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Colegiados da Comissão de Valores Mobiliários

Uma análise descritiva entre 2002 e 2018

Matheus Vasconcellos Jacobina Aires

1. PROCESSO DE NOMEAÇÃO _____________________________________________ 2


2. CUMPRIMENTO E VACÂNCIA DOS MANDATOS ______________________________ 5
3. CARACTERÍSTICAS DOS DIRETORES E PRESIDENTES _________________________ 7
4. CONCLUSÃO ______________________________________________________ 10

Em 26 de fevereiro de 2002 foi promulgada a Lei nº 10.411/2002 que trouxe


alterações importantes à Lei nº 6.385/76. A partir de então, a composição do Colegiado
da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) passou a ser submetida ao crivo do Senado
Federal após indicação do Presidente da República.

Com a regulamentação dada pelo Decreto nº 4.300/2002, a partir de 15 de


julho de 2002 os mandatos passaram a ser de, no máximo, 5 (cinco) anos, com recondução
vedada e renovação anual de um quinto do total. Além disso, o Colegiado ganhou também
estabilidade: qualquer um de seus membros somente perderá o mandato em virtude de
renúncia, de condenação judicial transitada em julgado ou de processo administrativo
disciplinar. Ou seja, a composição, presidente e diretores, não pode ser alterada por mero
desejo do Presidente da República.

O presente estudo coletou dados empíricos sobre os processos de nomeação


e formação do Colegiado da CVM entre 2002, ano das alterações acima descritas, e 2018.
Foi feito o mapeamento das características dos dirigentes e de todo o processo formal
entre a indicação e a exoneração, com atenção à vacância dos cargos.

A agilidade nos julgamentos e a diminuição do estoque de processos têm sido


uma das principais pautas das últimas lideranças da CVM. Assim, a vacância merece
atenção por ser um dos principais fatores que impactam a busca pela celeridade.

Os dados recolhidos e consultados foram encontrados no site do Senado


Federal, do Diário Oficial da União (DOU) e da CVM. As idades e as formações
acadêmicas consideradas são aquelas do momento da nomeação presentes nos currículos
entregues para o processo de indicação.

Quanto à organização, o presente trabalho está estruturado em quatro seções.


Após esta introdução, é apresentado o processo de nomeação, descrevendo passo a passo
e destrinchando os prazos entre as diversas etapas e revelar a vacância entre a indicação
e a posse do dirigente.

Na segunda parte é mostrada a vacância total: o tempo transcorrido entre a


exoneração e a posse dos dirigentes na CVM. É onde se apresenta também a linha
sucessória por “cadeira” do Colegiado.

1
Já na terceira parte são apresentadas as características gerais dos diretores e
presidentes indicados e empossados, observando a formação, idade e ocupações
anteriores.

Por fim, após breve resumo do que foi descrito no artigo, são feitas as
considerações finais do trabalho.

1. Processo de nomeação
Uma vaga do Colegiado da CVM é ocupada após o trâmite do seguinte
processo: indicação pelo chefe do Poder Executivo, aprovação pelo Legislativo e
nomeação pelo chefe do Poder Executivo. Só então o nomeado poderá tomar posse. Esse
mesmo processo ocorre para nomeação de dirigentes de Agências Reguladoras, do
Presidente e diretores do Banco Central, dos Ministros do Tribunal de Contas da União e
do Procurador-Geral da República, por exemplo.

É por meio do envio da Mensagem Presidencial ao Senado Federal (MSF)


pelo chefe do Poder Executivo que é dado início ao processo. Quando se considera apenas
o tempo do processo a partir da indicação, o prazo médio até a posse é de 49 dias. Mas,
ao se levar em consideração a data de exoneração, a vacância média até a posse sobe para
128 dias1, em virtude do tempo levado até a indicação. O processo dentro do Senado,
desde a chegada da MSF até a aprovação em Plenário, dura 27 dias em média. Já entre a
nomeação, que se materializa na publicação no DOU, e a posse, são 7 dias em média.

Gráfico 1 - Processo de nomeação


(em dias)

Tempo
79 14 13 15 7
Médio

Vacância à Indicação Indicação à Sabatina Sabatina ao Plenário


Plenário à Nomeação Nomeação à Posse

1 O tempo médio total do processo de nomeação à posse é de 142 dias. Essa diferença com relação ao tempo médio
total de vacância (128 dias) decorre em razão da redução que a indicação antecipada, ocorrida antes mesmo da
exoneração, provoca na média de vacância, enquanto que para o processo total ela é somada.

2
Porém, no que diz respeito ao tempo médio entre a vacância de uma das
cadeiras e a indicação (MSF), houve um ponto muito fora da curva após a exoneração do
diretor Marcelo Fernandez Trindade, em abril de 2002. Seu mandato só se encerraria em
31 de dezembro de 2004 e o seu substituto, Eli Loria, só foi indicado no dia 6 de maio de
2004, totalizando mais de dois anos de vacância para esta cadeira (745 dias).

Outro caso que merece destaque foi o período de vacância após a saída do ex-
diretor Otávio Yazbek. Após a sua saída, em 31 de dezembro de 2013, a indicação do
diretor Pablo Renteria para a ocupação de sua vaga só foi formalizada em 29 de outubro
de 2014, 302 dias depois.

Das 23 indicações realizadas após o advento da Lei nº 10.411/02, 10 foram


enviadas ao Senado antes mesmo que o cargo ficasse vago (43%). Considerando apenas
esses casos, o tempo médio de antecipação da indicação é de 32 dias e a vacância
provocada para essas sucessões foi de apenas 7 dias em média.

Se forem excluídos os casos atípicos entre vacância e indicação (745 e 302


dias), a vacância média até a indicação cai para 37 dias.

Gráfico 2 - Tempo médio entre vacância e indicação


180

165
150

120

Indicação pré-exoneração
90

Indicação pós-exoneração
79
60
Indicação média total

Indicação média ajustada


30 37 *excluindo casos atípicos

-32
-30

-60

3
Durante o processo dentro do Senado Federal, os indicados passam por duas
votações. A primeira ocorre na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), onde é
realizada a Sabatina.

Após a abertura da sessão pelo Presidente da Comissão, é dado um tempo ao


indicado para que faça uma breve apresentação sobre si mesmo. Feito isso, é aberto um
espaço para os membros da comissão possam fazer perguntas e, simultaneamente ou logo
após essa etapa, é iniciada a votação do parecer produzido em favor do indicado. É
necessário que haja o quórum mínimo de 14 senadores para que a votação seja realizada
e tenha a aprovação da maioria simples. Das 23 indicações ocorridas no período deste
estudo, 14 (61%) foram aprovadas por unanimidade.

Posteriormente, quando aprovado pela CAE, o parecer segue para o Plenário


do Senado, onde também terá que receber a maioria simples dos votos pela aprovação em
um quórum mínimo de 41 senadores.

Gráfico 3 - Votação Média na CAE


17,65 18,17

0,43 0,09

Sim Não Abstenção Presença

Gráfico 4 - Votação Média no Plenário


52,00
43,30

8,00
0,70

Sim Não Abstenção Presença

4
2. Cumprimento e vacância dos mandatos
Dentre os 23 indicados entre 2002 e 2018, seis (23%) renunciaram antes da
conclusão do mandato, sendo que um deles ocupava a presidência (Luiz Leonardo
Cantidiano, 15.7.2002 – 27.5.2004).

A seguir, está a relação de todos os diretores e as “cadeiras” ocupadas durante


seus mandatos. Os nomes sob o fundo cinza são aqueles diretores que assumiram as vagas
daqueles ocupantes que renunciaram antes do fim do mandato, que informalmente é
denominado como “mandato tampão”.

A vacância apresentada neste tópico é aquela calculada entre a data da


exoneração de um diretor e a data da posse do novo ocupante da cadeira, em dias.

Cadeira 1
Diretor Posse Exoneração Vacância
Carlos Alberto Rebello Sobrinho 24/09/2018 13
Gustavo Rabelo Tavares Borba 11/08/2015 11/09/2018 223
Ana Dolores Moura Carneiro de Novaes 11/07/2012 31/12/2014 191
Alexsandro Broedel Lopes 04/01/2010 02/01/2012 4
Eliseu Martins 28/10/2008 31/12/2009 145
Durval José Soledade Santos 23/07/2007 05/06/2008 5
Pedro Oliva Marcilio de Sousa 16/05/2005 18/07/2007 136
Eli Loria 07/06/2004 31/12/2004 777
Marcelo Fernandez Trindade 22/04/2002
Média: 186,75
Total: 1494

Cadeira 2
Diretor Posse Exoneração Vacância
Henrique Balduíno Machado Moreira 20/07/2016 202
Luciana Pires Dias 21/01/2011 31/12/2015 21
Marcos Barbosa Pinto 23/04/2007 31/12/2010 4
Maria Helena dos Santos Fernandes de Santana 28/07/2006 19/07/2007 209
Norma Jonssen Parente 31/12/2005
Média: 109
Total: 436

5
Cadeira 3
Diretor Posse Exoneração Vacância
Gustavo Machado Gonzalez 09/08/2017 221
Roberto Tadeu Antunes Fernandes 13/04/2012 31/12/2016 104
Eli Loria 14/05/2007 31/12/2011 134
Wladimir Castelo Branco Castro 31/12/2006
Média: 153
Total: 459

Cadeira 4
Diretor Posse Exoneração Vacância
Pablo Waldemar Renteria 22/01/2015 387
Otavio Yazbek 02/01/2009 31/12/2013 2
Sergio Eduardo Weguelin Vieira 05/11/2004 31/12/2008 4
Luiz Antonio de Sampaio Campos 01/11/2004
Média: 131
Total: 393

Com base no levantamento exposto nas tabelas acima, a vacância total na


posição de diretor da CVM foi de 2.782 dias ou 7 anos e 7 meses, aproximadamente. Uma
média de 154 dias de vacância a cada troca de diretor.

A primeira impressão é de que é um prazo de vacância alarmante quando se


considera que são aproximadamente 16 anos e meio entre a data do decreto que
regulamentou os mandatos (15.7.2002) e o fim do exercício de 2018. Quando se considera
a soma dos quatro mandatos, esse tempo de vacância corresponde a 11,57%.

Já com relação à posição de Presidente, a vacância total é menor, de apenas


172 dias, com média de 34 dias entre as sucessões. Porém, nos casos de vacância do cargo
de presidente, o diretor mais antigo assume de forma interina até que o novo indicado seja
empossado2.

Presidente
Presidente Posse Exoneração Vacância
Marcelo Santos Barbosa 25/08/2017 42
Leonardo Porciúncula Gomes Pereira 05/11/2012 14/07/2017 114
Maria Helena dos Santos Fernandes de Santana 20/07/2007 14/07/2012 2
Marcelo Fernandez Trindade 07/06/2004 18/07/2007 11
Luiz Leonardo Cantidiano 15/07/2002 27/05/2004 3
José Luiz Osorio de Almeida Filho 12/07/2002
Média: 34,4
Total: 172

2 Art. 4º c/c parágrafo único do Decreto nº 4.300, de 12 de julho de 2002.

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3. Características dos Diretores e Presidentes
As características levantadas dos diretores e presidentes que ocuparam o
Colegiado da CVM entre 2002 e 2018 foram idade, formação e gênero. Os dados
apresentados representam as informações de ambos os cargos.

Gráfico 5 - Primeira Graduação


57%

17%

9% 9%
4% 4%

Administração Contabilidade Direito Economia Engenharia Engenharia de


Civil Produção

Gráfico 6 - Formação acadêmica


30% 30%

17% 17%

4%

Graduação Pós Mestrado Doutorado PHD


Graduação

7
Gráfico 7 - Percentual por formação acadêmica
Sim Não

17%

48%

78%

83%

52%

22%

Educação Continuada Mestrado Doutorado


(stricto ou lato sensu)

Gráfico 8 - Idade

35%

26%
22%

13%

4%

Menos de 30 Entre 30 e 40 Entre 41 e 50 Entre 51 e 60 Mais de 60


anos anos anos anos anos

O mais jovem a assumir foi o ex-diretor Marcos Barbosa Pinto, que na época
da indicação tinha 29 anos, completando 30 no dia da sua posse (23.7.2007). Já o atual
diretor Carlos Alberto Rebello Sobrinho foi indicado em 2018 com 67 anos completos.

8
Resumo Idade
(anos)
Maior 67
Menor 29
Média 46

Gráfico 9 - Gênero dos nomeados

17%

Homens
Mulheres

83%

Especificamente quanto aos 5 presidentes que atuaram no período observado,


3 deles têm a formação primária em Direito. Os outros dois possuem formação em
Engenharia de Produção (Leonardo Pereira) e Economia (Maria Helena).

Com relação às funções que os indicados ocupavam antes da posse, foram


considerados na categoria “advogados” todos aqueles que trabalhavam em escritório de
advocacia; como servidores públicos, foram incluídos aqueles que também detinham
apenas o cargo comissionado, procuradores e que ocupavam cargo no BNDES;
consultores, conselheiros e executivos foram considerados como pregressos da iniciativa
privada.

Dentre os indicados, sete (30%) acumulavam suas funções principais com o


de magistério. Dessa forma, foram contados em duplicidade e, por esta razão, a soma total
dos percentuais supera os 100%.

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Gráfico 10 - Ocupação anterior
43%
39%

30%
26%

Professor Servidor Público Advogado Iniciativa Privada

4. Conclusão

As características gerais do Colegiado da CVM apontam para um perfil


técnico, jovem e, em sua maioria, com formação primária em Direito. Em resumo,
destaca-se:

 Idade média de 46 anos. 65% dos indicados tinham idade entre 29 e


50 anos no momento da indicação;
 83% possuíam alguma pós-graduação (stricto ou lato sensu). 52%
tinham o título de Mestre e 22% o título de doutorado;
 57% possuíam graduação em Direito;
 43% exerciam o magistério, cumulativamente com outra atividade ou
não. 39% já ocupavam cargos públicos e 56% vieram do “mercado”,
sendo 30% da atividade advocatícia.

A CVM manteve sua estrutura de mandatos incólume após tantas mudanças


nesse período entre 2002 e 2018. Foram diversas trocas de Ministros da Fazenda e
Presidentes, além de diversas crises políticas no meio do caminho.

É importante destacar que a renovação anual de um quinto, em um modelo de


fixação de termo de mandatos, visa mitigar que um mesmo chefe de Executivo faça
indicações em bloco. Tal formato se diferencia do modelo de substituição simples, onde
o mandato se inicia quando da investidura do indicado. Nesses casos de substituição
simples a vacância pode permitir a indicação em bloco.

Porém, os longos períodos de vacância podem acabar causando nomeações


em bloco, até mesmo no modelo de fixação de mandatos.

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São três os tipos de vacância: (a) vacância por afastamento regulamentar, que
ocorre nos casos de afastamento temporário, como férias, licenças ou impedimentos; (b)
vacância no curso do mandato, em que o dirigente deixa o cargo antes do término do
mandato; e (c) vacância ao término do mandato, que surge quando há demora para a
nomeação de um novo dirigente após término do mandato do antecessor. O presente
estudo compreendeu apenas os casos “b” e “c”.

Os 7 anos e 7 meses de vacância total dos diretores apresentados no tópico 2,


mesmo representando pouco mais de 11% da soma de todos os mandatos dos mesmos,
pode ser considerado relevante. Pois, apesar de cada processo administrativo sancionador
julgado possuir suas peculiaridades e demandar seu próprio tempo, o estoque de 174
processos3 sancionadores a serem julgados pelo Colegiado da CVM possivelmente seria
menor4.

Observou-se também que o tempo de vacância média na sucessão de


presidentes tende a ser menor do que o tempo de vacância entre os diretores: 34 dias x
154 dias, respectivamente. Isso se deve ao costume de se indicar os nomes dos presidentes
antes mesmo da exoneração de seu antecessor. Dos cinco nomes, três deles foram
indicados em média com 18 dias de antecedência.

E é a antecedência, talvez, o principal ponto a se observar para buscar a


diminuição da vacância. A maior fatia de tempo responsável pela vacância ocorre entre a
exoneração e a indicação (49 dias). No período verificado, a indicação realizada antes do
fim do mandato que ficará vago ocorreu em apenas 10 casos dentre todas as 23 indicações,
com uma antecipação média de 32 dias. Considerando apenas esses casos, essa
antecipação média gerou uma vacância total média de apenas 7 dias.

Uma etapa que chama a atenção é aquela que ocorre entre a aprovação do
nome indicado no Plenário do Senado e a publicação do decreto de nomeação no Diário
Oficial da União. O tempo médio de 15 dias pode ser considerado alto, tendo em vista
que se trata de uma fase meramente formal que depende apenas da assinatura do pelo
Presidente da República.

Por fim, vale ressaltar que a CVM nunca sofreu de paralisia decisória, que
ocorre quando há a ausência de três dos cinco membros no colegiado e impossibilita o
quórum para maioria absoluta. Porém, é preciso que a questão da vacância receba mais
atenção do Governo para que a celeridade nos julgamentos dos processos na autarquia
seja aprimorada ainda mais.

3 Estoque em 30.09.2018, conforme “Relatório de Atividade Sancionadora CVM: 3º trimestre (julho a setembro)
2018”. Disponível em:
http://www.cvm.gov.br/export/sites/cvm/publicacao/relatorio_atividade_sancionadora/anexos/2018/20181127_relator
io_atividade_sancionadora_3o_trimestre_2018.pdf . Acesso em 14.12.2018.
4 Vale destacar que o atual Presidente da CVM. Marcelo Barbosa, passou a relatar alguns casos com o objetivo de

auxiliar na redução do estoque de processos da CVM.

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