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Hermenêutica
Raymond E. Brown, S.S. E e Sandra M. Schneiders, I.H.M .*

BIBLIOGRAFIA

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2 ESBOÇO

Introdução (§ 3-8) (B) A questão da relevância (§ 20-22)


(I) Significado de hermenêutica (§ 3-4) (C) A determ inação do gênero literário
(II) Observações gerais (§ 5-8) (§ 23-26)
(D) História literária e redação (§ 27-29)
O sentido literal da Escritura (§ 9-29)
(I) Definição (§ 9-13) Sentidos supraliterais (§ 30-77)
(II) Problemas gerais na determinação do sen­ (I) História da exegese supraliteral
tido literal (A) Até o final da época neotestamentária
(A) A titudes diferentes p ara a exegese (§ 31-34)
(§ 14-19) (B) Período patrístico (§ 35-38)

* As seções 55-70 deste artigo são de S. M. S c h n e id e r s ; o restante do artigo é de R. E. B r o w n .


(C) Idade Média (§ 39-40) (d) A bordagens contextuais: crítica
(D) Séculos XVI e XVII (§ 41-42) retórica; crítica sociológica e psi-
(E) Passado recente (§ 43-52) canalítica; crítica fenomenológica
(a) Fundamentalismo (§ 44) (§ 63-69)
(b) Preservação de elementos da tipo­ (e) Conclusão (§ 70)
logia patrística (§ 45-48) (C) Crítica canônica (§ 71-74)
(c) O sensus plenior (§ 49-51) (D) Contribuições variadas (§ 75-76)
(d) Interpretação cristã do AT (§ 52) (a) Exegese para uma transformação
(II) A situação contemporânea pessoal (§ 75)
(A) A nova hermenêutica (heideggeriana) (b) Exegese advocatória (§ 76)
(§ 5 4 ) (E) Observações finais (§ 77)
(B) Crítica literária (§ 55-70)
(a) Da crítica histórica à crítica literária Temas relacionados (§ 78-92)
(§ 57-58) (I) Acom odação (§ 78-79)
(b) O problema da referência (§ 59) (II) Interpretação autoritativa pela igreja (§ 80-87)
(c) A b o rd a g e n s n ão c o n te x tu a is : (III) Autoridade exegética dos Padres (§ 88-89)
estruturalismo; desconstrução (§ (IV) A divulgação das opiniões críticas moder­
60-62) nas (§ 90-92)

INTRODUÇÃO

3 (I) Significado de hermenêutica. implica a questão da transferência de uma


A palavra grega hermêneia abrangia um am­ cultura e cosmovisão para outra. Isto é per­
plo escopo de interpretação e esclarecimen­ tinente ao estudo da Bíblia porque muitos
to - um escopo que os estudiosos modernos protocristãos conheciam o AT não em seu
estão tentando recuperar e expandir em seu original hebraico, mas na LXX grega, e por­
entendimento da tarefa hermenêutica (—» que os evangelhos comunicaram a mensa­
54 abaixo). Primeiro, ela pode se referir à gem de Jesus não em sua própria língua
interpretação pela própria fala, na medida semítica, mas em grego. Um aspecto especi­
em que a língua expressa e interpreta o que fico da tradução é o de uma língua ininteli­
está na mente de alguém (consciente e in­ gível para uma inteligível, p.ex., a hermêneia
consciente), ou até mesmo o que constitui de línguas em 1 Cor 12,10, que era um dom
a identidade, o ser e a pessoa de alguém. carismático com uma dimensão revelatória.
(Deveríamos conceber esse processo dina­ Terceiro, hermêneia pode ser usada para de­
micamente, e não estaticamente; pois não signar a interpretação mediante comentário e
apenas uma intenção ou identidade esta­ explicação, que é um aspecto mais formal.
belecida encontra expressão precisa na lin­
guagem, mas no próprio ato da comunica­ 4 Os manuais de uma geração anterior
ção linguística a identidade e a intenção de muitas vezes perdiam este sentido amplo
alguém podem crescer ou até mesmo vir a de hermêneia ("hermenêutica") que abran­
ser). Na exposição bíblica temos de enfren­ gia a fala, a tradução e o comentário. Para
tar a complexidade adicional da capacidade eles, a "hermenêutica" (plural em latim:
da linguagem bíblica (humana) de expressar hermeneutica) implicava reflexões teóri­
a "mente", "vontade" e "pessoa" de Deus cas sobre o significado, diferentemente da
(termos usados analogamente a respeito "exegese", uma arte onde as regras detec­
Deus; —» 7 abaixo). Segundo, hermêneia pode tadas na hermenêutica eram aplicadas na
designar o processo de tradução de uma lín­ prática. Entendido desta maneira, a "ci­
gua para outra - um processo que vai além ência" da hermenêutica era comumente
dos equivalentes mecânicos de palavras e dividida em três áreas: (1) noemática, que
lidava com os vários sentidos da Escritura; diária: mesmo antes de eles terem circula­
(2) heurística, que explicava como descobrir do de modo amplo escritos de sua própria
o sentido de uma passagem; (3) proforísti- composição, a tarefa de relacionar Jesus aos
ca, que oferecia regras para se expor o senti­escritos já aceitos em Israel [mais tarde cha­
do de uma passagem da Escritura a outros. mados de AT] era uma questão hermenêuti­
Estas divisões são consideradas rígidas e ca importante. De modo significativo, ao en­
demasiado especulativas e raramente são frentar este problema, eles não escreveram
usadas hoje. Entretanto, a discussão acerca comentários detalhados sobre os livros do
da hermenêutica continua difícil visto que AT [do modo como fizeram os sectários dos
Manuscritos do Mar Morto; —> Apócrifos,
ela implica a filosofia do ser, a psicologia da
linguagem e, às vezes, a sociologia. Em par­ 67:89], aplicando-os a Jesus; antes, descre­
ticular, há uma tendência desconcertante a veram e proclamaram Jesus na terminolo­
atribuir nuanças novas e altamente espe­ gia e nas imagens extraídas do AT. Embora
cializadas aos termos (p.ex., a imaginação, houvesse uma mutualidade, Jesus era visto
metonímia, mito, metáfora, narrativa) e a como a chave para se entender o "livro", e
distinguir com precisão entre termos que não o "livro" como a chave para entender
são comumente considerados sinônimos Jesus; —> 33 abaixo.). Quando os "livros"
(p.ex., entre interpretação e hermenêutica, que descrevem a experiência religiosa pas­
fala e linguagem, sinal e símbolo, autor e saram a existir, alguns deles rapidamente
narrador). Até mesmo os especialistas nem se tornaram um fator altamente formativo
sempre concordam entre si acerca do signi­ na vida, prática e pensamento de Israel e da
ficado particular destes termos, e a maioria igreja, respectivamente. Observe a palavra
dos leitores não os entenderia sem explica­ "alguns", pois certos escritos alcançaram o
ções técnicas. Exceto quando indicado de status de sagrados como testemunhas da re­
outra forma, por causa da inteligibilidade, velação mais rapidamente do que outros - a
estes termos são usados aqui em seu senti­ lei e os profetas em Israel, e os escritos pau­
do que se encontra no dicionário, e não no linos e os evangelhos individuais no cristia­
sentido esotérico proposto por especialistas nismo - parte de um processo de definição
em hermenêutica - uma decisão difícil que do cânone que se estendeu por séculos. No
de modo algum rejeita a necessidade da crí­ cristianismo, uma "regra de fé" (não escrita,
tica literária e retórica de desenvolver seu mas também não independente das Escri­
próprio vocabulário. turas aceitas por primeiro) às vezes julgava
quais obras seriam aceitas como Escritura.
5 (II) Observações gerais. Embora es­Após o séc. IV e um cânone neotestamentá-
tejamos interessados com o significado dos rio relativamente finalizado, a Bíblia cristã
textos bíblicos escritos, é importante com­ escrita alcançou um novo status quanto à
preender que inicialmente nem Israel nem autoridade para a fé da igreja. Mesmo as­
a comunidade cristã eram uma "religião do sim pode-se sustentar que a hermenêutica
livro". Um conjunto de experiências con­ do "livro" nunca se tornou tão diretamen­
sideradas como uma libertação divina do te determinante antes de 1500 quanto o foi
Egito, a eleição de um povo, a formação de após a Reforma, ou especialmente como ela
uma aliança e a promessa de uma terra de­ se tornou nos últimos séculos nas correntes
ram identidade a Israel antes que houvesse fundamentalistas do protestantismo norte-
relatos escritos que se tornaram a Torá ou americano.
o Pentateuco. Uma comunidade veio a crer
na presença e ação escatológica de Deus em 6 Diversos outros fatores complicam a
Jesus antes que houvessem os evangelhos hermenêutica aplicada à Bíblia. Um evan­
escritos. (Para ser preciso, os protojudeus gelho canônico é uma apresentação auto-
cristãos estavam em uma posição interme­ ritativa de Jesus a uma comunidade cristã
e (por meio do cânone) a toda a igreja. To­ "palavra de Deus nas palavras de homens",
davia, em um outro sentido, a autoridade mas se "palavra" for entendida de manei­
da apresentação escrita nunca substituiu ra adequada, "palavra de Deus" descreve
totalmente a autoridade do próprio Jesus, tanto o componente humano quanto o divi­
ainda que ele só seja, em grande parte, cog- no.). Deus como autor da Escritura pode ser
noscível por meio de tais escritos. O estágio entendido em termos da autoridade que dá
escrito do testemunho cristão não dispensa origem aos livros bíblicos, e não no sentido
o estágio pré-escrito. Além disso, embora de autor que escreve.
enfatizemos abaixo a importância duradou­
ra do que o livro bíblico transmitiu quando 8 A hermenêutica é ativamente discu­
foi escrito inicialmente, um elemento na crí­ tida hoje, com uma concomitante profusão
tica literária moderna (—» 63 abaixo) enfatiza de literatura nova. A tentativa de fazer jus­
que um texto, uma vez escrito, assume vida tiça elementar a questões atuais num espa­
própria e pode comunicar significado ou ço restrito faz este artigo no Novo Comen­
ter importância além da intenção original tário Bíblico São Jerônimo omitir ou reduzir
do autor. Assim, há um estágio pós-escrito drasticamente questões que precisavam ser
que também não pode ser negligenciado. enfatizadas quando o Comentário Bíblico
São Jerônimo foi escrito (JBC 71:54-79; 93­
7 Talvez uma complicação singular na99). Um modo de tratar da hermenêutica
hermenêutica bíblica seja a crença de que a bíblica seria por meio da exposição das di­
Bíblia teve uma autoria divina assim como ferentes formas de pesquisa empregadas na
uma autoria humana, de modo que as Es­ busca do significado das Escrituras, i.e., as
crituras escritas são a palavra de Deus. Isto "críticas": crítica textual, crítica histórica,
está relacionado ao conceito de inspiração crítica das fontes, crítica das formas, críti­
(—» Inspiração, 65:67-69). As vezes isto é ca da redação, crítica canônica, crítica dos
entendido de maneira simplista como se destinatários, crítica sociológica, crítica li­
Deus falasse ou ditasse as palavras que as terária, crítica da estrutura (estruturalismo,
pessoas escreveram. A fala, contudo, é um semiótica), crítica narrativa, crítica retórica,
meio de comunicação humano, e assim as etc. Contudo, estas abordagens nem sem­
palavras da Escritura foram escolhidas e pre são entendidas do mesmo modo, e tra­
escritas por seres humanos; é melhor ver a dicionalmente a discussão se concentra nos
contribuição divina em termos da comuni­ sentidos descobertos pelas "críticas", que
cação autorreveladora que se expressa nes­ podem, por razões de conveniência, ser di­
sas palavras. (Isto tem sido descrito como vididas em literal e supraliteral.

O SENTIDO LITERAL DA ESCRITURA

9 (I) Definição. Como o termo era a intenção consciente desse autor; assim,
usado na Idade Média (Tomás de Aquino, eles designavam como "literal" tudo que
Quodl. 7, q.6, a. 14), o sensus litteralis era o as palavras pareciam transmitir. Por outro
significado transmitido pelas palavras (lit- lado, isto criou uma famosa confusão ter­
terae ou verba) da Escritura, diferentemente minológica acerca do metafórico: se Cristo
do sentido contido nas "coisas" da Escritu­ fosse designado "leão de Judá", para eles
ra (o sensus spiritualis ou sentido típico que o sentido literal seria que ele era um ani­
flui da res [literalmente: coisa]; -h> 47 abaixo). mal, o que explica a rejeição ocasional do
Os primeiros escritores da igreja muitas ve­ sentido literal da Escritura. Por outro lado,
zes não estavam excessivamente conscien­ os escritores da igreja interpretavam o sen­
tes do autor humano ou preocupados com tido literal da Bíblia com grande liberdade,
pois não tinham de justificar uma corres­ bíblicos finais não precisa representar um
pondência entre o significado que eles en­ uso descuidado da linguagem sexista ou
contravam no texto e a intenção original do um preconceito consciente; nós carecemos
autor. Esta última perspectiva se reflete na de provas internas e externas que constitua
reação sofisticada de alguns críticos literá­ um argumento convincente de que qual­
rios modernos contra a busca histórico-crí- quer um dos autores bíblicos fosse mulher.
tica da intenção do autor, que consideram - REB) Apesar de todas estas complicações,
incognoscível. Para eles, "literal" se refere a referência à intenção do autor na definição
ao sentido percebido na leitura, visto que reafirma que as pessoas que produziram os
o significado flui do diálogo entre o texto livros bíblicos tinham, em sua época, uma
e o leitor. Sem denegrir as contínuas pos­ mensagem para transmitir a seus leitores
sibilidades interpretativas do texto bíblico e que é importante ter esta mensagem em
(que alguns críticos literários designam, de mente quando lemos os textos e pergunta­
modo menos confuso, como "literário" em mos o que eles significam para nós agora.
vez de "literal"), muitos exegetas, se pode­ O que o texto significa agora poderá ser mais
mos julgar a partir dos comentários sobre abundante, mas deveria ter alguma relação
a Escritura, estariam trabalhando com uma com o que o texto significou para os primei­
definição do sentido literal muito parecida ros leitores. A busca implícita na definição
com a seguinte: o sentido que o autor humano se harmoniza com a declaração de Pio XII
pretendeu diretamente e que as palavras escri­ na DAS [Divino Afflante Spiritu] (EB 550):
tas comunicavam. O advérbio "diretamen­ "Que os intérpretes tenham em mente que
te" distingue este sentido das ramificações seu primeiro e maior esforço deveria ser
que as palavras do autor humano podem discernir e definir claramente o sentido das
ter tomado posteriormente (no contexto palavras bíblicas que é chamado de literal
mais amplo da Bíblia ou quando lidas em [...] de modo que a intenção do autor se tor­
outras situações e ocasiões), mas das quais ne clara."
o autor não estava ciente. Dois elementos
na definição, "autor" e "comunicado por 11 Podemos rejeitar o ceticismo siste­
palavras", necessitam de uma qualifica­ mático dos críticos literários acerca de ja­
ção cuidadosa para mantermos aberta a mais conhecer a intenção de um autor não
comunicação entre os críticos históricos e presente (veja E. D. Hirsch, Validity in Inter­
os críticos literários. pretation [New Haven, 1967], que sustenta
que uma acusação de "falácia intencional"
10 Autor. O entendimento de autor naé ela mesma uma falácia). Todavia, o bom
Antiguidade era mais amplo do que a con­ senso sugere que nossos esforços nesta di­
cepção popular moderna de escritor. Com reção serão dificultados por nossa distân­
referência aos livros bíblicos, por exemplo, cia de livros escritos de 3000 a 1.900 anos
a designação "autor" abrange pelo menos atrás em línguas antigas, conhecidas agora
cinco relações diferentes entre a pessoa cujo apenas de modo imperfeito, em concepções
nome está ligado a um livro e a obra atribu­ de mundo significativamente diferente das
ída a esta pessoa (—» Canonicidade, 66:89). nossas, e frequentemente em contexto psi­
Pelos padrões modernos, a maior parte dos cológicos estranhos a nós. Parte da tarefa
livros bíblicos são anônimos ou pseudôni­ da pesquisa crítica é tornar não apenas o
mos, sendo que muitos deles são o produto leitor, mas também o comentarista cons­
de um desenvolvimento complexo e uma ciente das diferenças. (Até mesmo comen­
contribuição coletiva. Nenhum dos escri­ taristas perspicazes podem inconsciente­
tores dos evangelhos canônicos identifica mente moldar os autores bíblicos à imagem
a si mesmo pelo nome. (O uso do prono­ da pesquisa moderna, por não apreciar
me masculino para se referir aos escritores suficientemente, por exemplo, o contexto
menos rígido da tradição oral e da lem­ dos evangelhos é o significado atribuído às
brança ou por impor abordagens teológicas palavras de Jesus pelo respectivo evangelis­
e antropológicas organizadas a pensadores ta, o que quer dizer que as mesmas palavras
bíblicos não sistemáticos como Paulo.). Um podem ter significados diferentes de acor­
debate inteligente se concentra em como do com os contextos diferentes em que os
aplicar o termo "autor" na discussão de li­ evangelistas as colocaram (—» Pensamento
vros onde duas figuras, o escritor substan­ do NT, 81:79). Na interpretação dos evan­
cial e o editor/redator, estavam separados gelistas temos entendimentos das palavras
por considerável distância de tempo e/ou de Jesus que o Espírito Santo inspirou para
perspectiva. Durante o "período bíblico" de a igreja - uma inspiração que assegura aos
composição (mais ou menos até 150 d.C.), crentes de que mesmo quando os evange­
frequentemente encontramos um trabalho listas vão além do ensino do próprio Jesus,
redacional considerável de obras escritas eles não distorceram gravemente a Jesus.
anteriormente. A composição do livro de
Isaías cobriu um espaço de pelo menos 200 13 Implícita na noção de "comunicado
anos (—» Deuteroisaías, 21:2-3); não apenas por palavras escritas" está a compreensão
foram acrescentadas novas seções às partes dos ouvintes/leitores visados pelo autor.
originais que vieram do tempo de vida de A reflexão sobre este fator poderá conter
Isaías, mas também alguns acréscimos re­ propostas demasiado imaginosas acerca
sultaram numa modificação do significado do que o autor quis dizer. As interpreta­
do original. Os últimos versículos de Amós ções baseadas em relações refinadas entre
talvez sejam um acréscimo; eles dão uma palavras e passagens bíblicas amplamente
conclusão otimista ao livro de resto pes­ dispersas (detectadas por meio de concor­
simista (Am 13,24). Em casos como este, a dâncias) têm de ser julgadas levando em
busca pelo sentido literal inclui tanto o sen­ conta se o autor antigo poderia ter espe­
tido que as partes tinham originalmente an­ rado que seus ouvintes/leitores, que não
tes da editoração quanto o sentido do livro tinham concordância, fizessem as devidas
após a editoração (—» 28 abaixo). conexões. Um debate quanto a se o véu
rasgado em Mc 15,38 era o véu exterior
12 Comunicado por meio de palavras es­ou interior do santo dos santos do Templo
critas. Esta parte da definição do sentido li­ pode ser iluminado perguntando acerca da
teral dá prioridade ao texto, pois a intenção composição do público de Marcos, a quem
do autor não se torna um sentido da Escri­ ele tinha de explicar costumes judaicos
tura até que seja efetivamente comunicada simples de purificação (7,3). Marcos teria
por escrito. (A distinção entre o universo de esperado que ouvintes/leitores como estes
pensamento do autor e a mensagem que ele soubessem que havia dois véus ou onde
transmite em forma escrita é importante na eles estavam colocados?
discussão dos limites da inerrância bíblica.).
Em particular, deve-se observar que, embo­ 14 (II) Problemas gerais na determi­
ra o que o próprio Jesus pretendeu por meio nação do sentido literal. Não enfatizare­
de suas palavras seja importante, a intenção mos aqui as regras usuais para se deter­
não é em si um sentido da Escritura, pois minar o sentido de qualquer autor e livro
Jesus não foi escritor de evangelho. De fato, (tradução correta de palavras; atenção à
visto que na maioria das vezes não sabemos estrutura de frases e períodos; contexto;
o contexto em que Jesus realmente disse estilo e uso peculiar; etc.). Antes, nos pre­
suas palavras, talvez seja impossível dizer ocuparemos com algumas questões gerais
exatamente o que as palavras significavam na abordagem da Bíblia, questões que re­
quando foram ditas pela primeira vez. fletem tanto a situação religiosa quanto a
O sentido literal de uma passagem de um da pesquisa atual.
(A) Atitudes diferentes para a exegese. um sentido mais que literal ou supraliteral,
Um entusiasmo que impulsiona todos à lei­ mas evitar um literalismo simplista que
tura, ao conhecimento e ao entendimento apresenta impressões superficiais como o
das Escrituras pode rapidamente tropeçar sentido literal, p.ex., quando se supõe que
no fato incontornável de que determinar uma teoria antievolucionista pseudocientí-
o que um autor antigo quis dizer frequen­ fica se conforme às intenções do autor de
temente não é uma tarefa simples. Embo­ Gênesis, o qual de fato não tinha um co­
ra o sentido literal seja, às vezes, chamado nhecimento cosmológico científico e cuja
de sentido evidente, ele talvez só se torne concepção da criação era tão simbólica que
evidente após grande esforço. As tabelas seria igualmente estranha aos evolucio-
do mercado de ações nos jornais são lucida­ nistas e aos não evolucionistas.). Extrema­
mente claras, mas somente para as pessoas mente útil para s pessoas que necessitam
que fizeram o esforço de aprender a lê-las. de um grau de conhecimento profissional
Pode-se pensar que uma Bíblia milenar seja são informações auxiliares básicas acerca
mais fácil de ler do que o jornal publicado da geografia bíblica, da arqueologia bíblica
esta manhã? Como Pio XII reconheceu em e da transmissão dos textos bíblicos. Dois
DAS (EB 35-36), "o sentido literal de uma auxílios são especialmente importantes:
passagem nem sempre é tão óbvio nos dis­ história e língua.
cursos e escritos dos autores antigos do Conhecimento da história da era bíblica.
Oriente quanto é nas obras de nossa própria O relato da ação de Deus na história de um
época". Tentativas de minimizar ou evi­ povo particular é em grande parte ininteli­
tar os passos necessários implicados nisso gível quando isolado da história do Oriente
produzirão confusão fundamentalista. En­ Próximo. Procurar divorciar a ação de Deus
tretanto, a leitura proveitosa das Escrituras desta história e torná-la atemporal é distor­
não precisa se tornar um privilégio elitista cer uma mensagem fundamental da Bíblia,
para pessoas de letras. Ao se considerar a saber, que Deus age apenas em circuns­
este impasse, deve-se dar o devido respei­ tâncias e épocas concretas (tais como as suas
to às diferentes expectativas proporcionais e as minhas). O que estamos dizendo aqui
às diferentes capacidades dos leitores. Dei­ é particularmente aplicável aos livros histó­
xemos de lado as exigências universitárias ricos e proféticos do AT, que representam
formais para o estudo da Bíblia em nível basicamente dois terços da Bíblia. Muitos
de pós-graduação por parte de futuros pro­ estudantes, que relutam em se familiarizar
fessores que formarão mestres e clérigos, e com datas e eventos de civilizações há muito
concentremo-nos em dois importantes gru­ inexistentes perdem, devido à falta de inte­
pos de estudantes e leitores da Bíblia: pro­ resse na história da Antiguidade, a riqueza
fissionais e os leitores comuns. de algumas das mais significativas seções
da Bíblia (—» Pensamento do AT, 77:104,
15 Leitores profissionais. As pessoas 112). Talvez uma parte deste conhecimento
que pregarão e ensinarão (clérigos, cate­ da Antiguidade possa se tornar mais pala-
quistas, dirigentes de grupos de estudo tável ao gosto moderno quando um aspecto
bíblico) - aquelas cujo conhecimento da sociológico necessário é acrescentado a ele
Bíblia pode afetar de maneira notável a - a necessidade de se conhecer não apenas
maneira como comunicam a palavra de as cortes reais, a política internacional e as
Deus a outras têm de fazer esforços rea­ guerras, mas também a própria estrutura
listas para compreender o que os autores da vida das pessoas envolvidas no relato
da Escritura estavam tentando comunicar. bíblico. Têm sido frequentes, na última ter­
De outra forma elas imporão aos autores ça parte do séc. XX, os estudos sociológicos
ideias e concepções crassamente anacrôni­ da Bíblia. Os pesquisadores reivindicam
cas. (A questão aqui não é a validade de reconhecer na história israelita aspectos de
lutas sociais conhecidas em nosso próprio 17 Leitores comuns. As pessoas que não
tempo, p.ex., uma revolta camponesa para serão chamadas para pregar ou para ensi­
obter direitos à terra (—» Crítica do AT, nar a Bíblia, mas que desejam compreen­
69:73-76). O cristianismo do NT, alienado der sua mensagem para sua própria vida e
da sociedade política e religiosa de sua épo­ para alimentar a fé que compartilham com
ca, foi estudado à luz da alienação dos sec­ outras, também serão conclamadas a fazer
tários modernos (—> Crítica do NT, 70:82). algum esforço em sua leitura. A religião ju-
Embora, às vezes, esta análise sociológica daico-cristã se baseia em uma crença de que
seja exagerada, ela ajuda a sublinhar de um Deus se comunicou com os seres humanos e
modo claramente pertinente a importância que a Bíblia é um veículo privilegiado desta
de entender a era bíblica em todos os seus comunicação (veja o folheto "How to Read
aspectos. the Bible Prayerfully", de S. M. Schneiders
[Collegeville, 1984]). A comunicação bíbli­
16 Um outro auxílio importante é o co­ca implica mais que uma compreensão do
nhecimento das línguas bíblicas. Somente uma sentido literal, pois estudiosos eruditos,
pequena porcentagem das pessoas que es­ que são otimamente equipados para de­
tudam a Bíblia pode ser perita em hebraico, terminar o que um autor bíblico quis dizer
aramaico e grego; todavia, alguma familia­ em sua época, talvez não tenham nenhuma
ridade com a estrutura e o padrão de pen­ apreciação religiosa por aquilo que o texto
samento destas línguas é essencial para um pode significar para sua vida. Além disto,
tipo profissional de conhecimento bíblico. porções consideráveis da Escritura são fa­
Uma exigência como esta faz, novamente, cilmente inteligíveis para todas as pessoas
parte do reconhecimento de que Deus agiu porque expressam sentimentos universais,
em tempos e lugares particulares - sua men­ p.ex., alguns dos Salmos e algumas histórias
sagem teria assumido uma forma e nuança simples de Jesus. Consolo e discernimento
diferente se tivesse sido expressa em outras espirituais podem ser extraídos da Bíblia
línguas. A menos que se tenha alguma ideia por pessoas que não têm qualquer conhe­
da flexibilidade dos "tempos verbais" em cimento técnico; sua apreciação talvez se
hebraico, tem-se dificuldade de entender as baseie na experiência compartilhada com
designações indefinidas de tempo nas pala­ o que a Bíblia narra. Para o judeu ou cris­
vras dos profetas, i.e., uma falta de precisão tão comum, inteligente, contudo, a leitura
temporal que abre estas profecias para um das Escrituras deveria envolver um compo­
cumprimento no futuro bem como no pre­ nente de compreensão daquilo que o autor
sente. Algumas das palavras básicas do vo­ original quis dizer, visto que a mensagem
cabulário da teologia bíblica desafiam uma que ele dirigiu a sua época certamente faz
tradução adequada, p.ex., hesed (bondade, parte da comunicação inspirada de Deus.
misericórdia pactuai) no AT, alêtheia (verda­ O dever primordial do autor humano era
de) no NT; as traduções modernas captam ser inteligível em sua própria época, escre­
apenas uma parte de uma conotação mais vendo numa língua e numa cultura muito
ampla. Os frequentes jogos de palavras em distante de nossas próprias. O que ele es­
torno de palavras com sons semelhantes, creveu comunica significado para nós hoje,
na poesia do AT, e em torno de palavras de mas ele não antevia nossas circunstâncias
raiz semelhante, no grego do NT, perdem-se nem escreveu para nós em nossa época.
para o estudante que não tem interesse nas Num esforço para extrair de seu texto uma
línguas bíblicas. Tendo o português como a mensagem para nossas circunstâncias, há
única ferramenta linguística, é possível ter sempre o seguinte problema: nós alcança­
um bom conhecimento das Escrituras, mas mos a verdadeira comunicação ou apenas
dificilmente um conhecimento profissional uma ilusão na qual impomos ao texto aqui­
delas. lo que queremos encontrar ("eisegese")?
Uma salvaguarda importante consiste em 19 Uma suposição mais frequente por
estabelecer um relacionamento inteligível trás da tese da ausência de esforço na leitu­
entre o que o autor quis dizer e o que o textora da Escritura implica a atividade de Deus.
parece significar agora - um relacionamen­ Se ele teve um papel orientador na compo­
to que é, às vezes, de tensão ou de correção. sição da Escritura, assegurará que ela seja
O sentido literal constitui um lado deste re­ significativa para todo leitor interessado.
lacionamento, e as informações básicas que Afinal de contas, se as pessoas simples, em­
capacitam o leitor comum a perceber este bora alfabetizadas, do passado podiam ler
sentido não é difícil de adquirir, uma vez e amar a Escritura, por que as pessoas sem
que os estudiosos escrevem e dão pales­ formação na Escritura não podem fazer o
tras a fim de tornar concepções comumente mesmo hoje? Todavia, é a assistência de
aceitas disponíveis ao público em geral. Deus uma panaceia para as diferentes cir­
cunstâncias das pessoas? Há uma diferença
18 Existe, contudo uma propensão entre as gerações passadas que frequente­
oculta de oposição à sugestão de que os mente tinham pouca educação em qualquer
leitores, comuns deveriam ou precisam fa­ campo e uma geração atual que tem educa­
zer um esforço para adquirir informações a ção (primária ou secundária), mas não no
fim de se beneficiar plenamente da Bíblia. campo da religião ou da Escritura. A partir
Por um lado, esta propensão oculta talvez de sua educação geral as pessoas, consciente
reflita uma atitude simplista acerca das di­ ou inconscientemente, trazem para a Bíblia
ficuldades da pesquisa. Pode-se encontrar questões que não poderiam ter ocorrido às
a sugestão de que se os estudiosos fossem gerações passadas. Por exemplo, ninguém
cooperativos, eles tornariam o processo que, tendo estudado os livros textos do en­
de leitura algo sem esforço traduzindo as sino fundamental, pode ler os primeiros
Escrituras para uma linguagem que seja capítulos de Gênesis sem se perguntar se
prontamente inteligível para o "homem o mundo realmente foi criado em seis dias.
comum". Mencionaremos abaixo (—» 54) a Informações bíblicas são necessárias para
questão da demitologização e o desejo le­ distinguir entre o ensinamento religioso de
gitimo de interpretar a Escritura de modo Gênesis acerca da criação e a perspectiva
que sua formulação não seja um obstáculo. pré-científica ingênua do autor. De modo
As traduções da Bíblia para um Português geral, a fim de ler a Bíblia com compreensão
verdadeiramente contemporâneo podem, apropriada, a formação bíblica da pessoa
até certo ponto, oferecer-nos o equivalente deveria ser proporcional a sua formação
das ideias bíblicas e facilitar o entendimen­ geral; então ela pode lidar com problemas
to. Mas boa parte das imagens bíblicas não que surgem desta educação geral. Um pa­
podem ser modernizadas; e se puderem ser drão como este sugere que a semente que é
interpretadas, elas não podem ser dispensa­ a palavra de Deus não produz abundante­
das, pois são parte integrante da mensagem mente, mesmo num solo bom, sem um cul­
bíblica, p.ex., o simbolismo do Apocalipse. tivo paciente e generoso (Lc 8,11.15).
O caráter estranho da apresentação é uma
exteriorização do caráter estranho da men­ 20 (B) A questão da relevância. A ideia
sagem bíblica, que deveria ser um desafio e de que a Bíblia é um "clássico", ainda que
exigir esforço para apropriar-se dela. A di­ exagerada, significa que, pelo reconheci­
ferença entre a cosmovisão do autor bíblico mento comum, ela possui uma relevância
e a nossa própria deve implica levar os lei­ em parte independente do leitor indivi­
tores modernos a entender a mentalidade dual. Sua verdade ou beleza a torna capaz
antiga de modo que possam compreender de falar a pessoas em todas as épocas e
tanto a mensagem quanto a modalidade culturas. (Quanto à questão do "clássico",
que aquela mentalidade deu à mensagem. veja D. Tracy, The Analogical Imaginatíon
[New York, 1981]; K. Stendahl, JBL 103 relevância. Em certo sentido, tudo na Bíblia
[1984] 3-10.)- As pessoas leem a Bíblia compode ser importante e relevante para alguém
um propósito; e, quer admitam ou não, os e para algum propósito. A frustração ocor­
exegetas interpretam a Bíblia com um pro­ re quando os professores julgam mal o que
pósito. Uma pequena porcentagem pode é apropriado à vocação e ao interesse dos
estar preocupada com a Bíblia por causa estudantes, gastando tempo indevido em
da apreciação literária, ou por causa das in­
questões especializadas mais apropriadas
formações sobre a histórica antiga, ou comoà pesquisa avançada. Mais frequentemente,
parte do estudo comparado das religiões. os alunos numa busca por aplicabilidade
A grande maioria (mesmo em cursos univer­ instantânea não podem reconhecer o que
sitários de ciência das religiões "neutros")
necessitarão em termos de conhecimento
se aproximam da Bíblia porque supõe que bíblico para a utilidade de longo prazo. Exa­
ela tenha importância religiosa para a vida.
minar o texto da Escritura na exegese não é
A exegese crítica, especialmente nos sécs. tão instantaneamente gratificante quanto re­
XVII e XVIII, originou-se no antagonismo ceber os resultados sintetizados em termos
a uma teologia dogmática que impunha de temas bíblicos. Interesses especializados
questões doutrinárias posteriores aos textos
por parte das pessoas que estudam a Bíblia
bíblicos. Desenvolveu-se um ideal exage­ são inteiramente apropriados, a menos que
rado de uma busca pela verdade objetiva, se reivindique que um interesse particular
excluindo a questão da relevância religiosa.
deveria ser a ótica primordial e não secun­
(Observe, contudo, que a exegese histórico-dária, de modo que o estudo bíblico geral
crítica não encontrou aceitação desta formaseja considerado irrelevante a menos que
no catolicismo romano do séc. XX; ela foi corresponda a este interesse. Os autores
incentivada por papas [—> Pronunciamen­ bíblicos não escreveram para o teólogo, o
tos da Igreja, 72:6-9] e não estava marcadapregador ou o asceta. O testemunho da re­
por um desejo de se libertar da orientação velação de Deus que eles deram não é um
dogmática e eclesiástica.). Esta exclusão compêndio conveniente para nossos propó­
frustrou os interesses religiosos das pesso­
sitos; é uma biblioteca de livros que lidam
as que procuravam ajuda acadêmica, pro­ com as relações entre Deus e os seres huma­
duzindo assim a acusação de irrelevância nos na escala vida em si. Em particular, o
- uma acusação muitas vezes exagerada, escopo do AT coloca em relação com Deus
completamente falsa em relação à a exegese não apenas os aspectos espirituais e teoló­
católica romana que se desenvolveu após gicos da vida, mas também os seculares (—>
o Vaticano II, e crescentemente não mais Livros sapienciais, 27:5-6ss.; —>Cântico dos
verdadeira em relação à exegese em geral. Cânticos, 29:5-8), os sórdidos (guerra, de­
A busca do sentido literal tem uma tendên­ pravação) e os monótonos (história política,
cia descritiva, mas é inteiramente apropria­
governantes ineptos, sacerdotes cansados).
do que a busca seja sensível e relevante emSelecionar desta totalidade somente o que
termos religiosos. O sentido literal tinha um
nos parece religiosa e espiritualmente útil
forte propósito religioso na época do pró­ pode privar a Escritura da possibilidade de
prio autor, e o dinamismo da Bíblia implicacorrigir atitudes distorcidas acerca da reli­
uma relevância religiosa contínua. É impor­gião, inclusive a incapacidade de entender
tante distinguir entre o que uma passagem que Deus age na história comum por meio
bíblica significou e o que ela significa, mas
de pessoas ambíguas. Podemos reconhecer
estes significados não são totalmente sepa­quão tendenciosas foram gerações passadas
ráveis ou sem relação. na leitura da Escritura e como a distorce­
ram segundo seus próprios propósitos. Pre­
21 Entretanto, existem problemas cisamos ser cuidadosos para que a busca da
acerca do alcance e do caráter imediato da relevância instantânea não canonize nossos
vieses que não podemos reconhecer. Trans­ ficção, poesia, história, biografia, drama,
mitir à próxima geração somente o que nós etc. Frequentemente a classificação para
não achamos relevante na Escritura talvez livros individuais é indicada pela sobreca-
seja censurar a Escritura, pois justamente o pa. O termo "classificação" não deveria ser
que nós não achamos relevante para nos­ desorientador, pois o problema (e isto se
sa época poderá ser a principal palavra de aplica a tudo o que o segue) não é meramente
Deus para uma outra geração. taxonômico: aproximamo-nos das formas
de literatura com expectativas diferentes e
22 Na história da interpretação bíbli­ nos beneficiamos delas de formas diferen­
ca na Igreja Católica, cada vez que houve tes. Uma história e um romance podem tra­
um movimento que colocava a ênfase na tar do mesmo personagem ou evento, mas
primazia da exegese literal (p.ex., Jerôni- nós esperamos diferentes graus do fato e
mo, a Escola de São Victor na Idade Média, da ficção a partir deles, enquanto que em
Richard Simon), este movimento foi rapida­ relação à poesia a questão do fato e da fic­
mente absorvido por um mais atraente que ção é irrelevante. No entanto, todos os três
enfatizava os aspectos teológicos ou espiri­ podem comunicar a verdade, e às vezes um
tuais da Escritura a ponto de quase excluir transmite ou comunica uma verdade que os
a exegese literal. E assim, a exegese espiri­ outros não conseguem.
tual de Orígenes venceu a exegese literal de Há um sentido canônico no qual a Bí­
Jerônimo por meio dos esforços de Agosti­ blia como um todo é um único livro (—>
nho; a exegese praticada em São Victor foi 73 abaixo), mas em termos de origem ela
absorvida pelo uso teológico e filosófico da é uma biblioteca (—» Pronunciamentos da
Escritura na escolástica posterior; Bossuet Igreja, 72:40) - a biblioteca do Israel antigo
e Pascal ofuscaram R. Simon em termos de e da igreja cristã do séc. I. Esta biblioteca
influência popular (—> Crítica do AT, 69:6). tem toda a diversidade que esperaríamos
Em parte esta história pode advertir-nos de na produção literária de uma cultura ar­
que a exegese literal deve ser cuidadosa a ticulada que atravessou quase 2000 anos.
fim de ser relevante em sentido religioso e Na Bíblia, a biblioteca de livros foi reuni­
não apenas informativa numa escala anti­ da em um só volume, sem a vantagem da
quária. Mas também deveria advertir-nos sobrecapa. Deve haver um esforço sério
de que é o dever das pessoas que ensinam e para classificá-los de acordo com o tipo de
estudam as Escrituras não se deixar desen­ literatura que representam. Isto é o que se
caminhar para caminhos mais fáceis que, quer dizer com determinar a forma literária
no final das contas, as afastarão do texto (genus litterarium [gênero literário, em la­
bíblico com todas as suas complexidades. tim]) que o autor empregou. A encíclica
A encíclica DAS, confirmada pelo Vatica­ DAS e o Vaticano II fizeram desta aborda­
no II, tornou pela primeira vez em séculos gem um imperativo para todos os estudan­
uma busca minuciosa do sentido literal tes católicos sérios da Bíblia (—> Pronuncia­
uma possibilidade real para os católicos (—> mentos da Igreja, 72:14,22), de modo que
Pronunciamentos da Igreja, 72:21,29). Resta a primeira pergunta a ser feita ao se abrir
ver se esta oportunidade será aproveitada qualquer parte da Bíblia é: que tipo de lite­
ou perdida. ratura temos aqui? Esta ênfase na forma li­
terária é um ramo do desenvolvimento ale­
23 (C) A determinação do gênero lite­ mão da crítica das formas ou Formgeschichte
rário. Na busca pelo sentido literal de qual­ [em alemão] (—» Crítica do NT, 70:42-45; —>
quer escrito, é importante determinar a for­ Crítica do AT, 69:38). A crítica das formas
ma literária que o autor empregou. Numa clássica estava preocupada primordialmen­
biblioteca moderna os livros são classifi­ te com as subseções que entraram na com­
cados de acordo com o tipo de literatura: posição de um livro bíblico individual; aqui
damos atenção primordial à forma literária até mesmo pré-história nas narrativas de
do livro todo. Gênesis sobre a origem da humanidade e
do mal, narrativas que tomaram empresta­
(B erg e r, K v Formgeschichte des Neuen Testa­ das lendas de coletâneas de outras nações e
ments [Heidelberg, 1984; em português: Formas as transformaram em veículos da teologia
literárias do Novo Testamento, Edições Loyola, monoteísta (—>Gênesis, 2:10-13). Além dis­
2002], H ay es, J. H. [ed.], Old Testament Form
so, há contos fictícios, parábolas, alegorias,
Criticism [San Antonio, 1974]. M cK n ig h t, E. V.,
What Is Form Criticism? [Philadelphia, 1969], provérbios, máximas, histórias de amor,
R e d lic h , E. B ., Form Criticism [London, 1939]. etc. A combinação de formas literárias em
T u ck er, G. M ., Form Criticism ofthe Old Testament um único livro complexo pode ser um fator
[Philadelphia, 1971].) transformador na interpretação.

24 Certamente, num sentido amplo, 25 Uma vez que os leitores tenham de­
a determinação da forma literária é um terminado a forma literária de qualquer li­
princípio reconhecido implicitamente des­ vro ou passagem bíblica, padrões aplicáveis
de um período mais antigo. Desde a época a esta forma ajudam a esclarecer o que o
do rabino Gamaliel II (final do séc. I d.C.) autor quis dizer, i.e., o sentido literal. Se Jo­
os judeus classificam os livros do AT como nas é uma parábola fictícia, o leitor deveria
Torá, Profetas e Escritos (—» Canonicidade, reconhecer que o autor não está oferecendo
66:22,29); e a divisão cristã destes livros em uma história das relações de Israel com a
Pentateuco, históricos, proféticos e sapien- Assíria e não está apresentando a história de
ciais está ainda mais próxima de uma dis­ um profeta no ventre de uma baleia como
tinção de tipos literários. Somente nos tem­ um acontecimento factual; antes, o autor
pos modernos, contudo, com a descoberta comunica, de um modo imaginativo, uma
de literaturas de povos contemporâneos a verdade profunda acerca do amor de Deus
Israel, demo-nos conta de quantos tipos de para com as nações gentílicas. Se a afirma­
literatura eram correntes na Antiguidade. ção segundo a qual o sol parou em Js 10,13
Sem tentar ser exaustivos, ilustremos isto vem de um fragmento de uma descrição al­
a partir do AT, que é uma biblioteca mais tamente poética num cântico de vitória, os
variada que o NT. Existem muitas varieda­ leitores o julgarão à luz da licença poética e
des de poesia no AT: a poesia épica subjaz não segundo as regras da história em senti­
a algumas das narrativas no Pentateuco e do rigorosos. Se as narrativas de Sansão são
em Josué; a poesia lírica se encontra em Sal­ contos folclóricos, os leitores não darão a
mos e Cantares; a poesia didática se encon­ elas a mesma credencial histórica atribuída
tra em Provérbios, Eclesiástico e Sabedoria; à história da corte de Davi. Muitas dificul­
elementos de drama se encontram em Jó. dades passadas acerca da Bíblia ocorreram
Dentro dos livros proféticos existe tanto porque se deixou de reconhecer a diversi­
profecia como apocalíptica (—» Apocalíp­ dade das formas literárias que ela contém
tica do AT, 19:5-18). Não existe uma única e por causa da tendência de interpretar er­
forma de história no AT, mas muitas: uma roneamente como história científica partes
análise factual, penetrante, aparentemen­ da Bíblia que não são históricas ou são his­
te por uma testemunha ocular, na história tóricas apenas num sentido mais popular.
da corte de Davi (2Sm 11-lRs 2); registros Tomamos exemplos do AT, mas o mesmo
palacianos estilizados e abreviados em Reis problema existe no NT. Os evangelhos não
e Crônicas; história épica romantizada e são biografias históricas de Jesus no sentido
simplificada da saga nacional em Êxodo; científico, mas relatos escritos da pregação
contos sobre heróis tribais em Juizes; his­ e do ensino da protoigreja acerca de Jesus,
tórias de grandes homens e mulheres do e sua precisão deve ser julgada de acor­
passado nos relatos sobre os patriarcas. Há do com os padrões de pregação e ensino
(—> Pronunciamentos da Igreja, 72:35). As neas que formam Isaías, a ordem cronoló­
narrativas da infância de Jesus podem di­ gica das profecias de Jeremias (diferente da
ferir quanto à forma literária do restante de ordem atual do livro bíblico). Nos evange­
Mateus e Lucas. lhos, é importante saber se um dito particu­
lar de Jesus chegou até Lucas ou Mateus a
26 Esta abordagem da exegese baseada partir de Marcos, da fonte Q ou de uma ou­
na descoberta do tipo de literatura implica­ tra fonte peculiar ao respectivo evangelista.
do está sujeita a duas concepções errôneas Esta história literária não é investigada na
comuns. Primeira, alguns conservadores exegese bíblica simplesmente por seu pró­
consideram a busca pela forma literária prio valor, que poderia ser em grande parte
como uma tentativa de evitar a historici­ antiquário, mas pelo que ela nos diz sobre
dade das passagens bíblicas, e, portanto, a intenção de um autor que se valeu de fon­
acham perigoso aplicar a teoria das formas tes anteriores na composição de sua própria
literárias aos trechos mais sagrados da Bí­ obra. A junção e a adaptação destas fontes
blia. Mas cada trecho escrito pode ser clas­ podem ser indicativos de uma perspectiva
sificado como pertencente a um tipo de lite­ teológica que se reflete no sentido literal da
ratura ou outro. História factual é um tipo composição final.
de literatura; ficção é um outro tipo; ambos
existem na Bíblia, como também quase to­ 28 Aqui tocamos na abordagem da
dos os tipos literários intermediários entre Bíblia conhecida como Redaktionsgeschichte
os dois extremos. Se alguém classifica cor­ [história da redação, em alemão]. Se a Form­
retamente uma determinada parte da Bíblia geschichte [história das formas] diz respeito
como ficção, essa pessoa não está destruin­ às diferentes formas ou tipos de literaturas
do a historicidade desta seção, pois ela nun­ na Bíblia e às regras apropriadas a elas, a
ca foi história; ela simplesmente está reco­ Redaktionsgeschichte se preocupa com o
nhecendo a intenção do autor ao escrever modo em que estas partes literárias servem
esta seção. A segunda concepção errônea ao propósito geral do escritor. Por exemplo,
diz respeito à relação da inspiração com a os exegetas dos evangelhos fazem apenas
diversidade das formas literárias bíblicas. parte de seu trabalho quando classificam
Há uma sensação de que de algum modo uma história como um tipo particular de
o reconhecimento de que certas partes da parábola e determinam até que ponto ela se
Bíblia foram escritas como ficção debilita conforma às regras gerais para este tipo de
ou contesta sua inspiração. A encíclica DAS parábola. Por que a parábola está incluída
(EB 559) oferece uma resposta: Deus poderia neste evangelho e colocada neste contexto
inspirar qualquer tipo de literatura que não particular? Qual significado o evangelista
fosse indigna ou enganosa, i.e., contrária a vincula a ela? Responder estas perguntas
sua santidade e verdade (p.ex., pornografia, acerca do alvo da composição é dar outro
mentiras). A ficção bíblica é tão inspirada passo na determinação do sentido literal da
quanto a história bíblica. Escritura.

27 (D) História literária e redação. 29 Após os passos que descrevemos


Após se determinar o tipo de literatura im­ (determinar o gênero literário, a história
plicado, outro passo na busca pelo sentido literária e os objetivos da composição), o
literal é descobrir a história literária do li­ exegeta está então em condições de pro­
vro ou da seção que se está estudando. Este curar o sentido literal de passagens e ver­
é um problema especial no estudo da Bíblia sículos individuais. Aqui o processo é o
por causa da longa história de editoração mesmo de qualquer outra obra antiga.
(—» 11 acima). E preciso esclarecer as tradi­ O significado literal de cerca de 90 a 95
ções individuais do Pentateuco, as coletâ­ por cento da Bíblia pode ser determinado
mediante uma aplicação sensata das re­ O estudo contínuo lança constantemen­
gras comuns de interpretação. Há algumas te luz até mesmo sobre passagens como
passagens cujo significado nos escapa por­ estas. (Veja O. Kaiser e W. G. Kümmel,
que o texto foi corrompido na transmissão, Exegetical Method: A Student’s Handbook
porque elas usam palavras raras, porque o [New York, 1967]; R. S. Barbour, Traditio-
autor se expressou de maneira obscura, ou -Historical Cristicism of the Gospels [London,
porque não temos conhecimento suficiente 1972]; N. Perrin, What Is Redaction Cristicism?
sobre o contexto no qual foram compostas. [Philadelphia, 1969].)

SENTIDOS SUPRALITERAIS

30 Voltamo-nos agora à detecção do Deus para ouvintes de todas as épocas. Este


sentido escriturístico que vai além do literal envolvimento bíblico contínuo dos leito­
- um sentido que, por definição, não está res/ ouvintes com Deus (com ou sem o ca­
confinado ao que o autor humano preten­ talisador da pregação) revela significados
deu e transmitiu diretamente em suas pala­ além daquele previsto pelo autor humano
vras escritas. Por um lado, a possibilidade em suas circunstâncias locais e limitadas.
de tal "excesso de significado" é inerente O reconhecimento de um sentido mais
a qualquer grande obra que é lida num pe­ que literal é, como veremos, tão antigo
ríodo posterior, pois um clássico amplia o quanto a Escritura em si e frequentemente
horizonte de gerações contínuas de leitores. teve uma influência mais dinâmica sobre a
Frequentemente o autor original não previa vida das pessoas do que o sentido literal.
estes futuros leitores, mas suas palavras es­ Entretanto, ele apresenta um problema de
critas continuam abertas para um diálogo seu controle. Quando a busca deixa de ser
que se confronta com novas questões - um exegese (a detecção de um significado que
novo "mundo na frente do texto". Por outro surge no texto) e se torna "eisegese" (a im­
lado, a questão mais-que-literal ou suprali­ posição ao texto de um significado estranho
teral é especialmente pertinente à Escritura. a ele)? Quando há um diálogo genuíno entre
Primeiro, séculos após escrevê-lo, o livro o texto e os leitores atuais, diferentemente
do autor foi reunido numa coletânea cha­ de o texto ser apenas a ocasião de os leito­
mada de Bíblia. Esta nova disposição, que res falarem a si mesmos acerca de suas pró­
dificilmente poderia ter sido prevista pelo prias pré-concepções? Até que ponto uma
autor, pode ter modificado seriamente sua relação responsável entre o sentido literal e
intenção. (Por exemplo, Lucas concebeu o sentido mais-que-literal é uma resposta à
seu evangelho e Atos como um único livro, questão do controle? A história da exegese
mas o processo canônico os dividiu. Não mais-que-literal ou supraliteral reflete estes
há indícios de que o autor de João, com sua problemas.
reivindicação de testemunho singular teria
ficado contente em ver sua obra colocada 31 (I) História da exegese supralite­
ao lado de e no mesmo nível das obras cha­ ral. Embora muitas abordagens diferentes
madas de evangelhos.). A justaposição dos sejam descritas, a sensibilidade para com o
livros proporciona associações na Bíblia problema do significado mais profundo é o
que nenhum autor singular pode ter feito, fator unificante. As dificuldades reveladas
ampliando o significado originalmente pre­ nesta história não deveriam depreciar a va­
tendido. Segundo, mesmo após a coletânea lidade do objetivo.
de livros canônicos estar estabilizada, a (A) Até o final da época neotestamentá-
crença de que a Escritura teve um "autor" ria. Dentro da própria Bíblia encontramos o
divino significa que a Bíblia é a palavra de autor de Sb 11-19 retomando as narrativas
mais antigas das pragas e da libertação do ponto os princípios segundo os quais os au­
Egito e extraindo delas um tema de liberta­ tores do NT interpretaram o AT. Isaías 7,14
ção para sua própria época. Neste tipo de pôde ser retratado por Mt 1,23 como pre­
exegese vê-se um paralelismo entre o pas­ dição do nascimento virginal de Jesus; as
sado e o presente. Outro exemplo seria a co­ passagens sobre o servo sofredor em Dt-Is pu­
nexão que Deuteroisaías traça entre o êxo­ deram ser descritas como predição dos so­
do do Egito e o retorno da Babilônia. Este frimentos e da morte do Messias (Lc 24,26);
paralelismo se baseia na tese de que a ação o autor do SI 22 pode ser visto como alguém
de Deus em favor de seu povo segue um que previu em detalhes a paixão de Jesus
padrão de fidelidade: ele é o mesmo ontem, (27,35.39.43.46). Alguns comparam este tipo
hoje e para sempre. Ele não se baseia numa de exegese à exegese pesher de Qumran (B.
abordagem cíclica da história. Lindars, New Testament Apologetic [Philadel­
phia, 1961]), mas existem diferenças impor­
32 Nos últimos séculos a.C. houve um tantes. Os intérpretes de Qumran, em seus
desenvolvimento que teve efeitos profun­ comentários sistemáticos, estudaram o AT
dos tanto sobre a exegese judaica quanto so­ para interpretar a história de sua comunida­
bre a cristã. Ao passo que em tempos mais de, mas o ponto focal dos autores do Novo
antigos entendia-se primordialmente que Testamento era Jesus, que lançava luz sobre
os profetas falaram para sua própria épo­ o AT. Eles escreveram seus "comentários"
ca, com uma presciência dada divinamente sobre ele, de modo que não houve qualquer
a respeito do plano de Deus para o futuro comentário cristão sistemático sobre o AT
imediato e relevante, agora pensava-se que até o final do séc. II, p.ex., os comentários
os profetas do passado predisseram o futu­ de Hipólito sobre Ct e Dn. Não temos in­
ro distante. A apocalíptica (—» Apocalíptica dícios de que os escritores do Novo Testa­
do AT, 19:19) foi um fator importante nesta mento achassem que cada linha do AT se
mudança de ênfase, seguindo o padrão de aplicasse a Jesus ou tivesse um significado
Dn, no qual supostamente um profeta do cristão - uma teoria que se tornou popular
séc. VI teve visões do que aconteceria no na época patrística. A exegese do AT feita
séc. II. Tal compreensão dos profetas e, de pelo NT era extraordinariamente variada,
fato, de outros escritores bíblicos, como os e qualquer tentativa de classificá-la como
salmistas, deu origem à exegese pesher de um único tipo de exegese está condenada
Qumran (—» Apócrifos, 67:68), onde cada ao fracasso. Ela tinha elementos de sensus
linha dos livros antigos era interpretada em plenior [sentido mais pleno], tipologia, ale­
termos do que estava acontecendo à seita goria e acomodação. Uma característica
de Qumran centenas de anos depois. particular desta exegese neotestamentária
era retrojetar a presença de Jesus em cenas
(B rooke , G . J ., Exegesis at Qumran: 4QFlorilegium do AT (ICor 10,4; veja A.T. Hanson, Jesus
[JSOTSup 2 9 ; Sheffield, 1 9 8 5 ] , B r u c e , F . F ., Biblical Christ in the Old Testament [Londres 1965]).
Exegesis in the Qumran Texts [Grand Rapids, 1 9 5 9 ] .
F it zm y er , J. A., "The Use of Explicit Old Testament (B l ä s er , P., "St. Paul’s Use of the Old Testa­
Quotations in Qumran Literature and in the New ment", TD 2 [ 1 9 5 4 ] 4 9 - 5 2 . C e r f a u x , L ., "Simples
Testament", NTS 7 [ 1 9 6 0 - 6 1 ] 2 9 7 - 3 3 3 . G a brio n , H ., réflexions à propos de 1’exégèse apostolique",
"L’interprétation de L’Écriture dans la literature Problèmes et méthode 3 3 - 4 4 ; "L’exegese de 1’Ancien
de Qumrân", ANRW I I / 2 5 . 1 , 7 7 9 - 8 4 8 . H o r g a n , Testament par le Nouveau", in L Ancien Testament
M. O., Pesharim: Qumran Interprétations of Biblical et les chrétiens 1 3 2 - 4 8 . E llis , E . E ., Paul ’s Use of the
Books [CBQMS 8 ; Washington, 1 9 7 9 ] especial­ Old Testament [Grand Rapids, 1 9 8 1 ] ; Prophecy and
mente p. 2 4 4 - 5 9 .) Hermeneutic in Early Christianity [Grand Rapids,
1 9 7 8 ] . K u g e l , J. L . e R. A. G r eer , Early Biblical Inter­
33 Além disso, este entendimento dos pretation [Philadelphia, 1 9 8 6 ] - tanto cristã quanto
profetas e salmistas do AT explica até certo judaica. L o n g e n e c k er , R. N., Biblical Exegesis in
the Apostolic Period [Grand Rapids, 1975]. Van das mais profundas verdades da fé cristã,
der Ploeg, J., "L’exégèse de l’Ancien Testament nas quais a elite era iniciada. A chave para a
dans 1’Építre aux Hébreux", RB 54 [1947] 187-228. gnose era uma exegese alegórica da Bíblia,
V e rn a rd , L., "Citations de l’Ancien Testament
uma exegese que cobria todo o espectro,
dans le Nouveau Testament", DBSup 2. 23-51.)
indo desde a tipologia, passando pela aco­
modação e chegando até o conceito filônico
34 Embora estejamos preocupados,
da Bíblia como lição em psicologia e cosmo­
no restante de nosso breve histórico, com a
logia.
exegese cristã do AT, deveríamos observar
que no judaísmo pré-cristão e nos círculos
36 Provavelmente Orígenes teve mais
rabínicos pós-cristãos a busca por uma exe­
influência sobre a exegese patrística que
gese mais-que-literal era tão comum quanto
qualquer outro personagem, embora mais
nos círculos cristãos. Os targuns (—>Textos,
tarde sua ortodoxia teológica tenha se tor­
68:103-5) de fato propõem uma exegese do
nado suspeita. Quase todos os manuais
que traduzem, descobrindo elementos mes­
afirmam que a exegese de Orígenes era ir-
siânicos no AT. Os midráshes (—> Apócri­
restritamente alegórica, e ele é geralmente
fos, 67:140) também interpretam a Escritura
acusado de negar o sentido literal da Escri­
anterior aplicando-a a problemas atuais.
tura. A. von Harnack falou da "alquimia bí­
A exegese não literal judaica que teve a
blica" de Orígenes. H. de Lubac, J. Daniélou
maior influência sobre a exegese literal cris­
e outros modificaram este retrato. Orígenes
tã foi a alegorização de Filo (—> Apócrifos,
não desconsiderou simplesmente o senti­
67:125).
do literal (embora ele não entendesse que
o sentido metafórico era literal), mas estava
(B o n sirv e n , J., Exégèse rabbinique et exégèse
;paulinienne [Paris, 1939]. Fishbane, M., Biblical In­ interessado num sentido da Escritura que
terpretation in Ancient Israel [Oxford, 1986], G elin , pudesse fazer os cristãos verem o AT como
A., "Comment le peuple d’lsrael lisait l’Ancient seu livro. Boa parte de sua exegese alegó­
Testement", L ’Ancient Testament et les chrétiens rica se baseava na teoria de que o AT era
117-31. Ginzberg, L., "Allegorical Interpretations", cristológico em muitas passagens. Mesmo
JE 1. 403ss. P a tte , D., Early Jewish Hermeneutic in admitindo que devamos julgar Orígenes de
Palestine [SBLDS 22; Missoula, 1975]. Sow ers, S. modo mais apreciativo e que há um elemen­
G ., The Hermeneutics of Philo and Hebrews [Rich­ to comedido em sua exegese (que de Lubac
mond, 1965].) chama de sentido espiritual, e Daniélou de
tipologia), este autor não compartilha da
35 (B) Período patrístico. Nos escritos opinião de que a exegese de Orígenes possa
protocristãos do see. II encontramos indí­ realmente ser revivida para nosso tempo,
cios de uma exegese espiritual muito livre ainda que seus interesses fossem semelhan­
(;p.ex., Barn.). Todavia, até mesmo exegetas tes aos exemplificados em algumas aborda­
mais comedidos, como Justino e Tertuliano, gens modernas (—» 44-48,52 abaixo).
esquadrinharam o AT em busca de textos
probatórios que se referissem a Cristo, e in­ 37 A escola exegética de Antioquia,
terpretaram estas passagens de um modo rival da de Alexandria como grande cen­
que ia muito além do sentido literal. Foi tro cristão, tem sido muito ingenuamente
Alexandria que produziu a primeira gran­ aclamada como defensora da exegese críti­
de escola cristã de exegese; e por meio de ca em contraposição à exegese alegórica de
homens como Clemente e Orígenes, a ale­ Alexandria. No final do séc. III, Luciano de
gorização de Filo alcançou uma posição do­ Samósata lançou os fundamentos desta es­
minante na exegese cristã do AT. Clemente cola, e entre seus representantes encontram-
baseou sua exegese na existência de uma se Diodoro de Tarso (t em 390) Teodoro de
gnose cristã, i.e., o conhecimento secreto Mopsuéstia (t em 428) e, até certo ponto,
João Crisóstomo (t em 407). No ocidente, 242-48. M arsh, H. G.,/TS 37 [1936] 64-80. M ondésert,
Juliano, o bispo pelagiano de Eclano (t em C ., RSR 26 [1936] 158-80; Clément d ’Alexandrie
454), foi o principal adepto dos princípios [Paris, 1944]. SobreO rígenes: D aniélou , Origène
[Paris, 1948]. De Lubac, H ., Histoire et esprit [Paris,
de Antioquia. Os grandes antioquenos, en­
1950]. H an son , R. P. C ., Allegory and Event, [L on­
tão, não foram contemporâneos de Oríge-
d res, 1958]. N au tin , P ., Origène: Sa vie et son oeuvre
nes, mas de alexandrinos posteriores como [Paris, 1977]. Trigg, J. W., Origem The Bible and
Atanásio (t em 373) e Dídimo o Cego (t em Philosophy in the Third-Century Church [A tlanta,
398). De muitas maneiras Cirilo de Alexan­ 1983]. Sobre T e o d o ro de M o p su éstia: Devreesse,
dria (t em 444) demonstrou uma percep- R., RB 53 [1946] 207-41. Sobre C irilo: K errig an ,
tividade na exegese literal que o colocou A ., St. Cyril of Alexandria, Interpreter of the Old
entre as escolas alexandrina e antioquena. Testament [R o m a, 1952]. Sobre Ju lian o: D ’A lès,
Os capadócios do séc. IV (especialmen­ A ., RSR 6 [1916] 311-24. Sobre C risóstom o: O g a ra ,
te Gregório de Nissa e Basílio), por outro F., Greg 24 [1943] 62-77. P a ra u m a com p aração da
exegese alexand rina e antioqu iena, veja J. G u ille t,
lado, continuaram seguindo fortemente a
RSR 37 [1947] 257-302; tam b ém W. B u rg h a rd t,
tendência origenista.
"O n E arly C hristian E xeg esis", TS 11(1950] 78-116;
Pouco da exegese antioquiena foi pre­ C. H ay, "A n tio c h e n e E xeg esis and C h risto lo g y ",
servada. Na teoria, e até certo ponto na prá­ AusBR 12 [1964] 10-23. Sobre G reg ó rio d e N issa:
tica, Antioquia deu mais atenção ao sentido C an év et, M „ Gregoire de Nysse et l ’herméneutique
literal (com todas as limitações da exegese biblique [P aris, 1983]. H arl, M ., Écriture et culture
no séc. IV). Mas Antioquia também propôs philosophique dans la pensée de Grégoire de Nysse
uma exegese mais-que-literal que implica­ [L eid en, 1971]. P ara u m a av aliação p o sitiv a da
va uma theõria que, para todos os propósi­ e xeg ese p a trística , v e ja D. C. Steinm etz, TToday
tos práticos, era um equivalente próximo 37 [1980] 27-38.)
da allégõria de Alexandria. Thèoria era uma
intuição ou visão mediante a qual o profeta 38 Enquanto isso, no Ocidente, alguns
do AT podia ver o futuro por meio de suas dos exegetas latinos (p.ex., Ambrosiastro,
circunstâncias presentes. Após esta visão, cerca de 375) mostravam sobriedade na
era-lhe possível formular seus escritos de exegese. Contudo, com Hilário (t em 367),
tal modo a descrever tanto o significado Ambrósio (t em 397) e especialmente Agos­
contemporâneo dos acontecimentos quan­ tinho (f 430), as ondas da exegese alegórica
to seu cumprimento futuro. (Para estudos alexandrina varreram o Ocidente. No Trac-
sobre theõria, veja A. Vaccari, Bib 1 [1920] 3­ tatus mysteriorum de Hilário, encontramos o
36; F. Seisdedos, EstBib 11 [1952] 31-67; P. princípio de que o AT em sua totalidade é pre­
Ternant, Bib 34 [1953] 135-58, 354-83, 456­ figuração do NT. Ticônio, exegeta donatista
86.). A tarefa dos exegetas antioquenos era do final do séc. IV, formulou, em seu Líber
encontrar ambos os significados nas pala­ regularum, a regra de que cada versículo do
vras dos profetas; e, em sua busca do signi­ AT poderia ser interpretado de um modo
ficado futuro das palavras dos profetas (o cristão. Agostinho resumiu esta abordagem
produto da theõria), os antioquenos levavam no seguinte princípio: "O Novo Testamen­
em consideração o problema da consciência to está latente no Antigo; o Antigo Testa­
do autor humano mais frequentemente do mento se torna patente por meio do Novo"
que o faziam os alexandrinos, que tendiam (In vetere novum lateat, et in novo vetus pateat
a ver o futuro em símbolos e acontecimen­ - Quaest. in Heptateuchum 2.73; PL 34. 625).
tos, bem como na palavra profética. Inicialmente, Jerônimo (t em 420), seguiu
os princípios de Orígenes, mas os comentá­
(Sobre Justino: P r ig e n t , P ., Justin et l ’Ancien rios escritos no final da vida de Jerônimo
Testament [Paris, 1964], S h o t w e l l , W. A., The Bibli­ revelam um interesse maior pelo sentido li­
cal Exegesis of Justin Martyr [Londres, 1965]. Sobre teral. Todavia, depois da época de Jerônimo
Clemente de Alexandria: C a m e l o t , T., RB 53 [1946] e do fim do séc. IV, o estilo da exegese alexan-
drina dominou no Ocidente, e a exegese an- importância histórica, enquanto que outros
tioquena teve pouca influência duradoura sentidos eram para a fé e para o comporta­
(veja M. Laistner, HTR 40 [1947] 19-31). De mento. O misticismo monástico, a pregação
fato, depois que o Concílio de Constanti­ aos fiéis e a busca de material teológico nas
nopla II (533) difamou o nome de Teodoro escolas dependiam mais acentuadamente
de Mopsuéstia, a herança antioquena foi dos sentidos mais-que-literais e deram um
olhada com suspeita. Nas obras de algumas aspecto não literal dominante à exegese me­
grandes figuras da exegese ocidental, p.ex., dieval. Talvez devêssemos observar que o
Gregório o Grande (f em 604) e Beda (t em mesmo amor pela alegoria aparece também
735), a exegese alegórica floresceu. na literatura secular do final da Idade Mé­
dia (p.ex., O romance da rosa e mais tarde A
(Sobre a exegese latina: K e lly , J. N. D. em fada rainha).
Nineham (ed.), Church’s Use 41-56. Sobre Agosti­
nho: P o n te t, M ., L ’exégèse de S. Augustin prédicateur 40 Contudo, houve momentos em que
[Paris, 1944]. Sobre Jerônimo: H artm an , L. em A o reconhecimento da importância do senti­
Monument to St. Jerome [ed. F. X. M urphy; New
do literal transpareceu. Especialmente in­
York, 1952] 35-81. K e lly , J. N. D., Jerome [New
York, 1976], P en n a , A., Principi e carattere deli’ fluente neste aspecto foi a escola da Abadia
esegesi di S. Gerolamo [Roma, 1950]. Steinm ann, J., de São Victor em Paris, fundada em 1110.
St. Jerome and His Times [Notre Dame, 1959].) Hugo de São Victor atacou a tradição de
Gregório e Beda; André de São Victor reno­
39 (C) Idade Média. Pode-se dizer vou o interesse no hebraico e nas ferramen­
que o princípio teórico orientador da exe­ tas técnicas da exegese. Desde a época de
gese medieval se originou da distinção feita Jerônimo, a igreja ocidental tivera poucos
por João Cassiano (t por volta de 435) entre homens capazes de estudar o AT em sua
quatro sentidos da Escritura: (1) o histórico língua original; e Herbert de Bosham, alu­
ou literal, (2) o alegórico ou cristológico, (3) no de André, foi o mais competente hebra-
o tropológico, ou moral, ou antropológico, ísta no Ocidente cristão nos mil anos entre
(4) o anagógico ou escatológico. Por fim Jerônimo e o Renascimento. Além disso, o
esta divisão deu origem à famosa parelha desenvolvimento da teologia como uma
de versos: disciplina separada da exegese estrita pos­
sibilitou que os estudiosos considerassem
Littera gesta docet; quid credas allegoria; as verdades cristológicas em si mesmas sem
moralis quid agas; quo tendas analogia. basear sua exposição na Escritura interpre­
tada alegoricamente. Tomás de Aquino
[A letra ensina o que aconteceu; a alegoria, o deixou claro que a metáfora fazia parte do
que deves crer; sentido literal (-» 9 acima) e sustentou que
a moral, o que deves fazer; a anagogia, para a doutrina não deveria se basear apenas no
onde deves caminhar.]
sentido espiritual. Seu princípio era: "Nada
necessário à fé está contido no sentido espi­
Os quatro sentidos do termo "Jerusa­ ritual [i.e., sentido típico ou sentido das coi­
lém", um exemplo dado por Cassiano, ilus­ sas] que a Escritura não exponha em outro
tra a teoria. Quando Jerusalém é menciona­ lugar no sentido literal" (Summa 1.1,10 ad
da na Bíblia, em seu sentido literal ela é uma 1). O dominicano inglês Nicolas Trevet e o
cidade judia; alegoricamente, contudo, ela franciscano Nicolau de Lira (t em 1349) re­
se refere à igreja de Cristo; tropologicamen- conheceram que nem todos os Salmos eram
te Jerusalém representa a alma humana; messiânicos e propuseram regras para de­
anagogicamente ela significa a cidade celes­ terminar quais deles eram messiânicos.
tial. Num ambiente exegético como este, o Roger Bacon, embora teoricamente apoias­
sentido literal era considerado como tendo se as concepções alexandrinas de exegese,
demonstrou fascinação pela crítica textual e Lutero tenha atacado a alegorização crassa,
pelo aparato filológico. Durante os sees. XII, ele permaneceu firmemente convicto do
XIII e no início do séc. XIV, estas tendências caráter cristológico do AT e, portanto, deu
vieram à superfície como ilhas no mar, mas continuidade a uma exegese tipológica que
não sobreviveram; e a Idade Média chegou seria questionada por muitos hoje. Calvi-
ao fim com a alegoria numa posição mais no foi ainda menos favorável à alegoriza­
uma vez dominante em autores como Mes­ ção do que Lutero; todavia, ele também foi
tre Eckhart (t em 1328), João Gerson (t em frequentemente mais-que-literal. (Veja R.
1429) e Dênis o Cartuxo (t em 1471). O mo­ M. Grant e D. Tracy, A Short History of the
vimento para traduzir a Bíblia para o verná­ Interpretation ofthe Bible [2- ed; Philadelphia,
culo, que, como a maior parte dos esforços 1984] 92- 99 quanto aos pontos positivos e
de tradução, fez as pessoas pensarem sobre aos limites no retorno dos reformadores ao
o sentido literal, infelizmente foi muitas ve­ sentido literal.). É interessante observar que
zes manchado pela revolta eclesiástica (—> as seitas dissidentes do movimento da Re­
Textos, 68:191) e, assim, teve efeito contrá­ forma, os anabatistas e os antitrinitaristas,
rio quanto a uma possível correção dos exa­ apoiavam a exegese espiritual, muitas ve­
geros do sentido espiritual. zes porque passagens do AT eram usadas
literalmente pelo ramo mais conservador
(CHB 2: The West from the Fathers to the Refor­ da Reforma como justificativa escriturística
mation [1969]. C henu, M.-D., " L e s deux âges de para perseguir as seitas.
1’allégorisme scripturaire au Moyen Age", RTAM
18 [1951] 19-28. De Lubac, H., Exégèse médiévale:
42 A Contrarreforma católica tinha de
Les quatre sens de I ’Ecriture [4 vols.; Paris, 1959-64].
responder aos argumentos provenietes da
Evans, G. R., The Language and Logic of the Bible: The
Early Middle Ages [Cambridge, 1984]. H ailperin, exegese literal protestante também apelan­
H., Rashi and the Christian Scholars [Pittsburgh, do ao sentido literal da Escritura. O jesuíta
1963], L e c le r c q , J., The Love of Learning and the Maldonatus (t em 1583) produziu comen­
Desire for God: A Study of Monastic Culture [2aed.; tários exegéticos substanciais. Contudo,
New York, 1974] esp. 87-109. M c N a lly , R. E., quando o caráter imediato do perigo re­
The Bible in the Early Middle Ages [Westminster, presentado pela Reforma passou, a exegese
1959], O berm an, H. A., The Harvest of Medieval espiritual retornou, especialmente sob as
Theology: Gabriel Biel and Late Medieval Nominalism bandeiras do jansenismo, p.ex., em Pascal.
[Grand Rapids, 1967] especialmente 365-412.
A ênfase católica nos Padres da Igreja foi
Preuss, J. S., From Shadow to Promise: Old Testament
outro ímã forte na direção da exegese es­
Interpretation from Augustine to the Young Luther
[Cambridge MA, 1969], S m a lle y , B., Medieval piritual; pois, se os Padres eram apontados
Exegesis of Wisdom Literature [Atlanta, 1986]; The como o melhor exemplo de como interpre­
Study of the Bible in the Middle Ages [Notre Dame, tar a Escritura, sua exegese era mais-que-li-
1 9 6 4 ] , S pic q , C., Esquisse d ’une histoire de l ’exégèse teral. Cornélio a Lapide (t em 1637) encheu
latine au Moyen Age [Paris, 1 9 4 4 ] , T o r r a n c e , T . F ., seus comentários com exegese espiritual se­
"Scientific Hermeneutics According to St. Thomas lecionada dos Padres. Também no protes­
Aquinas", JTS 1 3 [1 9 6 2 ] 2 5 9 - 8 9 .) tantismo, no pietismo do séc. XVII, a tipolo­
gia e a acomodação retornaram na medida
41 (D) Séculos XVI e XVII. Passando em que as Escrituras eram exploradas em
agora ao contexto da Reforma e suas conse­ busca de riqueza ascética. Cocceius (1603­
quências imediatas, constatamos que, com 1649) apresentou uma exegese impregnada
Caetano do lado católico e Lutero e Calvi- de tipologia.
no do lado protestante, houve uma reação Mas o reavivamento da exegese espiritual
contra a alegorização e uma ênfase no pano não iria dominar o campo da interpretação
de fundo histórico das obras bíblicas. Con­ para sempre. Neste mesmo século viveu
tudo, não devemos esquecer que, embora Richard Simon (m.o em 1712), que foi um
profeta à frente de seu tempo e o primeiro 44 (a) Fundamentalismo. Antes de co­
dos críticos modernos da Bíblia. Rejeitado meçar a expor as concepções científicas re­
por seus contemporâneos e até mesmo por conhecidas, deveríamos distinguir este re­
sua igreja, Simon inaugurou um movimen­ cente interesse mais-que-literal da rejeição
to que daria a supremacia à exegese literal. da exegese crítica no que é popularmente
chamado de fundamentalismo. Visto que
(CHB 3: The West from the Reformation to the alguns dos primeiros praticantes protestan­
Present Age [1963]. Ebeling, G., Evangelische Evan­ tes da exegese histórico-crítica tinham um
gelienauslegung: Eine Untersuchung zu Luthers viés antidogmático, os cristãos protestantes
Hermeneutik [Darmstadt, 1962; original: 1942], conservadores, especialmente no começo
Frei, H. W., The Eclipse of Biblical Narrative: A Study
do séc. XX, acharam que os aspectos fun­
in Eighteenth and Nineteenth Century Hermeneutic
[New Haven, 1974]. Peu kan , J., Luther the Expositor damentais da fé cristã estavam sendo cor­
[St. Louis, 1959]. Preuss, J. S. [—»40 acima]. Schw arz, roídos (especialmente a criação, concepção
W., Principies and Problems of Biblical Translation: virginal, ressurreição corporal). Um modo
Some Reformation Controversies and Their Background de preservar estes aspectos fundamentais
[Cambridge, 1955]. Steinm ann, J., "Entretien de foi insistir que "o que a Bíblia diz" é sem­
Pascal et du Père Richard Simon sur les sens de pre literalmente factual. Na prática, então,
l’Écriture", Vielnt [mar. 1949] 239-53.) a única forma literária (—> 23 acima) reco­
nhecida na Bíblia era a história. Esta atitu­
43 (E) Passado recente. Os secs. XIX e de se combinou frequentemente com uma
XX assistiram ao triunfo da exegese crítica abordagem distorcida da inspiração em
e literal à qual R. Simon dera o impulso há função da qual Deus se torna o único autor
tanto tempo. (Quanto à história da exegese que dita as palavras da Escrituras. Com o
crítica no período intermediário, —» Críti­ autor humano reduzido a um escriba que
ca do AT, 69:6ss., —> Crítica do NT, 70:4ss.). registra, a cosmovisão limitada do autor se
Olhando para a hermenêutica que acaba de torna irrelevante na interpretação da Bíblia.
ser descrita nos parágrafos 31-42, muitos exe­ Apesar do literalismo que marcou esta abor­
getas encontrariam um universo ideativo es­ dagem fundamentalista da Escritura, ele
tranho onde a imaginação corria solta e onde tem pouco a ver com o sentido literal des­
o significado literal das Escrituras, mesmo crito nos parágrafos 13-19 acima. A teologia
quando era reconhecido, submergia constan­ pré-crítica dos pregadores fundamentalistas
temente sob uma forte maré de simbolismo. é imposta às Escrituras de um modo que de­
Por exemplo, uma abordagem patrística que safia a classificação hermenêutica. O debate
encontrava Cristo em cada linha do AT di­ com este fundamentalismo pertence mais à
ficilmente poderia ser relacionada com a apologética do que aos estudos da Escritura.
moderna crítica das fontes do Pentateuco, a A brevidade destas observações não pode
ênfase na perspectiva limitada dos profetas encobrir, contudo, que nos Estados Unidos
e um reconhecimento de paralelos pagãos e em áreas vizinhas o uso fundamentalista
de características dos livros sapiências de da televisão e do rádio converteu milhões de
Israel. A pesquisa que se tornou historica­ pessoas a esta concepção, não apenas protes­
mente consciente distingue entre a teologia tantes, mas também católicos e judeus. Veja
do NT e a teologia da igreja subsequente, re­ J. Barr, Fundamentalism (Philadelphia, 1978);
conhecendo que os Padres e os escolásticos Beyond Fundamentalism (Philadelphia, 1984).
encontraram no NT percepções teológicas
das quais os autores originais eram inocen­ 45 (b) Preservação de elementos da tipo­
tes. Entretanto, a ênfase moderna no sentido logia patrística. Em conexão com a história
literal não eliminou o interesse no sentido descrita acima, podemos começar a exposi­
mais-que-literal, um interesse que se expres­ ção da exegese mais-que-literal defendida
sou de modos variados nos últimos 50 anos. recentemente com tentativas de extrair da
exegese espiritual patrística suas percep­ de tipologia que talvez fossem considera­
ções essenciais sem adotar os exageros e dos inválidos atualmente (veja Barr, Old
sem denegrir as contribuições da exegese and New 103-48).
histórico-crítica moderna. (E interessante
que uma tentativa de fazer reviver a exege­ 47 Uma definição amplamente aceita
se espiritual e simbólica patrística às custas é a seguinte: O sentido típico é o sentido mais
do sentido literal foi condenada pela PCB profundo das "coisas" sobre as quais se escreve
romana em 1941 [—> Pronunciamentos da na Bíblia quando se percebe que elas prefigura­
Igreja, 72:29].). Este movimento encontrou vam "coisas" futuras na obra salvífica de Deus.
seus mais fortes proponentes na Inglaterra (1) O sentido típico diz respeito a "coisas"
e na França, nas décadas de 1940 a 1960, - uma tradução deselegante do termo lati­
em parte a fim de preservar uma rica he­ no res que inclui pessoas, lugares e aconte­
rança, em parte em reação à esterilidade cimentos. As realidades que prefiguram são
teológica e espiritual de algumas exegeses tipos; as realidades futuras prefiguradas são
histórico-críticas. Os estudos de Oríge­ antítipos. Alguns exemplos do NT incluem
nes mencionados acima (—» 36, 37), como tipos que prefiguram Cristo: Jonas na ba­
aqueles escritos por de Lubac, Daniélou e leia (Mt 12,40), o cordeiro pascal (Jo 1,29),
Hanson, não apenas defendiam a sobrieda­ a serpente de bronze no madeiro (Jo 3,14).
de de grande parte da exegese alexandrina, O êxodo é um tipo do batismo em lCor 10,2.
mas também propuseram implícita ou ex­ (2) Embora classicamente se tenha enfatiza­
plicitamente a relevância contínua das in­ do que o sentido típico diz respeito a coisas
terpretações simbólicas. Veja também A. G. e não a palavras (a fim de distingui-lo do
Hebert, The Throne of David (London, 1943); sentido literal e do sensus plenior), o relato
e W. Vischer, The Witness of the Old Testament escrito bíblico destas coisas é o veículo do
to Christ (London, 1949) - significado supraliteral. Melquisedec sem
dúvida teve pais; mas o que o transforma
46 Uma forma particular deste movi­em um tipo de Cristo, de acordo com Hb 7,3,
mento implicava a argumentação em favor é que sua linhagem não está registrada na
da validade ininterrupta do sentido típico. Escritura. (3) Os tipos prefiguram "coisas"
O termo typos se encontra em Rm 5,14 futuras. O tipo e o antítipo estão em dois ní­
(Adão era um tipo de Cristo) e em lCor 10,6 veis diferentes de tempo, e somente quando
(coisas que aconteceram a Israel no deserto o antítipo aparece o sentido típico se torna
durante o êxodo são tipos para os cristãos). evidente. O tipo é sempre imperfeito; é uma
Embora o interesse nos "tipos" bíblicos te­ silhueta, não um retrato, do antítipo; e, por
nha florescido no período patrístico, o sen­ isso, a realização fatalmente causa surpresa.
tido da Escritura que envolve tipos só foi A boa tipologia não enfatiza a continuidade
conhecido como o sentido típico bem mais entre os Testamentos ao custo de obliterar
tarde na história da exegese. Os Padres fala­ importantes aspectos de descontinuidade.
vam dele como "alegoria" ou como o "sen­ (4) Esta prefiguração está relacionada ao
tido místico"; Tomás de Aquino o conhecia plano de salvação de Deus. O problema
como o "sentido espiritual". Alguns auto­ dos critérios tem flagelado a tipologia (e
res recentes fazem uma distinção nítida outras formas de exegese mais-que-literal).
entre tipologia e alegoria: p.ex., a tipologia Como distingui-la de relações construídas
se baseia em conexões históricas, enquan­ pela pura fantasia do leitor? Uma resposta
to que a alegoria é puramente imaginativa. tem sido apelar para a intenção de Deus, ou
Todavia, deveríamos nos lembrar que entre para o plano de Deus, ou o padrão da pro­
os Padres não havia consciência de que a messa divina e seu cumprimento - vários
alegoria fosse uma tipologia inválida, e eles modos de reconhecer que este sentido está
recebiam com igual entusiasmo exemplos relacionado à crença cristã de que o Deus
de Abraão, de Isaac e de Jacó era o Pai de 49 (c) O sensus plenior. No período
Jesus Cristo, que agiu de maneira consis­ de 1925-1970 os católicos romanos encon­
tente, e não acidental, em sua relação com traram uma outra abordagem dos valores
seu povo. Consequentemente tem-se sus­ mais-que-literais, uma abordagem menos
tentado que se necessita da orientação de distante da exegese histórico-crítica con­
Deus para detectar as conexões entre tipo e temporâneo do que o estavam a tipologia
antítipo, a fim de ter alguma segurança. Os e a alegoria patrísticas. (Quanto à história,
critérios clássicos para detectar a revelação veja R. E. Brown CBQ 15 [1953] 141-62;
são frequentemente introduzidos na discus­ 25 [1963] 262-85.). O termo sensus plenior
são: um consenso dos Padre, o uso litúrgi- (SPlen daqui em diante) foi cunhado por
co, o ensinamento doutrinário da igreja. Os A. Fernández em 1925; é melhor mantê-lo
defensores da exegese típica têm sido mais em latim, pois a tradução para o inglês [ful­
persuasivos quando os tipos que propõem ler sense]e para o português [sentido mais
podiam ser relacionados a padrões já apoia­ pleno] é usado para uma ampla gama de
dos na Escritura, p.ex., a tipologia davídica significados. Relacionado à ideia neotesta-
em relação a Jesus, a tipologia do êxodo em mentária de "cumprimento" do AT, o SPlen
relação a elementos dos mistérios salvíficos permitiu a seus defensores (que incluíam J.
cristãos. Se Hebreus viu Melquisedec como P. Coppens e P. Benoit) reconhecer o alcan­
um tipo de Cristo, tem-se sustentado que a ce do sentido literal das passagens bíblicas
liturgia e a exegese patrísticas estavam jus­ e, ainda assim, preservar aplicações mais
tificadas ao considerar a apresentação de desenvolvidas destes textos.
pão e vinho por parte de Melquisedec (Gn
14,18) como um tipo do sacrifício eucarísti­ 50 Por definição: O SPlen é o significado
co cristão. mais profundo, visado por Deus mas não visado
claramente pelo autor humano, que se percebe
(De L u bac, H., "Sens spiritual", RSR 36 [1949] existir nas palavras das Escrituras quando elas
542-76. D an iélo u , ]., "Qu’est-ce que la typologie?" são estudadas à luz de revelação adicional ou do
in L ’Ancien Testament et les chrétiens 199-205.
desenvolvimento na compreensão de revelação.
G oppelt, L ., Typos: The Typological Interprétation
of the Old Testament in the New [Grand Rapids, Assim, diferentemente do sentido típico,
1982], Lampe, G. W . H. e K. J. W oolcom be, Essays mas igual ao sentido literal o SPlen está pre­
on Typology [SBT 22; London, 1957].) ocupado principalmente com as palavras
da Escritura, e não com as "coisas". Embo­
48 A tipologia no Novo Comentário ra alguns poucos defensores ignorassem a
Bíblico São Jerônimo foi tratada de manei­ intenção do autor humano, a maioria, que
ra mais breve que no JBC § 71-78 e foi co­ sustentava que o SPlen se situa fora do que
locada sob a história do passado recente, e era claramente visado pelo autor, distin-
não sob a situação contemporânea. Embora guiu-o do sentido literal. A teoria do SPlen
o elemento da tipologia ainda seja aprecia­ foi formulada quando a noção escolástica
do, o reavivamento dos padrões patrísticos da inspiração instrumental estava em voga
não está tão ativo hoje em dia; e a discussão entre os católicos - daí o aspecto da inten­
está, em grande parte, subsumida no papel ção divina expressa nas palavras bíblicas.
da metáfora e do símbolo na crítica literá­ De modo menos técnico, isto pode ser visto
ria (—» Pensamento do NT, 81:68-70). Um como estando em relação com a noção do
esforço ocasional de escrever um comentá­ plano salvífico de Deus, que não foi fortui­
rio moderno em um estilo quase patrístico to e em que a Escritura exerceu uma fun­
não foi bem sucedido (veja a resenha de R. ção - uma noção também relevante para o
E. Brown da obra El Evangelio de Juan, de J. sentido típico. Embora seja aplicado mais
Mateo e J. Barreto [Madrid, 1979; em portu­ frequentemente a textos do AT reutiliza­
guês: 1998] em Bib [1982] 290-94) dos no NT (p.ex., o SPlen de Is 7,14 que se
pode descobrir em Mt 1,23), o SPlen pode uma aceitação mais ampla nas décadas de
abranger a reutilização pós-escriturística de 1950 e I960, quando pesquisadores distin­
passagens bíblicas por parte de escritores tos (incluindo G. von Rad, W. Eichrodt e
da igreja (p.ex., Gn 3,15 aplicada à partici­ W. Zimmerli) rejeitaram tanto a tendência
pação de Maria na vitória de Cristo sobre o patrística de encontrar Cristo em cada linha
mal). Alguns dos mesmos critérios a que se do AT quanto um historicismo que distan­
apelava para detectar a tipologia "válida" ciava tanto os Testamentos um do outro
estavam implicados na discussão do SPlen que a Bíblia não constituía mais uma uni­
(—>47 acima), mas o fato de que a defesa do dade. O problema da relação entre os Tes­
SPlen teve suas raízes numa desconfiança tamentos chamou a atenção especialmente
em relação aos excessos na tipologia e ale­ sob a rubrica da teologia bíblica. Entre as
goria patrística deu à exegese do SPlen uma obras que foram particularmente significa­
aura mais intelectual e cautelosa. Insistia-se tivas estão S. Amsler, L Ancien Testament
numa homogeneidade razoável com o sen­ dans l ’Église (Nauchâtel, 1960); C. Larcher,
tido literal, e o SPlen era relativamente pou­ L’actualité chrétienne de l’Ancien Testa­
co invocado até mesmo por seus mais for­ ment (Paris, 1962); P. Grelot, Sens chrétien
tes defensores. Quem está interessado em de l ’A ncien Testament (Tournai, 1962); The
aspectos mais precisos deve consultar JBC Old Testament and Christian Faith (ed. B. W.
71:56-70; R. E. Brown, The Sensus Plenior of Anderson; New York, 1963); Essays on Old
Sacreá Scripture (Baltimore, 1955). Testament Hermeneutics (ed.C. Westermann;
Richmond, 1963). Um excelente resumo da
51 Já por volta do final da década de literatura foi apresentado por R. E. Murphy
1960, Brown reconheceu que o interesse no (CBQ [1964] 349-59). Alguns desses estu­
sentido mais-que-literal implícito na teoria diosos não hesitaram em falar de predições
do SPlen tinha de encontrar expressão num veterotestamentárias de acontecimentos
formato menos dependente da teoria es­ do NT; alguns estavam interessados numa
colástica acerca do relacionamento instru­ forma modificada de tipologia; mas com
mental entre os autores humano e divino. frequência via-se uma relação de promes­
Ele previu que o futuro do SPlen e também sa/cumprimento como ligação entre o AT
do sentido típico dependiam de serem re­ ao NT. Pensava-se que este padrão podia
novados como parte de uma abordagem ser detectado no fluxo da história de Isra­
mais ampla do sentido mais-que-literal da el, mesmo que este fluxo não se encami­
Bíblia (veja fBC 71:68,78). De fato, virtual­ nhasse tranquilamente para o cristianismo.
mente não houve discussão do SPlen des­ A reação de outros pesquisadores foi hostil,
de 1970, e sua continuação contemporânea visto que pensavam que uma preocupação
como "sentido mais pleno" ou "excesso de estranha estava sendo imposta às Escrituras
significado" está relacionado, na crítica lite­ hebraicas (veja J. Smart, The Interprétation of
rária, à nova hermenêutica (—» 54 abaixo). ]. Scripture [Philadelphia, 1961]; J. Barr, Old
M. Robinson (CBQ 27 [1965] 6-27) ressaltou and New). Além disso, o fluxo da história
isto de modo perceptivo, e seu argumento era considerado ambíguo demais para ser
foi aceito por Brown (ETL [1967]) invocado: certas correntes na expectativa
messiânica na verdade fizeram com que
52 (d) Interpretação cristã do AT. Desde fosse mais difícil, e não menos difícil, para
os tempos de Marcião, o problema do signi­ os judeus aceitar Jesus. Uma posição extre­
ficado do AT para o cristão nos acompanha. ma foi expressa por Bultmann (in The Old
Se no passado recente os católicos romanos Testament, ed. Anderson 31): "Para a fé
apelaram para um reavivamento do senti­ cristã o Antigo Testamento não é mais re­
do espiritual ou ao SPlen ao refletir sobre velação." A veemência do debate parecia,
esta questão, uma outra abordagem teve de certo modo, retardar o progresso desta
abordagem de um sentido mais-que-literal hermenêutica relacionada ao papel da lin­
por parte da teologia bíblica, mas elemen­ guagem estava atraindo a atenção entre os
tos dela sobreviveram na crítica canônica biblistas, como foi relatado no JBC 71:49-50
contemporânea (—» 71 abaixo). e resumido por J. M. Robinson e J. B. Cobb,
The New Hermeneutic (NFT 2; New York,
(A nderson , B. W ., "Biblical Theology and 1964); e R. E. Brown e P. J. Cahill, Biblical
Sociological Interpretation", TToday42. [1985] 292­ Tendencies Today: An Introduction to the Post-
306. H asel, G. F., "Biblical Theology: Then, Now, Bultmannians (Corpus Papers; Washington,
and Tom orrow ", H BT 4 (1982] 61-93. R eventlow ,
1969). Este problema da linguagem já apa­
H ., Problems of Biblical Theology in the Twentieth
receu na Sachkritik alemã (que reconhece a
Century [Philadelphia, 1986]. T errien , S., "Bibli­
cal Theology: The Old Testament [1970-1984]", validade do assunto mesmo quando a lin­
BTB 15 [1985] 127-35. Quanto à bibliografia, veja guagem na qual o assunto foi objetivado
também —» Pensamento do A T , 77:1; —> Crítica era inapropriada) e na demitologização de
do A T , 69:54 [T errien e W estermann ].) R. Bultmann (—> Crítica do NT, 70:51), que
decodificou o mito bíblico, procurando for­
53 (II) A situação contemporânea. A li­ mular seu significado mais adequadamen­
nha entre o passado recente e a situação te eliminando a conceitualização mítica
contemporânea é um tanto nebulosa. Não inadequada. Nos escritos filosóficos mais
obstante, se os § 43-52 diziam respeito aos tardios de M. Heidegger, a hermenêutica
movimentos que eram muito discutidos veio a significar o processo de interpretação
quando o JBC foi escrito, mas que recebem do ser, especialmente por meio da lingua­
menos atenção agora, o que se segue des­ gem. O ser se expressa na linguagem do
creve os movimentos além do sentido lite­ texto ainda que independentemente da in­
ral que ocuparam os estudiosos após 1965. tenção do autor. Valendo-se do Heidegger
Estes movimentos mais recentes muitas mais tardio, mas modificando suas ideias, a
vezes implicam uma revisão e um redire- Hermeneutikprogramática de E. Fuchs (1954)
cionamento de interesses já evidentes no foi além dos princípios hermenêuticos de
passado recente. Este fato deveria tomar Bultmann. Para Bultmann, a autointerpre-
os proponentes de abordagens contempo­ tação do leitor está no nível da pré-com-
râneas cautelosos em relação a pretensões preensão, subordinada ao ato de interpre­
de oferecer o caminho para interpretar a tação do texto em si; para Fuchs (—» Crítica
Escritura. Infelizmente, com frequência os do NT, 70:66), o texto interpreta o leitor ao
proponentes de uma ou outra abordagem a criticar sua autocompreensão. O "princípio
ser exposta abaixo rejeitam com igual vigor hermenêutico" é onde o texto é colocado a
não apenas a ênfase histórico-crítica no sen­ fim de falar ao leitor, e para a exegese teoló­
tido literal, mas também outras abordagens gica o princípio hermenêutico básico é a ne­
contemporâneas. Como a busca pelo Santo cessidade humana - uma necessidade que
Graal, a busca pela rota exclusiva na herme­ revela o que queremos dizer com o termo
nêutica parece ser eterna, e os fracassos do "Deus". A "tradução" implica encontrar o
passado só tornam mais otimistas as pesso­ lugar onde o texto bíblico pode atingir o
as que empreendem a busca. Se no séc. XXI leitor. G. Ebeling (—> Crítica do NT, 70:70),
outros editores forem corajosos o suficiente amigo íntimo de Fuchs, levou adiante o de­
para planejar um Novo Comentário Bíbli­ senvolvimento da hermenêutica na direção
co São Jerônimo mais atual, pode-se estar indicada pelo Heidegger tardio ("Herme­
certo de que parte do que se segue também neutik," RGG 3 [1959] 242-62). O papel que
será relegado ao passado recente. ele queria atribuir à crítica histórica não é
um papel interpretação essencial, mas o de
54 (A) A nova hermenêutica (heideg- remover todas as distorções, de modo que o
geriana). Já no período de 1950-1965 uma texto possa falar eficazmente aos leitores.
55 (B) Crítica literária. A exposição reflete a "guinada à linguagem" tanto na
deste aspecto da hermenêutica bíblica é filosofia quanto no estudo da literatura.
complicada pela fluidez e ambiguidade da Contudo, ela se desenvolveu organicamen­
terminologia, que é constantemente am­ te da abordagem histórica que tem sido
pliada por termos novos e quase técnicos paradigmática no campo bíblico desde o
usados de formas diferentes por diferentes séc. XIX. A crítica das formas e a das fontes
autores. Aqui, o termo "crítica literária" é usa­ (—> 23-27 acima), especialmente no estudo
do como o é no campo da literatura, não como do NT, acabaram concentrando sua atenção
tem sido usado tradicionalmente no campo bíbli­ na atividade literária do "redator", cujas
co, onde ele designa a exploração de ques­ preocupações teológicas determinaram a
tões históricas como autor, época e lugar de produção do texto final (—» 28-29 acima),
composição, natureza e origem das fontes p.ex., o Evangelho de Lucas. Como desta­
e implicações sociorreligiosas das formas ca N. R. Petersen (Literary Criticism for New
literárias (como, p.ex., em Kümmel, INT). Testament Critics [Philadelphia, 1978]), a
crítica da redação levantou questões acerca
56 O estudo da Bíblia como litera­ do texto como texto que nem a história nem
tura foi impedido no passado tanto por a teologia podiam abordar. Pesquisadores
uma preocupação exagerada com a sin­ como A. N. Wilder, N. Perrin, R. W. Funk,
gularidade da Escritura canônica quanto D. Crossan, D. O. Via e D. Patte, ao tentar
por uma restrição estreita de "literatura" a tratar destas novas questões, tornaram-
produções literárias autoconscientes, uma se a primeira geração de biblistas a unir a
designação que se aplicaria a uma parte hermenêutica filosófica e a crítica literária
relativamente pequena do AT ou do NT. numa nova abordagem da interpretação bí­
Em anos recentes, a crescente apreciação blica que se transformou no que McKnight
da linguagem como mediação do ser, e não (Bible 5) chama de "crítica hermenêutica".
como sistema de rótulos verbais e, assim, (Quanto à importância da contribuição
da relação íntima da forma com o conteúdo de Wilder, veja J. A. Mirro, BTB 10 [1980]
do texto, inclusive dos textos canônicos, su­ 118-23.).
geriu a possibilidade de um uso teologica­
mente responsável dos métodos da crítica 58 Tanto a tradição ontológica heidegge-
literária na interpretação bíblica (veja A. N. riana (—» 54 acima) representada por H. G.
Wilder, The New Voice [Cambridge MA, Gadamer (Verdade e método, em português:
1971] xi-xxx). Além disso, os críticos lite­ 1996]) quanto a tradição fenomenológica
rários reconheceram um preconceito ideo­ husserliana representada por P. Ricoeur
lógico na restrição estreita de "literatura" (Interpretation) contribuíram filosoficamen­
(Eagleton, Literary 1-16) e admitiram pron­ te para uma abordagem centrada na lin­
tamente que "literatura é o que nós lemos guagem da compreensão de textos. (Veja
como literatura'' (McKnight, Bible 9-10), i.e., R. Palmer Hermeneutics [Evanston, 1969]
a literatura consiste dos textos que uma so­ para um histórico da teoria da hermenêu­
ciedade valoriza. Consequentemente, tanto tica moderna desde F. Schleiermacher.).
do ponto de vista teológico quanto literá­ E fundamental para a teoria hermenêutica
rio podemos tratar os textos bíblicos como contemporânea a convicção de que toda
obras literárias. compreensão histórica (em contraposição
à matemática ou científica) é dialógica por
57 (a) Da crítica histórica à crítica lite­ natureza. A interpretação de textos im­
rária. D. Robertson (IDBSup 547-51) chama plica um "diálogo" entre o leitor e o tex­
o recente surgimento da crítica literária no to acerca do assunto do trata o texto (veja
campo do estudo da Bíblia de "mudança H. Ott, "Hermeneutics and Personhood",
de paradigma" neste campo. Esta mudança Interpretation: The Poetry of Meaning [ed.
S. R. Hopper e D. L. Miller; New York, 1967] tradas no texto) e abordagens contextuais
14-33). Esta concepção de interpretação sus­ (orientadas pelos ouvintes/leitores). Come­
cita três perguntas que levam diretamente à çamos com as não contextuais.
arena literária: Qual é o assunto ou referente
do texto? Como o texto "funciona" para en­ 61 Estruturalismo. Este termo se apli­
volver o leitor? Como a subjetividade do lei­ ca a vários métodos que concebem o texto
tor influencia o processo de interpretação? como um sistema fechado de sinais ou sig­
nos que têm significado não em si mesmos
59 (b) O problema da referência. Na críti­ ou em referência à realidade extratextual,
ca histórica tradicional, o referente do texto mas apenas em relação uns com os outros.
bíblico era simplesmente o acontecimento O modelo para a compreensão de signos
histórico relatado pelo texto, p.ex., a fuga sejam unidades textuais minúsculas (p.ex.,
dos hebreus do Egito ou a crucificação de palavras) ou unidades maiores (p.ex., pa­
Jesus. Mais tarde, os estudiosos perceberam rábolas), é o modelo semiótico segundo o
que o texto implicava uma interpretação teo­ qual um signo é composto de um signifi-
lógica dos acontecimentos, que refletia as cante (expressão) e de um significado (con­
preocupações das comunidades nas quais teúdo). A forma de análise estrutural mais
os textos foram escritos. A crítica literária, amplamente aplicada a materiais bíblicos
contudo, não concebe o texto como uma foi o método de A. J. Greimas para a análise
"janela" que se abre para um mundo his­ da narrativa. De acordo com Greimas, o sig­
tórico (os acontecimentos relatados ou a si­ nificado em um texto é o efeito da operação
tuação da comunidade na qual o texto foi de estruturas ou sistemas de elementos pro­
composto), mas como um "espelho" que re­ fundos, idênticos para todas as narrativas,
flete um mundo no qual o leitor é convida­ que geram textos individuais analogamen­
do a entrar. Em outras palavras, o referente te ao modo como a gramática gera períodos
do texto como tal não é o "mundo real" da dentro de uma língua. O objetivo da análise
história (p.ex., o êxodo ou a crucificação), estrutural é trazer à luz as estruturas pro­
mas o mundo literário significado pelo tex­ fundas das quais o texto é uma realização.
to. No caso dos textos bíblicos, o mundo li­ Deste modo, como ressaltou Ricoeur (Inter­
terário é gerado pela interpretação teológi­ pretation 82-87), o sentido (em contraposi­
ca da realidade (p.ex., a fuga do Egito como ção à referência) de um texto pode ser es­
libertação divina para a vida na aliança; a clarecido. O estruturalismo é visto por seus
morte de Jesus como mistério pascal salví- praticantes como um método científico que
fico). A preocupação do intérprete literário torna possíveis estudos comparativos de
da Bíblia, então, não é a reconstrução dos textos cruzando fronteiras culturais e lin­
acontecimentos históricos, mas a compre­ guísticas. Os resultados da exegese bíblica
ensão autotransformadora, i.e., apropria­ estruturalista são, até agora, relativamente
ção, do assunto do qual trata o texto. Uma escassos, mas como método explicativo ela
abordagem como esta não nega o valor da contém algumas promessas (—> Pensamen­
pesquisa histórica nem faz com que se ig­ to do NT 81:71).
nore a situação original do texto; antes, ela
amplia o conceito de significado para além (Históricos das abordagens formalista e es-
de qualquer restrição a interesses históricos truturalista em M cK night e E agleton; descrição
(veja McKnight, Bible 11-12). e aplicação à Bíblia em R. M. P olzin, Biblical Structu­
ralism [Missoula, 1977]; J. C alloud , Structural
Analysis ofNarrative [Missoula, 1976]; D. C. G reenwood,
60 (c) Abordagens não contextuais. As Structuralism and the Biblical Text [Berlin, 1985]; D.
abordagens literais atuais de textos podem P atte, What Is Structural Exegesis? [Philadelphia,
ser divididas, grosso modo, em dois tipos 1976]; D. O. V ia , Kerygma and Comedy in the New
básicos: abordagens não contextuais (cen­ Testament [Philadelphia, 1975].)
62 Desconstrução. Esta teoria literária, 64 O principal problema levantado
associada a J. Derrida (veja sua obra Dis­ por esta compreensão de obra de interpre­
semination [Chicago, 1981), volta o estrutu- tação diz respeito aos critérios de validade
ralismo contra si mesmo ao contestar sua face a múltiplas interpretações. De fato, uma
chamada metafísica da presença, i.e., sua equiparação do significado com a intenção
convicção fundamental de que o signifi- do autor (p.ex., Hirsch, Validity [—>11 acima)
cante (p.ex., a narrativa) num signo (p.ex., parece prevenir este problema ao postular a
o Evangelho de Marcos) manifesta um existência de um significado ideal unívoco,
significado (p.ex., o mundo narrativo de ainda que este significado nunca possa ser
Marcos) que é um referente determinado. efetivamente alcançado ou verificado. Mas
O desconstrucionista coloca ênfase no sig- poucos pesquisadores de literatura aceitam
nificante, o qual somente o é em relação a hoje esta noção de significado. Aqueles que
outros significantes, e não em relação a um não aceitam nem a determinação total do
significado determinado, pois o significa­ significado pela intenção do autor nem a
do é, ele mesmo, um significante dentro de indeterminação total dos textos em relação
um outro signo. Em outras palavras, o tex­ aos leitores podem ainda propor critérios
to é uma série interminável de referências de validade (observe: não de verificação),
a outras referências que nunca para num como, p.ex., a coerência, a adequação ao
referente "real" ou determinado. Assim, o texto e a plenitude do significado. Embo­
próprio texto subverte o significado que ele ra nenhuma interpretação seja exaustiva e
cria. Talvez devido ao fato de que esta teo­ muitas possam ser válidas, nem toda inter­
ria implica a completa indeterminação dos pretação é válida e nem todas as interpreta­
textos, ela não gerou grande interesse entre ções são iguais (veja M. A. Tolbert, Perspec­
os biblistas. Veja J. I. N. Stewart e J. Cullen, tives on the Parables [Philadelphia, 1979]).
On Deconstrution (Ithaca^J.982).
65 Crítica retórica. Isto pressupõe que
63 (d) Abordagens contextuais. As abor­ todo discurso visa a influenciar ouvintes/lei­
dagens reunidas sob este título um tanto tores particulares em uma época particular.
vago têm em comum o fato de que incluem Portanto, a análise das estratégias textuais
o leitor na definição da obra literária e in­ mediante as quais os objetivos comunicacio-
cluem o contexto do leitor e/ou escritor no nais foram alcançados na situação original e
processo de interpretação. A "obra" não é o são alcançados em relação aos leitores sub­
texto, mas passa a existir quando o texto e sequentes pode dar acesso ao significado do
o leitor interagem. O texto, portanto, não é texto. O princípio básico da crítica retórica é
um "objeto" sobre o qual o intérprete reali­ que os textos precisam revelar os contextos
za procedimentos analíticos ou investigati- tanto do autor quanto do leitor. G. A. Kermedy
vos (como faz um cientista) a fim de extrair (New Testament Interpretation Through Kheto-
um significado intrínseco teoricamente uní­ rical Criticism [Chapei Hill, 1984]) descreve
voco. Antes, é uma estrutura poética com a a crítica retórica aristotélica clássica, que se
qual um leitor se envolve, de dentro de uma preocupa principalmente com os objetivos e
situação concreta, no processo de busca de métodos do autor do texto, e ele aplica esta
significado. Os textos, portanto, são intrin­ teoria de maneira hábil a vários textos do NT.
secamente um tanto indeterminados e aber­ Quanto ao florescente desenvolvimento do
tos para mais de uma interpretação válida, estudo retórico do AT, —»Crítica do AT 69:67­
porque o significado não é determinado 68. Veja W. Wuellner, "Where is Rhetorical
exclusivamente pelo autor. Um texto, uma Criticism Taking Us?" CBQ 49 (1987) 448-63.
vez escrito, não está mais sob o controle do
autor e nunca pode ser interpretado duas 66 A crítica retórica contemporânea
vezes a partir da mesma situação. está interessada não simplesmente nas
regras e nos dispositivos de argumentação S. R. Suleiman e I. Crosman; Princeton,
usados pelo escritor, mas em todas as es­ 1980] 3-45, sobre esta seção e a seguinte.)
tratégias pelas quais os interesses, valores
e emoções dos leitores (tanto os originais 69 Crítica fenomenológica. Esta coloca a
quanto os posteriores, são envolvidas. As­ ênfase na interação do leitor com o texto no
sim, ela está tão preocupada com o proces­ processo de leitura, pelo qual o texto está
so de interpretação por parte dos leitores sendo atualizado ou percebido pelo leitor.
quanto com o processo de criação por parte Ela implica que "o texto potencial é infini­
do autor. A. N. Wilder (Early Chistian Rhetoric tamente mais rico do que qualquer uma de
[London, 1964]) demonstrou a fecundidade suas percepções individuais" (W. Iser, "The
da abordagem retórica para a interpreta­ Reading Process: A Phenomenological
ção de materiais do NT; ela foi aplicada em Approach", The Implied Reader [Baltimore,
particular à interpretação das parábolas (—> 1974] 280). Ricoeur (Interpretation) fornece a
Pensamento do NT, 81:68-70). base filosófica para esta abordagem.

67 A crítica das narrativas (que se dis­ 70 (e) Conclusão. A variedade de abor­


tingue da narratologia ou análise estrutural dagens literário-hermenêuticas da interpre­
da história) é a aplicação da crítica retóri­ tação dos textos bíblicos impede qualquer
ca às histórias, quer estas sejam narrativas reivindicação totalitária a favor de qualquer
quase históricas inteiras dos evangelhos (D. uma das abordagens. O que todas estas
Rhoads e D. Michie, Mark as Story [Phila­ abordagens recentemente desenvolvidas
delphia, 1982]; J. D. Kingsbury, Matthew as têm em comum é que elas operam dentro do
Story [Philadelphia, 1986]; R. A. Culpepper, paradigma linguístico/literário em vez do
Anatomy of the Fourth Gospel [Philadelphia, paradigma histórico. Todas elas lidam com
1983]), narrativas mais curtas como a da o texto em sua forma final, e não com sua
ressurreição de Lázaro em Jo 11, ou histó­ gênese, e estão preocupadas com o mundo
rias fictícias como Jonas ou uma parábola literário projetado "na frente" do texto e não
(R. Funk, The Poetics of Biblical Narrative com o mundo histórico "por trás" do texto.
[Sonoma, CA, 1988 ]). Seus interesses hermenêuticos estão no sig­
nificado presente mediado pela linguagem por
68 Críticas sociológica e psicanalítica. meio da interpretação, e não nos significados
Estas duas abordagens prestam atenção de históricos descobertos pela exegese que são
modo particular à influência do leitor na depois inseridos nos contextos contempo­
construção do significado e às influências, râneos mediante um processo de aplicação.
pessoais ou sociais, sobre a recepção da A maioria dos biblistas que usa a crítica lite­
obra por parte do leitor - o leitor atual, não rária reconhece a importância, e até mesmo
o leitor antigo. A crítica sociológica orien­ a necessidade, da exegese histórico-crítica
tada pelos ouvintes/leitores (que é distinta para a compreensão plena dos textos bíbli­
do estudo histórico do mundo social; —>15 cos; mas rejeita qualquer compreensão (ou
acima) procura investigar a leitura como um melhor, compreensão errônea) do método
fenômeno essencialmente coletivo, no qual histórico-crítico como a única abordagem e
o leitor individual faz parte de um "público como a abordagem exclusivamente autori-
leitor" com características sócio-históricas tativa da interpretação bíblica.
específicas que influenciam o processo de
interpretação. A crítica psicanalítica enfati­ (A lter , R. e F. K ermode [e d s.], The Literary
za a influência da personalidade e história Guide to the Bible [Cambridge MA, 1987; português
pessoal na interpretação. (Veja S. Suleiman, 1998]. B eardslee, W. A., Literary Criticism of the
"Introduction: Varieties of Audience-Orien­ New Testament [Philadelphia, 1970]. 'F owler , R.
ted Criticism", The Reader in the Text [ed. M., "Using Literary Criticism on the Gospels",
Christian Century 99 [1982] 626-29. G a b e l, J. B. Lucas foi separado de Atos e deve ser trata­
e C. B. W h e e le r, The Bible as Literature [O xford , do como um evangelho comparável aos ou­
1986]. H ab el, N., Literary Criticism of the Old Tes­ tros três. Também é significativo o público
tament [P hilad elph ia, 1971]. K rieger, M ., "L ite ra ry
amplo que visionamos quando falamos do
A nalysis and E valu atio n - A nd the A m bid extrou s
cânone de Israel e do cânone da igreja. Um
C r itic ", Criticism: Speculative and Analytic Essays
[ed. L. S. Dembo; M ad iso n , 1968] 16-36. L a te g a n ,
profeta pode ter dirigido suas palavras aos
B. C. e W . S. V o rs te r, Text and Reality: Aspects of israelitas de Samaria em 700 a.C., mas como
Reference in Biblical Texts [P h ila d e lp h ia , 1985]. Escritura canônica suas palavras são agora
Orientation by Disorientation: Studies in Literary dirigidas a todos os judeus e a todos os cris­
Criticism and Biblical Criticism [F estsch rift W . A. tãos. As Epístolas de João podem ter sido
B eard slee; ed. R. A . Spencer; P ittsb u rg h , 1980]. escritas para aquela parte da comunidade
P errin , N., Jesus and the Language of the Kingdom joanina que permaneceu após o cisma de
[P h ilad elp h ia, 1976]. P o la n d , L ., Literary Criticism
ljo 2,19, mas o horizonte limitado do autor
and Biblical Hermeneutics [C h icago, 1985]. Rheto­
original pode ser esquecido, visto que ago­
rical Criticism [Festsch rift J. M uilenburg; ed. J. J.
R a ja k e M . K essler; P ittsb u rg h , 1974], Schneiders, ra elas são dirigidas a toda cristandade. So­
S. M ., TS 39 [1978] 719-36; 43 [1982] 52-68; CBQ mente a forma canônica final do texto, livro
43 [1981] 76-92; TToday 42 [1985] 353-58 - sobre e coletânea são Escritura Sagrada para uma
v ário s asp ecto s da crítica literária. S im p ó sio em comunidade de fé e prática; e a crítica histó­
TToday 44 [1987] 165-221.) rica foi uma distração com seu isolamento
dos livros individuais, sua análise das fon­
71 (C) Crítica canônica. Um dos tes e sua concentração na intenção e nas cir­
principais expoentes desta corrente é B. S. cunstâncias do autor. Childs seria crítico da
Childs, de Yale, em suas obras Introduction concentração no que Jesus quis dizer com
to the Old Testament as Scripture (Philadel­ suas palavras, em como os apóstolos as in­
phia, 1979) e The New Testament as Canon: terpretaram quando pregaram e no que os
An Introduction (Philadelphia, 1985). Childs evangelistas transmitiram quando as escre­
não dispensa a crítica histórica, embora veram. Para Childs, "o testemunho de Jesus
frequentemente considere seus resultados Cristo recebeu sua forma normativa por
irrelevantes. Para Childs o que importa é a meio de um processo interpretativo da era
forma canônica final: (1) Do texto linguístico. pós-apostólica" (New Testament 28).
A atenção primária deveria ser dada não a
um texto hebraico do AT reconstruído pelos 72 Childs resiste ao termo "crítica ca­
pesquisadores que comparam manuscritos nônica" para que esta abordagem não se
e versões, mas ao texto estabilizado pelos torne mais uma entre tantas outras. O ter­
massoretas e que conhecemos nas tradições mo é aceitável para um outro expoente, J.
copiadas do séc. X d.C. (—> Textos 68:42-5). A. Sanders (Torah and Canon Introduction
(2) Do livro individual. Um livro do Penta- [Philadelphia, 1972]; Canon and Community
teuco pode ter surgido da combinação das [Philadelphia, 1984]); para ele, esta crítica
tradições de J, E, D e P; mas somente a forma evoluiu de outras disciplinas bíblicas, refle­
final é Escritura e deveria receber a atenção tindo nelas e moldando-as. Sua contribui­
principal, pois ali se pode perceber o efeito ção singular consiste em abordar questões
pleno história revelatória. Ainda que Isaías de autoridade bíblica situando as Escrituras
consista de três seções escritas num perío­ como palavra de Deus na matriz de uma
do de 250 anos, a interpretação do todo não comunidade crente de leitores e intérpre­
enfatizará as situações de vida muito dife­ tes. Sanders difere notavelmente de Childs
rentes de cada uma das partes. (3) Da cole­ ao se opor a uma atenção exclusiva na for­
ção. A ordem dos livros na coleção bíblica ma final de um livro ou da coleção. Antes
é significativa: as Escrituras hebraicas se disto houve um contínuo processo canôni­
tornam um AT preparatório para um NT; co ou contínua busca canônica ("midrásh
comparativo") onde tradições antigas que ficos" (—» 85-87 abaixo). (3) Quem crê que o
eram consideradas valiosas foram tornadas Espírito Santo inspirou a escrita destes li­
contemporâneas e adaptadas em novas si­ vros deveria reconhecer que o Espírito não
tuações, ajudando uma comunidade a en­ poderia ter ficado em silêncio após o último
contrar identidade em um mundo de resto livro ser escrito e deve ter estado ativo tanto
confuso. Mesmo após a forma final, esta na recepção destes livros pela Igreja quanto
adaptabilidade da Escritura tem continui­ em sua interpretação.
dade mediante as técnicas hermenêuticas.
A seletividade atua em todos os estágios do 74 Há também problemas sérios,
processo, e uma rica diversidade no cânone como foi indicado incisivamente (mas tal­
(tanto diacrônica quanto sincronicamente) vez por demais pejorativamente) por Barr
impede que construções teológicas poste­ (Holy Scripture). A maioria das objeções está
riores sejam impostas à Bíblia. Apesar das dirigida contra a forma de teoria adotada
tentativas do movimento de teologia bíblica por Childs: (1) Enfatizar excessivamente a
(—> 52 acima), não se pode fazer com que a forma final do livro e da coletânea é negli­
Bíblia fale com uma única voz. Outro de­ genciar a continuidade da comunidade de
fensor da crítica canônica é G. T. Sheppard crentes posterior com um Israel anterior e
(Wisdom as a Hermeneutical Construct [New uma igreja que existiam antes que houvesse
York, 1980]). A aplicação do midrásh com­ os livros do AT e do NT, respectivamente
parativo e da crítica canônica dentro do ju­ (—> 5 acima). A fé não foi controlada pela
daísmo é exposta por J. Neusner (Ancient Escritura; a Escritura se derivou da fé. Em­
Judaism and Modem Category-Formation bora negligencie o valor pleno do cânone,
[Lanham MD, 1986] 25-53,83-120, com uma a crítica histórica, em sua melhor forma,
reação de Sanders em BTB 14 [1984] 82-83). descobriu as dimensões da fé e da comuni­
dade dentro da Escritura descrevendo a co­
73 Um juízo da crítica canônica é compli­munidade de crentes nos estágios formati­
cado pelo tom das afirmações de Childs que vos da Bíblia. (2) As afirmações dos autores
rejeita imperiosamente o valor da maioria bíblicos, que são autoridade em si mesmos,
dos comentários recentes. Não obstante, não pode ser completamente anuladas por
aspectos valiosos deveriam ser observados: um sentido canônico que frequentemente
(1) Com demasiada frequência, a crítica seria estranho a suas opiniões. Além disso,
histórica parou com as partes reconstru­ deve-se levar em consideração a autorida­
ídas de livros, não prestando atenção ao de dos personagens bíblicos (Moisés, Jesus)
livro como um todo, que é a única forma que não foram autores de livros bíblicos no
que sobreviveu. Mesmo neste caso é uma sentido comum de escritores (—> 6 acima).
espécie de fundamentalismo deificar um A crítica canônica pode ter o efeito de refor­
livro individual com suas peculiaridades e çar a concepção de que a Bíblia como um
negligenciar o contraponto proporcionado todo é a única autoridade no cristianismo,
pelo cânone em sua totalidade. Num sen­ uma concepção que muitos cristãos consi­
tido muito real, um livro não é bíblico até deram inteiramente inadequada. (3) O pro­
que ele faça parte da Bíblia. (2) Visto que cesso de formação do cânone não foi sem­
os livros bíblicos foram escritos por crentes pre tão deliberado quanto se poderia inferir
para crentes, a comunidade de fé é um con­ da grande ênfase teológica dada a ele pelos
texto bom (e não necessariamente precon­ críticos canônicos. Alguns livros certamen­
ceituoso) para a interpretação, contanto que te desapareceram por acidente histórico; al­
esta comunidade entre em diálogo franco guns livros foram preservados não por cau­
com sua tradição. A iluminação e o enrique­ sa do grande valor teológico, mas porque
cimento da exegese pela fé não podem ser se pensava que proviessem de personagens
rejeitados tão facilmente como "não-cientí- distintos. Mesmo após o cânone ter sido
concluído, alguns livros (p.ex., Judas) exer­ sentido literal, quer o admitam ou não, são
cem pouca ou nenhuma função na vida da oferecidas a partir de várias perspectivas e
igreja. Quanto à crítica textual, as versões só podem ser esboçadas resumidamente.
têm sido com frequência mais influentes do (a) Exegese para uma transformação pessoal.
que as formas canônicas do AT hebraico ou Após atacar a crítica histórica como se ela es­
do NT grego, p.ex., a LXX na protoigreja cris­ tivesse sempre divorciada da fé e da igreja,
tã, a Vulgata na igreja ocidental, a KJV [King W. Wink (The Bible in Human Transformation
James Version] no protestantismo inglês. [Philadelphia, 1973]) enfatiza a necessidade
Em grau crescente, traduções controladas de interpretar o leitor da Bíblia - uma fe-
criticamente que partem tanto do hebrai­ nomenologia do exegeta, uma arqueologia
co massorético quanto do Textus Receptus do sujeito. Para que a Bíblia exerça um pa­
Grego (—>Textos, 68:55,161) se tornam a Es­ pel religioso em nossas vidas, Wink propõe
critura canônica para a maioria das igrejas. uma crítica psicanaliticamente informada
(4) A tese de Sanders de que a comunida­ do modo como lemos o texto. Valendo-se
de encontrou sua identidade por meio do das percepções da psicologia religiosa pro­
processo canônico de interpretação das tra­ funda (C. J. Jung), Wink usa a crítica bíblica
dições foi considerada exagerada tanto por padrão para remover pressuposições acerca
Childs quanto por Barr. Este último (Holy de uma passagem e, a seguir, faz uma série
Scripture 43) observa: "Longe de o cânone de perguntas que relacionam o leitor com
estabelecer ou expressar a autoidentidade os personagens e ações numa passagem.
da igreja, é a igreja que estabelece a rede de (Veja também W. G. Rollins, Jung and the
relações familiares dentro da qual as Escri­ Bible [Atlanta, 1983].). Por exemplo, ao dis­
turas são conhecidas e entendidas." Ao apli­ cutir Mc 2,12, Wink pergunta: "Quem é o
car o "midrásh comparativo" ao NT (p.ex., 'paralítico' em você? ou "Quem é o 'escriba'
USQR 33 [1978] 193-196), Sanders às vezes em você?" Obviamente, um texto tratado
inverte o processo hermenêutico: os primei­ desta maneira pode envolver o leitor em
ros cristãos não descobriram a identidade termos religiosos (ou espirituais, como no
de Jesus ou sua identidade como crentes em método inaciano católico romano de uso
Jesus por meio da reflexão sobre as Escritu­ da Escritura). Todavia, os resultados às ve­
ras de Israel; antes, com seu pano de fundo zes podem estar muito longe da intenção
moldado pelas Escrituras, eles perceberam do autor original, que muitas vezes estava
a identidade de Jesus por meio da fé e adap­ abordando questões da comunidade. Áre­
taram aquelas Escrituras a fim de formular as maiores de preocupação bíblica dificil­
uma descrição desta identidade. mente se prestariam a tal concentração na
conversão individual. As dimensões eclesi­
(B a r to n , J., Reading the Old Testament [Phi­ ástica, doutrinária e litúrgica da Escritura,
ladelphia, 1984]. B e tz , H. D. [ed.], The Bible as a familiares a muitos cristãos, não emergem
Document of the University [Chico, 1981]. B ird, P. de tal abordagem. Barr (Holy Scripture 107)
A ., The Bible as the Church’s Book [Philadelphia,
é mordaz em sua crítica a Wink.
1982], Brueggem ann, W., The Creative Word [Phila­
delphia, 1982]. Fishbane, Biblical Interpretation [—»
34 acima]. F o w l, S., ExpTim 96 [1984-85] 173-76. 76 (b) Exegese advocatória. Estudos ori­
Sanders, J. A ., From Sacred Story to Sacred Text [Phi­ entados pela teologia da libertação e pelo
ladelphia, 1987]. Também JSOT 16 [1980]; H B T 2 feminismo deram contribuições recentes à
[1980]; BTB 11 [1981] 114-22; Canon, Theology, and investigação de ambos os Testamentos co­
Old Testament Interpretation [ed. G. T u ck er et al.; brindo toda a gama hermenêutica do que
Philadelphia, 1988].) temos chamado de sentido literal e mais-
que-literal (—> Crítica do AT, 69:73-79, —»
75 (D) Contribuições variadas. As Crítica do NT, 70:82-83). Um aspecto inte­
abordagens seguintes, que vão além do ressante de muitas delas é a defesa aberta
de que seus resultados sejam usados para pode ter sido de fato (e não simplesmente
mudar a situação religiosa ou social exis­ através da omissão de dados) desfavorável
tente. A interpretação para apoiar ideolo­ para causas modernas. Limitações bíblicas
gias ou causas significativas é livremente como estas não tornariam as causas moder­
defendida sob a alegação de que os escri­ nas menos importantes, mas as colocariam
tores e os escritos bíblicos não deixavam no contexto da história. Algumas questões
de ter sua própria defesa. Por exemplo, E. importantes para Paulo ou Mateus (como
Schüssler Fiorenza sustenta que a história a questão da conversão judeu-gentio) pa­
da igreja foi escrita primordialmente como recem irrelevantes para nós hoje (mesmo
uma história clerical, porque os clérigos quando interpretadas inteligentemente para
estavam não apenas escrevendo, mas tam­ realçar sua relevância subjacente). Este fato
bém lendo estes relatos históricos. É ampla­ poderia constituir uma advertência de que
mente reconhecido que um discernimento nossas questões candentes poderão pare­
do viés (consciente ou inconsciente) na nar­ cer irrelevantes daqui a algumas décadas.
rativa bíblica e uma colocação de pergun­ Uma Escritura lida somente pela ótica das
tas sociológicas, econômicas e políticas que questões modernas poderia parecer menos
não foram feitas pelos exegetas do passado relevante no futuro.
podem ajudar a preencher o mundo bíblico
e a descobrir no texto e por baixo do texto (B r o w n , R. M ., Unexpected News: Reading the
uma riqueza anteriormente não percebida. Bible with Third World Eyes [Philadelphia, 1 9 8 4 ] .
Porém, mais do que isto está implicado na C l e v e n o t , M ., Materalist Approaches to the Bible
[Maryknoll, 1 9 8 2 ] , S c h o t t r o ff , W . e W . S teg er ­
exegese de defesa. A fim de alimentar a fé
m a n n [eds.], God of the Lowly [Maryknoll, 1 9 8 4 ] .
e a visão de comunidades cristãs que lutam
S c h ü ss le r F io r e n z a , E., In Memory of Her [New
hoje por liberdade, algumas pessoas sus­ York, 1 9 8 3 ] .)
tentariam que a libertação dos oprimidos é
a única ótica pela qual as Escrituras podem
ser lidas. Esta ótica deve ser favorecida por 77 (E) Observações finais. Por razões
uma hermenêutica centrada menos no texto de clareza pedagógica, neste artigo expu­
e mais nas pessoas cuja história de liberta­ semos primeiro o sentido literal e, depois,
ção é lembrada na Bíblia. Por exemplo, as o mais-que-literal, explicando ao mesmo
possibilidades paradigmáticas do êxodo são tempo os procedimentos ou tipos de críti­
invocadas livremente. Outras pessoas pro­ cas empregados para determinar respecti­
curam o que pode ser uma inspiração para vamente o que o texto quis dizer e o que ele
as mulheres que estão lutando pela liber­ quer dizer. Embora um intérprete possa se
tação, apoiadas por sua crença no Deus concentrar em um ou em outro, estas cate­
da criação e da salvação. Se a superfície gorias não são separáveis; pois o processo
da narrativa bíblica não oferece material total de explicação e compreensão implica
suficiente para apoiar uma causa feminis­ a relação entre os dois. A maioria dos co­
ta como esta, o uso máximo das mais leves mentários bíblicos escritos até agora se con­
pistas é considerado conducente à detecção centraram quase exclusivamente no sentido
de situações mais favoráveis que foram su­ literal ou na busca do que o texto quis dizer.
primidas consciente ou inconscientemente. Existem pelo menos duas razões para isto.
Para outras, estas reconstruções que visam Primeira, há um amplo acordo, pelo menos
a defesa de uma causa parecem forçadas, em teoria, sobre os meios (os tipos de crí­
e argumenta-se que se deve contar com a tica) usados para detectar o sentido literal.
possibilidade de que os autores bíblicos es­ Os defensores da importância de um sen­
tivessem inconscientes ou desinteressados tido mais-que-literal estão frequentemente
em questões que parecem importantes para muito divididos quanto ao modo em que
nós. A situação sociológica da Antiguidade abordam o texto, como indicam os tipos
de crítica examinados acima sob a rubrica vital. Esta suposição é um pouco otimista,
"situação contemporânea". Segunda, a pos­ e os comentaristas não podem se contentar
sibilidade de se envolver com o texto a fim em ser arqueólogos do significado. Talvez
de determinar o que ele pode ou deveria a situação melhore quando os defensores
significar agora para o leitor é complicado das várias críticas que descobrem o senti­
pela diversidade de leitores, de modo que do mais-que-literal passem da teoria para a
muitos comentaristas optam por se limitar prática e comecem eles mesmos a escrever
à tarefa de explicar, esperando que os pró­ comentários. Isto tornaria parte da discus­
prios leitores passem a uma compreensão são menos abstrata.

TEMAS RELACIONADOS

78 (I) Acomodação. Além dos sentidos cação a outros homens chamados de João,
da Escritura está a acomodação, um sentido não particularmente notáveis pela santida­
dado à Escritura - não o produto da exegese, de, é mais duvidosa. Mas, mesmo quando
mas de "eisegese", ainda que, reconhecida­ a acomodação é manuseada com uma certa
mente, numa compreensão mais ampla de sobriedade, temos de insistir que ela deveria
"significado" as linhas divisórias entre os ser um uso apenas ocasional da Escritura e
sentidos mais-que-literais e a acomodação se não o uso principal. Os pregadores podem
tornam indistintas. O âmbito da acomoda­ achar a acomodação fácil e podem recorrer
ção é imenso, indo da aplicação catequética a ela em vez de se dar o trabalho de extrair
ao embelezamento literário. Grande parte uma mensagem relevante do sentido literal
da exegese mais-que-literal nos Padres da da Escritura. Então eles correm o risco de
Igreja e na liturgia é acomodação - um fato substituir a palavra de Deus por sua própria
que é inteligível quando nos lembramos que engenhosidade. Se se deixa claro para os lei­
a Escritura era considerada o texto básico a tores ou ouvintes que o escritor ou o orador
partir do qual uma ampla gama do conhe­ está acomodando, parte deste perigo é re­
cimento cristão era ensinado. Quando Gre- movido. Mas, em geral, agora que reconhe­
gório o Grande disse a seus ouvintes que a cemos a tremenda riqueza do sentido literal
parábola dos cinco talentos do evangelho se da Escritura, uma exposição sólida deste
referia aos cinco sentidos, ele estava "aco­ sentido prestará um serviço muito melhor
modando". A liturgia acomoda às vidas de do que acomodações engenhosas.
pontífices-confessores cristãos a oração que
Eclo 44-45 coloca sobre os patriarcas de Isra­ 80 (II) Interpretação autoritativa pela
el. Um uso muito frequente da acomodação igreja. Quando examinamos o sentido li­
ocorre nos sermões, p.ex., quando pregado­ teral, explicamos as regras da crítica das
res elogiaram o papa João XXIII ao citar Jo formas e da crítica da redação, etc., como
1,6: "Houve um homem enviado por Deus. as melhores diretrizes para chegar ao sig­
Seu nome era João." nificado da Escritura. Mas como católicos
não dizemos que a interpretação autêntica
79 A acomodação é inevitável com um da Escritura pertence à igreja? Na compre­
livro que é tão familiar e respeitado como a ensão popular resta ainda uma certa confu­
Bíblia. E, na verdade, uma certa tolerância são acerca do papel da igreja na exegese em
pode ser concedida à acomodação quando contraposição à "interpretação privada".
ela é feita com inteligência, sobriedade e Esta última expressão é, frequentemente,
bom gosto. Em matéria de bom gosto, por uma simplificação exagerada do que se
exemplo, não é impróprio aplicar Jo 1,6 para considera uma posição protestante. Antes
elogiar um papa amado e piedoso; sua apli­ de mais nada, deve-se dizer que nas igrejas
protestantes mais tradicionais não há suges­ auxiliaram os teólogos na compreensão das
tão de que cada indivíduo possa interpretar doutrinas marianas e, assim, guiou a igreja
autoritativamente a Escritura. Existe tradi­ a assumir uma posição dogmática. Em par­
ção eclesiástica entre os protestantes, assim ticular, Pio XII parece sustentar apenas que
como há entre os católicos. Além disso, uma o dogma da Assunção recebe apoio da Es­
vez que a interpretação correta da Escritura critura (ASS 42 [1950] 767,769).
exige formação e esforço, o protestante me­
diano não é mais capaz de pegar a Bíblia e 82 Outra cautela diz respeito à área
determinar de imediato o que o autor quis acerca da qual a igreja falou. A lógica por
dizer do que o católico mediano. A compre­ trás da reivindicação da autoridade da igre­
ensão da Escritura de um protestante vem ja sobre a interpretação escriturística é que
por meio de escolas dominicais, sermões e a igreja é guardiã da revelação. Visto que a
experiências na igreja, assim como a com­ Escritura é um testemunho da revelação, a
preensão do católico mediano vem dos igreja tem o poder de determinar infalivel­
mestres. Uma diferença mais verdadeira mente o significado da Escritura em ques­
entre as opiniões protestante e católica não tões de fé e moral (DS 1507-3007). A igreja
se centra na existência de uma interpreta­ não reivindica autoridade absoluta ou di­
ção tradicional da Escritura, mas no valor reta sobre assuntos de autoria, geografia,
vinculativo atribuído a esta tradição. cronologia bíblica e muitas questões de his­
toricidade. Por esta razão, a igreja não fez
81 Mesmo na questão da interpreta­qualquer pronunciamento dogmático nestas
ção autoritativa da Escritura pela igreja, áreas. Semelhantemente, quando passamos
contudo, devemos ser cuidadosos para não à exegese efetiva da Escritura - algo que po­
simplificarmos demais a posição católica. deria ser uma questão de fé e moral - em
Uma cautela preliminar diz respeito a como relação a Noventa e nove por cento da Bí­
a igreja falou. Deve-se distinguir entre de­ blia a igreja não comentou oficialmente so­
clarações verdadeiramente dogmáticas e bre o que uma passagem quer dizer ou não.
outras afirmações que não são do mesmo A tarefa é deixada para o conhecimento, a
nível. Exemplos desta última incluem: (1) inteligência e o trabalho árduo de exegetas
Decisões prudenciais feitas para o bem co­ individuais que reivindicam não mais que
mum, mas que não são guias infalíveis à uma convicção razoável para suas conclu­
verdade. Por exemplo, entre 1905 e 1915 a sões. Quando a igreja falou de um versículo
PCB [Pontifícia Comissão Bíblica] romana particular, na maioria das vezes ela o fez de
produziu uma série de diretrizes acerca da um modo negativo, i.e., rejeitando certas in­
Escritura. Hoje em dia, com a aprovação da terpretações como falsas porque elas consti­
mesma PCB, a maioria destas diretrizes são tuem uma ameaça à fé e à moral. O Concílio
consideradas obsoletas pelos biblistas cató­ de Trento, por exemplo, condenou a inter­
licos (—>Pronunciamentos da Igreja, 72:25). pretação calvinista que pretenda reduzir a
(2) Afirmações que usam a Escritura apenas referência à ãgua em Jo 3,5 (passagem batis­
como ilustração. A bula Ineffabilis Deus sobre mal: "A menos que se nasça de cima [nasça
a Imaculada Conceição evoca Gn 3,15, e a novamente] da água e do Espírito") a uma
bula Munificentissimus Deus sobre a Assun­ mera metáfora (DS 1615). Novamente, ela
ção evoca Ap 12. Poucas pessoas sustenta­ condenou as pessoas que desassociam o po­
riam que os respectivos papas estavam afir­ der de perdoar pecados que é exercido no
mando dogmaticamente que estes textos da sacramento da penitência do poder conferi­
Escritura se referem, em seu sentido literal, do em Jo 20,23 (DS 1703).
às doutrinas marianas. Mais provavelmen­
te as citações implicam não mais do que o 83 Uma terceira cautela diz respeito
fato de que a reflexão sobre estes versículos ao sentido da Escritura implicado nos relati-
vãmente poucos casos onde a igreja falou o sentido literal das palavras da instituição
afirmativa e autoritativamente acerca de eucarística proferidas por Jesus: "Após ter
uma passagem da Escritura. A igreja está abençoado o pão e o vinho, ele disse em pa­
preocupada primordialmente com o que a lavras claras e inequívocas que estava lhes
Escritura significa para seu povo; ela não dando seu próprio corpo e seu próprio san­
está preocupada imediatamente com o que gue [...]. Estas palavras têm seu significado
a Escritura significava para aqueles que a próprio e óbvio e foram assim entendidas
escreveram ou a ouviram de primeira mão pelos Padres" (DS 1637)? O Vaticano I fa­
- o sentido literal. Devemos nos lembrar lou sobre o sentido literal de Mt 16,16-19 e
que o conceito de sentido literal estabeleci­ Jo 21,15-17 quando insistiu que Cristo deu
do pelo método histórico-crítico é um de­ a Pedro o primado real entre os apóstolos
senvolvimento bastante moderno. Moder­ (DS 3053-55)? Os peritos em teologia dog­
na é também a ênfase na distinção entre o mática não estão de acordo na resposta a es­
que um texto significava para seu autor e tas perguntas. V. Betti (La costituzione dom-
o que ele passou a significar no uso eclesi- matica 'Pastor aeternus' dei Concilio Vaticano I
ástico-teológico subsequente. No exemplo [Roma, 1961] 592) afirma: "A interpretação
citado acima, onde o Concílio de Trento destes dois textos [Mt 16,17-19; Jo 21:15-17]
condenou uma interpretação errada de Jo como prova dos dois dogmas mencionados
20,23, os padres conciliares desejavam su­ não se situa per se sob a definição dogmáti­
gerir que o autor de João estava se referindo ca - não apenas porque não se faz menção
ao sacramento da penitência ou queriam, deles no cânone, mas porque não há traço
antes, insistir na relação da penitência com de um desejo no Concílio de dar uma inter­
o perdão de pecados atestada neste versí­ pretação autêntica deles neste sentido."
culo? Se Trento citou Tg 5,14-15 em relação
ao sacramento da unção dos enfermos (DS 85 Estes poucos casos de possível defi­
1760), o Concílio desejava afirmar que o au­ nição da igreja (pode haver outros) e os ca­
tor de Tiago sabia que a cura dos enfermos sos em que a igreja condenou uma interpre­
era um sacramento, ou não afirmou, antes, tação específica da Escritura causam muitas
simplesmente que o poder de curar descrito dificuldades para os protestantes. J. M.
em Tiago era um exemplo do poder que, se­ Robinson (CBQ 27 [1965] 8-11) protesta que,
gundo a compreensão posterior, é exercido se um exegeta, mediante o uso cuidadoso
no sacramento? Em ambos os casos, um co­ do método, chega a uma conclusão acerca
nhecimento da história do desenvolvimen­ de um versículo particular da Escritura e,
to da teologia e crença sacramental sugere então, o Magistério intervém e diz que a
a segunda alternativa. Em outras palavras, conclusão está errada, isto é uma negação
a igreja não estava resolvendo uma questão do intelecto. Observa ele: "A invalidação
histórica acerca do que o autor pretendia da conclusão que resulta da aplicação apro­
quando escreveu o texto, mas uma questão priada do método invalida necessariamen­
religiosa acerca das implicações das Escri­ te o método", e, assim, em princípio a li­
turas para a vida dos fiéis. (Não estamos berdade e a qualidade científica da exegese
dizendo que os padres conciliares em Tren­ católica são colocadas em perigo pela ação
to estivessem necessariamente conscientes da igreja.
desta distinção; estamos meramente preo­ Em resposta a isso, devem-se fazer três
cupados com a importância de facto de suas observações. Primeira, os exegetas católi­
decisões.). cos sustentariam honestamente que, nos
poucos casos onde a igreja falou autorita­
84 Existem casos onde a igreja falou tivamente acerca do sentido literal da Es­
autoritativamente, definindo positivamente critura (geralmente negando certas inter­
o sentido literal da Escritura? Trento definiu pretações), pode-se apresentar uma defesa
exegética plausível da posição da igreja. de seus teólogos [...]. Nós [os bispos da igre­
O significado que a igreja encontra no versí­ ja] desejamos ouvir vocês, e estamos ansio­
culo pode não ser o único significado que se sos para receber a valiosa assistência de
poderia derivar pelo método crítico, mas é sua pesquisa responsável" (AAS 71 [1979]
um significado possível. R. E. Brown (Bibli­ 1263).
cal Exegesis and Church Doctrine [New York,
1985] 36-37) sustenta que a Igreja Católica 87 Terceira, o papel da igreja na inter­
insiste doutrinariamente que Jesus foi con­ pretação da Escritura é uma contribuição
cebido de uma virgem sem um pai humano. hermenêutica positiva e não simplesmen­
A historicidade da concepção virginal não é te uma restrição da liberdade científica.
a única interpretação crítica possível de Mt 1A "nova hermenêutica" pretende que o tex­
e Lc 1, mas é uma interpretação possível e atéto interprete os leitores ao se defrontar com
mesmo provável. Ao aceitar o ensinamento eles e questionar sua autocompreensão (—»
da igreja sobre este ponto na interpretação 54 acima). Os católicos sustentam vigoro­
de Mt e Lc, os exegetas católicos não estão samente que a vida litúrgica e doutrinária
negando a exegese histórico-crítica, mas a da igreja constitui um "lugar hermenêuti­
complementando e indo além de suas incer­ co" onde as Escrituras falam da mais ver­
tezas. Uma apreciação adequada da certeza dadeira forma. A reação negativa instinti­
limitada proporcionada pela investigação va da Igreja Católica ao racionalismo, ao
histórico-crítica é útil neste ponto. liberalismo e ao modernismo não foi uma
rejeição do método científico (embora desta
86 Segunda, ao interpretar as Escri­maneira este método tenha sido, de modo
turas, o Magistério não atua independen­ infeliz e acidental, desprestigiado tempora­
temente e isolado da pesquisa confiável riamente), mas um reflexo do bom senso da
da Escritura. O Magistério não chega à sua igreja de que a Escritura não estava falando
conclusão acerca do que uma passagem bí­ verdadeiramente nestes "ismos". Pode-se
blica significa ou não mediante alguma es­ reconhecer que, às vezes, por causa da fra­
pécie de instinto místico ou revelação direta queza daqueles que a constituem, a igreja
do alto. A fé tradicional, as implicações te­ não reage imediata ou adequadamente a
ológicas e as contribuições da pesquisa en­ um significado da Escritura que é patente
tram, todas, na decisão magisterial. Tanto para os exegetas - daí a constante neces­
Trento quanto o Vaticano I consultaram os sidade de renovação e reforma a partir de
melhores exegetas católicos da época. Esta­ dentro (—» Canonicidade, 66:96). Mas, ape­
mos perto o suficiente do Vaticano II para sar disso, a igreja continua sendo o lugar
saber que quando os exegetas apontaram por excelência onde a Escritura é ouvida em
que a Escritura estava sendo mal usada, a seu mais verdadeiro e pleno significado (—>
interpretação errônea era retirada dos do­ 71-74 acima).
cumentos conciliares. De fato, o Vaticano
II reafirmou que o trabalho feito pelos exe­ 88 (III) Autoridade exegética dos Pa­
getas é um fator que contribui para levar dres. Em quase todos os documentos ro­
o julgamento da igreja à maturidade (Dei manos que dizem respeito ao estudo da
Verbum 3:12). Pode-se perguntar se a igreja Escritura há uma afirmação de que se deve
alguma vez falou contra a opinião científica interpretar a Escritura em lealdade para
da maioria dos exegetas católicos. São apli­ com a opinião dos Padres e Doutores da
cáveis neste caso as palavras de João Paulo igreja. Até recentemente, em decorrência
II na Universidade Católica (Washington, da crise modernista, os exegetas católicos
DC) em 6 de outubro de 1979: "Desejo dizer que lecionavam em seminários tinham de
uma palavra especial de gratidão, incentivo prestar um juramento anual de interpretar
e orientação aos teólogos. A igreja precisa a Escritura de acordo com o consentimento
unânime dos Padres. A Instrução da PCB a eles pela tradição. A igreja gostaria de
romana de 1964 (—» Pronunciamentos da desafiar os biblistas modernos a imitar o
Igreja, 72,35) dá continuidade à insistência: êxito dos Padres em fazer com que a Bíblia
"Que o exegeta católico, seguindo a orienta­ alimente a fé, a vida, o ensino e a prega­
ção da igreja, tire proveito de todos os intér­ ção da comunidade cristã. Mas em termos
pretes anteriores, especialmente dos santos de orientação prática na moderna exegese
Padres e Doutores da igreja." literal dos textos individuais, a autoridade
Todavia, quando se lê a exegese efeti­ patrística é de importância limitada.
va dos Padres descrita acima (—> 35-38),
ela realmente tem pouco em comum com 90 (IV) A divulgação das opiniões
os métodos e resultados da exegese cató­ críticas modernas. O monitório [admo­
lica moderna. Registramos uma relutância estação] do Santo Ofício de 19961 e a Ins­
em retornar à exegese mais-que-literal dos trução da PCB de 1964 - dois documentos
Padres (—>48). Qual, então, é a importância de Roma (—» Pronunciamentos da Igreja,
prática da exegese patrística como guia? 72,34-35), um restritivo em sua tendência,
o outro liberalizante - insistem nos perigos
89 Antes de mais nada, a área na qual de escandalizar os fiéis pela comunicação,
a autoridade patrística é mais forte é a das no campo bíblico, de "novidades vãs ou in­
implicações dogmáticas da Escritura, e não suficientemente estabelecidas". A Instrução
a da exegese literal. Por exemplo, Atanásio da PCB proíbe aqueles que publicam para
estava inteiramente consciente de que ne­ os fiéis que, "levados por alguma ânsia per­
nhum texto da Escritura respondia plena­ niciosa por novidade, disseminar qualquer
mente a heresia ariana: nenhum único texto, tentativa de solução de dificuldades sem
em seu sentido literal, mostrava irrefutavel­ uma seleção prudente e discriminação sé­
mente que Jesus era "verdadeiro Deus de ria; pois desse modo eles perturbam a fé de
verdadeiro Deus". Mas ele insistiu em que, muitos".
na controvérsia do séc. IV, a única resposta Estas advertências têm sua razão de ser.
que a Escritura poderia dar à questão que Por exemplo, ocasionalmente os pregado­
Ário estava levantando era a resposta de res sobem ao púlpito como uma ânsia de
Niceia ("Carta sobre os decretos do Concí­ chocar: "Não houve Jardim do Éden. Não
lio de Niceia", 5.19-21). Obviamente, enten­ houve magos, etc.". Deixando de lado a
dida desse modo, a lealdade à autoridade questão da simplificação excessiva e, às ve­
patrística não é uma restrição à liberdade zes, tendência incorreta destas afirmações,
ou qualidade científica da exegese católica temos de insistir que elas não servem para
moderna. levar a riqueza da Escritura para o socorro
Além disso, quando é entendida como espiritual e salvífico das pessoas. (Pode-se
norma absoluta, o consentimento unânime pregar sobre um tópico como Gn 1-3 ou a
dos Padres (consentimento moralmente narrativa mateana da infância de Jesus de
unânime, não necessariamente unânime em um modo que respeite os problemas his­
termos numéricos) não afeta muitas passa­ tóricos implicados, mas, ainda assim, con­
gens controversas. Numa passagem onde centrar-se na mensagem teológica.). Uma
se poderia esperar por unanimidade, p.ex., apresentação popular excessivamente ne­
a aplicação de Mt 16,18 a Pedro, constata-se gativa dos resultados da crítica bíblica não
que nem Agostinho nem Crisóstomo enten­ é apenas perigosa para os fiéis, mas preju­
diam a rocha do fundamento como sendo dica biblistas respeitáveis ao popularizar
Pedro! Em suma, a insistência da igreja na suas concepções sem as qualificações neces­
autoridade exegética dos Padres reflete seu sárias e num contexto onde essas concep­
desejo de que os exegetas católicos não se ções nunca pretenderam ser apresentadas.
esqueçam da herança dogmática que chega O princípio geral é que não se deveria
deixar o público com problemas que ele não pesquisa científica. Existem muitas ques­
é capaz de resolver. Se o pregador traz ele­ tões bíblicas delicadas que carecem de es­
mentos da crítica histórica, deveria tomar tudo e discussão científicos, p.ex., a histori­
conhecimento das possíveis implicações e cidade das narrativas da infância de Jesus
prevenir as conclusões equivocadas. e o conhecimento humano de Jesus. Toda­
via, os biblistas sabem que, quando escre­
91 Mas se reconhecemos o perigo da vem sobre esses assuntos, mesmo em peri­
popularização precipitada, também pre­ ódicos profissionais e técnicos, um relato,
cisamos acentuar o perigo do outro lado frequentemente confuso e, às vezes, hostil,
- um perigo que infelizmente não tem re­ logo aparecerá na imprensa popular. Em
cebido atenção suficiente nos documentos outras palavras, enquanto pesquisadores
da igreja. Este é o perigo de que um medo católicos competentes são instados pela
exagerado de escândalo impeça os popu- igreja a manter estas questões longe do co­
larizadores de comunicar a católicos ins­ nhecimento público, quer eles gostem ou
truídos a compreensão mais sofisticada não, outros popularizarão seu trabalho.
da Bíblia que eles deveriam ter. Assim, O resultado é que, muitas vezes, o estudio­
frequentemente ouvimos falar dos poucos so é acusado de ser responsável pelo escân­
que ficam escandalizados, e nenhuma voz dalo e se torna o alvo de recriminações por
se levanta para falar do crime muito maior parte de supostos protetores da fé. Toda
de deixar muitos na ignorância em rela­ distinção entre a discussão num nível aca­
ção à crítica bíblica moderna. O medo do dêmico e a popularização - uma distinção
escândalo nunca deve levar a um padrão às vezes proposta de forma simples demais
duplo em virtude do qual se ensinem às em advertências vindas de Roma - está se
pessoas simples ou aos jovens coisas a res­ extinguindo rapidamente; e deveríamos
peito da Bíblia que são falsas, só para que enfrentar este problema de modo mais
não fiquem escandalizados. O bom senso franco e prático. A longo prazo, mais pre­
prescreve que toda educação seja propor­ juízo foi causado à igreja pelo fato de que
cional à capacidade dos ouvintes, mas isto seus pesquisadores nem sempre tiveram li­
não significa que a instrução bíblica ele­ berdade para discutir problemas delicados
mentar deva ser não-crítica. Significa que do que pelo fato de que alguns dos fiéis fi­
a instrução elementar deve ser crítica de cam escandalizados pela disseminação de
um modo elementar. Desde a primeira vez novas ideias. Com frequência, mais dano é
que o relato de Gn 1-3 é contado a crian­ produzido pela falta de ideias do que pela
ças do jardim de infância, elas devem ser presença de novas ideias. A imprudência
ensinadas a concebê-la como uma história e escândalos ocasionais são o preço quase
popular e não como historiografia, ainda inevitável que se tem de pagar pelo direito
que o professor possa não desejar levantar da livre discussão. E de fato, esta discus­
formalmente, neste nível, a questão da his­ são acadêmica livre tem seu próprio modo
toricidade. Mesmo iniciantes podem ser de suprimir os erros - uma resenha devas­
ensinados a conceber os evangelhos como tadora de um livro numa revista bíblica,
registros de pregação e ensino, e não como feita por um estudioso competente, pode
biografias de Jesus. ser mais eficaz para erradicar um absurdo
do que uma advertência da autoridade da
92 Infelizmente também, um medo igreja que talvez pareça simplesmente ser
exagerado do escândalo pode dificultar a repressora da liberdade.