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Instituições

Religiosas de Israel
John J. Castelot e Aelred Cody, O.S.B.*

B IB L IO G R A F IA

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6 ESBOÇO

O sacerdócio (§ 7-24) (B) Manifestação da mente divina


(I) A palavra "sacerdote" (§ 7) (a) Consulta por oráculos (§ 9)
(II) Funções sacerdotais (b) Tôrâ [Tora] (§ 10)
(A) Cuidado do santuário (§ 8) (c) Ensino e pregação? (§ 11)

* O artigo 76, de J. J. C a s te lo t no JBC, foi revisado e atualizado por A. Cody, a quem todas as mudanças e
acréscimos devem ser creditados. As seções completamente refeitas são 7-24, 58-64, 76-78,139-46.
(C) Sacrifício (§ 12) (VII) Sacrifício humano (§ 86-87)
(III) A investidura de um sacerdote (§ 13-14) (VIII) O significado do sacrifício em Israel
(IV) Os sacerdotes de Jerusalém (A) Teorias insatisfatórias (§ 89-91)
(A) Sadoc e seus "filhos" (§ 16) (B) Entendimento distintivo do sacrifício
(B) Organização e relações com o rei (§ 17) (§ 92-95)
(V) Sacerdotes e levitas (§ 18-20) (IX) Condenações do sacrifício (§ 96)
(VI) Deveres dos sacerdotes e levitas pós-exílicos (X) Outros atos rituais
(A) Graus de santidade (§ 22) (A) Oração (§ 97-99)
(B) Deveres sacerdotais (§ 23) (B) Purificações
(C) Deveres levíticos (§ 24) (a) Sacrifícios e rituais de lavagem (§
101-103)
Lugares de culto (§ 25-56) (b) Ritual da novilha vermelha (§ 104)
(I) O período patriarcal e mosaico (c) Ritual para a lepra (§ 105-107)
(A) Siquém (§ 26) (d) Ritos de consagração (§ 108-109)
(B) Betei (§27) (C) Votos (§ 110-111)
(C) Mambré (§ 28)
(D) Bersabeia (§ 29) Festas israelitas pré-exílicas (§ 112-146)
(E) A Tenda ou Tabernáculo (§ 30-31) (I) Celebrações diárias (§ 112)
(F) A Arca (§ 32-34) (II) Calendários litúrgicos (§ 113-117)
(G) O kappõret pós-exílico (§ 35) (III) O sábado
(II) Santuários israelitas da conquista ao Templo (A) Origem (§ 118-119)
(A) Guilgal (§ 36) (B) Relevância (§ 120)
(B) Silo (§37) (C) Observância (§ 121)
(IV) A Páscoa e a Festa dos Pães Ázimos
(C) Mispa (§ 38)
(A) História - textos litúrgicos
(D) Efra (§ 39)
(a) Tradição sacerdotal (§ 123)
(E) Dã (§ 40)
(b) Tradição deuteronômica (§ 124)
(F) Jerusalém (§ 41)
(c) Antigos calendários litúrgicos (§ 125)
(III) O Templo de Jerusalém
(B) História - A Páscoa de Josias (§ 126)
(A) Localização (§ 42)
(C) Origem da Páscoa (§ 127)
(B) Interior e exterior (§ 43-45)
(D) Origem dos Pães Ázimos (§ 128-129)
(C) Mobília (§46) (V) Festa das Semanas - Pentecostes (§ 130-132)
(D) Status (§ 47) (VI) Festa das Tendas - Tabernáculos
(E) História do primeiro e segundo Tem­ (A) História (§ 134-135)
plos (§ 48-50) (B) Data (§136)
(F) Importância teológica (§ 51-52) (C) Origem (§ 137-138) '
(G) Singularidade do santuário (§ 53-55) (VII) Uma festa do Ano Novo no AT? (§ 139-140)
(IV) Sinagogas (§ 56) (VIII) Um a festa da entronização de Iahweh?
(A) Argumentos do estudo comparado das
Altares e sacrifícios (§ 57-111) religiões (§ 142)
(I) Tipos de altares (§ 58-59) (B) Argumentos a partir do AT (§ 143)
(II) O bãmâ (§ 60) (C) Avaliação dos argumentos (§ 144-145)
(III) Altares do Templo de Jerusalém (§ 61-63) (D) Outras concepções da festa (§ 146)
(IV) Relevância do altar (§ 64-65)
(V) Sacrifícios Festas tardias do Antigo Testamento (§ 147-157)
(A) Holocausto ou oferenda queimada (§ 67) (I) O Dia da Expiação
(B) Sacrifício de comunhão ou oferenda (A) Ritual (§ 148-149)
pacífica (§ 68-71) (B) Instituição (§ 150)
(C) Sacrifícios de expiação (II) Festa de Hanucá - dedicação
(a) Oferenda pelo pecado (§ 72-74) (A) Origem e história (§ 151)
(b) Oferenda pela culpa (§ 75) (B) Ritual (§ 152-153)
(c) Propósitos desses sacrifícios (§ 76-78) (C) Influências (§ 154)
(D) A minhâ (§ 79-80) (III) Festa do Purim
(E) O pão da proposição (§ 81) (A) Data e ritual (§ 155)
(F) Oferendas de perfumes (§ 82-83) (B) Livro de Ester (§ 156)
(VI) A origem do sacrifício israelita (§ 84-85) (C) Origem da festa (§ 157)
O SACERDOCIO

7 (I) A palavra "sacerdote". Um sa­ onde ele tomava conta do serviço direto da
cerdote israelita é chamado em hebraico de divindade e provia certos serviços para a
kõhén, uma palavra simpática que também sociedade que somente uma pessoa habili­
é usada para designar sacerdotes que não tada a se aproximar mais intimamente de
eram israelitas. Cognatos de kõhén existem Deus poderia prover. Segundo a concepção
no ugarítico, fenício e em algumas línguas religiosa do antigo Oriente Próximo, os sa­
árabes; o cognato árabe talvez tenha sido cerdotes serviam um deus residente em seu
tomado emprestado de alguma das línguas templo, com sua presença concentrada de
semitas do noroeste. A palavra pejorativa um modo misterioso, quase sacramental em
kemãrím, encontrada no AT somente em sua imagem ou sobre um objeto sagrado, da
sua forma plural, designa sacerdotes de mesma forma como cortesãos e servos ter­
Baal ou de cultos idólatras. Recorrer a eti­ renos serviam um rei residente em seu pa­
mologia na esperança de encontrar a ideia lácio. Esta ideia se encontra por trás de al­
original do que era um kõhén não obtém gumas práticas cúlticas ainda evidentes no
resultados seguros. Algumas etimologias AT. Os grupos sacerdotais em Silo (ISm 1-3)
propostas tiveram de ser abandonadas em e em Nob (ISm 21-22) existiam em virtude
face de avanços feitos na filologia semítica dos santuários naqueles lugares; o pão que
comparada. O verbo siríaco kahhen em seu os sacerdotes colocavam perante Iahweh no
sentido de "tornar próspero" não apresen­ santuário de Nob, como vítimas de sacrifí­
ta estas dificuldades, mas será que o siríaco cio oferecidas a Deus, tem suas origens his­
reteve um sentido que é parte integrante do tóricas na antiga ideia de oferecer alimento
conceito semita noroeste original de kõhén? a um deus no santuário que era sua casa.
O cognato árabe, kãhin, que na Arábia an­ Na narrativa relativamente primitiva de Jz
tiga significava "adivinhador", evoca a 17-18, Mica precisava de um homem apto a
função oracular de um sacerdote israelita, ser um sacerdote para seu santuário domés­
mas a distribuição das funções do culto na tico com suas imagens, e da mesma forma
Arábia era diferente da em Israel. A fim de procederam os danitas, que levaram tanto
verificar o que era um sacerdote israelita, as imagens sagradas quanto o sacerdote
precisamos saber quais eram suas funções para o templo que eles iriam construir no
e como mudaram ao longo da evolução sa­ norte. Imagens de Iahweh eram proibidas
cerdotal em Israel. na religião israelita ortodoxa, mas a presen­
ça de Iahweh estava concentrada na Arca.
8 (II) Funções sacerdotais. Uma visão A Arca era assistida por sacerdotes no san­
sincrônica das responsabilidades e funções tuário de Silo (ISm 1,3) e de Jerusalém (lRs
sacerdotais só ficou disponível quando as 6,9; 8,1-9) ou por um homem separado para
prescrições P [do Escrito Sacerdotal] do aquele propósito em Cariat-Iarim (ISm 7,1).
Pentateuco entraram em vigor após o exí­ Quando a Arca era movida, ela tinha que
lio, com uma clara divisão entre sacerdotes ser carregada por sacerdotes (ISm 4,4.11;
e levitas (—> 19-24 abaixo). Nos parágrafos 2Sm 6,6-7; 15,24-29) ou, de acordo com P e
a seguir, as principais responsabilidades e Cr e os redatores deuteronomistas, por le­
atividades dos sacerdotes serão considera­ vitas.
das separadamente, e traçar-se-á a evolução Até o momento em que o uso do ritual
histórica de cada uma. sacerdotal foi limitado a Jerusalém (—> 54­
(A) Cuidado do santuário. Ao longo 55 abaixo), os sacerdotes serviam a Deus em
do período bíblico, um sacerdote israelita santuários por todo o país. Em Jerusalém,
era, fundamentalmente, um homem ligado suas funções administrativas se manifesta­
a um santuário ou templo, a casa de Deus, ram em sua gestão das operações complexas
do Templo. É significativo, neste sentido, Urim e Tumim fazia parte da vestimenta do
que os sacerdotes (khnm) mencionados em sumo sacerdote pós-exílico, mas eram usa­
textos ugaríticos e inscrições fenícias eram dos em conexão não com seu éfode, e sim
claramente responsáveis pela administra­ com seu peitoral (Ex 28,30).
ção e manutenção dos templos e pela su­ Aqueles que desejavam perguntar a
pervisão dos empregados de seus templos, Deus que curso de ação tomar procuravam
embora, por acaso, nos textos ugaríticos pu­ um sacerdote, que usava o Urim e Tumim
blicados nenhum envolvimento direto deles para manifestar a mente divina na forma
em atos cultuais seja atestado (veja J.-M. de de um Sim ou um Não; "isto é melhor que
Tarragon, Le culte à Ugarit [CahRB 19; Paris, aquilo", e não qualquer alternativa. Em
1980] 113, 134-35). Quando o conjunto de determinados casos, uma resposta poderia
funcionários do templo israelita se tornou ser retida; e, se o caso exigisse, sortes es­
estruturalmente diversificado, a classe ad­ critas, que tornavam possível mais de uma
ministrativa hierarquicamente superior era resposta binária, talvez tenham sido usa­
a dos sacerdotes. das (H. B. Huffmon, "Priestly divination in
Israel", em WLSGF 335-59). Isto poderia ser
9 (B) Manifestação da mente divina. feito no santuário ao qual o sacerdote esta­
(a) Consulta por oráculos. Nos primeiros va ligado (Jz 18,5-7; ISm 22,10.13.15) ou a
tempos do AT, a atividade primordialmen­ alguma distância do santuário, como acon­
te associada a sacerdotes era a consulta ora­ tecia quando o sacerdote acompanhava
cular, uma atividade que, através de um uma expedição militar (ISm 14,18-19.36-42
processo um tanto complexo, evoluiu para [melhor preservado na LXX]; 23,9-12; 30,7­
a responsabilidade pela lei. Os primeiros sa­ 8). Neste período primitivo, um sacerdote
cerdotes israelitas consultavam a Deus (em era caracterizado como alguém que por­
hebraico, "perguntavam" a Deus) usando tava o éfode (ISm 14,3; 22,18); e portar o
objetos chamados Urim e Tumim dentro de éfode ainda era uma característica de um
um éfode [ou efod]. As evidências literárias sacerdote um tanto mais tarde, quando o
para o surgimento do éfode são ambíguas: altar e o trabalho sacrifical já tinham sido
por um lado, era um artigo do vestuário, introduzidos na ideia das funções tipica­
talvez um tipo de avental, usado quando se mente sacerdotais (ISm 2,28). O Urim e
estava no santuário ou perto da Arca (ISm Tumim ainda são mencionados como dis­
2,18; 2Sm 6,14), conservado posteriormente tintivos de um sacerdote em Esd 2,63/Ne
de forma ornamental mais como uma ves­ 7,65, mas neste período seu uso era certa­
timenta simbólica do que uma vestimenta mente uma coisa do passado.
hierática funcional (Ex 29,5; Lv 8,7); por ou­
tro lado, era um objeto de culto de um tipo 10 (b) Tôrâ [Torá], Na bênção de Moi­
(Jz 8,27; 17,5; 18,14.17.20; ISm 2,28; 14,3; sés a Levi (Dt 33,8-11), o Urim e Tumim são
23,6,9; 30,7) que era mantido em um santu­ ainda característicos de um sacerdote em
ário (ISm 21,20). Palavras cognatas a éfode uma parte inicial (vv. 8-9a, 11), mas em uma
no ugarítico e no acádio antigo designam parte posterior (vv 9b-10, talvez do início
uma espécie de peça de roupa; um éfode is­ do séc. VIII a.C.), as ordenanças ou decisões
raelita também era provavelmente algo que de Deus e a tôrâ de Deus são mencionadas,
poderia ser vestido preso ao corpo, mas que juntamente com o sacrifício. A Tôrâ prova­
continha componentes metálicos (veja Jz velmente ainda não deveria ser entendida
8,26-27), tornando-o teso o suficiente para como "lei" (um sentido que evoluiu poste­
ocultar um objeto colocado atrás dele (veja riormente). O resultado de uma consulta de
ISm 21,10). Não há como saber precisamen­ um protossacerdote a Deus através do Urim
te com que se pareciam Urim e Tumim. Tal e Tumim pode ter sido ele mesmo chamado
qual o éfode estilizado, alguma forma de de tôrâ, uma vez que o resultado de certos
atos de adivinhação na Mesopotâmia era culares (veja R. R. Wilson, JQR 74 [1983-84]
chamado de têrtu, uma palavra acadiana 242). Em Lv 10,10-11, eles devem "separar
etimologicamente relacionada ao hebraico o sagrado e o profano, o impuro e o puro
tôrâ. No período da monarquia de Israel, [que é tôrâ no sentido mais antigo e restri­
as respostas divinas produzidas pelo tirar to], e ensinar... todos os estatutos que o Se­
a sorte dos sacerdotes se transformaram nhor lhes falou por intermédio de Moisés
em os pronunciamentos sacerdotais sobre [que é tôrâ no sentido mais novo e amplo]."
questões de separação entre o sagrado e o A tôrâ tinha então começado a designar a lei
profano (J. Begrich, Werâen und Wesen des mosaica, mas não tinha cessado de implicar
Alten Testaments [BZAW 66; Berlim, 1936] a expressão da mente de Deus - a lei mo­
63-88). Um exemplo claro disso é ainda en­ saica, quer lidasse com assuntos religiosos
contrado no antigo texto pós-exílico de Ag ou seculares, era a expressão da vontade de
2,11-13. Deus, e nova jurisprudência baseada nela
Entretanto, já no período dos reis, o pró­ foi confiada aos sacerdotes.
prio sentido israelita de santidade fora refi­
nado de. tal forma que abarcava não apenas 11 (c) Ensino e pregação? Foi dito que
questões de separação espacial e material tôrâ era instrução e que os sacerdotes eram
entre o santo e o profano, mas também mestres porque eles a transmitiam. Foram
questões éticas e morais que afetam a con­ citadas evidências do final do período dos
veniência de se aproximar de Deus em seu reis, em Jr 18,18: "pois a tôrâ não faltará ao
lugar santo (SI 15,2-5; 24,4; Is 33,14-17). Por sacerdote, nem o conselho ao sábio, nem a
volta da metade do séc. VIII, a tôrâ sacerdo­ palavra ao profeta". Porém, acima, vimos
tal também estava ligada ao conhecimento que tôrâ, em vários períodos, nunca quis di­
sacerdotal (Os 4,6), e algumas tôrâ sacerdo­ zer o que poderíamos chamar propriamente
tais foram registradas por escrito (Os 8,12). de instrução, e que um sacerdote que lidas­
Por conseguinte, supomos que a evolução se com ela não poderia ser propriamente
da tôrâ para seu sentido posterior de "lei" chamado de mestre. Também se sugeriu
tenha se iniciado com a reunião de decisões que, no período pós-exílico, os levitas eram
sacerdotais escritas (tôrôt) sobre questões pregadores (G. von Rad, in Festschrift Otto
sacras, tanto rituais quanto éticas, em cole­ Procksch [ed. A. Alt et a l; Leipzig, 1934] 113­
ções ou quase códigos como O Código ou 24; reimpr. in G. von Rad, Gesammelte Stu­
Lei da Santidade (Lv 17-26), e que a pala­ dien [TBü; München, 1961] 248-61). Mas as
vra tôrâ foi subsequentemente estendida a passagens em Cr que podem ser chamadas
coletâneas da lei divinamente sancionada de sermões nunca foram pregadas pelos le­
de modo mais geral (—» Pensamento do vitas. Os textos tomados como indícios de
AT, 77:86-87), quer os objetos de suas dis­ que os levitas pregavam sermões parecem
posições fossem em si mesmos religiosos ser, antes, evidências de que os cantores do
ou seculares. Com a tôrâ em Dt 31,9, tem-se Templo absorvidos pelos levitas cantavam
certamente em mente o Código Deuteronô- textos sacros no Templo e talvez ofereces­
mico, divinamente confiado aos cuidados sem o tipo de interpretação que finalmen­
dos sacerdotes e dos anciãos - represen­ te recebeu a forma literária de targum (—»
tando tanto o lado secular quanto o lado Textos, 68:103). No período helenístico, os
religioso da sociedade. Não parece haver escribas (que podiam ser sacerdotes, embo­
distinção subentendida entre competências ra poucos o fossem) se tornaram as pessoas
sacras e civis em Dt 17,8-13, embora sejam eruditas na Palestina judaica, estudando a
mencionados tanto sacerdotes levíticos e Lei e os Profetas e os Escritos com erudi­
um juiz leigo. Em Dt 21,5 e Ez 44,24, so­ ção e sabedoria (Eclo 39,1-11; —» História,
mente os sacerdotes têm competência para 75:146). Eles eram os juristas e teólogos que
resolver todas as disputas, religiosas ou se­ interpretavam a Lei, enquanto que os sacer­
dotes continuaram responsáveis por fazer sacrifício diário. Por volta do final do perío­
estatutos e julgamentos legais (os compo­ do da monarquia, e ao longo do período do
nentes da tôrâ viva) conhecidos pelo povo Segundo Templo, o sacrifício era considera­
(Eclo 45,14-17). do algo que nem sempre foi: uma atividade
característica dos sacerdotes.
12 (C) Sacrifício. Nos primeiros tem­
pos, sacrifícios individuais e familiares não 13 (III) A investidura de um sacerdo­
precisavam ser feitos em um santuário, e, te. Não encontramos em Israel a ideia de
contanto que não fossem feitos em um san­ que uma pessoa fosse divinamente chama­
tuário, não havia nada de sacerdotal neles. da para ser sacerdote. Se uma família tives­
Os patriarcas (Gn 4,3-5; 8,20; 22,12; 31,34; se direitos ao sacerdócio em um santuário,
46,1), Gedeão (Jz 6,25-26) e Manué (Jz 13,16­ um filho deveria se tornar sacerdote ali por­
23), que não eram sacerdotes, sacrificavam, que ele era daquela família. Um sacerdote,
como faziam os homens de Bet-Sames (ISm nas épocas iniciais, podia ser encarregado
6,14-15) e o ambicioso filho de Davi, Ado­ por uma pessoa ou por um grupo de pesso­
nias (lRs 1,9); mas todos eles o faziam em as, tornando-se assim um sacerdote "para"
altares naturais não relacionados a qualquer ela ou elas: para Mica (Jz 17,5.10.12), para a
santuário (—» 58-59 abaixo). Se um sacrifício tribo de Dã (Jz 18,4.19.30), para o rei (2Sm
fosse feito em um santuário, contudo, era 20,26). Davi teve filhos que foram sacerdo­
possível esperar algum tipo de envolvi­ tes a seu serviço (2Sm 8,18), como Aias ti­
mento do sacerdote daquele santuário (ISm nha sido sacerdote a serviço de Saul (ISm
2,12-17). O papel sacrifical dos sacerdotes 14,3.18).
aumentou durante o período dos reis, as­ Sabemos muito pouco sobre quaisquer
sim como o sentido de santidade da casa de rituais usados para instalar ou investir um
Deus foi estendido ao altar de holocaustos sacerdote nos primeiros períodos da his­
no pátio fora da casa. O contato com o al­ tória de Israel. A expressão idiomática "tu
tar ficou reservado aos sacerdotes, por seu encherás suas mãos" com frequência deno­
cargo dotados com um grau de santidade ta a entrada no ofício sacerdotal (Ex 28,41;
ritual maior que o do resto do povo (—» 22 29,9.33.35; Lv 8,3; 16,32; 21,10; Nm 3,3; Jz
abaixo). O sacrifício do rei Acaz em um al­ 17,5.12; lRs 13,33), mas é também usada
tar, já visto negativamente em 2 Rs 16,22-23, para obter lucro (SI 26,10) ou ter sua justa
é posteriormente representado como idóla­ vingança (SI 48,11). Ela não parece represen­
tra em 2Cr 28,23. tar um gesto ritual realmente usado para fa­
Como consequência desse desenvol­ zer de alguém um sacerdote. Em textos do
vimento, as prescrições dos sacrifícios em segundo milênio de Mari, na Alta Mesopo-
P ainda permitiam a um israelita não sa­ tâmia, a expressão é usada para a captura,
cerdote matar sua vítima (Lv 1,5; 3,2.8.13; ou até mesmo para a morte, de cativos. Esta
4,24.29.33), mas os rituais de sangue (Ex conotação, combinada com a investidura
33,10; Lv 17,11.14) e todas as outras ações sacerdotal, é evidente no uso da expressão
do sacrifício tinham de ser realizadas por no relato de uma violenta intervenção em­
um sacerdote, uma vez que requeriam con­ preendida pelos levitas por zelo por Iahweh
tato com o altar ou uma aproximação maior em Ex 32,29, que pretende mostrar como os
com ele. Já em Dt 33,10 (um acréscimo re­ levitas adquiriram seus direitos sacerdo­
lativamente posterior à Bênção de Moisés, tais. Em Ex 29, que tem um paralelo estreito
com menção ao altar), o sacrifício é tido em Lv 8, vemos o ritual pós-exílico (e mais
como uma prerrogativa sacerdotal, e em Jr provavelmente pré-exílico posterior) para
33,18 os sacerdotes são caracterizados como a investidura de novos sacerdotes e sumos
pessoas que fazem o holocausto ascender e sacerdotes. As cerimônias, distribuídas por
a oferta de vegetais queimar e que oferecem um período de uma semana durante o qual
os novos sacerdotes não deveriam deixar o 15 (IV) Os sacerdotes de Jerusalém.
espaço sagrado dos limites do Templo, con­ Temos examinado as atividades dos sacer­
sistiam em um ato de vestir as vestimentas dotes em narrativas dos juizes, de Samuel e
sacerdotais, seguido por uma complexa sé­ de Davi. Informações sobre sacerdotes fora
ria de ações sacrificais. Pelo menos alguns de Jerusalém são escassas durante o perío­
dos componentes deste ritual são posterio­ do dos reis em virtude do interesse limita­
res. A unção de investidura ou consagração do de nossas fontes existentes. Quando eles
de um sumo sacerdote (Ex 29,7; Lv 8,12) não são mencionados depois do tempo de Davi,
era um costume até após o exílio, quando a há uma tendência de mencioná-los nega­
unção real anterior foi transferida ao sumo tivamente em virtude da ideia redacional
sacerdote. A unção de sacerdotes comuns deuteronomística de que os sacerdotes não
(Ex 28,41; 30,30; 40,12-15; Lv 7,35-36; 10,7;
deveriam exercer sua função fora de Jeru­
Nm 3,3) foi um costume introduzido pos­ salém ou porque eles chamam a atenção de
teriormente. profetas que estão denunciando abusos na
sociedade. Temos as melhores informações
14 Quando os homens de Cariat-Ia- sobre os sacerdotes da Jerusalém israelita
rim instalaram Eleazar, a quem haviam no período do reinado e no posterior a ele.
escolhido como a pessoa que tomaria con­
ta da Arca, simplesmente se diz que eles o 16 (A) Sadoc e seus "filh o s". Antes
"consagraram" ou "o fizeram santo" (ISm de Davi se tornar rei em Jerusalém, seu sa­
7,1). Este verbo, qíddês, foi também usado cerdote oracular era Abiatar, um descen­
para proclamar uma pessoa sacerdote em dente de Eli, sacerdote de Silo e, portanto,
textos posteriores (Ex 29,1; Lv 8,12): tor­ de origem levítica (—» 18 abaixo). Após a
nar alguém sacerdote era torná-lo santo. ascensão de Davi ao reinado na nova ca­
A santidade não era em si mesma uma pital, Abiatar é sempre mencionado junto
qualidade moral. Ela era primordialmente com um outro sacerdote, Sadoc, cujo nome
um atributo de Deus, realizando sua sepa­ é consistentemente colocado antes do de
ração transcendente de todas as criaturas. Abiatar (2Sm 8,17; 15,24-29; 17,15; 19,12).
Ela era, em segundo lugar, um atributo das Na disputa para a sucessão ao trono de
pessoas ou coisas colocadas à parte dos as­ Davi, Abiatar apoiava Adonias (lR s 1,5­
suntos comuns do mundo criado para que 48), enquanto que Sadoc apoiava Salomão
elas pudessem estar mais intensamente em (1,7.19.25; 2,22). Quando Salomão obteve o
contato com Deus - assim, elas participa­ trono, ele baniu Abiatar de Jerusalém (2,26­
vam da santidade de Deus (Lv 21,6-8). Tor­ 27), deixando Sadoc como único detentor
nar alguém um sacerdote era separá-lo da do sacerdócio real (4,2). Quer os sacerdotes
atividade profana para que ele pudesse ser de Jerusalém nos séculos seguintes fossem
o servo pessoal de Deus, particularmente ou não todos descendentes de Sadoc, eles
em um santuário, a casa de Deus, mas tam­ o afirmavam como fundador de sua linha­
bém em outros lugares onde a presença de gem sacerdotal, e, assim, qualquer questão
Deus estava concentrada no mundo criado, sobre as origens daquela linhagem impli­
como estava na Arca. Um sacerdote era fei­ cava necessariamente as origens obscuras
to santo para que ele pudesse se aproximar de Sadoc.
de Deus de modo apropriado e mediar a De acordo com uma hipótese, Sadoc era
comunicação entre Deus e o povo, como os o sacerdote chefe da Jerusalém jebuseia an­
cortesãos mediavam a comunicação entre tes que a cidade fosse tomada por Davi (H.
um senhor terreno e seu povo. A santida­ H. Rowley, JBL 58 [1939] 113-41; também A.
de do sacerdote era, assim, a base de seu Bentzen, ZAW 51 [1933] 173-76; C. E. Hauer,
papel como mediador entre Deus e o povo JBL 82 [1963] 89-94). Isto explicaria por
em geral. que as fontes israelitas não dão nenhuma
informação genealógica sobre Sadoc, nem de tropas aarônidas que se agruparam ao
mesmo onde essa informação é dada para redor de Davi em Hebron em sua luta con­
outros (2Sm 8,16-18; 20,23-26). Isto também tra Saul. Ora, Hebron, na lista das cidades
explicaria por que Abiatar, o descendente levíticas, é atribuída ao subgrupo aarônida
de Eli que havia sido o sacerdote de Davi dos coatitas (Jz 21,9-12; lC r 6,39-41 [54-56]).
em anos anteriores, apoiou Adonias, um Assim, Sadoc seria um sacerdote levita do
israelita genuíno nascido em Hebron (2Sm grupo aarônida em Hebron, até que ele foi
3,4), enquanto que Sadoc, se ele era mesmo a Jerusalém para ser um dos sacerdotes de
jebuseu, apoiou Salomão, nascido em Je­ Davi ali. Esta hipótese coloca a tensão entre
rusalém, filho de Betsabeia, cujo primeiro Sadoc e Abiatar em uma questão maior, a da
marido, Urias, era um heteu (2Sm 12,24; rivalidade entre grupos sacerdotais. E pos­
lRs 1,11). Se Sadoc permaneceu um fiel sível fazer objeções: que as peculiaridades
jebuseu até que a captura israelita de Jeru­ sacerdotais de Aarão se desenvolveram na
salém foi completada, a indicação de Davi tradição muito mais tarde do que na época
para que ele servisse como sacerdote jun­ de Sadoc, que os sacerdotes de Jerusalém
tamente com o israelita Abiatar poderia ser estavam antecipando suas reivindicações
vista como um movimento político feito na como filhos de Sadoc sem qualquer menção
esperança de ganhar o favor dos habitantes de Aarão ainda na época de Ezequiel, que
jebusitas da nova capital. A esta hipótese a divisão das cidades levíticas em um sub­
se pode objetar que para Davi tomar essa grupo aarônida talvez seja muito mais tar­
atitude no sentido de conciliar a população dia do que a própria lista de cidades, que na
jebusita seria para ele arriscar a alienação antiga lista de clãs levíticos (sendo o musita
de seus próprios israelitas. Quando a Arca um deles), em Nm 26,58, nenhum é chama­
tinha sido trazida a Jerusalém, o altar para do de aarônida, embora um deles seja cha­
a adoração israelita foi erguido não em um mado de hebronita, que a informação sobre
dos santuários jebuseus existentes, mas na Sadoc em Hebron (lCr 12) é historicamente
eira de Areúna (2Sm 24,18-25); isto sugere suspeita, a não ser que o Cronista possa ser
que, no reinado de Davi, as instituições re­ verificado através de outra fonte. Mas a hi­
ligiosas dos jebuseus, incluindo seu sacer­ pótese de Sadoc como um levita de Hebron
dócio, não foram prontamente assimiladas poderia ser sustentada independentemente,
pelos israelitas e de fato foram evitadas. à parte da questão de se um grupo de levi­
De acordo com outra hipótese, Sadoc tas reivindicando Aarão como seu ancestral
não era jebuseu, mas israelita, e de fato epônimo existia tão cedo. De qualquer for­
membro de um grupo particular de levitas ma, a falta total de informação antiga confi­
conhecido como aarônidas, que reivindica­ ável sobre a origem de Sadoc significa que a
va o direito de servir em certos santuários questão talvez nunca seja resolvida.
na Palestina central e do sul, enquanto que
seu companheiro e rival, Abiatar, era de 17 (B) Organização e relações com o
um grupo diferente de levitas conhecido rei. As quatro ocorrências do título sumo
como musitas, que reivindicava direitos sa­ sacerdote em contextos pré-exílicos são
cerdotais na parte norte da Palestina e no provavelmente anacronismos devidos a um
extremo sul (F. M. Cross, CMHE 195-215). redator posterior, pois o título não se tor­
"M usita" indicaria relação com Moisés, e a nou corrente até após o exílio. No período
rivalidade entre Sadoc e Abiatar seria assim da monarquia, o cabeça dos sacerdotes em
um elemento importante em um padrão de Jerusalém era chamado simplesmente de "o
conflito entre Aarão e Moisés visível nas sacerdote" (lRs 4,2; 2Rs 11,9-11; 12,8; 16,10­
narrativas do Pentateuco (Ex 32; Nm 12; 12; 22,12.14; Is 8,2) ou "o sacerdote chefe"
25,6-15). Em 1 Cr 12,27-29, Sadoc é mencio­ (2Rs 25,18). O próximo na hierarquia era
nado como assistente de um comandante um "segundo sacerdote" (2Rs 23,4; 25,18; Jr
52,24), que era provavelmente responsável bo de Levi.). Os antigos dados genealógicos
pela manutenção da ordem nos limites do em ISm 4,19-22; 14,3; 22,9; 22,20, quando to­
Templo. Mencionados após ele nos mes­ mados juntos, mostram Aquimelec, sacer­
mos textos estão os "guardas da porta", dote em Nob, e Abiatar, um dos sacerdotes
cujos deveres eram certamente maiores do de Davi, como descendentes de Eli e, assim,
que os títulos indicam (cf. 2Rs 12,10; 22,4). É implicitamente, levitas. Discute-se se o ou­
provável que estes sacerdotes do establish­ tro sacerdote de Davi em Jerusalém, Sadoc,
ment real fossem naturalmente um tanto era um levita ou não (—» 16 acima). Dos dois
subservientes ao rei. Assim o eram aqueles santuários reais do reino do norte, Dã pelo
do santuário real de Betei no reino do norte, menos teve sacerdócio levítico de acordo
a julgar por Am 7,10-15. Não nos é dito o com Jz 18,30, mas não fica claro a partir de
que os sacerdotes do establishment fizeram lRs 12,31 se os sacerdotes de Betei estavam
quando Manassés construiu altares para entre os sacerdotes não levíticos que Jero-
Baal em Jerusalém (2Rs 21,3), mas sabemos, boão I indicou aos santuários no reino do
a partir de 2 Rs 11, que enquanto a rainha norte, ou não. Por volta da metade do pe­
Atalia tinha seu sacerdote de Baal (11,11), ríodo dos reis, os levitas estavam baseando
foi o sacerdote Joiada, zeloso por Iahweh, sua identidade tribal em uma pretensão de
que liderou a derrubada dela. Por outro que eles executavam funções sacerdotais
lado, um rei poderia intervir quando os sa­ por direito divino (Dt 33,8-11; veja Ex 32,25­
cerdotes do establishment estavam faltando 29). Podemos presumir que havia pessoas
com suas responsabilidades administrati­ que rejeitavam essa pretensão. Por volta do
vas pelo Templo (2Rs 12). final do exílio, a pretensão foi tanto aceita
quanto rejeitada na formação do pessoal do
18 (V) Sacerdotes e levitas. Os levitas, Templo reconstituído; a partir daquele mo­
na antiga tradição, eram membros da tribo mento, todos os sacerdotes foram conside­
de Levi, que não tinham seu próprio territó­ rados levíticos, mas havia clérigos do novo
rio, mas reivindicavam as cidades, com suas Templo chamados, como classe, de "levi­
pastagens, listadas em Js 21,9-42; lC r 6,39­ tas", que não tinham esperança de chegar a
66 (54-81). Os estudiosos diferem na datação ser sacerdotes.
das listas e em decidir se a reivindicação em
si é baseada em alguma situação histórica 19 Esta dicotomia entre a classe sa­
ou não (veja Soggin, H A I151-53). A avalia­ cerdotal e a não-sacerdotal levítica foi o
ção da condição tribal dos levitas depende resultado de uma disputa pelo direito de
parcialmente da posição que se toma na atuar em um santuário, uma disputa que se
história e na sociologia das tribos israelitas tornou intensa quando o princípio de que
em geral. Os levitas eram particularmente deveria haver somente um santuário para
desejáveis como sacerdotes (Jz 17-18), mas todo Israel entrou em vigor trazendo vanta­
um não-levita poderia ser um sacerdote, no gem para o sacerdócio em Jerusalém. Nin­
período dos juizes (Jz 17,5; ISm 7,1) e no guém poderia atuar como sacerdote exceto
início do período dos reis, quando Ira (2Sm em Jerusalém, uma vez que todos os outros
20,26) e os filhos de Davi (2Sm 8,18) eram santuários de Iahweh tinham sido abolidos,
sacerdotes. Quando as construções genea­ como o foram definitivamente no final do
lógicas tardias em Cr são deixadas de lado, período da monarquia, no reinado de Josias
os membros da família sacerdotal de Eli no (2Rs 23,5.8-9.15-20). No Código Deuteronô-
santuário de Silo são, não sem ambiguida­ mico, o princípio de um único santuário é
de, classificados como levitas. (Mesmo se promovido. Também são promovidos na
o ancestral não nomeado mencionado em forma final do Código os princípios de que
ISm 2,27 fosse Moisés e não Levi, Moisés os sacerdotes que atuam legitimamente de­
figurava na tradição como membro da tri­ veriam ser levitas e que levitas de fora de
Jerusalém poderiam ser admitidos para Foi proposto que a dicotomia entre sacer­
atuar como sacerdotes na cidade, e aque­ dotes que reivindicavam Aarão como seu
les que não conseguissem obter a admissão ancestral e levitas não aarônidas excluídos
eram confiados à atenção caritativa do povo do sacerdócio foi feita em um P existente
(Dt 12,12.18-19; 14,27.29; 16,11.14; 26,11-13). já por volta do final do séc. VIII no círculo
Em partes mais recentes do Código, há uma sacerdotal de Jerusalém, que ela se dirigia
tendência a escrever "sacerdote levita" em originalmente aos sacerdotes levitas do rei­
vez de "sacerdote". Em 18,1-8, encontramos no do norte recém caído (visto que todas as
o simples "sacerdote" em uma lista de di­ cidades levíticas atribuídas a Aarão em Js
reitos que provavelmente é antiga (vv. 3-4), 21,9-40 estão no sul), e que ela foi praticada
"levita" em uma disposição para aqueles brevemente na breve centralização do cul­
que não atuavam realmente como sacer­ to realizada por Ezequias (2Rs 18,4.22; veja
dotes (v.6), e "sacerdote levita" iniciando a M. Haran, JBL 100[1981] 321-33, e sua obra
seção (v. 1), que se refere primordialmente Temples, passim). Neste caso, o Dt, com suas
àqueles que realmente atuavam como sa­ atitudes particulares para com os levitas e
cerdotes. o sacerdócio, teria sido independente de tal
No programa de Ezequiel para a futura P antigo, enquanto que Ez refletiria isso, e
restauração da adoração em Jerusalém, os teria se tornado normativo quando Esdras
sacerdotes do Templo, os "filhos de Sadoc", promulgou P à comunidade pós-exílica em
são chamados de levitas (Ez 40,46; 43,19; geral. De qualquer forma, certamente a par­
44,15). Somente eles têm o direito de atuar no tir da época de Esdras a dicotomia estava
altar e receber aquelas ofertas que são do sa­ completamente em vigor, com a classe dos
cerdote (40,46; 43,19; 44,15-17.29-30). Todos simples levitas subordinados à classe sacer­
os outros membros da equipe do Templo são dotal, mas com todos os sacerdotes consi­
colocados em posição subordinada; somente derados descendentes de Aarão, o levita.
uma vez, em 40,45 (provavelmente um dos
textos mais antigos do projeto de Ezequiel), 21 (VI) Deveres dos sacerdotes e le­
eles são chamados de "sacerdotes", mas em vitas pós-exílicos. No período pós-exílico,
outros lugares em 40-48 eles são chamados encontramos, finalmente, material sufi­
de "levitas". Para a situação do exílio, veja ciente para reunir uma lista razoavelmente
N. Allan, HeyJ 23 (1982) 259-69. completa dos deveres dos sacerdotes e dos
levitas distintos dos sacerdotes. O material
20 Em P e em Cr, esta distinção de clas­ é fornecido pelo P pentateucal, e um tan­
se recebe justificativa genealógica (e sanção to mais tarde por Cr, Esd e Ne, o que nos
divina) pelo princípio de que o ancestral permite ver que as provisões de P foram
imprescindível de todos os sacerdotes legí­ de fato efetuadas, com algumas alterações
timos é o irmão de Moisés, Aarão. Dentro secundárias. Em P, as prescrições para os
da família de Levi nas genealogias de P, o "filhos de Aarão" são aquelas direcionadas
sacerdócio é limitado aos descendentes de aos sacerdotes em geral, enquanto que as
Aarão através das duas linhas de Eleazar e prescrições para o próprio Aarão são aque­
Itamar, e os outros levitas, aos quais é ne­ las direcionadas para o sumo sacerdote.
gada a ancestralidade de Aarão, são subor­
dinados a eles (por exemplo, Nm 3,1-10). 22 (A) Graus de santidade. Um sacer­
Em lC r 24,1-6, os sadocitas de Jerusalém dote israelita sempre tinha sido uma pessoa
são tidos como descendentes de Eleazar santa apta a lidar com os espaços e objetos
através de seu filho Fineias, de acordo com sagrados (—»14 acima). No período pós-exí­
5,27-41 (6,1-14), enquanto que os outros sa­ lico, as distinções entre os direitos e deve­
cerdotes são tidos como filhos de Itamar. res hierárquicos correspondem a graus de
E dada aos sadocitas hegemonia numérica. santidade de diferentes espaços e objetos
sagrados (veja K. Koch, Die Priesterschrift cinzas de uma novilha vermelha (Nm 19),
Von Exodus 25 bis Leviticus 16 [FRLANT 71; o papel do sacerdote era retido, justificado
Gõttingen, 1959] 101-2). Em conformidade por uma assimilação superficial de alguns
com este sistema coordenado, o laicato isra­ aspectos do ritual para os de uma oferta
elita, um povo santo (Dt 7,6; 14,2.21; 26,19; sacrifical pelo pecado (vv. 4.9.17; veja J.
28.9), por ser o povo de Iahweh, poderia Milgrom, VT 31 [1981] 62-72). Os sacerdo­
entrar no pátio do Templo, do qual pagãos tes tinham de misturar a essência aromática
eram excluídos (Nm 1,51.53; 3,10.38). Em (lC r 9,30), presumivelmente para o incenso
virtude de terem sido os sacerdotes e levi­ e o óleo da unção (Ex 30,22-38), embora ape­
tas dotados com uma santidade maior que nas o incenso realmente queimado no altar
a do povo como um todo (cf. Lv 21,1-22,9, do incenso fosse "santíssimo" (30,36), e, por
com Lv 22,10-46), apenas eles poderiam en­ esta razão, ser manipulado apenas pelos sa­
trar no edifício do Templo, do qual o laicato cerdotes, segundo a concepção de P. Como
era excluído (2Cr 23,6; 35,5). A santidade mediadores particularmente qualificados
dos sacerdotes era maior que a dos levitas entre Deus e o povo, os sacerdotes abenço­
(Nm 4,4-15; 18,3), e, portanto, os sacerdo­ avam o povo (Nm 6,22-27; assim já em Dt
tes, e não os levitas, poderiam entrar em 10,8; 21,5). No séc. II a.C., os sacerdotes ain­
contato com os objetos que eram "santís­ da eram caracterizados como homens que
simos": os altares de holocausto (Ex 29,37; ofereciam sacrifício e incenso, que executa­
40.10) e o incenso (Ex 30,10). O espaço mais vam rituais de expiação, que abençoavam
santo de todos era o Debir do edifício do o povo e lhes tornavam conhecida a tôrâ
Templo, onde a presença de Deus na ter­ na forma de estatutos e declarações legais.
ra estava mais intensamente concentrada (Eclo 45,6-26).
no kappõret: neste espaço somente o sumo
sacerdote deveria entrar para os rituais ex­ 24 (C) Deveres levíticos. Os levitas
piatórios anuais do Dia da Expiação (Lv pós-exílicos eram responsáveis pelas li­
16,2-3.15.32-34). turgias de louvor e ações de graças duas
vezes por dia e em dias especiais; o ritual
23 (B) Deveres sacerdotais. Na divi­ de purificação de objetos com um grau me­
são efetiva entre sacerdotes e levitas, os sa­ nor de santidade; o fazer do pão do ritual
cerdotes faziam tudo que requeria contato e o cuidado dos pátios do Templo e das
com os altares e com as ofertas depois que salas de suprimento (lC r 9,26-32; 23,25­
elas passavam da esfera comum, secular, 32). Nos rituais de sacrifício, eles ofere­
para a santa: o queimar das ofertas nos alta­ ciam aos sacerdotes o sangue que deveria
res, o matar das aves no altar do holocaus­ ser aspergido (2Cr 30,16), e eles poderiam
to, as libações e os rituais de sacrifício com auxiliar os sacerdotes na preparação do
sangue (Lv 1-7; 10,16-20; 16,17). Nos rituais holocausto tirando a pele da vítima (2Cr
de purificação ou expiação, os sacerdotes 29,34; 35,11) - algo que, de acordo com P,
estavam envolvidos porque os sacrifícios era dever de quem apresenta a oferenda
e o sangue do sacrifício eram partes inte­ (Lv 1,6). Os levitas também trabalhavam,
grantes de tais rituais. Como especialistas sob as ordens dos sacerdotes, na adminis­
em todas as questões de distinção ou se­ tração do Templo e de suas finanças, e na
paração entre o santo e o profano, o puro supervisão do trabalho de construção nos
e o impuro, também se lhe pediam decla­ limites do Templo (2Cr 24,5-6; 34,9.12-13).
rações (tôrôt: —> 10 acima) para decidir tais Embora em documentos retidos em Esd e
questões, que determinavam se um ritual Ne, os guardiões do Templo (Esd 2,42.70;
de purificação era necessário ou não (Lv 11­ 7,24; 10,24; Ne 7,45; 10,29; 11,19) e os can­
16; 17-26). No antigo ritual de purificação tores do Templo (Esd 2,41; Ne 7,44) são
com a água purificadora preparada com as distintos da categoria de levitas (e ainda
parecem ser assim em 2Cr 35), eles esta­ 31 [1981] 318-23). Para a questão sobre se
vam sendo assimilados na categoria ou alguns dos cantores cultuais feitos levitas
classe levítica (lC r 15,16-23; 25,1-31; 26,1­ poderiam ter sido "profetas cultuais", veja
9; 2Cr 5,12; 29,25-26.30). Além disso, os A. R. Johnson, The Cultic Prophet in Ancient
levitas pós-exílicos podem ter se engajado Israel (2a ed.; Cardiff, 1962) 69-75.
em consideravelmente em atividade típica Quanto ao papel político do sumo sa­
de escriba e atuado como intérpretes das cerdote nos períodos persa e helenístico, —>
Escrituras (—> 11 acima; veja A. Jepsen, VT História, 75:124,139,149-50.

LUGARES DE CULTO

25 (I) O período patriarcal e mosaico. No final da era patriarcal, os restos de José


Diz-se que os patriarcas, Abraão, Isaac e foram trazidos do Egito a Siquém para se­
Jacó, fundaram vários santuários por toda rem enterrados ali (Js 24,32).
Canaã. Estes santuários normalmente mar­ No período dos juizes, o povo reno­
cavam lugares onde Deus tinha se manifes­ vou solenemente a aliança do Sinai em Si­
tado aos patriarcas. Em muitos exemplos, quém e ergueram uma esteia em memória
foi o caso de tomar santuários cananeus já do acontecimento "ao pé do carvalho que
estabelecidos e dedicá-los ao único Deus está no santuário de Iahweh" (Js 24,25-28).
verdadeiro. Outros acontecimentos relacionados a este
santuário foram a proclamação de Abime-
26 (A) Siquém. Um caso a mencionar lec como rei (Jz 9,6) e o encontro do filho
é Siquém, a primeira parada de Abraão em de Salomão, Roboão, com os representantes
Canaã (Gn 12,6-7). É chamado de mãqôm, das tribos do norte (1 Rs 12,1-19). Alguns
que neste contexto é virtualmente um termo estudiosos pensam que, durante o período
para santuário, embora o significado básico da monarquia de Israel, Siquém era o local
da palavra seja simplesmente "lugar". Aqui de cerimônias de aliança anuais que eram
ficava o terebinto (carvalho?) de Moré, apa­ a fonte das tradições legais preservadas em
rentemente onde oráculos pagãos eram Dt (—» Pensamento do AT, 77:77ss.). Esca­
proferidos, pois era chamado de "Terebinto vações revelaram dentro da cidade uma
do Mestre ou Adivinhador". Aqui Deus se área ocupada, por volta de 1650-1100 (com
manifestou a Abraão, e o patriarca edificou talvez um intervalo de aproximadamente
um altar para celebrar o acontecimento. Isto 1550-1450), por um templo, remodelado ou
parece, ainda, ter sido o padrão comum no restituído várias vezes (J. Toombs e G. E.
estabelecimento de um santuário: manifes­ Wright, BASOR 169 [Fev. 1963] 25-32). Este
tação divina, comunicação divina, edifica­ templo, em sua última fase, poderia ter sido
ção de um altar. a casa de Baal-Berit (Jz 9,4) ou de El-Berit (Jz
Siquém também figura notavelmente na 9,46), uma deidade explicitamente relacio­
história de Jacó. Ao retornar de uma lon­ nada à aliança (bérít).
ga estadia com seu tio Labão, Jacó levanta
acampamento nos arredores de Siquém, 27 (B) Betei. No que concerne à liga­
compra o local do acampamento e ergue ção entre os patriarcas e Betei, os dados das
um altar (Gn 33,18-20). Ele, de forma ceri­ várias tradições são confusos. A tradição J
monial, enterrou sob o terebinto as imagens de Gn atribui o estabelecimento deste san­
idólatras que suas esposas haviam tirado tuário a Abraão (12,8), mas a tradição (J-)E
de sua terra natal como um sinal de rejeição indicaria que Jacó o fundou (28,10-22). No
definitiva do culto pagão e da dedicação de relato de E, Jacó parou no santuário em seu
todo o coração ao único e verdadeiro Deus. caminho rumo à Mesopotâmia e, durante a
noite, teve sua bem conhecida visão da es­ rado quaisquer referências tradicionais de
cada ou escadaria ligando o céu e a terra. forma a tornar sua localização incerta. Veja
Quando ele acordou, ele percebeu que es­ Gn 13,18; 23,19; 35,27, onde é identificado
tava em um lugar verdadeiramente sagra­ com Hebron.
do, uma bêt ’El (casa de Deus). Ele tomou a
pedra que tinha usado como travesseiro, a 29 (D) Bersabeia. Este santuário é as­
erigiu e derramou óleo sobre ela como si­ sociado de forma especial ao nome de Isaac.
nal de consagração. Ele prometeu a Deus Deus apareceu a ele aqui e repetiu as pro­
que se sua sorte em Harã prosperasse, ele messas previamente feitas a Abraão. Como
construiria um santuário em Betei e o sus­ memorial da teofania, Isaac erigiu um altar
tentaria com suas possessões. (Esta figura (Gn 26,23-25 - mais uma vez, as constantes
da tradição E de Gn é de alguma forma no estabelecimento de um santuário: apa­
complicada por misturar-se à narrativa de rição divina, mensagem divina, construção
J sobre o aparecimento de Iahweh, em que de um altar). Subsequentemente, Jacó ofe­
ele confirma novamente as promessas fei­ receu um sacrifício aqui e Deus apareceu a
tas a Abraão [28,13-15].). Então, E completa ele (46,1-4). Um acréscimo posterior ao tex­
a história contando como Jacó, depois de to (21,33) faz o estabelecimento deste san­
seu retorno de Harã, foi de Siquém a Be­ tuário remontar até Abraão, que, segundo
tei, onde ele erigiu um altar e colocou uma se diz, plantou ali tamargueiras e "invo­
pedra sagrada (35,1-9.14-15 - repetindo cou ali o nome de Iahweh, Deus eterno".
28,18-19). Aparentemente, Jacó fez em Betei A expressão aqui traduzida "Deus eterno"
o que Abraão fez em Siquém; ele tomou um é com toda probabilidade o próprio nome
santuário cananeu que já existia e o dedicou da divindade canaanita anteriormente ado­
ao único e verdadeiro Deus. Assim como na rada neste ponto: El Olam (—» Pensamento
descrição de Siquém em Gn 12,6, a palavra do AT, 77:16). Os patriarcas teriam se apro­
mãqôm, "lugar", parece ser aplicada a Betei priado deste título, bem convenientemente,
no sentido de "lugar sagrado", "santuário". para seu Deus. Bersabeia continuou a ser
um santuário israelita popular por séculos.
28 (C) Mambré. É dito: "Abrão foi es­ Contudo, a adoração ali se tornou corrom­
tabelecer-se no Carvalho de Mambré, que pida pela idolatria, e no séc. VIII encontra­
está em Hebron; e lá construiu um altar a mos Amós banindo este santuário junto
Iahweh" (Gn 13,18). Embora Mambré seja com outros do mesmo tipo (Am 5,5; 8,14).
frequentemente mencionado em Gn como o
lugar de habitação de Abraão, Isaac e Jacó, 30 (E) A Tenda ou Tabernáculo. De­
ou como ponto de referência para locali­ pois que os descendentes de Jacó escapa­
zar a caverna em que seus corpos e os de ram do Egito e voltaram para a terra dos
suas esposas foram depositados, há apenas patriarcas, outros santuários se tornaram
uma referência a ele como sendo um lugar proeminentes. Durante o êxodo, contudo,
de adoração. De fato, nenhum outro livro os israelitas tinham um santuário portátil:
senão Gn menciona Mambré, o que é estra­ o Tabernáculo ou Tenda. Nas mais antigas
nho, considerando que este figurou nota­ tradições, era um lugar onde Moisés con­
velmente nas histórias patriarcais e que sé­ sultava Iahweh para conhecer sua vontade
culos depois se tornou um local comum de (Ex 33,7.11; Nm 12,8). Este papel aparece
peregrinação. A explicação pode estar no na tradição posterior também, mas ali uma
fato de que o culto realizado ali se tornou nova palavra, miskãn, é preferida à palavra
posteriormente corrompido pela infiltração comum para tenda, ’õhel. Este novo termo
de práticas pagãs. Por esta razão, redatores enfatiza a presença permanente de Iahweh
posteriores dos livros sagrados podem ter entre seu povo. A antiga tradição (E) repre­
se recusado a mencioná-lo e podem ter alte­ senta a chegada e a partida de Deus sob a
figura de uma nuvem que sobe e desce (Ex de bronze aos quais eram afixadas hastes de
33,9; Nm 12,4-10). Porém, a tradição P traz prata, e destas pendiam cortinas de linho.
a nuvem pousando sobre a Morada no mo­ (Para uma descrição da Tenda, veja F. M.
mento em que ela estava totalmente cons­ Cross, BA 10 [1947] 45-68.). É significativo
truída e permanecendo ali, mesmo quando que as dimensões da Tenda como recons­
a Tenda estava em movimento (Ex 40,34­ truída pelos redatores de P são exatamen­
35.36-38; Nm 9,15-23). As duas tradições te a metade das do Templo. Este fato, so­
variam também sobre a localização da Ten­ mado aos evidentes elementos idealísticos
da. Nos textos mais antigos (E), ela ficava das descrições, aponta para a conclusão de
fora do acampamento; nos posteriores (P), que a Tenda (como é concebida por P) foi
ela ficava no centro do acampamento. reconstruída com o Templo como modelo e
não vice-versa, ou pelo menos que uma des­
31 É muito difícil dizer com certeza crição antiga da Tenda foi modificada em P
como era a Tenda do deserto, pois as tra­ para que se parecesse mais com o Templo.
dições mais antigas não oferecem infor­ Foi proposto, contudo, que a descrição da
mações. A tradição P parece dar uma re­ Tenda em P é baseada em uma antiga des­
construção idealizada, tornando a Tenda crição da tenda feita por Davi para abrigar
uma espécie de modelo em escala portátil a Arca em Jerusalém, quando o Templo ain­
do Templo de Salomão, que era o centro da não havia sido construído (F. M. Cross,
de adoração quando esta tradição estava a in Biran (ed.), Temples 169-80).
caminho da formulação definitiva. Os reda­ Pode-se ainda concluir uma verdade
tores de P descrevem duas vezes a Tenda básica: Havia uma tenda que servia como
em detalhe: primeiro, quando Iahweh dá as centro de adoração durante a travessia do
especificações para sua construção (Ex 26), deserto. Esta Tenda tem paralelos em ins­
e novamente quando Moisés a manda cons­ tituições árabes antigas e modernas, espe­
truir (36,8-38). De acordo com esta descri­ cialmente o qubba. O último era uma tenda
ção, a Tenda em si consistia em uma estru­ pequena de couro vermelho usada para
tura retangular de madeira de 13,7 m x 4,5 proteger os ídolos tribais; ela tinha um lu­
m x 4,5 m, que era toda coberta, exceto pela gar de destaque no campo, adjacente à ten­
entrada oriental, por duas faixas longas de da do chefe; a ela vinham membros da tri­
um tecido delicado unidas por um sistema bo buscando pronunciamentos oraculares.
intricado de ganchos e colchetes. Este tecido Assim, o qubba e a Tenda israelita tinham
era adornado com querubins bordados. En­ em comum tanto a aparência (cobertura ex­
tão havia uma outra cobertura mais durável terna vermelha da Tenda) quanto a função
de couro de cabra e finalmente uma cober­ (um lugar para conceder oráculos). Tribos
tura vermelha de peles de carneiro tingidas beduínas modernas possuem uma tenda
e outros couros leves. Uma cortina fechava pequena semelhante que as acompanha nos
a entrada oriental, e uma outra cortina de lombos dos camelos por onde quer que an­
material mais precioso era colocada a 4,5 m dem. Pensa-se que ela possua algum tipo de
da parte final ocidental. Esta separava o Lu­ poder sobrenatural e os acompanha quando
gar Santo do Santo dos Santos, tornando as­ eles entram em batalha. Por vezes, os bedu­
sim o Santo dos Santos um cubo perfeito de ínos oferecem sacrifícios à divindade cuja
4,5m. Aqui era mantida a Arca da Aliança. morada é tida como sendo a tenda. A partir
No Lugar Santo estavam o castiçal com sete desses paralelos, bem como da tradição bí­
hastes e a mesa para os pães da proposição. blica constante, pensamos ser provável que
Fora da entrada estavam o altar e a bacia o santuário móvel das andanças de Israel
usada para o ritual de purificação. A Tenda pelo deserto foi moldado como as tendas
era cercada por um pátio extenso, de 45 m do próprio povo. A última menção clara
x 22,5 m, cercado por um sistema de pilares disso ocorre em Nm 25,6, que fala sobre a
Tenda sendo colocada sobre as planícies de tamien und seine Nachbarn [ed., H.-J. Nissen
Moabe, a última parada antes da invasão de e J. Renger; BBVO V, Berlin, 1982] 2. 523-25).
Canaã. Depois que os israelitas tinham se Em cada extremidade do kappõret havia um
instalado na terra prometida e não estavam querubim com as asas estendidas. Foi no
mais habitando em tendas, a Arca, de igual Segundo Templo que o kappõret teve maior
forma, teria sido abrigada em uma morada significado (—» 35 abaixo; —>Teologia pauli­
mais permanente (aquela descrita na tra­ na, 82:73).
dição de P?). O santuário em Silo foi uma Em Dt 10,1-5 apenas a madeira de acácia
construção do mesmo tipo (ISm 1,7.9; 3,15), e as tábuas do Decálogo são mencionadas.
e tradições posteriores que falam sobre a Em 10,8, diz-se que apenas os levitas po­
"Tenda" de Silo (Js 18,1; 19,51; SI 78,60) o fa­ deriam carregar a Arca, aqui chamada de
zem de forma poética arcaica (—>37 abaixo). ’ãrôn habbêrit, Arca da Aliança. Mais tarde
Quando Davi trouxe a Arca a Jerusalém, ele em Dt lemos que se deu ao rolo de pergami­
a colocou em uma tenda, mas não era a Ten­ nho que continha a versão deuteronômica
da, a despeito da interpretação de lR s 8,4. da lei um lugar de honra ao lado da Arca
Era um local provisório feito para recordar (31,9.26). Somos informados em Nm 10,33­
os dias de viagem pelo deserto (2Sm 6,17). 36 que a Arca precedia os israelitas quando
Veja de Vaux, BANE 136-51; mas também eles deixaram o Sinai e indicava onde eles
R. E. Friedman, BA 43 (1980) 241-48. tinham de parar e acampar. Nm 14,44 indi­
ca significativamente que, quando o povo
32 (F) A Arca. O que a Tenda deveria resistiu às ordens de Moisés e atacou os
abrigar (Ex 26,33; 40,21) era chamado em cananeus, a Arca permaneceu no acampa­
hebraico de ’ãrôn h ã ‘êdüt, "Arca do Teste­ mento.
munho", porque as duas "tábuas do teste­ Todas essas informações vêm de dife­
munho" dadas no Sinai (31,18) eram man­ rentes tradições. A tradição P está repre­
tidas dentro dela (25,16; 40,20). De acordo sentada no primeiro conjunto destes textos
com 25,10-22; 37,1-9, a Arca era uma caixa (os de Êxodo), e sua reconstrução da Arca,
de 1,2 m x 0,75 m x 1,2 m feita de madei­ como suas descrições da Tenda, são colo­
ra de acácia, coberta com ouro por fora, e ridas pelo atual conhecimento da Arca tal
equipada com anéis através dos quais se qual estava no Templo (lRs 8,6). A tradição
passavam varas quando ela tinha de ser deuteronômica não dá nenhuma descrição
transportada. No topo havia uma placa de exceto que a Arca era feita de madeira de
ouro chamada de kappõret, traduzida varia­ acácia. O texto antigo de Nm está mais pre­
velmente como "propiciatório" ou "sede ocupado com a função da Arca do que com
da misericórdia". "Propiciatório" (do latim sua aparência. Suas informações, contudo,
propiciatorium) é baseado no termo grego encaixam-se bem naquilo que Js 3-6 nos
hilastêrion, usado para traduzir kappõret na conta sobre o papel desempenhado pela
LXX; "trono de misericórdia" é baseado na Arca durante a invasão de Canaã.
ideia de que do kappõret, sobre o qual ele
estava sentado, Deus dispensava misericór­ 33 A Arca era o centro da adoração
dia a seu povo. Etimologicamente, kappõret israelita durante a peregrinação no deser­
se origina do verbo kippêr, que não tem to e continuou como tal até a destruição
nada a ver com cobrir (como se afirma fre­ do Templo em 587. Após a entrada na ter­
quentemente), mas com apagar ou limpar ra prometida, ela foi mantida em Gilgal (Js
esfregando (HALAT 470) e, em um contexto 7,6), depois em Betei (Jz 20,27) e em seguida
de culto, remover o pecado do pecador ou em Silo (ISm 3,3). Ao ser levada para a ba­
do objeto contaminado por ofensa pessoal talha de Afec (ISm 4,3ss.), ela foi capturada
(veja Levine, Presence 55-77, 123-27; e mais pelos filisteus (4,11). Depois de causar des­
recentemente seus comentários em Mesopo- truição entre os filisteus e ser transferida de
cidade em cidade, ela foi finalmente levada 99,5; 132,7; Lm 2,1; Is 66,1). Surge alguma
de volta aos israelitas e mantida em Cariat- confusão do fato de que se fazia referência à
Iarim (5,5-7,1). Finalmente, Davi a mandou Arca tanto como o pedestal de Deus quanto
levar a Jerusalém, onde ela foi mantida seu trono; ambos, contudo, são figuras poé­
em uma tenda até que Salomão construiu ticas para o lugar da presença divina e não
o Templo e a instalou no Santo dos Santos devem ser tomados tão literalmente.
(2Sm 6; lR s 6,19; 8,1-9). Este é o último rela­ A Arca também era um depósito para as
to que temos dela, com exceção da tradição tábuas do Decálogo, e Dt 10,1-5 parece su­
apócrifa mencionada em 2Mc 2,4ss. gerir que isto era tudo que ela era. A Arca
era, de acordo com isso, a "Arca da Alian­
34 De interesse e importância maior ça"; a tradição P usa uma designação se­
do que o surgimento e a história da Arca melhante, "Arca do testemunho" (Ex 25,16;
é seu significado teológico. Quando todos 40,20). Longe de serem contraditórias, as
os dados dos textos são analisados cuida­ duas noções - trono de Deus e depósito de
dosamente, eles produzem duas avaliações sua lei - são complementares. Documentos
dominantes da Arca: ela era considerada (1) egípcios e hititas testificam que era costu­
o lugar da presença divina (o trono ou esca­ me depositar alianças e tratados aos pés
belo de Deus) e (2) um tipo de arquivo no dos deuses. Estudos sobre tratados susera-
qual se mantinha a lei. nos hititas tornam isso especialmente claro,
Primeiro, a Arca era o local da presença sendo uma das estipulações a de que uma
de Deus em Israel. O temor causado por ela cópia do tratado tinha de ser preservada em
está refletido no alarme expressado pelos um templo aos pés de um ídolo. Os parale­
filisteus quando os israelitas a trouxeram los entre esses tratados suseranos e a alian­
para o campo de batalha: "Deus veio ao ça do Sinai, pelo menos no que se refere à
acampamento" (ISm 4,7), e quando a Arca sua forma externa, são muito surpreenden­
foi capturada, o desastre foi interpretado tes (—» Pensamento do AT, 77:79-80).
como a partida de Deus de seu meio (ISm
4,22; veja A. Bentzen, JBL 67 [1948] 37-53). 35 ( G ) O kappõret p ó s - e x í l i c o . Quando
Uma consideração ainda mais antiga está o Segundo Templo foi construído após o
refletida em Nm 10,35 (cf. SI 132,8): Quando exílio babilónico, a antiga Arca não existia
a Arca deixava o acampamento do deserto, mais - presumivelmente, mas não de forma
era Iahweh quem estava conduzindo o ca­ demonstrável, como resultado da destrui­
minho. A Arca provocou destruição entre ção babilónica em Jerusalém. Não se cons­
os filisteus enquanto eles a tinham em seu truiu uma nova Arca. Em Jr 3,16-17, diz-se
território (ISm 5), e 70 homens de Bet-Sa- ao povo que não se preocupe com a ausên­
mes foram mortos por não se regozijarem cia da Arca histórica, o trono de Iahweh.
com seu reaparecimento (ISm 6,19). Oza Eles não deveriam construir outra, pois a
foi afetado de modo semelhante quando nova Jerusalém em sua totalidade seria o
ousou tocar a Arca, mesmo que inocente­ trono de Iahweh. Todavia, um kappõret, que
mente (2Sm 6,7; veja também Nm 4,5.15; Ex de acordo com Ex 25,17-22; 37,6-9 (talvez se­
25,15; lR s 8,8). Um epíteto muito comum cundário à descrição de P da própria Arca)
aplicado à Arca revela seu significado para deveria estar no topo da Arca (—» 32 acima),
os israelitas: o "pedestal" de Deus. A ocor­ foi instalado no novo Debir, o Santo dos
rência mais antiga desta noção está em ISm Santos, do Segundo Templo. Na realidade
4,4, em que há referência à "Arca da aliança histórica, este poderia ter sido um substitu­
de Iahweh dos Exércitos, entronizado entre to da Arca quando esta não existia mais (J.-
os querubins" (2Sm 6,2; 2Rs 19,15). A desig­ M. de Tarragon, RB 88 [1981 5-12]. Em lC r
nação como "pedestal" persistiu enquanto 28,11, o Santo dos Santos não é chamado
a Arca (e o templo) existiram (lCr 28,2; SI de sala da Arca, mas de "casa do kappõret".
A presença misteriosa de Deus, uma vez um centro político quanto religioso, Silo era
intensamente concentrada na Arca, se con­ um lugar de reunião para todas as tribos (Js
centraria doravante no kappõret, que no pe­ 18,1; 21,2; 22,9.12), e sete das tribos recebe­
ríodo pós-exílico figura de maneira muito ram seus territórios ali (18,8). Uma tradição
impressionante no ritual anual do Dia da posterior e questionável coloca a Tenda ali
Expiação (—> 147-50 abaixo). As exigências (18,1; 19,51). E quase certo que a Arca era
deste ritual talvez expliquem melhor por­ mantida ali, e Elcana, pai de Samuel, fez a
que havia um kappõret no Segundo Templo viagem anual a Silo para oferecer sacrifício
mesmo que não houvesse Arca - apesar do (ISm 1,3). Havia também um tipo de pere­
desconforto com a presença espacial restri­ grinação anual chamada hag (Jz 21,19-21).
ta de Deus que se encontra especialmente A Arca era mantida em um edifício, refe­
em textos deuteronômicos (—» 51 abaixo). rido muitas vezes como "casa de Iahweh"
(ISm 1,7.24; 3,15), um "palácio' de Iahweh
36 (II) Santuários israelitas da con­ (3,3) e uma "casa de Deus" (Jz 18,31). Aqui,
quista ao templo. também, o epíteto "Iahweh dos Exércitos
(A) Guilgal. Depois que os israelitas entronizado entre os querubins" foi aplica­
concluíram seu êxodo e se fixaram em Ca­ do a Iahweh pela primeira vez (ISm 1,3; 4,4;
naã, eles estabeleceram vários novos san­ —» Pensamento do AT, 77,14). Não muito
tuários. O primeiro foi em Guilgal, entre o depois de o santuário de Silo ter sido colo­
Jordão e Jericó. O nome se refere ao círculo cado em destaque na história bíblica, ele fez
de pedras que marcava o local do santuá­ uma saída muito dramática. Pouco depois
rio, que provavelmente era usado pelos de 1050 a.C., a Arca foi levada dali para ga­
cananeus antes de sua adoção pelos israe­ rantir a presença militar de Iahweh na ba­
litas. Ali que a Arca foi colocada depois de talha de Afec, onde foi capturada pelos fi­
cruzar o Jordão (Js 4,19; 7,6); ali, também, listeus. Quando a Arca foi recuperada, não
os homens de Israel aceitaram a aliança e foi mais levada a Silo. Jeremias 7,12-14; 26,6
foram circuncidados (5,2-9), e celebraram têm sido tomadas como evidência de que
a Páscoa pela primeira vez na Terra Pro­ a própria Silo foi destruída pelos filisteus
metida. Posteriormente, Samuel foi a Guil­ e permanece em ruínas pelos séculos se­
gal para julgar o povo (ISm 7,16), e o local guintes, mas escavações corretivas em 1963
teve um papel importante na carreira de mostraram que ela foi ocupada por todo o
Saul, que foi ali proclamado rei "perante período da monarquia israelita (veja M. L.
Iahweh" (11,15). Guilgal foi o local em que Buhl e S. Holm-Nielsen, The Danish Investi­
Saul foi repudiado por Samuel (13,7-15; cf. gation at Tall Sailün, Palestine [Copenhagen,
10,8; 15,12-33) em virtude de suas ofertas de 1969]). Embora nenhum vestígio identificá­
sacrifício não autorizadas. A tribo de Judá vel como um templo tenha sido encontrado,
deu as boas-vindas a Davi ali quando ele podemos dar como certo que Silo parou de
retornou da Transjordânia (2Sm 19,16.41). ser um local de peregrinação israelita tão
Posteriormente, o santuário foi condena­ logo cessou de ser o local onde a Arca era
do (Os 4,15; Am 4,4; 5,5); aparentemente, a mantida. Entre os peregrinos para Jerusalém
adoração tinha sido contaminada por prá­ logo após a queda da monarquia em Judá es­
ticas pagãs. tavam peregrinos de Silo (Jr 41,4-10).

37 (B) Silo. Após a conquista, Silo 38 (C) Masfa. Em Benjamim havia


logo se tornou o centro da adoração de Is­ um outro centro de culto durante o perío­
rael, tomando o lugar de Guilgal. Não po­ do dos juizes, pois em Masfa os israelitas
demos determinar exatamente quando e se reuniam para fazer um juramento dian­
como a transferência foi feita, mas ela tinha te de Iahweh (Jz 20,1.3; 21,1.5.8). No tem­
sido efetuada na época dos juizes. Tanto po de Samuel, os israelitas se reuniam ali
para adorar Iahweh, derramando libações 40 (E) Dã. O santuário de Dã teve um
e oferecendo sacrifícios (ISm 7,5-12). Masfa começo estranho (Jz 17-18). Um homem cha­
foi uma outra parada no curso de Samuel mado Micas roubou prata de sua mãe, mas
pelo país para "julgar" o povo (7,16). Uma a devolveu mais tarde; a mãe, então, usou
das tradições variantes acerca da escolha de um pouco dessa prata e fez um ídolo. Micas
Saul como rei coloca o acontecimento em o colocou em um santuário junto com um
Masfa (10,17-24). A próxima menção deste éfode e alguns terafins (deuses do lar). Ele
local como santuário ocorre em lM c 3,46­ indicou seu filho como sacerdote do santu­
54, cerca de 850 anos mais tarde. ário até que apareceu um levita. Então, um
grupo da tribo de Dã, que estava migrando
39 (D) Efra. Dois relatos do estabele­ para o norte, furtou tudo do santuário, in­
cimento do santuário de Efra são dados em cluindo o levita. Quando chegaram a Lais,
Jz 6, um imediatamente seguido do outro. eles mataram todos os habitantes, chama­
De acordo com o primeiro (6,11-24), o anjo ram-na de Dã e ergueram ali seu santuário
de Iahweh apareceu a Gedeão e o comissio­ roubado.
nou a resgatar os israelitas dos saqueado­ A primeira vista, esta história de idola­
res madianitas. No momento da aparição, tria e violência não parece se referir a um
Gedeão estava malhando trigo no lagar. Ele santuário de Iahweh, e, de fato, o redator
tinha parado para comer e o anjo ordenou deuteronomista conta a história para dar
que a refeição fosse oferecida em sacrifício a impressão de que o santuário de Jero-
debaixo do terebinto. Gedeão, então, cons­ boão I em Dã foi corrupto desde o prin­
truiu um altar ali. De acordo com o segun­ cípio. Contudo, era Iahweh o verdadeiro
do relato (6,25-32), foi Iahweh quem falou adorado ali, mesmo que~de uma maneira
a Gedeão em um sonho e ordenou que ele bastante não ortodoxa. Foi a ele que a mãe
quebrasse os altares que seus pais haviam de Micas dedicou a prata, e foi ele quem
erguido em honra a Baal, para derrubar o abençoou Micas por devolver a prata à sua
asherah pagão (poste sagrado), construir mãe. Assim que o levita chegou, Micas o
um altar a Iahweh e queimar um sacrifício, empregou, pois ele sabia que o sacerdócio
usando a madeira do asherah para o fogo. levita era mais aceitável a Iahweh (—» 18
A execução desta ordem causou consterna­ acima). Os danitas usavam o éfode para
ção entre o povo, mas Joás veio em defesa consultar a Deus, e obtinham resposta. O
de seu filho. levita na história era um neto de Moisés
Estes dois relatos têm a ver com o mes­ chamado Jônatas, e seus descendentes
mo santuário. Era um local venerado pelo continuaram a servir no santuário até a
clã de Joás, pai de Gedeão, e duas tradições invasão assíria. Quando Jeroboão I esta­
foram passadas pela família acerca de como beleceu o reino do norte de Israel, ele es­
tinha sido transformado em um santuário de colheu dois centros religiosos como rivais
Iahweh. A mais antiga (a primeira) evocava do Templo, cada um numa extremidade
uma transição pacífica; a segunda parece ter do reino, um ao norte, Dã, e outro ao sul,
sido colorida por conflitos posteriores entre Betei. Em cada um deles ele colocou um
a adoração de Baal e a adoração de Iahweh. bezerro de outro (—> 53 abaixo). A escava­
O único incidente subsequente relatado em ção de Dã revelou a área sagrada da ci­
ligação com este santuário reflete estas duas dade. Dentro dela, de aproximadamente
tendências. Depois de sua vitória, Gedeão da época de Jeroboão I no final do séc. X,
fez um éfode - destinado à honra de Iahweh havia uma plataforma de pedra (bãm â?
- para o santuário como parte de sua mo­ —> 60 abaixo), ampliada na primeira me­
bília cúltica, mas o redator deuteronomista tade do séc. IX e provida de uma escada
o interpretou como um objeto de adoração para sua superfície superior no séc. VIII.
idólatra (Jz 8,22-27; —» 9 acima). A relação arquitetônica desta plataforma
com o bezerro de ouro não é conhecida. 42 (III) O T e m p lo d e Je r u s a lé m .
Veja A. Biran, BA 37 (1974) 40-43; Temples De acordo com 2Cr 3,1,
(A ) L o c a liz a ç ã o .
142-51; —> Arqueologia bíblica, 74:119. Salomão construiu o Templo no local esco­
lhido e comprado por Davi; tratava-se de
41 ( F ) J e r u s a l é m . Jerusalém era, na­ uma eminência rochosa ao norte de Ofel,
turalmente, o maior dos santuários israe­ a colina oriental à qual a cidade foi então
litas. A própria cidade não era de domínio confinada. O local esteve ocupado continu­
israelita até a época de Davi, que efetuou amente desde então e agora é ocupado pela
sua captura e a fez sua capital. Ele trou­ Mesquita de Omar e a assim chamada Cú­
xe a Arca de Cariat-Iarim (2Sm 6) em uma pula da Rocha. Enquanto que a área geral
procissão marcada por incidentes muito é de fácil identificação, há a questão sobre
dramáticos e a colocou sob uma tenda no a localização exata do Templo. Parece certo
local escolhido para ela. (Esta narrativa que sua entrada estava voltada para o les­
pode ter sido colorida pelos SI 24,7-10 e te, e explorações sugerem que o Santuário
132, se eles foram cantados no aniversário ficava aproximadamente a uns 45 metros
da ocasião.). Posteriormente, Davi erigiu ao norte da Cúpula da Rocha (BARev 9 [2,
um altar no local do futuro Templo. Esta 1983] 40-59; —>Geografia bíblica, 73:92-93).
história, conforme contada em 2Sm 24,16­
25 (veja lC r 21,15-22,1), contém todas as 43 (B) I n t e r i o r e e x t e r i o r . O Templo
características convencionais de relatos de de Salomão levou aproximadamente sete
fundação: aparição celestial, mensagem anos para ser construído (lRs 6,37-38; —>
divina, construção do altar, oferta de sacri­ Arqueologia Bíblica, 74:109). A madeira e
fício. a mão de obra profissional foram obtidos
Uma outra característica convencional, de Hiram, rei de Tiro; a pedra e o trabalho
contudo, falta aqui. De uma forma bastante braçal vieram dos arredores de Jerusalém
consistente no período patriarcal e de uma (lRs 5,15-31). A descrição bíblica do Tem­
maneira frequente durante o período dos plo está clara em suas linhas gerais, mas em
juizes, os santuários israelitas foram esta­ detalhes deixa muito a desejar (lRs 6-7; 2Cr
belecidos em locais onde já existiam santu­ 3-4). Não nos é dito, por exemplo, qual a
ários pagãos. Havia, sem dúvida, tal local grossura das paredes, como a fachada era
em Jerusalém: Melquisedec, seu rei durante ornamentada ou que tipo de teto foi usado.
o período patriarcal, é apresentado como Muitos estudiosos recorrem a informações
sacerdote de El Elyon, uma divindade ca- posteriores dadas na visão de Ezequiel de
naneia bem conhecida (Gn 14,18-20). Mas forma a preencher o que falta em lRs. Por
tudo nas passagens referentes ao estabe­ exemplo, Ez 41,5 fala que as paredes do
lecimento do santuário israelita indica de Templo tinham 2,7 m de espessura, e Ez
forma bastante clara que, se houvesse tal 40,49; 41,8 descrevem o Templo em cima de
santuário, este não foi tomado por Davi. uma plataforma de 2,7 m de altura.
A Arca foi colocada em uma tenda, não em O interior estava dividido em três partes:
uma estrutura já existente; e o local escolhi­ o Ulam ou Átrio; o Hekal (palácio; templo),
do para o altar e, finalmente, para o Templo posteriormente chamado de Lugar Santo
não tinha associações religiosas. Tinha sido ou Santuário; e o Debir (sala de trás), pos­
uma eira que pertencia a um jebuseu nativo teriormente chamado de Santo dos Santos.
chamado Areúna (2Sm 24,18-21). Contudo, A parte mais sagrada era o Santo dos San­
existe uma pequena possibilidade de que os tos, pois nele era mantida a Arca da Aliança.
redatores tenham omitido propositalmente As medidas interiores eram as seguintes: a
de sua narrativa qualquer coisa que suge­ estrutura tinha 9m de largura; o Ulam tinha
risse que o Templo tivesse antecedentes pa­ 4,5 m, o Hekal, 18 m, e o Debir, 9 m de ex­
gãos (—» 16 acima). tensão. O texto não deixa claro como essas
TEMPLO DE SALOMAO

- 30 ’ - - 60'

C =D= io „ t ÿ
fp*. * * * *

I. Planta g. Altar de Bronze (com degraus retos segun­


a. Átrio ou Pórtico ( ’ülãrri) do Albright-Wright)
b. Lugar Santo ou Santuário QiêkãJ), 18 x 9 x 12 m h. Arca da Aliança
c. Santo dos Santos (dêbír), 9 x 9 x 9 m i. Querubins
d. Câmaras laterais - três andares, cada nível j. Altar do Incenso
0,45m mais amplo que o andar inferior k. Mesa para os Pães da Proposição
e. Dois pilares independentes de Jaquin e * Dez Candelabros - cinco de cada lado
Booz
f. Mar de Bronze (fundição)

II. Vista Frontal


d. Câmaras laterais: Tesouraria
e. Jaquin e Booz (12 m de altura)
f. M ar de Bronze (fundição) (4,5 m de
diâmetro)
g. Altar de Bronze (zigurate segundo
Garber)
h. Teto plano (cornija egípcia segundo
Garber) (Albright mostra ameados)

N.B.: Nenhuma torre

III. Planta baixa de uma capela fenícia

Esta capela fenícia do séc. VIII dos reis de


Hattina (Tell Tainat), na Síria, tinha dois terços
do tamanho do Templo de Salomão.
partes eram separadas, mas deve ter havido explicação popular os toma juntos e tra­
uma parede entre o Ulam e o Hekal. Ainda, duz: "Ele (Iahweh) estabelecerá com força."
enquanto lR s 6,2 fala do Hekal e do Debir Muitas outras suposições têm sido feitas,
como uma unidade, 6,16-17 sugere que eles mas uma das mais interessantes é que eles
estavam separados, pois dá o comprimento representavam as exclamações satisfeitas
de ambos. De Vaux sugeriu uma correção do artesão: Yãkin (É sólido!) e B õ ‘az (Com
de 6,16 que lançaria mais luz sobre o assun­ força!). Veja R. B. Y. Scott, JBL 58 (1939) 143­
to: Salomão "usou madeira de cedro para 49. O templo de Arad também tinha dois
construir os 20 côvados [= 9 m] da parte de pilares flanqueando a entrada para o salão
trás do Templo, do chão às vigas, e (estes principal.
20 côvados) 'foram separados' do Templo
para o Debir." 45 De acordo com lR s 6,5-10, uma
Teria havido, então, uma partição estrutura de três andares baixos cercava
transversal diferente dos painéis de cedro os três lados do Debir e os dois lados do
que revestiam as paredes internas. É inte­ Hekal. Aparentemente, apenas um dos três
ressante que no recém descoberto templo andares, de 2,2 m de altura, estava no plano
a Iahweh em Arad (um contemporâneo do original. Posteriormente, este se mostrou
Templo de Salomão; —» Arqueologia bíbli­ inadequado como local de, e dois anda­
ca, 74:109), a área que poderia ser chamada res foram acrescentados, cada um 0,45 m
de Debir é apenas uma sala que se projeta a mais largo que o outro, e foram ajustados
partir da sala principal que é equivalente ao nos recuos existentes na parede externa do
Hekal. De acordo com 6,20, o Debir era um Templo. Não temos certeza de onde era a
cubo perfeito de 9 m, mas de acordo com entrada para esses depósitos, mas pode ter
6,2, a altura do edifício do Templo, presu­ sido no ângulo direito (lRs 6,8). O acesso ao
mivelmente contenda tanto o Hekal quanto segundo e ao terceiro andar era por meio
o Debir, não era de 9 m (a altura do cubo), de alçapões. A existência de recuos nas pa­
mas de 13,7 m (ou, de acordo com a LXX, redes externas se explica pela maneira em
11,4 m). Isto pode ser porque o chão do que aqueles muros foram construídos. De
Debir estava em um nível mais alto que o acordo com lRs 6,36; 7,12, as paredes dos
do Hekal, mas alguns estudiosos, ao inter­ pátios e do palácio tinham três fileiras de
pretarem o Debir como uma estrutura em pedra revestida e uma de madeira, e as
forma de cubo de madeira colocada dentro paredes do Templo provavelmente foram
do Templo em sua extremidade ocidental construídas da mesma maneira (veja Esd
(H. Schult, ZDPV 80 [1964] 46-54; M. Noth, 6,14) A fileira de madeira deve ter servido
Könige [BKAT 9/2; Neukirchen, 1965] 99­ de moldura para a superestrutura de tijolos
10 0 ,119-21), distinguem o topo do cubo de que ficava no topo da construção de pedra,
madeira do teto de pedra do Templo que e cada fileira de pedra deve ter sido mais
fica vários pés mais alto. leve e estreita que a fileira abaixo, forman­
do, assim, os recuos.
44 Exterior. Diretamente em frente ao Cercando o Templo estava o "pátio in­
Templo de Salomão estavam dois pilares, terno" (lRs 6.36). Este foi posteriormente
flanqueando a entrada; eles não eram parte estendido para incluir um pátio superior e
integral da fachada, mas permaneciam li­ um inferior (2Cr 20,5; 2Rs 21,5; Jr 36,10).
vres dela. Mais simbólicos que funcionais,
eles podem ter sido vestígios dos antigos 46 (C) M obília. A mobília interior do
masseboth cananeus ou esteias sagradas. Templo de Salomão são as seguintes. Den­
Cada uma tinha um nome: uma era Jaquin, tro do Debir ou Santo dos Santos estava a
a outra, Booz (lRs 7,21). O significado pre­ Arca da Aliança; perto ou em cima dela,
ciso desses nomes ainda não é certo. Uma estavam dois querubins de madeira reves­
tidos de ouro cujas asas estendidas iam de ortodoxa. Se o rei figurava tão notavelmen­
parede a parede. As próprias figuras chega­ te em sua operação, era porque ele era seu
vam até metade da altura do teto (lRs 6,23­ patrono principal e porque seu papel como
28; 2Cr 3,10-13; veja lR s 8,6-7; 2Cr 5,7-8). vice-regente de Iahweh lhe dava um caráter
No Hekal ou Santuário estavam o altar do - se não estritamente sacerdotal, pelo menos
incenso, a mesa para os pães da proposição sagrado - que ele tinha liberdade para exer­
e dez candelabros (lRs 7,48-49). No pátio citar oportunamente.
em frente ao Templo, de um lado dos de­
graus de entrada, estava o altar de bronze 48 (E ) H is tó r ia d o p r im e ir o e s e g u n d o
(8,64; 9,25; 2Rs 16,14); do lado oposto estava O Primeiro Templo de Salomão so­
T e m p lo s .
o "m ar" de bronze (fundição). Este era um freu todas as vicissitudes da própria nação.
vaso amplo que repousava sobre as costas Foi alterado, profanado, restaurado e, final­
de 12 estátuas de touros (lRs 7,23-26). En­ mente, reduzido a entulho. Os dois andares
fileiradas em cada lado da entrada estavam superiores podem ter sido acrescentados ao
dez mesas sobre as quais estavam bacias de edifício externo por Asa (lRs 15,15). Josafá
bronze. Estas mesas podiam ser transporta­ estendeu o pátio (2Cr 20,5). Os pátios supe­
das pelo pátio se necessário (7,27-29). Os sa­ rior e inferior resultantes foram ligados por
cerdotes usavam o "M ar" para seu próprio um portão durante o reinado de Jotão (2Rs
ritual de purificação; as bacias menores 15,35; cf. Jr 26,10; 36,10). Todos os sucessores
eram usadas para a purificação das vítimas de Salomão foram ungidos no pátio do Tem­
(2Cr 4,6). Sobre o kappõret do Segundo Tem­ plo, e a rebelião contra Atalia e a subsequen­
plo, que não tinha Arca, —>35 acima. te unção de Joás aconteceram ali (2Rs 11).
Acaz demoliu o altar de bronze de Salomão
(Quanto à arquitetura e planta do Templo de e construiu outro seguindo o padrão de um
Salomão, veja: T. B u sin k , Der Temple von Jerusa­ em Damasco (16,10-16). Ele também confis­
lem von Salomo bis Herodes 1: Der Temple Salomos cou as bacias móveis e removeu os touros
[Leiden, 1970]; P. L. G a r b e r , BA 14 [1951] 2-24;
de bronze que estavam debaixo do grande
J. O u e l e t t e , RB 76 [1969] 365-78; JBL 89 [1970]
"Mar", provavelmente porque ele precisava
338-43; JNES 31 [1972] 187-91; G . E. W r ig h t , BA
4 [1941] 17-31; BA 18 [1955] 41-44. Quanto a tem­ de dinheiro para pagar tributo ao seu senhor
plos de estrutura semelhante em outros lugares, assírio (16,17). Manassés ergueu altares idó­
—> Arqueologia bíblica, 74:109. Reconstruções latras e uma imagem de Aserá (21,4-5.7).
do Templo por G a r b e r e W r ig h t são a base do Em tempos de fervor e reforma religio­
diagrama que acompanha este artigo. Quanto aos sos, estas abominações foram removidas e o
candelabros, veja BARev 5 [5,1979] 46-57.) Templo foi renovado. Assim foram os tem­
pos de Ezequias (2Rs 18,4) e especialmente
47 (D) Status. Sugeriu-se, de forma um de Josias (23,4-12). Mas estas reformas per­
tanto depreciativa, que o Templo de Salo­ maneceram basicamente externas e não fo­
mão era meramente uma capela real. E ver­ ram capazes de efetuar uma mudança geral
dade que era uma das muitas construções e duradoura de atitude entre o povo. Com
no complexo do palácio e tinha proporções encorajamento oficial, o povo repetida­
relativamente modestas. Também é verdade mente retornou aos seus antigos caminhos
que o rei o dedicou e subsidiou ricamente, e sincretistas, e Ez 8 retrata graficamente a si­
que seus sucessores contribuíram para a te­ tuação um pouco antes dos babilônios des­
souraria do Templo e fizeram retiradas dela. truírem o Templo de Salomão em 587.
Os reis eram responsáveis pela manutenção
do Templo (—> 17 acima) e tinham inclusive 49 O Segundo Templo. Em 538, quando
um trono colocado no pátio. Mas o Templo os judeus retornaram do exílio, trouxeram
era muito mais que uma capela real: era o com eles autorização persa para reconstruir
santuário nacional, o centro da adoração o Templo. Ciro restaurou-lhes os utensílios
preciosos que Nabucodonosor havia fur­ vida de Israel, fundamentalmente porque o
tado. Porém, o trabalho de reconstrução Templo era considerado a casa do próprio
avançou muito lentamente. Os primeiros Deus no meio de seu povo. Com a entra­
repatriados ergueram um novo altar (Esd da da Arca no novo Templo de Salomão,
3,2-6) e começaram a reconstruir o templo Deus simbolicamente tomou posse de sua
(5,16). Eles mal tinham removido o entulho casa e, de acordo com lR s 8,10, uma nu­
da área quando foram interrompidos pelas vem significando a presença divina enchia
táticas hostis dos samaritanos (4,1-5). Uma o Templo (Ex 33,9; 40,34-35; Nm 12,4-10).
outra razão é sugerida por Ageu 1,2, a sa­ Há referência à ideia de morada divina no
ber, seu próprio desencorajamento e entu­ discurso de consagração de Salomão (lRs
siasmo abatido. O trabalho foi retomado, 8,13); veja também lRs 8,12; 2Rs 19,14; SI
em 520, sob a direção enérgica de Zoroba- 27,4; 84; Am 1,2; Is 2,2-3; 6,1-4; Jr 14,21. Os
bel e Josué, e com o estímulo de Ageu e Za­ profetas, contudo, compreenderam que a
carias (Esd 4,24-5,2; Ag l,l-2,9; Zc 4,7-10). presença de Deus no meio de seu povo era
A tarefa foi completada em 515. um favor que poderia ser retirado se eles se
Infelizmente, temos poucas informações mostrassem indignos dela. Jeremias falava
sobre o surgimento do Templo pós-exílico. com franqueza contra aqueles compatriotas
Com toda probabilidade, ele foi construí­ que viam o Templo como uma espécie de
do sobre as mesmas linhas e era da mesma amuleto da sorte que os protegeria contra
proporção do Templo de Salomão. Diz-se forças hostis, quer eles vivessem de forma
que o povo antigo que lembrava do Templo a merecer tal proteção, quer não (Jr 7,1-15;
de Salomão derramou lágrimas ao ver a re­ 26,1-15; veja Ex 8-10).
construção (Esd 3,12-13; Ag 2,3). Mas estes A medida que as noções teológicas fo­
textos se referem ao novo Templo quando ram sendo aperfeiçoadas e a transcendên­
estava em processo de- construção. O pro­ cia de Iahweh veio a ser compreendida
duto final, embora não tão resplandecente mais precisamente, uma inquietação se
quanto seu predecessor, era substancial e manifestou. Poderia o Deus transcendente
digno de seu alto propósito. ser confinado dentro dos limites físicos do
Santo dos Santos? Este conflito está refleti­
50 Com o tempo, seu esplendor au­ do na oração que o redator deuteronomis­
mentou; e quando Antíoco Epífanes o sa­ ta coloca nos lábios de Salomão: "Mas será
queou em 169, seu saque foi notável: o altar verdade que Deus habita nesta Terra? Se
de ouro e o candelabro, a mesa de ofertas, o os céus e os céus dos céus não te podem
véu que estava na entrada, o prato de ouro, conter, muito menos nesta casa que cons­
utensílios sagrados e tesouros (lM c 1,21-24; truí!" (lRs 8,27). Nos próximos versículos
2Mc 5,15-16; veja 2Mac 3). Mais profana­ (30-40), ele dá a resposta: Deus vive no
ções ocorreram quando, em 167, o sacrifício céu, mas ele ouve as orações que lhe são
legítimo foi banido e suplantado pelo culto dirigidas no Templo. Sua transcendência
a Zeus Olímpico (lM c 1,44-59; 2Mc 6,1-6). estava protegida ainda mais pela noção de
Em 164, depois das vitórias dos macabeus, que seu "N om e" habitava no Templo (lRs
os recintos sagrados foram purificados, os 8,17.29; Dt 12,5.11). Esta era uma concilia­
utensílios roubados foram restaurados, e o ção engenhosa, pois entre os semitas havia
Templo voltou a ser dedicado (lM c 4,36-59). uma ligação intrínseca entre a pessoa e o
Em 20 a.C., Herodes o Grande encarregou- nome (—> Pensamento do AT, 77:6). Onde
se da reconstrução completa do Templo (—» estava o nome de Iahweh, ali ele estava
Arqueologia bíblica, 74:138). também, de forma especial, mas não ex­
clusiva. Outros documentos bíblicos enfa­
51 (F) Importância teológica. O Tem­ tizam que a "Glória" de Deus habitava no
plo desempenhou um papel importante na Templo (2Cr 5,14; Ez 10,4; 43,5).
52 Além de ser um sinal da presença do norte separaram-se e formaram o reino
de Deus, ou talvez porque fosse, o Templo de Israel com Jeroboão como seu primei­
era também um símbolo de sua escolha de ro rei. Temendo que a lealdade religiosa
Israel como seu próprio povo. Ainda mais contínua a Jerusalém enfraqueceria a leal­
especificamente, ele significava sua pre­ dade política de seu povo ao novo reino,
dileção por Jerusalém (2Sm 24,16; 2Cr 3,1; ele ergueu santuários rivais em Betei e Dã
SI 68,17; 78,68). Esta noção está enraizada, (lR s 12,27-30). Embora ele tenha colocado
enfim, na escolha de Davi por Iahweh e na bois revestidos de ouro nestes santuários,
promessa de perpetuidade à dinastia daví- ele não intencionava rejeitar a Iahweh.
dica (lRs 8,16; 11,13.32; 2Cr 6,5-6; 2Rs 19,34; Como os querubins no topo da Arca, es­
Is 37,35; —>Pensamento do AT, 77:155). Em tas figuras foram concebidas como tronos
701, quando a cidade santa foi salva da des­ de Deus, não como deuses. Infelizmente,
truição do exército de Senaquerib, o povo contudo, o boi era um símbolo popular do
estava persuadido de que o próprio Tem­ deus cananeu Baal e estava associado aos
plo lhe dava proteção contra qualquer força grosseiros cultos de fertilidade aos quais
que o assaltasse. Esta convicção foi abalada os cananeus eram tão apaixonadamente
pela catástrofe de 587, mas reviveu de for­ afeiçoados. O passo para um sincretismo
ma moderada após o retorno do exílio e da beirando a idolatria era pequeno, e as rea­
reconstrução do Templo. ções violentas dos profetas indicam que o
passo foi agilmente dado (lR s 12,32; 14,9;
53 (G) S i n g u l a r i d a d e d o s a n t u á r i o . 19,18; 2Rs 10,29; 17,22; Os 8,5-6; 10,5; 13,2).
Temos falado do Templo como o centro da Apesar das fulminações dos profetas, os
adoração legítima, de fato, como o único santuários de Dã e Betei, Bersabeia (Am
lugar de adoração em Israel; e é verdade 5,5; 8,14), Guilgal (4,4; 5,5; Os 4,15) e ou­
que ele finalmente foi reconhecido como tros locais não mencionados continuaram
tal. Porém, no início, como vimos, havia a prosperar (Am 7,9; Ez 7,24). As escava­
muitos santuários por toda terra, particu­ ções em Arad no Negueb (—» Arqueologia
larmente durante o período dos juizes; e Bíblica, 74:109) descobriram um templo
de fato, Ex 20,24-26 reconheceu a legitimi­ que estava em uso durante todo o período
dade desses vários altares e dos sacrifícios da monarquia; contudo, seu altar de holo-
oferecidos neles, contanto que tivessem caustos parece ter desaparecido durante o
sido erguidos com sanção divina. Esta san­ tempo do rei Ezequias - talvez uma mar­
ção teria sido indicada por uma teofania ca da reforma a ser mencionada abaixo.
no local em questão. Mas nem todos estes Mas Jerusalém manteve seu prestígio, e,
santuários tinham importância igual. Du­ mesmo depois de ter sido destruída, gru­
rante o período dos juizes, sempre que as pos de peregrinos vinham de todo o país
tribos se reuniam para adoração pública, devastado para adorar ali (Jr 41,5).
era sempre no santuário em que a Arca era
mantida, particularmente em Silo e mais 54 Antes da queda da cidade, houve
tarde em Gabaon. duas tentativas de tornar este Templo não
A instalação da Arca em Jerusalém por somente o local central de adoração, mas o
Davi foi o início do prestígio desta cida­ único santuário legítimo. Ezequias deu os
de; porém, Gabaon ainda era o "lugar alto primeiros passos nessa direção, em torno
mais im portante" nos dias de Salomão de 715-705, ao proscrever os "lugares al­
(lR s 3,4-15). Porém, com a construção tos" (2Rs 18,4; Is 36,7). Porém, seu sucessor,
do Templo, Jerusalém se tornou o ponto Manasses, desfez sua reforma abrindo os
principal do culto divino, atraindo milha­ santuários proibidos (2Rs 21,3). Josias reno­
res de peregrinos de todo o país. Então vou os esforços feitos por Ezequias em uma
aconteceu a divisão do reino: as dez tribos escala mais solene e ambiciosa. A situação
internacional estava a seu favor, pois ele 55 De qualquer forma, depois da mor­
conseguiu libertar seu país do domínio as­ te de Josias, em 609, a reforma deteriorou
sírio, e o extermínio de intromissões exter­ até que o Templo foi finalmente destruído
nas no culto a Iahweh assumiu uma fasci­ em 587. Depois do retorno do exílio, contu­
nação patriota. Ele mais uma vez eliminou do, o ideal deuteronomista ao qual Josias
os santuários locais e convocou todos os tinha tão zelosamente aderido se tornou
sacerdotes de Judá a Jerusalém (23,5.8-9). realidade. De 515 a.C. a 70 d. C, quando
O enfraquecimento da hegemonia assíria os romanos destruíram o Templo de uma
lhe permitiu se mover ao que outrora fora o vez por todas, ele era o único local de ado­
reino do norte e colocar o santuário de Betei ração para toda Judá. Fora de Judá, sabe­
fora de operação. Finalmente, Josias reuniu mos de dois templos judaicos no Egito,
todo o povo para uma celebração nacional um em Elefantina, o outro em Leontópolis.
da Páscoa em Jerusalém. Isto aconteceu no Ambos eram olhados com desaprovação
ano de 621, o ano em que se encontrou o aberta por parte dos judeus ortodoxos da
"Livro da Lei" no templo (provavelmente a Palestina (—» História, 75:125). Dentro da
parte mais importante de Dt; —» Deuteronô- própria Palestina havia o templo samarita-
mio, 6:4). no no Monte Garizim, mas este era ainda
Esta descoberta foi literalmente uma menos uma instituição israelita. Os relatos
dádiva de Deus para Josias, pois uma das de seu estabelecimento são conflitantes e
preocupações centrais do livro era preci­ incertos, mas ele certamente já existia an­
samente a unidade do Santuário (Dt 12). tes de 167 a.C., quando Antíoco Epífanes
Uma vez que a redação deuteronômica o helenizou. João Hircano, da linhagem
da lei se originou no reino do norte, ela
asmoneia, o destruiu em 129 (—> História,
poderia ter originalmente em mente um 75:127,140).
santuário no norte (Siquém?) como o úni­
co lugar legítimo de adoração. De acordo
56 ( I V ) S i n a g o g a s . As sinagogas não
com uma teoria, refugiados levitas trou­
figuram na literatura do AT, e há uma
xeram o livro a Jerusalém depois da que­
grande diversidade de opiniões sobre
da de Samaria em 721, e Ezequias aplicou
quando elas começaram a existir. Confor­
o princípio da unidade do santuário ao
me a raiz grega de seu nome indica (syn =
Templo. Depois do tempo de Ezequias, o
"com "; agein = guiar, conduzir), elas eram
"Livro da Lei" caiu em desuso durante o
casas de reunião - lugares onde o povo se
longo e maléfico reinado de Manassés e
reunia não para sacrifício, mas para ora­
seria apenas redescoberto por Josias. Uma
ção, leitura devota, meditação e instru­
teoria alternativa atrativa é a seguinte: A
ção. Elas certamente existiam no período
lei da unidade do santuário pode ter sido
antes o resultado da reforma de Ezequias, pós-exílico, e a hipótese mais popular é
e não o estímulo para ela. Afinal, em rela­ que elas surgiram como uma instituição
ção à reforma de Ezequias, nenhum apelo durante o exílio, quando o povo foi pri­
foi feito a uma lei antiga que justificas­ vado do Templo. Contudo, não há evi­
se um santuário, mas na época de Josias dência substancial para esta teoria; outros
esta lei estava nos livros. A formulação estudiosos, sem evidências mais fortes a
da lei em referência ao "lugar escolhido seu favor, acreditam que elas surgiram na
por Iahweh, em que seu Nome habitará" própria Palestina depois do exílio. Alguns
é característica da teologia do Templo de poucos opinam que elas se originaram an­
Jerusalém e apenas com dificuldade pode tes do exílio como resultado da supressão
ser explicada como uma aplicação secun­ dos santuários locais realizada por Josias.
dária de uma designação uma vez aplica­ (Veja J. Gutmann [ed.], The Synagogue
da a um santuário do norte. [New York, 19751.)
A L T A R E S E S A C R IF ÍC IO S

57 Altar e sacrifício são termos correla­ animais grandes ou porções inteiras de ani­
tas: a menção de um imediatamente sugere mais eram queimados. Por causa da quanti­
o outro. De fato, a palavra hebraica para al­ dade de fogo necessário para tais sacrifícios
tar, mizbêah, inclui em sua conotação a pró­ e da fumaça resultante, estes altares maio­
pria noção de sacrifício, pois se origina de res normalmente permaneciam ao ar livre,
um verbo que significa "matar". Aparente­ fora da estrutura do templo.
mente, as vítimas eram originalmente mor­
tas sobre o altar, embora em um período 59 A Bíblia mostra que, na antiga Pa­
posterior o altar fosse usado apenas para o lestina israelita, um afloramento natural de
ato da oferta. Consequentemente, mizbêah, rocha ou uma pedra enorme serviam como
assumiu o sentido geral de um local onde altar. Gedeão recebeu ordens para colo­
se ofereciam sacrifícios, fosse a vítima um car sua oferta sobre uma rocha (jz 6,19-23;
animal (já morto), cereais ou incenso. veja também 13,19-20). Quando a Arca foi
mandada de volta a Israel pelos filisteus, as
58 ( I ) T i p o s d e a l t a r e s . Investigações vacas, juntamente com a carroça que elas
arqueológicas da antiga Palestina e regiões puxavam, foram queimadas como sacrifí­
vizinhas revelaram altares construídos de cio sobre uma pedra grande (iSm 6,14). Em
terra ou tijolos não queimados ou de pedra Ex 20,24-26 (legislação antiga no Código da
bruta; elas também revelaram afloramentos Aliança), tanto tijolos não queimados quan­
naturais de rocha com cortes que levaram to pedras são usados como materiais para
alguns a pensar que eram usados como al­ a construção de um altar, com a prescrição
tares, embora isto seja muito difícil de deter­ (suposta por Dt 27,5; Js 8,30-31) de que a
minar. (Veja F. L. Stendebach, BZ 20 [1976] pedra não fosse cortada por ferramentas
180-96.). Os altares de madeira, conhecidos quando usada na construção do altar. Esta
através de poucos textos, se desintegraram cláusula pode refletir a ideia religiosa de que
muito antes que pudessem ser descobertos um objeto tão santo quanto um altar deve­
pela pá arqueológica. A maioria dos altares ria ser construído com materiais em seu es­
antigos encontrados na própria Palestina tado natural, não trabalhados pelas mãos de
são altares feitos de um só bloco de pe­ criaturas (veja Ex 20,25). Uma preocupação
dra, tipicamente com saliências (chamadas semelhante pode ser a base da lei que proi­
"chifres" no AT) que saem de cada um dos bia degraus que iam do chão até o topo do
quatro cantos da superfície superior. Tais altar (Ex 20,26). A modéstia foi dada como
altares diferem em tamanho de acordo com razão para esta prescrição: quando a única
suas funções. Altares menores eram apro­ veste usada pelo sacerdote do sacrifício era
priados para oferta de queima de incenso um tipo de tanga, o sacerdote corria o risco
ou para ofertas de alimento ou líquido que de exposição indecente ao subir os degraus.
ficavam sobre o altar como que sobre uma Mais provavelmente, a razão original para
mesa, sem serem queimados. Estes altares a proibição é que degraus construídos arti­
menores podiam facilmente ficar dentro da ficialmente, em que se pisava, eliminariam
estrutura do Templo, visto que as substân­ a separação do altar santo daquilo que era
cias oferecidas sobre eles eram consumi­ profano.
das por um pequeno fogo sem chama ou
não eram consumidas pelo fogo. (Para tais 60 ( I I ) O bamâ. O bamâ, convencional­
propósitos, também serviam plataformas mente traduzido por "lugar alto", era um
de terracota, com frequência encontradas local de adoração ao ar livre cuja aparên­
nas ruínas de antigos santuários.). Altares cia precisa não foi determinada, mas que
maiores serviam para sacrifícios em que parece ter sido uma plataforma de dimen­
sões grandes. O próprio bãmâ não era um Um detalhe nessa descrição corresponde
templo ou santuário, a casa de um deus; ao único detalhe descritivo preservado do
como uma construção sagrada, é melhor altar de Salomão (lRs 8,64; 2Rs 16,14-15),
compreendida como análoga a um altar ao construído no final do séc. X: era de bronze.
ar livre. Como os altares independentes de Este altar foi substituído 200 anos depois
qualquer santuário, era um local em que as por um que seguia o modelo de um altar
ofertas de sacrifício podiam ser feitas sem que o rei Acaz, de Judá, tinha visto em Da­
a intervenção de um sacerdote, apesar de masco (2Rs 16,10-16).
que, quando um bêt bãmâ (algum tipo de
estrutura de santuário) era construído, o 62 As referências ao altar do incenso
serviço de um sacerdote fosse requerido no Templo de Salomão são suficientes para
(1 Rs 12,31). Refeições sacrificais em um estabelecer sua existência; contudo, a obs­
bãmâ (ISm 9,13.19.22-24) eram servidas em curidade dos textos causou algumas dúvi­
um salão (liskâ, 9,22). Profetas (10,5) ou um das sobre este fato. O lugar próprio para
vidente (9,11-21) poderiam estar ativos em este altar era o Hekal do Templo, em frente
um bãmâ. Nestes textos primitivos, o bãmâ é ao Debir que continha a Arca. Sua aparên­
um lugar de culto legítimo. Os comentários cia pode ser estimada a partir da descrição
editoriais deuteronômicos posteriores so­ de um altar de incenso para o Tabernáculo
bre o bãmâ e sobre qualquer sacerdote que do deserto em Ex 30,1-5; 37,25-28: um al­
atuasse em um santuário relacionado ao tar de 0,45 m2 por 0,9 m de altura, feito de
bãmâ são negativos, sem dúvida, em virtu­ madeira de acácia revestida de ouro, com
de da concepção de que um templo deveria uma projeção parecida com um chifre em
ser o único lugar legítimo de toda adoração cada um dos quatro cantos. Este é o "altar
e requeria serviço sacerdotal. (Veja W. B. de ouro" mencionado em lR s 7,48. Na vi­
Barrick, SEA 45 [1980] 50-57; P. H. Vaughan, são inicial de Isaías, descreve-se um sera­
The Meaning of ‘Bãmâ ’ in the Old Testament fim levando uma brasa viva de um altar
[SOTSMS 3; Cambridge, 1974]; P. Welten, dentro do templo (Is 6,6) - um altar que só
ZDPV 88 [1972] 19-37; Biran (ed.), Temples pode ser o altar de incenso (veja também
31-37,142-51.) 2Cr 26,16).

61 (III) Altares do Templo de Jerusa­ 63 Sobre os altares do Segundo Tem­


lém. As descrições bíblicas dos altares do plo temos pouca informação confiável.
Tabernáculo do deserto foram afetadas pela A descrição visionária do altar dos holo­
aparência dos altares do Templo e consti­ caustos em Ez 43,13-17 mostra traços babi­
tuem, assim, uma fonte importante do nos­ lónicos, e não há evidência de que o altar
so conhecimento deste. No pátio diante da dos holocaustos realmente construído para
estrutura do Templo estava o altar dos holo- o Segundo Templo estivesse em estreita
caustos (Ex 40,6.29), estranhamente omitido conformidade com esse. Historicamente
da descrição detalhada do Templo de Salo­ confiável é a informação de que Antíoco
mão em lR s 6-7, mas mencionado em lRs Epífanes removeu o altar de incenso (o "al­
8,22.54.64; 9,25. De acordo com Ex 27,1-8; tar de ouro") e a mesa para os pães da Pre­
38,1-7 (uma descrição relacionada ao Taber­ sença do Segundo Templo em 169 a.C. (lM c
náculo do deserto), o altar dos holocaustos, 1,21-22) e profanou o altar dos holocaustos
2,2m x 2,2m x l,3m , era feito de madeira em 167 ao colocar sobre ele um altar a Zeus
de acácia revestida de bronze. Era oco com Olímpico (lM c 1,54.59; 2Mc 6,2.5) - a "abo­
uma grelha de bronze, presumivelmente minação da desolação" (lM c 1,54; Dn 9,27).
no topo. Nada se diz sobre como o fogo do Novos altares e uma nova mesa foram co­
sacrifício não destruía tal altar ou se havia locados no lugar depois das vitórias maca-
degraus que facilitavam o acesso ao topo. beias (lM c 4,44-47.49-51; 2Mc 10,3).
64 (IV) Relevância do altar. Assim fazia em outros rituais de expiação ou pu­
como o Templo, o altar tinha uma relevân­ rificação (Lv 4; 8,15; 9,9; 16,18). Uma pessoa
cia religiosa profunda para os israelitas, que buscasse asilo corria para se agarrar aos
provindo muito disso das culturas do anti­ chifres (lRs 2,28). Seu significado preciso é
go Oriente Próximo, mas sendo conceitual- incerto; as sugestões incluem as seguintes:
mente modificado para ficar em harmonia o chifre é um símbolo de força e poder; ou
com as concepções teológicas da religião os chifres simbolizam os das vítimas do
israelita ortodoxa. Os templos no antigo sacrifício; ou, ainda, eles são vestígios dos
Oriente Próximo sempre foram conside­ masseboth ou esteias que na antiga Palestina
rados as casas dos deuses na terra, e disso eram símbolos comuns de uma divindade
foi fácil derivar uma percepção de um al­ (—>Arqueologia bíblica, 74:39).
tar maior como lar do deus. Em Israel, esta
ideia está implícita na lei que requeria que 66 (V) Sacrifícios. O ato central da
um fogo sempre estivesse queimando sobre adoração israelita, o sacrifício, tomou for­
o altar (Lv 6,5-6 [12-13]). No antigo Oriente mas específicas diferentes. Há, com frequ­
Próximo, o alimento oferecido a um deus ência, uma falta desconcertante de precisão
era a refeição de um deus. Este conceito nas designações dos sacrifícios, e práticas
aparece raramente na Bíblia e é ridicula­ posteriores são inseridas nas descrições ou
rizado na história relativamente posterior prescrições de um tempo mais antigo, o que
de Bei e o Dragão (Vg Dn 14,1-22); mas Ez torna difícil traçar claramente um desen­
41,21-22 fala da "m esa" do pão da Presen­ volvimento histórico. Em Lv 1-7, contudo,
ça, e em Ml 1,7 o próprio altar (de holo- encontramos vários tipos de sacrifícios con­
caustos) é chamado de "mesa de Iahweh" forme eram executados no Templo pós-exí-
(veja também Ez 44,15-16; Ml 1,12). O altar lico. Esporadicamente, encontramos outros
era também um sinal da presença divina. textos que são paralelos ao trecho de Lv 1-7,
Como tal, tanto o altar de holocaustos (Ez mas que diferem em detalhes.
29,37; 40,10) quanto o altar do incenso (Ex
30,10.36) eram particularmente santos e po­ 67 (A) Holocausto ou oferenda quei­
diam ser servidos apenas pelos sacerdotes mada. O mais solene dos sacrifícios israe­
(Lv 21,6; Nm 17,5; 1 Cr 23,13). O altar dos litas era o holocausto, ou oferta queimada.
holocaustos tinha de ser consagrado antes Neste, a vítima era completamente queima­
de ser usado (Ex 29,36-37; Lv 8,15) e, em da, como holocauston (usado para isso no
tempos posteriores, era purificado anual­ grego judaico) indica. A palavra técnica he­
mente no Dia da Expiação (Lv 16,18-19). braica, ‘õ/â, se origina da raiz que significa
A presença numinosa no altar podia ser "ir pra cima", provavelmente porque a cha­
marcada pelo recebimento de um nome ma e a fumaça subiam em direção ao céu
divino, por exemplo, "El, Deus de Israel" (segundo Jz 13,20). Também é chamado de
do altar erguido por Jacó em Siquém (Gn kãlil, uma palavra que significa "completo"
33,20), ou "Iahweh é minha bandeira" da­ (Dt 33,10; ISm 7,9; SI 51,21).
quele erigido por Moisés depois de sua vi­ De acordo com as prescrições de Lv, a
tória contra os amalecitas (Ex 17,15-16). vítima de um holocausto tinha de ser um
animal macho sem mácula, ou um pássaro
65 Os "chifres" do altar - as projeções (rola ou pomba). Aquele que oferecia a ofe­
que saíam dos quatro cantos da superfície renda colocava sua mão sobre a cabeça da
superior - eram considerados especialmen­ vítima para indicar que o sacrifício deveria
te sagrados. Como parte do ritual de expia­ ser oferecido em seu nome e para seu bene­
ção quando se consagrava o altar, o sangue fício. O gesto não significava que a vítima
das vítimas do sacrifício era esfregado neles era um substituto para o ofertante ou que
(Ex 29,12; 3,10; Ez 43,20), e a mesma coisa se os pecados do ofertante eram transferidos
para o animal visando à expiação. O ofer- 68 (B) Sacrifício de comunhão ou ofe­
tante então cortava a garganta da vítima, e renda pacífica. A união entre Deus e o do­
o sacerdote derramava seu sangue ao redor ador era efetuada por uma oferta de ações
do altar - o sangue, considerado a sede da de graça chamada zebah sêlãmim, zebah so­
vida, pertencia a Deus de uma forma espe­ zinho, ou sêlãmim sozinho. Este sacrifício
cial. Depois que a pele do animal tinha sido tem sido chamado com frequência, sob a in­
tirada e ele tinha sido esquartejado, os peda­ fluência da LXX, de "oferenda pacífica" ou
ços eram lavados e colocados sobre o altar "oferenda de boas-vindas", mas "sacrifício
para serem consumidos pelas chamas. Se a de comunhão" descreve melhor sua natu­
vítima fosse um pássaro, aquele que fazia a reza essencial. Havia três tipos de sacrifí­
oferenda simplesmente o dava ao sacerdo­ cios de comunhão; o tôdâ ou sacrifício com
te, que executava o ritual diretamente sobre louvor (Lv 7,12-15; 22,29-30); o nêdãbâ ou
o altar. Essas ofertas eram normalmente fei­ sacrifício voluntário, feito de pura devoção
tas pelos pobres, que não podiam oferecer e não em cumprimento de um preceito ou
animais (Lv 5,7; 12,8). voto (7,16-17; 22,18-23); e o neder ou oferta
No. desenvolvimento mais recente do votiva, feita em cumprimento de um voto
ritual do holocausto, a lei exigia o acompa­ (7,16-17; 22,18-23).
nhamento de um presente (minhâ) de fari­ O ritual do sacrifício de comunhão é
nha misturada com óleo e uma libação de descrito em Lv 3, e seu aspecto característico
vinho. A farinha era queimada e o vinho é que a vítima é compartilhada, com por­
derramado na base do altar. De acordo com ções que vão para Deus, para o sacerdote
Lv 23,18, este requerimento tinha de ser e para o ofertante. As leis sobre as vítimas
cumprido apenas durante a festa de Pente­ são levemente diferentes daquelas que de­
costes; Ex 29,38-42 o estende ao holocausto terminavam as vítimas dos holocaustos:
diário, e Nm 15 o estende ainda a todos os não se permitem pássaros; o animal pode
holocaustos. ser macho ou fêmea; e, de acordo com Lv
O holocausto, como um ato pelo 22,23, o animal pode ser levemente defeitu­
qual se reconhecem o poder e a força de oso quando a oferenda é do tipo voluntário.
Iahweh (Jz 13,16.19-20), é com frequência A imposição das mãos, a morte e o derra­
encontrado em um contexto em que seu mar de sangue acontecem da mesma forma
poder é comparado ao poder inferior de como no holocausto.
outros deuses (Ex 18,10; Jz 6,26.28; lR s A porção de Iahweh era queimada sobre
18,38). Era oferecido particularmente em o altar: ela consistia na gordura ao redor dos
ocasiões solenes, inclusive por um rei (lR s intestinos, rins, fígado e a gordura da parte
3,4), com um sacrifício de comunhão (ofe­ traseira do carneiro. (A gordura, assim como
renda pacífica, sêlãm im ) frequentemente o sangue, era considerada doadora de vida
o acompanhado (2Sm 6,17-18; lR s 8,64; [Lv 3,16-17; 7,22-24].). O sacerdote recebia
9,25). Ezequiel, em seu programa para o duas partes: o peito e a perna direita (7,28­
futuro pós-exílico, planejou um holocaus­ 34; 10,14-15). A porção que restava ia para o
to a ser proporcionado pelo príncipe, com ofertante, que a compartilhava com a famí­
seus sacrifícios de comunhão, em dias de lia e convidados. A vítima de um tôdâ tinha
sábado e em dias de lua nova (Ez 46,1­ de ser consumida no mesmo dia em que era
2.4); porém, por volta do período da mo­ oferecida (7,15), e este sacrifício tinha de in­
narquia posterior, um holocausto já era cluir também uma oferta de bolos e bolinhos
um ato diário no Templo (2Rs 16,15; lC r não levedados e pães levedados. Um dos bo­
16,40). No período pós-exílico, sua impor­ los era oferecido a Iahweh e constituía par­
tância na consciência religiosa de Israel te da porção do sacerdote. A vítima de um
foi obscurecida pela oferenda expiatória sacrifício voluntário ou votivo poderia ser
pelo pecado (—> 72-78 abaixo). consumida no dia seguinte ao da oferta, mas
tinha de ser queimada, no terceiro dia, o que 45-52). Zebah é em si uma palavra genéri­
restava da carne da vítima (7,16-17). Sobre o ca para designar o ato de abater ou para
tôdâ como uma celebração comunitária e so­ um sacrifício que implique o ato de abater,
bre o sacrifício da Páscoa como tôdâ, veja G. enquanto que sêlãmim é uma palavra mais
Couturier, EgThéol 13 (1982) 5-34. específica. Há muita diferença de opinião
sobre o significado preciso de sêlãmim
69 Este tipo de sacrifício era comum (Levine, Presence 3-45), mas a palavra pa­
em Israel desde os primórdios, e os textos rece sugerir um tributo oferecido a Deus
primitivos com frequência o chamam sim­ visando a manter ou restabelecer relações
plesmente de zebah (Js 22,26-29; ISm 1,21; amigáveis com ele (cf. sãlôm, "paz"). Por
2,13.19; 3,14; 2Sm 15,12; lR s 8,22; 12,27; 2 essa razão, talvez, ela era às vezes usada
Rs 5,17; 10,24; Is 1,11; 19,21; Jr 7,22; Os 3,4; para fazer alianças. A teoria de que era um
4,19; Am 4,4; Ex 23,18; 34,15.25). Frequen­ sacrifício que servia para esse propósito
temente, ele é designado como sêlãmim (Jz específico (R. Schmid, Das Bundesopfer in
20,26; 21,4; ISm 13,9; 2Sm 6,17.18; 24,25; Israel [SANT 9; Munique, 1964]) foi critica­
lR s 3,15; 9,25; 2Rs 16,13; Ex 20,24; 32,6; Ez da tanto por exagerar o lugar da renovação
43,27; 45,15.17; 46,12). O composto zebah da aliança no sistema de sacrifício israelita
sêlãmim é quase exclusivamente usado em quanto por limitar o local do sêlãmim den­
P e no Código da Santidade (Lv 17,1-26; tro desse sistema.
46), que é um pouco mais antigo que P e
originalmente tinha uma existência inde­ 70 Temos poucas informações sobre
pendente. Em textos anteriores, porém, a o ritual seguido no antigo sacrifício de co­
saber, Ex 24,5 e ISm 11,15, os plurais dos munhão. Parece, baseado em muitos tex­
dois substantivos são justapostos, como tos, que ele variou até ser fixado depois do
zêbãhim sêlãmim, mas a gramática sugere exílio. Se a leitura corrigida de ISm 9,24
que uma dessas duas palavras foi inseri­ realmente representa o original, os parti­
da secundariamente como uma nota de cipantes leigos comiam a gordura da parte
explicação quando as duas palavras, e as traseira do carneiro, mas a lei de Lv 3,9;
realidades de sacrifício que elas designa­ 7,3 reserva esta parte para Deus. Em Silo, o
vam, estavam se tornando intimamente sacerdote tinha de tentar a sorte: tinha de
associadas ou confusas. Um estudo literá­ colocar o garfo na panela enquanto a carne
rio apurado levou à conclusão de que um estava fervendo e tinha direito a qualquer
zebah - basicamente uma oferenda priva­ parte que tirasse (ISm 2,13-14); porém, de
da, feita tipicamente em ocasiões de devo­ acordo com Dt 18,3, ele tinha direito ao
ção privada ou de importância para uma ombro, mandíbulas e estômago (Lv 7,34
família, com uma refeição sacrifical como melhorou a parte dele e lhe deu o peito não
o ato central - era originalmente distinto cozido e a perna direita).
de um sêlãmim - uma oferenda pública,
talvez com uma função de dedicação, feita 71 Até onde podemos reconstituir a
em grandes ocasiões, com o ritual de san­ trajetória dos holocaustos e sacrifícios de
gue como seu ato central. Os dois tipos se comunhão na história de Israel? Eles datam
misturaram na época do Código da Santi­ do período do êxodo, como as leis do Pen-
dade e de P, e o interesse principal então tateuco levariam alguém a acreditar? Para
residia na aspersão do sangue e na queima uma resposta direta, é possível voltar-se a
da gordura sobre o altar - ações reserva­ Amós 5,25, em que Iahweh pergunta: "Por
das aos sacerdotes, o que significava que acaso oferecestes-me sacrifícios e oferendas
o zebah sêlãmim poderia doravante ser ofe­ no deserto, durante quarenta anos, ó casa
recido apenas no Templo. (Veja Rendtorff, de Israel?" Em Jr 7,22, Iahweh fala com
Studien 119-68, 237-38; Levine, Presence ênfase semelhante: "Porque eu não disse e
nem prescrevi nada a vossos pais, no dia se encontram em Lv 4,1-5,13; 6,17-23 ([24­
em que vos fiz sair da terra do Egito, em 30] —>Levítico, 4:9-10,15, vol. I, AT). Alguns
relação ao holocausto e ao sacrifício". Con­ dos detalhes em 5,1-6 são características
tudo, Jeremias e Amós conheciam as tra­ distintivas do ritual apotropaico mesopo-
dições mais antigas, J e E, acerca de sacri­ tâmico surpu (M. Geller, fSS 25 [1980] 181­
fícios oferecidos durante o êxodo (Ex 3,18; 92). A dignidade daquele que fazia a ofer­
5,3.8.17; 10,25; 18,12; 32,6.8), e, quando li­ ta determinava a vítima a ser sacrificada.
das em seus respectivos contextos, as duas O sumo sacerdote tinha de oferecer um tou­
passagens dos profetas não são realmen­ ro; semelhantemente, um touro tinha de ser
te tão categóricas como parecem quando sacrificado quando se tratava de um pecado
tomadas isoladamente. Amós e Jeremias coletivo de todo o povo. O pecado de um
eram pregadores, não juristas ou críticos príncipe (nãsi’) podia ser expiado apenas
históricos. Eles estavam desaprovando os pelo sacrifício de um bode, mas uma pessoa
sacrifícios vazios e formalistas oferecidos privada podia oferecer uma cabra ou uma
em seus dias e estavam sustentando os ovelha. Se alguém fosse muito pobre, duas
dias do deserto como o ideal - dias em que rolinhas ou pombas eram suficientes; uma
os sacrifícios eram oferecidos com as dis­ delas era oferecida como sacrifício pelo pe­
posições interiores apropriadas. Devemos cado, a outra como holocausto. Como alter­
admitir uma licença profética em suas afir­ nativa, o pobre podia oferecer um pouco de
mações irrestritas. farinha.
Estamos justificados ao pressupor que,
como outros seminômades do antigo Orien­ 73 As características distintivas des­
te Próximo, os israelitas das peregrinações ses sacrifícios eram o uso que se fazia do
pelo deserto ofereciam sacrifícios de ani­ sangue e a disposição da carne da vítima.
mais. Devemos confessar, contudo, que é Quando a expiação era feita para o sumo
impossível, com os dados à nossa disposi­ sacerdote ou para o povo como um todo, o
ção, falar com qualquer certeza sobre a prá­ sacerdote que sacrificava primeiro coletava
tica ritual que eles seguiam ao fazê-los. Os o sangue, entrava no santuário e aspergia
elementos rituais mais antigos preservados o sangue sete vezes no véu diante do San­
em nossos textos existentes parecem ser to dos Santos; então, ele passava o sangue
aqueles do zebah particular que era o sacri­ sobre os chifres do altar do incenso e final­
fício da Páscoa. mente derramava o que restava na base do
altar dos holocaustos. Se um príncipe ou
72 (C) Sacrifícios de expiação. Estes um indivíduo particular estivesse fazendo
recebem mais da atenção dada aos sacrifí­ uma expiação, o sacerdote não entrava no
cios no código ritual do Templo pós-exílico. santuário, mas passava o sangue nos chifres
Há dois: a oferenda pelo pecado e a oferen­ do altar dos holocaustos e derramava o res­
da pela culpa. to em sua base. A importância do sangue
(a) Oferenda pelo pecado. O substantivo da vítima nestes sacrifícios é óbvia (veja Lv
hebraico hãtta ’t significa "pecado" e, assim, 17,11; Hb 9,22).
quando usado para designar um tipo parti­ Assim como nos sacrifícios de comu­
cular de sacrifício, é geralmente traduzido nhão, toda a gordura da vítima era quei­
como "oferta pelo pecado". Porém, assim mada; porém, no sacrifício pelo pecado, a
como o piei do vb. denominativo correspon­ pessoa culpada não recebia carne, pois o
dente tem o sentido de "libertar do pecado" sacerdote a tomava toda. Além disso, quan­
(GKC §52h), o substantivo pode significar do este sacrifício era oferecido para o sumo
um sacrifício libertador ou purificador do sacerdote ou para a comunidade, ninguém
pecado (veja J. Milgrom, fAOS 103 [1983] compartilhava a carne da vítima; ela era le­
250). Os textos rituais que regem um hãtta ’t vada e jogada no monte de resíduos. Uma
teoria popular é que o pecado do grupo requeriam algum tipo de restituição ou re­
culpado era transferido para a vítima e des­ paro dos direitos prejudicados, mas os tex­
truído junto com ela. Contudo, a gordura tos existentes não admitem uma distinção
da vítima era queimada mais como um sa­ tão clara. Em Lv 5,6-7, os dois termos até
crifício agradável a Deus; e, nos sacrifícios parecem sobrepostos. O problema se torna
particulares já mencionados, os sacerdotes ainda mais complexo pelo fato de que os
compartilhavam da carne das vítimas visto textos pertinentes não são uniformes e fo­
que “é coisa santíssima" (Lv 6,22 [29]; veja ram retrabalhados redacionalmente antes
2Co 5,21). de chegar à sua forma presente em Lv. Esta
falta de distinção consistentemente clara en­
74 A descrição da oferenda pelo peca­ tre a função e os propósitos do hãtta ’t e os
do em Nm 15,15-31 difere visivelmente das do ’ãsãm em nossos textos bíblicos existentes
prescrições em Lv 4. Na passagem de Nm, sugere que os editores finais das prescrições
nenhuma provisão é feita para o pecado de e descrições sacrificais estavam codificando
um sumo sacerdote ou de um príncipe. Fa­ sacrifícios expiatórios recebidos na prática
lhas involuntárias cometidas pela comuni­ tradicional como distintos, sendo as bases
dade como um todo podiam ser expiadas originais dessas distinções não mais plena­
pelo sacrifício de um touro como holocausto mente percebidas e entendidas.
e de um bode como oferta pelo pecado; tais
falhas cometidas por um indivíduo podiam 77 A partir das evidências remanes­
ser removidas pelo sacrifício de uma cabra centes, ’ãsãm foi interpretado como uma
como uma oferta pelo pecado. Os detalhes adaptação do que foi originalmente uma
rituais dos sacrifícios não são dados. De oferenda em formã de prata ou outros obje­
acordo com Nm 15,31, nenhum sacrifício tos de valor, secundariamente trocada por
pode reparar um pecado deliberado. (Veja um sacrifício no altar. Hattã ’t foi interpreta­
J. Milgrom, em WLSGF 211-15.) do como uma união de dois tipos de sacri­
fício originalmente distintos: um consumi­
75 (b) Oferenda pela culpa. O substanti­ do pelos sacerdotes, que servia para expiar
vo ’ãsãm designa várias coisas relacionadas: certas ofensas do povo e de seus líderes,
ofensa, os meios de reparar uma ofensa e o e outro não comido, mas consumido pelo
tipo de sacrifício com o qual estamos lidan­ fogo, que servia para preservar o santuário
do aqui, a saber, a "oferta pela culpa" ou e seus sacerdotes de contaminação com o
"sacrifício de reparação". Os textos rituais não sagrado, profano ou ritualmente impu­
que regem este sacrifício são encontrados ro, considerando, assim, a impureza como
em Lv 5,14-26 (5,14-6,7); 7,1-10 (—» Levítico, uma força dinâmica capaz de contaminar
4:11,16). Embora o ritual seja muito pareci­ pessoas e objetos mediante um tipo de con­
do com o da oferta pelo pecado, a oferenda tágio (Levine, Presence 91-114).
pela culpa era oferecida apenas por indi­ A distinção de Levine quanto aos dois
víduos, e a única vítima mencionada é um tipos de hãtta ’t baseada nas duas formas pe­
carneiro. Em alguns exemplos, além dos sa­ las quais as partes do sacrifício são consu­
crifícios oferecidos, uma multa deveria ser midas também foi feita por J. Milgrom (VT
paga (Lv 5,14-16.21-26; Nm 5,5-8), mas esta 26 [1976] 333-37; RB 83 [1976] 390-99; JAOS
era distinta do sacrifício em si. 103 [1983] 249-54), mas com uma explica­
ção diferente baseada no grau de impureza
76 (c) Propósitos desses sacrifícios. A dis­ que cada tipo expiava. De acordo com Mil­
tinção entre o hãtta ’t e o ’ãsãm não é absolu­ grom, o hãtta ’t era sempre um sacrifício de
tamente evidente. O hãtta ’t poderia parecer purificação e, desta forma, nunca deveria
aplicável aos pecados em geral, e o ’ãsãm ser chamado de "oferenda pelo pecado".
poderia parecer restrito àqueles pecados que Além disso, ele expiava objetos ou lugares
no Templo, não pessoas, sagrados de várias meiramente cozida. Uma parte da massa era
formas em virtude da intensidade variável queimada, e o resto ficava com os sacerdotes
de presença divina e sujeitos à contamina­ (2,4-10; 7,9). Nenhum fermento era usado,
ção pela impureza variável corresponden­ mas se usava sal (2,11-13). Por último, havia
te. O hã(ta’t consumido pelos sacerdotes, a oferenda das primícias na forma de espi­
então, seria aquele pelo qual o altar dos gas de grãos ou pão assado junto com óleo
holocaustos no pátio do Templo era purifi­ e incenso. Parte do grão e do óleo e todo o
cado de uma impureza relativamente baixa incenso eram queimados (2,14-16).
e menos contagiosa que surgia dos pecados
involuntários cometidos por um indiví­ 80 A parte da minhâ que era queima­
duo israelita. O hãtta ’t queimado era ou (a) da era chamada de ’azkãrâ, cujo significado
aquele pelo qual o Hekal dentro da própria preciso neste contexto é incerto. A palavra
estrutura do Templo era purificado de uma poderia significar "memorial" (do verbo
impureza maior resultante dos pecados in­ zãkar, "lembrar"), no sentido de que a ofer­
voluntários cometidos pelo sumo sacerdo­ ta lembrava Deus de quem a oferecia. Ou
te ou.pela comunidade toda, ou (b) aquele ela poderia significar "compromisso" no
realizado anualmente no Dia da Expiação, sentido de que a parte realmente oferecida
pelo qual o trono de Deus (o kappõret; —» 32, a Deus era um sinal da disposição do doa­
35 acima) e o resto do Templo, incluindo o dor em oferecer tudo de si.
altar dos holocaustos, eram purificados da Em alguns casos, somente o cereal era
maior impureza: aquela que resultava dos oferecido, sem o óleo ou o incenso, como
pecados de arrogância proposital e sem ar­ na oferenda diária do sumo sacerdote;
rependimento. neste caso, toda a oferenda era queimada
(Lv 6,13-16 [20-23]). Novamente, quando
78 Quanto ao ’ãsãm, Milgrom (Cult) de­ a minhâ era oferecida por uma pessoa po­
senvolve a tese de que se tratava de um sa­ bre como sacrifício pelo pecado (5,11-13) e
crifício feito quando alguém tinha violado quando era oferecida como "sacrifício pelo
um juramento, embora com o tempo sua ne­ ciúme" (Nm 5,15), ela consistia apenas de
cessidade tivesse sido estendida a qualquer farinha. Quando a minhâ acompanhava um
caso em que uma proibição da lei tivesse holocausto ou um sacrifício de comunhão,
sido violada. O arrependimento tinha que uma libação de vinho era acrescentada ao
acompanhar um ’ãsãm, da mesma forma ritual (Ex 29,40; Lv 23,13; Nm 15,1-12).
que a confissão do erro, se a violação fosse As oferendas de cereais podem ser ob­
deliberada (Lv 5,1-6; 16-21; Nm 5,6-8). servadas desde o período anterior ao exílio.
Tem se dito que a palavra minhâ em textos
79 (D) A minhâ. A vítima dos sacrifí­ pré-exílicos é usada em seu sentido gené­
cios referidos até agora era um animal, mas rico de "presente" ou "oferta" para se re­
era comum que os israelitas oferecessem ferir a qualquer tipo de sacrifício. Isto não
vários cereais. Esta oferenda era conhecida é totalmente verdadeiro; minhâ é distinta
pelo nome genérico de minhâ, "oblação", e de zebah em ISm 2,29; 3,14; Is 19,21; de olâ
muitos tipos são listados em Lv 2. Havia um em Jr 14,12; Salmo 20,4; e de selem em Am
de flor de farinha de trigo misturada com 5,22. Nestes textos, ela é uma palavra téc­
óleo; o ritual pedia uma oferenda de incen­ nica para a oferta de cereais. O pão da pro­
so como parte desse sacrifício. Um punha­ posição, análogo a minhâ, é mencionado em
do da farinha preparada e todo o incenso ISm 21,3-7. '
eram queimados sobre o altar, e o sacerdote
ficava com o que restava da farinha (2,1-2; 81 (E) O pão da proposição. Relacio­
6,7-11 [14-18]; 7,10). Em um outro sacrifício, nado às oferendas de cereais estava o pão
a mesma mistura de farinha e óleo era pri­ da proposição, que é chamado no hebraico
de lehem happãním, "o pão do rosto" (de 83 Ao reconstituir as oferendas de
Deus) ou "o pão da Presença", e lehem perfumes, verificamos que a palavra qêtõret,
hamma ‘ãreket, "o pão da proposição". Este que adquiriu um sentido técnico restrito
consistia de 12 bolos de flor de farinha de depois do exílio, era usada apenas em seu
trigo dispostos em duas fileiras sobre uma sentido genérico de "aquilo que sobe como
mesa diante do Santo dos Santos; bolos fumaça" em textos pré-exílicos (iSm 2,28;
frescos eram colocados sobre a mesa todo Is 1,13; veja 2Rs 16,13.15). Porém, embora
sábado (Lv 24,5-9). Os sacerdotes consu­ a terminologia não existisse antes do exílio,
miam os bolos velhos na época de sua reno­ o costume de oferecer incenso certamente
vação, e o incenso que fora posto ao lado de existia. O "incenso que vem de Sabá" é usa­
cada fileira era queimado sobre o altar do do em paralelismo com "seus holocaustos"
incenso. Os 12 pães eram uma lembrança em Jr 6,20 (veja 17,26). O Templo de Salo­
ou compromisso perpétuo da aliança entre mão tinha um altar de incenso (—»62 acima),
Iahweh e as doze tribos (—» Pensamento do e o editor deuteronomista de lRs 3,3 con­
AT, 77:76ss.). A presença do incenso sobre denou a oferenda de incenso em qualquer
a mesa com os pães lhes dava um caráter lugar que não o Templo. O incenso era bas­
de sacrifício, mesmo que apenas o incenso tante comum nas liturgias de outras nações
fosse queimado sobre o altar. do antigo Oriente Próximo; seria antes sur­
preendente se o costume não existisse em
82 (F) Oferendas de perfumes. O in­ Israel (veja M. Haran, VT 10 [1960] 113-29).
censo tinha um papel importante no ritu­ Nos primórdios, incensários podem ter
al de sacrifício de Israel. A palavra qêtõret sido usados para queimar incenso em vez
tem o sentido genérico de "aquilo que sobe de altares imóveis, como na história de
como fumaça" e, neste sentido amplo, pode Nadab e Abiú (Lv 10,lss.) e na de Coré em
ser aplicado a qualquer coisa queimada no Nm 16,lss. A primeira menção certa de um
altar. Na liturgia, refere-se às oferendas altar de incenso está na descrição do Tem­
de perfume, cuja expressão plena é qêtõret plo de Salomão. Nos estágios primitivos do
sammim. A palavra específica para designar ritual, usava-se incenso puro, sem mistura.
incenso é lêbõnâ, mas o incenso era apenas Ele fazia parte da minhã (Lv 2,lss.), primí­
um dos muitos aromas que compunham a cias (2,15) e do pão da proposição, sendo
mistura perfumada. Os outros eram estora- todos pré-exílicos. Depois do exílio, com o
que, craveiro e gálbano, que deveriam ser desenvolvimento maior do ritual, passou-
misturados com o incenso em quatro par­ se a usar a mistura de quatro partes aludida
tes iguais (Ex 30,34-38). As receitas ficaram acima.
mais complicadas com o passar do tempo,
e os escritos rabínicos mencionam uma que 84 (VI) A origem do sacrifício israe­
contém 16 ingredientes. lita. Todos os sacrifícios pós-exílicos da re­
A maneira de oferecer era a seguinte: ligião israelita, então, tinham antecedentes
um sacerdote tirava brasas vivas do altar de pré-exílicos. Alguns eram mais antigos que
holocaustos com uma pazinha e aspergia a outros, e às vezes um predominava sobre
mistura aromática sobre as brasas no altar de o outro, com uma alteração subsequente na
incenso. Esta oferenda era feita toda manhã e ênfase à medida que o ritual se desenvolvia.
noite (Ex 30,7-8). No Dia da Expiação (—» 148 Seria surpreendente se não tivesse aconteci­
abaixo), as brasas e o incenso eram levados do um desenvolvimento em tão longo tem­
para o Santo dos Santos para serem queima­ po. O fato de estarmos melhor informados
dos diante da Arca (Lv 16,12-13). Usava-se sobre o último estágio não deveria nos cegar
incenso puro, sem mistura (lêbõnâ),quando para o fato de que este desenvolvimento co­
ele acompanhava uma minhã ou era coloca­ meçou séculos antes. Isto nos leva à questão
do na mesa dos pães da proposição. sobre a origem do ritual israelita.
Sem nos estendermos muito no sistema tir de inscrições púnicas e fenícias, não era
de sacrifício da Mesopotâmia, podemos di­ completamente consistente, mas ela con­
zer que a evidência à nossa disposição não tém alguns pontos interessantes de contato
justifica procurar naquela área a fonte dos com a terminologia israelita. Os textos uga-
rituais israelitas. Os contatos com o ritual ríticos mais antigos do séc. IV a.C. de Ras
mesopotâmico são raros e superficiais; as Shamra (—> Arqueologia bíblica, 74:72) for­
diferenças são fundamentais. O sangue ti­ necem poucas informações confiáveis além
nha pouca ou nenhuma importância nos sa­ de alguns termos rituais correspondentes
crifícios mesopotâmicos, e as duas formas àqueles usados por Israel. Porém, quando
básicas do sacrifício israelita, o holocausto ese reúne toda a evidência disponível, há
o sacrifício de comunhão, não eram usados uma semelhança definitiva entre os rituais
na Mesopotâmia. israelita e cananeu. Havia holocaustos, sa­
O sistema sacrifical da Arábia era mais crifícios de comunhão e oferendas de cereal
próximo ao de Israel, a julgar da informação e perfumes no ritual cananeu, mas não se
escassa à nossa disposição. O sangue era atribuía qualquer importância particular ao
usado para libações, e animais domésticos sangue nos sacrifícios de animais.
eram mortos e comidos; oferendas de per­ Dadas as semelhanças entre esses dois
fumes eram comuns na Arábia meridional. sistemas, que relação histórica existiu entre
Contudo, a ausência de semelhanças em eles? Os sacrifícios em que as vítimas eram
princípios básicos nos impede de concluir total ou parcialmente queimadas sobre o
que Israel os tenha emprestado da Arábia. altar eram comuns em Canaã antes da vin­
A queima da vítima toda ou em parte era da dos israelitas. Contudo, não parece que
a essência do sacrifício israelita. Na Arábia, os israelitas tenham oferecido tais sacrifícios
o animal era simplesmente morto e comi­ nos dias do deserto. Antes, algo semelhante
do. As poucas semelhanças entre os dois ao ritual da Páscoa teria sido normal duran­
sistemas podem ser explicadas pela origem te aquele período pastoral e seminômade: a
distante comum dos dois povos, pela vida vítima não era queimada, nem sequer em
pastoral que Israel e a Arábia uma vez com­ parte, mas seu sangue tinha importância ri­
partilharam e por contatos comerciais e cul­ tual, e a carne era compartilhada pelos par­
turais. ticipantes. (Este era precisamente o tipo de
sacrifício praticado por nômades na Arábia
85 A história é diferente quando con­antiga.). Então, quando os israelitas chega­
sideramos Canaã. As informações bíblicas ram a Canaã, eles assumiram a prática ca­
sobre o ritual cananeu mostram que ele é naneia de queimar as oferendas e a integra­
semelhante ao ritual israelita, pelo menos ram gradualmente em seu próprio sistema.
materialmente. As esposas cananeias de Sa­ Daquele momento em diante, os dois ritu­
lomão ofereciam incenso e sacrifícios a seus ais, o cananeu e o israelita, seguiram suas
deuses (lRs 11,8). De acordo com 2Rs 5,17, próprias linhas de desenvolvimento. Não
Naamã, o sírio, ofereceu holocaustos e sa­ há nada certo sobre esta reconstrução, mas
crifícios de comunhão; e quando Elias teve ela faz justiça aos dados disponíveis.
sua disputa contra os profetas de Baal, am­
bos prepararam seus sacrifícios da mesma 86 (VII) Sacrifício humano. Quando
maneira (lRs 18). Outras passagens confir­ os israelitas sacrificaram seres humanos,
mam estas evidências; e a condenação bíbli­ eles atraíram sobre si a ira divina, isto é evi­
ca do culto cananeu não se dá em virtude dente em Jr 7,31; Ez 20,25-26-31. O sacrifício
da forma que tal culto tinha, mas porque de crianças pelos israelitas ao deus Molec é
ele era oferecido a ídolos e executado em mencionado em Lv 18,21; 20,2-5; 2Rs 23,10;
santuários proscritos. A terminologia do Jr 32,35. Tais sacrifícios, com o ato de quei­
ritual cananeia, tal qual é conhecida a par­ mar, aconteceram no vale de Ben-Enom,
perto de Jerusalém, de acordo com 2Rs acordo bilateral em que o povo dava um
23,10; Jr 32,35. O mesmo tipo de sacrifício presente a Deus e Deus agia reciprocamen­
é mencionado em Dt 12,31; 2Rs 16,3; 17,31; te garantindo algum favor. Há um elemen­
21,6; Jr 7,31; 19,5; Ez 23,29, sem mencionar to de verdade nisto (—» 93 abaixo), mas isto
o nome de Molec. Embora as várias atitu­ implica que Deus precisava muito de algu­
des dos israelitas para com o sacrifício de ma dádiva humana - uma ideia estranha ao
crianças no período monárquico possam pensamento israelita.
estar abertas à discussão, os textos do AT
que chegaram a nós refletem uma atitude 90 Em outra teoria, o sacrifício é retra­
de forte condenação do que consideravam tado como um ato quase mágico pelo qual
uma prática estrangeira. uma pessoa entra em união com Deus. Esta
teoria tem duas formas. Na primeira, uma
87 Visto que crianças eram sacrificadas pessoa atinge a união ao comer a vítima di­
nas colônias púnicas, é possível supor, mas vina. Esta pressupõe que o sacrifício israeli­
não provar, que a prática existia na Fenícia, ta era basicamente totemista, uma visão de
a pátria das colônias púnicas e vizinho de sacrifício herdada de ancestrais remotos na
Israel. Em púnico, a palavra molk era apa­ Arábia. Ao comer o animal que representa­
rentemente um termo técnico para designar va a divindade (o totem), a pessoa absorve
o sacrifício de crianças. A semelhança en­ uma parte da vida da divindade. Não há
tre o púnico e o Molec do AT (em hebrai­ evidências, contudo, de que tal noção real­
co: mõlek) levantou a questão sobre se Mo­ mente tenha prevalecido na antiga Arábia
lec era originalmente um termo sacrificial. ou que, quando um totem era consumido,
A opinião de estudiosos tende a favorecer se pensasse que ele efetuava qualquer co­
a concepção de que tanto Molec quanto municação de vida divina. Na segunda
o molk púnico são nomes divinos e que a forma da teoria, supunha-se que o israelita
mudança do sentido de molk para um sen­ entrava em união com Deus ao imolar uma
tido técnico é peculiar ao púnico. (Quanto vítima que substituía e representava o do­
a levantamentos de pesquisas sobre sacri­ ador. O derramar do sangue da vítima na
fício humano e Molec, veja H. Cazelles, base do altar é interpretado como um sím­
DBSup 5. 1337-46; A. R. W. Green, The Role bolo efetivo que trazia a vida do sacrifica­
of Human Sacrifice in the Ancient Near East dor em contato com a divindade a quem
[ASOR Diss. Series 1; Missoula, 1975]; G. o altar representava. Tal interpretação é
C. Heider, The Cult of Molek [JSOTSup 43; altamente dúbia. Embora o derramar de
Sheffield, 1985].) sangue ao redor do altar simbolizasse a ofe­
renda imediata e direta da vida da vítima a
88 (V III) O s ig n ific a d o d o s a c rifíc io Deus, ele não carregava consigo nenhuma
em Holocaustos, sacrifícios de co­
Is r a e l. conotação de realização de uma união vital
munhão, oferendas pelo pecado, oferendas entre o ofertante e Deus.
pela culpa: O que todos eles significam?
Qual era o sentido essencial do sacrifício 91 Uma outra teoria bastante comum
em Israel? Deram-se várias respostas a es­ é a de que os israelitas, como seus vizinhos
tas questões. mesopotâmios e cananeus, consideravam o
sacrifício uma refeição preparada para um
89 ( A ) T e o r i a s i n s a t i s f a t ó r i a s . De acor­ Deus faminto. Aqueles que sustentam esta
do com uma hipótese, o sacrifício israelita teoria indicam aquelas passagens em que o
era uma dádiva de conciliação para uma altar é chamado de mesa de Deus e o pão
divindade cruel e exigente. Não há evidên­ da proposição é chamado de pães de Deus
cia que sustente tal posição. Uma sugestão (—» 8,64 acima), bem como a passagem em
mais sutil é que o sacrifício era um tipo de se que diz que Deus "respirou o agradável
odor" dos holocaustos de Noé (Gn 8,21). necessariamente a adoção do pensamento
Pode se admitir que há certos elementos religioso pagão. O ritual é relativamente
do sacrifício israelita que sugerem o com­ neutro; ele recebe um sentido específico da
partilhar de uma refeição com Iahweh, es­ religião que o emprega, e a religião de Israel
pecialmente no sacrifício de comunhão (a era bem diferente e infinitamente superior
oferenda pacífica). Essas práticas israelitas à de Canaã. O sacrifício israelita, então, era
como a oferenda de bolos, óleo e vinho para distinto e difícil de definir. Sacrifício não
Iahweh podem ter tido este sentido no ritu­ era um conceito simples: não era unica­
al cananeu do qual elas provavelmente fo­ mente a oferenda de um presente ou oblação
ram emprestadas. Mas a atitude do autên­ a Deus para reconhecer seu domínio, ou
tico iahwismo é expressada de forma bem unicamente um meio de efetuar a união com
inequívoca no SI 50,12-13: "Se eu tivesse ele, ou unicamente um ato de expiação. Ele
fome não o diria a ti, pois o mundo é meu, era os três simultaneamente e ainda mais.
e o que nele existe. Acaso comeria eu carne Vamos agora estudar um por um seus vá­
de touros, e beberia sangue de bodes?" rios aspectos.

92 (B) Entendimento distintivo do sa­ 93 O sacrifício era um presente ou obla­


crifício. Qual era, positivamente, a noção is­ ção, mas um presente ao qual Deus tinha
raelita de sacrifício? A resposta deve come­ um direito imperativo, uma vez que tudo
çar com uma apreciação da noção israelita que o povo pudesse ofertar viera primeiro
de Deus. Ele era único, transcendente, todo- da mão generosa divina. "De Iahweh é a
poderoso, supremamente autossuficiente, terra e o que nela existe, o mundo e seus
pessoal; e uma vez que ele era pessoal, ele habitantes" (SI 24,1; também 50,9-13; lC r
pedia uma resposta da parte de seu povo. 29,14). Ao retornar uma parte da proprie­
Esta resposta tinha de ser correspondente­ dade de Deus a ele, as pessoas simbolica­
mente pessoal, racional. O sacrifício, então, mente reconheciam o direito de Deus sobre
era a expressão externa de uma resposta tudo e, por meio disso, adquiriam o direito
pessoal a um Deus pessoal. Não era um de usar o restante, sob Deus, para seus pró­
gesto mecânico e mágico com uma eficácia prios propósitos. Esta era a ideia por trás da
não relacionada às disposições interiores oferenda das primícias e dos primogênitos.
daquele que ofertava. Se o sacrifício não era De outro ponto de vista, já que as oferendas
movido por disposições interiores sinceras, eram matérias-primas (carne e vegetais)
era um formalismo vazio, um escárnio do com as quais o povo sustentava sua vida,
verdadeiro relacionamento divino-huma- a vítima representava a vida e ser daquele
no. Deixar de reconhecer esta verdade fun­ que ofertava. No sacrifício, a pessoa simbo­
damental é a fraqueza básica das hipóteses licamente se rendia a Deus; e Deus, ao acei­
rejeitadas acima. tar, se comprometia de alguma forma. Não
É verdade que alguns elementos do ritu­ era uma noção quid pro quo [toma-lá-dá-cá]
al israelita e do vocabulário sacrifical estão (—» 89 acima), visto que Deus não precisava
enraizados em costumes que antecedem a do presente e não poderia haver proporção
formação de Israel como uma nação. Con­ entre o presente e o favor de Deus.
tudo, a semelhança material não é uma A essência do sacrifício não consistia na
indicação de identidade real com estes cos­ destruição da vítima. De fato, no caso de
tumes ou a teologia primitiva que eles re­ sacrifícios de animais, a morte da vítima
fletiam. Algumas formas antigas foram re­ era apenas um ritual preparatório e era exe­
tidas, mas usadas como veículos de novos cutado pelo ofertante, não pelo sacerdote.
conceitos. A mesma observação se confirma Uma razão para a destruição da oferenda,
nos empréstimos rituais das religiões vizi­ fosse animal ou vegetal, era que ela torna­
nhas; a adoção do ritual pagão não indica va o presente irrevogavelmente definitivo e
o retirava completamente do uso comum. nutenção de relações amigáveis com Deus
Além disso, ela tornava a vítima invisível e, implicava que estas relações tinham sido
por meio disso, a enviava simbolicamente perturbadas. O autor de ISm 3,14 escre­
para a esfera invisível do divino. A palavra veu que "nem sacrifício nem oferenda ja­
para designar holocausto, ‘õlâ, significa ba­ mais expiarão a iniquidade da casa de Eli".
sicamente "o que sobe". O ritual servia para O uso de sangue dava a todos os sacrifícios
simbolizar esta ideia de "dar", de "enviar" de animais traços expiatórios (Lv 17,11),
para Deus. O altar era o símbolo da presen­ além dos sacrifícios específicos de expiação
ça de Deus; e o sangue da vítima, o elemen­ por várias faltas (—» 72-78 acima).
to mais sagrado, era trazido em contato di­
reto com este símbolo. Em cada sacrifício, 96 (IX ) C on d en ações do s a c r ifíc io .
o sangue era derramado na base do altar; Dada a importância central do sacrifício
em sacrifícios expiatórios, era esfregado na religião israelita, é surpreendente en­
nos chifres do altar; em oferendas pelo pe­ contrar algumas condenações duras dele
cado para o sumo sacerdote ou para a toda no AT. Mas um estudo imparcial dessas
comunidade, o sangue era aspergido sobre passagens condenatórias revela implicita­
o véu que ocultava a presença especial de mente que o sacrifício era mantido em alta
Deus no Santo dos Santos. No Dia da Expia­ estima em Israel e não era um mero ritual
ção, ele era levado para dentro do Santo dos externo de eficácia mágica, mas uma exter-
Santos e aspergido sobre o propiciatório, o nalização de sentimentos religiosos nobres,
trono de Deus. As partes combustíveis da sem os quais o sacrifício era um escárnio.
vítima eram queimadas e, de certa forma, Particularmente veementes são os ataques
espiritualizadas à medida que subiam aos dos profetas pré-exílicos (Is 1,11-17; Jr 6,20;
céus na forma de fumaça. 7,21-22; Os 6,6; Am 5,21-27: Mq 6,6-8). Es­
tas passagens foram frequentemente inter­
94 O sacrifício, então, servia como um pretadas como condenações do sacrifício
presente que expressava o sentimento isra­ de qualquer modo ou forma, pois sua lin­
elita de dependência de Deus, mas ele tam­ guagem é direta e incondicional. Porém,
bém indicava o desejo pela união com Deus. devemos reconhecer que no hebraico uma
Os israelitas nunca nutriram uma noção declaração absoluta ou um contraste dire­
crassamente física desta união (—>90 acima); to é frequentemente feito onde nós usaría­
a atitude deles era mais sutil, em harmonia mos uma comparação. A formulação de Os
com a transcendência espiritual sublime de 6,6 é um exemplo esplêndido deste tipo de
Iahweh. Quando Deus tinha recebido sua expressão: "Porque é amor que eu quero e
parte da vítima, os que a haviam apresen­ não sacrifícios, conhecimento de Deus mais
tado comiam o restante em uma refeição do que holocaustos". As leis do paralelismo
sacrifical. O fato de que a vítima era tanto exigem que entendamos a primeira fase da
oferecida a Deus quanto consumida pelos mesma forma comparativa que está expressa
adoradores colocava as duas partes juntas na segunda: "Pois misericórdia quero, e não
em uma comunhão espiritual, estabelecen­ sacrifício". Exemplos dessa maneira de falar
do e consolidando o laço de aliança entre podem ser multiplicados muitas vezes mais,
as duas. Esta era uma ocasião alegre e, nos mesmo no NT (cf. Lc 14,26 e Mt 10,37).
primórdios, o sacrifício de comunhão era o Um dos primeiros profetas, Samuel, ex­
mais popular no ritual. pressou claramente a atitude dos profetas
para com o sacrifício: "Iahweh se compraz
95 Todo sacrifício implicava pelo me­ com holocaustos e sacrifícios como com
nos alguma noção de expiação. A realização a obediência à palavra de Iahweh? Sim, a
da oferenda necessariamente acarretava obediência é melhor do que o sacrifício,
autonegação, e o restabelecimento ou ma­ a docilidade mais do que a gordura dos
carneiros" (ISm 15,22). O que os profetas O livro de hinos oficial do novo Templo era
estavam condenando era a adoração for- o Saltério, e muitos dos seus hinos clara­
malista e meramente externa sem as dispo­ mente litúrgicos já estavam em uso durante
sições próprias. Tal "adoração" era apenas o período dos reis.
um palavrório vazio que beirava a supers­
tição. 98 O local ideal para a oração eram os
limites do Templo, com a face voltada para
97 (X) Outros atos rituais. O sacrifí­ o Santo Lugar (SI 5,8; 28,2; 138,2). Quando o
cio era central, mas não era o único ato de exílio ou a ausência tornou este ideal uma
adoração israelita. Havia também orações impossibilidade, os exilados faziam o me­
públicas e vários rituais de purificação e lhor que podiam voltando-se na direção de
consagração. Jerusalém (lRs 8,44.48; Dn 6,11). As sina­
(A) Oração. A expressão fundamental gogas do período pós-exílico (—» 56 acima)
do sentimento religioso é a oração, o voltar foram construídas para que os fiéis fossem
a mente e o coração a Deus que estabelece capazes de dirigir suas orações ao Lugar
contato imediato entre um ser humano e a Santo.
divindade. O sacrifício é a oração em ato. As informações sobre as horas para a
Estamos preocupados aqui, contudo, não oração oficial são escassas. Orações apro­
com a devoção privada, pessoal, mas com priadas da noite e da manhã são encontra­
a oração como um elemento do culto, isto é, das nos Salmos 4 e 5 respectivamente. Ju­
oração litúrgica. dite determinava o tempo de suas orações
A Bíblia dá fórmulas para bênçãos (Nm de forma a coincidir com a oferenda de in­
6,22-27) e para maldição (Dt 27,14-26). Ela censo noturna no Templo (Jt 9,1); e Daniel
prescreve uma fórmula a ser usada no ri­ seguia o que parece ter sido o costume geral
tual da "água amarga" (Nm 5,21-22) e na de orar três vezes por dia, noite, manhã e
situação que resultou da não apreensão de meio-dia (Dn 6,11; SI 55,18). Porém, a refe­
um assassino (Dt 21,7-8). Ela dá as fórmulas rência nestes textos é a orações individuais
a serem usadas na oferenda das primícias e privadas. Durante o período em que fo­
(Dt 26,1-10) e no pagamento do dízimo que ram escritos, havia somente duas celebra­
era devido a cada três anos (Dt 26,13-15). ções diárias no Templo, um de manhã e
Ela especifica a leitura das escrituras para outro à noite.
a celebração da Páscoa (Dt 6,20-25; veja Ex
12,26-27). 99 Uma postura ereta parece ter sido
Embora o ritual não contenha nenhu­ comum para a oração durante o período
ma prescrição para as fórmulas de oração do AT. Salomão, contudo, ajoelhou-se (2Cr
a serem usadas durante a oferenda de sa­ 6,13), e, em Ne 9,3-5, há uma analogia inte­
crifícios, tais fórmulas certamente existiam ressante ao procedimento Flectamus Genua-
e estavam em uso comum. Elas são encon­ Levate da liturgia latina. Neste rito peniten­
tradas em todo ritual religioso no mundo cial, o povo ficava em pé para a leitura e,
inteiro. Amós (5,23) se refere à canção de então, caía de joelhos para a confissão de
hinos para acompanhamento instrumen­ pecados e permanecia nesta posição até
tal, mas apenas de forma geral. Podemos que os levitas clamassem: cjümü (levate).
pressupor que o desenvolvimento do canto A postura externa do corpo visa a expres­
litúrgico acompanhou os passos do ritual e sar as disposições internas da pessoa, e a
do sacerdócio cada vez mais especializado. disposição comum diante de Deus é a de
Havia cantores oficiais no Templo de Salo­ submissão humilde. No SI 95,6 lemos: "En­
mão desde o início; e a importância desse trai, prostrai-vos e inclinai-vos, de joelhos,
grupo cresceu constantemente até atingir, frente a Iahweh que nos fez!" (Antífona
no Templo pós-exílico, grande prestígio. para Matinas no Breviário Romano). Não é
surpreendente, então, ler sobre pessoas se matrimônio um sacramento e honra a ma­
ajoelhando em oração (IRs 8,54; Is 45,53; ternidade, possui uma cerimônia de "ação
Dn 6,11) com os braços erguidos para o céu de graças" depois do parto - com a mesma
(IRs 8,22.24; Is 1,15 Lm 2,19). Outros textos ideia em mente.
sugerem o costume muçulmano de cair de
joelhos e pressionar a testa contra o chão (SI 102 Quando "leprosos" eram declara­
5,8; 99,5; também TM de 99,9, "ao seu santo dos curados, eles tinham de oferecer um
monte"). sacrifício de reparação ou uma oferenda
pelo pecado e um holocausto (Lv 14,10-32).
100 (B) Purificações. As mentes mo­ Aqui novamente, não é uma questão de cul­
dernas acham estranhos os conceitos do pa moral, pois os mesmos sacrifícios eram
AT de "pureza" e "im pureza", especial­ requeridos de um homem ou mulher que ti­
mente quando "im pureza" é descrita nham tido contato com os tipos de irregula­
como o resultado de contato com o sagra­ ridades rituais descritas em Lv 15,14-15.29­
do. Na mente dos israelitas, certas coisas, 30. Um nazireu que tocasse um cadáver
tanto profanas quanto sagradas, possuí­ tinha de oferecer um sacrifício pelo pecado,
am qualidades misteriosas que se comu­ um holocausto e um sacrifício de repara­
nicavam a qualquer um que entrasse em ção (Nm 6,9-12). Os mesmos três sacrifícios
contato com elas e colocava estas pessoas eram exigidos ao término de seu voto (Nm
em uma classe separada da comum. Para 6,13-20).
voltar às atividades e ao mundo do dia a
dia, elas tinham de ser "purificadas". Sem 103 Algumas vezes, a lavagem ritual
dúvida, esta atitude refletia a mentalidade acompanhava um sacrifício de purificação;
e os costumes primitivos, mas a legislação às vezes, era um ritual distinto. Um sacer­
resultante servia a um propósito sublime ao dote se lavava ritualmente antes de exercer
colocar Israel em uma classe separada. Os funções sagradas (Ex 29,4; 30,17-21; Lv 8,6;
pagãos podiam tocar isto ou aquilo e comer 16,4). Utensílios, roupas ou pessoas tinham
qualquer coisa impunimente, mas não o de ser lavados se tivessem entrado em con­
povo de Israel. Eles pertenciam a um Deus tato com uma pessoa ou objeto legalmen­
transcendente e totalmente puro e tinham te impuro (Lv 11,24-25.28.32.40; 15; 22,6)
de refletir sua santidade. Vários rituais di­ ou até mesmo com algo sagrado. A pane­
ferentes eram usados para restaurar uma la de metal em que a carne sacrifical havia
pessoa "impura" ao estado normal. sido cozida tinha de ser lavada totalmen­
te mais tarde; se um vaso de barro tivesse
101 (a) Sacrifícios e rituais de lavagem. sido usado, a lei prescrevia que deveria ser
Após o nascimento do filho, requeria-se quebrado após isso (Lv 6,21). Depois que o
que a mulher oferecesse um holocausto e sacerdote saísse do Santo dos Santos no Dia
uma oferenda pelo pecado (Lv 12,1-8). Para da Expiação, ele tinha de trocar de roupa
as pessoas que consideravam o casamen­ e lavar-se dos pés à cabeça. O homem que
to algo sagrado, o nascimento de um filho conduzia o bode expiatório para o deserto
a maior das bênçãos e a esterilidade uma e queimava as vítimas da oferenda pelo pe­
maldição, uma nova mãe não estava, cer­ cado tinha de fazer o mesmo (Lv 16,23-28).
tamente, pelo próprio fato da maternidade, Esta prescrição também incluía aqueles que
em um "estado de pecado". Mas ela tinha participavam do ritual da novilha vermelha
entrado em contato, por assim dizer, com o (Nm 19,7-10.21). Um período de purificação
poder criativo de Deus e, consequentemen­ de sete dias era prescrito para soldados que
te, tinha de ser "purificada" no sentido ritu­ tinham se engajado em uma guerra santa,
al antes de retomar as atividades normais. bem como para toda sua vestimenta (Nm
Analogamente, a igreja, que considera o 31,16-24).
104 (b) Ritual da novilha vermelha. Se o 106 O ritual é descrito em Lv 14, que é
despojo de uma guerra santa fosse de me­ aparentemente a fusão de dois rituais, um
tal, este tinha de ser lavado em uma água primitivo e o outro mais recente. No ritual
especial chamada me middâ, "água purifica­ primitivo, um vaso era enchido com água
dora" (Nm 31,22-23). O preparo da água é "corrente" e sobre este se matava uma ave
descrito em Nm 19,1-10. Uma novilha ver­ para que seu sangue caísse na água. Uma
melha sem defeito que nunca fora subme­ ave viva era, então, mergulhada na água,
tida ao jugo era morta fora da cidade por e se acrescentavam madeira de cedro, fio
um homem comum, enquanto o sacerdote escarlate e hissopo. Finalmente, permitia-
observava. Ela era então completamente se que a ave voasse embora. Os leprosos
queimada, e enquanto estava queimando, eram aspergidos com essa água e declara­
o sacerdote lançava para dentro da pira de dos puros, mas só eram considerados de­
madeira de cedro, hissopo e fios escarla­ finitivamente puros sete dias mais tarde,
tes. As cinzas resultantes eram reunidas e depois que eles raspassem seu corpo todo,
armazenadas para serem usadas na prepa­ lavassem suas roupas e se banhassem (Lv
ração da água lustral. Algumas das cinzas 14,2-9). Este ritual continha vestígios de
eram colocadas em um recipiente em que superstições muito antigas. As doenças de
se derramava água que vinha diretamente pele desagradáveis à vista eram considera­
de uma fonte ou rio. Se tudo isso tem um to­ das doenças causadas por um demônio, que
que de magia, talvez seja porque o ritual era deveria ser expulso. Assim como no caso da
originalmente pagão e foi adotado e santi­ novilha vermelha, a água avermelhada era
ficado pelos israelitas. O vermelho é con­ usada por causa de suas qualidades apotro-
siderado apotropaico (i.e., com poder de paicas; e o pássaro que escapava simboliza­
afastar o mal) por muitos, e se atribui po­ va o demônio em fuga.
der purificador às cinzas de animais quei­ No ritual mais recente (Lv 14,10-32),
mados e às águas correntes. Esta água era a pessoa curada oferecia um sacrifício de
aspergida sobre qualquer um que tivesse reparação, uma oferenda pelo pecado e
entrado em contato com um cadáver, os­ um holocausto. Com o sangue do primei­
sos ou uma tumba, e sobre a casa e a mo­ ro sacrifício, o sacerdote marcava a orelha
bília dos mortos (Nm 19,11-22). À parte direita, o polegar direito e o dedão direito
destes exemplos e daquele mencionado do indivíduo; então, ele ungia os mesmos
em Nm 31,22-23, usava-se água comum membros com óleo e derramava óleo sobre
para abluções rituais. a cabeça do ex-leproso. Esta unção está em
paralelo com a cerimônia cananeia e meso-
105 (c) Ritual para a lepra. A palavra he­ potâmica que acompanhava a libertação de
braica traduzida como "lepra", Sara ‘at, não um escravo.
se refere à hanseníase, que é como normal­
mente designamos a lepra. A doença bíblica 107 Especialmente estranha é a noção
era visivelmente menos séria, pois era curá­ de "lepra" em roupas, tecidos e até mesmo
vel e seus sintomas eram os de diversas do­ casas. Nestes, a "doença" era algum tipo de
enças de pele relativamente superficiais (Lv míldio ou proliferação de fungos. Se o arti­
13,1-44). A doença, quando assim diagnos­ go afetado não pudesse ser limpo por lava­
ticada por um sacerdote, tornava as pessoas gem, tinha de ser queimado. Se pudesse ser
ritualmente impuras. Então, elas tinham de limpo por lavagem, era lavado novamente
ficar a uma distância segura da cidade até e declarado limpo (Lv 13,47-59). No caso de
que estivessem curadas (2Rs 7,3). Era tare­ casas, as pedras descoloridas eram remo­
fa do sacerdote determinar se a cura havia vidas, e as paredes raspadas. Se o quadro
acontecido (Lv 14,3) e executar o rito de pu­ continuasse se espalhando, a casa era der­
rificação. rubada; se parasse, a casa era considerada
iimpa. Nos dois casos, o mesmo rituai de rado que envolvia purificação, investidura
expiação tinha de ser executado conforme e unção. De forma semelhante, o santuário,
aqueie descrito em Lv 14,29. Embora estas o altar e os objetos sagrados tinham de ser
noções e estes ritos possam parecer arcai­ ungidos (Ex 30,26-29; 40,9-11; Lv 8,10). No
cos e misteriosos, eies aparecem apenas em período pré-exílico, o rei era o "ungido" (—>
textos pós-exüicos. A consciência de cuipa Pensamento do AT, 77:155), e, como sinal
que foi intensificada peio exüio e a ênfase de seu caráter sagrado, ele usava a nézer
na transcendência de Deus na teoiogia da ou coroa (2Sm 1,10; 2Rs 11,12; SI 89,40).
tradição de P trouxeram uma preocupação O sumo sacerdote pós-exílico usava um or­
com a pureza e a impureza que equivalia namento semelhante, uma flor de ouro (s/s)
quase a uma obsessão na legislação de P. Os como parte de seu ornamento para a cabeça
legisladores citaram exemplo após exemplo (Ex 39,30; Lv 8,9). O significado básico do
de possíveis impurezas e até mesmo volta­ verbo nãzar é "separar", e daí, "colocar sob
ram ao passado obscuro em seu desejo por interdição" ou "consagrar". O substantivo
perfeição. derivado, nãzir, significa pessoa dedicada.
Associada a esta raiz está ndr, e dela vem o
108 (d) Ritos de consagração. A purifi­ substantivo neãer, voto.
cação expressava um aspecto negativo da
santidade ao remover um obstáculo legal 110 ( C ) V o t o s . Um voto no pensamen­
do contato com o divino. A consagração era to do AT era uma promessa condicionada
o lado positivo; ela preparava uma pessoa a dedicar uma pessoa ou coisa a Deus. Se
ou um objeto para esse contato ou até mes­ Deus concedesse um certo pedido, o bene­
mo resultava do contato. Ela consistia fun­ ficiário cumpriria uma promessa. Era um
damentalmente na remoção de pessoas ou tipo especial de oração em que uma pessoa
coisas do âmbito do profano e as dedicava a não apenas pedia por um favor, mas for­
um propósito sagrado. Esta dedicação nem talecia o pedido prometendo dar algo em
sempre requeria uma cerimônia distinta; retorno. Nem todos os votos eram condi­
qualquer entrada no âmbito do sagrado cionais, embora este pareça ter sido o caso
causava uma consagração. Por exemplo, nos primórdios. A medida que o tempo
soldados que lutavam em uma guerra san­ passava, as simples promessas desinteres­
ta e os prêmios que eles capturavam eram sadas se tornaram mais uma regra que uma
automaticamente dedicados a Deus; os sa­ exceção.
cerdotes eram consagrados pelo simples O tomar um voto impunha uma obri­
fato de seu serviço do santuário. Tal con­ gação solene, mas a lei descartava certos
sagração trazia obrigações. Os sacerdotes votos, fosse porque a coisa prometida já
tinham de observar regulamentos estritos pertencesse a Deus, como os primogênitos
para salvaguardar sua pureza (Lv 21,1-8); do rebanho (Lv 27,26), ou porque era in­
os soldados em uma guerra santa tinham digno dele, como os ganhos de prostituição
que manter abstinência durante sua dura­ sagrada (Dt 23,19). As mulheres eram res­
ção (ISm 21,6; 2Sm 11,11), e o despojo que tritas na questão dos votos; por exemplo,
eles tomavam não poderia ser usado para um pai poderia cancelar um voto feito por
a vantagem pessoal de alguém (Js 6,18ss.; sua filha não casada; um marido poderia
ISm 15,18-19). anular o voto de sua esposa. Uma viúva ou
divorciada, contudo, poderia assumir total
109 Temos discutido exemplos de con­ responsabilidade por um voto (Nm 30,4-7).
sagração automática. A medida que o ritual Na legislação posterior, as pessoas foram
se desenvolvia, apareciam cerimônias espe­ autorizadas a substituir os objetos prometi­
cíficas. No período pós-exílico, o sumo sa­ dos específicos por uma quantia de dinhei­
cerdote era consagrado por um ritual elabo­ ro (Lv 27,1-25).
111 Nazireus. Não apenas alguns objetos, Estas prescrições parecem ser uma mi­
mas até mesmo a própria pessoa poderia ser tigação adaptada de um costume antigo de
consagrada a Deus por um período de tempo acordo com o qual a consagração do nazi­
específico. Esse alguém se tornava, então, um reu era por toda a vida e era mais caris­
nazireu (Nm 6,1-21). Durante o tempo especi­ mática que inteiramente voluntária (veja
ficado, a pessoa tinha de se abster de bebida Am 2,11-12). Na história de Sansão, vemos
alcoólica, até mesmo do vinho, deixar de cor­ uma consagração que começou enquan­
tar o cabelo e evitar todo contato com um ca­ to ele estava ainda no ventre materno (Jz
dáver. Esta última prescrição era interpreta­ 13,4-5.7.13-14). O elemento do cabelo não
da bem estritamente; se alguém morresse na cortado parece ter sido o traço caracterís­
presença de um nazireu, este era profanado e tico do nazireu. Os soldados que lutassem
tinha de começar de novo raspando a cabeça em uma guerra santa não cortavam seus
e oferecendo vários sacrifícios (6,9-12). Após cabelos (Jz 5,2; veja Dt 32,42); e quando a
completar o período de seu voto, ele oferecia mãe de Samuel o dedicou ao serviço de
um holocausto, uma oferta pelo pecado e um Deus, ela prometeu que sua cabeça jamais
sacrifício de comunhão; ele raspava a cabeça seria raspada (ISm 1,11). O longo cabelo
e queimava o cabelo como parte do sacrifício de Sansão, o sinal de sua consagração vita­
de comunhão (6,18). Então, ele retornava para lícia, era a fonte de sua força extraordiná­
sua vida comum. ria (Jz 16,17).

FESTAS ISRAELITAS PRÉ-EXÍLICAS

112 (I) Celebrações diárias. Os israeli­oferecidos e não um como nos dias comuns
tas observavam vários _dias santos impor­ (Nm 28,9-10). No primeiro dia de cada mês,
tantes todo ano, mas antes que os discuta­ o dia da lua nova, havia um ritual especial
mos, seria útil examinar alguma coisa sobre que requeria o holocausto de dois touros,
os serviços diários do Templo. De acordo um carneiro e sete cordeiros, junto com ofe­
com Ex 29,38-42 e Nm 28,2-8, dois cordeiros rendas e libações, e o sacrifício de um bode
deveriam ser oferecidos diariamente como como oferenda pelo pecado (Nm 28,11-15).
holocaustos, um de manhã e outro à noite.
Junto com os holocaustos vinha uma oferta 113 (II) Calendários litúrgicos. Os dias
de farinha misturada com óleo, uma liba­ festivos mais importantes, é claro, tinham
ção de vinho e uma oferenda de incenso (Ex de ser indicados por um calendário litúrgi-
30,7-8). Este ritual diário foi introduzido co. Vários desses calendários são dados no
após o exílio, embora Cr fale caracteristica­ AT, e será necessário considerá-los sepa­
mente dele como existente durante o perí­ radamente. (Veja também van Goudoever,
odo do reinado (lC r 16,40; 2Cr 13,11; 31,3). Biblical Calendars.)
O ritual pré-exílico está refletido em Ez O Código Eloísta dá o calendário mais
46,13-15, em que não há menção de um ho­ simples e sucinto (Ex 23,14-17). Ele prescre­
locausto noturno. Durante a monarquia ha­ ve um hag ou peregrinação (cf. hajj muçul­
via um holocausto matutino e uma oferen­ mano) três vezes por ano: a peregrinação
da de cereal à tarde (minhâ; veja 2Rs 16,15; do pão não levedado no mês de Abib (mar-
Esd 9,4-5; Dn 9,21). O costume pós-exílico ço-abril), a peregrinação da colheita de grão
de dois holocaustos continuou até os tem­ (fim da primavera) e a peregrinação da co­
pos do NT, mas a hora do segundo mudou lheita de frutos (outono).
do crepúsculo para o meio da tarde. No sá­
bado, o mesmo ritual era observado, mas 114 O Código Javista (Ex 34,18-23) é o
em cada holocausto, dois cordeiros eram mesmo que o Código Eloísta, mas com va­
riações leves, por exemplo, ele denomina a mos que durava toda a semana; 16-21a, que
peregrinação da colheita de grão como "fes­ lida com a festa das Semanas, a ser celebrada
ta das semanas" e data a colheita de frutos cinquenta dias após a festa dos Pães Ázimos;
"na virada do ano". Esta última expressão é, 34b-36, que trata da festa dos Tabernáculos,
contudo, sinônima à do Código Eloísta "no a ser celebrada no dia quinze de Tishri (se-
fim do ano", e a falta de precisão de am­ tembro-outubro) com a duração de sete dias,
bos os termos indica que as peregrinações seguida por um dia solene de descanso; e
prescritas não aconteciam em datas fixas, 37-38, a conclusão. Os acréscimos pós-exüi-
mas de acordo com as épocas variáveis da cos seriam estes versículos: 3, que trata do
agricultura. Antes da centralização da ado­ sábado; 10-15, que trata da festa do Primeiro
ração, cada local determinava suas próprias Feixe; 24-25, que trata da celebração do pri­
datas dentro das épocas gerais prescritas, meiro de Tishri; 27-32, que trata do Dia da
visto que o povo fazia a peregrinação para Expiação (dia 10 de Tishri); 39-43, que dão
um santuário local. um ritual diferente para a festa dos Taberná­
culos; e 44, uma nova conclusão (—>Levítico,
115 O Código Deuteronômico (Dt 16,1-17) 4:43-44).
introduz apenas mudanças leves, sendo a
mais significativa a especificação do local 117 Ezequíel 45,18-25 dá um tipo de
da peregrinação: "no local designado (por calendário litúrgico, aparentemente uma
Iahweh)". As três festas anuais são: (1) a idealização semelhante à visão do profeta
Páscoa, junto com a festa dos Pães Ázimos do novo Templo. Não há evidência de que
dos códigos anteriores; (2) a festa das Sema­ o calendário de Ezequiel tenha sido seguido
nas, com a explicação de que ela acontece alguma vez: o calendário que prevaleceu foi
sete semanas depois do início da colheita o Coleção Sacerdotal (Lv 23), que pode ser
de grãos; e (3) a Festa dos Tabernáculos ou complementado pela tabela dos sacrifícios a
Tendas (sukkôt), correspondente ao festival serem oferecidos em dias específicos encon­
da colheita dos frutos dos códigos anterio­ trada em Nm 28-29. Estas são as passagens
res. Não se dá nenhuma explicação sobre que dão o calendário da observância depois
este novo termo. do exílio, no Segundo Templo.
Agora, devemos considerar individu­
116 A Coleção Sacerdotal (Lv 23). Esta é almente as festas religiosas israelitas mais
mais precisa em matéria de datas, junto com importantes.
um novo calendário (o babilônio), de acordo
com o qual o ano começava na primavera e 118 (III) O sábado.
não no outono. Porém, encontramos também (A) Origem. A palavra inglesa é pratica­
um problema, pois Lv 23 dá clara evidência mente uma transcrição do termo hebraico
de ser uma mistura de duas fontes diferen­ sãbbat, que, por sua vez, é aparentemente
tes: ele tem dois títulos (w . 2 e 4), dois finais um derivado, embora irregular, do verbo
(vv. 37 e 44), dois conjuntos de prescrições sãbat, "cessar", e, por extensão, "parar de
para a festa dos Tabernáculos (w . 34-36 e trabalhar, descansar". Pelo menos, esta é
39-43). Segundo a concepção de R. de Vaux, a etimologia popular da palavra dada em
uma dessas fontes é o Código de Santida­ Gn 2,2-3, mas a origem científica não está
de do final do período dos reis (—>Levítico, totalmente clara, nem a origem da própria
4:3, 35, vol. I, AT), e a outra é composta por instituição religiosa. Todas as tentativas
acréscimos exílicos e pós-exílicos. Ao perío­ para provar que os hebreus (via Ezequiel) a
do do reinado pertenceriam estes versículos: tomaram emprestada dos babilônios falha­
4-8, que lidam com a Páscoa, a ser celebrada ram completamente. Tais tentativas são ba­
no dia quatorze de Nisan (o antigo Abib) e seadas principalmente na semelhança entre
a ser seguida pela antiga festa dos Pães Ázi­ sãbbat e a palavra acádia sappattu, que signi­
fica o dia que marca a metade do mês, o dia com seu povo e era um dia consagrado a ele
da lua nova. Contudo, a única semelhança de forma especial. Inicialmente, a lei do des­
admissível é etimológica; e, deste ponto de canso sabático foi simplesmente determina­
vista, o denominador comum seria o signi­ da; formas posteriores da lei acrescentaram
ficado de "fazer uma parada"; o sappattu fa­ motivos que revelam duas perspectivas te­
zia uma parada no mês; o sábado hebraico ológicas diferentes. Primeiro, em Dt 5,14b-
marcava o final da semana. Quanto à suges­ 15, enfatizam-se fatores humanitários: não
tão de que Ezequiel (20,12.20; 46,1) adaptou se pode trabalhar sem o descanso próprio.
os costumes babilónicos à vida israelita, o Porém, ao mesmo tempo, o aspecto religioso
fato é que, longe de introduzir o sábado, ele não é negligenciado: o sábado servirá como
o apresenta como uma instituição existente memorial da libertação do povo de Deus do
há muito tempo à qual seus compatriotas trabalho escravo no Egito e sua condução
têm sido infiéis (20,13; 22,26; 23,38). Outros ao "lugar de descanso" (12,9; veja SI 95,11).
pensam que a origem do sábado possa estar Segundo, Ex 20,11 expressa um motivo
culturalmente colocada em dias de mercado que reflete a atitude da escola sacerdotal:
que ocorriam regularmente, embora neste "Deus concluiu no sétimo dia a obra que
caso a observância teologicamente interpre­ fizera e no sétimo dia descansou, depois de
tada do sábado como um dia de descanso toda obra que fizera. Deus abençoou o séti­
em Israel teria colocado um fim ao próprio mo dia e o santificou, pois nele descansou
propósito pelo qual ele era originalmente depois de toda a sua obra de criação" (veja
observado. Outros ainda buscam as origens Gn 2,2-3; Ex 31,12-17).
no costume antigo de prolongar aconteci­ Ambos os motivos são uma expressão
mentos importantes, celebrações, lamenta­ da teologia da aliança; apenas os pontos de
ções, por sete dias - um fenômeno comum vistas são diferentes. A visão deuteronômi-
no Antigo Oriente Próximo. Nenhuma des­ ca se concentra em uma das partes da alian­
sas direções levou a quaisquer conclusões ça, o povo; a visão sacerdotal se concentra
sólidas sobre a origem do sábado israelita. na outra parte, Deus. A última perspectiva
(Veja B. E. Shafer, IDBSup 760-62.) prevaleceu e deu ao sábado seu tom pre­
dominantemente religioso (Lv 23,3.28; Ex
1 1 9 Êxodo 16,22-30 sugere que o sába­ 20,11; 31,15). Quando o período pós-exílico
do existia antes da aliança do Sinai, e Gn começou, os israelitas que observavam o
2,2-3 o remonta à própria época da criação. sábado estavam conscientes da celebração
Tais afirmações não se baseiam em qual­ do senhorio de Iahweh sobre toda a criação;
quer memória histórica; porém, o sábado veja F. Gõtz, TBei 9 (1978) 243-56.
é mencionado em todas as tradições que
constituem o Pentateuco: no Código Eloís­ 121 (C) O b s e r v â n c i a . Como sinal da
ta (Ex 23,12), no Código Javista (Ex 34,21), aliança, a observância do sábado indicava fi­
nas duas versões do Decálogo (Dt 5,12-14 delidade à aliança e era uma garantia de sal­
e Ex 20,8-10) e na Coleção Sacerdotal (Ex vação (Is 58,13-14; Jr 17,19-27); a não obser­
31,12-17). A observância israelita do sábado vância era equivalente à apostasia (Ex 31,14;
é certamente antiga. Mais do que isso não 35,2; Nm 15,32-36). Se o povo como um todo
podemos dizer no momento. negligenciasse o sábado, Deus os puniria se­
veramente (Ez 20,13; Ne 13,17-18).
1 2 0 ( B ) R e l e v â n c i a . O papel que o sába­ Nos dias antigos, contudo, o sábado era
do desempenhou na vida e no pensamento um feriado alegre, descontraído, predomi­
israelita o tornou bastante único. Não era nantemente religioso, mas não demasia­
apenas um feriado em que se descansava damente restritivo. O trabalho manual e
para outra semana de trabalho. Ele estava os negócios eram suspensos, mas o povo
relacionado à aliança que Deus tinha feito podia se mover livremente. Eles peregrina­
vam para santuários próximos (Is 1,13; Os mês do ano (março-abril). No dia 10 desse
2,13) ou iam consultar seus profetas (2Rs mês, cada família deveria selecionar um
4,23). Então, durante o exílio, quando a ce­ cordeiro macho de um ano e sem defeito.
lebração de outras festas era impossível, o No crepúsculo do dia 14 (Ex 12,6: "no cre­
sábado se tornou proeminente como o sinal púsculo da tarde"), o cordeiro era morto e o
distintivo da aliança. Depois do exílio, em­ sangue aspergido nas vergas e nos batentes
bora o sábado continuasse a ser um dia de da porta da casa. Durante esta noite de lua
descontração prazerosa, ele estava sujeito a cheia, o cordeiro era assado e comido; ne­
restrições mais firmes. Todos os negócios nhum de seus ossos poderia ser quebrado
e viagens estavam proibidos (Is 58,13); o e qualquer coisa que sobrasse depois da re­
povo não podia carregar nada de suas ca­ feição tinha de ser queimada. Pães ázimos e
sas ou fazer qualquer trabalho (Jr 17,21-22, ervas amargas também eram consumidos,
um acréscimo pós-exílico). Durante sua e aqueles que partilhavam da refeição ti­
segunda visita a Jerusalém, Neemias rea­ nham que estar vestidos como se estives­
giu vigorosamente à negligência do povo sem prontos para uma viagem. No caso de
com relação às leis do sábado ordenando uma família ser muito pequena para consu­
que os portões da cidade fossem fechados mir um cordeiro inteiro, ela se unia a alguns
e extraindo do povo uma promessa de fi­ vizinhos. Escravos e estrangeiros residentes
delidade futura (Ne 10,32; 13,15-16.19-22). igêrím) poderiam participar, contanto que
A medida que o tempo passou, as restrições fossem circuncidados.
foram multiplicadas até que, na época do No dia 15 do mês, a festa dos Pães Ázi­
NT, eram meticulosas. mos com duração de uma semana come­
çava. Todas as sobras de pão levedado
122 (IV ) P á s c o a e a fe s ta d o s p ã e s á z i­ tinham de ser destruídas, e durante a se­
m o s.Conforme vimos, os dias santos im­ mana seguinte apenas se podia consumir
portantes do calendário do antigo Israel pão levedado. O primeiro e o sétimo dias
eram as três festas de peregrinação (Pães do festival eram feriados em que aconte­
Ázimos, Semanas e Tabernáculos) e a Pás­ ciam reuniões religiosas. O mesmo ritual
coa. A Páscoa e a Festa dos Pães Ázimos da Páscoa-Festa dos Pães Ázimos está re­
foram combinadas mais tarde. As informa­ fletido em Ez 45,21, em Esd 6,19-22 e no
ções sobre a Páscoa, que não são abundan­ "Papiro da Páscoa" de Elefantina (—> His­
tes e nem sempre são claras, estão contidas tória, 75:125). Este papiro, de 419 a.C., in­
em dois grupos de textos, o litúrgico e o his­ siste nas datas que devem ser observadas,
tórico. uma indicação de que as datas são uma
inovação para esses colonizadores.
1 2 3 ( A ) H i s t ó r i a - t e x t o s l i t ú r g i c o s . Es­
tes textos vêm de tradições pentateucais di­ 124 (b) Tradição deuteronômica. Volte­
ferentes, formuladas em tempos diferentes; mos a um estágio anterior na celebração das
assim, é possível usá-las como guias para duas festas. O texto pertinente, Dt 16,1-8, é
traçar o desenvolvimento das grandes fes­ uma união artificial de dois rituais distintos,
tas judaicas. um se referindo à Páscoa e o outro à festa
(a) Tradição sacerdotal. Na época em que dos Pães Ázimos. Deuteronômio 16,1.2.4b-
esta última das tradições pentateucais foi 7 trata da Páscoa, que deveria ser celebrada
formulada, a celebração da Páscoa já estava durante o mês de Abib (março-abril); não
unida à da festa dos Pães Ázimos. Os tex­ se dá nenhuma data específica. A vítima
tos pertinentes são: Lv 23,5-8; Nm 28,16-25 poderia ser um bezerro, uma ovelha ou um
(veja 9,1-4); Ex 12,1-20.40-51. Deles, apren­ bode; ela devia ser morta ao pôr-do-sol, co­
demos que a Páscoa deveria ser celebrada zida e consumida na mesma noite. Porém,
em conjunção com a lua cheia do primeiro tudo isso deveria acontecer no Templo, e,
na manhã seguinte, todos deveriam ir para foram colocadas juntas. Esta combinação
casa. Deuteronômio 16,3.4a.8 trata da festa não tinha acontecido antes da época de
dos Pães Ázimos, em que por sete dias o Josias (por volta de 620), e a primeira re­
povo deveria comer "pães de miséria" sem ferência a eles como uma só festa está em
fermento. O sétimo dia deveria ser o dia de Ez 45,21 (durante o exílio, depois de 587)
descanso e convocação religiosa. Estes dois e no ritual Sacerdotal. A descrição do Cro­
rituais implicam uma distinção entre as nista da Páscoa solene de Ezequias (2Cr 30)
duas festas, marcada pela partida, na noite é claramente anacrônica (veja, ainda, F. L.
após a Páscoa, de todos aqueles que haviam Moriarty, CBQ 27 [1965] 404-6).
tomado parte na solenidade.
O ritual deuteronômico da Páscoa foi 126 (B ) H is tó r ia - A P á sc o a d e Jo s ia s .
seguido no reinado de Josias (2Rs 23,21-23; A Páscoa deuteronômica celebrada na épo­
—> 126 abaixo), e o texto nem mesmo men­ ca de Josias era realmente nova ou era antes
ciona a festa dos Pães Ázimos. Mas o autor um retorno a um costume antigo e há mui­
se esforça para indicar que esta Páscoa era to negligenciado? Algumas passagens (2Rs
algo novo. O Cronista também descreve a 23,22; 2Cr 35,18) pareceriam sustentar a
celebração da Páscoa de Josias (2Cr 35,1­ última concepção. Duas questões estão en­
18), mas insere em sua descrição práticas volvidas, contudo: a união da Páscoa com
seguidas posteriormente. Ele menciona a a festa dos Pães Ázimos e a restrição da ce­
festa dos Pães Ázimos como em Dt 16,7-8, lebração da Páscoa a Jerusalém. Alegou-se
mas ele também menciona a novidade do frequentemente que Js 5,10-12 indica uma
ritual da Páscoa de Josias (2Cr 35,18). Para combinação original das duas festas. Esta
uma ideia da novidade do ritual deuteronô­ passagem diz como, quando os israelitas
mico, devemos compará-lo com aquilo que acamparam em Guilgal, eles celebraram a
os calendários mais antigos nos dizem. Páscoa na noite do dia 14 e no mesmo dia
(de acordo com uma leitura melhor) "eles
125 (c) Antigos calendários litúrgicos. Os comeram do produto da terra na forma de
dois calendários mais antigos (Ex 23,15; pães não levedados e grãos queimados".
34,18) mencionam a festa dos Pães Ázimos, Mas é difícil ver qualquer semelhança real
mas não a Páscoa. Eles prescrevem que os entre este consumir bolos sem fermento no
pães asmos sejam consumidos por uma se­ dia da celebração da Páscoa e o festival de
mana durante o mês de Abib; este festival sete dias que é mencionado nos textos litúr­
era uma das três festas de peregrinações gicos. Tanto quanto se pode determinar, as
(hag) (Ex 23,14.17; 34,23). A Páscoa é men­ duas festas ainda estavam separadas quan­
cionada em Ex 34,25, mas este versículo do a legislação deuteronômica foi promul­
não trata das peregrinações, e tampouco Ex gada. A celebração da Páscoa sob Josias,
23,18. Porém, a palavra hag é usada em am­ que foi inspirada em Dt, não incluía a festa
bos os versículos; portanto, eles devem ter dos Pães Ázimos.
sido editados depois que Deuteronômio ti­ Por outro lado, a restrição da celebração
nha classificado a Páscoa como uma festa de da Páscoa a Jerusalém era uma inovação
peregrinação. E isto que parece constituir a deuteronômica. Antes da monarquia, a Pás­
novidade do ritual da Páscoa deuteronômi- coa poderia ter sido celebrada em um san­
ca observada no santuário central. Primei­ tuário central (2Rs 23,22; 2Cr 35,18); antes
ramente, a Páscoa era um acontecimento lo­ do estabelecimento em Canaã, ela era uma
cal, familiar (Ex 12,21-23; Dt 16,5), diferente festa tribal. Porém, com a desintegração da
da peregrinação dos Pães Ázimos. Porém, unidade tribal que seguiu o estabelecimen­
visto que ambas ocorriam no mesmo mês to, a Páscoa se tornou uma festa familiar.
e compartilhavam muitas características, Talvez este seja o porquê dela não ser men­
não é surpreendente que elas finalmente cionada em Ex 23 e 24, e também por que o
ritual javista de Ex 12,21-23 era tão detalha­ nosso março-abril), precisamente no tempo
do: famílias individuais precisariam de ins­ da lua cheia. Na vida do deserto, uma noite
truções mais claras. A festa dos Pães Ázi­ bem iluminada seria a escolha lógica para
mos permaneceu uma festa de grupo, uma tal festival. Todas as evidências, portanto,
peregrinação a um santuário local. Com a apontam para o fato de que a Páscoa re­
insistência deuteronômica final em Jerusa­ monta aos dias em que os israelitas estavam
lém como o único local legítimo para ambas vivendo de forma seminômade, inclusive à
as festas, elas foram colocadas juntas. época antes do êxodo. Esta pode ser a festa
que os israelitas, enquanto ainda no Egito,
127 (C) Origem da Páscoa. A etimolo­queriam celebrar no deserto (Ex 5,1) e cuja
gia é de pouca ajuda aqui. A explicação po­ permissão lhes foi negada pelo faraó.
pular dada em Ex 12,13.23.27 liga o nome da
festa (pesah) ao fato de que o anjo destruidor 128 (D) Origem dos Pães Ázimos. (massôt
"saltou, passou" (psh) as casas dos hebreus ou matzoth). Esta festa marcava o início da
durante a execução da décima praga; mas colheita da cevada. Nos primeiros sete
isto é etimologia popular, não científica. dias da colheita, o único pão comido era
A palavra acádica pasâhu, "apaziguar", não feito com farinha do novo grão, prepara­
se aplica, pois a Páscoa não era uma festa do sem fermento. Por não conter nada do
expiatória. Mais recentemente, sugeriu-se "ano passado", ele simbolizava um começo
que o hebraico é uma transcrição de uma novo. Além disso, havia uma oferenda dos
palavra egípcia que significa "soco, golpe", novos grãos a Iahweh, mas esta era mera­
e a referência era ao golpe que Iahweh des­ mente uma antecipação da oferenda mais
feriu ao Egito, mas isto é dificilmente sus­ formal das primícias na festa das Semanas
tentável. que marcava o fim da estação de colheita
Olhando para o ritual em si, constata­ de grãos, 50 dias depois do início da co­
mos que é caracteristicamente pastoral, e lheita da cevada. Visto que a festa dos Pães
nenhum outro ritual israelita se assemelha Ázimos era uma festa agrícola e não era
tanto ao dos antigos árabes nômades. A realizada até o estabelecimento em Canaã
Páscoa não exigia sacerdote nem altar, e o (Lv 23,10), os israelitas podem tê-la pego
sangue da vítima exercia um papel impor­ emprestada dos cananeus. Contudo, eles a
tante. Originalmente, um animal jovem era tornaram uma festa israelita, calculando-a
sacrificado para obter fertilidade para todo de sábado a sábado e fixando a principal
o rebanho, e o sangue era colocado nas esta­ festa da colheita (Semanas) sete semanas
cas da tenda para afugentar poderes malig­ depois (nem o sábado nem a semana eram
nos (veja Ex 12,23: o exterminador). O ritual conhecidos fora de Israel - veja de Vaux, AI
tem toda a aparência de um rito celebrado 186-88). Uma vez que era uma festa agríco­
quando a tribo desmontava acampamento la, determinada pela prontidão da colheita
para se dirigir a pastos frescos da primave­ de cevada, ela só poderia ser datada, com o
ra. O caráter nômade da Páscoa é, além dis­ máximo de precisão, dentro do mês em que
so, sugerido por diversos aspectos: a vítima esta colheita ocorria, Abib.
era assada; a carne era comida com pães
ázimos e ervas amargas (selvagens, não cul­ 129 A legislação deuteronômica e a re­
tivadas); e os participantes deveriam estar forma de Josias trouxeram alguma precisão
vestidos para partida imediata, com seus a esta questão, causando complicações no
cajados de pastor em mãos. Os últimos tex­ processo. A Páscoa se tornou uma festa de
tos que fixam as datas para a celebração da peregrinação, e sua proximidade com a fes­
Páscoa refletem a origem pastoral e nôma­ ta dos Pães Ázimos levou a uma final com­
de da festa. Eles especificam os dias 14 e 15 binação das duas entre a reforma de Josias
do primeiro mês (Abib: mais tarde, Nisan; (621) e o exílio (587-539). Enquanto que a
data da Páscoa era determinada pela lua ta, 50 dias antes, tinha marcado um novo
cheia, a festa dos Pães Ázimos dependia começo; mas agora que a colheita acabara,
da colheita e deveria começar e terminar os hábitos comuns eram retomados. Havia,
em um sábado. A Páscoa acabou tomando assim, um tipo de unidade orgânica entre a
precedência: No dia em que ela ocorresse, a festa das Semanas e a anterior festa dos Pães
festa dos Pães Ázimos começava no dia se­ Ázimos e, através desta, com a Páscoa.
guinte e durava uma semana. Além disso,
as duas festas ganharam um sentido novo 131 Visto que a festa das Semanas pre­
profundo como comemorações da liberta­ sumia uma economia agrícola, os israelitas
ção de Deus de seu povo do Egito, que ha­ começaram a celebrá-la apenas depois da
via acontecido na mesma época do ano. entrada em Canaã, adotando-a provavel­
mente dos israelitas. No princípio, não ha­
(Le D é a u t , R., La nuit pascale [AnBib 22; Roma,
via uma data fixa para sua celebração (Ex
1963]. S e g a l J. B ., The Hebrew Passover [London, 23,16; 34,22); Dt 16,9-10 confere precisão ao
1963]. Para o ritual da Páscoa do período rabínico relacionar a festa das Semanas à festa dos
primitivo: B o k ser , B . M., The Origins of the Seder Pães Ázimos, mas a data da última festa era
[Berkeley, 1984].) ainda bastante flexível. Finalmente, quando
a Páscoa e a festa dos Pães Ázimos foram
130 (V) Festa das Semanas - Pentecos­unidas e datas definidas lhes foram atribuí­
tes. Esta festa é chamada de festa da Colhei­ das, a festa das Semanas também adquiriu
ta em Ex 23,16, a festa da Colheita de Trigo um lugar fixo no calendário. Contudo, não
em Ex 34,22. Na última passagem, ela é cha­ foi sem dúvidas que todos aceitaram esta
mada também de festa das Semanas, mas data. No calendário dado pelos Jubileus e
isto pode ser um comentário acrescentado seguido em Qumran (—» Apócrifos, 67:18,
posteriormente para identificá-la com a pe­ 99), as festas caíam nos mesmos dias da se­
regrinação das semanas mencionada em mana a cada ano. De acordo com esta esti­
Dt 16,9-10. Aqui, aprendemos que a festa mativa, a oferenda do primeiro feixe, que
deveria ser celebrada sete semanas depois deveria acontecer "no dia seguinte ao sába­
do início da colheita da cevada (a festa dos do", não acontecia no domingo seguinte à
Pães Ázimos). O termo "festa das Semanas" Páscoa, mas uma semana mais tarde, no dia
aparece em Nm 28,26, junto com a "festa 26 do mês. Isto colocou a festa das Semanas
das primícias", pois a oferenda simbóli­ no dia quinze do terceiro mês.
ca das primícias no começo da colheita de
cevada tinha sido apenas uma antecipação 132 Embora originalmente uma festa
desta, a oferenda das primícias definitiva. agrícola, o Pentecostes adquiriu, posterior­
Como todas as festas de colheita, esta era mente, um significado ainda mais religioso
uma ocasião alegre (Dt 16,11; Is 9,2). O ritual ao ser relacionado ao Êxodo. De acordo com
completo para sua celebração é dado em Lv Ex 19,1, os israelitas chegaram ao Sinai no
23,15-21. A contar de sete semanas inteiras terceiro mês depois de sua partida do Egito.
a partir do dia seguinte ao sábado em que Visto que esta partida tinha acontecido na
o primeiro feixe de cevada foi oferecido a metade do primeiro mês, a festa das Sema­
Deus, chegamos ao dia seguinte ao sétimo nas coincidiu com a data de sua chegada ao
sábado, exatos 50 dias depois. (Assim, a festa Sinai e adquiriu uma magnitude adicional
acabou sendo conhecida como Pentecostes, como comemoração da aliança do Sinai.
da palavra grega para designar "quinquagé­ Esta conexão é mencionada explicitamente
simo" [2Mc 12,31-32; Tb 2,1].). A cerimônia em Jubileus. Em Qumran, também, a reno­
consistia na oferenda de dois bolos fermen­ vação da aliança era celebrada na festa das
tados feitos com a nova farinha de trigo. Semanas, a festa mais importante no calen­
O uso de pão ázimo no começo da colhei­ dário de Qumran (B. Noack, A S T I1 [1962]
72-75). Muitos detectam em At 2 a aliança Quando a terra tinha produzido toda sua sa­
no Sinai como pano de fundo de Pentecos­ fra para o ano corrente, e aquela safra tinha
tes. Entre os judeus em geral, contudo, ele sido reunida e estocada, o povo dava graças
reteve apenas uma importância secundária. alegremente a Deus (a analogia com nosso
No período rabínico, era considerado uma Dia de Ação de Graças [EUA] é óbvia). Ha­
festa em que se comemoravam a teofania via dança, canto e alegria geral (Jz 21,19-21),
no Sinai e a entrega da lei (J. Potin, La fête incluindo, aparentemente, uma amostra ge­
juive de la Pentecôte [LD 65; Paris, 1971]). nerosa do novo vinho (ISm 1,14-15).

133 (V I) F e s ta d a s T e n d a s - T a b ern á ­ 135 Quanto ao ritual da festa, os textos


nome hebr. da terceira grande festa
c u lo s . O antigos não são muito detalhados. Poste­
de peregrinação é sukkôt, variadamente tra­ riormente, a festa é chamada de sukkôt como
duzida como Tabernáculos, Barracas, Ten­ em Dt 16,13-15, mas não se oferece nenhu­
das e Cabanas. Nenhuma dessas traduções ma explicação quanto ao nome. Ela é des­
é completamente aceitável, embora "Ca­ crita como uma peregrinação ao Templo e
banas" chegue perto. Contudo, usaremos a duração dada é de sete dias. Informações
a convencional "festa das Tendas", com mais precisas são encontradas em Lv 23,33­
a lembrança de que a festa nunca pediu a 43, mas esta passagem não é uma unidade
montagem de tendas de qualquer tipo. En­ literária e deve ser estudada por partes. As
contramos o nome sukkôt pela primeira vez prescrições vagas de Dt 16,13-15 são repeti­
nos calendários litúrgicos posteriores (Dt das em Lv 23,34-36, com a menção adicio­
16,13.16; Lv 23,34) e em textos dependentes nal de um oitavo dia, de descanso e assem­
desses calendários (Esd 3,4; Zc 14,16.18). bleia para adoração. Aprendemos de Nm
Porém, enquanto que o nome pode ser re­ 29,12,34 quais sacrifícios eram oferecidos
lativamente novo, a festa é antiga; é a "festa durante os sete dias da festa, e Nm 29,35­
da reunião" ( ’ãstp), mencionada nos dois 38 prescreve os sacrifícios para o oitavo dia.
calendários mais antigos (Ex 23,16 e 34,22). Este oitavo dia parece ser um acréscimo ao
Das três festas de peregrinação anuais, ritual original, um dia de transição, de reto­
esta era a mais importante e a mais frequen­ mar o fôlego, antes de retornar às ativida­
tada. E chamada de "festa de Iahweh" em des normais.
Lv 23,39 (veja Nm 29,12); e Ez 45,25 a cha­ Um segundo estágio na redação de Lv
ma simplesmente de "a festa", como faz 1 23 está refletido no relato da celebração dá
Rs 8,2.65. Ela também deve ser identificada festa sob Esdras em Ne 8,13-18, pois 8,14
com "a festa anual de Iahweh em Silo" (Jz depende de Lv 23,42-43, em que lemos que,
21,19). Zacarias, ao prenunciar uma pere­ durante sete dias, o povo tinha de habitar
grinação mundial anual de todas as nações em tendas em memória de como os israe­
ao Templo, escolheu esta festa como a oca­ litas viviam depois de sua libertação do
sião da peregrinação (Zc 14,16), e Josefo a Egito. Quando o povo a quem a lei estava
designou como "a mais sagrada e maior sendo lida ouviu isso, eles se apressaram e
festa judaica" (Ant. 8.4.1 § 100). recolheram galhos para fazer telhados, os
quais eles colocaram nos tetos, nos pátios
1 3 4 ( A ) H i s t ó r i a . (Veja G. W. MacRae, do Templo e nas praças da cidade. Neemias
CBQ 22 [1960] 251-76.). Assim como as fes­ 8,17 observa: "porque nunca fizeram assim
tas dos Pães Ázimos e das Semanas, a festa os filhos de Israel, desde os dias de Josué".
das Tendas era uma festa agrícola, de fato, Certamente, isto não pode se referir à cons­
o ápice do ano agrícola. Ela marcava a reu­ trução de tendas improvisadas, pois o nome
nião de todo o produto dos campos (Ex sukkôt remonta a um período anterior a Dt.
23,16), os produtos dos campos de debu­ O fato de isto ter ocorrido em Jerusalém é
lha, das vinhas e lagares de óleo (Dt 16,13). provavelmente a novidade.
O estágio final na redação de Lv 23 é celebração da época da vindima em honra
representado pelos w . 40-41, que indicam: a Baco e à festa de Adônis-Osíris, em que
"No primeiro dia tomareis frutos formo­ uma árvore era colocada sobre o esquife de
sos, ramos de palmeiras, ramos de árvores Adónis. As duas explicações são comple­
frondosas e de salgueiros das ribeiras, e vos tamente destituídas de fundamento. Uma
regozijareis durante sete dias na presença outra hipótese mais popular se baseia na
de Iahweh vosso Deus. Celebrareis assim ideia primitiva de que os poderes malig­
uma festa para Iahweh, sete dias por ano. nos estavam especialmente ativos na vira­
É lei perpétua para vossos descendentes". da do ano e atacavam as casas. Para esca­
Não há menção disso no texto de Neemias; par desta influência malévola, o povo saía
o fruto não tinha conexão com a construção de suas casas e morava em habitações pro­
de cabanas. Textos históricos posteriores visórias até que o perigo passasse. Afirma-
tornam claro que a folhagem era carregada se que os israelitas eram particularmente
em procissão, como na cerimônia do do­ suscetíveis a tais superstições durante seus
mingo de Ramos dos católicos. De acordo primeiros anos de vida sedentária em Ca-
com 2Mc 10,6-8, a dedicação do templo foi naã, quando a festa das Tendas teria sido
celebrada "como a festa das Tendas": du­ introduzida. De fato, não há traços dessas
rante oito dias, os judeus realizaram pro­ noções nos textos bíblicos, que oferecem
cissões triunfais, carregando tirsos, galhos uma explicação mais satisfatória e menos
verdes e ramos. Josefo (Ant. 13.13.5 § 372) forçada. A festa começou como uma festa
conta como o monarca desprezado Alexan­ de colheita, conforme seu nome primitivo
der Janeu (—> História, 75:142) foi atacado ( ’ãsip ou Reunião) sugere, e conforme os
com frutas carregadas pelo povo durante a textos antigos (Ex 23,16; 34,22) indicam.
festa das Tendas. Mesmo depois de ter assumido um nome
inspirado em uma parte acidental do ri­
136 (B) Data. De acordo com Ex 23,16, tual (sukkôt ou tendas), ela permaneceu
a festa das Tendas deveria ser celebrada no essencialmente uma festa agrícola. Se bus­
final do ano (no outono); de acordo com Ex carmos sua origem fora de Israel, o local
34,22, na virada do ano. Os textos, tomados lógico é Canaã, como o era para as festas
juntos, indicam que nenhuma data defini­ dos Pães Ázimos e das Semanas.
tiva havia ainda sido determinada para a
celebração, que dependia da condição das 138 Contudo, como o ritual das sukkôt
colheitas. Em Dt 16,13, a data é dada como ganhou tanta distinção? Ele tinha suas raízes
dependente do progresso do trabalho de em um costume palestino muito comum: du­
colheita. Quando a colheita estava termina­ rante a época da colheita, o povo construía
da, a festa deveria ser celebrada. As referên­ abrigos nos pomares e vinhedos. Estas ten­
cias informais à celebração da festa em Reis das improvisadas davam alguma proteção
causam complicações; veja de Vaux, AI [Ins­ contra o sol durante o período de descanso.
tituições de Israel] 498-99. De fato, a data não Visto que a festa da Reunião era celebrada
foi fixada definitivamente antes do período ao ar livre, onde estas pequenas tendas eram
refletido por Lv 23,34 (veja Nm 29,12), o que parte integrante da cena da colheita, não é
a coloca no dia quinze do sétimo mês (o mês, difícil verificar como ela veio a ser conheci­
setembro-outubro, é contado a partir do co­ da como festa das tendas (sukkôt). Embora
meço do ano, na primavera). A festa deve retivesse o nome e permitisse o costume,
durar sete dias e chegar ao final no oitavo. Dt 16,13-15 insistiu em que o povo fosse a
A mesma datação é dada em Ez 45,25. Jerusalém para os sacrifícios. Finalmente, as
sukkôt foram colocadas na própria Cidade
137 (C) Origem. Houve tentativas Santa e se tornaram uma parte permanente
fracassadas em ligar a festa das Tendas à do ritual (Lv 23,42; Ne 8,16).
Como no caso da Páscoa e da festa das ticamente, tal festa teria celebrado o reina­
Semanas (—>129,132 acima), a festa das Ten­ do divino de Iahweh como Senhor de toda
das adquiriu, posteriormente, um sentido a criação, na qual o rei terreno participava.
religioso mais profundo ao ser relacionada Alguns acrescentariam que esta participa­
a um acontecimento no êxodo. As sukkôt ção do rei terreno no reinado divino teve
eram interpretadas como um memorial das consequências para o bem-estar da nature­
sukkôt em que os israelitas tinham vivido za no fluxo e refluxo das forças do universo
depois de sua libertação do Egito (Lv 23,43). - uma ideologia religiosa de realeza seria,
De fato, eles não viviam em cabanas, mas assim, combinada com elementos da clássi­
em tendas durante a estadia no deserto; as­ ca religião cananeia da natureza. No perío­
sim, a associação é litúrgica e não histórica. do pós-exílico, a festa teria sido suprimida
em virtude da oposição aos elementos da
139 (VII) Uma festa do Ano Novo no antiga religião da natureza cananeia e em
AT? Não é totalmente claro quando o Ano virtude da oposição à monarquia como tal.
Novo começava em Judá e em Israel, mas
ele começava no outono em Judá durante a 140 A existência dessa festa no começo
maior parte do período da monarquia. Na outonal do ano no período monárquico de
época do exílio, contudo, e no período pós- Judá pode ser apenas suposta pela indu­
exílico, o ano começava na primavera, com ção a partir de dados acumulados de difícil
o mês babilónico Nisan (março-abril). Não acesso. Se tal festa existia, com a participação
há menção de uma festa de Ano Novo no significativa do rei terreno, e com o reinado
AT. R õ ’s hassãnâ em Ez 40,1 não se refere a de Iahweh em seu centro ideológico, isto
uma festa, mas a uma época do ano. Em Lv nos ajudaria a entender algumas passagens
23,23-25 e Nm 29,1-6, em que se pressupõe do AT, especialmente nos Salmos (—> Sal­
um calendário que começa por Nisan, o pri­ mos, 34:6, vol. I, AT). Isto poderia explicar
meiro dia do sétimo mês, que seria Tishri por que a festa de ano novo do calendário
(setembro-outubro), era um dia de têrü‘â judaico, R õ ’s hassãnâ, mesmo quando ela
("tocar as trombetas"? —> Levítico, 4:46), a apareceu pela primeira vez na Mishná no
ser observado de maneira ainda mais sole­ séc. II d.C., era uma festa em que a realeza
ne que o primeiro dia dos outros meses. Le­ de Deus aparecia e era celebrada no outono
mos em Ne 8,2 que Esdras escolheu o mes­ no dia primeiro dia de Tishri, apesar de o
mo primeiro dia do sétimo mês, Tishri, para novo ano do calendário ocorrer na prima­
sua leitura solene da lei. A importância do vera na Judá pós-exílica. Se havia tal festa
primeiro do Tishri outonal nestes textos pós- pré-exílica no começo outonal do ano, ela se­
exílicos primitivos, quando o ano começava ria uma festa simples de uma semana (veja Dt
na primavera, tem sido tomada como evi­ 16,13.15), finalmente dividida na solenidade
dência de que havia uma festa de ano novo do primeiro de Tishri, o Dia da Expiação no
no período pré-exílico, quando o ano novo dia dez e a festa das Tendas do dia quinze ao
- em Judá pelo menos - começava no outo­ dia vinte e dois (Mowinckel, Psalmenstudien
no. A ocorrência tanto do Dia da Expiação 2.83-89), à medida que aconteceu uma mu­
quanto da festa das Tendas dentro do mês dança de ênfase para a celebração pública
de Tishri no período pós-exílico teria sido da Páscoa na primavera. Tais mudanças nas
determinada pela importância que Tishri ti­ instituições religiosas de Israel podem ter re­
nha tido como primeiro mês do ano no pe­ fletido mudanças de atitude teológica (veja T.
ríodo do reinado. Tais textos do período do N. D. Mettinger, The Dethronement of Sabaoth
reinado, como lR s 8,2-3; 12,32-33 (à luz de [ConBOT 18; Lund, 1982] 67-79).
12,26-27), poderiam ter aludido a uma festa
outonal, talvez à festa de Reunião, com um 141 (VIII) Uma festa da entronização
caráter fortemente régio e religioso. Hipote­ de Iahweh? Alguns dos que sustentavam a
teoria descrita acima foram mais além: eles para reconstruir uma festa de ano novo is­
viram o ato central dessa festa de ano novo raelita para a entronização de Iahweh - de
como o ritual de entronização de Iahweh, uma forma muito eclética e extrema por par­
que visava a renovar anualmente a vitória te daquela que veio a ser conhecida como
mítica de Iahweh sobre seus inimigos, com escola dos Mitos e Rituais. S. H. Hooke (The
consequências reais para a renovação das Origins ofEarly Semitic Ritual [London, 1983]
obras da criação. Para isso, propuseram-se 45-68) apelou para um "padrão" de concei­
as seguintes linhas de raciocínio: tos e práticas religiosos válidos em todos os
lugares no Oriente Próximo (até certo ponto
142 (A) Argumentos do estudo compa­mutatis mutandis). Baseado neste "padrão",
rado das religiões. Na Babilônia, durante ele e outros partidários da escola viam uma
os primeiros 12 dias de Nisan, celebrava- festa israelita da entronização de Iahweh
se a festa de ano novo. Seu ritual existente cujo ritual incluía uma representação da
(.ANET 331-34) está incompleto e é muito batalha entre Iahweh e as forças do caos
tardio (do período selêucida), mas a festa com Iahweh vitorioso, uma representação
em si, e presumivelmente muitos de seus dramática da morte e ressurreição divinas,
elementos componentes, eram muito mais um hieros gamos, uma leitura do relato mí­
antigos. Entre estes elementos estavam a tico da criação e uma procissão ao Templo
leitura do épico de criação mesopotâmico, para o ritual da entronização de Iahweh.
Elish Enuma (ANET 60-72), diante da ima­ O "padrão" de Hooke foi desenvolvido mais
gem do deus nacional babilónico Marduc, detalhadamente, com inclusão maior de
uma procissão a uma capela festiva (o akïtu) material bíblico e judaico, por Widengren
fora da cidade, uma representação ritual (Sakrales Königtum). Poucos hoje admiti­
da vitória de Marduc sobre os deuses do riam que o culto oficial e ortodoxo de Israel
caos e uma proclamação de seu reinado di­ em qualquer época incluiu um hieros gamos
vino com a fórmula "Marduc é rei". O rei ou foi influenciada pelo mito de um deus
da Babilônia tinha um certo papel ritual a morto e ressurreto. (W. von Soden refutou
interpretar. Entre os hititas de um período a aplicação deste último a Marduc na Babi­
anterior, o rei tinha um papel ainda mais lônia, ZA 51 [1955] 130-66.). Porém, alguns
importante na festa do ano novo; e a festa dos paralelos babilónicos e outros paralelos
da coroação do faraó no Egito era conside­ ideológicos e míticos à realeza divina em Is­
rada o início de um novo ano, embora não rael são certamente válidos.
do ano novo civil.
Na mitologia cananeia, a vitória de Baal 143 (B) Argumentos a partir do Antigo
sobre as forças do caos e da morte, repre­ Testamento. A hipótese de uma festa da en­
sentados por Yam e por Mot (ANET 129-42), tronização de Iahweh no período monárqui­
estava em paralelo com a vitória de Marduc co de Judá dificilmente teria sido formulada
sobre Tiamat e os deuses do caos no épico sem os paralelos babilónicos mencionados
babilónico da criação. Na prática religiosa na seção anterior. Porém, primeiramente
cananeia, havia um ritual de casamento sa­ foi uma tentativa de encontrar o contexto
grado, que os autores helenistas chamaram vital de certos salmos que levaram à hipó­
de hieros gamos. O mito de Tamuz, que mor­ tese e à reunião dos paralelos babilónicos.
ria e renascia ciclicamente como as plantas A ideia de uma festa de ano novo israelita
verdes, tinha sua expressão religiosa tanto já tinha sido proposta por P. Volz quando
em Canaã quanto na Mesopotâmia (veja, Mowinckel (Psalmenstudien, vol. 2) estabele­
para a Palestina e as regiões litorâneas, N. ceu uma categoria de "salmos de entroniza­
Robertson, HTR 75 [1982] 313-60). ção" para diversos salmos que celebravam
Estes elementos nos sistemas religiosos o reinado de Deus. Mowinckel propôs um
do antigo Oriente Próximo foram usados ambiente cultual como parte de um ritual
para uma festa de ano novo da entronização de forma válida, um calendário ou ritual
de Iahweh, que ele descreveu por analogias infundido com elementos míticos em Israel
à festa de ano novo babilónico, combinadas por simples analogia intuitiva com aqueles
com informações sobre o ano novo judaico elementos em outros lugares. Permanece
retiradas de fontes rabínicas e com o que ele verdade, contudo, que o reinado divino de
entendeu como alusões do AT a elementos Marduc era celebrado na festa de ano novo
rituais da festa. Ele insistiu que um aspecto babilónico e que o reinado divino de Iahweh
importante da festa era o "drama criativo" era celebrado no ano novo judaico, de acor­
ritual, pelo qual os antigos pensavam que do com evidência posterior ao AT.
tais efeitos eram produzidos na realida­
de. Segundo esta concepção, os israelitas 145 Um ponto crucial na hipótese de
teriam pensado que a execução anual de uma festa de entronização de Iahweh está
uma representação ritual da vitória mítica na expressão Iahweh mãlak (SI 93,1; 96,10;
de Iahweh sobre seus inimigos e as forças 97,1; 99,1), compreendida como "Iahweh se
do caos, tendo sua entronização ritual como tornou rei" e interpretada como uma fór­
ápice, realmente efetuava a renovação da mula de entronização (—> Salmos, 34:109).
criação. Até mesmo o próprio Israel, o auge Se em um caso dado isso significa "Iahweh
da criação, teria sido renovado através de reina/é rei" ou "Iahweh se tornou rei" (ape­
uma dramatização do êxodo, com a reno­ nas agora? Ou há muito tempo com efeitos
vação da aliança de Israel com Deus. Um permanentes não sujeitos à renovação?) tem
papel quase sagrado do rei terreno na re­ de ser determinado a partir de um contexto
novação da natureza criada foi enfatizado dado, sobre o qual o desacordo permanece
pela primeira vez nos estudos do AT. possível (veja J. H. Ulrichsen, VT 17 [1977]
361-74). Iahweh mãlak não corresponde à
1 4 4 ( C ) A v a l i a ç ã o d o s a r g u m e n t o s . Os forma do que parece ter sido a aclamação
argumentos de Mowinckel não passaram pública israelita na ascensão de um rei. A
muito bem pelo teste de validação crítica. aclamação "Marduc é rei" nos procedimen­
Embora uma festa de entronização israelita tos da festa de ano novo babilónico não era
e a validade dos paralelos babilónicos fos­ usada com a ideia de uma renovação do rei­
sem primeiramente aceitos, sem os excessos nado de Marduc em mente. O SI 47 contém
de "padronismo", por alguns assiriologistas detalhes nos vv. 6.9 (—» Salmos, 34:63) que
conceituados como F. M. T. de Liagre Bõhl, podem ser tidos como alusões a um ritual
houve um refinamento na interpretação do de entronização divina, mas esses detalhes
festival do ano novo babilónico. Era, de fato, receberam outras explicações igualmente
uma festa em que Marduc era honrado como plausíveis e não justificam, por si mesmos,
o principal deus da Babilônia, deus supremo a aceitação de uma festa especificamente
de todos os deuses e soberano de toda a cria­ "da entronização de Iahweh".
ção, mas não se tratava especificamente ou
primordialmente de um festival de entroni­ 146 ( D ) O u t r a s C o n c e p ç õ e s d a f e s t a .
zação de Marduc, nem o rei da Babilônia ti­ Alguns estudiosos, rejeitando a hipótese
nha qualquer papel glorioso a desempenhar; de Mowinckel sobre uma festa de entro­
de fato, seu único papel central nos proce­ nização, aceitaram sua ideia de uma festa
dimentos sagrados implicava uma humi­ outonal, junto com alguns elementos de
lhação ritual (veja A. L. Oppenheim, Ancient seu ritual reconstruído, e lhes deram uma
Mesopotamia [Chicago, 1964] 122). O concei­ interpretação diferente. A. Weiser (The Psal­
to do reinado de um deus tinha raízes anti­ ms [Philadelphia, 1962] 23-52) interpretou a
gas na própria Canaã (O. Eissfeldt, ZAW 46 festa como uma festa da aliança. H. J. Kraus
[1928] 81-105). Críticas sérias do "padronis­ (Die Kõnigsherrschaft Gottes im Alten Testament
mo" mostraram que não se pode construir, [Tübingen, 1951]), com mais hesitação em
publicações posteriores, a interpretou como 22-40. H o o k e , S . H . (ed.), Myth, Ritual and Kingship
uma festa régia que celebra a eleição divina [Oxford, 1958]. J o h n s o n , A. R., Sacral Kingship in
da dinastia de Davi e Sião, em que a renova­ Ancient Israel [2a ed., Cardiff, 1967]. M o w in c k e l ,
ção não era da criação, mas da aliança. S ., Psalmenstudien [Kristiania, 1922] vol. 2. S n a it h ,
N., The Jewish New Year Festival [London, 1974].
( B ö h l , F. M. T. de Liagre, Opera minora [Gro­ V o l z , P., Das Neujahrsfest Jahwes [Tübingen, 1912].

ningen, 1953] 263-81. C a z e l l e s , H. "Nouvel an IV: W e l t e n , P., "Königsherrschaft Jahwes und Thron­
Le Nouvel an en Israël", DBSup 6. 620-45. C l in e s , besteigung", V T 32 [1982] 297-310. W id e n g r e n ,
D. J. A., "The Evidence for an Autumnal New Year G., Sakrales Königtum im Alten Testament und im
in Pre-exilic Israel Reconsidered," JBL 93 [1974] Judentum [Stuttgart, 1955].)

FESTAS TARDIAS DO ANTIGO TESTAMENTO

147 (I) O Dia da Expiação. O Yom Ki­ uma mentalidade diferente. A comunida­
ppur é uma das festas judaicas mais bem de apresentava dois bodes, e se lançava a
conhecidas. Nos tempos do NT, ela tinha sorte para determinar seus destinos: um era
atingido tal prestígio que era chamada sim­ escolhido para Iahweh, o outro "para Aza­
plesmente de "O Dia", e é sob este título zel". O paralelismo entre "para Iahweh" e
(Yoma) que a Mishná trata dela. Desde sua "para Azazel" indica que este é um nome
instituição, ela é celebrada na mesma data, próprio, provavelmente de um demônio.
o dia 10 de Tishri (setembro-outubro), o sé­ E interpretado desta maneira pela versão
timo mês (Lv 23,27-32; Nm 29,7-11). siríaca de Lv, pelo Targum e por 1 Henoc,
que identifica Azazel como o príncipe dos
148 (A) Ritual. Este é dado em detalhes demônios que foi banido para o deserto.
em Lv 16. - Isto concordaria com a noção de que demô­
O ritual da expiação. O Dia da Expiação nios habitavam no deserto (Is 13,21; 34,11­
era um dia de descanso completo, penitên­ 14; veja Tb 8,3; Mt 12,34). O bode escolhido
cia e jejum. Em uma assembleia solene no para Iahweh era sacrificado pelos pecados
Templo, ofereciam-se sacrifícios especiais do povo. O sumo sacerdote, então, impu­
em expiação pelo santuário, pelo clero e nha as mãos sobre o bode para Azazel; por
pelo povo. Parece haver uma combinação este gesto simbólico, ele transferia para o
de dois rituais distintos em Lv 16. De acor­ bode todos os pecados da comunidade.
do com o primeiro, ou ritual levita, o sumo Este bode não era sacrificado a Iahweh nem
sacerdote oferecia um touro como um sacri­ ao demônio. Ele era conduzido ao deserto,
fício por seus próprios pecados e para todo e com ele se removiam os pecados do povo
o sacerdócio aarônico. Então, ele entrava no (Lv 16,8-10.20-22).
Santo dos Santos para colocar incenso no Este ritual recorda o que se fazia na Ba­
kappõret (—» 32, 35 acima) e para aspergi-lo bilônia anualmente no dia 5 de Nisan. Um
com o sangue do touro (16,11-14). Este era o cantor, entoando encantamentos, purificava
único dia durante o ano em que ele entrava os santuários de Bei e Nabu com água, óleo
neste santíssimo lugar. Depois, ele sacrifi­ e perfumes. Então, um outro homem deca­
cava um bode pelos pecados do povo; ele pitava uma ovelha e esfregava o corpo do
também levava um pouco do sangue para animal contra o templo de Nabu para pu­
o Santo dos Santos para aspergi-lo sobre o rificá-lo. Em seguida, os dois carregavam a
kappõret (16,15). O sangue também era pas­ cabeça e o corpo da ovelha para o Eufrates
sado e aspergido sobre o altar (16,16-19). e os jogavam dentro dele. Então, eles se re­
tiravam para o campo e não podiam voltar
149 O bode para Azazel. Entretecido até o dia 12 de Nisan, quando o festival de
com o ritual levita há um outro que reflete ano novo chegava ao fim. Há semelhanças
inegáveis entre esta cerimônia e a do bode 9,27; 11,31); sobre este ele ofereceu o primeiro
expiatório no Yom Kippur, mas há diferen­ sacrifício a Zeus Olímpico no dia vinte e cinco
ças também - especialmente o uso do bode de Casleu (dez.) em 167 a.C. Apenas três anos
expiatório em Israel para remover os peca­ mais tarde, nesta mesma data, Judas Maca-
dos do povo. Outros povos tinham rituais beu purificou o santuário, erigiu um novo al­
semelhantes, e há uma analogia, dentro do tar e o consagrou (2Mc 10,5). Acordou-se que
ritual israelita, entre o bode expiatório e a o acontecimento seria comemorado anual­
ave que era solta no ritual de purificação da mente (lMc 4,59), porém, durante os 12 anos
lepra (—»106 acima). seguintes, mais ou menos, a festa não pôde
ser observada com qualquer regularidade
150 (B) Instituição. Há, certamente, mui­ em virtude da situação militar (—> História,
tos elementos antigos no ritual para a festa 75:135-37). Tão logo que se obteve a liberdade
da Expiação, elementos que foram combi­ completa e Jônatas se tomou o sumo sacerdo­
nados com costumes levíticos e adaptados a te em 152, a observância regular da festa foi
ideias religiosas ortodoxas. Tal combinação retomada. Ela é mencionada em Jo 40,22 e em
é evidente no ritual de uma novilha verme­ Josefo (Ant. 12.7.7 § 323-26).
lha e no da purificação de um leproso (—»
104-7 acima). Porém, não há alusão à festa 152 (B) Ritual. A festa durava oito dias
em nenhum texto pré-exílico. Na profe­ a começar do dia 25 de Casleu e se caracteri­
cia de Ezequiel sobre o futuro Templo, ele zava por uma atmosfera de grande alegria.
previu uma cerimônia que aconteceria nos Ofereciam-se sacrifícios no Templo; e tir-
dias primeiro e sétimo do primeiro mês. No sos, galhos verdes e ramos eram carregados
primeiro, um touro seria sacrificado e seu em procissão, enquanto se entoavam hinos
sangue usado para purificar o Templo e o apropriados (2Mc 10.6-8; veja lM c 4,54). O
altar; no sétimo, um sacrifício semelhante SI 30, intitulado "Canção para a dedicação
aconteceria pelos pecados não propositais do Templo", era provavelmente um destes
do povo (Ez 45,18-20). Apesar da seme­ hinos, mas os hinos principais eram os sal­
lhança fundamental, este não é o Dia da Ex­ mos Hallel (113-18). Sabemos, através da
piação, que acontecia no dia dez do sétimo Mishná e de escritos rabínicos, que o povo
mês; e Ezequiel não menciona a cerimônia acendia lâmpadas em frente às suas casas,
do bode expiatório. Os livros de Esdras e acrescentando uma por dia durante a festa.
Neemias não mencionam a festa. Toda evi­ Este é um desenvolvimento posterior, pois
dência disponível indica uma data relativa­ o acender as lâmpadas referido em lM c 4,50
mente tardia para a festa da Expiação, mas indica a restauração dos candelabros no
é impossível determinar essa data com al­ Templo. Contudo, 2Mc se refere ao acender
guma precisão. das lâmpadas - mas de novo no Templo; e
no Salmo 118,27 se lê: "Iahweh é Deus: ele
151 (II) Festa de Hanucá - Dedicação. nos ilumina! Formai a procissão com ramos
O termo hebraico hannukkâ traduzido para o até aos ângulos do altar". De qualquer for­
grego (ta enkainia) significa "inauguração" ou ma, o uso de luzes se tornou uma caracte­
"renovação". A tradução comum do portu­ rística tradicional da festa, e este continuou
guês para o título da festa é Dedicação; Josefo a ser o caso mesmo depois da destruição do
lhe dá um outro nome, a festa das Luzes. Templo em 70 d.C. Isto explica a "festa das
(A) Origem e história. A origem da fes­Luzes" de Josefo.
ta de Hanucá é descrita em lM c 4,36-59.
O tirano Antíoco Epífanes tinha profanado 153 A semelhança entre os rituais de
o Templo e seu altar e colocado no lugar do Hanucá e das Tendas é óbvia; 2Mc a en­
altar de holocaustos um altar pagão. Este era fatizou de forma bem explícita (1,9; 10,6).
a Abominação da Desolação (lMc 1,54; Dn Possivelmente, Judas Macabeu padroni­
zou o ritual segundo o das Tendas, pois foi junto às portas das casas ordenado por An­
em conexão com as Tendas que o Templo tíoco (lMc 1,55). Não está claro por que uma
de Salomão (lRs 8,2.65) e o altar pós-exíli­ lâmpada a mais era acesa a cada dia, mas
co (Esd 3,4) tinham sido consagrados. As este tipo de coisa não é incomum em cos­
duas festas duravam oito dias, e em ambas tumes populares e liturgias (cf. os costumes
se carregavam ramos em procissão. Havia católicos com a coroa de flores do Advento e
diferenças também: os salmos Hallel eram na antiga celebração do ofício das trevas na
provavelmente entoados primeiramente na Semana Santa). A festa de Hanucá era essen­
Hanucá e foram posteriormente estendidos cialmente uma comemoração da purificação
à Páscoa, ao Pentecostes e às Tendas; e, du­ do Templo, e todos os seus rituais podem
rante a Hanucá, não se erigiam tendas. As ser explicados como reações às abominações
luzes que apareciam com tanta proeminên­ temporárias pagãs em Jerusalém.
cia na Hanucá são bem distintivas.
155 (III) Festa do Purim.
154 (C) Influências. Apesar do relato cla­ (A) Data e ritual. De acordo com Josefo,
ro da origem da festa e sua relação com um esta festa era celebrada nos dias 14 e 15 de
acontecimento histórico específico, alguns Adar (fevereiro-março) em memória da vi­
estudiosos insistem em que o Hanucá é, de tória dos judeus da Pérsia sobre seus possí­
fato, uma versão judaica de uma festa pagã veis exterminadores. Para o ritual, devemos
do solstício de inverno e que há uma relação nos voltar aos escritos rabínicos. O dia 13 de
clara entre Hanucá e Henoc, cujo período de Adar era um dia de jejum; à noite, lâmpadas
vida de 365 anos coincidiu perfeitamente com eram acesas em todas as casas, e o povo ia à
o número de dias de um ano solar (Gn 5,23). sinagoga. Os dois dias seguintes eram festi­
Outros igualam a Hanucá à festa romana do vos. Todos iam à sinagoga para a leitura do
Sol Invictus (25 de dezembro). Outros ainda livro de Ester, e a congregação interrompia a
observam que, quando Antíoco Epífanes es­ leitura com ofensas contra o vilão Amã e os
tava no controle, ele fez com que os judeus seus. O encontro encerrava com uma bênção
usassem coroas de hera e marchassem em solene de Mardoqueu, de Ester e dos israeli­
procissão em honra a Baco (2Mc 6,7) e que tas em geral. A festa do Purim era a ocasião
ele importou um ateniense (2Mc 6,1) para ins­ para a troca de presentes e a distribuição de
truí-los no ritual. Finalmente, outros veem no esmolas; porém, à parte dessas expressões
acender de uma nova lâmpada a cada noite de piedade e caridade, era a mais mundana
um símbolo do prolongamento dos dias de­ das festas judaicas - uma espécie de carnaval,
pois do solstício de inverno. com o uso de máscaras e outros disfarces. Os
Tais influências não são prováveis. Se rabinos estabeleceram uma regra segundo a
costumes pagãos afetaram a escolha da qual se devia parar de beber quando não mais
data do Hanucá, eles o fizeram apenas in­ se distinguisse entre "Maldito seja Amã!" e
diretamente. Judas Macabeu selecionou a "Bendito seja Mardoqueu!"
data para apagar a memória não apenas da
profanação do altar, que ocorreu no dia 25 156 (B) Livro de Ester. A história de Es­
de Casleu, mas também do sacrifício pagão ter deu a esta festa sua existência e seu nome.
oferecido todo mês no dia 25, que era o ani­ De acordo com 3,7 e 9,24, Amã lançou a sorte
versário de Antíoco (2Mc 6,7). Carregar ga­ (purim) para determinar o destino dos judeus,
lhos em uma procissão em honra a Iahweh que deveria ser o extermínio. Ele fez isso no
pode também ter sido uma reação contra o dia 14 de Adar, mas seu esquema se voltou
costume pagão que os judeus foram força­ contra ele e ele próprio foi enforcado. Agora,
dos a seguir na adoração de Baco. Acender pür não é hebraico nem persa, mas acádio; e é
lâmpadas em frente às casas pode ter tido a estranho que as sortes tenham um papel tão
intenção de substituir a queima de incenso insignificante na história em si e que não haja
referência a elas na festa à qual deram nome. origens precisas não são fáceis de determi­
De fato, 3,7 tem todas as marcas de uma inter­ nar. As tentativas de remontá-la à Babilô­
polação, e 9,20-32 é o relato de uma carta que nia e traduzi-la inteiramente em termos da
Mardoqueu escreveu aos seus compatriotas mitologia babilónica (Mardoqueu-Ester =
judeus insistindo que eles observassem a fes­ Marduc-Istar; Amã-Vasti = Aman-Mashti)
ta. Pode-se suspeitar que as duas passagens não são nada convincentes. O autêntico sa­
tenham sido interpoladas para tornar a festa bor persa de Ester aponta antes para uma
aceitável aos judeus como um todo e para fi­ origem persa da festa; porém, as corres­
xar seu nome como Purim. O livro todo, na pondências babilónicas entre Mardoqueu
verdade, parece destinado a ser uma justifi­ e Marduc e entre Ester e Istar dificilmente
cativa para a festa. Tudo na história converge são acidentais. Além disso, a palavra püru é
para a celebração que aconteceu no dia se­ claramente acádica. A festa, então, deve ter
guinte ao massacre dos persas, e os versículos tido suas raízes em várias culturas.
finais (9,16-19) são uma tentativa de explicar De qualquer forma, ela se originou na
por que a festa durou dois dias (14 e 15 de Diáspora judaica oriental e provavelmente
Adar). Mas pode ter havido alguma base comemorava um genocídio projetado do
histórica para o relato que foi livremente am­ qual os judeus escaparam por pouco. Ela
pliada para formar a lenda de uma festa (de também tinha muitos elementos de uma
Vaux, AI 515; veja também W. W. Hallo, BA festa pagã de ano novo (diversão, banque­
46 [1983] 19-29). tes, troca de presentes, etc.) e era provavel­
mente modelada de acordo com uma festa
157 (C) Origem da festa. Se Ester fosse persa dessas. Se chegou à Palestina através
um livro verdadeiramente histórico, a res­ da Mesopotâmia, ela poderia ter assimila­
posta a esta questão seria tão fácil quanto a do algumas características babilónicas no
resposta sobre a origem da Hanucá. Porém, caminho, especificamente o nome Purim.
Est não é histórico; é uma história que visa, A primeira menção da festa em um am­
entre outras coisas, a justificar uma festa biente palestino está em 2Mc 15,36, em que
bem peculiar. O nome do Deus de Israel é chamada de "Dia de Mardoqueu" e está
nem mesmo é mencionado na forma he­ datada no dia 14 de Adar; Josefo é o pró­
braica (protocanônica) do livro. O próprio ximo a mencioná-la (Ant. 11.6.13 § 295).
Purim não era uma festa particularmente Apenas estendendo as categorias é que
religiosa: ele não estava especificamen­ podemos incluir esta festa nas instituições
te relacionado à história da salvação, nem religiosas de Israel. Mas ela tem suas raí­
continha elementos de adoração. Era cla­ zes, mesmo tênues, em um livro do Antigo
ramente uma festa estrangeira, mas suas Testamento.