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Aspectos do Pensamento

do Antigo Testamento*
John L. McKenzie

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* As seções 152-163 deste artigo foram compostas e acrescentadas por R. E. Brow n.


2 ESBO Ç O

O Deus de Israel (§ 3-60) (IV) Aliança e lei


(I) Introdução (§ 3-4) (A) Códigos e formulações de leis (§ 86-
(II) Nomes de Deus 87)
(A) El, Elohim, Eloah (§ 7-8) (B) Leis da aliança (§ 88-89)
(B) Shaddai (§ 9) (V) Aliança e culto (§ 90-92)
(C) Baal, Adonai, Melek (§ 10) (VI) Retidão (§ 93-94)
(D) Iahweh (§ 11-13) (VII) Am or pactuai (§ 95-98)
(E) Iahweh Sebaoth (§ 14)
(F) Nomes patriarcais para Deus (§ 15-16) Aspectos das relações entre Deus e Israel (§ 99­
(III) O único Deus (§17-20) 151)
(IV) Antropomorfismo (§ 21-22) (I) Ira (§ 99-102)
(V) Pensamento mitopoeico (II) Revelação
(A) Definição de mito (§ 23-24) (A) Natureza da revelação (§ 104-106)
(B) Pensamento mitopoeico do AT (§ 25­ (B) Canais de revelação (§ 107-110)
31) (III) Senhor da história
(VI) O Espírito de Deus (A) O AT como história (§ 112-115)
(A) Conceito de Espírito (§ 32-34) (B) Determinismo e universalidade (§116­
(B) O Espírito na história de Israel (§ 35­ 117)
39) (IV) Moralidade (§ 118-124)
(VII) A palavra de Deus (V) Pecado (§ 125-131)
(A) Conceito de palavra (§ 40-44) (VI) Perdão (§ 132-135)
(B) A palavra na história de Israel (§ 45­ (VII) Julgamento (§ 136-139)
46) (VIII) Salvação
(VIII) Deus e a natureza (A) Atos salvíficos de Iahweh (§ 140-143)
(A) Conceito de natureza (§ 48-49) (B) Natureza da salvação (§ 144-148)
(B) Criação (§ 50-54) (C) Reinado de Deus (§ 149-151)
(C) Criação contínua (§ 55-60)
Os planos futuros de Deus para seu povo (§
Israel - Povo de Deus na aliança (§ 61-98) 152-178)
(I) Natureza humana (§ 61-66) (I) O Messias
(II) Comunidade humana (§ 67-73) (A) O termo "M essias" (§ 152-154)
(III) A Aliança (B) Desenvolvimento do messianismo real
(A) Analogias para expressar o relaciona­ (§ 155-163)
mento de Deus com Israel (§ 75-76) (II) Escatologia (§ 164-167)
(B) Formas de aliança (§ 77-80) (III) Vida após a morte (§ 168-174)
(C) Aliança e história de Israel (§ 81-85) (IV) Promessa e cumprimento (§ 175-178)

O D E U S D E IS R A E L

3 ( I ) I n t r o d u ç ã o . Embora a teologia bí­e, em particular, a teologia do AT não pode


blica, como disciplina formal, tenha agora fazer essa reivindicação. A teologia bíblica
quase 200 anos, ainda há amplo desacordo não se presta a uma síntese como a síntese
sobre seu objeto, princípios e métodos (—> da teologia especulativa criada por Tomás
Crítica do AT, 69:51-54). Algo deve ser dito de Aquino; o tratamento adotado aqui é
acerca das limitações da teologia bíblica uma coleção de ensaios sobre tópicos ou te­
como ela é entendida neste ensaio. A teo­ mas, sem a tentativa de integrá-los em um
logia bíblica é uma parte da teologia como todo. (Esta contribuição não é uma coleção
um todo; ela não pode reivindicar apresen­ completa de temas teológicos; ela contém
tar uma síntese de toda a doutrina revelada, apenas aqueles temas que, no julgamento
do autor, eram mais merecedores de inclu­ 6 Na língua hebraica existe uma asso­
são) A teologia bíblica não segue as cate­ ciação peculiar da pessoa e do nome que é
gorias da teologia especulativa; ela tem de estranha ao nosso idioma. O "nom e" é usa­
criar suas próprias categorias extraídas do do em contextos onde as línguas modernas
pensamento bíblico em si, e é precisamente usam "pessoa" ou "identidade". Não ter
aqui que se encontra uma área de desacor­ nome é não ter existência real; quando o
do entre os estudiosos. nome de uma pessoa é apagado, ela deixa
de existir. Dar um nome é conferir identi­
4 A teologia bíblica deve ser histórica dade e não meramente distinguir de outros
em seus métodos e exposição. A revelação indivíduos ou espécies; quando Deus cria
da Bíblia está emaranhada na experiência (Gn 1), ele dá um nome a cada objeto de sua
histórica de Israel, e é impossível fixá-la em criação. Outorgar um nome é um ato de po­
qualquer ponto que recapitule a experiên­ der e uma declaração de propriedade ou al­
cia toda. As limitações de espaço não per­ guma outra forma de controle. A mudança
mitem a exposição plena deste fator aqui. de nome indica uma mudança de estado ou
A teologia bíblica, na melhor das hipóteses, condição, o começo de uma nova existên­
é uma ajuda para se entender a Bíblia; ela cia. Conhecer o nome é conhecer a realida­
não comunica um entendimento. Os te­ de mencionada. Por esta razão, o AT reflete
mas expressos teologicamente aqui foram o amor por etimologias que, se analisadas
originalmente proferidos numa situação linguisticamente, são fantasiosas. O nome é
de urgência histórica concreta, geralmen­ rico em significado; uma conexão median­
te com uma profundidade de convicção e te paronomásia com uma característica ou
até mesmo de paixão que combinava com ação de uma pessoa revela a pessoa mais
a urgência. Compreender a Bíblia exige que plenamente. Por isso, o conhecimento de
se sinta a urgência tanto quanto se compre­ Deus é manifestado em seu nome.
enda o conteúdo inteligível da expressão.
A teologia bíblica pode mostrar que estas 7 (A) El, Elohim, Eloah. El translitera
afirmações se encaixam na estrutura da fé a forma hebraica da palavra comum para
israelita, mas o impacto desta fé somente é deidade nas línguas semíticas. Na crença
percebido quando se ouve seu anúncio por politeísta, ’êl é a palavra para um membro
parte dos próprios porta-vozes. A teologia da espécie divina, exatamente como "ho­
bíblica não substitui a exegese, mas a pres­ mem" serve como a palavra para um mem­
supõe (—>Hermenêutica, 71:21). bro individual da espécie humana. Elohim
não possui cognato nas outras línguas se­
5 (II) Nomes de Deus. O objeto da teo­ míticas; provavelmente esteja relacionada
logia é o conhecimento de Deus. Entende- a El. Gramaticalmente, ’élõhím é um plural
se que o conhecimento teológico de Deus é em hebraico; frequentemente se supõe que
uma elaboração e uma síntese dos conceitos ele reflita o pensamento politeísta corren­
formados mediante a combinação de dados te entre os ancestrais de Israel. "Elohim" é
das fontes teológicas reveladas com as con­ aplicado quer ao Deus adorado por Israel
clusões do raciocínio dialético. Este tipo de quer aos deuses de outros povos; no segun­
pensamento não aparece no AT. O pensa­ do uso, ele pode ser plural quanto ao signi­
mento israelita no período bíblico carecia ficado bem como quanto à forma. Quando
do raciocínio discursivo desenvolvido pela usado para o Deus de Israel, "Elohim", ape­
filosofia grega (—> 23-24 abaixo) e era inca­ sar de sua forma plural, é singular quanto
paz de especulação geral e abstrata. No he­ ao significado e concordância gramatical,
braico, "conhecer a Deus" é encontrar uma exceto por algumas passagens onde as re­
realidade pessoal, e uma pessoa não é co­ miniscências politeístas da narrativa da
nhecida a menos que se conheça seu nome. qual a Bíblia fez o empréstimo ainda trans­
parecem, p.ex., Gn 1,26: "Disse Deus: Faça­ e do poder superior aos seres humanos. Po­
mos... à imagem de Deus ele os criou, homem e rém, na Bíblia, quando Iahweh é chamado
mulher ele os criou". (Esta passagem talvez de El ou Elohim, ele necessariamente é ele­
seja uma reminiscência de um panteão ce­ vado até mesmo acima deste mundo sobre­
lestial de "elohim", machos e fêmeas.). "El" humano, a um nível que pertence exclusi­
aparece como um nome divino pessoal os­ vamente a ele.
tentado pelo cabeça do panteão de Ugarit.
Possivelmente o uso ugarítico seja o único 9 ( B ) S h a d d a i . Segundo as fontes E e
traço remanescente de uma teologia mais P (—> Pentateuco, 1:5, 7, boi. I, AT), o nome
antiga e difundida na qual o nome El era divino de Iahweh não era conhecido antes
um nome próprio antes de se tornar um de Moisés - uma tradição histórica genuína
nome comum. Eloah Çêlôah), que também - e na fonte P Shaddai é o nome pelo qual os
carece de um cognato nas outras línguas, patriarcas invocam a Deus. O nome é ates­
aparece apenas na poesia e parece não ser tado também em alguns poemas mais anti­
mais que uma variante poética. O hebraico gos fora da fonte P (Nm 24,4.16; Gn 49,25).
não possui uma palavra feminina para dei­ Não é certo o significado deste nome, que
dade. (Cf. P. Trible, God and the Rhetoric of aparece somente na Bíblia; ele foi traduzido
Sexuality [Philadelphia, 1978].) na LXX como pantokratõr, "Todo-Podero-
so". Muitos estudiosos seguem a sugestão
8 Não há uma explicação etimológica de W. F. Albright de que o nome significa
geralmente aceita do significado dos nomes "O da Montanha". O nome, assim inter­
El e Elohim. A maioria dos estudiosos liga pretado, reflete a antiga crença semítica co­
os nomes a uma palavra que significa "po­ mum de que a casa dos deuses se situava
der", e não é improvável que poder fosse a "na montanha do norte", mencionada em
marca fundamental e essencial da divinda­ algumas passagens do AT (Is 14,13; SI 48,3;
de no antigo mundo semita. Ainda que esta —» História, 75:54).
seja a explicação adequada, "poder" não re­
flete no uso hebraico desse termo. Se a ideia 10 ( C ) B a a l , A d o n a i , M elek. Estes três
israelita da marca essencial da divindade títulos transmitem a ideia do poder de go­
pode ser resumida em uma única palavra, vernar. Baal, "dono", raramente é usado
esta seria a palavra "santo", parafraseada para Iahweh porque era um título conven­
apropriadamente por R. Otto como "total­ cional para o mais popular deus dos cana-
mente outro"; a marca essencial é que Deus nitas. Frequentemente, contudo, quando
é totalmente diferente de qualquer uma Baal é o componente de um nome israelita
de suas criaturas. O hebraico exibe diver­ (p.ex., filho de Saul = Isbaal; filho de Jônatas
sos usos adjetivais dos nomes El e Elohim = Meribaal: lC r 8,33-34), podemos suspeitar
nos quais uma pessoa ou coisa é declarada que o filho recebia um nome Iahweh/baal,
ser idêntica a ou pertencer a El ou Elohim. em vez de ser chamado segundo o deus pa­
Estas atribuições elevam o objeto assim de­ gão. Escritores posteriores do AT viam com
signado acima do nível ordinário dos seres maus olhos o uso de "baal" em um nome
humanos ou terrestres e o colocam num ní­ e com frequência o mudaram para " bose-
vel mais elevado que é muito apropriada­ te" (hebr. "vergonha"). Assim, em 2Sm 2,8
mente chamado de sobre-humano. O objeto e 9,6, os nomes dos dois homens que aca­
é elevado porque em algumas qualidades bamos de citar aparecem como Is-Bosete
como tamanho, força ou prodígio absoluto e Mefibosete. Adonai ( ’ãdõnãy, "meu se­
ele excede o normal. Não havia uma linha nhor" - esta pronúncia é usada apenas para
nítida, no antigo uso semítico, que dividia Iahweh) é idêntica à palavra ’ãdõni, pela
os deuses de outros seres sobre-humanos: qual usualmente se dirigia a palavra ao rei.
o mundo de El-Elohim era o mundo do ser Melek, "rei", é usado frequentemente para
Iahweh. A realeza era um atributo de mui­ ma ’ehyeh ou yahweh ao verbo hãwâ, a forma
tos deuses dos antigos povos semitas, mas arcaica do verbo "ser". Em particular, W. F.
o desenvolvimento israelita da ideia segue Albright e F. M. Cross insistem que yahweh
seu próprio caminho. Iahweh é o rei de Is­ procede da conjugação causativa deste ver­
rael, rei de todas as nações, rei em virtude bo e significa "ele faz ser".
da criação, rei salvador que liberta Israel, Como um nome, "Iahweh" é, para Albright,
o rei escatológico que estabelece seu reino um fragmento de um nome maior que
universal no final da história (—> 75, 165­ ele reconstrói como yahw eh-’ãser-yihweh,
166 abaixo). Não é possível determinar qual "aquele que traz à existência tudo que
desses aspectos era primário, mas o con­ chega à existência" (FSAC [2a ed.] 15-16,
ceito da aliança como um relacionamento 259-61). O nome assim explicado identifica
vassalo-senhor (—>81-82 abaixo) sugere que Iahweh como o criador. F. M. Cross (HTR
a realeza de Iahweh não foi um desenvol­ 55 [1962] 256) tem uma variação desta tese,
vimento posterior do pensamento israelita. pois ele acredita que "Iahweh" é parte de
As funções do antigo rei eram a guerra e a um título litúrgico para El, p.ex., ’el ’ãser
lei, e Iahweh exerce ambas essas funções a [ou dü, um relativo mais antigo] yahweh
favor de Israel. Ele é o salvador que luta as sêb ã’ôt = "El que faz existir os exércitos"
batalhas de Israel, o legislador que impõe (—>14 abaixo). Por outro lado, se alguma ex­
um código de conduta e o juiz que sanciona plicação semelhante para as traduções da
o código que ele impõe. LXX e Vulgata for aceita e maior ênfase for
colocada na existência, então o nome sig­
11 (D) Iahweh. Este é o nome pessoal nifica que Iahweh é o único que realmente
do Deus de Israel. A pronúncia "Iahweh" é - possivelmente o único que realmente
foi recuperada em anos recentes. Na Bíblia é elohim, Deus. (Contudo, esta ênfase não
Hebraica, o nome é escrito com as quatro deveria ser transportada para a esfera fi­
consoantes YHWH (tetragrama) e as vogais losófica como se a Bíblia nos falasse que a
da palavra ’ãdõnãy (adonai = "senhor" - em essência de Deus é existência.). Mas talvez
algum momento nos últimos séculos pré- toda esta especulação sobre a etimologia
cristãos, os judeus pararam de pronunciar de Iahweh seja enganosa, pois, ainda que
o nome sagrado por reverência e diziam, saibamos com certeza o significado origi­
em vez dele, Adonai). Esta combinação pro­ nal do nome, não teríamos segurança de
duziu a palavra impossível Jeová. (G. H. que os hebreus entenderam o nome corre­
Parke-Taylor, Iahweh [Waterloo, Canada, tamente (muitas etimologias na Bíblia são
1975]; M. Rose, Jahwe [ThStud 122; Zürich, populares e cientificamente incorretas).
1978].) O uso do nome Iahweh na Bíblia não mos­
tra consciência de qualquer etimologia, e
12 O significado do nome é incerto, não há evidência no AT de uma teologia
e as explicações que foram sugeridas são sendo construída ao redor do significado
numerosas demais para citar. O texto de do nome. O nome ocorre mais de 6.700
Ex 3,13-14 não é uma explicação e é extre­ vezes e é a designação usual para Deus,
mamente difícil de se traduzir. A Bíblia mais frequentemente que todas as outras
Hebraica traz o nome na primeira pessoa, designações combinadas. E também um
’ehyeh ’ãser ’ehyeh. A LXX traduziu o nome componente frequente de nomes pessoais:
como "Eu sou o existente [ho õn = aque­ aqueles que começam com Je/Jeu/Jo e os
le que é]"; a Vulgata como "Eu sou quem que terminam com ias/as (Adonias, Elias,
sou". Seguindo P. Haupt, muitos sugerem Jeremias, Isaías, Josafá, Joaquim). E, por
que a fórmula estava originalmente na ter­ assim dizer, o nome israelita para Deus
ceira pessoa e leem yahweh ’ãser yahweh. A pelo qual a associação de Iahweh e Israel é
maioria dos estudiosos modernos liga a for­ mutuamente aceita e proclamada.
13 A revelação do nome a Moisés 15 (F) Nomes patriarcais para Deus.
em Ex 3,13-14 é atribuída à tradição E, e Como A. Alt (AEOT 1-100) demonstrou,
a tradição P de Ex 6,3 afirma que o nome uma forma sob a qual os patriarcas adora­
não era conhecido dos patriarcas. Embora vam a Deus pode ser classificada como "o
a tradição J use o nome desde o começo Deus dos Pais". O Deus que se relaciona­
de sua narrativa em Gn 2, isto não deveria va com os patriarcas era identificado como
ser entendido como uma contradição das "o Deus de Abraão" (ou "de Isaac" ou "de
tradições E e P, mas como um desconheci­ Jacó"). Este Deus de Abraão foi adorado por
mento das mesmas. Na teologia do nome, Abraão e seu clã, e até certo ponto era um
explicada acima (—» 6), a revelação do Deus tribal. Talvez o Deus de cada patriar­
nome Iahweh a Israel por meio de Moisés ca tivesse um título especial, p.ex., o Escudo
representava uma nova e mais plena reve­ de Abraão (Gn 15,1); o Temor de Isaac (ou
lação da realidade pessoal de Iahweh. Isto talvez Parente - Gn 31,42.53); o Poderoso de
se encontra refletido nas tradições do êxo­ Jacó (Gn 49,24). Adorar o deus de um per­
do por meio das quais o nome de Iahweh sonagem especial é comum apenas entre
é associado à origem da aliança (—> 81ss. os povos nômades. O exemplo mais antigo
abaixo; —> História, 75:44). Israel conhece encontra-se na Capadócia do séc. VIII a.C.,
seu Deus por este nome, e nenhuma outra talvez contemporâneo ao período patriar­
definição ou qualificação é necessária. Por cal. Os povos estabelecidos podem adorar
meio deste nome ele é proclamado como um deus nacional associado a uma região
o ser divino pessoal que se revela a Israel, particular, mas os nômades precisam de
que se vindica por meio dos atos salvífi- um deus pessoal ou do clã que vai com eles.
cos do êxodo e estabeleceu uma relação A força teológica do "Deus dos Pais" é
de aliança com o povo que ele formou. O importante na religião bíblica porque ela
nome distintivo "Iahw eh" indica que ele envolve um relacionamento pessoal entre
é um ser pessoal cuja essência e atributos Deus e o patriarca (e o clã) e, assim, trabalha
não podem ser compartilhados por ne­ contra o formalismo na religião. Ele fornece
nhum outro ser. o pano de fundo do futuro relacionamento
pactuai entre Deus e Israel e também é um
14 (E) Iahweh Sebaoth. Este título impedimento contra qualquer pensamento
"Iahweh (Deus) dos Exércitos" não ocorre de que Deus se encontra apenas em um lu­
desde Gn até Jz e é particularmente asso­ gar. (—» História, 75:38.).
ciado ao santuário construído para a Arca
da Aliança em Silo do qual a Arca era con­ 16 Uma outra forma sob a qual os
duzida para a batalha (ISm 1,3; 4,4). Ele patriarcas adoravam a Deus era o El com
aparece frequentemente nos profetas (Is 1­ suas várias palavras qualificadoras: El
39; Jr, Am, Ag, Zc). E difícil a identificação Elion (Gn 14,18); El Olam (Gn 21,33); El
de "exércitos". Os estudiosos propõem os Shaddai (Gn 17,1; —> 9 acima); etc. F. M.
exércitos de Israel, ou "os exércitos do céu" Cross (—> 12 acima) demonstra que estas
(os corpos celestiais ou até mesmo os anjos), palavras qualificadoras não são nomes de
ou "os exércitos do céu e da terra" (o uni­ deuses individuais (i.e., o deus Elion, Sha­
verso criado). O contexto profético do título ddai ou Olam), mas são títulos adjetivais
não aconselha a identificação dos "exérci­ do único Deus El. Quando os patriarcas
tos" com os exércitos de Israel, mas o uso chegaram à terra, eles encontraram os ca-
em ISm o faz, e possivelmente este seja o nanitas adorando o supremo Deus El em
sentido mais antigo. A terceira proposta vários santuários, sob vários títulos. Desse
está mais em harmonia com o uso proféti­ modo, El Elion (Deus Altíssimo) era ado­
co; o título designaria então Iahweh como rado em Jerusalém; El Olam (Deus Eterno)
"senhor da criação". era adorado em Bersabeia; El Berite (Deus
da Aliança) era adorado em Siquém. (Para sua rejeição em outros termos que não os
estes santuários, Instituições, 76:26, 29, filosóficos.
41.). A Bíblia retrata os patriarcas adoran­ Se formularmos e respondermos estas
do El sob estes títulos nos respectivos san­ questões em termos bíblicos, podemos dizer
tuários. Comparando isto ao que dissemos que quer existissem muitos elohim ou não
acerca do "Deus dos Pais", constatamos ("deus", "deuses"; —»7 acima), havia apenas
que os patriarcas não viram qualquer con­ um único Iahweh (veja C. J. Labuschagne,
tradição em combinar a adoração de um The Incomparability of Iahweh in the Old Tes­
Deus que se revelara a eles de um modo tament [Leiden, 1966]). Não importa o que
particular com a adoração de um Deus se entende por "elohim", Iahweh é elohim
universal já conhecido em Canaã. Assim, de um modo pelo qual nenhum outro ser é.
Gn 49,25 coloca "o Deus dos Pais" em pa­ A questão não era se há um único elohim,
ralelismo com El Shaddai. A adoração de mas se há algum elohim como Iahweh. Os
El dos patriarcas acrescentou um aspecto israelitas nunca deram qualquer resposta à
universal não encontrado na adoração do pergunta colocada deste modo exceto um
Deus dos Pais, e, desse modo, tanto o Deus "não" categórico. Observamos, então, que
da natureza (El) quanto o Deus da história em suas fases iniciais o vocabulário israe­
(o Deus de Abraão) exerceram uma função lita não pode expressar adequadamente a
na religião pré-mosaica. Quando o Deus da crença israelita.
história se revelou a Moisés como Iahweh,
ele estava dando continuidade à tradição 18 No primeiro caso, o fato de haver
do Deus dos Padres (Ex 3,15), mas a Bíblia apenas um Iahweh está claro a partir de
não hesita em aplicar a ele as designações seu nome, o qual não pertence a ninguém
de El como Elion, Shaddai e Olam. mais. E claro também a partir de seu rela­
cionamento único com Israel, o qual não é
17 (III) O único Deus. O pensamen­compartilhado com nenhum outro. O re­
to israelita não é discursivo nem especu­ lacionamento é o de eleição e aliança que
lativo. A questão especulativa da existên­ impõe sobre Israel exigências que nenhum
cia de Deus e de sua unicidade não podia outro deus fez a seu povo. A exigência mais
ser considerada no AT, pois os israelitas notável é a de que Israel não deverá adorar
não tinham padrões de pensamento nos nenhum deus além de Iahweh. Este é um
quais questões como esta podiam ser for­ afastamento violento dos padrões de culto
muladas e respondidas. No antigo Orien­ do antigo mundo semítico. Entre os vizi­
te Próximo, a existência de seres divinos nhos de Israel, nenhum deus é concebido
era universalmente aceita sem questio­ como sendo tão inteira e exclusivamente
namento. Quanto à unicidade, em Israel o benfeitor e o juiz de seus adoradores de
não há uma negação clara e inequívoca modo que a reverência a outros deuses seja
da existência de outros deuses além de excluída - o cosmos não é a província de
Iahweh antes de Deuteroisaías, no séc. um único deus. Para os israelitas não há
VI a.C. (Contudo, Dt 32,39 tem a mesma nada que eles possam pedir a qualquer ou­
ênfase de Deuteroisaías, e alguns estu­ tro deus e nada a temer de qualquer outro
diosos datam este cântico de Moisés em deus. Esta não é uma profissão explícita de
um período consideravelmente mais anti­ monoteísmo, mas é tratar os outros deuses
go; —> Deuteronômio, 6:57, vol. I, AT). A como insignificantes.
ausência de tal negação não significa que
os israelitas compartilhassem de algum 19 A proibição de se ter outros deu­
modo mitigado das crenças politeístas ses não implica meramente que Israel é
dos outros povos antigos; antes, eles re­ possessão peculiar de Iahweh da qual ele
jeitavam estas crenças, mas expressavam exclui a ação de concorrentes. Antes, onde
quer que se encontrem os seres humanos desenho em Kuntillat ‘Ajrud no Negueb.).
e a natureza, aí está o domínio de Iahweh. Certamente o AT menciona perversões do
Somente ele cria, e somente ele dirige as culto a Iahweh, mas os estudiosos moder­
operações das forças da natureza - um nos mostram que até mesmo um exemplo
conceito que é peculiarmente importante proeminente como as imagens de bezerros
contra o pano de fundo de antigas deida­ ou touros estabelecidas em Betei e em Dã
des da natureza. A teogonia, o mito da ori­ não implicavam uma representação do pró­
gem dos deuses, encontra-se em todos os prio Iahweh, pois o touro era considerado
demais lugares no antigo Oriente Próximo. um pedestal sobre o qual estava parado o
É altamente importante que os israelitas Iahweh invisível (—>Instituições, 76:53).
não perguntem sobre a origem de Iahweh Um epíteto comum de Iahweh é "o
nem sobre a origem de outros deuses. Per­ Deus vivo"; esta designação está em con­
guntar sobre a origem de Iahweh seria ne­ traste com os outros deuses que são, às
gar que ele é totalmente outro (—» 8 acima), vezes, identificados a suas imagens. O epí­
e perguntar sobre a origem de outros deu­ teto afirma de modo positivo que Iahweh
ses seria admitir sua realidade. possui vida, poder e personalidade: ele
está alerta, atento e reage. Como o Deus
20 A natureza única de Iahweh é de­vivo, ele também é contrastado à humani­
monstrada, além disso, pela proibição de dade mortal - Iahweh dá e sustenta a vida.
imagens. Não sabemos de nenhum outro A partir dessas ideias não foi um passo difí­
deus do antigo Oriente Próximo que não cil afirmar que apenas Iahweh é elohim. Se
era visualmente representado. Suas ima­ os deuses dos outros povos eram ineficazes,
gens eram antropomórficas, exceto no Egi­ eles de fato não eram elohim e, portanto, de
to, onde, por razões obscuras até mesmo modo algum eram realidade - eles eram
para os egípcios, alguns deuses eram repre­ apenas imagens sem vida e manufaturadas.
sentados teriomorficamente (i.e., por ima­ (Veja O. Keel [ed.], Monotheismus im Alten
gens de animais) ou simbolicamente, como Israel und seiner Umwelt [BibB 14; Fribourg,
no extravagante culto a Aton, que usava o 1980]; B. Lang [ed.], Der einzige Gott [München,
disco solar (—» Arqueologia Bíblica, 74:77). 1981]; D. Patrick, The Rendering of God in the
A proibição de representar Iahweh em Old Testament [OBT10; Philadelphia, 1981]; E.
imagens é ainda mais notável em contraste Zenger, Der Gott der Bibel [Stuttgart, 1979].)
com o hábito bíblico de falar de Iahweh em
termos humanos (—» 21 abaixo). A proibição 21 (IV) Antropomorfismo. A atribui­
(Ex 20,4; Dt 5,8) veda a prestação de culto ção de características e comportamento
a qualquer coisa nos céus acima, na terra humanos a seres não humanos (juntamen­
abaixo ou nas águas sob a terra. Isto preten­ te com o antropopatismo - a atribuição de
de ser_uma enumeração abrangente de todo sentimentos humanos) é comum tanto na
o mundo visível, e o mandamento nega que literatura religiosa quanto na profana de
Iahweh se assemelhe a qualquer coisa no todas as culturas. O que faz do antropo­
universo. Ele está acima e além dele e, por morfismo merecedor de atenção especial
isso, não se assemelha a qualquer elohim no AT é a dificuldade de reconciliá-lo com
conhecido dos israelitas. a proibição de imagens e a explícita nega­
A arqueologia ilustra a observância des­ ção de que Iahweh é semelhante a qualquer
se mandamento. Embora se tenham encon­ ser criado. O medo de uma imagem plás­
trado centenas de imagens divinas em sítios tica de Iahweh está em marcante contraste
israelitas, nenhuma que possa ser chamada com a ausência de restrição no emprego de
de imagem de Iahweh foi descoberta. (Mas imagens verbais. Iahweh possui um rosto,
—> Arqueologia bíblica, 74:118, para o de­ olhos, ouvidos, boca, narinas, mãos, pés.
bate acerca da inscrição "Iahweh-Asserá" e Ele fala, ouve, cheira, ri, assobia, golpeia,
escreve, caminha. Sente prazer, alegria, ira, rido com sua esposa. A relação pessoal de
aversão, amor, desgosto, pesar, compaixão Iahweh com Israel exige uma resposta pes­
(veja, p.ex., T. E. Fretheim, The Suffering of soal e não meramente uma postura oficial
God [OBT 14; Philadelphia, 1984]). O AT ou cúltica para com ele. Torna-se quase um
nunca fala de Iahweh sem lhe atribuir traços lugar-comum nos livros proféticos que o
humanos. Raramente há qualquer antropo­ culto sem compromisso pessoal é vão e hi­
morfismo no AT que não tenha paralelo pócrita. A exigência total de Iahweh somente
em outras literaturas semitas antigas, pois pode ser satisfeita com rendição total. Torna­
os deuses de outros povos semitas antigos se possível a comunicação pessoal: Iahweh
eram personificações de forças naturais ou fala a Israel, e Israel pode falar com Iahweh.
realidades sociais a quem se atribuíam ca­ A realidade deste envolvimento na história
racterísticas e comportamentos humanos. de Israel não pode ser colocada em dúvida.
Algumas restrições explícitas colocadas Na oração, a linguagem do AT alcança por
ao antropomorfismo no AT não são encon­ meio do antropomorfismo uma intimidade
tradas tão facilmente em paralelos em ou­ e urgência que dificilmente encontram pa­
tras partes. Quando o AT diz que Iahweh ralelo em algum outro lugar e não pode ser
não é humanamente mutável ou de propó­ alcançadas de qualquer outra forma. Aceita-
sito irresoluto (Nm 23,19), que ele é elohim se o risco de se humanizar a Deus para que
e não homem (Os 11,9), que ele é espírito e se evite o perigo de se pensar nele como uma
não carne, é evidente que os autores esta­ abstração ou uma força impessoal.
vam conscientes de que figuras de lingua­
gem possuem limitações. No contexto do 23 ( V ) P e n s a m e n t o m i t o p o e i c o . As
antigo modo de falar e das crenças religio­ antigas civilizações da Mesopotâmia e do
sas, os antropomorfismos certamente tor­ Egito tinham uma extensa mitologia que foi
naram difícil entender a^transcendência de recuperada em grande medida. A mitologia
Iahweh. Além disso, eles podem ter consti­ de Canaã é parcialmente conhecida desde
tuído um obstáculo ao desenvolvimento de 1929 por meio de documentos da antiga
uma ideia verdadeiramente espiritual de Ugarit, os quais esclarecem muitas das alu­
Deus. Mas é possível um entendimento de sões do AT (M. Coogan, Storiesfrom Ancient
Deus por meio de antropomorfismos que Canaan [Philadelphia, 1978]; P. Craigie,
não podem ser alcançados por meio de um Ugarit and the Old Testament [Grand Rapids,
discurso mais refinado e abstrato. Afinal 1983]). Estudos desses documentos exibi­
de contas, a linguagem humana não pode ram as diferenças entre o pensamento mi­
enunciar a realidade inefável de Deus de tológico de povos antigos e o pensamento
maneira alguma. de Israel; e durante muitos anos um grande
número de estudiosos concordou que o AT
22 Mediante a descrição antropomór­não tinha mitologia. Mas negar toda a mito­
fica, a personalidade de Iahweh, o "Deus logia no AT deixa uma série de passagens
vivo", é constantemente enfatizada. A elei­ sem uma explicação satisfatória. Além dis­
ção de Israel, a formação da aliança e os atos so, recentemente ficou claro que a negação
salvíficos pelos quais Iahweh fez de Israel da mitologia no AT implica uma questioná­
um povo são atos de favor que nascem da vel definição do mito como essencialmente
benevolência pessoal. A lei que é imposta a politeísta e falso.
Israel na aliança é a externalização de uma ( A ) D e f i n i ç ã o d e m i t o . Análises moder­
vontade pessoal vital. A resposta de Iahweh nas da natureza do mito sugerem que ele
ao amor ou à desobediência é uma resposta não é, por definição, politeísta e falso. Mui­
pessoal de amor ou ira. Suas relações com tos mitos expressam um conceito politeísta
Israel podem ser representadas como as ou distorcido essencialmente do universo,
relações do pai com seus filhos ou do ma­ mas esta concepção não é necessariamente
devida ao pensamento mitoiógico em si, as­ é o acontecimento singular localizado no
sim como os erros fiiosóficos ou teoiógicos tempo e no espaço, mas o acontecimento
não são devidos à natureza do pensamento recorrente do eterno Agora, como M. Eliade
fiiosófico e teoiógico. A maioria dos críticos o chamou. O mito apresenta em uma his­
do mito o tem avaiiado em comparação com tória a realidade constante do universo. Ele
os padrões da iógica discursiva e o conside­ não pretende que o símbolo seja a realida­
ram insuficiente; porém, em cuituras sem de, mas ele propõe o símbolo como aquilo
um pensamento discursivo desenvoivido, que proporciona um discernimento de uma
o pensamento mitoiógico é o único modo realidade além do entendimento. O objeti­
peio quai a mente pode abordar certos vo do pensamento mitopoeico é a verdade,
problemas que estão além da experiência não a falsidade; e o fato de que o mito às
sensível. Estes problemas envolvem algu­ vezes exibe abordagens contraditórias à re­
mas das mais importantes perguntas que alidade que ele procura não está em oposi­
se podem fazer: a origem do mundo e da ção à sua busca pela verdade. No mundo
espécie humana; a natureza da deidade; as do pensamento discursivo, as leis do ser e
relações da humanidade com a natureza e do pensamento exigem consistência rigoro­
a deidade; a origem da sociedade e das ins­ sa. O mito admite que a realidade não pode
tituições sociais; a validação final dos prin­ ser apreendida adequadamente e reconhece
cípios morais; o propósito e a direção da a validade de mais de uma via de aborda­
existência humana. Estes problemas tam­ gem. Estas diversas vias podem levar a ex­
bém podem ser abordados pelo raciocínio pressões contraditórias, mas o mito admite
discursivo com seus métodos e princípios contradições com base na suposição de que
próprios. O mito de fato não resolve estes sua solução está além do discernimento que
problemas, mas ele expressa uma atitude ele transmite.
na presença do mistério; é questionável
se o raciocínio discursivo alcança mais do 25 (B) Pensamento mitopoeico no AT.
que isso. Veja Reventlow (Problems 154-67), Há muito foi reconhecido o uso de lingua­
que fala de "uma revolução na avaliação gem e imagens míticas no AT; e desde a
do mito" (155). descoberta da literatura mitológica do an­
tigo Oriente Próximo é possível identificar
24 O mito é definido por E. Cassirer as fontes de muitas alusões mitológicas no
(.Language and Myth [New York, 1946] 8ss.) AT. As alusões seguintes podem ser citadas
como uma forma simbólica de expressão como exemplos, embora nem todas elas
juntamente com a arte, a linguagem e a ci­ sejam igualmente eficazes: a personaliza­
ência. Cada uma dessas produz e postula ção de fenômenos naturais (o sol, SI 19,5-7;
um mundo próprio. O mito é uma intuição a estrela d’alva, Is 14,12ss.; o arco-íris, Gn
e um ato de fé. Ele procura impor forma 9,12ss.); o período escatológico descrito
inteligível às realidades que transcendem como um retorno às condições do período
a experiência. O mito não tenta o parado­ primevo (Is 11,6-9); as histórias etiológicas
xo de conhecer o não conhecível; estas re­ ou histórias compostas para explicar uma
alidades podem ser expressas apenas pela situação existente, p.ex., as histórias da cria­
representação simbólica criada a partir dos ção da mulher da costela do homem (Gn
dados da experiência. O símbolo mais fácil 2,21ss.) e da origem do trabalho humano e
de se empregar e de se compreender é o das dores de parto (Gn 3,16ss.); a união dos
símbolo da atividade pessoal, e no mundo filhos de Elohim com as filhas dos homens
do mito não aparecem causas impessoais. (Gn 6,4); a catástrofe mundial como uma in­
O mito se expressa na narrativa, mas versão da criação e um retorno ao caos (Is
a narrativa não é histórica e não pretende 17,12ss.; 24,19; Jr 4,23); o Iahweh entroniza­
ser histórica. O acontecimento do mito não do (Is 6) e o carro de Iahweh (Ez 1); alguns
aspectos do Dia de Iahweh (J12,10ss.; 3,3ss.); 27 O AT não contém o relato de um
a assembleia dos santos (SI 89,18); Jerusalém do qual surge a criação -
c o n f l it o c ó s m ic o

como a montanha do norte, a montanha da um tema comum na mitologia. Mas são nu­
assembleia (SI 48,3); a imagem da teofania merosas as alusões a uma vitória de Iahweh
(Ex 19; 33,19-23; Jz 5,4; Hb 3; 57 abaixo). sobre o monstro do caos (—>51 abaixo), uma
O emprego poético da imagem extraída da indicação de que a tradição oral provavel­
mitologia não é suficiente em si para esta­ mente continha um relato da criação no
belecer um padrão de pensamento mito­ qual Iahweh foi vitorioso num combate.
poeico; porém, quando estas imagens são Este combate é encontrado tanto nos mitos
vistas em conjunto com outras passagens da Mesopotâmia quanto nos de Canaã, e
do AT, começa a emergir um padrão que talvez tenha sido transferido para Iahweh a
pode ser chamado de mitopoeico. Nestas partir dessas fontes, tornando-se assim um
passagens, a imagem extraída da mitologia exemplo de pensamento mitopoeico trans­
não é mero embelezamento poético, mas é formado pelo caráter de Iahweh. Observou-
empregada num esforço sério para expres­ se acima (—> 24) que uma característica do
sar em palavras uma intuição da realidade pensamento mitopoeico é permitir várias
transcendente. vias diferentes de abordagem; as alusões a
um combate são uma abordagem diferen­
26 Onde o AT toca em problemas quete da criação em relação àquela de Gn 1.
nas outras culturas eram objetos de pen­ E também característico do mito que o
samento mitopoeico, é possível uma com­ "acontecimento" não é um acontecimento
paração entre o tratamento israelita desses histórico contingente, mas uma constan­
problemas e as mitologias de outros povos te na realidade, um eterno Agora; as alu­
antigos. Raramente há uma mitologia sem sões à vitória criadora de Iahweh a tratam
um mito da o r i g e m o u c r i a ç ã o . Desde a des­ como uma realidade presente e duradoura.
coberta do mito mesopotâmico da criação, Se Iahweh relaxasse seu domínio sobre o
Enuma Elish (ANET 60-72), ficou evidente monstro, o mundo recairia no caos.
que Gn 1 exibe a mesma concepção super­
ficial e não científica da estrutura do uni­ 28 A história do d i l ú v i o exibe um ou­
verso visível que o mito mesopotâmico (—» tro exemplo da revisão de um mito estran­
Gênesis 2:2,4, vol. I, AT). As diferenças são geiro. Nenhuma passagem do AT possui
notáveis: O relato israelita nada contém a tantas e tão claras afinidades literárias com
respeito da origem dos deuses ou do confli­ a literatura extrabíblica como a história do
to cósmico entre deuses - elementos que no dilúvio; sua dependência desse mito mais
mito mesopotâmico foram uma parte vital antigo é evidente (ANET 42-44, 93-95; —>
do processo de criação. Nada ficou a não Gênesis, 2:12). O mito mesopotâmico é um
ser um tranquilo ato de criação pela pala­ esforço de encarar o problema das catástro­
vra que torna claro a supremacia sem esfor­ fes naturais, acompanhadas pela destruição
ço da divindade criadora. O relato do AT por acaso. Ele as atribui à ira caprichosa dos
é abertamente polêmico contra o mito me­ deuses, pois a ira divina, como a humana,
sopotâmico, ou melhor, contra a concepção pode ser irracional, e os seres humanos
de criação que está representada no mito nada podem fazer exceto submeterem-se
mesopotâmico, mas ele não substitui o mito ao poder superior. Para os israelitas, esta
por história ou ciência, das quais ele nada era uma concepção errônea da divindade.
tem, nem pelo raciocínio teológico, a menos O erro foi corrigido não mediante a elimi­
que este termo seja usado muito imprecisa­ nação da história, mas mediante sua rees­
mente. O mito mesopotâmico é substituído crita de modo que a ira de Iahweh seja in­
por um outro mito; a diferença está na con­ teligivelmente motivada pela perversidade
cepção da deidade. humana. Os israelitas viam na catástrofe
natural o julgamento justo de Deus sobre Por esta razão, o pensamento mitopoeico
o pecado, e eles expressaram este discerni­ do AT mantém não apenas seu encanto,
mento recontando uma história já existente. mas também sua validade na história da
Isto é pensamento mitopoeico e, novamen­ crença e teologia cristã. A história do pen­
te, o elemento transformador é a concepção samento mostra que, quando o pensamento
de Deus. é demitologizado, ele é proporcionalmente
secularizado. O pensamento mitopoeico vê
29 Não há mito antigo paralelo ao re­ a realidade transcendente como penetran­
lato da origem e queda de Adão e Eva que do o universo visível. A origem da monar­
se encontra em Gn 2-3, mas os detalhes quia era explicada na Mesopotâmia por sua
bíblicos lembram aspectos da mitologia descendência do céu. O pensamento filosó­
antiga. Estes detalhes foram entrelaça­ fico procura uma explicação em processos
dos numa concepção da origem e destino que possam ser submetidos à investigação
humanos que é uma das peças literárias e análise lógicas. Ao expulsar o mito, cor­
mais profundas e criativas em todo o AT. remos o risco de expulsar o divino tam­
Aqui a concepção de Deus é contrabalan­ bém. Nem sempre somos bem sucedidos
çada por uma concepção da humanidade em substituir as intuições do pensamento
que difere de um modo notável da que é mitopoeico pelas intuições de uma ordem
encontrada em outros lugares do antigo superior.
Oriente Próximo. A história descreve, na
forma narrativa, a condição dos seres hu­ 31 Pio XII (Humani Generis, EB 618) re­
manos: sua dignidade e sua queda, sua fletiu uma advertência proferida por mui­
mortalidade, suas relações com Deus e tos exegetas quando-disse que as crenças
com o universo material, responsabilidade do AT não devem ser reduzidas ao nível
moral, a origem e o significado do sexo. E da mitologia de outros povos. E mais exato
notável a polêmica do relato contra o mito falar de pensamento mitopoeico no AT do
e o ritual da fertilidade. O autor usa sím­ que de seus mitos ou mitologia. Fizemos
bolos mitopoeicos como as árvores, a ser­ alusão, nos parágrafos anteriores, ao fator
pente, o jardim e a costela para apresen­ que torna o pensamento mitopoeico israe­
tar estes profundos discernimentos. Um lita singular no antigo Oriente Próximo e
relato paralelo sobre o primeiro homem, é a base última de sua validade, a saber, a
encontrado em Ez 28,12-16 (—» Ezequiel, concepção israelita da realidade de Deus
20:71, vol. I, AT), sugere que esta história - o caráter pessoal de Iahweh. Este discer­
era contada de formas variadas em Israel; nimento da realidade divina era atribuído
e a forma encontrada em Ezequiel, que é pelos próprios israelitas à revelação, a um
inclusive mais rica em imagens mitológi­ encontro pessoal com o Deus que lhes fa­
cas, pode ser um dos elementos a partir lava, seu salvador e juiz. Nenhuma forma
dos quais Gn 2-3 foi composto. de pensamento ou discurso lhes estava
disponível para apresentarem este dis­
30 O pensamento mitopoeico no AT cernimento, exceto aquelas formas que
ou em outra parte não é escolhido delibera­ eram comuns no antigo Oriente Próximo.
damente em preferência ao discurso lógico. A realidade transcendental de Iahweh abre
O mito surge em culturas que não alcança­ caminho através das formas da mitologia
ram o discurso lógico. Mas o mito nunca é como abre caminho através das formas da
inteiramente expulso mesmo em culturas ciência e da metafísica, mas não podemos
avançadas. Ele continua sendo a forma mais rejeitar qualquer uma dessas formas num
apta para a expressão da realidade trans­ esforço para compreender mais firmemen­
cendental, ampla e profunda demais para te uma verdade cuja compreensão sempre
a observação científica e a análise filosófica. nos escapa.
32 (V I) O E s p ír ito d e D e u s . as fontes (Os 13,15) e é um instrumento de
A mesma pa­
(A ) C o n c e it o d e E s p ír it o . seu julgamento (Is 30,27-28).
lavra hebraica serve para significar vento e O sopro de Iahweh é o princípio de
espírito. O vento é o sopro de Deus; é uma vida para todos os seres viventes; eles so­
manifestação sensível da presença e po­ brevivem mediante a comunicação de seu
der divinos. Ele se move rapidamente e de espírito. Este pensamento aparece em di­
modo imprevisível; não podemos predizê- versas passagens (Gn 2,7; 6,17; 7,15; Jó 33,4;
lo nem controlar sua direção ou sua força. Ecl 3,19.21). O sopro de vida é comunica­
Não podemos determinar sua origem ou do por inspiração (Gn 2,7), e o ser vivente
seu destino (Jo 3,8). Ele é sutil, inclina-se morre quando Iahweh retira seu espírito (SI
para o imaterial quanto à sua natureza e é 104,29), o qual então retorna para Iahweh
universal e irresistível quanto ao seu esco­ (Ecl 12,7).
po. Por isso, o vento é um símbolo extrema­
mente apropriado para o divino. 35 (B ) O E s p ír ito n a h is tó r ia d e I s r a e l.
O espírito é mais frequentemente represen­
33 O espírito no AT não é um ser pesso­ tado como um princípio daquelas ativida­
al. Ele é um princípio de ação, não um sujei­ des que afetam o povo de Israel precisa­
to. Ele pertence, a rigor, somente a Iahweh; mente como o povo de Iahweh. No período
é comunicado aos seres vivos, mas nunca dos juizes e do início da monarquia, encon­
se torna parte da estrutura do ser vivo do tramos o espírito como um impulso divino
modo que o ser vivo possua o espírito como misterioso que leva um homem a ações aci­
seu próprio. Diz-se que o espírito reveste ma de sua capacidade conhecida e hábitos
(Jz 6,34; lC r 12,19; 2Cr 24,20), é derrama­ de comportamento - ações de libertação de
do (Is 29,10; 44,3; Ez 39,29; J1 2,28), lança- Israel de seus inimigos (Jz 3,10; 6,34; 11,29;
se sobre (Jz 14,6.19; 15,14; ISm 10,10; 11,6). 13,25; 14,6.19; 15,14, vol. I, AT). Semelhan­
Uma pessoa é repleta com o espírito (Ex temente, Saul é movido pelo espírito para
31,3), ou Iahweh coloca seu espírito numa libertar a cidade de Jabes de Galaad (ISm
pessoa (Is 63,11; Ez 36,27; Nm 11,25.29). O 11,6.13, vol. I, AT). Aqui também o espírito
espírito também pode ser retirado de uma aparece principalmente como um princí­
pessoa (SI 51,13) ou pode partir (ISm 16,14). pio de poder. O movimento do espírito é
Eliseu pediu porção dobrada do espírito de a marca distintiva da pessoa a quem Max
Elias (2Rs 2,9). As expressões usadas nestes Weber chamou de o "líder carismático".
contextos tratam o espírito como uma subs­ Em tempos normais, a frouxa organização
tância sutil ou líquida; elas enfatizam mais das tribos de Israel não precisava de nada
claramente a natureza impessoal do espíri­ mais que o simples governo de anciãos de
to. O poder é a qualidade mais evidente no clãs e aldeias. Quando a paz de Israel era
espírito. ameaçada por inimigos externos, esta lide­
rança não era suficiente e era suplantada
34 O espírito não é mencionado com pelo líder que demonstrasse a possessão do
frequência como uma força criadora. Em espírito pelas ações do espírito. Durante o
Gn 1,2 o vento "paira" sobre as águas do período dos juizes, o espírito do líder caris­
caos; o movimento do vento é o primeiro mático era um fenômeno passageiro: o espí­
sinal da atividade criadora prestes a irrom­ rito vinha sobre os líderes durante a emer­
per. No SI 33,6, a palavra de Iahweh e seu gência, impelia-os a uma missão e partia
sopro são forças criadoras; o poder pelo após a missão ter sido realizada (—» Juizes,
qual Iahweh arremessa uma declaração é o 8:8). O rei, pelo contrário, era um dirigen­
poder sentido no vento. O vento também é te carismático permanente, como expresso
uma força destrutiva; ele é o sopro das na­ pela unção na qual o espírito era conferido
rinas de Iahweh, sua ira (SI 18,16), que seca (ISm 10,10). Quando Davi foi ungido, o
espírito passou de Saul para ele (16,13). desenfreado; esta exaltação era um sinal
Uma vez que se estabeleceu a ideia de que o da atividade do espírito. As referências a
espírito repousava permanentemente sobre discursos proféticos em Nm (dadas acima)
o rei, houve menção menos frequente do ocorrem em contextos de pronunciamentos
espírito nas narrativas acerca do rei; e ações extáticos. Nas histórias de Elias e Eliseu, o
extraordinárias como as dos juizes não fo­ espírito é um agente que transporta o pro­
ram atribuídas aos reis depois de Saul. feta de um lugar para outro (IRs 18,12; 2Rs
2,16) ou um poder que capacita o profeta
36 O espírito que impele à ação pode a realizar milagres (2Rs 2,15). No período
ser um espírito mau "da parte de Iahweh" clássico da profecia, que começa com Amós,
ou "de Elohim" (nunca "de Iahweh"). Um cerca de 750 a.C. - um período em que o
espírito mau causa dissensão em Siquém (Jz profeta fala a palavra de Iahweh (—»45 abai­
9,23), leva Saul a tentar assassinar Davi (ISm xo) - o espírito não é um agente inspirador.
19,9), e Iahweh envia um espírito mentiroso Nos períodos exílico e pós-exílico, o espíri­
para a boca de falsos profetas (IRs 22,23). to aparece como um agente inspirador (Ez
Este uso ilustra a ideia do espírito como 2,2; 3,24; 11,5; Zc 7,12; Ne 9,30). Aqui obser­
um poder divino universalmente penetran­ vamos que Ezequiel, em contraste com os
te. No próprio pensamento muito simples profetas dos séc. VIII e 7VII, frequentemen­
e não sofisticado do antigo Israel, as ações te emprega visões e êxtase como meios de
humana que são inesperadas ou inexplicá­ expressão. Estas são as áreas da atividade
veis são atividade de um poder maior que do espírito.
aquele possuído pelo indivíduo. Este poder
não pode ser atribuído a nenhum outro se­ 38 Como um princípio de atividade, o
não Iahweh, que por seu espírito capacita espírito, moralmente neutro, é manifestado
para ações além da capacidade usual. O es­ numa grande variedade de operações, tanto
pírito em si é moralmente neutro; a respon­ boas quanto más. Há um espírito de menti­
sabilidade moral destas ações está sobre os ra (IRs 22,22), de conhecimento de uma ha­
agentes. bilidade (Ex 31,3), de ciúme (Nm 5,14), de
julgamento (Is 4,4), de confusão (Is 19,14),
37 As operações do espírito na profe­ de sono profundo (Is 29,10), de fornicação
cia são um tanto ambíguas. Amós, Oseias, (Os 4,12), de compaixão e súplica (Zc 12,10),
Isaías e Jeremias não atribuem a profecia um espírito disposto (SI 51,14), um espíri­
ao espírito. (A passagem de Mq 3,8, onde to de príncipes (um espírito arrogante, SI
o profeta fala de si mesmo como cheio do 76,13). É difícil sintetizar usos como estes,
espírito de Iahweh, certamente não é origi­ e parece melhor não procurar consistência
nal a este profeta.). Todavia, o espírito é fre­ perfeita no pensamento e língua hebrai­
quentemente associado à declaração profé­ cos acerca do espírito. O elemento comum
tica na profecia anterior (Nm 11,17.25; 24,2; nestes usos, se algum pode ser encontrado,
ISm 10,10; 19,20-24). parece ser o grau incomum ou extraordi­
A ideia da profecia passou por um no­ nário no qual a habilidade, a fornicação, a
tável desenvolvimento entre o início da confusão, a compaixão e outras coisas são
monarquia e os profetas do séc. VIII (—> exibidas. Comportamento que ultrapassa o
Literatura profética, 11:7-8, vol. I, AT). No normal é, novamente, a área na qual o espí­
período do início da monarquia, os profetas rito se manifesta.
frequentemente estavam em êxtase em vez
de serem oradores inspirados. "Os filhos 39 Na era messiânica (—» 152ss. abai­
dos profetas" parecem ter sido grupos cúl- xo), o espírito irrompe numa nova pleni­
ticos que praticavam uma adoração de cân­ tude. Pessoas "messiânicas" como o rei (Is
ticos e danças, com frequência de um modo 11,1), o servo de Iahweh (42,1) e o profeta
que anuncia a salvação messiânica (61,1) re­ nor - um poder que se manifestava da for­
cebem o espírito; no rei messiânico, as ope­ ma mais clara nas declarações solenes como
rações do espírito demonstram seu caráter bênçãos e maldições, contratos, promessas
messiânico. O espírito é derramado sobre e outros processos que visavam estabilizar
todo o povo (Is 32,15.44,3; Ez 39,29; J13,28); as relações humanas. A palavra do rei era
combinado com um novo coração, o espí­ mais poderosa que a palavra de um cidadão,
rito é um princípio de regeneração moral mas até mesmo um cidadão possuía o temí­
(Ez 36,26). Profetas posteriores atribuem a vel poder de abençoar ou amaldiçoar (sobre
libertação de Israel no êxodo ao espírito (Is dãbãr, "palavra", veja TDOT 3. 84-125).
63,11.14). O israelita individual pode pedir
uma porção do espírito (SI 51,12; 143,10). 41 Na magia, distinta das outras for­
O espírito torna-se um poder para a condu­ mas de falar, o poder reside na palavra em
ta justa. si e não na pessoa; isto está em contraste
Isto pode parecer ser uma convenciona- com a concepção israelita de palavra falada
lização do uso mais antigo, de modo que a (—»42 abaixo). O fator operante nos ritos má­
ideia do espírito é enfraquecida, mas a rege­ gicos é a fórmula rigidamente correta, um
neração messiânica não é concebida como a conjunto combinado de palavras pronun­
realização da moralidade meramente con­ ciadas apropriadamente. Visto que o poder
vencional - é uma revolução na conduta reside na fórmula, esta deve ser mantida
humana. O tremendo desenvolvimento da oculta; todo aquele que conhece a fórmula
ideia de espírito no NT flui facilmente da possui o poder. A concepção mágica do po­
concepção do espírito como o poder vivi­ der da palavra é, na verdade, uma perver­
ficante e energizante de Deus na plenitude são da concepção mais antiga.
messiânica. No NT, todas as linhas do de­
senvolvimento do AT são reunidas na reve­ 42 O conceito de poder da palavra
lação da realidade pessoal do Espírito. provavelmente surgiu, pelo menos em par­
te, da importância dada à fórmula falada
(H eron , A. I. C., The Holy Spirit [Philadelphia, nas culturas que usam pouco a escrita ou
1983]. L ys, D ., "Rüach": Le soufflé dans VAncien nem a usam. Em expressões como bênçãos
Testament [Paris, 1962]. N eve, L ., The Spirit of God
e maldições, promessas, ameaças, desejos,
in the Old Testament [T oky o, 1972].)
ordens e contratos, a palavra possui uma
realidade que persiste no futuro; de fato, o
40 (V II) A p a la v r a de D eu s. efeito da palavra falada pode sobreviver à
(A ) C o n c e ito de No antigo
p a la v r a . pessoa que fala. A palavra postula uma rea­
Oriente Próximo, a palavra falada era con­ lidade, e ela é, em si mesma, a realidade que
cebida como uma entidade distinta carrega­ postula. A realidade existe primeiro no co­
da de poder. Isto era eminentemente verda­ ração ou desejo, então passa para a lingua­
deiro com respeito à palavra divina. Tanto gem e, finalmente, a linguagem eficaz traz
no Egito quanto na Mesopotâmia, a palavra à existência a realidade que ela significa.
divina era uma força criadora que trouxe o O poder da palavra está enraizado no
mundo à existência. Na Mesopotâmia, o de­ poder da pessoa. Ao falar, a pessoa externa-
creto divino que determina os vários desti­ liza a si mesma (G. van der Leeuw) ou libera
nos era o poder que movia e dirigia o curso energia psíquica (J. Pedersen). A permanên­
dos acontecimentos. A palavra divina com­ cia e a energia da volição pessoal alcançam
partilhava do poder e da eternidade dos o mundo externo por meio da palavra fala­
próprios deuses, e o povo não podia resistir da, e a palavra falada conserva estas quali­
a ela ou alterá-la. dades de permanência e energia. O respeito
Semelhantemente, a palavra humana era a esta palavra falada ou até mesmo o medo
um ente dotado de poder, mas num grau me­ dela não são frequentemente encontrados
nas culturas onde as declarações importan­ pecífico do profeta, como tôrâ (lei) é o ca­
tes devem ser registradas por escrito para risma do sacerdote, e conselho o carisma
ter validade. Nestas culturas, é mais prová­ do sábio (Jr 18,18). A palavra profética é
vel o medo de um documento. entendida de forma equivocada se consi­
derada meramente como a experiência de
43 São numerosos os exemplos do po­ ouvir; ela é a recepção de uma realidade po­
der da palavra no AT. No engano de Isaac sitiva dinâmica que surge do poder pessoal
por Jacó (Gn 27) e no engano de Jacó por de Iahweh e compele o profeta a falar (Am
Labão (Gn 29,20-27), um erro concernente à 3,8). A recepção da palavra é comparada ao
pessoa não invalida a palavra falada solene, comer um rolo em Ez 2,9-3,3. A palavra de
pois a palavra mediante sua emissão se tor­ Iahweh é uma alegria e um contentamento
na uma realidade que não pode ser anulada. (Jr 15,16), um fogo devorador encarcerado
Isaac pode dar a Esaú uma outra bênção in­ nos ossos do profeta (20,7-9), uma cólera
ferior, mas não pode cancelar a bênção dada que não pode ser contida (6,11).
por engano a Jacó. Quando a mãe de Micas A palavra profética compartilha do di­
amaldiçoa o ladrão que, sem ela o saber, é namismo do próprio Iahweh; ela é cumpri­
seu próprio filho (Jz 17,1-2), não pode reti­ da ou estabelecida quando a realidade da
rar a maldição, mas pode enviar uma bênção qual ela fala passa a existir. A relação da pa­
após ela que a contrabalance. A decretação lavra profética com o acontecimento é mais
de uma sentença de morte sobre o homem que a relação de predição e cumprimento;
por parte de Davi na parábola de Natã (2Sm a palavra é uma entidade dotada de poder
12,1-18) se dirige sem querer contra ele mes­ que produz a coisa significada pela palavra.
mo; o profeta lhe assegura que ela será des­ A palavra de Iahweh, colocada na boca de
viada, mas cairá sobre o filho de Davi com Jeremias, dá poder ao profeta para arrancar
Betsabeia. A mulher acusada de adultério e para destruir, para exterminar e para de­
deve beber um juramento de execração ao molir, para construir e para plantar (Jr 1,9­
beber a água na qual as palavras escritas de 10); o profeta realiza estas coisas falando
uma maldição foram imersas (Nm 5,12-31); a palavra. A palavra de Iahweh não volta
nada senão a inocência neutralizará os efei­ para ele vazia (Is 45,23; 55,10-11) nem ele
tos fatais da maldição. a deixa de cumprir (31,2). Se ela retornas­
se sem cumprir seu destino, o dinamismo
44 O aspecto dianoético da palavra é pessoal de Iahweh seria frustrado. Esta pa­
correlativo a seu aspecto dinâmico (O. Pro- lavra compartilha da eternidade de Iahweh
cksch), i.e., sua capacidade de tornar as coi­ (40,8); seu dinamismo pode ser retardado,
sas inteligíveis. Esta é a função da palavra mas seu cumprimento é inevitável (9,8).
como nome (—> 6 acima). Conhecer o nome
é experimentar o dinamismo da palavra na 46 A palavra de Iahweh é o agente
direção inversa; como o poder da pessoa operante essencial na história de Israel des­
determina a realidade mediante a outorga de o primeiro ato do processo criador (Gn
do nome, assim o poder da pessoa apreen­ 1,3) até a reconstrução de Jerusalém pelo
de a realidade mediante o conhecimento do decreto de Ciro (Is 44,28). A declaração de
nome. Iahweh realiza o chamado de Abraão e de
Moisés, o êxodo de Israel do Egito, as con­
45 (B) A palavra na história de Isra­ quistas de Josué, o chamado de Samuel, o
el. A concepção do AT de "a palavra de estabelecimento da monarquia, a eleição de
Iahweh" deve ser entendida em relação ao Davi, a divisão do reino, a queda da casa
pano de fundo acima. A maioria das ocor­ de Omri, as invasões dos assírios e dos cal­
rências da "palavra de Iahweh" designa a deus, a queda do reino do Israel e do reino
palavra profética; a palavra é o carisma es­ de Judá.
A palavra de Iahweh também é um Contudo, no antigo Oriente Próximo, não
agente criador (Gn 1; Is 40,26; 48,13; SI há nem mesmo uma palavra que possa ser
33,6.9; 147,15-18). No conceito abrangente traduzida por "natureza". Os fenômenos
do AT, a criação pela palavra é combinada do mundo visível não são considerados
com outras ideias que talvez sejam mais an­ nem como constituindo uma unidade nem
tigas (p.ex., criação por trabalho; —> 54 abai­ como impessoais. A diversidade confli­
xo). Contudo, os críticos modernos conside­ tante das forças naturais é o que primeiro
ram este desenvolvimento como posterior; impressiona o observador não sofisticado;
tanto Deuteroisaías como Gênesis 1 vêm da e, por causa do conflito, o observador fica
literatura exílica e pós-exílica. mais impressionado com a irregularidade
do que com a recorrência dos padrões bá­
47 ( V I I I ) D e u s e a n a t u r e z a . Nossa sicos. As forças da natureza exibem o tipo
ideia sobre a natureza tem um efeito incal­ de imprevisibilidade que associamos ao
culável sobre nossa ideia sobre a divinda­ comportamento humano, e assim são do­
de; porém, até certo ponto, as duas ideias tadas no pensamento pré-filosófico com
deveriam ser independentes. As relações as qualidades da personalidade humana.
da natureza com uma divindade transcen­ Porém, visto que as forças da natureza são
dental que não está incluída no âmbito da tão vastas em poder e escopo, elas são exal­
natureza não dependem da constituição da tadas como pessoas e, assim, tornam-se
natureza. Mas quando se identifica a divin­ deuses. A ordem cósmica é alcançada pelo
dade com a natureza, quer no politeísmo compromisso, pelo equilíbrio oscilante do
mitológico do antigo Oriente Próximo, quer acordo mútuo das muitas vontades podero­
no cientificismo do pensamento moderno, sas, por um recorrente conflito no qual ne­
a divindade recebe a forma da natureza em nhuma força jamais emerge como suprema.
si, e a ideia sobre a deidade consequente­ A ordem cósmica é concebida como política;
mente sofre modificações substanciais. ela é mantida no universo como é mantida
no Estado. Por trás dessa ordem sempre há
48 ( A ) C o n c e i t o d e n a t u r e z a . A ideia o potencial de anarquia que pode reduzir
do AT sobre a natureza tem mais em co­ a natureza ao caos. Se o curso da natureza
mum com as ideias prevalecentes do antigo deve ser mantido em harmonia com nossos
Oriente Próximo do que com a perspectiva objetivos, devemos manter essas forças pes­
científica e filosófica moderna; e a diferença soais favoravelmente dispostas.
frequentemente é um obstáculo para a in­ O conceito resultante de divindade care­
corporação da ideia bíblica das relações de ce de perfeita unidade e é tão fluido como a
Deus e da natureza nos sistemas de pensa­ natureza em si. Os deuses não são simples­
mento modernos. A filosofia e a ciência às mente identificados com as forças e fenô­
vezes ditaram as condições à teologia nesta menos da natureza; e, além dos deuses, há
área. De modo clássico, a natureza é conce­ demônios, quer benévolos quer malévolos,
bida como uma unidade impessoal e objeti­ a quem pertencem muitas áreas menores
va com comportamento regular e previsível dos fenômenos naturais. Os demônios não
governado por "leis". A ideia de natureza são satisfeitos pelo culto, mas pela magia.
como uma unidade apareceu pela primei­ A natureza é vista como mais imprevisível
ra vez como kosmos no pensamento grego, e irracional nas áreas de operações demo­
e os primeiros filósofos gregos dedicaram níacas, mas mesmo nas áreas governadas
muito de seus esforços para formular um pelos deuses nunca se está seguro de que a
princípio sobre a unidade que eles perce­ vontade divina não é arbitrária e capricho­
biam na natureza. Todo o desenvolvimento sa. Finalmente, a ideia da vontade divina
da ciência moderna repousa sobre a convic­ daí resultante de fato não se eleva acima
ção da unidade e regularidade da natureza. do nível da natureza; os deuses não são um
tipo de ser totalmente diferente das pessoas improvável que estivesse completamente
ou dos fenômenos do mundo visível. ausente; outras religiões lidavam com a
criação formal e detalhadamente. A ideia
49 O AT compartilha da antiga con­ tampouco carecia de importância, mas sua
cepção da natureza como diversificada e importância deve ser vista no contexto do
pessoal. Não há no hebraico uma palavra pensamento israelita como um todo e não
para "natureza", e a unidade que o AT vê como um artigo de fé separado. No AT, a
na natureza não é unidade mecânica, mas criação é o começo da história - o primei­
unidade de uma vontade pessoal. Porém ro dos atos salvíficos de Iahweh. Os israe­
os israelitas não atribuem personalidade litas não faziam perguntas sobre a criação
às diferentes forças da natureza, e não há por sua própria causa; a criação e a natu­
deuses separados para corresponderem às reza estão integradas na história da salva­
forças naturais separadas. A realidade di­ ção operada por Iahweh. (Observe que nos
vina pessoal de Iahweh não jaz dentro da "credos" israelitas Iahweh não é proclama­
natureza; Iahweh não é identificado com a do como Deus o criador - como no credo
natureza como um todo nem com qualquer cristão - mas como o Deus que está ativo
uma de suas partes. A ausência de caracte­ na história dos patriarcas [Dt 6,20-25; 26,5­
rísticas e funções sexuais em Iahweh é uma 10; Js 24,2-13].). É neste contexto histórico
ilustração notável da concepção única do que se devem ver as várias abordagens à
Deus do AT. (No pensamento hebraico, o criação. Veja B. W. Anderson [ed.] Creation
gênero masculino é atribuído aos anjos ou in the Olã Testament (IRT 6; Philadelphia,
"filhos de Deus" que são membros da corte 1984); N. Young, Creator, Creation and Faith
celestial - isto reflete a origem distante da (Philadelphia, 1976).
corte celestial como um panteão politeísta
com deuses machos e fêmeas que eram os 51 Criação como combate. Provavelmen­
filhos de um deus supremo. Os anjos fecun­ te a mais antiga abordagem, agora refletida
dam mulheres em Gn 6,2 [cf. ICor 11,10], apenas em algumas alusões do AT, ela re­
e em algumas lendas judaicas eles são cir­ lacionava a criação com um combate entre
cuncidados.). O sexo como a fonte de vida Iahweh e um adversário que representa o
está vitalmente envolvido na mitologia de caos. Na Mesopotâmia, a criação é realiza­
outros povos do antigo Oriente Próximo; e da mediante a vitória de Marduc sobre o
muitos de seus mitos e rituais têm a inten­ monstro Tiamate. Nos mitos cananitas de
ção de comunicar aos adoradores a energia Ugarit, Aleyan Baal se engaja num comba­
sexual dos deuses. Para Israel, Iahweh é a te com um adversário Mot, com um outro
fonte de vida, mas não por meio de proces­ chamado de Mar ou Rio e com um outro
sos sexuais. chamado de Leviatã ou Shalyat de sete ca­
beças. Leviatã aparece no AT (Is 27,1). Um
50 (B) Criação. Não há nada nas cren­ combate como este está refletido no Salmo
ças de outros povos do antigo Oriente Pró­ 74,13-15; 89,10-11; Isaías 27,1; 51,9; Jó 9,13;
ximo que corresponda a Iahweh como cria­ 26,12; 38,8-11. Nenhuma dessas passagens
dor, apesar do fato de o AT exibir vários certamente é antiga, e as alusões são mais
modos de conceber o processo criador. Es­ frequentemente explicadas como imagens
tes modos, sem dúvida, representam dife­ poéticas emprestadas da mitologia estran­
rentes fases de desenvolvimento. Acontece geira. Mas não há razão para supor que esta
que os textos mais explícitos sobre a criação concepção primitiva, tão evidentemente
são exílicos ou posteriores, e vários estudio­ refletida na mitologia de outros povos, não
sos modernos concluem que a ideia da cria­ fosse o mais antigo e o mais ingênuo rela­
ção ou não era importante ou estava ausen­ to da criação em Israel. Com o desenvolvi­
te na crença israelita primitiva. É altamente mento da crença em Iahweh, este relato foi
suprimido em favor de outras explicações item. O relato é estruturado de modo que
mais avançadas até que ele sobreviveu ape­ seja uma contraposição ao mito da criação
nas em alusões poéticas. O sobrevivente mesopotâmico (-4 26 acima). Itens como
exibe uma concepção básica da natureza abismo e corpos celestes, que na Mesopo-
que Israel compartilhava com os outros po­ tâmia foram personificados e deificados,
vos, a concepção de que a ordem cósmica aqui são despersonalizados. Não há nada
não é mecânica. A ordem cósmica é man­ anterior à palavra criadora e, em particular,
tida pelo poder de Iahweh sobre as forças nenhum combate. O conceito do universo
do caos, que ele pode liberar (—> 55 abaixo). material não é alterado, mas as relações do
Veja J. Day, God’s Conflict with the Dragon universo com a deidade criadora são com­
and the Sea (Cambridge, 1985). pletamente diferentes.

52 Criação segundo Gênesis. São nume­ 53 Criação segundo o Sl 104. Este poema
rosas as alusões à criação no AT, mas as da criação mostra certas relações literárias
passagens nas quais o tema é tratado explí­ com o hino de Aton produzido no séc. XIV,
cita e detalhadamente são poucas: Gn 1,1- no Egito, no remado de Aquenaton (ANET
2,4a; SI 104. A história em Gn 2,4b-25 não é 368-71; —>Arqueologia bíblica, 74:77). É di­
um relato da criação no mesmo sentido. Ele fícil determinar se estes relacionamentos
trata da origem humana, ou mais precisa­ surgem da semelhança de assunto ou do
mente da origem dos sexos; e a criação do conhecimento do poeta israelita da obra
mundo material é mencionada apenas por egípcia. De qualquer modo, a concepção
alusão. Gênesis 2,4b-25 (J) é mais antigo que do Sl 104 é totalmente israelita. O tema do­
Gn 1,1-2,4a (P), mas o conceito de criação minante é o cuidado do criador pelos seres
exibido por P é mais antigo que sua pre­ vivos, tanto animais quanto humanos. Os
sente forma literária (—> Gênesis, 2:4, vol. fenômenos naturais são quase inteiramen­
I, AT). Mesmo em Gn 1,1 provavelmente te representados em relação ao sustento da
não estamos lidando com a criação a partir vida. O poema é muito otimista, embora
do nada ou criação no sentido mais estrito, nisto ele não difira substancialmente de ou­
mas com Deus ordenando o caos num uni­ tros relatos da criação. Em todos eles, a obra
verso fixo. A criação a partir do nada não da criação é vista como boa em sua origem,
aparece claramente na Bíblia até o período sem defeito ou qualquer elemento hostil à
grego, quando são correntes as noções filo­ humanidade. Mediante a remoção do tema
sóficas (2Mc 7,28). do combate cósmico, o pensamento israeli­
A estrutura do universo material vista ta remove o dualismo implícito em outros
em Gn 1 e em quase todas as alusões à cria­ relatos da criação.
ção e ao mundo material (veja Jó 38,4-38) é a
estrutura vista também nos relatos da cria­ 54 Através destes poemas e outras
ção mesopotâmicos. O universo existe em alusões à criação passa uma dupla con­
três níveis: céus, terra e abismo subterrâneo cepção do ato criador: criação pela obra e
das águas. A terra é um disco plano que flu­ criação pela palavra. Embora a criação pela
tua sobre as águas, e os céus acima são a obra seja especialmente evidente em passa­
habitação divina. Toda a estrutura repousa gens mais antigas como Gn 2, a criação pela
sobre pilares. Os corpos celestes se movem palavra (—» 46 acima) não é necessariamente
pelo céu; e a chuva, a neve, o granizo e o recente. A criação pela palavra aparece na
vento estão armazenados em câmaras aci­ teologia egípcia de Mênfis, que é situada pe­
ma do céu. A enumeração de oito palavras los egiptólogos em cerca de 2700 a.C., mui­
em Gn l,lss. visa a ser completa; abrange to mais antiga que qualquer documento do
cada item na estrutura assim concebida e AT (ANET 4-6). Tanto a criação pela obra
afirma expressamente que Elohim fez cada quanto a criação pela palavra aparecem
em Gênesis 1. O antropomorfismo ingênuo cem em obediência a seu chamado (Is 40,26;
original (—>21 acima) implicado na criação 45,12; 48,13). Iahweh produz a aurora e as
pela obra é visto em Gn 2, onde Iahweh trevas (Am 4,13; 5,8), mede as águas na con­
"forma" seres humanos e animais - uma cha de sua mão (Is 40,12), dá fôlego e espíri­
palavra usada para designar a obra do olei­ to àqueles que caminham na terra (42,5). Os
ro, que é a imagem pretendida. A mesma atos criadores do SI 104 ocorrem cada dia.
imagem aparece no Egito e na Mesopotâ­
mia. Outras palavras como "construir" ou 56 A contínua atividade criadora de
"fazer" são comuns nas alusões à criação. Iahweh é enfatizada na área da fertilidade. Ha­
Um refinamento é visto no uso da palavra via, por todo o antigo Oriente Próximo, uma
que traduzimos por "criar" (em hebrai­ representação ritual do mito da criação, no
co: bãrã’), que nunca é usada exceto com qual a fertilidade era restaurada anualmen­
Iahweh como seu sujeito; ela se refere ao te por meio da morte e ressurreição do deus
tipo de produção que somente Iahweh é ca­ da fertilidade e sua união com sua consorte.
paz de fazer. Mais refinada ainda é a criação O AT contém vima vigorosa polêmica contra
pela palavra, na qual a ordem é seguida pela esta crença. Iahweh, e não Baal, concede os
execução sem nenhuma ação adicional. As frutos do solo (Os 2,10ss.); ele abençoa a des­
duas concepções encontram-se misturadas cendência de homens e animais e os frutos
na mesma passagem - uma ilustração da do solo (Dt 7,13; Jr 31,12). Ele dá e retém a
multiplicidade do pensamento mitopoeico chuva (Is 30,23; Lv 26,4; Dt 11,13-15; Jr 5,24).
(—>24 acima). Diferente dos deuses da fertilidade, Iahweh
concede as bênçãos da fertilidade sem estar
55 (C) Criação contínua. O relato da ele mesmo envolvido no processo.
criação em Gn 1 sugere que os israelitas pen­
savam na criação como concluída em seis 57 Em algumas concepções, o envolvi­
dias. Em outros relatos, a criação é apresen­ mento de Iahweh na natureza parece mais
tada como um processo contínuo que du­ próximo. O AT vê a natureza como pessoal,
rará enquanto o mundo durar. A vitória de mas não como a atividade de vários seres
Iahweh sobre o monstro do caos é, às ve­ pessoais. O único fenômeno natural com
zes, contada como uma vitória que ocorre o qual Iahweh é mais frequentemente as­
constantemente; diz-se que o monstro está sociado é a tempestade. A poesia do AT na
amarrado ou restrito em vez de morto (SI qual ele é representado como o senhor da
89,10; 104,6-8; Jó 26,12; 38,8-11). Assim, tempestade possui afinidades óbvias com a
Iahweh sustenta e defende o universo mate­ literatura e a arte de outros povos do anti­
rial contra as forças da desintegração; sem o go Oriente Próximo; o número e o colorido
exercício ininterrupto deste poder salvador, vívido das alusões a Iahweh e à tempestade
o mundo recairá no caos. Esta concepção têm persuadido vários estudiosos de que
israelita escapa do dualismo da mitologia Iahweh era originalmente um deus da tem­
cósmica pagã ao negar às forças de desin­ pestade como Adade ou Hadade (SI 29,3-9;
tegração qualquer poder que rivalize com 77,17-21; 107,25-29; Is 30,27.30; Na 1,3.5; Jó
o poder de Iahweh. No dualismo do mito 38,25.35.37). Em geral, esta opinião encon­
cósmico pagão, o equilíbrio entre ordem e tra-se abandonada hoje, mas a conexão en­
caos está tão próximo que é inevitável um tre Iahweh e as tempestades é comum de­
conflito cíclico. mais para ser meramente coincidente.
Semelhantemente, cada manifestação do A apresentação de Iahweh na teofania da
domínio de Iahweh pode ser representada tempestade é notável (SI 18,8-16; 68,8-10;
como uma nova representação de sua vitó­ Hab 3,3-15; Jz 5,4-5; Ex 19,16.19; Ez 1). Os
ria sobre o caos. Os corpos celestes são pos­ elementos das teofanias sugerem não ape­
tos em ordem diariamente por ele e apare­ nas a tempestade, mas também o terremoto
c, possivelmente, a erupção vulcânica. A lançadas sobre o homem e a mulher de Gn
teofania é uma confissão israelita do poder 3,16ss. "Desordem" na natureza não é real­
de Iahweh na natureza, mas este poder não mente desordem, mas uma ordem superior,
é visto como força irracional e cega. Mais a ordem do julgamento justo.
frequentemente Iahweh aparece na teofa­
nia como aquele que salva seu povo de seus 59 A natureza como uma atividade
inimigos. Na teofania do Sinai, Iahweh vem pessoal é um prodígio para os israelitas, e
como o libertador que faz uma aliança com a palavra prodígio aqui é mais equivalente
Israel; seu poder na natureza é uma garan­ a mistério que a milagre. Até anos recentes,
tia de seu poder e vontade de salvar Israel. apologetas tinham elaborado um conceito
Segundo os desenvolvimentos bíblicos pos­ de milagre que pressupunha um sistema fe­
teriores (—» 60 abaixo), o poder de Iahweh na chado de natureza governada por leis fixas.
natureza também é manifestado como um Este conceito de milagre não é encontrado
poder de julgamento, um ato de sua von­ no AT devido à falta de sua pressuposição
tade moral que afeta todos os malfeitores, (—»Pensamento do NT, 81:93). A criação em
sejam eles israelitas ou não. si é tão enfaticamente um prodígio quanto
qualquer fenômeno extraordinário na natu­
58 Na crença israelita, a imprevisibili-reza (Jó 4,8-10; 9,5-10; 26,5-14; 36,26-37,18;
dade da natureza (—» 48 acima) é modificada 38,1-41,26). Quando os acontecimentos
pela concepção de uma ordem na natureza, do êxodo ou de outras ações salvíficas de
uma ordem fundamentada na sabedoria de Iahweh são chamados de prodígios, o ele­
Iahweh. Sendo sábio, Iahweh não é capri­ mento do prodígio não reside precisamente
choso, e a natureza não é fundamentalmen­ na obra de Iahweh na natureza, que é sem­
te irracional. São numerosas as alusões à sa­ pre maravilhosa, mas antes em sua vontade
bedoria de Iahweh na natureza (Pr 3,19; Is salvadora. Este é o supremo prodígio - tan­
28,23-29); suas relações com a natureza são to mistério quanto milagre - da fé e história
chamadas de aliança (Os 2,18; Jó 5,23). Vá­ israelitas. Estão integrados nesta vontade
rios poemas exaltam a sabedoria de Iahweh salvadora todos os fenômenos da natureza
na criação (Pr 8,22ss.; Sl 104). Jó 38-39 vê a e os acontecimentos da história (—» 113ss.
sabedoria de Iahweh na produção de para­ abaixo).
doxos na natureza; sua inteligência diretiva
sustenta a ordem e a harmonia entre agen­ 60 A suprema manifestação do poder
tes diversos e conflitantes. A natureza tor­ de Iahweh na natureza é escatológica (—>
na-se confiável segundo a confiabilidade 167 abaixo). A natureza como o instrumento
da vontade moral de Iahweh; sua ordem é a de julgamento encontra expressão na ex­
ordem da retidão. pectativa do Dia de Iahweh, i.e., o encontro
Por isso, quando a natureza se manifesta cataclísmico de Iahweh com os poderes do
em desastre, isto não é ocorrência do acaso; mal (—> 137 abaixo). O julgamento aniquila-
a natureza é a arma da ira de Iahweh (Am dor de Iahweh reduzirá a terra ao caos pri­
4,7; J1 2,1-11; Jr 5,24; Os 8,7; 9,14; 99-102 mitivo que ela era antes da ação criadora (Jr
abaixo). A língua e o pensamento hebraicos 4,23-26). A estrutura da terra e do céu e seus
não fazem distinção entre o mal "físico" e pilares de sustentação tremerão (Is 13,3.10;
"moral"; inevitavelmente o mal moral do 24,3.19.23; J1 3,3; Am 8,8; 9,5). No passado,
pecado tem repercussões cósmicas na na­ o dilúvio foi um retorno ao caos, segundo a
tureza porque Iahweh retira suas bênçãos e versão P (Gn 7,11).
emprega a natureza como executora de seus O caos escatológico é a condição ne­
julgamentos. Este é o pensamento expresso cessária para uma nova criação (Is 65,17).
no AT que reescreve o mito mesopotâmi- O deserto hostil será transformado e regado
co do dilúvio (—> 28 acima) e nas maldições (Is 32,15; 35,lss.; 41,18-20). A fertilidade da
terra, o dom de Iahweh, será garantida em remoção da ira de Iahweh e a concessão de
superabundância (Ez 36,6-12; J1 4,18; Am suas bênçãos sem restrição devem condu­
9,13). A alternância das estações, a indicação zir a uma nova criação - um testemunho da
anual da incerteza da natureza, e até mes­ retidão e poder de Iahweh exigido por sua
mo a alternância do dia e da noite cessarão santidade. Iahweh é o supremo senhor da
(Zc 14,6). A luta pela vida no mundo animal natureza, e seu poder deve ser demonstra­
terminará (Is 11,6-9). A escatologia israeli­ do na salvação e bênção assim como é de­
ta exige este alvo e final para a natureza. A monstrado no julgamento.

ISRAEL - POVO DE DEUS NA ALIANÇA

61 (I) Natureza humana. O AT não pos­ 63 O relato P da criação (Gn 1) é mais


sui uma psicologia consistente. Sua lingua­ explícito ao afirmar a dignidade humana.
gem e vocabulário dizem respeito a ações O ser humano é feito à imagem e semelhan­
humanas, e os componentes da natureza hu­ ça de Elohim (Gn 1,26-27). É controverso
mana são completamente populares e difíceis o significado preciso desta expressão, mas
de traduzir em termos modernos. A palavra aparentemente a imagem e semelhança di­
hebraica usual para "homem" ("humanida­ vinas estão associadas ao domínio humano
de" no sentido moderno) como uma espécie sobre os animais inferiores (1,28-30). O do­
( adãm) é um exemplo; ela não designa uma mínio sobre a criação é apropriado a Deus;
espécie, mas um grupo, e um membro indivi­ correspondentemente, a concessão de do­
dual do grupo se distingue por ser chamado mínio aos seres humanos os eleva acima
de "filho" ou "filha" do homem. O grupo é das criaturas inferiores e implica a posse
visto como lima realidade existente em vez de qualidades divinas não compartilhadas
de uma essência abstrata; e assim os israelitas pelos animais. O Salmo 8 faz do ser huma­
não exigiam nem enunciavam uma definição no ("filho do homem") "pouco menos do
da essência metafísica humana. Eles estavam que um deus", coroado de glória e honra,
mais preocupados com as relações do gru­ e dotado para governar todas as criaturas
po coletivo com a deidade e com o mundo viventes inferiores.
no qual o grupo vive do que estavam com a
constituição interior da espécie. 64 A imagem de Elohim constitui o
mistério ou paradoxo humano; este eminen­
62 O AT está profundamente ciente te domínio é combinado com um elemento
do paradoxal e do misterioso na nature­ de fraqueza geralmente chamado de "carne"
za humana, como é evidente no relato } da (.bãsãr). Carne é a condição humana natural;
criação (Gn 2). Os seres humanos são feitos ela é oposta a espírito, o elemento associa­
de barro e são, portanto, mortais e fracos, do a Deus (Is 31,3; —» 33 acima). O AT nem
mas o barro é vitalizado pelo espírito dado sempre distingue claramente a fraqueza e
por Iahweh (—» 34 acima). A dignidade hu­ a mortalidade físicas da fraqueza moral; a
mana, contudo, não repousa apenas na co­ associação entre as duas é mais pressuposta
municação do espírito, que é o princípio da que conscientemente elaborada. Em Gn 3, a
vida animal também. Superior aos animais perda de domínio da humanidade sobre a
e, portanto, capaz de dar-lhes nomes, o ser natureza e da perspectiva de imortalidade
humano não encontra um ajudador ou as­ é o resultado do fracasso moral. No AT, a
sociado adequado entre eles. As relações carne ainda não é a sede da concupiscência
pessoais humanas são com Iahweh que cria ou das tendências terrenamente orientadas
um jardim no qual os primeiros seres hu­ que ela vem a ser nos escritos paulinos (—>
manos habitam. Teologia paulina, 82:103), nem a "carne" é
sempre usada num sentido pejorativo. Mas Em nenhum desses exemplos, tomados
carne é o que os seres humanos têm em co­ isoladamente ou juntos, há algo semelhante
mum com os animais; ela é instável e pere­ à "alm a" do grego e do pensamento moder­
cível. no. Esta diferença tem importantes corolá­
rios na ideia bíblica de sobrevivência após
65 Segundo Gn 2, a criação humana a morte (—> 170 abaixo). O uso da palavra
ocorre em dois sexos. Isto não é explicita­ nefesh mostra que o do pensamento do AT
mente considerado em qualquer mitologia não chega a fazer qualquer análise real dos
do antigo Oriente Próximo, onde os sexos princípios da natureza humana. Ela é vista
são pressupostos como um princípio pri­ como uma totalidade que existe, e as pala­
mário no mundo divino, exatamente como vras que se referem a alguma coisa, exceto
no mundo criado. Em contraste com estas às partes da anatomia, designam de algum
mitologias (assim como com os padrões modo a totalidade da vida consciente. De
de pensamento refletidos em quase todo o fato, até mesmo quando partes específicas
AT), lemos em Gn 2,18-25 que a mulher é o da anatomia, como os lombos, as entranhas,
objeto de um ato criador distinto, o único o olho, a mão ou o coração são o sujeito e a
ser vivente que é um parceiro e companhei­ sede dos atos vitais, a pessoa toda é identi­
ro adequado para o varão. A varoa tem a ficada com o órgão, no qual a soma da ener­
mesma dignidade do varão e, portanto, não gia psíquica se concentra.
é uma espécie humilhada ou sub-humana.
(K öh ler, L ., Hebrew Man [Nash, 1 9 5 6 ] . M ork,
66 Apesar do uso de palavras como W ., The Biblical Meaning ofMan [Milwaukee, 1 9 6 7 ].
carne, espírito e alma, o AT concebia o ser Também artigos no TDOT sobre os respectivos
humano como uma unidade e não como termos hebraicos; e as obras sobre antropologia
de L an g , R ogerson e W o lf f [—»1 acima].)
uma composição de princípios diferentes.
H. Wheeler Robinson observou numa afir­
mação clássica que os gregos pensavam em (sl ( I I ) C o m u n i d a d e h u m a n a . As re­
um espírito encarnado e os israelitas pen­ lações do indivíduo com o grupo social no
savam em um corpo animado. A língua he­ AT, como no restante do mundo antigo, são
braica não distingue uma sede de operações notavelmente diferentes dessas relações no
intelectuais; estas estão localizadas no cora­ mundo moderno. As diferenças têm pro­
ção - no hebraico, o coração é o órgão do vocado extensas discussões entre os estu­
pensamento em vez do sentimento. O hebr. diosos, mas não um consenso. A discussão
nefesh (nepes) geralmente é traduzido erro­ frequentemente é colocada dentro da estru­
neamente por "alm a" - que introduz uma tura de uma antítese entre o coletivismo e
ideia que é estranha ao AT. De fato, o uso o individualismo: diz-se que o Israel antigo
da palavra nefesh é muito fluida para permi­ exibe um coletivismo exagerado, e o Isra­
tir qualquer síntese. Quando Iahweh sopra el posterior um individualismo exagerado.
o espírito, o ser humano torna-se uma nefesh Esta é uma estrutura de referência impró­
vivente (Gn 2,7). "Pessoa" ou "eu" pode ser pria. O coletivismo e o individualismo são
o significado básico, se não o primitivo, da ideias modernas (com nuanças emocionais
palavra. Diz-se, às vezes, que o sangue é a complicadoras) que não possuem corres­
sede da nefesh; nestes casos, a nefesh não é o pondentes no pensamento israelita.
eu ou a pessoa, mas antes a vida, que é der­
ramada com o sangue. A nefesh é frequen­ 68 São de dois tipos os grupos sociais
temente associada aos processos psíquicos encontrados no AT: grupos de parentesco
de desejo, e nestes contextos a palavra pode real ou fictício, que incluem a família, o clã
ser traduzida muitas vezes por "vontade" e a tribo; e grupos políticos, que incluem
ou "apetite". a aldeia, a cidade e o reino. O grupo de
parentesco é concebido e expresso como suas personalidades e experiências pessoais
"uma carne" em vez de como "um san­ exibem aqueles traços que eram considera­
gue"; a diferença parece insignificante, mas dos peculiares aos israelitas e prenunciam
é relevante quando o grupo é considerado as aventuras do grupo que descendeu de­
uma única pessoa (—> 69 abaixo). A unida­ les. Jacó em relação a Esaú e a Labão cla­
de da aldeia e da cidade assemelha-se mais ramente reflete Israel em relação a Edom e
à unidade de parentesco que a unidade aos arameus. A relação de aliança de Isra­
política; estas comunidades antigas eram el com Iahweh é retrojetada numa aliança
pequenas o suficiente e geralmente, como de Abraão com Iahweh na qual Abraão é
nas aldeias modernas do Oriente Próximo, o parceiro ideal de aliança (—> 78 abaixo).
tinham tal rede de interrelacionamentos en­ A aquisição da terra de Canaã, realizada
tre as famílias que a analogia do parentesco antes da monarquia, é iniciada nas ações de
era facilmente aplicada. Veja R. R. Wilson, Abraão, Isaac e Jacó.
Sociological Approaches to the Old Testament O rei também é uma personalidade cor­
(Philadelphia, 1984) 40-53. porativa ou coletiva assim; aqui os padrões
A única sociedade política genuína no AT de pensamento israelita não diferem subs­
é a monarquia; aqui o princípio da unidade é tancialmente das ideias de outros povos do
a pessoa do rei, que incorpora em si mesmo o antigo Oriente Próximo. Nas relações de
povo a quem ele governa. Tanto na socieda­ Israel com Iahweh, contudo, a posição do
de política quanto no grupo de parentesco, rei israelita não corresponde à posição que
a unidade é basicamente pessoal, repousan­ os reis egípcio, mesopotâmico e cananita
do no pai, no patriarca ou no rei. A unidade tinham no culto. A diferença jaz na supe­
do grupo é tanto horizontal quanto vertical: rioridade transcendental de Iahweh; o rei
horizontalmente ela se estende a todos os está tão sujeito a Iahweh como qualquer
membros de uma geração contemporânea, e outro israelita. O rei israelita não pode ser
verticalmente ela se estende por todas as ge­ uma manifestação visível da majestade de
rações. Ainda que centenas de anos separem Iahweh, pois isto seria representar Iahweh
os profetas de Moisés, eles frequentemente mediante uma imagem (—> 20 acima). O rei
se dirigem à sua própria geração como aque­ é uma pessoa carismática (—» 35 acima), mas
les a quem Iahweh trouxe do Egito, guiou não mais. Com estas reservas, o rei incorpo­
pelo deserto e deu a terra de Canaã. "Israel" ra em si a_sina e o destino de Israel.
é uma realidade contínua, contemporânea
a todos os acontecimentos de seu passado e 70 A personalidade corporativa ou
sujeita a todas as responsabilidades que esta coletiva, sintetizada desse modo no líder,
história coloca sobre ela. pode ser concebida à parte do líder. Como
o grupo é uma personalidade única, a his­
69 A personificação de um grupo é tória da rebelião de Israel, desde seu come­
universal na linguagem humana e não esta­ ço até o presente, pode ser repassada por
beleceria por si mesma qualquer distinção Ez 20 - os pecados dos pais são visitados
no pensamento israelita. Contudo, há um nos filhos (20,5). Amós fala a seus contem­
elemento distintivo na personificação isra­ porâneos como à família que Iahweh tirou
elita. H. W. Robinson (Corporate Personality do Egito (Am 3,1). A geração de Jeremias é
in Ancient Israel [1931; reimpr. Philadelphia, a noiva infiel de Iahweh (Jr 2,2). Oseias vê
1984]) o explica assim: A personalidade em seus contemporâneos o desvio de Jacó,
corporativa ou coletiva é fluida; ela pode seu ancestral epônimo (Os 12,2-4), o filho
designar a pessoa individual ou o grupo, que se desenvolveu em um adulto ingrato
mas de tal modo que um sempre se refere (11,1-7). O grupo deve responder pelo que
ao outro. Isto é ilustrado nos relatos sobre é historicamente, deve responder mesmo
os patriarcas de Gênesis. Os patriarcas em como indivíduo; ninguém pode escapar
completamente do passado, exceto por mediante ampla participação, pelo menos
uma completa inversão do caráter. Seme­ das pessoas representativas, como os cabe­
lhantemente, o futuro messiânico de Israel ças das famílias e clãs. Setenta dos anciãos
é o futuro de Israel como um grupo e não de Israel ratificam a aliança de Israel com
como pessoas individuais. Iahweh (Ex 24). "O povo" aceita uma alian­
ça para servir a Iahweh imposta por Josué
71 A necessidade de segurança foi um (Js 24). Gedeão trata com setenta e sete an­
fator importante na determinação da rela­ ciãos de Sucot (Jz 8). Nos vários relatos da
ção do indivíduo com o grupo. No mundo instituição da monarquia (ISm 8-10), a ini­
antigo, uma vez que alguém ia além dos ciativa parte do povo. Os anciãos de Israel
limites da aldeia ou da cidade, ele entrava aceitam Davi como rei (2Sm 5,lss.).
num deserto sem lei. Mesmo sob a monar­ T. Jacobsen mostrou que, na antiga Me-
quia israelita não se podia garantir seguran­ sopotâmia, o governo do Estado era condu­
ça perfeita fora dos limites dos povoados. zido por uma assembleia de anciãos e uma
A monarquia sancionou leis e organizou a assembleia popular; a esta estrutura ele deu
defesa contra inimigos externos, mas não o nome de "Democracia Primitiva" (JNES 2
podia policiar o território eficazmente. [1943] 166ss.; reforçado por G. Evans, JAOS
O indivíduo que não tinha afiliações grupais 78 [1958] lss.). Não temos evidências de
estava indefeso e desamparado. A defesa da que a soberania popular era formalizada
vida, da integridade e da propriedade do por instituições em Israel, mas muitos de­
indivíduo era a responsabilidade do grupo talhes sugerem que havia amplos canais de
de parentesco, que por meio do costume da expressão da vontade popular. Esta carac­
vingança de morte ameaçava eficazmente terística da sociedade israelita nos adverte
retaliar qualquer ataque a seus membros. para não falarmos com demasiada facilida­
O preço que a pessoa individual paga­ de da oposição entre coletivismo e indivi­
va pela segurança era a completa integra­ dualismo em Israel. Os indivíduos expres­
ção no grupo e a completa aceitação de savam-se mediante o grupo e prontamente
seus costumes e decisões. A solidariedade aceitavam as decisões que eles tinham aju­
que sustentava a defesa contra a agressão dado a formular.
externa não deixava lugar para desvios in­
dividuais. Assim como o grupo protegia o 73 As atividades religiosas eram tão
indivíduo até mesmo correndo risco (visto determinadas pela sociedade como o eram
que uma ameaça a qualquer membro indi­ quaisquer outras atividades. Não encon­
vidual era uma ameaça ao grupo como um tramos no mundo semita antigo algum
todo), assim ele podia exigir do membro exemplo claro de um grupo puramente re­
total dedicação. Um modo de vida como ligioso que não seja também um grupo so­
este não deixava lugar para algo parecido cial; a posição de Israel é única aqui, mas
com o ideal moderno de desenvolvimento Israel não é meramente um grupo religioso.
pessoal individual ou carreira pessoal; de E com este pano de fundo em mente que
fato, não deixava lugar nem mesmo para a devemos considerar os problemas levanta­
privacidade. É preciso entender que poucas dos por Jr 31,29-35 e por Ez 18 juntamen­
pessoas, se é que havia alguma, sentiam-se te com 33,1-20. Não se conhecia nenhuma
oprimidas ou privadas neste modo de vida. relação individual com a divindade, exceto
A vida humana era simplesmente a vida do a relação de membro de um grupo cultu­
grupo, e nenhum outro modo de vida era al idêntico ao grupo social. O colapso da
concebível ou desejável. sociedade política israelita na época de Je­
remias e Ezequiel não deixou qualquer re­
72 Há indicações no AT de que deci­ lacionamento do israelita individual com
sões importantes do grupo eram obtidas Iahweh. No mundo antigo, um deus sem
um povo simplesmente desaparecia. Jere­ na o caráter do relacionamento pais-filhos,
mias e Ezequiel não foram exatamente os fica evidente que mesmo aqui é à comuni­
criadores da religião pessoal, como muitos dade de pessoas livremente associadas que
estudiosos os chamam, embora não se pos­ ela se refere. Iahweh nunca é chamado de
sa negar que eles tenham feito declarações progenitor físico de Israel; ele "gera" Isra­
acerca da responsabilidade pessoal que não el mediante a formação de um povo para
encontram paralelo na literatura anterior si mesmo. As atitudes que aparecem na
do AT. Antes, a ênfase de suas afirmações analogia pai-filho são as atitudes pessoais
é uma garantia de que Iahweh não deixou de amor, dedicação e obediência, e não as
de existir e que Israel ainda é seu povo. A fé relações de parentesco carnal. A filiação de
no poder duradouro de Iahweh também é Israel é adotiva, não natural.
fé no ressurgimento de Israel de sua queda. A analogia do casamento mostra as rela­
Na ausência do grupo religioso e social tra­ ções pessoais ainda mais claramente e re­
dicional em colapso, os indivíduos devem alça em particular a iniciativa de Iahweh,
agora ter consciência de que se defrontarão visto que no casamento antigo era sempre o
com exigências pessoais que não eram fei­ homem que escolhia sua esposa. Em Os e Jr,
tas ao indivíduo na sociedade organizada a analogia matrimonial é apresentada com
sob a monarquia. Uma religião puramente ênfase na relação de amor; a fidelidade de
individual, contudo, não está na mente de Israel é uma obra de amor, e a infidelidade
Jeremias ou de Ezequiel (—» Jeremias, 18:88; de Israel é uma ofensa pessoal a Iahweh.
—» Ezequiel, 20:51-52, vol. I, AT). A analogia do pastor e rebanho é menos
comum e não apresenta tão explicitamente
74 (III) A A l i a n ç a . O relacionamento o relacionamento pessoal mútuo. Mas um
de Iahweh com Israel é único nas religiões pastor está comprometido com um rebanho
do mundo antigo. Em outras religiões anti­ mediante uma dedicação à qual correspon­
gas, a deidade é identificada com a nature­ de a confiança das ovelhas. Esta analogia
za (—>47-48 acima) ou com a sociedade que mostra Iahweh como o protetor de Israel.
adora a divindade. A relação é, portanto, A analogia do parente também aparece.
em certo sentido natural, visto que na men­ Iahweh é chamado de o "vingador" de Isra­
te dos povos antigos tanto a natureza físi­ el ("redentor" em muitas versões inglesas).
ca quanto a sociedade humana são dados Este título alude ao costume da vingança
primários com os quais o ser humano está de morte, pelo qual o parente mais próximo
essencialmente envolvido. Por outro lado, é obrigado, a qualquer risco, a defender a
a relação de Iahweh com Israel é, como o vida, pessoa ou propriedade de seu parente
universo criado, o resultado de uma ação e a punir qualquer agressor. Nesta analogia,
positiva de Iahweh; e a relação de Iahweh Iahweh age não apenas como o protetor e a
com Israel é completada por uma respos­ segurança de Israel, mas também como um
ta positiva de Israel. A relação não é um parente (gõ ’êl). Aqui novamente não se deve
dado componente necessário da existência enfatizar a sugestão de um relacionamento
humana, mas uma comunidade de pessoas natural, visto que a obrigação do vingador
livremente instituída. é assumida livremente por Iahweh.
A analogia do rei e súdito não é frequen­
75 (A ) A n a lo g ia s p a r a e x p r e s s a r o r e ­ temente explícita, mas se reflete no título
d e D e u s c o m I s r a e l . O AT
la c io n a m e n to divino "Senhor" (—> 10 acima) e está im­
usa diversas analogias para designar este plícita na analogia da aliança. O relaciona­
relacionamento. A analogia pai-filho pode mento rei-súdito traz menos da intimidade
parecer ser primeiramente um relaciona­ tão óbvia nas analogias de pai-filho e de
mento natural; porém, quando ela é vista esposo-esposa, mas deve ser concebida nos
no contexto de outras analogias e se exami­ padrões do antigo Egito e Mesopotâmia ou
da realeza mais recente. Teoricamente, o rei vavelmente é uma retrojeção dos padrões
israelita podia ser abordado por qualquer da crença israelita posterior na história de
um de seus súditos, e alguns episódios na Abraão. (Veja R. E. Clements, Abraham and
vida de Davi e Saul sugerem que esta era David [SBT ns 5; Londres, 1967].). A aliança
a prática nos primeiros dias da monarquia. com Noé na tradição P é obviamente uma
Onde se atribui o título de rei a Iahweh, ele dessas retrojeções. Mesmo a aliança mo­
enfatiza seu poder e vontade para salvar (—» saica está tão pesadamente recoberta de
140-41 abaixo). material posterior que uma reconstrução
histórica do curso dos acontecimentos está
76 A maioria dos escritores modernos além das presentes possibilidades. O relato
toma a analogia da aliança como a chave básico, encontrado em Ex 19-24, é compila­
básica para as outras. A aliança era, origi­ do de diversas fontes que não podem ser
nalmente, um acordo verbal numa cultura analisadas claramente; o relato em Ex 33,
que não mantinha registros escritos. Acor­ agora editado de tal maneira que se tornou
dos e obrigações mútuos eram solenemen­ uma renovação da aliança, provavelmente
te professos na presença de testemunhas e é um relato paralelo. Deuteronômio 4-5 de­
com juramentos imprecatórios e ritos sacri­ pende de Ex 19-24. A aliança mediada por
ficiais. A fidelidade era assegurada menos Josué (Js 24) exige tratamento especial; —>
pela memória das testemunhas (que foram 80 abaixo.
substituídas por instrumentos escritos) do
que pela ameaça de vingança pela deidade 79 G. E. Mendenhall sustentou que a
invocada como testemunha e pela crença aliança israelita segue a forma do tratado
no poder da palavra falada (—>40 acima). de suserania do final do segundo milênio
a.C. (BA 17 [1954] 49-76). Esta fórmula de
77 (B) Formasrde aliança. As alianças tratado é conhecida principalmente por
abrangem todas as transações sociais no meio dos tratados hititas, mas é a fórmula
AT. Elas nem sempre são estritamente bi­ que geralmente era empregada nas rela­
laterais, pois o mais forte pode impor uma ções internacionais do período. O tratado
aliança sobre o mais fraco. Uma aliança de suserania é diferente do tratado de pa­
resolve uma disputa sobre um poço (Gn ridade, o qual é feito entre poderes iguais,
21,32; 26,38) e a rixa de Jacó e Labão (31,44); pois o tratado de suserania é imposto a um
uma aliança marca um pacto de Abraão e vassalo por um senhor e não é bilateral.
seus vizinhos (14,13) e o pacto de Gabaon e O vassalo é obrigado pelo tratado; o senhor
Israel (Js 9,15); uma aliança marca o acordo não está estritamente obrigado mediante as
de Abner e Davi que põe fim à guerra civil e promessas que ele faz.
assegura a submissão de Israel a Davi (2Sm Mendenhall adotou a análise de V. Korosec
3,12-19). de seis elementos no tratado de suserania:
(1) O preâmbulo identifica o senhor e apre­
78 A aliança de Iahweh com Israel do­ senta sua genealogia e títulos. (2) O prólo­
mina os últimos quatro livros do Pentateu- go histórico apresenta as relações anterio­
co e ocorre novamente nos livros históricos. res entre as duas partes e é principalmente
As tradições concernentes à aliança são obs­ uma exposição dos benefícios conferidos ao
curas e complexas, mas a ligação de Moisés vassalo pelo senhor; usa-se a forma de dis­
com o estabelecimento da aliança encontra- curso "eu-tu". (3) As estipulações impostas
se tão profundamente inserida nas diversas ao vassalo: proibição de outras relações
tradições que não se pode removê-lo (—» estrangeiras, manutenção da paz e condi­
História, 75:48). A existência de uma aliança ções existentes entre os vassalos, assistên­
entre Iahweh e Abraão (as tradições E e P) cia militar a ser fornecida ao senhor, plena
é menos claramente indicada e muito pro­ confiança nele, negação de asilo a fugitivos
do senhor, comparecimento anual perante ção de que os tabletes de pedra do Decálo­
ele. (4) Providenciar o depósito do tratado go foram preservados na Arca da Aliança
no templo e leitura pública periódica. (5) corresponde à preservação do tratado no
Lista de deuses que testemunham o trata­ santuário (IRs 8,9; —> Instituições, 76:34).
do. (6) Maldições e bênçãos pela violação Não se encontra de modo explícito a dispo­
ou cumprimento do tratado. Mendenhall sição da leitura regular da aliança, mas ela
acrescentou: (7) Juramento de obediência é pressuposta pela maioria dos estudiosos
por parte do vassalo. (8) Cerimônia solene modernos mesmo sem referência à fórmula
de juramento. (9) Medidas contra o vassalo do tratado; p.ex., Alt (A E O T 162-64) sugeriu
rebelde. que a cerimônia de Dt 27 representa um ato
regular, não um acontecimento único. As
80 Mendenhall encontrou um paralelo bênçãos e maldições aparecem em Lv 26 e
muito próximo da forma de tratado apenas Dt 27-28.
em Js 24 na literatura do AT existente, o
qual contém uma fórmula introdutória, um 81 (C) Aliança e história de Israel. A ali­
prólogo histórico na forma de discurso "eu­ ança é iniciada por Iahweh mediante um
tu", a estipulação da renúncia a outros deu­ ato que é frequentemente chamado de elei­
ses, uma referência ao próprio povo como ção, especialmente em Dt. Israel é o povo
testemunha e uma provisão para a escrita de Iahweh por meio da escolha de Iahweh.
e depósito da aliança no santuário - estão Os atos salvíficos de Iahweh - a libertação
ausentes as maldições e as bênçãos. (Para do povo do Egito e a dádiva da terra de Ca-
esta aliança em Siquém, veja J. L’Hour, RB naã - estabelecem Israel como um povo e
69 [1962] 5-36; 161-84, 350-68.). Os elemen­ lhe concedem a identidade e a estabilidade
tos da fórmula do tratado, contudo, encon­ que a palavra "povo" significa. A eleição
tram-se dispersos entre as narrativas da realizada por Iahweh é um ato de amor (Dt
aliança do Pentateuco. A enumeração dos 4,37ss.; 7,6ss.) e não se deve à grandeza ou
títulos de Iahweh é ilustrada em Ex 34,6. É aos méritos de Israel (7,7; 9,4ss.). A eleição
comum a exposição dos atos salvadores de de Israel impõe-lhe a responsabilidade de
Iahweh (Ex 19,4; 20,2; Js 24,2-13); de fato, reconhecer somente Iahweh como Deus
toda a composição do Pentateuco coloca (4,39) e de guardar seus mandamentos
as leis de Israel num marco narrativo que (4,40; 7,9ss.; 10,16ss.). A fórmula do tratado
relata a libertação de Israel por Iahweh. As apresenta de modo mais claro o fato de que
estipulações no texto existente são as pró­ a eleição de Israel é uma eleição para res­
prias leis, e as estipulações originais não ponsabilidade e obrigação, não meramente
são facilmente determinadas. Elas incluí­ para uma posição de privilégio. O AT não
am a proibição de adorar outros deuses e, concebe a eleição como um ato de favori­
muito provavelmente, a proibição do culto tismo. (P. D. Hanson, The People Called [San
de imagens. Além disso, muito provavel­ Francisco, 1986].)
mente o próprio Decálogo deve ser enten­
dido como a estipulação original (para a 82 Estudos recentes mostram que a
relação da aliança com a lei, —> 88 abaixo). aliança era o princípio da unidade de Is­
As relações entre os vassalos são paralelas rael como um povo. Está claro que o Isra­
às relações das tribos israelitas entre si; e as el do período dos juizes e da monarquia
exortações à confiança em Iahweh corres­ incluía diversos grupos de várias origens,
pondem à obrigação de confiar no senhor. a maioria dos quais não tinha participado
O comparecimento anual diante do senhor da experiência do êxodo e da colonização
está previsto nas três grandes festas anuais (—> Arqueologia bíblica, 74:79-88; —> His­
que consistiam de uma peregrinação a um tória, 75:55-58). Estes se uniram ao grupo
santuário de Iahweh (—» 91 abaixo). A tradi­ original de Israel por meio da aceitação da
aliança de Iahweh com Israel. As tradições ideia de privilégio e segurança: pensava-se
dos atos salvíficos de Iahweh se tornaram erroneamente que Iahweh tinha uma obri­
as tradições de todo o grupo; e as obriga­ gação com Israel, independentemente do
ções da aliança, em particular a obrigação que Israel viesse a fazer. Como um corre­
de adorar apenas Iahweh, se tornaram tivo, Amós (3,2) fez do "conhecimento" (=
normativas. Israel era primeiramente uma eleição) de Israel uma razão por que Iahweh
unidade religiosa e não uma unidade étni­ puniria Israel.
ca. O relato da aliança de Js 24 foi interpre­
tado por M. Noth como descrição de uma 84 Mendenhall sugeriu uma outra ra­
cerimônia na qual estes diversos grupos se zão pela qual os profetas não podiam usar
comprometeram em observar a aliança. Ele a ideia. No Reino de Judá, a aliança de Isra­
relacionou o agrupamento resultante em el tinha sido basicamente suplantada pela
Israel à anfictionia da Grécia clássica: uma aliança de Iahweh com a casa de Davi (—»
liga de cidades ou tribos organizadas a fim 155 abaixo). Obviamente, os israelitas sepa­
de manter e defender um santuário central ratistas do norte não se sentiram culpados
comum. Muitos estudiosos reagem contra pela violação da aliança davídica, mas mes­
esta terminologia e interpretação (—> His­ mo em Judá a aliança com Davi tornou-se
tória, 75:58), mas com isso subestimam as uma garantia para a dinastia de Davi em
semelhanças muito genuínas entre as duas vez de para o povo de Israel. Iahweh não ti­
situações. Na interpretação de Israel por nha assumido tal compromisso nas antigas
Noth, as tribos eram vassalas de Iahweh e tradições; e os profetas evitaram a palavra
tinham de manter a paz umas com as ou­ aliança para que a realidade de Israel não
tras; elas não podiam formar aliança com fosse condicionada à sobrevivência da di­
outros povos ou com outros deuses. Mas nastia de Davi.
antes da monarquia não havia um governo
central; os assuntos tribais e locais estavam 85 A palavra aliança reaparece com
nas mãos de autoridades tribais e locais, e a Jeremias; e isto ocorreu provavelmente por
unificação política sob a monarquia resul­ causa da ênfase na aliança em Dt, o qual
tou de necessidades políticas, não da teo­ deve ser colocado no mesmo período (—>
logia da aliança. Na verdade, para buscar Jeremias, 18:7, vol. I, AT). A aliança em Dt
sustentação, a monarquia teve de criar uma é concebida como uma fonte de obrigação e
nova teologia. de bênção condicionada à sua observância.
Iahweh não é mais do que fiel à sua aliança
83 Quando se considera a evidente ese ele pune Israel pela violação. O próprio
fundamental importância da ideia de alian­ Jeremias concebe o futuro de Israel em ter­
ça na história e crença israelitas primitivas, mos de uma nova aliança (31,31-34; —> 146
é surpreendente que a palavra raramente abaixo). A novidade desta aliança jaz no rela­
ocorra nos escritos dos profetas clássicos do cionamento pessoal que ela estabelece entre
séc. VIII (Amós, Oseias, Isaías e Miqueias). Iahweh e o israelita individual; exatamente
Esta raridade não indica qualquer mudança como Israel era o povo de Iahweh, assim
substancial na ideia das relações de Iahweh o indivíduo está relacionado a Iahweh (—>
e Israel; estes profetas enfatizaram os temas 73 acima). Quanto ao tema da ação judicial
básicos da teologia da aliança - a soberania profética, —>Jeremias, 18:15, vol. I, AT.
de Iahweh, seus atos salvíficos, a posição Na tradição P do Pentateuco, a aliança
única de Israel como o povo de Iahweh e torna-se idêntica à lei. O sinal externo da
suas obrigações únicas para com ele. Vários aliança é a circuncisão. Toda a história dos
estudiosos sugeriram plausivelmente que atos salvíficos de Iahweh é apresentada em
os profetas não usaram a palavra porque na P como uma série de alianças que remon­
mente popular ela se pervertera numa falsa tam até Noé.
(B altzer , K ., The Covenant Formulary in the de Santidade é principalmente religioso, e
Old Testament [Philadelphia, 1971]. Buis, P., La a Coleção Sacerdotal é principalmente ceri­
notion d ’Alliance dans VAncien Testament [LD 88; monial.
Paris, 1976], H illers, D. R., Treaty-Curses and the
Old Testament Prophets [BibOr 16; Rome, 1964].
87 A lt (AEOT 103-71) distinguiu duas
K alluveettil, P., Declaration and Covenant [AnBib
88; Rome, 1982]. M c C arthy, D. J., Old Testament
formulações principais da lei israelita: (1) As
Covenant [A tlanta, 1972]; Treaty and Covenant leis casuísticas (os "decretos" ou julga­
(ed. rev.; AnBib 21 A ; Rome, 1978], M c C omiskey, mentos, as mispatim, as leis "se" [condicio­
T. E., The Covenants of Promise: A Theology of nais]), onde a oração condicional anuncia
Old Testament Covenants [Grand Rapids, 1985]. o caso, usualmente uma questão civil, e a
M endenhall, G., The Tenth Generation [Baltimore, apódose diz como lidar com ele. As leis ca­
1973]. N icholson, E., God and His People [Oxford, suísticas são comuns no Livro da Aliança
1986]. R iemann, P., IDBSup 192-97. W einfeld, M ., (p.ex., Ex 21,2-6) e em Dt. Estas leis, muito
IDBSup 188-92.)
semelhantemente à Lei Comum inglesa,
refletem decisões legais prévias que esta­
86 (IV ) A lia n ç a e le i. beleceram um precedente. Este estilo de
O Pen­
(A ) C ó d ig o s e fo r m u la ç õ e s d e le is . lei casuística se encontra na jurisprudência
tateuco, de Ex até Dt, contém grandes cole­ do antigo Oriente Próximo, e sem dúvida
ções ou coletâneas de leis. Os críticos reco­ muitas leis casuísticas faziam parte da he­
nhecem agora que estas leis provêm de di­ rança israelita vinda das civilizações cir­
versas origens e datas; poucas delas podem cunvizinhas.
ser atribuídas ao próprio Moisés. E possível (2) As leis apodíticas. São de dois tipos:
distinguir várias coleções avulsas. As cole­ (a) Os estatutos (huqtjim) que estabelecem
ções são frequentemente chamadas de códi­ penalidades, frequentemente a pena de
gos, mas a palavra é imprecisa. As coleções morte (Ex 21,12.15-17), p.ex., "Quem ferir
não são codificadas no sentido usual do ter­ a outro e causar a sua morte, será morto".
mo; nenhuma das coleções, ou todas toma­ As maldições sobre os malfeitores também
das juntas, constitui um corpo completo de se enquadram neste agrupamento. Estas
lei israelita. leis também podem se originar de antigas
O Decálogo, dado em Ex 20,1-17 e Dt decisões sobre casos, mas sobre casos fun­
5,6-21, e representando as estipulações bá­ damentais numa sociedade simples. Da
sicas da aliança de Iahweh com Israel, não forma como se encontram expressas ago­
está incluído nestas coleções (—> Êxodo, ra, elas equivalem a declarações básicas de
3:34), embora ele dê tom e espírito a todas moralidade e são tratadas como éditos de
as coleções subsequentes. A mais antiga autoridade divina, (b) Os imperativos ou
das coleções, possivelmente antedatan­ mandamentos (miswôt), que podem ser po­
do a monarquia, é o Livro da Aliança (Ex sitivos ou negativos. Estes são geralmente
20,22-23,19; —» Êxodo, 3:34-44). O Livro da formulados na segunda pessoa do singular
Lei deuteronômico contém um restabeleci­ ("Tu [não] deverás...") e não apresentam
mento parenético da lei (Dt 12-26; —» Deu­ uma penalidade específica (Lv 18,7-17).
teronômio, 6:6). O Código de Santidade de Diferentemente das leis casuísticas, elas
Lv 17-26 é geralmente considerado anterior lidam principalmente com questões reli­
ao exílio (—» Levítico, 4:35). Todas as outras giosas e obrigam todos indiferentemente
leis são agrupadas sob a designação de Co­ das circunstâncias individuais. O Decálogo
leção Sacerdotal, que é exílica ou posterior, consiste de imperativos apodíticos, princi­
mas um grande número de leis individuais palmente proibitivos, e assim é enquadra­
devem ser anteriores ao exílio (—» Pentateu­ do sob esta última classificação, embora a
co, 1:6-7). Nenhuma coleção contém exclu­ Bíblia designe o Decálogo como "palavras"
sivamente leis civis e criminais; o Código e não como "mandamentos".
Visto que a lei apodítica é moral e religio­ lações da aliança. O modo de vida israelita,
sa e considera-se que a pessoa que profere o achava-se, necessitava da definição e preci­
imperativo é a divindade, pensa-se que esta são que apenas um código escrito poderia
formulação é a que mais apropriadamente dar. Os profetas ecoados em Dt falaram do
é chamada de "lei da aliança". E, de fato, os imperativo moral da vontade de Iahweh e
paralelos no Oriente Próximo dos imperati­ de certos abusos flagrantes, mas eles não de­
vos apodíticos não estão em códigos de lei, senvolveram prescrições legais que remove­
mas precisamente em alianças. Os tratados riam incertezas na interpretação da vontade
hititas mencionados acima (—> 79) declara­ de Iahweh. O código de Dt, embora não um
vam as estipulações para o vassalo na for­ corpo completo de leis, apresenta as prescri­
ma "Tu não deverás..." É exatamente este ções legais consideradas vitais para a pre­
paralelismo que dispôs alguns estudiosos a servação da aliança e de Israel. (H. J. Boeker,
aceitarem o Decálogo como as estipulações Law and the Administration of Justice in the Old
originais da aliança entre Deus e Israel. Testament [Minneapolis, 1980].)
(Veja F.-L. Hossfeld, Der Dekalog [0130 45;
Fribourg, 1982].) 89 Após o exílio, a comunidade judai­
ca de Jerusalém fez de si mesma um povo da
88 (B) Leis da aliança. O uso da pala­ lei. Não se pode determinar precisamente o
vra "lei" para as estipulações originais da conteúdo da lei que Esdras promulgou (—»
aliança é um tanto enganoso. O Decálo­ Crônicas, 23:95, vol. I, AT; —>Canonicidade,
go, por exemplo, não é lei no sentido usu­ 66:24), mas novamente o conteúdo é menos
al, quer no antigo Oriente Próximo quer importante que o espírito no qual a lei foi
na sociedade moderna; o Decálogo é uma declarada e aceita. O judaísmo pós-exílico
base da lei. A estipulação original da alian­ aceitou a lei do Pentateuco como uma co­
ça é primordialmente a vontade moral de dificação completa da vontade moral re­
Iahweh revelada, que é o guardião da or­ velada de Iahweh e desenvolveu uma lei
dem moral e também seu autor e expositor. oral para interpretar detalhadamente a lei
Na comunidade da aliança, a vontade do escrita e para protegê-la contra a violação
Deus da aliança é a suprema autoridade à (—> Apócrifos, 67:134). Assim, a comunida­
qual cada autoridade humana está subordi­ de pensou que o relacionamento da aliança
nada. A vontade moral de Iahweh nas esti­ estava assegurado. O desenvolvimento não
pulações da aliança estabelece um modo de foi completamente saudável, e em partes do
vida distintivamente israelita, sancionado NT se delineia nitidamente o problema en­
por maldição e bênção. tre a lei e o evangelho (—>Teologia paulina,
A ampliação e interpretação da von­ 82:89-100).
tade moral revelada de Iahweh levaram à
incorporação do corpo das leis israelitas 90 (V) Aliança e culto. Em cada re­
na aliança. Considera-se que toda lei con­ ligião, o culto é um encontro da comuni­
tribuía para a definição do modo de vida dade com a divindade e uma profissão de
israelita imposto pela vontade revelada de fé. Este significado não é sempre eviden­
Iahweh. Este desenvolvimento não pode te para aqueles que se engajam no culto;
ser identificado antes de Dt, mas isto não o simbolismo cúltico frequentemente se
prova que fosse original em Dt. Neste livro torna tão arcaico que poucos daqueles que
do séc. VII a.C., houve um esforço patente participam entendem seu significado, e o
para organizar a vida israelita com base na ritual degenera em mera rotina ou algo
lei da aliança precisamente como tal. A lei pior. No luxuriante ritual da Coleção Sa­
de Dt foi uma medida reformista planejada cerdotal, o culto israelita exibe alguns as­
para evitar a ameaça à segurança israelita pectos de degeneração; mas não era assim
oferecida pelas habituais e difundidas vio­ desde o início, e o culto deveria ser julgado
com base em seus aspectos menos atrati­ da lei (—» Instituições, 76:132). Se esta é uma
vos. Para o culto, como para a lei, a alian­ interpretação genuinamente antiga da festa,
ça é o artigo de fé que confere significado ainda não temos informação bíblica sobre a
básico. maneira como este tema era celebrado. Alu­
Nosso conhecimento do antigo Oriente sões dispersas na AT levaram vários dos es­
Próximo mostra que muitos detalhes do tudiosos recentes a postular algum tipo de
culto israelita não são peculiares a Israel. festa da aliança que incluía uma recitação
Os elementos básicos do culto são o mito e dos termos da aliança e uma garantia pú­
o ritual. Por mito se quer dizer a recitação blica por parte de Israel de sua fidelidade
do acontecimento salvífico, e por ritual, sua à aliança. Estas reconstruções não são ge­
representação simbólica. A sociedade esta­ ralmente aceitas, mas o princípio por trás
belece e mantém a comunhão com a deida­ delas parece sólido; e é provavelmente por
de mediante estes dois elementos do culto. puro acaso que nenhum relato da festa da
Esta recitação e representação aparecem no aliança tenha sido preservado.
culto israelita com uma diferença essen­ Vários estudiosos associam a festa da
cial: o acontecimento salvífico que é reci­ aliança à festa do ano novo (—>Instituições,
tado não é o acontecimento mitológico na 76:139-46). A festa do ano novo na Mesopo-
natureza, mas os atos salvíficos de Iahweh tâmia era uma representação da criação rea­
na história (—> 31 acima), a saber, as ações lizada novamente a cada ano com o retorno
pelas quais ele libertou Israel do Egito e o do ciclo da fertilidade. Israel não aceita este
estabeleceu como o povo de sua aliança na culto da fertilidade, o qual não pode ser in­
terra prometida. Na recitação, Iahweh reve­ corporado no culto de Iahweh. Quando Is­
la-se mais uma vez como o Deus de Israel. rael celebra as festas agrícolas, ele reconhe­
Aparentemente as narrativas do Pentateuco ce na fertilidade o poder criador e a bênção
tiveram muito de sua origem nestas recita­ de Iahweh. O poder e a vontade salvadores
ções rituais. de Iahweh, exibidos na história de Israel,
são também exibidos na generosidade da
91 As principais festas do calendá­ terra. Mediante os frutos do solo, Iahweh
rio israelita - Páscoa, Pães Ázimos, Sema­ cumpre a promessa de bênção da aliança; e
nas e Tabernáculos - têm tanto relevância mediante a ação de graças a ele, Israel atesta
agrícola quanto histórica; elas são festas da sua própria fidelidade à aliança, uma fideli­
colheita, mas também comemoram aconte­ dade que é aprovada pela bênção de Deus.
cimentos na história de Israel. As festas is­ A fertilidade da natureza é incorporada na
raelitas não são as puras festas da natureza vontade moral de Iahweh (—» 56 acima). Em
que se encontram em outras religiões do seus aspectos básicos, então, o culto israe­
antigo Oriente Próximo. Em sua relevância lita cumpre a descrição de culto como um
histórica, elas são representações dos atos encontro da comunidade com a deidade e
salvíficos de Iahweh, e mediante sua cele­ uma profissão de fé. Mais que qualquer ou­
bração o poder e a vontade salvadores de tro elemento da religião israelita, ele comu­
Iahweh são experimentados novamente (—> nicava ao povo a íntima consciência da pre­
Instituições, 76:122-38). sença e atividade de Iahweh como o Deus
de Israel mediante sua aliança.
92 Os estudiosos durante muito tem­
po consideraram misterioso o fato de que 93 ( V I ) R e t i d ã o . Alguns atributos mo­
o calendário de festas israelitas do AT não rais de Iahweh estão intimamente ligados à
contenha nenhuma festa que seja própria e aliança. Aqui nos encontramos na área do
formalmente uma festa da aliança. No juda­ antropomorfismo (—> 21-22 acima), mas há
ísmo do séc. I d.C., a festa das Semanas era uma distinção clara entre as qualidades em
celebrada como o aniversário da revelação Iahweh e as mesmas qualidades nos seres
humanos. Quanto à moralidade, como em os "atos retos" de Iahweh são suas ações
tudo mais, Iahweh é totalmente diferente. salvadoras em prol de Israel. O juiz e se­
"Reto" ou "justo" e "retidão" ou "justi­ nhor que defende Israel de seus inimigos,
ça" são as traduções comuns em português Iahweh é chamado de reto porque ele está
das palavras sedeq e sêdãqâ, as quais podem ao lado de Israel. Obviamente, esta concep­
ser traduzidas em qualquer língua mo­ ção está longe de qualquer ideia abstrata de
derna apenas com dificuldade. Uma outra justiça. Retidão é basicamente um atributo
tradução como "justo" e "justiça" é inade­ salvador, aparentemente com frequência
quada, mas não simplesmente por causa sinônimo de salvação. O desenvolvimento
da conotação jurídica ou forense (de fato, para uma concepção mais objetiva vem com
muito frequentemente sêdãqâ é atributo de a compreensão de que a retidão que defen­
Iahweh ou de uma pessoa humana como de o reto contra o perverso pode tomar a
juiz). Antes, "justo" e "justiça" pressupõem direção inversa se o próprio Israel não for
toda uma ordem jurídica que não existe no reto.
pensamento israelita. Não há a ideia abstra­ Retidão, concebida como um atributo
ta de justiça no pensamento israelita. puramente pactuai está, portanto, sujeita a
"Reto" descreve aquele que é declarado certas limitações. O AT se aproxima mais
judicialmente inocente ou que possui uma de uma ideia abstrata e universal de justi­
reivindicação judicialmente justificada. Este ça quando Israel percebe que a retidão de
provavelmente seja o significado primário Iahweh está enraizada na própria realidade
a partir do qual derivam outros usos da pa­ divina. Iahweh não pode agir iniquamente;
lavra: um peso reto (Lv 19,36, um peso pre­ se ele pudesse, não haveria retidão genuí­
ciso); sacrifícios retos (Dt 33,19, sacrifícios na. A medida da retidão, portanto, não está
segundo as corretas prescrições rituais); simplesmente na aliança e suas estipula­
caminhos retos (SI 23,3, caminhos que con­ ções, mas nas ações de Iahweh. Não há re­
duzem na direção reta). Uma pessoa é reta tidão que não seja criada e mantida por ele.
não apenas por meio de um veredicto judi­ Sua retidão não é medida pelos padrões hu­
cial, mas também porque a pessoa possui manos, mas os padrões humanos são medi­
uma reivindicação justa ou é inocente. Um dos por ele.
juiz reto é um juiz que concede o veredicto
ao litigante reto. No uso antigo, a palavra 95 ( V I I ) A m o r p a c t u a i . A palavra
é empregada num sentido extremamente hebraica hesed traz problemas ainda mais
simples e não sofisticado; a reivindicação sérios para os tradutores da Bíblia do que
reta é simplesmente minha reivindicação, e a palavra sedeq, "reto". A tradução tradi­
o juiz reto é o juiz que publica um veredic­cional como "misericórdia" remonta às Bí­
to a meu favor. Este pano de fundo forense blias grega e latina. "Bondade amorosa" é
da palavra não implica que a retidão seja um esforço melhor, mas ainda inadequado.
meramente uma denominação exterior; a A expressão um tanto desajeitada "amor
realidade da inocência pessoal ou uma rei­ pactuai", sugerida por N. Glueck e adota­
vindicação pessoal está presente, mas ela da aqui, coloca na tradução em si os temas
não pode ser uma realidade eficaz até que dominantes implícitos no uso da palavra.
seja juridicamente reconhecida. (Veja L. Ep-A tradução é imperfeita ao deixar de indi­
sztein, La justice sociale dans le Proche-Orient
car que hesed não é apenas o amor exibido
Ancien et le Peuple de la Bible [Paris, 1983].)
em virtude da aliança, mas também o ato
da vontade que dá inicio a aliança. Em seu
94 A ideia de retidão não pode ser uso comum, hesed inclui amor familiar bem
transferida para Iahweh sem dificuldade. como amor pactuai.
Parece que o uso mais antigo do termo Hesed é uma parte normal das boas rela­
ocorre no Cântico de Débora (Jz 5,11), onde ções humanas, mas tem seu lugar próprio
entre os membros de um grupo, mesmo casamento de Iahweh e Israel com sensi­
que a associação seja tão temporária quan­ bilidade extraordinariamente profunda.
to a relação de hospedeiro e hóspede. Hesed Hesed está associado com mais frequência à
é uma bondade que está acima e além dos aliança. Ele é fruto da própria aliança (Ex
deveres mínimos impostos pela associação, 20,6; 34,6), e de fato a formação da aliança
mas a manutenção das boas relações huma­ é um ato de amor pactuai (Is 55,3). Quebrar
nas exige que as pessoas vão além dos de­ a aliança é razão suficiente para Iahweh re­
veres mínimos. tirar seu amor pactuai, mas isto estaria em
desacordo com seu caráter. Seu amor pac­
96 O significado de amor pactuai é en­ tuai é mais duradouro que a boa vontade
tendido de modo mais claro por meio das humana, e é um atributo que perdoa bem
palavras com as quais ele mais frequente­ como um atributo benevolente ao qual Israel
mente está associado. Ele se une com fre­ pode apelar quando pecar contra a aliança
quência a "fidelidade" Cèmet ou ’èmünâ), o (Ex 34,6; Nm 14,19; Jr 3,12).
atributo pelo qual Iahweh cumpre sua alian­
ça e suas promessas (Ex 34,6; cf. Jo 1,14). De 98 O amor pactuai é mais amplo que
fato, as duas palavras estão intimamente a própria aliança. Ele é o ato da vontade de
unidas no par de substantivos "amor pac­ Iahweh que começa e continua a história de
tuai constante" (hesed we ’èmet). Amor está Israel (Is 54,10; 63,7; Jr 31,3; Mq 7,20). Na
ligado também a julgamento (—» 136 abaixo); verdade, toda a história do encontro de Is­
amor pactuai no juiz é sua prontidão em rael com Iahweh - e esta é a história de Isra­
salvar. Amor pactuai, fidelidade, julgamen­ el - pode ser resumida como um único ato
to e retidão são os atributos do governante de amor pactuai. No AT, este atributo é o
ideal (Is 16,5); juntos eles designam a von­ motivo dominante dos atos de Iahweh; ele
tade de salvar. Amor pactuai também está oferece unicidade de propósito e inteligibi­
frequentemente associado com "salvação". lidade última a seus procedimentos, que in­
cluem ira e julgamento. Mais que qualquer
97 Amor pactuai é um complexo emo­ outro atributo, este amor é o atributo que dá
cional. Iahweh o exibe a Israel, sua noiva identidade pessoal a Iahweh; é a chave para
(Jr 2,2), e o mostrará novamente quando entender seu caráter. (K. Sakenfeld, The
restaurar Israel após sua queda (Jr 31,2; Os Meaning of hesed in the Hebrew Bible [HSM
2,21). O antropopatismo implícito na pala­ 17; Missoula, 1978]; Faithfulness in Action
vra é exibido mais claramente por Oseias [Philadelphia, 1985]. Também L. Morris,
e Jeremias, que empregam a analogia do Testaments ofLove [Grand Rapids, 1981].)

ASPECTOS DAS RELAÇÕES ENTRE DEUS E ISRAEL

99 (I) Ira. De todos os antropopatismos não sentiram nossa dificuldade em conceber


aplicados a Deus, a ira talvez seja a mais a ira em Deus; a ira de Iahweh é mencionada
difícil de compreender com simpatia. Mas mais vezes do que a ira humana.
a ira é uma emoção tão humana quanto o
amor, e cada uma é um modo humano de 100 Até certo ponto a ideia de ira divi­
conceber e falar da divindade. Cada emoção na era parte da herança cultural de Israel
indica uma realidade que não deve ser omi­ a partir do antigo Oriente Próximo. Onde
tida em qualquer tentativa de se descrever a natureza era mitologicamente entendida
as relações de Deus com os seres humanos, como a área de personagens diversos e con­
juntamente com a natureza divina da qual flitantes (—>27, 51 acima), a catástrofe natu­
essas relações surgem. Os escritores do AT ral era facilmente entendida como o efeito
da ira divina. Os povos da antiga Mesopo­ nidade, orgulho humano e recusa em obe­
tâmia eram incapazes de conceber a ira di­ decer a suas leis. Outras nações também são
vina sem um elemento de capricho: a moti­ os objetos de sua ira por causa de seu orgu­
vação escapava ao entendimento humano, lho e arrogância, particularmente quando
e na verdade a ira divina era frequentemen­ elas atacam Israel; estes ataques são uma
te considerada irracional e sem motivo. negação implícita do poder de Iahweh de
Esta ideia de ira divina é rejeitada pela proteger seu povo. Certos crimes hediondos
crença israelita; a ira de Iahweh sempre está também suscitam sua ira, como os crimes
associada à sua retidão, seus julgamentos, que precederam o dilúvio e a destruição de
sua santidade, sua aliança. Há uma cone­ Sodoma e Gomorra.
xão direta entre a ira de Iahweh e o peca­
do; se a conexão não é percebida, ela deve 1 0 2 Em contraste com os exemplos eti­
ser presumida como existindo. Os israelitas camente motivados da ira de Iahweh encon­
estão prontos a admitir que a ira divina, tram-se outros exemplos que se aproximam
como a sabedoria divina, é mais profunda do irracional. Para o israelita, estas irrup­
que a ira humana e é trazida à tona onde ções são suscitadas pelas ofensas contra a
a ira humana não seria. Se isto acontece, o santidade de Iahweh, a própria essência
reto julgamento de Iahweh deve ser aceito. de sua divindade, que é insondável. Estes
Há um outro elemento, indicado por W. Ei­ são os ataques de Iahweh contra Jacó (Gn
chrodt, que exerce um papel em moderar o 32,23ss.) e Moisés (Ex 4,24ss.), a ira exercida
medo israelita da ira de Iahweh - a compre­ por causa de uma demasiada aproximação
ensão de que a ira não é a atitude habitu­ a Iahweh ou por causa da visão de sua face
al de Iahweh. Habitualmente Iahweh está (Ex 19,9-25; 33,20; Jz 13,22; Is 6,5) ou pelo
inclinado a mostrar amor pactuai, e sua ira contato com objetos sagrados (ISm 6,19;
é um evento excepcional. A ira de Iahweh 2Sm 6,7). A ira de Iahweh está velada no
dura apenas um momento; seu amor pactu­ mistério de sua santidade e não pode ser
ai dura para sempre (SI 30,6). submetida à avaliação humana; ela nunca é
injusta, mas às vezes é ininteligível.
101 A ira ocupa no AT o lugar que a A ira de Iahweh é frequentemente um
justiça ocupa no pensamento moderno so­ fogo ardente consumidor (Jr 17,4; Is 30,27;
bre a deidade. A diferença entre as duas 65,5) ou uma tempestade furiosa (Jr 30,23;
abordagens é a diferença entre o pessoal e o Is 30,30). Ela é um líquido que pode ser der­
impessoal. Embora seja mais fácil para nós ramado (Os 5,10; Jr 6,11; Ez 7,8; SI 69,25),
pensarmos em Deus como o autor e defen­ uma bebida amarga e venenosa que faz os
sor de uma ordem jurídica, no pensamento homens cambalearem (Jr 25,15; Is 51,17.22).
israelita Iahweh é pessoalmente ofendido A ira de Iahweh aniquila a menos que seja
pelas violações da aliança, e ele reage não restringida (Dt 7,4; Nm 16,21; Is 30,28; Jr
apenas com autoridade e poder, mas tam­ 4,23-26). Ela é restringida por seu amor pac­
bém com repugnância pessoal contra o tuai, que pode ser alcançado mediante a in­
ofensor. Isto faz parte do padrão da concep­ tercessão (Ex 32,1 lss.; Nm ll,ls s .; 14,11-20).
ção israelita do Deus vivo (—>22 acima) e da Mas a ira de Iahweh pode atingir um pon­
malignidade do pecado. Se Iahweh não se to onde a intercessão não é mais eficaz (Jr
irasse por causa do pecado, ele não o leva­ 14,11-12; Ez 14,14). Contudo, esta ira nunca
ria a sério. excede os devidos limites e nunca atinge a
O objeto da ira de Iahweh mencionado plenitude que os objetos da ira merecem.
com mais frequência é o povo de Israel, mo­ (Sobre ira, veja TD O T1. 348-60.)
tivado por sua incredulidade, desconfiança,
rebelião e adoração de falsos deuses. A ira 1 0 3 ( I I ) R e v e l a ç ã o . A convicção de que
de Iahweh é exercida por causa da desuma­ Iahweh é um Deus de revelação é funda­
mental à crença do AT. Iahweh como um situação histórica (—» Hermenêutica, 71:15).
ser pessoal não pode ser conhecido exceto O AT não lida com generalidades.
por meio de revelação; pessoas podem re­
velar a si mesmas a outras apenas median­ 1 0 5 O AT possui sua própria termino­
te a fala. Os atos de Iahweh são formas de logia de revelação, a qual pode ser engano­
revelação, da mesma forma que os atos de sa se não for distinguida da terminologia
qualquer pessoa manifestam a realidade mais recente. No AT, a resposta à revelação
da pessoa, mas o significado dos atos de não é "fé", mas "conhecimento". Estes dois
Iahweh só pode ser entendido mediante a termos não significam o mesmo que na teo­
interpretação do próprio Iahweh. A von­ logia moderna. O conhecimento de Iahweh
tade de Iahweh não pode ser determinada que é comunicado por seu discurso não é es­
pelas artes da adivinhação praticadas uni­ peculativo, mas experimental. As palavras
versalmente no antigo Oriente Próximo. e as ações de Iahweh fornecem a Israel uma
(Na verdade, nas religiões dos vizinhos de experiência pessoal dele que é igual à ex­
Israel não se esperava que a adivinhação periência de outras pessoas. Este não é pu­
revelasse o caráter dos deuses cuja vontade ramente um conhecimento intelectual, mas
estava sendo investigada. Um conhecimen­ o complexo da experiência, sentimento e
to do caráter desses deuses não era consi­ desejo que um encontro pessoal traz à tona.
derado necessário, pois sua vontade não Em alguns contextos, conhecer a Iahweh é
exibia qualquer padrão moral.) fazer sua vontade revelada (Jr 22,16). Em
outros contextos, conhecê-lo é reconhecê-
104 ( A ) N a t u r e z a d a r e v e l a ç ã o . A re­lo no caráter no qual ele se revelou, como
velação de Iahweh de si mesmo ocorre na na frase frequente "Eles saberão que eu sou
história e é um acontecimento que o AT Iahweh". A concepção de revelação do AT
localiza no tempo e no espaço. Isto não inclui a palavra falada por Iahweh e o co­
significa que a revelação seja um incidente nhecimento que resulta da palavra. Aquilo
avulso. A revelação de Iahweh, na medida que Iahweh revela é ele mesmo, não propo­
em que é a revelação de uma pessoa, é um sições. O AT relata o encontro de Iahweh e
processo em desenvolvimento, pois nenhu­ Israel: a manifestação de Iahweh e a respos­
ma pessoa pode ser conhecida por meio ta de Israel.
de um único encontro. Os discernimentos
sobre o caráter de Iahweh crescem em pro­ 1 0 6 A realidade pessoal de Iahweh não
fundidade mediante os períodos sucessivos é considerada passível de compreensão hu­
da história israelita. Não se deveria esperar mana. Iahweh é misterioso, maravilhoso
encontrar o mesmo entendimento sobre em conselho e excelente em sabedoria (Is
Iahweh no período dos juizes ou no início 28,29). Seus pensamentos não são os nossos
da monarquia que se encontra no período pensamentos, e seus caminhos não são os
dos profetas do séc. VIII. Nem o processo é nossos caminhos (Is 55,8-9). Tornar Iahweh
inteiramente não linear. Os estudantes do compreensível seria reduzi-lo ao nível das
AT devem observar que o entendimento de criaturas; desafiá-lo é falar o que não en­
Iahweh encontrado na literatura pós-exí- tendemos (Jó 42,3). Diante desse mistério, a
lica frequentemente deixa de atingir a cla­ única posição adequada é a submissão, pois
reza de visão que é encontrada em fontes a manifestação de Iahweh torna a autoafir-
mais recentes como Os, Is e Dt-Is. Qualquer mação humana ridícula.
passagem ou escrito particular do AT deve
ser estudado em seu contexto histórico, de­ 1 0 7 ( B ) C a n a i s d e r e v e l a ç ã o . Iahweh
terminado tão precisamente quanto possí­ revela-se por meio de representantes inspi­
vel, pois a revelação encontrada em cada rados, chamados de profetas. O primeiro na
escrito é uma resposta a uma determinada linhagem dos porta-vozes de Israel, Moisés,
não é chamado de profeta nas fontes mais dada pelos sacerdotes trata principalmente
antigas (mas cf. Dt 18,18; Nm 12,6-8); ele das questões cultuais, mas até certo ponto
está fora da linhagem devido à sua asso­ (não determinado) eles também são os por­
ciação singularmente íntima com Iahweh. ta-vozes de Iahweh na interpretação da mo­
O profeta tem o carisma da palavra de ralidade israelita (—» Instituições, 76:10).
Iahweh (—> 45 acima); a experiência mística
profética é normalmente descrita pela ana­ 110 Iahweh revela-se na natureza (—>
logia do falar e ouvir. A profecia aparece ao 55-60 acima), mas para o israelita esta é uma
longo de toda a história de Israel, desde o revelação inarticulada. As nações deixam
início da monarquia até o período pós-exí- de reconhecer a realidade divina de Iahweh
lico, quando perde seu vigor e, finalmente, na natureza e adoram falsos deuses. Israel
desaparece (embora alguns aspectos vitais conhece Iahweh porque ele falou a Israel, e,
da profecia sobrevivam na apocalíptica; portanto, Israel pode reconhecê-lo em suas
—» Apocalíptica do AT, 19:18, vol. I, AT). obras criadoras. A atividade de Iahweh na
O profeta é a consciência de Israel durante natureza não é diferente de sua atividade na
todo esse período, seu admoestador quanto história; seu poder é sempre dirigido para
à moralidade pública e privada, quanto à a salvação e julgamento (—» 136ss., 140ss.
sua administração interna e política exter­ abaixo). Uma vez conhecida, sua atividade
na. Não há esfera da vida em que a palavra é evidente em cada detalhe da natureza;
de Iahweh seja irrelevante (—» Literatura para o israelita, o fenômeno normal é tanto
profética, 11:25, vol. I, AT). um sinal da intervenção pessoal de Iahweh
quanto o anormal.
108 A sabedoria não é, como a profecia,
apresentada como uma experiência de ouvir 111 (III) S e n h o r d a h i s t ó r i a . Finalmen­
a palavra de Iahweh. Todavia, pelo menos te, Iahweh revela-se principalmente na
no período pós-exílico, a verdadeira sabe­ história. Não se encontra no antigo Oriente
doria é um dom de Iahweh e não pode ser Próximo a ideia de história como uma série
alcançada meramente pela investigação unificada de acontecimentos. Os registros
humana, pois somente Iahweh possui ver­ preservados das civilizações desta área são
dadeira sabedoria (—> Literatura sapiencial, anais e crônicas nos quais os acontecimen­
27:15-16, vol. I, AT). Sabedoria é a habilida­ tos são listados segundo o ano e resumidos
de pela qual a pessoa administra a vida e os por períodos de reinado. Não temos exem­
afazeres; sem a comunicação da sabedoria plos de qualquer tentativa de se estabelecer
de Iahweh, ninguém pode esperar alcançar um padrão nos acontecimentos a fim de
êxito e prosperidade, mesmo nos afazeres mostrar um desenvolvimento na vida e na
particulares. A sabedoria move-se num ní­ cultura de um povo. Para estes povos, seus
vel mais baixo que a profecia, mas ela aplica próprios primórdios e os primórdios das
a vontade revelada de Iahweh aos assuntos instituições são objeto de mitologia, não de
da vida diária e mostra a importância per­ história (—» 23 acima). O acontecimento do
manente da decisão pessoal inclusive nos mito é o acontecimento constante que ocor­
afazeres de importância puramente pessoal. re novamente num ritmo cíclico; é o retorno
anual das estações, as revoluções celestiais,
109 Como o criador de Israel, Iahweh o ciclo de dia e noite, o conflito perpétuo
revela-se nas instituições de Israel. O valor entre a ordem e o caos. Em oposição ao
de sua vontade revelada impõe a lei de Isra­ acontecimento mítico está o acontecimento
el (—» 88 acima). A tradição israelita também histórico contingente, singular e irreversí­
é uma expressão de sua voz; e, por isso, vel. A vida é vivida em oposição ao ciclo
os sacerdotes têm o ofício de interpretar do mito e, enfim, retorna a seus primórdios,
sua vontade na tôrâ, instrução. A instrução de onde o processo é retomado mais uma
vez. Neste pensamento, a história era me­ recem um curioso exemplo de pensamen­
ramente um epifenômeno na natureza. Os to histórico por parte dos compiladores do
povos do antigo Oriente Próximo não pro­ AT: são tentativas, frequentemente conjec­
curavam uma saída do ciclo do mito e não turais, de encontrar uma ocasião na vida
esperavam nenhuma saída. de Davi quando o salmo foi escrito (—>Sal­
Até mesmo os gregos, que foram res­ mos, 34:4-5, vol. I, AT).
ponsáveis pelos primórdios do pensamento
histórico moderno, não foram além do ideal 113 A coleção do AT dos remanescentes
cíclico de história. Correndo o risco de intro- literários de Israel é, a rigor, uma história
jetar algo na mente dos pensadores gregos, de Israel, embora não no sentido moderno
pode-se ver na concepção cíclica da história do termo. O AT é uma declaração teológica
um esforço de sintetizar o mundo imutável e uma interpretação da história. Para Israel,
da realidade inteligível e o fluxo dos acon­ sua história é seu encontro com Iahweh.
tecimentos contingentes. Os acontecimen­ A própria ideia de que a história é um pro­
tos somente podiam se tornar inteligíveis cesso com começo, meio e fim é original de
no pensamento grego sendo restringidos Israel. É a vontade e o propósito de Iahweh
em ciclos recorrentes que a mente pode que unifica o processo. A carreira histórica
compreender. No ciclo, os acontecimentos de Israel é dirigida pela vontade de Iahweh
seguem um padrão fixo e previsível de ori­ em cumprir seus desígnios. Estes desígnios
gem, progresso, declínio e queda. O padrão não são revelados em sua plena clareza em
de história visível no relato de Heródoto a qualquer estágio do processo; p.ex., o dis­
respeito das guerras persas e na história de cernimento dos desígnios de Iahweh na
Tucídides acerca da guerra do Peloponeso história que aparece na tradição J do Penta­
mostra o mesmo senso de inevitabilidade teuco (provavelmente do reinado de Davi;
que é o tema da tragédia grega. —> Pentateuco, 1:6-7, vol. I, AT) é mais ele­
mentar que o discernimento manifesto em
112 (A ) O A n tig o T e s ta m e n to com o Deuteroisaías. A serena confiança caracte­
No contexto do mundo antigo,
h is tó r ia . rística de J repousa na segurança de que a
o AT é uma coleção única de documentos história não é a colisão acidental de forças
históricos. Uma estrutura histórica domina cegas sem significado ou propósito, nem
toda a coleção; H. W. Robinson disse que o um epifenômeno dos eternamente recor­
AT é uma história na qual outros tipos de rentes ciclos da natureza; ela é a execução
literatura foram incorporados (Inspiration de um plano inteligente. Mas em J, como
and Revelation in the Old Testament [Oxford, em todo o AT, a aceitação de história como
1946] 123). O Pentateuco apresenta a histó­ a execução dos desígnios de Iahweh exige
ria da origem de Israel e, no complexo da um ato de fé. A vontade salvadora e julga­
história, as leis e as instituições que são atri­ dora de Iahweh confere inteligibilidade e
buídas a este período. Com os livros histó­ moralidade à história. Ela confere inteligibi­
ricos, de Js a Cr, pertence a coleção proféti­ lidade, pois ela define tanto a origem quan­
ca: os livros proféticos separados somente to o fim da experiência humana na história
podem ser entendidos se for reconhecido e o processo pelo qual os dois se juntam. Ela
que eles são respostas aos acontecimentos confere moralidade, pois mostra que a his­
da história, muitos dos quais são mencio­ tória é governada por uma vontade moral
nados. Aqueles trechos do AT que parecem supremamente poderosa e completamente
mais atemporais são os livros sapienciais incorruptível. O cumprimento do processo
poéticos; estes também se encontram in­ não é condicionado nem pelo sucesso hu­
cluídos na coleção dominada pela história, mano nem pelo fracasso humano. A reali­
se não incorporados no sentido estrito do zação humana não é o agente que produz
termo. Muitos dos títulos dos Salmos ofe­ a consumação da história e do destino, e o
pecado humano não obstrui a realização do 115 A consciência israelita de história
propósito da história. é atestada nos "credos" ou profissões de fé
como Dt 6,20-25; 26,5-10; Js 24,2-13. Recita­
114 Na tradição J, a atividade de Iahweh ções semelhantes se encontram nos SI 77; 78;
começa com a criação do homem e da 105; 106. Estes credos são litúrgicos. O culto
mulher; na tradição E, com o chamado a foi formado ao redor da memória histórica
Abraão; e na tradição P, com a criação do das ações de Iahweh (—> 90 acima). Quan­
mundo. O ponto de origem difere; o que as do Israel desejava professar sua crença em
tradições têm em comum é a convicção de Iahweh, seu "conhecimento" dele, ele recita­
que o ato de Iahweh inicia o processo his­ va suas ações na história. Israel desenvolveu,
tórico. Consequentemente, cada mudança a partir dessas ações, uma consciência de si
na história de Israel é o resultado de uma mesmo como uma realidade histórica com
intervenção decisiva de Iahweh. Ele se ma­ uma origem e um destino. A consciência de
nifesta aos descendentes de Abraão, envia Israel acerca de seu lugar na história era tão
José para o Egito para preparar um lugar profunda que, entre os povos contemporâ­
para seu povo; e quando eles são oprimi­ neos no mundo antigo, somente ele exibia
dos pelos egípcios, ele intervém de um uma percepção de sua história como uma
modo brilhantemente novo ao revelar-se trajetória com uma finalidade determinada.
a Moisés, libertando seu povo do Egito e
formando uma aliança com eles. Com sua 116 (B) Determinismo e universalida­
orientação e assistência, eles tomam posse de. Duas questões adicionais surgem da
da terra de Canaã. Ali eles são atacados por consideração da concepção israelita da his­
vários inimigos, dos quais Iahweh os livra tória. A primeira é a questão do determinis­
por meio da liderança carismática de juizes. mo: Se Iahweh é o Senhor da história, como
Quando a crise filisteia se mostra severa Israel acreditava que fosse, as pessoas eram
demais para um grupo politicamente de­ realmente agentes livres e responsáveis na
sorganizado, a monarquia é instituída para história? Observou-se acima (—>111 acima)
enfrentar esta ameaça. Embora as tradições que o pensamento grego, dominado pela
da instituição da monarquia sejam varia­ lógica de Parmênides, via realidade e inte­
das tanto em relação aos detalhes quanto ligibilidade apenas num ser imutável. Por
em relação à concepção do reinado (—» 1-2 isso, ele reduziu os acontecimentos contin­
Samuel, 9:11-16, vol. I, AT), elas concordam gentes da história a ciclos de necessidade,
que a monarquia vem de Iahweh. obtendo assim inteligibilidade mediante a
A monarquia é o período da profecia, e os negação eficaz da contingência e da liberda­
porta-vozes de Iahweh revelam e interpre­ de humana. O pensamento israelita escapa
tam os atos de Iahweh na história: o cisma da necessidade interior da lógica só para
do reino, a queda da dinastia de Omri e, aci­ cair numa necessidade imposta por uma
ma de tudo, o colapso dos reinos de Israel e vontade supremamente poderosa que con­
de Judá sob os ataques dos grandes poderes. trola de modo absoluto os acontecimentos?
Toda a série de acontecimentos é entrelaça­ O AT nunca propõe isto especulativa-
da numa umidade pelos historiadores deute- mente, e não parece ter sido um proble­
ronômicos a fim de mostrar o julgamento de ma para os israelitas. O AT afirma tanto a
Iahweh sobre a infidelidade de Israel (—> 1-2 soberania de Iahweh quanto a liberdade e
Reis, 10:3, vol. I, AT). Após o exílio, o res­ responsabilidade dos seres humanos. Se as
tabelecimento de uma comunidade judaica pessoas não fossem agentes responsáveis,
sob a lei é um outro grande ato salvífico de elas não poderiam ser objetos de julgamen­
Iahweh. A história de Israel como um todo to. Quando os profetas acusam Israel de
atesta as ações totalmente consistentes e re­ pecado, eles não deixam de prevenir que
tas de Iahweh, reveladas em sua santidade. Israel podia escapar do julgamento iminente
mediante a conversão - até se alcançar um de mediar o conhecimento de Iahweh para
ponto de maldade acumulada em que a as nações. (Veja W. Vogels, God ’s Universal
conversão podia assegurar apenas a sobre­ Covenant [Ottawa, 1979].)
vivência, mas não a reversão do curso da
história e do julgamento. Os profetas não 118 (IV) Moralidade. Não se questiona
mostram consciência de qualquer conflito mais com seriedade que a moralidade do
entre a soberania de Iahweh e a liberda­ AT se eleva notavelmente acima da mora­
de humana; o conceito teológico de histó­ lidade dos outros documentos religiosos
ria exige que nenhuma destas crenças seja do antigo Oriente Próximo. Mas não é fácil
mantida às custas da outra. indicar precisamente onde estão as diferen­
ças, e é ainda menos fácil traçar o desenvol­
117 A segunda questão diz respeito ao vimento da moralidade do AT. Os críticos
escopo universal da história: Qual é o lugar antigos comumente faziam do monoteísmo
das outras nações no processo histórico o fator decisivo na formação da moralidade
dominado pela vontade de Iahweh? Aqui, do AT, e eles atribuíam tanto o monoteísmo
tanto quanto em outra parte, pode-se tra­ quanto uma consciência moral mais pro­
çar o desenvolvimento nos discernimentos funda aos profetas do séc. VIII. A pesqui­
de Israel. Para o Israel antigo, os outros sa mais recente considera esta explicação
povos são ou inimigos ou irrelevantes. Se simples demais (Literatura profética, 11:2­
eles são inimigos de Israel, eles são hostis 21, vol. I, AT). Tanto o monoteísmo quanto
ao propósito de Iahweh na história, e ele uma consciência muito aguda devem ser
os remove. Com o surgimento da profecia datados antes do séc. VIII, e certas limita­
e uma consciência mais profunda da von­ ções no discernimento moral do AT apare­
tade moral de Iahweh totalmente exigente, cem depois desta data.
as nações estrangeiras ocupam seu lugar A associação de religião e moralidade
no processo histórico como as armas do aparece no antigo Oriente Próximo fora de
julgamento de Iahweh sobre Israel. Fora Israel. Em outras religiões antigas, os deu­
disso elas são irrelevantes; diferentemen­ ses são os guardiões da moralidade; a lin­
te de Israel, elas não têm destino na his­ guagem na qual esta crença é expressa pode
tória. Por isso, grande parte da literatura frequentemente parecer convencional, mas
pré-exílica é paroquial em seu tratamento não há razão para se pensar que uma crença
dos outros povos. Durante o exílio e pos­ genuína não esteja por trás das convenções.
teriormente, Israel percebe que o senhorio A diferença entre estas crenças antigas e as
universal de Iahweh não pode ser vindica­ israelitas pode ser resumida sob dois títulos:
do a menos que ele seja reconhecido como (1) para as outras religiões, os deuses não são
Iahweh por todos os povos. Se todos os as fontes de princípios morais nem da obri­
povos devem conhecê-lo, então eles parti­ gação moral; e (2) os próprios deuses não
ciparão da dádiva religiosa originalmente exibem caráter moral. A moralidade, portan­
conferida a Israel; e finalmente as diferen­ to, torna-se no final das contas convencional,
ças entre Israel e os outros povos devem e a obrigação moral torna-se meramente a
ser e serão removidas. Iahweh não fizera pressão social da comunidade que rejeita o
do mundo um caos; ele o fez para ser habi­ comportamento que é socialmente intolerá­
tado, e cada um deve confessar finalmente vel. Apesar da associação explícita da reli­
que somente Iahweh é Deus (Is 45,18-24). gião com a moralidade na literatura, a mo­
A glória que pertence a Iahweh não é ma­ ralidade dos outros povos do antigo Oriente
nifestada a menos que ele seja universal­ Próximo não se eleva acima do humanismo.
mente reconhecido na plenitude em que
ele se fez conhecido a Israel. A função de 119 Em Israel, a associação entre a re­
Israel na história, então, torna-se a função ligião e a moralidade repousa no caráter
histórico e revelacional de Iahweh. Para 121 Esta influência pode ser sugerida
os vizinhos politeístas de Israel, apenas os em duas áreas: a moralidade do sexo e a
deuses possuíam verdadeira liberdade, que humanidade da lei israelita. A moralidade do
consiste em isenção de toda restrição mo­ sexo é muito mais rigorosa em Israel do que
ral. Por um lado, Israel não acredita que entre seus vizinhos. Não é meramente fan­
Iahweh esteja restrito ou obrigado por uma tástico ver nisto um reflexo do caráter do
lei moral superior, pois toda a lei moral é próprio Iahweh em contraste ao dos deuses
imposta por sua vontade. Por outro lado, e deusas dos cultos de fertilidade. A licen­
seria incompreensível para um israelita que ciosidade sexual profana a santidade de
Iahweh fosse indulgente quanto ao vício: um Deus que está acima de todo processo
ele exibe no grau supremo a moralidade sexual. A humanidade da lei israelita é exibi­
que sua vontade impõe às suas criaturas. da num respeito singular pela honra e pela
A vontade moral de Iahweh é revelada na dignidade da pessoa humana. Este respeito
aliança, e as estipulações da aliança obrigam aparece no tratamento dos escravos, na ra­
Israel a um modo de vida peculiarmente is­ ridade da pena capital quando comparada
raelita, governado por esta vontade (—» 88 às outras leis antigas, na ausência da tortu­
acima). Deixar de satisfazer estas obrigações ra e da mutilação como penalidades e na
é incredulidade e infidelidade. Mediante insistência em igualdade de direitos legais
a observância desses deveres, os israelitas para todos os membros da comunidade.
atingem a "santidade" que é apropriada ao A humanidade também é estendida aos es­
povo de Iahweh. Santidade no AT é mais trangeiros residentes em Israel. O respeito
que um atributo moral; é a essência da pró­ pela dignidade da pessoa humana, ao que
pria divindade, com a qual Israel pode se parece, deveria ser ligado à crença israelita
comunicar mediante a satisfação dos pa­ acerca da natureza e das relações humanas
drões de conduta impostos por Iahweh. com Iahweh (—> 63 acima). É verdade que
nem a moralidade sexual nem a humani­
120 Esta convicção não implica que to­dade nas leis israelitas são sem limitações
dos ou a maioria dos princípios morais de (—» 123 abaixo), mas mesmo neste caso há
Israel sejam direta e formalmente revelados perceptível superioridade sobre os outros
por Iahweh. Israel tem sua moralidade po­ sistemas morais, os quais, portanto, não po­
pular que é a fonte imediata de sua morali­ dem ser as fontes da moralidade israelita.
dade pública e privada. A moralidade po­
pular cria o estilo de vida israelita; conduta 122 Também é peculiarmente israelita
oposta a este modo é "loucura em Israel" ou que a ênfase esteja no coração como o prin­
"isto não se faz em Israel" (Gn 34,7; Js 7,15; cípio da moralidade. O coração na língua
Jz 19,23; 20,6.10; 2Sm 13,12; Jr 29,23). Deve­ hebraica não é a sede das emoções, como
se observar aqui que a moralidade popular ocorre no linguajar moderno; o "coração" é
em Israel não surge meramente de uma co­ mais aproximadamente sinônimo de nossa
munidade étnica, mas de uma comunidade palavra "mente". Mas qualquer que seja a
de fé; é a moralidade popular do povo da tradução, a insistência no coração significa
aliança de Iahweh. Por isso, o desenvolvi­ que a moralidade deve ser interior, deve
mento da moralidade israelita é sempre estar enraizada na convicção e no desejo.
afetado substancialmente pela convicção de A moralidade genuína não é conduta exterior
Israel acerca do caráter moral de Iahweh. nem conformidade a costumes sociais. O con­
(G ilbert, M., et ah, Morale et Ancien Testament
traste está explícito em Is 29,13. Provavelmen­
[LSV 1; Louvain, 1976], Salm, C. L., Readings in te é demasia dizer que o AT alcança a ideia de
Biblical Morality [Englewood Cliffs, 1966]. Smend, que a moralidade é em si mesma algo inte­
R., TRE 10. 423-35. W right, C. J. H., Living as the rior, pois permanece a ideia de que são ações
People o f God [Leicester, 1983].) e palavras, e não pensamentos e desejos, que
determinam o caráter moral. Mas se reconhe­ a criação de alguns intelectuais, mas o có­
ce que palavras e ações não são honestas a digo de comportamento de todo um povo,
menos que venham do coração. uma moralidade popular em seu desenvol­
vimento bem como em sua origem. O as­
123 A moralidade do AT mostra tantopecto notável da moralidade israelita é que
crescimento quanto limitações. No princí­ ela continha os princípios pelos quais suas
pio do crescimento, os livros históricos, de limitações podiam ser superadas. (Veja P.
Gn até Rs, mostram heróis e heroínas israe­ C. Craigie, The Problem of War in the Old
litas frequentemente agindo num nível mo­ Testament [Grand Rapids, 1978]; P. Trible,
ral baixo. Não se deveria entender rápido Texts of Terror [Philadelphia, 1984].)
demais a ausência de juízos morais nas nar­
rativas como exemplos de aprovação tácita, 124 A moralidade pessoal no AT diz
pois os autores israelitas eram capazes de respeito principalmente à literatura sapien-
expressar juízos morais de um modo sutil, cial (—> Literatura sapiencial, 27:5, vol. I,
como se pode ver nas histórias de Jacó e na AT). As máximas de sabedoria, frequente­
história da família de Davi. Contudo, estes mente paralelas a outras literaturas sapien-
personagens bíblicos antigos são frequen­ ciais antigas, instruem o jovem em como
temente tocados apenas levemente pelo conduzir sua vida. A moralidade dos sábios
que temos apontado como os aspectos dis­ é chamada de prosaica com frequência, e
tintivos da moralidade israelita. A elevada até certo grau ela o é; os sábios lidam com
paixão moral de Amós e Isaías não aparece as situações da vida diária, e eles não têm
no Israel antigo, mas a convicção de que oportunidade de ensinar uma moralidade
a vontade de Iahweh é o motivo urgente de crise ou propor heroísmo. Sua motiva­
da obrigação moral aparece efetivamente. ção, às vezes, dá a impressão de ser menos
Na concepção pós-exílica da lei como um nobre, embora ela não seja positivamen­
compêndio de moralidade, existe um certo te ignóbil; recomenda-se a conduta moral
relaxamento em relação ao nível dos escri­ porque ela assegura êxito e felicidade. E em
tos dos profetas; o código de moralidade é face deste eudemonismo que se deve me­
mais refinado, mas a moralidade em si foi dir a convicção dos sábios de que a mora­
sistematizada a tal ponto que a observância lidade é sabedoria, e o vício é insensatez; a
externa pode se tornar mais importante que essência da sabedoria é o temor de Iahweh.
a moralidade do coração - uma denúncia A crença de que a conduta moral garantirá
feita nos Evangelhos (Mt 23,28). êxito mundano é demasiadamente simples
As limitações da moralidade israelita fo­ e precisa de mais refinamento, mas os sá­
ram apontadas com frequência; elas incluem bios não creem que uma pessoa possa algu­
a aceitação da escravidão, da poligamia e ma vez promover seu sucesso agindo mal.
do divórcio, o duplo padrão de moralida­ Somente mediante a conduta reta se pode
de sexual (mais rigoroso para as mulheres), estar certo da "paz", o estado de bem-estar
uma aversão notavelmente intensa aos es­ com Deus e com os semelhantes. A paz é
trangeiros, desumanidade na guerra e uma uma dádiva de Iahweh, e ele não a concede
certa negligência em relação à mendicância ao ímpio (Is 57,21). A literatura de sabedo­
e ao roubo. Nestes exemplos, a moralidade ria, com exceção de Jó e Eclesiastes, não re­
israelita deixa de se elevar completamente solve o problema da pessoa reta que sofre;
acima da moralidade de seu mundo, ainda e a sabedoria tradicional realmente carece
que inclusive nestas áreas ela seja um pou­ de recursos para solucionar este problema.
co superior. Não se deveria exigir um dis­ Mas os princípios da sabedoria exigem que
cernimento moral mais refinado, como se a o problema não seja resolvido pelo aban­
moralidade pudesse ser produzida instan­ dono da retidão. A "paz" do ímpio não é
taneamente; a moralidade israelita não era genuína nem duradoura.
1 2 5 ( V ) P e c a d o . O conceito bíblico de Ninguém pode sobreviver se Iahweh levar
pecado é expresso por diversas palavras he­ em conta as iniquidades (SI 130,3). Ninguém
braicas; uma avaliação das quatro palavras é reto ou inocente diante de Deus (Jó 4,17;
mais importantes mostra a múltipla abor­ 15,14). A consciência da universalidade do
dagem do AT à ideia. Na moderna teologia pecado aumenta com a experiência históri­
moral, o pecado é definido como a trans­ ca de Israel; os acontecimentos perturbado­
gressão voluntária de uma lei divina; não res da queda das monarquias israelitas e do
há nenhuma palavra hebraica que possa ser exílio deixam os sobreviventes do protoju-
definida assim. A palavra básica, geralmen­ daísmo com um senso de pecaminosidade
te traduzida por "pecado", h a ttã '(, significa que é quase excessivo. Onde Iahweh pune
errar o alvo, uma falha. Aquele que "peca" tão severamente, a culpa deve ser grande
deixa de satisfazer o que é esperado em re­ de fato.
lação a uma outra pessoa. A mesma palavra
é usada nas línguas cognatas para designar 127 A universalidade do pecado surge
a rebelião de um vassalo contra o senhor. das más inclinações dentro da própria pes­
Uma outra palavra, ‘ãwõn, significa uma soa. Os pensamentos do coração são maus
condição pervertida ou distorcida: aquele desde a mocidade (Gn 6,5). Jeremias fre­
que peca é torto ou deformado, desviando- quentemente alude às más inclinações do
se do padrão. Esta palavra é usualmente coração (Jr 16,12; 18,12), que é falso e enfer­
traduzida por "culpa"; ela designa o preju­ mo (17,9). Não se faz nenhum esforço sério
ízo permanente que é produzido na pessoa no AT para investigar mais esta condição ou
pelo ato pecaminoso. Existe um outro ter­ sua origem, mas é a crença tanto de J quan­
mo ainda, pesa", significa rebelião. Quan­ to de P de que esta não é a condição ori­
do usada para relações interpessoais, ela ginal do homem. Em P, os seres humanos
designa a violação dos direitos dos outros; são feitos à imagem e semelhança de Elo-
quando usada para os pecados de Israel, ela him e, como as outras criaturas, são muito
indica a infidelidade às obrigações da alian­ bons (Gn 1,31). Em J, o homem e a mulher
ça. Finalmente, ma ‘al significa infidelidade, percebem que estão nus apenas após terem
a quebra de uma obrigação combinada li­ pecado (Gn 3,7); este versículo implica que
vremente. O pecado também é chamado de não existia o apetite sexual desordenado na
uma mentira, o ato que nega a realidade da criação original.
profissão de uma pessoa, um abandono da
verdade. Desse modo, pecado é um ataque 128 O tratamento mais longo e explícito
à realidade. Pecado é insensatez, que no do pecado se encontra no relato J de Gn 3­
hebraico não significa um erro intelectual, 11. Gênesis 3 não deveria ser interpretado à
mas a escolha de um modo de ação que é parte dos capítulos que seguem; a história
estúpido porque é desastroso. (Para mais do paraíso contém um relato do primeiro
informações sobre pecado e sua expiação, pecado, e os capítulos seguintes relatam a
—>Instituições, 76:72-78.) propagação do pecado até alcançar o pon­
to em que Iahweh não pode mais tolerá-lo.
126 O AT está ciente da universalida­ O primeiro pecado é seguido pelo primeiro
de do pecado, embora menos ciente que os assassinato, casamentos polígamos, a in­
escritores do NT, especialmente Paulo (—> venção de armas, o primeiro grito de vin­
Teologia paulina, 82:82-88). No AT, a ênfa­ gança e o crescimento da perversidade até
se recai nos pecados de Israel, um povo de o grau em que Iahweh se arrepende de sua
lábios impuros, indigno de ver Iahweh (Is criação da raça, que ele elimina mediante o
6,5). Jeremias não vê nenhuma pessoa ino­ dilúvio. A família de um homem inocente
cente em Jerusalém e Judá (Jr 5,1-6; 8,10); é poupada, e a má inclinação que levou à
não há ninguém que não peque (lRs 8,46). condenação dos seres humanos (6,5) torna-se
um motivo para a bondosa tolerância de é um peso que pode ser colocado sobre
Iahweh (8,21). Mas a raça que surge após o alguém (Nm 12,11), que deve ser carregado
dilúvio cai em embriaguez, em vício não na­ (Gn 4,13), que pode ser passado de pai para
tural e, finalmente, no orgulho que constrói filho (Lv 26,39). Ela é uma fenda numa pa­
a torre de Babel. O panorama da perversi­ rede que cairá subitamente sobre o culpado
dade traçado por J é vasto e comovente, e (Is 30,13). Cai sobre a cabeça do malfeitor
estabelece o pano de fundo para a história (Is 3,9; Jr 7,19; Ez 22,31). É como água fres­
dos atos salvíficos e julgamentos de Iahweh ca guardada numa cisterna (Jr 6,7), como
que vem a seguir. Aqui, de modo mais cla­ ferrugem que corrói um vaso de metal (Ez
ro do que em qualquer outro lugar do AT, 24,6ss.). Estes exemplos mostram como
apresenta-se a universalidade do pecado, o AT retrata o pecado como um mal per­
e, ao mesmo tempo, revela-se a resposta de manente, presente e ativo no mundo; o ato
Iahweh ao pecado. pecaminoso permanece, causando prejuízo
A história do paraíso de Gn 3 é um rela­ além da possibilidade de reparo. (Sobre a
to do primeiro pecado e de suas consequên­ retribuição e as consequências, veja J. Barton,
cias, a saber, a maldição daqueles processos JTS 30 [1979] 1-12; K. Koch, em Theodicy in
de fertilidade pelos quais a vida humana é the Old Testament [ed. J. Crenshaw; IRT 4;
sustentada, e a morte como o fim inevitável Philadelphia, 1983] 57-87; também —» Lite­
da luta pela sobrevivência. Mas a história ratura de Sapiencial, 27:12-13, vol. I, AT).
do paraíso também é um esplêndido estudo
psicológico do ato pecaminoso, sem parale­ 130 Esta culpa pode ser estendida a
lo em outro lugar no AT. Num breve e sim­ todo o grupo social (—» 70 acima); de fato,
ples diálogo, o escritor traça com maestria os profetas geralmente se dirigiam a toda a
o autoengano do pecador, a racionalização comunidade de Israel. Toda a humanidade
da ação na própria mente, o desejo de ser pereceu no dilúvio; as cidades de Sodoma
algo maior do que ele realmente é, e a esco­ e Gomorra inteiras pereceram no fogo do
lha pecaminosa feita sob a pressão pessoal céu. A maior dificuldade para a mente mo­
de um outro. Quase todas as palavras he­ derna é a culpa coletiva que está na base de
braicas para designar pecado são ilustradas histórias como as de Acã (Js 7) e dos des­
nos passos pelos quais o homem e a mulher cendentes de Saul (2Sm 21). Esta ideia da
se rebelam contra a restrição da vontade de responsabilidade grupai só é entendida na
Iahweh. Desde muito tempo tem parecido estrutura do pensamento israelita acerca
enigmático o fato de que esta narrativa vi­ da sociedade como um relacionamento de
gorosa não possui um eco explícito nos ou­ parentesco (—>68 acima). Mas a ideia ilustra
tros livros do AT antes do período grego, a profunda crença israelita na realidade da
mas a narrativa está em completa harmonia culpa e de seu poder de causar dano muito
com a atitude do AT para com o pecado. além da pessoa individual que cometeu o
pecado. A culpa é uma doença, uma infec­
129 Culpa. A culpa é correlata ao peca­ção que corrompe todo o grupo no qual o
do; e a melhor forma de ver a peculiaridade pecado é cometido.
desta concepção no AT é atentando para o Em alguns episódios do AT, existe uma
fato de que não há uma palavra hebraica concepção de culpa mais primitiva como
distinta para designar culpa. As palavras algo mecânico e independente da respon­
para designar pecado, em particular hattã ’/ sabilidade pessoal. A culpa nestas histórias
e ‘ãwõn, em alguns contextos somente po­ é menos uma maldade permanente do que
dem ser traduzidas por culpa; elas desig­ uma certa infecção material que pode ser
nam uma condição permanente que é pro­ contraída mesmo pelo inocente. Assim, os
duzida pelo ato pecaminoso e é, às vezes, reis que, por ignorância, tomam as esposas
Odescrita em termos muito realistas. A culpa dos patriarcas são punidos com doenças em
suas famílias (Gn 20,3ss.; 26/10); a infração tra em Lv-Nm não está direcionado para a
inconsciente de Jônatas do voto de seu pai obtenção ritual de perdão. Para os pecados
é uma ofensa mortal (ISm 14); Oza morre "violentos" (Nm 15,30; ISm 3,14) não há ex­
quando toca a Arca (2Sm 6). A punição que piação ritual. O "pecado" e a "culpa" pelos
sobrevêm é um efeito impessoal, quase de­ quais os sacrifícios são oferecidos não são
moníaco, evocado pelo ato material. Neste atos malignos; são falhas involuntárias de
conceito primitivo de culpa é obscurecida a satisfazer as prescrições rituais. A partir das
ideia de maldade e responsabilidade pesso­ palavras dos profetas pode-se julgar que os
ais, e com ele a vontade moral de Iahweh. O israelitas frequentemente consideravam
desenvolvimento espiritual de Israel impli­ seus ritual sacrificial como uma expiação
caria ascender além deste modo primitivo mecânica que era automaticamente eficaz
de pensamento. (Jr 7,9). Não é esta a ideia que governa as
prescrições rituais, e os profetas criticam
1 3 1 As palavras dos profetas, pelo con­ esta ideia como uma superstição grosseira
trário, enfatizam o pecado como uma rup­ (—» Instituições, 76:92).
tura das relações pessoais com Iahweh. Em
relação a Iahweh, o pecado humano é orgu­ 133 A expiação dos pecados formais é
lho (Am, Is), adultério (Os, Jr e Ez), desobe­ realizada somente mediante o sofrimento
diência filial e ingratidão (Is e Jr). Os profe­ da punição que segue a culpa; de fato, cul­
tas clássicos insistem todos no fato de que o pa e punição parecem ser quase idênticas,
pecado é uma escolha deliberada, feita com às vezes. Quando Natã anuncia a Davi que
pleno conhecimento; o pecado é desprezo Iahweh perdoou o pecado de Davi, ele diz
por Iahweh, uma profanação de sua santi­ que Davi não morreria (2Sm 12). Mas a cul­
dade e efetivamente uma negação de sua pa é uma realidade presente e ativa; e em­
divindade. Eles enfatizam também a res­ bora a vida de Davi seja poupada, a pena de
posta pessoal de Iahweh. A ira de Iahweh é morte recai sobre o filho de Davi com Betsa-
um conceito totalmente oposto à concepção beia. Todo o relato seguinte em 2Sm 13-20
mecânica de culpa e punição (—» 100 acima). relata os infortúnios que caem sobre Davi e
Quando Iahweh pune o pecado, ele está sua casa após seu crime. Sem ser explicita­
pessoalmente envolvido. Sua ira não é raiva mente moralizante, o escritor mostra que a
cega; ela é dirigida pelo julgamento (—> 138 prosperidade de Davi é revogada por esta
abaixo), e os julgamentos de Iahweh não são crise em sua vida. O impacto moral da his­
impessoais. tória não é menos pesado do que o impacto
do relato J sobre a origem e a propagação
1 3 2 ( V I ) P e r d ã o . A remoção do pecado do pecado em Gn 3-11 (—-> 128 acima).
e da culpa é uma questão de preocupação
vital na religião do AT. Comunhão com 134 E necessária a conversão para se ob­
Iahweh é vida; e se a comunhão com Iahweh ter perdão. A conversão é geralmente ex­
é rompida, não há esperança de segurança. pressa pela palavra hebraica que significa
Para que a comunhão seja restaurada, a ira "voltar" (o verbo sub, usada com frequência
de Iahweh precisa ser apaziguada. Não há nas admoestações proféticas dirigidas a Is­
crença de que os seres humanos possam res­ rael. Eichrodt (ETO T1. 465) reúne diversas
taurar a comunhão com Iahweh. Visto que, expressões que preenchem a ideia de con­
em primeiro lugar, a comunhão era uma versão: procurar Iahweh, perguntar por ele,
gratuita dádiva da graça, assim a restaura­ humilhar-se, dirigir o coração a Iahweh,
ção da comunhão não pode ser alcançada procurar o bem, odiar o mal e amar o bem,
por mérito. As pessoas devem se entregar aprender a fazer o bem, obedecer, adquirir
à misericórdia e ao perdão de Iahweh. O um novo coração, circuncidar o coração,
sistema de expiação cultual que se encon­ arar um novo sulco, lavar-se da perversi­
dade. Esta abundância de metáforas mostra quentes apelos ao amor de Iahweh: Israel
que a conversão é concebida como uma ge­ é sua esposa, e Iahweh não pode suprimir
nuína mudança interior de atitude que re­ totalmente a afeição por sua amada, mes­
sulta numa revolução na conduta pessoal. mo quando ela é infiel e perversa. Este li­
A garantia de perdão repousa no cará­ vro apresenta a tensão entre a punição e
ter perdoador de Iahweh, o qual é frequen­ o perdão como um conflito emocional em
temente atestado (Am 7,2ss.; Os ll,8ss.; SI Iahweh - embora ele puna Israel, seu amor
78,38; 103,3). Iahweh não deseja que o per­ salvador não é frustrado pelos pecados do
verso morra, mas que ele seja convertido de seu povo (—>Oseias, 14:4,30, vol. I,AT).
seus maus caminhos e viva (Ez 18,23). E fre­ Estes motivos para o perdão não são
quente a confissão do perdão de Iahweh em todos de igual valor, e alguns dos antropo-
Is 40-55. No exílio, Israel expia sua perver­ morfismos são ingênuos. Mas os motivos
sidade anterior; sua comunhão com Iahweh ilustram as muitas facetas sob as quais Is­
é restaurada, e ele está pronto para cumprir rael conhecia a Iahweh, e eles se fundem
suas promessas. O profeta vê em Iahweh o numa concepção de seu perdão que expres­
pai, o pastor, o parente vingador, o salva­ sa a segurança de Israel de que Iahweh cer­
dor (—» 75 acima). tamente pode encontrar um modo de sub­
jugar o pecado. Em última análise, a ideia
135 Há uma grande quantidade de an­de perdão conduz para a escatologia. Se o
tropomorfismo (—> 21-22 acima) na concep­ perdão de Iahweh deve ser exercido de um
ção dos motivos que inspiram o perdão de modo que se ajusta a seu caráter, ele deve
Iahweh. Israel apela para seu amor pactuai encontrar uma saída em algum ato situado
e sua fidelidade; e, apesar da infidelidade fora da história (—» 165-166 abaixo). O alcan­
de Israel à aliança, existe uma garantia de ce final do perdão de Iahweh deve ser uma
que a boa vontade de Iahweh não é limi­ reconciliação que torne o perdão adicional
tada pelas estipulações da aliança. Israel desnecessário.
apela para as promessas de Iahweh e para
os juramentos feitos aos patriarcas, os quais 136 (VII) Julgamento. As palavras "juiz"
não deveriam ser frustrados nem mesmo e "julgamento" possuem conotações um
pela falha de Israel em estar à altura da tanto diferentes no AT em comparação com
estatura dos patriarcas. Iahweh prometeu o linguajar moderno. Nos escritos primiti­
uma semente eterna e deve encontrar um vos do AT, o juiz é primeiramente aquele
modo de manter esta promessa. Ele não a quem uma pessoa apela para a defesa de
pune sob compulsão e é livre para abran­ seus direitos, e um julgamento é uma vin-
dar os padrões que ele mesmo estabeleceu. dicação. Quando se invoca o julgamento de
Israel apela para o nome de Iahweh e para Iahweh, solicita-se sua assistência; e quan­
sua honra. Se, em ira, ele permite que seu do ele concede o julgamento, esse é um ato
próprio povo se torne a vítima de nações salvífico.
estrangeiras, estas nações blasfemarão seu
nome ao dizer que Iahweh não pode pro­ 137 Na concepção mais antiga, o "Dia
teger sua propriedade. Israel apela para a de Iahweh" é o dia no qual Iahweh julga
bondade de Iahweh: é mais consistente com os inimigos de Israel. O aparecimento de
seu caráter perdoar que punir, e ele prefere Iahweh na teofania (—»57 acima) sem dúvida
perdoar. Ele deveria tolerar algum grau de deve ser ligado a esta imagem. A ocorrência
pecado porque os instintos maus do povo mais antiga da expressão "Dia de Iahweh"
fazem com que seja impossível para eles encontra-se em Am 5,18-20: Até aqui os isra­
vencer o pecado completamente. Frágeis elitas consideravam o Dia de Iahweh como
e mortais, eles não deveriam ser provados um dia de vitória e libertação, mas Amós
rigorosamente. Existem em Oseias elo­ inverte a ideia e afirma que é um dia de
julgamento sobre Israel. Israel não está me­ a vara da ira de Iahweh, ela é irresistível.
nos sob julgamento que as nações estrangei­ A porção mais antiga do livro de Miqueias
ras citadas em 1,3-2,3, e a sentença de con­ (1,2-16), contemporâneo de Isaías, retrata
denação por parte de Iahweh é pronunciada o julgamento sobre Israel e Judá como um
sobre Israel, assim como sobre os etíopes, evento iminente a ser realizado por forças
os filisteus e os arameus (9,7-10). Um dia no históricas. Outras passagens, provavelmen­
qual Iahweh age contra tudo que é orgulho te posteriores, veem o julgamento mais em
e altivo é descrito em Is 2,10-17; este jul­ harmonia com concepções subsequentes.
gamento é universal, e Israel, embora não Jeremias e Ezequiel, contemporâneos da
mencionado, não está excluído. Sofonias queda de Jerusalém, talvez sejam de modo
1 possui um poema muito mais elaborado mais preeminente os profetas do julgamen­
sobre o dia de Iahweh que não pode ser de to. Eles estão certos de um julgamento imi­
uma única origem. O Dia de Iahweh não é nente e de sua justiça, e eles apresentam a
apenas universal, mas até mesmo cósmico totalidade do julgamento de uma maneira
quanto ao alcance, sugerindo concepções impressionante. Sua certeza não vem ape­
apocalípticas posteriores (—» 139 abaixo); to­ nas de sua consciência do poder ameaçador
davia o julgamento também está focado em dos caldeus, mas também de sua convicção
Judá e em Jerusalém. O uso da expressão da profunda culpa coletiva de Judá - nem
sugere um "dia", um acontecimento; discu- mesmo o mais digno intercessor pode im­
tir-se-á abaixo se isto necessita de alguma pedir a punição que esta culpa requer (Jr
modificação. 14,11; Ez 14,12-20). Mesmo neste quadro
de inevitável e terrível julgamento, não de­
138 Para os profetas pré-exílicos, o jul­ saparece totalmente a ideia de julgamento
gamento de Iahweh é realizado na história. como um ato salvífico. Cada passo no jul­
Amós (5,18-20.26-27; 7,1-9; 9,l-8a) fala da gamento é uma advertência, bem como
ruína vindoura tanto das nações estran­ uma punição; se Israel aprender que seus
geiras como de Israel; nada sugere que ele pecados acirram a ira de Iahweh e se afas­
esteja pensando em alguma outra coisa se­ tar deles, Israel pode sobreviver. Esta não é
não nos fatores históricos como as armas uma promessa de perdão mecânico; quan­
do julgamento de Iahweh. Oseias (4,8-14; do o mal chegou ao ponto que os profetas
8,7-10; 13,4-14,1) fala de modo menos claro descrevem, somente o arrependimento não
de um dia ou até mesmo de um aconteci­ é suficiente para inverter o curso dos acon­
mento, mas a condenação de Israel é clara­ tecimentos. Mas Israel pode manter sua
mente anunciada e seguramente ameaçada. comunhão com Iahweh, mesmo num julga­
Os julgamentos de Iahweh são muito mais mento como este, se Israel apenas escutar.
proeminentes no pensamento de Isaías De fato, é apenas depois da catástrofe que
(1,2-9; 5,26-30; 10,5-19). Eles são contra Is­ Israel se torna ciente de que o julgamen­
rael e Judá e contra várias classes sociais, to foi necessário para preservar o povo de
particularmente contra aquelas no poder. A Iahweh como tal. Sua própria perversidade
linguagem de Is raramente, se alguma vez, destruiria Israel como o povo de Iahweh,
sugere uma catástrofe cósmica; Is 30,27ss. é mas se Israel for purificado pelo julgamen­
a linguagem da teofania. O agente do jul­ to, ele pode continuar a existir como o povo
gamento de Iahweh é a realidade histórica de Iahweh, mesmo se apenas como um mi­
contemporânea da Assíria, que trará infor­ serável remanescente.
túnio não apenas sobre as monarquias is­
raelitas, mas também sobre todos os povos 139 Fez-se referência acima a um ou­
da região. A Assíria também está sob julga­ tro conceito de julgamento que aparece
mento, a ser realizado oportunamente por nos livros posteriores do AT; a este tipo de
Iahweh, mas enquanto a Assíria agir como literatura se dá o nome de "apocalíptica".
Estritamente falando, o nome não se ajusta povo esperava a salvação dos inimigos ex­
a muitas passagens especificas do AT (—» ternos por meio da guerra, ou a salvação da
Apocalíptica, 19:3, vol. I, AT), mas o tipo de injustiça dentro da comunidade por meio
literatura assim designada tem suas raízes de seu julgamento e da administração da
no AT. Uma catástrofe mundial que é obra lei.
do julgamento de Iahweh é vista em Is 13;
24; Joel 2-3; e em grande parte de Dn. Eze- 141 Iahweh é celebrado como o rei-sal-
quiel 38-39, com sua visão da guerra contra vador, particularmente nos SI 47; 93; 96-99.
Gog, está mais perto destas passagens que Estes Salmos são frequentemente chamados
dos profetas pré-exílicos. Nestas passagens de "Salmos de Entronização" pela pesquisa
não há referência a um julgamento sobre moderna por causa da hipótese de que estes
Israel ou sobre alguma nação particular Salmos eram usados numa festa cultual que
que possa ser identificada com segurança; celebrava a entronização de Iahweh como
o julgamento apocalíptico é um julgamento rei (Instituições, 76:141-46; —> Salmos, 34:6,
sobre a humanidade e até mesmo sobre o 63,109, vol. I, AT). Nestes Salmos, Iahweh,
universo material. Este é uma extensão do como rei, é aclamado como criador e senhor
julgamento sobre Israel; do mesmo modo da natureza, e suas ações são realizadas
como o Israel genuíno podia sobreviver numa escala cósmica. Sua salvação se ma­
apenas se o Israel histórico perecesse no jul­ nifesta a todo o mundo. A associação do po­
gamento, assim o mundo e a humanidade der real salvador de Iahweh com a criação
podem ser unidos a Iahweh somente se o e com a revelação de seu poder na natureza
mundo existente passar por um julgamen­ também é proeminente em Is 40-55.
to consumidor. O velho mundo deve ser
removido para dar lugar ao novo mundo a 142 A primeira ação salvífica de Iahweh
ser criado por Iahweh (—»60 acima). Na des­ na história de Israel e o modelo ao qual ou­
crição apocalíptica, o julgamento não é ex­ tras ações salvíficas são comparadas é a li­
plicitamente um acontecimento na história, bertação do Egito. Este é um ato de criação,
como nos profetas pré-exílicos; isto suscita pois Israel se torna um povo - o povo de
o problema da escatologia (—» 164 abaixo). Iahweh - mediante esta libertação. Ele é a
base das reivindicações de Iahweh na alian­
140 (VIII) Salvação. A ideia de salva­ça; é também a esta ação salvífica que Israel
ção do AT é complexa e exibe um desen­ apela com mais frequência quando pede
volvimento histórico que é extremamente por libertação de ameaças a seu bem-estar
difícil de sintetizar. Trataremos aqui das nacional.
passagens nas quais não aparece nenhum A história subsequente de Israel é uma
salvador individual (para o Messias, —» recitação dos atos salvadores de Iahweh:
152ss. abaixo). a passagem de Israel, as vitórias que lhe
(A) Atos salvíficos de Iahweh. A pa­ deram a terra de Canaã, a libertação em
lavra hebr. yêsü‘â, que traduzimos como Canaã, por meio de juizes, dos ataques de
"salvação", ocorre com frequência em con­ inimigos e o culminante ato salvador do
textos onde se refere à libertação por meios período antigo - o estabelecimento da mo­
militares; nestes contextos, a palavra pode narquia e a libertação dos filisteus. A recita­
ser traduzida como "vitória". Nestes usos, ção dos ações salvíficas é entremeada com
"salvação" é paralelo a "ações justas" ou a recitação das infidelidades de Israel; estas
"julgamentos" de Iahweh a favor de Israel provocam a ira de Iahweh, mas elas não al­
(—» 94,136 acima). Salvação também signifi­ teram sua vontade de salvar Israel. Os his­
ca libertação de qualquer ameaça à vida ou toriadores de Israel sabem que os golpes da
à integridade da pessoa. No mundo antigo, ira de Iahweh também são atos salvadores,
o rei era sempre o rei salvador, de quem seu pois eles ensinam a Israel que uma rebelião
contra Iahweh conduzirá Israel a uma con­ mas não exclusivamente, combativo. O am­
dição na qual a salvação somente poderá ser plo espaço que as bênçãos materiais ocu­
alcançada mediante um terrível julgamento pam nestes oráculos nunca é inteiramente
que reduzirá a nação a um mero resto. perdido no desenvolvimento posterior da
ideia de salvação; de fato, a prosperidade
143 Este tema de salvação por meio de incluída na salvação é, às vezes, descrita de
julgamento torna-se dominante, no período modo extravagante (Is 60; 65; Am 9,13-15).
da monarquia, nas palavras dos profetas A ideia de vitória sobre os inimigos é ex­
pré-exílicos. Amós não diz quase nada sobre plicitamente política, e este elemento igual­
a vontade salvadora de Iahweh (a conclu­ mente não desaparece. Os poemas de Sião
são de Am [9,8b-15] é obra de um póstero). de Is 49-52; 60-62 situam a salvação numa
A salvação em Oseias é adiada para um fu­ Jerusalém restaurada que recebe a riqueza
turo distante, a ser realizada por meios que das nações como tributo. A salvação política
estão ocultos ao discernimento do profeta. significa não apenas libertação de inimigos,
Em Is, a certeza de salvação é mais profun­ mas vitória final e submissão das nações ao
da, mas o tema do julgamento não é menos governo de Israel.
proeminente que em Am e Os. Em Jr e Ez,
a salvação do Israel histórico se tornou im­ 145 Parece que a salvação é concebida
possível; salvação agora significa uma res­ em termos mais elevados quando é vista
tauração, mas não do Israel histórico como como a era de paz universal (Is 2,lss.). Ela
existiu sob a monarquia. A restauração se significa eliminação da injustiça e o estabe­
torna o tema dominante em Deuteroisaías lecimento daquela segurança que vem do
- de todas as obras do AT a que mais desen­ governo administrado em retidão e julga­
volve o tema da salvação com uma riqueza mento (Is 32). Em Jr e Ez, a salvação é ex­
imensa, aludindo frequentemente ao poder pressa na fórmula da união pactuai, "Vós
criador de Iahweh em conexão com a salva­ sereis meu povo e eu serei vosso Deus";
ção. A restauração de Israel é um novo ato promete-se, mediante esta afirmação, a res­
do poder criador raramente menos impres­ tauração da comunhão com Iahweh a qual
sionante que a criação de Israel por Iahweh foi destruída por causa da infidelidade de
no êxodo. Enquanto que a obra de salvação Israel. A salvação é Iahweh habitando no
de Iahweh no êxodo foi manifesta aos egíp­ meio de seu povo. No novo Israel de Ez 40­
cios, a restauração de Israel é manifesta a 48, o Templo torna-se o centro da terra, um
todo o mundo. O autor de Deuteroisaías foco da santidade a partir do qual o poder
ecoa o tema do novo êxodo quase tanto de Iahweh irradia. A restauração de Judá,
como ecoa o da nova criação. descrita em Jr 30-31, contém todos os ele­
mentos da vitória sobre inimigos e de uma
144 (B) Natureza da salvação. O caráter vida de prosperidade material, mas a der­
variado da salvação pode ser visto a partir rota dos inimigos não é enfatizada como em
de uma enumeração de algumas de suas outros lugares (em contraste, por exemplo,
expressões. Os oráculos de Balaão (Nm 23­ com Is 63,lss.) - a prosperidade material é
24) devem ser considerados pertencentes às descrita em termos moderados, e paz e ale­
porções mais antigas do AT, talvez o séc. X gria são as ideias dominantes.
(Números, 5:48-52). No oráculo de Balaão,
a salvação consiste na bênção de Iahweh, a 146 Em todas essas concepções de salva­
qual faz de Israel um povo colocado à parte ção, encontra-se pelo menos implicitamente
das outras nações, convicto da vitória sobre suposto que o Israel que é salvo é um novo
seus inimigos, de habitação pacífica em sua Israel - não somente uma nova criação, mas
própria terra e de prosperidade abundante. também novo no sentido de estar purificado
O tom da salvação é predominantemente, dos vícios que corromperam o Israel histórico.
Esta purificação é bastante explícita em Jr espera-se que muitas nações venham e ado­
e Ez. A salvação, para Jr (31,31ss.); é uma rem a Iahweh. Comparado a alguns outros
nova aliança escrita no coração; os termos escritos pós-exílicos, este conceito de salva­
da aliança, a vontade revelada de Iahweh, ção é claro e simples; todavia não se pode
serão incrustados na disposição interior de considerá-lo entre as ideias mais elevadas
cada pessoa e governarão sua vida. A salva­ do AT. Pode-se dizer que Zacarias está a ca­
ção não é meramente membresia no povo minho da "salvação realizada" da tradição
da salvação; ela é uma completa aceitação de P (—> Pentateuco, 1:7, vol. I, AT), na qual
de Iahweh por parte de cada indivíduo. a salvação é pouco mais que a existência de
Nesta comunidade salva, Iahweh não trata­ Israel unido a Iahweh por meio do culto.
rá por meio de mediadores e mestres huma­
nos estabelecidos do Israel histórico, mas 149 ( C ) R e i n a d o d e D e u s . Os múltiplos
revelará a si mesmo a cada israelita como desenvolvimentos da ideia de salvação são
se revelou a Moisés na aliança original (—> melhor resumidos, se podem ser resumidos,
Jeremias, 18:89, vol. I, AT). Ezequiel (36,26) na ideia do reinado (reino) de Iahweh, em­
vê o coração de pedra substituído por um bora esta expressão seja rara no AT. Mas foi
coração de carne, sensível e responsivo à uma expressão suficientemente apropriada
vontade de Iahweh. Israel recebe um novo para ser usada na literatura judaica e nos
espírito, o espírito de Iahweh, que incitará Evangelhos (—» Pensamento do NT, 81:44­
Israel à obediência. Esta regeneração inte­ 45, 53) como uma designação da salvação
rior é a base da paz e da prosperidade pro­ esperada que não precisava de definição
metidas. adicional. O reinado de Iahweh é a aceita­
ção de sua vontade por todos. Isto não pode
147 As vezes, a salvação é vista como acontecer até que todos o conheçam, e eles
mais ampla do que a salvação de Israel. A só podem conhecer percebendo sua autor-
revelação e a instrução de Iahweh sairão de revelação a Israel. O conhecimento univer­
Sião para todas as nações, que alcançarão sal de Iahweh deve operar uma mudança
então a paz universal (Is 2,lss.). A missão revolucionária na humanidade; e, visto que
de Israel como um meio de salvação está a luta contra natureza nasce da insubmissão
clara em Dt-Is: por meio de Israel, Iahweh humana a Deus, deve haver uma revolução
se revelará às nações, as quais, uma vez que correspondente até mesmo na natureza ma­
o conheçam, obedecerão a esta vontade que terial. A revelação de Iahweh não será mais
os salvará (Is 45,18-25). Israel é testemunha prontamente aceita pelos outros do que foi
de Iahweh perante as nações. O escopo uni­ aceita por Israel; e, por isso, como Israel, to­
versal da salvação está implícito também dos devem sofrer um processo de julgamen­
no retorno ao paraíso (Is 11,6-9; 65,25) e na to, que é um ato salvífico. A resistência a
criação de novos céus e uma nova terra (Is Iahweh deve render-se diante de seu poder
65,17ss.), bem como na alusão frequente à incomparável. Em um mundo como este, as
transformação do universo material e à ma­ pessoas estarão seguras do perigo e livres
ravilhosa prosperidade da era da salvação. para viver a vida que lhes cabe como seres
humanos. (Veja J. Gray, The Biblical Doctrine
148 Zacarias 1-8 contém um relato oftheR eign ofG od [Edinburgh, 1979].)
compacto da salvação como era concebida
em 520-518 a.C., em Jerusalém. A terra está 150 Fez-se, no parágrafo anterior, uma
em paz; Israel está restaurado à sua terra; tentativa de enunciar a ideia, escassamente
os opressores de Israel desapareceram. Os encontrada em tantas palavras no AT, que
israelitas habitam em paz, alegria, seguran­ se encontra na base da esperança israelita
ça e prosperidade moderada; a terra está de salvação; e é dentro do marco desta ideia
purificada dos crimes e vícios grosseiros; e que certos elementos mais difíceis como as
bênçãos materiais e a salvação política de­ 151 Segundo, a salvação política. Em
vem ser entendidas. virtude de a vida ser concebida em ter­
Primeiro, as bênçãos materiais. Os isra­ mos de experiência concreta, a vida boa
elitas do AT tem uma inclinação material, é representada em termos políticos. A sal­
o que quer dizer que sua literatura não exi­ vação, como a vida em si, é experimenta­
be pensamentos abstratos e generalizados. da na comunidade e não pelo indivíduo
Além disso, eles não têm ideia de uma re­ isolado (—» 73 acima). A única sociedade
alidade espiritual no sentido moderno do ordenada que o israelita do AT conhece
termo. Fica claro a partir das passagens é uma monarquia administrada com jus­
resumidas acima que a salvação não é con­ tiça e competência. A salvação não é um
cebida sem o empreendimento espiritual retorno a uma vida mais primitiva, mas
supremo, que é a submissão total a Deus uma perfeição da forma de vida social
resultando numa perfeição humana que que ofereça as melhores possibilidades
reflete a imagem de Deus. Os israelitas con­ para a salvação. Se a monarquia falha por
sideram a enumeração de virtudes menos causa da injustiça de seus governantes, a
convincente que a consideração das mu­ salvação não consiste na eliminação dos
danças concretas que a submissão a Iahweh governantes, mas na instalação de gover­
realizará na existência humana. A mudança nantes retos (—» 158 abaixo).
mais óbvia será a suspensão de certos obs­ A salvação política é, às vezes, vista
táculos definidos à boa vida, em particular, como o governo de Israel sobre nações
aqueles obstáculos que o agricultor pales­ derrotadas. Esta percepção limitada deve
tino conhece bem: o perigo da guerra e da ser combinada com as outras percepções
frustração da colheita. A salvação será re­ mencionadas acima nas quais a salvação é
alizada se estas duas ameaças à segurança estendida a todo o mundo. Mas mesmo a
forem removidas, e é duvidoso que se pu­ supremacia política de Israel não é uma for­
desse valorizar algum ideal mais elevado. ma de salvação puramente secular. Israel é
Acrescentem-se a estas duas bênçãos a li­ o povo de Iahweh, e somente por meio de
berdade de dívidas e da dívida de escravi­ Israel Iahweh se revelará às nações. No pen­
dão e a liberdade da opressão de homens ri­ samento simples do mundo antigo, o povo
cos e senhores de terra vorazes, e o israelita cujo deus é o mais poderoso obtém a supre­
se contentava em sentar-se sob sua videira e macia sobre as outras nações. A esperança
figueira sem ninguém a amedrontá-lo (Mq de salvação do AT raramente se eleva até
4,4). Se a maldade humana é removida, que uma ideia de salvação simplesmente para
limite se pode colocar à fertilidade do solo? seres humanos; ela vê a salvação de povos,
Para a importância da terra para Israel, veja de Israel primeiro e então dos demais. Se
W. Brueggemann, The Land (OBT; Philadel­ Iahweh não tivesse sido o Deus de Israel,
phia, 1977). sua realidade teria sido percebida menos
Estas bênçãos materiais não são mera­ claramente; mas foi necessário um desen­
mente símbolos das bênçãos espirituais; volvimento adicional para que se pudesse
elas são o efeito das bênçãos espirituais. ver que ele era o Deus de Israel num sen­
Em geral, o AT não mostra consciência tido positivo que não o torna menos Deus
de uma vida após a morte (todavia —>172 dos povos que não o cultuam. E somente no
abaixo); a única vida boa que Israel conhe­ NT que o Israel renovado, o povo de Deus,
ce é concebida em termos de existência é visto como incluindo igualmente todos os
concreta experimentada. Esta existência é filhos de Deus, todos que estão dispostos a
transformada pela perfeita comunhão com serem incluídos.
Iahweh, que habita entre seu povo. A vida Nossa exposição da salvação nos levou
é boa onde não há resistência à sua vonta­ para a área dos planos futuros de Deus para
de salvadora. seu povo.
OS PLANOS FUTUROS DE DEUS PARA SEU POVO

152 (I) O Messias. A figura do Messias esperavam o Messias. No séc. I d.C., muitos
enfim chegou a ter um lugar importante no tinham perdido a fé na dinastia davídica, a
entendimento de Israel do plano de Deus qual não governava há mais de 500 anos;
para seu futuro. Esta discussão, necessaria­ e havia livros judaicos que tratavam das
mente breve, depende implicitamente da questões escatológicas sem sequer mencio­
exegese de textos importantes do AT, em­ nar o Messias (—> Apócrifos, 67:49). Além
bora controversos; para detalhes, remete-se disso, com frequência a expectativa do
o leitor para comentários sobre os livros in­ Messias era acompanhada por algumas das
dividuais do AT. O tratamento aqui (§ 152­ outras expectativas mencionadas acima; em
63) foi acrescentado a este artigo por R. E. Qumran, os sectários aguardavam a vinda
Brown. do Profeta, do Messias davídico e do Sacer­
(A) O termo "M essias". A palavra dote Ungido (—» Apócrifos, 67:115-117).
"messias" vem do termo aramaico m ésíhã',
que reflete o hebraico mãsiah, "ungido"; a 154 De fato, p ode ter havido uma amal-
palavra grega é christos, daí "Cristo". Nes­ gamação da figura do Messias com outros
ta discussão, far-se-á uma distinção entre personagens salvíficos, p.ex., o Servo So­
"Messias" (inicial maiúscula) e "messias" fredor, ou o Filho do Homem, em um per­
ou personagens salvíficos. O judaísmo co­ sonagem composto. Isto certamente acon­
nhecia toda uma galeria de personagens teceu na descrição cristã de Jesus, mas as
que se esperava que apareceriam no tempo evidências são muito incertas para deter­
da intervenção definitiva de Deus em favor minar se isto aconteceu no judaísmo pré-
de Israel, p.ex., Elias, o profeta como Moi­ cristão (—> Apócrifos, 67:15). Por exemplo,
sés, talvez o Filho do Homem, o Sacerdote nenhuma obra pré-cristã jamais descreve
Ungido, etc. Estes personagens podem ser um Messias sofredor. O leitor cristão deve
chamados de modo impreciso de messiâni­ tomar cuidado com uma tendência instin­
cos. Mas é melhor restringir o termo com tiva de interpretar a expectativa judaica do
inicial maiúscula "Messias" a um conceito Messias à luz da trajetória e da pessoa de
delineado de modo preciso, a saber, o rei Jesus. Na verdade, o conceito judaico do
ungido da dinastia davídica que estabelece­ Messias teve de sofrer uma modificação
ria no mundo o reino definitivo de Iahweh considerável antes de ser aplicado a Jesus,
(—> 149 acima). Esta noção de Messias é o daí a relutância de Jesus em aceitar o título
produto de um longo desenvolvimento es­ sem restrições (—>178 abaixo; —>Pensamen­
boçado abaixo. to do NT, 81:13-15).
Em particular, embora a esperança ju­
153 A expectativa do Messias apare­ daica do Messias fosse altamente idealiza­
ce no judaísmo pós-exílico (embora no AT da, quase ao ponto de fazer do Messias um
"Messias" não seja usado como um título personagem de capacidades sobre-huma­
no sentido que o usamos). A partir da fre­ nas, não havia expectativa de um Messias
quência e espontaneidade com que a ques­ divino no sentido em que Jesus é declarado
tão do Messias aparece no NT (Mc 8,29; como Filho de Deus. Além disso, o colorido
14,61; Jo 1,20; 4,25; etc.) e também a partir nacionalista nunca esteve ausente de qual­
das evidências dos escritos judaicos antigos quer estágio do desenvolvimento pré-cris-
(—> Apócrifos, 67:48), estamos seguros em tão do pensamento messiânico, assim como
admitir que a expectativa do Messias se tor­ o próprio conceito de salvação do AT não
nou comum no judaísmo intertestamentá- esteve isento de aspectos materialistas e
rio e talvez possa ser chamada de esperan­ nacionalistas (—» 150-51 acima). E impreciso
ça nacional. Contudo, nem todos os judeus e injusto dizer que os judeus da época de
Jesus tinham corrompido a ideia do Mes­ casa não vai aqui além da salvação política
sias como salvador espiritual tornando-o a ser realizada pelo rei.
secular e nacionalista e que Jesus restau­
rou o conceito a seu significado primitivo. 156 A Bênção dada a Judá por Jacó (Gn
A compreensão cristã de um Messias espiri­ 49,9-12) provavelmente provém do início
tual representou uma mudança, e não uma da monarquia e alude implicitamente ao
restauração - uma mudança que, cremos, reinado de Davi. Mas esta bênção precisa
levou o desenvolvimento da ideia a uma ser interpretada, ela parece assegurar a per­
realização plena, mas que, ainda assim foi manência da dinastia de Davi. A fertilidade
uma mudança. é garantida enquanto o rei salvador escolhi­
do reinar.
155 (B ) D e s e n v o lv im e n to do m e s s ia ­
n is m o É lugar-comum no entendi­
r e a l. 157 Os "Salmos Reais" (em particular
mento teológico de Israel de sua história os SI 2; 72; 110; -> Salmos, 34:10,21,88,126)
que Deus envia salvadores para libertar seu também deveriam ser considerados neste
povo (Moisés, os juizes, Neemias, Esdras). primeiro estágio do messianismo. Os estu­
Mas 0 messianismo, como o discutiremos, diosos abandonaram a noção de que eles fo­
está envolvido com o papel salvador dos ram compostos pelo próprio Davi (embora
homens na estrutura de uma instituição, a eles talvez sejam do séc. X), que proclama­
monarquia. va um Messias futuro - tal expectativa não
(a) O primeiro estágio de desenvolvimento. existia neste período. Antes, estes salmos
No início da monarquia davídica em Judá, eram composições aplicáveis a qualquer
cada rei ungido (messias) era considerado monarca davídico e podem ter sido reci­
um salvador enviado por Deus para seu tados em ocasiões importantes na vida do
povo. Não há registro no AT de uma su­ monarca, como a coroação. As referências
blimação semelhante da realeza no Israel a um progenitor divino do rei (103,3) e à
do norte. É bem provável que o primeiro filiação divina (2,7) - outrora consideradas
registro literário do caráter messiânico da referências literais a Jesus - eram parte da
dinastia de Davi se encontre no oráculo de linguagem simbólica da corte (Hofstil) usa­
Natã, preservado em três formas (2Sm 7; SI da para descrever o rei como representante
89; lC r 17). Os estudiosos não concordam de Iahweh. O sacerdócio eterno "segundo
sobre qual é mais primitivo; nenhum de­ a ordem de Melquisedec" (110,4), prome­
les parece preservar o oráculo original não tido ao rei, provavelmente fazia parte dos
modificado (J. L. McKenzie, TS 8 [1947] 187­ títulos hereditários dos reis cananitas de
218). No SI 89,20-38, podem se distinguir os Jerusalém, exemplificados no sacerdote-
seguintes elementos: a eleição de Davi por rei Melquisedec de Gn 14 (—» Gênesis, 2:23;
Iahweh; promessas de vitória e amplo do­ —» Instituições, 76:16, vol. I, AT). O reina­
mínio; adoção de Davi e seus sucessores do eterno e universal do rei - considerado
como filhos; aliança de Iahweh com Davi e anteriormente uma referência literal a Jesus
sua casa; promessa de uma dinastia eterna, - era, em parte, um desejo otimista de vida
não condicionada à fidelidade dos suces­ longa e muitas vitórias e, em parte, um re­
sores de Davi a Iahweh. Este oráculo tam­ flexo da grandeza permanente prometida à
bém é refletido no SI 132. O oráculo não fala dinastia davídica.
de um sucessor individual, nem olha para O SI 72 pode ser entendido como a mais
um futuro escatológico. Ele é uma simples clara expressão da ideia do rei salvador.
garantia de que a dinastia durará como o O rei governa com a justiça que cabe a um
agente humano escolhido da salvação de soberano; ele é o salvador dos pobres e ne­
Iahweh operada na história (—» 142 acima). cessitados. E vitorioso sobre seus inimigos,
A salvação a ser realizada por Davi e sua que também são inimigos de seu povo; é
o salvador de seu povo do perigo externo. esperado é reafirmado de modo claro (—>
Durante seu reinado, a bênção de Iahweh 35 acima), pois o espírito repousará sobre
traz fertilidade à terra. Em nenhuma parte ele e lhe concederá as qualidades de um
do Salmo, o rei é apresentado como um fu­ governante ideal. Ele salvará o reino da
turo libertador escatológico. Ele é o suces­ injustiça interna e da ameaça externa. Em
sor reinante de Davi e o herdeiro das pro­ comparação com os escritos incontestáveis
messas da aliança feitas a Davi. de Isaías, o novo elemento em Isaías ll,ls s .
é o retorno das condições do paraíso que o
158 (b) O segundo estágio de desenvolvi­ remado deste rei fará acontecer. A paz uni­
mento. Nos escritos do séc. VIII, há um de­ versal sob seu remado é cósmica; e a paz re­
senvolvimento do messianismo real. Reis pousa sobre o "conhecimento de Iahweh"
perversos e ineptos, como Acaz, tinham obs­ universal, a experiência da realidade pesso­
curecido a glória da linhagem davídica e a al de Iahweh mediante sua autorrevelação
esperança otimista de que cada rei seria um (—» 105 acima). Este conhecimento pode ser
salvador de seu povo. Isaías, em particular, comunicado ao mundo apenas por meio
expressa uma expectativa mais matizada: de Israel. Estas duas ideias, a restauração
haveria uma irrupção do poder de Iahweh da dinastia de Davi e o alcance universal e
que reviveria a dinastia e asseguraria sua religioso da salvação da qual a dinastia de
permanência. Iahweh logo levantaria um Davi é o meio, provavelmente aparecem
sucessor de Davi que seria digno do nome aqui pela primeira vez no AT.
de rei davídico; ele seria um exemplo de
poder carismático, exatamente como Davi 160 Vê-se a partir de Mq 5,1-6 que a
tinha sido quando a linhagem real foi insti­ esperança de um renascimento da dinastia
tuída (—> Isaías, 15:19, 22, vol. I, AT). Isaías sob um novo e ideal governante não está
7,14-17 e 19ss. se tornam rapsódicos em sua limitada a Isaías. Miqueias, um contempo­
descrição do herdeiro do trono a ser gerado râneo de Isaías, vê um novo Davi vindo de
na época de Isaías (735 a.C.), talvez o filho Belém para dar a seu povo segurança con­
do perverso Acaz e de uma donzela bem co­ tra a ameaça assíria. Miqueias 5,3 vê uma
nhecida da corte (a "virgem" de 7,14 - uma restauração da unidade de Israel e Judá sob
tradução imprecisa do hebraico). A criança este novo Davi; o cisma que ocorreu sob Ro-
seria um sinal de que Deus ainda estava com boão será curado.
seu povo (Emanuel) na pessoa do rei davídi­ Outras e posteriores alusões à restaura­
co. O herdeiro estabeleceria a justiça, edifica­ ção da dinastia de Davi refletem estas pas­
ria um vasto império e traria paz a ele, e seria sagens com pouca modificação. O "germe"
digno dos tradicionais títulos palacianos do ou "rebento" de Jr 23,5 será o rei-salvador
monarca (9,5). Embora Isaías possa ter crido cujo nome confirmará a retidão de Iahweh;
que suas expectativas fossem cumpridas no retidão aqui significa vontade salvadora (—>
bom rei Ezequias, sucessor de Acaz, as pas­ 94 acima). A restauração da dinastia aparece
sagens isaiânicas descrevem mais um ideal também em Jr 30,9.21. A dinastia de Davi é o
de restauração do que uma realidade; e isto rebento do cedro que Ezequiel vê plantado
permitiu que fossem usadas pelas gerações por Iahweh (Ez 17,22), e no novo Israel Davi
posteriores que também esperavam por uma será novamente o rei (Ez 34,23; 37,24). Eze­
renovação divina da monarquia. quiel não enfatiza, contudo, a função do rei
como salvador; esta hesitação pode refletir
159 A passagem de Is ll,ls s . pode ser os acontecimentos históricos dos quais ele
posterior a Isaías; os estudiosos estão divi­ era contemporâneo, a saber, a queda da na­
didos. Ela olha para um futuro mais remo­ ção e o exílio do rei davídico. A monarquia
to que as passagens que temos discutido. aparece em Ezequiel simplesmente porque
O poder carismático do governante ideal a monarquia é uma instituição israelita sem
a qual o profeta não pode conceber Israel. êxodo. Todavia, até onde sabemos, espe­
Vários intérpretes perguntam se um retorno rava-se que a irrupção acontecesse em cir­
de Davi em pessoa não está implícito nestas cunstâncias históricas, ainda que, às vezes,
passagens de Ezequiel, mas uma implica­ a antecipação do Messias possa ter tomado
ção como esta não é imediatamente óbvia, algum dos ornamentos da apocalíptica.
pois o nome pode designar a dinastia. Em algumas passagens, o conceito do
rei-salvador (—» 140 acima) sofreu uma in­
161 (c) O terceiro estágio de desenvolvimen­ teressante transformação. Em Zc 9,9ss. (séc.
to. É difícil reconstituir o desenvolvimento IV?; —» Ageu, 22:39, vol. I, AT), seu reino
pós-exüico do messianismo por causa da trará paz universal, e todos os traços béli­
falta de evidências escritas; em parte, deve­ cos terão desaparecido. Ele é o instrumen­
mos reconstruir sua história a partir do pro­ to da salvação de Iahweh, mas a salvação
duto final, a saber, a expectativa do Messias é a obra do próprio Iahweh sem nenhum
no último período pré-cristão. O fato de que agente humano. O rei até mesmo perdeu
a linhagem davídica não governava mais os traços de realeza. Mas esta não é uma
após o exílio (ou pelo menos após governo concepção sobre o Messias aceita univer­
de Zorobabel, ao que sabemos) produziu salmente, pois nos Salmos de Salomão, muito
uma profunda diferença no messianismo. posteriores (séc. I a.C.; —>Apócrifos, 67:48),
Antes do exílio, o rei ideal que restauraria há uma forte mistura dos elementos políti­
o vigor da linhagem davídica sempre podia co e espiritual na descrição de um Messias
ser considerado em termos da próxima ge­ que submeteria os gentios a seu jugo.
ração de uma dinastia reinante. Mas agora O advento do Messias era também mo­
não podia haver um rei ideal até o futuro tivo de especulação no judaísmo antigo.
indefinido, quando o trono davídico seria Como o povo o conheceria? Em algumas
restaurado. Assim, as-expectativas come­ passagens (Mt 2,4-6; Jo 7,42), podemos ver
çaram a mover-se em direção ao futuro in­ a expectativa popular de que ele nasceria
definido; e, em vez de concentrar-se num em Belém, a cidade de Davi, e que seu nas­
monarca em uma linhagem contínua de go­ cimento seria conhecido de todo Israel. Po­
vernantes, estas expectativas passaram a se rém, em outras passagens (Jo 7,27; Mc 8,29),
centrar em um rei supremo que representa­ vemos o pensamento de que o Messias esta­
ria a intervenção definitiva de Iahweh para ria oculto, pois o povo não saberia de onde
salvar seu povo. É neste período que pode­ ele viria, e ele poderia estar no meio deles
mos começar a falar do Messias no sentido sem que o soubessem (veja BGJ 1. 53).
estrito. A Escritura anterior (Salmos Reais;
Isaías) era agora relida com este novo en­ 163 Em suma, no curso de 1.000 anos, o
tendimento messiânico em mente. messianismo israelita desenvolveu-se até o
ponto onde a expectativa do Messias incor­
162 Se o caráter definitivo da ação do porou uma das principais esperanças da in­
Messias é claro, o caráter escatológico é me­ tervenção de Iahweh para salvar seu povo.
nos claro. Não há evidência clara de que o Embora este rei-salvador, quase por defini­
Messias era considerado uma figura trans­ ção, fosse um salvador político, ele seria um
cendental cuja missão iria além das reali­ salvador em virtude do carisma e poder de
dades da história. De fato, sua obra seria a Iahweh, e assim seus atos salvadores nunca
manifestação final do poder de Iahweh que seriam meramente políticos. Em seu reino,
tornaria desnecessário qualquer outro ato o Messias traria a Israel o governo ideal do
salvífico de Iahweh. Este ato salvador não próprio Iahweh. Menciona-se menos fre­
seria a obra de forças históricas ordinárias, quentemente, e muitas vezes se concebe de
mas o tipo de irrupção visível do poder de maneira chauvinista, que a salvação media­
Iahweh na história que se tinha visto no da pelo Messias teria um alcance fora de
Israel. Porém, admitindo a origem do con­ colapso do universo visível, o julgamento, a
ceito do rei ungido, podemos ficar surpre­ felicidade do novo mundo do reino de Deus
sos de que a concepção mais ampla ocorra são descritos em grandes e geralmente fan­
com tanta frequência. tasiosos detalhes. A imagem se torna mais
extravagante naqueles livros apocalípticos
(B e c k e r , J., Messianic Expectation in the Old produzidos no judaísmo, mas não incluídos
Testament [Philadelphia, 1980]. C a z e l l e s , H., Le na Escritura canônica (—>Apócrifos, 67: 13,
Messie de la Bible [Paris, 1978]. C o pp en s , }., L ’attente 41, 44, 45). No AT, a literatura apocalíptica
du Messie [RechBib 6; Bruges, 1953]; Le messianisme é encontrada em Dn 2; Dn 7-12; Is 24 (pro­
royal [L D 54; Paris, 1968]; La relève apocalyptique
vavelmente também 13 e 65-66); Jl; e prova­
du messianisme royal [3 vols.; BETL 50, 55, 61;
velmente Ez 38-39. Veja P. D. Hanson, Old
Louvain, 1979-83], G r el o t , P., L'espérance juive
à l ’heure de Jésus [Paris, 1978]. K l a u s n e r , J., The Testament Apocalyptic (Nashville, 1987).
Messianic Idea in Israel [Londres, 1956]. L a n d m a n , A ausência desses temas na literatura
L ., Messianism in the Talmudic Era [New York, mais antiga leva muitos estudiosos a negar
1979]. M e t t in g e r , T. N. D ., King and Messiah que haja uma escatologia israelita primiti­
[ConBOT 8; Lund, 1976]. M o w in c k e l , S., He That va (Mowinckel, He That Cometh 125,54). No
Cometh [Nashville, 1964].) pensamento pré-exílico, os atos salvadores
e julgadores de Iahweh são inteiramente re­
164 (II) Escatologia. A questão da esca­alizados na história e por meio de processos
tologia no AT não foi formalmente respon­ históricos. Os inimigos de Iahweh são po­
dida em nossa discussão de julgamento, sal­ vos históricos definidos; o julgamento é um
vação e messianismo. Na erudição recente, ato histórico como a queda de Israel ou da
discutiu-se a questão se há alguma escatolo­ Assíria; e a salvação esperada é a existên­
gia no AT anterior ao exílio. Grande parte da cia pacífica de Israel em sua própria terra.
discussão é obscurecida pela ambiguidade A escatologia, Mowinckel afirma, surge
do termo escatologia. Literalmente, escato­ quando Israel não tem mais qualquer espe­
logia significa "a doutrina das últimas coi­ rança histórica. Se Iahweh deve estabelecer
sas"; e, se compararmos o AT à escatologia sua supremacia agora, isto deve ser feito
mais plena do cristianismo, parece que os mediante um ato que venha de fora da his­
livros antigos do AT não possuem escatolo­ tória e coloque um fim na história. Esta in­
gia (—» Pensamento do NT, 81:25-26). terpretação tem muito a recomendá-la. Ela
O problema pode ser abordado obser­ leva em conta as diferenças entre os primei­
vando-se aqueles livros e passagens do AT ros profetas e os escritores apocalípticos;
que ninguém nega serem escatológicos. Es­ ela evita laboriosamente ler ideias poste­
tas passagens são chamadas de "apocalíp­ riores na literatura anterior. Certos aspec­
ticas" (—» Apocalíptica do AT, 19:3-4, vol. I, tos que se assemelham a alguns detalhes
AT). Nelas aparecem certos temas padrões: da escatologia apocalíptica são explicados
um conflito cósmico final entre Deus e os como parte da tradição da teofania (—» 57
poderes do mundo ou os poderes do mal; acima) ou como derivados de festas cultuais
uma catástrofe cósmica que inclui o colap­ (Mowinckel).
so do mundo visível, bem como das insti­
tuições humanas; a derrota e julgamento 165 Ao mesmo tempo, há elementos
dos poderes opostos a Deus; o começo de do pensamento israelita que esta interpre­
um novo mundo e uma nova era na qual tação não incorpora. Por isso, outros estu­
Deus reina de modo supremo. Estes temas diosos (von Rad, OTT 2. 114-25; Eichrodt,
são meramente esboçados aqui; nenhuma ETOT 1. 385-91; Jacob, Theology 319-22) afir­
literatura bíblica possui estas imagens lu­ mam a existência não apenas da escatologia
xuriantes até mesmo exageradas como a pré-exüica, mas até mesmo da escatologia
literatura apocalíptica. A batalha final, o profética. Vriezen (OOTT 350-72) coloca o
começo da escatologia em Isaías. A répli­ 166 A convicção israelita expressa pe­
ca de Mowinckel é que incluir declarações los profetas mais antigos, bem como pelos
anteriores é tornar a palavra escatologia posteriores, é de que a história deve resul­
tão ampla de modo a privá-la de todo sig­ tar no reinado universal de Iahweh. Esta es­
nificado; em passagens anteriores, ele diz, perança não é igualmente clara em todos os
devemos falar de "uma esperança quanto estágios de seu desenvolvimento. Quando
ao futuro", não de escatologia. O problema é expressa (como no oráculo de Natã —» 155
pode parecer meramente uma questão de acima) em termos do remado mundial do
semântica, e talvez o seja. Mas negar a esca­ rei-messias de Israel, ela aparece talvez em
tologia primitiva em Israel parece implicar sua forma mais primitiva. O que num perí­
que Israel não tinha uma ideia da história odo é visto como um fim da história pode
que realmente fosse diferente das ideias dos ser mais tarde reconhecido como um passo
outros povos (—> 113 acima). Uma esperança que exige uma resolução adicional - neste
quanto ao futuro que não leva a nada defini­ desenvolvimento, aceita-se o princípio da
tivo dificilmente é uma esperança diferente escatologia, mas o fim escatológico não foi
de uma continuação do presente. No Israel bem definido. O conceito de escatologia não
antigo, esperava-se que, no curso da histó­ é tão rígido em sua estrutura que sua forma
ria, Iahweh interviesse ativamente no futu­ e conteúdo não sejam capazes de mais de­
ro, como ele tinha intervindo no passado, senvolvimento. A antiga fé de Israel ainda
e que preservasse Israel por meio de seus não é uma escatologia transcendente; e se
julgamentos e atos salvadores. Se esta espe­ o transcendentalismo é uma parte essencial
rança era escatológica é uma pergunta que da fé escatológica, então a antiga fé israelita
os antigos israelitas não poderiam ter feito não deveria ser chamada de escatológica.
nem respondido. Mas existiam implicações
na intervenção ativa de Iahweh na história, 167 O imaginário apocalíptico está tão
implicações de que a história era governada cheio de pensamento e linguagem mito-
por sua vontade moral com supremo poder. poeicos como qualquer porção do AT (—>
Poderia Iahweh ser o Senhor da história se 25 acima), e aqui o pensamento mitopoeico
a história continuasse indefinidamente? Se cumpre uma função que nenhum outro tipo
o conflito entre Iahweh e as forças do caos de pensamento poderia realizar. O aconte­
não fosse resolvido mediante uma vitória, cimento escatológico não apenas se encon­
Iahweh careceria de poder verdadeiramente tra fora da experiência, mas também fora da
divino, e a crença israelita cairia no dualis­ história; todavia, ao mesmo tempo, os julga­
mo cíclico que governava o pensamento do mentos de Iahweh na história são exibições
antigo Oriente Próximo. Visto que a escato­ de seu poder que podem ser incorporadas
logia, em sua forma mais simples, significa no quadro escatológico. A batalha escato­
pelo menos a crença de que a história tem lógica e o colapso do império mundial são
um fim, então a esperança israelita antiga descritos em termos extraídos da experiên­
quanto ao futuro é implicitamente escatoló­ cia histórica de Israel. A esses elementos
gica. A ideia do fim da história não precisa acrescenta-se a inversão do mito da criação;
ser proposta em imagens apocalípticas. É o mundo retorna ao caos primevo, como re­
verdade que nos profetas pré-exílicos tanto a tomou no dilúvio. A partir deste caos, me­
salvação quanto o julgamento não aparecem diante um novo e final ato criador, Iahweh
em termos que transcendem o mundo histó­ produz um novo céu e uma nova terra com
rico no qual Israel vive. Mas se este mundo as características do paraíso; porém, neste
histórico é estabelecido numa condição per­ novo céu e nova terra, não haverá rebelião
manente de paz por um ato de Iahweh, ele contra sua vontade salvadora. Paradoxal­
chegou a um alvo que não é produzido por mente, a interpretação grosseiramente lite­
forças históricas. ral das imagens mitopoeicas da escatologia
obscurece a realidade dos atos divinos de A ideia egípcia é incompatível com as
salvação e julgamento. crenças básicas israelitas sobre Iahweh e a
humanidade. A vida após a morte egípcia
168 (III) Vida após a morte. Os estu­não é um mundo dominado pela presença
diosos geralmente sustentam que não havia e vontade divina pessoal, mas é na verdade
esperança de sobrevivência individual após um mundo totalmente secularizado. O fato
a morte expressa no AT antes de algumas de a ideia egípcia deixar as pessoas em sua
de suas passagens mais recentes, que foram presente condição não está, em si mesmo,
provavelmente escritas no séc. II a.C. Ainda em oposição à crença israelita primitiva,
que esta tese venha a ser modificada abaixo pois os israelitas deste período não fazem
(—>172), a falta geral de crença do AT numa afirmações sobre um destino superior em
vida após a morte é um tanto surpreenden­ uma outra vida. Mas os egípcios afirmam
te, visto que a crença na ressurreição do explicitamente que os seres humanos alcan­
corpo era tão importante para o judaísmo çam estatura plena nas alegrias da existên­
farisaico como para o cristianismo. O Isra­ cia terrena, e para os israelitas é intolerável
el antigo estava aqui muito mais perto das tal fé manifesta no mundo material. (Talvez
crenças mesopotâmicas e cananeias que das o fato de Israel não chegar a uma ideia de
crenças egípcias. sobrevivência após a morte se devesse em
A ideia egípcia da vida após a mor­ parte à repugnância ao completo secularis-
te, exibida nos túmulos bem preservados mo egípcio.)
do Egito e na literatura egípcia, concebe
a sobrevivência após a morte como uma 169 Na Mesopotâmia, pelo contrário,
continuação bidimensional da existência não há explicitamente esperança de so­
humana terrena e não como um estado ge­ brevivência. Aralu, o mundo dos mortos,
nuinamente novo e diferente. As alegrias é uma vasta sepultura onde os corpos dos
do mundo além da sepultura são as alegrias mortos encontram-se inertes, não mais que
carnais da experiência normal. As pessoas semiconscientes, na melhor das hipóteses
participam da vida dos deuses, mas de um (ANET 87,107); e uma descrição do mundo
modo puramente humano; a sobrevivência inferior é razão para sentar e chorar (ANET
não é uma consecução do destino, mas uma 98). A literatura mesopotâmica encara a
evitação do destino. A literatura chamada morte com um profundo pessimismo. Os
de "Livro dos Mortos" apresenta a entrada deuses reservam a vida para si mesmos e
na bem-aventurança como dependente de repartem a morte como o destino huma­
aprovação em um exame da conduta mo­ no; portanto, as pessoas deveriam gozar os
ral (ANET 32-36), mas o sucesso depende prazeres que a vida permite, pois elas não
mais de conhecer as respostas corretas do têm qualquer outra esperança (ANET 90).
que do caráter moral. Não há ideia de que Assim, diferentemente dos egípcios, os me-
uma pessoa seria ou deveria ser excluída da sopotâmicos encaram a morte como o fim
bem-aventurança se a vida após a morte é da vida. Como os egípcios, eles não veem
meramente uma continuação da vida terre­ discriminação moral na morte, a qual vem,
na, nenhuma qualificação moral deveria ser assim como o nascimento, a todos igual­
exigida tanto para uma quanto para a outra. mente; nem mesmo encaram o problema da
Assim, a crença egípcia na sobrevivência é morte prematura, que é suscitado no AT.
na verdade uma forte afirmação da bonda­ O fato da morte é totalmente sem relevân­
de da vida humana na terra e da impossibi­ cia religiosa ou moral. Se as pessoas pudes­
lidade e indesejabilidade de uma mudança sem obter o alimento da vida e a água da
de estado. (Para variações no pensamento vida (ANET 96,101-102), elas participariam
egípcio, —> Literatura de Sapiencial, 27:26, da imortalidade dos deuses, mas os deuses
vol. I, AT.) negam a imortalidade. A diferença entre a
crença mesopotâmica e a israelita é eviden­ normal de dias era de 70 anos. Para os ho­
te aqui; em Gn 2-3, o alimento da vida não mens sábios de Israel uma morte prematura
é negado por ciúme, mas por causa de uma ou uma morte repentina ou dolorosa é uma
falta moral (também —» Literatura sapien- punição da perversidade. Porém, à parte
cial, 27:27-31). destas reflexões sobre a morte prematura, o
caráter penal da morte, tão claramente visto
170 A significação moral da morte é vi­ na narrativa J de Gn 3, não se observa em
tal na crença israelita, mas a atitude israeli­ outra parte do AT.
ta para com a possibilidade de vida após a E muito provável que a ideia de socie­
morte não mostra diferença apreciável das dade do israelita tivesse muito a ver com
crenças mesopotâmicas. A morte que vem sua atitude para com a morte. Um homem
ao primeiro ser humano como consequên­ israelita vive em seus filhos que carregam
cia do pecado é o fim da vida nesta terra, e seu nome e no povo de Israel do qual ele
não aparece nenhum horizonte mais amplo. é membro. Se Israel continua a viver, os
A constituição da natureza humana, assim membros falecidos de Israel não pereceram
como é entendida no pensamento israelita, completamente. Esta imortalidade coletiva
não revela princípio de sobrevivência. Nem não é inteiramente estranha mesmo ao pen­
a "alma" nem o "espírito" é uma entidade samento moderno, apesar de nossa ênfase
componente que sobreviva à morte. A pes­ na dignidade e na importância da pessoa
soa humana é um corpo animado (—>66 aci­ individual. As pessoas sempre estiveram
ma), e não se concebe nenhuma outra forma preocupadas, e estão preocupadas agora,
de vida humana. Muitas vezes se menciona com o destino de seus filhos ou de outros
o mundo inferior do AT (Xeol) e, às vezes, que estão sob seus cuidados; eles vivem
ele é descrito vividamente (Is 14). Estas des­ após sua morte na influência que têm sobre
crições mostram que o Xeol, como o Aralu seus filhos.
da Mesopotâmia, não é mais que uma am­
pla sepultura onde os corpos dos mortos ja­ 172 Por qualquer valor que possam
zem inertes (Jó 10,21; 17,13-16). O Xeol não ter, deveríamos considerar também aque­
é uma forma de sobrevivência, mas uma las passagens do AT que parecem expres­
negação da sobrevivência; todos descem ao sar um esforço por algum tipo de forma de
Xeol, e o bem e o mal da vida cessam ali. vida após a morte. Alguns Salmos contêm
petições a favor da vida ou expressões de
( G r e l o t , P., De la mort à la vie eternelle [L D ação de graças pela concessão de vida; o
67; Paris, 1971], T r o m p , N., Primitive Conceptions contexto, não apenas desses Salmos, mas
of Death and the Netherworld in the Old Testament também do pensamento israelita, sugere
[BibOr 21; Rome, 1969].)
que o salmista fala de preservação de um
perigo particular à vida. M. Dahood (Psalms
171 O AT não exibe muitas vezes o pes­ 1-50 [AB 16; New York, 1966] xxxvi) argu­
simismo que se pode ver na literatura me­ mentou que há muito mais pensamento
sopotâmica (—» Literatura Sapiencial, 27:30­ acerca da imortalidade e ressurreição nos
31), exceto em passagens como Jó, o cântico Salmos do que se pensava anteriormente: o
de Ezequias (Is 38) e alguns Salmos (30;88). "inimigo" ao qual o salmista se opõe é fre­
Jó (3,11-19) expressa a amargura cínica de quentemente a morte (7,6; 13,3; 18,4; etc.).
uma vida não realizada, que parece tornar Mas cf. B. Vawter, JBL 91 (1972) 158-71.
a morte e o Xeol algo desejável; cf. também Consideremos em particular os Salmos
Jr 20,14-18. No geral, contudo, os israelitas 49 e 73, onde o salmista encara o proble­
consideram a morte o fim normal da vida, ma da universalidade da morte, que traga
pedindo apenas que lhes fosse permitido o justo assim como o ímpio. Visto que tan­
cumprir seus dias em paz - e a quantidade to o justo quanto o ímpio são mortais, que
consolo é para os retos ter certeza de que a Não há história do desenvolvimento da
morte é uma punição para os ímpios? Neste ideia. As tentativas de atribuir a crença à
contexto, quando o salmista expressa sua influência iraniana não foram bem sucedi­
fé em que Iahweh o libertará da morte, a das. Se as considerações mencionadas aci­
libertação dificilmente pode significar pre­ ma têm algum valor, elas indicam que esta
servação que distinguirá o justo de algum ideia distintivamente israelita surge da con­
perigo em particular; ela deve ser uma pre­ cepção israelita de Deus e do ser humano.
servação que distinguirá o justo do ímpio. A ressurreição não é, como a forma egípcia
Se estes salmos estiverem expressando tal de sobrevivência, meramente uma retomada
esperança, deve se observar que a esperan­ da existência terrena; ela implica uma nova
ça, embora infalível, é vaga e disforme em vida escatológica num novo mundo. Nem
extremo, repousando na segurança da co­ há meramente uma ressurreição dos justos;
munhão com Iahweh que é frequentemen­ a dignidade da pessoa humana é tal que ela
te expressa nos Salmos. A comunhão com resiste à extinção, mesmo nos perversos.
Iahweh é vida, e seguramente a comunhão
com um Deus amável e justo não deve ser 174 Uma outra forma de crença na so­
destruída exceto por rebelião deliberada. brevivência aparece em Sb, provavelmen­
Iahweh deve ter algum modo pelo qual a te escrita em Alexandria, no séc. I a.C. (—>
comunhão com ele possa ser preservada Sabedoria, 33:6, vol. I, AT). É evidente a
naqueles que são fiéis a ele; de outra forma influência da filosofia grega neste livro, e
não haveria diferença básica entre a retidão o escritor pode ter aceito a doutrina grega
e a perversidade. da imortalidade da alma. Esta ideia, como
vimos, não faz parte do entendimento isra­
173 O obstáculo a qualquer afirmação elita da constituição da natureza humana
mais explícita desta esperança é a concepção (—> 66 acima). Ela não cria raízes profun­
israelita da natureza humana e da vida hu­ das no pensamento do judaísmo ou no NT,
mana, que não conhece princípio que pos­ embora os essênios talvez tenham crido na
sa sobreviver à morte. Quando a esperança imortalidade (Josefo, Arit. 18.1.5. §18), e al­
é finalmente expressa, ela assume a única gumas passagens do NT possam se referir à
forma possível que ela pode ter no pensa­ imortalidade - veja J. Barr, Old and New in
mento israelita: a ressurreição do corpo. Interpretation (London, 1966) 52ss.
A esperança da ressurreição não é realmente
expressa na visão dos ossos secos de Ez 37; 175 (IV) Promessa e cumprimento. O es­
sob a imagem da ressurreição, o profeta ex­ tudo teológico cristão do AT está incomple­
pressa sua fé de que Israel sobreviverá à sua to a menos que se considere a relação do
extinção nacional de 587 a.C. Uma esperan­ AT com o NT. Jesus apresenta-se nos Evan­
ça de que o Servo de Iahweh triunfará sobre gelhos como o cumprimento da esperança
a morte parece ser expressa em Is 53,10-12, e do destino de Israel, e a protoigreja o se­
mas o caráter e a missão únicos do Servo não gue nisto. Esta apresentação implica certos
permitem a extensão desta esperança, se de princípios de interpretação e suscita vários
fato ela é expressa, a qualquer um à parte do problemas detalhados; somente os princí­
próprio Servo. A primeira expressão clara da pios são considerados aqui, e os problemas
esperança da ressurreição ocorre no período dos detalhes são deixados para os artigos
macabeu em Dn 12,2. Veja também Is 26,19 que tratam dos livros e das passagens em
na parte relativamente posterior de Isaías, separado.
conhecida como "o Apocalipse de Isaías" A afirmação do NT de que Jesus é o Mes­
(—» Isaías, 15:48-49, vol. I, AT) - a menos que sias (—> 178 abaixo) implica a unidade da
esta passagem simplesmente expresse a fé história sob um único plano divino de sal­
na sobrevivência de Israel. vação. Em Jesus, os atos de Deus relatados no
Antigo Testamento convergem e alcançam a unidade do conceito de Deus no AT e no
sua plenitude; nele a ideia do AT de histó­ NT. Mas quando Jesus falou de seu Pai, ele
ria e a esperança do AT quanto ao futuro se referiu ao Deus a quem todos os judeus
são levadas a termo. Israel não tem outro conheciam, o Iahweh cujo encontro com Is­
destino para o qual possa olhar - em Jesus rael é relatado no AT. Ele podia lhes falar
os atos salvadores e julgadores de Deus são de Iahweh como aquele que se revelou a
consumados. eles em sua história, e lhes expor a pleni­
tude da revelação deste Iahweh. O caráter
176 A unidade e continuidade do plano de Iahweh, seus atributos, sua providência
e da história da salvação não implicam que e seu governo da história podiam ser reco­
o AT não tenha sentido sem Jesus. Era a teo­ nhecidos na proclamação de Jesus.
ria de Orígenes e de muitos de seus segui­ A unidade dos temas se manifesta na
dores que o verdadeiro significado do AT unidade do vocabulário exibido nos dois
não era inteligível a menos que se interpre­ Testamentos. Quase todas as palavras teoló­
tasse cada palavra do AT como se referindo gicas centrais do NT são derivadas de algu­
a Cristo de algum modo (—» Hermenêutica, ma palavra hebraica que tinha uma longa
71:36, 38). Esta interpretação só é possível história de uso e desenvolvimento no AT.
mediante um tipo de alegorização que vai Jesus e os apóstolos usaram termos familia­
muito além do sentido do texto. Além disso, res. Obviamente isto não implica que estes
esta concepção deixa de reconhecer o valor termos não tenham passado por um de­
intrínseco do AT. Mesmo de um ponto de senvolvimento adicional no NT, mas a lin­
vista cristão, se nunca houvesse um NT, as guagem teológica que Jesus e os apóstolos
Escrituras Hebraicas manteriam seu valor usaram era a linguagem disponível a eles
porque foram um veículo por meio do qual e a seus ouvintes. A criação desta lingua­
Deus se revelou. A literatura do AT foi sig­ gem teológica não foi obra de um dia. Sem
nificativa para as pessoas que a produziram um pano de fundo do AT e das crenças e
e para aquelas para quem ela foi produzi­ tradições israelitas, a mensagem de Jesus
da; ele teve uma relevância e força contem­ teria sido ininteligível. A pesquisa contem­
porânea que pôde ser compreendida pelas porânea presta muita atenção ao estudo do
pessoas que não estavam cientes da forma vocabulário teológico do NT e às suas ra­
precisa que o desenvolvimento histórico ízes no AT (p.ex., TDNT), e o valor destes
da salvação assumiria. Na interpretação estudos é reconhecido universalmente.
moderna, considera-se que a primeira (mas
não a única) tarefa do intérprete é a apreen­ 178 Mas a unidade de temas é acom­
são deste significado israelita contemporâ­ panhada por um desenvolvimento que não
neo (—» Hermenêutica, 71:22). deve ser omitido ou minimizado. Embora
dificilmente haja uma palavra teológica
177 A unidade do plano e da história central que não seja comum a ambos os Tes­
da salvação implica a unidade dos temas tamentos, é provável que dificilmente haja
teológicos básicos do AT e do NT. Muitos uma palavra-chave que não tenha sido en­
dos temas do AT foram considerados nesta riquecida no NT. A inovação do fato cristão
avaliação, e dificilmente haja um que não se torna mais evidente a partir de um cui­
encontra seu desenvolvimento no NT. E um dadoso estudo do desenvolvimento do vo­
equívoco considerar os temas no NT como cabulário; o fato cristão nasce no judaísmo,
se eles não tivessem origem e crescimento mas não é derivado dele. O fato cristão é o
no AT, do qual os próprios escritores do NT mais novo e o mais radical dos atos salvífi-
tomaram seu ponto de partida. A heresia de cos de Deus; ele inicia uma revolução per­
Marcião, no séc. II, negava a relevância do manente que afeta o judaísmo tanto quanto
AT para a revelação cristã e, em particular, afeta o mundo em geral.
A novidade da revolução cristã não é as ideias que são chamadas de messiânicas.
bem percebida num esquema de interpreta­ A unificação transforma profundamente al­
ção que vê a relação do AT com o NT como gumas dessas ideias (—> 154 acima).
predição e cumprimento (—» Hermenêutica, Desdobramentos semelhantes podem ser
71:52). Sem negar a unidade da história e destacados em outras ideias-chave. A ideia
de temas, sustentamos que a realidade his­ de cumprimento, mencionada muitas vezes
tórica concreta de Jesus Cristo não é predi­ no NT, não é inevitavelmente cumprimento
ta literalmente em nenhuma parte do AT. de uma predição. A esperança ou o destino
Jesus excede os limites do conhecimento podem ser cumpridos; promessa pode ser
veterotestamentário de Deus, pois, em suas cumprida, e promessa é uma palavra mais
próprias palavras, ninguém põe vinho novo precisa para designar a relação do AT com
em odres velhos. A novidade radical de sua o NT. A promessa é cumprida com uma
pessoa e missão pode ser vista na própria abundância que não foi predita porque não
designação Messias/Cristo (—>Pensamento podia ser predita; ela não poderia ter sido
do NT, 81:12-24). A protoigreja proclamou entendida. Era necessário o crescimento re­
Jesus como o Messias, consciente de que ligioso de Israel a fim de que Jesus Cristo,
nenhuma figura semelhante a ele podia ser quando viesse, pudesse ser reconhecido
encontrada no AT. Ele é o Messias e é reco­ pelo menos por alguns como o que ele era.
nhecido como tal não porque ele pode ser Ele é, de fato, a chave para o entendimento
identificado com alguma predição particu­ do AT. Quanto a uma exposição mais ex­
lar ou com várias predições tomadas juntas, tensa sobre a relação dos dois Testamentos,
mas porque ele unifica em sua pessoa todas —>Hermenêutica, 71:30ss.