r , D ., K om m entar zu r
ma independente. Porém, não se justifica Logienquelle [S tu ttg a r t, 19 8 4 ].)
21 (III) A originalidade de Marcos. Se a solução de problemas de fontes. Por outro
os argumentos apresentados acima favore­ lado, o problema sinótico é somente um as­
cem a prioridade de Marcos, alguns pontos pecto da questão das fontes, pois, se Marcos
levantados contra essa prioridade precisam e Q são considerados fontes de Mateus e
ser discutidos. Lucas, então as tradições ou fontes que estão
(A) A metodologia da crítica das fontes.por trás de Marcos e Q também requerem
Os pesquisadores ofereceram critérios ge­ um estudo adicional - assim como o requer
rais para decidir qual é a mais antiga entre a origem do material peculiar a Mateus ou
tradições paralelas. Sanders (Tenãencies) Lucas. Entre aqueles que apoiam a hipótese
examinou esses critérios: extensão e deta­ das duas fontes há grande diversidade de
lhes crescentes, menos semitismos e o uso opinião no tocante à história da tradição
de discurso direto e de combinações, que pré-sinótica. A crítica das fontes sinóticas e
ocorrem tanto nos evangelhos sinóticos a crítica da redação sinótica são inseparáveis
quanto no material pós-canônico. Sua con­ na tentativa de determinar o interrelaciona-
clusão é que "a tradição se desenvolveu em mento dos evangelhos sinóticos.
direções opostas" e, portanto, "afirmações A ocorrência do material redacional de
dogmáticas" com base nesses critérios nunca um evangelho em outro evangelho é, pro­
são justificadas (272). A partir do livro de vavelmente, o critério mais útil para a de­
Sanders, o critério da especificação crescente terminação de seu interrelacionamento. Este
foi retirado por Farmer (Synoptíc Problem 228) critério foi chamado por Farmer de critério
da lista de cânons que ele tinha proposto de "inadvertência": "A presença, âe forma
originalmente. Em resposta ao critério de fragmentária, na obra de um autor sinótico,
Farm er da procedência palestinense ou das expressões prediletas ou características
judaica como sinal de maior Antiguidade, redacionais de um ou de ambos os autores
Tyson (450) conta com a possibilidade de sinóticos ... constitui um indício prima facie
ocorrer uma rejudaização. A mensagem de dependência literária ("Certain Results",
da obra de Sanders (Tenãencies) pode ser 106). Porém, a possibilidade de que uma
entendida como uma advertência contra a expressão que se encontra na fonte se torne
generalização, e não como um convite ao ce­ uma expressão predileta num evangelho
ticismo sinótico. Mais importante do que sua posterior também deve ser levada em con­
conclusão negativa é a recomendação para sideração.
que se fique alerta às "tendências redacionais
de cada autor em particular" (272). 23 Streeter ofereceu cinco argumentos
para a aceitação da prioridade de Marcos; o
22 A concepção de Tyson aceita os quarto deles é o caráter primitivo de Marcos,
princípios clássicos da crítica literária (p.ex., que "se mostra por: (a) uso de expressões
os propostos por Burton), mas acha difícil a que provavelmente são ofensivas, sendo
aplicação destes princípios: "A identificação omitidas ou suavizadas nos outros evange­
de glosas, de material redacional e de inser­ lhos, (b) rusticidade de estilo e gramática e
ções que acarretem interrupção é uma tarefa a preservação de vocábulos aramaicos." De
perigosa." Enfatizando uma diversidade de forma mais simples, podemos distinguir
pontos de vista, Tyson vê alguma esperança duas dimensões em um único argumento a
de solução para o problema sinótico em "uma favor da prioridade de Marcos: a dimensão
espécie de crítica literária que coloque entre da taxis ou sequência, que já estudamos
parênteses a questão da fonte" (451). Porém, acima (—> 6-12 acima), e da lexis ou estilo.
uma abordagem meram ente sincrônica, Argumentar a partir da sequência implica o
na análise estrutural ou na crítica retórica macro-estudo dos conteúdos e sua organiza­
(-» Hermenêutica, 71:55-70), dificilmente po­ ção; argumentar a partir do estilo implica o
derá se tornar um método apropriado para micro-estudo das semelhanças e diferenças
entre os evangelistas. (Veja,p.ex.,FGL 1 .107­ 25 Os escritos de Vaganay, Farmer e
27; U. Luz, Das Evangelium nach Matthäus Boismard deram um novo prestígio à ques­
[EKKNT 1/1; Zürich, 1985] 31-59). As duas tão das concordâncias secundárias. O proble­
principais objeções contra a prioridade de ma está centrado não tanto nas dificuldades
Marcos, a serem discutidas a partir de agora, de alguns casos particulares (Goulder), mas
são derivadas desse micro-estudo. no elevado número de concordâncias, na
concentração em passagens particulares e na
( F a r m e r . W. R., "C ertain Results ... if Luke conjunção de concordâncias negativas e posi­
knew M atthew , and M ark knew M atthew and tivas. Embora elas sejam citadas como prin­
L u k e ", in Synoptic Studies [ed. C. M. T u c k e t t ; cipal objeção contra a prioridade de Marcos,
Sheffield, 1984175-98. Sanders, E. P., The Tendencies
pode-se sustentar que frequentemente essas
of the Synoptic Tradition [SNTSMS 7; Cam bridge,
concordâncias não são, de fato, tão notáveis e
1969]. T yson, J. B., "T h e Tw o-Source Hypothesis.
A Critical A ppraisal", in B ellinzoni [ed.], Two- que, para a maioria das concordâncias mais
S ource Hypothesis [—> 1 acima] 437-452.). significativas, pode-se dar uma explicação
redacional satisfatória.
24 (B) Concordâncias secundárias. Tão As concordâncias secundárias são, em
antigo quanto a própria hipótese marcana é p rim eiro lu g ar, co n co rd ân cias con tra
o problema das passagens breves nas quais Marcos, e a causa primordial da mudança
Mateus e Lucas concordam um com o outro comum que aparece em Mateus e Lucas é
contra Marcos (p.ex., tanto Mt 8,2 quanto Lc o texto de Marcos. O uso exagerado, por
5,12 têm o kai idou e kyrie que não aparecem Marcos, de kai, do presente histórico, de
em Mc 1,40). Se tanto Mateus quanto Lucas pleonasmos, etc.; o fato de o Jesus de Marcos
dependem de Marcos na tradição tripla, fazer perguntas e os discípulos permanecem
como podem eles concordar entre si e diferir ignorantes; e m uitos outros m otivos de
de Marcos? As seguintes sugestões têm sido Marcos são "corrigidos" em Mateus e Lucas.
apresentadas: A priori não é improvável que duas reda­
ções independentes tendo Marcos como
(a) Protomarcos (ou Urmarkus). Mateus e Lucas base mostrem algumas coincidências. "Se
u saram a m esm a versão m ais an tiga de Mateus omite algo, é porque isso não é
Marcos que era mais curta do que o Marcos atrativo para ele por alguma razão; e aquilo
que conhecemos (daí as concordâncias nega­ que não atrai um autor cristão tem, por essa
tivas ou as "om issões" comuns) e com uma mesma razão, uma chance maior de não ser
fraseologia diferente (daí as coincidências de
atrativo para outro" (McLoughlin, DRev 90
conteúdo, vocabulário, estilo e gramática).
[1972] 202).
(b) Deuteromarcos. O texto de Marcos usado por
Mateus e Lucas é ligeiramente diferente do de
nosso Marcos por causa de corrupção textual, 26 A palavra "atomização" foi usada
revisões ou edições. A sugestão de Fuchs é de forma pejorativa em relação à variedade
que Marcos já estava combinado com Q numa de explicações das concordâncias. Mas há
redação deuteromarcana. também a atomização dos indícios através
(c) Fonte comum. Tanto Mateus quanto Lucas da concentração em uma passagem, coletan­
dependem de outra fonte além de Marcos: urn do todo tipo de concordâncias sem estudar
evangelho primitivo, Protomateus (Vaganay, cada tipo de concordância, juntamente com
Boism ard; —^ 30-31 abaixo), ou, então, de­
alterações semelhantes de Marcos em outras
pendem de fragmentos evangélicos ou da
passagens de Mateus ou Lucas. As concor­
tradição oral.
(d) Lucas depende de Mateus. Lucas, que segue dâncias secundárias funcionam como um
Marcos como sua fonte básica na tradição tri­ sinal, chamando nossa atenção para os pa­
pla, também está familiarizado com Mateus ralelos não coincidentes em Mateus e Lucas.
e influenciado por ele. Veja R. H. Gundry, Cf. Neirynck, Minor Agreements 197-288, para
Matthew (Grand Rapids, 1982) 4 e passim. o material da tradição tripla.
É claro que não é razoável esperar que, Mateus e Lucas explicaria somente algumas
em cada caso, uma explicação redacional das muitas expressões duais de Marcos; a
possa ser tornada aceitável a todos os pro­ dualidade é uma característica frequente do
ponentes da prioridade de Marcos. Alguns estilo de Marcos. (2) A expressão dual em
estarão inclinados a atribuir uma ou outra Marcos não é uma combinação mecânica
concordância à influência de Q. Outros irão de duas partes, mas uma unidade estilística
contar com a influência da tradição oral e original com uma progressão no sentido
com a possibilidade de variantes traditivas. de uma precisão maior na segunda parte
Outros ainda darão maior importância a fato­ da expressão. (3) O paralelo a metade da
res textuais, como a corrupção ou a harmoni­ expressão em Mateus e a metade em Lucas
zação. Porém, essas várias explicações dadas não é uma seleção feita ao acaso. Em muitos
para os "casos difíceis" residuais de modo casos, a escolha de cada evangelista pode
algum modificam a hipótese sinótica geral. ser explicada à luz do contexto redacional
O argumento de M. Goulder de que algumas e das tendências gerais do respectivo evan­
concordâncias são estilisticamente mateanas gelho.
mas caracteristicamente não-lucanas (NTS 24
[1977-78] 218-34) foi respondida por Tuckett ( N e ir y n c k , F., Duality in Mark: Contributions
(NTS 30 [1984] 130-42). A observação similar to the Study of the Markan Redaction [BETL 31;
de M.-E. Boismard com respeito a Lc 9,10-11 Louvain, 1972]; "Les expressions doubles chez
M arc et le problème synoptique", ETL 59 [1983]
(NTS 26 [1979-80] 1-17) foi respondida por
303-30. R o l l a n d , P., Les premiers évangiles: Un
Neirynck (ETL 60 [1984] 25-44). Sobre Mt
nouveau regard sur le problème synoptique [Paris,
26,68, veja ETL 63 (1987) 5-47. 1984]; artigos em RB 89 [1982] 370-405; 90 [1983]
23-79,161-201. T u c k et t , Revival 16-21.).
(F uchs , A., Die Entwicklung der Beelzebulkcmtrouerse
bei den Synoptikern [ L i n z , 1980]. M c L o u g h l in ,
S., " L e s a c c o r d s m i n e u r s M t - L c c o n t r e M c e t le 28 (D) Marcos e Q. A teoria das duas
p r o b l è m e s y n o p t i q u e " , in De Jésus aux Evangiles fontes como solução para o problema si­
[e d . I. d e l a P o t t er ie ; BETL 25; L o u v a i n , 1967] nótico tem limitações óbvias. A suposição
17-40. N e ir y n c k , M inor Agreements; Evangélica da prioridade de Marcos não impede uma
769-810.)
variedade de opiniões a respeito de muitos
aspectos de Marcos. Alguns especialistas
27 (C) Dualidade em Marcos. Às ve­
reconhecem (corretamente) características
zes, quando há redundância ou expressão
do uso marcano ao longo de todo o evange­
duplicada em Marcos (1,32: "Ao entardecer,
lho (Dschulnigg), enquanto que para outros
quando o sol se pôs"), Mateus tem um para­
"não existe qualquer estilo redacional em
lelo a uma das partes da expressão marcana
Marcos" (Trocmé). Não há consenso sobre as
(Mt 8,16: "Ao entardecer"), enquanto Lucas
fontes de Marcos ou sobre a existência de co­
tem como paralelo a outra parte (Lc 4,40 "ao
leções anteriores a Marcos, especialmente de
pôr do sol"). Na hipótese de Griesbach ou
dos "dois-evangelhos", estes duplicados são uma narrativa tradicional da paixão (vejar a
proposta de R. Pesch, Das Markusevangelium
explicados sustentando-se que Marcos usou
e combinou Mateus e Lucas ou, na adaptação 2 [HTKNT 2; Freiburg, 1977], e a análise de
da hipótese de Griesbach feita por Rolland, Neirynck, Evangélica 491-515).
como combinações de uma fonte (proto)
(D schulnigg , O ., Sprache, Redaktion und Intention
mateana e uma fonte (proto) lucana. Com
des Markus-Evangeliums [SBB 11; Stuttgart, 1984].
base na tese da prioridade de Marcos, este P r y k e , E. Redactional Style in the Markan Gospel
fenômeno é explicado através do uso inde­ [SNTSMS 33; C am b rid g e, 1978]. R e i s e r , M .,
pendente de Marcos por parte de Mateus Syntax und Stil des Markusevangeliums [W UNT
e Lucas. Três observações: (1) A teoria de 2 /1 1 ; Tübingen, 1984], T r o c m é , E., The Passion as
Griesbach segundo a qual Marcos combinou Liturgy [London, 1983]).
29 As opiniões divergem quanto ao duas fontes. Supostamente, Marcos é usado
conhecimento e ao uso da fonte Q por Mar­ como fonte tanto pelo Mateus quanto pelo
cos. Os trechos justapostos de Marcos e Q Lucas canônicos, enquanto o material dos
estão listados acima (-> 18 acima). É prática ditos da tradição dupla na seção central de
comum oferecer uma descrição aproximada Lucas se deriva de uma fonte suplementar S.
da atividade redacional de Marcos compa­ Pode-se esquematizar Vaganay (cuja teoria
rando o dito em Marcos com a versão de Q. foi mais influente nos anos 1950) da seguinte
Mas a dependência de Marcos em relação a maneira:
Q (Lambrecht) e não em relação a ditos tra­
dicionais individuais ou em relação a alguma M S

coleção de ditos pré-Q ainda permanecerá


mera suposição enquanto não se demonstrar
a dependência de Marcos em relação àquilo
que é próprio da redação de Q. A pesquisa
sobre a hipotética fonte Q ainda está em
progresso, especialmente no que se refere
ao desenvolvimento da tradição dos ditos e
aos estágios de composição e redação.
31 A teoria complexa de M.-É. Boismard
(Sobre Marcos e Q: D e v isc h , M., in L ’évangile
constitui uma continuação e um desenvol­
selon Marc [ed. M. S a b b e ; BETL 34; Louvain, 1974]
vimento adicional da hipótese de Vaganay.
59-91. L a m b r e c h t , }., Bib 47 [1966] 321-60; tam ­
Aqui, também, a teoria das duas fontes
bém em Logia [—> 20 acima] 277-304. L a u f e n , R.,
ainda é reconhecível no diagrama (Q e o
Die Doppelüberlieferungen der Logienquelle und des
Marcos intermediário). Atenção maior é
Markusevangeliums [BBB 54; Bonn, 1980]. N eiryn ck ,
in Logia [—> 20 acima] 41-53.).' dada às fontes pré-sinóticas: os evangelhos
primitivos A, B e C e o documento Q no
30 (IV) Soluções alternativas. Muitas primeiro nível, três protoevangelhos no
vezes, a prioridade de Marcos tem sido de­ nível intermediário (hipótese de estágios
fendida como simplesmente mais plausível múltiplos). Pode-se esquematizar Boismard
do que outras teorias propostas. da seguinte forma:
(A) A teoria modificada das duas fon­
tes. A opinião de Pápias (em Eusébio, HE
3.39.16) de que Mateus coletou os logia (ditos)
do Senhor na língua hebraica ( - aramaica)
deixou sua marca na discussão do problema
sinótico, ainda que tal coleção nunca tenha
sido descoberta (—» Pronunciamentos da
Igreja, 72:28). Em meados do séc. XX foram
levantadas objeções contra a teoria das duas
fontes, principalmente por biblistas católicos
que propunham a prioridade de Mateus
na forma de um Protomateus (L. Cerfaux, A combinação das fontes em Marcos (cf.
L. Vaganay) ou do Mateus canônico, de Griesbach, segundo o qual Marcos combinou
acordo com a tradição agostiniana pura (J. Mateus e Lucas) tem lugar tanto no Marcos
Chapman, B. C. Butler). A teoria de Vaganay intermediário quanto no Marcos final.
é, na verdade, a teoria de um evangelho pri­ X. Léon-Dufour e A. Gaboury (1970) pro­
mitivo (Mg ou a tradução grega do Mateus puseram uma fragmentação das fontes, pelo
aramaico como fonte comum de Mateus, menos com relação a Mc 1,14-6,13 e paralelos
Marcos e Lucas), combinada com a teoria das (teoria de documentos múltiplos).
(B oismard , M.-É., Synapse des quatre éuangiles, 2-3 vou o contexto mais original; e finalmente,
[Paris, 1972-77], N eiryn ck , F., Jean et les Synoptiques se Lucas depende de Mateus, por que ele
[BETL 49; Louvain, 1979]; Evangélica 691-723 [so­ omitiu quase constantemente material de
bre G a b o u r y ]. V a g a n a y , Le problème.). Mateus em episódios onde não há paralelo
em Marcos?
32 (B) A dependência lucana de Ma­
teus. A defesa mais radical da prioridade de 33 Para exp licar as concordâncias
Mateus por B. C. Butler (The Originality of St secundárias entre Mateus e Lucas contra
Matthew [Cambridge, 1951]; "St. Luke’s Debt Marcos na tradição tripla, R. H. Gundry (—»■
to St. Matthew", HTR 32 [1939] 237-308) está 24 acima) e R. Morgenthaler (ver Neirynck,
na origem de uma reação à teoria de Streeter Evangélica 752-57) supõem uma influência
em estudos dos evangelhos feitos na Grã­ subsidiária de Mateus sobre Lucas. Entretan­
-Bretanha e nos Estados Unidos, contida em to, em outras partes da tradição tripla, Lucas
"On Dispensing with Q " de A. Farrer em estaria usando Marcos a despeito de seu
Studies in the Gospels (Fest. R. H. Lightfoot; conhecimento de Mateus. Esta observação
ed. D. E. Nineham; Oxford, 1955) 55-88, e em refuta a tese de M. Goulder (NTS 24 [1977­
Synoptic Problem (1964) de W. R. Farmer. 78] 218-34), que rejeita a existência de Q por
causa de 12 casos de estilo não lucano onde
M ateus M arcos Mateus
Lucas concorda com Mateus contra Marcos.
Se Lucas pode ser eclético no uso de Mateus
Lucas e Marcos conhecendo a ambos, ele pode
eclético no uso de Mateus e Q se conhece a
Lucas Lucas M arcos
ambos.
Para o exame crítico- da frequentemente
Butler Farrer-G oulder Farm er-O rchard citada lista de exceções de E. P. Sanders à
tese de que Mateus e Lucas nunca concor­
Em todas as três hipóteses, Lucas tomou dam em termos de disposição do material
de empréstimo o material da tradição dupla contra Marcos (NTS 15 [1968-69] 249-61), veja
de Mateus e não há necessidade de uma hi­ Neirynck, Evangélica 738-43; FGL 1. 67-69.
potética fonte de ditos. Com respeito a Mar­
cos, concepções conflitantes são defendidas: 34 (C) Griesbach ou a hipótese dos
a prioridade absoluta de Marcos (Farrer), a dois evangelhos. A tese fundamental de J.
dependência de Marcos em relação a Mateus J. Griesbach (1789) de que Mateus e Lucas
(Butler) e Marcos como uma combinação combinatram e, alternadamente, depende­
secundária de Mateus e Lucas (Farmer). ram de Marcos permanece a mesma na hipó­
O uso lucano de Mateus não está isento tese neogriesbachiana dos dois evangelhos
de sérias dificuldades, e as principais razões (W. R. Farmer, B. Orchard, D. L. Dungan).
para se negar tal uso são resumidas por J. Um comentário baseado na abordagem de
A. Fitzmyer: aparentemente Lucas reluta Griesbach foi escrito por C. S. Mann, Mark
em reproduzir "acréscim o s" típicos de (AB 27; GC, 1986). Uma descrição e avaliação
Mateus dentro da tradição tripla; é difícil crítica desta teoria são oferecidas por Tuckett
explicar adequadamente por que Lucas iria (Revival) e Neirynck (ETL 59 [1982] 111-22).
querer desmontar os sermões de Mateus, Os neogriesbachianos diferem de Griesba­
especialmente o Sermão da Montanha; fora ch de duas formas. (1) A dependência lucana
as exceções anotadas acima (—» 13 acima), de Mateus é explicitamente ratificada e es­
Lucas nunca inseriu o material da tradição tudada (veja B. Orchard, Matthew, Luke and
dupla no mesmo contexto de Marcos que Mark [Manchester, 1976]). (2) A relevância
Mateus; no material da tradição dupla, às do testemunho patrístico é enfatizada, espe­
vezes Mateus, outras vezes Lucas preser­ cialmente a referência de Clemente de Ale­
xandria aos "evangelhos com genealogias conhecemos, eles tenham sido escritos num
que foram escritos primeiro" (em Eusébio, período tão primordial quanto os evan­
HE 6.14.5; veja H. Merkel, ETL 60 [1984] gelhos canônicos. Os evangelhos judaico-
382-85). Ambos os aspectos, juntamente com cristãos (conhecidos através de citações
a concepção tradicional da originalidade de patrísticas fragm entárias; —» Apócrifos,
Mateus, são estudados mais particularmente 67:59-61) tiveram certa im portância nas
por B. Orchard, que é também o autor de discussões sobre o Mateus aramaico (—>■
uma sinopse (na ordem "cronológica": Ma­ 30 acima).
teus, Lucas e Marcos; veja Neirynck, ETL 61 O debate atual diz respeito à primitivida-
[1985] 161-66). de das tradições transmitidas em apócrifos
Desde a publicação do livro de Farmer como o Papyrus Egerton 2, SGM, e Ev. Ped.
(1964), a hipótese de Griesbach foi discutida (-» Apócrifos, 67:62,63,72). A hipótese mais
em numerosas conferências sobre os evan­ provável implica a dependência (oral ou
gelhos, desde a de Pittsburgh (1970) até a de escrita) dos evangelhos apócrifos em relação
Jerusalém (1984), com tuna grande variedade aos evangelhos canônicos (veja Neirynck,
de artigos publicados. Porém, dificilmente se ETL 44 [1968] 301-6; 55 [1979] 223-24; 61
podem notar novos desdobramentos nesta [1985] 153-60; R. E. Brown, NTS 33 [1987] 321­
teoria. 43). De pontos de vista diferentes, porém,
Boismard, Cameron, Koester e M. Smith têm
35 (D) João e os sinóticos. Talvez a sustentado o contrário (veja J. D. Crossan,
maioria dos especialistas nos escritos joa­ Four Other Gospels [Minneapolis, 1985]).
ninos sustentem que João não depende de O gênero da fonte Q dos ditos sinóticos
modo significativo da forma final, canônica tem um representante no Evangelho de Tomé
dos evangelhos sinóticos (veja D. M. Smith, (-» Apócrifos, 67:67); porém, a afirmação de
Johannine Christianity [Columbia, 1984] 95­ Koester sobre "a ausência de qualquer influ­
172); para a opinião contrária, veja Neirynck, ência dos evangelhos canônicos" no Ev.Tom.
fean (—» 31 acima). Não há, virtualmente, e sua datação no séc. I é duvidosa. (Intro­
ninguém que apoie tese da dependência dos duction to the NT [Philadelphia, 1982]2. 152
evangelistas sinóticos em relação à forma [edição em português pela Paulus, Introdução
final de João. Assim, João pouco pode nos ao Novo Testamento). Para uma comparação
dizer acerca da composição dos evangelhos de ditos canônicos e não canônicos, veja J.
sinóticos, que constitui o núcleo do problema D. Crossan, Sayings Parallels (Philadelphia,
sinótico. Também os possíveis contatos entre 1986).
as fontes pré-sinóticas e pré-joaninas não
têm muita incidência direta sobre a questão. 37 (F) A continuação da pesquisa. Lite­
Altamente problemático é o uso de João ratura sobre o problema sinótico continua a
como testemunha de uma hipotética fonte ser publicada, suplementando os parágra­
Q, ou, na teoria de Boismard (-» 31 acima), fos 1, 2, 3, 20 e 23 acima, respectivamente:
de um hipotético evangelho C (composto em R. H. Stein, The Synoptic Problem (Grand
aramaico na Palestina em torno do ano 50), Rapids, 1987). M.-E. Boismard e A. Lamouille,
que supostamente também seria uma fonte Synopsis graeca quattuor evangeliorum (Louvain,
sinótica. 1986; veja ETL 63 [1987] 119-35). R. L. Lindsey
e E. C. dos Santos, A Comparative Greek
36 (E) Os evangelhos apócrifos. A maio­ Concordance of the Synoptic Gospels (vol. 1;
ria dos evangelhos apócrifos foram compos­ Jerusalém, 1985; veja ETL 63 [1987] 375-83). J.
tos no séc. II ou posteriormente, e apenas S. Kloppenborg, Q Parallels: Synopsis, Critical
um pequeno número deles talvez possam Notes and Concordance (Sonoma, 1988). W.
ser datados em 100 a 150 d.C. Não há indí­ Schenk, Die Sprache des Matthaus (Gottingen,
cios convincentes de que, na forma como os 1987; veja ETL 63 [1987] 413-19).