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Jesus
John P. Meier

B IB L IO G R A F IA

1 Quanto a obras mais antigas, veja revi­Future for the Historical Jesus (N ash, 1971). K ertelge,
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2 ESBO Ç O

Método (§ 3-10) (B) Os Doze (§ 26)


(I) Alcance e definições (§ 3) (C) O círculo mais amplo (§ 27)
(II) Fontes (§ 4-6) (D) Jesus e os gentios (§ 28)
(III) Critérios (§ 7) (VII) A identidade de Jesus
(IV) Legitimidade e propósito da busca (§ 8-10) (A) O problema (§ 29)
(B) Deus como Pai (§ 30-31)
O Jesus da história: origem e ministério (§ 11-43) (C) Categorias e títulos (§ 32-43)
(I) Origem (a) Profeta (§ 33)
(A) Nascimento (§ 11) (b) Messias (§ 34)
(B) Condição de leigo (§ 12) (c) O Filho ou Filho de Deus (§ 35-37)
(C) Anos de formação (§ 13-14) (d) O Filho do Homem (§ 38-41)
(II) Começo do ministério (§ 15-16) (e) Senhor (§ 42)
(III) Mensagem fundamental de Jesus (f) Santo carismático (§ 43)
(A) Reino de Deus (§ 17)
(B) Parábolas (§ 18) O Jesus da história: paixão e ressurreição (§ 44-57)
(IV) Atos de Jesus (I) Últimos dias em Jerusalém
(A) Comunhão de mesa (§ 19) (A) Entrada triunfal; purificação do Tem­
(B) Milagres (§ 20) plo (§ 44)
(C) Coerência das palavras e atos (§ 21) (B) Atitude de Jesus ante a morte (§ 45-50)
(V) Ensino moral e a lei (C) A Última Ceia (§ 51)
(A) Radicalização da lei (§ 22) (II) Paixão e morte
(B) Amor sem limites e misericórdia (§ 23) (A) Getsêmani e prisão (§ 52)
(C) Jesus e os partidos judaicos (§24) (B) Julgamento(s) (§ 53-54)
(VI) Os discípulos de Jesus e sua missão (C) Crucificação e morte (§ 55-56)
(A) Seguimento literal (§ 25) (III) Ressurreição (§ 57)

M ÉTO D O

3 ( I ) A l c a n c e e d e f i n i ç õ e s . O foco ex­certo de Jesus, não apenas por causa de nos­


clusivo deste artigo é o "Jesus da história" sas fontes fragmentárias, mas também por
ou o Jesus histórico - aquele Jesus que é causa da profundidade do mistério envol­
conhecível ou recuperável por meio da mo­ vido. O Jesus histórico também deveria ser
derna pesquisa histórico-crítica. Visto que a distinguido do "Jesus terreno", i.e., do Jesus
pesquisa histórico-científica surgiu apenas como é retratado durante sua vida terrena.
no séc. XVm, a busca pelo Jesus histórico é Os Evangelhos se propõem a descrever o Je­
um esforço peculiarmente moderno com sua sus terreno; eles não visam descrever o Jesus
própria história emaranhada. O "Jesus da histórico, embora sejam as principais fontes
história" é uma reconstrução teórica moder­ para nossas reconstruções modernas. Os au­
na - um retrato experimental e fragmentário tores alemães frequentemente distinguem
pintado por estudiosos modernos - e não entre o Jesus histórico (historisch) e o Cristo
deve ser identificado ingenuamente com a histórico igeschichtlich), uma distinção que se
realidade plena do Jesus que de fato viveu tornou famosa por meio de M. Kãhler (The
no séc. I d.C. (o "Jesus real"). Num senti­ So-Called Historical Jesus and the Historie Biblical
do, esta distinção entre "histórico" e "real" Christ [Philadelphia, 1964]). O primeiro se
é verdadeiro para qualquer personagem da refere a um personagem cientificamente re­
história antiga. Houve mais acerca do ver­ construído; o último, ao objeto da fé e do cul­
dadeiro Sócrates ou Nero do que aquilo que to cristãos, que tem tido um impacto sobre
podemos conhecer hoje. A fortiori - isto é o cristianismo ao longo do tempo. Contudo,
a distinção entre historisch e geschichtlich não 5 Fontes judaicas. Por volta de 93-94,
é observada por todos os críticos alemães. Josefo escreveu sobre "Tiago, o irmão de
Alguns estudiosos recentes (f.ex., Perrin, Re­ Jesus, o assim chamado Cristo" em Ant.
discovering 234-38) preferem uma tripla dis­ 20.9.1 § 200. Esta referência de passagem ao
tinção: (1) conhecimento descritivo histórico irmão de Jesus (não a fórmula cristã "irmão
acerca de Jesus; (2) aqueles aspectos deste do Senhor") dificilmente é a obra de um
conhecimento histórico que podem tornar-se autor cristão; por isso, é geralmente aceita
significativos para nós hoje (como pode ser como autêntica. O ponto vital aqui é que Jo­
verdade acerca de outros personagens anti­ sefo pressupõe que seus leitores conheçam
gos, p.ex., Sócrates); (3) fé-conhecimento de quem é este Jesus chamado Cristo. Isto deve
Jesus como Senhor e Cristo. Este artigo está ser lembrado quando nos aproximamos de
diretamente interessado apenas no primeiro outras possíveis menções de Josefo a Jesus,
tipo de conhecimento, embora este primeiro Ant. 18.3.3 § 63-64, o famoso Testimonium
nível naturalmente conduza ao segundo e Flavianum. Pela situação atual, o Testimo­
ao terceiro níveis. Por razões metodológicas, nium mostra sinais de interpolação cristã,
a busca pelo Jesus histórico abstrai o que é mas muitos estudiosos pensam que alguma
conhecido pela fé, mas de maneira nenhuma referência mais elementar a Jesus encontra-
o nega. se por trás do texto atual (veja S. Brandon,
The Trial of Jesus [New York, 1968] 151-52;
4 (II) F o n t e s . As principais fontes são L. Feldman, "Flavius Josephus Revisited",
os Evangelhos canônicos - e neste ponto ANRW 11/21.2, 822-35; Smith, Magician 45­
está o principal problema. Embora os Evan­ 46; P. Winter, Journal of Historical Studies 1
gelhos certamente contenham fatos histó­ [1968] 289-302; também E. Bammel, ExpTim
ricos acerca de Jesus, os Evangelhos como 85[1973-74] 145-47). As referências disper­
um todo estão cheios da fé pascal da protoi- sas a Jesus na literatura rabínica posterior
greja. (Quanto ao reconhecimento católico são frequentemente polêmicas e distorci­
formal disto, —> Pronunciamentos da Igre­ das; elas nada acrescentam ao nosso conhe­
ja, 72:35.). Pode ser muito difícil, às vezes cimento do Jesus histórico (veja J. Klausner,
impossível, distinguir evento ou declaração Jesus of Nazareth [New York, 1925] 18-54;
original da interpretação posterior (cf. o tra­ Smith [Magician 46-50] é mais confiante; —>
tamento de problemas metodológicos em Apócrifos, 67:134).
D. Hill, NT Prophecy [Atlanta, 1979] 160-85;
e M. Boring, NTS 29 [1983] 104-12). O fato 6 Fontes pagãs. O historiador Tácito,
de os quatro Evangelhos serem documen­ em cerca de 110 d.C., refere-se à origem
tos de fé que refletem a teologia posterior do cristianismo em Cristo, "que foi morto
significa, contudo, que João não deve ser durante o reinado de Tibério pelo procu­
automaticamente rejeitado em favor dos rador [szc] Pôncio Pilatos" (Ann. 15.44). Es­
sinóticos (contra Braun, fesus 17). Embora crevendo mais ou menos à mesma época,
a tradição dos ditos em João tenha sofrido Suetônio possivelmente se refere a Cristo
reelaboração maciça, alguns dados indivi­ como a fonte do tumulto entre os judeus em
duais preservados em João parecem mais Roma sob Cláudio, mas a alusão é incerta
confiáveis do que o material paralelo nos (Claudius 25; veja W. Wiefel, in The Romans
sinóticos. O julgamento deve ser feito com Debate [D. K. Donfried; Minneapolis, 1977]
base nos méritos dos casos individuais. 100-19; R. E. Brown, Antioch and Rome [New
O restante do NT fornece poucas informa­ York, 1983] 100-2; —» Paulo, 79:10). Plínio, o
ções acerca do Jesus histórico, e os Evan­ Jovem, escrevendo em torno de 111-113 d.
gelhos apócrifos podem fornecer, quando C,. descreve como os cristãos "cantam um
muito, alguns ditos (—>Apócrifos, 67:58; —> hino a Cristo como a um deus" (Ep. 10.96).
Canonicidade, 66:64). Quando muito, então, autores não cristãos
do séc. I e início do séc. II dão testemunho mas variantes (p.ex., a proibição do divór­
independente acerca da existência de Jesus cio por parte de Jesus em Mc, Q e ICor 7; a
Cristo, sua crucificação por Pilatos e o sub­ instituição da eucaristia em Mc 14 e 1 Cor
sequente culto a ele. 11). (4) O critério da coerência ou consistência
entra em jogo após uma certa quantidade
7 (III) Critérios. Visto que os estudio­ de material histórico ter sido isolada pelos
sos dependem dos Evangelhos canônicos, critérios anteriores. Outras declarações e
eles devem criar critérios (ou indicadores) ações de Jesus que se ajustam bem à "base
para julgar o que neles vem do próprio Je­ de informações" preliminar têm uma boa
sus como distinto do que vem da tradição chance de serem históricas (p.ex., ditos que
cristã antiga. Como acontece com a maioria refletem a iminente vinda do reino). Mas
dos julgamentos acerca da história antiga, é possível que as declarações de Jesus não
o melhor que se pode esperar são graus formem um padrão totalmente coerente.
variados de probabilidade. Cinco critérios Elementos do ensino sobre Deus e a mora­
podem ser destilados a partir dos muitos lidade podem não se ajustar perfeitamente
sugeridos: (1) O critério do embaraço se con­ à mensagem escatológica de Jesus, poden­
centra em ações ou ditos de Jesus que teriam do antes refletir as tradições de Sabedoria
embaraçado a protoigreja e, assim, tendem de Israel. Novamente é necessário cuidado.
a ser suavizadas ou suprimidas em estágios (5) O critério da rejeição e execução de Jesus
posteriores da tradição (p.ex., o batismo de não nos revela diretamente o que é históri­
Jesus ou sua ignorância acerca do dia do jul­ co, mas dirige nossa atenção para aqueles
gamento). (2) O critério mais controverso, atos e palavras que explicam por que Jesus
o da descontinuidade ou dessemelhança, con­ encontrou um fim violento nas mãos das
centra-se naquelas palavras e ações de Jesus autoridades judaicas e romanas. Um Jesus
que não podem ser derivadas do judaísmo "brando", um mero criador de símbolos
antes dele ou do cristianismo depois dele que inventa enigmas e que, portanto, não
(p.ex., proibição dos juramentos e dos je­ ameaçou radicalmente as pessoas, especial­
juns). Mas este critério deve ser usado com mente os poderes constituídos, não poderia
cuidado, visto que Jesus era um judeu do ser histórico. É óbvio que todos estes crité­
séc. I de quem procedeu o movimento pro- rios devem ser usados em conjunto como
tocristão. Uma ruptura total com a história critérios que se autocorrigem mutuamente.
anterior e posterior a ele é a priori imprová­
vel. Por isso, deve-se ter cuidado acerca da (L entzen-D eis, F ., in K ertelge, Rückfrage 78­
insistência sobre o que é "singular" a Jesus. 117. M eyer, Aims 7 6-94. P errin, Rediscovering 15­
Visto que estamos mal informados acerca 53. Sanders, Jesus and Judaism 1-58. Schillebeeckx,
das práticas e vocabulário religioso judai- Jesus 77-100.)
co-aramaico popular na Galileia do séc. I
d.C., é mais prudente falar do que é "no­ 8 (IV) Legitimidade e propósito da
tavelmente característico" de Jesus (p.ex., busca. É estranho que fundamentalistas e
"Abba", "em verdade eu vos digo"). Seme­ seguidores rigorosos de R. Bultmann este­
lhantemente, ao lidar com as ações de Jesus, jam unidos na oposição à busca pelo Jesus
é melhor falar do "tipo de coisas que Jesus histórico. Ambos os grupos enfatizam a su­
fez" em vez de alegar que uma narrativa ficiência dos Evangelhos, mas por razões
particular descreve exatamente o que Jesus opostas. Os fundamentalistas equiparam
fez numa época em particular. (3) O crité­ de maneira ingênua e não crítica o Cristo
rio da atestação múltipla ou múltiplas fontes dos Evangelhos com o Jesus histórico, não
se concentra no material testemunhado por dando lugar ao desenvolvimento e à rein-
diversas correntes independentes de tradi­ terpretação de tradições de Jesus na protoi­
ção cristã antiga, frequentemente em for­ greja. Bultmann, pelo contrário, postula um
abismo escancarado entre o Jesus histórico entendimento, a busca pelo Jesus histórico
e o Cristo da fé (—> Crítica do NT 70:46-52). pode e deve fazer parte da reflexão teológica
Embora algumas coisas possam ser co­ moderna do cristão, que é necessariamente
nhecidas acerca da pregação de Jesus, não marcada por uma consciência histórica ex­
se pode (e não se deveria tentar) conhecer plícita desconhecida de eras anteriores.
muito acerca do Jesus histórico. Caso con­
trário, a pessoa é culpada de tentar provar a 10 A busca pelo Jesus histórico ajuda a
fé pela razão; ela não está disposta a aceitar dar conteúdo concreto a nossas afirmações
a palavra de Deus, que autentica a si mes­ cristológicas e, assim, exerce um papel útü na
ma, à parte das obras da pesquisa humana. teologia. Em contraste com qualquer tendên­
cia de evaporar Jesus num símbolo gnóstico ou
9 A posição fundamentalista se tornamítico atemporal, a busca reafirma o escânda­
insustentável pelas formas contrastantes lo da palavra feito carne, a chocante identifi­
e até mesmo conflitantes das tradições dos cação da plenitude da revelação de Deus com
Evangelhos {p.ex., as diferentes formas das um judeu particular da Palestina do séc. I (—>
palavras da instituição eucarística; a igno­ Pronunciamentos da Igreja, 72:39). A busca
rância de Jesus em Marcos e sua onisciência desempenha uma função semelhante com re­
em João). A abordagem bultmanniana foi lação a tendências místicas ou docéticas entre
abandonada até mesmo por alguns pós- cristãos leais que pensam estar preservando a
bultmannianos (—* Crítica do NT, 70:64-70), fé ao enfatizar a divindade de Cristo em detri­
visto que há simplesmente informações his­ mento de sua verdadeira humanidade. O Je­
tórica e teologicamente relevantes acerca de sus não conformista que se associou à "classe
Jesus relevante nos evangelhos para que os baixa" religiosa e social da Palestina também
pesquisadores as ignorem. Além disso, a re­ serve como corretivo para um cristianismo
jeição da busca por parte de Bultmann como que sempre está tentada a tomar-se respeitá­
teologicamente ilegítima nasce de princípios vel pelos padrões deste mundo. Mas o Jesus
teológicos discutíveis. A busca pelo Jesus histórico não deve ser cooptado ingenuamen­
histórico, entendida de maneira apropria­ te pelo revolucionário social. O fato é que o
da, não procura provar a fé. A fé é um ato Jesus histórico escapa a todas as nossas cate­
repleto de graça que assente à palavra reve­ gorias e programas bem ajeitados; ele subme­
ladora de Deus com base na autoridade de te todos eles ao questionamento e ao juízo ao
Deus somente; ela desfruta, portanto, de um desmascarar suas limitações. Nisto ele é, de
tipo singular de certeza. A busca pelo Jesus fato, "escatológico". Embora à primeira vista
histórico faz parte de uma pesquisa empí­ seja atrativamente relevante, o Jesus histórico
rica e histórica e, portanto, pode gerar ape­ sempre impressionará o inquiridor cuidado­
nas graus variados de probabilidade. Tanto so como estranho, perturbador e até mesmo
crentes quanto não crentes podem se envol­ ofensivo. Sendo o exato oposto do Jesus das
ver na busca, mesmo que sua interpretação "vidas liberais" (que serviram como um tan­
dos resultados e sua integração dos resulta­ que de águas claras no qual os estudiosos
dos em sua cosmovisão total sejam diferen­ olhavam para verem a si mesmos), ele frustra
tes. Para o crente, o Jesus da história não é e todas as tentativas de se transformar a fé cris­
não pode ser o objeto direto da fé cristã. Du­ tã numa ideologia relevante, de direita ou de
rante um milênio e meio, os cristãos nunca esquerda, e é um constante cataüsador para a
ouviram falar sobre o Jesus histórico. Além renovação do pensamento teológico e da vida
disso, como o cristão atual poderia fazer do da igreja.
Jesus histórico o objeto de fé quando o retra­
to varia tão radicalmente de estudioso para (F uller, R. H., Thomist 48 [1984] 368-82. Johnson,
estudioso e de uma geração para outra? To­ E ., ibid. 1-43. Schnackenburg , R., in K ertelge,
davia, à medida que a teologia é fé que busca Rückfrage 194-220.)
O JESU S DA HISTÓRIA: ORIGEM E M IN ISTÉRIO

11 (I) Origem. aponta para uma descendência levítica


(A) Nascimento. O nome Jesus (em gre­ (.MNT 154, 20-61).
go:. Iêsous; em hebraico: Yêsüa ‘ [Yhwh ajuda
ou salva], frequentemente abreviado para 12 (B) Condição de leigo. Jesus foi
Y êsü‘ [BDF 53.2b]), era comum na virada considerado um leigo durante sua vida ter­
da era entre os judeus. Jesus de Nazaré nas­ rena (o que é genuíno tanto num conceito
ceu próximo ao final do reinado de Hero- cristão quanto judaico dele; veja Hb 8,4).
des o Grande (37-4 a.C.), portanto em torno Isto ajuda a esclarecer sua referência des-
de 6-4 a.C. (Quanto a esta data, —> História, preziva tanto ao sacerdote quanto ao levita
75:160.). Sua mãe era Maria, seu suposto pai na parábola do bom samaritano (Lc 10:30­
era José. Nada mais pode ser afirmado com 37, algo como uma "piada" anticlerical; veja
certeza acerca de suas origens de acordo com J. Crossan, Semeia 2 [1974] 82-112). Ainda
os limites conhecidos descritos na seção 3 mais importante, ajuda a explicar por que
acima, visto que as narrativas evangélicas somente uma vez na tradição sinótica Jesus
da infância (Mt 1-2; Lc 1-2) refletem forte­ é apresentado em diálogo exclusivamente
mente a teologia posterior. O capítulo 1 de com os saduceus (o partido majoritaria-
cada uma delas afirma que Jesus foi conce­ mente sacerdotal), com óbvia hostilida­
bido por meio do Espírito Santo sem um pai de de ambas as partes (Mc 12,18-27 par.).
humano - informação que não se encontra O mais importante, ajuda a explicar por
em nenhuma outra parte no NT. E duvido­ que a aristocracia sacerdotal e leiga em Je­
sa a alegação dos estudiosos liberais de que rusalém (í.e., os saduceus) desempenhou
isto seja uma invenção puramente teológi­ um papel muito proeminente no sentido de
ca, mas para o cristão a segurança acerca da levar Jesus perante Pilatos. O conflito mo­
concepção virginal vem mais do ensino da ral entre Jesus e seus oponentes tinha ele­
Igreja que da exegese científica (veja BBM mentos não apenas de galileu versus judeu,
517-33; CBQ 48 [1986] 476-77, 675-80). O ca­ de pobre versus rico, de carismático versus
pítulo 2 de ambas as narrativas tem Jesus institucional, de escatológico versus deste
como nascendo em Belém, um detalhe no­ mundo, mas também de leigos versus sacer­
vamente não declarado em nenhuma outra dotes.
parte no NT e simbolicamente relacionada
ao status de Jesus como o Messias davídico 13 (C) Anos de formação. Jesus pas­
real. As diferentes genealogias em Mateus sou cerca de 30 anos de sua vida em Naza­
1:2-16 e Lucas 3:23-38 são de historicidade ré, uma obscura cidade numa colina no sul
questionável (veja BBM 84-95). Mas mui­ da Galileia. Quase nada sabemos sobre este
tos credos antigos do NT (Rm 1:3-4 e 2Tm período. Ele foi por profissão um tektõn (Mc
2:8) proclamam que Jesus é da "semente de 6,3), muito provavelmente um carpinteiro,
Davi" num contexto de fé na ressurreição. embora o termo abranja qualquer artesão
Uma interpretação antiga da ressurreição que trabalhe ou construa com materiais só­
em termos da entronização do real Filho lidos. O pai legal de Jesus, José, não aparece
de Davi - de modo algum uma interpre­ durante o ministério público; presumivel­
tação óbvia ou necessária - pode ter sido mente ele tenha morrido. Em contraste, sua
facilitada pelo fato de Jesus ter vindo de mãe, Maria, é mencionada, bem como seus
um ramo colateral obscuro da casa de Davi irmãos, Tiago, Joset (= José), Judas e Simão
(veja BBM 513-16, 505-12). Em todo caso, (Mc 6,3; Mt 13,55). Também se mencionam
sua linhagem davídica é reconstituída por irmãs, mas seus nomes não são citados.
meio de seu pai legal, José. A única indi­ (Desde o período patrístico há controvérsia
cação no NT acerca de Maria (Lc 1,5.36) sobre o relacionamento preciso destes per­
sonagens [irmãos ou irmãs, filhos de José de modo habitual o aramaico na conversa­
de um casamento anterior, primos]; quan­ ção e nos discursos, uma vez que esta era
to à importância mariológica, veja MNT a língua comum dos camponeses galileus
65-72.). A maioria das referências evangé­ (Fitzmyer, WA 29-56). O grego deve ter sido
licas indica que os parentes de Jesus não o usado às vezes pelos camponeses judeus na
seguiram durante o ministério público (Mc Galileia para fins comerciais, e Jesus pode
3,21.31-35; Jo 7,5; embora cf. Jo 2,12). Isto ter tido algum conhecimento de grego.
permanece em marcante contraste com sua É improvável, contudo, que ele o tenha usa­
influente posição que tiveram mais tarde na do regularmente em seu ensino. No todo,
igreja cristã. Uma referência de passagem nada havia em sua vida anterior ou em sua
de Paulo em ICor 9,4 indica que os irmãos formação educacional que preparasse a po­
de Jesus eram casados. Nada jamais é dito pulação contemporânea de sua cidade para
de maneira explícita no NT acerca do status a surpreendente trajetória que ele logo em­
marital de Jesus. Contudo, em virtude das preendeu: por isso, o impacto e o escândalo
várias referências a seu pai, mãe, irmãos e com que se deparou quando retornou para
irmãs, o silêncio total acerca de uma espo­ casa após uma viagem de pregação (Mc 6,1-
sa pode ser entendido como uma indicação 6a par.).
de que Jesus permaneceu solteiro (contra
W. Phipps, Was Jesus Married? [New York, 15 (II) Começo do ministério. Em
1970]). Seu status incomum de celibatário algum momento por volta de 28-29 d.C.,
- e os escárnios que isto ocasionava - pode durante o reinado do imperador Tibério
ser o contexto original para o dito errático (14-37), Jesus emergiu da obscuridade para
sobrte os eunucos (Mt 19,12). Vermes (Jesus receber o batismo de João Batista, um perso­
the Jew 99-102) considera que uma vocação nagem também conhecido a partir de Josefo
profética pode ter sido entendida como (Ant. 18.5.2 § 116-19; -> História, 75:169-70).
incluindo o celibato, mas a maior parte de Um asceta rigoroso, com características dos
suas evidências vem de séculos posteriores profetas do AT, especialmente Elias, João
(Mishná e Talmude; todavia veja Jr 16,1). Batista chamou um Israel pecaminoso ao
Qumran também é invocado como parale­ arrependimento e a uma purificação (batis­
lo, mas o celibato de Qumran é uma ques­ mo) definitiva em vista do iminente juízo
tão complexa (—» Apócrifos, 67:108). irascível de Deus. Neste sentido limitado, a
mensagem e a imagem de João Batista eram
14 Nada sabemos sobre a educação "apocalípticas". O próprio fato de que Jesus
formal de Jesus. Seus inimigos, em João se submeteu ao batismo de João Batista, um
7,15, ficam maravilhados de como Jesus acontecimento cuja importância dos per­
conhecia a Escritura uma vez que ele nunca plexos evangelistas vão progressivamente
estudou formalmente - embora eles pro­ diminuindo (p.ex., Mt 4,14-15), indica que
vavelmente estejam se referindo ao treina­ Jesus basicamente aceitou a missão e a men­
mento técnico na lei como os escribas re­ sagem de João Batista. E especialmente esta
cebiam mediante o estudo sob um mestre matriz da própria missão de Jesus que tor­
reconhecido. Jesus foi intitulado de modo na altamente suspeitas as tentativas atuais
honorífico como "Rabi", mas o título no ju­ de eliminar ou suavizar o elemento da es-
daísmo pré-70 d.C. era usado de modo mais catologia futura na pregação de Jesus (p.ex.,
vago do que no judaísmo posterior (cf. sua N. Perrin, Jesus and Language 15-88). Em cor­
aplicação a João Batista em Jo 3,26; veja BGJ reta oposição a estas tendências encontra-se
74-75; M. Hengel, The Charismatic Leader and Sanders (Jesus and Judaism 90-156). Alguns
His Followers [New York, 1981] 42-50). Lu­ dos primeiros e mais íntimos discípulos de
cas 4,16-21 pressupõe que Jesus lia e enten­ Jesus eram aparentemente ex-discípulos de
dia o hebraico bíblico. Jesus deve ter usado João Batista (Pedro, André, Filipe e Natanael
em Jo 1,35-51). Não sabemos se João Batis­ causa tensão" com muitas ressonâncias alu­
ta alguma vez reconheceu Jesus como um sivas, em vez de uma doutrina claramente
personagem especial. João Batista pode não definida ou um conceito abstrato. O reino
ter esperado qualquer agente adicional no de Deus se refere a uma ação: "Deus está
drama escatológico exceto o próprio Deus governando poderosamente como rei".
(o "aquele que vem"?). O símbolo é primeiramente dinâmico em
vez de espacial - governo majestoso em vez
(Sobre João Batista: H o l l e n b a c h , P., ANRW
de reino como território - embora a imagem
[altamente imaginativo]. K o ester ,
1 1 / 2 5 . 1 ,1 9 6 - 2 1 9
IN T 7 1 - 7 3 . M eier , J. P., JBL 9 9 [1 9 8 0 ] 3 8 3 - 4 0 5 [espe­ espacial seja também usada para explicá-lo.
cialmente n. 1 ,8 quanto a bibliografia.]. M er k le in , A natureza poética, alusiva, do símbolo não
H . , B Z 2 5 [1 9 8 1 ] 2 9 - 4 6 .) significa que ele não transmita um conteú­
do inteligível (corretamente Sanders con­
16 Quando Jesus iniciou sua ativida­ tra Perrin). Ele presume a verdade de que
de, ele inicialmente imitou João Batista ao Deus sempre foi rei de Israel e do universo.
batizar (Jo 3,22; 4,1; mas confira a perplesi- Mas a criação rebelde de Deus (e Israel em
dade do redator final em 4,2). Isto pode ter particular) abandonou seu governo justo e
ocasionado alguma rivalidade entre os gru­ caiu sob o domínio de Satanás e do pecado.
pos de João Batista e Jesus, pelo menos du­ Fiel a suas promessas e profecias na alian­
rante o período em que os ministérios dos ça, Deus está agora começando a fazer sua
dois líderes se sobrepuseram (Jo 3,22-30; reivindicação legítima sobre suas criaturas
mas Mc 1,14 par. esquematizam fazendo o rebeldes e logo estabelecerá seu domínio
ministério de Jesus começar somente após a plena e abertamente ao reunir um Israel
prisão de João Batista). Embora Jesus tenha disperso novamente em um povo santo.
dado continuidade à mensagem escatoló- Todavia, embora o reino de Deus ("reino do
gica de João Batista, houve uma mudança céu", uma perífrase piedosa semítica para
importante quanto à ênfase. João Batista evitar o nome de Deus, é peculiar à tradição
enfatizou o terrível julgamento e punição mateana) seja central para a mensagem de
iminentes a serem impostos a pecadores; a Jesus, Jesus não insiste na imagem de Deus
promessa de salvação era muda e implícita. como um rei terrível, distante e todo-pode-
Jesus enfatizou, em vez disso, a alegria da roso. No núcleo da "boa nova" de Jesus está
salvação, que está iniciando agora e logo a proclamação de que o rei divino se deleita
será consumada. na revelação de si mesmo como pai amo­
roso, um pai que se regozija em recuperar
17 (III) M en sag em fu n d a m e n ta l de seus filhos perdidos (p.ex., o material cen­
Je s u s . tral por trás de Lc 15,1-32).
(A) R e i n o d e D e u s . Jesus proclamou
estas boas novas em termos da vinda do (Quanto à seção 1 acima, veja Perrin, Jesus
reino de Deus e a consequente necessidade and Language; Sanders, Jesus and Judaism 125-26,
de arrependimento por todo Israel (contra 222-41. Também Beasley-M urray, G., Jesus and
the Kingdom ofGod [Grand Rapids, 1985]. Chilton,
Sanders [Jesus and Judaism 106-19]). De ma­
B. [ed.], The Kingdom ofGod [Philadelphia, 1984].
neira especialmente contrária à herança do
Merklein, H ., Die Gottesherrschaft ais Handlungs­
protestantismo liberal do séc. XIX, é vital prinzip [FB 34; W iirzburg, 1978]; Jesu Botschaft
entender que Jesus dirigiu sua pregação so­ von der Gottesherrschaft [SBS 111; Stuttgart, 1983].
bre o reino a Israel como um todo e não a Mitton, C. L., Your Kingdom Come [Grand Rapids,
indivíduos isolados (contra G. Klein, EvT 30 1978]. Schnackenburg, R., God ’s Rule and Kingdom
[1970] 642-70). É quase impossível definir o [New York, 1963].)
que Jesus quis dizer por reino (melhor: do­
mínio ou reinado) de Deus, visto que, como 18 ( B ) P a r á b o l a s . Pregador e mestre
N. Perrin aponta, este é um "símbolo que habilidoso, Jesus usou muitas formas de
discurso das tradições sapiencial e proféti­ do drama escatológico (—» Pensamento do
ca de Israel para comunicar sua mensagem NT, 81:64-66).
(bem-aventuranças, ais, oráculos etc.). Mais
proeminente foi seu uso de "parábolas" 19 (IV ) A to s d e Je s u s .
(em hebraico: mãsãl, plural: mèsãlitri). No O abraço amo­
(A ) C o m u n h ã o d e m e s a .
AT, "parábola" é uma forma de discurso de roso de um Deus que acolhe pecadores era
sabedoria extremamente elástica que inclui expresso na vida do próprio Jesus. Ele se
provérbios curtos, metáforas, cânticos de comprazia em se associar e comer com as
escárnio, provérbios de repreensão e orácu­ pessoas da "classe baixa" religiosa de sua
los proféticos. Alegorias enigmáticas, que época, os "publicanos e pecadores" (não
se originam de uma matriz histórica e têm confundir com 'ammê h ã ’ãres, o povo co­
um ímpeto escatológico, afloram especial­ mum, uma outra audiência cultivada por
mente em Ez. Continuando esta tradição, Jesus). Esta prática de associar-se com os
Jesus usa parábolas em suas múltiplas for­ "perdidos" ou marginalizados em termos
mas (incluindo provérbios, máximas e afo­ religiosos colocou Jesus num constante es­
rismos) para chamar um Israel pecamino­ tado de impureza ritual, na opinião dos ob­
so à decisão neste crítico período final. Ele servantes rigorosos da lei. A insistência de
emprega estes ditos e histórias misteriosas Jesus em oferecer admissão ao reino a "pe­
para provocar as mentes de seu público, cadores" (judeus que eram considerados
para desnortear seus ouvintes arrogantes, pessoas que tinham se afastado da aliança)
destruindo a falsa segurança e abrindo seus sem exigir que eles empregassem os meca­
olhos. Com um tom de urgência, as parábo­ nismos usuais do arrependimento e sacri­
las advertem que a demora é perigosa, pois fício judaicos foi provavelmente a princi­
qualquer momento pode ser tarde demais. pal razão pela qual os judeus zelosamente
Seus ouvintes deve arriscar tudo numa de­ piedosos se opuseram a este pregador não
cisão de aceitar a mensagem de Jesus. Ne­ conformista. A mensagem de Jesus era de
nhum sacrifício é grande demais, pois em alegria: o banquete escatológico estava pró­
breve as condições atuais deste mundo pe­ ximo, um banquete antecipado nas refeições
caminoso serão revertidas (uma mensagem que ele compartilhava com estes pecadores.
especialmente clara na forma primitiva das De acordo com esta disposição festiva, ele
bem-aventuranças; veja L. Schottroff, EvT não praticou o jejum voluntário nem o im­
38 [1978] 298-313). O triste será feito feliz pôs a seus discípulos (Mc 2,18-20 par.), pois
por Deus, mas o presunçoso e satisfeito con­ o tempo de preparação penitencial acabara.
sigo mesmo será feito miserável. Longe de Seus costumes não ascéticos não apenas o
serem histórias agradáveis, as parábolas de distinguiam de João Batista, mas também o
Jesus eram, às vezes, violentos ataques ver­ expuseram a ser ridicularizado pelos con­
bais contra todo o mundo religioso suposto vencionalmente mais devotos. A seus olhos
por seus ouvintes. Elas indicavam uma ra­ ele era um bon vivant, um "glutão e beber-
dical inversão de valores, produzindo um rão" (Mt 11,19 par.; veja J. Donahue, CBQ 33
novo mundo, numa revolução operada por [1971] 39-61).
Deus, não por seres humanos. De fato, as
parábolas não falavam simplesmente acer­ 20 ( B ) M i l a g r e s . E neste contexto de
ca deste novo mundo do reino; elas já co­ dádiva da alegria escatológica, de liberta­
municavam algo do reino às pessoas que se ção do mal e de restauração de Israel que
permitiam ser desafiadas e atraídas para a os milagres de Jesus devem ser entendidos.
mensagem parabólica de Jesus. Esta "revi­ As ações extraordinárias de Jesus não facil­
ravolta" ou conversão na vida das pessoas mente explicadas por meios humanos, es­
era desagradável, porém salvífica. Dessa pecialmente exorcismos e curas, nunca fo­
forma, as próprias parábolas faziam parte ram negadas na Antiguidade, nem sequer
por seus inimigos, que atribuíam seus mi­ primordialmente quer no ensinamento
lagres ao poder do diabo (Mc 3,20-30 par.) (Bultmann), quer nos atos (M. Smith, Sanders)
e, em polêmicas posteriores, à magia. Jesus de Jesus, dando pouca atenção ao outro as­
e seus discípulos certamente os atribuíam pecto. Os dois misturam-se num todo or­
ao Espírito de Deus (Mc 3,29-30; Mt 12,28). gânico, do qual uma metade não pode ser
Bultmann e outros rejeitam os milagres simplesmente deduzida da outra metade.
como propaganda inventada num mundo Tomadas juntas, as palavras e as ações de
que esperava prodígios de personagens Jesus afirmavam que o reino era, em certo
religiosos. Mas como N. Perrin indicou, os sentido, tanto futuro quanto já presente em
antigos críticos da forma estavam errados seu ministério e por meio dele. Os ditos de
ao relegar exorcismos e curas a um estágio Jesus orientados para o futuro não podem
final da tradição. Nada é mais certo acerca ser totalmente deletados; nem os ditos que
de Jesus que o fato de ele ter sido conside­ afirmam a salvação agora ser evaporados
rado por seus contemporâneos como um numa filosofia existencial atemporal (assim
exorcista e curador. Ao deixar-se arrebatar diz corretamente Sanders [ANRW 11/25.1,
por supostos paralelos pagãos (p.ex., Apo- 419], que, contudo, negligencia a presença
lônio de Tiana), é possível perder o contex­ da salvação no ministério de Jesus). Não
to geral dos milagres de Jesus em sua vida obstante seu uso eclético da imagem apo­
e ensino escatológico judaico (um perigo na calíptica, Jesus não forneceu um cronogra-
abordagem de M. Smith e Petzke). Os mila­ ma exato para o drama escatológico. Desse
gres de Jesus não eram simplesmente ações modo, ele não foi um apocalíptico extremo,
bondosas feitas para ajudar indivíduos; eles apresentando um cenário e uma cosmolo­
eram meios concretos de proclamar e efeti­ gia detalhada. De fato, Jesus afirmou que
var o triunfo de Deus sobre os poderes do desconhecia o tempo do julgamento final
mal na hora final. Os milagres eram sinais (Mc 13,32 par.) - um dito difícil de descartar
e realizações parciais do que estava para se como uma expressão da fé da igreja em seu
cumprir plenamente no reino. Os comen­ Senhor ressuscitado (—> 35 abaixo).
taristas que aceitam tudo isto, entretanto,
frequentemente procuram explicar os exor­ 22 (V ) E n s in o m o r a l e a le i.
cismos e as curas em termos de sugestão A luz do julga­
(A ) R a d ic a liz a ç ã o d a le i .
psicológica, ao mesmo tempo em que rejei­ mento vindouro e da livre oferta de perdão
tam os milagres mais difíceis de enquadrar e salvação por parte de Deus nesta hora fi­
que envolvem a natureza. Este juízo não nal, Jesus especificou como as pessoas que
está baseado na exegese histórica, mas num experimentaram a conversão deveriam vi­
a priori filosófico acerca do que Deus pode ver. Jesus o judeu basicamente confirmou a
e não pode fazer neste mundo - um a priori lei mosaica como a vontade de Deus, mas
que raramente é defendido com lógica ri­ rejeitou qualquer fragmentação casuística
gorosa, se é que alguma vez o foi. Em vez da vontade de Deus em incontáveis man­
disto, apela-se ao "homem moderno", que damentos triviais e observâncias rituais.
se parece de modo suspeito com o homem Refletindo a ideia apocalíptica de que o
do iluminismo do séc. XVIII. tempo do fim corresponde ao tempo pri­
mordial, Jesus procurou radicalizar a lei
(—> Pensamento do NT, 81:89; também H ol­ recorrendo à vontade de Deus na criação
lenbach, P., JAAR 49 [1981] 567-88. P etzke, G., Die e a seu propósito original ao dar a lei. Ao
Traditicmen über Apollonius von Tyana und das Neue mesmo tempo, Jesus procurou internalizar
Testament [Leiden, 1970]; NTS 22 [1975-76] 180-204.) a lei ao alcançar o coração humano para pu­
rificar a fonte de toda ação. As vezes, esta
21 (C ) C o e r ê n c ia d a s p a la v r a s e a to s . radicalização simplesmente aprofundava ou
Metodologicamente, é incorreto concentrar-se ampliava a tendência da lei (p.ex., a equipa­
ração de palavras iradas com assassinato ou o amor irrestrito a Deus e ao próximo (Mc
de pensamentos impuros com adultério, Mt 12,28-34 par.; Lc 10,25-37; Mt 5,38-42; 7,12
5,21-22.27-28). As vezes, esta radicalização par.), de fato, até mesmo o amor aos inimi­
alcançava o ponto de revogar a letra da lei gos (Lc 6,27-28.32-36 par.; veja R. Fuller [ed.],
(proibição do divórcio, Lc 16,18; proibição Essays on the Love Commandment [Philadel­
de juramentos, Mt 5,32), talvez até mesmo phia, 1978]). Na verdade, a palavra "amor"
a rescisão de leis alimentares (Mc 7,15; veja não ocorre com frequência nos ditos autên­
J. Lambrecht, ETL 53 [1977] 25-82). O que ticos de Jesus. Porém, se alguém reunir to­
é notável aqui é que Jesus não baseia suas dos os ditos autênticos de Jesus que tratam
surpreendentes ordens e ensinamentos na de misericórdia, compaixão, perdão e obri­
reivindicação autenticadora dos profetas gações semelhantes para com os outros, o
do AT ("A palavra do Senhor veio a mim, resultado retrata um Jesus que enfatizava
dizendo...") ou no apelo escriba a autorida­ a necessidade de mostrar misericórdia sem
des anteriores ("O Rabi X disse em nome medida, amor sem limites. Estas veementes
do Rabi Y") ou em argumentos contorcidos exigências morais faziam sentido e eram
baseados em uma série de textos da Escri­ possíveis apenas no contexto da mensagem
tura. Jesus reivindicou conhecer de forma escatológica proclamada por Jesus e da rea­
direta, intuitiva e sem os órgãos usuais que lidade escatológica que ele reivindicava tra­
medeiam a autoridade, qual era a vontade zer. Estas ordens só eram exequíveis apenas
de Deus em qualquer situação - uma rei­ para as pessoas que tinham experimentado
vindicação resumida em sua solene afirma­ por meio de Jesus o perdão misericordioso
ção "Amém, eu vos digo". Esta forma de e a aceitação incondicional de Deus. Exi­
discurso ("Amém" não como uma resposta, gência radical procedia de graça radical. Se
mas como introdução a uma nova afirma­ a religião se tornou uma questão de graça,
ção) era característica de Jesus e não parece então a ética tornou-se uma questão de gra­
ter sido comum antes de sua época - em­ tidão. Esta moralidade era escatológica não
bora tenha sido imitada pela tradição dos no sentido de que sua validade dependesse
Evangelhos e pelos evangelistas (J. Jeremias, da concepção de que havia um breve tem­
ZNW 64 [1973] 122-23, contra K. Berger, Die po antes do fim do mundo (ética ad interim
Amen-Worte Jesu [Berlin, 1970] e V. Hasler, de A. Schweitzer), mas no sentido de que
Amen [Zürich, 1969]). o reino futuro já havia invadido e transfor­
mado as vidas das pessoas que aceitavam a
(B an k s , R., Jesus and the Law in the Synoptic Tradition boa nova de sua vinda. Deste modo, o reino
[New York, 1975]. B erger , K., Die Gesetzesauslegung futuro-todavia-presente, os milagres como
Jesu [Neukirchen, 1972]. D a v ie s , W. D ., The Setting sinais do poder e da presença do reino e
of the Sermon on the Mount [Cambridge, 1966]
a moralidade escatológica formavam um
D u p o n t , J., Les Beatitudes [3 vols.; Paris, 1969-73].
todo coerente. Negligenciar o ensino moral
G u n d r y , R., The Sermon on the Mount [Waco,
1982]. H o f f m a n n , P . e V. E id , Jesus von Nazareth de Jesus ou separá-lo de sua atividade mi­
und eine christliche Moral [QD 66; Freiburg, 1975]. raculosa é violentar o conjunto significativo
H ü b n e r , H ., Das Gesetz in der synoptischen Tradition que o ministério de Jesus formava (contra
[Witten, 1973]. K ertelge, K. [ed.], Ethik im Neuen Smith, Magician).
Testament [ Q D 102; Freiburg, 1984]. M e i e r , J., Law
and History in Mathew ’s Gospel [Rome, 1976]. M o o , 24 (C ) J e s u s e os p a r tid o s ju d a ic o s .
D ., "Jesus and the Authority of the Mosaic Law", Quanto à atitude de Jesus para com a lei,
JSN T 20 [1981] 3-49, P ip e r , J., 'Love Your Enemies'
fizeram-se tentativas de identificar Jesus
[Cambridge, 1979].)
com quase todos os movimentos no judaís­
mo contemporâneo (—>História, 75:145-51).
23 (B) A m o r s e m l i m i t e s e m i s e r i c ó r ­ Ele foi identificado por vários autores como
d ia . De maneira positiva, Jesus enfatizou um fariseu (às vezes seguindo Shammai, às
vezes Hillel), ou um "fariseu não confor­ pleta, suprir suas necessidades e participar
mista" semelhante a um hãsid (Wilcox, "Je­ de seu ministério. Pelo menos alguns foram
sus" 185), ou um hillelita vigoroso (H. Falk, diretamente chamados para agir assim por
Jesus the Pharisee [New York, 1985]). Outros Jesus (Mc 1,16-20 par.; 2,14; Mt 9,18-22 par.;
o identificam como um saduceu (que rejeita Jo 1,43). Digno de nota é a intimação radi­
o valor normativo da tradição oral dos fa­ cal, "segue-me e deixa que os mortos enter­
riseus), um essênio (que reúne o verdadei­ rem seus mortos" (Mt 8,21-22 par.), que não
ro Israel da nova aliança nos últimos dias) encontra paralelo no judaísmo nos dias de
ou um revolucionário (que anuncia o fim Jesus e é um outro exemplo da chamada de
da ordem presente e o triunfo dos pobres). Jesus para transgredir certos mandamentos
A verdade é que Jesus o judeu tinha pontos da lei por causa do reino. Semelhantemen­
de contato com quase todos os ramos do ju­ te, era contrário à prática rabínica comum
daísmo, mas não é totalmente identificável que o mestre tomasse a iniciativa de chamar
com nenhum, visto que ele previa uma si­ o seguidor e vinculasse seus discípulos per­
tuação radicalmente nova para Israel. Esta manentemente à sua pessoa, embora alguns
nova situação, a vinda do reino, é responsá­ paralelos parciais possam ser encontrados
vel pelo fato de Jesus não se ter dirigido di­ nos filósofos (p.ex., os cínicos) do período
retamente e não ter tomado posição quanto greco-romano (veja Hengel, Charismatic
à maioria das candentes questões políticas e Leader 50-57; V. Robbins, Jesus the Teacher
sociais de sua época. Ele não propôs a refor­ [Philadelphia, 1984] 75-123; M. Pesce, "Dis-
ma da sociedade contemporânea; anunciou cepolato gesuano e discepolato rabbinico",
seu fim. Entretanto, sua práxis "libertadora" ANRW 11/25.1, 351-89). Também foi nota­
em relação à lei e aos proscritos religiosos velmente diferente a aproximação natural
não podia deixar de ter certos tons e impli­ de Jesus a mulheres, sua inclusão de mu­
cações sociais. Em oposição aos revolucio­ lheres em seu séquito de viajantes e sua boa
nários, por exemplo, Jesus ensinou o amor vontade em ensiná-las (Lc 8,1-3; 10,38-42;
aos inimigos e não condenou o pagamento Jo 4,7-42; 11,1-44; Mc 15,40-41 par.) - nova­
de impostos a Roma. Este exemplo, a propó­ mente práticas contrárias ao costume rabí-
sito, mostra que descrever Jesus como um nico comum.
nacionalista ou um simpatizante revolucio­
nário é uma tentativa mal orientada de tor­ 26 (B) Os Doze. Além destes "segui­
ná-lo "relevante" para os movimentos de li­ dores" literais, Jesus formou um grupo
bertação atuais (veja M. Hengel, Victory overmais íntimo chamado os Doze (—> Pensa­
Violence [Philadelphia, 1973] 45-59; Christ and
mento do NT, 81:137-48). Embora os no­
Power [Philadelphia, 1977] 15-22; E. Bammel mes variem levemente nas listas do NT, os
e C. F. D. Moule (eds.), Jesus and the Politics
membros mais proeminentes continuam os
ofH is Day [Cambridge, 1985]; compare J. L. mesmos: Pedro, André, Tiago, João e Judas
Segundo, The Historical Jesus of the Synoptics
Iscariotes. Os fatos de o traidor de Jesus ser
[Maryknoll, 1985]; J. Sobrino, Jesus in Latinlembrado como um dos Doze (uma verda­
America [New York, 1984]). de embaraçosa que tinha de ser explicada
por um apelo apologético à profecia) e de
25 (VI) Os discípulos de Jesus e sua os Doze logo desaparecerem de vista na
missão. protoigreja depõem em favor de eles terem
(A) Seguimento literal. Alguns acei­ sido criados pelo Jesus histórico e não serem
taram de um modo inflexível e rigoroso uma retrojeção das estruturas da igreja em
a mensagem de Jesus e o desafio que ele sua vida. A escolha de precisamente doze
apresentou deixando suas famílias e seu homens por parte de Jesus simbolizava
meio de vida comum para viajar com Jesus, sua missão de reunir e reconstituir as doze
receber seu ensino de maneira mais com­ tribos de Israel no fim dos tempos, cum­
prindo assim as esperanças dos profetas e coa quanto a natureza peculiar da tradição
apocalípticos do AT (Lc 22,29-30 par.; veja joanina (veja O. Cullmann, The Johannine
Lohfink, Jesus 7-73). É digno de nota que Circle [Philadelphia, 1976]; R. E. Brown, The
Jesus não tenha simbolizado este Israel res­ Community ofthe Beloveã Disciple [New York,
taurado escolhendo onze homens e fazendo 1979]) [em port.: A comunidade do discípulo
de si mesmo o décimo segundo membro do amado, São Paulo, Paulus]. A apresentação
grupo. Em certo sentido, Jesus estava acima marcada de um ministério exclusivamente na
e além do núcleo que estava criando. Não Galileia e seus arredores, com uma única vi­
era a intenção de Jesus fundar uma nova sita a Jerusalém no final do ministério, é uma
seita separada de Israel. Antes, ele procurou construção de Marcos - frequentemente assu­
fazer de seu círculo de discípulos a realiza­ mida de maneira não crítica pelos estudiosos.
ção exemplar, central e concreta do que ele Além disso, João pode igualmente estar cor­
chamava todo Israel a ser: o povo restaura­ reto em supor que o ministério de Jesus tenha
do de Deus nos últimos dias. Dentro des­ durado pelo menos dois ou três anos (veja as
te contexto, o envio de seus discípulos por Páscoas dos judeus em 2,13; 6,4; 12,1).
parte de Jesus em uma missão limitada a
seus contemporâneos israelitas faz perfeito 28 ( D ) J e s u s e o s g e n t i o s . O fato de
sentido e é testemunhado tanto por Marcos Jesus ver sua própria missão como reunir
quanto por Q (Mc 6,7-13; Lc 9,1-6; 10,1-16 Israel explica por que ele não empreendeu
par.). Apesar da teorização moderna, não uma missão programática aos gentios ou
há contradição entre a perspectiva escatoló­ aos samaritanos. Mas ele não evitou todo
gica de Jesus e sua atribuição de papéis es­ contato com estes grupos e, às vezes, estava
pecíficos a certos seguidores na renovação disposto a realizar exorcismos ou milagres
de Israel - cf. a organização detalhada mais entre eles (Mc 5,1-20 par.; 7,24-30 par.; Mt
a visão apocalíptica na comunidade judaica 8,5-13 par.; Lc 17,11-19). Em seus ais sobre
de Qumran. as cidades incrédulas da Galileia, Jesus ale­
gou que o destino dos gentios no dia do
27 ( C ) O c í r c u l o m a i s a m p l o . Nem to­ juízo seria comparado favoravelmente com
dos que aceitaram a mensagem de Jesus se o do Israel incrédulo (Mt 1,20-24 par.). De
engajaram no discipulado literal de seguir o fato, na grande inversão escatológica, os
Jesus itinerante em suas jornadas. Ouvimos gentios seriam incluídos no banquete esca­
de discípulos ou simpatizantes que manti­ tológico com os patriarcas, enquanto que
veram suas formas de vida comum enquan­ os israelitas incrédulos seriam excluídos
to implementavam a mensagem de Jesus (Lc 13,28-30 par.). De que maneira os gen­
em suas vidas diárias e davam apoio a ele tios seriam exatamente incluídos no plano
(Lc 10,38-42; Mc 14,3-9 par.; 14,12-16 par.). salvador de Deus não está claro no ensino
As duas últimas citações nos lembram que de Jesus. Talvez ele pensasse em termos da
Jesus podia contar com a hospitalidade de peregrinação das nações ao Monte Sião nos
discípulos residentes em e ao redor de Jeru­ últimos dias como está profetizado em Is
salém, um argumento que apoia a apresen­ 2,1-4 (veja J. Jeremias, Jesus’ Promise to the
tação de João de Jesus visitando Jerusalém Nations [SBT 24; London, 1967]).
várias vezes durante um ministério de múl­
tiplos anos (admitindo como verdadeiro o 29 (V II) A id e n tid a d e d e Je s u s .
desejo de Jesus de reunir todo o povo de (A) O p r o b l e m a . O centro e o foco da
Deus, seria de fato estranho se ele não visi­ mensagem e ministério de Jesus estavam
tasse a capital da nação com frequência.). A no reino vindouro de Deus, no triunfo do
existência destes discípulos também ajuda Pai em misericórdia e juízo, e na reunião
a explicar tanto a rápida gravitação da lide­ do povo de Deus no fim dos tempos. Em
rança da igreja para Jerusalém após a Pás­ outras palavras, Jesus era totalmente dire­
cionados para a alteridade; ele não fez de Jesus desfrutou de uma profunda experiên­
si mesmo o objeto direto de sua proclama­ cia de Deus como seu próprio pai. Ele ousou
ção. Jesus tinha uma theo-logia direta (Deus dirigir-se a Deus com a íntima, mas reverente
como objeto de sua pregação), que impli­ palavra aramaica A bbã ’ ("meu próprio pai
cava uma cnsío-logia indireta ou implícita querido"), um uso religioso - tanto quanto
(Jesus como o agente final de Deus). Assim, sabemos - desconhecido e provavelmente
a identidade de Jesus foi absorvida e defi­ ofensivo aos judeus piedosos de seus dias.
nida por sua missão. Ele não oferece indi­ Uma palavra usada para se dirigir a pais
cação de sofrer uma crise de identidade ou humanos, ela não era usada para se dirigir a
de uma necessidade desesperada de definir Deus na liturgia da sinagoga. Jesus também
a si mesmo. Parece estar completamente se­ ensinou seus discípulos a imitar seu ínti­
guro de quem ele era. mo relacionamento com Deus como Abba.
Infelizmente, ninguém mais estava. A práxis e o ensino surpreendentes de Jesus
Como atestam todo o NT, Josefo, os escritos nasceram desta total confiança em Deus e
rabínicos e a literatura pagã, tanto amigos entrega a Deus como Pai.
quanto inimigos procuravam entendê-lo
usando várias categorias e títulos, mas sem 31 Aqui, contudo, exige-se cuidado (veja
uma satisfação completa. A razão para esta Conzelmann, Jesus 49-50; J. A. Fitzmyer, in
confusão jaz num paradoxo básico apresen­ À cause de l ’ Evangile [Festschrift J. Dupont;
tado por Jesus. Embora raramente falasse LD 123; Paris, 1985] 15-38). Algumas pas­
de seu status, ele implicitamente fez de si sagens em que Jesus usa "Pai" para Deus
mesmo a figura central no drama escato­ são provavelmente secundárias, como indi­
lógico que anunciou e inaugurou. Foi por ca uma comparação de passagens paralelas
meio de sua pregação e cura que o reino e tendências redacionais (especialmente
estava irrompendo nesse momento. Seus de Mateus e João). Além disso, nos quatro
ouvintes seriam julgados no último dia se­ Evangelhos, Abba ocorre apenas em Marcos
gundo a forma como reagiram às palavras 14,36 (onde Jesus está sozinho!) e pode ser
de Jesus no momento de decisão atual (Mt explicado como uma retrojeção da prática
7,24-27 par.; Lc 9,26 par.; 12,8 par.). Quer Je­ protocristã (G1 4,6; Rm 8,15). Entretanto, o
sus tenha falado de si mesmo como o juiz uso de Jesus da imagem do pai desfruta de
do último dia, quer não, falou e agiu com múltipla atestação (Marcos, Q, as tradições
base na pressuposição de que ele seria o cri­ especiais de Mt e Lc, e João). Este uso com­
tério usado para o julgamento final. Só isso bina também com o restante do ensino e da
implicava uma reivindicação monumental práxis de Jesus. Considera-se que a "oração
a um status e função únicas no clímax da ao pai" de Lc 11,2-4 é, em geral, razoavel­
história de Israel. Como, mais precisamen­ mente próxima do que Jesus ensinou seus
te, Jesus insinuou esta função - se é que o discípulos a orar. A palavra grega peculiar
fez? Podem-se adotar algumas abordagens. ho patêr (nominativo mais artigo definido)
usada como vocativo provavelmente reflete
30 ( B ) D e u s c o m o P a i . Muitos enfati­ a forma aramaica enfática A b b ã ' (segundo
zam a experiência Abba de Jesus como uma Mc 14,36). Além disso, ditos considerados
fonte importante de sua mensagem e modo autênticos por outras razões (p.ex., Lc 22,29­
de vida (veja R. Hamerton-Kelly, Concilium 30; —> 26 acima) apresentam Jesus falando
143 [3,1981] 95-102; J. Jeremias, Abba [Gõt- de meu "Pai". À luz de tudo isto, a história
tingen, 1966] 15-67; em Port.: A mensagem traditiva de Abba provavelmente vai do Je­
central do Novo Testamento, Academia Cristã, sus histórico para o uso cristão refletido em
São Paulo; Schillebeeckx, Jesus 256-71; em Paulo, e não vice-versa. Caso contrário, tería­
Port.: Jesus a história de um vivente, Paulus, mos que inventar uma outra origem para o
São Paulo). Esta abordagem enfatiza que uso protocristão de Abba, depois de ignorar
a origem óbvia. É prudente, contudo, evitar ção por volta daquele período, como Josefo
reivindicar que nenhum outro judeu jamais demonstra (Vermes, Jesus the Jew 86-102).
tenha usado Abba ao orar a Deus. Não sa­ Mas Jesus foi além; ele se comportou como
bemos praticamente nada sobre a piedade um profeta escatológico, dotado do poder
popular privada de judeus galileus de lín­ do Espírito de Deus para proclamar a Israel
gua aramaica do séc. I d.C., e um paralelo sua chance final de arrependimento. Embo­
parcial ao uso por parte de Jesus pode ser ra o conceito do profeta escatológico possa
encontrado numa fonte rabínica muito pos­ não ter sido muito difundido no judaísmo
terior (veja Vermes, Jesus the Jew 210-11). daquela época (R. Horsley, CBQ 47 [1985]
Em geral, entretanto, é justificável reivin­ 435-63), uma figura como esta aparece nos
dicar que o uso surpreendente de Abba por escritos de Qumran e é pressuposto em Jo
Jesus expressava efetivamente sua íntima 6,14. Quanto ao título, Jesus refere-se a si
experiência com Deus como seu próprio mesmo como profeta apenas de maneira in­
pai e que este uso causou uma impressão direta e especialmente num contexto de re­
permanente sobre seus discípulos. Este re­ jeição (Mc 6,4 par.; Lc 4,24; Jo 4,44; Lc 13,33;
lacionamento especial com Deus como Pai 13,34-35 par.; 11,32). Visto que em sua época
dá contornos mais definidos à concepção havia uma crescente teologia judaica acerca
de Jesus a respeito de si mesmo. Um esboço dos profetas rejeitados e martirizados, a as­
de Jesus, contudo, não deveria se basear so­ sunção implícita de uma função profética
mente neste dado. por parte de Jesus acarretava consequên­
cias para seu possível destino. No entanto,
32 (C) Categorias e títulos. Podemos profeta é uma categoria inadequada para
ser mais específicos enquadrando Jesus em explicar todo o fenômeno de Jesus (segun­
certas categorias religiosas da época? Ele al­ do Smith, Magician 158-64).
guma vez usou categorias ou títulos claros
para se referir a si mesmo? Em um espírito 34 (b) Messias. O título e a imagem de
de ceticismo, alguns críticos preferem abrir Messias são especialmente difíceis de ex­
mão da complexa questão dos títulos ou por, pois não havia um único conceito do
relegá-la a um breve apêndice (Bornkamm, que um/o Messias deveria ser. De fato, al­
Jesus 226-31; Sanders, Jesus and Judaism 324). gumas expectativas escatológicas judaicas
Mas os amplos e complicados dados se re­ dispensavam completamente um Messias;
cusam a serem descartados tão facilmente a palavra significava apenas "ungido". No
(para uma avaliação geral, veja R. Leivestad AT, sacerdotes e, às vezes, profetas eram
ANRW 11/25.1,220-64). O fato notável é ungidos, bem como reis; por isso, Messias
que Jesus se ajusta a muitas categorias, mas não significava necessariamente um filho
nenhuma categoria se ajusta exata e exaus­ real de Davi. Qumran esperava tanto um
tivamente. Como diz Schweitzer (Jesus 13­ Messias sacerdotal de Aarão quanto um
51), Jesus é "o homem que não se ajusta a Messias real de Israel, bem como um pro­
nenhuma fórmula", embora muitas fórmu­ feta escatológico (—» Apócrifos, 67:114-17).
las convirjam nele. Devemos lembrar que Se Jesus via a si mesmo como um profeta
as expectativas escatológicas judaicas do escatológico ungido com o Espírito, como
séc. I variavam amplamente e que nenhum prometia Is 61,1-3 (cf. Lc 4,16-21; 7,22 par.),
retrato do agente escatológico de Deus era então neste sentido ele seria um Messias: o
normativo. De fato, em alguns grupos, não Messias profético ou profeta messiânico do
se esperava este agente. final dos tempos. Não há provas de que Je­
sus alguma vez tenha descrito diretamente
33 (a) Profeta. No mínimo Jesus agiu a si mesmo como Messias no sentido real
como um profeta. De modo algum ele foi davídico; nem há qualquer prova de que
o único judeu palestino a assumir essa fun­ ele tenha rejeitado o título categórica ou
claramente. Quando Pedro confessou Jesus 15). Reconhecidamente, pouquíssimos "di­
como Messias (Mc 8,29; Lc 9,20; compare tos do Filho" têm a chance de remontarem
Mt 16,16-19), Jesus reagiu com grande re­ ao Jesus histórico. Todavia, Mc 13,32 é uma
serva (preservada até mesmo em Mt 16,20). exceção. Provavelmente a igreja não teria
As vezes, pessoas de fora podem ter falado criado um dito que enfatizasse a ignorância
a Jesus ou acerca dele como "Filho de Davi" de seu Senhor ressuscitado acerca da época
(Mc 10,47-48), mas Jesus não assumiu dire­ de sua parúsia, nem teria se esforçado para
tamente o título (cf., contudo, a possível re­ inserir o título exaltado de Filho em um dito
ferência velada em Mc 12,35-37 par.). Ape­ autêntico de Jesus que enfatizava sua igno­
sar da reserva de Jesus, seus discípulos, até rância. Entretanto, o assunto não está claro,
mesmo durante sua vida terrena, parecem visto que a igreja poderia ter introduzido o
ter considerado seu mestre como o Messias título como compensação, para contraba­
davídico em algum sentido. Caso contrário, lançar a afirmação sobre a ignorância. (Mas
sua identificação, logo após a Páscoa, de Je­ uma solução muito mais simples teria sido
sus como o Messias davídico, entronizado suprimir o dito embaraçoso. A introdução
na ressurreição, não faz sentido (Rm 1,3-4; do título Filho em relação ao Pai só teria
At 2,36; 2Tm 2,8). Dizer que a ressurreição exacerbado o problema.). A luz de seu uso
levou seus discípulos a chamarem Jesus de de Abba para designar Deus, Jesus poderia,
o Messias davídico não explica nada, visto às vezes, ter aludido correlativamente a si
que na época não havia uma crença judaica mesmo como o Filho, precisamente em re­
comum concernente a um Messias davídico ferência à consumação futura.
terreno que devia morrer e ressuscitar den­
tro da história que continuaria. A ressurrei­ 36 Um segundo candidato para uma
ção só poderia funcionar como um catalisa­ "palavra sobre o Filho" autêntica é a pará­
dor e ser interpretada como a entronização bola dos vinhateiros homicidas (Mc 12,1­
do Filho de Davi se os discípulos já abrigas­ 12 par.). Os esboços de uma parábola que
sem alguma ideia de Jesus como Messias terminava simplesmente com a morte do
davídico. O fato de as ações e as reivindica­ filho são discerníveis debaixo da grande
ções de Jesus terem sido interpretadas em quantidade de redação, sem nenhuma nota
algum sentido messiânico real até mesmo de inversão, vindicação ou ressurreição (se­
por seus adversários durante sua vida ter­ gundo J. Jeremias, The Parables of fesus [Lon­
rena parece ser confirmado pela acusação don, 1963] 72-73) [em port.: As parábolas de
com base na qual ele foi levado perante Pi- Jesus, São Paulo: Paulus, 1997. Uma parábo­
latos: de ser o "rei dos judeus" (veja N. A. la como esta seria uma invenção estranha
Dahl, The Crucifieá Messiah and Other Essays da igreja pós-pascal, mas perfeitamente
[Minneapolis, 1974]). compreensível na boca de Jesus quando ele
entrou em conflito com seus oponentes pela
35 (c) O Filho ou Filho de Deus. A possi­ última vez em Jerusalém. O filho na pará­
bilidade de que Jesus tenha falado de si mes­ bola encontra-se na linhagem dos profetas
mo como o Filho de Deus em um contexto rejeitados e martirizados; consequentemen­
messiânico ou escatológico é frequentemen­ te, a mensagem combina perfeitamente
te rejeitada por completo com a alegação de com a concepção de Jesus a respeito de si
que Filho de Deus não era um título messi­ mesmo como profeta escatológico. A ideia
ânico na época de Jesus. Isto é bem possí­ de que o filho é o último na linhagem dos
vel. Mas o texto fragmentário de 4QpsDan profetas também serve para lembrar-nos de
Aa de Qumran fala de um misterioso per­ que, se Jesus usou "Filho" para designar a
sonagem real em um contexto escatológico si mesmo, isto deve ser entendido num sen­
como o Filho de Deus e o Filho do Altíssimo tido funcional, histórico-salvífico, e não no
(cf. Lc 1,32.35; J. Fitzmyer, JBL 99 [1980] 14- sentido ontológico elaborado na controvérsia
patrística posterior. De fato, Vermes (Jesus São Paulo: Custom, 2000; S. Kim, The 'Son of
the Jew 192-222) considera possível que Je­ Man ’ as the Son of God [WUNT 30; Tübingen,
sus tenha sido chamado de Filho de Deus 1983]; mais cuidadosamente, Schweizer,
durante o tempo de sua vida em um "sen­ Jesus 19-21). Outros aceitam apenas um ou
tido judaico" (piedoso operador de mila­ dois sentidos dos títulos como autênticos,
gres e exorcista). M. Hengel (The Son ofG od p.ex., JNTT (257-99) aceita os ditos sobre a
[Phialdelphia, 1976]) rejeita enfaticamente a paixão e exaltação. A. Higgins (The Son of
ideia de que o título chegou ao cristianismo Man in the Teaching of Jesus [Cambridge,
a partir de religiões pagãs. 1980]) aceita somente os ditos sobre o futu­
ro, embora, como muitos, admita que Jesus
37 Um terceiro, mas altamente discu­ usou bar ( ’e) n ãsã’ no sentido de "alguém",
tível candidato para uma "palavra sobre o "qualquer um" ou "um homem" para de­
Filho" autêntica é Mt 11,27 par., onde Jesus signar seu estado presente na terra. R. Fuller
reivindica conhecimento mútuo e exclusi­ (Thomist 48 [1984] 375-76) aceita alguns ditos
vo entre o Pai e ele mesmo, o Filho. Não é acerca do presente e do sofrimento. Outros
impossível a mescla de temas sapienciais e ainda, como R. Bultmann (Theology 1. 26-32;
apocalípticos neste versículo na boca de Je­ em Por.: Teologia do Novo Testamento, Acade­
sus, que se apresenta a si mesmo aqui mais mia Cristã, São Paulo, 2008) e H. Tõdt (The
como mediador do que como conteúdo de Son of Man in the Synoptic Tradition [London,
revelação. O dito foi preservado em Q, mas 1965]), favorecem a ideia de que Jesus usou
Q não fala em outro lugar de Jesus como "o Filho do Homem quando falou de algum
Filho". De fato, este uso absoluto ("o Filho", outro personagem escatológico que não ele
em contraposição a "meu Filho" ou "Filho mesmo. A tendência geral hoje, contudo, é
de Deus") ocorre apenas em três casos se­ ver todos os ditos que empregam o título
parados (Mt 11,27 par.7 Mc 13,32 par.; Mt Filho do Homem como vindas da atividade
28,19). Além disso, este uso absoluto talvez midráshica da protoigreja ou da teologia dos
aponte mais na direção de Filho do Homem redatores (para um levantamento, veja W.
do que Filho de Deus. Todavia, na opinião Walker, CBQ 45 [1983] 584-607). Uma con­
de muitos críticos, o conteúdo do pensamen­ cepção mediadora admite que Jesus usou
to de Mt 11,27, sendo semelhante a Mt 16,17­ Filho do Homem não como título, mas como
19, enquadra-se melhor numa situação pós- circunlocução modesta, referindo-se a si
pascal do que na boca do Jesus histórico. mesmo como membro de um grupo maior
ou simplesmente como homem. (Várias nu­
38 (d) O Filho do Homem. O título (ou anças: Vermes, Jesus the Jew 160-91; Jesus and
designação) mais discutido e confuso aplica­ the World 89-99; B. Lindars, Jesus Son of Man
do a Jesus é Filho do Homem (em aramai- [Grand Rapids, 1983]; P. Casey, ExpTim 96
co, bar ( ’e) n ãsã’. As questões quanto a se o [1985] 233-36). A protoigreja então interpre­
Jesus histórico usou o título e, se o fez, em tou esta circunlocução como um título que
que sentido o usou receberam todo tipo de se refere a Jesus na parúsia.
resposta imaginável (veja W. G. Kümmel,
TRu 45 [1980] 50-84; C. C. Caragounis, The 39 Existem, contudo, dificuldades. Se,
Son of Man [WUNT 39; Tübingen, 1986]). como se supõe comumente hoje (contra A.
Alguns reivindicam que Jesus usou Filho do Higgins), Filho do Homem não existia
Homem em todos os três sentidos encontra­ como um título no judaísmo antes da épo­
dos nos sinóticos: ministério terreno, morte- ca de Jesus e da protoigreja, o que levou
ressurreição, exaltação futura ou julgamento a igreja a inventar este título e aplicá-lo a
vindouro (segundo O. Cullmann, The Chris- Jesus? Por que ele ocorre quase exclusiva­
tology of the NT [Philadelphia, 1959] 152-64 mente nos lábios de Jesus no NT? Por que
[em port.: Cristologia do Novo Testamento, ele se encontra representado em tantas
camadas diferentes da tradição dos Evan­ 40 Se Jesus usou também a designa­
gelhos (tradição tripla, tradição dupla, tra­ ção para aludir à sua vindicação futura,
dição especial mateana, especial lucana e com uma alusão a Dn 7,13-14 ("um como
joanina), porém quase em nenhuma parte Filho de Homem"), é mais difícil de dizer.
fora dos Evangelhos? Por que os ditos so­ Como afirma Tõdt (Son of Man 32-112),
bre o Filho do Homem que podem ser au­ é mais provável que ditos como o de Mc
tênticos não mostram distinção entre res­ 8,38 par. e Lc 12,8-9 reflitam afirmações
surreição e parúsia? Mais especificamente, escatológicas autênticas de Jesus acerca
por que a crença no Filho do Homem nun­ do Filho do Homem. O que força a credu­
ca aparece nas confissões de fé, nas fórmu­ lidade, no entanto, é a afirmação de Tõdt
las litúrgicas e nos sumários da pregação de que Jesus está se referindo a uma outra
protocristã? Nenhum outro título aplicado pessoa quando fala do Filho do Homem.
a Jesus pela protoigreja exibe uma história Não se pode provar que tal personagem
da tradição tão estranha como esta. As res­ apocalíptico tenha existido no pensamento
postas sugeridas por W. Walker não afas­ judaico anterior à época de Jesus, e Jesus
tam inteiramente estas objeções. não oferece qualquer indicação de que vê
Por isso, parece provável que a peculiar a si mesmo como o precursor de alguém
locução Filho-do-Homem de algum modo exceto Deus. Além disso, a cena do juízo
remonte a Jesus, por mais que tenha sido final retratada nestes ditos reúne todos os
desenvolvida posteriormente pela igreja. atores importantes envolvidos no drama
O problema com a explicação de que Je­ apocalíptico: Deus, os anjos, os que confes­
sus usou a expressão no sentido de "eu" sam, os que negam e o Filho do Homem.
ou "um homem em minha situação" é que Chama a atenção a ausência de Jesus, que
carecemos de prova sólida de que bar ( ’<?) é o próprio critério do juízo - a menos que
nãsã ’ tinha este significado na época de Je­ o Filho do Homem seja o Jesus vindicado
sus (Fitzmyer, WA 143-60; J. Donahue, CBQ e exaltado. Assim, Jesus pode ter usado o
48 [1986] 484-98). Também é difícil encon­ enigmático Filho do Homem para desig­
trar o sentido de "um homem em minha nar sua própria situação paradoxal: um
situação" em alguns dos ditos sobre o Fi- mensageiro humilde, crescentemente re­
lho-do-Homem terreno, p.ex., a descrição jeitado no momento presente, todavia com
paralela, em duas partes, em Mt 11,18-19 vindicação assegurada no futuro próximo.
par., de João Batista e Jesus como os dois Esta pode ser a razão por que Filho do Ho­
mensageiros finais da sabedoria divina en­ mem não ocorre nos ditos sobre o reino­
viados a Israel. Jesus é um personagem es­ de-Deus: Filho do Homem e reino de Deus
pecífico aqui; por isso, um sentido genérico são dois "símbolos tensivos" alternados
para Filho do Homem não serve. Tanto o para designar o mesmo paradoxo do já/
insulto a Jesus no v. 19 quanto seu rebai­ ainda não.
xamento ao status mais ou menos igual ao
de João Batista tornam improvável que este 41 A aparição de "Filho do Homem"
dito tenha sido criado pela igreja. Por que a nas predições da paixão é mais proble­
protoigreja teria inserido um título ligado à mática. A falta destas afirmações em Q e
parúsia num contexto onde Jesus é chama­ seu arranjo claramente esquemático em
do de glutão e beberrão? Aparentemente, Mc 8, 9 e 10 podem indicar que temos
então, Jesus, o contador de parábolas, usou aqui um uso secundário de Filho do Ho­
a designação enigmática e parabólica Filho mem na protoigreja (segundo inclusive o
do Homem para se referir de um modo pa­ conservador E. Stauffer, ANRW 11/25.1,
radoxal a si mesmo como o mensageiro hu­ 96). Em particular, a extensa predição
milde e não respeitável do poderoso reino em Mc 10,33-34 par. parece um resumo
de Deus. literário da narrativa da paixão que se-
gue. Os candidatos mais prováveis para forneceu um elo vivo entre o círculo dos
a historicidade seriam os ditos curtos, discípulos ao redor de seu rabi Jesus e a
do tipo m ãsãl, de Lc 9,44 ("o Filho do igreja pós-pascal que cultuava seu Senhor
Homem será entregue nas mãos dos ho­ ressuscitado.
m ens"). Mc 14,41 ("o Filho do Homem é
entregue às mãos dos pecadores"), e Mc 43 (f) Santo carismático. Uma outra
14,21 ("o Filho do Homem vai, conforme categoria que combina com os títulos e
está escrito a seu respeito. Mas, ai daque­ designações já tratados é o santo judaico,
le homem por quem o Filho do Homem hãsid, ou carism ático, conhecido na Pa­
for entregue!"). Estes ditos não atribuem lestina por volta da época de Jesus. Ver­
uma relevância soteriológica explícita à mes (Jesus the Jew 58-85) indica que junta­
morte de Jesus. Ela simplesmente faz par­ mente com os escribas profissionais e os
te de sua missão querida pelo Pai. Além fariseus piedosos existiam homens san­
disso, alguns desses ditos talvez reflitam tos - em alguns casos, da Galileia - fa­
um jogo de palavras em aramaico (Filho mosos por milagres ou exorcismos. Eles
do Homem - filhos dos homens). Estes eram mais o produto da religião folcló­
logia lacônicos poderiam ser considera­ rica popular que da teologia acadêmica.
dos extensões dos ditos sobre o Filho-do- Entre eles estavam Honi, o Desenhista
Homem terreno, m ovendo-se na direção de Círculos (séc. I a.C.), que praticam en­
das predições explícitas da paixão. Mas te forçava Deus a enviar chuva, im por­
não se pode determinar com certeza se tunando-o como um filho im portuna um
eles provêm de Jesus ou da igreja. Con­ pai, e Hanina ben Dosa (séc. I d.C.), que
tinua questionável se Jesus usou Filho podia curar à distância, expulsar demô­
do Homem em referência à sua m or­ nios e controlar a natureza, e que foi no­
te que se aproximava -(—> 45-50 abaixo). tável por sua pobreza e falta de interesse
É digno de nota que as três predições so­ em assuntos legais e rituais, concentran­
bre o destino do Filho do Homem em Jo do-se, em vez disto, nas questões morais.
3,14; 8,28; 12,32-34 o apresentem sendo Parece ter havido alguma tensão entre
"levantado" sem especificações adicio­ estes "hom ens de ação" carism áticos, se­
nais dos detalhes da morte. melhantes a Elias, com sua piedade alta­
mente individual e não conformista, e o
42 (e) Senhor. Não há problema em judaísm o dos fariseus e rabis que estava
se sustentar que Jesus foi chamado de se desenvolvendo. As evidências, contu­
Senhor durante sua vida terrena, se lem­ do, para estes personagens carismáticos
brarmos que o termo aramaico m ã r ê’, são posteriores, extraídas da Mishná e do
como o grego kyrios, tinha um amplo Talmude; e assim sua relevância para um
espectro de significados, estendendo-se tratamento crítico do Jesus histórico per­
desde um cortês "senhor" até um título manece questionável. No mínimo, somos
para Deus (Fitzmyer, WA 115-42; Vermes, lembrados de que Jesus pode ter refletido
Jesus the Jew 103-28). Várias pessoas que um tipo particular de piedade galileia ca­
se encontraram com o Jesus histórico e rism ática e popular que inevitavelm ente
viram nele um mestre, um curador, um entraria em conflito com as formas mais
profeta escatológico ou uma pessoa mis­ institucionais do judaísm o em Jerusalém
teriosa que transcende estas categorias o (veja S. Freyne, Galilee from Alexanãer the
teriam chamado de m ã r ê’; todavia, cada Great to Hadrian [Wilmington, 1980] 329­
pessoa poderia ter pretendido um grau de 34; Hengel, Charismatic Leader [—> 14 aci­
reverência diferente. Este título, portanto, ma]|44: "carismático escatológico").
O JESU S DA HISTÓRIA: PAIXÃO E RESSURREIÇÃO

44 (I) Últimos dias em Jerusalém. Randbemerkungen [Festschrift R. S c h n a c k e n b u r g ; ed.


(A) Entrada triunfal; purificação doH. M e r k l e i n et al.; Wiirzburg, 1974] 3-24, R o l o e f , J.
Templo. Na primavera de 30 d.C. (ou 33), DasKerygma 89-110. S a n d e r s , Jesus and Judaism 61-76,
S c h n a c k e n b u r g , R., Schriften zum Neuen Testament
Jesus viajou com seus discípulos da Gali-
[München, 1971] 155-76.)
leia para Jerusalém pela última vez. Dois
acontecimentos ligados com sua chegada
45 (B) Atitude de Jesus ante a morte.
(entrada triunfal e purificação do Templo)
são problemáticos, e nem todos aceitam No contexto dos últimos dias de Jesus em Je­
sua historicidade. Se algum acontecimento rusalém, surge a questão sobre como Jesus en­
- embora modesto na realidade - está por tendeu e enfrentou sua morte. Alguns alegam
trás da entrada triunfal, aparentemente Je­ que Jesus não falou sobre sua morte, e, deste
sus optou por fazer uma reivindicação sim­ modo, simplesmente não sabemos se ele su­
bólica de status messiânico quando entrou cumbiu ou não diante da morte. Esta é a opi­
na antiga capital davídica. A purificação do nião de Bultmann, Jesus 150-52; para ele esta
Templo (atestada independentemente por questão não deve preocupar o crente. Outros
João, mas colocada no início do ministério) (V. Howard, CBQ 39 J1977] 515-27; X. Léon-
constituiu uma outra reivindicação de auto­ Dufour, NRT 100 [1978] 802-21; H. Schür-
ridade, desta vez sobre a instituição cultual mann em Begegnung mit dem Wort [Festschrift
central da religião judaica. Embora o acon­ H. Zimmermann; ed. J. Zmijewski; BBB 53;
tecimento talvez não tenha sido tão públi­ Bonn, 1980] 273-309) sustentam que pode­
co e radical como os Evangelhos retratam, mos conhecer algo sobre a atitude de Jesus
Jesus necessariamente estaria desafiando a e que esta atitude é de relevância para a fé
hierarquia corrupta e impopular em Jerusa­ cristã. Esta última opinião parece estar mais
lém. De fato, a "purificação" talvez não te­ de acordo com os dados. Primeiro, porém,
nha sido uma conclamação à Reforma, mas um princípio geral a priori: assim como uma
antes um sinal profético ominoso de que o pessoa vive, assim ela morre. Embora possa
Templo atual estava prestes a ser destruído haver inversões repentinas, mais comumente
para abrir caminho para um templo novo e a maneira como uma pessoa morre resulta da
perfeito. maneira como ela vive e a interpreta. A men­
Estas duas ações simbólicas de Jesus o sagem e a práxis de Jesus consistiram de amor
profeta, ações que lembram os profetas do radical a Deus e ao próximo, de serviço e sa­
AT, podem ter sido as razões por que a aris­ crifício humilde em favor dos outros, até mes­
tocracia sacerdotal optou por atacar Jesus mo em favor dos inimigos. Esta mensagem
durante esta visita específica a Jerusalém, estava baseada na total confiança em Deus
diferentemente de suas estadias anteriores. e na total entrega ao Deus que estava vindo
Assim, o próprio Jesus optara por insistir na em seu reino como Pai. Os atos de cura, de
questão, forçando a capital de Israel a tomar exorcismo, de busca pela ovelha perdida, de
uma decisão a favor ou contra ele, o profeta comer com os pecadores, de declarar perdão
final de sua história. Contudo, interpretar de pecados, de ensinar as multidões e discu­
estes dois acontecimentos como sinais da tir com os oponentes eram todos expressões
afinidade de Jesus com os revolucionários concretas de seu serviço de amor. Jesus era
judaicos é ir além dos dados. de fato o "homem para os outros" cuja vida
como um todo interpreta sua morte - e vice-
(Sobre purificação do Templo: C a t c h p o l e , D. versa.
in B a m m e l e M o u l e , Jesus (—» 24 acima) 319-34,
Je rem ia s, J., "Zwei Miszellen", N T S 23 [1976-77] 177­ 46 Passando para os dados a posteriori,
80. M ü l l e r , K., "Jesus und die Sadduzäer", Biblische devemos perguntar:
(a) Jesus previu a possibilidade de uma aqueles ditos que incluem o título Filho do
morte violenta? Homem ou uma referência clara à ressur­
(b) Se previu, como ele a entendeu? reição. Isto não quer dizer que estes ditos
(a) Em vista da crescente oposição con­ sejam necessariamente criações posteriores;
tra ele, especialmente entre os sacerdotes e a exclusão é tática, visando a isolar dados
os leigos aristocrático em Jerusalém, Jesus que sejam tão confiáveis quanto possível.
teria de ter sido um simplório se não tivesse Existem alguns ditos em que Jesus fala em
previsto a possibilidade de uma morte vio­ termos gerais de sua morte que se aproxima
lenta quando visitasse a capital na Páscoa. e usa a imagem do profeta ou servo de Deus
Sinais negativos já estavam no horizonte. martirizado, imagens que combinam bem
Apesar de seus esforços, todas as cidades com o autoentendimento do Jesus histórico.
tinham rejeitado sua mensagem (Mt 11,20­ Embora estes ditos, discutidos abaixo, este­
24 par.). Herodes Antipas, Pôncio Pilatos, jam dispersos por todo o ministério público
o sumo sacerdote e o partido saduceu, os nos Evangelhos, seu lugar apropriado - se
escribas e o piedoso movimento leigo dos forem autênticos - pode ser durante o con­
fariseus, todos tinham várias razões para flito final de Jesus com as autoridades em
se oporem a Jesus - e, diferentemente dos Jerusalém. (Não há razão para pensar que Je­
fariseus, os outros indivíduos ou grupos sus esperasse um fim violento desde o come­
tinham formas de se livrarem dele legal­ ço de seu ministério; segundo L. Oberlinner,
mente. Além disso, nas grandes multidões Todeserwartung und Todesgewissheit Jesu [SBB
da festa da Páscoa, havia sempre a possibi­ 10; Stuttgart, 1980].)
lidade de ocorrer um linchamento ou assas­
sinato pela multidão. 48 (1) Num dito de Q (Mt 23,37-39
Mais pertinente é que Jesus via a si mes­ par.), Jesus denuncia violentamente a Jeru­
mo como o profeta escatológico, e a pieda­ salém que o rejeitou, repreendendo a cidade
de judaica crescentemente via os profetas com o lembrete de que ela tem um históri­
do AT personagens rejeitados e, muitas ve­ co de matar os profetas. A possibilidade de
zes, como mártires (J. Jeremias, Heiligengrä­ que Jerusalém fizesse o mesmo com Jesus,
ber in Jesu Umwelt [Göttingen, 1958] 61-63; o profeta, permanece uma sugestão tácita
O. Steck, Israel und das gewaltsame Geschick (a favor da historicidade: Kümmel e Jere­
der Propheten [Neukirchen, 1967] 40-58). mias). (2) No material especial lucano que
Consequentemente, Jesus deve ter conta­ antecede este dito de Q, Jesus rechaça um
do com esta perspectiva de martírio e seu aviso de que Herodes Antipas pode tentar
significado. Entre os judeus do séc. I, cria- matá-lo na Galileia com uma observação
se que o sangue dos mártires tinha poder irônica, talvez amarga (Lc 13,31-33; veja
expiador para o Israel pecador (p.ex., 4Mac FGL 2.1028-33; posição afirmativa: Ruppert
6,28-29; 17,22). De maneira mais concreta, o e Bornkamm; negativa: Steck). A observa­
martírio de João Batista por Herodes trans­ ção termina com uma verdade geral extra­
formou esta teologia em uma possibilidade ída da teologia dos profetas martirizados:
real para Jesus. Para ir além da possibilida­ "Pois não convém que um profeta pereça
de, contudo, deve-se examinar os ditos rele­ [observe o substantivo e o verbo indefini­
vantes que reivindicam autenticidade. do] fora de Jerusalém [de fato, Jesus pere­
ceu fora dos portões de Jerusalém]".
47 (b) Jesus indicou como ele entendia
sua possível morte? Aqui especialmente 49 (3) Quando Tiago e João, filhos de
se deve tomar cuidado com profecias post Zebedeu, pediram lugares especiais no rei­
eventumí após o acontecimento], retroje- no, Jesus perguntou se eles estavam dispos­
tadas na vida de Jesus. Portanto, por ra­ tos a participar de seu sofrimento e morte
zões metodológicas, dever-se-iam excluir (Mc 10,35-40 par.). O sofrimento e a morte
são mencionados nos termos gerais do AT tando da traição por um de seus próprios
(cálice e batismo, sendo o segundo tão inco- discípulos, pode ter propositadamente
mum que Mateus o omite). Jesus não tem dado à refeição alguns traços da Páscoa,
o poder de conceder lugares no reino, mas visto que não poderia participar da Pás­
promete a ambos os irmãos uma participa­ coa regular com seus discípulos. No início
ção em sua paixão e morte. A vaga referên­ e no final da refeição, respectivamente, Je­
cia aos sofrimentos de Jesus, a afirmação sus usou pão e vinho para representar sua
sobre a impotência de Jesus para conceder morte vindoura, que ele aceitou como parte
lugares no reino e a luz desfavorável em da misteriosa vontade de Deus para trazer
que se coloca Tiago, o protomártir, entre os o reino (contra Braun [Jesus 56-57], que re­
Doze depõem em favor da historicidade. jeita a historicidade das ações rituais de Je­
(4) Pedro rebelou-se contra a ideia do sofri­ sus com o pão e o vinho). As palavras de
mento de Jesus, e Jesus teve de repreender Jesus sobre o pão e do vinho são registradas
Pedro em termos muito fortes: "Arreda-te em quatro versões diferentes (ICor 11,23­
de mim, Satanás !" (Mc 8,32-33 par.). Não é 26; Mc 14,22-25; Mt 26,26-29; Lc 22,15-20),
provável que este seja um dito criado pela representando duas tradições importantes
protoigreja. (paulina e marcana). Cada versão mostra
alguma influência litúrgica e redacional, e
50 Caso se conceda historicidade a assim nenhuma versão pode reivindicar ser
alguns destes ditos (também à forma primi­ a formulação exata de Jesus. Há também Jo
tiva da parábola dos vinhateiros assassinos 6,51: "O pão ... é minha carne", que pode
[—» 36 acima] e aos lacônicos ditos sobre o Fi- refletir de maneira mais literal um original
lho-do-Homem [—>41 acima]), Jesus contava semítico (veja também o pão eucarístico
efetivamente com o martírio que o profeta como carne em Inácio, Rom. 7,3; Filâ. 4,1).
final deve sofrer como parte do misterioso Provavelmente as palavras de Jesus eram
plano de Deus para a salvação de Israel. mais ou menos como "Esta é minha carne
Nenhum destes ditos, contudo, atribui um [corpo]", e "Este [cálice?] é [= contém, me­
significado teológico mais detalhado à mor­ deia] a aliança [selada] por meu sangue"
te: não se fala de sacrifício vicário, não se (cf. o eco de Ex 24,8). Jesus, portanto, inter­
vincula a morte à ressurreição para formar pretou sua morte como o meio (sacrifical?
o acontecimento apocalíptico - de fato, não expiatório?) pelo qual Deus restauraria a
há uma ideia explícita de vindicação. Para aliança com Israel no Sinai. Até mesmo
obter maior clareza sobre como Jesus teria em sua morte, Jesus via sua missão como a
entendido sua morte, devemos nos voltar reunião e salvação de todo o Israel na hora
para sua Ultima Ceia. final de sua história. Jesus também via esta
ceia como a última - a última em toda uma
51 (C) A Última Ceia. Na quinta feira série de refeições que ele tinha compartilha­
à noite, quando começava o décimo quar­ do com seus discípulos e pecadores durante
to dia de Nisan (o dia da preparação), Je­ sua vida, refeições que tinham comunicado
sus celebrou uma refeição final com seus prolepticamente o perdão e a salvação de
discípulos na casa de um simpatizante de Deus. Esta última refeição era uma garantia
Jerusalém. A historicidade desta refeição de que, apesar do aparente fracasso de sua
final é apoiada pelas tradições de Marcos, missão, Deus vindicaria Jesus mesmo após
especial de Lucas, joanina e pré-paulina. a morte e o conduziria, assim como a seus
A refeição não era a refeição oficial da Pás­ seguidores, ao banquete escatológico (veja
coa, que deveria ser realizada na noite se­ o tom escatológico em Mc 14,25 e 1 Cor
guinte, quando começava o décimo quinto 11,26). Por isso, Jesus insiste que todos os
dia de Nisan. Jesus, aparentemente sentin­ discípulos participem de seu único cálice
do seu destino iminente e talvez já suspei­ em vez de beberem de seus próprios. Eles
devem se ater firmemente à sua comunhão sumo sacerdote Caifás (18-36 d.C.); esta
com ele quando ele morrer de modo que sessão ou durou até o amanhecer ou foi se­
possam participar deste triunfo no reino. guida por uma breve sessão ao amanhecer
(Marcos-Mateus; segundo Blinzler e Betz).
(J eremias, J., The Eucharistic Words of Jesus (2) Somente uma sessão do sinédrio foi rea­
[London, 1966]. M arshall, I. H ., Last Supper and lizada no início da manhã (Lucas; segundo
L ord ’s Supper [Grand Rapids, 1980]. P esch, R.,
Catchpole). (3) Realizou-se uma audiência
Das Abendmahl und Jesu Todesverstãndnis [QD 80;
Freiburg, 1978]. R eumann, J., The Supper of the
informal, provavelmente à noite, por algu­
Lord [Philadelphia, 1985] 1-52. S chweitzer, A., The ma autoridade judaica, talvez pelo sogro de
Problem of the Lord’s Supper [ed. J. R eumann; Macon, Caifás, Anás, que fora sumo sacerdote de 6
1982]. S chweizer, E., The Lord’s Supper According to a 15 d.C. (João; segundo Winter, Brandon,
the NT [FBBS 18; Philadelphia, 1967].) Smith). Contra a primeira possibilidade es­
tão muitas prescrições do tratado Sinédrio
52. (II) Paixão e morte. da Mishná, prescrições desconsideradas
(A ) Getsêmani e prisão. Após a ceia, Je­pelo julgamento registrado em Marcos e
sus levou seus discípulos para um peque­ Mateus. A Mishná, contudo, escrita apenas
no pedaço de terra aos pés do Monte das no final do séc. II d.C., apresenta regras ra-
Oliveiras (Getsêmani = prensa de oliva ou bínicas (mais próximas das farisaicas), não
tonel de óleo). Enquanto ele orava ali, foi dos saduceus, e talvez descreva um retrato
preso por um grupo armado assistido por idealizado que nunca existiu plenamente
Judas, um dos Doze. Visto que é imprová­ antes de 70 d.C. (Há pouco apoio para a
vel que um membro dos Doze tenha sido afirmação de S. Zeitlin e E. Rivkin de que
difamado gratuitamente por um relato que havia dois sinédrios nesta época, um políti­
criava dificuldades teológicas para a protoi­ co e sacerdotal, e outro religioso e farisaico
greja, a traição de Judas deve ser considera­ - tendo Jesus sido julgado pelo primeiro.
da um fato histórico. O grupo encarregado Veja O. Betz, AN RW II/25.1,646-47.). A des­
de prendê-lo provavelmente estava sob o crição de Lucas contraria menos a Mishná,
controle do sumo sacerdote, embora João mas ainda é controverso se ela reflete uma
mencione uma "coorte" (speira) ou um "tri­ fonte independente ou uma redação imagi­
buno" (chiliarcos), possivelmente sinais da nativa de Marcos. A narrativa de João apre­
participação romana (contra esta possibili­ senta a menor dificuldade, mas também se
dade, veja O. Betz, ANRW 11/25.1, 564-647, ajusta bem à teologia de João. O melhor que
especialmente 613). De fato, é de se espe­ podemos dizer é que, entre a prisão e o jul­
rar que as autoridades sacerdotais tenham gamento perante Pilatos, Jesus foi mantido
mantido Pilatos informado acerca do que em custódia pelas autoridades do Templo.
estavam planejando para o encrenqueiro Pelo menos uma audiência e talvez um jul­
galileu. Confrontado com a prisão, Jesus re­ gamento resultaram nas acusações formais
jeitou a resistência armada, e seus discípu­ que foram apresentadas perante Pilatos. As
los fugiram em confusão ignominiosa. acusações teológicas apresentadas contra
Jesus durante a audiência ou julgamento
53 (B) Julgamento(s). A partir deste judaico (ameaças contra o Templo? Ensino
ponto até o julgamento perante Pilatos, as contrário à lei? Conduzir o povo ao erro
questões são obscuras por três razões: a fal­ como falso profeta? Reivindicação de status
ta de concordância dos Evangelhos entre si, transcendente?) provavelmente poderiam
a incerteza acerca da lei judaica e romana ter sido resumidas sob o rótulo vago de
na época, e a apologética religiosa que está blasfêmia, entendida de modo amplo. Du­
conosco até o presente. Três cenários prin­ rante o processo judaico, Pedro, que tinha
cipais são possíveis: (1) Um julgamento à seguido o Jesus preso a distância, foi con­
noite diante do sinédrio foi presidido pelo frontado por alguns servos das autoridades
sacerdotais e, apavorado, negou seu rela­ 55 (C) Crucificação e morte. Ao final
cionamento com Jesus. A historicidade des­ do julgamento romano, Jesus foi conde­
te acontecimento embaraçoso é muito mais nado à morte por crucificação e recebeu o
provável do que sua invenção na protoi- açoitamento [flagelação] preliminar (um
greja como propaganda anti-Pedro (contra cruel ato de misericórdia, destinado a acele­
G. Klein, Rekonstruktion und Interpretation rar a morte). Jesus estava tão enfraquecido
[BEvT 50; München, 1969] 49-98). que não pôde carregar o travessão da cruz.
Os soldados recrutaram à força os serviços
54 Pôncio Pilatos, prefeito da Judeia de Simão de Cirene, para carregar a trave
(26-36 d.C.), estaria interessado apenas em mestra. Ele e seus filhos, Alexandre e Rufo,
crimes políticos, e assim as preocupações aparentemente se tornaram membros proe­
teológicas foram traduzidas pelas autorida­ minentes da protoigreja (Mc 15,21). Assim,
des do Templo como lèse majesté [lesa-ma- houve pelo menos uma testemunha na cru­
jestade] (uma tarefa fácil numa região onde cificação que posteriormente se tornou cris­
não havia uma linha divisória clara entre a tã. A crucificação ocorreu fora dos muros
política e a religião). Jesus foi apresentado da cidade, no Gólgota (Lugar da Caveira),
como um revolucionário, um falso reivin- possivelmente uma pedreira abandonada.
dicante ao trono judaico. "Rei dos judeus" Não se especifica se Jesus foi amarrado ou
foi a acusação com base na qual Jesus foi pregado à cruz, embora se mencionem pre­
julgado e condenado perante Pilatos, como gos nas aparições do ressurreto (Lc 24,39;
proclamava o titulus crucis [título da cruz], Jo 20,20.25.27) e sejam consistentes com os
a acusação colocada numa placa acima da recentes achados arqueológicos (veja TAG
cabeça de Jesus na cruz. (Braun [Jesus 34] é 125-46; mas também a reavaliação modifi­
praticamente o único a negar a historicidade cada em BA 48 [1985] 190-91). Dois ladrões
do titulus.). Este titulus traduzia para uma (lêstai, possivelmente insurrecionistas) fo­
categoria política algo no ensino e na práxis ram crucificados junto com Jesus; o edifi­
de Jesus que estava aberto a uma interpre­ cante arrependimento do "bom ladrão" é
tação messiânica. Discute-se calorosamente provavelmente redação lucana. O escárnio
se as autoridades do Templo tinham de re­ e o abuso, narrados em vários pontos du­
correr a Pilatos para executar Jesus ou não. rante o julgamento, foram também lançados
As evidências são incertas, mas parece mais sobre Jesus enquanto ele estava pendurado
provável que Jo 18,31 esteja correto: o siné­ na cruz. Não se pode dizer se ele respondeu
drio tinha perdido seus poderes de punir verbalmente a este abuso e a seus sofrimen­
criminosos com a morte (Blinzler, Catchpole; tos. As "palavras ditas na cruz", incluindo o
os contra-argumentos de Winter não são chamado grito de abandono (SI 22,2), talvez
convincentes). Também é controverso se o provenham de interpretação cristã poste­
incidente de Barrabás e o suposto costume rior da morte de Cristo. Além de Simão de
subjacente a ele são históricos ou criação da Cirene, as únicas testemunhas simpatizan­
tradição cristã. tes no calvário foram algumas discípulas da
Galileia. A colocação da mãe de Jesus e do
(B etz, O., ANRW 11/25.1, 564-647. B linzler, discípulo amado junto à cruz pode ser um
Der Prozess Jesu [4a ed.; Regensburg, 1969]; em
simbolismo joanino.
inglês, The Trial of Jesus [W estminster, 1959], BGJ
2.791-802. C atchpole, D., The Trial of Jesus [S P B 18;
Leiden, 1971]. H engel, M ., Crucufixion [Philadel­ 56 Embora o crucificado, às vezes, per­
phia, 1977], K uhn, H.-W ., A N R W ll/25.1, 648-793. manecesse agonizando durante dias, a mor­
M erritt, R., JBL 104 [1985] 57-68. R ivkin, E., What te de Jesus ocorreu de modo relativamente
Crucified Jesus? [Nashville, 1984]. S herwin-W hite,
A., Roman Society and Roman Law in the NT [Grand rápido; por isso, não houve necessidade de
Rapids, 1963] 24-47. W inter, P., On the Trial of Jesus apressar sua morte quebrando suas pernas,
[Stjud 1; 2a ed.; Berlin, 1974].) como foi feito no caso dos dois ladrões.
A pressa era importante, pois, ao pôr-do- tecimento que em si mesmo transcende o
sol (o começo do sábado, o décimo quinto tempo e o espaço (daí o termo "meta-his-
dia de Nisan), a Páscoa coincidiria com o tórico"), na medida em que Jesus entra na
sábado naquele ano. A solenidade especial vida eterna na presença de seu Pai. Alguns
da festa reforçava a regra judaica geral de alegados efeitos da ressurreição (o túmulo
que cadáveres não deveriam ser deixados vazio e as aparições do ressurreto) perten­
suspensos durante a noite, para que a terra cem efetivamente a nosso mundo de tempo
santa não fosse corrompida (Dt 21,22-23). e espaço, mas são mais apropriadamente
Na ausência de parentes próximos, o corpo tratados em uma história da protoigreja. E
de Jesus pode ter sido disposto de manei­ suficiente dizer que as tradições do túmulo
ra informal numa sepultura comum (uma vazio não devem ser descartadas automa­
possibilidade deixada em aberto por Braun ticamente como "lendas tardias". Marcos e
[Jesus 35]). Mas José de Arimateia, um in­ João preservam duas versões diferentes de
fluente funcionário judeu, intercedeu jun­ uma história que, em seus contornos, pare­
to a Pilatos e obteve o corpo de Jesus para ce pertencer a alguma corrente da tradição
sepultamento (temporário?) num túmulo protocristã (veja W. Craig, NTS 31 [1985] 67
que possuía na vizinhança. Algumas das n. 88, onde há uma lista de exegetas que rea­
mulheres galileias testemunharam a prepa­ firmam alguma forma de historicidade; mas
ração para o sepultamento. O único nome I. Broer [Die Urgemeinde und das Grab Jesu
constante, tanto na cruz quanto na sepultu­ (SANT 31; München, 1972)] hesita quanto
ra, é Maria Madalena. O relato da coloca­ a se a protoigreja de Jerusalém conhecia a
ção de uma guarda junto ao túmulo selado sepultura de Jesus). São fatos históricos que
deve ser considerado uma criação posterior havia testemunhas conhecidas pelo nome
de debates judeus cristãos (Mt 27,62-66; cf.que sustentaram que o Jesus ressuscitado
28,11-15). Quanto ao Sudário de Turim, lhes apareceu (ICor 15,5-8), que estas tes­
veja R. E. Brown, Biblical Exegesis and Church
temunhas incluíam discípulos do Jesus his­
Doctrine (New York, 1985) 147-55; quan­ tórico que o tinham abandonado por medo
to ao sepultamento, R. E. Brown, CBQ 50 e então realizaram uma marcante volte face
(1958) 233-45. [mudança radical] após sua morte vergo­
nhosa, que estes discípulos não eram de­
57 (III) Ressurreição. Visto que omentes incompetentes, mas pessoas capa­
Jesus da história é, por definição, o Jesus zes de propagar inteligentemente um novo
que está aberto à investigação empírica de movimento e que alguns destes discípulos
qualquer observador, o Jesus ressuscitado sacrificaram sua vida pela verdade de sua
encontra-se fora do escopo desta investiga­ experiência de ressurreição. Como as pes­
ção (como agora é declarado formalmente soas reagem a estes fatos e ao Jesus históri­
pela PCB; —> Pronunciamentos da Igreja, co nos leva para além de uma investigação
72:39). Isto não significa que a ressurrei­ empírica, para a esfera da decisão religiosa,
ção não seja real, mas que ela é um acon­ do crer ou não crer.