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Teologia Paulina
Joseph A. Fitzmyer, S.J.

B IB L IO G R A F IA

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2 ESBOÇO

INTRODUÇÃO PERSPECTIVAS DOMINANTES

Objetivos, limites, problemas (§ 3-9) A soteriologia cristocêntrica de Paulo (§ 24-80)


(I) A chave da teologia paulina (§ 24-30)
O pano de fundo de Paulo (§ 10-23) (II) O Evangelho de Paulo (§ 31-36)
(I) O pano de fundo fariseu e judaico (§ 10-11) (III) Deus e seu plano da história da salvação (§
(II) O pano de fundo helenístico (§ 12) 37-47)
(III) A revelação a Paulo (§ 13-15) (IV) A função de Cristo na história da salvação
(IV) Paulo, Jesus e a tradição primitiva (§ 16-20) (A) O Filho preexistente (§ 49-50)
(V) A experiência apostólica de Paulo (§ 21-23) (B) Christos (§ 51)
(C) Kyrios (§ 52-54) (A) Fé e amor (§ 109-111)
(D) Paixão, morte e ressurreição (§ 55-60) (B) Batismo (§ 112-115)
(E) O Senhor e o Espírito (§ 61-66) (C) Incorporação a Cristo (§ 116-127)
(V) Efeitos do evento Cristo (a) Expressões com preposição (§ 116­
(A) Justificação (§ 68-70) 121)
(B) Salvação (§ 71) (b) Corpo de Cristo (§ 122-127)
(C) Reconciliação (§ 72) (D) Eucaristia (§ 128-132)
(D) Expiação (§ 73-74) (E) A igreja (§ 133-137)
(E) Redenção (§ 75)
(F) Liberdade (§ 76) A ética de Paulo (§ 138-151)
(G) Santificação (§ 77) (I) Dupla polaridade da vida cristã (§ 138-139)
(H) Transformação (§ 78) (II) Ética e teologia paulina (§ 140)
(I) N ova Criação (§ 79) (III) A vida cristã e suas exigências
(J) Glorificação (§ 80) (A) Listas éticas (§ 142-143)
(B) Consciência (§ 144)
A antropologia de Paulo (§ 81-137) (C) Lei natural (§ 145)
(I) A humanidade antes de Cristo (D) Oração e ascetismo (§ 146)
(A) O pecado (§ 82-88) (E) Matrimônio, celibato e viuvez (§ 147-148)
(B) A lei e os espíritos (§ 89-100) (F) Sociedade, Estado e escravidão (§ 149­
(C) Os seres humanos (§ 101-107) 151)
(II) A humanidade em Cristo Conclusão (§ 152)

Introdução

O BJETIVO S, LIM ITES, PROBLEMAS

3 Um esboço da teologia paulina pre­ Além disso, uma apresentação da teo­


cisa levar em conta o caráter dos escritos logia "paulina" é uma admissão de que
do apóstolo, que não oferecem uma apre­ a concepção de Paulo a respeito da expe­
sentação sistemática de seu pensamento. riência cristã é apenas uma entre várias
A maior parte do que Paulo escreveu foi teologias presentes no Novo Testamento.
composto ad hoc - para tratar de problemas E imperativo respeitar a teologia de Pau­
concretos por meio de cartas. Ele desen­ lo e não confundi-la com a de João, a de
volveu nelas certos temas e exortou suas Lucas ou a de qualquer outro. Ela deve
igrejas à prática de uma vida cristã mais ser estudada em e por si mesma. Esta pre­
intensa. Praticamente cada carta existente caução não quer dizer que seja impossível
exemplifica esta dupla finalidade. Isto tam­ uma teologia do NT ou que se devam es­
bém explica como ele podia misturar ele­ perar contradições entre Paulo e outros es­
mentos de revelação, fragmentos do que- critores do Novo Testamento. O NT como
rigma primitivo, ensinamentos de Cristo, um todo dá testemunho de uma fé num
interpretações do AT, uma compreensão só Senhor, um só batismo, um só Deus e
pessoal do evento Cristo e até mesmo suas Pai de todos (Ef 4,5-6), e uma teologia que
próprias opiniões particulares. Qualquer explique esta única fé não é algo impos­
tentativa, portanto, de esquematizar a "te­ sível. Mas uma apresentação como esta
ologia" paulina precisa tentar levar em será mais rica se as nuanças dos escritores
conta as nuanças variadas do pensamento individuais do NT forem respeitadas (—>
e expressão do apóstolo. Canonicidade 66:93-97).
4 Um esboço da teologia paulina é uma diferente do significado pretendido por
sistematização do pensamento do apóstolo Paulo para seus contemporâneos. Qual­
numa forma na qual ele mesmo não o apre­ quer tentativa de entendê-lo que deixe de
sentou. Uma sistematização como esta terá reconhecer uma homogeneidade radical
pouco valor se ela forçar seu pensamento entre seu significado "atualmente" e "na­
a se ajustar a categorias estranhas a ele ou quela época" deixa de trazer sua mensagem
se tentar simplesmente apresentar "pro­ inspirada para as pessoas hoje. Um esboço
vas" para um sistema teológico nascido válido da teologia paulina precisa, portan­
de uma outra inspiração. O esforço para to, determinar, antes de mais nada, o que
sistematizar o pensamento de Paulo deve Paulo quis dizer, e neste sentido precisa ser
respeitar as categorias dele tanto quanto descritiva. Os meios para se alcançar isto
possível, com a devida consideração para não são a lógica ou a metafísica de algum
com o grau desigual de suas afirmações e sistema filosófico estranho a ele, embora
a diversidade dos contextos formativos. uma transposição como esta possa ser legí­
O princípio orientador de um esboço como tima ou frutífera para outros fins. Os meios
este, portanto, não pode ser um princípio são, antes, os da crítica filológica, histórica e
extrínseco, seja ele aristotélico, tomista, he- literária, unidos a uma empatia da fé cristã.
geliano ou heideggeriano. Em outras palavras, as pessoas que esbo­
çam a teologia de Paulo numa apresentação
5 Embora o objetivo primordial seja uma descritiva compartilham a mesma fé com
apresentação descritiva da concepção pauli­ Paulo e procuram por meio dela determinar
na da fé cristã, este esboço também pretende o significado de Paulo para o presente. Em­
ser uma apresentação teológica normativa. bora os biblistas, ao tentar descobrir o que
Ele objetiva acima de tudo determinar o que Paulo queria dizer, empreguem as mesmas
Paulo queria dizer quando escreveu aos cris­ ferramentas de interpretação usadas pelos
tãos a quem se dirigiu nesse momento, mas historiadores da religião - ou, aliás, pelos
também objetiva apurar o significado de sua intérpretes de qualquer documento da An­
teologia para os cristãos de hoje. Este esboço tiguidade - , eles também afirmam que, por
não é meramente um estudo do pensamento meio de Paulo, "o único Senhor [...] o único
de Paulo como um historiador das religiões Deus e Pai de todos" está comunicando uma
(agnóstico ou crente) poderia apresentá-lo; mensagem inspirada a eles e às pessoas de
ele não tenta simplesmente determinar o seu tempo. A pressuposição fundamental é
que Paulo ensinou, o que o influenciou, ou o caráter inspirado do corpus paulino, uma
como seus ensinamentos se encaixam na questão de fé. A exposição e a compreensão
história geral das ideias helenísticas, judai­ paulinas da fé cristã são esboçadas de um
cas ou cristãs. A teologia de Paulo é uma modo significativo e relevante para os cris­
exposição da herança bíblica inspirada dos tãos de uma era posterior (—> Hermenêuti­
protocristãos, e a palavra de Deus proposta ca, 71:10,21).
em sua exposição ainda tem um significado
existencial para a fé das pessoas hoje. Des­ 7 Esta empatia da fé cristã é às vezes
te modo, a teologia de Paulo é uma parte da expressa em termos da "analogia da fé",
teologia bíblica normativa, da mesma forma uma expressão que, em última análise, de­
que a própria teologia bíblica é apenas uma riva-se do próprio Paulo (Rm 12,6). Ela não
parte da teologia normativa como tal. Exis­ pode ser usada para insistir que a totalidade
tem dois poios na teologia bíblica, um des­ da fé cristã deve ser encontrada em Paulo
critivo e outro normativo. ou mesmo que seu pensamento deve ser in­
terpretado de acordo com o sentido do pro­
6 O "significado para a fé das pessoas gresso dogmático posterior, com suas pre-
hoje" não pode ser algo completamente cisões e nuanças específicas. Se uma noção
seminal formulada por Paulo passou, com rito guardou os desdobramentos dogmáti­
o tempo, por um desenvolvimento dogmá­ cos autênticos dos períodos posteriores de
tico por causa de uma situação polêmica ou contradizerem as formulações e concepções
de uma decisão conciliar na igreja, então seminais. Mas esta proteção não significa
esta noção seminal deve ser reconhecida que a flor completa já esteja presente na se­
como tal. Pode ocorrer que a noção seminal mente. Daí a necessidade de se respeitar a
seja expressa por Paulo de uma forma vaga, teologia paulina como ela é (—> Hermenêu­
"aberta"; e, assim formulada, de modo con­ tica, 71:83).
cebível ela poderia (por critérios filológi­
cos) ter se desenvolvido de um modo ou de (B a k r , ]., "Biblical Theology", IDBSup 104-11,
outro. Mas o desenvolvimento dogmático K ä sem a n n , E., "The Problem of a New Testament
posterior pode ter removido esta abertura Theology", NTS 19 [1972-73] 235-45. M e r k , O.,
"Biblische Theologie: II. Neues Testament", TRE
da formulação, no que diz respeito à tradi­
6.455-77. R ic h a r d s o n , A., "H istorical Theology
ção cristã. Todavia, isto não significa que o and Biblical T heology", C/T 1 [1955] 157-67.
historiador dos dogmas ou o teólogo dog­ S t e n d a h l , K ., "Biblical Theology, Contemporary",
mático possam insistir que este desenvol­ IDE 1. 818-32. S t r e c k e r , G., [ed.], Das Problem der
vimento posterior seja o significado preciso Theologie des Neuen Testaments [WF 367; Darms­
de um texto de Paulo. Estes especialistas tadt, 1975].)
não têm um carisma com o qual possam ler
mais em um texto paulino "aberto" do que 8 Este esboço de teologia paulina parte
pode fazer o exegeta ou biblista. Entender da existência de sete cartas incontestáveis
a "analogia da fé" de tal modo a retrojetar do corpus paulino: ITs, Gl, FI, l-2Cor, Rm
para Paulo um significado posterior seria e Fm. Atualmente, três cartas deste corpus,
falso para com ele e para com a autonomia 2Ts, Cl e Ef, são controversas e frequente­
inspirada de sua concepção e formulação. mente consideradas deuteropaulinas (i.e.,
Esta analogia deve, antes, ser entendida em escritas por um discípulo de Paulo). As três
termos da totalidade da fé bíblica paulina. "cartas pastorais" (Tt l-2Tm) criam um pro­
Obviamente, o biblista não se contenta com blema ainda maior; sua relação com os dois
a interpretação de passagens individuais grupos de cartas precedentes é, na melhor
em seu contexto imediato (i.e., com a exege­ das hipóteses, pseudepigráfica (—»Epístolas
se). Ele procura expressar toda a mensagem do NT, 45:12, —» Canonicidade, 66:87-89).
paulina, que transcende a situação contex­ Seguindo outros intérpretes católicos mo­
tuai e abarca também o significado relacio­ dernos, omitiremos os dados das pastorais.
nal das afirmações paulinas. As referências às deuteropaulinas, quando
Embora a teologia bíblica normativa seja necessárias, serão colocadas entre parênte­
apenas uma parte do complexo mais amplo ses. A teologia de Hb é um problema à parte
da teologia cristã, ela goza efetivamente e não é tratada como paulina (—> Hebreus,
de sua própria autonomia de formulação 60:2). O material em At que diz respeito ao
e concepção. Embora seja inicial, pois ela ensino de Paulo pode ser, na melhor das
não pode ser considerada a resposta teoló­ hipóteses, usado para fins comparativos,
gica plena para os problemas atuais, ela é visto que de fato faz parte do retrato lucano
privilegiada: tenta formular de modo sis­ de Paulo e pertence mais apropriadamente
temático o que as testemunhas da tradição à teologia lucana.
protocristã foram inspiradas a expressar
de seu próprio modo. Ela trata imediata e 9 Pode-se detectar algum desenvol­
exclusivamente da única forma de tradição vimento no ensino de Paulo? Esta é uma
cristã que desfruta do carisma divino dis­ questão controversa. Aqueles que, no
tintivo da inspiração. E verdade que, para passado, admitiam um desenvolvimento
o cristão, a orientação permanente do Espí­ reconheciam um corpus de dez ou mais
cartas paulinas; e assim, por exemplo, não refletindo a escatologia primitiva da pro-
era difícil detectar um desenvolvimento toigreja. Posteriormente observa-se uma
no ensinamento eclesiológico de Paulo, conexão mais intima entre a paixão, morte
quando se passava das cartas incontestá­ e ressurreição de Cristo e os seres huma­
veis a Cl e Ef, e depois para as pastorais. nos que encontram a salvação nele. Cristo
Mas este suposto desenvolvimento faz tornou-se um "poder", que produz nova
precisamente parte da razão pela qual se vida nos crentes cristãos que finalmente
destingem as cartas paulinas como no § 8 assegura sua ressurreição e vida "com
acima. A concepção da maioria atualmen­ Cristo" (veja F13,10-11; cf. Rm 6,4). Nova­
te pergunta se se pode detectar um desen­ mente, o tratamento paulino do papel da
volvimento nas sete cartas que formam lei mosaica na vida humana se desenvol­
o grupo incontestável (veja W. G. Küm­ ve de G1 para Rm (—» 95 abaixo).
mel, NTS 18 [1971-72] 457-58). Todavia,
pode se observar às vezes diferenças nas (A llo , E .-B ., " L ’ 'E v o lu tio n ' d e 1’év an g ile de
questões (frequentemente de importância P a u l," VP 1 [1941] 48-77, 165-93, B uck , C. e G.
secundária) que revelam algum desenvol­ T aylor , Saint Paul: A Study of the Development of
His Thought [New York, 1969]. D odd, C. H ., "T h e
vimento. Por exemplo, na Primeira carta,
M in d o f P au l, I and II", New Testament Studies
lT s 4,14, encontra-se apenas uma conexão
[Manchester,1953] 67-128. H urd , J. C., The Origin of
extrínseca entre a ressurreição de Cristo I Corinthians [L ondon, 1965] 8-12. L ester-G arland,
e a ressurreição gloriosa dos cristãos: por L. V ., "T h e Sequence o f T h o u g h t in the Pauline
meio de Jesus, Deus levará com ele aque­ E p is tle s ", Theology 33 [1936] 228-38. L owe, J., " A n
les que morreram. Ela é, assim, expressa E x am in atio n o f A ttem p ts to D etect D ev elo p m en t
numa descrição apocalíptica do eschaton, in St. P a u l’s T h e o lo g y ", JTS 42 [1941] 129-42).

O PANO DE FUNDO DE PAULO

Cinco fatores que influenciaram a teolo­ às passagens que cita (p.ex., Hab 2,4 em Rm
gia de Paulo podem ser considerados; nem 1,17 ou G13,11; Gn 12,7 em G13,16; Ex 34,34
todos eles têm a mesma importância. em 2Cor 3,17); ele pode alegorizar um texto
(Gn 16,15; 17,16 em G14,21-25) ou tirá-lo de
10 (I) O pano de fundo fariseu judai­ seu contexto original (Dt 25,5 em iCor 9,9).
co. Não se deveria permitir que as passa­ O uso do AT por Paulo não se conforma a
gens polêmicas nas quais Paulo reage con­ nossas ideias modernas de citação da Es­
tra a lei mosaica obscureçam o fato de que critura, mas corresponde ao modo judaico
até mesmo o Paulo cristão lembrava com contemporâneo de interpretação e deve ser
orgulho sua vida como judeu de tradição julgado à luz disto. O fato de que ele foi ins­
farisaica (F1 3,5-6; G1 1,14; 2Cor 11,22). Este pirado pelo Espírito para interpretá-la des­
forte pano de fundo judaico explica o fato te modo não significa que sua interpretação
de que ele pensa e se expressa em categorias sempre revele um sentido oculto, mais pro­
e imagens do AT. Também explica seu uso fundo (literal), insuspeito de outra forma.
abundante do AT, o qual ele cita explicita­ Todavia, seu pano de fundo judaico o faz
mente quase 90 vezes (todavia, nunca em citar o AT para enfatizar a unidade da ação
lTs, F1 ou Fm). Embora seu uso do AT seja de Deus em ambas as dispensações e fre­
muitas vezes semelhante ao dos autores de quentemente como anúncio do evangelho
Qumran e outras formas de literatura judai­ cristão (Rm 1,2) ou preparação para Cristo
ca intertestamentária, ele geralmente a cita (G13,24). Mesmo que ele contraponha a "le­
de acordo com a LXX. As vezes, ele acomo­ tra (da lei) e o Espírito" (2Cor 3,6; Rm 2,29;
da o texto do AT ou dá um significado novo 7,6), o AT ainda é para ele um meio pelo
qual Deus fala à humanidade (ICor 9,10; tativas de se detectar aramaismos no gre­
2Cor 6,16-17; cf. Rm 4,23; 15,4). Na verda­ go de Paulo (veja W. C. van Unnik, Sparsa
de, a maior parte de sua teologia (no senti­ collecta [NovTSup 29; Leiden, 1973] 129-43)
do estrito, ensinamento sobre Deus) e sua não foram bem sucedidas, ainda que Pau­
antropologia (ensinamento acerca dos seres lo, ao chamar-se de "hebreu" (Fl 3,5), talvez
humanos) revela claramente este pano de quisesse dizer que também falava aramai-
fundo judaico. co, uma língua semítica amplamente usada
em sua época na Síria e na Ásia Menor.
11 Segundo a descrição de Lucas, Pau­ Mesmo que Paulo não tenha sido forma­
lo foi formado por um rabino em Jerusalém do como um rhêtõr profissional, seu modo
(—» Paulo, 79-18), mas o próprio Paulo nun­ de escrever e expressar-se frequentemente
ca diz qualquer coisa acerca de seu pano revela a influência da retórica grega. Veja
de fundo "rabínico". Embora ele tenha se a análise de Gálatas segundo a retórica e a
identificado como ex-fariseu (F1 3,5), como epistolografia greco-romana feita por H. D.
membro do grupo judaico do qual veio a Betz (Galatinas [Hermeneia; Philadelphia,
tradição rabínica posterior, deve-se usar de 1979] 14-25). Em suas cartas se encontram
discernimento ao se apelar para esta litera­ traços do modo de argumentação cínico-
tura para ilustrar seu pano de fundo judai­ -estoico chamado diatribe, um modo de dis­
co, visto que a esmagadora maioria dela não curso desenvolvido em estilo de conversa­
ter sido registrada por escrito até a época do ção familiar e por meio de um debate vívido
rabino Judá o Príncipe, no início do séc. 111 com um interlocutor imaginário; a estrutura
d.C. (—» Apócrifos, 67:133-35). de suas orações é muitas vezes curta, e per­
guntas são inseridas; antíteses e expressões
(B ring, R., "P au l and the Old T estam en t", paralelas frequentemente estão entremea­
ST 25 [1971] 21-60. B yrne, B v 'Sons of God'-'Seed das no desenvolvimento (veja J. Nelis, NRT
of Abraham’ [AnBid 83; Rom a, 1979]. D avies, W. 70 [1948] 360-87). Encontram-se bons exem­
D ., "P au l and the D ead Sea Scrolls: Flesh and
plos deste estilo em Rm 2,1-20; 3,1-9; 9,19;
Spirit", in The Scrolls and the New Testament [ed.
ICor 9. Outrora foi moda atribuir ao pano
K. S tendahl; New York, 1957] 157-82. E llis, E. E.,
Paul ’s Use of the Old Testament [Grand Rapids, de fundo helenístico de Paulo termos como
1981]. E spy, J. M., "P au l’s 'R obust Conscience' Re­ "Senhor", "Filho de Deus", "carne e espí­
-exam ined", NTS 31 [ 1985] 161-88. F itzmyer, J. A., rito" e "mistério" e atribuir ao gnosticismo
"The Use of Explicit Old Testam ent Quotations in helenístico seu uso de "Adão" e "Homem",
Q um ran Literature and in the N ew Testam ent", um mito sobre o redentor, a preexistência, a
ESBNT 3-58. M urphy-O ’C onnor, J. [ed.], Paul and instrumentalidade de Cristo na criação, etc.
Qumran [Chicago,1068], S anders, E. P., Paul and Mas foi mostrado que muitos destes termos
Palestinian Judaism [Philadelphia, 1977]. Sobre o e noções eram comuns no judaísmo do séc.
problem a rabínico: D aube, D ., The New Testament
I, até mesmo na Palestina, que nos últimos
and Rabbinic Judaism [London, 1956], D avies, W.
séculos pré-cristãos teve de lidar com a in­
D., Jewish and Pauline Studies [Philadelphia, 1984];
Paul and Rabbinic Judaism [Philadelphia, 1980].) fluência helenística e o uso do AT em grego.
Enquanto as ilustrações de Jesus muitas
vezes refletem a vida agrária da Galileia,
12 (II) O pano de fundo helenístico. Paulo frequentemente usa imagens deriva­
Apesar da forte mentalidade judaica de Paulo, das da cultura urbana, especialmente hele­
fatores como seu uso de um nome romano, nística. Ele usa a terminologia política grega
seu recurso ao AT em grego e sua composi­ (Fl 1,17; 3,20), alude a jogos gregos (Fl 2,16;
ção de cartas em grego mostram que ela era ICor 9,24-27), emprega termos comerciais
um judeu da Diáspora. Embora não escreva gregos (Fm 18) ou terminologia jurídica (G1
no koinê literário, seu estilo revela uma boa 3,15; 4,1-2; Rm 7,1) e se refere ao comércio
formação grega (—»Paulo, 79:16-17). As ten­ helenístico de escravos (ICor 7,22; Rm 7,14)
ou a celebrações helenísticas em homena­ em um apóstolo, mas também fez dele o
gem à visita de um imperador (lTs 2,19). primeiro teólogo cristão. A única diferença
Emprega as ideias helenísticas de eleutheria, entre esta experiência, na qual Cristo apa­
"liberdade" (G1 5,1,13), e syneidêsis, "cons­ receu a ele (ICor 15,8), e a experiência das
ciência" (ICor 8,7.10.12; 10,25-29; 2Cor 5,11; testemunhas oficiais da ressurreição (ICor
Rm 2,15) e as ideias estóicas de autarkeia, 15,5-7), era que sua visão ocorreu muito
"suficiência, contentamento" (2Cor 9,8), e depois. Ela o colocou em pé de igualdade
physis, "natureza" (Rm 2,14). Observe es­ com os Doze e outros que tinham visto o
pecialmente o vocabulário helenístico em Senhor. Paulo falou dela como um aconteci­
F14,8: prosphilês, "amável", euphêmos, "hon­ mento no qual ele foi "alcançado" por Cris­
roso", aretê, "excelência moral", e epainos, to Jesus (F1 3,12) e na qual lhe foi imposta
"algo digno de louvor". Em ICor 15,33 ele uma "necessidade" de pregar o evangelho
até mesmo cita Menandro, Thais, frag. 218. aos gentios (ICor, 9,16; cf. G1 1,16b). Com­
Esta influência helenística é detectada mais parou esta experiência à criação da luz por
no ensinamento ético de Paulo do que em Deus: "porquanto Deus, que disse: do meio
sua teologia propriamente dita. das trevas brilhe a luz!, foi ele mesmo quem
reluziu em nossos corações, para fazer bri­
(Betz, H. D., Der Apostel Paulus und die sokratische lhar o conhecimento da glória de Deus, que
Tradition [B H T 4 5 ; T ü b in g e n , 1972], B ro n e e r, resplandece na face de Cristo" (2Cor 4,6).
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paulinischen Predigt und die kynisch-stoische Diatribe
vívida, na qual ele confessava junto com a
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protoigreja que "Jesus é Senhor" (ICor 12,3;
St. Paul and Epicurus [M in neapolis, 1954]. Hugedé,
N v Saint Paul et la culture grecque [G èn èv e, 1966],
cf. Rm 10,9; F1 2,11). Num ato criativo, esta
K oester, H ., " P a u l and H e lle n ism ", The Bible in experiência iluminou a mente de Paulo e
Modern Scholarship [ed. P. J. H y a tt; N e w Y o rk , lhe deu uma percepção acerca do que um
1965] 187-95. P fitzn er, V . C ., Paul and the Agon discípulo posterior chamou de "o mistério
Motif [N ov T Su p 16; L eid en , 1967], Stow ers, S. K., de Cristo" (Ef 3,4).
The Diatribe and Paul ’s Letter to the Romans [SBLD S
5 7; C h icag o , 1981].) 14 Esta "revelação" (G11,12.16) fez Pau­
lo perceber, primeiro, com a unidade da ação
13 ( I I I ) A r e v e l a ç ã o a P a u l o . A teolo­divina para a salvação de toda a humanida­
gia de Paulo foi influenciada acima de tudo de, que se manifesta tanto na antiga quanto
por sua experiência próximo a Damasco e na nova dispensação. Como resultado do
por sua fé no Cristo ressurreto como o Filho encontro com o Cristo ressurreto, Paulo
de Deus que se desenvolveu a partir desta não se tornou um marcionita que rejeitava o
experiência. Atualmente os estudiosos do AT. O Pai que revelou seu Filho a Paulo era
NT estão menos inclinados do que os das o mesmo Deus que o fariseu Paulo sempre
gerações anteriores a considerar esta expe­ servira. Era ele o Criador, o Senhor da his­
riência meramente como uma "conversão" tória, o Deus que salvou continuamente seu
psicológica, a ser explicada em termos do povo, Israel, e que demonstrou ser Senhor
pano de fundo judaico de Paulo ou da com­ da aliança apesar das infidelidades de Israel.
preensão de Rm 7 como um relato biográfi­ Provavelmente porque fora um fariseu pre­
co. O próprio Paulo fala desta experiência ocupado com as minúcias da lei, Paulo nun­
como uma revelação do Filho concedida ca manifestou uma compreensão profunda
a ele pelo Pai (G1 1,16); nela ele "viu o Se­ desta "aliança", falando com pouca frequ­
nhor" (ICor 9,1; cf. ICor 15,8). A revelação ência dela. Todavia, sua experiência perto
do "Senhor da glória" crucificado (ICor de Damasco não alterou seu compromisso
2,8) não apenas transformou o fariseu Paulo fundamental com o "único Deus".
Segundo, aquela visão lhe ensinou o va­ introduzindo, assim, uma nova perspectiva
lor soteriológico da morte e ressurreição de na história da salvação. O eschaton, "fim dos
Jesus o Messias no plano salvífico de Deus. tempos", tão avidamente aguardado antes,
Se sua teologia básica não mudou, sua cris- já tinha começado (ICor 10,11), embora um
tologia mudou, sim. Como judeu, Paulo estágio definitivo dele ainda devesse ser re­
compartilhara das expectativas messiânicas alizado (como se esperado, num futuro não
de seu povo (veja Dn 9,25; 1QS 9:11), aguar­ muito distante). O Messias viera, mas ainda
dando a vinda de um messias (de algum não em glória. Paulo se deu conta de que ele
tipo). Mas a visão do Cristo ressurreto lhe (junto com todos os cristãos) encontrava-se
ensinou que o Ungido de Deus já tinha vin­ numa dupla situação: uma na qual ele olha­
do, que ele era "Jesus nosso Senhor, o qual va para a morte e ressurreição de Jesus no
foi entregue pelas nossas faltas e ressuscita­ passado como a inauguração de uma nova
do para nossa justificação" (Rm 4,25). Antes era, e uma outra na qual ele ainda aguar­
de sua experiência perto de Damasco, Paulo dava sua vinda em glória, sua parúsia (—»
certamente sabia que Jesus de Nazaré fora Pensamento do NT, 81:13).
crucificado, "pendurado num madeiro" e,
por isso, "amaldiçoado" no sentido de Dt 15 Muito mais do que seu pano de
21,23 (veja G1 1,13; 3,13). Indubitavelmen­ fundo farisaico, portanto, ou até mesmo
te esta era uma das razões pelas quais ele, de suas raízes culturais helenísticas, esta
como fariseu, não podia aceitar Jesus como revelação de Jesus deu a Paulo uma per­
o Messias. Jesus era "uma pedra de tropeço" cepção inefável do "mistério de Cristo".
(ICor 1,23), um "amaldiçoado" pela pró­ Ela o capacitou a moldar seu "evangelho",
pria lei que Paulo tão zelosamente observa­ a pregar a boa novã fundamental de salva­
va (G13,13; cf. 1,14). Mas esta revelação lhe ção de uma forma que era caracteristica­
mostrou enfaticamente o valor messiânico, mente sua. Contudo, Paulo não entendeu
soteriológico e vicário da morte de Jesus imediatamente todas as implicações da
de Nazaré de um modo que ele nunca sus­ visão concedida a ele. Ela lhe deu apenas
peitou antes. Com uma lógica que apenas uma percepção básica que iria colorir tudo
um fariseu poderia apreciar, Paulo viu Je­ o que ele aprenderia acerca de Jesus e sua
sus tomando sobre si a maldição da lei e missão entre os seres humanos, não ape­
transformando-a em seu oposto, de modo nas a partir da tradição da protoigreja, mas
que ele tornou-se o meio de libertar a hu­ também a partir de sua própria experiên­
manidade da maldição. A cruz, que fora a cia apostólica na pregação do "Cristo cru­
pedra de tropeço para os judeus, tornou-se cificado" (ICor 1,23).
aos olhos de Paulo o "poder de Deus e sa­
bedoria de Deus" (ICor 1,24). Daí em dian­ (Becker, Paul the Apostle 3-10; em Port.: Paulo vida,
te, ele entenderia este "Senhor da glória" e obra e teologia, Ed. Academia Cristã, 2008. Jeremias,
crucificado (ICor 2,8) como seu Messias J., "The Key to Pauline Theology", ExpTim 76 [1964]
27-30. Menoud, P.-H., "Revelation and Tradition:
exaltado.
The Influence of Paul’s Conversion on His Theology",
Terceiro, esta revelação deu a Paulo uma Int 7 [1953] 131-41. M unck, J., Paul and the Salvation
nova visão da história da salvação. Antes do of Mankind [Richmond, 1959] 11-35. Rigaux, Letters
encontro com o Senhor, Paulo via a história 40-67. Stob, H. "The Doctrine of Revelation in
humana dividida em três grandes períodos: Paul", CTf 1 [1966] 182-204. W oo d , H. G., "The
(1) de Adão a Moisés (o período sem a lei); Conversion of St. Paul", NTS 1 [1954-55] 276-82).
(2) de Moisés até o Messias (o período da
lei); (3) a era messiânica (o período no qual 16 (IV ) P a u lo , Je s u s e a tr a d iç ã o p r i­
a lei seria aperfeiçoada ou consumada). Se a principal inspiração da teologia
m itiv a .
A experiência perto de Damasco lhe ensi­ de Paulo foi a revelação concedida perto de
nou que a era messiânica já tinha começado, Damasco, este evento não foi a única fonte
de seu conhecimento acerca de Cristo e do 3,11), ou "o Messias" (Rm 9,5). Ele herdou
movimento cristão. Paulo não foi o funda­ também diversos termos teológicos, p.ex.,
dor do movimento, mas uniu-se a ele após os títulos "Senhor", "Filho de Deus"; a pa­
a atividade missionária ter sido iniciada lavra "apóstolo"; as expressões baptizõ eis,
por aqueles que eram apóstolos antes dele "igreja de Deus", etc. Finalmente, algumas
(G1 1,17). Portanto, é peovável a priori que partes exortativas de suas cartas que em­
Paulo tenha herdado da tradição inicial pregam terminologia estereotipada suge­
da igreja pelo menos algumas ideias a res­ rem que Paulo está incorporando material
peito de Cristo. A princípio esta observa­ parenético ou catequético extraído do uso
ção poderia parecer contradizer o que ele corrente (lTs 4,1-12; ICor 6,9-10; Gl 5,19­
mesmo diz em G1 acerca da origem de seu 21; [Ef 5,5]).
evangelho, que ele não lhe foi ensinado e
veio a ele por meio de uma revelação de 17 Às vezes Paulo chama explicita­
Jesus Cristo (1,11.15-17; 2,6). Todavia, es­ mente a atenção para o fato de que está
pecialmente aqui, devemos ser sensíveis "passando adiante" (paradidonai) o que "re­
às nuanças da expressão de Paulo: estas cebeu" (paralambanein); veja ICor 11,2.23;
passagens em G1 foram escritas no calor 15,1.3. Assim, ele usa os equivalentes gre­
da controvérsia. Paulo estivera sob ataque, gos do vocabulário técnico da tradição
acusado de não ser um verdadeiro após­ paralela nas escolas rabínicas: mãsar lé-,
tolo e de pregar apenas uma falsa versão "transm itir"; qibbêl min, "receber de". Ele
aguada do evangelho por causa de sua apela também para os costumes das igre­
atitude para com a lei de Moisés e as prá­ jas (ICor 11,16) e recomenda fidelidade à
ticas judaicas. Quando escreveu Gl, Paulo tradição (lTs 2,13; F1 4,9; ICor 11,2; 15,2;
estava ansioso, portanto, para enfatizar Rm 6,17; [cf. 2Ts 2,15; 3,6]). O. Cullmann
sua comissão apostólica divina, direta e (RHPR 30 [1950] 12-13) acha surpreenden­
não delegada assim como a origem divina te que Paulo tenha aplicado uma noção tão
de seu evangelho (—» Pensamento do NT, desacreditada à doutrina normativa e aos
81:151-52). preceitos morais da comunidade primiti­
Porém não se deve permitir que esta ên­ va, quando se recorda como Jesus reagiu
fase obscureça o que se encontra em outras justamente à paradosis dos judeus (Mc 7,3­
partes de suas cartas, indicando claramen­ 13; Mt 15,2). Obviamente, Paulo via algo
te uma dependência da tradição apostólica diferente aqui; não era para ele meramente
da protoigreja - de seu querigma, liturgia, "a tradição dos seres humanos" (Mc 7,8).
hinos e fórmulas confessionais, termino­ Cf. lT s 2,13.
logia teológica e parênese. Fragmentos
do querigma primitivo se encontram nas 18 Um outro aspecto da dependência
cartas de Paulo: lT s 1,10; Gálatas 1,3-4; 1 de Paulo em relação à tradição da protoi­
Coríntios 15,2-7; Romanos 1,3-4; 4,25; 8,34; greja se vê em sua familiaridade com o que
10,8-9. Ele incorporou elementos da litur­ Jesus fez e ensinou. Paulo não dá qualquer
gia nelas: a fórmula eucarística (de ori­ indício de ter conhecido pessoalmente Je­
gem antioquena? ICor 11,23-25); orações sus em seu ministério terreno (—» Paulo,
como "Am ém " (lT s 3,13[?1; Gl 6,18; cf. 79:18); nem mesmo 2Cor 5,16 precisa im­
ICor 14,16; 2Cor 1,20), “Maranata" (ICor plicar que ele o conhecesse. Tampouco se
16,22), " Abba, Pai" (Gl 4,6; Rm 8,15); doxo- deveria imaginar que Paulo tenha recebi­
logias (Gl 1,5; F1 4,20; Rm 11,36; 16,27 [?]) do uma visão cinemática deste ministério
e hinos (F1 2,6-11; [cf. Cl 1,15-20; Ef 5,14]). por ocasião de sua experiência em Damas­
Suas fórmulas confessionais também re­ co. E notável quão pouco suas cartas mos­
fletem o uso da igreja: "Jesus é Senhor" tram conhecimento de Jesus de Nazaré ou
(ICor 12,3; Rm 10,9), "Jesus Cristo" (ICor mesmo do que é registrado sobre ele nos
evangelhos. Uma razão disto é que Paulo ter peculiarmente teológico ou querigmáti-
escreveu suas cartas antes dos evangelhos co. Paulo pode ter aprendido o esboço dos
tomarem a forma em que os conhecemos. últimos dias de Jesus da protoigreja, mas
Todavia, uma razão ainda mais importan­ provavelmente alguns dos detalhes já eram
te é que Paulo, não tendo sido testemunha conhecidos dele antes de sua conversão e
ocular, enfatiza os efeitos salvíficos da pai­ estavam relacionados à sua perseguição da
xão, morte e ressurreição de Cristo/ que "igreja de Deus" (Gl 1,13).
para ele transcendem os dados do ministé­
rio histórico de Jesus. Seu interesse reside 20 Aspectos como estes sugerem que
nesses acontecimentos culminantes, e não Paulo derivou informações das tradições
nas minúcias do modo de vida de Jesus, das protoigrejas (Jerusalém, Damasco, An-
seu ministério, sua personalidade ou até tioquia). Além disto, sua visita a Jerusa­
mesmo sua mensagem. Ocasionalmente lém, quando ele passou 15 dias com Cefas
ele pode aludir a ou citar um dito de Je­ (Gl 1,18), apoiaria isto (—» Gálatas, 47:16).
sus (lTs 4,2.15; 5,2.13,15; ICor 7,10-11 [cf. Mas estas informações eram sempre trans­
25]; 9,14; 11,23-25; 13,2; Rm 12,14.17; 13,7; formadas pela visão e percepção pessoal
14,13.14; 16,19), e estas alusões ou citações de Paulo.
revelam que ditos de Jesus já estavam sen­
do passados adiante na protoigreja, além ( B a i r d , W ., " W h a t I s t h e K e r y g m a ? " JBL 76

do querigma. Mas estes ditos são invaria­ [1957] 181-91. B r u c e , F. F., " P a u l a n d t h e H i s t o r i c a l
J e s u s " , BJ.RL 56 [1973-74] 317-35. C u l l m a n n , O .,
velmente designados por Paulo como ditos
" 'K y r i o s ' a s D e s i g n a t i o n f o r t h e O r a l T r a d i t i o n
do "Senhor" (Kyrios), um título que revela
C o n c e rn in g Je s u s " . SJT 3 [1950] 180-97. D u n g a n ,
imediatamente o aspecto transcendente
D . L ., The Sayings of fesus in the Churches of Paul
sob o qual Paulo os considerava. Ele não [ P h i l a d e l p h i a , 1971], G e r h a r d s s o n , B ., Memory
estava interessado em Jesus como mestre, and Manuscript [ A S N U 22; L u n d , 1961] 262-323;
profeta ou como fonte cronológica desta Tradition and Transmission in Early Christianity
transmissão. Antes, ele estava interessado [ C o n N T 20; L u n d , 1964]. H u n t e r , A . M ., Paul
no Senhor ressurreto e exaltado, que se tor­ and His Predecessors [ P h i l a d e l p h i a , 1981]. Kuss,
nou o verdadeiro agente da tradição que Paulus 440-51. Ridderbos, H . N ., Paul and Jesus:
se desenvolvia no seio da igreja apostólica. Origin and General Character of Paul’s Preaching
Este é o motivo pelo qual ele atribuiu ao of Christ [ P h i l a d e l p h i a , 1958]. S t a n l e y , D . M .,
' " B e c o m e I m i t a t o r s o f M e '; T h e P a u l i n e C o n c e p ­
Kyrios aquilo que, na realidade, tinha de­
tio n o f A p o s t o lic T r a d it io n " , Bib 40 [1959] 859-77;
rivado da protocomunidade. O Kyrios está
CBQ
" P a u lin e A llu s io n s to th e S a y in g s o f J e s u s " ,
atuante nesta transmissão, e como tal ele é 23 [1961] 26-39.)
considerado o "fim da lei" e uma substitui­
ção da paradosis dos judeus.
21 (V) A experiência apostólica de Pau­
19 Paulo faz alusão a notavelmente lo. Um outro fator no desenvolvimento da
poucos eventos da vida de Jesus: ele nasceu teologia de Paulo foi sua experiência como
de uma mulher sob a lei (Gl 4,4), instituiu apóstolo e missionário que proclamou o
a eucaristia (ICor 11,23), foi traído (ICor evangelho e fundou igrejas por toda a Ásia
11,23), foi crucificado (Gl 2,20; 3.1; F1 2,8; Menor e Europa. Quanto sua experiência
ICor 2,2.8), morreu (ICor 15,3), foi sepul­ prática e seus contatos reais com judeus e
tado (ICor 15,4), foi ressuscitado dos mor­ gentios moldaram sua concepção de cris­
tos (ICor 15,5) e subiu ao céu (Rm 10,6 [cf. tianismo? Teria ele escrito sobre a justifica­
4,9]). Porém mesmo estes acontecimentos ção ou sobre a relação do evangelho com a
não são narrados por causa deles mesmos lei como o fez, se não fosse o problema dos
ou ao modo dos evangelistas; eles são, isto judaizantes com que se deparou? O verda­
sim, registrados em contextos de um cará­ deiro significado do alcance universal da
salvação cristã provavelmente ficou claro alguma forma de gnosticismo que teria in­
para Paulo à medida que ele trabalhou vadido suas comunidades. Grande parte do
continuamente com judeus que deixaram problema aqui é o que se quer dizer com
de aceitar sua mensagem e com gentios "gnosticismo". É muito difícil admitir que
que lhe deram atenção. Desde suas pri­ o gnosticismo desenvolvido já era corrente
meiras cartas ele revela uma consciência na época de Paulo. Pode haver elementos
da posição privilegiada de seus conterrâ­ no ensinamento paulino que acabaram che­
neos judeus no plano divino da salvação gando à sua forma desenvolvida no séc. 11
(lT s 2,13-14; cf. Rm 1,16; 2,9-10). Em Rm d.C. (—> Protoigreja, 80:64-80), mas em suas
9-11 ele se debate com o problema do pa­ cartas eles são, quando muito, elementos
pel de Israel no novo plano de salvação do protognósticos. Apesar de todas as alega­
Pai pela graça e por meio da fé em Cristo ções acerca do gnosticismo como fenôme­
Jesus. Mas ele estava muito consciente de no pré-cristão, não se aduziram quaisquer
que fora chamado para pregar aos gentios evidências reais de uma figura redentora
(G11,15-16); chama a si mesmo de "apósto­ pré-cristã ou de um mito como o do homem
lo das nações" (Rm 11,13). Ele admite que primordial.
se sente "devedor a gregos e a bárbaros,
a sábios e a ignorantes" (Rm 1,14). Além (Cook, R. B., "Paul... Preacher or Evangelist"?
disso, a igreja como o "corpo" de Cristo BT 32 [1981] 441-44. H o ltz , T., "Zum Selbstvers-
(ICor 12,27-28) é quase certamente o resul­ tãndnis des Aposteis Paulus", TLZ 91 [1966] 321­
30. K ertelge, K., "Das Apostelamt des Paulus, sein
tado de sua compreensão da ekklêsia à luz
Ursprung und seine Bedeutung", BZ 14 [1970]
da compreensão greco-romana contempo­
161-81. Lüdemann, G., Paulus, der Heidenapostel: II.
râneo do Estado como organismo político Antipaulinismus im frühen Christentum [FRLANT
(—» 122 abaixo). (A tendência manifestada 130; Gõttingen, 1983]. Seidensticker, P., Paulus
aqui é levada adiante pelos discípulos de der verfolgte Apostei Jesu Christi [SBS 8; Stuttgart,
Paulo que, em Cl e Ef, unem os temas da 1965],
igreja, do corpo e da cabeça numa concep­ C hadw ick, H ., "G nosticism ", OCD 470-71.
ção do Cristo ressurreto como o Senhor do D u p o n t, Gnosis: La connaissance religieuse
kosmos e empregam a noção de plêrõma, dans lês épitres de S. Paul [Louvain, I960]. P a g e l,
E. H ., The Gnostic Paul: Gnostic Exegesis of the
"plenitude".). Os problemas que o próprio
Pauline Letters [Philadelphia, 1975]. Ridderbos,
Paulo enfrentou ao fundar e governar igre­
Paul 27-29, 33-35, S ch m ith als, W., Gnosticism in
jas individuais foram quase certamente Corinth [Nashville, 1971]; Paul and the Gnostics
responsáveis por sua gradativa consciên­ [Nashville, 1972]. Yam auchi, E. M., Pre-Christian
cia do que significava "igreja" num senti­ Gnosticism: A Survey of the Proposed Evidences
do transcendente e universal. A sua expe­ [Grand Rapids, 1973].)
riência apostólica se deve atribuir também
diversas referências ao mundo helenístico, 23 Tudo quanto Paulo herdou de seu
que se encontram em vários desdobramen­ pano de fundo judaico, de seus contatos
tos de seu ensino (veja ICor 8,5; 10,20-21; com o helenismo, e tudo quanto mais tar­
12,2; G14,9-10). de derivou da protoigreja e de sua própria
atividade missionária, foi transformado de
22 Fez parte da experiência apostólica um modo singular por sua percepção do
de Paulo um contato com os gnósticos? Esta mistério de Cristo concedida a ele perto
é uma questão altamente discutida atual­ de Damasco. Outros escritores do NT po­
mente. Está claro que Paulo fala de gnõsis, diam reivindicar um pano de fundo judaico
"conhecimento", num sentido especial e e contatos helenísticos, mas nenhum deles
contrapõe à sua um conhecimento mun­ tem a profundidade de Paulo na compreen­
dano "história da cruz" (ICor 1,18). Mas é são do evento Cristo, exceto possivelmente
uma outra questão se ele está enfrentando João.
Perspectivas Dominantes

A SOTERIOLOGIA CRISTOCÊNTRICA DE PAULO

24 (I) A chave da teologia paulina. rigma da protoigreja e não antes" (TNT 1.


Tem havido um esforço constante no senti­ 3), i.e., ela tem pouco a ver com o Jesus da
do de formular a chave para a teologia pau­ história. Ele também demitologizou este
lina, sua essência, seu núcleo ou seu centro. querigma e o formulou em termos da fi­
Desde a Reforma os luteranos e os calvi- losofia heideggeriana de modo que a fé, a
nistas, com nuanças variadas, encontram- resposta ao querigma, torna-se uma "deci­
na na justificação pela fé - uma concepção são" existencial, pela qual os seres huma­
ainda sustentada por muitos atualmente nos iniciam um novo modo de vida que é
(p.ex., E. Kásemann, W. G. Kümmel). No plenamente autêntico. Quanto a Paulo, sua
séc. XIX, F. C. Baur, usando a filosofia he- "posição básica não é uma estrutura de
geliana, procurou explicar o núcleo em ter­ pensamento teórico [...] mas ela eleva o co­
mos da antítese entre "carne" (humano) e nhecimento inerente à própria fé à clareza
"Espírito" (divino). Subsequentemente, in­ do conhecimento consciente" {ibid. 1.190).
térpretes protestantes liberais introduziram Deste modo, Bultmann, de fato, retornou a
uma concepção de antítese mais racional e uma compreensão (existencialista) matiza­
ética, expressando-a em termos do espírito da da antítese usada por F. C. Baur mencio­
(humano) e da carne (sensual). Finalmente, nada acima e reduziu a teologia de Paulo
W. Wrede, embora pertencesse ao mesmo a uma "antropologia", a uma interpretação
movimento, procurou encontrar a essência da existência humana.
do cristianismo paulino em Cristo e sua A exposição da teologia paulina pro­
obra redentora. A escola da história das reli­ posta por Bultmann tem duas partes prin­
giões, usando dados variados dos cultos de cipais: O Homem antes da Revelação da
mistério do mundo mediterrâneo oriental, Fé e O Homem sob a Fé. Na primeira parte
descreveu a "religião" de Paulo em termos (O Homem antes da Fé) ele expõe os concei­
de uma comunhão mística com o Senhor tos antropológicos de Paulo (corpo, alma,
crucificado e ressurreto por meio dos atos espírito, vida, mente e consciência, coração),
cultuais do batismo e da eucaristia. Estas "carne, pecado e mundo" (criação, a condi­
concepções do séc. XIX foram finalmente ção humana como sarx, "carne", sua relação
analisadas por A. Schweitzer, para quem a com a universalidade do pecado, o mundo
teologia de Paulo deveria ser resumida como e a lei). Na segunda parte (O Homem sob a
um misticismo escatológico ligado a Cristo. Fé) Bultmann trata das ideias paulinas da
Para ele, a escatologia de Paulo era diferente justiça de Deus, da justiça humana como
da escatologia coerente que Schweitzer afir­ realidade presente e como dom de Deus,
mava ser a de Jesus, porque com a morte e da reconciliação, da graça (como evento
a ressurreição de Jesus o eschaton tinha de que vem da morte e ressurreição salvífica
fato começado para Paulo. Os crentes, então, de Cristo), Palavra, igreja e sacramentos; fé
participavam misticamente do modo de ser (sua estrutura, lugar na vida e relação com o
escatológico do Cristo ressurreto. Formas eschaton); liberdade (do pecado [ - andar no
destas explicações mais antigas sobrevive­ Espírito], lei e morte). Esta exposição me-
ram além do séc. XIX. recidamente elogiada do ensinamento de
Paulo se caracteriza pelo esforço contínuo
25 No séc. XX, R. Bultmann insistiu de Bultmann de apresentá-la em categorias
que a teologia do NT "começa com o que­ genuinamente bíblicas.
26 Contudo, uma abordagem do ensi­ uma expressão demasiadamente não pau­
namento de Paulo como esta é um desen­ lina para ser o objetivo do ensino paulino;
volvimento exclusivamente centrado nas ela lembra E. Kãsemann. Isto deve ser dito
ideias de Paulo em Rm, às quais tudo mais mesmo quando se reconhece a centralidade
parece ser tornado subserviente. A redu­ de Cristo na concepção de Beker sobre o nú­
ção da teologia paulina a uma antropologia cleo do ensinamento paulino.
de fato minimiza o papel de Cristo (cf. Rm
7,24-8,2), visto que os acontecimentos salví- 28 A chave para a teologia paulina,
ficos da primeira sexta-feira da paixão e do contudo, deveria ser formulada em termos
domingo de Páscoa foram demitologizados do que o apóstolo expressou repetidas ve­
a tal ponto que ficaram desistoricizados. zes e de várias maneiras: "Aprouve a Deus
Novamente, o papel de Cristo na vida do pela loucura da pregação salvar aqueles que
indivíduo chamado para esta decisão exis­ creem. Os judeus pedem sinais, e os gregos
tencial de fé é maximizado ao ponto de se andam em busca de sabedoria; nós, porém,
negligenciar seu papel na concepção cole­ anunciamos Cristo crucificado, que para os
tiva e cosmológica da história da salvação judeus é escândalo, para os gentios é lou­
(cf. Rm 9-11, que Bultmann não considera cura, mas para aqueles que são chamados,
de modo suficiente). Esta minimização do tanto judeus como gregos, é Cristo, poder
papel de Cristo se origina de uma relutân­ de Deus e sabedoria de Deus" (ICor 1,21­
cia em admitir o "sentido de conteúdo" da 25; cf. Rm 1,16; 2Cor 4,4). Esta "história da
teologia de Paulo, a "fase objetiva" históri­ cruz" (ICor 1,18) coloca o próprio Cristo no
ca da redenção humana e uma preocupa­ centro da soteriologia (novo modo de salva­
ção de formular o ensinamentojpaulino em ção de Deus), e tudo mais no ensino de Pau­
terminologia fenomenológica. É necessária lo deve ser orientado para esta soteriologia
uma certa demitologização do NT para cristocêntrica.
levar sua mensagem às pessoas da atuali­
dade, mas ainda se precisa levar em conta 29 Se a teologia de Paulo é predomi­
o modo como o próprio Paulo encarava o nantemente uma cristologia, deve-se insis­
evento Cristo no esforço de formular a cha­ tir em seu caráter funcional (—»Pensamento
ve para sua teologia. do NT, 81:24). Paulo não estava muito in­
teressado em explicar a constituição intrín­
27 Mais recentemente, J. C. Beker li­ seca de Cristo em si; ele pregava "Cristo
dou com o mesmo problema, reconhecen­ crucificado", Cristo como significativo para
do tanto o caráter contingente do ensino de a humanidade: "Ora, é por ele que sois em
Paulo quanto seu centro coerente. Ele consi­ Cristo Jesus, que se tornou para nós sabe­
dera este último como "uma estrutura sim­ doria proveniente de Deus, justiça, santifi­
bólica na qual uma experiência primordial cação e redenção" (ICor 1,30). Este "Cristo
(o chamado de Paulo) é expressa em lin­ crucificado", embora descrito em figuras
guagem de um modo particular", a saber, derivadas dos panos de fundo judaico e he­
na "linguagem apocalíptica do judaísmo lenístico contemporâneos e até mesmo ador­
em que ele [Paulo] vivia e pensava". Deste nado com mitos, ainda tem relevância para
modo, ele delineou "o evento Cristo em seu as pessoas de nossa época. Para se entender
significado para a consumação apocalíptica o que Paulo quis dizer e ainda diz para as
da história, isto é, em seu significado para pessoas hoje não basta demitologizar suas
o triunfo de Deus" (Paul the Apostle 15-16). ideias; antes, uma certa remitologização
Teria sido melhor se Beker tivesse escrito da mente moderna pode ser necessária. De
da consumação "escatológica" da história e qualquer modo, o que se faz necessário não
não de sua consumação "apocalíptica". De é uma demitologização subtrativa, mas in-
maneira semelhante, "o triunfo de Deus" é terpretativa.
(D ah l, N., "Rudolf Bultmann’s Theology of the 15,18-19). Mais especificamente, o evange­
New Testament", The Crucified Messiah and Other lho é "a boa nova da glória de Cristo" (2Cor
Essays [Minneapolis, 1974] 90-128, esp. 112-22. 4,4), i.e., a mensagem sobre o Cristo ressur­
F u lle r, R. H., The New Testament in Current Study
reto: "Não proclamamos a nós mesmos, mas
[New York, 1962] 54-63. Käsemann, N T Q T 13-15.)
a Cristo Jesus, Senhor" (2Cor 4,5), dando a
Cristo o título por excelência para designar
30 Em nossa tentativa de oferecer um seu status como ressurreto. As vezes o con­
desenvolvimento genético da teologia de teúdo é expresso simplesmente como "a fé"
Paulo, começaremos com o termo que ele (Gl 1,23), "a palavra" (lTs 1,6), "a palavra
mesmo usou para descrever sua mensagem de Deus" (2Cor 2,17).
acerca de Cristo, seu "evangelho". Deste
ponto de partida podemos passar para vá­ 32 Euangelion tornou-se o modo pes­
rios aspectos do conteúdo de sua mensa­ soal de Paulo de resumir o significado do
gem. evento Cristo (—» 67 abaixo), o sentido que
a pessoa e o senhorio de Jesus de Nazaré ti­
31 (II) o Evangelho de Paulo. Euan- nham e ainda têm para a história e existên­
gelion como "boa nova de Jesus Cristo" é cia humana. Por isso Paulo podia falar de
um significado especificamente cristão da "meu evangelho" (Rm 2,16), "o evangelho
palavra, e como tal quase certamente foi que proclamo" (Gl 2,2; cf. 1,8.11), ou "nos­
desenvolvido por Paulo dentro da comuni­ so evangelho" (lTs 1,5; 2Cor 4,3; cf. ICor
dade protocristã (veja W. Marxsen, Mark the 15,1), porque ele estava ciente de que "não
Evangelist [Nashville, 1969] 117-50). Paulo foi para batizar que Cristo me enviou, mas
usa a palavra de modo mais frequente que para anunciar o evangelho" (ICor 10,17).
qualquer outro escritor do NT: 48 vezes em Embora os escritores patrísticos (Irineu,
suas cartas incontestáveis (ela ocorre oito Adv. Haer 3.1.1; Tertuliano, Adv. Marc. 4.5
vezes nas deuteropaulinas e quatro vezes [CSEL 47. 431]; Orígenes em Eusébio, HE
nas pastorais). Em geral ela designa a apre­ 6.25.6 [Garden CityS 9/2. 576]; o próprio
sentação pessoal do evento Cristo por parte Eusébio, HE 3.4.7 [CGS 9/1.194]) às vezes
do próprio Paulo. interpretassem estas expressões paulinas
Euangelion às vezes indica a atividade como referência ao Evangelho de Lucas,
de evangelização (Gl 2,7; F1 4,3.15; ICor que eles consideravam uma condensação
9,14b.18b; 2Cor 2,12; 8,18), como faz o verbo da pregação de Paulo (como se supunha
euangelizesthai (usado 19 vezes por Paulo; que o Evangelho de Marcos fosse um resu­
ele ocorre duas vezes nas deuteropaulinas). mo da pregação de Pedro), estas expressões
Normalmente, contudo, ela indica o conte­ não se referem a nada tão específico como
údo de sua mensagem apostólica - o que uma narrativa semelhante aos evangelhos.
ele pregava, proclamava, anunciava, fala­ Paulo estava plenamente ciente de que sua
va (veja J. A. F it z m y e r , TAG 160 n. 5). Paulo comissão para pregar a boa nova do Filho
compreendia que sua mensagem tinha ori­ de Deus entre os gentios (Gl 1,16) não era
gem no próprio Deus: "evangelho de Deus" uma mensagem completamente peculiar a
(lTs 2,2.8-9; 2Cor 11,7; Rm 1,1; 15,16). De ele ou diferente daquela pregada por aque­
modo sucinto, para ele seu conteúdo era les "que eram apóstolos antes de mim" (Gl
o "evangelho de Cristo" (lTs 3,2; Gl 1,7; F1 1,17): "Por conseguinte, tanto eu como eles,
1,27) ou "o evangelho de seu Filho" (Rm eis o que proclamamos. Eis também o que
1,9), sendo que o genitivo é geralmente en­ acreditastes" (ICor 15,11). Paulo se reconhe­
tendido como objetivo, i.e., a boa nova acer­ cia como o "servo" do evangelho (doulos, F1
ca de Cristo, ainda que em alguns casos se 2,22), consciente de uma graça especial do
possa detectar uma nuança de Cristo como apostolado. Ele se via como colocado à par­
o originador do evangelho (2Cor 5,20; Rm te assim como os profetas do AT (Jr 1,5; ls
49,1) desde o ventre de sua mãe para esta ta­ daicas; sua aplicação ao evangelho dá a este
refa (G11,15; Rm 1,1), estando "incumbido" último uma nuança que euangelion nunca
do evangelho como uma possessão de alto teria, i.e., algo só compreendido plenamen­
valor (lTs 2,4; G1 2,7). Ele experimentava te no eschaton.
uma "compulsão" (anankê, ICor 9,16) para
proclamá-lo e considerava sua pregação do 34 Ao falar assim do evangelho como
evangelho como um ato cultual, sacerdotal mistério, Paulo usa uma palavra já familiar
oferecido a Deus (Rm 1,9; 15,16). Nunca se nas religiões de mistério gregas da época.
envergonhou do evangelho (Rm 1,16); mes­ Contudo, a compreensão que ele dá ao ter­
mo ao ser preso por causa dele, o evangelho mo e o modo em que o usa revelam que ele
era, para ele, uma "graça" (Fl 1,7.16). não dependia tanto de fontes helenísticas
quanto do AT e de escritos apocalípticos ju­
33 Várias características do evangelho daicos intertestamentários. Suas raízes ve-
no sentido de Paulo podem ser destacadas: terotestementárias se encontram na palavra
(1) sua natureza revelatória ou apocalíptica. hebraica sôd e na aramaica rãz, "mistério",
A atividade salvífica de Deus em favor "segredo" (Dn 2,18-19.27-30. 47; 4,6). Esta
de seu povo se tornou conhecida de uma última é uma palavra emprestada do persa,
nova maneira por meio do senhorio de Je­ usada no aramaico para designar a revela­
sus Cristo (Rm 1,17); assim, o evangelho ção feita a Nabucodonosor em seus sonhos.
revela a realidade da nova era, a realidade A Literatura de Qumran (LQ) também ofe­
do eschaton. Esta natureza apocalíptica do rece abundantes paralelos ao uso paulino
evangelho está relacionada a concepção do termo "mistério" (p.ex., lQpHab 7:5 1QS
paulina dele como mystêrion, "mistério, se­ 3:23), mostrando que suas verdadeiras ra­
gredo", oculto em Deus durante muito tem­ ízes estão no judaísmo palestinense e não
po e agora revelado - uma nova revelação no helenismo da Ásia Menor. Como na LQ,
acerca da salvação de Deus. Nos melhores "mistério" é um termo-chave para Paulo,
mss de 1 Coríntios 2,1-2, Paulo equipara que transmite para ele o conteúdo de seu
o "mistério de Deus" a "Jesus Cristo [...] evangelho, enquanto que na LQ ele trans­
crucificado" (cf. aparatos críticos), assim mite o significado oculto de passagens do
como equipara seu "evangelho" a "Cristo AT.
crucificado" em ICor 1,17.23-24. Paulo con­
siderava-se um "administrador" que dis­ 35 (2) Sua natureza dinâmica. Embora
tribuía a riqueza deste mistério (ICor 4,1). "a história da cruz" não seja contada por
O evangelho revela agora aos cristãos o pla­ Paulo de forma narrativa, como o é pelos
no concebido por Deus e oculto nele desde evangelistas, para ele o evangelho não é
a eternidade (ICor 2,7) para levar a huma­ uma abstração. Ele é "o poder de Deus",
nidade, tanto gentios quanto judeus, a par­ uma força (ãynamis) salvífica desencadeada
ticipar da herança salvífica de Israel, cum­ no mundo dos seres humanos para a salva­
prida agora em Cristo Jesus. Até mesmo a ção de todos (Rm 1,16). O evangelho pode,
insensibilidade parcial de Israel faz parte de fato, anunciar uma proposição, "Jesus é
deste mistério (Rm 11,25). Ao apresentar o Senhor" (ICor 12,3; Rm 10,9), com a qual
evangelho como "mistério", Paulo sugere os seres humanos são chamados a consen­
que ele nunca se torna plenamente conheci­ tir; mas ele implica mais, pois proclama "a
do pelos meios ordinários de comunicação. seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os
Como algo revelado, ele é só é apreendido mortos: Jesus Cristo que nos livra da ira fu­
na; e mesmo quando revelado, a opacidade tura" (lTsl,10). Assim, é um evangelho que
da sabedoria divina nunca é completamen­ vem "não somente com palavras, mas com
te dissipada. Mystêrion é um termo escato- grande eficácia no Espírito Santo" (lTs 1,5);
lógico derivado de fontes apocalípticas ju­ ele é "a palavra de Deus que produz efeito
Cernegeitai) em vós, os fiéis" (lTs 2,13; cf. característica é formulada mais plenamente
ICor 15,2). em Ef. 1,13; 3,6).
(6) Seu caráter universal. O evangelho é
36 (3) Seu caráter querigmático. O evan­ o poder de Deus para a salvação de "todo
gelho de Paulo está relacionado à tradição aquele que crê, em primeiro lugar do judeu,
querigmática pré-paulina: "transmiti-vos, mas também do grego" (Rm 1,16; cf. 10,12).
em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo
recebi" (ICor 15,3); e ele tem o cuidado de (B r in g , R., " T h e M e s s a g e to th e G e n tile s : A

enfatizar a "forma" ou os "termos" {tini S tu d y to th e T h e o lo g y o f P a u l th e A p o s t le " , S T 19


logõ) em que evangelizou os coríntios. Nos [1965] 30-46. B r o w n , R. E., The Semitic Background of
the Term "Mystery" in the New Testament [ F B B S 21;
vv 3-5 se segue um fragmento do próprio
P h i l a d e l p h i a , 1968]. F it z m y e r , J . A ., " T h e G o s p e l
querigma e o v 11 afirma a origem comum
i n t h e T h e o l o g y o f P a u l " , TAG 149-61. F r i e d r i c h ,
do evangelho de Paulo. G ., "Euangelizomai, etc.", TDNT 2.707-37. J o h n s o n
(4) Seu papel normativo na vida cristã. J r ., S . L ., " T h e G o s p e l t h a t P a u l P r e a c h e d " , BSac
Para Paulo, o evangelho se encontra de ma­ 128 [1971] 327-40. O ’B r i e n , P . T ., " T h a n k s g i v i n g
neira crítica acima da conduta cristã, dos a n d th e G o s p e l in P a u l" , NTS 21 [1974-75] 144-55.
dirigentes da igreja e do ensino humano. S c h lie r , H., "Euangelion im Römerbrief ", in Wort
Ele não tolera rival; Paulo afirma que não Gottes in der Zeit [ F e s t s c h r i f t K. H. S c h e l k l e ; e d . H.
há "outro evangelho" (G1 1,7) no contexto F e l d e J . N o l t e ; D ü s s e l d o r f , 1973] 127-42. S t r e c k e r ,
G ., " E uangelizö" e "Euangelion" , EW NT 2 . 173-86.
do problema dos judaizantes nas primeiras
Das paulinische Evangelium: I.
S t u h l m a c h e r , P .,
igrejas, quando algumas práticas judaicas
Vorgeschichte [ F R L A N T 95; G ö t t i n g e n , 1968]; " D a s
estavam sendo impingidas aos cristãos gen­
paulinische Evangelium", Das Evangelium und
tílicos (circuncisão, regulamentos referentes die Evangelien: Vorträge von Tübinger Symposium
à comida e ao calendário). Os seres huma­ 1982 [e d . P . S t u h l m a c h e r ; WUNT 28; T ü b i n g e n ,
nos são chamados a acolher o evangelho 1983] 157-82).
(2Cor 11,4), obedecer-lhe (Rm 1,5) e escutá-
lo (Rm 10,16-17). Ele deve ser aceito como
um guia para a vida: "somente vivei vida 37 (III) Deus e seu plano da história
digna do evangelho de Cristo" (F11,27). Até da salvação. A nuança de mistério acres­
mesmo Cefas, uma coluna da igreja (G12,9), centada por Paulo à sua ideia do evange­
foi repreendido publicamente por Paulo em lho abre uma ampla perspectiva: ele via o
Antioquia, quando se constatou que ele não evangelho como parte de um plano, gra­
andava "retamente segunda a verdade do tuitamente concebido por Deus para uma
evangelho" (G1 2,14). Todavia, para Paulo, forma nova de salvação humana, a ser re­
o caráter normativo do evangelho também velada e realizada em seu Filho. O autor
era libertador, pois ele menciona "a verda­ deste plano era Deus (ho theos, ICor 2,7), a
de do evangelho" em conexão com a "liber­ quem Paulo tinha cultuado como fariseu, o
dade que temos em Cristo Jesus" (G1 2,4), Deus das "alianças" (Rm 9,4) do passado.
que deve ser preservada face à oposição de O que Paulo ensina acerca de Deus não é
"falsos irmãos" que procuram enfraquecê- uma teologia (no sentido restrito) indepen­
la. Por isso, embora normativo, ele também dente de sua soteriologia cristocêntrica,
liberta dos legalismos criados por seres hu­ pois este Deus é "Pai de nosso Senhor Jesus
manos. Cristo" (2Cor 1,3; Rm 15,6), e o que ele diz
(5) Sua natureza de promessa. O evange­ sobre Deus geralmente é afirmado em con­
lho dá continuidade à promessa dos tem­ textos que tratam de sua atividade salvífica.
pos antigos feita por Deus: "prometido "Aprouve a Deus pela loucura da pregação
por meio dos seus profetas nas Sagradas Ckêrygma) salvar aqueles que creem" (ICor
Escrituras" (Rm 1,2; cf. Is 52,7). Veja ainda 1,21). Mesmo quando Paulo fala das quali­
G13,14-19; 4,21-31; Rm 4,13-21; 9,4-13. (Esta dades ou atributos de Deus, quase sempre
se refere a Ele enquanto tal com o matiz de que aparece como uma qualidade em Rm
por nós, em nosso favor. Assim, ele reconhece 1,17; 3,5.21-22.25-26; 10,3. (Em 2Cor 5,21 ela
Deus como criador: o "um só Deus, o Pai, de é concebida mais como um dom dado aos
quem tudo procede e para o qual caminha­ seres humanos; cf. Fl 3,9.). Esta qualidade
mos" (ICor 8,6); ele é "o Deus vivo e verda­ de Deus também é herdada por Paulo do
deiro" (lTs 1,9); "o Deus que disse: do meio AT, ainda que a expressão em si não se en­
das trevas brilhe a luz! (cf. Gn 1,3), foi ele contre nele. A expressão que chega mais
mesmo quem reluziu em nossos corações" perto da paulina é sidqat Yhwh, "os justos
(2Cor 4,6); ele é aquele que "chama à exis­ decretos do Senhor" (Dt 33,21 RSV; cf. LXX
tência as coisas que não existem" - assim dikaiosynên Kyrios epoiêsen, "o Senhor fez
descrito no uso que Paulo faz da história de justiça") ou sidqôt Yhwh, "os triunfos do
Abraão (Rm 4,17-19). Paulo fala do "eterno Senhor" (Jz 5,11 RSV; cf. LXX, ekei dõsousin
poder e divindade" de Deus (Rm 1,20), de dikaiosynas Kyriõ, "ali eles admitirão os atos
sua "verdade" (1,25), "sabedoria e conheci­ justos do Senhor"). O equivalente exato da
mento" (11,33). expressão paulina, contudo, encontra-se na
LQ (lQm 4,6, sedeq ’El), que revela seu uso
38 Três qualidades de Deus, contudo, palestino pré-cristão. Nos primeiros livros
devem ser destacadas de modo particular. do AT, sedeq ou sêdãqâ expressa a qualida­
(1) "A ira de Deus" (orgê theou, Rm 1,18; de pela qual lahweh, descrito como estan­
cf. lTs 1,10; 2,16; 5,9; Rm 2,8; 3,5; 4,15; 5,9; do envolvido num processo legal (ríb) com
9,22; [Cl 3,6; Ef 5,6]). Esta qualidade é her­ seu povo rebelde, julga Israel e mostra sua
dada por Paulo do AT (veja SI 78:31; cf. Is "justiça" (ISm 3,13; Jr 12,1; Os 4,1-2; 12,3;
30,27-28), onde ela expressa não tanto uma Mq 6,2). Ela descreve sua atividade jurídica
emoção divina, e sim a reação de Deus ao ou judicial; ele julga com "justiça" (SI 9,9;
mal e ao pecado. Pode parecer que Deus 96,13; 98,9). Neste contexto "os triunfos do
seja retratado antropomorficamente com Senhor" devem ser entendidos como seus
uma mente irada, mas "a ira de Deus" não triunfos jurídicoss (cf. Mq 6,5; ISm 12,7). Os
pretende expressar seu ódio malicioso ou estudiosos do AT às vezes tentam sustentar
capricho ciumento (—» Pensamento do AT, que a justiça de lahweh tem uma dimensão
77:99-102). É o modo do AT de expressar a cósmica, que a criação e tudo que ele fez no
reação constante de Deus como juiz à que­ AT podem ser atribuídos a esta qualidade
bra da relação de aliança por parte de Is­ divina. Apela-se para Dn 9,14 ou Jr 31,35­
rael (Ez 5,13; 2Cr 36,16) ou da opressão de 36 (veja H. H. Schmid, Gerechtigkeit ais Wel­
seu povo por parte das nações (ls 10,5-11; tordnung [BHT 40; Tübingen, 1968]; H. G.
Jr 50 [LXX 28]: 11-17). Relacionada ao "dia Reventlow, Rechtfertigung im Horizont des
de lahweh" (Sf 1,14-18), a ira era frequen­ Alten Testaments [BEvT 58;München, 1971]).
temente concebida como a retribuição esca- Para fazer isto eles precisam esvaziar a qua­
tológica de Deus. Para Paulo ela ou já "se lidade de seu aspecto jurídico ou judicial
manifesta" (Rm 1,18) ou ainda deve ser es­ - a criação e a regulamentação da ordem
perada (2,6-8). mundial dificilmente são atos judiciais.
No período pós-exüico, contudo, sedeq como
( M a c G r e g o r , G. H. C., "The Concept of the qualidade de Deus adquire uma nuança a
W rath of God in the New Testam ent", NTS 7 mais; ela torna-se a qualidade pela qual ele
[1960-61] 101-9. P e s c h , W . , "Orgê, EW NT 2 . 1293­ absolve seu povo, manifestando para com
97. W i l c k e n s , U., Der Brief an die Römer [EKKNT
ele sua atividade salvífica graciosa num jul­
6 /1 -3 ; Einsiedeln, 1978-82] 101-2.)
gamento justo (veja Is 46,13 [onde "minha
justiça" e "minha salvação" estão em para­
39 (2) Em contraposição à "ira de lelismo], 51,5.6.8; 56,1; 61,10; SI 40,9-10). Se­
Deus" está a "retidão" ou "justiça de Deus", melhantemente, na LXX o termo dikaiosynê
é usado para traduzir outras qualidades 3,5]). Em virtude desta qualidade Paulo
(não judiciais) pactuais de Deus: sua ’êmet, vê os cristãos escolhidos como os "irmãos
"fidelidade" (Gn 24,49; Js 24,14; 38,19); sua amados por Deus" (lTs 1,4). Para ele, esta
hesed, "misericórdia constante" (Gn 19,19; qualidade é a base do plano divino para a
20,13; 21,23) - uma tradução que reflete salvação.
mais a nuança pós-exílica de sedeq do que
sua denotação original. Em virtude desta (Levie, }., "L e plan d ’am our divin dans le
compreensão veterotestamentária da "reti­ C hrist selon saint P au l", em L ’Homme devant
dão de Deus" Paulo vê Deus como aquele Dieu [Festschrift H. de Lubac; Théologie 56-58;
Paris, 1963-64] 1. 159-67. Romaniuk, K., L ’Amour
que dá um novo modo de salvação para a
du Père et du Fils dans la sotériologie de Saint Paul
humanidade como a justificação pela graça
[AnBib 15; Roma, 1961], Schneider, G., "Agapë",
mediante a fé em Cristo Jesus - como par­ EW NT 1. 19-29.)
te de seu plano da história da salvação. E.
Käsemann também insistiu na noção pauli­
na da justiça de Deus como sua "atividade 41 O fato de que Paulo pensa em ter­
salvadora" e como uma manifestação do mos de um plano divino da história da sal­
poder de Deus: "A soberania de Deus sobre vação pode ser visto em suas referências
o mundo que se revela escatologicamen- ao "propósito" de Deus (prothesis, Rm 8,28;
te em Jesus [...], o poder legítimo com que 9,11), ou sua "vontade" (thelêma, G1 1,4;
Deus faz sua causa triunfar no mundo que ICor 1,1; 2Cor 1,1; 8,5; Rm 1,10; 15,32), ou
apostatou dele e que, ainda assim, como sua "predestinação" (proorizein, Rm 8,28­
criação, é sua possessão inviolável" ("'The 30); cf. "a plenitude do tempo" (G1 4,4); o
righteousness of God'" 180). Isto pode ser "tempo indicado" por Deus (kairos, ICor
dito, mas novamente é preciso acautelar-se 7,29-32); o período "de Adão até Moisés"
contra contra o esvaziamento da denotação (Rm 5,14); o encontro do "fim dos tempos"
jurídica ou judicial que é básica para esta (ICor 10,11), a aproximação do "dia" do Se­
qualidade. K ä s e m a n n , contudo, insiste cor­ nhor (Rm 13,11-14); "agora é o dia de sal­
retamente no aspecto do "poder" presente vação" (ICor 6,2). Em virtude deste plano
na justiça de Deus. Deus escolhe ou chama os seres humanos
para a salvação (lTs 5,9; Rm 1,16; 11,11) ou
(Sobre a justiça de Deus: B erger, K ., ZNW 68 para a glória (Rm 8,29-31). "Tudo isto vem
[1977] 266-75. B rau ch , M. T v in Sanders, Paul [—» de Deus que nos reconciliou consigo por
11 acima] 523-42. Bultm ann, R ., /B L 83 [1964] 12-16. meio de Cristo" (2Cor 5,18).
Hübner, H ., NTS 21[1974-75] 462-88. Käsemann, Nem todos os comentaristas estão segu­
NTQT 168-82. K ertelg e, K ., "Rechtfertigung" bei
ros do que Paulo pensa em termos de um
Paulus [NTAbh ns 3; Münster, 1967]. Lyonnet,
plano divino da história da salvação, apesar
S., VD 25 [1947] 23-34, 118-44, 193-203, 257-63.
S c h la tte r, A., Gottes Gerechtigkeit [3a ed.; Stuttgart,
dos elementos listados acima apoiarem este
1959] 116-22. Schmid, H . H ., em Rechtf 403-14, pensamento. S. Schulz (ZNW 54 [1963] 104)
S tu h lm ach er, P ., Gerechtigkeit Gottes bei Paulus sustenta que o "Lucas helenista é o criador
[FRLANT 87; Göttingen, 1965]. W illiam s, S. K., da história da salvação". Isto implicaria
fBL 99 [1980] 241-90.) que ta concepção não se encontraria entre
os escritores do NT antes de Lucas. Em
40 (3) "O amor de Deus". Embora esta resposta a isto, contudo, Kiimmel ("Heils-
qualidade divina não apareça tão frequen­ geschischte") não apenas reafirmou a con­
temente como a "justiça de Deus", ela é um cepção paulina de história da salvação, mas
conceito importante para Paulo, permean­ listou muitos intérpretes de Paulo que a
do a segunda seção da parte doutrinária de reconheceram como um aspecto válido de
Rm. Ele "é derramado em nossos corações" sua teologia (Bultmann, Dibelius, Feine,
(Rm 5,5; cf. 5,8; 8,31-39; 2Cor 13,11.13; [2Ts Holtzmann et ah). "História da salvação"
não pode ser aplicada num sentido unívoco primento da lei" (Rm 3,10). Paulo percebeu
aos autores do NT; Lucas e Paulo, em par­ que o tempo no qual ele vivia veio depois
ticular, tem sua própria concepção dela. De daquele em que advertências foram escri­
fato, na concepção paulina desta história, tas na lei (como Ex 32,1-6 ou Nm 25,1-18),
pode-se perguntar sobre o sentido em que e "foram escritas para nossa instrução, nós
seu primeiro e seu segundo estágios são que fomos atingidos pelo fim dos tempos"
"salvíficos" (se o primeiro foi sem lei, e o (ICor 10,11). Aqui o "fim " se refere ao final
segundo, embora sob a lei que se destinava definitivo do segundo período e ao começo
a trazer "vida" [Lv 18,5], deixou de alcançá- do final do terceiro, que é do último Adão
la). Novamente, embora Paulo leve em con­ ou Adão do eschaton (ICor 15,45). Se a con­
ta o encontro das eras (ICor 10,11), o tercei­ cepção paulina de três estágios da história
ro estágio é, para ele, o eschaton, mesmo que humana está relacionada a uma divisão
ainda faça parte da "história" humana (—> semelhante da duração do mundo que se
Pensamento do NT, 81:47-48). De qualquer encontra na tradição rabínica posterior (b.
forma, a concepção paulina deste plano sal- Sanh. 97; b. ‘Abod, Zar. 9b; j. Meg. 70d), como
vífico manifesta uma dimensão histórica, defendi outrora (JBC, art. 79, § 41), isso pode
coletiva, cósmica e escatológica. ser questionado.

42 (1) A dimensão histórica do plano 43 (2) A dimensão coletiva do plano


divino é visto no fato de abranger todas as divino é vista no papel desempenhado por
fases da história humana, desde a criação Israel. Privilegiado no passado por meio
até sua consumação. Estando enraizada na das promessas de Deus a Abraão e à sua
intervenção de Cristo Jesus nesta história posteridade, Israel tornou-se o instrumen­
"na plenitude do tempo" (G1 4,4), ela dá a to escolhido pelo qual a salvação alcançaria
esta história um significado que, de outro todos os seres humanos: "Todas as nações
modo, não é evidente nela. Esta dimensão serão abençoadas em ti" (G13,8; cf. Rm 4,16;
leva a uma periodização do plano de sal­ Gn 18,18; 12,3). Portanto, todos os prepa­
vação de Deus. Muito provavelmente Pau­ rativos divinos para o evento Cristo foram
lo derivou sua concepção de três estágios feitos dentro da nação dos judeus: "Aos
da história da salvação de sua formação quais pertencem a adoção filial, a glória, as
judaica, pois ela só faz sentido num pano alianças, a legislação, o culto, as promessas,
de fundo como este - Paulo vê a história aos quais pertencem os patriarcas, e dos
humana a partir de uma ótica judaica. O quais descende o Cristo, segundo a car­
primeiro período foi o tempo desde "Adão ne" (Rm 9,4-5). Mas, embora descendesse
até Moisés" (Rm 5,13-14; cf. G1 3,17), o pe­ de Abraão, Israel rejeitou (Rm 11,15) Jesus
ríodo sem lei, quando os seres humanos de como o Messias e, desse modo, aparente­
fato praticavam o mal, mas não havia im­ mente se excluiu da salvação oferecida em
putação das transgressões (Rm 5,13-14) O Jesus o Cristo a quem Paulo pregava. Po­
segundo período foi o tempo de Moisés até deria parecer que o plano divino falhou em
o Messias, quando "a lei foi acrescentada" seu momento mais crucial (Rm 9,6). Paulo
(G1 3,19; cf. Rm 5,20), quando "nós éramos insiste, contudo, que não foi assim, pois
guardados sob a tutela da lei" até alcançar esta infidelidade de Israel fora prevista por
a maturidade (G1 3,23); então a lei reinava Deus e fazia parte do próprio plano. Ela
e o pecado humano era imputado como não contraria a direção da história por par­
uma transgressão dela. O terceiro período te de Deus, visto que tanto a infidelidade
é a época do Messias, de "Cristo", que é "o dos judeus quanto o chamado dos gentios
fim da lei" (Rm 10,4), quando os seres hu­ foram anunciados no AT (Rm 9,6-32). A in­
manos são "justificados pela fé" (G1 3,24), fidelidade de Israel provém de sua própria
que "age pela caridade" (G1 5,6), "o cum­ recusa de aceitar aquele em quem um novo
modo de justiça é agora franqueado a toda e Ef os discípulos de Paulo desenvolvem a
a humanidade. Ela é apenas uma infideli­ dimensão cósmica ainda mais ao descrever
dade parcial (Rm 11,1-10) porque "um resto o papel cósmico do próprio Cristo: "porque
segundo a eleição da graça (de Deus)" (Rm nele foram criadas todas as coisas, nos céus
11,5) aceitou Jesus como o Cristo. E é apenas e na terra" [Cl 1,16], "tendo [ele] em tudo a
temporária, pois do passo em falso de Israel primazia" [Cl 1,18; cf. Ef 1,19-23; 2,11-18]).
"resultou a salvação dos gentios, para lhes
excitar o ciúme. E se sua queda reverte em 45 (4) A dimensão escatológica do pla­
riqueza para o mundo e seu esvaziamento no divino também é importante, visto que
em riqueza para os gentios, quanto maior os dois primeiros períodos da história da
fruto não dará sua totalidade!" (Rm 11,11­ salvação (Adão a Moisés, Moisés a Cristo)
12). De fato, "o endurecimento atingiu uma foram encerrados e os cristãos já estão vi­
parte de Israel até que chegue a plenitude vendo no último período. Se o eschaton foi,
das nações, e assim todo Israel será salvo" assim, inaugurado, de um outro ponto de
(Rm 11,25). Este aspecto coletivo visiona os vista "o fim" ainda não veio (ICor 15,24 [de
efeitos do evento Cristo sobre "o Israel de acordo com uma interpretação muito pro­
Deus" (G1 6,16; cf. Rm 9,6). Deve-se enfati­ vável deste versículo]). Cristo o Senhor do
zar este aspecto do plano salvífico, visto que kosmos ainda não reina incontestavelmente;
ele domina muitas passagens nos escritos ele ainda não entregou o reino ao Pai. Tudo
de Paulo, como Rm 5,12-21; Rm 9-11 (cf. Ef isto está relacionado à "parúsia do Senhor"
1,3-12; 2,4-16). Ele nos adverte contra uma (lTs 2,19; 3,13; 4,15; 5,23; ICor 15,23). Difi­
interpretação do ensinamento de Paulo de cilmente se pode negar que Paulo a espe­
modo demasiadamente restrito ou exclusi­ rava no futuro próximo. Contudo, às vezes
vo num sentido individualista, ou como um o encontramos se reconciliando gradual­
relacionamento do tipo eu-tu entre o cristão mente com sua própria morte iminente (F1
e Deus, ou, menos sofisticadamente, como 1,23) e com uma fase intermediária entre
uma piedade individual e pessoal ou uma sua morte e seu "comparecer perante o tri­
antropologia exagerada. Este aspecto coleti­ bunal de Cristo" (2Cor 5,1-10). De qualquer
vo aparece, acima de tudo, na incorporação modo, há um aspecto futuro em sua histó­
tanto de judeus cristãos quanto gentílicos ria da sua salvação, quer seu termo esteja
em Cristo e sua igreja. perto ou distante, e a esperança de Paulo é
"ir morar junto do Senhor" (2Cor 5,8), pois
44 (3) A dimensão cósmica do plano "estar com o Senhor" é a forma como Paulo
divino é vista no fato de Paulo relacionar concebe o destino de todos os cristãos (lTs
todo o kosmos criado à salvação humana: 4,17; F1 1,23). Os inegáveis elementos de
"Ele tudo pôs debaixo dos pés" do Cristo sua escatologia futurista são a parúsia (lTs
ressurreto (ICor 15,27; cf. SI 8,7; F1 3,21). 4,15), a ressurreição dos mortos (lTs 4,16;
Esta é a razão por que Paulo vê a própria ICor 15,13-19) o julgamento (2Cor 5,10; Rm
criação física "aguardando ansiosamente" 2,6-11; 14,10) e a glória dos crentes justifica­
sua participação na liberdade da escravi­ dos (Rm 8,18.21; lTs 2,12). Alguns comen­
dão da corrupção e na "gloriosa liberdade taristas considerariam até mesmo esta pers­
dos filhos de Deus" (Rm 8,19-21), prolepti- pectiva como "apocalíptica" (Kásemann,
camente atingida na redenção operada por NTQT 133; cf. J. L. Martyn, NTS 31 [1985]
Cristo Jesus. Novamente, Paulo também vê 410-24; L. E. Keck, Int 38 [1984] 234); -4 33
o kosmos participando da reconciliação da acima; —>Pensamento do NT, 81:49).
humanidade pecadora realizada por Cristo Mas juntamente com este aspecto futuro
(2Cor 5,18-21; cf. Rm 11,15). Mas, de modo há também o aspecto presente, segundo o
significativo, ele nunca relaciona a "justifi­ qual o eschaton já começou e os seres huma­
cação" com esta dimensão cósmica (em Cl nos já estão, em certo sentido, salvos. "Eis
agora o tempo favorável por excelência. realização humana, na medida em que se
Eis agora o dia da salvação" (2Cor 6,2). As é liberto de si mesmo pela graça de Cristo
"primícias" (Rm 8,23) e o "penhor" (2Cor e se reafirma continuamente como um in­
1,22; 5,5; [Ef 1,14]) já são a posse dos crentesdivíduo livre em decisões a favor de Deus.
cristãos. Cristo já nos "glorificou" (Rm 8,30; Nestes atos se está continuamente "perante
cf. 2Cor 3,18; Fl 3,20; [em Ef 2,6 e Cl 2,12 isto
o tribunal de Cristo". Bultmann, portanto,
é formulado dizendo-se que Cristo já nos descartaria os elementos futuros da escato­
ter transferido para o âmbito celestial]). As logia de Paulo listados acima; eles seriam
vezes Paulo fala como se os cristãos já tives­ vestígios de uma concepção apocalíptica da
se sido "salvos" (Rm 8,24 [onde ele acres­ história, que não faz sentido para as pessoas
centa "na esperança"]; cf. ICor 15,2; 1,18; de hoje. De fato, ele pensa que Paulo já teria
2Cor 2,15); todavia, outras vezes afirma que reinterpretado em termos de sua antropo­
eles ainda serão salvos (ICor 5,5; 10,33; Rm logia. "A concepção paulina de história é
5,9.10; 9,27; 10,9.13). a expressão de sua concepção do homem"
Esta diferença de ponto de vista se deve (ibid. 41).
em parte a um desenvolvimento do pen­ Uma interpretação como esta tem a van­
samento de Paulo acerca da iminência da tagem de enfatizar o momento "crítico" que
parúsia. Em lTs há referências futuras; mas o evento Cristo traz para a vida de cada um:
com o passar do tempo, e especialmente um desafio de fé é apresentado por ele. Mas
após uma experiência que Paulo teve em esta interpretação da escatologia de Paulo
Efeso, quando esteve perto de morrer (ICor nega, de fato, alguns elementos importantes
15,32; 2Cor 1,8) e a parúsia ainda não tinha de sua concepção de história da salvação.
ocorrido, sua compreensão da situação cris­ Embora seja verdade que "a história que
tã se desenvolveu. (Este desenvolvimento é Paulo vê ao olhar para trás é a história não
visto de modo mais completo na visão ple­ apenas de Israel, mas de toda a humanida­
namente madura do plano do Pai que surge de" (ibid. 40), dificilmente parece acertado
em Cl e Ef.). dizer que Paulo "não a vê como a história
da nação com suas alternâncias de graça di­
46 O duplo aspecto da escatologia pau­vina e obstinação do povo, de pecado e pu­
lina tem sido explicado de modo variado. nição, de arrependimento e perdão" (ibid.).
Alguns, como C. H. Dodd e R. Bultmann, Uma concepção de história paulina como
classificariam o aspecto predominante de esta é demasiadamente dominada pelas po­
"escatologia realizada". Esta expressão é lêmicas de Rm e G1 e realmente minimiza
em parte aceitável, mas se deve tomar cui­ o problema que Paulo tentou enfrentar ao
dado ao defini-la. Para Bultmann, Paulo compor Rm 9-11. A história e o papel de Is­
não está interessado na história da nação rael no destino humano são fatores presen­
de Israel ou do mundo, mas apenas na "his­ tes em toda a teologia de Paulo; dificilmen­
toricidade do homem, a verdadeira vida te eles são teologúmenos que simplesmente
histórica do ser humano, a história da qual se podem relegar ao âmbito do mito. Além
cada um experimenta por si mesmo e pela disso, mesmo que Paulo chame Cristo de "o
qual alcança sua verdadeira essência. Esta fim da lei" (Rm 10,4), ele não está dizendo
história da pessoa humana toma forma nos que "a história chegou a seu fim" (ibid. 43).
encontros que o homem vivência, seja com Antes, ele parece estar dizendo que uma
outras pessoas ou com acontecimentos, e nova fase da história da salvação começou,
nas decisões que toma nelas" (The Presence of porque "fomos atingidos pelo fim dos tem­
Eternity: History and Eschatology [New York, pos" (ICor 10,11).
1957] 43). Em outras palavras, os elementos
futuros na escatologia de Paulo são apenas 47 Uma alternativa a tal "escatologia
um modo simbólico de expressar a autor- realizada" é interpretar o ensinamento de
Paulo como uma "escatologia inaugurada", Use of End-Time Language", JBL 89[1970] 325-37.
ou até mesmo como uma "escatologia au- Longenecker, R. N., "The Nature of Paul’s Early
torrealizante" (em que "auto" se refere ao Eschatology", N TS 31 [1985] 85-95, M ay er, B„
"Elpis, etc". EW NT 1.1066-75.)
eschaton). Pois, na concepção de Paulo, os
cristãos vivem no eschaton, na era do Mes­
sias. Esta é uma era de polaridade dual; ela 48 (IV) A função de Cristo na histó­
olha para trás, para a primeira sexta-feira ria da salvação. Diante do pano de fundo
da paixão e o primeiro domingo de Páscoa, do evangelho, do mistério e do plano de
e para a frente, para a consumação final glo­ salvação do Pai, temos agora de tentar
riosa, quando "estaremos para sempre com descrever o papel do próprio Cristo na vi­
0 Senhor" (lTs 4,17). Esta era deu início a são de Paulo. Pois embora Abraão e Israel
um status de união com Deus desconhecido exerçam funções na execução deste plano
anteriormente e um status destinado a uma e a igreja esteja profundamente envolvida
união final com ele na glória. Esta é a base nele, o papel de Cristo é central para o pen­
da esperança e da paciência do cristão (Rm samento de Paulo. Só raramente Paulo de­
8,24-25). signa "Jesus" apenas por seu nome próprio
Esta concepção da escatologia de Paulo (lTs 1,10; 4,14; G1 6,17; F1 2,10; ICor 12,3
inclui um modo objetivo da existência em [provavelmente um lema citado]; 2Cor 4,5
que os cristãos se encontram por meio da [veja o aparato crítico], 10.11.14; 11,4; Rm
fé, um modo de existência inaugurado por 8,11), em contraposição a um uso abun­
Cristo, que encontrará sua perfeição num dante de títulos para designar Jesus, sendo
acontecimento que Paulo chama de parúsia um deles inclusive seu segundo nome (—»
do Senhor. Esta interpretação, contudo, não 51 abaixo). Isto indica imediatamente o in­
obriga ninguém a uma credulidade ingê­ teresse primordial de Paulo na significân-
nua que deixe de levar em conta a parafer­ cia de Cristo Jesus, ou, em nossos termos,
nália apocalíptica e os elementos acessórios na cristologia.
usados por Paulo para descrever as formas
da parúsia, ressurreição, julgamento e gló­ 49 (A) O Filho preexistente. Paulo
ria - veja lTs 4,16-17; ICor 15,51-54 (cf. 2Ts chama Jesus de "o Filho de Deus" (G1 2,20;
2 , 1 - 10 ). 3,26; 2Cor 1,19) ou "Seu [i.e., do Pai] Filho"
(lTs 1,10 [num fragmento querigmático]; G1
(A lla n , J. A ., "The Will of God: III. In Paul", 1,16; 4,4.6; ICor 1,9; Rm 1,3.9; 5,10; 8,3.29.32
ExpTim 72 [1960-61] 142-45. B a rr e tt, C. K., From ["Seu próprio Filho"]; cf. Cl 1,13; Ef 4,13]).
First Adam to Last [London, 1962]. B en oit, P., O que ele quis dizer com o título "Filho de
"L ’Evolution du langage apocalyptique dans le
Deus"? Considerando sua longa história no
corpus paulinien", in Apocalypses et théologie de
antigo Oriente Próximo, o título poderia su­
1 ’espérance [LD 95; ed. L. M onloubou; Paris, 1977]
299-335. D ietzfelb in g er, C ., Fleilsgeschichte bei gerir muitas coisas. Os faraós egípcios eram
Paulus? [TEH na 126; München, 1965]. Dinkler, considerados "filhos de Deus", porque o
E., "Parädestination bei Paulus", in Festscrift für deus sol, Ra, era considerado pai deles (C. J.
Günther Dehn [ed. W. Schneemelcher; Neukirchen, Gadd, Ideas of Rule in the Ancient East [Lon­
1957] 8 1 -1 0 2 . G o p p elt, L ., "P a u lu s u nd die don, 1948] 45-50). Seu uso é atestado tam­
Heilsgeschichte", NTS 13 [1966-67] 31-42. Kümmel, bém em referências a monarcas assírios e
W. G., "Heilsgeschichte im Neuen Testament"? babilónicos. No mundo greco-romano ele
in Neues Testament und Kirche [Festschrift R.
era usado para designar o soberano, espe­
Schnackenburg; ed. J. Gnilka; Freiburg, 1974] 434­
cialmente na expressão divi filius ou theou
57. Scroggs, R., The Last Adam: A Study in Pauline
Anthropology [Philadelphia, 1066], huios aplicado ao imperador romano (veja
B aird , W ., "Pauline Eschatology in Herme­ A. Deissmann, LAE 350-51). Ele também era
neutical Perspective", NTS 17 [1970-71] 314-27. dado a heróis míticos e taumaturgos (às ve­
G ager Jr., J. G., "Functional Diversity in P aul’s zes chamados de theioi andres) e até mesmo
a personagens históricos como Apolônio de correspondente obediência a esta vocação.
Tiana, Pitágoras e Platão (veja G. P. Wetter, A noção hebraica de filiação está na raiz da
Der Sohn Gottes [FRLANT 26; Gõttingen, aplicação neotestamentária do título a Cris­
1916]). A base da atribuição helenística des­ to.
te título era, aparentemente, a convicção de Dificilmente Paulo é o criador deste tí­
que tais pessoas tinham poderes divinos. tulo para Cristo; ele o herda da protoigreja.
Embora alguns sustentem que a aplicação O título se encontra em fragmentos do
deste título a Jesus se origina inteiramente querigma que ele incorpora em suas car­
deste pano de fundo helenístico (visto que tas (p.ex., Rm 1,3, "e que diz respeito a seu
ele dificilmente teria sido usado pelo pró­ Filho" [veja Conzelmann, OTNT 77]). Mas
prio Jesus ou até mesmo aplicado a ele pela o termo não tem sempre a mesma conota­
protocomunidade palestina [Schoeps, Paul ção. Quando diz que Jesus foi "estabelecido
158]), de modo algum esta afirmação é clara Filho de Deus com poder por sua ressur­
(-> Jesus, 78: 35-37). reição dos mortos, segundo o Espírito de
santidade" (Rm 1,4), Paulo usa o título no
50 No AT, "Filho de Deus" é um título sentido hebraico. Ele expressa o papel de
mitológico dado a anjos (Jó 1,6; 2,1; 38,7; SI Jesus dotado com um espírito que dá vida
29,1; Dn 3,25; Gn 6,2); um título de predi­ para a salvação dos seres humanos (ICor
leção para o povo de Israel coletivamente 15,45). Em outras partes Paulo pressupõe
(Ex 4,22; Dt 14,1; Os 2,1; Is 1,2; 30,1; Jr 3,22; a preexistência de Cristo, se não alude a
Sab 18,13); um título de adoção para um rei ela. "Enviou Deus o seu Filho, nascido de
no trono davídico (2Sm 7,14; SI 2,7; 89,27); mulher, nascido sob a Lei, para resgatar os
para juizes (SI 82,6); para o judeu justo (Eclo que estavam spob a Lei" (G1 4,4); cf. "seu
4,10; Sab 2,18). Diz-se frequentemente que próprio Filho" (Rm 8,3.32). Teoricamente,
ele era um título messiânico, mas não há poder-se-ia dizer que este "envio" se refe­
evidências claras deste uso no judaísmo re apenas a uma comissão divina. Mas isto
palestinense pré-cristão; nem mesmo o SI é tudo que Paulo sugere? A ambiguidade
2,7 deve ser interpretado claramente como parece ser removida por Fl 2,6: "Ele, es­
messiânico. "Filho de Deus" e "Filho do Al­ tando na forma de Deus" (en morphê theou
tíssimo" são atestados na LQ (4Q246 2:1), hyparchõn); cf. 2Cor 8,9. O status de que o
ainda que o sujeito da atribuição esteja per­ Filho gozava era de "ser igual a Deus" (to
dido por causa do estado fragmentário do einai isa theõ; —» Filipenses, 48,19). (Em Cl
texto (veja Fitzmyer, YJA 90-94). Também 1,15.17; 2,9 se faz referência a Jesus como
se deve hesitar acerca do uso de "Filho" em o Filho que era "a imagem do Deus invisí­
4QFlor (= 4Q274) 1:11, que cita 2Sm 7,14 vel; o primogênito de toda a criação".). Em
num contexto que uns afirmam ser messiâ­ ICor 15,24-25.28 Paulo fala de Cristo como
nico. Veja ainda lQSa 2:11-12, onde parece "o Filho" de um modo que pode até mes­
se dizer que Deus gera o Messias (JBL 75 mo transcender a cristologia funcional, pois
[1956] 177 n. 28; cf. J. Starchy, RB 70 [1963] ele trata ali do final do plano da salvação,
481-505; —» Apócrifos, 67:84, 92). Nenhum quando "o próprio Filho" se sujeitará àque­
destes textos é inequívoco. A identificação le (o Pai) que colocou todas as coisas sob
do Messias e do Filho de Deus é feita no NT seus pés. O Cristo com seu papel concluído
(Mc 14,61; Mt 16,16), e Cullmann pode estar é "o Filho" relacionado ao Pai.
certo ao pensar que a fusão dos dois títu­
los "Filho de Deus" e "Messias" ocorre pela 51 (B) C h r i s t o s . Na LXX christos é a
primeira vez em referência a Jesus. A ideia tradução grega do termo hebraico mãsiah,
dominante por trás do uso de "Filho de "o ungido" um título frequentemente usa­
Deus" no universo judaico era o da eleição do para designar os reis históricos de Israel
divina para uma tarefa dada por Deus e a (p.ex., ISm 16,6; 24,7.11; 26,16), raramente
um sumo sacerdote (Lv 4,5,16) e uma vez gasse entre os gentios. Enquanto que antes
até um rei pagão (Ciro, Is 45,1) Visto que ele da experiência de Damasco Paulo perseguia
era frequentemente usado para Davi, quan­ as igrejas de Cristo (G11,22) e a fé delas em
do a linhagem davídica foi levada para o ca­ Jesus como Messias, a revelação de Jesus
tiveiro babilónico (Jr 36,30) e a promessa de como o Filho de Deus não apenas produziu
um "Davi" futuro a ser suscitado por Deus uma ruptura abrupta com o seu passado,
surgiu em Israel (Jr 30,9; cf. 23,5), o título mas corrigiu sua própria crença messiânica.
acabou sendo transferido para esta figura Esta crença tornou-se, por assim dizer, uma
(veja Dn 9,25, "até a vinda de um Messias, segunda natureza de Paulo, e o título logo
um príncipe" [tradução do autor]). Assim se tornou o segundo nome de Jesus.
surgiu a expectativa messiânica em Israel
(—» Pensamento do AT, 77:152-63). O títu­ (D a h l , The Crucified Messih [—> 2 9 acima}.
lo indicava um agente ungido de Iahweh H ahn, F., The Titles of Jesus in Christology [London,
1 9 6 9 ] 1 3 6 - 2 2 2 . K r a m e r , W ., Christ, Lord, Son ofGod
aguardado pelo povo para sua libertação.
[SBT 1 / 5 0 ; London, 1 9 6 6 ] .)
Esta expectativa de um Messias vindou­
ro desenvolveu-se mais entre os essênios
de Qumran: "até a vinda de um profeta e 52 (C) Kyrios. Talvez um título pau­
o Messias de Aarão e Israel" (1QS 9:11;—» lino ainda mais importante para designar
Apócrifos, 67:29,114-17). Jesus, especialmente como o Cristo res-
O título foi aplicado a Jesus de Nazaré surreto, seja Kyrios, "Senhor". Paulo não o
de modo muito rápido após sua morte e usa tão frequentemente como Christos, mas
ressurreição, evocado entre seus seguido­ mais frequentemente do que "Filho" ou
res indubitavelmente pelo título que Pilatos "Filho de Deus". -
afixou em sua cruz, "rei dos judeus" (Mc Paulo emprega o termo Kyrios para de­
14,26; cf. Dahl, Crucifed 23-33; observe que o signar Iahweh do AT, especialmente em
fragmento querigmático preservado em At passagens onde cita ou explica textos do
2,36 sugere a mesma aplicação). O que é no­ AT (lTs 4,6; ICor 2,16; 3,20; 10,26; 14,21;
tável acerca do uso paulino de Christos não Rm 4,8; 9,28.29; 11,3.34; 12,19; 15,11 cf. L.
é sua frequência (266 vezes em suas cartas Cerfaux, ETL 20 [1943] 5-17). Nestes casos
indiscutíveis [81 vezes nas deuteropauli- ocorre o (ho) Kyrios absoluto ou inalterado.
nas, 32 nas pastorais], mas por ter se torna­ De onde vem este uso absoluto, até mesmo
do praticamente o segundo nome de Jesus: para Iahweh? Ele se encontra nos grandes
"Jesus Cristo" (p.ex., lTs 1,1.3) ou "Cristo mss da LXX, mas eles são cópias cristãs, e
Jesus" (p.ex., lTs 2,14; 5,18). Somente em Kyrios poderia ser a substituição de copis­
Rm 9,5 ele usa Christos claramente no senti­ tas cristãos posteriores. Que o uso pudesse
do de um título; mesmo aí ele não é um títu­ ter chegado aos cristãos do período neotes-
lo genérico, mas se refere ao único Messias, tamentário a partir de traduções contem­
Jesus. Dahl (Crucified 40,171) detecta "cono­ porâneas gregas do AT é frequentemente
tações messiânicas" no uso de Christos em negado porque "(o) Senhor" era uma desig­
ICor 10,4; 15,22; 2Cor 5,10; 11,2-3; F11,15.17; nação incomum para Deus no judaísmo -
3,7; Rm 1,2-4; mas cada um destes casos é de fato, segundo Bultmann, "inconcebível"
controverso. Portanto, o que é importante (TNT 1. 51). Nas traduções gregas do AT
é compreender que para Paulo Christos sig­ feita para os judeus e por judeus, o tetragra-
nificava aquilo que os cristãos tinham pas­ ma (YHWH) era de fato escrito em caracte­
sado a compreender acerca do título judai­ res hebraicos, ou às vezes como IAO (veja
co anterior. Paulo chegou à fé por meio de Conzelmann, OTNT 83-84). Contudo, há
"uma revelação de Jesus Cristo" (G1 1,12), agora evidências de que os judeus palesti­
uma revelação na qual "o Pai revelou seu nos nos últimos séculos pré-cristãos esta­
Filho a mim" (G1 1,16), para que ele o pre­ vam começando a chamar seu Deus de "o
Senhor" (absolutamente). Assim, a pala­ fora da Palestina, teria se defrontado com
vra hebraica ’ãdôn se encontra no SI 114,7 esse uso helenístico - argumenta-se - e ado­
("Treme, ó terra, diante do Senhor, dian­ tado este título para designar o Cristo res­
te da presença do Deus de Jacó"), talvez surreto. Mas esse argumento carece de um
também no SI 151 citado em llQ P sa 28:7-8 exame minucioso, especialmente à luz das
("Quem pode contar os atos do Senhor?" evidências do uso religioso pelos judeus da
- uma leitura contestada; veja P. Auffret e Palestina apresentado acima.
J. Magne, RevQ 9 [1977-78] 163-88, 189-96). O próprio Paulo herdou o título da co­
O aramaico mãrêh se encontra em llQ tgJob munidade judaico-cristã palestina em Jeru­
24:6-7 ("Mas Deus de fato virá a ser infiel e salém, onde "hebreus" e "helenistas" (At
o Senhor [torcerá o julgamento]?" = TM Jó 6,1-6) já tinham moldado a fórmula confes­
34,12). O enfático m ãry a, "o Senhor", ocor­ sional "Jesus é Senhor" (ICor 12,3; Rm 10,9)
re em 4QEnb 1 iv 5: "[A Gabriel] o [S]enhor e provavelmente até mesmo feito dele uma
disse" (= 1 Henoc 10,9, e a versão grega traz proclamação querigmática. Na verdade, o
ho Ks. Além disso, a palavra grega Kyrios é título constitui o clímax do hino pré-pauli-
usada duas vezes por Josefo (Ant. 20.4.2 § no (provavelmente judaico-cristão) a Cris­
90, numa oração do rei lzates, um converti­ to usado em Fl 2,6-11: "E que toda língua
do ao judaísmo; Ant. 13.3.1 § 68, citando ls proclame que o Senhor é Jesus Cristo para a
19,9 numa carta do sumo sacerdote Onias). glória de Deus Pai (retrovertido para o ara­
Estas evidências mostram que os judeus pa­ maico: wêkol lissãn yitwaddê di m ãrê’ Y èsüã‘
lestinos que falavam hebraico, aramaico ou m ésihã’ liqãr ’E lãhã’ ’ab bã’). (Compare Cl
grego estavam começando (pelo menos) a 2,6: "Portanto, assim como recebestes [pa-
designar Deus como "o Senhor". relabete] Cristo Jesus o Senhor".). Mesmo
quando escreveu para uma comunidade de
53 O uso do absoluto de (ho) Kyrios língua grega (ICor 16,22) Paulo preservou
por parte de Paulo para designar o Cristo maranatha, "vem, Senhor nosso", uma fór­
ressurreto é frequentemente atribuído a seu mula litúrgica relacionada a Kyrios. Embora
pano de fundo helenístico (p.ex., W. Bousset, não seja mais a forma absoluta, ela revela
Kyrios Christos [Nashville, 1970] 119-52; uma origem palestina antiga, pois reflete o
Bultmann, TNT 1.124; Conzelmann, OTNT aramaico m ãránã’ th ã ’ (cf. Ap 22,20: "Vem,
82-84), visto que o uso absoluto de Kyrios Senhor Jesus!"; Did. 10:6). Era uma oração
é bem atestado no universo helenístico escatológica que invoca o Senhor da parú-
do Império Romano (veja W. Foerster em sia, provavelmente derivada de uma litur­
TDNT 3. 1046-58). Em textos religiosos da gia eucarística considerada um antegozo
Ásia Menor, Síria e Egito, deuses e deusas dessa vinda (veja ICor 11,26). Estas evidên­
como íris, Osíris e Serapis eram muitas ve­ cias sugerem, portanto, que Paulo derivou
zes chamados simplesmente de kyrios ou o uso de "Senhor" para designar o Cristo
kyria. O próprio Paulo estava consciente ressurreto da comunidade judaico-cristã
disto: embora existam muitos "senhores", primitiva de Jerusalém.
para nós há apenas um Senhor, Jesus Cris­
to (ICor 8,5-6). Kyrios também era um tí­ 54 O que significava o título Kyrios
tulo soberano para designar o imperador para Paulo? Ele era, em primeiro lugar, um
romano (At 25,26, onde a RSV acrescenta modo de se referir ao status ressurreto de
"m eu", que não está no grego). Embora de­ Jesus o Cristo. "Não sou apóstolo? Não vi
note primordialmente a soberania política Jesus nosso Senhor?" (ICor 9,1). Assim ex­
e judicial do imperador, ele também traz a clamou Paulo ao relacionar sua reivindica­
nuança de sua divindade, especialmente na ção ao apostolado com sua visão do Cris­
área oriental do Mediterrâneo. Quando o to ressurreto. Em segundo lugar, o termo
querigma cristão primitivo foi levado para expressava para ele, como para os judeus
cristãos antes dele, que este Cristo exaltado M aranatha and Their A ram aic B ackground",
(F12,9) era digno da mesma adoração que o TAG 218-35; "The Semitic Background of the New
próprio Iahweh, como sugere a alusão a ls Testament íCyríos-Title", W A 115-42; também "The
Aramaic Background of Philippians 2:6-11", CBQ
45,23 em F1 2,10. Em terceiro lugar, tanto o
50 [1988] 470-83.)
uso de maranatha (ICor 16,22) quanto a in­
terpretação paulina da eucaristia ("todas as
vezes, pois, que comeis desse pão e bebeis 55 (D) Paixão, morte e ressurreição.
desse cálice, anunciais a morte do Senhor O momento decisivo do plano divino de
até que ele venha", ICor 11,26) parecem salvação foi alcançado na paixão, morte e
sugerir que Kyrios foi originalmente aplica­ ressurreição de Jesus, o Cristo. A unidade
do ao Cristo da parúsia e, então, gradativa- destas fases deve ser mantida na concepção
mente retrojetado a outras fases anteriores paulina deste plano. Diferentemente da con-
da existência de Jesus (—> Pensamento do ceção joanina, que tende a fazer da elevação
NT, 81:13). Em quarto lugar, embora em ignominiosa de Jesus na cruz uma elevação
si Kyrios não signifique "Deus" ou afirme majestosa para a glória (Jo 3,14; 8,28; 12,34)
a divindade de Cristo, o fato de que Paulo de modo que o Pai parece glorificar o Filho
(e os primeiros cristãos judeus antes dele) na própria sexta-feira da paixão (Jo 12,23;
usou em relação ao Cristo ressurreto o títu­ 17,1-5), a concepção de Paulo vê a paixão e
lo que os judeus palestinenses tinham usa­ a morte como um prelúdio para a ressurrei­
do em relação a Iahweh o coloca no mesmo ção. Todas as três fases compõem "a histó­
nível de Iahweh e sugere seu status trans­ ria da cruz" (ICor 1,18); pois é o "Senhor da
cendente. Ele é na realidade algo mais que glória" (ICor 2,8) que foi crucificado. Em­
humano. (Neste sentido, deveria ser lem­ bora ele tenha sido humilhado e sujeito aos
brado aqui que apenas em Rm 9,5 Paulo poderes que controlavam esta era, sua res­
possivelmente chame Jesus Cristo de theos, surreição significou sua vitória sobre eles
"Deus", e este é um texto altamente contro­ como Senhor (F12,10-11; 2Cor 13,4). "Aquele
verso; —>Romanos, 51:94). Em quinto lugar, que morreu" é também "aquele que ressus­
o título expressa o domínio de Jesus sobre citou" (Rm 8,34). Embora assumir a "forma
as pessoas justamente em sua condição glo­ de escravo" (F1 2,7), i.e., tornar-se humano
riosa e ressurreta como uma influência que (2Cor 8,9), faça parte do processo salvífico,
afeta a vida delas até mesmo no presente. E Paulo não está tão interessado nisso à parte
um título pelo qual os cristãos reconhecem da paixão, morte e ressurreição. Pois ele vê
sua relação com Cristo como o Senhor de nas últimas fases da existência terrena de
"vivos e mortos" (Rm 14,9). Ao reconhecer Jesus a obediência filial dele mostrada de
seu senhorio, os cristãos juntamente com modo real (F1 2,8; Rm 5,19). Paulo frequen­
Paulo admitem que são douloi, "servos" temente atribui a redenção da humanidade
dele (ICor 7,22; cf. Rm 1,1; G 11,10). à iniciativa graciosa do Pai, mas ele também
(Em Cl e Ef o senhorio de Cristo, desen­ deixa clara a cooperação livre e amorosa de
volvido como "o mistério de Cristo", é ex­ Cristo na execução do plano do Pai (G12,10;
plicado ainda mais. Como Kyrios do kosmos, Rm 3,23). Ele é "nosso Senhor Jesus Cristo,
ele desarmou "os principados e poderes" que se entregou a si mesmo por nossos pe­
[Cl 2,151; nele, o único "Senhor" [Ef 4,5], a cados a fim de nos livrar do presente mun­
igreja encontra sua unidade.) do mau" (G11,4).

56 A protoigreja registrou a memó­


(B oism ard , M .-E ., "L a divinité du C hrist
d ’aprés Sant Paul", LumVie 9[1053] 75-100. C er- ria de Jesus como o Filho do Homem que
fau x, L., "K yrios", DBSup 5.200-28. C onzelm ann, disse que tinha vindo não para ser servido,
OTNT 76-86. Fitzm yer, J. A., " Kyrios, Kyriakos" mas para servir e dar sua vida como resgate
EW NT 2 811-20; "N ew Testam ent Kyrios and por muitos (Mc 10,45). Em nenhum lugar
Paulo alude a este dito de Jesus, exceto talvez reição de Cristo como o evento salvífico.
em seu uso da fórmula eucarística em ICor O texto principal neste aspecto é Rm 4,25:
11,24. Todavia, ele enfatiza efetivamente o "Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue
sofrimento e a morte vicários de Cristo em por nossas faltas e ressuscitado para nossa
favor da humanidade. Seu ensinamento justificação". Veja também lTs 4,14; Fl 2,9­
depende do querigma da protoigreja (ICor 10; ICor 15,12.17.20-21; 2Cor 5,14-15; 13,4;
15,3: "Cristo morreu por nossos pecados"), Rm 8,34; 10,9-10. A maioria destes textos
refletido frequentemente de uma ou de ou­ não deixa dúvidas acerca do valor soterioló­
tra forma (ICor 1,13, "em vosso favor"; Rm gico da primeira Páscoa. Romanos 4,25 não
14,15; G 11,4; 3,13; 2Cor 5,14,21; "Cristo, no é um pleonasmo vazio ou somente um caso
tempo marcado, morreu pelos ímpios", Rm de paralelismus membrorum [paralelismo dos
5,6). Pode-se discutir se deveria ser "por membros]. Ele expressa, antes, o duplo efei­
nós" ou "em nosso lugar"; em qualquer to do acontecimento-salvador: a eliminação
caso a ideia paulina básica está presente. das transgressões humanas (no lado nega­
Se às vezes Paulo parece enfatizar a morte tivo) e a instituição de um status de retidão
de Cristo para a salvação humana (lTs 5,10; (no lado positivo). A ressurreição de Cristo
G12,20; Rm 3,25; 5,6.9-10) sem mencionar a não foi um subproduto puramente pesso­
ressurreição, ele o faz para enfatizar o cus­ al de sua paixão e morte. Antes, ela contri­
to que esta experiência em favor dos seres buiu tanto quanto aquelas de modo causal
humanos exigiu de Cristo. "Alguém pagou para a redenção objetiva da humanidade.
alto preço por vosso resgate" (ICor 6,20). "Se Cristo não ressuscitou, [...] ainda estais
Desta forma Paulo enfatiza que não foi pe­ em vossos pecados" (ICor 15,17; —» Pensa­
quena coisa o que Cristo fez por eles. mento do NT, 81:120). Para que a fé cristã
seja salvífica, os lábios humanos precisam
57 As vezes Paulo sugere que a morte reconhecer "Jesus é Senhor", e os corações
de Cristo foi uma forma de sacrifício que ele humanos precisam crer que "Deus o ressus­
sofreu em favor dos seres humanos. Há uma citou dentre os mortos" (Rm 10,9).
alusão a esta noção em ICor 5,7, onde Cristo
é descrito o como cordeiro pascal. Uma nu­ 59 Observe como Paulo fala da res­
ance mais específica do "sacrifício da alian­ surreição. Só em lT s 4,14 ele diz que "Jesus
ça" se encontra na passagem eucarística de morreu e ressuscitou" (como por seu pró­
ICor 11,24-25. (Quanto à a interpretação sa­ prio poder). Em outras passagens a eficácia
crifical da passagem controversa em 2Cor da ressurreição é atribuída ao Pai, o autor
5,21, veja a longa exposição de L. Sabourin gracioso do plano da salvação: "Deus Pai
em Lyonnet, Sin 185-296.) Bultmann (TNT que o ressuscitou dentre os mortos" (G1
1. 296) pode ter razão em afirmar que esta 1,1; cf. lTs 1,10; ICor 6,14; 15,15; 2Cor 4,14;
concepção da morte de Cristo não é carac­ 8,11; 10,9; [Cl 2,12; Ef 1,20]). A generosidade
teristicamente paulina, mas representa uma amorosa de Cristo se expressa em sua auto-
tradição que se originou na protoigreja. entrega à morte, mas o ato de favor prove­
(A concepção é formulada explicitamen­ niente de Deus é enfatizado quando Paulo
te em Ef 5,2, onde ela é associada ao amor atribui a ressurreição ao Pai. "Mas está vivo
de Cristo e são feitas alusões a SI 40,7 e Ex pelo poder de Deus" (2Cor 13,4). De fato,
29,18: "Assim como Cristo também vos em Rm 6,4 ficamos sabendo que o poder
amou e se entregou por nós a Deus como da "glória do Pai" operou a ressurreição de
oferta e sacrifício de odor suave [prosphoran Cristo. Esta doxa exaltou Cristo a seu esta­
kai thysian]".) do glorioso (Fl 2,10); esta exaltação celestial
é sua anabasis, sua ascensão ao Pai, assim
58 O que é muito mais característico como sua morte na cruz expressou a profun­
em Paulo é a ligação da morte e da ressur­ didade de sua humilhação e katabasis. Como
muitos na protoigreja, Paulo via a ressurrei- Theologie im Neuen Testament", EvT 34 [1974]
ção-ascensão como uma única fase da exal­ 116-41. Ortkemper, F.-J., Das Kreuz in der Verkündi­
tação gloriosa "do Senhor" (—» Pensamento gung des Apostels Paulus [SBS 24; Stuttgart, 1967],
S ch a d e , H .-H ., Apokalyptische Christologie bei
do NT, 81:134). (Em Cl 2,15 um discípulo
Paulus [GTA 18; Göttingen, 1981]. Schweizer, E.,
de Paulo concebe esta exaltação como uma
"Dying and Rising with Christ", NTS 14 [1967-68]
triunfante vitória-ascensão sobre a morte e 1-14. S tan ley , D. M., Christ 's Resurrection in Pauli­
os poderes espirituais deste mundo. Deus ne Soteriology [AnBib 13; Rome, 1961]. T an n eh ill,
fez a "extraordinária grandeza de seu po­ R. C., Dying and Rising with Christ [BZNW 32;
der" "operar em Cristo ressuscitando-o Berlin, 1967], W eder, H ., Das Kreuz Jesu bei Paulus
dentre os mortos e fazendo-o se assentar à [FRLANT 125; Göttingen, 1981].)
sua direita nos céus, muito acima de qual­
quer Principado, Autoridade, Poder e Sobe­
rania e de todo nome que se pode nomear 61 (E) O Senhor e o Espírito. Antes
[...]" [Ef 1,19-21].) de considerar os vários efeitos que Paulo
atribui ao que Cristo fez pela humanidade,
60 Para Paulo, a ressurreição colocou precisamos dedicar alguma atenção à rela­
Cristo em um novo relacionamento com as ção do Senhor com o Espírito no plano de
pessoas que têm fé. Em decorrência dela, ele salvação do Pai. Já vimos que Paulo chama
foi "estabelecido Filho de Deus com poder Cristo de "o poder de Deus e a sabedoria
por sua ressurreição dos mortos, segundo o de Deus" (ICor 1,24). Como o termo "espí­
Espírito de santidade" (Rm 1,4). A "glória" rito de Deus", estes epítetos são formas de
que ele recebeu do Pai tornou-se seu poder, expressar a contínua atividade de Deus (cf.
um poder para criar nova vida nas pessoas Sab 7,25); quanto ao "espírito de Deus" no
que creem nele. Na ressurreição ele tornou- AT, veja Gn 1,2; SI 51,13; 139,7; ls 11,2; 61,1;
se, portanto, o "último Adão", o primeiro Ez 2,2. Ele expressa a presença criadora,
ser do eschaton (ICor 15,45: "O primeiro ho­ profética ou renovadora de Deus em rela­
mem, Adão, foi feito alma vivente; o último ção aos seres humanos ou ao mundo em ge­
Adão tornou-se o espírito que dá a vida"; ral; por meio dele Deus é providente para
—» 79 abaixo). Em virtude deste princípio di­ Israel ou para o mundo (—>Pensamento do
nâmico, Paulo se dá conta de que não é ele NT, 77:32-39). Embora Paulo venha a iden­
quem agora vive, mas que o Cristo ressusci­ tificar Cristo com o poder e a sabedoria de
tado vive nele (G12,20). Como "Espírito que Deus, ele nunca o chama explicitamente de
dá a vida", Cristo realiza a justificação dos "o espírito de Deus".
crentes e os salva do dia da ira do Senhor Em diversos lugares, contudo, Paulo
(lTs 1,10). Paulo até ora "para conhecê-lo, não distingue de maneira clara o Espírito
conhecer o poder de sua ressurreição" (F1 de Cristo. Em Rm 8,9-11 os termos "Espírito
3,10), compreendendo que o Senhor possui de Deus", "o Espírito de Cristo", "Cristo",
um poder derivado do Pai e capaz de reali­ e "o Espírito daquele que ressuscitou Jesus
zar a ressurreição dos cristãos. dos mortos" são usados de modo intercam-
biável na descrição paulina da habitação de
(D hanos, E. [éd.], Resurrexit: Actes du sympo­ Deus no cristão. Relacionada a esta ambi­
sium international sur la résurrection de Jésus [Rome, guidade está a designação de Cristo como o
1974], D u rrw ell, F. X., The Resurrection: A Biblical "último Adão" desde a ressurreição, quan­
Study [NY,I960]. Fitzm yer, J. A., "'To Know Him do ele se tornou "um Espírito que dá vida"
and the Power of His Resurrection' (Phil 3:10)",
(ICor 15,45), sendo "estabelecido Filho de
TAG 202-17. F eu illet, A., "M ort du Christ et mort
du chrétien d ’après les épîtres pauliniennes", RB Deus com poder por sua ressurreição sobre
66 [1959] 481-513. Güttgem anns, E., Der leidende os mortos, segundo o espírito de santidade"
Apostel und sein Herr [FRLANT 90; Gottingen, (Rm 1,4). De fato, Paulo fala de um envio
1966]. Luz, U., "Theologia crucis als Mitte der do "Espírito do Filho" (G14,6), do "Espírito
de Jesus Cristo" (Fl 1,19), e o Jesus como "o da lei (G1 5,18; cf. Rm 8,2), dos "desejos da
Senhor, o Espírito" (2Cor 3,18). Finalmente, carne" (G1 5,16) e de toda conduta imoral
ele até mesmo chega ao ponto de dizer "o (G1 5,19-24). E o dom do Espírito que cons­
Senhor é o Espírito" (2Cor 3,17; --> 2Corín- titui a filiação adotiva (G14,6; Rm 8,14), que
tios, 50:17). ajuda os cristãos na oração ("intercede por
Existem, contudo, textos triádicos nas nós com gemidos inefáveis", Rm 8,26), e
cartas de Paulo que colocam Deus (ou o que torna os cristãos especialmente cons­
Pai), Cristo (ou o Filho) e o Espírito num cientes de sua relação com o Pai. O poder
paralelismo que se torna a base para o dog­ do Espírito não é algo distinto do poder do
ma posterior das três pessoas distintas na Cristo ressurreto; Paulo diz o seguinte dos
trindade (2Cor 1,21; 13,13; ICor 2,7-16; 6,11; cristãos: "vos lavastes, mas fostes santifi­
12,4-6; Rm 5,1-5; 8,14-17; 15,30). Em G14,4-6 cados, mas fostes justificados em nome do
existe um duplo envio do "Filho" e do "Es­ Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso
pírito de seu Filho", e ainda que se possa Deus" (ICor 6,11).
a princípio hesitar acerca da distinção do
Espírito e do Filho aqui, o texto provavel­ 65 Os comentaristas de Paulo tenta­
mente reflete o envio distinto do Messias e ram, às vezes, distinguir o "Espírito Santo"
do Espírito no AT (p.ex., Dn 9,25; Ez 36,26). (pneuma com P - em nosso caso com E mai­
Além disso, ICor 2,10-11, que atribui ao úsculo) e os "efeitos" do Espírito que habita
Espírito um conhecimento abrangente dos em nós (com p minúsculo) - veja E.-B. Alio,
pensamentos profundos de Deus, talvez até Première épitre aux Corinthiens (Paris, 1934)
sugira seu caráter divino. 93-94. As vezes não se deveria preferir um
significado ao outro? Deste modo, Paulo po­
62 Este conjunto de textos duplos ma­ deria estar fornecendo a base para a distin­
nifesta a falta de clareza, de Paulo em sua ção teológica posterior entre o dom criado
concepção sobre a relação do Espírito com (graça) e o dom incriado (o Espírito). Mas
o Filho. Normalmente, ele usa "Espírito" esta distinção não é realmente de Paulo; o
no sentido do AT, sem os refinamentos Espírito para ele é o dom de Deus de sua
teológicos posteriores (natureza, substân­ presença criadora, profética ou renovadora
cia e pessoa). Sua falta de clareza deveria para os seres humanos ou para o mundo,
ser respeitada; ele fornece apenas o ponto e é melhor deixá-lo neste estado indetermi­
de partida dos desdobramentos teológicos nado.
posteriores.
66 Está relacionado à questão anterior
63 Como em sua cristologia, também o uso de charis, "graça". Para Paulo ela de­
em suas referências ao Espírito Paulo está signa com a maior frequência o "favor" de
interessado no papel funcional exercido por Deus, o aspecto gratuito da iniciativa do Pai
este último na salvação humana. Se Cristo na salvação (G1 2,21; 2Cor 1,12) ou da co­
abriu para os seres humanos a possibili­ laboração do próprio Cristo (2Cor 8,9). Ela
dade de uma nova vida, a ser vivida nele caracteriza, assim, a proveniência divina na
e para Deus, é mais exatamente o "Espírito promessa a Abraão (Rm 4,16), no chamado
de Cristo" que é o modo de comunicar este apostólico (G1 1,6; ICor 15,10; Rm 1,4), na
princípio dinâmico, vital e doador de vida eleição (Rm 11,5), na justificação dos seres
aos seres humanos. humanos (Rm 3,24; 5,15.17.20-21). Além
disso, ela caracteriza a dispensação que
64 O Espírito é, para Paulo, um "ener- substitui a lei (Rm 6,14-15; 11,6). Mas às ve­
gizador", um Espírito de poder (ICor 2,4; zes Paulo fala de charis como algo que está
Rm 15,13) e a fonte do amor, da esperança dado ou manifesto (G1 2,9; ICor 1,4; 3,10;
e da fé cristãs. Ele liberta os seres humanos 2Cor 6,1; 8,1; 9,14; Rm 12,3.6; 15,15). Ela
acompanha Paulo ou está nele (F11,7; ICor quentemente chamada) sob dez imagens
15,10). Pode-se discutir se isto deve ser con­ diferentes: justificação, salvação, recon­
cebido como algo produzido ou não. De ciliação, expiação, redenção, liberdade,
qualquer modo, este último grupo de texto santificação, transformação, nova criação e
levou à ideia medieval de "graça santifica- glorificação. Pois cada uma destas imagens
dora". Embora introjetar esta noção nestas expressa um aspecto distintivo do mistério
passagens paulinas seja anacrônico, deve­ de Cristo e sua obra. Se o evento Cristo for
se lembrar que o ensinamento de Paulo so­ concebido como um decaedro, uma figu­
bre o Espírito como uma força energizante ra sólida de dez lados, pode-se entender
constitui igualmente a base deste ensina­ como Paulo, olhando para um quadro des­
mento posterior. ta figura, usa uma imagem para expressar
um de seus efeitos, mas usaria uma outra
(Sobre o Espírito: Benjamin, H . S., BTB 6 [1976] imagem quando olhasse para um outro
27-48. Brandenburger, E., Fleisch und Geist: Paulus quadro. Cada um expressa um aspecto do
und die dualistische Weisheit [WMANT 29; Neukirchen, todo. As imagens múltiplas são derivadas
1968], H erm ann, I., Kyrios und Pneuma [SANT2;
de seu pano de fundo helenístico ou judai­
Munique,1961], Ladd, G. E., in Current Issues in
co e foram aplicadas por ele a este evento
Biblical and Patristic Interpretation [Festschrift M. C.
Tenney; ed. G. H aw th o rn e; Grand Rapids, 1975]
Cristo e seus efeitos. Em cada caso deve-se
211-16. Luck, U v TLZ 85 [1960] 845-48. S tald er, considerar sua (1) origem ou pano de fun­
K., Das Werk des Geistes in der Heiligung bei Paulus do, (2) significado para Paulo e (3) ocor­
[Zürich, 1962]. rências.
Sobre graça (charis): A r i c h e a , D . C . , BT
29 [1978] 201-6. B e r g e r , K . , EWNT 3. 1095­ 68 (A) Justificação. A imagem usada
1102. C a m b e , M., RB 70 [1963] 193-207. D e l a com mais frequência por Paulo para expres­
P o t t e r i e , I., in Jesus und Paulus [Festschrift sar um efeito do evento Cristo é "justifica­
W. G . K ü m m e l ; ed. E . E . E l l i s e E . G r ä s s e r ; ção" (dikaiõsis, dikaioun). (1) Ela é extraída
Göttingen, 1975] 256-82. D o u g h t y , D . }., do pano de fundo judaico de Paulo, sendo
NTS 19 [1972-73] 163-80.) uma imagem do AT que expressa um rela­
cionamento entre Deus e os seres humanos
ou os próprios seres humanos, seja como
67 (V ) E fe ito s do e v e n to C r is to . O reis e cidadãos, ou irmãs e irmãos, ou vi­
termo "evento Cristo" é um modo curto zinhos. Mas ela denota um relacionamen­
de se referir ao complexo de momentos to social ou judicial, ético ou forense (i.e.,
decisivos da vida terrena e ressuscitada de relacionado a tribunais de justiça; veja Dt
Jesus Cristo. Falamos acima de três deles, 25,1; cf. Gn 18,25). Embora Noé seja descri­
sua paixão, morte e ressurreição; mas de to como "um homem justo" diante de Deus
fato se deveriam incluir também o sepul- (Gn 6,9, dito num contexto de lei pré-mo-
tamento, a exaltação e a intercessão celes­ saica), o dikaios, "reto, honesto (pessoa)",
tial de Jesus, pois Paulo vê importância veio a denotar normalmente a pessoa que
nestes momentos também. Já observamos foi inocentada ou vindicada diante de um
quão pouco interesse Paulo demonstra na juiz no tribunal (Ex 23,7; lRs 8,32). Sua nu­
vida de Jesus antes de sua paixão (—» 18 ança pactuai expressava o status de "justi­
acima). Para ele, o que era mais importante ça" ou "retidão" a ser alcançado aos olhos
era este complexo de seis momentos deci­ de Iahweh o Juiz mediante a observância
sivos. Quando Paulo olhava para estes mo­ dos estatutos da lei mosaica (veja SI 7,9-12;
mentos, compreendia o que Cristo Jesus 119,1-8). O AT também observou constan­
tinha realizado em favor da humanidade, temente quão difícil era atingir esse status
e ele falou dos efeitos desta realização (a (Jó 4,17; 9,2; Si 143,2; Esd 9,15). Enquanto Jo-
"redenção objetiva", como tem sido fre­ sefo não podia imaginar nada "mais justo"
do que obedecer os estatutos da lei {Ag. Ap. que apela para a fé em Jesus (3,26; cf. 5,1; G1
2.41 § 293), os essênios de Qumran expres­ 2,15-21). O processo de justificação começa
savam sua pecaminosidade em cânticos em Deus, que é "justo" e "justifica" o peca­
e buscavam justificação apenas em Deus: dor ímpio como resultado do que Cristo fez
"Quanto a mim, pertenço a humanidade em favor da humanidade. O pecador tor­
perversa, à assembleia da carne perversa; na-se dikaios e se encontra diante de Deus
minhas iniquidades, minhas transgressões, como "justo", "absolvido". Por esta razão
meus pecados, juntamente com a perversi­ Paulo também fala de Cristo como "nossa
dade de meu coração, pertencem à assem­ justiça" (ICor 1,30), visto que por meio de
bleia condenada aos vermes e a andar em sua obediência muitos são "feitos justos"
trevas. Nenhum ser humano estabelece seu (dikaioi katastathêsontai hoi polloi, Rm 5,19; cf.
próprio caminho ou dirige seus próprios ICor 6,11; Rm 5,18). Paulo insiste na total
passos, pois somente a Deus pertence o jul­ gratuidade deste status perante Deus por­
gamento dele, e de suas mãos vem a perfei­ que "todos pecaram e todos estão privados
ção da caminhada [...]. Se tropeço por causa da glória de Deus" (Rm 3,23). Ele até chega
de um pecado da carne, meu julgamento é a admitir que em tudo isto nos tornamos
segundo a justiça de Deus" (1QS 11:9-12; cf. "justiça de Deus" (2Cor 5,21), uma afir­
1QH 9,32-34; 14:15-16). Encontramos aqui mação ousada segundo a qual a justiça de
uma consciência do pecado e de Deus como Deus é comunicada a nós. Esta é a "justiça
fonte da retidão humana que é um tanto se­ de Deus" (Fl 3,9); ela não é nossa própria
melhante às ideias de Paulo, mas ela não é justiça (Rm 10,3).
tão desenvolvida como as dele acabariam
sendo. Embora Paulo, mesmo como cristão, 69 Sem dúvida este efeito do aconte-
pudesse olhar para sua experiência como cimento-Cristo era reconhecido pelos pri­
fariseu e afirmar que "quanto à justiça que meiros cristãos mesmo antes de Paulo;
há na lei" ele era "irrepreensível" (Fl 3,6), pelo menos 1 Cor 6,11 e Rm 4,25 são fre­
sua experiência próximo a Damasco o fez quentemente considerados afirmações
perceber a pecaminosidade de todos os pré-paulinas acerca da função de Cristo na
seres humanos e o papel de Cristo Jesus justificação. A contribuição distintivamen­
em reparar esta situação (veja Rm 3,23. (2) te paulina, contudo, é seu ensinamento de
Quando, então, Paulo diz que Cristo "justi­ que esta justificação vem "pela graça como
ficou" os seres humanos, ele quer dizer que, um dom" (Rm 3,24) e "por meio da fé" (Rm
por meio de sua paixão, morte, etc., Cristo 3,25). Embora seja improvável que o pro­
fez com que eles agora se encontrem peran­ blema dos judaizantes na protoigreja, que
te o tribunal de Deus absolvidos ou inocen­ Paulo combateu tão vigorosamente, tenha
tados - e isto à parte das ações prescritas dado origem a este modo de ver o evento
pela lei mosaica. Pois "a retidão de Deus" Cristo, sem dúvida este problema ajudou
(—> 39 acima) manifesta-se agora para com Paulo a aguçar sua própria concepção so­
os seres humanos num julgamento justo bre o assunto.
que é um julgamento de absolvição, visto
que "Jesus, nosso Senhor, foi entregue pelas 70 A ação por meio da qual Deus "jus­
nossas faltas e ressuscitado para a nossa jus­ tifica" o pecador foi objeto de muitos de­
tificação" (Rm 4,25). (3) Paulo reafirma cla­ bates. O verbo dikaioun significa "declarar
ramente o caráter gratuito e não merecido justo" ou "tornar justo"? Poder-se-ia espe­
desta justificação de toda a humanidade em rar que dikaioun como outros verbos gregos
Rm 3,20-26, que termina dizendo que Deus que terminam em -oõ tem um significado
expôs Jesus na morte ("por seu sangue") causativo, factitivo, "fazer alguém dikaios"
"no tempo presente para mostrar-se [Deus] (cf. doauloun, "escravizar"; nekroun, "mor­
justo e para justificar [ - a vindicar] aquele tificar"; dêloun, "tornar claro"; anakainoun,
"renovar"). Mas na LXX dikaioun parece ter de Iahweh por parte de Iahweh, como seu
normalmente um significado declarativo, salvador (m ôsia ', Is 45,15; Zc 8,7; cf. SI 25,5;
ou forense (G. Schrenk, TDNT 2. 212-14; cf. Mq 7,7) ou por meio de "salvadores" que
D. R. Hillers, JBL 86 [1967] 320-24). Às vezes ele suscitou para eles (Jz 3,9.15; 6,36; 2Rs
este parece ser o sentido nas cartas de Paulo 13,5; Is 19,20; —>Pensamento do AT, 77:140­
(p.ex., Rm 8,33), mas muitos casos são ambí­ 48). Não é, contudo, impossível que Paulo
guos. A partir da época patrística, tem sido tenha sido influenciado pelo uso de sõtêr,
usado o sentido eficaz de dikaioun, "tornar "salvador", no mundo greco-romano con­
justo", (veja João Crisóstomo, In ep. ad rom. temporâneo, onde Zeus, Apoio, Artemis ou
hom. 8.2 [PG 60, 456]; In ep. II ad Cor. hom. Asclépio eram frequentemente chamados
11.3 [PG 61.478]; Agostinho, De Spir. Et litt. de theos sõtêr, um epíteto cultual usado em
26.45 [CSEL 60.199]. De fato, este sentido pa­ tempos de necessidade (enfermidade, tem­
rece ser sugerido por Rm 5,19: "assim, pela pestades marítimas, angústia). Este título
obediência de um só, todos se tornaram jus­ também era aplicado a reis, imperadores e
tos" (katastathêsontai). Além disso, se a ên­ conselheiros de cidades (veja H. Volkmann,
fase de E. Käsemann na "justiça de Deus" "Soter, Soteria", DKP 5. 289-90). (2) A ima­
como "poder" estiver correta, este sentido gem expressa livramento ou resgate do mal
de dikaioun adquire uma nuança adicional, ou do dano, quer físico, psíquico, nacional,
e a ideia veterotestamentária da palavra cataclísmico ou moral. (3) Ao usá-lo, Pau­
de Deus como palavra eficaz (Is 55,10-11) lo reconhece que os cristãos "estão sendo
o apoiaria. Este debate sobre o sentido fo­ salvos" pela cruz de Cristo (ICor 1,18.21;
rense/declarativo ou eficaz de dikaioun foi cf. 15,2; 2Cor 2,15), i.e., resgatados do mal
agudo desde o tempo da Reforma. Mas tal­ (moral ou outro). E notável que ele use esta
vez seja bom lembrar que até mesmo Me- imagem, e não "justificação", na própria
lanchthon admitiu que "as Escrituras falam tese de Rm 1,16, onde identifica o "evange­
de ambos os modos" (Apol. 4.72). lho" como "a força de Deus para a salvação
de todo aquele que crê". Somente em F13,20
(Sobre justificação: Betz, O., in Rechtf 17-36. é que Paulo chama Jesus de sõtêr, e ele o é
Conzelm ann, H., EvT 28 [1968] 389-404. D aalen , como ainda "esperado", pois, embora Paulo
D. H. van , SE V I 556-70. D onfried, K. P., ZNW considere este efeito do evento Cristo como
67 [1976] 90-110. G yllenberg, R., Rechtfertigung
já alcançado, percebe que seu resultado fi­
und Altes Testament bei Paulus [Stuttgart, 1973],
nal ainda faz parte do futuro, com um as­
Jeremias, J., The Central Message of the New Testa­
ment [London, 1965] 51-70. Keck, L. E., em Rechtf pecto escatológico (veja lTs 2,16; 5,8-9; ICor
199-209. K ertelge, "Rechtfertigung" [—>39 acima]. 3,15; 5,5; Rm 5,9-10; 8,24 ["pois nossa salva­
Kuyper, L . }., SJT 30 [1977] 233-52. Reumann, ]., "Ri­ ção é objeto de esperança"]; 10,9-10.13). Re­
ghteousness" in the New Testament, Philadelphia, lacionada a este futuro está a função de in­
1982. S treck er, G ., in Rechtf 479-508. W ilckens, tercessão atribuída ao Cristo ressurreto no
U., Rechtfertigung als Freiheit: Paulusstudien [Neu­ céu (Rm 8,34). Esta também é a razão pela
kirchen, 1974], W o lte r , M., Rechtfertigung und qual Paulo pode recomendar aos filipenses
zukünftiges Heil [BZNW 43; Berlin, 1978]. Zeisler, J. "operai vossa salvação com temor e tremor"
A., The Meaning of Righteousness in Paul [SNTSMS
(F12,12), acrescentando, contudo, imediata­
20; Cambridge, [1972].)
mente: "pois é Deus quem opera em vós o
querer e o operar, segundo sua vontade"
71 (B) Salvação. Uma forma bastante (2,13) - a fim de que ninguém pense que a
comum de Paulo expressar um efeito do salvação possa ser alcançada sem a graça
evento Cristo é "salvação" (sõtêria, sõzein). de Deus. Também está relacionada a isso a
(1) Esta imagem muito provavelmente é insistência de Paulo de que todos os seres
derivada por Paulo da expressão veterotes­ humanos precisam um dia "comparecer
tamentária da libertação de seu povo Israel diante do tribunal de Cristo, a fim de que
cada um receba a retribuição do que tiver katallasseiri, diallassein se encontram abun­
feito durante sua vida no corpo, seja para dantemente (veja Dupont, La réconcilation
o bem, seja para o mal" (2Cor 5,10; cf. Rm 7-15). As palavras são compostas da raiz
2,6-11). Este aspecto futuro do ensinamento ali-, que significa "outro"; elas denotam um
paulino deve ser lembrado diante do pano "fazer de modo diferente", tanto no sentido
de fundo mais amplo do que Deus já alcan­ secular quanto no religioso. Num sentido
çou graciosamente para a humanidade na secular, elas denotam uma mudança nas re­
cruz e na ressurreição de Cristo Jesus. lações entre indivíduos, grupos ou países e
(É digno de nota o desenvolvimento dizem respeito às relações na esfera social
em Ef, onde Cristo é novamente chamado ou política. Significam uma passagem da
de "Salvador" [5,23] e onde toda a termi­ ira, hostilidade ou alheação para o amor,
nologia paulina característica associada à amizade ou intimidade; sentimentos po­
justificação agora aparece associada à sal­ dem acompanhar esta mudança, mas eles
vação: "Pela graça sois salvos, por meio da não são essenciais (Mt 5,23-24; ICor 7,11).
fé, e isso não vem de vós, é o dom de Deus, Num sentido religioso, a literatura grega
não vem das obras, para que ninguém se usa os verbos para expressar a reconciliação
encha de orgulho. Pois somos criaturas de deuses e seres humanos (p.ex., Sófocles,
dele, criados em Cristo Jesus para as boas Ajax 744). 2 Macabeus 1,5 diz que Deus se
obras que Deus já antes preparara para que reconciliou com os judeus (cf. 7,33; 8,29);
nelas andássemos" [2,8-10]. Por ocasião da e Josefo (Ant. 6.7.4 § 143) fala semelhante­
escrita de Efésios, o problema dos judaizan- mente que Deus se reconciliou com Saul.
tes tinha diminuído, e o papel da graça e (2) Quando Paulo aplica esta imagem ao
da fé foi transposto para a salvação mais evento Cristo, ele sempre diz que Deus ou
genérica. Veja A. T. Licoln, CBQ 45 [1983] Cristo reconcilia os seres humanos, inimi­
617-30.) - gos ou pecadores, consigo mesmo. A ini­
ciativa é de Deus, que, por meio de Cristo,
(Sobre salvação: B ro x, N., E v T 33 [1973] 253­ faz com que os pecadores humanos sejam
79. C u llm an n, O., The Chrístology of the New Testa­ levados de um status de inimizade para
ment [ed. rev. Philadelphia, 1963] 238-45; em P o rt.: um status de amizade (veja 2Cor 5,18-19).
Cristologia do NT, E ditora H agn os. D ornseiff, F.,
"Pois se quando éramos inimigos fomos
P W 2/III. 1.1211-21. L yon n et e Sabourin, Sin 63­
reconciliados com Deus pela morte do seu
78. P ack er, J. I., BSac 129 [1972] 195-205, 291-306.
S ch elkle, K. H „ EW NT 3. 781-84,784-88.) Filho, muito mais agora, uma vez reconci­
liados, seremos salvos por sua vida. E não
é só, mas nós nos gloriamos em Deus por
72 (C) Reconciliação. Uma outra ima­ nosso Senhor Jesus Cristo, por quem desde
gem que Paulo usa para descrever um efeito agora recebemos a reconciliação" (Rm 5,10­
do evento Cristo é "reconciliação" (katallagê, 11). (3) O que é notável neste caso é que
katallasseiri) [Cl e Ef usam apokatallassein). Paulo estende este efeito do evento Cristo
(1) A imagem é derivada por Paulo de seu dos seres humanos para o próprio kosmos:
pano de fundo greco-romano, visto que não "Pois era Deus que em Cristo reconciliava
existe palavra hebraica ou aramaica para o mundo consigo" (2Cor 5,19; cf. Rm 11,15).
expressar a ideia no AT. A LXX usa diallas- A reconciliação não tem apenas uma di­
sein, que tem o mesmo significado, ao tratar mensão antropológica, mas uma dimensão
de um levita que se irou com sua concubina cósmica também. (Em Cl e Ef este efeito é
e foi falar-lhe para "reconciliá-la com ele" mais desenvolvido porque está relacionado
(Jz 19,3); mas o hebraico diz "para fazê-la à função cósmica geral do Cristo ressurre­
voltar para ele" (veja RSV). Cf. ISm 29,4, to [Cl 1,20-22, e especialmente Ef 2,11-19].
onde o hebraico diz "ele se fará aceitável". A reconciliação é descrita tanto "horizontal­
No grego helenístico, contudo, os verbos mente", na medida em que gentios e judeus
são aproximados como cristãos, e "vertical­ como to hilastêrion (p.ex., Ex 25,18-22 com
mente", na medida em que tanto os cristãos o artigo como no TM), um substantivo que
gentílicos quanto os judeus cristãos foram significa "meio de expiação". No latim da
reconciliados com Deus por meio de Cristo, Vulgata, kappõret foi traduzido na maioria
que é "nossa paz".) dos casos como propitiatoríum (daí a tra­
Esta ideia de reconciliação é igual à de dução "propiciatório" em algumas bíblias
"expiação", quando esta palavra é entendi- inglesas antigas). Lutero o traduziu por
de maneira correta. Infelizmente, a expia­ Gnadenstuhl, e uma imitação da KJV o tra­
ção tem sido muitas vezes entendida erro­ duziu por "trono de misericórdia". (2)
neamente e confundida com "reparação" Paulo usa esta imagem como um efeito do
(p.ex., por Kãsemann, em Future 50) - e, pior evento Cristo só em Rm 3,25, onde ele re­
ainda, com "propiciação". Reconciliação/ flete sua relação veterotestamentária com o
expiação não tem nada a ver per se com o ritual do Dia da Expiação em Lv 16: "Deus
culto ou sacrifício; é uma imagem derivada o [Cristo] expôs como o hilastêrion, por seu
dos relacionamentos dentro da esfera social próprio sangue mediante a fé [...] pelo fato
ou política. de ter deixado sem punição os pecados de
outrora". Assim, mediante sua morte ou o
(Sobre reconciliação: Büchsel, F., T D N T 1.251- derramamento de seu sangue Cristo alcan­
59. D upont, J., La réconciliation dans la théologie de çou em favor da humanidade de uma vez
Saint Paul [A LBO 3 /3 2 ; Bruges, 1953]. Fitzmyer,
por todas o que o ritual do Dia da Expiação
J. A ., TAG 162-85. Furnish, V. P., CurTM 4 [1977]
simbolizava a cada ano para Israel no pas­
204-18. H ah n, F., EvT 33 [1973] 244-53. H engel, M„
TheAtonement [Philadelphia, 1981]. Kãsemann, E., sado; ele se tornou o novo "trono de miseri­
in The Future of Our Religious Past [Festschrift R. córdia". Hilastêrion poderia, com efeito, ser
Bultm ann; ed. J. M. Robinson; New York, 1971] 49­ entendido como um adjetivo: "expôs Cristo
64. Lührm ann, D ., ZTK 67 [1970] 437-52. M erkel, como expiatório"; mas, considerando o uso
H .,E W N T 2. 644-50.) mais comum da LXX, é preferível interpre­
tá-lo como um substantivo: "expôs Cristo
73 ( D ) E x p i a ç ã o . Um outro efeito do como meio de expiação", i.e., um meio pelo
evento Cristo é expresso por Paulo sob qual o pecado humano é apagado, removi­
a imagem de "expiação" (hilastêrion). (1) do por aspersão. (3). Alguns comentaristas
Apesar das tentativas de relacionar esta tentam relacionar hilastêrion ao verbo grego
imagem ao pano de fundo helenístico de hilaskesthai, que era frequentemente usado
Paulo, ela é derivada por ele do AT, i.e., no período helenista para fazer referência a
da tradução da LXX do termo hebraico um deus ou herói como seu objeto e signi­
kappõret, a tampa feita de ouro puro colo­ ficava "propiciar", "aplacar", "apaziguar"
cada em cima da arca da aliança no Santo esse ser irado. Isto poderia sugerir que Pau­
do Santos, que servia de base para os dois lo estava dizendo que Cristo foi exposto
querubins do trono de Iahweh (veja Ex com seu sangue a fim de aplacar a ira do
25,17-22). Kippêr em hebraico significa basi­ Pai (veja Morris, "The Meaning"). Contudo,
camente "aspergir", "limpar" (veja HALAT isto está longe de ser certo. Na LXX Deus é,
470), e a tampa era chamada de kappõret às vezes, o objeto de hilaskesthai (Ml 1,9; Zc
porque era aspergida com o sangue sacri­ 7,2; 8,22); mas nestas três ocasiões não en­
fical pelo sumo sacerdote, que entrava no tra em cogitação um apaziguamento de sua
Santo dos Santos uma vez por ano com esta ira (veja a RSV). De modo mais frequente
finalidade no Yom hakkipünm (Lv 16,14-20). hilaskesthai é usado para designar a expia­
A primeira vez que o termo kappõret ocorre ção de pecados (i.e., removê-los ou remover
no AT ele é traduzido na LXX por hilastêrion sua culpa, SI 65,4; Eclo 5,6; 28,5) ou a expiação
epithema (Ex 25,17), "tampa/cobertura que de algum objeto, pessoa ou lugar (i.e., no
expia", mas daí em diante simplesmente sentido de purificando, Lv 16,16.20.33; Ez
43,20.26, etc.). O termo frequentemente tra­ a pessoa das faltas aos olhos de lahweh e
duz kippêr, que às vezes inclusive tem Deus as associava uma vez mais com ele. O san­
como seu sujeito, não como seu objeto (veja gue de Cristo, derramado em expiação pelo
Lyonnet, "The Terminology"). Não se deve­ pecado humano, removeu os pecados que
riam invocar passagens como lTs 1,10; Rm 5,9 alheavam os seres humanos de Deus. Paulo
para sugerir que o derramamento do sangue insiste na iniciativa graciosa e amorosa do
de Cristo de fato apaziguou a ira do Pai: nós Pai e no amor do próprio Cristo nessa ação.
explicamos "a ira de Deus" (—»38 acima), e ela Ele frequentemente diz que Cristo "deu a si
está reservada para o pecado humano. A ex­ mesmo" por nós ou por nossos pecados (G1
piação, contudo, remove o pecado humano, e 1,4; 2,20) e "nos amou" (G12,20; Rm 8,35.37).
Paulo vê isto alcançado de uma vez por todas Por meio da morte de Cristo, Paulo (junta­
na morte de Jesus na cruz. mente com todos os cristãos) foi crucificado
com Cristo para que "viva para Deus" (G1
74 Um sentido mais pleno da mani­2,19). Não faz parte do ensinamento paulino
festação pública de Cristo "em seu san­ que o Pai quisesse a morte de seu Filho para
gue" (Rm 3,25) só é entendido quando se pagar pelas dívidas contraídas pelos peca­
lembram ideias judaicas contemporâneas dores humanos com Deus ou com o diabo.
de que "não há expiação de pecados sem Para que as afirmações de Paulo, que são
derramamento de sangue" (Hb 9,22; cf. jub. às vezes expressas em terminologia jurídica
6,2.11.14). Não era que o sangue derrama­ não sejam enquadradas em categorias rígi­
do no sacrifício agradasse a lahweh; nem das de acordo com o de alguns comentaris­
que o derramamento do sangue e a morte tas patrísticos e escolásticos, deve-se insistir
subsequente fossem uma recompensa ou no amor de Cristo implicado nesta ativida­
preço a ser pago (—» Instituições, 76:89-95). de. Paulo não teorizou acerca do evento
Antes, o sangue era derramado para purifi­ Cristo, como fizeram teólogos posteriores.
car e limpar objetos ritualmente dedicados O que ele nos oferece não são "teorias, mas
ao serviço de lahweh (Lv 16,15-19) ou para metáforas vívidas, que podem, se as deixar­
consagrar objetos ou pessoas para este ser­ mos operar em nossa imaginação, tornar
viço (i.e., tirando-os do profano e unindo-os real para nós a verdade salvadora de nossa
intimamente com lahweh, por assim dizer, redenção pelo auto-oferecimento de Cristo
num pacto sagrado; cf. Ex 24,6-8). No Dia em nosso favor [...]. E um tipo infeliz de so­
da Expiação o sumo sacerdote aspergia o fisticação aquela que acredita que a única
kappõret com sangue "pelas impurezas dos coisa a fazer com as metáforas é transfor­
israelitas, por suas transgressões e por todos má-las em teoria" (RITNT 222-23).
os seus pecados" (Lv 16,16). A razão subja­
cente se encontra em Lv 7,11: "Porque a vida (Dodd, C. H., The Bible and the Greeks [London,
da carne está no sangue. [...] pois é o san­ 1935] 82-95. Fitzer, G., "Der Ort der Versöhnung
nach Paulus", TZ 22 [1966] 161-83. Fitzmyer, J. A.,
gue que faz expiação pela vida (bannepes).
"The Targum of Leviticus from Qumran Cave 4 ",
Cf. Lv 17,14; Gn 9,4; Dt 12,33. O sangue era Maarav 1 [1978-79] 5-23. G a rn e t, P., "Atonement
identificado com a própria vida porque se C onstructions in the Old T estam ent and the
pensava que o nepes, "fôlego", estivesse no Qumran Scrolls", EvQ 46 [1974] 131-63. Lyonnet,
sangue. Quando o sangue escorria de um S., "The Terminology of 'E xp iatio n '...", Sin 120­
ser, o nepes o deixava. O sangue derramado 66. M anson, T. W ., "Hilasterion", JTS 46 [1945] 1­
no sacrifício não era, então, uma punição 10. M o rald i, L ., Espiazione sacrificale e riti espiatori
nell ’ambiente bíblico e nell ’Antico Testamento [AnBib
vicária executada sobre o animal em lugar
5; Roma, 1956] 182-221. M orris, L ., "The Biblical
da pessoa que o imolou. Antes, a "vida" do Use of the Term 'B lood '", JTS 3 [1952] 216-27;
animal era consagrada a Deus (Lv 16,8-9); "The Meaning of Hilasterion in Romans iii.25",
ela era uma dedicação simbólica da vida da NTS 2 [1955-56] 33-43. R o lo ff, J., "Hilasterion",
pessoa que sacrificava a lahweh. Purificava EW NT 2. 455-57.)
75 (E) R e d e n ç ã o . Uma outra ima­ resgate para libertar os pecadores da servi­
gem empregada por Paulo para descrever dão e escravidão. Por trás da imagem pau­
um efeito do evento Cristo é "redenção" lina está a imagem veterotestamentária de
(apolytrõsis, agorazein, exagorazein). (1) Não Iahweh como g ô ’êl, "rem idor" de Israel,
é fácil dizer de onde esta imagem é deriva­ o parente que tinha o dever de comprar
da por Paulo. Ela foi relacionada à alfor­ de volta um parente escravizado ou feito
ria sagrada de escravos no mundo grego cativo (ls 41,14; 43,14; 44,6; 47,4; SI 19,15;
(BAGD 12; LAE 320-23: mais de 1000 inscri­ 78,35). Ela se referia a princípio ao livra­
ções délficas registram que "o pítio Apoio mento de Israel da servidão egípcia (Dt
comprou fulano para a liberdade"). O fato 6,6-8; SI 111,9), quando Iahweh "adquiriu"
de Paulo estar consciente da existência de um povo como posse para si mesmo (Ex
uma instituição social de emancipação fica 15,16; 19,5; Ml 3,17; SI 74,2); mais tarde, ao
claro a partir de ICor 7,21, ainda que, de retorno de Israel do cativeiro babilónico
resto, ele aconselhe os cristãos a permane­ (ls 51,11; 52,3-9). Com o tempo, o termo
cerem "no estado em que foram chama­ adquiriu uma nuança escatológica: o que
dos", pois um escravo é um "homem livre Deus faria por Israel no fim dos tempos
do Senhor" (7,20.22). Mas o vocabulário (Os 13,14; Is 59,20; SI 130,7-8). (3) Paulo
grego de Paulo é notavelmente diferente nunca chama Cristo de lytrõtês, "remidor"
do que se encontra nas inscrições délficas, (um termo aplicado a Moisés em At 7,35), e
onde o verbo é priasthai, "comprar", e não nunca fala de lytron, "resgate". Mas chama
o paulino (ex)agorazein, que nunca aparece Cristo de nossa redenção (apolytrõsis, ICor
em textos de alforria sagrada. O escravo 1,30). "Em virtude da redenção realizada
liberto tampouco é considerado "um es­ em Cristo Jesus" (Rm 3,24), os seres huma­
cravo de Apoio" ou "um homem livre de nos são libertos e justificados. Embora isto
Apoio" (veja Bartchy, Mallon 121-25; Lyon­ já tenha sido realizado por Cristo, ainda há
net, "L ’Emploi"). O único termo usado em um aspecto futuro e escatológico, pois os
comum é timè, "preço" (ICor 6,20; 7,23). cristãos "aguardam a redenção de nosso
Por esta razão, é melhor explicar o pano de corpo" (Rm 8,23 [tradução do autor]) - e
fundo da imagem de Paulo principalmente até mesmo um aspecto cósmico, visto que
à luz da terminologia da LXX. Ali o verbo toda a "criação" (8,19-22) está gemendo e
apolytroun é usado para designar a "reden­ esperando por ela. Quando Paulo diz que
ção" de um escravo (Ex 21,8); apolytrõsis os cristãos foram "comprados por preço"
ocorre (Dn 4,34); e as formas simples (ICor 6,20; 7,23), está enfatizando o fardo
lytron, "resgate" e lytroun, "redim ir", se oneroso do que Cristo fez pela humanida­
encontram abundantemente (p.ex., Ex 6,6; de. Ele nunca especifica a quem o preço
15,13-16; 21,30; 30,12). Paulo usa exagora­ foi pago (se a Deus ou ao diabo, como co­
zein, "adquirir", uma palavra rara nunca mentaristas posteriores teorizaram muitas
usada na LXX no contexto da emancipação vezes).
de um escravo ou em textos extrabíblicos (Em Colossenses e Efésios "o perdão
de alforria sagrada. Mas ela é usada por de pecados" [aphesis hamartiõn] está rela­
Diodoro Siculus (Hist. 36.2) para expressar cionado ao efeito da redenção [Cl 1,14; Ef
a aquisição de um escravo (como posse) e 1,7]. Este efeito do evento Cristo nunca se
mais uma vez (Hist. 15,7) para a libertação encontra nas cartas incontestes de Paulo, a
de uma pessoa escravizada mediante com­ menos que se sustente que paresis em Rm
pra - embora lytron não seja mencionado, 3,25 temo sentido de "remissão", o que não é
esta compra era de fato um "resgate". (2) improvável. Além disso, Ef 1,14 menciona ex­
Quando Paulo vê a "redenção" como um plicitamente "a redenção de aquisição", refle­
efeito do evento Cristo, ele reconhece que tindo a ideia do AT; em 4,30 a habitação do Es­
a paixão, morte, etc. de Cristo foram um pírito já é um penhor do "dia da redenção".).
(B a rtc h y , S., Mallon Chresai: First-Century Rm 5-7; especialmente 7,3; 8,1-2). "Quando
Slavery and the Interpretation of 1 Corinthians éreis escravos do pecado, estáveis livres
7,21 [SBLDS 11; M issoula, 1973]. B ôm er, F ., em relação à justiça" (Rm 6,20; cf. 6,18). A
Untersuchungen iiber die Religion der Sklaven in
alegoria de Sara e Agar (G1 4,21-31) ensina
Griechenland und Rom [4 vols.; Mainz, 1957-63] 2.
133-41. E le r t, W., "Redemptio ab hostibus", TLZ
que todos os cristãos são filhos da "mulher
72 [1947] 265-70. Gibbs, J. G., "The Cosmic Scope livre". Em seu conflito com os judaizantes
of Redemption according to Paul", Bib 56 [1975] Paulo tornou-se consciente de que havia
13-29. K ertelge, K .,"Apolytrõsis", E W N T 1.331-36; "falsos irmãos" que tinham "se infiltrado
" Lytron", ibid. 2. 901-5. Lyonnet, S., " L ’Emploi para expiar a liberdade que temos em Cris­
paulinien de exagorazein au sens de 'redimere' to Jesus" (G12,4). Este efeito do evento Cris­
est-el attesté dans la littérature grecque? Bib 42 to também tem seu aspecto escatológico,
[1961] 85-89; "Redemptio cosmica secundum Rom
já que está associado ao destino do cristão
8,19-23", VD 44 [1966] 225-42; "The Terminology
of Liberation", Sin 79-119. M a rs h a ll, I. H., "The
na "glória" (Rm 8,21). Paulo, contudo, está
Development of the Concept of Redemption in ciente de que o cristão ainda não alcançou
the New Testament", in Reconciliation and Hope plenamente este destino e insiste: "Vós fos­
[Festschrift L. L. M orris; ed. R. J. Banks; Grand tes chamados à liberdade, irmãos; entretan­
Rapids, 1974] 153-69.) to, que a liberdade não sirva de pretexto
para a carne" (G1 5,13a-b), "mas, pela cari­
76 ( F ) L i b e r d a d e . Relacionada a ima­ dade, colocai-vos a serviço uns dos outros"
gem de redenção encontra-se uma outra (G15,13c).
imagem usada por Paulo, a saber, "liber­
dade" (eleutheria, eleutheroun). (1) Embora (Sobre liberdade: Betz, H. D., SEA 39 [1974]
"liberdade" às vezes contenha a nuança de 145-60. Cambier, J., SE I I 315-53 K ren tz, E., CTM
"redenção/resgate" (—» 75 acima), é mais 40 [1969] 356-68. L yonnet, S., The Bridge 4 [1962]
apropriado relacioná-la à ideia greco-ro- 229-51. Mussner, F., Theologie der Freiheit nach Paulus
[QD 75; F reib u rg , 1976]. N estlé, D., Eleutheria:
mana de liberdade como o status social dos
Studien zum Wesen der Freiheit bei den Griechen und
cidadãos numa polis grega ou num munici-
im Neuen Testament [HUT 16; T übingen, 1967].
pium romano (veja OCD 703,851-52). (A raiz Niederwimmer, K ., EW N T 1. 1052-58. S ch lie r,
eleuthero- ocorre na LXX, mas se encontra H ., Das Ende der Zeit [F reib u rg , 1971] 216-33.
geralmente nos escritos deuterocanônicos S ch nackenburg, R., Present and Future: Modern
e apócrifos gregos.). O uso secular do ad­ Aspects of New Testament Theology [N otre D am e,
jetivo eleutheros se encontra em ICor 7,21­ 1966] 64-80.)
22. (2) Paulo aplica esta imagem ao evento
Cristo, querendo com isto dizer que Cristo 77 ( G ) S a n t i f i c a ç ã o . Uma outra ima­
Jesus libertou os seres humanos, deu-lhes gem usada por Paulo para descrever o
os direitos de cidadãos de uma cidade ou efeito do evento Cristo é "santificação"
estado livre. Em decorrência disso, "nossa (hagiasmos, hagiazein). (1) Embora se dis­
cidade (politeuma) está nos céus" (Fl 3,20); sesse frequentemente no universo grego
e enquanto estamos aqui na terra, já somos que coisas e pessoas eram hagios, "santo"
uma colônia de cidadãos celestiais livres. (3) ou dedicado aos deuses (Heródoto, Hist.
O princípio de Paulo se encontra em 2Cor 2.41.44; Aristófanes, Aves 522). A imagem
3,17: "Onde se acha o Espírito do Senhor, aí de Paulo é derivada principalmente do AT.
está a liberdade". Este é o motivo pelo qual Ali a palavra hebraica qãdôs e a palavra
ele insiste com os gálatas: "É para a liber­ grega hagios eram frequentemente usadas
dade que Cristo nos libertou. Permanecei para caracterizar coisas (p.ex., a terra, Ex
firmes, portanto, e não vos deixeis prender 3,5; Jerusalém Is 48,2; o Templo, Is 64,10;
de novo ao julgo da escravidão" (G15,1). A seu santuário interior, Ex 26,33) ou pessoas
escravidão à qual ele se refere é a do "peca­ (p.ex., o povo de Israel, Ex 19,14; Lv 19,2; Is
do e morte", de "si mesmo" e da "lei" (veja 62,12; sacerdotes, IMac 2,54; profetas, Sab
11,1). Este termo não expressa uma piedade te os seres humanos, "que se voltam para o
ética e interior ou santimônia exterior, mas, Senhor". O Deus criador, por meio do Cris­
antes, a dedicação de coisas ou pessoas ao to ressurreto, joga luz criadora novamente
serviço reverente de Iahweh. Era um termo nas vidas humanas, o que as transforma. (3)
cultual que separava do secular ou profano Paulo claramente usa esta imagem em 2Cor
estas pessoas ou coisas para este serviço. (2) 3,18: "E nós todos que, com a face descober­
Para Paulo, Deus fez de Jesus Cristo "nossa ta, contemplamos como num espelho a gló­
santificação" (ICor 1,30), i.e., o meio pelo ria do Senhor, somos transfigurados nesta
qual os seres humanos foram novamente imagem, cada vez mais resplandecente, pela
dedicados a Deus e orientados para servi- ação do Senhor, que é Espírito". 2 Coríntios
lo com reverência e respeito. (3) A este sta­ 4,6 está relacionado a este versículo e ex­
tus "Deus nos chamou" (lTs 4,7), e fomos plica como a face do Cristo ressurreto atua
"feitos santos" ou "santificados" por Cristo como um espelho para refletir a glória que
Jesus (ICor 1,2; 6,11) ou por seu "Espírito vem do Deus criador: "Porquanto Deus, que
Santo" (Rm 15,16; cf. 6,22). Isto é tão verda­ disse: do meio das trevas brilhe a luz, foi ele
deiro para Paulo que hagioi, "santos", torna­ mesmo quem reluziu em nossos corações,
se uma designação comum para os cristãos para fazer brilhar o conhecimento da glória
em suas cartas incontestés, exceto em lTs de Deus, que resplandece na face de Cris­
e Gl: eles são "chamados à santidade" (Rm to". Esta é uma das mais sublimes descri­
I,7; ICor 1,2). (Como em Jó 5,1; Tob 8,15; ções paulinas do evento Cristo. Filipenses
II,14; 12,15; SI 89,6.8, hagioi às vezes desig­ 3,21 usa um outro verbo, metaschêmatizein,
na seres celestiais, anjos; o termo pode apa­ para expressar uma ideia semelhante: "[...]
recer assim em Cl 1,12; cf. 1QS 3,1; 11,7-9.) o Senhor Jesus Cristo [...] transfigurará nos­
so corpo humilhado, conformando-o ao seu
(B alz, H ., "Hagios, etc.", E W N T 1 38-48. D el- corpo glorioso". Cf. Rm 12,2 (num contexto
ch aye. P ., Sanctus [Subsidia hagiographica 17; exortativo). (A partir desta imagem, os es­
Brussels, 1927]. Jones, O. R., The Concept ofHoliness
[New York, 1961]. P ro ck sch , O. e K. G. Kuhn,
critores patrísticos gregos derivaram a ideia
"Hagios, etc." TD N T 1. 88-115. W o lf f. R., “La posterior de theõsis ou theopoiêsis, a "divini­
sanctification d ’après le Nouveau Testament". zação" gradativa do cristão - o equivalente
Positions luthériennes 3 [1955] 138-43.) prático deles para "justificação".)

78 ( H ) T r a n s f o r m a ç ã o . Um outro (Behm, J., " Metamorphoõ" , TD N T 4. 755-59.


efeito do evento Cristo é apresentado por Fitzmyer, J. A., "Glory Reflected on the Face of
Paulo sob a imagem de "transformação" Christ (2 Cor 3,7-4;6) and a Palestinian Jewish
(metamorphõsis, metamorphoun) [ele só usa Motif", TS 42 [1981] 630-44. H erm ann, R., "Über
den Sinn des morphousthai Christon en hymin in
o verbo]). (1) Esta imagem é derivada da
Gal 4,19", TLZ 80 [1955] 713-26. Liefeld, W . L.,
mitologia greco-romana, que, na época "Metamorphoõ" NIDN TT 3. 861-64. N ü tzel, J. M.,
helenística, desenvolveu até mesmo uma "Metamorphoõ", EW NT 2.1021-22.)
forma literária, a saber, coleções de lendas
sobre transformação - de serpentes em pe­ 79 ( I ) N o v a c r i a ç ã o . Uma outra ima­

dras (Homero, Iliaá 2.319), de Niobe numa gem paulina, relacionada à anterior, é "nova
rocha no monte Sipylon (Pausânias 1.21.3), criação" (kainê ktisis). (1) Paulo derivou esta
de Luciano em um asno (Apoleio, Asno de imagem das referências do AT à criação do
ouro); cf. Nicander, Heteroioumena; Ovídio, mundo e dos seres humanos por Deus (LXX
Métamorphosés. Esta imagem mitológica era Gn 14,19.22; SI 89,48; 104,1-30; Eclo 17,1). (2)
muito comum na época de Paulo, e ele não Ao aplicá-la ao evento Cristo, Paulo quer
hesitou em tomá-la emprestada e aplicá-la dizer que Deus em Cristo recriou a huma­
ao evento Cristo. (2) Ao fazê-lo, Paulo vê nidade, dando-lhe "novidade de vida" (Rm
Cristo Jesus transformando gradativamen- 6,4), i.e., uma vida em união com o Cristo
ressurreto (G1 2,20: "Cristo vive em mim"), presença de Deus ou da manifestação res­
uma vida destinada a ter parte na "glória plandecente desta presença, especialmen­
de Deus" (Rm 3,23b). (3) "Nova criação" se te nas teofanias do êxodo {p.ex., Ex 24,17;
encontra em G1 6,15, onde seu valor é con­ 40,34; Nm 14,10; Tob 12,15). (2) Já vimos
traposto à circuncisão e à falta de circunci­ como Paulo relacionava a "glória" ao Deus
são; e em 2Cor 5,17, onde sua fonte é "estar criador (—» 78 acima); agora ele está tocando
em Cristo". Esta é a razão pela qual Paulo num outro aspecto deste poder transforma­
chama o Cristo ressurreto "o último Adão" dor do Cristo ressurreto. Segundo a descri­
(ICor 15,45). i.e., ele se tornou o Adão do es- ção, ele "glorifica" os cristãos, i.e., dá-lhes
chaton por meio de seu Espírito que dá vida. parte na glória de que ele, como o ressurre­
Ele é, assim, o cabeça de uma nova huma­ to dentre os mortos, agora desfruta com o
nidade, assim como o primeiro Adão foi co­ Pai. (3) Paulo fala deste efeito em Rm 8,30:
meço da vida para a humanidade física. Por "e os que predestinou, também os chamou,
esta razão também Cristo é "o primogênito e os que chamou, também os justificou e os
entre muitos irmãos" que foram "predesti­ que justificou, também os glorificou {edo-
nados a serem conforme à sua imagem" (Rm xasen). Cf. lTs 2,12; ICor 2,7; Rm 8,18.21.
8,29) - a novidade de vida que Cristo trouxe (Nas deuteropaulinas esta ideia recebe uma
é uma participação em sua própria vida res- outra formulação: "Ele [...] nos transportou
surreta (ICor 6,14; 2Cor 4,14; Rm 6,4-5; 8,11). para o reino de seu Filho amado" [Cl 1,13];
Este é, com efeito, o sentido paulino de "vida "com ele nos ressuscitou e nos fez assentar
eterna" (G16,8; Rm 5,21; 6,23). no céu com Cristo Jesus" [Ef 2,6]. "Fostes se­
pultados com ele no batismo, também com
(Sobre [nova] criação: Baumbach, G., Kairos ele ressuscitastes, pela fé no poder de Deus,
21[1979] 196-205. F o e rste r, W ., TDN T 3. 1000-35, que o ressuscitou dos mortos" [Cl 2,12],
esp. 1033-35. Petzke, O., EW NT 2. 803-8. Sjôberg,
"Se, pois, ressuscitastes com Cristo [...]" [Cl
E., ST 9 [1955] 131-36. S tu h lm acher, P ., EvT 27
3,1]. O termo doxa não ocorre em nenhuma
[1967] 1-35.)
destas passagens deuteropaulinas.)
80 ( J ) G l o r i f i c a ç ã o . A última imagem
(Sobre glória [doxa]: Brockington, L. H ., in Stu­
usada por Paulo para descrever um efei­
dies in the Gospels [Festschrift R. H. L igh tfoo t; ed.
to do evento Cristo é "glorificação" (doxa, D. E. Nineham; Oxford, 1957] 1-8. Dupont. J., RB
âoxazein). (1) Esta imagem é derivada do 56 [1949] 392-411. F o rste r, A. H .,A TR 12 [1929-30]
termo veterotestamentário kãbôd ou doxa, 311-16. Hegerm ann, H ., EW NT 1. 832-41, 841-43.
"glória", "esplendor", uma expressão da S ch lier, H ., SPC 1. 45-56.)

A A N T R O P O L O G IA D E P A U L O

81 (I) A h u m a n id a d e a n te s d e C r is to . mana antes da vinda de Cristo. A antropo­


Que efeito o evento Cristo realmente tem logia de Paulo (seu ensinamento acerca da
sobre as vidas dos seres humanos? Tendo humanidade) é, ao mesmo tempo, indivi­
esboçado os aspectos objetivos do papel sal- dual e coletiva; esboçaremos esta última em
vífico de Cristo, exporemos agora os modos primeiro lugar porque ela está mais estreita­
pelos quais Paulo concebia a participação mente relacionada com a história da salva­
da humanidade nos efeitos listados acima. ção do que sua concepção da antropologia
Para entender a concepção paulina da ex­ individual. Pois Paulo frequentemente con­
periência cristã do lado humano, contudo, trapõe qual era a situação da humanidade
devemos examinar perguntar primeiro o ao que ela é "agora" na dispensação cristã
modo como ele considerava a condição hu­ (veja G14,8-9; ICor 6,11; Rm 3,21; 6,22; 7,6).
82 ( A ) O p e c a d o . No período anterior do mal). A maldição sobre a serpente sim­
a Cristo, todos os seres humanos eram peca­ boliza a inimizade duradoura que deve se
dores que, apesar de seu esforço para viver seguir entre a humanidade e todo o mal.
corretamente, nunca alcançavam este obje­ A noção de herança desta condição ao longo
tivo e nunca alcançavam o destino de glória dos séculos é introduzida no fato de que os
pretendido pelo criador para eles; eles dei­ descendentes da mulher sempre será con­
xavam de "acertar o alvo", como sugere o frontada com o mal; geração após geração
significado básico de hamartanein, "pecar" de seres humanos será seduzida pela tenta­
(veja Rm 3,23; cf. 3,9.20). Paulo depende do ção de tomar-se como Deus, como ocorreu
próprio AT em seu ensinamento sobre esta com seus antepassados, Adão e Eva.
influência universal do pecado na huma­
nidade (Gn 6,5; lR s 8,46; ls 64,5-7; Jó 4,17; 84 De modo bastante surpreendente,
15,14-16; Ecl 7,21; Eclo 8,5). A tendência a este relato etiológico quase não produziu
pecar está com a pessoa desde o nascimen­ eco em qualquer livro protocanônico do
to: "Eis que eu nasci na iniquidade, minha AT. Adão aparece nestes livros apenas na
mãe concebeu-me no pecado" (SI 51,7; cf. genealogia de abertura de lC r 1,1. Na cha­
Jr 16,12). O pecado humano é contagioso; o mada Lamentação sobre o rei de Tiro (Ez
povo de Judá seguiu "a obstinação de seu 28,11-19) há uma alusão clara a Gn 3, mas
coração e os Baais, que seus pais lhes fize­ Adão não é citado, e a transgressão é iden­
ram conhecer" (Jr 9,13; cf. 3,25). Este pecado tificada assim: "em virtude do teu comércio
cria uma solidariedade de pecadores, tanto intenso te encheste de violência" (28,16),
de contemporâneos (Gn 11,1-9; 2Sm 24,1-17; e não como o comer do fruto. Cf. Jó 15,7.
Nm 16,22) como de gerações posteriores (SI Somente nos livros deuterocanônicos pos­
79,8; Ex 20,5; 34,7). Esta convicção acerca da teriores e na literatura intertestamentária
universalidade do pecado entre os seres hu­ a história do Éden reaparece, com ênfases
manos nasceu da experiência, observação e notáveis. Em Tb 8,6, faz-se alusão à criação
confirmação coletiva: "Ser humano algum de Adão e Eva como a origem da huma­
é senhor do sopro, para reter este sopro nidade; eles são considerados modelos da
(;i.e., para não morrer), ninguém é senhor vida conjugal. Em Eclo 36(33),10, a criação
do dia da morte, e nessa guerra não há tré­ de "todos os seres humanos" está relaciona­
gua; nem mesmo a maldade deixa impune da à criação de Adão a partir do pó da terra.
quem a comete. Vi essas coisas ao aplicar o Em Eclo 40,1 o autor faz alusão ao jugo do
coração a tudo que se faz debaixo do sol" trabalho pesado colocado sobre os filhos de
(Ecl 8,8-9; cf. 7,29). Veja ainda 1QH 4:29-30; Adão, e em Eclo 49,16 o texto hebraico fala
Filo, De vita Mos. 2.29 § 147. explicitamente da "glória de Adão", quan­
do ele é listado entre os "homens famosos"
83 A narrativa etiológica de Gn 2-3 pro­ do passado (Eclo 44,1). Em contraposição
curou explicar como esta condição pecami­ a este tratamento benigno de Adão, temos
nosa começou. Seu rico simbolismo retrata Eclo 25,24: "Foi pela mulher que começou
o ’Adãm, "homem", e a Hazozoãh, "Eva" (ex­ o pecado, por sua culpa todos morremos".
plicado como ’êm kol hay, "mãe de todos os A origem do pecado é atribuída a Eva, e
[seres] viventes"), como tendo trazido o pe­ uma conexão causal é estabelecida entre
cado ao mundo. O relato ensina que o peca­ ela e a morte de todos os seres humanos.
do não se originou com Deus, mas começou A morte afeta todos os seus descendentes
com os seres humanos e que ele está presen­ por causa do que ela fez. Semelhantemente
te desde então. Por meio dele, eles perderam em Jubileu 2-5 o relato de Gn 2-3 é retoca­
sua intimidade confiante com Deus e incor­ do, e dois detalhes são dignos de nota: (1)
reram em morte e em toda miséria humana Na expulsão de Adão do Eden, "a boca de
(trabalho duro, dores do parto, experiência todas as feras foi fechada [...] de modo que
elas não podiam mais falar" (3,28); e (2) a Adão a conexão causal que traz não apenas
depravação que a humanidade desenvol­ a morte, mas o próprio pecado para a vida
ve é atribuída não à transgressão de Adão, humana: "Como por meio de um só homem
mas às filhas da humanidade seduzidas o pecado entrou no mundo e, pelo pecado,
pelos anjos (5,1-4). As bênçãos concedidas a morte, assim a morte passou a todos os
por Deus a Adão são lembradas mais tar­ seres humanos, porque todos pecaram". Se­
de (19,27), quando ele é destacado e consi­ gue-se um notório anacoluto (—> Romanos
derado um dos patriarcas de Israel. Adão 51,53) por causa de uma quebra no pensa­
não é mencionado em Sb, mas é claramente mento de Paulo, quando ele se sente obri­
citado como um "filho da terra, o primeiro gado a explicar sua atribuição de pecado a
formado" (7,1). De fato, a própria Sabedo­ Adão. Portanto, Paulo atribui a Adão não
ria "protegeu o primeiro modelado, pai do apenas a condição da morte total que afeta
mundo, [...] levantou-o de sua queda e lhe cada ser humano, mas até mesmo o contá­
deu poder de tudo dominar" (10,1-2). Nesta gio do pecado que é ratificado pelos peca­
literatura judaica pré-cristã, existe a tendên­ dos pessoais. Este sentido de Rm 5,12 não
cia de exaltar Adão e atribuir "a glória de depende de o verbo hêmarton, "todos pe­
Adão" (1QS 4:22-23; CD 3:20-4:2; 1QH 17,13­ caram", ser entendido como algum pecado
15; cf. 4QpPsa 1,3-4 iii 1-2) ao fato de ele ter "habitual", nem de a expressão preposicio­
sido criado (de acordo com o documento nal eph ’ hõ ser entendida como significan­
P de Gn 1,27) à imagem de Deus. "Deus do alguma incorporação de todos os seres
criou o homem para a incorruptibilidade e humanos em Adão (—> Romanos, 51:56).
o fez imagem de sua própria natureza; foi Antes, o contexto dos vv. 13-14 indica esta
por inveja do Diabo que a morte entrou no conexão causal, e especialmente 5,19: "De
mundo" (Sb 2,23-24). Mas enquanto Adão modo que como pela desobediência de um
é exaltado deste modo, o pecado, a morte só homem, todos se tornaram pecadores,
e o mal são atribuídos a Eva: "Eu criei para assim, pela obediência de um só, todos se
ele uma esposa para que a morte viesse a tornarão justos". O contraste de antítipo e
ele por sua esposa" (2 Henoc 30,17); "Adão tipo, Cristo e Adão, exige que a condição
disse a Eva: 'O que fizeste a nós ao trazer pecaminosa de todos os seres humanos seja
sobre nós a grande ira [morte], que gover­ atribuível a Adão, do mesmo modo que sua
na toda nossa raça?"' (ApMo. 14). Cf. ApMo. condição de justiça é atribuível somente a
32:1; 2 Esd 3:7. Nesta literatura recente, ape­ Cristo.
nas a vida de Adão e Eva 44,2 pode atribuir a
"transgressão e pecado de todas as nossas 86 A acusação paulina de impiedade e
gerações" a "nossos pais" (no plural). perversidade dos gentios, que suprimiram
a verdade em suas vidas, é severa (Rm 1,18­
85 Paulo, contudo, rompe com esta 23). Paulo constata que eles não têm descul­
recente tradição judaica pré-cristã acerca pa por não honrarem a Deus em decorrên­
da glória de Adão e retorna à tradição an­ cia do que conhecem acerca dele a partir de
terior de Gn 2-3, atribuindo não apenas a sua criação (à parte de sua autorrevelação
morte, mas até mesmo o pecado a Adão. no AT). "Não conhecendo Deus", os gen­
Em ICor 15,21-22, ele atribui a morte a "um tios "estavam em servidão a seres que não
homem": "Pois, assim como todos morrem eram deuses [...] e eram escravos de espíri­
em [ou por meio de] Adão, em Cristo todos tos naturais" (G14,8-9 [tradução do autor]).
receberão a vida". Neste contexto, a morte é Sua condição de servidão não os esclareceu
contraposta à ressurreição para a vida (eter­ acerca de sua conduta vil (Rm 1,24-32; cf.
na), e, assim, Paulo está pensando na morte ICor 6,9-10). Mas o retrato não é inteira­
total, tanto espiritual quanto física. Contu­ mente negativo, visto que Paulo admite
do, em Rm 5,12, ele vai além, atribuindo a que os gentios, às vezes, cumprem algumas
prescrições da lei mosaica (Rm 2,14); "para S a b o u rin , Sin 3 - 3 0 , 4 6 - 5 7 . M a l i n a , B. CBQ 3 1
si mesmo são leis", i.e., são advertidos por [1 9 6 9 ] 1 8 - 3 4 . W e d e r , H v NTS 3 1 [1 9 8 5 ] 3 5 7 - 7 6 .)
meio de suas consciências de algo que a lei
de Moisés prescreveu de maneira positiva 89 (B) A lei e os espíritos. A condi­
para os judeus. ção humana antes de Cristo era não apenas
de escravidão ao Pecado e à Morte, mas
87 Quanto aos judeus, que se gloria­ também uma escravização aos "espíritos"
vam da posse da lei mosaica como manifes­ deste mundo e à lei. Paulo escreve a ex-pa­
tação da vontade de Iahweh e como guia de gãos da Galácia: "Outrora, é verdade, não
sua conduta (Rm 2,17-20; 3,2), a acusação conhecendo Deus, servistes a deuses que
de Paulo a eles é igualmente impressionan­ na realidade não o são" (4,8). E discutível
te. Eles podem ter a lei, mas não a guardam se estes "deuses" devem ser identificados
(Rm 2,21-14). Nem mesmo sua prática da com os "fracos e miseráveis elementos"
circuncisão ou sua posse dos oráculos de (4,9), os "elementos do mundo" (4,3), fre­
salvação podem salvá-los da ira condizen­ quentemente interpretados como espíritos
te ao pecado (Rm 3,3-8). Sem o evangelho, que controlam os elementos do mundo.
toda a espécie humana, "todos, tanto os Veja também ICor 1,12. Paulo ainda con­
judeus como os gregos, estão debaixo do jectura sobre a possibilidade de "anjos" ou
pecado" (Rm 3,9). Eles se encontram numa "principados" serem obstáculos ao amor
condição de hostilidade para com Deus de Deus derramado a nosso favor em Cris­
(2Cor 5,19; Rm 5,10; 8,5-7), não se dedican­ to Jesus (Rm 8,38-39) ou anunciarem um
do nem à sua honra nem ao seu serviço (Rm outro evangelho diferente daquele que
1,18) nem honrando o seu nome (Rm 2,24). ele pregava (G1 1/18). De fato, os anjos são
(Nas deuteropaulinas, sua condição é des­ concebidos como promulgadores da lei de
crita como um alheamento de Deus e escra­ Moisés, que mantêm os seres humanos em
vidão a Satanás [Ef 2,2; 6,11-12; Cl 1,13], que escravidão; assim, eles simbolizam sua infe­
é uma forma de "morte" [Ef 2,1.5; Cl 2,13.) rioridade às promessas que o próprio Deus
fez aos patriarcas no passado (G13,19). Para
88 Paulo se refere, às vezes, ao peca­ Paulo, estes seres nem sempre foram maus;
do de tal modo que se poderia considerá-lo podem ter sido bons ou pelo menos neutros
"uma dívida" a ser perdoada (paresis, Rm (ICor 11,10; G14,14). Porém, se eles tiveram
3,25), mas com mais frequência ele o trata domínio sobre a humanidade até agora, seu
como uma força ou um poder que invadiu domínio foi rompido pela vinda do Kyrios,
os seres humanos e é instigado por todas Jesus Cristo, por causa de quem os cristãos
as suas inclinações naturais e carnais. As irão até mesmo julgar os anjos (ICor 6,3).
ações individuais injustas dos seres huma­ Paulo fala de Satanás apenas duas vezes
nos são "transgressões" (G1 3,19; Rm 2,23; (2Cor 11,14; 12,7), em contextos relaciona­
4,15), "violações" (G1 6,1; Rm 5,15-18.20), dos à sua própria experiência pessoal de
"pecados" (hamartêmata, Rm 3,25). Mas oposição ou sofrimento. Ele nunca fala do
Paulo frequentemente personifica tanto a diabo. (Neste aspecto, observa-se uma di­
Morte quanto o Pecado, descrevendo-os ferença significativa nas deuteropaulinas:
como atores no cenário da história da hu­ o papel cósmico de Cristo inclui um lugar
manidade. Hamartia é, assim, uma força má de vencedor sobre todos os "Tronos, Sobe-
ativa que permeia a existência humana. Ele ranias, Principados, Autoridades" [Cl 1,16;
"habita" na humanidade (Rm 7,17.23), a en­ Ef 1,21], os "elementos do mundo" [Cl 2,20]
gana e mata (Rm 7,11). - ou "qualquer título que seja dado a eles"
[Ef 1,21 (tradução do autor)]. Enquanto a
(Sobre o pecado: Barrosse, T . A., C BQ 1 5 [1 9 5 3 ] condição pecaminosa dos ex-pagãos era
P., EW NT 1. 1 5 7 - 6 5 . L yon n et e
4 3 8 - 5 9 . Fied ler, o resultado de seguirem "a índole deste
mundo, conforme o príncipe do poder do 97 vezes ao todo, ele usa nomos (com ou sem
ar, o espírito que agora opera nos filhos da o artigo) para designar a lei de Moisés (cf.
desobediência" [Ef 2,2], os cristãos são agora Bultmann, TNT 1. 259-60).
exortados a vestirem a armadura de Deus e
a permanecerem firmes contra as astúcias do 91 Ao se discutir a atitude de Paulo
Diabo, porque "nosso combate não é contra para com a lei de Moisés, deve-se lembrar
o sangue nem contra a carne, mas contra os sua concepção de três estágios da história
Principados, contra as Autoridades, contra os humana (—»14,42 acima), percebida exclusi­
Dominadores deste mundo de trevas, contra vamente por meio de sua ótica judaica. Ele
os Espíritos do Mal" [Ef 6,12], Esta concepção vê a lei de Moisés como um palco no qual
dificilmente está presente nas cartas incontes- certos personagens atuam como atores. En­
tes de Paulo.) tre estes pavoneia-se o Anthrõpos, "ser hu­
mano" (Rm 7,1), também chamado às ve­
90 Para Paulo, contudo, os seres huma­zes de Egõ, "eu" (Rm 7,9), confrontado não
nos, especialmente Israel do passado, esta­ apenas por Hamartia, "Pecado", Thanatos,
vam também escravizados à lei (G13,23-24). "M orte" (Rm 5,12), e Nomos (Rm 7,1), todos
A atitude de Paulo para com a lei (nomos) personificados como atores, mas também
foi chamada de "o mais complexo problema por Charis, "Graça" (Rm 5,21). Os papéis
doutrinário em sua teologia" (Schoeps, Paul destes personagens vêm da personificação
168). Sua exposição da Lei está restrita a Gl, deles por parte do próprio Paulo, que lhes
Fl, l-2Cor e Rm (nas deuteropaulinas só se atribui atos humanos: eles "entram", "habi­
faz referência à lei em Ef 2,15, onde é dito tam", "reinam", "revivem", etc.
que ela foi "abolida"). Porém, mesmo nestas
poucas cartas, que refletem o problema dos 92 O complexo papel que a Nomos [lei]
judaizantes que Paulo enfrentou, nomos tem exerce traz uma anomalia para a vida hu­
diferentes conotações. (1) As vezes, Paulo a mana. Como ator no palco da vida humana,
usa num sentido genérico, "uma lei", (Gl a Nomos é descrita como boa: "A lei é santa,
5,23, "contra estas coisas [frutos do Espíri­ e santo, justo e bom é o preceito" (Rm 7,12),
to] não existe lei"; Rm 4,15b, "onde não há "boa" (kalos, 7,16) e "espiritual" (7,14), i.e.,
lei, não há transgressão"; 5,13, "porque até pertencente à esfera de Deus e não à des­
a Lei não havia pecado no mundo; o peca­ ta humanidade terrena. Pois ela é "a lei
do, porém, não é levado em conta, quando de Deus" (7,22.25b; 8,7), tendo vindo dele
não existe lei"; 7,1a, "ou não sabeis, irmãos e estando destinada a levar o Anthrõpos à
- falo a versados em lei" [?]). (2) As vezes, "vida", i.e., à comunhão com Deus (7,10).
ele usa nomos num sentido figurativo: como Em Gl 3,12, Paulo até mesmo cita Lv 18,5,
um "princípio" (Rm 3,27a; 7,21.23a), como constrangido a admitir que ali se formula a
um modo de se referir ao "pecado" (Rm finalidade da lei: "Quem pratica estas coisas
7,23c,25b) ou "pecado e morte" (Rm 8,2b), (i.e., as prescrições da lei) por elas viverá",
como "natureza humana" (Rm 2,14d); de i.e., encontra "vida" por meio delas. No­
fato, até mesmo como um modo de se refe­ vamente, em Rm 9,4, Paulo reconhece que
rir a "fé" (Rm 3,27b) ou a "Cristo" (Gl 6,2) a dádiva da lei era uma das prerrogativas
ou ao "Espírito" (Rm 8,2a) - falando nestes de Israel, privilegiado por Deus com estes
últimos três casos com oximoro. (3) Em al­ meios de conhecer sua vontade. Ela foi diri­
gumas poucas ocasiões, Paulo usa nomos gida por Deus a todos aqueles que estão sob
quando se refere ao AT, a SI (Rm 3,19a), sua autoridade e a reconhecem (Rm 3,19).
aos profetas (ICor 14,21) ou especialmen­ Mesmo quando os seres humanos rejeitam
te à Torá (Gl 3,10b; ICor 9,9, o único lugar a lei, ela continua sendo boa, pois é, em
onde ele fala da "lei de Moisés"; 14,34 [?]; certo sentido, "oráculos de Deus" (Rm 3,2)
Rm 3,31b). (4) Quanto ao restante, cerca de confiados ao privilegiado Israel.
Apesar desta ajuda dada por Deus não tivesse dito: não cobiçarás", pois "sem
por meio da qual Israel poderia encontrar a lei, o pecado está morto" (Rm 7,7-8). Pau­
"vida", Paulo reconhecia que seus "paren­ lo descreve este papel positivo da lei sendo
tes segundo a carne" (Rm 9,3) eram tão exercido de três maneiras.
pecadores quanto os gentios sem lei (Rm
2,17-24 e 1,18-32), pois "todos pecaram e to­ 94 (1) A lei agiu como uma ocasião
dos estão privados da glória de Deus" (Rm (aphorme) para o pecado, instruindo a hu­
3,23). Em vista desta situação, Paulo formu­ manidade na possibilidade material de
la a anomalia que a lei cria na vida huma­ fazer o mal, seja por proibir o que era in­
na, expressando-a corajosamente quando diferente (p.ex., comer certos animais, Lv
cita SI 143,2 e faz um ousado acréscimo a 11,2-47; Dt 14,4-21 - cf. ICor 8,8) ou por
ele: "Nenhum ser humano será justificado suscitar desejos ou incomodar a consciência
aos olhos de Deus - mediante a observância com regulamentos externos acerca do "fru­
da lei", literalmente, "pelos atos da lei". Em­ to proibido". Paulo fala deste papel em Rm
bora a Nomos devesse levar o Anthrõpos à 7,5.8.11: o Egõ [eu] não teria conhecido "a
vida, como Lv 18,5 prometera, ela provou concupiscência se a lei não tivesse dito: não
ser incapaz de fazer isto. Assim, Paulo afir­ cobiçarás" (7,7).
ma o papel negativo da lei na história hu­ (2) A lei também agiu como um agento
mana: "coisa impossível à Lei" (to adynaton moral; ela deu à humanidade "um real co­
tou nomou, Rm 8,3). Ela era incapaz de dar nhecimento do pecado" (epignõsis hamartias,
vida porque era uma norma externa que ex­ Rm 3,20), i.e., revelou o verdadeiro caráter
pressava apenas "faze" e "não faças" e não da desordem moral como rebelião contra
possuía em si a força para dar vida. Deus, como transgressão de sua vontade
e como infidelidade à aliança com seus re­
93 Paulo foi mais adiante ao descrever gulamentos estipulados (p.ex., o Decálogo).
a Nomos como exercendo um papel positi­ Paulo admite, de fato, que "até a lei havia
vo na história humana. Chegando ao palco pecado no mundo; o pecado, porém, não é
no segundo ato (de Moisés até o Messias), levado em conta quando não existe lei" (Rm
quando ela "foi acrescentada" às promessas 5,13). Ele não teria negado que os seres hu­
já feitas a Abraão no primeiro ato, diz-se que manos eram maus durante o primeiro perí­
ela foi acrescentada "por causa da trans­ odo, de Adão até Moisés, mas neste período
gressão" (G13,19). "A lei interveio para que sem lei seus pecados não foram registrados
avultasse a ofensa" (Rm 5,20). Embora boa contra eles como rebelião ou transgressão
em si mesma, ela entrou em cena e tornou- aberta. Os seres humanos tinham pecado,
se o lacaio ou ferramenta de crime de um mas não era "como a transgressão de Adão"
outro ator, a Hamartia [pecado]. A lei tor­ (Rm 5,14), que tinha violado um manda­
nou-se, assim, a própria "força do pecado" mento de Deus (Gn 2,17; 3,6.11). Por isso,
(ICor 15,56). Visto que a lei não forneceu Paulo podia escrever de maneira genérica:
a dynamis, "força", pela qual o Anthrõpos "Onde não há lei, não há transgressão" (Rm
pudesse encontrar vida ao lhe obedecer, 4,15). "Pois, sem a lei, o pecado está morto.
ela ironicamente tornou-se o instrumento Outrora eu vivia sem lei; mas, sobrevindo o
do pecado, desencadeando, assim, a ira de preceito, o pecado reviveu e eu morri" (Rm
Deus sobre a humanidade: "Mas o que a lei 7,8b-9a). Assim, Paulo descreve a humani­
produz é a ira" (Rm 4,15). Não sendo peca­ dade primeiramente no período sem lei e,
minosa em si mesma, ela ajudou o pecado: depois, no período da Torá.
"Que diremos, então? Que a lei é pecado? (3) A lei também colocou uma maldição
De modo algum! Entretanto eu não conheci sobre os seres humanos sob sua autoridade.
o pecado se não através da lei, pois eu não Paulo derivou esta ideia de Dt 27,26, citado
teria conhecido a concupiscência se a lei em G1 3,10: "Maldito todo aquele que não
se atém a todas as prescrições que estão no status inferior na história da salvação não
livro da lei para serem praticadas”. Deste anularam "um testamento anterior, legiti­
modo, a lei colocou o Anthrõpos "sob conde­ mamente feito por Deus, de modo a tornar
nação" (Rm 8,1), porque ela era de fato uma nula a promessa" (3,17).
"dispensação de morte" (2Cor 3,7), uma (2) Quando Paulo escreveu Rm, ele pro­
"dispensação de condenação" (3,9). Para vavelmente se deu conta de que a explica­
formular incisivamente a anomalia, Pau­ ção sobre a anomalia apresentada em Gl
lo exclama: "Uma coisa boa se tornou em não era muito satisfatória, por não levar
morte para mim?" (Rm 7,13). A Nomos dada em conta a incapacidade do Anthrõpos de
por Deus colocou a humanidade sob o con­ observar a lei dada por Deus. Ao compor
trole da Thanatos [morte]? Paulo responde: Rm 7,13-8,4, Paulo abandonou a explicação
"sim ", e isto aconteceu de modo que a ver­ extrínseca e usou uma explicação mais in­
dadeira realidade da Harmatia se mostras­ trínseca, i.e., uma explicação filosófica da
se, "para que o pecado aparecesse em toda situação do ser humano. Ele mostra em Rm
sua virulência" (Rm 7,13). Tudo isto revela que a dificuldade não é com a lei, mas com
a situação anômala na qual o Anthrõpos se a humanidade em sua condição terrena de
encontra como resultado da lei. Mas como sarx, "carne", alienada de Deus e hostil a
isto pôde acontecer? ele. Por causa desta condição, o Anthrõpos
ou Egõ está fraco e é dominado pela Hamar-
95 Paulo tem duas explicações dife­ tia [pecado] que habita nele: "Eu sou carnal
rentes: uma em Gl e uma em Rm - uma (sarkinos), vendido como escravo ao peca­
diferença que nem sempre é devidamente do" (7,14). A força má, Hamartia, introdu­
observada. zida no mundo da existência humana pela
(1) Em Gl, Paulo apresenta uma expli­transgressão de Adão, mantém o Anthrõpos
cação extrínseca, atribuindo à lei de Moisés em escravidão porque ele é basicamente
um papel temporário na história da salva­ "carnal". Embora reconheça a lei de Deus
ção: "Antes que chegasse a fé, nós éramos com sua "razão", ele reconhece um outro
guardados sob a tutela da lei para a fé que princípio atuante nele que está em confli­
haveria de se revelar. Assim a lei se tornou to com ela: "Na realidade, não sou mais eu
nosso pedagogo (paidagõgos) até Cristo para que pratico a ação, mas o pecado que habita
que fossemos justificados pela fé" (3,23-24). em mim" (7,17). Embora o Egõ sirva "à lei
A Nomos é descrita como o escravo que, no de Deus pela razão, pela carne serve à lei
mundo helenístico, mantinha a criança em do pecado" (7,25), i.e., a razão humana re­
idade escolar perto de si, a conduzia para a conhece a lei de Deus como ela é, mas sua
escola e de volta para casa e supervisiona­ fraca condição humana como carne está em
va seus estudos e sua conduta. A lei, assim, escravidão ao pecado, que Paulo chama até
disciplinou a humanidade até a vinda de mesmo figuradamente de nomos, "a lei do
Cristo, durante o período da menoridade pecado", um genitivo apositivo.
do Anthrõpos Este papel provisório da lei
é visto também no fato de ela ter sido acres­ 96 Paulo tem uma solução para esta
centada 430 anos após as promessas feitas a anomalia criada pela lei mosaica na exis­
Abraão (3,17). A cronologia de Paulo pode tência humana. Ele substituiu a observân­
estar equivocada por vários séculos, mas o cia dela pela fé em Cristo Jesus, "o qual foi
que ele quer destacar é que a lei apareceu entregue pelas nossas faltas e ressuscitado
em cena mais tarde, e sua inferioridade às para a nossa justificação" (Rm 4,25). Toda­
promessas também se manifesta no fato de via, mais uma vez sua solução é proposta
ter sido promulgada por anjos (3,19; cf. Dt de duas maneiras.
33,2 LXX) e por meio de um mediador (3,20, (1) Em Gl, Paulo enfatiza que, no ter­
Moisés). Este papel temporário da lei e seu ceiro período da história da salvação, o
Anthrõpos chegou à idade adulta e alcançou to Jesus" (8,2) faz este Anthrõpos compare­
a maioridade - não está mais sob o peda­ cer agora perante o tribunal de Deus como
gogo, não está mais "debaixo de tutores e "justificado", i.e., absolvido, mediante a
curadores" e aguarda "a data estabelecida cruz e a ressurreição de Cristo Jesus. Deste
pelo pai" (4,2). Esta data foi alcançada; "na modo, o ser humano alcança o status diante
plenitude do tempo", Cristo Jesus foi en­ de Deus que a observância da lei de Moi­
viado pelo Pai para nos resgatar da escravi­ sés deveria alcançar. O que a lei não pôde
dão e nos libertar da lei. Como resultado, o alcançar (8,3), o próprio Deus realizou em
crente não é mais um menino em idade es­ Cristo Jesus.
colar, mas é um filho no sentido pleno, que
clama "Abba, Pai" e se tornou herdeiro das 97 Esta solução da anomalia da lei na
promessas feitas a Abraão, que encontrou existência humana tem de lidar com o ver­
ele mesmo retidão aos olhos de Deus não sículo altamente controverso de Rm 10,4,
por observar a lei, mas pela fé (3,16-22; 4,3­ onde Paulo diz que Cristo é o telos nomou,
6; cf. Gn 15,16). Deve-se observar novamen­ o "fim da lei". Esta expressão poderia pare­
te o aspecto temporal da solução que Paulo cer aludir ao "fim " do período da Torá. Mas
apresenta em Gl; ele corresponde à explica­ telos pode significar tanto "fim ", "término"
ção temporal, extrínseca da anomalia. De quanto "objetivo", "propósito", "finalida­
fato, Paulo introduz um elemento intrínse­ de" (—» Romanos, 51:101). No primeiro sen­
co em Gl quando fala do Espírito "enviado tido, Cristo seria o fim da lei como o término
a nossos corações" (4,6), capacitando-nos a de todo esforço humano para alcançar a re­
clamar "Abba, Pai" e revelando nossa filia­ tidão aos olhos de Deus por meio da obser­
ção adotiva. Mas mesmo essa adoção ainda vância da lei. Embora este sentido pudesse
é apenas em termos de um novo estágio na enquadrar-se na perspectiva temporal de
história da salvação. Gl, ele é apropriado a Rm? Infelizmente, o
(2) Em Rm, contudo, a solução é propos­segundo sentido da expressão como uma
ta em termos da anomalia intrínseca em si. expressão final ou propositiva tem sido fre­
Em 7,24, Paulo exclama: "Infeliz de mim! quentemente relacionado ao "pedagogo" de
Quem me libertará deste corpo de morte?" Gl 3,24, entendido como um mestre que for­
Sua resposta: "Graças sejam dadas a Deus, mava o aluno para a vida. A lei teria sido a
por Jesus Cristo Senhor nosso" (—» Roma­ formação da humanidade para Cristo. Mas
nos, 51:78). Sua resposta é melhor explicada o paidagõgos da Antiguidade não era um pe­
em 8,1-4: "Portanto, não existe mais con­ dagogo ou professor no sentido moderno,
denação para aqueles que estão em Cristo nem eis Christon (Gl 3,24) possui um senti­
Jesus. A lei do Espírito da vida em Cristo do final; ele é temporal (veja E. Kãsemann,
Jesus te libertou da lei do pecado e da mor­ Romans [Grand Rapids, 1980] 282). Em últi­
te. De fato - coisa impossível à lei, porque ma análise, contudo, o sentido final de telos
enfraquecida pela carne - Deus, enviando nomou é preferível por causa do contexto de
seu próprio Filho em carne semelhante à do Rm; ele está relacionado de maneira lógica
pecado e em vista do pecado, condenou o à metáfora da perseguição ou corrida em
pecado na carne, a fim de que o preceito da 9,31-33: "que os gentios, sem procurar a jus­
lei se cumprisse em nós que não vivemos tiça" de fato a alcançaram (por meio da fé
segundo a carne, mas segundo o espírito". em Cristo Jesus), enquanto que "Israel, pro­
Aqui a solução de Paulo para a anomalia curando uma lei de justiça, não conseguiu
não é buscada em termos da história da sal­ esta lei". Esta metáfora implica claramente
vação ou do caráter temporal da lei. "Antes, um objetivo, e no v. 32 Paulo explica a razão
o amor de Deus foi derramado em nossos do fracasso de Israel: ele não perseguiu este
corações pelo Espírito Santo que nos foi objetivo "pela fé, mas como se o conseguis­
dado" (5,5). Este "Espírito da vida em Cris­ se pelas obras", e deste modo tropeçou na
pedra de tropeço de Isaías (Is 28,16; 18,14­ de Paulo, o que a lei tinha a intenção de rea­
15). Embora Paulo elogie o "zelo por Deus" lizar. Somente Paulo, entre os escritores do
de Israel (Rm 10,2), apesar de mal concebido, NT, tem esta compreensão cristológica da
ele descreve Israel "procurando estabelecer lei de Moisés.
sua própria retidão", em vez de submeter-
se à "justiça de Deus", i.e., a um processo 99 Com esta compreensão da lei, Pau­
que começa em Deus que é, em si mesmo, lo pode até mesmo dizer: "De fato, pela Lei
saddiq (Jr 12,1; SI 11,7), ou possivelmente até morri para a lei, a fim de viver para Deus"
mesmo uma "justiça de Deus que depende (Gl 2,19; quanto à compreensão deste difícil
da fé" (F13,9 [tradução do autor]). Esta bus­ versículo, —» Gálatas, 47:20). Paulo consi­
ca implica um objetivo; daí a preferência dera o cristão cocrucificado com Cristo, e o
por telos como "finalidade" em 10,4. O que que Cristo realizou por meio de sua mor­
Israel procurava alcançar é agora alcançado te e ressurreição é algo de que os cristãos
por meio da fé em Cristo. Mesmo Rm 3,21, participam de modo que agora vivem para
"agora, porém, independentemente da (ob­ Deus. Mas como isto foi realizado mediante
servância) da lei" (chõris nomou), não depõe uma morte para a lei por meio da lei? Em
contra esta interpretação, pois o que era o Gl 3, Paulo explica como a maldição diri­
objetivo da lei (justiça aos olhos de Deus) gida contra aqueles que tinham de viver
é alcançado por meio de Cristo e não por sob a lei foi removida por Cristo, que "nos
mera observância da lei. Semelhantemente, resgatou da maldição da lei tornando-se
8,2-3 não exige a tradução de telos em 10,4 maldição por nós" (3,13). Não se pode fazer
como "término", visto que 8,4 deixa claro uso aqui da lógica aristotélica, pois o argu­
que "o preceito da lei se cumpre em nós que mento de Paulo depende de dois sentidos
não vivemos segundo a carne, mas segundo diferentes do termo "maldição". No v. 10,
o Espírito". Em outras palavras, mediante a a "maldição" tem o significado que ocorre
graça e a fé em Cristo, Deus faz com que a em Dt 27,26, enquanto que a "maldição" no
humanidade cumpra o que a lei exige. v. 13 é, antes, a de Dt 21,23: "Maldito todo
aquele que é suspenso ao madeiro", uma
98 Existe, contudo, ainda um outro as­maldição formulada contra o corpo morto
pecto da lei que é a chave para a compreen­ de um criminoso executado suspenso em
são mais plena de Cristo como o objetivo da uma árvore como meio de dissuasão de ou­
lei em Rm. Em Gl 5,6, Paulo fala da qualida­ tros crimes. Não se devia permitir que ele
de exclusiva de pistis di ’ agapês energoumenê, ficasse pendurado depois do pôr do sol,
"a fé agindo pela caridade". Ele nunca ex­ a fim de tornar impura a terra. No judaís­
plica esta expressão em Gl, mas pode-se mo palestinense pré-cristão, esta maldição
encontrar uma explicação em Rm 13,8-10, era aplicada a pessoas crucificadas: seus
onde fala sobre a lei mosaica e surpreen­ corpos mortos não deveriam permanecer
dentemente considera o amor não apenas pendurados durante a noite (veja TAG 125­
algo devido a outros, mas até mesmo "o 46). Esta maldição foi pronunciada sobre o
cumprimento da lei". Ainda que se insis­ corpo crucificado de Jesus; e, por se tornar
tisse que "cumprimento" não é necessaria­ uma "maldição" neste sentido, afirma Pau­
mente o mesmo que telos, o sentido final lo, Cristo removeu a "maldição" da lei (Dt
deste último termo torna-se claro quando 27,26) das pessoas que estavam sob ela. Isto
Paulo diz que "a caridade não pratica o mal não significa, contudo, que a relação dos
contra o próximo. Portanto, a caridade é a seres humanos com Deus esteja completa­
plenitude da lei". A fé, no sentido cristão, mente removida do âmbito da lei, mas que
introduzida na história humana pela morte esta relação, embora ainda seja judicial e fo­
e ressurreição de Cristo Jesus, quando age rense, encontra um modo de realização ou
por meio do amor, efetua, na compreensão cumprimento que não por meio de "obras
da lei". Romanos 7,4.6 deve ser entendido ção carnal de um ser humano como sarkinos.
deste modo. O que Paulo quer dizer com isto? Para ex­
plicar, precisamos tentar determinar o que
100 Um comentário final: Paulo fre­ ele quer dizer com sõma, "corpo", sarx,
quentemente usa a expressão erga nomou, "carne", psychê, "alm a", pneuma, "espírito",
"ações/obras da lei", i.e., ações prescritas nous, "mente", e kardia, "coração". Paulo
pela lei mosaica (Gl 2,16; 3,2.5.10; Rm 2,15; não descreve um ser humano in se', antes,
3,20.27.28). Tem-se inclusive a impressão sugere as diferentes relações da humanida­
de que esta expressão era uma espécie de para com Deus e o mundo no qual o ser
de slogan comum nos dias de Paulo. Mas humano vive. Estes termos, então, não de­
ela nunca se encontra como tal no Antigo signam parte de um ser humano, mas, an­
Testamento ou na literatura rabínica pos­ tes, aspectos da pessoa vista de diferentes
terior (veja T D N T 2. 646; Str-B 3. 160-62). perspectivas (—» Pensamento do AT, 77:66).
Ela é usada, contudo, na LQ [Literatura
de Qumran] (m a ‘ãsê tôrâ, "obras da lei", 102 Uma concepção popular e comum
4QFlor [= 4Q 174] 1-2 i 7; cf. 1QS 6:18; do ser humano como sendo composto de
lQpHab 7:11). As vezes, Paulo encurta a dois elementos se encontra, às vezes, nos
expressão e usa simplesmente erga, "obras" escritos de Paulo (ICor 5,3; 7,34; 2Cor 12,2­
(Rm 4,2.6; 9,11.32; 11,6). A partir desta re­ 3). A parte visível, tangível e biológica
dução surge a dificuldade que este seu composta de membros é chamada de sõma,
slogan enfrentou mais tarde, quando seu "corpo" (Rm 12,4; ICor 12,14-26). Embora
ensinamento acerca da justificação pela Paulo pareça, às vezes, se referir com esta
graça mediante a fé, à parte das obras, foi palavra apenas à carne, ao sangue e aos os­
ouvido num contexto cristão diferente. sos (Gl 1,16; ICor 13,3; 2Cor 4,10; 10,10; Rm
Lembremos a correção (não de seu ensina­ 1,24), ele normalmente quer dizer muito
mento, mas de uma caricatura dele) que mais. Um ser humano não tem meramente
se encontra em Tg 2,14-26; veja Reumann, um sõma', ele é sõma. Este é um modo de di­
" Righteousness" [—>70 acima], § 270-75,413. zer "eu " (F11,20; Rm 6,12-13; cf. ICor 6,15
e 12,27). O termo indica um ser humano
(Sobre a lei: Benoit, P., Jesus and the Gospel [Lon­ como um todo, um organismo complexo
don, 1974] 2.11-39. Bruce, F. F., BJRL 57 [1974-75] e vivo, até mesmo como uma pessoa, es­
259-79. C raneield, C. E. B ., SJT 17 [1964] 43-68. pecialmente quando ele é o sujeito a quem
Dülmen, A. Von, Die Theologie des Gesetzes bei
algo acontece ou é o objeto da ação de al­
Paulus [SBM 5; Stuttgart, 1968]. Fitzmyer, J. A., TAG
guém (ICor 9,27; Rm 6,12-13; 8,13; 12,1; cf.
186-201. Gundry, R. H ., Bib 66 [1985] 1-38. H ah n,
Bultmann, TNT 1. 195). Um cadáver não é
F ., ZNW 67 [1976] 29-63. Hübner, H ., Law in Paul ’s
Thought [Edinburgh, 1984], L an g , F., em Rechtf
um sõma, mas não há forma de existência
305-20. L arson , E., NTS 31 [1985] 425-36. Räisänen, humana para Paulo sem um corpo em seu
H ., Paul and the Law [WUNT 29; Tübingen, 1983], sentido pleno (veja F1 3,21; ICor 15,35-45;
Sanders, E. P., Paul, the Law, and the Jewish People mas cf. 2Cor 5,2-4; 12,2-3; 5,6-8). Quando
[Philadelphia, 1983; em Port.: Paulo a lei e o povo Paulo usa sõma num sentido pejorativo,
judeu, Ed. Academia Cristã, 2009], S ch äfer, P., falando de seus "desejos ou paixões" (Rm
ZNW 65 [1974] 27-42. W ilckens, U„ NTS 28 [1982] 6,12; 8,13), do "corpo do pecado" (Rm 6,6),
154-90.) do "corpo de humilhação" (F1 3,21) ou do
"corpo da morte" (Rm 8,3), ele realmen­
101 (C) Os seres humanos. Parte do re­ te se refere ao ser humano sob a influên­
trato paulino da humanidade antes da vin­ cia de algum poder como o pecado (Rm
da de Cristo é a constituição do ser humano 7,14.18.23; 8,13). Nestes casos, o "corpo"
(anthrõpos). A incapacidade para observar é o eu dominado pelo pecado (Rm 7,23),
a lei mosaica origina-se em parte da condi­ a condição humana antes da vinda de
Cristo - ou até mesmo após esta vinda para mente, Paulo não usa psychê num sentido
as pessoas que não vivem em Cristo. depreciativo; mas ela é claramente a vida
da sarx, não a vida dominada pelo Espírito.
103 No AT, a palavra bãsãr expressa a Por isso, ele chama a pessoa que vive sem
ideia de "corpo" e de "carne". Paulo refle­ o Espírito de Deus de psychikos, "material"
te esta noção do AT quando usa sarx como (ICor 2,14), não "espiritual" (pneumatikos).
sinônimo de sõma (ICor 6,16, citando Gn Quanto à ideia veterotestamentária de
2,24; 2Cor 4,10-11; cf. Gl 4,13; 6,17). Nestes nepes, —» Pensamento do AT, 77:66.
casos, "carne" se refere ao corpo físico. A
expressão "carne e sangue" denota um ser 105 Em lTs 5,23, Paulo alinha uma tría­
humano (Gl 1,16; ICor 15,50), implicando de: sõma, psychê e pneuma. Neste caso, pneu-
fragilidade natural. Esta é uma expressão ma não designa o Espírito Santo (cf. Rm 8,16;
tardia do AT (Eclo 14,18; 17,31). Mas sarx ICor 2,10-11). Unido a sõma e psychê, que
sozinho pode indicar todo o ser humano, indicam todo o ser humano sob diferentes
a natureza humana (Rm 6,19). Contudo, o aspectos, pneuma poderia ser ainda um ou­
uso mais tipicamente paulino de carne im­ tro aspecto. Mas nem sempre é fácil distin­
plica a existência humana natural, material guir pneuma neste sentido de psychê (cf. F1
e visível, fraca e terrena, a criatura huma­ 1,27; 2Cor 12,18). Quando muito, pneuma
na entregue si mesma: "A fim de que ne­ sugere o eu cognoscente e volitivo e, assim,
nhuma criatura possa vangloriar-se diante o aspecto que é particularmente apto para
de Deus" (ICor 1,29). "Com efeito, os que receber o Espírito de Deus. As vezes, con­
vivem segundo a carne desejam coisas da tudo, ele é um mero substituto do pronome
carne" (Rm 8,5); eles não podem agradar pessoal (Gl 6,18; 2Cor 2,13; 7,13; Rm 1,9; Fm
a Deus (Rm 8,8). As "obras da carne" são 25). Quanto à ideia veterotestamentária de
apresentadas em Gl -5,19-21, e deveria ser espírito, —» Pensamento do AT, 77:32-24.
supérfluo observar que, para Paulo, "car­
ne" não se restringe à área do sexo. Ele 106 Nous, "mente", parece descrever para
identifica o egõ e sarx e não encontra ne­ Paulo o ser humano como um sujeito que
nhum bem neles (Rm 7,18). Esta noção é conhece e julga; o termo designa a capaci­
proeminente na contraposição paulina de dade de entendimento inteligente, plane­
"carne" e "Espírito", que compara um ser jamento e decisão (cf. ICor 1,10; 2,16; Rm
humano sujeito às tendências humanas 14,5). Em Rm 7,23, ele é o eu que compreen­
com um ser humano sob a influência do de e ouve a vontade de Deus dirigida a ele
Espírito de Deus (Gl 3,3; 4,29; Rm 8,4-9.13). na lei, concorda com a vontade de Deus e a
Quanto à ideia veterotestmentária de car­ aceita como sua própria vontade. E a capa­
ne, —» Pensamento do AT, 77:64. cidade de reconhecer o que pode ser conhe­
cido acerca de Deus a partir de sua criação
104 Semelhantemente, psychê não é (Rm 1,20): os nooumena são as coisas que a
apenas o princípio vital da atividade bio­ nous pode compreender. Existe de fato pou­
lógica, mas, como no AT, indica "um ser ca diferença no uso paulino de nous e kar-
vivo, pessoa viva" (em hebraico, nepes; dia, "coração", que, como no AT, frequen­
ICor 15,45). Ela expressa a vitalidade, cons­ temente significa "mente". Quando muito,
ciência, inteligência e volição de um ser hu­ kardia implicaria reações mais responsivas
mano (lTs 2,8; F12,30; 2Cor 12,15; Rm 11,3; e emocionais do eu inteligente e planejador.
16,4). Mesmo quando não parece significar Pois ele "am a" (2Cor 7,3; 8,16), "se aflige"
nada além de "eu" (2Cor 1,23; Rm 2,9; 13,1), (Rm 9,2), "faz planos" (ICor 4,5), "cobiça"
conota a vitalidade consciente e intencional (Rm 1,24) e "sofre" (2Cor 2,4). Ele duvida e
do eu. Ainda é apenas o aspecto terreno e crê (Rm 10,6-10), é endurecido (2Cor 3,14) e
natural de um ser humano vivo. Normal­ é impenitente (Rm 2,5), mas pode ser forta­
lecido (ITs 3,13; Gl 4,6; 2Cor 1,22). Quanto agora a estes elementos da teologia pauli­
à relação entre "mente" e "consciência" —> na, frequentemente considerados aspectos
144 abaixo. da redenção subjetiva.

1 0 7 Todos estes aspectos da existên­ 109 ( A ) F é e a m o r . A experiência pela


cia humana são resumidos em zõê, "vida", qual um ser humano começa a compre­
um dom de Deus que expressa a existência ender os efeitos do evento Cristo é, para
concreta de um ser humano como o sujei­ Paulo, pistis, "fé". Esta experiência é uma
to de suas próprias ações. Mas a vida an­ reação ao evangelho, à "palavra pregada"
tes da vinda de Cristo é vivida segundo a (Rm 10,8). A exposição mais esmerada de
"carne" (Rm 8,12; cf. Gl 2,20). Com todas Paulo encontra-se em Rm 10, um capítulo
as capacidades de planejamento conscien­ que deve ser estudado detalhadamente. A
te, inteligente e intencional de sua vida, um experiência começa com um "ouvir" (akoê,
ser humano sem Cristo continua sendo um 10,17) do evangelho ou da "palavra" acerca
ser que não conseguiu alcançar o objetivo a de Cristo e seu papel salvífico. Este ouvir
que se destinava. Sobre esta situação Paulo resulta numa aquiescência da mente, que
apenas pode dizer que "todos pecaram e to­ reconhece que "Jesus é Senhor" na existên­
dos estão privados da glória de Deus" (Rm cia do ouvinte (10,9). Ela termina, contudo,
3,23), sendo esta última, para ele, o destino como hypakoê pisteõs, geralmente traduzido
do cristão (cf. Rm 8,18-23). Este esboço da por "obediência de fé" (1,5; 16,26), mas que
condição humana antes da vinda de Cristo de fato significa "um ouvir-sob" e conota
sugere, às vezes, a diferença que a vinda de para Paulo a "submissão" ou o "compro­
Cristo produziu em favor da humanidade; misso" da pessoa toda com Deus em Cris­
uma descrição mais completa desta diferen­ to. "Se confessares com tua boca que Jesus
ça segue agora. é Senhor e creres em teu coração que Deus
o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo"
(G undry, R. H., Sõma in Biblical Theology with (10,9). Assim, a fé que deve ser depositada
Emphasis on Pauline Anthropology [SNTSMS 29; em Deus ou Cristo (lTs 4,14; ICor 1,21-23;
Cambridge, 1976]. Jew ett, R., Paul 's Anthropologi­ Rm 4,24) não é uma mera aquiescência in­
cal Terms [AGJTJ10; Leiden, 1971]. Kümmel, W. G.,
telectual à proposição de que "Jesus é Se­
Man in the New Testament [ed. rev.; London, 1963].
nhor". É um compromisso pessoal, vital,
Robinson, J. A. T., The Body: A Study in Pauline
Theology [SBT 5; London, 1952]. Sand, A., Der Be­
que envolve a pessoa toda com Cristo em
griff "Fleisch" in den paulinischen Hauptbriefen [BU todos os seus relacionamentos com Deus,
2; Regensburg, 1967]. S tacey, W. D., The Pauline outros seres humanos e o mundo. E, assim,
View of Man in Relation to Its fudaic and Hellenistic uma consciência da diferença que o senho­
Background [London, 1956].) rio de Cristo fez na história humana. Esta
consciência está por trás da afirmação de
1 0 8 ( I I ) A h u m a n i d a d e e m C r i s t o . A ati­ Paulo: "Já não sou eu que vivo, mas é Cris­
vidade salvífica de Cristo realizou uma to que vive em mim. Minha vida presente
nova união da humanidade com Deus. Pau­ na carne (literalmente, a qual vivo agora
lo a chama de "nova criação" (—> 79 acima), na carne), vivo-a pela fé no Filho de Deus
visto que ela introduziu um novo modo de que me amou e se entregou a si mesmo por
existência na história humana em que Cris­ mim" (Gl 2,20). Esta fé transcende em mui­
to e o cristão desfrutam, por assim dizer, de to a ideia veterotestamentária de fidelidade.
uma simbiose. Os seres humanos partici­ Como hypakoê, ela é uma aceitação plena
pam desta nova vida pela fé e pelo batismo, da dedicação cristã (Rm 6,16-17; 16,19),
que os incorporam em Cristo e sua igreja; excluindo toda confiança em si mesmo ou
esta incorporação encontra uma expressão no que Paulo chama de "motivo de glória"
singular na eucaristia. Vamos nos voltar (3,27). A base desta experiência é uma nova
união com Deus em Cristo, uma realidade na diminuição do "eu" de quem ama. Veja
ontológica que não é percebida imediata­ Fm 9-12; Gl 5,13; Rm 12,9-13. É um modo
mente pela consciência humana, mas deve de vida cristã que é extraordinário (kath’
ter a permissão de permear o nível psicoló­ hyperbolên, ICor 12,31), ultrapassando até
gico da existência, de modo que a atividade mesmo todas as manifestações carismáti­
consciente da pessoa seja guiada por ela. cas do Espírito. Os intérpretes podem dis­
Esta é a vida cristã integrada que Paulo tem cutir sobre o caráter de ICor 13, se é uma
em vista (Gl 2,20; 2Cor 10,5). descrição hínica ou retórica (—> 1 Coríntios,
49:61), mas ali encontra-se o louvor de Pau­
110 Esta fé é um dom de Deus, assim lo ao amor na vida cristã: sua indispensabi-
como o é todo o processo salvífico (Rm 3,24­ lidade, suas onze características (positivas
25; 6,14; 11,6; 12,3). Esta é a noção básica em e negativas) e sua duração e superioridade.
toda a discussão sobre a fé de Abraão em Mas o amor também é, para Paulo, o resu­
Rm 4. (Na passagem deuteropaulina de Ef mo da lei (Rm 13,8-10; Gl 5,14). Em outras
2,8, esta ideia se torna explícita: "Pela gra­ palavras, a pessoa motivada por uma fé atu­
ça [de Cristo] sois salvos, por meio da fé, e ante por meio do amor não está realmen­
isso não vem de vós, é o dom de Deus".). te preocupada com "as obras da lei", mas
Mas visto que Deus se aproxima e fala ao encontra-se fazendo tudo o que a lei exige.
ser humano como uma pessoa responsá­ Deste modo, para Paulo, a fé é mais do que
vel, esta pessoa pode aceitar ou rejeitar seu uma mera aquiescência ao monoteísmo (cf.
chamado gracioso. A fé é, assim, apenas a Tg 2,14-26). A raiz deste amor é o Espírito
aceitação ou a resposta da parte do ser hu­ (Gl 5,22) e, em última análise, o amor do Pai,
mano que compreende que a iniciativa está pois o "amor de Deus" é derramado em nos­
em Deus. Quem não responde é considera­ sos corações (Rm 5,5; 8,28) e, desse modo, ele
do por Paulo desobediente e comprometi­ é uma graça de Deus tanto quanto a própria
do com "o deus deste mundo" (2Cor 4,4), e, fé. Este serviço prestado a outros não é reali­
consequentemente, culpável e "morto". zado sem a atividade de Deus nos seres hu­
manos: "Pois é Deus quem opera em vós o
111 Nos contextos polêmicos em que querer e o operar, segundo sua vontade" (F1
Paulo rejeita as "obras da lei" como meio de 2,13). Esta é a razão de Paulo ter formulado
justificação, ele enfatiza que esta justifica­ o hino ao amor de Deus manifesto em Cristo
ção vem por meio da "fé" (Gl 2,16; Rm 3,28; Jesus (Rm 8,31-39) e ter falado do amor de
cf. F13,9). Contudo, o sentido pleno desta fé Cristo que controla a vida cristã (2Cor 5,14).
exige que o cristão a manifeste na conduta
por meio de atos de amor. "Pois, em Cristo (Sobre a fé : B a r t h , G., EW NT 3.216-31. B in d er ,
Jesus, nem a circuncisão tem valor, nem a H., Der Glaube bei Paulus [Berlin, 1968]. B u l t m a n n ,
incircuncisão, mas apenas a fé agindo pela R. e A . W eiser , TDN T 6. 174-228. D a a l e n , D . H.
caridade" (Gl 5,6). Esta é a razão pela qual v a n , ExpTim 87 [1975-76] 83-85. Kuss, O., Ausle­

Paulo exorta continuamente seus converti­ gung und Verküindigung [Regensburg, 1963] 1 .187­
dos cristãos à prática de todo tipo de boas 212. L o h se , E., ZNW 68 [1977] 147-63. L ü h r m a n n ,
D ., Glaube im frühen Christentum [Gütersloh, 1976].
obras, pela qual ele inclui uma seção exor-
M ic h e l , O., N ID N T T 1. 587-606. W a l t e r , N., NTS
tativa em quase todas as suas cartas. A fé
25 [1978-79] 422-42.
cristã não é apenas uma liberdade da lei,
S o b re o a m o r : B ornk am m , G ., Early Christian
do pecado e do eu-sarx, mas também uma Experience [N e w Y o r k , 1969] 180-93. D e sca m ps , A .,
liberdade para servir os outros em amor ou RDTour 8 [1953] 123-29,241-45. F u r n ish , V. P., The
caridade (Gl 5,13). Para Paulo, amor (agapê) Love Command in the New Testament [N a sh v ille ,
é uma abertura, uma preocupação ativa e 1972] 91-131. L y o n n e t , S ., Foi et salut selon Saint
respeito de uma pessoa para com uma ou­ Paul (Epítre aux Romains 1,16) [A n B ib 42; R o m a ,
tra/outras em atos concretos que resultam 1970] 211-31. N avone , J. J., Worship 40 [1966] 437-
44. P erkins , P ., Love Commands in the New Testament seremos uma coisa só com ele também por
[New York, 1982]. S a n d e r s , J. T.,Int 20 [1966] 159­ ressurreição semelhante à sua" (Rm 6,4-5).
87. S pic q , C., Agape in the New Testament [3 vols.; A comparação paulina do batismo com a
S t. Louis, 1963-66] 2.1-341. W is c h m e y e r , O., ZNW
morte, sepultamento e ressurreição de Cris­
74 [1983] 222-36.)
to é muitas vezes considerada uma alusão
ao rito da imersão. Embora seja difícil ates­
112 (B) Batismo. Contudo, só é possível tar este modo de batismo no séc. 1 d.C., o
entender adequadamente a ênfase de Paulo simbolismo de Paulo é suficientemente pre­
no papel da fé na resposta humana ao even­ servado se a pessoa batizada for concebida
to Cristo quando é ligada a seu ensinamen­ como estando de algum modo sob a água.
to sobre o batismo. Este rito iniciatório, que Identificado com Cristo na morte, o cristão
incorpora os-seres humanos em Cristo e na morre para a lei e para o pecado (Gl 2,19;
igreja, já existia no cristianismo pré-paulino, Rm 6,6.10; 7,4). Identificado com Cristo em
mas Paulo desenvolve sua sigrdficância. As sua ressurreição, ele participa de uma nova
fórmulas que ele usa (Rm 10,9; ICor 12,3) vida e da própria vitalidade do Cristo res­
possivelmente reflitam credos batismais pri­ surreto e de seu Espírito (ICor 6,17). O cris­
mitivos; porém, é Paulo quem ensina que a tão "cresceu juntamente" com Cristo por
condição dos cristãos como "filhos de Deus meio desta semelhança de sua morte, sepul­
por meio da fé" se deve a seu batismo "em tamento e ressurreição (Rm 6,5). Quem mor­
Cristo" (Gl 3,26-27). Os cristãos assim lavados re no batismo torna-se uma "nova criação"
são "santificados, [...] justificados" (ICor 6,11). (Gl 6,15; 2Cor 5,17). (As cartas deuteropauli­
Eles "vestiram a Cristo" como se estivessem nas expressarão isso dizendo que o cristão já
colocando uma nova vestimenta (uma alusão desfruta de uma nova existência "celestial"
ao robe vestido na cerimônia batismal?). (Em [Cl 2,12-13]. "Quando estávamos mortos em
Ef 5,26, um discípulo de Paulo alude ao pró­ nossos delitos, nos vivificou juntamente com
prio rito, ao falar de um "banho de água" e da Cristo - pela graça fostes salvos! - e com ele
"palavra" [= fórmula?].) nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus,
em Cristo Jesus" [Ef 2,5-6].)
113 Por meio do batismo, o cristão
é realmente identificado com a morte, 114 Esta não é uma mera experiência
sepultamento e ressurreição de Cristo. individualista para os cristãos, mas uma
A protoigreja preservou uma recordação experiência coletiva, pois por meio do ba­
de que Jesus se referiu à sua própria mor­ tismo forma-se uma união especial dos cris­
te como um "batismo" (Mc 10,38; Lc 12,50). tãos. "Pois fomos todos batizados num só
Mas a concepção de Paulo sobre os efeitos Espírito para ser um só corpo, judeus e gre­
do evento Cristo o levou a identificar, por gos, escravos e livres, e todos bebemos de
assim dizer, os cristãos com as próprias fa­ um só Espírito" (ICor 12,13; cf. Gl 3,28). Os
ses da atividade salvífica de Cristo; "um só seres humanos, portanto, obtêm a salvação
morreu por todos e que, por conseguinte, mediante a identificação com uma comuni­
todos morreram" (2Cor 5,14). A primeira dade salvífica (Heilsgemeinde), pela incorpo­
vista, isto pode parecer uma mera afirma­ ração no "corpo de Cristo". Este é o motivo
ção da natureza vicária da morte de Cris­ pelo qual Paulo compara o batismo à passa­
to, mas ela deve ser entendida à luz do que gem de Israel pelas águas do Mar Vermelho
segue: "Pelo batismo nós fomos sepultados (ICor 10,1-2); nas águas do batismo se for­
com ele na morte para que, como Cristo foi ma o novo "Israel de Deus" (Gl 6,16).
ressuscitado dentre os mortos pela glória
do Pai, assim também nós vivamos vida 115 Paulo nunca cita uma fórmula ba­
nova. Porque se nos tornamos uma coisa tismal primitiva como a de Mt 28,19; toda­
só com ele por morte semelhante à sua, via, ele parece refletir um antigo teologú-
meno trinitário sobre o batismo: "Mas vós expressa por sugestivas expressões preposi­
vos lavastes, mas fostes santificados, mas cionais e pela figura do "corpo de Cristo".
fostes justificados em nome do Senhor Jesus
Cristo e pelo Espírito de nosso Deus" (ICor 117 (a) Expressões com preposição. Paulo
6,11). O cristão batizado torna-se um "tem­ usa principalmente quatro preposições que
plo do Espírito Santo" (ICor 6,19), um filho têm "Cristo" como seu objeto, para sugerir
adotivo do Pai em virtude da comunicação diferentes facetas da influência de Cristo na
do Espírito (G1 4,6; Rm 8,9.14-17). O Espíri­ vida do cristão. O uso de cada uma delas é
to recebido desse modo é o princípio cons­ variado e frequentemente rico em nuanças.
trutivo da adoção filial e a fonte dinâmica Podemos indicar aqui apenas algumas das
da vida e conduta cristãs. "Todos os que implicações mais importantes. As quatro
são conduzidos pelo Espírito de Deus são preposições são dia, eis, syn e en.
filhos de Deus" (Rm 8,14). Estas passagens
constituem a base do ensinamento posterior 118 A preposição dia, "por meio de",
acerca da relação do cristão batizado com as normalmente expressa a mediação de Cristo
pessoas da Trindade. Paulo faz uso apenas numa afirmação da qual o Pai é o sujeito. Ela
de modo indireto de uma fórmula batismal, pode indicar a mediação de Cristo em algu­
"em nome de" (eis to onoma tou..., ICor 6,11; ma atividade de seu ministério terreno (lTs
1,13.15). Embora ela expresse propriedade 5,9), de seu status presente como Senhor (Rm
e sugira que a pessoa batizada se torna a 1,5) ou de seu papel escatológico (lTs 4,14).
propriedade de Cristo, Paulo prefere dizer É uma expressão que abre, por assim dizer, o
que a pessoa foi batizada "em Cristo" (Rm caminho que conduz à experiência cristã en
6,3; G1 3,27), i.e., simbolicamente imersa no Christõ e, por fim, syn Christõ.
próprio Cristo.
119 A preposição eis, "para dentro", es­
(B easley -M urray , G . R ., Baptism in the New pecialmente na expressão eis Christon, às ve­
Testament [L o n d o n , 1962]. B ieder, W ., " Baptizõ, zes foi compreendida como uma abreviação
e tc ". EW NT 1 .4 5 9 -6 9 . B ornkamm , Early Christian
de eis to onoma Christou, "no nome de Cris­
[—> 111 acima] 71-86. D elling, G ., Die Zueignung
to". Isto é possível com o verbo baptizein (—»
des Heils in der Taufe [B erlin, 1961]. D unn , J. D.
G ., Baptism in the Holy Spirit [N ap erv ille, 1970].
115 acima). Mas eis Christon é usado também
F ra n k e m ö lle , H ., Das Taufoerständnis des Paulus com pisteuein, "crer". De fato, a expressão se
[SB S 47; S tu ttg art, 1970]. H artm an , L ., '“ In to the encontra principalmente nestes dois contex­
N am e of Je su s ’" , NTS 20 [1973-74] 432-40. Iaco n o , tos: fé ou batismo em Cristo. Ela expressa
V ., " II b attesim o in S P a o lo ", RivB 3 [1955] 348-62. incisivamente o movimento em direção a
K aye, B. N , "Baptizen eis w ith Sp ecial R eferen ce Cristo que estas experiências iniciais impli­
to R om an s 6 " , SE V I 281-86. Kuss, O ., "Z u r v o r­ cam, o início da condição cristã en Christõ
p a u lin isc h e n T a u fle h re im N e u e n T e s ta m e n t",
(veja ICor 10,2). Arrancada de sua condição
A uslegung und Verkündigung [—> 111 acima] 1.
original ("em Adão", ICor 15,22), de suas in­
98-120; " Z u r p a u lin isch e n u n d n ach p au lin isch en
T a u fle h re im N e u e n T e s ta m e n t", ibid. 121-50.
clinações naturais ("na carne", Rm 7,5) e de
Lampe, G . W . H ., The Seal of the Spirit [2a ed.: sua origem étnica ("sob a lei", ICor 9,20), a
L o n d o n , 1967]. S ch n a ck e n b u rg , R ., Baptism in pessoa é solenemente introduzida "em Cris­
the Thought of St. Paul [O xfo rd , 1964]. V oss, G ., to" na fé e no batismo. Eis Christon denota,
"G la u b e u n d T a u fe in d en P a u lu s b rie fe n ", US então, o movimento de incorporação.
25 [1970] 371-78.)
120 A preposição syn, "com ", não so­
116 (C) Incorporação a Cristo. Para apre­mente é usada com o objeto "Cristo", mas
ciarmos os efeitos da fé e do batismo também é composta com verbos e adjetivos
vistos por Paulo, passamos a suas ideias sobre e pode, nestas construções, expressar uma
esta união íntima de Cristo com os cristãos, dupla relação do cristão com Cristo. Ela
sugere uma identificação do cristão com os vel fazer um resumo detalhado aqui, mas
atos preeminentemente salvíficos do even­ várias distinções devem ser observadas.
to Cristo ou então denota uma associação (1) com o objeto Kyrios, a expressão ocorre
do cristão com Cristo na glória escatológica. normalmente em saudações, bênçãos, exor­
Por um lado, a identificação é vista, acima tações (frequentemente com imperativos)
de tudo, nos compostos de syn-, A parte e formulações dos planos e da atividade
de expressões genéricas como synmorphos, apostólica de Paulo. O título Kyrios deno­
"formado com ele", symphytos, "crescido ta, então, a influência do Senhor ressurreto
juntamente com ele", synklêronomos, "her­ nas áreas práticas e éticas da conduta cris­
deiro juntamente com ele", essas palavras tã. En Kyriõ quase nunca reflete a atividade
se referem a alguma fase da existência de histórica e terrena de Jesus ou sua função
Cristo de sua paixão e morte em diante: sym- escatológica; esta expressão implica, antes,
paschein, "sofrer com", systaurousthai, "ser seu domínio presente e soberano na vida do
crucificado com", synapothnêskein, "morrer cristão. Paulo diz que o cristão deve se tor­
com", synthaptesthai, "ser sepultado com", nar "no Senhor" o que ele realmente é "em
synãoxazesthay, "ser glorificado com", syn- Cristo". (2) Com o objeto Christos, a expres­
zan, "viver com". (Nas deuteropaulinas são frequentemente tem um sentido instru­
também se encontra synegeirein, "ressusci­ mental, quando se refere à atividade histó­
tar com".). Em contraposição a isso, nunca rica e terrena de Jesus (Gl 2,17; 2Cor 5,19;
se diz que o cristão nasce com Cristo, é ba­ Rm 3,24; [Cl 1,14; Ef 2,10]). Neste sentido,
tizado com ele ou é tentado com ele. Estes ela está muitas vezes próxima, em termos
acontecimentos da vida de Jesus não eram de significado, de dia Christou. (3) O uso
importantes para a soteriologia de Paulo mais comum de en Christõ é para expressar
(—> 18 acima). Por outro lado, syn Christõ a íntima união de Cristo e do cristão, uma
expressa a associação do cristão com Cris­ inclusão que sugere uma simbiose dos dois.
to na glória escatológica; ele está destina­ "Se alguém está em Cristo, é nova criatu­
do a estar "com Cristo" (lTs 4,17 [de modo ra" (2Cor 5,17). Esta união vital, contudo,
significativo, syn Kyriõ]; Rm 6,8; 8,32; 2Cor também pode ser expressa como "Cristo
4,14). Por isso, syn expressa incisivamente em mim" (Gl 2,20; 2Cor 13,5; Rm 8,10; [Cl
dois poios da experiência cristã, identifica­ 1,27; Ef 3,17]). O resultado é que a pessoa
ção com Cristo em seu início e associação pertence a Cristo (2Cor 10,7) ou é "de Cris­
com ele em seu término. Nesse meio tem­ to" - um genitivo "místico" que expressa a
po, o cristão está en Christõ. mesma ideia (Rm 16,16). A expressão não
deveria ser limitada a uma dimensão espa­
121 A preposição en, "em ", com "Cris­cial, pois com frequência ela sugere uma in­
to" como objeto ocorre 165 vezes nas cartas fluência dinâmica de Cristo sobre o cristão
de Paulo (incluindo en Kyriõ, "no Senhor", que está incorporado nele. O cristão assim
e en autõ, "nele"). Desde os estudos de A. incorporado torna-se um membro do Cristo
Deissmann, a preposição é frequentemente inteiro, do corpo de Cristo. E desnecessário
interpretada num sentido local, espacial, e dizer que, às vezes, se hesita acerca da nu­
Christos é entendido misticamente como o ança precisa (instrumental? inclusiva?).
Senhor glorificado, identificado com o Es­
pírito, como alguma atmosfera espiritual ( B o u t t i e r , M., En Christ [Paris, 1962], B ü c h s e l ,

na qual os cristãos estão envoltos. Supõe-se F., "Tn Christus' bei Paulus", Z N W 42 [1949] 141­
58. D e is s m a n n , A ., Die neutestamentliche Formel
que este seja o misticismo de Paulo. Mas os
"in Christo Jesu" [Marburg, 1982]. D u p o n t , ]., Syn
estudos subsequentes de E. Lohmeyer, A. Christo: L 'Union avec le Christ suivant Saint Faul
Schweitzer, F. Büchsel et al., apresentaram [Bruges, 1952]. E l l i g e r , W ., "Eis", "En", "Syn",
outros aspectos da expressão (metafísico, EW NT i. 965-68, 1093-96; 3. 697-99. H e s s , A. }.,
escatológico, dinâmico, etc.). E impossí­ "Dia", EW NT 1. 712-13. Kuss, O., Der Römerbrief
[Regensburg, 1957-78] 319-81. L o h m e y e r , E., "Syn
é usada por Paulo, dificilmente transcende
Christõ", in Festgabe für Adolf Deissmann [Tübin­esta ideia de uma união moral dos mem­
gen, 1927] 218-57. N e u g e b a u e r , F., In Christus:
bros: os dons espirituais desfrutados pelos
En Christõ: Eine Untersuchung zum paulinischen
coríntios (sabedoria, fé, cura, profecia, lín­
Glaubensverstandnis [Gõttingen, 1961]. S c h w e it z e r ,
A., The Mysticism of Paul the Apostle [New York, guas, etc.) devem ser usados "para o bem
comum" (12,7), não para seu rompimento.
1931]. S c h w e i z e r , E ., "D ying and Rising with
Como todas as partes e membros do corpo
Christ", NTS 14 [1967-68] 1-14. W i k e n h a u s e r , A.,
Pauline Mysticism [New York, 1961].) cooperam para seu bem-estar, assim é com
o corpo de Cristo. O uso é semelhante no
contexto exortativo de Rm 12,4-5.
122 (b) Corpo de Cristo. Paulo usa a ex­
pressão sõma Chrístou, "corpo de Cristo", 123 Mas Paulo sugere mais em outras
em vários sentidos: para designar seu cor­ passagens. Em ICor 6,15-16, ele adverte
po histórico crucificado (Rm 7,4), seu corpo contra a profanação do corpo humano pela
eucarístico (ICor 10,16; cf. 11,27) e a igre­ licenciosidade sexual: "Não sabeis que vos­
ja (ICor 12,27-28; [cf. Cl 2,17; Ef 4,12]). No sos corpos são membros de Cristo? Tomarei
último sentido, ela é um modo figurado de então os membros de Cristo para fazê-los
expressar a identidade coletiva dos cristãos membros de uma prostituta? Por certo, não!
com Cristo. Ausente em suas primeiras car­ Não sabeis que aquele que se une a uma
tas (lTs, G1 e Fl), o termo aparece em ICor, prostituta constitui com ela um só corpo?
a carta na qual Paulo enfrenta facções cris­ Pois está escrito: Serão dois em uma só car­
tãs causadoras de divisão. Cristo não está ne". A união sugerida aqui é mais do que
dividido, lhes diz ele, formulando o en­ moral; de algum modo, Cristo e os cristãos
sinamento acerca da unidade de todos os participam de uma união que conota "uma
crentes em Cristo. O símbolo da unidade é carne". Recorde o que foi dito acima (—» 102­
a figura do corpo com seus membros. A ori­ 3) acerca do significado de sõma e sarx como
gem da figura é controversa (veja Robinson, designações, não do corpo físico como algo
The Body 55-58; Bultmann, TNT 1. 299; Hill, distinto da alma, mas como designações
"The Temple"). Mas provavelmente ela é que equivalem à pessoa inteira sob dife­
derivada por Paulo das noções helenísticas rentes aspectos. Ao falar do "corpo de Cris­
contemporâneas do Estado como organis­ to", Paulo não está falando meramente de
mo político. Esta ideia se encontra já em membros de uma sociedade governada por
Aristóteles (Polit. 5.2.7 [1302b, 35-36]) e tor­ um objetivo comum, mas de membros do
nou-se parte da filosofia estóica (veja Cíce­ próprio Cristo; sua união não é apenas co­
ro, Or. Philip. 8.5.15; Sêneca, Ep. mor. 95.52; letiva, mas de algum modo corporal. Uma
Plutarco, Coriolanus 6.3-4). N aMoralia 426A, conclusão semelhante é sugerida por ICor
Plutarco lembra as ideias do estoico Crisipo 10,16-17, onde Paulo insiste na união de to­
e pergunta: "Não há frequentemente neste dos os cristãos alcançada por sua participa­
nosso mundo um único corpo (sõma hen) ção no pão e cálice eucarístico: "Já que há
composto de corpos díspares, como uma um único pão, nós, embora muitos, somos
assembleia (ekklêsia) ou um exército ou um um só corpo, visto que todos participamos
coro, cada um dos quais tem uma faculdade desse único pão". A unidade dos cristãos se
de viver, pensar e aprender...? (E importan­ deriva, portanto, de seu consumo físico do
te a junção de sõma e ekklêsia aqui.). Neste único pão; a unidade sugerida transcende
caso, a figura filosófica expressa a unidade a simples união extrínseca efetuada pela
moral dos membros (cidadãos, soldados) cooperação para se atingir um objetivo co­
que cooperam para alcançar um objetivo mum. (A figura do casamento em Ef 5,22-23
comum (p.ex., paz, prosperidade e bem-es­ também aponta para a mesma união trans­
tar). Em ICor 12,12-27, a figura, assim como cendente.)
124 Mas os cristãos e Cristo não estão da cabeça: Cristo é "a Cabeça da Igreja, que
fisicamente unidos como a gema à clara de é seu Corpo" [Cl 1,18; cf. Ef 1,23]. Pode pa­
um ovo. Por isso, os teólogos posteriores recer que isto seja uma mera extensão do
chamaram a união de "mística", um adje­ tema do corpo. Tendo retratado a união de
tivo que Paulo não usa. A realidade ontoló­ Cristo com os cristãos por meio da analogia
gica que constitui a base da união é a posse do corpo e suas partes, o discípulo de Paulo
do Espírito de Cristo: "Pois fomos batiza­ deve ter concluído que Cristo deve ser sua
dos num só Espírito para ser um só corpo" cabeça, porque a cabeça é a parte mais im­
(ICor 12,13; cf. Rm 8,9-11). A posse deste portante do corpo, como se pode ilustrar a
Espírito surge da incorporação dos crentes partir de autores helenísticos contemporâ­
por meio da fé e do batismo; ela é, por assim neos que escreveram sobre medicina [veja
dizer, o termo da soteriologia cristocêntrica Benoit, Jesus 73], Mas o próprio Paulo tinha
de Paulo. usado o tema da cabeça de modo indepen­
dente do tema do corpo em suas cartas in­
125 Contudo, Paulo raras vezes fala ex­ contestes, não como uma figura da unidade,
plicitamente em ICor e Rm da igreja como mas da subordinação. Em ICor 11,3-9, Pau­
o corpo de Cristo; o mais perto que ele che­ lo afirma que as mulheres deveriam cobrir
ga desta identificação é em ICor 12,27-28. a cabeça nas assembleias litúrgicas, porque,
(Nas deuteropaulinas, onde, quando a im­ entre outras razões, a ordem da criação em
portância cósmica de Cristo ficou clara, um Gn parece exigir a subordinação da mulher
discípulo de Paulo liga os temas do corpo e ao esposo - cobrir a cabeça seria um sinal
da igreja, os quais com frequência aparece­ deste status: "A origem de todo homem é
ram separadamente nas cartas incontestes. Cristo, a cabeça dá mulher é o homem, e
Agora a igreja é explicitamente identificada a cabeça de Cristo é Deus" [11,3]. Paulo
como o corpo de Cristo em várias formu­ faz um jogo de palavras com os dois sen­
lações: "[Cristo] é a Cabeça da Igreja, que tidos do termo "cabeça": a cabeça física,
é o seu Corpo" [Cl 1,18; cf. 1,24]; Deus "o que deve ser coberta, e a cabeça figurada,
pôs, acima de tudo, como Cabeça da Igreja, como "cabeça" de um departamento. Em
que é o seu Corpo" [Ef 1,22-23]. Em Ef, há ICor 11, contudo, não há menção do "cor­
grande ênfase na unidade da igreja: Cristo po". Há um outro exemplo deste sentido
derrubou a barreira entre judeus e gregos; de "cabeça" em Cl 2,10, onde se diz que
todos agora participam da única salvação, Cristo é "a Cabeça de todo Principado e de
pois ele "reconciliou a ambos com Deus em toda Autoridade". Nas cartas deuteropau­
um só Corpo, por meio da cruz" [Ef 2,16], linas, o tema do corpo e o da cabeça são
"Há um só Corpo e um só Espírito, assim unidos numa descrição da igreja; e a ana­
como é uma só a esperança da vocação a logia é explorada com detalhes extraídos
que fostes chamados; há um só Senhor, do ensino médico contemporâneo: "Mas,
uma só fé, um só batismo; há um só Deus e seguindo a verdade em amor, cresceremos
Pai de todos" [4,4-6], E, apesar de toda essa em tudo em direção àquele que é a Cabeça,
ênfase na unidade e na união dos cristãos Cristo, cujo Corpo, em sua inteireza, bem
em Cristo, não há menção de mia ekklésia, ajustado e unido por meio de toda junta
"uma só igreja". Isto é fortuito? Parte da e ligadura, com a operação harmoniosa de
resposta aparece abaixo na exposição sobre cada uma das suas partes [...]" [Ef 4,15-16].
a "igreja" [—» 133-37], Nas cartas pastorais, Um outro aspecto desta subordinação dos
tão preocupadas com os interesses da igre­ cristãos a Cristo está por trás da compa­
ja, o "corpo de Cristo" não aparece. ração do casamento cristão com a igreja:
"Como a igreja está sujeita a Cristo, este­
126 Intimamente relacionado ao tema jam as mulheres em tudo sujeitas aos ma­
do corpo nas deuteropaulinas está o tema ridos" [Ef 5,24],
127 A experiência cristã, portanto, en­ uma tradição (—> 16 acima). Seu relato não
raizada na realidade histórica do corpo fí­ é tanto o registro de uma testemunha ocu­
sico de Cristo, torna-se uma união viva e lar quando uma citação de uma recitação
dinâmica com o corpo ressurreto individual litúrgica do que o "Senhor" fez na Ultima
do Kyrios. A união coletiva de todos os cris­ Ceia, até mesmo com sua rubrica diretiva,
tãos precisa crescer para preencher o Cristo "Fazei isto em memória de mim" (11,24).
total, o plérõma do Cristo cósmico [Ef 1,23]. Paulo não conta o acontecimento em si ou
Isto significa, nas vidas dos indivíduos cris­ por si mesmo, mas alude a ele ao tratar de
tãos, sofrimento apostólico que preenche o outros problemas. Ele menciona esta refei­
que estava faltando nas tribulações de Cris­ ção do Senhor como parte de sua crítica
to em favor da igreja [Cl 1,24]. Isto não sig­ dos abusos que haviam se introduzido nas
nifica que o sofrimento apostólico acrescen­ ceias comunitárias em Corinto associadas
te qualquer coisa ao valor redentor da cruz; à eucaristia (ICor 11) ao fazer observações
antes, este sofrimento em favor da igreja dá sobre comer alimentos sacrificados a ído­
continuidade no tempo ao que Cristo come­ los (ICor 10).
çou, mas não terminou no tempo. Ele deve
continuar até se alcançar a dimensão cósmi­ 129 Para Paulo, a eucaristia é, acima
ca da igreja.) de tudo, a "Ceia do Senhor" (ICor 11,20),
a refeição na qual o novo povo de Deus
(Sobre o c o r p o d e Cristo: B e n o i t , Jesus and come seu "alimento espiritual" e consome
the Gospel [—» 100 acima] 2.51-92. D a in e s , Bv EvQ sua "bebida espiritual" (ICor 10,3-4). Neste
50 [1978]. H a v e t , J . , e m Littérature et théologie ato ele se manifesta como a comunidade da
pauliniennes [e d . A. D e sc a m p s; R e c h B i b 5; B r u g e s ,
"nova aliança" (ICor 11,25; cf. Jr 31,31; Ex
1960] 185-216. H e g e r m a n n , H., TLZ 85 [1960] 839­
24,8), ao compartilhar da "mesa do Senhor"
42, H i l l , A. E., JBL 99 [1980] 437-39. K ã s e m a n n ,
Perspectives 102-21. M e e k s , W : A., in God’s Christ (ICor 10,21; cf. Ml 1,7.12). A comunhão des­
e His People [ F e s t s c h r i f t N. A. D a h l ; e d . J. J ervell te povo denota não só sua união com Cristo
e W. A. M e e k s ; Oslo, 1977] 209-21. R a m a r o s o n , e uns com os outros, mas também uma pro­
L -, ScEs 30 [1978] 129-41. R o b in s o n , The Body [—» clamação do evento Cristo e de seu caráter
107 acima]. S c h w e iz e r , E., EW NT 3. 770-79. W e is s , escatológico.
H.-F., TLZ 102 [1977] 411-20. W o r g u l , G. S., BTB
12 [1982] 24-28.) 130 Três aspectos em particular reve­
lam a compreensão paulina da eucaristia
128 (D) Eucaristia. Como mencionamos como a fonte da unidade cristã. (1) Ela é
acima (—>122-23), Paulo usa "corpo de Cris­ o ato ritual pelo qual se concretiza a pre­
to" também para se referir a seu corpo eu­ sença de Cristo com seu povo. Paulo cita,
carístico. "O pão que partimos, não é comu­ de fato, o rito da celebração litúrgica e
nhão com o corpo de Cristo?" (ICor 10,16). comenta seu significado no contexto ime­
Paulo encontra no corpo eucarístico uma diato (ICor 11,27-32): o corpo e o sangue
fonte não apenas da união dos cristãos com de Cristo são identificados com o pão e o
Cristo, mas também dos cristãos entre si. O vinho consumidos pela comunidade. Toda
mais antigo relato neotestamentário da ins­ participação cristã "indigna" nesta refei­
tituição da eucaristia se encontra em ICor ção traz julgamento sobre o cristão, pois
11,23-25. Embora talvez esteja relacionado, ele será "réu do corpo e do sangue do Se­
quanto à origem, ao relato de Lucas (22,15­ nhor" (11,27). Visto que o Senhor é identi­
20) e seja um pouco diferente do de Marcos ficado com este alimento, as pessoas que
(14,22-25) e do de Mateus (26,26-29), ele é compartilham dele não devem violar seu
um registro independente desta institui­ caráter sagrado e a presença dele median­
ção, possivelmente derivado da liturgia da te abusos de individualismo, desconside­
igreja antioquena. Paulo o transmite como ração para com os pobres ou adoração de
ídolos. Não se pode reduzir o realismo da acima] 123-60. C h e n d e r l i n , F., "Do This as My
identidade de Cristo com o alimento euca­ Memorial" [AnBib 99; Rom ea, 1982]. D e l l i n g ,
rístico no ensinamento de Paulo, ainda que G., "Das Abendmablsgeschehen nach Paulus",
KD 10 [1964] 61-77. H a h n , F., The Worship of the
Paulo não explique como esta identidade é
Early Church [Philadelphia, 1973]. Je r e m ia s , J . ,
alcançada. Aos olhos dele, por meio desta
The Eucharistic Words offesus [Philadelphia, 1977]
presença somente o Cristo eucarístico efe­ 101-5. K ä s e m a n n , E., "The Pauline Doctrine of the
tua a unidade dos crentes. L o rd ’s Supper", EN TT 108-35. K i l m a r t i n , E. J .,
The Eucharist in the Primitive Church [Englewood
131 (2) Como memorial e proclamação Cliffs, 1965]. M a r x s e n , W ., The Lord’s Supper as
da morte sacrifical de Cristo, a eucaristia a Christological Problem [FBBS 25; Philadelphia,
é um lugar de reunião. "Todas as vezes, 1970]. N e u e n z e i t , P., Das Herrenmahl [SANT 1;
München, I960]. R e u m a n n , J . , The Supper of the
pois, que comeis desse pão e bebeis des­
Lord [Philadelphia, 1985] 1-52. S c h w e iz e r , E., The
se cálice, anunciais a morte do Senhor até
Lord ’s Supper according to the New Testament [FBBS
que ele venha" (ICor 11,26). A comunidade 18; Philadelphia, 1967].)
deve fazer isto "em memória" dele (11,24).
A repetição deste ato ritual, no qual o cor­
po e o sangue do Senhor se fazem presen­ 133 (E) A igreja. Não obstante sua ra­
tes para alimentar seu povo, torna-se uma ridade nos evangelhos (Mt 16,18; 18,17), a
proclamação solene do próprio evento palavra ekklêsia se encontra com frequência
Cristo (ele é "a morte do Senhor" - "por no corpus paulino. Em At, ela não ocorre nos
vós"), anunciando às que participam da primeiros quatro capítulos e depois só se en­
refeição o efeito salvador desta morte. Pro­ contra no sentido de "igreja" uma vez (5,11,
clama-se um aspecto sacrifical por meio num comentário lucano) antes de começar a
da referência ao sangue da aliança (11,25): história de Paulo (8,1); depois disto, 21 vezes.
O cálice eucarístico é o sangue da "nova Ela se encontra 44 vezes nas cartas incontes-
aliança" (Jr 31,31), uma alusão ao ato de tes de Paulo (nas deuteropaulinas, 15 vezes;
Moisés selar a aliança do passado com o nas pastorais, três vezes). Esta situação pa­
sangue de animais sacrificados (Ex 24,8). rece sugerir que levou algum tempo até os
Esta alusão atribui ao derramamento do protocristãos se tornarem conscientes de sua
sangue de Cristo uma eficácia análoga à do união em Cristo como ekklêsia. O abundante
sacrifício que selou a aliança no Sinai (cf. uso do termo nas cartas de Paulo realmen­
ICor 10,14-21). te não contradiz isto. Casualmente, nos três
relatos sobre a conversão de Paulo em At,
132 (3) Também existe um aspecto es- onde a voz celestial diz: "Saul, Saul, por que
catológico na eucaristia, pois a proclamação me persegues?... Eu sou Jesus a quem tu per­
da morte do Senhor deve continuar "até segues" (9,4-5; 22,7-8; 26,14-15), a "igreja"
que ele venha" (uma referência à parúsia). nunca é mencionada explicitamente. Con­
Assim, somente Cristo em seu status ressur­ sequentemente, dever-se-ia hesitar incluir
reto e glorioso efetua plenamente a salva­ como elemento da experiência de Paulo per­
ção das pessoas que participam da mesa do to de Damasco uma consciência da comuni­
Senhor. Sem dúvida a antiga aclamação ma- dade cristã como "igreja" ou como "corpo
ranatha, "Vem, Senhor nosso" (ICor 16,22; de Cristo". Esta última é um modo paulino
—> 53 acima) vem desta concepção da euca­ de conceber a comunidade cristã; ela não é
ristia. lucana. Por isso o "m e" de At 9,4; 22,7; 26,14
não deve ser associado à noção de corpo de
Cristo da teologia paulina.
(B o is m a r d , M .-E., "The Eucharist according
to Saint Paul", in The Eucharist in the New Tes­
tament: A Symposium [ed. J. D e l o r m e ; Baltimore, 134 Os dados contidos nas cartas de Pau­
1964] 123-39. B o r n k a m m , Early Christian [—> 111 lo também revelam uma certa evolução
em seu pensamento acerca da "igreja". Em to estavam sendo removidos. Ele confere à
lTs, Paulo usa ekklêsia tanto para designar comunidade em Corinto o título que usou
uma igreja local (1,1; cf. 2Ts 1,1) quanto na anteriormente para as igrejas-mãe da Pa­
expressão "igreja de Deus" (lTs 2,14). No lestina (cf. ICor 10,32). Mas nesta exten­
primeiro sentido ela indica a unidade dos são do uso do título também se detecta
tessalonicenses desenvolvida a partir de uma ampliação da compreensão paulina
sua fé e culto comum; no segundo, é dada de Paulo de ekklêsia; ela está começando
por Paulo como um título de predileção às a denotar a comunidade cristã que trans­
comunidades primitivas da Judeia. Na LXX cende barreiras locais. Esta é a semente do
o termo ekklêsia foi usado para traduzir o ensinamento de Paulo sobre a universali­
hebraico qãhãl, o termo dado à assembleia dade da igreja. Detecta-se o plantio desta
dos israelitas, particularmente em sua pere­ semente justamente em ICor, visto que,
grinação pelo deserto. Eles eram "a ekklêsia quando Paulo adverte os coríntios contra
do Senhor" (Dt 23,2) ou "a ekklêsia do povo submeter a solução de questões ordinárias
de Deus" (Jz 20,2; cf. At 7,38). Ele também de disputa ao julgamento de "pessoas que
designava os israelitas em reuniões litúr- não são nada na igreja" (ICor 6,4 [tradução
gicas (lRs 8,55; lC r 29,10). Contudo, a ex­ do autor]), pode-se perguntar seriamente
pressão ekklêsia tou theou de Paulo é sin­ se ele se refere meramente à igreja local.
gular (exceto, possivelmente, por Ne 13,1, Semelhantemente, em ICor 14,5.12 ele fala
onde o Sinaítico lê Kyriou, ao contrário de em "para a edificação da assembleia". Em
todos os outros mss.); mas seu equivalente si, estas poderiam ser referências à comu­
exato se encontra na LQ (1QM 4:10, onde nidade local, mas sente-se no termo pelo
"congregação de Deus" deve ser inscrito menos os primórdios de um sentido mais
em um dos estandartes a serem conduzidos geral (cf. ICor 12,28). Estranhamente, em
na guerra escatológica). Considerando este Rm, a carta frequentemente considerada a
pano de fundo judaico palestinense da ex­ mais representativa da teologia de Paulo,
pressão, ela provavelmente se tornou uma ekklêsia está ausente, salvo cinco ocorrên­
designação apropriada para as comunida­ cias no cap. 16, todas se referindo a igrejas
des primitivas da Judeia, as primeiras uni­ locais (vv. 1.4.5.16.23). Parte do problema
dades formadas na história cristã e ligadas é que este capítulo de Rm tem um caráter
de modo peculiar por meio de suas raízes muito diferente do restante da carta, mes­
judaicas com a "congregação" israelita do mo que se admita que seja parte integrante
passado. da carta (—>Romanos, 51:10).

135 O mesmo sentido duplo de ekklêsia 136 (Nas dêuteropaulinas, ekklêsia


se encontra novamente nas grandes cartas desempenha um papel importante como
de Paulo, designando tanto as igrejas lo­ parte crucial do "mistério de Cristo".
cais da Galácia, Judeia, Macedônia e Cen- A barreira entre judeus e gregos foi der­
creia (G1 1,2.22; 2Cor 8,1; Rm 16,1) quan­ rubada, e todos os seres humanos foram
to as comunidades primitivas da Judeia reconciliados com Deus no "corpo [de
como "igreja de Deus" (ICor 11,16). Este Cristo], a igreja" [Cl 1,17], Conforme a
último uso do título, contudo, é agora apli­ concepção do discípulo de Paulo, o Cris­
cado também à igreja de Corinto (ICor 1,2; to cósmico é agora a cabeça da igreja, que
2Cor 1,1). Segundo Cerfaux (ChTSP 113), é seu corpo; ele é preeminente em toda a
este uso do título não designa a "igreja criação. Pois Deus "tudo pôs debaixo de
universal" que se manifesta em Corinto, seus pés, e o pôs, acima de tudo, como Ca­
mas é, antes, um modo paulino de elogiar beça da Igreja, que é seu Corpo: a pleni­
uma igreja com a qual ele tinha relações tude daquele que plenifica tudo em tudo"
tempestuosas, agora que os pontos de atri­ [Ef 1,22-23], Nesta passagem se diz que a
igreja é a "plenitude" [plêrõma] de Cristo; finalmente chegou a considerar a "igreja de
contraponha isto a Cl 1,19; 2,9. Ela ganha Deus" uma unidade que transcende tanto
dimensões cósmicas, e se diz que até mes­ judeus quanto gregos, porém que incorpo­
mo os espíritos, que não são membros da ra a ambos quando eles se tornam crentes
igreja, ficam sabendo do plano da ativi­ (ICor 10,32).
dade salvífica do Pai em Cristo por meio
da igreja [Ef 3,9-11], Observe a ordem no ( S o b r e a i g r e ja u n a : B e r g e r , K., ZTK 73 [1976]
louvor feito pelo discípulo de Paulo ao Pai 167-207. B e s t , E., One Body in Christ [ L o n d o n ,
por sua sabedoria "na igreja e em Cristo 1955]. C e r f a u x , ChTSP. C o e n e n , L ., NID N TT 1.
Jesus" [Ef 3,21] - a igreja se torna tão im­ 291-307. G ä r t n e r , B ., The Temple and the Commu­
nity in Qumran and the New Testament [ S N T S M S
portante que parece adquirir precedência
1; C a m b r i d g e , 1965]. H a i n z , J., Ekklesia: Strukturen
sobre Cristo!)
paulinischer Gemeinde-Theologie und Gemeinde­
Ordnung [ M T S 9; R e g e n s b u r g , 1972], H o lm b e r g ,
137 Para o próprio Paulo, a "igreja" B ., Paul and Power: The Structure of Authority in the
representa um desenvolvimento em seu Primitive Church as Reflected in the Pauline Epistles
pensamento a respeito do papel de Cristo [ C o n B N T 11; L u n d , 1978], K ä s e m a n n , NTQT 252­
na salvação. Ela é a manifestação concreta 59. L a n n e , E., Irénikon 50 [1977] 46-58. M i n e a r , P .
entre os seres humanos que foram batiza­ S ., Images of the Church in the New Testament [2a e d .;
dos "num só Espírito para ser um só corpo" P h i l a d e l p h i a , 1975]. P f a m m a t t e r , J., Die Kirche als

(ICor 12,13). A unidade desses crentes em Bau [ A n G r e g 110; R o m , I960], R o l o f f , J., EW NT


um só corpo, i.e., a igreja que transcende 1. 998-1011. S c h l i e r , H . , Christus und Kirche im
Epheserbrief [B H T 6; T ü b i n g e n , 1930]. S c h m id t,
todas as barreiras locais, é a grande contri­
K. L ., TDN T 3. 501-36. S c h n a c k e n b u r g , R ., The
buição de Paulo para a teologia cristã. Tra­
Church in the New Testament [ N e w Y o r k , 1965];
ta-se de uma unidade que se deriva propó­ t a m b é m e m Ortskirche Weltkirche [ F e s t s c h r i f t J.
sito único do plano divino para a salvação D ö p f n e r ; W ü r z b u r g , 1973] 32-47. S c h w e iz e r , E.,
dos seres humanos em Cristo Jesus. Paulo TLZ 86 [1961] 161-74).

A ÉTICA DE PAULO

138 (I) Dupla polaridade da vidasuscita (—> 109). Os cristãos são justificados
cristã. Nenhum esboço da teologia pauli­ pela graça por meio da fé em Cristo Jesus
na seria adequado sem uma exposição do (Rm 3,24-25), de modo que não estão mais
ensinamento ético de Paulo. Todas as suas "sob a lei, mas sob a graça" (Rm 6,15). Por
cartas não apenas ensinam verdades fun­ outro lado, também eles ainda têm de ser
damentais acerca do evento Cristo (sua libertos "do presente mundo mau" (Gl 1,14;
soteriologia cristocêntrica), mas também cf. ICor 7,26.29-31). "E não vos conformeis
exortam os cristãos à conduta ética reta. com este mundo, mas transformai-vos, re­
E não se trata simplesmente das seções novando vossa mente, a fim de poderdes
exortatórias de suas cartas, pois exortações discernir qual é a vontade de Deus, o que é
se encontram em outras partes também. bom, agradável e perfeito" (Rm 12,2). Paulo
Há, contudo, uma certa tensão entre sua ainda diz aos cristãos que experimentaram
teologia e sua ética: Faz alguma diferença os efeitos do evento Cristo: "Operai vossa
o que os cristãos justificados, reconcilia­ salvação com temor e tremor" (F1 2,12c);
dos ou redimidos fazem em suas vidas? "Porquanto todos nós teremos de compa­
Por um lado, Paulo insiste que os cristãos recer perante o tribunal de Cristo, a fim de
se tornaram uma "nova criação" (Gl 6,15), que cada um receba a retribuição do que
em que Cristo realmente vive (Gl 2,20). Já tiver feito durante sua vida no corpo, seja
mencionamos a vida cristã integral que isto para o bem, seja para o mal" (2Cor 5,10).
Entretanto, Paulo sabe que "é Deus quem o pneumatikos vive; ela é o princípio ôntico
opera em vós o querer e o operar, segundo de nova vitalidade, de onde brota o amor
sua vontade" (F1 2,13 —> 71). O cristão, en­ que deve interiorizar toda a conduta ética
tão, vive uma vida de polaridade dual. do cristão. E, no entanto, é a essas pessoas
espirituais que Paulo dirige suas variadas
139 A dupla polaridade que caracteriza exortações à conduta virtuosa. Só podemos
a vida cristã é a razão por que Paulo insiste escolher umas poucas de suas exortações
que o cristão, energizado pelo Espírito de características, mas antes de fazê-lo temos
Deus (Rm 8,14), não pode mais pecar ou de dizer mais algumas palavras sobre a re­
viver uma vida limitada por um horizonte lação da ética de Paulo com sua teologia.
meramente natural e terreno. Ele não é mais
psychikos, "material", mas pneumatikos, "es­ 140 (II) Ética e teologia paulina. Os
piritual"; deve, então, fixar seu olhar no ho­ escritores patrísticos, escolásticos medie­
rizonte do Espírito que vem de Deus (ICor vais e teólogos reformatórios e pós-tri-
2,11). Embora a pessoa material não acolha dentinos tinham frequentemente usado os
o que vem do Espírito, a pessoa espiritual ensinamentos éticos de Paulo em tratados
está aberta para tudo, não extingue o Espí­ de teologia moral, mas foi apenas em 1868
rito ou desconsidera suas sugestões, mas que H. Ernesti fez a primeira tentativa de
testa todas as coisas e retém o que é bom sintetizar sua ética. (Parte da razão da ne­
(lTs 5,19-22). Esta polaridade dual também gligência desta última decorria do modo
explica a liberdade cristã, na qual os gála- como os teólogos mais antigos concebiam
tas convertidos de Paulo são exortados a a relação entre revelação e lei natural, entre
permanecer firmes (5,1): liberdade da lei, ética filosófica e cristã.). O ponto de partida
liberdade do pecado e da morte, liberdade de Ernesti foi que os seres humanos eram
de si mesmo (Rm 6,7-11.14; 7,24-8,2). Mas chamados a um status de retidão diante de
esta liberdade não é uma licenciosidade Deus, a uma obediência à vontade de Deus,
antinomista. Paulo rejeita vigorosamente que é a norma absoluta e incondicionada
a ideia de que os cristãos deveriam pecar da moralidade cristã. Ele enfatizou a liber­
ostensivamente a fim de dar a Deus mais dade do cristão na conduta ética por causa
espaço para sua misericórdia e justificação do dom do Espírito. Desde o princípio o
graciosa (Rm 6,1; cf. 3,5-8). A "lei de Cristo" estudo da ética paulina foi dominado por
(G16,2), quando examinada, revela-se como vestígios do debate da Reforma acerca da
"lei do amor", sendo explicada em termos justificação pela fé e liberdade da lei (veja
de levar as cargas uns dos outros (num con­ Furnish, Theology 242-79). Na primeira par­
texto de correção fraternal). Ainda mais ex­ te do séc. XX, A. Schweitzer procurou livrar
plicitamente, Paulo repete os mandamentos a discussão sobre a ética paulina da doutri­
5, 6, 7 e 8 do Decálogo, resumindo-os como na da justificação e enfatizar mais o aspecto
"amarás o teu próximo como a ti mesmo" escatológico deste ensino. A ética de Paulo
(Rm 13,8-10) e concluindo: "A caridade é a tem um caráter interimístico, temporário,
plenitude da lei". Esta é justamente a "lei e está baseada em seu "misticismo", i.e., a
do Espírito" (Rm 8,2), de modo que Cristo participação do cristão na morte e ressur­
não substituiu simplesmente a Lei de Moi­ reição de Cristo. Estando "em Cristo", os
sés por um outro código legal. A "lei do Es­ cristãos estão de posse do Espírito, o prin­
pírito" poder ser um reflexo de Jr 31,33, mas cípio de vida da nova existência que eles
é mais provável que Paulo tenha cunhado assumiram. Mais tarde (1924), R. Bultmann
a expressão para descrever a atividade do relacionou novamente a ética de Paulo à
Espírito em termos de nomos, sobre a qual sua doutrina da justificação (forense) pela
acabara de falar. A lei do amor do Espírito é fé e introduziu uma distinção entre o indica­
a nova fonte e guia interior de vida pela qual tivo paulino (você é um cristão justificado) e
o imperativo paulino (então viva como cris­ of Life: A Study of the Ethical Thought of St. Paul
tão): "Porque o cristão é liberto do pecado in His Letters to the Early Christian Communities
por meio da justificação, ele deveria travar [ M o n t r e a l , 1970]. E n s l i n , M . S . , The Ethics of Paul
[ N a s h v il l e , 1957], E r n e s t i , H ., Die Ethik des Apostels
uma guerra contra o pecado." Todavia, a
Paulus in ihren Grundzügen dargestellt [ G ö t t i n g e n ,
justiça do cristão é um fenômeno escatoló-
1868]. F u r n i s h , V. P., Theology and Ethics in Paul
gicò, visto que isto não depende da reali­ [ N a s h v i l l e , 1968], G l a s e r , J . W ., TS 31 [1970] 275­
zação humana, moral ou de outra espécie, 87. G n i l k a , J., i n Melanges bibliques [ F e s t s c h r i f t B.
mas somente do evento da graça de Deus, R ig a u x ; e d . A. D e sc a m p s et al.; G e m b l o u x , 1970]
um fenômeno além deste mundo. Esta re­ 397-410. H a s e n s t a b , R ., Modelle paulinischer Ethik
tidão não é uma qualidade "ética"; não im­ ( T ü b i n g e r t h e o l o g i s c h e S t u d i e n 11; M a i n z , 1977].

plica mudança no caráter moral de um ser M e r k , O . , Handeln aus Glauben: Die Motivierungen

humano. Fé é obediência, e os atos éticos der paulinischen Ethik [ M a r T S 5; M a r b u r g , 1968],


M o u l e , C . F . D ., i n Christian History and Interpre­
humanos não produzem retidão; eles são,
tation [ F e s t s c h r i f t J. K n o x ; e d . W . R . F a r m e r et al.;
entes, as expressões da obediência radical à C a m b r i d g e , 1967] 389-406. R o m a n iu k , K . , NovT
qual os seres humanos são chamados. Ain­ 10 [1968] 191-207. S c h n a c k e n b u r g , R ., The Moral
da mais tarde (1927), C. H. Dodd introdu­ Teaching of the New Testament [ N e w Y o r k , 1965]
ziu a distinção ente kêrygma e didachê, que 261-306; Die sittliche Botschaft des Neuen Testaments
corresponde aproximadamente, para ele, [ H T K N T S u p l e m . ; F r e i b u r g , 1986-]. S t r e c k e r ,
a "teologia" e "ética", ou a "evangelho" e G ., NTS 25 [1978-79] 1-15. W a t s o n , N . M ., NTS

"lei". Uma nova era raiou (escatologia reali­ 29 [1983] 209-21. W e s t e r h o l m , S ., NTS 30 [1984]
229-48.)
zada), e Paulo é o promulgador de sua nova
lei, um padrão cristão de conduta ao qual o
cristão está obrigado a conformar-se, "a lei 141 (III) A vida cristã e suas exigên­
de Cristo" (Gl 6,2). Retrocedendo a uma ên­ cias. O ensino ético de Paulo, em suas re­
fase de A. Schweitzer, de H. D. Wendland e comendações específicas e concretas, reflete
de outros, V. P. Furnish (1968) considerou a ao mesmo tempo seu pano de fundo farisai­
escatologia "a chave heurística" para a teo­ co e judaico (—»10-11) e seu pano de fundo
logia paulina, a alavanca para organizar os helenístico (—» 12). Quando Paulo exorta
outros elementos em seu ensino, inclusive o seus leitores à conduta cristã apropriada,
ético. Sua compreensão da escatologia pau­ suas recomendações se encaixam em várias
lina difere da de Schweitzer e é matizada o categorias. Algumas, que foram analisados
suficiente para ser aceita (—>47 acima)-, e cer­ pela crítica das formas, são as listas éticas
tamente a escatologia é importante na ética genéricas de virtudes e vícios (e Haustafeln
paulina (veja F1 2,12; 2Cor 5,10; Rm 2,6-11). [catálogos de normas para a vida domésti­
Entretanto, ela não é a chave heurística para ca]). Outras são mais específicas.
o todo (veja minha crítica, PSTJ 22 [1969]
113-15). O melhor modo de explicar a rela­ 142 (A) Listas éticas. Em suas cartas
ção da ética de Paulo com sua teologia, em incontestes Paulo incorpora catálogos de
minha opinião, é ver a primeira como uma virtudes e de vícios que deveriam caracte­
explicação detalhada e concreta do amor rizar ou não a vida cristã (Gl 5,19-23; ICor
que é a forma como a fé cristã opera. Em 5,10-11; 6,9-10; 2Cor 6,6-7; 12,20; Rm 1,29­
outras palavras, Gl 5,6 ("a fé agindo pela 31; 13,13; [Cl 3,5-8.12-14; Ef 5,3-5]). A refe­
caridade") prova novamente sua importân­ rência escatológica nestes catálogos é mui­
cia no pensamento paulino, pois é o elo de tas vezes evidente: "Os que praticam tais
ligação entre a teologia e a ética paulinas. coisas não herdarão o reino de Deus" (Gl
(Sobre a ética: Austgen, R. J., Natural Motivation 5,21). Visto que "reino de Deus" dificilmen­
in the Pauline Epistles [2a ed.; Notre Dame, 1969]. te é um elemento operacional no ensino de
B u ltm an n, R., ZNW 23 [19241 123-40; E xegetica Paulo (ocorrendo alhures apenas em lTs
[Tübingen, 1967] 36-54. C orriveau , R., The Liturgy 2,12; ICor 4,20; 6,9-10; 15,24.50; Rm 14,17), a
associação dele com estes catálogos parece olhando para trás (como certas e erradas) ou
marcá-los como elementos da instrução ca- olhando para a frente (como um guia para
tequética pré-paulina, que ele herdou e uti­ a atividade apropriada). A palavra de Pau­
lizou. Estas listas foram comparadas a listas lo para designá-la é syneidêsis (= em latim,
semelhantes que se encontram em escritos con-scientia). Ela está relacionada com nous,
filosóficos helenísticos (especialmente es- "mente" (Rm 7,23.25), mas é melhor tratar
toicos) e em textos judaicos palestinenses dela separadamente. Não tem equivalente
(;p.ex., dos essênios; cf. 1QS 4:2-6,9-11). no TM ou na LQ, mas entra na tradição ju­
daica na LXX Qó 27,6; Ec 10,20; cf. Eclo 42,18;
( E a s t o n , B. S ., "N ew Testament Ethical Lists", Sab 17,10). É discutível a tese de que ela foi
JBL 51 [1932] 1-12. K a m l a h , E ., Die Form der ka- derivada por Paulo da filosofia estóica; mais
talogischen Paränese im Neuen Testament [WUNT provavelmente ela veio da filosofia popu­
7; Tübingen, 1964]. S e g a l l a , G., "1 cataloghi dei
lar helenística de sua época. Inicialmente
peccati in S . Paolo", Spat 15 [1968] 205-28. V ö g l e ,
syneidêsis denotava "consciência" (da ativi­
A ., Die Tugend- und Lasterkataloge im Neuen Tes­
tament [NTAbh 1 6 /4 -5 ; Münster, 1936]. W ib b in g , dade humana em geral); por fim foi aplicada
S ., Die Tugend- und Lasterkataloge im Neuen Testa­ à consciência de aspectos morais, a princípio
ment und ihre Traditionsgeschichte unter besonderer como "consciência pesada", depois como
Berücksichtigung der Qumran-Texte [BZNW 25; "consciência moral" em geral. Das 30 ocor­
Berlin, 1959].) rências desse termo no Novo Testamento,
14 se encontram em l-2Cor e Rm (e seis nas
143 (Nas cartas deuteropaulinas [CI pastorais): ICor 8,7.10.12; 10,25.27.28.29[2 x];
3,18-4,1; Ef 5,21-6,9] e pastorais [lTm 2,8-15; 2Cor 1,12; 4,2; 5,11; Rm 2,15; 9,1; 13,5. Três
Tt 2,1-10] encontra-se uma outra lista literá­ passagens são particularmente importantes:
ria, a assim chamada Haustafel (um termo da (1) Rm 2,14-15, onde Paulo reconhece que,
Bíblia em alemão de Lutero que se tornou por meio da "consciência", os gentios cum­
uma designação padrão até mesmo em in­ prem algumas das percepções da lei mosai­
glês). Ela significaria aproximadamente um ca e são, assim, uma "lei" para si mesmos.
"catálogo de avisos doméstico", pois lista as (2) ICor 8,7-12, onde Paulo conclama o cris­
obrigações ou deveres cristãos dos membros tão a respeitar a consciência fraca de um ou­
da casa, i.e., a família do mundo greco-ro- tro cristão preocupado com comer alimentos
mano: esposos e esposas, pais e filhos e se­ consagrados a ídolos. (3) ICor 10,23-29, onde
nhores e escravos. Estas listas mostram um Paulo discute um problema semelhante. Em
discípulo de Paulo se debatendo com os pro­ 2Cor 1,12 Paulo relaciona a consciência ao
blemas éticos sociais de sua época, embora problema da jactância; em Rm 8,16; 9,1 a re­
listem pouco mais do que generalidades.) laciona ao dom do Espírito. O ensinamento
de Paulo sobre o assunto foi com frequência
( C r o u c h , J . E ., The Origin and Intention of the comparado ao que se encontra em textos rabí-
Colossian Haustafel [FRLANT 109; Göttingen, nicos posteriores acerca do yêser hãrã ‘ e yêser
1973], S c h r ä g e , W . , "Z u r Ethik der neutesta- hafíôb, impulso mau" e "impulso bom".
mentlichen Haustafeln", NTS 21 [1974-75] 1-22.
W e id in g e r, K., Die Haustafeln: Ein Stück urchristlicher
( C o u n e , M., "L e problème des idolothytes
Paränese [UNT 14; Leipzig, 1928].)
et 1’éducation de la syneidêsis", RSR 51 [1963]
497-534. D a v ie s , W. D ., "Conscience", IDB 1. 671­
144 (B) Consciência. Poderíamos muito 76. J e w e t t , Anthropological Terms [—> 107 acima]
402-46. M a u r e r , C ., "Synoida, Syneidêsis", TDNT
bem ter incluído este elemento do ensino de
7. 899-919. P i e r c e , C . A ., Conscience in the New
Paulo sob o subtítulo "Ser humano" acima Testament [SBT 15; Londres, 1955]. S t e l z e n b e r g e r ,
(—» 101-7), mas preferimos tratar dele aqui J., Syneidêsis im Neuen Testament [Abh. z. Moral­
por causa da relação com sua ética. "Consci­ theologie 1; Paderborn, 1961], S t e n d a h l , K., "The
ência" é a capacidade de julgar nossas ações Apostle Paul and the Introspective Conscience of
the W est", HTR 56 (1963] 199-215. T h e r r i e n , Gv Le 146 ( D ) O r a ç ã o e a s c e t i s m o . Estas são
discernement dans les écrits pauliniens [EBib; Paris, as considerações primárias da vida cristã,
1973] 263-301. T h r a l l , M. E., "The Pauline Use of
porque se vê o próprio Paulo não apenas
syneidêsis", NTS 14 [1967-68] 118-25).
envolvido com elas, mas também falando
sobre elas de modo reflexo. Para Paulo,
145 ( C ) L e i n a t u r a l . Relacionada à ques­
"oração" é a recordação explícita do cristão
tão da "consciência", no ensino de Paulo,
de que vive na presença de Deus e tem o
está a da chamada lei natural. Por ser uma
dever de comungar com ele em adoração,
questão controversa, não a incluímos sob
louvor, ação de graças e súplica. As cartas
a concepção paulina da Lei de Moisés (—»
de Paulo estão permeadas de expressões
89-100 acima), que já é complicada o sufi­
de oração; a ação de graças formal em cada
ciente. Além disso, é melhor relacionar o
carta, exceto Gl e 2Cor, é uma parte inte­
ensinamento paulino que incide sobre ela
grante de sua escrita - e não meramente
com sua ética. O problema surge princi­
conformidade com um costume epistolar.
palmente devido a Rm 2,14-15. "Quando
O objeto de sua oração é, às vezes, ele mes­
então os gentios, não tendo lei, fazem na­
mo (lTs 3,11; 2Cor 12,8-9), seus convertidos
turalmente (physei) o que é prescrito pela
(lTs 3,9-10.12-13; F1 1,9-11; 2Cor 13,7-9), ou
lei, eles, não tendo lei, para si mesmos
seus ex-correligionários, o povo judeu (Rm
são lei (nomos); eles mostram a obra da lei
10,1). Paulo exorta com frequência seus lei­
gravada em seus corações, dando disto
tores a orar (lTs 5,16-18; F14,6; Rm 12,11-12);
testemunho sua consciência e seus pensa­
ela é a marca da do discípulo cristão ma­
mentos que alternadamente se acusam ou
duro, que ora a Deus como Abba (Gl 4,1-6).
defendem". A nomos do v. 14 foi relaciona­
A base da oração cristã é o Espírito (Rm 8,15­
da com "uma outra lei" ou "lei de minha
16.26-27), que ajuda os cristãos na oração, in­
razão" em Rm 7,23, provavelmente de ma­
tercedendo em seu favor (8,28-30). Paulo ora
neira equivocada porque a principal ana­
logia ali é a lei mosaica. Em Rm 2,14 temos ao Pai (theos) por meio de Cristo e no Espírito
(Rm 1,8; 7,25). Exemplos de suas orações: do-
um dos usos figurados de nomos (—» 90).
Embora em ICor 11,14 Paulo argumen­ xologias (2Cor 11,31; F14,21; Rm 1,25; 11,33-36
te a partir da "natureza" (physis), em Rm [Ef 3,20-21]); intercessões (lTs 3,11-13; 5,23­
2,14 ele talvez esteja simplesmente citando 24); confissões e bênçãos (2Cor 1,3-7; [Ef 1,3­
uma afirmação de outros (talvez se deves­ 14]); ação de graças (lTs 1,3-4; F11,3-11; ICor
sem colocar aspas em "naturalmente" em 1,4-9; Rm 1,8-12). Paulo podia até mesmo
Rm 2,14). Além disso, ao falar de uma lei considerar sua pregação do evangelho como
escrita no coração, Paulo talvez esteja ape­ uma forma de culto (Rm 15,16-17).
nas refletindo Jr 31,33 ou Is 51,7. E assim é Está ligada a esta oração e culto a ati­
difícil ter certeza acerca de sua concepção tude ascética de Paulo. Embora nunca fale
de "lei natural", uma ideia mais enraizada de askêsis, ele considera enkrateia, "domínio
na filosofia grega. Talvez o máximo que próprio, autodisciplina" como um fruto do
se deva admitir é que a ideia deveria ser Espírito (Gl 5,23). Esta atitude não se deve
considerada o sensus plenior [sentido mais simplesmente à iminência da parúsia (ICor
pleno] do ensinamento de Paulo (em vista 7,29-31), mas a sua concepção da vida como
da tradição patrística acerca dela; —» Her­ combate (lTs 5,6-8; 2Cor 10,3-4; 4,7-11)
menêutica, 71:49-51). [sofrimento como ascetismo passivo]) ou
como competição atlética (F1 3,12-14; ICor
(Sobre lei natural: D o d d , New Testament Studies
9,24-27, onde o ascetismo é ativo). Paulo
[—» 9 acima] 129-42. F l ü c k i g e r , F ., T Z 8 [1952] 17­ renuncia livremente a seu direito a recom­
42. G r e e n w o o d , D ., BTB 1 [1971] 262-79. L y o n n e t , pensa por pregar o evangelho (ICor 9,1.4­
S., VD 41 [1963] 238-42. M c K e n z i e , J. L., BR 9 18) para não ser tentado a jactar-se. Formas
[1964] 1-13.) específicas de ascetismo são recomendadas
por ele: o uso da abundância material para um não cristão), Paulo - não o Senhor - to­
ajudar os necessitados (2Cor 8,8-15); abs­ lera a separação ou o divórcio, se os dois
tinência temporária do ato conjugal "para não conseguem viver em paz (7,15), e daí
que vos entregueis à oração" (ICor 7,5-6). onde se desenvolve posteriormente o cha­
mado privilégio paulino. Em ICor 7 Paulo
( C a m p e n h a u s e n , H. v o n , "E a rly C hristian nunca tenta justificar o casamento em ter­
Asceticism ", Tradition and Life in the Church [Phi­ mos de uma finalidade de procriação; tam­
ladelphia, 1968] 90-122. C e r f a u x , L., " L ’Apôtre pouco mostra qualquer preocupação com
en présence de Dieu: Essai sur la vie d ’oraison de
a família cristã. (Isto será remediado pelas
saint Paul", Recueil 2. 469-81. G i a r d i n i , F ., "Con-
Haustafeln das deuteropaulinas.). Paulo re­
versione, ascesi e mortificazione nelle lettere di
S . Paolo", RAM 12 [1967] 197-225. N ie d e rw im m e r,
flete a concepção contemporânea das mu­
K., "Z u r Analyse der asketischen Motivation in 1. lheres na sociedade de sua época quando
Kor. 7", TLZ 99 [1974] 241-48. Q u in n , J., "Apostolic fala do "marido" como "o cabeça da espo­
Ministry and Apostolic Prayer", CBQ 33 [1971] sa" (ICor 11,3; veja ainda 11,7-12; 14,34-35
479-91. S t a n l e y , D. M ., Boasting in the Lord [New [provavelmente uma interpolação não pau­
York, 1973]. W i l e s , G . P., Paul ’s Intercessory Prayers lina!]). Mas deve-se lembrar que o mesmo
[ S N T S M S 24; Cambridge, 1974].) Paulo escreve em G1 3,28:"Não há judeu
nem grego, não há escravo nem livre, não
147 (E) Matrimônio, celibato e viuvez. há homem nem mulher; pois todos vós sois
Paulo considera o casamento, o celibato (ou um só em Cristo Jesus".
virgindade) e a viuvez, juntamente com a (Em Ef 5,21-33 encontra-se um conceito
escravidão e a liberdade civil, condições diferente e um tanto mais exaltado do ca­
de vida nas quais os cristãos se encontram. samento cristão. O autor começa afirman­
O princípio que determina sua concepção do a sujeição mútua de todos "no temor de
dessas coisas se expressa em ICor 7,17: Cristo". A seguir diz imediatamente: "As
"Viva cada um segundo a condição que o mulheres o sejam a seus maridos, como ao
Senhor lhe assinalou". 1 Coríntios 7 explica Senhor" [5,22] - um papel subordinado da
vários detalhes destes modos de vida. Para esposa, que reflete ICor 11,3, que é mitiga­
Paulo, tanto o casamento quanto o celiba­ do pela instrução aos esposos: "amai vossas
to são carismas dados por Deus (7,7b). Ele mulheres" [5,25]. Aqui o autor tenta lidar
recomenda o casamento monogâmico, com com a diferença psicológica entre esposos e
seus direitos e obrigações mútuos, "para esposas, ao insistir na obrigação mútua que
evitar a fornicação" (dia tas porneias, 7,2) eles têm um para com o outro. Mas ele o faz
e porque "é melhor casar-se do que ficar apenas da forma - condicionada pelo tem­
abrasado" (7,9b). Mas Paulo reconhece cla­ po - que conhece: a esposa deve se sujeitar,
ramente o caráter salvífico do casamento, e o esposo deve amar. Ele nunca sugere que
a influência de um cônjuge sobre o outro e a esposa seja um ser inferior. Cita o amor
sobre os filhos nascidos deles (7,12.14-16), de Cristo pela igreja como modelo para o
mesmo quando o casamento envolve um amor do esposo ([5,25]. Finalmente, ao ci­
cristão e um não cristão. Ele repete como tar Gn 2,24: "Por isso deixará o homem pai e
uma instrução do "Senhor" a absoluta proi­ mãe e se ligará à sua mulher, e serão ambos
bição do divórcio (e subsequente casamen­ uma só carne", o autor revela um "segredo"
to, 7,10-11). Mas ao dizer "a mulher não se [:mystêrion] oculto naquele versículo de Gêne­
separe do marido", a formulação de Paulo sis séculos antes, i.e., que a união fundamental
já está adaptada ao ambiente greco-roma- do casamento estabelecida por Deus há muito
no, onde era possível o divórcio instituído tempo era um "tipo" prefigurado da união de
por uma mulher (cf. o ambiente palestino Cristo e sua igreja. Esta concepção da subli­
na formulação de Lc 16,18). Mas quando o midade do casamento marcou boa parte da
casamento é "misto" (i.e., entre um cristão e tradição cristã ao longo dos séculos.)
148 Quanto ao celibato, Paulo afirma1’exégèse re ce n te ", N R T 107 [1975] 5 93-604.
sua preferência gradativamente em ICor 7. N ie d e r w im m e r , K., “Gameõ, e tc.", EW N T 1. 564­
O celibato é sua própria opinião: "não te­ 71. P e s c h R., Freie Treue: Die Christen und die
nho preceito do Senhor" (7,25), ainda que Ehescheidung [Freiburg, 1971], S w a in , L., "Paul
on C elibacy", CIR 51 [1966] 785-91.)
ele pense que esteja tão sintonizado com
o Espírito neste assunto quanto qualquer
outra pessoa (7,40). A princípio, não há 149 (F) Sociedade, Estado e escravi­
comparação: "E bom o homem não tocar dão. Paulo reconhece diferenças tanto na
em mulher" (7,1); mas sua preferência sur­ sociedade humana quanto na cristã. Ele
ge em 7,7a: "Quisera que todos os homens reconhece que tanto judeus quanto gregos
fossem como sou". Novamente, "digo aos foram chamados para se tornarem filhos
celibatários e às viúvas que é bom ficarem de Deus por meio da fé e do batismo e sua
como eu" (7,8) - uma afirmação não clara união na igreja, o corpo de Cristo. Embora
geralmente entendida como querendo di­ não oblitere todas as distinções, ele reco­
zer que Paulo se alinha aos "não casados" nhece sua falta de valor em Cristo Jesus.
(mas —» Paulo, 79:19). Paulo oferece duas "Pois fomos todos batizados num só Espí­
razões para sua preferência: (1) "por causa rito para ser um só corpo, judeus e gregos,
das angústias presentes" (7,26, i.e., a parú- escravos e livres, e todos bebemos de um
sia iminente; cf. 7,29; lTs 5,15.17; Rm 13,11); só Espírito" (ICor 12,13; cf. G13,28). Porém
e (2) porque a pessoa está assim livre das ele também pode dizer: "viva cada um se­
"tribulações da carne" (7,28) e não "fica di­ gundo a condição que o Senhor lhe assina­
vidida" (i.e., a preocupação com o esposo lou" (ICor 7,17-20). Pois a atitude básica
ou a esposa), de modo que "cuida das coi­ de Paulo é expressa em ICor 9,19-23: "Tor­
sas do Senhor e do modo como agradar ao nei-me tudo para todos, a fim de salvar al­
Senhor" (7,32-35). Está implícita aqui uma guns a todo custo". Por isso ele conta com
comparação entre os casados e os não casa­ a existência de judeus e gregos, escravos e
dos, e Paulo recomenda o celibato em vista livres, homens e mulheres, ricos e pobres,
do serviço apostólico. No final do capítulo casados e celibatários, os fracos e os fortes
ele introduz a comparação de modo explíci­ quanto à convicção, os que são materiais e
to na difícil passagem acerca do casamento os que são espirituais na sociedade cristã.
de uma virgem (filha, tutelada, noiva pro­
metida?): "procede bem aquele que casa sua 150 Paulo também está ciente de que
virgem; e aquele que não a casa, procede o cristão tem de viver na sociedade civil e
melhor ainda" (kreisson poiêsei, 7,38). Quan­ política que não se orienta totalmente para
to às viúvas, Paulo reconhece seu direito de os mesmos objetivos da comunidade cristã.
casar-se novamente, mas julga que serão Os cristãos de fato podem ser cidadãos de
mais felizes se permanecerem viúvas. uma outra "cidade", uma cidade celestial
(F1 3,20), mas têm obrigações de um outro
( A l l m e n , J . J. v o n , Pauline Teaching on Marríage tipo nesta vida terrena. Paulo trata delas
[London, 1963]. B a l t e n s w e i l e r , H ., Die Ehe im em Rm 13,1-7, e indiretamente em 1 Corín-
Neuen Testament [Z ürich, 1967]. C r o u z e l , H ., tios 6,1-8; 2,6-8. Podemos concordar com E.
L ’Eglise primitive face au divorce [T heologie
Kásemann de que Paulo realmente não tem
historique 13; Paris, 1971]. D u l a u , P., "The Pau­
uma "ética" do Estado ("Principies", 196),
line P rivilege", CBQ 13 [1951] 146-52. E l l i o t t ,
J. K ., " P a u l ’ s T e a ch in g on M a rria g e in 1
ou até mesmo uma compreensão sistemá­
C orinthians", NTS 19 [1972-73] 219-25. G r e e v e n , tica bem formulada dele. Suspeitou-se que
H ., "Ehe nach dem N euen T estam en t", NTS Rm 13,1-7 seja uma interpolação, mas agora
15 [1968-69] 365-88. G r e l o t , P ., M an and Wife faz parte seção exortatória desta carta. Nela
in Scripture [New York, 1964]. M a t u r a , T., "Le Paulo reconhece que o cristão "se submeta
célibat dans le N o u veau T estam en t d ’après às autoridades constituídas", que são, muito
provavelmente, autoridades humanas do senhor Filêmon (Fm 8-20). Porém nesta úl­
Estado, ainda que alguns tentem identifi­ tima passagem podemos detectar o que ele
cá-los com seres angélicos (—» Romanos, realmente pensa acerca do assunto; pois
51:119). Os cristãos devem reconhecer seu ele envia Onésimo de volta como "bem
lugar na estrutura da sociedade humana. melhor do que um escravo, como irmão
As razões motivadoras de Paulo são princi­ amado" (16), i.e., sugerindo que Filêmon o
palmente três: (1) escatológica (o perigo de reconheça como um irmão cristão, e possi­
enfrentar "julgamento" [13,2] e "ira" [13,5]); velmente até dando a entender que deve­
(2) o ditame da própria "consciência" (13,5); ria emancipá-lo (embora este último aspec­
e (3) "o bem (comum)" (13,4). Pelas mesmas to esteja longe de ser certo). Paulo estava,
razões Paulo insiste que os cristãos não de­ neste caso, mais preocupado com a interio-
vem apenas "pagar taxas" e "impostos" rização da situação social existente do que
(13,6-7a), mas também conceder às autori­ em mudá-la, percebendo que até mesmo
dades "honra" e "respeito" (13,7b). Por trás um escravo na sociedade civil podia ter
da exposição de Paulo está a convicção de liberdade em Cristo Jesus (G1 3,28).)cf. Cl
que "não há autoridade que não venha de 3,22-4,1; Ef 6,5-9.)
Deus, e as que existem foram estabelecidas
por Deus" (13,1). Ao escrever aos romanos, (B a rtc h y , Mallon Chrêsai [—> 75 acima], B o rg ,
Paulo está reconhecendo implicitamente M ., " A N ew C o n te x t for R o m an s x iii", NTS 19
o caráter dado por Deus da autoridade do [1972-73] 205-18. B ro e r, I., "Exousia", EW NT 2.
2 3 -2 9 . C o le m a n -N o r to n , P . R ., " T h e A p o stle
Império Romano no qual ele mesmo vivia.
P a u l a n d the R o m a n L aw o f S la v e ry ", Studies
O problema com seu ensinamento nesta
in Roman Economic and Social History [P rin ceton,
passagem é que ele nunca prevê a possi­ 1951] 155-77. C ook , W . R ., "B ib lic a l L ig h t on the
bilidade de que as autoridades humanas C h ristia n ’s C iv il R e sp o n sib ility ", BSac 127 [1970]
sejam más ou façam o mal; não adiante ten­ 44-57. C u llm an n , O ., The State in the New Testament
tar salvar Paulo neste assunto invocando [N ew Y o rk , 1956]. H u tch in son , S., "T h e P olitical
autoridades angélicas. Seu ensinamento é Im p licatio n s o f R om an s 1 3 :1 -7 ", Biblical Theology
limitado, e mesmo sua referência ao "bem 21 [1971] 49-59. K ãsem ann, E ., "P rin c ip le s of the
(comum)" (13,4a) dificilmente pode ser in­ In te rp re ta tio n o f R o m a n s 1 3 " , N TQ T 196-216.
vocada em defesa da desobediência civil. L y a ll, F ., "R o m a n L aw in the W ritin g s o f P au l
- T h e Slav e an d the F re e d m a n ", NTS 17 [1970­
71] 73-79. M urphy-O ’C onnor, J., "T h e C h ristian
151 Por último, o conselho de Paulo
an d S o ciety in St. P a u l", New Blackfriars 50 [1968­
aos escravos em ICor 7,21-22 é sempre um 69] 174-82. P a g e ls, E. H ., "P a u l and W om en : A
ensinamento difícil de tratar. Paulo não R esp o n se to R ecen t D isc u ssio n ", JAAR 4 2 [1974]
procurou mudar o sistema social no qual 538-49. S cro g g s, R ., "P a u l and the E sch ato lo g ical
vivia. Esta é, sem dúvida, a razão de ele W o m a n ", JAAR 4 0 [1972] 2 8 3-301; cf. JAAR 42
devolver o escravo fugitivo Onésimo a seu [1974] 432-37.)

CONCLUSÃO

152 Paulo tem instruções para a condu­homem celeste" (ICor 15,49; cf. Rm 8,29).
ta cristã em outras áreas também, as quais E crescimento em Cristo que Paulo reco­
não podem ser incluídas neste breve esbo­ menda a seus leitores, contemporâneos e
ço. Concluímos nossas observações sobre a atuais. Deste modo o cristão vive sua vida
teologia e a ética de Paulo insistindo em seu "para Deus" (G1 2,19). Assim, não obstante
cristocentrismo. Como Cristo era "a ima­ toda a sua ênfase em Cristo, Paulo nova­
gem de Deus" (2Cor 4,4), assim os seres hu­ mente atribui a existência cristã, em última
manos estão destinados a ser "a imagem do análise, ao Pai - por meio de Cristo.