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Teologia Joanina
Francis J. Moloney, S.D.B.

BIBLIOGRAFIA

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2 ESBOÇO

Componentes da teologia joanina (§ 3-17) (A) Jesus a glória de Deus (§ 25-26)


(I) A estrutura de João (B) A cruz e a glória de Deus (§ 27-30)
(A) Estrutura geral (§ 5-6) (C) Dualismo (§ 31-34)
(B) Problemas (§ 7-8) (D) Filho de Deus (§ 35-37)
(II) A comunidade joanina
(E) Filho do Homem (§ 38-40)
(A) História da comunidade (§ 9-14)
(F) "E u Sou" (§ 41-49)
(B) Importância teológica (§ 15-17)
(G) Escatologia e Espírito (§ 50-54)
Deus e Jesus (§ 18-54)
(I) Teologia A resposta dos crentes (§ 55-62)
(A) Contar a história de Deus (§ 19) (I) Sinais e fé (§ 55-57)
(B) Que espécie de Deus? (§ 2-23) (II) Sacramentos (§ 58-61)
(II) Cristologia (III) Conclusão (§ 62)
COMPONENTES DA TEOLOGIA JOANINA

3 O Quarto Evangelho (doravante Jo) gelho propriamente dito, mas foi acrescen­
caiu em desfavor quando a busca do séc. IX tado num estágio final (não está ausente em
pelo "Jesus real" (—>Crítica do NT, 70:6,33) nenhum ms. antigo) para lidar com outras
descobriu Marcos como o evangelho "his­ questões de interesse da igreja joanina (—»
tórico". O interesse contemporâneo nas teo- João, 61:4; para uma opinião contrária, veja
logias da protoigreja, contudo, recolocou Jo P. S. Minear, JBL 102 [1983] 85-98).
no centro das atenções. (E. Haenchen, John
[Herm; Philadelphia, 1984] 1.20-39.). Já no 6 Há menos acordo entre os estudio­
séc. II, Clemente de Alexandria era capaz sos quanto ao cuidado e à deliberação do
de chamar Jo de "o evangelho espiritual" evangelista em relação a estruturas internas
(Eusébio, HE 6.14.7), e os Padres do séc. IV mais detalhadas. No lado positivo, as nar­
falavam de "João o Teólogo". A singulari­ rativas do homem que nasceu cego (Jo 9),
dade de seu ponto de vista teológico é uma a ressurreição de Lázaro (Jo 11) e a paixão
característica importante de Jo. (especialmente 18,28-19,16) indicam um au­
tor que escreveu com uma habilidade con­
4 (I) A estrutura de João. siderável. Análises detalhadas demonstra­
O dito de que João é um poço mágico no ram, sem deixar margem a dúvidas, que Jo
qual uma criança pode remar e um elefante é o produto final de uma atividade literária
pode nadar é verificável de muitas maneiras. e teológica considerável.
A linguagem de Jo em geral não é complica­
da; o vocabulário e a sintaxe são simples; e, 7 (B) Problemas. Poder-se-ia crer que
no entanto, ele apresenta um dos mais pro­ uma estrutura geral clara e um formato li­
fundos e comoventes retratos de Jesus de terário cuidadoso, condicionados por um
Nazaré e sua mensagem que se encontra no ponto de vista obviamente teológico, de­
NT. (C. K. Barrett, The Gospel according to St veriam tornar a identificação e a descrição
John [2a ed.; London, 1978] 5-15.) da teologia joanina uma tarefa fácil. Mas
existem problemas estruturais e literários
5 (A) Estrutura geral. A questão da que intrigam os intérpretes há séculos, cen­
simplicidade e profundidade afeta a com­ trados em sequências difíceis na lógica, ge­
preensão da estrutura de João. Independen­ ográfica e cronológica de Jo. Por exemplo,
temente dos debates que possa haver acer­ a solene conclusão do discurso de Jesus a
ca da estrutura dos evangelhos sinóticos, seus discípulos em 14,31 ("Levantai-vos!
há uma ampla concordância de que João Saiamos daqui!") leva muito bem a 18,1,
pode ser dividido em um prólogo teológico o versículo inicial da narrativa da paixão
claramente esboçado (1,1-18), seguido por ("Tendo dito isso, Jesus foi com seus discí­
dois trechos longos. O primeiro (1,19-12,50) pulos para o outro lado da torrente do Ce-
é dedicado à vida pública de Jesus até ele dron"). Contudo, sem qualquer indicação
se afastar das multidões (12,36b) - um tre­ explicativa de tempo ou espaço, estas duas
cho que João termina solenemente com re­ afirmações são separadas pelos caps. 15-17!
flexões conclusivas (12,37-50). O segundo Os caps. 5 e 6 de Jo parecem, para muitos
(13,1-20,31) é dedicado inteiramente à pre­ biblistas, estar invertidos. Além disso, pas­
sença de Jesus com seus "próprios" discípu­ sagens como 3,31-36 e 12,44-50 estão situ­
los, que conduz à sua glorificação mediante adas estranhamente; há alguma confusão
a hora da cruz, a ressurreição e o retorno acerca de Caifás e Anás no cap. 18; etc.
ao Pai. O cap. final (21) aparentemente é
um adendo, que parece ter se originado no 8 Essa falta de lógica em um evangelho
mesmo pano de fundo joanino que o evan­ de resto bem estruturado levou a diferentes
teorias, p.ex., de que o evangelho como o te levaram Natanael a proclamar: "Rabi, tu
temos está "inacabado" (D. M. Smith, The és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel"
Composition and Order of the Fourth Gospel (v. 49). Esta sequência de títulos cristológi-
[New Haven, 1965] 238-49) ou de que ele cos conduz, segundo muitos comentaristas,
chegou até nós fora de sequência, e deve­ gradualmente a uma confissão de fé final,
mos tentar reconstruir sua ordem original plenamente joanina por parte de Natanael.
(R. Bultmann; —> Crítica do NT, 70:52). Contudo, dificuldades aparecem no v. 50,
A abordagem mais popular deste proble­ onde o próprio Jesus fica insatisfeito com
ma, contudo, é a tentativa de reconhecer as essa profissão de fé, a qual é inspirada pelo
várias "camadas" de tradição no evangelho mero milagre do conhecimento de Jesus de
de um ponto de vista da história das tradi­ que Natanael estivera sob uma figueira. Je­
ções (habilmente feita nos comentários de sus promete a visão de "coisas maiores": a
R. Schnackenburg e R. E. Brown). A pesqui­ abertura dos céus e a subida e descida dos
sa joanina recente está fazendo ainda uma anjos de Deus sobre o Filho do Homem (vv.
outra pergunta importante: E possível re­ 50-51).
construir (por trás desta mistura de elemen­
tos antigos, mais recentes e exclusivamente 10 Esta passagem (e muitas outras se­
joaninos) a experiência da comunidade joa­ melhantes em todo o evangelho) usa toda
nina? Uma tentativa de responder esta per­ uma gama de categorias cristológicas, que
gunta positivamente está no centro de boa podem ser remontadas a vários estágios na
parte da pesquisa joanina atual (examinada jornada de fé da protoigreja (—>Pensamen­
por F. J. Moloney, "Revisiting John", ScrB to do NT, 81:12-24). Encontramos referên­
11 [Verão de 1980] 9-15; João, 61:13-15). cias a um precursor messiânico (Elias ou
o Profeta), e a Jesus como um mestre com
9 (II) A comunidade joanina. A redes- autoridade (Rabi), como Cristo (Messias), e
coberta da jornada de fé da comunidade jo­ aquele que cumpre as Escrituras, chegando
anina é de grande importância para a apre­ finalmente à crença de Natanael de que Je­
ciação adequada da teologia do evangelho sus é o Filho de Deus (em termos messiâ­
(—>João, 61:9-11). nicos judaicos, interpretando 2Sm 7,14 e SI
(A) História da comunidade. Em Jo, 2,7) e o Rei de Israel. Há uma progressão
os primeiros dias de Jesus são marcados dos termos mais antigos e mais simples
por uma série de perguntas estruturadas para designar o precursor messiânico até
em termos de expectativas messiânicas ju­ chegar às expectativas judaicas mais eleva­
daicas. As autoridades religiosas vêm de das de um Rei messiânico de Israel. Mas em
Jerusalém e perguntam se João Batista é o seguida há três confissões adicionais que
Messias, Elias ou o Profeta (1,19-28). João não podem ser enquadradas nessas catego­
Batista, aquele "que veio como testemunha, rias: o Cordeiro de Deus, o Filho de Deus
para dar testemunho da luz" (1,7), aponta (no sentido joanino pleno) e o Filho do Ho­
para longe de si, para Jesus: o Cordeiro de mem (também no sentido joanino). Isto é
Deus que tira o pecado do mundo, o Filho uma confusão? E uma justaposição de tra­
de Deus (1,29.34-35). Finalmente ele envia dições que não estão bem combinadas? Tal­
dois de seus discípulos para "seguir" a Je­ vez a aparente multiplicidade de categorias
sus (v. 37). Eles chamam Jesus de Rabi e cristológicas encontrada em 1,19-51 reflita
passam algum tempo com ele (vv. 38-39). uma jornada cristológica dentro da própria
No fim, trazem outros discípulos, anun­ comunidade.
ciando: "Encontramos o Messias (que quer
dizer Cristo) [...]. Encontramos aquele de 11 Esta comunidade teve seu início
quem escreveram Moisés, na lei, e os profe­ nos primórdios do cristianismo. Ela teve
tas" (vv. 41 e 45). Estas confissões finalmen­ contato estreito com uma compreensão
judaico-cristã primitiva de Jesus como o binado que, se alguém reconhecesse Jesus
Profeta mosaico e o cumprimento das Es­ como Cristo, seria expulso da sinagoga"
crituras. O diálogo com o judaísmo levaria (9,22; veja também 12,42; 16,2). Parece que
por fim às confissões mais desenvolvidas esta ruptura final entre igreja e sinagoga,
e plenamente judaicas de Jesus como Mes­ que se reflete em Jo, deve ser ligada à deci­
sias, rei de Israel e Filho de Deus. Os pri­ são tomada gradativamente pelo judaísmo
meiros anos da comunidade devem ter sido (a uma certa altura depois de 85 d.C.) de
vividos em contato estreito com o judaísmo excluir da sinagoga os sectários, inclusive
e suas tradições. Gradualmente, esta proxi­ as pessoas que criam que Jesus de Nazaré
midade com o judaísmo parece ter entrado era o Cristo (veja W. D. Davies, The Setting
em colapso, e o primeiro passo neste colap­ of the Sermon on the Mount [Cambridge,
so provavelmente veio com a introdução de 1966] 256-315; R. Kimelman, em Jewish and
elementos não judaicos e até mesmo con­ Chrístian Self-Definition 2 [ed. E. P. Sanders,
trários ao Templo na comunidade joanina. et al.; Philadelphia, 1981] 226-44; —> Protoi­
A concentração na missão aos samaritanos, greja, 80:24).
no cap. 4, é uma forte indicação desta dire­
ção (especialmente as implicações de 4,20­ 13 Depois que a comunidade joani­
24). Certamente a introdução de elementos na foi forçosamente cortada de suas raízes
não judaicos causou grande parte do desen­ judaicas, parece que ocorreram mais mo­
volvimento teológico da protoigreja. (Basta dificações da teologia joanina. Uma comu­
apenas considerar elementos presentes em nidade originalmente judaico-cristã estava
Paulo e Mateus.). Não pode haver muita agora desenvolvendo uma hostilidade para
dúvida de que samaritanos, helenistas, etc. com o judaísmo oficial (a razão para o uso
devem ter levado a comunidade joanina a negativo do termo "os judeus" em todo o
reexaminar sua compreensão e pregação da evangelho) e uma crescente abertura para
pessoa de Jesus de Nazaré. Uma mudança o mundo desconhecido dentro do qual ela
no significado do termo "Filho de Deus" tinha agora de viver e pregar sua forma
talvez tenha sido inaceitável para ouvintes singular de cristianismo. O contato com as
judaicos originais, e o uso da expressão "Eureligiões helenísticas sincretistas e alguma
sou" para se referir a Jesus deve ter enfren­
forma antiga do que finalmente se tornou o
tado uma oposição semelhante. gnosticismo (—> Protoigreja, 80:64-82) deve
ter feito parte deste novo mundo. A comu­
12 Uma tensão crescente entre a co­nidade deixou claro que os verdadeiros
munidade joanina e a sinagoga parece ter cristãos joaninos não poderiam permanecer
finalmente levado à completa expulsão da na sinagoga (veja 12,43-44). Gradualmen­
comunidade da sinagoga. As evidências te eles desenvolveram uma compreensão
para essa ruptura final encontram-se na independente da primazia do amor sobre
descrição da experiência do homem cego a autoridade (a razão da contínua "ofus­
de nascença no cap. 9, onde sua crescente cação" de Pedro por parte do Discípulo
fé em Jesus (9,11: "o homem chamado Je­ Amado: veja especialmente 13,21-26 e 20,2­
sus"; v. 17: "ele é um profeta"; v. 33: "Se 10). A comunidade joanina tornou-se mais
esse homem não viesse de Deus"; vv. 35-38: agressiva em seu desenvolvimento grada­
confissão de Jesus como o Filho de Deus) tivo de uma cristologia nova e mais eleva­
finalmente conduz à sua "expulsão" (v. 34). da (Jesus como o Logos, o Filho de Deus,
João já usou os pais do homem cego de nas­ "enviado" pelo Pai de "cim a" para "baixo"
cença para explicar o pano de fundo para de um modo desconhecido dos evangelhos
esta expulsão. Eles se recusaram a falar em sinóticos), uma singular pneumatologia
favor de seu filho porque "tinham medo do Paráclito e uma ética baseada numa lei
dos judeus, pois os judeus já tinham com­ do amor, sem enfatizar as restrições sobre
o comportamento de um juízo final no fim johanneischen Gemeinde [SBS 77; Stuttgart, 1975].
dos tempos (não há cena joanina paralela a R ic h t e r , G., "Zum gemeindebildenden Element
Mt 25,31-46). in den johanneischen Schriften", Kirche im Werden
[Festschrift G. R ic h t e r ; ed. J . H a in z ; München,
1976] 252-92.)
14 As cartas joaninas indicam que este
foi um processo arriscado. Ali temos ves­
tígios da história posterior de uma comu­ 15 (B) Importância teológica. Nosso
nidade joanina irrevogavelmente dividida rápido esboço é necessariamente especu­
em pelo menos duas facções. Ali o grupo lativo, uma síntese baseada no trabalho da
dos que "saíram de nós" (ljo 2,19) - seguin­ pesquisa joanina contemporânea. Ela é pro­
do a descrição de suas heresias feita pelo posta, contudo, para indicar que os estudos
autor (e infelizmente não temos como ou­ joaninos contemporâneos, em vez de se li­
vir a defesa deles) - parecia estar passando mitarem a uma variedade de teorias reda-
para uma forma de cristianismo mais gnós- cionais para explicar as tensões internas do
tica por meio de sua compreensão do Jesus evangelho, agora buscam esta explicação
do evangelho. A comunidade retratada pe­ no desenvolvimento de uma comunidade
las próprias cartas parece estar se retirando protocristã particular (—» Crítica do NT,
para um cristianismo mais "controlável", 70:79). Por trás dessa tradição crescente está
onde a importância da pessoa de Jesus de a figura do Discípulo Amado (se ele é João,
Nazaré e da experiência histórica e física o filho de Zebedeu, ou não, não precisa ser
de seu sofrimento e morte é expressa sem resolvido aqui). Sua apreciação carismática
qualquer ambiguidade (ljo 4,2-3; 5,6; 2Jo e sensível de Jesus de Nazaré encontra-se
7). Semelhantemente, a qualidade de vida nos primórdios da tradição joanina. Sua ca­
que deveria ser vivida por seus seguidores pacidade de reler e reensinar esta tradição,
recebe um tratamento mais prático do que sem jamais trair os elementos fundamentais
no próprio evangelho (veja, p.ex., ljo 1,6; da mensagem cristã, também está por trás
2,4.6.9). Todavia, ambos os grupos - aquele do desenvolvimento já esboçado. Ele desa­
representado pelas cartas e o atacado por fiou sua comunidade em seu próprio tem­
elas - podiam justificavelmente reivindicar po. Após a morte do Discípulo Amado (veja
que baseavam sua cristologia, eclesiologia, 21,21-23), esta mesma comunidade estava
pneumatologia e ética nas tradições e na preparada para enfrentar sua nova situação
herança teológica do Discípulo Amado e e continuar examinando sua fé em Jesus e
seu evangelho. A comunidade que está por sua expressão.
trás das cartas parece ter levado consigo a
mensagem do evangelho na forma de uma 16 Obviamente há tensões presentes
igreja que finalmente se tornou a "Grande no texto de Jo; todavia, tanto a organização
Igreja", enquanto que os ensinamentos dos geral quanto boa parte da estrutura interna
ex-membros da comunidade atacados pelas mostram uma mente clara e bem organiza­
cartas estão, de muitos modos, próximos ao da. Este fenômeno indica a habilidade de um
gnosticismo do séc. II. evangelista que produziu uma unidade teo­
lógica ao trabalhar criativamente na situação
(B r o w n , R. E., BEJ 47-115; Community. L a n - real de vida de sua comunidade. João é uma
g b r a n d t n e r , W., Weltferner Gott oder Gott der tentativa de preservar e instruir tornando as
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Christianity and Judaism", Christianity, Judaism uma "história antiga" de um modo novo. Era
and Other Greco-Roman Cults [Festschrift M. S m t m ; inevitável que muitas das experiências da co­
ed. J. N e u s n e r ; SJLA 12; Leiden, 1975] 1. 163-86. munidade, na qual ele ouvira a história con­
M ü l l e r , U . B ., Díe Geschichte der Christologie in der tada e a contou de novo, moldassem a forma
pela qual ela foi narrada. Existem importan­ joanina. A "história de Jesus", como a te­
tes questões teológicas em jogo aqui. Como mos agora contada em João, é o resultado
escreveu J. L. Martyn: "O evangelista am­ da jornada de fé de uma comunidade cris­
pliou o einmalig [acontecimentos efetivos de tã particular na segunda metade do séc. I.
sua tradição concernentes à vida histórica deA experiência da comunidade joanina e a
Jesus], não porque tivesse descoberto novas rica visão teológica que ela produziu indi­
informações acerca do que o Jesus terreno fezcam que esta comunidade protocristã par­
nesta [ou naquela] ocasião, mas, antes, por­ ticular se dedicou seriamente ao "problema
que quer mostrar como o Senhor ressurreto de relacionar a efetividade do passado com
dá continuidade a seu ministério terreno na a experiência revigorante do presente" (M.
obra de seu servo, o pregador cristão" (His­ D. Hooker, "In His own Image", What about
tory and Theology 29-30). the New Testament? [Festschrift C. Evans;
ed. M. D. Hooker et al.; London, 1975] 41).
17 Estas reflexões são de real impor­João não é apenas uma mistura de tradições
tância teológica num estudo da teologia contraditórias.

DEUS E JESU S

18 (I) Teologia. João é a história de cer de um modo limitado, mas fundamen­


Jesus de Nazaré, escrita para comunicar a talmente importante por meio da lei dada
fé nele e em sua vida, morte e ressurreição a Moisés. Agora essa "graça" foi substitu­
salvadora. Poder-se-ia chegar a esta conclu­ ída pela plenitude da graça de Deus, i.e., a
são lendo o prólogo cristológico (1,1-18) e Verdade revelada por meio de Jesus Cristo
então as palavras conclusivas: "Esses, po­ (1,16-17). Ninguém jamais viu a Deus, mas
rém, foram escritos para crerdes que Jesus Jesus Cristo, o Filho singular deste Deus,
é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, cren­ contou a história de Deus em sua vida (v.
do, tenhais vida em seu nome" (20,31). To­ 18). Assim, este hino diz ao leitor muito so­
davia, apesar das aparências, Jo de fato não bre Jesus, mas faz ainda mais. A finalidade
é realmente uma história sobre Jesus, mas da "encarnação" do Logos em Jesus é con­
uma história sobre o que Deus fez em Jesus tar a história de Deus; e o relato desta his­
(—»1-3 João, 62:5). tória no evangelho refletirá a compreensão
joanina de Deus e de seu relacionamento
19 (A) Contar a história de Deus. O com Jesus, o mundo e aqueles que estão no
prólogo é uma confissão cristológica, mas mundo (—» João, 61:16-17).
também é mais do que isso. O Logos existe
desde sempre, voltado em união amorosa (D e l a P o t t e r i e , I., "Structure du Prologue
para Deus (1,1-2); e a importância disto não de Saint Jean", NTS 30 [1984] 354-81. K á s e m a n ,
é apenas cristológica. O restante do prólogo N TQ T 138-67. M o l o n e y , F. J., "In the Bosom of'
or 'Turned tow ards' the Father", AusBR 31 [1983]
fala da irrupção do Logos como a "vida" e
63-71. P a n i m o l le , S. A .,11 dono della Legge e la Grazia
a "luz" (w . 3-5. 9), "carne" (v. 14), "a ple­
della Verità [Roma, 1973].)
nitude de uma graça que é verdade" (w .
14.16-17), "o Filho único" (w . 14. 18), "Je­
sus Cristo" (v. 17). O evangelista começa 20 (B) Que espécie de Deus? 1 João 4,8
com uma pressuposição compartilhada por reafirma que "Deus é amor" (veja também
muitos de seus contemporâneos de que "o 4,16). Chegando ao final de décadas de re­
mundo" está cativo nas trevas (1,5), incapaz flexão, esta expressão tenta resumir a ação
de "ver" ou "conhecer" o mistério de Deus. solícita e salvadora de Deus na dádiva de
Nos tempos antigos, Deus se deu a conhe­ seu Filho. Ela foi extraída da experiência de
Jesus. Entretanto, ela é o mais perto que o obra" (4,34). Isto constitui uma afirmação
NT chega de dizer-nos algo sobre o "ser" de importante: Jesus deve cumprir o propó­
Deus, e fornece um ponto de partida para sito daquele que o enviou (o verbo pempõ
uma exposição da teologia joanina (veja R. aqui, enquanto que em outros lugares se
Schnackenburg, Die Johannesbriefe [HTKNT usa apostellõ), para levar à perfeição (teleioõ)
13/3; Freiburg, 1979] 231-39; também BEJ a obra (to ergon) confiada a ele. Quando o
542-62). ministério público se desenvolve, Jesus
proclama novamente a centralidade da
21 A seção de João (3,16-17) que vontade de seu Pai: "Porque não procu­
contém o primeiro uso do verbo "amar" ro minha vontade, mas a vontade daquele
(agapaõ) é chamada de "um evangelho em que me enviou" (5,30), repetindo que isto
miniatura". Ficamos sabendo ali que a pre­ somente pode ser feito mediante a reali­
sença terrena do Filho flui do fato de que zação das "obras que o Pai me encarregou
Deus amou o mundo de tal maneira que de consumar. Tais obras, eu as faço e elas
deu seu Filho para que o mundo fosse sal­ dão testemunho de que o Pai me enviou"
vo e aqueles que estão no mundo tivessem (5,36). Estes temas permeiam todo o evan­
uma chance de vida eterna. O Filho é ama­ gelho: Jesus é o "enviado" do Pai (pempõ:
do por Deus, seu Pai, desde sempre (17,24). 4,34; 5,23-24.30.36-37; 6,38.39.44; 7,16-18.
O amor que existia entre o Pai e o Filho 28-29. 33; 8,16.18. 26.28-29; 9,4; 12,44-45.49­
desde sempre irrompeu na história, pois o 50; 13,20; 14,24; 15,21; 16,5; apostellõ: 3,17.34;
Pai, que ama o Filho, colocou todas as coi­ 5,36; 6, 29.57; 7,29; 8,42; 9,7; 10,36; 17,3. 8.18.
sas em suas mãos (3,35; 5,19-30). Sem usar a 21.23.25), consumando, "levando à per­
terminologia do amor, os versículos iniciais feição" (teleioõ: 4,34; 5,36; 17,4; 19,28; teleõ:
do prólogo trazem a mesma mensagem, fa­ 19,28.30) a "obra" que o Pai lhe deu para
lando de uma união singular entre o Logos fazer (to ergon: 4,34; 6,29; 17,4).
e Deus que vai em direção às trevas para
trazer uma luz invencível (1,1-5). Uma con­ 23 João é, de algumas formas, uma
clusão lógica para esta "história de Deus" é história do que Jesus fez por Deus. Isto se
que a presença do Filho no mundo é um de­ torna particularmente claro na oração final
safio para reconhecer nele o Pai que amou de Jesus ao Pai e em seu brado final da cruz.
deste modo (8,42; 14,9-10,23; 15,9). Revelar Ele começa sua oração com a reivindicação:
um Deus de amor ao mundo pode ser visto "Eu te glorifiquei na terra, concluí a obra
como a finalidade da presença de Jesus. Em (to ergon teleiõsas) que me encarregaste de
sua oração final ao Pai, o Filho pede que o realizar" (17,4). "Levantado" na cruz, pro­
amor que iniciou e inspirou sua missão seja clama no momento de sua morte: "Está
repetido nas vidas dos "seus" (17,11) e nas consumado" (tetelestai, 19,30). E no momen­
vidas de todas as pessoas que viesse a crer to da morte que o próprio Jesus pode pro­
no Filho por meio da pregação de seus dis­ clamar que levou à perfeição a tarefa que o
cípulos (17,20.23.26). Assim, um Deus que é Pai lhe dera para fazer. De algum modo, a
amor continuará a ser proclamado no mun­ vida (na qual Jesus faz as "obras" do Pai:
do, à medida que as pessoas que creem em 5,20.36; 6,28; 9,3.4; 10,25.32.37.38; 14,10-12)
Jesus são enviadosao mundo, assim como e a morte de Jesus são a realização da obra
Jesus foi enviado ao mundo (17,17-19). de Deus. Nesta vida e morte, Deus se dá a
conhecer.
22 No início do ministério de Jesus,
quando os discípulos se admiram da pre­ (B a r r e t t , "C hristocentric or Theocentric?"
sença de Jesus para a mulher samaritana, Essays 1-18. B o r g e n , "G od’s Agent in the Fourth
ele anuncia: "Meu alimento é fazer a vonta­ Gospel", Logos 121-32. B u h n er , J. A., Der Gesandte
de daquele que me enviou e consumar sua und sein Weg im 4. Evangelium [W U N T 2 / 2 ;
Tübingen, 1977], H a e n c h e n , E., "D er Vater, der Iahweh (veja Ex 16,7-10; 24,16-17; Lv 9,26;
mich gesandt hat", NTS 9 [1962-63] 208-16. L o a d e r , Nm 14,21; 2Cr 5,14; SI 19,2; Is 40,5). Estra­
W . R. G., "The Central Structure of Johannine nhamente, a LXX traduz esta expressão por
Christology", NTS 30 [1984] 188-216. M i r a n d a , doxa tou theou, pois o significado grego nor­
J. P., Der Vater, der mich gesandt hat [EHS 2 3 /7 ;
mal de doxa não era "glória", e sim "estima",
Frankfurt, 1972]; Die Sendung Jesu im vierten Evan­
"honra", "êxito terreno", abrangendo uma
gelium [SBS 87; Stuttgart, 1977].)
gama de ideias ligadas a empreendimentos
humanamente medidos pela cultura e his­
24 (II) Cristologia. A história de João tória (LSJ 444). Depois que esta tradução
sobre Deus, então, está inextricavelmente estranha foi escolhida, a palavra doxa pas­
vinculada à vida, morte, ressurreição e re­ sou para o vocabulário bíblico, traduzindo
torno de Jesus, o Filho, ao Pai. Se a revela­ um conceito importante do AT expresso
ção de um Deus que ama torna este evan­ por meio do termo hebraico kãbôd. (Veja
gelho "teológico", esta teologia se torna G. Kittel e G. von Rad, TDNT 2. 232-55; W.
possível por meio de uma "cristologia" (—> Grossouw, em L ’Évangile de Jean [RechBib 3;
João, 61:16-17). Bruges, 1958] 131-33.)

25 (A) Jesus a glória de Deus. Em 27 (B) A cruz e a glória de Deus. Mais


1,43-51, os primeiros discípulos passam a plenamente, então, 1,14, "e nós vimos sua
crer que encontraram aquele "de quem es­ glória (tên doxan autou), glória que ele tem
creveram Moisés, na lei, e os profetas" (v. junto ao Pai como Filho único", implica
45), "Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei que, na encarnação do Logos, a presença
de Israel" (v. 49). Jesus os adverte de que amorosa e salvadora do próprio Deus se
eles chegaram a esta crença meramente com torna visível. Devemos olhar para a história
base em seu conhecimento de que Natanael de Jesus para ver como esta glória se tor­
estava sob uma figueira. Isto é apenas um na visível, como Jesus é glorificado e como
começo. Eles verão "coisas maiores" quan­ Deus é glorificado nele. João indica em três
do virem a revelação do celestial no Filho ocasiões que a atividade de Jesus reflete a
do Homem (1,50-51) começando no primei­ glória de Deus: em Caná da Galileia (2,11)
ro milagre em Caná, onde Jesus "manifes­ e duas vezes dentro do contexto da ressur­
tou sua glória" (2,11). O leitor encontrou o reição de Lázaro (11,4.40). Já em 11,4 há for­
termo "glória" (doxa ) no prólogo: 1,14 afir­ tes indicações de que o momento definitivo
ma que a encarnação do logos preexisten­ da glorificação se encontra em outra parte:
te produz uma situação na qual "nós" (os "Essa doença não é mortal, mas para a gló­
membros da comunidade) podemos "ver" ria de Deus, para que, por ela, seja glorifica­
a glória, uma glória singular porque é a gló­ do o Filho de Deus".
ria do Filho unigénito de Deus que habita
entre nós. Este tema é essencial para a histó­ 28 Há duas questões aqui: a revelação
ria joanina a respeito de Jesus, o qual conta da glória de Deus na ressurreição de Lázaro
a história de Deus. (veja também 11,40), e então a glorificação
ulterior do Filho gerada por este aconteci­
26 No AT, vários autores usaram um mento. A "hora de Jesus" é colocada em an­
termo para falar da presença de um Deus damento pelo que aconteceu com Lázaro.
que ama, salva e guia entre seu povo. Quer A presença do poder de Deus no próprio
ela fosse a abertura do Mar Vermelho, a milagre é uma revelação da "glória" de
coluna de fogo, o maná do céu, a arca da Deus (veja 11,21-27), mas há mais nele. De
aliança, o Templo ou (entre os poetas) a be­ acordo com a narrativa de João, este mila­
leza dos céus, os autores bíblicos usaram gre leva à decisão de que Jesus deve morrer
o mesmo termo: kêbôd YHWH, a glória de pela nação - e não pela nação somente, mas
para reunir todos os filhos de Deus que es­ uma cruz, iniciado em 11,49-52 e amplia­
tão dispersos em outras terras (veja 11,49­ do em 12,19, é explicado plenamente ago­
52). A morte de Jesus nunca foi mencionada ra: a cruz de Jesus é o lugar onde a glória
explicitamente até este ponto em João. Fez- de Deus brilhará, atraindo todos para ele.
se referência a ela através do uso dos im­ Isto se torna abundantemente claro no ver­
portantes temas joaninos do "elevar" (3,14; sículo redacional 12,33: "Assim falava para
8,28) e "a hora" (2,4; 4,21.23; 7,30; 8,20), mas indicar de que morte deveria morrer" (veja
a primeira referência ao destino de Jesus também 18,32). João apresenta a cruz como
em termos explícitos de "morte" (usando o o momento culminante na atividade revela­
verbo apothnêskõ) se encontra em 11,16. Nos dora de Jesus. Jesus deixa isto claro durante
caps. 11-12, quando Jesus passa de seu mi­ seu ministério: "Quando tiverdes elevado o
nistério público para sua "hora de glória" Filho do Homem, então sabereis que eu sou
(caps. 13-20), estas referências são abun­ e que nada faço por mim mesmo, mas falo
dantes (11,16.50.51; 12,24.33). como me ensinou o Pai" (8,28). O evangelis­
ta expressa isto novamente em seu comen­
29 O elo entre a ressurreição de Lázaro tário final sobre a morte de Jesus: "Olharão
- em si mesma um acontecimento que reve­ para aquele que traspassaram" (19,37).
la "a glória de Deus" (11,40) - e o momento
futuro da glorificação do Filho (11,4) torna­ (BG] 1. 503-4. D e J o n g e , M., "Jesus as Prophet
se importante. A irmã de Lázaro unge Jesus and King in the Fourth Gospel", ETL 49 [1973] 160­
para a morte (12,1-8). Jesus entra em Jeru­ 79. F o r e st e l l , J. T., The Word ofthe Cross [AnBib 57;
salém (12,12-16), circundado pelo povo que Rome, 1974] M e e k s , Prophet-King 61-81. M ü l l e r ,
U. B., "Die Bedeutung des Kreuzestodes Jesu im
veio para ver Lázaro e pelos "principais
Johannesevangelium" KD 21 [1975] 49-71.)
sacerdotes" que planejam a morte de Je­
sus e de Lázaro (12,9-11.17-19). Os fariseus
afirmam: "Vede: nada conseguis, todos vão 31 (C) Dualismo. João não criou esta
atrás dele!" (12,19). A profecia de Caifás e mensagem de um Deus amoroso, revelado
sua explicação por João como uma morte por meio da dádiva de seu Filho (3,16-17)
não apenas pela nação, mas também para num ato supremo de amor (13,1; 15,13),
reunir os filhos de Deus dispersos, estão pois a vida e a morte de Jesus constituíam a
sendo cumpridas (11,49-52). Quando al­ história fundamental do cristianismo. Mas
guns gregos chegam para ver Jesus (12,20­ há elementos singulares na forma da histó­
22), ele pode anunciar a chegada de um ria contada por João, p.ex., sua cosmovisão
ponto crucial de sua história: "E chegada dualista, que não tem paralelo na tradição
a hora em que será glorificado o Filho do sinótica. Uma forma de dualismo fazia par­
Homem" (12,23). te do judaísmo do séc. I, imerso em ideias
de um Senhor soberano da criação e de um
30 Até agora no evangelho, "a hora" mundo preso por forças que se opõem ao
ainda não chegou (2,4; 7,6.30; 8,20), mas divino e serão finalmente vencidas na apa­
agora descobrimos que ela chegou (12,23; rição messiânica (veja C. Rowland, Christian
veja mais 13,1; 17,1; 19,27) e que nela o Fi­ Origins [London, 1985] 87-97). Este dua­
lho do Homem será glorificado. Há uma li­ lismo da presente era má sucedida pelo
gação entre a hora, a glorificação e a morte governo de Deus na era vindoura é subs­
de Jesus em 12,31-32: "É agora o julgamento tituído em Jo por uma outra forma de du­
deste mundo, agora o príncipe deste mundo alismo. Um dualismo temporal tradicional
será lançado abaixo; e, quando eu for eleva­ foi (parcialmente) substituído por um dua­
do da terra, atrairei todos a mim". O tema lismo cósmico. Uma série de contrastes ou
da "reunião" de todas as pessoas ao redor contraposições está subjacente à história do
de um Jesus que morre, "elevado" sobre evangelho: p.ex., luz e trevas (1,5), do alto e
de baixo (8,23), espírito e carne (3,6), vida (9,29), pela multidão na festa dos taberná­
e morte (3,36), verdade e mentira (8,44-45), culos (7,27; 8,14) e até mesmo por Pilatos
céu e terra (3,31) Deus e Satanás (13,27). (19,9). Se a origem de Jesus está voltada
Estas forças opostas não coexistem sim­ para Deus como o Logos (1,1), então sua
plesmente, mas estão em conflito: "E a luz presença na história será o resultado de ele
brilha nas trevas, mas as trevas não a apre­ ser o "enviado" do Pai.
enderam" (1,5); "E agora o julgamento des­
te mundo, agora o príncipe deste mundo 34 O evangelista crê que ninguém ja­
será lançado abaixo" (12,31 (—» João, 61,6). mais viu a Deus, mas que há uma pessoa
que é capaz de revelá-lo a nós: aquele que
32 É difícil definir a origem deste du­ veio do Pai (1,18; 6,46). Contudo, dada a
alismo. Bultmann considerava Jo uma cris­ apresentação dualista de Deus e do "mun­
tianização de antigos esquemas gnósticos do", do "alto" e "de baixo", uma missão
(TNT 2. 15-32). Käsemann sustenta que é como esta implica a descida do revelador
evidente uma tendência a um docetismo in­ do alto (3,13) e sua subsequente ascensão
gênuo e incipiente (Testament 4-26). Há in­ para onde ele estava antes (6,62; 17,5; 20,17).
dicações de que esta forma de dualismo não O Jesus joanino vem do Pai, revela-o de um
era estranha ao pensamento judaico do séc. modo singular como seu Filho e retorna ao
I (veja J. H. Charlesworth, John and Qumran Pai, para ter novamente a glória que era
[London, 1972] 76-106) ou às religiões sin- sua antes do mundo ser feito (17,1-5). No­
cretistas que floresceram na parte final do vamente nos encontramos em contato com
séc. I. Ele era central no gnosticismo do séc. categorias de revelação e redenção que po­
II. João é um produto do mundo helenístico dem ser encontradas ém ambos os poios da
ou judaico? A resposta provavelmente seja experiência joanina: no judaísmo e no sin­
que ele não é nem um nem outro, mas am­ cretismo helenístico. (Veja Schillebeeckx,
bos. João construiu pontes a partir do juda­ Christ 321-31; C. H. Talbert, NTS 22 [1975­
ísmo de sua origem para o novo mundo do 76] 418-40.)
sincretismo helenístico.
35 (D) Filho de Deus. Ser o Filho de
(B a r r e t t , "P a ra d o x and D u alism ", Essays Deus é central para a tarefa reveladora de
9 8 - 1 1 5 , B a u m b a c h , G., "Gemeinde und Welt im Jesus. João não é o primeiro a usar este ter­
Johannes-evangelium", Kairos 1 4 [1 9 7 2 ] 1 2 1 - 3 6 . mo para falar de Jesus. Ele pode ser encon­
B ö c h e r , O ., Der johanneische Dualismus im Zusam­
trado em uma das mais antigas confissões
menhang des nachbiblischen Judentums [Gütersloh,
cristológicas presentes no NT (Rm 1,3-4) e
1 9 6 5 ]. O n u k i , T-, Gemeinde und Welt im Johanne­
sevangelium [W M ANT 5 6 ; N eukirchen, 1 9 8 4 ] .
nos evangelhos (veja Mc 1,1.11; 9,7; 15,39).
S c h il l e b e e c k x , Christ 3 3 1 - 4 9 . S c h o t t r o ff , L ., Der Tudo indica que o conceito, tão importante
Glaubende und die feindliche Welt [W M ANT 3 7 ; para o NT como um todo, teve sua origem
Neukirchen, 1 9 7 0 ] , S t em ber g er , G., La symboliaque no relacionamento que existia entre Jesus
du bien et du mal selon saint Jean [Paris, 1 9 7 0 ] .) de Nazaré e o Deus de Israel, um relacio­
namento que Jesus resumiu usando o ter­
33 As categorias da cristologia joani­ mo “abba" (Jesus, 78:30-31, 35-37). Mas o
na podem ser melhor entendidas com este uso joanino de "o Filho" vai mais além do
pano de fundo. A origem de Jesus é funda­ que seus usos anteriores para interpretar a
mental a todo o evangelho: o fato de que pessoa e a importância de Jesus. Novamen­
o Logos preexistente (1,1-2) se tornou car­ te parece que vemos o evangelista levando
ne e habitou entre nós na pessoa de Jesus sua comunidade em sua jornada do uso
(1,14-18). Em todo o evangelho se levanta a anterior da terminologia cristológica para
questão das "origens": em Caná (2,9), com uma nova visão que podia ser compreendi­
a mulher samaritana (4,11), pelos "judeus" da (ainda que não aceita) pelo mundo que
a comunidade estava deixando. No novo a aceitação ou recusa desta vida disponível
mundo, tanto o evangelista quanto a co­ na revelação de Deus no Filho (vv. 17. 36;
munidade viveriam e pregariam Jesus de veja especialmente 5,24-25).
Nazaré, a singular revelação definitiva de
seu Deus, que ele reivindicava ser seu Pai 37 A relação estreita que existe entre
(veja 5,17-18). a glorificação do Filho e o acontecimento
da cruz é expressa em 11,4.40 (veja também
36 O uso absoluto do termo "o Filho" 14.13). A glória mencionada em 11,4 é a gló­
aparece apenas três vezes nos Evangelhos ria que o Filho terá quando retornar para a
sinóticos (Mt 11,27, par. Lc 10,22; Mc 13,32, presença de seu Pai (14,13; 17,1.5), mas esta
par. Mt 24,36; Mt 28,19); uma vez em Pau­ glória será sua como resultado da cruz. Em­
lo (ICor 15,28); e cinco vezes em Hebreus bora a glória de Deus transpareça em todas
(Hb 1,2. 8; 3,6; 5,8; 7,28). Em Jo, Jesus fala de as palavras e ações de Jesus, é na cruz que
sua filiação 20 vezes (3,16.17.18; 5,18 [duas ele revela amor (13,1; 15,13); ali é o lugar
vezes], 20,21.22.23 [duas vezes],25.26; 6,40; onde a revelação salvadora de Deus em seu
8,35-36; 10,36; 11,4; 14,13; 17,1 [duas vezes]; Filho brilha. Jesus reivindica ser o Filho de
além disso, ele aparece quatro vezes como Deus e, devido à sua filiação, ter autoridade
um comentário joanino (3,35.36 [duas vezes], para revelar o que viu com seu Pai e, assim,
20,31), uma vez no prólogo (1,18) e quatro trazer vida eterna às pessoas que creem
vezes na boca de outros (1,34: João Batista; nele. O Verbo de Deus preexistente tornou-
1,49: Natanael; 11,27: Marta; 19,7: "os ju­ se carne, habitou entre nós como o Filho de
deus"). Há também uma série de passagens Deus, revelando a verdade ou (como diria
que falam da "filiação" onde Jesus designa João) tornando visível a glória como glória
Deus como seu Pai (veja R. Schnackenburg, do único Filho do Pai (1,14). O evangelista
The Gospel according fò St John [3 vols.; New escreveu um evangelho a fim de que seus
York, 1968-82] 2. 174-77). Estes ditos quase leitores cheguem a uma crença ainda mais
sempre expressam um relacionamento en­ profunda nesta revelação, confessem Jesus
tre Deus e Jesus (p.ex., 1,18.34; 3,16; 5,19-26; como o Filho e, assim, cheguem à vida eter­
6,40; 14,13). Em última análise, este título na (21,31).
de honra não tem a ver com Jesus, mas com
Deus e o relacionamento de Deus com o (D o d d , Interpretation, 2 5 0 - 6 2 . M o l o n e y , F. J.,
mundo e aqueles que habitam no mundo, "The Johannine Son of God", Salesianum 3 8 [1 9 7 6 ]
mas não são do mundo (3,16-17; 17,14-16). 7 1 - 8 6 . S c h il l e b e e c k x , Christ 4 2 7 - 3 2 .)

"A cristologia do Filho joanina é essencial­


mente a doutrina da salvação para os cren­ 38 (E) Filho do Homem. Esta cristolo­
tes, i.e., não uma doutrina sobre Jesus Cris­ gia do "Filho de Deus" é dominante quan­
to isoladamente, mas uma doutrina que do um Deus que ama é revelado ao mundo
inclui o gênero humano, sendo Jesus como em um ato de amor em que o Filho entrega
o emissário de Deus que revela e medeia a livremente sua vida (10,11.17-18; 12,27; 13,1;
salvação" (Schnackenburg, St John 2. 185). 15.13). Contudo, João tem sua própria con­
Isto se torna claro em 3,16-21.34-36, passa­ cepção sobre a cruz, não como um momen­
gens que sustentam temas joaninos funda­ to de humilhação (veja F1 2,5-11; Mc 15,33­
mentais. A missão de Jesus é explicada afir­ 39), mas como consumação de sua jornada e
mando que Deus amou tanto o mundo que propósito de vida por parte de Jesus, o lugar
enviou seu único filho (v. 16) a fim de que o onde ele retorna para a glória que era sua e
mundo tenha a oportunidade de aceitar ou onde glorifica seu Pai ao levar à perfeição a
recusar a luz e a verdade (vv. 19-21.35-36) tarefa dada a ele (4,34; 11,4; 13,31-32; 17,4;
que se encontram nele (vv. 18.36). Salvação 19,30). Uma das técnicas usadas pelo evan­
ou condenação já se faz possível mediante gelista para ressaltar este aspecto é o verbo
grego hypsõthénai, que tem um duplo senti­ (veja 6,28-29). Parece que João usa um ter­
do: "elevar fisicamente" e "exaltar" (3,14). mo tradicional para apresentar o ministério
Está claro que o acontecimento da cruz é, si­ terreno de Jesus - e especialmente o "ser
multaneamente, a elevação de Jesus na cruz elevado" na cruz - como "o lugar" onde o
e a exaltação dele (Thiising, Erhöhung 3-49; homem Jesus, o Filho do Homem, revela a
cf. G. C. Nicholson, Death as Departure [SBL- Deus e, assim, traz vida e julgamento. Con­
DS 63; Chicago, 1983]). É importante obser­ tudo, em perfeito acordo com o restante da
var ainda que este jogo de palavras joanino cristoíogia joanina, tal compreensão de Je­
muito importante sempre está associado a sus, o Filho do Homem, só é possível por­
um outro título que tinha sido usado para que ele vem do Pai e retornará para o Pai
designar Jesus nos evangelhos sinóticos (—> (3,13; 6,62). A cruz, que é o foco da revela­
Jesus, 78:38-41) e que é desenvolvido aqui: o ção humana de Deus no esquema joanino,
Filho do Homem (3,13-14; 8,28; 12,23.32-34). nunca está muito longe dos ditos sobre o Fi­
lho do Homem. Não surpreende que a pas­
39 Em parte, João retoma a tradição sagem final a respeito do Filho do Homem
protocristã. Após a promessa inicial de que (colocada no contexto da hora que chegou)
o crente verá a revelação do celestial no Fi­ aponta para a revelação iminente da glória
lho do Homem (1,51), o mesmo título é usa­ do Pai e a subsequente glorificação do Fi­
do consistentemente em associação com o lho. Mas aqui a linguagem usada não é Pai/
"ser elevado" na cruz, refletindo o uso mar- Filho, mas Deus/Filho do Homem: "Agora
cano do título "o Filho do Homem" nas pre­ o Filho do Homem foi glorificado e Deus foi
dições da paixão (Mc 8,31; 9,31; 10,33-34). glorificado nele. Se Deus foi nele glorifica­
Contudo, João seguiu novamente seu pró­ do, Deus também o glorificará em si mesmo
prio caminho. A tradição sinótica também e o glorificará logo" (13,31-32). A linguagem
usava este termo para falar de Jesus como usada difere na medida em que o evangelis­
figura humana que tem uma autoridade ta deseja dar mais relevo ao acontecimento
singular e que finalmente retornará como humano da cruz, mas a teologia subjacente
juiz universal (Mc 2,10.27-28; 8,38; 13,26; é a mesma.
14,21.40; Mt 13,37; 16,13.28; 24,29-30.39; Lc
6,22; 9,58; 11,30; 17,22.24.26.30; 21,36). Em ( C o p p e n s , } ., "L e fils de l ’h o m m e d ans

virtude de, para João, a presença de Jesus l’évangile johannique", ETL 52 [1976] 28-81. Lin-
d a r s , B., Jésus Son of Man [London, 1983] 145-57.
ser a revelação de Deus entre os homens e
M a d d o x , R., "The Function of the Son of Man
mulheres, esta presença também traz julga­
in the Gospel of J o h n " , Réconciliation and Hope
mento (3,16-21.31-36; 5,24-25; 12,44-50). As­
[Festschrift L. L. M o r r is ; ed. R. J. B a n k s ; Exeter,
sim, podemos dizer que João consegue fun­ 1974] 186-204. M e e k s , W. A., "The Man from He­
dir os dois usos sinóticos, recuando o tema aven in Johannine Sectarianism", JBL 91 [1972]
do julgamento para o encontro histórico 44-72. M o l o n e y , Son of Man. S m a l l e y , S . S . , "The
com Jesus (Jo 5,27; 9,35-39; 12,24-36). Tam­ Johannine Son of Man Sayings", NTS 15 [1968­
bém deveria ser observado que um juízo 69] 278-301.)
futuro não está totalmente excluído em Jo;
isto está muito claro em 5,28-29 no contexto 41 (F) "Eu Sou". Um outro aspecto
da apresentação joanina de Jesus, o Filho do singular da apresentação joanina da pessoa
Homem, como juiz (5,27). e função de Jesus de Nazaré são os ditos
que empregam a expressão "Eu Sou" (em
40 Ditos adicionais com a expressão grego, egõ eimi). Estes ditos são geralmente
"Filho do Homem", em João, indicam que agrupados em três formas que mostram es­
Jesus é o doador singular de vida (6,27.53). truturas gramaticais diferentes.
Estes ditos também parecem estar ligados (i) Sem predicado ou uso absoluto. 8,24:
à cruz, a consumação da "obra de Deus" "Disse-vos que morrereis em vossos pecados,
porque se não crerdes que Eu Sou"; 8,28: Se se procura uma tradução de egõ eimi
"Quando tiverdes elevado o Filho do Ho­ nestes versículos (8,24. 28), eu estaria inclina­
mem, então sabereis que Eu Sou"; 8,58: "An­ do a propor a expressão coloquial "Esse sou
tes que Abraão existisse, Eu Sou"; 1319: "Para eu ", isto é, "E para mim que vocês devem
olhar, é a mim que vocês devem ouvir". Isto
que, quando acontecer, creiais que Eu Sou".
corresponde bem à concepção de João sobre
Embora existam muitos exemplos do uso de
a pessoa de Jesus e se harmoniza bem com
"eu sou" nas religiões sincretistas da Antigui­ passagens como as de Is 45,18-25. O sentido
dade (p.ex., religiões de mistério, literatura não seria: "Olhem para mim porque eu sou
hermética e liturgia mitraica), uma compara­ idêntico ao Pai", mas "Olhem para mim pois
ção mostra que o uso joanino do egõ eimí ab­ eu sou aquele através do qual vocês podem
soluto não tem paralelo nesta literatura. ver o Pai (14,9), visto que eu o dou a conhecer"
(1,18) (Barrett, Essays 13).
42 Existe atualmente um amplo con­
senso de que mais provável o pano de fun­ 44 (ii) Predicado implícito. Um exemplo
do para os ditos joaninos seja o AT. Muitos desta forma de dito com "Eu Sou" encontra-
têm olhado para Ex 3,14, onde se revela o se em Jo 6,20: os discípulos atemorizados
nome de YHWH como "Eu Sou o que Eu veem alguém vindo até eles pelas águas,
Sou" (Hebr. ’éhyêh ’ãser ’êhyêh), mas isto mas Jesus lhes assegura: "Egõ eimi. Não te­
não é muito útil; a LXX não traduz a pas­ mais". Isto talvez signifique simplesmente:
sagem com um verbo infinitivo, mas com "Sou apenas eu, de modo que não necessi­
o particípio ho õn, “o que existe". Um pano tais vos preocupar". Um uso semelhante se
de fundo mais provável é a literatura profé­ encontra em 18,5, onde Jesus se apresenta
tica, e especialmente o Deuteroisaías. Uma ao grupo que veio prendê-lo dizendo: "Egõ
das principais preocupações deste profeta eimi". Uma vez mais, isto talvez signifique
era afirmar a palavra autoritativa do Deus apenas: "Eu sou aquele que vocês procu­
único de Israel, YHWH, contra as reivin­ ram". Nestes casos, contudo, os contextos
dicações dos "outros deuses". Ele fez isto são importantes. Após o milagre dos pães
mediante o uso de duas expressões hebrai­ e a tentativa da multidão de torná-lo Rei,
cas ( ’ãni hü ’ e ’ãni yhwh): Isaías 43,10: "As Jesus foge (6,15), mas apenas para reve­
minhas testemunhas sois vós, [...] vós sois lar-se como algo mais que um pretendente
o servo que escolhi, a fim de que saibais e messiânico que veio para trazer o segundo
creiais em mim e que possais compreender maná (veja 2 Apoc. Bar. 29:8-30:1). De modo
que eu sou [ ’ãni hü ’]". 45,18: "Eu sou Iahweh semelhante, a queda ao chão do grupo que
[ ’ãni yhwh]; não há nenhum outro". Nestas veio prendê-lo, diante da palavra de Jesus
e em outras passagens (Is 41,4; 43,13; 46,4; (18,6), mostra que algo mais do que "Jesus
48,12; Dt 32,39), a expressão hebraica para de Nazaré" está presente.
"Eu sou" e "Eu sou o Senhor" é traduzido
na LXX por egõ eimi. 45 Estas passagens devem ser enten­
didas à luz do uso veterotestamentário de
43 Como em Deuteroisaías YHWH se "Eu sou YHWH" nas teofanias. As vezes,
revelou por meio dessas fórmulas, assim estas revelações são usadas para tranqui­
também ocorre com Jo: Jesus revela sua lizar homens e mulheres e são frequente­
singularidade não por falar de seu "ser" mente acompanhadas de uma exortação a
divino, mas assumindo uma fórmula usada não ter medo (Gn 26,24; Is 51,12). Em ou­
por YHWH, mediante seu profeta, para se tras ocasiões, esta afirmação revelatória é
revelar a seu povo. Assim, o Jesus joanino feita como uma indicação da autoridade da
continua a tarefa de revelação: ele revela revelação de Deus (Ex 6,6; 20,1.5; Lv 18,6;
Deus, seu Pai, e identifica sua tarefa com a Is 52,6). Há uma revelação de Deus nestes
vontade de Deus (veja 17,3-4). dois encontros joaninos com Jesus: um é
para consolar e fortalecer (6,20) e o outro é Pai. É possível para Jesus fazer estas reivin­
uma revelação que deixa todos prostrados dicações apenas porque ele e o Pai são um
com medo diante do revelador (18,5-6). (10,30), e assim ele possui o poder doador
de vida do Pai (10,21).
46 (iii) Predicado expresso. Enquanto as
formas dos ditos com "Eu Sou" acima estão 49 Há uma diferença entre os ditos
estreitamente ligadas à revelação de Deus com "Eu Sou" sem um predicado expresso,
em e por meio de Jesus, esta forma final que estão diretamente preocupados com a
está mais estreitamente associada à função apresentação de Jesus como o revelador e
de Jesus: 6,51: "Eu sou o pão da vida"; 8,12; a revelação de Deus, e estes ditos. Mesmo
9,5: "Eu sou a luz do mundo"; 10,7.9: "Eu aqui, contudo, o tema da revelação está
sou a porta das ovelhas"; 10,11.14: "Eu sou presente. Jesus, que é um com o Pai, é ca­
o bom pastor"; 11,25: "Eu sou a ressurrei­ paz de revelar o Pai de um modo singular.
ção e a vida"; 14,6: "Eu sou o Caminho, a Somente porque isto é verdadeiro ele pode
Verdade e a Vida"; 15,1.5: "Eu sou a videira ser descrito como a videira, a vida, a ressur­
(verdadeira)". reição, o caminho, a porta, o bom pastor, a
verdade e o pão da vida - a singular reve­
47 Alguns sustentam que esses ditos lação salvadora de Deus entre os homens e
são afirmações polêmicas contra as reivin­ mulheres. Afirma Schnackenburg (St John
dicações de outras figuras reveladoras de 2. 88): "Os ditos joaninos com egõ eimi são
serem vida, luz, verdade; e, assim, modo completa e totalmente expressões da cristo-
elas são "fortemente enfatizadas e sempre logia de João (Filho, Filho do Homem), mas
contrapostas a falsas ou pretensas revela­ têm a vantagem particular de tornar o cará­
ções" (R. Bultmann, The Gospel of John [Phi­ ter salvador da missão de Jesus visível em
ladelphia, 1971] 226). Embora haja um grau imagens e símbolos impressionantes".
de verdade nesta percepção, não há neces­
sidade de se recorrer a figuras reveladoras (BGJ 1. 533-38. H arner , P. B ., The "I A m " of
gnósticas (como faz Bultmann) para encon­ the Fourth Gospel [F B B S 26; Philadelphia, 1970],
F eu il le t , A ., "Les E gõ eimi christologiques du
trar as contraposições. Entendem-se estas
quatrième évangile", RSR 54 [1966] 5-22, 213-40.
afirmações vigorosas da singularidade de S c h n a c k en bu r g , St John 2. 79-89. Z im m er m a n n ,
Jesus muito melhor dentro do contexto de H ., "Das Absolute egõ eimi ais die neutestamen-
um passado (o maná dado por Moisés, a tliche Offenbarungsformel", BZ 4 [1960] 54-69,
luz na festa dos tabernáculos, o caminho 266-76.)
da Torá, etc.) que agora foi substituído por
Jesus. 50 (G) Escatologia e Espírito. Refletin­
do as reivindicações de Jo acerca da origem,
48 Mesmo aqui, contudo, estes ditos destino e unão com a vontade do Pai, Jesus
não estão primordialmente preocupados é apresentado durante sua missão terre­
em definir ou descrever Jesus em si. Todos na como a singular revelação definitiva de
os predicados indicam o que Jesus é em re­ Deus. Isto leva à convicção do evangelista
lação às mulheres, aos homens e ao mundo. de que o momento do julgamento é "agora".
Em sua missão, ele é a fonte da vida eter­ A revelação de Deus em Jesus é o lugar onde
na para todos (videira, vida, ressurreição), se deve buscar um Deus que se revelou a nós
o meio pelo qual todos encontram a vida "agora". Deve-se tomar uma decisão "ago­
(caminho, porta), aquele que conduz todos ra" (veja 3,16-21.35-36; 4,23; 5,24-25; 6,46-47;
à vida (pastor) ao revelar a verdade (luz, 9,39-41; 12,31.44-46). Esta chamada escato­
verdade) que pode nutrir suas vidas (pão logia presente (realizada) é frequentemente
do céu). Estes ditos revelam o compromis­ vista como a única escatologia possível que
so divino implicado no envio do Filho pelo poderia fluir da cristologia joanina, domi­
nada pela reivindicação de Jesus: "Eu e o Pai como uma releitura joanina posterior de
somos um" (10,30). Por todo o evangelho, uma versão anterior (p.ex., M. E. Boismard,
contudo, há menção de uma ressurreição e RB 68 [1961] 507-24) não respondem intei­
um julgamento futuros (veja 5,28-29; 6,39­ ramente a questão do que o evangelho jo­
40.54; 12,25.48; 14,3. 18.28). O discurso final anino significa em si. Qualquer que tenha
(especialmente os caps. 15-16) faz referên­ sido a história da tradição, nosso texto atu­
cia frequente às tribulações que marcarão a al fez sentido para alguém. Qual foi este
vinda da era messiânica. Assim, apesar da sentido?
centralidade de uma "escatologia presente"
em Jo, há também muitas indicações de uma 52 A comunidade joanina, no final do
"escatologia futura". Se uma "escatologia séc. I, não poderia "olhar" e "ouvir" o Jesus
presente" era o resultado do tipo de cristo­ histórico. Eles estavam vivendo num outro
logia implicada na união entre Deus e Jesus estágio - o estágio do Espírito Santo, uma
expressa em 10,30, então a "escatologia fu­ efusão da água viva que seria recebida pe­
tura" poderia reivindicar ser o resultado de las pessoas que cressem em Jesus, mas so­
uma cristologia que se reflete em uma outra mente após ele ter sido glorificado (7,39).
palavra joanina de Jesus: "O Pai é maior do Havia algo a mais por vir após o ministério
que eu" (14,28). de Jesus. Isto foi elaborado mais plenamente
nos ditos a respeito do Paráclito no discurso
51 Estes elementos aparentemente con­final. A tensão entre a presença reveladora
traditórios podem ser melhor entendidos de Jesus e o período vindouro do Espírito
se lermos Jo como uma história de Deus, é mais explicitamente expressa em 14,25­
contada através da vida, morte, ressurrei­ 26: "Estas coisas vos disse estando entre
ção e retorno de Jesus ao Pai. Em uma his­ vós. Mas o Paráclito, o Espírito Santo que
tória do evangelho como esta, o evangelis­ o Pai enviará em meu nome, vos ensinará
ta está intensamente interessado em Jesus, tudo e vos recordará tudo o que vos disse".
mas Jesus não é o fim da história. Deus Todos os verbos nesta passagem estão no
pode ser conhecido somente por meio da futuro (veja também 16,13-15). O relaciona­
revelação em e por Jesus; mas como o pró­ mento entre Deus e Jesus (um Pai que en­
prio Jesus diz a seus discípulos: "Tenho via um Filho) é repetido no relacionamento
ainda muito que vos dizer, mas não podeis que existirá entre o Paráclito e o Pai. Mas o
agora suportar" (16,12). Embora a aparição envio do Paráclito depende da partida do
histórica de Jesus seja central na história de Filho (16,7). A comunidade joanina experi­
Jo, ela não é final. Neste aspecto, Jo é fiel à mentou a revelação do Pai por meio da ação
tradição. Os evangelhos sinóticos usaram do Espírito, não por meio do contato direto
uma "escatologia futura" para comunicar com Jesus. Contudo, ainda é a história de
esta mensagem: a presença reinante de Jesus contando a história de Deus que eles
Deus é vista e experimentada na pessoa e devem ouvir, visto que o Paráclito não traz
nas ações de Jesus, mas ainda está por vir uma revelação nova. Esta ocorreu uma úni­
em poder e glória. Assim os evangelhos si­ ca vez - em Jesus - , mas o Paráclito aplica e
nóticos conseguem manter Jesus no centro elucida o que já estava presente em Jesus e
de seu relato, mas ainda esperam a vinda suas palavras (veja BG] 2.1135-44). O evan­
do Filho do Homem (veja especialmente gelho existe por causa desta verdade: "Fe­
Mt 23,31-46, mas o tema é abundante na lizes os que não viram [os acontecimentos
tradição sinótica). As tentativas de remo­ históricos da história de Jesus] e creram"
ver os elementos "futuros" de João como (20,29; também 17,20).
tentativas equivocadas de um redator pos­
terior (especialmente Bultmann, John 218­ 53 A história da vida de Jesus não é o
21; TNT 2. 38) ou de ver um desses temas fim da autorrevelação de Deus. Era preciso
lidar com a experiência da vida e morte den­ O "já agora" e o "ainda não" são preser­
tro da própria comunidade. João foi escrito vados, m as numa comunidade que vive no
no final do séc. I, quando a morte certamente presente da graça pascal. A tensão é repro­
duzida no que é claramente um texto joanino
era um dos problemas sérios da comunidade
autêntico: "E u sou a ressurreição e a vida;
(e a morte do próprio Discípulo Amado indi­
quem crê em mim ainda que morra, viverá.
ca que este era o caso [21,20-23]). É possível E quem vive e crê em mim jamais morrerá"
que este evangelho não tivesse interesse no (11,25). E exatamente neste ponto que encon­
"outro lado da morte"? Durante os anos de tramos o paradoxo joanino da vida eterna do
sua jornada - tanto física quanto espiritual -, cristão que já começou; desde a Páscoa ele é
os membros da comunidade joanina morre­ "de Deus" (como Jesus), e, não obstante, ainda
ram e ainda estavam morrendo. O "Quem sabe que deve ser ressuscitado no último dia
escuta a minha palavra e crê naquele que me - um grão de trigo, como Jesus!
enviou tem a viáa eterna" (5,24) não era toda a
resposta, e este evangelista retornou à mais (B etz , O., Der Paraklet [AGJU 2; L e id e n , 1963].
antiga tradição cristã para encontrar sua res­ Krisis [ F r e ib u r g , 1964] B ü r g e , G . M .,
B la n k , J.,
posta numa "escatologia futura" que não ne­ The Anointed Community: The Holy Spirit in the
gasse a verdade da importante "escatologia Johannine Tradition [ G r a n d R a p id s , 1986]. D e
presente". la P o tte RiE, I ., " P a r o l e e t E s p r it d a n s S. J e a n " ,
L ’Evangile de Jean [e d . M . de J o n g e; B E T L 44;
G e m b lo u x , 1977] 177-201. F ra n ck , E ., Revelation
54 Então, não há contradição entre
Taught: The Paraclete [C o n B N T 14; L u n d , 1985]. Jo­
10,30 e 14,28. A história da vida de Jesus h n s t o n , G ., The Spirit-Paraclete in the Gospel of John
de Nazaré não é o final da história de [S N T S M S 12; C a m b r id g e , 1970]. K ysa r , R ., " T h e
Deus. Contudo, é vital para Jo que o lei­ E s c h a to lo g y o f th e F o u r th G o s p e l - A C o r r e c tio n
tor esteja plenamente consciente de que o f B u ltm a n n ’s H y p o t h e s is " , Perspective 13 [1972]
o Deus revelado em Jesus era verdadei­ 23-33. M ü ller , U. B ., " D i e P a r a k le te n v o r s te llu n g
ramente Deus. Jesus não está revelando im J o h a n n e s v a n g e l i u m " , ZTK 71 [1974] 31-77.
algum Deus secundário. "Todavia, ele é P orsch , F ., Pneuma und Wort [F r T S 1 6; F r a n k fu r t,

Deus revelatus; não o abismo total da Di­ 1974]. R ich ter , G ., " P r ä s e n tis c h e u n d fu tu r is c h e
E s c h a t o lo g ie im v ie r t e n E v a n g e l i u m " , e m Ge­
vindade, mas o Deus conhecido" (Barrett,
genwart und kommendes Reich [ed . P . F ied ler e D .
Essays 12). A comunidade que vive após
Z eller ; S t u tt g a r t , 1975] 117-52. S ch n a ck en bu rg ,
a glorificação de Jesus na Páscoa, na pre­ R ., " D i e jo h a n n e is c h e G e m e in d e u n d ih r e G e is ­
sença do Espírito, está consciente disto. te r f a h r u n g " , Die Kirche des Anfangs [F e s ts c h rift H .
Schillebeeckx (Christ 426-27) resumiu isto S c h ürm a n n ; e d . R . S c h n ack en bu rg , et a l; L e ip z ig ,
muito bem: 1977] 277-306.)

A RESPOSTA DOS CRENTES

55 (I) Sinais e fé. De modo significa­ o mistério de Jesus. A "história" que segue,
tivo, para caracterizar a resposta de fé, Jo contudo, é a história de vários grupos e
utiliza apenas o verbo pisteuein (98 vezes), indivíduos que não tinham lido 1,1-18. Só
nunca o substantivo pistis. A comunidade o leitor leu o prólogo. Assim, as pessoas
joanina está numa jornada de fé, e talvez em com frequência "entendem" Jesus "equi-
nenhuma parte isto se reflita melhor do que vocadamente" na história (veja Culpepper,
na escolha de uma "palavra-ação" dinâmi­ Anatomy 151-65). Elas têm apenas os sinais
ca para falar desta jornada. A narrativa de e suas palavras para se guiar, e com frequ­
João se desenvolve entre duas passagens ência não conseguem penetrar no mistério
explicitamente voltadas para os leitores. de Jesus, de onde ele vem (7,40-42; 8,23-24.
Em 1,1-18, o leitor recebe as soluções para 42-44; 9,29.33), quem ele é (1,38.41.45.49;
3,2; 4,19.25-26; 6,25), ou o que ele veio fa­ e os aldeães samaritanos [4,39-42]. Os exem­
zer (2,19-20; 3,11-12; 4,13-15; 6,32-34.51-52). plos poderiam ser multiplicados, mas estes
Os leitores são informados no final desta são suficientes para mostrar que o evange­
história de "compreensão equivocada" que lista convida seus leitores a fazer sua própria
ela foi contada para que eles cresçam mais jornada partindo da não fé, passando pela fé
profundamente em sua fé em Jesus Cristo parcial e chegando até a fé plena.
como o Filho de Deus e tenham vida em seu
nome (20,31). Este evangelho não está escri­ 57 Quanto à complicada questão dos
to para nos falar da experiência de fé das "sinais", em diversas ocasiões o Jesus joa­
pessoas "na história", mas para desafiar a nino parece ter uma postura crítica para
fé das pessoas que estão "lendo a história" com uma fé baseada em sinais (2,23-25, e o
(Culpepper, Anatomy 15-49), que devem exemplo subsequente de Nicodemos, com
perguntar: "Qual é minha posição?" as limitações de uma "fé baseada em si­
nais" expressas em 3,2; —>João, 61:45). Mas
56 Em todo evangelho de Jo, vários es­o evangelho termina com o evangelista de­
tágios de fé são apresentados na experiência clarando que escreveu um livro que conta
de diferentes personagens que se encontram a história dos "sinais" de Jesus para levar
com Jesus e são chamados a uma decisão as pessoas à fé (20,31). Esta dificuldade foi
mediante sua palavra e pessoa. Isto parece frequentemente explicada afirmando-se
ser um tema central na seção de Jo 2,1-4,54 que o evangelista estava usando uma fonte
que se passa entre Caná a Caná (B G J1. cxlii; antiga que continha relatos de milagres do
F. J. Moloney, Salesianum 40 [1978] 817-43). tipo sinótico, e que ainda existe certo confli­
Nos dois milagres de Caná, respectivamen­ to entre a fonte e o uso joanino dela, o que
te a mãe de Jesus e um funcionário real se leva a aparentes contradições. Embora seja
confiam à eficácia da palavra de Jesus, qual­ muito provável que o evangelista tenha efe­
quer que seja o custo (2,4-5; 4,48-50). Sua fé tivamente usado uma "fonte de sinais", não
leva a um "sinal", e aos primeiros passos da há necessidade de se concluir que ele a te­
fé em outras pessoas (2,6-11; 5,51-53). Entre nha usado mal (veja R. T. Fortna, The Gospel
estes dois relatos existem seis outros exem­ of Signs [SNTSMS 11; Cambridge, 1970]; W.
plos de fé. O evangelista desafia seus leito­ Nicol, The Semeia in the Fourth Gospel [NovT­
res por meios desses exemplos. Aqueles que Sup 27; Leiden, 1972]). O que se deve com­
não aceitam a "palavra" de Jesus (p.ex., "os preender é que, embora os "sinais" sejam
judeus" [2,12-22] e a mulher samaritana a importantes para João, eles são o que ele os
princípio [4,1-15] devem ser julgados como chama - sinais. Quando os crentes baseiam
pessoas que não creem. Existe uma dificul­ sua fé apenas em sinais, esta fé é insuficien­
dade a mais na jornada de fé para qualquer te. E uma fé incipiente que pode levá-los à
pessoa pare no aspecto exterior dos sinais, fé verdadeira (Nicodemos), mas também é
entendendo-os dentro das categorias deter­ possível que os sinais não os levem adian­
minadas pela cultura e história (p.ex., Nico­ te (especialmente 6,26: "Vós me procurais,
demos [3,1-21] e a mulher samaritana, num não porque vistes sinais, mas porque co­
segundo momento [4,16-26]). Este "estágio mestes dos pães e vos saciastes"). Os sinais
da fé" deve ser entendido como parcial. Ele que se tornam um fim em si mesmos e não
não é o fim da história, como mostra a jor­ levam o crente a um reconhecimento mais
nada subsequente de Nicodemos (veja 7,50­ profundo da revelação de Deus na palavra
52; 19,38-42). Como indicam os exemplos da e pessoa de Jesus são inúteis. Contudo, os
mãe de Jesus e funcionário real, a verdadeira sinais podem conduzir o crente, indo além
fé é um compromisso incondicional com "a dos sinais, a um reconhecimento de que Je­
palavra", i.e., a revelação de Deus na palavra sus Cristo é o Filho de Deus; então se pode
e pessoa de Jesus (p.ex., João Batista [3,22-36] ter vida em seu nome (20,30-31).
(.BGJ 1. 525-32. B aron, M., " L a p r o g r e s s io n modo completo. João exige que os crentes
d e s c o n fe s s io n s d e fo i d a n s le s d ia lo g u e s d e S. "olhem " para Jesus, o revelador singular de
J e a n " , B V C 82 [1968] 32-44. G iblin , C . H ., " S u g ­ Deus (especialmente 1,18; 3,13; 6,46; 8,38),
g e s tio n , N e g a tiv e R e s p o n s e , a n d P o s itiv e A c tio n
para ver a revelação do Pai. Isto é prometi­
26 [1979-80]
in St. J o h n ’ s P o r tr a y a l o f J e s u s " , N T S
do no programático versículo 1,51: " Vereis
197-211. H ahn , F ., " S e h e n tm d G la u b e n im Jo h a n ­
n e s e v a n g e liu m " , Neues Testament und Geschichte
o céu aberto"; e é repetido como uma antí­
[F e s ts c h r ift O . C u llm an n ; e d . H . B a l t e n s w e i l e r , fona por todo o evangelho (veja 1,18; 4,45;
1972] 125-41. P ain ter , John 71-85.
et ah; T ü b in g e n , 5,37; 6,2.36; 8,38.57; 9,37; 11,40; 14,7.9; 15,24;
S ch n acken bu rg , St John1. 558-75. W a l t e r , L ., Foi 16,16-17; 19,22.35) culminando nas palavras
et incredulité selon S. Jean [L ire la B ib le , 43; P a r is , finais da cena na cruz: " Olharão para aque­
1976].) le que traspassaram" (19,37; C. Traets, Voir
Jésus et lê Père en Lui selon l ’Évangile de Saint
58 (II) Sacramentos. A tensão entre Jean [AnGreg 159; Rome, 1967]).
a presença reveladora de Deus em Jesus
"agora" e a necessidade de olhar para al­ 60 Este ensinamento é muito claro,
gum momento futuro surge novamente em mas Jesus não estava mais presente para
alusões à vida sacramental da comunida­ a comunidade joanina no final do séc. I.
de. Alguns estudiosos propõem uma forte Como se observou anteriormente, a ausên­
presença de alusões sacramentais (especial­ cia da revelação física da glória de Deus na
mente O. Cullmann, Early Christian Worship pessoa de Jesus representou um problema
[SBT 10; London, 1953]). Outros sustentam para a comunidade. A presença de Jesus é
que estas referências foram acrescentadas assegurada por todo o discurso final (espe­
por um redator eclesiástico posterior, numa cialmente 13,31-14,31) e em sua oração final
tentativa de fazer o "evangelho da palavra" (especialmente 17,9-19), mas como ele está
original se conformar mais estreitamente presente? Sem dúvida, a proclamação de
aos costumes da protoigreja (especialmen­ Jesus como "a Palavra" ou "o Verbo" era
te Bultmann, John 138-40, 300, 324-25, 677­ uma grande parte da resposta, mas uma
78; TNT 2. 3-14). Independentemente de outra parte está refletida na experiência dos
sua origem, referências claras à eucaristia e sacramentos por parte da comunidade joa­
ao batismo se encontram em 3,5; 6,51c-58; nina. As duas não precisam contradizer-se
19,34; e ljo 5,8. E possível entender estas mutuamente. Por todo o texto de 6,25-58,
referências como uma parte coerente da um único tema é expresso várias vezes, mas
teologia joanina (—»João, 61:50-51)? com a maior clareza em 6,40: "Sim, esta é a
vontade de meu Pai: quem vê o Filho e nele
59 No final do séc. I, Jo proclama que crê tem a vida eterna", e em 6,46-48: "Não
um Deus que ama enviou seu único Filho que alguém tenha visto o Pai; só aquele que
ao mundo (3,16-17). Este Filho, Jesus Cristo, vem de junto de Deus viu o Pai. Em ver­
tinha uma tarefa (ergon) a consumar (espe­ dade, em verdade, vos digo: aquele que crê
cialmente 4,34; 17,4). Esta tarefa era dar a tem a vida eterna". Poder-se-ia entender a
conhecer a Deus, de modo que homens e reação da comunidade joanina em face des­
mulheres pudessem chegar à vida eterna te ensino: "Mas onde está ele, para que o
(17,2-3). Ele realizou esta tarefa de muitos vejamos e, assim, cheguemos a conhecer o
modos: mediante seus discursos (logos e Pai e possuir a vida eterna?" A resposta a
rhêmata), mediante seus "sinais" (semeia) e esta pergunta é dada em 6,51c-58: na car­
mediante o supremo ato de amor, quando ne e no sangue de Jesus na celebração eu­
é "elevado" na cruz (3,13-14; 8,28; 12,32; carística da comunidade. A eucaristia, para
13,1; 15,13; 19,30). Jesus não apenas “fala" a comunidade joanina, era a presença do
e "dá sinais" de sua unão com um Pai que ausente (veja F. J. Moloney, DRev 93 [1975]
ama (10,30), mas revela este Pai amando de 243-51).
61 A mesma técnica é usada em 19,34. R. (ed.), Segni e Sacramenti nel Vangelo di Giovanni
Todo o relato da paixão culminou na exal­ [SAns 66; Roma, 1977], especialmente E. M alatesta ,
tação de Jesus como rei em sua cruz (19,17­ pp. 165-81; S. M . S ch n eid ers , pp. 221-35.)
21). Ali ele fundou sua igreja (19,25-27) e
levou à perfeição a tarefa que seu Pai lhe 62 (III) Conclusão. João conduz o lei­
tinha dado (19,28-30). Esta é a compreensão tor a um ponto de decisão, como se afirma
joanina de um acontecimento passado, mas no objetivo expresso do escrito: "para crer­
como ele deve se tornar parte da experiên­ des que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus,
cia presente da comunidade? A resposta se e para que, crendo, tenhais vida em seu
encontra em 19,34, quando se descreve que nome". Não conhecendo meio-termo, João
o sangue e a água, os sacramentos da eu­ apresenta apenas duas possibilidadesOpe-
caristia e do batismo que dão vida, descem recer ou ter a vida eterna (3,16). A
sobre a igreja nascente vindo do rei elevado nidade se defronta inexoravelme:
em seu trono. Em ambos os sacramentos, estas alternativas, presa numa^Em erttre
então, a comunidade joanina pode encon­ forças cósmicas. De um lê 0 . i ?'óysjtrevas
trar a presença do ausente. (cegueira, mal, este mu^o/^NPríneipe des­
te mundo) e do outrxdà \ está) a luz (visão,
o Espírito, vi(J^). Çstcolher as trevas signifi­
(Sobre os sacramentos: B arrett , Essays 80-97.
ca mo e, , de de luz e vida
B ro w n , R. E., New Testament Essays [New York,
foi revelaoá^ s Cristo. Nós nos
1982; ensaio original, 1962] 51-76. B G J 1. cxi-cxiv.
K lo s , H ., Die Sakrament im Johannesevangelium
julga: sã própria e livre decisão a
[S B S 46; Stuttgart, 1970]. L éo n - D ufour , X ., NTS fa a revelação do Deus revela-
27 [1980-81] 439-56. M atcunaga , K ., NTS 27 [1 5 rmeio de Jesus Cristo. Podemos
81] 516-24. M oloney , F . }., AusBR 30 [1982] l< j% ) d s s o olhar nele e ser salvos (3,13-14;

S ch n ack en bu rg , R., em SP 2. 235-54. T raga i \ p ., 3f 12,32; 19,37).