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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Direito para
Startups

Manual jurídico para empreendedores

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Direito para Startups


Manual jurídico para empreendedores

Lucas Bezerra Vieira

1ª Edição
Queiroz, Barbosa e Bezerra Advocacia
2017

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

© Queiroz, Barbosa e Bezerra, 2017.

CAPA Acson de Freitas Braz


EDITORAÇÃO Acson de Freitas Braz
REVISÃO Caio Vitor Ribeiro Barbosa, Jules Michelet Pereira Queiroz e Silva

Dados Internacionais de Catalogação Gráfica (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
___________________________________________________
Direito para startups: manual jurídico para empreendedores.
Natal, RN: Edição do autor, 2017.

ISBN: 978-85-923408-0-3

1. Direito empresarial 2. Direito tributário 3. Direito societário


4. Contratos 5. Administração 6. Empreendorismo I. Título

CDD – 340 CDU - 34:338.93


___________________________________________________

Índices para catálogo sistemático:


1. Direito empresarial – 34:338.93
2. Direito societário – 34:338.93

Todos os direitos desta obra são reservados ao autor. Nenhum trecho deste
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acadêmicos, buscando fornecer ao leitor informações precisas e verdadeiras.
Caso sinta-se prejudicado por qualquer informação divulgada nesta obra,
favor nos contatar imediatamente.

Edição 2017.

Queiroz, Barbosa e Bezerra Advocacia.


Avenida Senador Salgado Filho, 2190, Natal – RN, CEP 59.056-000.
www.qbb.adv.br
contato@qbb.adv.br

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Construa seus próprios sonhos, ou alguém


vai contratá-lo para construir os seus.
Farrah Grey

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Sumário
______________________

Introdução ........................................................................... 09

1. Modelos empresariais e societários .................................. 13


1.1. Startups na prática ............................................................... 13
1.2. Escolha do melhor modelo empresarial ou societário ........ 19
2. Formalização e registros da startup .................................. 30
3. Documentos de constituição empresarial ......................... 37
3.1. Contrato Social e o Estatuto Social ..................................... 39
3.1.1. Cláusula de vesting .......................................................... 45
2.1.2. Cláusula de cliff ................................................................ 53
3.2. Acordo de acionistas, MOU e term sheet ........................... 57
3.3 Contrato de confidencialidade e sigilo ................................ 62
4. Cláusulas e instrumentos contratuais específicos .............. 70
4.1. Direito de preferência ......................................................... 70
4.2. Cláusula de não concorrência ............................................. 75
4.3. Cláusulas de tag along e drag along ................................... 79
4.4. Cláusula de shot gun ........................................................... 81
4.5. Cláusula de lock up .............................................................. 82
4.6. Tail period ........................................................................... 84
4.7. Direito de veto .................................................................... 85
4.8. Full ratchet clause ............................................................... 86
4.9. Last in, first out ................................................................... 86

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

4.10. No shop clause .................................................................. 87


4.11. Call option e put option ..................................................... 88
5. Contratos do cotidiano empresarial .................................. 90
5.1. Contrato de prestação de serviços e outros ........................ 91
6. Propriedade industrial e intelectual da empresa .............. 104
6.1. Tipos de proteção a propriedade intelectual e industrial . 111
6.1.1. Marca .............................................................................. 111
6.1.1.1. Trade dress ................................................................... 117
6.1.2. Patentes .......................................................................... 120
6.1.3 Direito autoral .................................................................. 122
6.1.4 Registro de software ........................................................ 124
6.1.5 Desenho industrial ........................................................... 125
6.1.6. Indicação geográfica ....................................................... 126
6.2. Procedimentos de para proteção dos ativos ..................... 127
7. Estrutura trabalhista empresarial .................................... 133
7.1. Stock options ...................................................................... 144
7.2. Reforma trabalhista de 2017 ............................................. 145
8. Tributação para startups ................................................. 148
9. Captação de recursos e investimentos ............................. 153
9.1. Crowdfunding e equity crowdfunding ................................ 156
9.2. Instrução Normativa 588 da CVM ...................................... 159
9.3. Lei Complementar n. 155/2016 e o investidor-anjo .......... 163
9.4. Cuidados gerais na recepção de investimentos ................. 167
10. Encerramento e venda da startup .................................. 170
11. Dicas Gerais ................................................................... 174

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

INTRODUÇÃO

Em uma tradução literal, start up significa partida, início,


começar. Não existe uma definição unânime sobre o que são as
startups. Erick Ries1, autor da famosa obra “Lean Startup”
(Startup enxuta), atribui como conceito de startups “(...) uma
instituição humana projetada para criar novos produtos e
serviços sob condições de extrema incerteza” (2012, p. 24).
Neste mesmo livro, que deve estar na estante de todo
empreendedor, Ries afirma que o conceito de startup não é
vinculado a empresas ou tecnologias, como muitos imaginam:

“Passei a perceber que a parte mais importante


dessa definição é o que ela omite. Não diz nada a
respeito do tamanho da empresa, da atividade ou
do setor da economia. Qualquer pessoa que está
criando um novo produto ou negócio sob
condições de extrema incerteza é um
empreendedor, quer saiba ou não, e quer trabalhe
numa entidade governamental, uma empresa
apoiada por capital de risco, uma organização sem
fins lucrativos ou uma empresa com investidores
financeiros decididamente voltada para o lucro.”

Por sua vez, Steve Blank2 e Bob Dorf, no livro “The


startup owner’s manual” (Startup: manual do empreendedor)
(2014, p. 19) atribuem a tal ideia um modelo de negócios
repetível e escalável, quando afirmam que:

1 Criador da metodologia startup enxuta.

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

“(...) uma startup é uma organização temporária


construída para buscar respostas que promovam a
obtenção de um modelo de negócio recorrente e
escalável.(...)”

A junção dessas duas concepções forma a definição


mais adotada para as startups atualmente: empreendedores
que, em condições de elevada incerteza, buscam atingir um
modelo de negócios que seja escalável e repetível.
Por escalável, entenda a capacidade de crescer, ampliar
seu mercado e faturamento sem que haja grande influência no
modelo de negócios ou até mesmo nos custos da empresa.
Enquanto isso, repetível é a habilidade de ampliar a sua
atuação sem a necessidade de alterar muito o seu produto ou
serviço para cada cliente.
Com esses diferenciais, as startups e as empresas de
tecnologia vêm revolucionando a forma de se empreender no
Brasil e no mundo. Nos últimos anos, enquanto grandes
empresas tradicionais tentam sobreviver à crise econômica que
permeia o Brasil, as startups ganham os mercados e crescem a
ritmos elevados3.
A capacidade de captar clientes e ampliar o faturamento
mesmo em um cenário econômico instável se deve
principalmente à forma inovadora de formatação e atuação de

2 Empreendedor do Vale do Silício e autor de inúmeras obras, tais como “Os


quatro passos para a epifania” (the four steps to the epiphany).
3 Startups brasileiras driblam a crise. Estadão Conteúdo. 10 fev. 2016.

Disponível em:
<http://revistapegn.globo.com/Startups/noticia/2016/02/startups-brasileiras-
driblam-crise.html>. Acesso em: 15 ago. 2016.

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tais empresas. Modelos de negócios arrojados e inovadores (a


ideia do first move advantage4), a busca pela solução de uma
“dor” existente no mercado, as novas formas de recepção de
investimentos, os contratos modernos e específicos, o uso das
novas tecnologias em seu favor, dentre outros, são alguns dos
fatores que tornam tais empresas tão singulares, significando
também parte do segredo do sucesso desse novo padrão de se
fazer negócios.
Os números comprovam como tais empresas são
diferenciadas. Enquanto a taxa de encerramento das startups
antes do segundo ano de funcionamento se aproxima dos
18%5, 27% das empresas tradicionais finalizam suas atividades
no mesmo período6. A startup Contabilizei, por exemplo,
ampliou, no ano de 2015, o seu faturamento em 700%. Nesse
mesmo ano, aproximadamente 1,8 milhão de empresas
fecharam as portas.7

4 Também denominado de FMA, é um termo que descreve a vantagem


mercadológica e comercial daquele que primeiro fornece aos consumidores
determinado produto ou serviço.
5 BICARELLI, Bárbara. 74% das startups brasileiras fecham após cinco anos,

diz estudo. Época Negócios. 07 jul. 2016. Disponível em:


<http://epocanegocios.globo.com/Empreendedorismo/noticia/2016/07/74-
das-startups-brasileiras-fecham-apos-cinco-anos-diz-estudo.html>. Acesso
em: 11 jul. 2016.
6 Taxa de Sobrevivência das Empresas no Brasil. SEBRAE. 2011. Disponível

em:
<http://www.sebrae.com.br/Sebrae/Portal%20Sebrae/Anexos/Sobrevivencia_
das_empresas_no_Brasil_2011.pdf>. Acesso em: 11 jul. 2016.
7
CHIARA, Márcia de. 1,8 milhão de empresas fecharam em 2015. O Estado
de São Paulo. 10 maio 2016. São Paulo. Disponível em:
<http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,1-8-milhao-de-empresas-
fecharam-em-2015,10000050202>. Acesso em: 15 jul. 2016.

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Todavia, um crescimento muito rápido pode trazer dor


de cabeça e problemas diversos para aqueles que não
realizaram um planejamento jurídico adequado para o seu
negócio. Afinal, quem não conhece um amigo ou parente que
já enfrentou problemas legais em sua empresa?
Assim, este manual foi elaborado no sentido de fornecer
orientações jurídicas essenciais para aqueles empreendedores
que pretendem criar ou já estão envolvidos em algum negócio,
principalmente se este pertencer ao novo mundo das startups e
das tecnologias. A ideia da obra foi sistematizar cuidados
elementares que devem ser tomados desde a constituição
jurídica da startup até a sua cessão ou encerramento, de modo
a evitar ao máximo os transtornos que cercam o campo dos
negócios.
Não se assuste com o fato desse manual tratar de
temas do Direito! O que este guia busca é proporcionar uma
leitura simples, agradável e prática para qualquer interessado
na área. Ademais, aqui o intuito é de compartilhar
conhecimento e tentar mostrar aos leitores a importância da
atuação preventiva, seja na área jurídica, contábil ou
administrativa. Ressalva-se que a mera consulta a esse livro
não dispensa o auxílio de profissionais especializados.
Espero que este guia seja útil no auxílio aos cuidados
jurídicos de sua startup. Boa leitura!

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

1. MODELOS EMPRESARIAIS E
SOCIETÁRIOS

Antes de darmos início aos aspectos jurídicos


propriamente ditos, é interessante entender como funcionam as
startups na prática. Até porque antes de pensar no jurídico, é
natural que todo empreendedor inicie as atividades principais
do seu negócio, mesmo que de modo simples e informal.
Vamos lá.

1.1. Startups na prática

O início de uma startup difere bastante das empresas


tradicionais. Tal distinção é característica intrínseca do próprio
conceito desse novo modelo de negócios.
No modelo empresarial tradicional, em regra, o primeiro
passo é o estudo e o planejamento do negócio, que,
concluídos, são colocados em prática, com a abertura da
empresa. Assim, o plano de negócios é realizado, e somente
depois testa-se como o mercado irá reagir diante daquele novo
produto ou serviço. Nas startups, o pensamento é diferente.
De forma simples, uma startup inicia com a identificação
de um problema e com a procura pela solução para tal questão.
A ideia é que o empreendedor construa seu produto e serviço,
o lance no mercado e aprenda, da forma mais rápida e eficaz

[ 13 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

possível, o que o seu cliente verdadeiramente quer, e não o


que ele acha que quer.
Descobrindo essa dor do mercado, e gerando um
produto que a resolva, o empreendedor gerará um bem com
um valor agregado, que o permitirá obter lucros, monetizando8
o seu negócio.
Para tanto, é essencial que o empreendedor estruture
as questões acima levantadas em forma de um projeto. Esse
esboço do modelo de negócio a ser utilizado é a primeira fase
da chamada “validação”, permite que o verifique qual a real
probabilidade do seu negócio prosperar.
Uma ferramenta muito utilizada nesta fase é o “business
model canvas”, instrumento composto por nove elementos
(clientes, propostas de valor, canais, relacionamento com os
clientes, atividade principal, fontes de receitas, recursos
principais, parcerias principais e estrutura de custos) que
possibilita realizar uma análise completa do negócio.

8 O termo “monetizar” relaciona-se com a definição sobre quais serão as


formas utilizadas para que o negócio se torne economicamente viável. De
forma simples, nessa fase procura-se responder ao seguinte questionamento:
de que forma ganharei dinheiro com esse empreendimento?

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Imagem 01
Demonstração do business model canvas 9

Simultaneamente, na outra parte da validação a equipe


deverá também trabalhar criação do MVP (Minimum Viable
Product, ou seja, produto mínimo viável). O MVP é a colocação
na prática do produto/serviço a ser oferecido pela startup com
o menor investimento possível, permitindo que os
empreendedores verifiquem a aplicabilidade prática do produto
e sintam qual o comportamento do mercado sobre o
objeto/serviço lançado.
Ries (2012, p. 70) conceitua o MVP de forma mais
técnica quando afirma que:

9 Modelo de business model canvas. Disponível em:


<http://www.validandoideias.com.br/como-montar-um-canvas-parte-1-
modelo-de-negocios/>. Acesso em: 15 jul. 2017.

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

“O MVP é aquela versão do produto que permite


uma volta completa do ciclo construir-medir-
aprender, com o mínimo de esforço e o menor
tempo de desenvolvimento. O produto mínimo
viável carece de diversos recursos que podem se
provar necessários mais tarde. (...)”

A produção do MVP é muito importante, uma vez que o


seu funcionamento permite que o empreendedor aprenda sobre
o seu produto e o mercado, utilizando a metodologia da lean
startup, com o ciclo construir-medir-aprender.

Imagem 02
Demonstração do ciclo construir-medir-aprender10

10 Disponível em: <http://startupsebraeminas.com.br/wp-


content/uploads/2014/11/lean-capa.jpg>. Acesso em: 15 jul. 2017.

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O cumprimento desse ciclo é etapa fundamental ao


negócio, pois permite que a equipe mensure se é interessante
permanecer com o produto e realizar mais investimentos neste,
caso a sua viabilidade seja verificada; realize alterações
necessárias; ou até mesmo “pivote”11, mudando o rumo do seu
negócio.
Tiago Fernandes, sócio-fundador da startup Autoforce12,
plataforma de marketing de resultados para o setor
automotivo, e do blog Validando Ideias13, define da seguinte
forma a diferença entre as startups e as empresas
consolidadas:

“As startups são empresas que trabalham com


algum tipo de inovação tecnológica ou não. É
importante entender que startups não são versões
menores de uma grande empresa. A principal
característica de uma startup é que ela está imersa
em um ambiente de extrema incerteza, pois estão
desenvolvendo algo não tradicional, baseado em
necessidades e problemas ainda não sanados e
resolvidos.
O risco desse tipo de negócio está relacionado a
validação e desenvolvimento. Startups buscam um
modelo de negócios replicável e escalável.
Replicável significa que algo pode ser fabricado/
desenvolvido no Brasil e comercializado para
qualquer parte do mundo de forma sistêmica,
organizada e padronizada. Escalável significa ter

11
Do inglês “to pivot”, que significa girar, o termo “pivotar” é utilizado no
mundo das startups para aquela empresa que está mudando o rumo dos seus
negócios.
12 Veja mais em: <www.autoforce.com.br>.
13 Veja mais em: <www.validandoideias.com.br>.

[ 17 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

altas margens de lucro em um pequeno espaço de


tempo.
Por sua vez, empresas consolidadas são
organizações já estabelecidas e que executam um
modelo de negócio já testado e validado. A
maioria das empresas consolidadas desenvolvem
um negócio baseado em necessidades e
problemas já conhecidos.
Os riscos de uma empresa consolidada são
econômicos, políticos e mercadológicos Isso
significa que os gestores dessas empresas podem
recorrer a técnicas e artifícios conhecidos para
resolver as adversidades.”

Junto com a execução prática, a fase de formalização da


empresa é, sem dúvidas, uma das etapas mais aguardadas
pelos seus fundadores. Sua ocorrência pode ser dar antes
mesmo da validação do produto ou serviço, ou após o
lançamento do MVP, tudo a depender do interesse dos
envolvidos.
O ideal, no entanto, é que a formalização da empresa
ocorra o quanto antes. Iniciar as atividades com as relações
bem delimitadas com os envolvidos e regularizado perante os
entes públicos traz benefícios e evita inúmeros problemas.
Vamos analisar, agora, quais aspectos devem ser
estudados na escolha do modelo empresarial e societário da
startup.

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

1.2. Escolha do melhor modelo empresarial


ou societário

Para que uma empresa “nasça” na forma da lei, é


necessário a sua formalização, nas condições e procedimentos
elencados nas legislações específicas.
Os fundadores devem ter ciência de que este é um dos
momentos jurídicos mais importantes para a empresa. Sem a
regularização legal, a empresa ficará na informalidade, o que
cria diversos entraves na captação de clientes (alavancagem),
obtenção de investimentos, recolhimento de tributos14 e
realização de vendas, o que será um obstáculo ao crescimento
da startup.
Assim, decidido formalizar o negócio, temos a questão
principal: qual modelo empresarial ou societário eu devo
adotar?
A resposta para essa pergunta depende de diversas
variáveis. Todas devem ser levadas em conta, uma vez que
cada modelo empresarial tem as suas vantagens e
desvantagens, que deverão ser analisadas pelos
empreendedores, de acordo com seus objetivos e interesses.
Algumas questões que devem ser respondidas nesse processo
são as seguintes:

1) Irei empreender sozinho ou terei sócios?

14 Em determinados casos, o não pagamento de tributos configura crime.


Veja a Lei Federal n. 8.137/1990, que tipifica os crimes contra a ordem
tributária.

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2) Quem são meus sócios? Brasileiros ou


estrangeiros? Residem no exterior? Possuem
participação em outras empresas?
3) Qual a área de atuação da minha empresa?
Que serviços ou produtos irei prestar/fornecer?
4) Pretendo atuar no exterior?
5) Qual o capital inicial da minha empresa?
6) Qual o faturamento esperado para minha
empresa?
7) Quem serão os meus clientes? Terei contratos
com entes públicos ou grandes empresas?

Note que tais questionamentos devem ser analisados


em conjunto, uma vez que eles estão todos interligados. Uma
análise pontual pode fazer o empreendedor não enxergar as
consequências negativas de tal escolha aparentemente
benéfica em outro setor essencial ao seu negócio.
Por exemplo, caso um empreendedor opte por
formalizar o seu negócio de uma forma a pagar o menor valor
possível de tributos, se tornar um Microempreendedor
Individual15 pode ser uma ótima opção, pois a sua contribuição
será de no máximo R$ 50,00 mensais. Porém, o MEI possui
uma limitação de faturamento de R$ 60.000,00 por ano (ou R$
5.000,00 por mês)16, o que pode exigir uma mudança na
estrutura jurídica da empresa em pouco tempo. Assim, deve ser
analisado se o fato de ter o faturamento limitado compensa o
pagamento de um menor valor de tributos.

15 Mais informações sobre o Microempreendedor Individual (MEI) podem ser


encontradas no Portal do Empreendedor – MEI, do Governo Federal.
16 Com a edição da Lei Complementar Federal n. 155/2016, a partir de 1º de

janeiro de 2018 o limite de faturamento para o MEI Será de R$ 81.000,00


anuais, ou R$ 6.750,00 mensais.

[ 20 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Outro exemplo: a participação de outra Pessoa Jurídica


no capital social (como sócia) de sua empresa veda a
possibilidade de participação desta no Simples Nacional17. Esse
é um ponto que passa desapercebido por muitos
empreendedores que recebem propostas de participação
empresarial por grandes fundos de investimento, e acabam se
deslumbrando com a oportunidade, sem analisar as demais
nuances e consequências de tal ação.
Um detalhe que merece atenção no momento de
constituição da empresa são as peculiaridades dos sócios!
Observe com cautela as particularidades daqueles que irão
participar do negócio com você, pois determinados sujeitos
possuem limitações ao exercício de atividade empresarial, como
funcionários públicos, militares, incapazes, entre outros.
Nessa etapa de formalização, é muito importante que o
empreendedor raciocine imaginando o futuro da startup.
Costuma-se dizer que “contrato bom é aquele que fica na
gaveta”.
Tais documentos, quanto menos necessitarem ser
alterados, melhor. Isso porque os procedimentos para

17 Art. 3º da Lei Complementar n. 122/2006 – “Para os efeitos desta Lei


Complementar, consideram-se microempresas ou empresas de pequeno
porte, a sociedade empresária, a sociedade simples, a empresa individual de
responsabilidade limitada e o empresário a que se refere o art. 966 da Lei no
10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), devidamente registrados no
Registro de Empresas Mercantis ou no Registro Civil de Pessoas Jurídicas,
conforme o caso, desde que: (...)
§ 4º Não poderá se beneficiar do tratamento jurídico diferenciado previsto
nesta Lei Complementar, incluído o regime de que trata o art. 12 desta Lei
Complementar, para nenhum efeito legal, a pessoa jurídica:
I - de cujo capital participe outra pessoa jurídica.”

[ 21 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

modificação de tais documentos são burocráticos, exigindo


tempo e paciência dos empreendedores, que poderiam ser
utilizados na administração do seu negócio.
Depois de levar em consideração cada ponto que fora
abordado, o empreendedor deve observar qual o tipo
empresarial ou societário atende melhor aos anseios de sua
empresa. Visando auxiliar nessa escolha, segue uma tabela
com os principais pontos positivos e negativos de cada um
desses modelos.
Veja que esse quadro é apenas exemplificativo, não
abarcando todas as vantagens e dificuldades de cada uma das
possibilidades de formalização empresarial e societária. Aliás,
dependendo de cada caso, o que está listado como uma
benesse poderá ser um malefício, e vice-versa.

Quadro 01
Comparativo entre modelos empresariais e societários

MICROEMPREENDEDOR INDIVIDUAL18
Vantagens Desvantagens
- Procedimento de formalização - Limitação de faturamento de
simples e rápido. R$ 60.000,00/ano, com aumento
- Ausência de taxas de registro. para R$ 81.000,00/ano a partir
- Cobrança de tributos unificada e de janeiro de 2018.
barata (em torno de R$ 46,00 a - Limitação de contratação de
R$ 55,00 mensais, pagos em um apenas um funcionário.20

18 Regulamentado pela Lei Complementar 123/2006 (Lei do


Microempreendedor Individual), com as alterações dadas pelas Leis
Complementares n. 128/2008 e 155/2016.
20 Os sindicatos da Micro e Pequena Industriais vêm lutando para que os

MEI’s possam contratar até dois funcionários. A proposta já foi entregue ao


presidente em exercício, Michel Temer.

[ 22 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

único boleto - DAS). -Limitação das atividades


- Apoio técnico do SEBRAE. permitidas (anexo XIII da
- Diversos serviços gratuitos. Resolução CGSN 94/2011).
- Vantagens de Pessoa Jurídica - Não pode realizar cessão ou
(possibilidade de abertura de locação de mão de obra.
conta empresarial e realização de - Ausência de separação entre
empréstimos). Pessoa Física e Pessoa Jurídica.
- Cobertura dos benefícios
previdenciários para o
microempreendedor.
- Menor custo para contratação de
empregado.
- Dispensa de escrituração fiscal
(porém deve preencher o relatório
mensal de receitas, para prestar
declaração anual).
- A sede da Pessoa Jurídica pode
ser a residência do
empreendedor.19

EMPREENDEDOR INDIVIDUAL 21
Vantagens Desvantagens
- É aquele que atua - Não detém o privilégio da
individualmente, seja por meio de limitação da responsabilidade e
uma pequena, média ou grande da separação patrimonial entre
empresa. É o modo “tradicional” pessoa física e jurídica.
de empreender no Brasil. Em
regra, as startups dificilmente
adotam esse tipo de empresa,
uma vez que na maioria das vezes
são formadas por sociedades. Não
possuem muitas especificidades
na sua adoção.

19 Benefício concedido pelo Projeto de Lei n. 167/2015, em validade desde 29


de março de 2016, quando aprovada pela plenária do Senado Federal.
21 Regulamentado pelos artigos 966 a 980 do Código Civil Brasileiro.

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

EMPRESA INDIVIDUAL DE RESPONSABILIDADE LIMITADA


(EIRELI)22
Vantagens Desvantagens
- Única pessoa titular da - Capital social inicial não pode
totalidade do capital social, que ser inferior a 100 vezes o maior
deve ser integralizado.23 salário mínimo vigente no país, o
- Exercício da atividade que eleva o custo de sua criação.
empresarial por uma só pessoa, - A pessoa natural que constituir
com responsabilidade limitada. a EIRELI somente poderá figurar
- Possibilidade de escolha do em uma única empresa dessa
modelo de tributação (opção pelo modalidade.
Simples nacional). - Procedimento de registro mais
- Ampla quantidade de atividades complexo que no MEI (Junta
econômicas permitidas. comercial e Entes Públicos).
- Aplicação subsidiária das regras
das Sociedades Limitadas.

SOCIEDADE SIMPLES 24
Vantagens Desvantagens
- É uma sociedade que têm como - Não tem acesso a benefícios do
objetos atividades profissionais de direito de empresa, como
natureza científica, literária ou recuperação judicial e falência.
artística. Não possui um caráter
empresarial.

22 Regulamentado pelo artigo 980-A do Código Civil Brasileiro.


23 Na EIRELI e na formação de algumas sociedades, existe a “subscrição” e a
“integralização” do capital social. De uma forma simples, a subscrição ocorre
na fase inicial de formalização da empresa, quando há a promessa do sócio
em fornecer determinado quantia financeira (ou bem) para formar o capital
(o ativo) da pessoa jurídica criada. Por sua vez, a integralização ocorre
quando o sócio efetiva a promessa de fornecimento de capital realizada à
empresa. Na realização dos contratos sociais, algumas empresas optam por
colocar como cláusula de exclusão de sócio a não integralização do capital
social subscrita dentro de determinado prazo.
24 Regulamentada pelos artigos 997 a 1.038 do Código Civil Brasileiro.

[ 24 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

SOCIEDADE LIMITADA25
Vantagens Desvantagens
- Forma mais utilizada pelas - Maior responsabilização dos
startups. sócios se comparada à S.A.
- Modelo societário em que a - Impossibilidade de emissão de
responsabilidade de cada sócio é ações ou debêntures, o que é
restrita ao valor de suas cotas. uma limitação para a captação
- Regras bem estabelecidas no de investimentos.
Código Civil. - Maior facilidade na
- Maior flexibilidade no responsabilização dos sócios e
instrumento de criação (Contrato sócios-controladores que na S.A.
Social) que nas S.A. (uma vez que os nomes dos
- Realização de Assembleia de sócios entram no contrato).
Sócios, com possibilidade de - O direito de voto é indissociável
criação do Conselho Fiscal. da propriedade das cotas.
- Possibilidade de escolha do - Os sócios respondem
modelo de tributação (opção pelo solidariamente pela
Simples nacional). integralização do capital social
- Registro pela Junta Comercial. (caso um sócio subscreva e não
- Estrutura de gerenciamento integralize, devem os outros
mais enxuta e com menos custos integralizar àquele montante).
que na S.A (dispensa de - Art. 1.055, §1º, CC – “Pela
publicação de atos societários...). exata estimação de bens
- Menor controle externo que nas conferidos ao capital social
S.A (não exige prestação de respondem solidariamente todos
contas à CVM). os sócios, até o prazo de cinco
- Permite a distribuição anos da data do registro da
assimétrica de lucros. sociedade. “
- Possibilidade de exclusão de
sócios, mediante previsão no
Contrato Social.

SOCIEDADE EM CONTA DE PARTICIPAÇÃO 26

25 Regulamentada pelos artigos 1.052 a 1.087 do Código Civil Brasileiro.

[ 25 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Vantagens Desvantagens
- Sociedade em que pelo menos - Sociedade com ausência de
um dos sócios deve ser uma Personalidade Jurídica e
empresa ou sociedade patrimônio próprio.
empresária. - Forte controle externo, por ser
- Figura que visa facilitar a relação bastante usada para realização
entre sócios de operações comerciais
- Independe da realização de simuladas (CMV e Ministério
qualquer formalidade. Público).
- O sócio oculto ou participante - Em virtude de entendimento da
(financiador) fornece patrimônio Receita Federal, as SCP não
especial para o sócio ostensivo podem aderir ao Simples
(administrador), que será utilizada Nacional.
no objetivo do contrato.
- Pode ter prazo determinado ou
indeterminado.
- Boa forma para captação de
recursos empresariais.
- Utilizada normalmente para
empreendimentos específicos.
- Seu contrato social produz efeito
apenas entre os sócios.
- Formada pelo sócio ostensivo
(necessariamente Pessoa Jurídica,
que realiza os atos) e o sócio
participante (não possui
responsabilidade pelos atos
realizados pelo sócio ostensivo).
- Sócio ostensivo não pode admitir
novo sócio sem o consentimento
dos demais.

SOCIEDADE DE PROPÓSITO ESPECÍFICO27

26 Regulamentada pelos artigos 991 a 996 do Código Civil Brasileiro.


27 Regulamentada pelo art. 9º da Lei 11.079/2004 (Lei da Parceria Público-
Privada).

[ 26 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Vantagens Desvantagens
- Instrumento legal utilizado para - Forte controle externo.
implantar e gerir as parcerias - Exige maiores cuidados
público-privadas. gerenciais, jurídicos e
- É semelhante a um contrato de financeiros, principalmente
parceria, realizado no modelo de quando for realizada em
uma das sociedades jurídicas já conjunto com Entes Públicos.
existentes.
- Tem fim específico e prazo
determinado.
- Não necessita que uma das
partes seja ente público.
- Utiliza as regras da sociedade
em que ela se constituir.
- Tem personalidade jurídica
própria.

SOCIEDADE EM COMANDITA SIMPLES 28


Vantagens Desvantagens
- Sociedade formada por sócios - Pouca utilização atualmente,
comanditados (pessoas físicas que em face da responsabilidade
respondem solidaria e ilimitada dos sócios
ilimitadamente pelas obrigações comanditados.
sociais, contribuindo com capital e - O comanditário não pode
trabalho) e comanditários (se praticar ato de gestão, ou ter o
obrigam apenas ao valor de suas nome incluído na firma social. Se
cotas). o fizer, está sujeito a responder
- Utiliza subsidiariamente as como sócio comanditado.
normas da Sociedade em Nome - Em caso de diminuição do
Coletivo. capital por perdas
supervenientes, não pode o
comanditário receber quaisquer
lucros, antes de reintegrados
aqueles.

28 Regulamentada pelos artigos 1.045 a 1.051 do Código Civil Brasileiro.

[ 27 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

SOCIEDADE EM COMANDITA POR AÇÕES 29


Vantagens Desvantagens
- Uma das formas de sociedade - Pouco usadas atualmente.
presentes no direito brasileiro. - Os diretores deverão ser
- Os sócios respondem apenas obrigatoriamente acionistas.
pelo valor de suas ações - Os acionistas diretores têm
subscritas ou adquiridas. responsabilidade subsidiária,
ilimitada e solidária pelas
obrigações da sociedade.
- O diretor continua durante dois
anos após a sua restituição ou
exoneração responsável pelas
obrigações contraídas pela
sociedade durante a sua gestão.
- Assembleia geral tem o poder
de decisão, em alguns casos,
limitados pelos diretores.

SOCIEDADE EM NOME COLETIVO30


Vantagens Desvantagens
- Sociedade empresarial formada - Todos os sócios respondem,
apenas por pessoas físicas. solidária e ilimitadamente, pelas
obrigações sociais.
- A administração da sociedade
compete exclusivamente aos
sócios.
- Os sócios podem estipular
limites das obrigações entre si,
mas que não serão oponíveis
contra terceiros.

Sociedade Anônima31

29 Regulamentada pelos artigos 1.090 a 1.092 do Código Civil Brasileiro.


30 Regulamentada pelos artigos 1.039 a 1.044 do Código Civil Brasileiro.

[ 28 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Vantagens Desvantagens
- Registro na Junta Comercial, por - Em regra, possui uma maior
meio da elaboração do Estatuto burocracia administrativa.
Social. - Menor flexibilização
- Menor responsabilização dos (regramentos bem previstos na
sócios quando comparada com a Lei das S.A.).
LTDA, uma vez que esta é - A lei veda a distribuição
limitada ao preço das ações assimétrica de lucros.
subscritas ou adquiridas. - Obrigatoriedade do Conselho
- Permite a captação de recursos Fiscal e do Conselho de
por meio da emissão das ações. Administração (esse nos casos
- Normas legais bem definidas, de companhias abertas,
fornecendo maior segurança economia mista e capital social).
jurídica aos acionistas. - Obrigatoriedade de publicação
- Possibilidade de ações ordinárias dos atos societários e
ou preferenciais (sem direito a demonstrações financeiras no
voto). DOU e em jornal de grande
- Quóruns de deliberações mais circulação.
simples que na LTDA. - Não há possibilidade de
exclusão de sócio.
- Menor flexibilidade para
restrição de circulação das
ações.

31 Regulamentada pelos artigos 1.088 e 1.089 do Código Civil Brasileiro, e


pela Lei 6.404/1976 (Lei das S.A.).

[ 29 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

2. FORMALIZAÇÃO E REGISTROS DA
STARTUP

Ultrapassada a etapa de escolha do modelo empresarial


ou societário para a startup, é hora de formalizar a empresa,
providenciando a elaboração de documentos e registros que
forem necessários para o início das atividades.
Primeiro, é preciso que o empreendedor verifique
qual(is) o(s) documento(s) necessário(s), por determinação
legal, para regulamentar e constituir a empresa.
Para cada modalidade empresarial, existem documentos
específicos que deverão regê-la. Por exemplo, para constituição
de uma Sociedade Limitada, é necessária a elaboração de um
Contrato Social, nos moldes dos arts. 997 a 1.000 do Código
Civil. Por sua vez, as Sociedades Anônimas são regidas por um
Estatuto Social, de acordo com a Lei Federal n.º 6.404/1976.
Deve-se observar ainda as normas e exigências legais
de tais instrumentos, sob pena de enfrentarem problemas
jurídicos futuros ou sequer terem a sua inscrição como
empresa/sociedade autorizadas pelo órgão responsável pelo
registro.
Por exemplo, o STJ considera necessária a inscrição na
Junta Comercial para que o procedimento de Recuperação
Judicial seja deferido32. Essa é apenas uma consequência

32Vide decisão proferida no REsp 1193115 – MT, julgado em 20 de agosto de


2013: “RECUPERAÇÃO JUDICIAL. COMPROVAÇÃO DA CONDIÇÃO DE
EMPRESÁRIO POR MAIS DE 2 ANOS. NECESSIDADE DE JUNTADA DE
DOCUMENTO COMPROBATÓRIO DE REGISTRO COMERCIAL. DOCUMENTO

[ 30 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

negativa de uma empresa que não possui o seu registro


realizado corretamente.
No Brasil, a regulamentação e coordenação das
atividades de registros de empresas mercantis é realizada pelo
Departamento Nacional de Registro Empresarial e Integração
(DREI), entidade do Governo Federal vinculada à Secretaria
Especial da Micro e Pequena Empresa.
O site da entidade33 contém uma série de Instruções
Normativas e orientações aos usuários, que regulamentam os
procedimentos de abertura das empresas e orientam na
realização dos trâmites burocráticos.
É interessante que o empreendedor observe se tal
órgão – que regulamenta os procedimentos das Juntas

SUBSTANCIAL. INSUFICIÊNCIA DA INVOCAÇÃO DE EXERCÍCIO


PROFISSIONAL. INSUFICIÊNCIA DE REGISTRO REALIZADO 55 DIAS APÓS O
AJUIZAMENTO. POSSIBILIDADE OU NÃO DE RECUPERAÇÃO DE EMPRESÁRIO
RURAL NÃO ENFRENTADA NO JULGAMENTO. 1 - O deferimento
da recuperação judicial pressupõe a comprovação documental da qualidade
de empresário, mediante a juntada com a petição inicial, ou em prazo
concedido nos termos do CPC 284, de certidão
de inscrição na Junta Comercial, realizada antes do ingresso do pedido em
Juízo, comprovando o exercício das atividades por mais de dois anos,
inadmissível a inscrição posterior ao ajuizamento. Não enfrentada, no
julgamento, questão relativa às condições de admissibilidade ou não de
pedido de recuperação judicial rural. 2 - Recurso Especial improvido quanto
ao pleito de recuperação.”
33 Disponível em: <http://drei.smpe.gov.br/>. No site é possível encontrar a

Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), modelos de


comunicações e declarações, ademais de tabelas e formulários ligados às
atividades empresariais.

[ 31 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Comerciais – possui alguma disposição especial sobre o modelo


empresarial que a startup pretende adotar.34
Como etapa preliminar, é importante também que se
verifique se há necessidade de aprovação prévia de órgãos
governamentais para o exercício da atividade pretendida, assim
como quais são os alvarás de funcionamento e licenças
necessárias para o funcionamento da empresa.
A Instrução Normativa do Departamento Nacional de
Registro de Comércio n. 114, de 30 de setembro de 2011, lista
determinados “atos empresariais sujeitos à aprovação prévia de
órgãos e entidades governamentais para registro nas juntas
comerciais”. Segundo o anexo da Instrução, startups do ramo
de seguros, como a Youse, por exemplo, necessitam da
aprovação de sua atuação pela Superintendência de Seguros
Privados – SUSEP.
Ademais, as startups que pretendem atuar em áreas de
maior controle, como o mercado financeiro (as famosas
fintechs, que são regulamentadas pelo Banco Central, Comissão
de Valores Mobiliários ou Superintendência de Seguros, dentre
outros) ou na área ambiental (IBAMA, Instituto Chico Mendes,
órgãos estaduais e municipais...), devem ter bastante cuidado
com as regulamentações dos órgãos de controle específicos,
pois as punições para o seu descumprimento são mais rígidas e
podem tornar inútil todo o trabalho já realizado.
Providenciada a documentação exigida e as
licenças/autorizações preliminares, o próximo passo é realizar o

34 Para verificar as Instruções Normativas em vigor, acesse:


<http://drei.smpe.gov.br/legislacao/instrucoes-normativas/titulo-menu/new-
instrucoes-normativas-em-vigor>.

[ 32 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

registro comercial da startup. Essa etapa também dependerá


do modelo adotado, porém, em regra, os registros são
realizados no Registro Público de Empresas Mercantis,
popularmente conhecido como Junta Comercial35. Em alguns
casos, como as Sociedades em Conta de Participação, é exigido
apenas o registro nos Cartórios de Civil de Pessoas Jurídicas.
Diferentemente do Departamento Nacional de Registro
Empresarial e Integração - DREI, que é vinculado ao Governo
Federal, as juntas comerciais são vinculadas aos Estados,
geralmente sendo formalizadas como autarquias. Deste modo,
o funcionamento de cada uma das Juntas varia por localidade.
Nas juntas comerciais menos atualizadas, o registro
empresarial somente pode ser solicitado de modo presencial,
ou via correios, com a apresentação dos seguintes
documentos: requerimento do registro de empresa;
instrumento de instituição empresarial, com suas eventuais
alterações; documentos dos sócios e pagamento de taxas de
registro.
Realizado o pedido de registro, ele será analisado pelos
vogais, julgadores habilitados para análise dos requerimentos
realizados na Junta Comercial. Tal decisão pode ser tomada de
modo singular ou em conjunto, por meio do colégio de vogais.
Com a aprovação do registro, a empresa terá acesso ao
Número de Identificação de Registro de Empresas – NIRE. Esse
número identificador, composto por 11 dígitos, será o número
de identificação de sua empresa perante o estado da Junta
Comercial onde foi feito o registro.

35A junta comercial do seu Estado pode ser encontrada no site do DREI, no
seguinte endereço: <http://drei.smpe.gov.br/assuntos/juntas-comerciais>.

[ 33 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

A ausência de regularidade perante a Junta Comercial


ocasiona diversas limitações a empresa. Por exemplo, esta não
pode solicitar a recuperação judicial36, nem solicitar a falência
dos seus devedores37.
Posteriormente a realização dessa etapa, o
empreendedor deve realizar o cadastro na Receita Federal,
obtendo o número de registro empresarial no Cadastro
Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ)38. Essa numeração nada
mais é do que o número de identificação nacional das
empresas. É o CPF das pessoas jurídicas.
A ausência desse cadastro mantém a empresa na
informalidade, criando diversas limitações, tais como
impossibilidade de emissão de notas fiscais, a vedação ao
registro de marca, a proibição de contratação com a maioria
das médias e grandes empresas, além do poder público, a
dificuldade de obtenção de financiamentos, dentre outros. Ou
seja, sem uma regularização legal, é impossível que qualquer
empresa se desenvolva.
Feito isso, a startup deve providenciar os registros nas
secretarias das fazendas estaduais ou municipais (dependendo
das atividades que exerçam), para que possam recolher os
tributos devidos. Por exemplo, startups que atuam

36 Art. 51, V, da Lei de Falências.


37 Art. 97, parágrafo primeiro, da Lei de Falências.
38 O requerimento do CNPJ pode ser realizado online, por meio do site da

Receita Federal. Para cada procedimento, é necessária uma série de


documentos, que pode ser verificada no seguinte endereço:
<http://www.receita.fazenda.gov.br/PessoaJuridica/CNPJ/tabelas/Documento
sEventos.htm>. No caso do MEI, o CNPJ e o número de inscrição na Junta
Comercial são obtidos logo após o seu cadastramento online.

[ 34 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

exclusivamente na área de serviços, provavelmente39 não


necessitaram do registro estadual, pois o principal tributo
devido será o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza -
ISS, de competência municipal. Já se comercializam produtos,
será necessário o registro estadual, para o recolhimento do
ICMS.
Veja, no entanto, que alguns Estados já possuem suas
juntas comerciais com inúmeros serviços digitais (a JUCERJA E
JUCERN, por exemplo), possibilitando o protocolo de pedidos
de constituição, alteração e extinção empresarial online.
Além disso, buscando dar uma maior celeridade ao
processo de formalização empresarial, que segundo o Banco
Mundial demora longos 107 dias no Brasil40, os Estados já vêm
implementando a Rede Nacional para a Simplificação do
Registro e da Legalização de Empresas e Negócios.
Criada pela Lei Federal n.º 11.598/2007, a REDESIM
buscou criar mecanismos que integrasse a Receita Federal com
as Juntas Comerciais e diversos órgãos estaduais e municipais,
permitindo que os empreendedores abram e regularizem o seu
negócio de forma simples e sem burocracia. Por isso, é
importante verificar se esse sistema já foi implementado em
seu Estado.
Nesse sistema, que concentra a obtenção do NIRE,
CNPJ, inscrições, alvarás e licenças em uma única plataforma, é

39 Podem existir taxas instituídas em âmbito estadual que exijam a obtenção


da inscrição perante tal ente.
40 DESIDÉRIO, Mariana. Quanto tempo demora para abrir uma empresa no

Brasil? EXAME.COM. 12 fev 2016. Disponível em:


<http://exame.abril.com.br/pme/quanto-tempo-demora-para-abrir-uma-
empresa-no-brasil/>. Acesso em: 20 mar. 2017.

[ 35 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

possível ter a sua empresa regularizada em menos de 24 horas,


o que pode te fazer economizar muito tempo e dinheiro.
Nessas etapas de registro, deve-se ter muita atenção
com a Classificação Nacional de Atividades Econômicas – CNAE
da sua empresa. Tal categorização é realizada com base em
uma lista de atividades econômicas separadas por códigos, cuja
empresa deverá ser enquadrada em alguma delas.
O CNAE é muito importante pois ele é utilizado como
parâmetro para emissão de notas fiscais, recolhimento de
tributos, definição das obrigações acessórias41 e até mesmo
obtenção de incentivos fiscais. A classificação errada pode
trazer grandes prejuízos para sua empresa.
Finalizadas essas fases, a startup está legalmente
habilitada para atuar no mercado.

CHECKLIST – FORMALIZAÇÃO DA EMPRESA

NIRE – Junta Comercial


CNPJ – Receita Federal
Alvarás de Funcionamento – Prefeitura Municipal
Licenças Especiais – Órgãos Reguladores
Inscrição Estadual e/ou Municipal – Estado ou Prefeitura

41
Quando tratamos de tributos, a obrigação principal é o pagamento da
quantia em dinheiro. Por sua vez, obrigações acessórias são aquelas
secundárias, como o preenchimento de documentações de prestação de
contas. Uma obrigação acessória, por exemplo, é o preenchimento da
declaração anual de Imposto de Renda.

[ 36 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

3. DOCUMENTOS DE CONSTITUIÇÃO
EMPRESARIAL

Conforme já abordado, as startups diferem em diversas


situações das empresas tradicionais. Seus produtos usualmente
relacionados à modernização de serviços ou tecnologias, suas
relações com incubadoras e aceleradoras, seu amadurecimento
empresarial em ritmo frenético, dentre outras situações e
características, tornaram necessária a adaptação dos
instrumentos e documentos jurídicos tradicionais, de modo com
que se adequassem às necessidades desse novo mercado,
suprindo as lacunas existentes em diversos ramos do direito.
São nessas mudanças que as principais cautelas devem ser
tomadas.
Os negócios funcionam como um relacionamento
amoroso. No início, todos vivem um “mar de rosas”, pois as
expectativas de que a startup terá um crescimento rápido e
será um case de sucesso permeiam a cabeça dos envolvidos.
Afinal, quem não empreende pensando em alcançar o êxito
profissional e financeiro?
Porém, com o passar do tempo, as divergências vão
aparecendo, gerando inúmeros conflitos entre as partes. Por
isso, o ideal é que as normas que vão regulamentar esse
relacionamento empresarial sejam bem definidas no início,
momento em que os antagonismos ainda não são tão
contundentes.

[ 37 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Para se ter uma ideia desse cenário, um estudo


realizado pela Aceleradora Startup Farm apontou que as
principais causas de fechamento das startups brasileiras são os
conflitos entre os sócios42 e o desnivelamento entre os
interesses de mercado e as propostas de valores43 das
empresas.
Veja que a maioria dos conflitos surge pois os sócios
fundadores não dão o devido valor para os documentos legais
que irão regulamentar a relação entre eles. A grande maioria as
empresas (incluindo as startups) utilizam algum modelo
genérico de Contrato ou Estatuto Social, que não atende as
especificidades desta, e apenas quando surge algum conflito é
que estes buscam idealizar um modelo adequado para o seu
negócio. Ocorre que nesse momento, as divergências entre os
sócios já estão acentuadas, o que impede a realização dos
ajustes necessários da forma mais racional e adequada para os
interesses da empresa.
Deste modo, quando tratamos da elaboração dos
documentos que irão regular as relações jurídicas e

42 Um caso que ilustra bem como o conflito entre sócios pode depreciar uma
empresa é o caso da rede de livrarias Saraiva. Vide HAYASHI, Ney. Saraiva
perde 88% do valor em 5 anos com briga de sócios. Exame negócios. São
Paulo. 14 jul. 2016. Disponível em:
<http://exame.abril.com.br/negocios/noticias/saraiva-perde-88-do-valor-em-
5-anos-em-meio-a-briga-de-soci>. Acesso em: 26 jul. 2016.
43 BICARELLI, Bárbara. Época Negócios. 74% das startups brasileiras fecham

após cinco anos, diz estudo. 07 jul. 2016. Disponível em:


<http://epocanegocios.globo.com/Empreendedorismo/noticia/2016/07/74-
das-startups-brasileiras-fecham-apos-cinco-anos-diz-estudo.html>. Acesso
em: 17 jul. 2016.

[ 38 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

interpessoais das empresas, é importante que a atuação


preventiva seja a palavra de ordem.
Assim, analisaremos – sob a ótica das necessidades das
startups – alguns instrumentos contratuais que são necessários
para a sua constituição formal como empresa ou sociedade,
outros que vêm sendo utilizados para fornecer mais segurança
jurídica aos empreendedores, assim como algumas
modernizações documentais que foram criadas no intuito de
atender as necessidades geradas por tais empresas.

3.1. Contrato Social e o Estatuto Social

O Contrato Social e o Estatuto Social são os documentos


de criação da maioria das sociedades. Estes funcionam como
uma espécie de “lei” que regulamenta as relações entre os
participantes da sociedade, sejam eles administradores, sócios
ou cotistas.
A legislação que regulamenta cada tipo de sociedade
elenca qual o instrumento adequado para a sua constituição
(para as Sociedades Limitadas, se usa o Contrato Social; para
as Sociedades Anônimas, o Estatuto Social, por exemplo) e
quais os requisitos básicos para a formalização de tais
documentos.
Na elaboração destes, as exigências legais devem ser
respeitadss pelos sócios-fundadores, sob pena de terem o
registro da empresa na Junta comercial negado ou próprio
documento questionado judicialmente no futuro.

[ 39 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Porém, como no direito privado44 costuma-se dizer que


“o que não é proibido, presume-se permitido” (Permittitur quod
non prohibetur), desde que cumpridas as determinações legais
e não atentem contra liberdades em geral e princípios
contratuais da boa-fé, lealdade e transparência, as partes
podem realizar as disposições de acordo com o seu arbítrio, em
respeito ao princípio da autonomia das vontades.
Acerca do Contrato Social, determina o art. 997 do
Código Civil que são requisitos básicos para a sua formalização:

“Art. 997. A sociedade constitui-se mediante


contrato escrito, particular ou público, que, além
de cláusulas estipuladas pelas partes, mencionará:
I - nome, nacionalidade, estado civil, profissão e
residência dos sócios, se pessoas naturais, e a
firma ou a denominação, nacionalidade e sede dos
sócios, se jurídicas;
II - denominação, objeto, sede e prazo da
sociedade;
III - capital da sociedade, expresso em moeda
corrente, podendo compreender qualquer espécie
de bens, suscetíveis de avaliação pecuniária;
IV - a cota de cada sócio no capital social, e o
modo de realizá-la45;
V - as prestações a que se obriga o sócio, cuja
contribuição consista em serviços;

44Ramo do direito que trata da relação entre os particulares.


45 O cap table ou capitalization table é uma ferramenta muito utilizada pelas
startups organizadas em forma de sociedade que facilitam a visualização da
estrutura societária ou acionista do negócio. Basicamente, o cap table
organiza os sócios/acionistas em uma tabela, de acordo com a sua
participação empresarial. Com isso, facilita-se a visualização dos quóruns
necessários para a tomada de decisões do negócio, e quais as consequências
de tais decisões para cada um dos sócios.

[ 40 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

VI - as pessoas naturais incumbidas da


administração da sociedade, e seus poderes e
atribuições;
VII - a participação de cada sócio nos lucros e nas
perdas;
VIII - se os sócios respondem, ou não,
subsidiariamente, pelas obrigações sociais.”

Elaborado o modelo básico contratual com tais


requisitos, os sócios ficam livres para deliberar sobre assuntos
gerais, tais como procedimento de expulsão dos sócios,
metodologia de divisão de perdas e lucros, a venda da
participação no capital social, direito de preferência, atribuições
dos sócios, dentre outros.
O mesmo regramento determina ainda que nos trinta
dias seguintes a sua constituição, “a sociedade deverá requerer
a inscrição do Contrato Social no Registro Civil das Pessoas
Jurídicas do local de sua sede” (art. 998 do Código Civil
Brasileiro). No capítulo anterior, tratamos do procedimento para
tal registro.
As cláusulas específicas necessitam ser idealizadas de
acordo com as características e necessidades do negócio. Deve-
se ter cuidado em não inserir no contrato disposições que
sejam contrárias ao regulamento legal da sociedade realizada.
Por exemplo, um Contrato Social não pode determinar a
possibilidade de participação no Conselho Fiscal de sócios não
residentes no país, uma vez que no art. 1.066 do Código Civil
há proibição expressa quanto a isso.
Por fim, observe que o Contrato Social não deve ser
utilizado como um extenso regulamento das normas e
disposições da sociedade. Esse documento, se detalhado, tem o

[ 41 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

lado positivo de trazer segurança jurídica para os sócios, uma


vez que os pormenores da relação social estarão bem
estabelecidos. Em contrapartida, todas as modificações no
Contrato Social devem ser aprovadas por deliberações dos
sócios e serem averbadas no Registro competente, o que pode
atravancar o andamento da startup em determinadas situações.
No tocante aos Estatutos Sociais, seus requisitos
essenciais não são sumarizados em uma lei específica, como
ocorre com o Contrato Social. Na elaboração deste documento,
as partes deverão observar os requisitos da lei que
regulamentam a sociedade específica, apanhando quais as
disposições essenciais na elaboração do documento. Por
exemplo, caso queira realizar uma sociedade cooperativa, a Lei
Federal a ser observada será a n.º 5.764/1971.
Em se tratando das Sociedades Anônimas, estas são
regidas pela Lei Federal n.º 6.404/1976. Assim, os
empreendedores que pretendem tornar a sua startup uma S.A.
devem realizar um apanhado nesta legislação acerca de quais
os requisitos básicos e limitações para a elaboração de tais
documentos. Por exemplo, são algumas disposições de tal lei
sobre o tema:

“Art. 2º Pode ser objeto da companhia qualquer


empresa de fim lucrativo, não contrário à lei, à
ordem pública e aos bons costumes.
[...]
§ 2º O estatuto social definirá o objeto de modo
preciso e completo.”

***

[ 42 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

“Art. 5º O estatuto da companhia fixará o valor do


capital social, expresso em moeda nacional.”

***

“Art. 11. O estatuto fixará o número das ações em


que se divide o capital social e estabelecerá se as
ações terão, ou não, valor nominal.”

***

“Art. 19. O estatuto da companhia com ações


preferenciais declarará as vantagens ou
preferências atribuídas a cada classe dessas ações
e as restrições a que ficarão sujeitas, e poderá
prever o resgate ou a amortização, a conversão de
ações de uma classe em ações de outra e em
ações ordinárias, e destas em preferenciais,
fixando as respectivas condições.”

***

“Art. 22. O estatuto determinará a forma das


ações e a conversibilidade de uma em outra
forma.”

Para a criação de tal documento, são válidas as mesmas


orientações gerais fornecidas para a elaboração do Contrato
Social.
De modo resumido, é possível sistematizar os cuidados
aqui elencados da seguinte forma: i) observar qual o
documento de formalização e regramento do modelo
empresarial e societário que foi escolhido para a startup; ii)
verificar qual(is) a(s) lei(s) e regulamentos que regem o
modelo empresarial ou societário e a elaboração do referido

[ 43 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

documento (se tiver); iii) com base neles, elaborar o


documento atentando aos quais os requisitos obrigatórios de
tal documento, quais as cláusulas específicas atinentes ao
negócio; observar se não há descumprimento das cláusulas
contratuais a alguma determinação legal, e, por fim; iv) revisar
o contrato.

CHECKLIST – CONTRATO OU ESTATUTO SOCIAL

Verificação do documento de formalização do modelo


empresarial ou societário escolhido

Verificação da legislação específica que regulamenta a


realização de tal documento

Elaboração do modelo-base do contrato, com as cláusulas


obrigatórias e específicas

Revisão do contrato

Se tomadas as devidas cautelas, dificilmente a


sociedade enfrentará problemas jurídicos no futuro. E caso
surjam conflitos, tais documentos demonstrarão qual a solução
devida para o caso.
Observe que o Contrato e o Estatuto Social não são os
únicos documentos que podem reger a relação entre os
empreendedores e fundadores da startup. Vejamos agora

[ 44 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

algumas técnicas e documentos que podem ser utilizados para


tornar essa relação mais estável e segura.

3.1.1. CLÁUSULA DE VESTING

O vesting (do inglês vestes ou vestir) é, sem dúvidas,


uma das inovações contratuais mais interessantes relacionadas
ao direito das startups. Sua instituição em documentos e
aplicabilidade prática ainda geram muitas dúvidas aos
empreendedores e aos profissionais da área jurídica46.
De uso bastante comum nos Estados Unidos pelas
startups e na aplicação de venture capital47 por investidores, o
vesting introduz a ideia de uma nova modalidade de
regulamentação da participação nas empresas, que garante
mais segurança aos sócios fundadores da startup. Vejamos o
porquê.

46
No cenário jurídico nacional, ainda é escassa a produção doutrinária sobre
o tema. Quando se trata de jurisprudência, a situação é ainda mais
dramática, tendo em vista que não há nenhuma decisão que aborde a
temática do vesting quando aplicados para startups. As decisões que existem
abordam o tema para as stock options, e ainda apresentam confusões
conceituais básicas, tais como confundir o vesting, o cliff e a as próprias stock
options. Por exemplo, veja o trecho de decisão proferida pelo TRT da 3ª
Região, no Recurso Ordinário Trabalhista nº. 0115000-58.2009.5.03.0023:
“Revestem-se de inteira validade as cláusulas contratuais que fixam carências
(vesting) para as chamadas stock options (opção facilitada, com preços pré-
fixados, para aquisição futura de ações da empresa), inclusive estabelecendo
a insubsistência do benefício nos casos de rescisão do vínculo empregatício,
antes do cumprimento da carência. [...]”. No caso, observe que o Magistrado
confunde os conceitos, aplicando a conceituação de cliff para vesting.
47 Nomenclatura fornecida ao capital investido por investidores de risco a

empresas de pequeno ou médio porte que já possuem um faturamento


considerável e uma atividade mais estável, mas que necessitam evoluir o
negócio.

[ 45 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Em uma empresa ou startup que utilize o modelo


tradicional de repartição de cotas, a partir da formalização e
regularização da sociedade (e da integralização do que lhe é
devido), as partes adquirem a propriedade de suas cotas de
modo absoluto, garantindo, assim, a propriedade da parte da
empresa que lhe é devida.
Para facilitar o entendimento, utilizaremos a seguinte
situação modelo: quatro amigos (Ana, Bruno, Carlos e Duda)
resolvem montar a startup “Zetta” de marketing digital,
formalizada em modelo de Sociedade Limitada, a qual cada um
possui 25% das cotas do capital social.
Em uma situação tradicional, conforme exposto, a partir
da realização do Contrato Social, com a subscrição e
integralização das cotas, os sócios terão adquiridos
imediatamente a sua participação na empresa. Na prática,
ocorre da seguinte maneira:

Imagem 03
Demonstração da divisão do capital social de uma empresa LTDA
tradicional

[ 46 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Observe que a partir da data de constituição da


sociedade, cada sócio já tem direito as cotas que lhe são
devidas, permanecendo no mesmo percentual com o passar
dos anos (exceto caso haja alguma alteração no Contrato Social
que afete a participação societária destes).
Apesar desse modelo ser o padrão das empresas
tradicionais, essa forma de manutenção de participação nas
sociedades pode ser um problema, principalmente para as
startups, uma vez que estas contam com uma instabilidade
mercadológica muito elevada (lembra-se do conceito de Eric
Ries, que fala das “condições de extrema incerteza”?), que
podem se valorizar ou encerrar suas atividades
repentinamente, além da maioria delas ter como bem principal
o capital intelectual dos seus participantes. Tais características
ocasionam um problema muito comum nessas empresas: a
saída ou abandono da startup pelos sócios.
Retornando ao caso exemplificativo, imagine a seguinte
situação: após três meses de participação da empresa, Duda se
desencanta com o negócio por não ver o negócio sequer atingir
o break-even48 e decide abandonar a startup. Os demais sócios
continuam trabalhando duro, e cinco meses após a saída de
Duda, a empresa apresenta um produto que revoluciona o
mercado, recebendo uma proposta de venda de milhares de
reais. No momento das tratativas do negócio, os demais sócios
se lembram de que Duda ainda permanece no quadro
societário da empresa, tendo ela direito aos seus 25% do valor

48É o ponto de equilíbrio financeiro de uma empresa. Nesse caso, o negócio


não tem nem prejuízo, nem lucro, uma vez que as despesas são iguais as
receitas.

[ 47 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

da venda. Essa situação é justa com aqueles que


verdadeiramente se dedicaram ao desenvolvimento do
negócio?
Claro que não. Foi visando evitar surpresas negativas
como esta e fornecer mais segurança aos sócios que
verdadeiramente se dedicam ao negócio que o vesting surgiu.
Com a aplicação deste instrumento, as participações na
sociedade são adquiridas de acordo com o tempo de
permanência dos sócios na empresa ou pelo cumprimento de
metas preestabelecidas. Assim, apenas com o cumprimento dos
pressupostos pactuados é que as partes adquirem sua
participação definitiva no capital social, até o limite contratual
previsto.
Voltando ao caso concreto, caso a cláusula de vesting
houvesse sido implementada na “Zetta” para o período de
quatro anos49, utilizando como meta o tempo de permanência,
a estrutura de divisão das cotas da empresa ficaria da seguinte
forma:

49O tempo de aplicabilidade é determinado pelos próprios sócios, de acordo


com as suas necessidades. Não há um prazo determinado ou limitações para
tanto.

[ 48 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Imagem 04
Demonstração da divisão do capital social de uma empresa LTDA
utilizando o vesting

Note que com o uso do vesting, apenas ao fim do


quarto ano é que cada sócio teria adquirido a totalidade das
cotas que lhe são devidas (25%). No caso concreto, se aplicado
o vesting, Duda teria direito a apenas 1,56%50 do capital social
da empresa, perdendo boa parte das cotas que lhe seriam
cabíveis por não permanecer na empresa pelo período temporal
predeterminado.

50 No caso em análise, os 25% do capital social devidos a Duda apenas


seriam adquiridos integralmente após o quarto ano de permanência na
empresa, ou seja, por cada ano ela recebia 6,25% do capital social (25%
dividido por 4 anos). Tendo em vista que ela quando a empresa tinha apenas
três meses de funcionamento (¼ de ano), ela terá direito a ¼ do percentual
do capital que deveria adquirir em um ano, chegando-se ao valor de 1,56%
do capital social.

[ 49 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Caso a venda houvesse sido realizada sobre esses


preceitos, não há dúvidas que tal situação se apresenta bem
mais justa, uma vez que a sócia que abandonou a startup não
receberá a mesma parcela dos demais sócios que trabalharam
para alcançar o êxito do negócio.
Veja ainda que o vesting pode ser implementado pelo
cumprimento de metas. Ocorre que tal aplicação é mais
complexa, uma vez que usualmente os setores das empresas
estão bastante interligados, o que pode ocasionar um
travamento do cumprimento de metas por um sócio por inércia
de outro. Por exemplo, se o setor de vendas da “Zetta” não
cumpre suas metas (vender 5.000 produtos por ano),
dificilmente a diretoria financeira também irá cumprir as suas
(aumentar o faturamento em 100% por cento ao ano).
É essencial, portanto, que os sócios arbitrem como e
quais órgãos serão responsáveis por definir tais metas. Em
alguns acordos de sócios, empresas costumam definir que
grandes companhias de auditoria51 serão responsáveis por
solucionar tais conflitos. Porém, os custos de tais contratações
podem ser muito elevados para startup. Por outro lado, os
próprios sócios podem definir isso, porém a confiabilidade e a
capacidade técnica podem não ser as mais adequadas para
essa avaliação.
Além de um instrumento de segurança jurídica para os
sócios, o vesting deve ser visto e utilizado como um
instrumento de motivação para os próprios sócios, mentores
(advisors, boards) e investidores. Isso porque o aumento da

51 Empresas tais como Deloitte Touche Tohmatsu; Ernst&Young; KPMG;


PriceWaterHouseCoopers, entre outros.

[ 50 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

sua participação da empresa com o tempo de permanência


gera um maior interesse em continuar na startup.
Em determinados casos, é possível realizar a aceleração
do vesting. Nessas situações, o tempo previsto para a
consolidação das cotas do vesting é reduzido de acordo com o
previsto no Contrato Social. Geralmente essas situações
ocorrem quando há proposta de venda da startup antes do fim
do prazo de consolidação do vesting; quando há entrada de
novos sócios na empresa, sendo necessário reorganizar o
quadro societário, dentre outras situações que exigem
reformulação nas participações da empresa.
Merece atenção o seguinte detalhe: esse mecanismo
jurídico em estudo não é um contrato, como muitos definem.
Na verdade, este instrumento é um direito contratual, que deve
ser disposto em uma cláusula ou termo no Contrato Social da
startup ou no instrumento de admissão do funcionário ou
mentor.
A fundamentação legal para essa definição se encontra
no inciso IV do art. 997 do Código Civil é claro ao definir que
deve ser objeto do Contrato Social a definição da “cota de cada
sócio no capital social, e o modo de realizá-la”. Dessa forma,
utilizar outro instrumento contratual apenas para dispor sobre o
capital social da startup é ir de encontro ao disposto na
legislação própria sobre o tema.
Apesar de ser uma ferramenta muito útil na resolução
dos problemas ora demonstrados, juridicamente falando ainda
não há um posicionamento dos tribunais e da doutrina sobre
discussões que certamente irão surgir. Por exemplo, o uso do
vesting atenta contra a disposição do §2º do art. 1.055 do

[ 51 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Código Civil, que determinar ser “vedada contribuição (ao


capital social) que consista em prestação de serviços”? Esse
questionamento pode ser um problema para aqueles que
pretendem ingressar apenas com o capital laboral ou intelectual
na empresa.
Para tal situação, defendo que não há conflito entre a
aplicação do direito contratual comentado e o artigo legal
exposto, uma vez que deve haver a integralização do capital
social antes da aplicação do vesting. Assim, o que se há não é
diretamente uma aquisição na participação do capital social,
mas sim uma perda na participação integralizada por
descumprimento de uma cláusula disposta no próprio Contrato
Social.
Deste modo, na prática, quando o interesse for de
aplicar o vesting para os sócios fundadores, vejo como melhor
opção idealizar tal instrumento da seguinte forma: os sócios
subscrevem e integralizam o seu capital social na forma
acordada em bens ou dinheiro; porém, em seguida, incluem
uma cláusula limitadora de manutenção do capital social
baseado no critério definido pelas partes.
É muito importante também que os sócios deliberem
sobre qual será o destino do capital social em caso de sócios
que não percam parte do capital que lhe seriam devidos por
descumprimento do vesting. Por exemplo, decidindo Duda se
retirar do negócio quando possuía direito a apenas 1,56% do
capital social, os 23,44% do restantes teriam que destino?
Há várias alternativas a serem adotadas: destinar o
percentual para um novo sócio que pretenda ingressar no

[ 52 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

negócio, destinar o percentual para bonificação de funcionários


estrela ou até mesmo repartir entre os sócios remanescentes.
Nessa última situação, teríamos o seguinte cenário: Ana,
Bruno e Carlos passariam a deter 32,81% do negócio. Porém,
em um cenário hipotético em que os sócios remanescentes
possuam cotas diferentes, o ideal é que a divisão das sobras
das cotas sejam repartidas em na proporção do capital social.
Ou seja, se Ana tinha 70% do capital social e Bruno 20%, a
cota em sobra deverá ser dividida nessas mesmas proporções.
Atente ainda que a situação que ora apontamos é de
uma pessoa que não obtêm o êxito no vesting, permanecendo
com apenas um percentual do todo que lhe seria devido no
capital social. Isso porque na prática, decidindo Duda sair do
negócio, a ela cabe o valor referente a 1,56% do capital social,
ficando livres todos os 25% que lhe cabiam, e não apenas os
23,44% apontados.

3.1.2. CLÁUSULA DE CLIFF

Retomemos a situação utilizada como exemplo no tópico


anterior, imaginando que os sócios da “Zetta” utilizaram o
vesting por permanência de quatro anos na repartição do seu
capital social, e que Duda saiu da empresa após três meses da
abertura da empresa.
Conforme dito, com a sua saída, ela teria direito ao
correspondente a 1,56% do capital social. Agora idealize que o
Contrato Social estabelece que o percentual do capital social
que seria devido ao sócio que se retirou do negócio (25% -

[ 53 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

1,56% = 23,44%) será destinado a algum funcionário estrela


ou mentor. Porém, o novo “dono” do capital social também
abandona o negócio pouco tempo após o seu ingresso, ficando
com um pequeno percentual do capital social.
Já imaginou as dificuldades jurídicas e gerenciais que a
presença de vários sócios com pequenas cotas do capital social
podem gerar para a empresa? Um exemplo são os óbices na
reposição dos prejuízos da empresa ou para alteração no
Contrato Social, uma vez que dispõe o art. 999 do Código Civil
que:

“Art. 999 - As modificações do contrato social, que


tenham por objeto matéria indicada no art. 997,
dependem do consentimento de todos os sócios;
as demais podem ser decididas por maioria
absoluta de votos, se o contrato não determinar a
necessidade de deliberação unânime.”

Visando evitar tais situações é que o cliff surgiu como


complemento ao vesting. Palavra que em inglês significa
penhasco ou desfiladeiro, o vocábulo foi utilizado para essa
situação pois sua aplicação gera uma quebra na linha contínua
de participação do capital social criada no vesting ou nos
contratos padrão, com uma imagem que se assemelha a um
precipício em um cenário regular, como se pode observar no
gráfico abaixo:

[ 54 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Imagem 05
Demonstração da divisão do capital social de uma empresa LTDA
utilizando o vesting e o cliff inicial

O cliff é representado por essa quebra na linha contínua


existente entre o período de criação da empresa e o seu
primeiro ano. Na prática, sua aplicação significa que a aquisição
das cotas do capital social poderá ocorrer de duas formas: ou
após um período de carência inicial, conforme acima exposto;
ou por saltos no período de aquisição, conforme se pode
observar abaixo.

[ 55 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Imagem 06
Demonstração da divisão do capital social de uma empresa LTDA
utilizando o vesting e o cliff periódico

O que a aplicação desse instrumento busca é limitar que


os sócios que abandonem a empresa só passem a ter direito ao
que lhe era devido no capital social após o cumprimento de um
período mínimo predeterminado; e, em alguns casos, caso o
sócio saia após um período considerável de permanência na
empresa, que este tenha um percentual de participação
determinado, e não valores quebrados do capital social, que
dificultaram a administração da empresa.
Para facilitar, voltemos ao exemplo concreto: caso a
“Zetta” houvesse aplicado o vesting de permanência pelo
período de quatro anos, com o cliff de um ano, a saída de Duda
da startup três meses após a sua fundação ocasionariam a

[ 56 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

perda do seu capital social devido, deixando de integrar o


quadro societário da empresa, não tendo direito a nenhuma
indenização por sua saída.
Em outra situação figurativa, se implementado o vesting
e o cliff nos moldes do último gráfico, caso Duda decidisse sair
da empresa após dois anos e seis meses de permanência, esta
teria direito a 12,5% do capital social da empresa, e não a
15,625%, que seria o valor devido caso apenas o vesting
houvesse sido utilizado.
Atente que a efetivação desses instrumentos deve ser
realizada com todos os cuidados devidos. Se aplicados de
forma incorreta, suas dificuldades de aplicação prática e
consequências negativas podem ser maiores que as benesses.
Por isso, analise e veja se vale utilizar tais instrumentos na
constituição da sua empresa.

3.2. Acordo de acionistas, Memorandum of


Understanding (MOU) e Term sheet

Nas relações que envolvem pessoas, quanto mais forem


demarcadas e detalhadas os direitos e deveres de cada um,
menos haverá espaço para discussões negociais, que podem
gerar conflitos desnecessários entre as partes. Por isso, as
startups devem utilizar ao máximo as ferramentas jurídicas
disponíveis que têm o condão de regular tais relações.
O acordo de acionistas/sócios, os memorandos de
entendimentos (memorandum of understanding) e as cartas ou

[ 57 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

protocolos de intenções (term sheets) são alguns dos


documentos que possuem tais funções. A nomenclatura
adequada52 irá variar de acordo com a sua utilização, mas, em
regra, todos estes buscam alinhar os termos de uma relação
comercial e jurídica que poderá ser implementada no futuro, ou
já se encontra em vigência.
Na prática, uma das utilizações de tais documentos é o
estabelecimento de regras, comportamentos e intenções de
partes envolvidas em uma negociação, principalmente naquelas
que exigem uma abertura de informações entre as empresas,
cujo vazamento ou utilização indevida possam ocasionar
consequências negativas para as partes.
É comum que na realização de transações comerciais
entre startups e terceiros que tenham como objetivo o
recebimento de investimentos, venda da empresa (parcial ou
total), realização de parcerias ou joint ventures, entre outras
atividades haja uma troca de informações entre os envolvidos,
no intuito de analisar a viabilidade e consequências da
operação almejada.
Por exemplo, essa abertura de informações pode ser
necessária para que um investidor, na realização de um due

52 Há ainda algumas discussões sobre as nomenclaturas corretas a serem


utilizadas em alguns documentos. Por exemplo, há quem utilize o Memorando
de Entendimentos como sinônimo ao Acordo de Acionistas, enquanto outros
utilizam a mesma nomenclatura como sinônimo para os terms sheets. Porém,
note que o nome dado ao documento não tem uma importância muito
elevada, pois o mais importante é o conteúdo (na seara jurídica, esse
entendimento é fundamentado com base no princípio da instrumentalidade
das formas).

[ 58 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

diligence53 antes de fechar um negócio em potencial, avalie a


necessidade de aplicação de um hurdle rate54 para o seu
investimento; ou na fixação de um earn out55, no caso de
propostas de vendas para o seu negócio.
Desta forma, será por meio da elaboração de um
memorando de entendimentos ou term sheet que os envolvidos
irão regulamentar o uso de tais informações e definir quais
serão as etapas do negócio, obrigações e direitos das partes
envolvidas e consequências caso haja descumprimento do que
fora acordado ou vazamento de informações essenciais.
Um exemplo de uso do memorando de entendimentos
foi o idealizado entre o Governo do Amazonas, a Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, a empresa
SOFTEX e o Programa Nacional de Aceleração de Startups
denominado Startup Brasil, para regulamentar o apoio do
estado ao desenvolvimento na região.56 Nesse caso, o
memorando objetivou regulamentar como serão realizados os

53 Procedimento de auditoria e investigação nas informações e dados de um


negocio ou empresa, no intuito de se traçar um panorama geral desta.
54 Taxas mínimas que investidores esperam receber após realizarem aportes

em startups, que variam de acordo com o montante investido e o risco


assumido por este.
55 Acordos que propõem o recebimento de valores ou participação em

empresas para que determinado empreendedor realize a venda do seu


negócio.
56 Governo do Estado, via Seplan-CTI e FAPEAM, assinam memorando de

entendimentos com Startup Brasil para apoio a novas empresas no


Amazonas. FAPEAM. 19 nov. 2015. Disponível em:
<http://www.fapeam.am.gov.br/governo-do-estado-via-seplan-cti-e-fapeam-
assina-memorando-de-entendimento-com-startup-brasil-para-apoio-a-novas-
empresas-no-amazonas/>. Acesso em: 24 jul. 2016.

[ 59 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

investimentos pelo estado do Amazonas para fomentar as


atividades empreendedoras via startups.
Outro exemplo prático é o acordo de entendimentos
realizado entre a FINEP e a Agência Holandesa de
Empreendimentos, buscando fortalecer a parceria entre as
instituições de pesquisa e inovação brasileiras e holandesas,
criando uma “rede transnacional em cooperação científica,
tecnológica e industrial”.57
Sua implementação também pode ser concretizada em
uma relação societária ou empresarial já estabelecida, como
forma de dispor sobre aspectos gerais do negócio.
No caso de necessidade de regulamentação das
relações entre sócios ou acionistas, ou fortalecimento dos
objetivos, metas e ideais da startup, o acordo de sócios ou
acionistas é o instrumento mais adequado. Tendo em vista que
as alterações nos Contratos e Estatutos Sociais demandam
procedimentos mais complexos e burocráticos (definidos em
lei), utilizar tais documentos pode ser uma alternativa mais
prática, uma vez que estes documentos têm força contratual,
porém são mais fáceis de serem alterados e redigidos, por não
possuírem limitações legais específicas.
Por exemplo, pode-se utilizar o acordo de sócios ou
acionistas58 para definir quais serão as diretorias de uma
startup, regulamentando suas metas e formas de atuação.

57 FINEP. Assinado Memorando de Entendimento entre o FINEP e holandesa


RVO. 21 jun. 2016. Disponível em: <http://www.finep.gov.br/noticias/todas-
noticias/5270-assinado-memorando-de-entendimento-entre-finep-e-
holandesa-rvo>. Acesso em: 11 jul. 2016.
58 Alguns doutrinadores do direito dividem o acordo de acionistas das S.A em

três espécies: acordo de comando, que irá regulamentar e organizar a

[ 60 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Funcionar como um guideline para operação dos


negócios empresariais pode ser uma outra forma de utilização
de tais documentos, servindo como parâmetro em casos de
questionamentos sobre que decisão tomar em casos de
recepção de investimentos, venda da empresa59, ou em
debates sobre interpretação do Contrato ou Estatuto Social.
Apesar de, em geral, não existir regulamentação legal
específica sobre esses documentos60, é muito importante que
as partes, no momento de sua elaboração, observem as
disposições genéricas para as elaborações de contratos comuns
elencadas na parte geral e no título V do Código Civil:

“Art. 104. A validade do negócio jurídico requer:


I - agente capaz;
II - objeto lícito, possível, determinado ou
determinável;
III - forma prescrita ou não defesa em lei.”

Além disso, como todo contrato, estes devem respeito


aos princípios contratuais elencados no art. 442 do Código Civil,

administração e controle do negócio; acordo de defesa, realizado pelos sócios


ou acionistas minoritários no intuito de buscar direitos legais; e acordos
mistos, que servem para regulamentar relações entre sócios e acionistas
minoritários e majoritários. Outros classificam também, quanto ao conteúdo,
como acordo de voto, de bloqueio ou múltiplo; ou quanto aos efeitos como
unilateral, bilateral ou plurilateral.
59 O termo “exit” é muito utilizado no cenário das startups para designar o

momento de venda da empresa.


60 O acordo de acionistas é regulamentado no art. 118 da Lei das Sociedades

Anônimas (Lei Federal n.º 9.404/1976). Assim quando o documento for


elaborado para regulamentar “sobre a compra e venda de suas ações,
preferência para adquiri-las, exercício do direito a voto, ou do poder de
controle” das S.A, as disposições desse artigo também deverão serem
respeitadas.

[ 61 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

assim como às fases essenciais a tais instrumentos, que são as


tratativas, acordo e cumprimento.

“Art. 422. Os contratantes são obrigados a


guardar, assim na conclusão do contrato, como
em sua execução, os princípios de probidade e
boa-fé.”

Veja também que as suas disposições não devem ser


contrárias ou conflituosas com o Contrato ou Estatuto Social.
Se feitos de tal maneira, o documento perde totalmente o seu
sentido de criação, e pode gerar inúmeros conflitos entre os
sócios e acionistas. Note, por fim, que os requisitos que a lei
elenca como obrigatórios aos Contratos ou Estatutos Sociais
não devem ser abarcados nos acordos de sócios ou acionistas,
mas sim no documento em que são devidos.
É interessante que esses contratos, denominados no
meio jurídico de “parassociais”, sejam averbados ao Contrato
ou Estatuto Social na Junta Comercial, sem prejuízo do registro
em cartório competente, para que forneçam uma maior
segurança jurídica aos envolvidos e à própria empresa.

3.3. Contratos de confidencialidade e sigilo

Os contratos, termos ou acordos de confidencialidade


ou sigilo (também denominados de non disclosure agreements
- NDA) talvez sejam os documentos - dentre os mais
importantes - menos utilizados pelas startups. E essa relevância

[ 62 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

está vinculada a sua função contratual: proteger a produção e


propriedade material e intelectual de tais empresas.
É fato que um dos maiores medos dos sócios de uma
empresa é o vazamento de informações essenciais que podem
excluir o diferencial (competitive edge) daquela startup,
tornando-a apenas “mais uma” no mercado. E esse medo não
caminha sozinho: a saída de sócios ou funcionários da empresa
para concorrentes, ou até mesmo para fundarem uma startup
no mesmo ramo de atuação61 é outro pesadelo que assombra
os empreendedores. Para quem sofre desses temores, a melhor
saída é a utilização dos contratos de confidencialidade e sigilo.
Primeiramente, tais contratos visam resguardar a
empresa do vazamento de informações sigilosas por parte dos
seus membros (sejam eles sócios, funcionários ou mentores)
ou de terceiros que, por qualquer motivo, venham a ter acesso
as informações consideradas confidenciais (como advogados,
clientes, contadores, dentre outros).
Sua aplicabilidade pode ocorrer de duas formas: ou em
um instrumento próprio, que regulamente apenas como se dará
a proteção da confidencialidade; ou em cláusulas ou termos
dentro de outros contratos existentes. Por exemplo, tal
proteção pode ser um termo ou cláusula dentro do contrato de
trabalho de um funcionário ou do próprio Contrato Social de
uma empresa. Usualmente, aconselha-se que este contrato
seja feito em um documento separado, uma vez que sua
elaboração específica o torna mais completo.
Note que essa proteção não deve ser adotada apenas
com os funcionários e terceiros, mas principalmente entre os

[ 63 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

sócios. Isso porque estes detêm o conhecimento de todo o


funcionamento da empresa, e o vazamento de informações ou
uso indevido por membros do quadro societário pode
representar o fim da startup.
Os clientes também devem estar cientes de que não
devem fornecer a terceiros alheios à relação comercial
informações importantes sobre o modo de operação da startup.
Por isso, cláusulas de confidencialidade são sempre bem vindas
nos contratos de prestação de serviços.
Para elaboração de tal documento, é aconselhável
observar as seguintes disposições:

a) Qualificação das partes: sócios, empregados,


clientes, prestadores de serviços, entre outros. Em
regra, são as partes principais envolvidas no
contrato. Por exemplo, caso este documento seja
realizado entre duas empresas, estas deverão ser
as partes contratuais. Não será necessário que a
empresa coloque todos os sócios e funcionários
para assinar esse contrato, pois a extensão deste
documento será tratado em uma das listadas
adiante;
b) Objeto do contrato: deverá ser a elaboração
de um contrato de confidencialidade e sigilo que
visa regular, proteger e resguardar a troca de
informações confidenciais e sigilosas entre as
partes;
c) Definições gerais: deverá definir quem são as
partes reveladoras e receptoras; quais informações
serão consideradas confidenciais; e delimitar quais
as formas de transmissão das informações
confidenciais entre os envolvidos;

61 Vide também o tópico que aborda as cláusulas de não concorrência.

[ 64 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

d) Extensão da responsabilidade: abalizar a


quem se estende o contrato de confidencialidade
(empregados, contratados, subcontratados,
terceiros vinculados às partes, etc.);
e) Limitações e obrigações da parte receptora:
estabelecer quais os limites da parte receptora no
uso das informações (não divulgar, discutir, usar,
revelar, ceder ou dispor as informações a
terceiros...); responsabilizar-se por impedir o
vazamento das informações, arcando com os
custos necessários para tanto; comunicar a parte
reveladora o vazamento de informações, et al.
f) Extensão da confidencialidade: limitar a quais
informações a confidencialidade se aplica (não se
aplica o sigilo para as informações de domínio
público, que não sejam emitidas sob o manto da
confidencialidade, etc.).
g) Da guarda de informações: definir quais serão
os meios e cuidados tomados entre as partes na
guarda das informações protegidas pelo referido
contrato, e como ocorrerá a devolução ou exclusão
dos dados após o fim do contrato.
h) Penalidades: determina quais serão as
penalidades administrativas, civis e criminais para
quem descumprir o contrato.
i) O prazo de validade do contrato: em geral, a
validade se estende desde o período das tratativas
negociais até um prazo após o fim do contrato,
denominado de quarentena (varia de acordo com
o interesse das partes, mas em comum utilizam o
período de 2 a 5 anos).
j) Disposições gerais: são as cláusulas gerais
dos contratos.

A aplicação desse instrumento deve ser utilizada de


forma cuidadosa pelas partes, no intuito de evitar brechas

[ 65 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

legais que permitam o vazamento de informações empresariais


pelos envolvidos no negócio.
Veja ainda que a idealização de tal contrato pode ser
uma prova bastante importante para a caracterização do crime
de concorrência desleal, previsto no art. 195 da Lei Federal n.º
9.279/1996 (Lei de Proteção à Propriedade Industrial) e que
elenca inúmeras ações que podem configurar este ilícito.

“Art. 195. Comete crime de concorrência desleal


quem:
I - publica, por qualquer meio, falsa afirmação, em
detrimento de concorrente, com o fim de obter
vantagem;
II - presta ou divulga, acerca de concorrente, falsa
informação, com o fim de obter vantagem;
III - emprega meio fraudulento, para desviar, em
proveito próprio ou alheio, clientela de outrem;
IV - usa expressão ou sinal de propaganda alheios,
ou os imita, de modo a criar confusão entre os
produtos ou estabelecimentos;
V - usa, indevidamente, nome comercial, título de
estabelecimento ou insígnia alheios ou vende,
expõe ou oferece à venda ou tem em estoque
produto com essas referências;
VI - substitui, pelo seu próprio nome ou razão
social, em produto de outrem, o nome ou razão
social deste, sem o seu consentimento;
VII - atribui-se, como meio de propaganda,
recompensa ou distinção que não obteve;
VIII - vende ou expõe ou oferece à venda, em
recipiente ou invólucro de outrem, produto
adulterado ou falsificado, ou dele se utiliza para
negociar com produto da mesma espécie, embora
não adulterado ou falsificado, se o fato não
constitui crime mais grave;

[ 66 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

IX - dá ou promete dinheiro ou outra utilidade a


empregado de concorrente, para que o
empregado, faltando ao dever do emprego, lhe
proporcione vantagem;
X - recebe dinheiro ou outra utilidade, ou aceita
promessa de paga ou recompensa, para, faltando
ao dever de empregado, proporcionar vantagem a
concorrente do empregador;
XI - divulga, explora ou utiliza-se, sem
autorização, de conhecimentos, informações ou
dados confidenciais, utilizáveis na indústria,
comércio ou prestação de serviços, excluídos
aqueles que sejam de conhecimento público ou
que sejam evidentes para um técnico no assunto,
a que teve acesso mediante relação contratual ou
empregatícia, mesmo após o término do contrato;
XII - divulga, explora ou utiliza-se, sem
autorização, de conhecimentos ou informações a
que se refere o inciso anterior, obtidos por meios
ilícitos ou a que teve acesso mediante fraude; ou
XIII - vende, expõe ou oferece à venda produto,
declarando ser objeto de patente depositada, ou
concedida, ou de desenho industrial registrado,
que não o seja, ou menciona-o, em anúncio ou
papel comercial, como depositado ou patenteado,
ou registrado, sem o ser;
XIV - divulga, explora ou utiliza-se, sem
autorização, de resultados de testes ou outros
dados não divulgados, cuja elaboração envolva
esforço considerável e que tenham sido
apresentados a entidades governamentais como
condição para aprovar a comercialização de
produtos.
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano,
ou multa.”

[ 67 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

A aplicabilidade de instrumentos de proteção da


confidencialidade e sigilo dos dados da empresa é um fator de
grande importância para as startups e grandes empresas que
lidam com o desenvolvimento de tecnologias. É uma
característica primordial das grandes empresas do ramo o
cuidado jurídico na guarda de suas informações.
A Apple, por exemplo, maior empresa de tecnologia do
mundo, preza de forma incisiva pela segurança dos seus dados
e produtos, sejam eles softwares ou hardwares. A Foxconn,
empresa responsável pela produção dos aparelhos da Apple,
obriga todos os seus funcionários a assinarem contratos de
confidencialidade e sigilo, além de informarem constantemente
aos seus funcionários dos riscos do vazamento de informações
e realizarem um rígido controle físico, com a utilização de
fiscais de monitoramento e presença de detectores de metal.62
Sem dúvidas, a rígida proteção aos seus produtos tecnológicos
é uma das fórmulas de sucesso da empresa.

62 BOECHAT, Yan. Economia IG. Em segredo, Foxconn começa a produzir


Iphone no Brasil. São Paulo. 18 out. 2011. Disponível em:

[ 68 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

CHECKLIST – CONTRATO DE CONFIDENCIALIDADE E


SIGILO

Partes
Objeto do contrato
Definição geral
Extensão da responsabilidade
Limitações e obrigações das partes
Extensão da confidencialidade
Guarda de informações sigilosas
Penalidades
Prazo de validade contratual
Disposições gerais.

<http://economia.ig.com.br/em-segredo-foxconn-comeca-a-produzir-iphone-
no-brasil/n1597290050550.html>. Acesso em: 13 jul. 2016.

[ 69 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

4. CLÁUSULAS E INSTRUMENTOS
CONTRATUAIS ESPECÍFICOS

Após realizarmos a análise dos contratos iniciais e


algumas de suas cláusulas mais importantes, vamos estudar
outros instrumentos contratuais com aplicações diversas, que
podem ser úteis na proteção da sua startup.

4.1. Direito de preferência

O direito de preferência é um benefício legal bastante


elencado nos documentos de constituição das sociedades. Sua
utilização só tem sentido em sociedades ou contratos de
investimentos, uma vez que sua aplicabilidade tem o condão de
garantir preferências aos demais sócios, acionistas ou
investidores no caso do aumento ou subscrição do capital social
da empresa, ou no caso da venda das cotas/ações por um dos
sócios/acionistas.
Para as sociedades limitadas, o direito de preferência
está regulamentado nos arts. 1.057 e 1.081 do Código Civil:

“Art. 1.057 - Na omissão do contrato, o sócio pode


ceder sua cota, total ou parcialmente, a quem seja
sócio, independentemente de audiência dos
outros, ou a estranho, se não houver oposição de
titulares de mais de um quarto do capital social.”

[ 70 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

***

“Art. 1.081 - Ressalvado o disposto em lei especial,


integralizadas as cotas, pode ser o capital
aumentado, com a correspondente modificação do
contrato.
§1o - Até trinta dias após a deliberação, terão os
sócios preferência para participar do aumento, na
proporção das cotas de que sejam titulares.
§2o - À cessão do direito de preferência, aplica-se
o disposto no caput do art. 1.057.
§3o - Decorrido o prazo da preferência, e assumida
pelos sócios, ou por terceiros, a totalidade do
aumento, haverá reunião ou assembleia dos
sócios, para que seja aprovada a modificação do
contrato.”

O próprio Código Civil determina que, em regra geral, os


sócios serão preferencialmente os adquirentes da parte do
capital social da empresa quando este for ampliado, na
proporção das cotas que sejam titulares. Além disso, dispõe
que caso não haja determinação em contrário no Contrato
Social, pode um sócio ceder suas cotas a outro,
independentemente de autorização dos demais; e, no caso de
cessão para terceiros, esta somente será possível caso não haja
vedação dos titulares de mais de 25% do capital social.
Por exemplo, no caso da startup “Zetta”, caso a
assembleia de sócios decidisse pelo aumento do capital social
da empresa em R$ 10.000,00, cada um dos sócios teria o
direito de preferência a adquirir 25% desse aumento (R$
2.500,00).
Noutra situação hipotética, caso Bruna decidisse vender
as suas cotas e os sócios remanescentes decidissem invocar o

[ 71 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

direito de preferência, cada um deles teria direito a 33% das


cotas pertencentes à alienante, que, de forma global,
representaria 8,33% da “Zetta”. Deste modo, Ana, Carlos e
Duda ficariam ao final com 33,33% da startup (25% + 8,33%).
Para as Sociedades Anônimas, por sua vez, o
regramento do direito de preferência se encontra elencado no
arts. 171 e 172 da Lei das S.A. Vejamos:

“Art. 171. Na proporção do número de ações que


possuírem, os acionistas terão preferência para a
subscrição do aumento de capital.
Art. 172. O estatuto da companhia aberta que
contiver autorização para o aumento do capital
pode prever a emissão, sem direito de preferência
para os antigos acionistas, ou com redução do
prazo de que trata o § 4o do art. 171, de ações e
debêntures conversíveis em ações, ou bônus de
subscrição, cuja colocação seja feita mediante:
I - venda em bolsa de valores ou subscrição
pública, ou;
II - permuta por ações, em oferta pública de
aquisição de controle, nos termos dos arts. 257 e
263. [...]”

O que deve ser observado é que esse direito pode ser


adequado de acordo com as necessidades e os interesses dos
sócios da startup, desde que as determinações estejam
incluídas no Contrato ou Estatuto Social.

[ 72 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

O direito de preferência pode ter formas diferentes, de


acordo com a modalidade que é aplicado. Vejamos a explicação
de Erik Nybo63 sobre o tema:

“O direito de preferência tem várias formas e


aplicações diferentes. Pode estar na forma de
ROFR (right of first refusal), ROFO (right of first
offer) ou liquidation preference (preferência em
eventos de liquidez).
A ROFR faz com que o empreendedor ou startup
que receber uma oferta de um terceiro tenha que
oferecer a potencial transação para o beneficiário
dessa cláusula (geralmente o investidor) nos
mesmos termos e condições em que a transação
foi proposta por tal terceiro, antes de aceitá-la.
Assim, um investidor tem certeza de que ao
investir em um negócio ele terá a possibilidade de
participar em futuras oportunidades que possam
surgir.
A ROFO, por outro lado, faz com que o
empreendedor ou startup interessado em ofertar
determinada transação a terceiros seja obrigado a
ofertá-la para o beneficiário da cláusula antes de
oferecê-la a quaisquer terceiros.
Tanto a ROFR quanto a ROFO exigem que uma
condição específica seja cumprida para criar este
direito. A essa condição se dá o nome de gatilho
(trigger). Caso o beneficiário dessas cláusulas não
resolva exercer seu direito dentro de determinado
prazo, os benefícios criados por meio dessas
cláusulas deixam de existir e o empreendedor ou
startup podem realizar a transação pretendida.

63 Erik Fontenele Nybo é gerente jurídico global da Easy Taxi, autor e


coordenador do livro “Direito das Startups”, advogado formado pela Fundação
Getúlio Vargas.

[ 73 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Por fim, é muito comum que o investidor insira


uma cláusula de direito de preferência em eventos
de liquidez. Eventos de liquidez são todos aqueles
eventos que podem acontecer no ciclo de vida de
uma startup que resultem na geração de valores
pecuniários (ou seja, gera-se dinheiro). Alguns
exemplos de eventos de liquidez são abertura de
capital na bolsa de valores, investimentos, vendas,
dentre outros. Caso exista uma cláusula de
preferência, o investidor tem preferência no
recebimento desses valores até um determinado
limite. Este limite é geralmente definido de acordo
com o valor do investimento realizado.”64

É importante ainda que os sócios analisem bem quais as


consequências jurídicas e para o negócio que as disposições
feitas por eles sobre o direito de preferência ocasionarão. Por
exemplo, se aplicado o direito nos termos do art. 1.057 do
Código Civil, a cessão das cotas de um sócio para outro pode
tornar o adquirente sócio majoritário ou detentor de mais da
metade das ações da empresa, fazendo com que este detenha
sozinho participação na empresa suficiente para tomar decisões
que antes eram tomadas por disposição da assembleia de
sócios ou acionistas.

64 NYBO, Erik. Cláusulas que todo empreendedor e investidor deveriam


conhecer na hora de negociar um investimento. Startupi. 25 jul. 2016.
Disponível em: <https://startupi.com.br/2016/07/clausulas-que-todo-
empreendedor-e-investidor-deveriam-conhecer-na-hora-de-negociar-um-
investimento/>. Acesso em: 15 maio 2017.

[ 74 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

4.2. Cláusula de não concorrência

As cláusulas de não concorrência são instrumentos


jurídicos criados no intuito de proteger as empresas e seus
sócios da concorrência de sujeitos que, por determinado
motivo, obtiveram informações essenciais sobre a atuação de
determinada empresa no mercado.
Quando implementada, essa cláusula tem o condão de
limitar – sob inúmeras penas – que determinada parte atue em
certo mercado ou área por um período de tempo específico,
utilizando os conhecimentos adquiridos em uma empresa para
construir ou alavancar outra que possa representar risco àquela
primeira.
Sua única previsão legal expressa se encontra no art.
1.147 do Código Civil, que trata da sua utilização para o caso
de alienação de estabelecimento comercial:

“Art. 1.147 - Não havendo autorização expressa, o


alienante do estabelecimento não pode fazer
concorrência ao adquirente, nos cinco anos
subseqüentes à transferência.”

Apesar de não haver disposição expressa de sua


aplicabilidade para o direito empresarial, sua aplicação
fundamenta-se na prerrogativa da autonomia da vontade das
partes.
Um exemplo da utilização dessa limitação foi a venda da
rede de idiomas Wise Up, em 2013, do famoso empresário
Flávio Augusto, para o Grupo Abril por R$ 877 milhões.

[ 75 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Na negociação para a venda, foi inserida uma cláusula


de não-concorrência que limitava a atuação de Flávio Augusto
no ramo da educação por quatro anos. Por ironia do mundo
dos negócios, o prazo não precisou expirar, pois na metade
desse (2015) tempo Flávio Augusto recomprou a Wise Up do
Grupo Abril por R$ 398 milhões.65
Observe que, quando utilizado, este instrumento deve
estar juridicamente bem redigido, sob pena de gerar conflitos
legais. Vejamos o exemplo prático do caso da venda de 25%
do capital social da J&F participações (que controla a Eudorado
Brasil Celulose e o Frigorífico JBS) pelo sócio Mário Celso Lopes.
Na realização da operação, foi inserido um termo de não
concorrência com o prazo de dez anos.
Ocorre que, dois anos após a venda, um fundo de
comércio liderado pelo ex-sócio da J&F iniciou a abertura de
uma fábrica de celulose, o que gerou um enorme litígio judicial.
O fundo J&F participações alega que houve a quebra do termo
de não concorrência. Já o sócio dissidente alega que a limitação
era apenas para a sua atuação como pessoa física, não
atingindo fundos de comércio que ele integrasse66. Observou

65 BORNELI, Júnior. Flávio Augusto vendeu a Wise Up por R$ 877 milhões e


agora comprou de volta por R$ 398 milhões. Startse Infomoney. 16 dez.
2015. Disponível em:
<http://startse.infomoney.com.br/portal/2015/12/16/15669/flavio-augusto-
vendeu-wise-up-por-r-877-milhoes-e-agora-comprou-de-volta-por-r-398-
milhoes/>. Acesso em: 28 jun. 2016.
66 GOULART, Jossete. Ex-sócio da Eldorado e J&F brigam na justiça. O Estado

de São Paulo. 27 fev. 2014. São Paulo. Disponível em:


<http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,ex-socio-da-eldorado-e-jef-
brigam-na-justica-imp-,1135182>. Acesso em: 15 jul. 2016.

[ 76 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

como documentos mal redigidos podem gerar grandes


problemas?
Além do uso previsto acima, sua utilização pode ocorrer
entre os sócios de uma empresa, ou até mesmo para
funcionários da startup. Em tais casos, sua aplicabilidade
requer ainda mais cuidado, principalmente quanto ao último
ponto.
Observe: quando realizada entre os sócios, ou entre
alienante e adquirente, as partes usualmente se encontram em
igualdade negocial, sendo as disposições realizadas entre eles
protegidas pela liberdade contratual do direito privado.
Porém, no trato entre empregadores e empregados, em
regra esses estão em situação de hipossuficiência perante os
primeiros, o que pode gerar conflitos trabalhistas futuros. Isso
porque essa cláusula no âmbito trabalhista busca delimitar a
atuação de empregados, seja de modo autônomo ou com
terceiros, evitando a utilização de informações e técnicas
confidenciais ou sigilosas que foram adquiridas no contrato de
trabalho, e que podem ocasionar uma concorrência com o seu
ex-empregador.
Se nas demais situações a liberdade de instituição é
mais ampla, na seara trabalhista ela deve ser mais restrita:
devem ser fixadas contenções temporais, materiais ou
geográficas, mas sempre de modo cauteloso; além de ser
devida a concessão de indenização monetária ao funcionário,
uma vez que tal limitação certamente ocasionará prejuízos a
este. Descumprindo tais requisitos, há uma grande chance do
empregador enfrentar conflitos trabalhistas.

[ 77 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

“A parte majoritária das decisões na Justiça do


Trabalho reconhecem a validade da cláusula de
não concorrência desde que a restrição atenda a
alguns requisitos concomitantes, a saber: limitação
temporal; limitação material; limitação geográfica;
e, principalmente, que seja concedida uma
contraprestação financeira ao empregado.
A limitação temporal corresponde ao
estabelecimento de um prazo razoável para a
vigência da cláusula, de modo a não afastar o
profissional do mercado de trabalho.
Já a limitação material é definida como uma
restrição afeta apenas ao ramo da atividade
exercida pelo empregado, evitando conflito com a
Constituição Federal que veda qualquer medida
que impeça o empregado de exercer o seu direito
ao trabalho. Ou seja, um empregado do ramo
industrial não pode ser proibido pela cláusula de
não concorrência de atuar no ramo de comércio.
No que diz respeito à restrição geográfica, deve
ser entendida como a limitação ao espaço em que
a cláusula poderá surtir efeitos, uma vez que não
é justo restringir o empregado de trabalhar em
local onde seu antigo empregador não exerça
atividade econômica, isto a nível nacional e
internacional.
[...]
Por último, para que a cláusula de não
concorrência (non competition) seja considerada
válida, faz-se necessária, de acordo com a posição
dos nossos Tribunais, que seja fixado o
pagamento de uma indenização compensatória e
pomposa, em virtude da restrição sofrida pelo
empregado. “67

67FRUGIS, Antonio Carlos; BAEZ, Celso Carmo. Cláusula de Não Concorrência


no Direito do Trabalho. Migalhas. 26 out. 2015. Disponível em:

[ 78 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE)


também poderá atuar caso verifique que a cláusula de não
concorrência está sendo utilizada como uma ferramenta de
proteção de mercados por uma das partes.68
Assim, no intuito se adequar as determinações desse
órgão, o uso desse instrumento contratual deve apresentar
certas limitações ao espaço físico e ao tempo de sua vigência,
assim como possua ligação específica ao mercado que envolveu
a operação ou negociação entre as partes.

4.3. Cláusulas de drag along e tag along

Conforme exposto, as cláusulas contratuais geralmente


possuem visam proteger ou beneficiar uma das partes do
negócio, sejam eles investidor/fundador, vendedor/comprador,
entre outros. Dificilmente, cláusulas contratuais serão neutras.
As cláusulas de tag along e drag along não fogem à
regra. Enquanto a primeira busca proteger os sócios/acionistas
minoritários de uma empresa, a segunda protege os
majoritários. Vejamos como.

<http://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI228937,51045-
Clausula+de+nao+concorrencia+no+Direito+do+Trabalho>. Acesso em 22
jun. 2017.
68 As startups de médio e pequeno porte não devem se preocupar tanto com

a atuação do CADE em suas negociações. Isso porque o órgão tem como foco
de ação operações que afetem o mercado econômico incisivamente.

[ 79 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

O termo tag along vem do inglês “acompanhar” ou


“pendurar-se”, também sendo utilizado para designar aquelas
bicicletas duplas, em que uma se suspenda na outra. Em se
tratando de direito, quando aplicada em um contrato ou
estatuto, esse instrumento permite que os sócios minoritários
invoquem o direito de receber a mesma proposta oferecida a
um sócio/acionista majoritário por suas cotas/ações, em caso
de alienação das mesmas.
Por exemplo, imagine uma startup com quatro sócios,
em que ‘A’, ‘B’ e ‘C’ detém cada um 15% do capital social, ‘D’
detém todo o restante das cotas (55%), e no contrato social há
previsão da cláusula de tag along.
Caso ‘D’ receba uma proposta para venda de suas cotas
por R$ 1.000.000,00, os sócios ‘A’, ‘B’ e ‘C’ podem requerer o
seu direito de vender as suas cotas nos mesmos termos. Ou
seja, se o ofertante propôs R$ 1.000.000,00 por 55% do capital
social, terá que ofertar aproximados R$ 272.000,00 pelos 15%
de cada um dos demais sócios.
Merece atenção que sua aplicabilidade pode ocorrer de
duas formas principais: caso o adquirente não queira ofertar a
mesma proposta para os sócios minoritários, a venda não será
possível, ou; caso o adquirente queira ofertar apenas R$
1.000.000,00 por 55% do capital social da empresa, este
percentual não poderá ser adquirido exclusivamente do sócio
majoritário, mas sim de todos os sócios, de acordo com as
proporções do capital social.
A aplicação dessa fornece aos sócios minoritários a
proteção de se beneficiarem de ofertas realizadas na empresa
apenas a uma das partes, assim como fornece a opção de sair

[ 80 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

do negócio caso não haja afinidade entre estes e o novo


ingressante.
Imaginemos agora o contrário: o sócio majoritário ‘D’
recebe uma excelente oferta pelos seus 55% no capital social,
porém o adquirente só tem interesse em adquirir a empresa
integralmente. É justo que menos da metade do capital social
impeça essa venda?
Visando evitar essas situações que se aplicam as
cláusulas de drag along. Do inglês “arrastar”, essa cláusula
permite que o sócio majoritário, recebendo uma proposta por
sua participação no capital social, obrigue os sócios minoritários
a realizarem a venda de suas participações empresariais, desde
que a oferta seja nos mesmos termos da realizada ao sócio
majoritário.
Veja que estes instrumentos são direitos dos seus
detentores. Assim como os sócios minoritários podem invocar o
tag along, os majoritários podem acionar o drag along, caso
entendam interessante. Não há obrigatoriedade de aplicação
dos seus termos caso os beneficiados por estes não queiram ou
acordem em contrário.

4.4. Cláusula de shot gun

Situações de impasse são muito comuns na


administração empresarial. Porém, determinadas situações
tornam totalmente inviável a continuidade das partes no

[ 81 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

negócio, que só sobreviverá caso um dos envolvidos abra mão


de sua participação empresarial.
Nesses casos, a shot gun clause é invocada. Muito
utilizada no direito norte-americano, esse instrumento prevê
que havendo situações de conflitos entre os sócios (deadlocks),
um dos interessados pode notificar o outro para que venda
suas ações para o notificante, ou para que adquira as ações
destes, retirando uma das partes totalmente do negócio.
Por isso que essa cláusula, que é muito aplicada nos
acordos de acionistas, também é denominada de cláusula da
roleta russa (ou russian roulette clause). Isso porque ao
notificar o outro para que venda suas ações, este pode invocar
o direito reverso e adquirir as ações do notificante, retirando do
negócio quem pretendia permanecer no empreendimento
sozinho (ou com os demais acionistas não notificados).

4.5. Cláusula de lock up

A cláusula de lock up, do inglês trancar, é um


instrumento jurídico que veta a transferência das cotas/ações
dos sócios/acionistas por um período de tempo especifico.
Sua aplicação é invocada quando os participantes do
negócio querem estabelecer um vínculo mais efetivo a este,
impedindo a saída dos envolvidos da empresa por um período
predeterminado. Por exemplo, um investidor pode condicionar
o aporte de capital em uma startup a aplicação de uma cláusula
de lock up que obrigue sócios-fundadores, que entendem do

[ 82 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

funcionamento da empresa e detém o know-how na área, a


continuarem na sociedade por um prazo determinado.
Veja que o tipo de transferência, as pessoas atingidas
pelo veto e tempo de bloqueio deverão ser determinados pelos
envolvidos no momento da discussão contratual. Pode-se vetar,
por exemplo, qualquer modalidade de transferência, ou apenas
as que forem onerosas. Quanto às pessoas, pode-se proibir a
transferência para terceiros, impedindo a entrada de
desconhecidos no negócio, ou até mesmo entre os sócios,
evitando o aumento do capital social daqueles que já estão no
empreendimento e a consequente alteração no quórum para
decisões empresariais.
Por sua vez, a estipulação do tempo de aplicação, que
usualmente vai de 02 a 05 anos, deve ser acordada entre os
sócios/acionistas utilizando sempre o bom senso negocial.
Prazos muito longos podem afastar possíveis investidores,
fazendo com que os sócios-fundadores percam excelentes
oportunidades de receber capital ou realizar o exit (venda) do
negócio.

Imagem 07
Demonstração da aplicação do lock up

[ 83 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

4.6. Tail period

Imagine a seguinte situação: você realiza um contrato


de parceria com um mentor que terá a responsabilidade de
conseguir investimentos para o seu negócio, e cuja
remuneração depende do sucesso de suas atividades. Ou seja,
conseguindo o investimento, será pago a este uma taxa de
sucesso (success fee).
Depois de muito trabalhar, apresentando a startup em
feiras e eventos para inúmeros investidores, o prazo do
contrato encerra-se sem que haja sucesso na captação de
investimentos. Porém, dois meses depois, um investidor que
conheceu o negócio através do mentor “malsucedido” procura a
startup e aporta dinheiro nela. É justo que este fique sem a sua
taxa de sucesso?
São situações como esta que o tail period visa coibir.
Essa cláusula cria um lapso temporal (período de quarentena)
após o fim do contrato com o profissional que, recebendo a
empresa um investimento, este terá direito a sua taxa de
sucesso.
Por exemplo, caso a “Zetta” contratasse Pedro do Silício
em janeiro de 2017, por um ano, para conseguir captação de
recursos para a startup, com um tail period contratual de três
meses, havendo aporte de capital em fevereiro de 2018, seria
devido o pagamento do success fee a Pedro. Nada mais justo
principalmente quando o profissional se dedicou a sua atividade
durante o período contratual.

[ 84 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Imagem 08
Demonstração da aplicação do tail period

4.7. Direito de veto

Muito utilizada nas Sociedades Anônimas, o direito de


veto permite que os sócios minoritários tenham o poder de
vetar decisões específicas tomadas pelos sócios majoritários na
administração do negócio, de acordo com os termos
estabelecidos nos Estatuto ou Contrato Social.
Um exemplo simples: investidores que serão
minoritários na sociedade ‘X’ poderão condicionar o aporte de
capital à inclusão do poder de veto sobre a tomada de decisões
da empresa, pelos acionistas majoritários, em mudar a sua
atuação para uma área em que os minoritários já investem em
algum player do mercado.

[ 85 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

4.8. Full ratchet clause

Cláusula aplicada nos Estatutos Sociais como forma de


proteção aos acionistas minoritários, esse instrumento cria a
obrigação do sócio majoritário ou controlador de fornecer
algum tipo de compensação aos acionistas minoritários no caso
de decisões que o prejudiquem.
Por exemplo, a oferta de novas ações de uma empresa
com a sua consequente venda para investidores pode afetar o
poder de decisão dos acionistas minoritários sobre as atividades
empresariais. Essa cláusula pode ser aplicada, portanto, para
minimizar os prejuízos recebidos por estes.

4.9. Last in, first out

A cláusula denominada de “Last In, First Out”, ou


“último a entrar, primeiro a sair”, é um instrumento contratual
que gera bastante controvérsia em sua aplicação.
Em uma situação normal, onde inúmeros indivíduos
aplicam capital em uma empresa e dedicam seu tempo a ela, é
natural que havendo um exit de sucesso, com a consequente
liquidação dos pagamentos, os primeiros que aportaram capital
sejam os primeiros a receberem os valores devidos.

[ 86 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Ocorre que a cláusula LIFO inverte essa ordem. Ela


prevê que os últimos a aportarem capital na empresa sejam os
primeiros a receber seus valores, no momento da liquidação.
Sua aplicação se dá por barganha dos investidores,
principalmente quando startups se encontram em uma posição
que precisam de capital para atingir um patamar mercadológico
mais elevado. Deste modo, estes condicionam o aporte de
investimentos à aplicação desta cláusula, permitindo que estes
sejam pagos primeiro em uma possível venda da empresa ou
em uma nova rodada de captação de recursos.

4.10. No shop clause

A cláusula de no shop veda que o potencial investidor


ou promitente comprador de uma empresa permaneça com
negociações para investimentos ou aquisições em outras
empresas por um período de tempo determinado,
principalmente quando as empresas que o
investidor/comprador tem interesse são concorrentes.
Quando uma empresa propõe essa cláusula ao seu
potencial adquirente, ela quer evitar que o investidor tenha
acesso aos seus dados empresariais e ao final não invista em
seu negócio, detendo acesso a dados empresariais delicados
que podem ser utilizados em investimentos futuros.

[ 87 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

4.11. Call option e o put option

Lembra-se do caso da Refinaria de Pasadena69, em que


a Petrobras adquiriu a companhia americana por US$ 1,18
bilhões sete anos após a Astra Oil adquirir a empresa por
apenas US$ 42,5 milhões? A cláusula de put option é uma
peça-chave para entender o assunto.
A call option e a put option são cláusulas muito
utilizadas nas Sociedades Anônimas, mas que podem ser
aplicadas – desde que adaptadas – às sociedades limitadas.
Tais instrumentos versam sobre a obrigatoriedade de comprar
ou fazer que a outra parte compre as suas ações/cotas, nas
situações determinadas pelas partes.
Enquanto a call option gera o dever à outra parte que
venda sua parcela societária a determinado sujeito, a put
option concede o direito ao seu detentor de obrigar que a outra
parte adquira todas as suas ações ou cotas. As nuances do
acordo, como se a venda terá que ser integral ou parcial, as
condições para o exercício do direito e os prazos para acionar
tais cláusulas devem ser delimitadas pelas partes no momento
da celebração contratual.
E o que o caso de Pasadena tem a ver com isso? No
contrato entre a Petrobrás e a Astra, havia uma cláusula de put
option que obrigava que a estatal brasileira a adquirir todas a

69 PATU, Gustavo. Entenda o caso da Refinaria da Petrobrás em Pasadena.


Folha de São Paulo. 30 mar. 2014. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/03/1433096-entenda-o-caso-da-
refinaria-da-petrobras-em-pasadena-eua.shtml>. Acesso em 20 mar. 2017.

[ 88 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

participação da Astra Oil em caso de desentendimento


societário.
Em 2012, as empresas se desentenderam e a Astra
invocou essa cláusula, forçando a Petrobrás a desembolsar
mais de US$ 820,5 milhões de dólares como indenização a sua
parceira no empreendimento. Viu como cláusulas
desproporcionais podem causar grandes estragos em um
negócio?

[ 89 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

5. CONTRATOS DO COTIDIANO
EMPRESARIAL

Tomados os devidos cuidados documentais iniciais para


a estruturação da startup, as próximas cautelas dizem respeito
aos contratos entre a empresa e terceiros relacionados ao
negócio, sejam eles clientes ou prestadores de serviços.
Para esse ponto, mais uma vez os administradores
devem se pautar no Código Civil. Essa é a legislação geral que
discorrerá sobre os contratos, seus usos e requisitos legais.
Suas disposições estão elencadas nos arts. 421 a 853 do
referido Código, devendo ser observadas de acordo com as
especificidades e interesses da startup.
Para se ter uma ideia, são algumas espécies e
modalidades de contratos previstas no Código Civil: aleatório,
preliminar, com pessoa a declarar, de compra e venda, de troca
ou permuta, estimatório, de doação, de prestação de serviços,
de empreitada, de mútuo, entre outros
Da existência desse grande número de contratos é que
decorre a necessidade de se utilizar o contrato adequado para
cada situação concreta. Cada contrato tem características e
requisitos especiais, que, se utilizados erroneamente, podem
gerar conflitos futuros na interpretação do documento.
Um exemplo muito comum é a utilização do comodato
para o fornecimento de bens de uma empresa para outra,
mediante determinado pagamento, que serão devolvidos para o
prestador de serviços ao fim do contrato.

[ 90 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Porém, o que poucos notam é que o comodato


apresenta como característica legal ser um “empréstimo
gratuito de coisas fungíveis”, nos moldes do art. 579 do Código
Civil, o que, em sua essência, impossibilita a cobrança de
valores pela cessão de tal bem.70
Assim, tendo em vista a importância dos contratos para
as startups, elencaremos a seguir alguns cuidados que devem
ser tomados na realização desses instrumentos por seus sócios
ou administradores.

5.1. Contrato de prestação de serviços e


outros

Surgindo a necessidade de elaboração de um contrato,


a primeira pergunta que deve ser respondida é: o que busco
realizar com esse instrumento? Isso porque cada contrato
possui uma definição legal, que em regra reflete qual o
momento ou situação ideal para a sua utilização. Observe a
tabela abaixo, que elenca os tipos contratuais e quais as suas
definições legais:

70 No cenário jurídico, há a discussão sobre a existência do “comodato


modal”, uma espécie de comodato oneroso. Porém, tendo em vista a
expressa determinação legal da gratuidade e ainda essa espécie de comodato
não estar sedimentada na doutrina e jurisprudência, não aconselho o uso
dessa espécie de contrato para a cessão temporária de bens mediante
pagamento.

[ 91 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Quadro 02
Conceitos das espécies contratuais

Espécie Definição Legal (Lei n.


Contratual 10.406/2002)
Art. 481. Pelo contrato de compra e venda,
Compra e venda um dos contratantes se obriga a transferir
o domínio de certa coisa, e o outro, a
pagar-lhe certo preço em dinheiro.
Art. 533. Aplicam-se à troca as disposições
referentes à compra e venda, com as
seguintes modificações: I – salvo
disposição em contrário, cada um dos
contratantes pagará por metade as
Troca ou permuta
despesas com o instrumento da troca; II –
é anulável a troca de valores desiguais
entre ascendentes e descendentes, sem
consentimento dos outros descendentes e
do cônjuge do alienante.
Art. 534. Pelo contrato estimatório, o
consignante entrega bens móveis ao
Estimatório consignatário, que fica autorizado a vendê-
los, pagando àquele o preço ajustado,
salvo se preferir, no prazo estabelecido,
restituir-lhe a coisa consignada.
Art. 538. Considera-se doação o contrato
Doação em que uma pessoa, por liberalidade,
transfere do seu patrimônio bens ou
vantagens para o de outra.
Art. 565. Na locação de coisas, uma das
Locação de coisas partes se obriga a ceder à outra, por
tempo determinado ou não, o uso e gozo
de coisa não fungível, mediante certa
retribuição.
Art. 579. O comodato é o empréstimo

[ 92 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Comodato gratuito de coisas não fungíveis. Perfaz-se


com a tradição do objeto.
Art. 586. O mútuo é o empréstimo de
coisas fungíveis. O mutuário é obrigado a
restituir ao mutuante o que dele recebeu
Mútuo71 em coisa do mesmo gênero, qualidade e
quantidade. Ou seja, há a transferência
temporária de um bem para terceiro
(mutuário), que arca com os ônus do bem
enquanto tiver sua posse e obriga-se a
devolver restituir a coisa ao fim do
contrato.
Art. 594. Toda a espécie de serviço ou
Prestação de trabalho lícito, material ou imaterial, pode
serviços ser contratada mediante retribuição. Não
alcança as prestações sujeitas às leis
trabalhistas ou leis especiais.
Art. 610. O empreiteiro de uma obra pode
Empreitada contribuir para ela só com seu trabalho ou
com ele e os materiais.
Art. 627. Pelo contrato de depósito recebe
Depósito voluntário o depositário um objeto móvel, para
guardar, até que o depositante o reclame.
Art. 647. É depósito necessário: I – o que

71 Um termo muito utilizado no ramo dos investimentos é o mútuo


conversível. Como observado no quadro, o mútuo caracteriza-se pelo
empréstimo temporário de bens fungíveis. E fungível, segundo o art. 85 do
Código Civil, é aquilo que pode “substituir-se por outros da mesma espécie,
qualidade e quantidade”.
Na prática, o investidor “empresta” dinheiro – que é bem fungível – para a
startup, que após determinado tempo, terá que devolvê-lo. No mútuo
conversível, fica estabelecido entre as partes que ao final do período
estabelecido, no lugar da startup devolver o investimento realizado, este será
convertido em participação no capital social. As demais diretrizes e
parâmetros para que a conversão ocorra devem ser acordadas entre as
partes. Veja mais sobre o tema no capítulo que trata dos investimentos.

[ 93 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Depósito Necessário se faz em desempenho de obrigação legal;


II – o que se efetua por ocasião de alguma
calamidade, como o incêndio, a inundação,
o naufrágio ou o saque.
Art. 653. Opera-se o mandato quando
Mandato alguém recebe de outrem poderes para,
em seu nome, praticar atos ou administrar
interesses. A procuração é o instrumento
do mandato.
Art. 693. O contrato de comissão tem por
Comissão objeto a aquisição ou a venda de bens pelo
comissário, em seu próprio nome, à conta
do comitente.
Art. 710. Pelo contrato de agência, uma
pessoa assume, em caráter não eventual e
sem vínculos de dependência, a obrigação
Agência e de promover, à conta de outra, mediante
retribuição, a realização de certos
distribuição
negócios, em zona determinada,
caracterizando-se a distribuição quando o
agente tiver a sua disposição a coisa a ser
negociada.
Art. 722. Pelo contrato de corretagem,
uma pessoa, não ligada a outra em virtude
Corretagem do mandato, de prestação de serviços ou
por qualquer relação de dependência,
obriga-se a obter para a segunda um ou
mais negócios, conforme as instruções
recebidas.
Art. 730. Pelo contrato de transporte
Transporte alguém se obriga, mediante retribuição, a
transportar, de um lugar para outro,
pessoas ou coisas.
Art. 757. Pelo contrato de seguro, o
segurador se obriga, mediante o
Seguro pagamento do prêmio, a garantir interesse

[ 94 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

legítimo do segurado, relativo a pessoa ou


a coisa, contra riscos predeterminados.
Art. 803. Pode uma pessoa, pelo contrato
Constituição de de constituição de renda, obrigar-se para
renda com outra a uma prestação periódica, a
título gratuito.
Art. 818. Pelo contrato de fiança, uma
Fiança pessoa garante satisfazer ao credor uma
obrigação assumida pelo devedor, caso
este não a cumpra.

Na prática, a atuação cotidiana de uma startup


usualmente se limita aos contratos de prestação de serviços,
locação de bens (ou comodato), termos de uso, política de
privacidade ou contrato de parceria.
Caso não haja instrumento específico que se adeque as
necessidades da empresa, as partes podem utilizar a liberdade
contratual e elaborar um documento para a situação própria72,
desde que sejam respeitadas as disposições genéricas
essenciais para os contratos, previstas na lei.
Verificado qual espécie contratual corresponde ao objeto
ou relação que a startup busca regulamentar, deve-se iniciar a
sua minuta. Em regra, existem elementos que devem ser
utilizados nos contratos em geral, verificando as partes se a
inclusão desses tópicos é adequada para o que se almeja com
a consecução desse instrumento:

72Art. 425 do Código Civil - É lícito às partes estipular contratos atípicos,


observadas as normas gerais fixadas neste Código.

[ 95 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

a) Qualificação das partes: se for pessoa


jurídica, é importante qualificar também o seu
representante no contrato;
b) Objeto do contrato: deve delimitar sobre o
que versa o contrato. Em suma, deve-se
responder a seguinte pergunta: o que esse
instrumento busca regular? (Exemplo: “o presente
Instrumento tem como objeto a contratação dos
serviços de telemarketing...”);
c) Serviços e produtos: elencar e especificar
quais os serviços e produtos fazem parte do objeto
do contrato, assim como quais os termos de sua
prestação ou características. Nesse ponto, o
contrato deve ser extremamente minucioso, sob
pena de gerar conflitos futuros acerca dos serviços
contratados.
d) Direitos e deveres das partes: deve
pormenorizar quais as obrigações que envolvem as
partes, assim como o que uma parte pode exigir
da outra por meio do respectivo contrato.
e) Responsabilidade legal: limitar quais os limites
e responsabilidades jurídicas em face da atuação
das partes no contrato.
f) Proteção intelectual e confidencialidade (caso
não haja utilização de um contrato específico);
g) Remuneração: deve tratar dos valores e
formas de pagamento da contratante pelos
serviços prestados pela contratada. A redação
deve ser realizada de forma clara e objetiva;
h) Duração do contrato: o prazo deverá ser
definido pelas partes, podendo haver previsão de
prorrogação automática caso não haja
manifestação expressa em contrário de uma das
partes;

[ 96 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

i) Rescisão contratual73: define em que


situações as partes podem rescindir o contrato, e
quais as punições para quem realiza o rompimento
das cláusulas contratuais, e;
j) Disposições finais: neste ponto, incluem-se
cláusulas que possam servir para esclarecer
termos da relação contratual. Também se insere o
foro74 para discussão de conflitos contratuais que
possam ocorrer.

Existem outros cuidados na elaboração dos contratos


que devem ser observados pelos empreendedores.
Primeiro, as startups devem ter muita cautela na
elaboração de contratos que se caracterizam como “de

73 Atualmente, muitas empresas contratantes observam em um contrato


principalmente a forma de remuneração e o período de rescisão contratual.
Isso porque as empresas não querem ficar vinculadas aos contratos. Por isso,
é muito usual uma utilizar tal cláusula com a disposição de que afirme que as
partes poderão solicitar a rescisão do contrato, mediante notificação
expressa, com antecedência mínima de x dias. Ao adotar essa disposição, as
partes devem observar as suas consequências em outras partes contratuais,
sob pena de não saírem com prejuízos ocasionados pela rescisão contratual
da outra parte.
74 O novo Código de Processo Civil (Lei n. 13.105/2015), nos seus arts. 1º,

§1º, e art. 42, permitiu que as partes optassem pela realização da


arbitragem, na forma da Lei. A referida Lei é a n. 9.307/1996, que
regulamenta as disposições gerais da arbitragem. Assim, as partes podem
optar – mediante o uso de uma cláusula compromissória, que substituirá a
cláusula de foro – de que abrem mão da discussão do litígio judicialmente,
em troca da resolução do conflito por meio da Câmara Arbitral definida pelas
partes. Essa pode ser uma ótima alternativa para as partes, uma vez que a
mediação e arbitragem possuem diversas vantagens, tais como a
imparcialidade e habilitação técnica do mediador ou árbitro, a transparência
procedimental, o sigilo dos dados, e a agilidade na solução dos conflitos.

[ 97 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

adesão”.75 Esses documentos são muito comuns principalmente


na prestação de serviços online, tendo em vista que os
consumidores apenas aceitam ou não os termos do contrato
(os famosos “termos de uso”). Ou seja, se não aceitar ou
concordar com as disposições, não tem acesso aos serviços.
Tendo em vista que não há discussão entre as partes
sobre o contrato, a lei concede uma maior proteção ao
contratante, no intuito de evitar que esse seja prejudicado por
cláusulas contratuais lesivas escondidas no contrato (também
denominadas de cláusulas leoninas). Essa proteção pode ser
observada nas disposições do Código Civil76, do Código de
Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990)77 e do Marco Civil da
internet (Lei 12.965/2014)78.

75 Contratos de adesão são aqueles elaborados por apenas uma das partes,
em que não há discussão dos termos ou cláusulas contratuais, restando ao
contratante apenas aderir ou não ao que está disposto no documento.
76 Art. 423. Quando houver no contrato de adesão cláusulas ambíguas ou

contraditórias, dever-se-á adotar a interpretação mais favorável ao aderente.


Art. 424. Nos contratos de adesão, são nulas as cláusulas que estipulem a
renúncia antecipada do aderente a direito resultante da natureza do negócio.
77 Art. 18, § 2° - Poderão as partes convencionar a redução ou ampliação do

prazo previsto no parágrafo anterior, não podendo ser inferior a sete nem
superior a cento e oitenta dias. Nos contratos de adesão, a cláusula de prazo
deverá ser convencionada em separado, por meio de manifestação expressa
do consumidor.
Art. 54. Contrato de adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas
pela autoridade competente ou estabelecidas unilateralmente pelo fornecedor
de produtos ou serviços, sem que o consumidor possa discutir ou modificar
substancialmente seu conteúdo.
§ 1° A inserção de cláusula no formulário não desfigura a natureza de adesão
do contrato.
§ 2° Nos contratos de adesão admite-se cláusula resolutória, desde que a
alternativa, cabendo a escolha ao consumidor, ressalvando-se o disposto no §
2° do artigo anterior.

[ 98 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

E atenção! Os documentos denominados “termos de


uso” (termos e condições de serviços) e “política de
privacidade” têm força contratual. Tais documentos possuem a
mesma força dos contratos de adesão, merecendo os mesmos
cuidados dos contratos padrões e tendo o mesmo poder
vinculatório das partes. Vejamos a diferença entre esses dois
instrumentos contratuais (2017, p. 25):

“Nos termos de uso devem-se descrever o


conteúdo e a finalidade do site ou aplicativo,
informando as “regras internas” para sua
utilização. Devem-se incluir a proibição de
postagens ofensivas e imorais e a vedação da
reprodução de informações por pessoas não
detentoras do direito autoral respectivo.

§ 3o Os contratos de adesão escritos serão redigidos em termos claros e com


caracteres ostensivos e legíveis, cujo tamanho da fonte não será inferior ao
corpo doze, de modo a facilitar sua compreensão pelo consumidor.
§ 4° As cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor deverão
ser redigidas com destaque, permitindo sua imediata e fácil compreensão.
78 Art. 7o O acesso à internet é essencial ao exercício da cidadania, e ao

usuário são assegurados os seguintes direitos:


VIII - informações claras e completas sobre coleta, uso, armazenamento,
tratamento e proteção de seus dados pessoais, que somente poderão ser
utilizados para finalidades que: [...]
c) estejam especificadas nos contratos de prestação de serviços ou em
termos de uso de aplicações de internet;
Art. 8o A garantia do direito à privacidade e à liberdade de expressão nas
comunicações é condição para o pleno exercício do direito de acesso à
internet.
Parágrafo único. São nulas de pleno direito as cláusulas contratuais que
violem o disposto no caput, tais como aquelas que: [...]
II - em contrato de adesão, não ofereçam como alternativa ao contratante a
adoção do foro brasileiro para solução de controvérsias decorrentes de
serviços prestados no Brasil.

[ 99 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Já na política de privacidade é preciso informar


como serão utilizadas as informações inseridas por
usuários e se estas vão ser compartilhadas com
outras pessoas ou empresas parceiras; ou ainda se
as informações serão utilizadas para pesquisas que
venham a proporcionar a melhora do desempenho
do site/aplicativo.”79

Outro cuidado a ser observado na elaboração dos


contratos diz respeito às ofertas feitas ao público. Vejamos o
que fala o art. 429 do Código Civil sobre o assunto:

“Art. 429. A oferta ao público equivale a proposta


quando encerra os requisitos essenciais ao
contrato, salvo se o contrário resultar das
circunstâncias ou dos usos.”

De forma simples, o que o artigo determinou foi que


uma oferta, quando realizada indiscriminadamente a uma
coletividade e contendo os elementos contratuais básicos, tais
como valores, prazos, descrições dos serviços e produtos,
quantidade de estoque, entre outros, tem força de proposta
contratual. Assim, caso o consumidor apresente o seu aceite,
ela vinculará as partes envolvidas.
Até o momento, não existe um parâmetro numérico que
possa definir quando o fornecedor será obrigado a fornecer o
produto ou serviço anunciado erroneamente. Porém, utiliza-se
o bom-senso e a boa-fé como norte para a tomada de tais

79 SANTOS, Keila dos; et al. Startups e inovação: direito no


empreendedorismo (entrepreneurship law). Barueri: Manole, 2017. p. 25.

[ 100 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

decisões. Veja o exemplo dois julgamentos com desfechos


diferentes sobre o tema:

“A 14ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de


Minas Gerais (TJMG) confirmou sentença que
negou o pedido de indenização por danos morais
de um mototaxista de São Sebastião do
Paraíso/MG, contra as Lojas Americanas S.A. O
consumidor processou a empresa porque esta
cancelou a venda de TVs anunciadas em seu site a
um preço muito abaixo do mercado, por erro
material.
De acordo com o processo, no dia 29 de outubro
de 2013, o mototaxista comprou três TVs 32 LED
Full HD, Smart TV, no site oficial da empresa, que
informou o preço de R$ 122,12 por aparelho. O
pedido chegou a ser confirmado e o pagamento
realizado. Porém, ao perceber o erro, a loja
cancelou a compra e estornou o valor pago pelo
consumidor, que então ajuizou a ação, pedindo
indenização por danos morais.
O juiz Osvaldo Medeiros Neri, da 1ª Vara Cível da
comarca de São Sebastião do Paraíso, negou o
pedido, por entender que a atitude da empresa
não foi de má-fé. Segundo o juiz, ocorreu um
nítido erro material na oferta do produto, não
havendo prova do contrário.”80

***

80Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Propaganda com erro material não


gera indenização. Jusbrasil. Disponível em: <https://tj-
mg.jusbrasil.com.br/noticias/163536938/propaganda-com-erro-material-nao-
gera-indenizacao>. Acesso em: 22 mar. 2017.

[ 101 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

“Sentença do 2º Juizado Cível do Gama condenou


loja de eletrônicos a honrar anúncio veiculado em
período de liquidação e cumprir as ofertas
apresentadas. A ré recorreu, mas a decisão foi
mantida pela 2ª Turma Recursal do TJDFT.
De acordo com os autos, verifica-se que não existe
controvérsia acerca dos anúncios nos quais a ré
oferece aparelho celular smartphone Sony Xperia e
Smart TV Led 3D LG 47", pelos respectivos valores
de R$ 669,00 e R$ 591,40 à vista, em seu site na
Internet. A ré sustentou flagrante desproporção
entre o valor venal dos produtos e aqueles
anunciados, porém o julgador originário não
acatou tal alegação.
Segundo o Código de Defesa do Consumidor, em
seus arts. 30 e 35, a veiculação de publicidade
relativa à oferta de produto vincula o fornecedor
que a fizer e integra o contrato que vier a ser
celebrado. Nesse diapasão, se o fornecedor de
produtos ou serviços recusar cumprimento à
oferta, o consumidor poderá à sua livre escolha
exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos
termos da oferta, apresentação ou publicidade.”81

Esse detalhe merece ser observado principalmente pelas


startups que atuam com uma coletividade de clientes (como
nos serviços de internet) ou no modelo B2C82, uma vez que as

81Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. Propaganda equivocada


durante Black Friday obriga fornecedor a cumprir o anunciado. Jusbrasil.
Disponível em: <https://tj-
mg.jusbrasil.com.br/noticias/163536938/propaganda-com-erro-material-nao-
gera-indenizacao>. Acesso em: 5 jun. 2017.
82 B2C, Business-to-Consumer ou Business-to-Costumer são as atividades

comerciais realizadas diretamente entre a empresa e seus consumidores.


Contrasta com os serviços B2B (Business-to-business), que são os serviços
prestados de uma empresa para outra.

[ 102 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

propostas e ofertas não são feitas de modo individualizado. Um


erro na elaboração de tais propostas pode custar caro para
quem ofereceu equivocadamente os serviços.
Portanto, fica o conselho de se observar as disposições
que versam sobre estipulações contratuais realizadas em favor
de terceiros, vícios redibitórios83 e extinção dos contratos no
momento de elaboração dos documentos da sua startup.
No direito, há um princípio em latim “pacta sunt
servada”, que em tradução afirma que o contrato faz lei entre
as partes. Sempre que for elaborar um desses instrumentos,
lembre-se da importância dele e das suas consequências para
todos os envolvidos.

CHECKLIST – CONTRATOS EM GERAL

Qualificação das partes


Objeto do contrato
Serviços e/ou produtos envolvidos
Direitos e deveres das partes
Responsabilidade legal
Propriedade intelectual e confidencialidade
Remuneração
Duração do contrato
Rescisão do contrato
Disposições finais

83São os vícios ocultos em bens ou serviços que ao adquirente não era


possível saber no momento de realização do negócio. Em suma, são defeitos
que só podem ser descobertos com o uso do produto ou execução do serviço.

[ 103 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

6. PROPRIEDADE INTELECTUAL E
INDUSTRIAL DA EMPRESA

A proteção dos ativos das startups, principalmente dos


intangíveis, é uma das principais preocupações dos que
empreendem no ramo, principalmente na área de tecnologias.
Entenda por ativos intangíveis aqueles que não existem de
forma corpórea. Costuma-se compará-los ao ar, uma vez que
sabemos que existem, apesar de não podermos tocá-los.
Compõem esse conjunto de ativos a marca, softwares,
reputação, imagem, processos, dentre outros. Por sua vez, os
ativos tangíveis são os palpáveis, ou seja, aqueles que existem
no mundo físico, podendo ser tocados, tais como equipamentos
e estrutura física.
Tal preocupação em resguardar esse patrimônio se deve
principalmente à mudança que vivenciamos, da era industrial,
em que os bens físicos e mecânicos eram considerados os de
maior importância mercadológica, para a era digital (ou da
informação), ocasionada pela denominada revolução
tecnológica. Agora, a produção de conhecimento é a verdadeira
força motriz da economia, principalmente das startups, que
apresentam como carro-chefe a inovação tecnológica.
Nessa nova fase, uma marca ou um software tem um
potencial de ser mais muito mais rentável que um produto
físico. Por isso, cuidar da proteção dos bens de sua startup é
um passo importante no amadurecimento jurídico da sua
empresa.

[ 104 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Quando se trata de proteção à propriedade intelectual e


industrial no Brasil, existem três marcos: A Lei da Propriedade
Industrial (Lei Federal n.º 9.279/1996), que fornece uma
regulamentação geral sobre a proteção da propriedade
industrial; a Lei Federal n.º 9.609/1998, que dispõe sobre a
proteção de propriedade intelectual de programas de
computador; e o Instituto Nacional de Propriedade Industrial
(INPI), que é o órgão que regulamenta, fiscaliza e realiza “o
sistema brasileiro de concessão e garantia de direitos de
propriedade intelectual para a indústria”.
Antes de iniciar no tema, é importante que os
empreendedores saibam que nome empresarial, nome fantasia,
domínio e registro de marca são proteções diferentes. O erro
em achar que possuindo um desses registros protege
totalmente o nome de sua empresa é mais comum do que se
imagina.
Nome empresarial é aquele utilizado pela empresa nos
registros constitutivos para o exercício de suas atividades, com
aplicação regulamentada pelos arts 1.155 a 1.168 do Código
Civil.
A proteção do nome empresarial ocorre no momento
em que há o arquivamento dos atos constitutivos empresariais
(seja firma individual ou sociedade) na Junta Comercial do local
onde a empresa exerce atividade. Note, porém, que como as
Juntas Comerciais possuem a sua competência (limite de
atuação) delimitada ao território dos Estados, a proteção de tal
nome empresarial somente ocorrerá para a unidade federativa
onde ocorreu o registro. Porém, é possível requerer a

[ 105 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

delimitação do registro de forma nacional, como bem explica


Victor Dornaus (2014, documento não paginado):

“[...] é permitida a extensão do uso exclusivo do


nome a todo o território nacional, se registrado na
forma de lei especial. Assim, seguindo-se
disposição do Decreto nº. 1800/1996, “a proteção
ao nome empresarial poderá ser estendida a
outras unidades da federação, a requerimento da
pessoa interessada, observada a instrução
normativa do Departamento Nacional de Registro
do Comércio – DNRC”.
Assim, o nome de empresário deve distinguir-se de
qualquer outro já inscrito no mesmo registro,
devendo o empresário que tiver nome idêntico ao
de outro já existente, acrescentar designação que
o distinga, segundo o Art. 1.163 do mesmo
diploma legal, e Art. 3º, §2º da Lei Nº 6.404/1976
(Lei das S.A.). Nesse sentido, a Lei Nº 8.934/1994,
estabelece em seu Art. 35, inciso V, que não
podem ser arquivados os atos de empresas
mercantis com nome idêntico ou semelhante a
outro já existente.”84

Por sua vez, nome fantasia (ou nome comercial) é a


denominação popular fornecida a uma empresa. É o nome
utilizado por uma entidade empresarial para realização de suas
atividades em geral. Usualmente, é o nome que as empresas
registram como marca perante o INPI, assunto que trataremos
adiante.

84DORNAUS, Vitor Pellegrino da Silva. Conflitos entre marca registrada, nome


empresarial e nome de domínio. Jus. 01 jul. 2014. Disponível em:
<https://jus.com.br/artigos/30404/conflitos-entre-marca-registrada-nome-
empresarial-e-nome-de-dominio>. Acesso em 27 mar. 2017.

[ 106 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Por fim, o nome de domínio é a nomenclatura utilizada


por uma empresa para identificar o seu endereço na internet.
No Brasil, seu registro é controlado pelo Comitê Gestor da
Internet – CGI, entidade responsável por “estabelecer diretrizes
estratégicas relacionadas ao uso e desenvolvimento da internet
no Brasil”, por intermédio do Registro.br.

“O domínio está diretamente relacionado com o


endereço IP (número de identificação) de um
computador, ou seja, quando se está procurando
por um nome de domínio, ou página na internet,
na verdade está sendo buscado um endereço de
computador. Assim, domínio nada mais é do que
um nome que facilita a memorização e a
localização de sites na rede, não sendo, pois,
necessário ter de guardar na mente o número
IP.”85

Para o registro de um domínio, que pode custar de R$


40,00 (um ano) a R$ 364,00 (dez anos), é necessário observar
algumas regras listadas no site, tais como possuir CPF ou CNPJ
com cadastro regular perante o Ministério da Fazenda, o
endereço não conter somente números, tamanho mínimo de 2
e máximo de 26 caracteres, dentre outros.
Portanto, lembre-se que nome empresarial, domínio e
registro de marca são proteções de propriedade intelectual e
industrial independentes. A realização de uma delas não irá
garantir a proteção das demais. É necessário, portanto, que o
empresário atente a todos esses procedimentos de registro.

85 SANTOS, Keila dos; et al. Startups e inovação: direito no


empreendedorismo (entrepreneurship law). Barueri: Manole, 2017. p. 28.

[ 107 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Sempre que trato do tema de propriedade industrial,


uma pergunta é bastante comum, principalmente por aqueles
que ainda estão idealizando um negócio: É possível patentear
uma ideia?
No Brasil, não é possível patentear uma ideia, por
previsão expressa do art. 10, II, da Lei de Propriedade
Industrial, que determina não ser possível considerar como
invenção ou modelo de utilidade “concepções puramente
abstratas”. Um grande medo de quem está ingressando nesse
cenário é de que, durante a apresentação de um pitch86 ou em
uma discussão com possíveis novos sócios, alguém “roube” a
sua ideia.
Para quem acha que a sua ideia é muito valiosa, e quer
protegê-la a qualquer custo, é possível realizar a patente em
outros países que permitam essa modalidade de proteção,
como nos Estados Unidos. Apesar de uma patente realizada nos
Estados Unidos não ser automaticamente válida no Brasil, e
vice-versa87, realizar essa proteção pode significar uma
segurança momentânea para o empreendedor, além de ter

86 Apresentações breves, que podem durar de 30 segundos (chamados de


pitchs de elevador) a 5 minutos, que tem como objetivo apresentar uma
ideia, projeto ou startup, com o intuito de atrair a atenção e o interesse de
mentores, investidores, entre outros.
87 O Brasil e os Estados Unidos já caminham para a realização de um projeto

de cooperação para o exame de patentes, denominado de Patent Prosecution


Highway. Em suma, esse procedimento servirá para acelerar o processo de
aprovação de uma patente em um dos países signatários do acordo, quando
ela já foi realizada no outro. Atualmente, o projeto se encontra em fase de
testes, sendo aplicado apenas para pedidos que envolvam a indústria do
petróleo e gás. Vide <http://www.inpi.gov.br/menu-servicos/patente/projeto-
piloto-pph>.

[ 108 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

determinadas vantagens quando comparados ao procedimento


de registro no Brasil.
Por exemplo, de início, nos Estados Unidos é possível
patentear a descrição de uma invenção, sem a necessidade de
um protótipo construído.
Segundo, a realização da patente nos EUA é bem mais
ágil e simples que em nosso país. Na terra do Vale do Silício, o
órgão responsável por tal procedimento é o United States
Patent and Trademark Office (USTOP)88. Para se ter uma ideia
da diferença temporal, enquanto nos EUA estima-se que a
obtenção da patente leve em torno de 2 a 3 anos, aqui a média
é de quase 11 anos.89 Além disso, nos EUA o procedimento
pode ser realizado todo via internet. Essa burocracia é, com
certeza, uma das principais pedras na regulamentação do
desenvolvimento tecnológico do Brasil.
Essa morosidade reflete gravemente na concessão de
patentes realizadas em nosso país. Veja o gráfico abaixo.
Enquanto, entre os anos de 2009 e 2013 os EUA concederam
aproximadamente 228 mil patentes, no Brasil só foram
concedidas 189.

88 Para mais informações, acesse: <http://www.uspto.gov/>. Além disso, a


USPTO disponibiliza em seu site um organograma que auxilia bastante na
realização do procedimento, que pode ser acessado na seguinte página:
<http://www.uspto.gov/patents-getting-started/patent-basics/types-patent-
applications/utility-patent/process-obtaining>.
89 ALVES, Murilo Rodrigues. País demora 11 anos para aprovar patentes. O

Estado de São Paulo. São Paulo. 24 maio 2015. Disponível em:


<http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,pais-demora-11-anos-para-
aprovar-patentes,1693427>. Acesso em: 14 jun. 2016.

[ 109 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Imagem 09
Comparativo entre o número de patentes mundiais. 90

Por fim, existe o grande atrativo americano da patente


provisória (provisional patent), uma modalidade de proteção
interina que tem uma duração de doze meses, mas que pode

90 Disponível em: <http://revistapesquisa.fapesp.br/2015/04/10/patentes-de-


invencao-concedidas-nos-estados-unidos/>. Acesso em: 25 jul. 2016

[ 110 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

ser obtida rapidamente e a um custo muito baixo, permitindo


que o seu proprietário realize os testes de viabilidade (ou MVP,
na linguagem das startups) do seu produto, antes de realizar os
procedimentos de registro definitivo. Assim, cabe ao
empreendedor decidir se vale a pena requerer a proteção da
sua ideia em outros países ou não.
Porém, como esta obra é dedicada àqueles que
desenvolvem suas atividades no Brasil, é essencial analisar as
modalidades de proteção a propriedade intelectual e industrial
previstas em nossa legislação.

6.1. Tipos de proteção a propriedade


intelectual e industrial

Segundo a legislação, a propriedade intelectual e


industrial pode se subdividir em várias espécies, que são:

6.1.1. MARCA

É uma representação simbólica da entidade empresarial,


realizada mediante sinais gráficos e distintivos. A marca do
produto ou serviços não pode ser confundida com o nome
empresarial, conforme já exposto. Por exemplo, a Skol, a
Brahma e a Antártica são marcas de produtos da empresa que
possui o nome de “Companhia de Bebidas das Américas S.A. -
AMBEV”.

[ 111 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

O artigo 124 da Lei de Propriedade Industrial elenca 23


situações que não podem ser registrados como marca, tais
como brasões, cores, letras e nomes civis. Vale a pena
consultar a lei para verificar se a marca que pretende registrar
não se enquadra em nenhuma das vedações.
A referida lei ainda classifica as marcas de acordo com o
seu uso (de produto ou serviço, de certificação ou coletiva) e
suas características (nominativa, figurativa, mista e
tridimensional).

Quadro 03
Diferença entre os tipos de marcas

Marca Espécie

Nominativa

Figurativa

[ 112 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Mista

Tridimensional

No Brasil, o registro de marca tem validade de 10 anos,


período este que pode ser prorrogado mediante requerimento
do seu titular.
Por ser a o símbolo de identificação de uma empresa, a
marca deve ser protegida. Mesmo desprendida do produto, a
marca tem uma força e um valor irreparáveis para as
empresas.
Um caso que demonstra a importância do registro de
uma marca é a disputa judicial entre as empresas Apple e

[ 113 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Gradiente pelo uso da marca “iphone” no Brasil.91 O mais


interessante no caso é que, diferentemente do que se possa
imaginar, a Gradiente requereu o registro da marca “iphone” ao
INPI sete anos antes da Apple lançar o seu aparelho telefônico
com o mesmo nome.
Atente que o registro de marca não é tão simples
quanto parece. Isso porque dentre as vedações ao registro de
marca estão a utilização de “sinal de caráter genérico,
necessário, comum, vulgar ou simplesmente descritivo” e a
“reprodução ou imitação, no todo ou em parte, ainda que com
acréscimo, de marca alheia registrada, para distinguir ou
certificar produto ou serviço idêntico, semelhante ou afim,
suscetível de causar confusão ou associação com marca
alheia”.
Imagine que temos milhares de pedidos de registro em
andamento, para um limitado número de atividades. Ou seja,
muitas vezes, é difícil encontrar disponível no INPI a marca
pensada pelo empreendedor na idealização do seu negócio.
E havendo nomes parecidos com a marca que foi
idealizada, como saber se vale a pena solicitar o registro ou
mudar definitivamente a marca?
O INPI e o Poder Judiciário92 utilizam princípios
específicos para a análise dos pedidos de registro de marca,

91 Para quem possuir interesse em acompanhar o caso, o processo possui o n.


0490011-84.2013.4.02.5101, originário da 25ª Vara Federal da Justiça
Federal do Rio de Janeiro.
92 Veja que a esfera administrativa responsável por tais registros é o INPI. O

Judiciário somente interfere quando acionado por uma das partes que se
sinta prejudicada por alguma ação do INPI ou de empresas no uso de
marcas.

[ 114 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

que são a territorialidade, especificidade ou especialidade,


veracidade e anterioridade. Vejamos cada um deles.
Por princípio da territorialidade, entenda que o art. 129
da Lei de Propriedade Industrial garante a utilização exclusiva
em território nacional aquele que possui o registro da marca.
Apesar da lei assegurar expressamente a titularidade da marca
em todo o território nacional, os órgãos de registro e os
Tribunais vem mitigando a legislação, entendendo que sendo
os serviços/produtos diferentes, é possível o registro da marca.
Por exemplo, é possível encontrar o registro do vocábulo
“Continental” para eletrodomésticos e cigarros, por exemplo.
Tal entendimento nada mais é do que uma decorrência
do princípio da especialidade. Este define que a proteção
jurídica a uma marca somente será concedida naquela
modalidade específica de produto ou serviço ao qual o pedido
de marca foi solicitado. Essa separação é realizada com base na
Classificação Internacional de Produtos ou Serviços – NICE,
uma listagem com 45 classes diferentes de produtos ou
serviços, na qual o empreendedor irá enquadrar o seu pedido
de registro.
Há casos em que marcas iguais em serviços diferentes
pode não ser viável? Sim! Se as marcas puderem causar
confusão ao consumidor, há grande probabilidade do pedido de
registro ser inviabilizado. Por isso, cuidado no registro de
marcas como logomarcas, pois se semelhantes, podem ser um
indício de possibilidade de confusão ao consumidor. Veja o caso
decidido pelo STJ entre as marcas “Companhia Athletica” e
“Athletica Companhia de Ginástica”:

[ 115 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

“É inviável a coexistência entre duas marcas que


são fonética e graficamente semelhantes, pois isso
gera a possibilidade de serem confundidas pelos
consumidores. O entendimento é da 3ª Turma do
Superior Tribunal de Justiça, que deu provimento a
recurso da Companhia Athletica para declarar a
nulidade do registro de uma academia do Rio
Grande do Sul, a Athletica Companhia de
Ginástica, no Instituto Nacional da Propriedade
Industrial (Inpi), proibindo-a de utilizar a marca.
Segundo a ministra Nancy Andrigh, relatora do
caso, as duas marcas “são consideravelmente
semelhantes, foneticamente e graficamente”,
sendo que a simples abreviação e inversão da
ordem dos elementos que compõem a marca não
são suficientes para conferir a distinção e novidade
necessárias para que uma marca seja registrável.
O caso envolve, conforme destacou a ministra,
“não só a possibilidade de confusão e/ou
associação entre as marcas, mas também o intuito
de se coibir a concorrência desleal, desvio de
clientela alheia e proveito econômico parasitário”.
Nancy lembrou que havendo conflitos entre
marcas, “prevalecerá aquela que possuir a
anterioridade de registro”. [...]”93

Ademais, o art. 12594 da LPI prevê que as marcas de


alto renome não se submetem ao princípio da especialidade.
Ou seja, a marca for registrada nessa classificação, o seu

93 Por risco de confusão para consumidor, STJ determina que academia mude
de marca. Revista Consultor Jurídico. 21 set. 2016. Disponível em:
<http://www.conjur.com.br/2016-set-21/risco-confusao-consumidor-stj-
determina-mudanca-marca>. Acesso em 08 abr. 2017.
94 “Art. 125. À marca registrada no Brasil considerada de alto renome será

assegurada proteção especial, em todos os ramos de atividade.”

[ 116 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

registro protege o seu uso em todos os demais ramos de


atividade.
O princípio da veracidade afirma que o empreendedor,
no registro de sua marca, deverá registrá-la nas
atividades/serviços que sua marca fielmente produz ou
executa. Isso evita que marcas registrem de forma aleatória
inúmeros serviços que não executam, inviabilizando o seu uso
por outras empresas.
Veja que esse princípio não veda que a empresa realize
o registro de marcas semelhantes ou com variações da sua,
como forma de proteção de mercado ou de captação de ativos
de marca.
Por fim, o princípio da anterioridade define que tem
prioridade ao deferimento do registro de marca àquele que
primeiro deu entrada em seu pedido no INPI, momento
configurado no ato de geração do número do processo.
Não confunda princípio da anterioridade com direito de
precedência: este último garante que empresas que utilizam a
marca antes do deferimento do pedido por terceiros possam
pedir a anulação judicial ou administrativa do pedido de
registro concedido pelo INPI. Note que, para viabilizar essa
atuação, a empresa necessita ter fortes provas de sua
utilização anterior da marca.

6.1.1.1. Trade dress

Um conceito de proteção de marca que merece


destaque é o trade dress. Definição juridicamente recente, essa
proteção visa resguardar a imagem geral da marca, sua

[ 117 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

roupagem externa e apresentação visual que cada empresa


detém. Nesses casos, o praticante de “imitação” não copia
exatamente algo, mas realiza uma reprodução disfarçada do
produto ou empresa em geral, buscando se assemelhar a
imitada, causando confusão ao consumidor. Veja o caso abaixo:

Imagem 10
Exemplo de Trade Dress do posto BR, realizado pela empresa 13R.95

Percebeu alguma diferença? Esse caso, ocorrido no


Brasil, é um legítimo exemplo de trade dress. O proprietário do
posto plagiador (imagem à direita) utilizava na fachada da sua
rede as mesmas cores dos postos BR, da Petrobrás, além de
utilizar como nome fantasia ‘13R’, que, da forma como era

95Disponível em: <https://direitoelegal.com/2009/05/20/me-engana-que-eu-


posto/>. Acesso em: 12 jul. 2016

[ 118 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

disposto, se tornava quase idêntico ao ‘BR’ da Petrobrás. Assim,


os consumidores que transitavam na região eram ludibriados,
abastecendo no posto ‘13R’ acreditando estarem utilizado os
serviços da rede ‘BR’, causando prejuízos a este.
Não pense que esses casos são raros no Brasil. As
disputas judiciais entre a Mr. Cat e a Mr. Foot, e entre o
Spoleto e o Gepeto são apenas outros exemplos de como essa
prática pode ser comum.
Então, muito cuidado na hora de copiar uma startup ou
empresa que esteja a todo vapor, acreditando que seguir esse
modelo será o sucesso da sua empresa, pois se a cópia
caracterizar trade dress, além das indenizações por danos
morais, materiais e lucros cessantes, o praticante pode ser
condenado pela prática do crime de concorrência desleal96, por
empregar “meio fraudulento, para desviar, em proveito próprio
ou alheio, clientela de outrem” (art. 195, III, da LPI) ou pelo
crime de estelionato, previsto no Código Penal.97

96 Art. 195. Comete crime de concorrência desleal quem: [...]


III - emprega meio fraudulento, para desviar, em proveito próprio ou alheio,
clientela de outrem;
IV - usa expressão ou sinal de propaganda alheios, ou os imita, de modo a
criar confusão entre os produtos ou estabelecimentos;
V - usa, indevidamente, nome comercial, título de estabelecimento ou insígnia
alheios ou vende, expõe ou oferece à venda ou tem em estoque produto com
essas referências;
VI - substitui, pelo seu próprio nome ou razão social, em produto de outrem,
o nome ou razão social deste, sem o seu consentimento;
97 Art. 171 - Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo

alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou


qualquer outro meio fraudulento: Pena - reclusão, de um a cinco anos, e
multa, de quinhentos mil réis a dez contos de réis.

[ 119 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Muito mais que uma identidade da empresa, a proteção


da marca também é importante como forma de monetizar os
produtos e inibir o uso indevido dos seus registros, facilitando a
caracterização dos crimes supracitados e a obtenção de
indenização pelo seu uso por outrem.

6.1.2. PATENTES

Segundo dispõe o art. 6º da Lei de Propriedade


Industrial, a patente é a proteção jurídica concedida àquele que
realiza uma invenção ou um modelo de utilidade.
Por invenção, entenda uma descoberta ou criação de
algum objeto, processo ou tecnologia até então inexistente. Por
isso que a própria lei considera como requisitos para a patente
de uma invenção que ela tenha “novidade, atividade inventiva e
aplicação industrial” (art. 8). Por sua vez, modelo de utilidade
pode ser conceituado como a invenção que apresenta relação
com algo preexistente. Ou seja, uma inovação que se relaciona
com algo já presente no mercado.
É muito importante que antes de requisitar a patente, o
seu idealizador verifique se a sua criação não se encaixa nas
limitações legais para sua realização, previstas nos artigos 1098
e 1899 da Lei de Propriedade Industrial.

98 Art. 10. Não se considera invenção nem modelo de utilidade: I -


descobertas, teorias científicas e métodos matemáticos; II - concepções
puramente abstratas; III - esquemas, planos, princípios ou métodos
comerciais, contábeis, financeiros, educativos, publicitários, de sorteio e de
fiscalização; IV - as obras literárias, arquitetônicas, artísticas e científicas ou
qualquer criação estética; V - programas de computador em si; VI -
apresentação de informações; VII - regras de jogo; VIII - técnicas e métodos
operatórios ou cirúrgicos, bem como métodos terapêuticos ou de diagnóstico,

[ 120 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Outra informação importante é que o prazo de vigência


da patente é de 20 anos, e o do modelo de utilidade é de 15
anos, ambos contados da data do seu depósito.
O INPI oferece prioridade no exame da patente nos
seguintes casos: inventor maior de 60 anos, portador de
deficiência ou doença grave; quando o objeto do pedido de
patente está sendo utilizado indevidamente por terceiros;
quando a patente do objeto é de emergência ou interesse
nacional100; nos casos em que o objeto é considerado
importante para a área ambiental ou da saúde; tem relação
com o projeto Patent Prosecution Highway; o depositante é
microempresa ou empresa de pequeno porte; além de estar

para aplicação no corpo humano ou animal; e IX - o todo ou parte de seres


vivos naturais e materiais biológicos encontrados na natureza, ou ainda que
dela isolados, inclusive o genoma ou germoplasma de qualquer ser vivo
natural e os processos biológicos naturais.
99 Art. 18. Não são patenteáveis: I - o que for contrário à moral, aos bons

costumes e à segurança, à ordem e à saúde públicas; II - as substâncias,


matérias, misturas, elementos ou produtos de qualquer espécie, bem como a
modificação de suas propriedades físico-químicas e os respectivos processos
de obtenção ou modificação, quando resultantes de transformação do núcleo
atômico; e III - o todo ou parte dos seres vivos, exceto os microorganismos
transgênicos que atendam aos três requisitos de patenteabilidade - novidade,
atividade inventiva e aplicação industrial - previstos no art. 8º e que não
sejam mera descoberta.
100 Segundo o site do INPI, tem prioridade, nesses casos, os objetos cuja

“cuja concessão da patente seja condição para obter recursos financeiros de


agências de fomento ou instituições de créditos oficiais nacionais, na forma
de subvenção econômica, financiamento ou participação societária, ou
originários de fundos mútuos de investimento, para a exploração do
respectivo produto ou processo.”. Esse é um ponto a ser muito observado
pelas startups, principalmente para aquelas que possuem relação com o
poder público. Para mais informações, acesse o site:
<http://www.inpi.gov.br/menu-servicos/patente/acelere-seu-exame>.

[ 121 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

relacionado ao Projeto Piloto Prioridades BR (este encontra-se


atualmente com os limite de pedidos possíveis atingido).
Note que não são apenas as invenções extremamente
inovadoras ou radicais que podem ser patenteadas. Por
exemplo, inovações em objetos simples também podem ser
patenteadas como modelo de utilidade, tais como um cortador
de legumes que tenha um modo de funcionamento diferenciado
ou até mesmo um prendedor de papel com formato de
funcionamento diferente.

6.1.3. DIREITO AUTORAL

O direito autoral é uma das modalidades de proteção de


ativos intangíveis regulamentado por norma própria, através da
Lei da Propriedade Intelectual (Lei Federal n.º 9.610/1998).
Ademais da sua proteção específica, a própria Constituição
Federal também assegura como direito fundamental a proteção
às criações autorais.101

101 Art. 5º Todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes: [...]
XXVII - aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou
reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei
fixar;
XXVIII - são assegurados nos termos da lei:
a) a proteção às participações individuais em obras coletivas e à reprodução
de imagens e voz humanas, inclusive nas atividades desportivas;
b) o direito de fiscalização do aproveitamento econômico das obras que
criarem ou de que participarem aos criadores, aos intérpretes, e às
respectivas representações sindicais e associativas.

[ 122 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Na área das startups, essa modalidade de proteção não


é muito utilizada por estar bastante relacionada a produções
intelectuais de cunho artístico, musical e cultural.
Apesar dos programas de computadores estarem
previstos como obras intelectuais protegidas no art. 7, XII, da
referida lei, o parágrafo primeiro desta prevê que estes serão
objetos de legislação específica, no caso, a Lei Federal n.
9.609/1998, abordada no tópico seguinte.
Dois pontos importantes merecem ser ressaltados. O
primeiro é que dependendo da modalidade de obra ou criação,
o órgão de registro não será o INPI, mas sim a biblioteca
Nacional (em regra, livros e publicações literárias) ou a Escola
de Música da UFRJ (músicas e composições instrumentais, et
al). Cada uma delas possui o seu procedimento padrão
diferente para a realização da proteção, que pode ser
consultado em suas páginas online.
O segundo ponto é que a utilização indevida de direito
autoral também é crime no Brasil. O art. 184 do Código Penal
prevê como crime o ato de “violar direito autoral”, sendo o seu
infrator punido com pena de três meses a um ano, ou multa.102

102 Art.184. Violar direito autoral:


Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa.
§ 1º Se a violação consistir na reprodução, por qualquer meio, de obra
intelectual, no todo ou em parte, para fins de comércio, sem autorização
expressa do autor ou de quem o represente, ou consistir na reprodução de
fonograma e videofonograma, sem autorização do produto ou de quem o
represente:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
§ 2º Na mesma pena do parágrafo anterior incorre quem vende, expõe à
venda, introduz no país, adquire, oculta ou tem em depósito, para o fim de
venda, original ou cópia de obra intelectual, fonograma ou videofonograma,
produzidos com violação de direito autoral.

[ 123 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

6.1.4. REGISTRO DE SOFTWARE

Os programas de computadores (ou softwares), apesar


de estarem listados como obras intelectuais protegidas pela Lei
Federal n. 9.610/1990, têm a sua regulamentação realizada na
Lei Federal n. 9.609/1998, também denominada de Lei de
Registro de Softwares. De acordo com esta norma, programa
de computador é definido como:

“Art. 1º - (...) a expressão de um conjunto


organizado de instruções em linguagem natural ou
codificada, contida em suporte físico de qualquer
natureza, de emprego necessário em máquinas
automáticas de tratamento da informação,
dispositivos, instrumentos ou equipamentos
periféricos, baseados em técnica digital ou
análoga, para fazê-los funcionar de modo e para
fins determinados.”

Realizado o programa, o órgão responsável pelo seu


registro é o INPI. Esta modalidade de proteção intelectual é
uma das que possui o maior prazo de vigência, uma vez que a
sua duração é de 50 anos, contados a partir do ano seguinte ao
da publicação, e, na ausência deste, da criação do programa.
Nesses casos, além do sigilo assegurado entre a parte
que idealizou o programa e o INPI, o registro é feito com base
no código-fonte103 do programa, o que garante uma maior
segurança ao seu idealizador.

Código fonte (ou source code) são um conjunto de orientações (feitas


103

mediante símbolos, palavras ou números) realizadas em uma linguagem de

[ 124 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Outro grande diferencial dessa modalidade de registro é


que eles possuem a abrangência internacional, diferente dos
registros de patentes. Assim, registros feitos no Brasil são
válidos para o exterior, e vice-versa. Observe que, caso haja a
cessão de direitos de uso de um programa entre partes de
países diferentes, é aconselhável que se realizem – por garantia
– o registro também no país onde o programa será utilizado.

6.1.5. DESENHO INDUSTRIAL

O desenho industrial é uma das modalidades de direito


industrial que podem ser legalmente protegidos (art. 2º, II, da
LPI). Segundo o art. 95 desta lei, considera-se desenho
industrial:

“(...) a forma plástica ornamental de um objeto ou


o conjunto ornamental de linhas e cores que possa
ser aplicado a um produto, proporcionando
resultado visual novo e original na sua
configuração externa e que possa servir de tipo de
fabricação industrial.”

Em síntese, o desenho industrial nada mais é do que o


design de um produto, uma forma inovadora concedida a este
que preencha os requisitos de ser novo (não compreendido no
“estado da técnica”104), original e tenha utilidade industrial.

programação, de maneira lógica, permitindo que o programa idealizado


funcione nos termos escritos pelo seu programador.
104 “Art. 96, § 1º - O estado da técnica é constituído por tudo aquilo tornado

acessível ao público antes da data de depósito do pedido, no Brasil ou no


exterior, por uso ou qualquer outro meio, ressalvado o disposto no § 3º deste
artigo e no art. 99.”

[ 125 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Apesar da exigência legal da “configuração visual


distintiva” para que o desenho industrial tenha registro, sua
idealização pode ser feita mediante a utilização de elementos
conhecidos. Note ainda que obras que tenham o caráter apenas
artístico não podem ser consideradas desenhos industriais;
assim como não são registráveis os desenhos que contenham a
forma necessária ou comum do objeto (por exemplo,
parafusos, molas, canudos, entre outros).
Observe que esse tipo de registro possui algumas
facilidades, como a prioridade procedimental perante o INPI, e
a seu maior desembaraço burocrático para proteção no
exterior.

6.1.6. INDICAÇÃO GEOGRÁFICA

Apenas à título informativo, uma vez que seu uso é de


difícil aplicabilidade para as startups, a patente de uma
indicação geográfica busca proteger a indicação de procedência
ou denominação de origem de determinado produto. Dispõe a
LPI sobre o tema:

“Art. 177. Considera-se indicação de procedência o


nome geográfico de país, cidade, região ou
localidade de seu território, que se tenha tornado
conhecido como centro de extração, produção ou
fabricação de determinado produto ou de
prestação de determinado serviço.”

Veja que pode se tornar uma excelente oportunidade de


negócios a produção de produtos com indicação geográfica,
uma vez que essa proteção fornece uma grande valorização

[ 126 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

nestes bens, diante da sua exclusividade. A indicação


geográfica funciona como um “selo de qualidade” do produto.
Um ótimo exemplo é o reconhecimento do Brasil do
registro de denominação de origem para os espumantes
produzidos na província de Champagne, localizada no norte da
França. Assim, a partir dessa proteção, somente poderão usar
tal nomenclatura os espumantes que tiverem sidos produzidos
na região.
No Brasil, o cadastro das indicações geográficas
brasileiras pode ser encontrado no site do INPI. Por exemplo,
temos em nosso país a indicação geográfica das cachaças e
aguardentes de Paraty (RJ) e dos camarões da região da Costa
Negra, no litoral do Ceará.

6.2. Procedimento para proteção dos ativos

Cada um dos pedidos de registro e depósito


supracitados nos tópicos anteriores possuem regulamentação
própria, com prazos, documentos e limitações específicas.
Assim, identificada qual a modalidade de requerimento que se
adequa a sua necessidade, o interessado deverá procurar o
procedimento especial para o seu caso.
O site do INPI possui uma navegação fácil e muitos
manuais que facilitam o trabalho de quem pretende obter a
proteção adequada para sua criação. Ocorre que mesmo com
essas facilidades, a quantidade de informações e documentos

[ 127 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

envolvidos é enorme, o que pode dificultar a requisição. Em


regra, o procedimento padrão do INPI segue o encadeamento a
seguir exposto.
Primeiro, o interessado deverá procurar nos cadastros
da entidade se a solicitação a ser requerida já não foi
concedida a terceiros. A busca pode ser realizada de duas
formas: de modo simples, sem o cadastro no site (sistema pePI
ou Buscaweb105), o que permite pesquisa com menos campos
para classificação; ou mediante cadastro prévio nos sistemas,
ampliando os campos de busca, o que permite uma pesquisa
mais exata sobre o assunto.
Assim, é aconselhável que o cadastro seja realizado,
para que a busca possa ser realizada de forma mais completa e
seja possível a verificação de alguns documentos, como das
patentes já registradas ou requeridas, o que facilita a
verificação de que aquela patente é realmente igual a que se
procura obter, por exemplo. No caso das patentes em
específico, há um guia prático que pode ser consultado no site
do INPI.106
Veja que apesar dessa etapa não ser obrigatória, a sua
realização pode gerar uma enorme economia de tempo e
dinheiro para o solicitante, uma vez que pode evitar a abertura
de um processo cuja proteção já tenha sido realizada por
terceiros, tornando a chance de êxito mínima.

105 Pesquisa em Propriedade Industrial. INPI. Disponível em:


<https://gru.inpi.gov.br/pePI/jsp/marcas/Pesquisa_num_processo.jsp>.
Acesso em: 03 ago. 2016.
106 Guia prático para a busca de patentes. INPI. Disponível em:

<http://www.inpi.gov.br/menu-servicos/informacao/guia-pratico-para-buscas-
de-patentes>. Acesso em: 02 ago. 2016.

[ 128 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

E atenção: a busca não é um procedimento tão simples


quanto aparenta. O preenchimento de um campo de
determinada forma pode alterar bastante o resultado obtido.
Por exemplo, na pesquisa de marcas, a pesquisa “exata”
apresenta bem menos resultados que a pesquisa por “radical”.
Essa simples falha na pesquisa pode prejudicar bastante a
decisão de realizar ou não o pedido de registro daquela marca.
A segunda etapa é o pagamento da taxa para o pedido.
O pagamento é realizado mediante o Guia de Recolhimento da
União (GRU), e para cada pedido em específico há uma taxa
diferente. Para o pedido de registro de marca por meio
eletrônico, as taxas variam entre R$ 142,00 e R$ 415,00,
dependendo se a especificação do pedido foi pré-aprovado ou
de livre preenchimento ou se o requerente tem direito à
concessão de descontos, quando preenchidos certos requisitos
apresentados em Resolução da entidade.

“Redução de até 60% no valor de retribuição a ser


obtida por: pessoas naturais (somente se estas
não detiverem participação societária em empresa
do ramo a que pertence o item a ser registrado);
microempresas, microempreendedor individual e
empresas de pequeno porte, assim definidas na
Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de
2006; cooperativas, assim definidas na Lei nº
5.764, de 16 de dezembro de 1971; instituições de
ensino e pesquisa; entidades sem fins lucrativos,
bem como órgãos públicos, quando se referirem a
atos próprios, conforme estipulado nessa
resolução.”

[ 129 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

A tabela com os valores pode ser consultada na aba


“pague a taxa”, do site do INPI107.
Após o pagamento da GRU, o pedido deve ser realizado,
mediante o preenchimento do cadastro do pedido e o envio dos
documentos necessários. Nessa fase, é muito importante a
verificação de quais as peculiaridades de cada solicitação,
consultando os guias básicos de cada modalidade
disponibilizados no site.108 Observe ainda que os requerimentos
podem ser realizados online, diretamente na sede do INPI no
Rio de Janeiro, em um dos seus postos estaduais ou até
mesmo via correios.109
O órgão concede maiores facilidades a quem realiza o
procedimento via internet, pois a facilidade de preenchimento
de formulários e acompanhamento de processos online gera
um custo mais baixo das tarifas.
Feita a solicitação, o usuário deverá acompanhar as
próximas etapas, até a obtenção da sua patente/registro. As
publicações podem ser verificadas pelo sistema online do INPI,
ou mediante consulta realizada à Revista de Propriedade
Intelectual do órgão110. Tal fato é importante pois pode o INPI
solicitar algum documento ou informação não apresentada, ou
que terceiros interponham oposição ao seu pedido. Se o autor

107 Pague a taxa. INPI. Disponível em: <http://www.inpi.gov.br/pedidos-em-


etapas/pague-taxa>. Acesso em: 01 ago. 2016.
108 Inicie o pedido. INPI. Disponível em: <http://www.inpi.gov.br/pedidos-

em-etapas/inicie-pedido>. Acesso em: 01 ago. 2016.


109 A documentação e os formulários devem ser enviados para a Rua Mayrink

Veiga, 09, 21º andar - Centro do Rio de Janeiro - CEP 20090-910, respeitando
todas as especificações listadas no site.
110 Revista de Propriedade Intelectual do INPI. Disponível em:
<revistas.inpi.gov.br >.

[ 130 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

do pedido não se manifestar sobre tais fatos, este tem grandes


chances de ser indeferido.
Atente que a Resolução n.º 141/2014 permite que todos
os cidadãos realizem o peticionamento ao INPI, o que não
exige nenhuma habilitação legal (os denominados “agentes da
propriedade industrial”) para tanto. Porém, a consulta a um
profissional especializado é muito importante, uma vez que o
procedimento de busca e a solicitação, se realizados de forma
equivocada, podem inviabilizar o seu pedido.
Após a solicitação, cada tipo de pedido tem um
procedimento próprio. Por exemplo, a patente de invenção ou
modelo de utilidade, depois de feito o requerimento, fica
depositada em sigilo por um ano e meio (art. 30 da LPI), prazo
que pode ser diminuído mediante o pagamento de uma taxa.
Após esse período, o pedido de patente é tornado
público, devendo o solicitante requerer o seu exame de
viabilidade de proteção. Em regra, esse é o período que mais
demora, uma vez que depende da complexidade do projeto, e
pode ser necessário o envio de mais documentos ao INPI.
Nesta etapa, o requerente já está recolhendo a anuidade ao
órgão.
Se atendidos os requisitos, o requerente é notificado da
concessão da sua carta-patente, que somente será liberada
mediante o pagamento de taxa.
Atenção! Após a realização de procedimentos no INPI, é
muito comum que o solicitante passe a receber contatos
diversos, seja de empresas oferecendo serviços, ou de
estelionatários, que remetem boletos informando que caso o
documento não seja pago, seu pedido não será deferido. Muito

[ 131 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

cuidado, pois o INPI nunca envia boletos para emails. E evite


contratar serviços oferecidos por empresas ou pessoas que não
tenha referência.
É importante que os empreendedores, além de
utilizarem a proteção da propriedade intelectual como forma de
preservar a sua marca e as criações da sua empresa, vejam
esse mecanismo como uma forma de agregar valor a startup.
Foi exatamente isso que a Gradiente fez ao requerer a patente
do “Iphone”, caso anteriormente citado.
Uma marca consolidada, que tenha incorporada ao seu
nome ótimas qualidades empresariais, pode valer muito
financeiramente. Já imaginou o valuation apenas a marca
“Nike” e o seu símbolo característico? Caso uma grande
empresa, por qualquer motivo, decida encerrar suas atividades,
uma marca for mercadologicamente consolidada e bem aceita
pode ser um grande ativo financeiro.
Assim, as empresas devem conter uma carteira de
propriedade intelectual e industrial elaborada de forma técnica
e estratégica. Isso porque um produto bom, com uma marca
ruim, pode reduzir bastante o valor de mercado daquele bem.
Por isso é necessário que as startups pensem em seu portfólio
de propriedades imaginando o futuro de atuação da empresa,
se antecipando na proteção jurídica daquelas marcas que
possam vir a ser usadas no futuro.

[ 132 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

7. A ESTRUTURA TRABALHISTA
EMPRESARIAL

É comum muitos empreendedores afirmarem que


preferiam ter sócios a empregados. Isso porque um dos medos
que mais afligem os sócios das startups que já demandam um
quadro de pessoal mais elaborado são os problemas
trabalhistas que podem surgir. A eficácia da justiça trabalhista,
as indenizações elevadas e a ideia de uma justiça que protege
os trabalhadores são alguns dos motivos que aumentam esse
temor.
E muito se engana quem acredita que essa nova relação
criada pelas startups entre seus envolvidos (sócios, mentores,
freelancers...), em que todos buscam o crescimento repentino
do negócio, pois com isso serão beneficiados, afasta a
possibilidade de ingresso na Justiça do Trabalho. Lembre-se
que no início do projeto, quando o otimismo é elevado e a
empolgação do crescimento da empresa é enorme, tudo corre
bem. Porém, quando os objetivos almejados não se
concretizam da forma imaginada, as relações interpessoais
também são afetadas.
Assim, uma startup deve possuir suas relações
trabalhistas bem delimitadas. Afinal, a prevenção e a
organização nesta seara são essenciais para o evitar o
envolvimento da startup em demandas trabalhistas futuras que
possam descapitalizar o negócio e causar conflitos que
poderiam ser evitados.

[ 133 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

O primeiro passo para o sucesso trabalhista de uma


startup é tentar integrar todos aqueles que possuem
habilidades essenciais para o funcionamento da empresa como
sócios. Por exemplo, em uma startup de tecnologia recém-
criada, se o seu idealizador verificar que será necessário para a
sua expansão inicial um profissional de marketing, um de
administração e outro de desenvolvimento web, o ideal é que
este busque tais profissionais e os integrem ao quadro
societário.
Observe que a utilização desse método deve propiciar a
todos os sócios a sua participação na startup como verdadeiro
integrante do quadro societário empresarial, e não como uma
forma de burlar a sua contratação como empregado.111
Essa técnica permite que até mesmo empresas com
pouco capital semente (geralmente aquelas iniciadas via
bootstraping112) iniciem as suas atividades, já que não será
necessário a existência de um capital de giro que tenha que
suprir o salário mensal de vários funcionários. Além disso,
conforme já exposto, conceder participação na empresa aos
profissionais faz com que eles se empolguem com o
desenvolvimento do negócio, pois estão trabalhando para a
construção de um bem em comum.

111 Veja que a Justiça Trabalhista tem se posicionado e inovado no sentido de


que considerar que empregados inscritos no quadro societário da empresa
apenas com fim de evitar a caracterização trabalhista não deve arcar com
dívidas trabalhistas. Vide Processo nº. 03115.00.18.2000.5.02.0031, da 31ª
Vara do Trabalho de São Paulo.
112 Quando os empreendedores utilizam recursos próprios (ou de pessoas

próximas, como familiares – Love money) para iniciar a startup.

[ 134 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Porém, não há fórmula de sucesso nesse ponto. Se o


empreendedor possui capital suficiente para contratar tais
funcionários, ótimo. Formalize-os e mãos à obra.
Passemos para a análise legal. A regulamentação das
relações trabalhistas no Brasil ocorre, em regra, pela
Constituição Federal e Consolidação das Leis do Trabalho – CLT
(Decreto-Lei n. 5.452/1943). Ademais, existem muitas outras
disposições regulamentadoras, pois muitas profissões contam
com legislações específicas.
Por sua vez, a legislação nacional prevê diversas
modalidades de contratos de trabalho (expresso ou tácito,
individual ou coletivo, por tempo determinado ou
indeterminado...), cada um com suas peculiaridades, jornadas e
salários próprios.
A forma de admissão deve ser feita sempre levando em
conta os interesses da empresa. Vejamos algumas modalidades
de contrato de trabalho que podem ser utilizadas para a
aquisição de mão de obra para a startup.
Inicialmente, para aqueles que necessitam de um
profissional fixo em determinada área da startup (seja
atendimento ao cliente, administrativo, entre outras), a
contratação poderá ocorrer em um contrato de trabalho de
prazo indeterminado, nos moldes da CLT. De forma simples,
esse é o contrato de trabalho padrão, utilizado por qualquer
empresa que pretenda ter um funcionário fixo.
Note que o custo desse funcionário não se limita ao
salário mensal pago (que deve respeitar o mínimo geral, ou o
mínimo da categoria). Existem diversos outros benefícios legais

[ 135 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

que devem ser levados em conta, e que ampliam os custos da


empresa com o empregado.
Para se ter uma noção, vejamos o custo mensal de um
funcionário ordinário contratado via CLT que tenha o salário
mensal de R$ 1.000,00 (mil reais)113.

Imagem 11
Simulação de custos extras com um funcionário contratado sob o
regime da CLT, com o salário-base de R$ 1.000,00 mensais

113 Simulação realizada pela planilha elaborada pela Conta Azul, startup
brasileira de controle financeiro. O documento pode ser encontrado no
seguinte site: <https://blog.contaazul.com/planilha-custo-funcionario>.
Acesso em: 26 jun. 2016.

[ 136 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Acrescente-se ainda os seguintes valores:

a) Vale transporte: 22 dias trabalhados por mês


x 2 vales por dia x custo do vale a R$ 3,00  R$
132,00. Veja que a legislação autoriza que o
empregador a deduzir 6% do valor do salário do
empregado à título de vale transporte114. Assim,
no caso em tela, o empregador pode retirar R$
60,00 do salário, deixando o custo final em R$
72,00.
b) Vale alimentação: não é uma obrigação legal,
a menos que a sua previsão esteja fixada em
contrato ou convenção coletiva.
c) Horas extras: valor da hora normal + 50% 115.
d) Adicional noturno: valor da hora normal +
20%116.
e) Adicional de periculosidade e insalubridade:
percentuais que variam entre 20 a 40%, para a
insalubridade; e fixo em 30%, para a
periculosidade117.

114 Art. 4º da Lei 7.418/1985 (Lei do Vale-Transporte) - A concessão do


benefício ora instituído implica a aquisição pelo empregador dos Vales-
Transporte necessários aos deslocamentos do trabalhador no percurso
residência-trabalho e vice-versa, no serviço de transporte que melhor se
adequar.
Parágrafo único - O empregador participará dos gastos de deslocamento do
trabalhador com a ajuda de custo equivalente à parcela que exceder a 6%
(seis por cento) de seu salário básico
115 Art. 7º, CF: São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o

trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a


proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na
forma desta Constituição.
XVI - remuneração do serviço extraordinário superior, no mínimo, em
cinqüenta por cento à do norma
116 Art. 73 da CLT.

[ 137 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Assim, observa-se que o custo de um funcionário fixo


que tenha como salário-base R$ 1.000,00, ao somar os demais
direitos e benefícios, ultrapassa os R$ 1.500,00 reais mensais,
encarecendo bastante a sua contratação.
Ademais, a quantidade de valores a serem recolhidos
acaba tornando esse trabalho complexo, o que exige o
acompanhamento de um profissional especializado para
realização de tal atividade. Esse é um dos motivos que fazem
com que as startups fujam ao máximo desses contratos de
trabalho.
Outra alternativa que vem sendo bastante utilizada para
trabalhos mais técnicos é a contratação por prazo determinado
(também chamado de freelancers). Nessa época de crise, sua
utilização aumentou 7,5% pelas empresas.118 Esse método vem
sendo usado principalmente para a realização de projetos
específicos, pois não vincula o contratado diretamente à
startup, mas sim ao projeto, diminuindo consideravelmente os
custos com as obrigações trabalhistas e os riscos de futuros
litígios judiciais.
Para os empregados, há pontos positivos e negativos.
Como vantagens, podemos listar a liberdade em contratar com
empresas da forma que achar mais conveniente, estabelecendo
seus próprios horários de trabalho, desde que cumpra os
requisitos contratuais e prazo acordado para a demanda para
qual foi contratado. Como ponto negativo, a falta de segurança

117Art. 7º, XXIII, da CF, e arts. 193, §1º, da CLT.


118 PATI, Camila. Este mercado está em alta, mas muitos ainda têm
preconceito. Exame. 12 jul. 2016. Disponível em:
<http://exame.abril.com.br/carreira/noticias/este-mercado-esta-em-alta-mas-
muitos-ainda-tem-preconceito>. Acesso em: 01 ago. 2016.

[ 138 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

financeira e a ausência de benefícios do INSS (aposentadoria,


seguro desemprego, auxílio maternidade, auxílio doença)
podem pesar para os funcionários que possuem um perfil mais
conservador.
Se utilizado o contrato por projeto ou tempo
determinado, é muito importante que os contratados tenham
um controle em realizar um recolhimento de alguma
previdência privada, realizar aplicações financeiras,
investimentos ou contribuir como “contribuinte individual” ao
INSS, para que tenham alguma segurança e estabilidade no
futuro.
Observe que os empreendedores devem ter bastante
cuidado em não tratarem os freelancers como funcionários
“normais”, exigindo deles habitualidade, por exemplo. Isso
porque a presença dos requisitos para a configuração de uma
relação trabalhista padrão119 pode causar problemas
trabalhistas para a empresa.
Muito cuidado na elaboração deste contrato de trabalho
para o desenvolvimento de atividades técnicas específicas,
como o desenvolvimento de softwares. É muito comum que as
empresas e os empregados não acordem de forma explícita
sobre a propriedade industrial do bem produzido nos termos do
contrato, e isso acabe gerando fortes problemas judiciais,
principalmente quando o desenvolvedor, que ganhou ‘X’ para

119Segundo os arts. 2º e 3º da CLT, há uma relação trabalhista quando há a


presença de onerosidade (remuneração do empregado), habitualidade (por
exemplo, uma frequência e horários definidos de trabalho), pessoalidade
(somente aquele sujeito pode realizar aquela tarefa) e subordinação (há uma
submissão do empregado ao empregador).

[ 139 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

desenvolver o aplicativo, descubre que o seu contratante está


faturando ‘1000X’ com ele por mês.
Evite problemas. Deixe claro ao contratado que você
está o pagando para ele elaborar um programa que será de sua
propriedade, e formalize isso. Nada impede também que o
desenvolvedor seja sócio do projeto que desenvolveu, o que
pode ser proposto de acordo com as necessidades da empresa.
Outra técnica bastante utilizada por algumas startups
que visam baratear os custos com o pessoal do
empreendimento é a contratação de estagiários.
Diferentemente das relações trabalhistas comuns, o estágio é
regulamentado por legislação própria (Lei Federal n.º
11.788/2008). Isso porque o estágio não é uma relação de
trabalho na sua essência, mas sim uma continuidade do ensino
em ambiente de trabalho:

“Art. 1º - (...) ato educativo escolar


supervisionado, desenvolvido no ambiente de
trabalho, que visa à preparação para o trabalho
produtivo de educandos que estejam freqüentando
o ensino regular em instituições de educação
superior, de educação profissional, de ensino
médio, da educação especial e dos anos finais do
ensino fundamental, na modalidade profissional da
educação de jovens e adultos.”

Apesar de ser utilizado como uma alternativa de


contratação mais barata, pois não exige o pagamento de
benefícios extras, além de não fazerem jus a diversos direitos
(em regra, gozam apenas de férias remuneradas e seguro), a

[ 140 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

lei do estagiário impõe diversas limitações à sua utilização, que


devem ser respeitadas pelas empresas contratantes.
Por exemplo, estagiário não pode ultrapassar a jornada
de trabalho de 30h semanais120, não pode fazer hora-extra e
não pode receber bonificação por metas.
O art. 17 da Lei do Estagiário limita ainda o número de
estudantes de acordo com a quantidade de funcionários da
empresa. Vejamos:

“Art. 17. O número máximo de estagiários em


relação ao quadro de pessoal das entidades
concedentes de estágio deverá atender às
seguintes proporções: I – de 1 (um) a 5 (cinco)
empregados: 1 (um) estagiário; II – de 6 (seis) a
10 (dez) empregados: até 2 (dois) estagiários; III
– de 11 (onze) a 25 (vinte e cinco) empregados:
até 5 (cinco) estagiários; IV – acima de 25 (vinte e
cinco) empregados: até 20% (vinte por cento) de
estagiários.”

Note que o art. 15 da referida lei é claro quando dispõe


que o descumprimento das disposições legais caracteriza a
relação trabalhista do educando como empregado da parte
concedente do estágio, “para todos os fins de legislação
trabalhista e previdenciária”, além de poder ocasionar uma
punição de até dois anos da empresa sem poder contratar
estagiários. Ou seja, se constatado que o estagiário vinha
sendo utilizado com funcionário, a empresa terá que assinar a
sua carteira de trabalho, recolhendo todos os direitos que a ele

120Exceto os cursos que alternem a teoria e a prática, quando previsto no


projeto pedagógico de ensino do curso.

[ 141 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

seriam devidos. Veja o caso da rede de farmácias Pague


Menos, que teve um custo de mais de R$ 200.000,00 por
realizar essa prática.121
“A juíza Maria Aparecida Prado Fleury Bariani, da
4ª Vara do Trabalho de Goiânia, determinou que a
rede de farmácias Pague Menos deve pagar R$
225 mil, equivalente a direitos trabalhistas, ao ex-
estagiário da empresa Danilo da Silva Souza. A
magistrada estabeleceu que neste valor estão
incluídos o pagamento de horas extras, adicional
de transferência no valor de 25% de seus salários,
multa por descumprimento da Convenção Coletiva
de Trabalho (CCT) e danos morais no valor de R$
15 mil.
Danilo Souza alegou que foi contratado como
estagiário pela Pague Menos em 16 de dezembro
de 2010, com o salário mínimo à época (R$ 510) e
jornada de trabalho entre 8h às 14h, de segunda-
feira a sábado. Segundo ele, o contrato, encerrado
em outubro de 2011, não obedecia às regras da
Lei do Estágio. Danilo alegou que foi à Justiça para
ter o período reconhecido como contrato de
trabalho. [...]”

Os mesmos cuidados devem ser observados na


contratação do menor aprendiz, que tem a sua relação
regulamentada nos arts. 402 a 441 da CLT.
Por fim, observe que existem muitos outros meios de
estabelecer contratos de serviços entre as partes, como, por

121 Vide AFFONSO, Julia. Estagiário processa rede de farmácias por


descumprir contrato e leva R$ 225 mil. Estadão. 17 jul. 2016. Disponível em:
<http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/estagiario-processa-
rede-de-farmacias-por-descumprir-contrato-e-leva-r-225-mil/>. Acesso em:
03 ago. 2016.

[ 142 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

exemplo, a realização de parcerias entre pessoas jurídicas, ação


que diminui os riscos de ações trabalhistas do empregador.
Muito cuidado na hora de formalizar essas parcerias.
Uma prática nociva bastante praticada pelas empresas que visa
burlar a caracterização das relações trabalhistas é a
pejotização, que ocorre quando os empregados são
transformados em pessoas jurídicas, mas continuam prestando
serviços como empregados contratados sob o regime celetista.
Se configurada, essa prática pode gerar inúmeros prejuízos
para a empresa, com o recolhimento dos direitos do
empregado que lhe eram devidos.

7.1. Stock options

Uma ferramenta bastante usada nas empresas de


tecnologias são os chamados stock options. Esse mecanismo de
remuneração empresarial permite que gestores, mentores ou
empregados recebam como compensação ou remuneração
pelos serviços prestados participação na empresa, ou que estes
adquiram participações na empresa a custos abaixo dos preços
praticados no mercado. Cairo Jr. (2014, p. 449) define esse
instrumento da seguinte forma:

“Por meio do sistema denominado de stock


options o empregador oferece aos seus
empregados um plano de oferta de opção de
compra de ações da empresa a preços pré-fixados
e geralmente mais baixos se comparados com

[ 143 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

aqueles praticados pelo mercado na data da


emissão.”

Sua utilização ocorre de forma mais simples nas


empresas S.A., tendo em vista que seu modo de aplicabilidade
em outras sociedades, como nas LTDAS, exigem uma maior
complexidade (como a alteração no contrato social, por
exemplo). Na verdade, há quem defenda que a sua
aplicabilidade é exclusivamente para as S.A., porém defendo
que este instrumento pode ser adaptado para alguns tipos
societários.
Por sua essência, esse mecanismo é um meio excelente
para incentivar aos envolvidos a participarem e se manterem
ativamente no negócio.
Observe que o stock option não se confunde com o
vesting, uma vez que este possui uma configuração jurídica
diferenciada; nem com os Programas de Participação nos
Lucros e Resultados (PLR), que são regulamentados pela Lei n.
10.101/2000.
Ademais, a ferramenta ora abordada, quando aplicada
nas S.A., deve seguir algumas disposições, tais como a previsão
da sua ocorrência no Estatuto Social, a existência de um capital
exclusivamente autorizado para isso, além da aprovação do
plano em assembleia da sociedade, que posteriormente deverá
ser registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

[ 144 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

7.2. Reforma trabalhista de 2017

Uma das alegações muito ouvidas pelos


empreendedores no Brasil é de que temos uma legislação
trabalhista extremamente protecionista ao empregado. Assim,
aderindo às manifestações dos setores empresariais, o governo
do Presidente Michel Temer emplacou como um dos seus
principais planos governamentais a Reforma Trabalhista.
Após o trâmite do Projeto de Lei Federal n.º 6.787,
apresentado em 23 de dezembro de 2016, e tendo como
relator o Deputado Rogério Marinho, o projeto que apresenta
inúmeras alterações na Consolidação das Leis Trabalhistas –
CLT e em legislações esparsas foi sancionado, flexibilizando e
modernizando as relações de trabalho.
Com a sua sanção, as alterações tomaram forma
jurídica, por meio da publicação da Lei Ordinária n.º
13.467/2017.
Há muita discussão em ocorrência, em que questionam
as vantagens das alterações promovidas. Porém, diante da
sanção presidencial, é fato que a partir do mês de novembro de
2017 teremos novas regras que regerão as relações de
trabalho, que devem ser conhecidas pelos empreendedores.
Algumas alterações são de fato mais benéficas ao
empresariado em geral. Para empresas de tecnologia, certas
mudanças merecem atenção.
Primeiro, na legislação antiga não havia regulamentação
sobre o contrato de trabalho intermitente, o que deixava os
empregadores receosos em contratar profissionais para

[ 145 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

períodos determinados. No ramo digital, essa modalidade de


contratação é muito comum, uma vez que a maioria dos
projetos ou demandas são periódicas, por um período
determinado.
Com a nova legislação, passa a ser legal a contratação
para trabalho intermitente com base em dias ou horas, sendo
benéfico para o empregador, que não precisará renovar o
contrato a todo momento que for contratar um serviço
determinado; e para o empregado, que poderá exercer seus
serviços específicos de forma autônoma, tendo os seus direitos
sendo devidamente recolhidos pelo empregador.
O mesmo se pode dizer do trabalho home-office. Antes,
não havia regulamentação sobre o tema na CLT. Com a
mudança, essa modalidade de trabalho passa a ter previsão
legal, na qual o empregador e empregado podem acordar sobre
as despesas relacionadas às funções.
Observe o seguinte quadro comparativo das reformas
promovidas pela nova legislação.

Quadro 04
Comparativo das mudanças propostas pela Lei Ordinária n.º
13.467/2017

Legislação anterior Legislação atual


Não é possível dividir as férias, Mediante acordo, é possível
exceto em casos específicos, onde dividir as férias em até 3 vezes.
é possível dividir em 2 vezes,
desde que com o mínimo de 10
dias em uma delas.
Jornada de trabalho de 44 horas O dia de trabalho permanece
semanais, com 8 horas diárias com 8 horas. Porém, pode-se
(podendo se ampliar para 10 com ampliar para 12 horas, com 4

[ 146 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

2 horas extras). horas extras e 36 horas de


descanso. A jornada semanal
pode atingir até 48 horas.
Impedimento de negociação sobre Possibilidade de negociação em
inúmeros direitos convenção coletiva sobre
trabalho remoto, plano de
cargos e salários, benefícios por
produtividade, entre outros.
Em ações trabalhistas, as custas Em caso de derrota judicial, o
de ações perdidas pelo trabalhador deve arcar com as
trabalhador são pagas pelo poder custas da ação (salvo os casos
público. de justiça gratuita).
Ausência de previsão expressa Previsão expressa de multa de 1
para má-fé em processos judiciais. a 10%, além de condenação em
indenização, para o que atuar
com má-fé em processos
judiciais.
Ausência de previsão sobre o Regulamentação do trabalho
trabalho intermitente e o intermitente e do teletrabalho,
teletrabalho. modalidades muito utilizadas na
prática por empresas de
tecnologia.
A homologação da rescisão A homologação pode ser
contratual deve ser realizada em realizada na própria empresa,
sindicato. com a presença do empregador
e empregado.
Discussão jurídica sobre a Previsão expressa de que a
classificação como empregado do contratação do autônomo, com
autônomo contratado. ou sem exclusividade, afasta a
caracterização de empregado.

[ 147 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

8. TRIBUTAÇÃO DAS STARTUPS

O pagamento de tributos é outra angústia dos


empreendedores brasileiros. E tal aflição tem justificativa: o
Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário estima que cerca
de 1/3 do faturamento das empresas é destinado ao
pagamento de tributos para o Estado.
Como agravante, a burocracia estatal atravanca as
atividades dos empreendedores. Em um país em que existem
mais de 90 espécies tributárias122 e uma complexidade imensa
no cálculo e apuração destes, qualquer erro pode vir a se
tornar uma “bola de neve” de dívidas fiscais.
Assim, no momento da estruturação da empresa (ver
capítulo 01), é muito importante que os empreendedores levem
em conta os o aspecto da tributação, sob pena de terem um
gasto contínuo excessivo com tributos, que poderia ser previsto
e evitado.
Quando tratamos da melhor organização tributária da
empresa (ou planejamento tributário), quando mais cedo
realizado, melhor. Isso porque a partir do momento em que a
startup começa a realizar as suas atividades, os fatos
geradores123 dos tributos começam a se concretizar, gerando a
obrigação de pagar o que é devido por lei.

122 Os tributos no Brasil. Portal Tributário. Disponível em:


<http://www.portaltributario.com.br/tributos.htm>. Acesso em: 05 ago.
2016.
123 Em uma linguagem simples, fato gerador é a situação ocorrida no mundo

real que ocasiona a obrigação de pagar tributo. Por exemplo, a prestação de

[ 148 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Não obstante, a própria escolha do modelo


empresarial124 e societário influi bastante no pagamento de
tributos. Por exemplo, um MEI deve recolher seus tributos em
um único DAS, que terá o valor aproximados R$ 50,00 mensais;
as Sociedades por Ações não podem optar pelo Simples
Nacional; qualquer tipo societário que tenha sócio domiciliado
no exterior também não poderá optar pelo Simples Nacional,
assim por diante.
Nessa análise tributária inicial, os sócios devem verificar
o peso da tributação de acordo com a escolha do modelo
societário a ser adotado, realizando uma ponderação entre os
demais fatores administrativos e jurídicos que possam
influenciar na escolha da estruturação da startup.
Feito isso, é importante verificar quais são os tributos
que mais “consomem” o faturamento empresarial e trabalhar o
planejamento tributário com base neste levantamento. IR,
CSLL, PIS, COFINS, IPI, Imposto de Importação, ICMS, ISS são
apenas alguns dos tributos que podem incidir sobre as
atividades empresariais. Em regra, o Imposto de Renda e os
tributos sobre os produtos e serviços (ICMS ou ISS) são os que
mais afetam os lucros empresariais.

um serviço por uma empresa é o fato gerador do Imposto Sobre Serviços


(ISS).
124 Interessante notar que não incide Imposto de Transmissão de Bens Inter

Vivos (ITIB ou ITIV) em transferência de bem para integrar o capital social da


empresa. Vide VASCONCELOS, Sérgio Villanova; TAVARES, Gustavo Perez.
Não incide ITBI em transferência de imóvel para realizar capital social.
Consultor Jurídico. 19 de julho de 2016. Disponível:
<http://www.conjur.com.br/2016-jul-19/nao-incide-itbi-transferencia-realizar-
capital-social>. Acesso em: 03 ago. 2016.

[ 149 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

A realização do planejamento deve ser pautada em três


frentes de atuação: a) como evitar a ocorrência do fato
gerador; b) como reduzir as alíquotas e bases de cálculo dos
tributos; se necessário, c) como postergar o pagamento dos
tributos, dentro dos prazos da lei, e por fim, d) estudar os
benefícios tributários existentes que podem ser usufruídos pela
empresa.
Esses meios de atuação são pautados em diversas
ações, que devem ser analisadas em conjunto, como um único
ecossistema. São algumas dessas: verificação das legislações
vigentes, com a procura de brechas legais que permitam
alcançar um dos três objetivos anteriormente citados; análise
de teses tributárias que possam gerar benefícios para a startup;
verificação da existência e apresentação de defesa em
processos administrativos e judiciais tributários; verificação das
leis de incentivos gerais e benefícios estaduais, federais e
municipais, dentre outras.
Existem inúmeras leis, por exemplo, que concedem
vantagens fiscais para empresas que atuam nas áreas
tecnológicas, e que podem ser utilizadas como forma de
diminuir o passivo tributário das empresas. Podemos citar a Lei
Federal n.º 11.196/2005 (Lei do Bem) e a Lei da Informática
(n.º 13.023/2014), pouco utilizadas pelos empreendedores,
mas que concedem diversas vantagens fiscais para os seus
beneficiários.
Observe que o planejamento tributário vai muito além
da ideia da comparação entre tributação sobre o lucro real,
lucro presumido e Simples Nacional, como muitos acreditam.
Esse é apenas um ponto a ser verificado pelas startups na

[ 150 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

realização desse procedimento, que é bem complexo, e, se


bem realizado, pode gerar uma enorme economia para a
empresa.
O cenário efervescência das startups também trouxe
vantagens tributárias. Muitos estados125 e municípios126 vêm
criando polos de desenvolvimento tecnológico que oferecem,
além dos benefícios físicos e materiais, diversas vantagens
tributárias. Temos como exemplo o Porto Digital, um dos cases
de sucesso brasileiros, localizado em Recife, que concede as
seguintes benesses fiscais127:

“Redução do ISS - as empresas instaladas no


Porto Digital e que atendam os requisitos previstos
na lei de incentivo e redução de ISS, usufruem o
beneficio concedido pela Prefeitura do Recife, que
consiste na redução de 60% do tributo. Com esse
desconto, o ISS passa de 5% para 2%.
Lei de Incentivo à Ocupação do Solo: consiste em
condições especiais de uso e ocupação de solo,
que, de acordo com a Lei Municipal Nº 16.290/97,
concede isenção no IPTU de acordo com o tipo de
reforma realizada no imóvel ocupado.

125 Vide IGNÁCIO, Lauro. Governo do RS suspende cobrança do ICMS sobre


software. Valor Econômico. São Paulo. 06 jul. 2016. Disponível em:
<http://www.valor.com.br/legislacao/4626567/governo-do-rs-suspende-
cobranca-de-icms-sobre-software>. Acesso em: 05 ago. 2016.
126 Veja, por exemplo, a Lei nº. 14.920 do município de Campinas/SP, de

novembro de 2014, que “dispõe sobre a concessão de incentivos fiscais no


município de Campinas às empresas enquadradas como startups”,
concedendo autorização ao Poder Executivo para ofertar incentivos fiscais a
essas empresas.
127 Benefícios. Porto Digital: parque tecnológico. Disponível em:
<http://www.portodigital.org/diferenciais/beneficios>. Acesso em: 28 ago.
2016.

[ 151 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Redução do Imposto de Renda: O decreto nº


4.213 definiu os empreendimentos prioritários para
o desenvolvimento regional, nas áreas de atuação
da extinta Superintendência do Desenvolvimento
do Nordeste – SUDENE, para fins dos benefícios de
redução do imposto de renda, inclusive de
reinvestimento, em diversos setores, incluindo as
áreas de eletroeletrônica, mecatrônica,
informática, biotecnologia, veículos, componentes
e autopeças da indústria de componentes
(microeletrônica).”

É importante que as startups verifiquem a possibilidade


de se inserirem em algum polo (ou até mesmo incubadoras ou
aceleradoras128) que conceda tais benefícios. Essa redução de
custos pode representar um capital disponível útil em outras
áreas do negócio.

128 Existem algumas diferenças entre incubadoras e aceleradoras. Enquanto


as primeiras apresentam um caráter mais vinculado a entres públicos,
fornecendo subsídios (em regra, estruturais) para o desenvolvimento da
startup sem almejar o lucro para o ente incentivador; as aceleradoras
possuem um caráter privado, fornecendo benefícios diversos (em regra
estruturais, de mentoria e financeiro) para a startup em troca de uma
participação na empresa, visando a obtenção de lucro com o desenvolvimento
empresarial.

[ 152 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

9. CAPTAÇÃO DE RECURSOS E
INVESTIMENTOS

Uma situação que deixa extasiado os sócios de uma


empresa é o surgimento de investidores para o negócio. Sem
dúvidas, quando terceiros demonstram interesse
(principalmente em empregar capital) em uma startup, é sinal
que essa está bem vista pelo mercado ou apresenta um ótimo
potencial de crescimento. Ou seja, muito provavelmente a
empresa está no caminho certo para o sucesso.
Depois da euforia inicial, surgem as dúvidas. Isso
porque a recepção de investimentos envolve dois momentos
cruciais e complicados: a realização do valuation da startup e a
forma de participação dos que realizam o aporte, como sócios
ou como investidores.
Existem várias formas de ingresso de investimentos
financeiros em uma startup, que irão variar de acordo com a
fase e a necessidade da empresa. No seu início, por exemplo,
em que os empreendedores buscam a obtenção da verba inicial
para o negócio (chamado de seed capital, ou capital semente),
as possibilidades mais utilizadas são o bootstraping e a
obtenção de recursos com familiares e amigos.
Em seguida, optar por financiamentos bancários e pela
a utilização do crowdfunding, forma de obtenção de recursos
que se assemelha a uma doação, onde os financiadores

[ 153 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

recebem produtos ou serviços de acordo com o valor concedido


pode ser uma boa saída para o negócio129.
Noutra senda, quem já tem uma startup em
funcionamento e precisa de capital para evoluir o negócio, já se
encontrando na segunda ou mais etapas para obtenção de
capital, certamente as alternativas mais viáveis serão a
obtenção de financiamentos bancários; recepção de valores de
anjos, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas (fundos de
investimento); ou a abertura da empresa para o mercado da
bolsa de valores, tornado-a uma sociedade anônima. Conforme
dito, tudo depende dos interesses dos envolvidos.
Para quem está procurando um “anjo” para a sua
startup, o cenário é extremamente otimista. No Congresso
Investimento Anjo (CIA), realizado em 2016, a Anjos do Brasil
apontou a existência de aproximadamente 7.260 investidores-
anjo no país, que pretendem investir até 2018 um total de
quase 1,7 bilhão de reais. Apesar de ser um valor enorme,
ainda há muito a crescer. Por exemplo, nos Estados Unidos, em
2015, os angel investors injetaram na economia das startups o
equivalente a mais de 70 bilhões de reais.130
Por ser um procedimento complexo, é necessário que
essa recepção de investimentos seja cercada de cuidados.

129 Dependendo do valor concedido, é possível até que o investidor receba


como contrapartida participação na empresa.
130 BARBOSA, Marystela. Saiba quem são os investidores-anjo do Brasil.

Exame.com. 01 jul. 2016. Disponível em:


<http://exame.abril.com.br/pme/noticias/quem-sao-os-investidores-anjo>.
Acesso em: 01 ago. 2016.

[ 154 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Imagem 12
Gráfico das modalidades de investimentos em startups. 131

CHECKLIST – ETAPAS DE INVESTIMENTOS

Bootstraping - Family, friends and fools


Investimento-anjo
Aceleradoras
Seed money
Micro Venture Capital - MVC
Venture Capital - VC
Private Equity - PE
Inicial Public Offering - IPO

131 RICO, Letícia. Como funcionam os investimentos? STARTUPEI. 27 jun.


2017. Disponível em: <startupei.com/desenvolva-se/e-book-como-funcionam-
os-investimentos/>. Acesso em: 12 jul. 2016

[ 155 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

9.1. Crowdfunding e equity crowdfunding

Dois termos que confundem bastante os


empreendedores iniciantes são o “crowdfunding” e “equity
crowdfunding”. Vamos analisar cada um deles.
O crowdfunding ou financiamento coletivo é uma forma
mais simples de arrecadar fundos. Nessa modalidade, o
empreendedor cadastra modalidades de apoio ao projeto,
recebendo em troca recompensas, que podem ser serviços ou
produtos fornecidos parte que recebeu os valores. Geralmente,
os próprios sites se encarregam de realizar os documentos que
regulamentarão os pequenos investimentos em troca de
brindes ou produtos.132
Por exemplo, na campanha realizada por Bel Pesce para
o seu Tour Menina do Vale 2 no Kickante, que arrecadou mais
de R$ 850.000,00, os investimentos de R$ 10,00 recebiam em
contrapartida um agradecimento por email e livros online;
enquanto os investimentos a partir de R$ 150.000,00 teriam
direito a constar como patrocinadores no tour da
empreendedora.
Por sua vez, o equity crowdfunding é um procedimento
bem mais complexo de arrecadação. A diferença do

132 Existem diversas plataformas no Brasil para obtenção desse tipo de


investimento, tal como o Kickante, Cartarse, Indiegogo, Vakinha, entre
outros. A Comissão de Valore Mobiliários já está preparando uma
regulamentação para esse tipo de investimentos, que ainda se encontra em
fase inicial.

[ 156 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

crowdfunding simples é que neste, no lugar de pequenos


regalos, o investidor terá uma participação na empresa.
Juridicamente falando, o equity crowdfunding é uma
oferta pública de valores mobiliários através da internet. Por
valores mobiliários, entenda:

“(...) quando ofertados publicamente, quaisquer


títulos ou contratos de investimento coletivo que
gerem direito de participação, de parceria ou
remuneração, inclusive resultante da prestação de
serviços, cujos rendimentos advém do esforço do
empreendedor ou de terceiros”133

Diante da sua complexidade e do seu caráter jurídico de


uma oferta pública de valores mobiliários, a realização desse
procedimento deve se submeter a regulamentação da Comissão
de Valores Mobiliários, entidade responsável pela fiscalização
de tais atividades em nosso país.
Na prática, existem duas formas de formalizar o equity
crowdfunding: quando o investimento garante ações na
empresa; ou quando o investimento dá direito a um Título de
Dívida (Mútuo).
No primeiro ponto, no momento em que há a aplicação
de verbas na empresa, o investidor já garante sua posição
como acionista da companhia. Por sua vez, da segunda forma,
no momento da aplicação financeira, o investidor recebe um

133 Portal do Investidor. Comissão de Valores Mobiliários. Disponível em :


<http://www.portaldoinvestidor.gov.br/menu/Menu_Investidor/valores_mobili
arios/introducao.html>. Acesso em 05 abr. 2017,

[ 157 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Título de Dívida, através do procedimento de mútuo,


regulamentado nos arts. 586 a 592 do Código Civil.

“Art. 586. O mútuo é o empréstimo de coisas


fungíveis. O mutuário é obrigado a restituir ao
mutuante o que dele recebeu em coisa do mesmo
gênero, qualidade e quantidade.
Art. 587. Este empréstimo transfere o domínio da
coisa emprestada ao mutuário, por cuja conta
correm todos os riscos dela desde a tradição.”

Veja que por meio do mútuo, o investidor (mutuante)


entrega a startup (mutuário) coisa fungível (em geral dinheiro),
que fica na responsabilidade de devolver o investimento no
“mesmo gênero, qualidade e quantidade”.
Um detalhe: a tradição que o art. 587 supracitado fala
nada mais é do que a entrega do bem. Assim, no momento em
que o investidor entrega o dinheiro a empresa, é de sua
responsabilidade devolver nos termos acordados.
Uma adaptação do mútuo que vem sendo muito
aplicado às startups é o mútuo conversível. Nele, o título da
dívida adquire o caráter da conversibilidade: ao fim do prazo e
nos termos acordados pelas partes, o título da dívida pode se
transformar em participação pelo investidor na empresa.
Sua vantagem para os investidores é que estes, com o
título de dívida conversível, detém a possibilidade de só
ingressar nos quadros societários quando a empresa já estiver
consolidada no mercado, evitando todos os procedimentos e
burocracia antes mesmo da empresa já ter se desenvolvido.
As startups iniciantes tem que ter muito cuidado para
não cair na tentação de receber aportes de mútuos que sabem

[ 158 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

que não terão condições de pagar no prazo acordado, pois


muitas vezes, diante da inadimplência, quem aportou o valor
requer o pagamento em troca de uma boa parcela do capital
social ou das ações da empresa.

9.2. Instrução Normativa 588 da CVM

Uma das grandes reclamações dos empreendedores e


investidores que pretendiam captar ou aplicar recursos na
modalidade de equity crowdfunding era a ausência de
regulamentação desse procedimento, que era realizado e
organizado pelas plataformas online com base em regras gerais
implementadas pelos órgãos reguladores. Noutra senda, há os
que defendem que essa larga intervenção do Estado na
regulamentação de tais modalidades de captação só serve para
dificultar as atividades dos empreendedores.
Porém, por se tratar de uma modalidade de
investimento que envolve o mercado de valores mobiliários,
seria impossível que o equity ficasse sem uma regulamentação
específica por parte da Comissão de Valores Mobiliários.
Assim, após a realização de audiências públicas e
consultas sobre a temática, foi editada em 13 de julho de 2017
a Instrução Normativa da CVM n.º 588134, que tem o objetivo
de regulamentar “a oferta pública de distribuição de valores

134 Instrução Normativa n.º 588. Comissão de Valores Mobiliários – CVM.


Disponível em: <http://www.cvm.gov.br/legislacao/inst/inst588.html>.
Acesso em 14 jul. 2017.

[ 159 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

mobiliários de emissão de sociedades empresárias de pequeno


porte realizada com dispensa de registro por meio de
plataforma eletrônica de investimento participativo.”
A Instrução trata logo em seu art. 2º, I, de conceituar o
equity crowdfunding, denominado de crowdfunding de
investimento pela norma como:

“A captação de recursos por meio de oferta pública


de distribuição de valores mobiliários dispensada
de registro, realizada por emissores considerados
sociedades empresárias de pequeno porte nos
termos desta Instrução, e distribuída
exclusivamente por meio de plataforma eletrônica
de investimento participativo, sendo os
destinatários da oferta uma pluralidade de
investidores que fornecem financiamento nos
limites previstos nesta Instrução.”

Assim, pelo próprio conceito de equity crowdfunding e


por vedação expressa da norma, a Instrução não se aplica
quando o repasse financeiro se tratar de doação ou quando o
retorno do capital aportado ocorrer mediante o recebimento de
brindes, recompensas, bens ou serviços pelo investidor. Ou
seja, quando ocorrer o crowdfunding comum.
De forma simples, a nova regulamentação passou a
permitir que empresas que tenham receita anual de até R$ 10
milhões de reais135 (denominada de sociedade empresária de

135Art. 2º - Para fins desta Instrução, aplicam-se as seguintes definições: [...]


§ 3º - Na hipótese da sociedade empresária de pequeno porte ser controlada
por outra pessoa jurídica ou por fundo de investimento, a receita bruta
consolidada anual do conjunto de entidades que estejam sob controle comum

[ 160 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

pequeno porte) possa captar até R$ 5 milhões de reais, dentro


do prazo máximo de 180 dias, por meio das plataformas de
captação online, sem a necessidade de registro de oferta e
emissor perante a CVM, o que facilita bastante o procedimento.
Porém, buscando dar uma maior segurança aos
investidores, a plataforma online que intermediará a captação
deverá ser registrada perante o órgão, cumprindo uma série de
requisitos constantes no art. 13º da norma, dentre os quais
estão dispor de um capital social integralizado de no mínimo R$
100.000,00 (cem mil reais) e possuir um código de conduta.
Veja que as regras não são somente para as
plataformas, atingindo também empreendedores e empresas
captadoras.
Segundo a Instrução, a empresa captadora deve estar
instituída em território nacional no início do procedimento de
captação, e o valor deverá ser utilizado para o desenvolvimento
da própria empresa que captou os recursos. Sua utilização,
portanto, não pode ocorrer para a realização de “fusão,
incorporação, incorporação de ações e aquisição de
participação em outras sociedades”, “aquisição de títulos,
conversíveis ou não, e valores mobiliários de emissão de outras
sociedades”, ou “concessão de crédito a outras sociedades.”
Para a realização de captação nessa modalidade, é
necessário que os documentos estejam bem consolidados, pois
eles que irão ser a apresentação formal da empresa para os
investidores. O próprio art. 8º, § 2º, obriga que a plataforma

não pode exceder R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais) no exercício social


encerrado no ano anterior à oferta.

[ 161 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

de investimentos apresente os documentos jurídicos da


empresa ofertada em uma seção especial.

“Art. 8º - A plataforma deve destinar uma página


na rede mundial de computadores, em língua
portuguesa, com as seguintes informações
mínimas sobre a oferta em uma seção
denominada “INFORMAÇÕES ESSENCIAIS SOBRE
A OFERTA PÚBLICA”, escrita em linguagem clara,
objetiva, serena, moderada e adequada ao tipo
de investidor a que a oferta se destina, seguindo
o formato, a ordenação das seções e o conteúdo
do Anexo 8 a esta Instrução. [...]
§ 2º A plataforma deve apresentar os
documentos jurídicos relativos à oferta numa
seção da página da oferta na rede mundial de
computadores denominada “PACOTE DE
DOCUMENTOS JURÍDICOS”, incluindo:
I – contrato ou estatuto social da sociedade
empresária de pequeno porte;
II – cópia da escritura de debêntures ou do
contrato de investimento que represente o valor
mobiliário ofertado, conforme o caso;
III – cópia do regulamento, contrato ou estatuto
social do veículo de investimento que constitui o
sindicato de investimento participativo, se houver;
e
IV – outros documentos relevantes à tomada de
decisão de investimento.”

Para os investidores, é necessário que este se enquadre


como investidor-qualificado, preenchendo um termo constante
no anexo 4-A da Instrução, que alerta sobre os riscos dessa
modalidade de investimento.

[ 162 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

“[...] Como investidor qualificado, atesto ser capaz


de entender e ponderar os riscos financeiros
relacionados à aplicação de meus recursos em
oferta pública de distribuição de valores
mobiliários de emissão de sociedades empresárias
de pequeno porte, realizada com dispensa de
registro na Comissão de Valores Mobiliários - CVM,
por meio de plataforma eletrônica de investimento
participativo. [...]”

A Instrução prevê ainda a figura do Investidor líder, que


é aquele que irá atuar como um guia na realização do equity
crowdfunding para os demais investidores, de modo a reduzir a
“assimetria informacional” entre os emissores e investidores. O
art. 2º, VI, da Instrução conceitua essa modalidade de
investidor como “pessoa natural ou jurídica com comprovada
experiência de investimento nos termos do art. 35, § 2º e
autorizada a liderar sindicato de investimento participativo.”.
Para o exercício de suas funções, este deverá cumprir uma
série de requisitos listados nos arts. 35 a 37 da norma.

9.3. Lei Complementar n.º 155/2016 e o


investidor-anjo

Outra boa novidade para o mundo dos investimentos foi


instituída pela Lei Complementar n.º 155, de 2016. A nova lei,
que alterou a antiga regulamentação do Simples Nacional,
também dispôs sobre expressamente sobre a realização de
investimentos-anjo, quando em seu art. 61-A tratou sobre a

[ 163 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

possibilidade de aporte de capital que não integrará o capital


social da empresa.
O que a legislação buscou foi regulamentar essa
modalidade de investimentos, muito presente no mundo das
startups, porém sem uma delimitação jurídica, o que gerava
insegurança aos empreendedores e investidores. Com a
redação da lei, criam-se limites na atuação de ambos
envolvidos nessa modalidade de investimento.
Essa regulamentação se dá do art. 61-A e prossegue ao
art. 64-D, cujo teor vale a leitura integral.

“Art. 61-A - Para incentivar as atividades de


inovação e os investimentos produtivos, a
sociedade enquadrada como microempresa ou
empresa de pequeno porte, nos termos desta Lei
Complementar, poderá admitir o aporte de capital,
que não integrará o capital social da empresa.
§ 1o - As finalidades de fomento a inovação e
investimentos produtivos deverão constar do
contrato de participação, com vigência não
superior a sete anos.
§ 2o - O aporte de capital poderá ser realizado
por pessoa física ou por pessoa jurídica,
denominadas investidor-anjo.
§ 3o - A atividade constitutiva do objeto social é
exercida unicamente por sócios regulares, em
seu nome individual e sob sua exclusiva
responsabilidade.
§ 4o - O investidor-anjo:
I - não será considerado sócio nem terá qualquer
direito a gerência ou voto na administração da
empresa;
II - não responderá por qualquer dívida da
empresa, inclusive em recuperação judicial, não se

[ 164 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

aplicando a ele o art. 50 da Lei no 10.406, de 10


de janeiro de 2002 - Código Civil;
III - será remunerado por seus aportes, nos
termos do contrato de participação, pelo prazo
máximo de cinco anos.
§ 5o - Para fins de enquadramento da sociedade
como microempresa ou empresa de pequeno
porte, os valores de capital aportado não são
considerados receitas da sociedade.
§ 6o - Ao final de cada período, o investidor-anjo
fará jus à remuneração correspondente aos
resultados distribuídos, conforme contrato de
participação, não superior a 50% (cinquenta por
cento) dos lucros da sociedade enquadrada como
microempresa ou empresa de pequeno porte.
§ 7o - O investidor-anjo somente poderá exercer o
direito de resgate depois de decorridos, no
mínimo, dois anos do aporte de capital, ou prazo
superior estabelecido no contrato de participação,
e seus haveres serão pagos na forma do art.
1.031 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002
- Código Civil, não podendo ultrapassar o valor
investido devidamente corrigido.
§ 8o - O disposto no § 7o deste artigo não
impede a transferência da titularidade do aporte
para terceiros.
§ 9o - A transferência da titularidade do aporte
para terceiro alheio à sociedade dependerá do
consentimento dos sócios, salvo estipulação
contratual expressa em contrário.
§ 10. - O Ministério da Fazenda poderá
regulamentar a tributação sobre retirada do capital
investido.
Art. 61-B - A emissão e a titularidade de
aportes especiais não impedem a fruição do
Simples Nacional.

[ 165 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Art. 61-C - Caso os sócios decidam pela


venda da empresa, o investidor-anjo terá direito
de preferência na aquisição, bem como direito de
venda conjunta da titularidade do aporte de
capital, nos mesmos termos e condições que
forem ofertados aos sócios regulares.
Art. 61-D - Os fundos de investimento poderão
aportar capital como investidores-anjos em
microempresas e empresas de pequeno porte.”

De forma simples, a legislação permite que haja o


aporte de capital por investidores sem que esse passe a
integrar o quadro societário da empresa, e sem deter nenhum
poder sobre a administração do negócio. Com isso, o
empreendedor é beneficiado com a manutenção da gestão de
sua empresa, uma vez que o § 4o do art. 61-A veda
expressamente a intervenção do anjo.
Além disso, o anjo goza da vantagem de ter o seu
patrimônio protegido de passivos empresariais que possam
ultrapassar o valor do seu aporte, além de não afetar o
enquadramento da empresa aportada no Simples Nacional.
A formalização deste instrumento deve ocorrer por meio
de contratos de participação, que devem obedecer as
especificações legais, como o prazo máximo de 7 anos de
vigência, sendo destes 5 de remuneração empresarial, sem
nunca ultrapassar o valor de 50% dos dividendos da empresa
para o anjo.

[ 166 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

9.4. Cuidados gerais na recepção de


investimentos

Demonstrado o interesse na realização de investimentos


por terceiros, o primeiro passo é realizar uma carta de
intenções entre os envolvidos, documento que vai demonstrar
os propósitos das partes em realizar e receber o ingresso do
capital, além de nortear quais serão as etapas e procedimentos
na realização do negócio.
Feito isso, é primordial também que as partes realizem
um acordo de confidencialidade, ou incluam tais cláusulas na
carta de intenções. Isso porque esse processo de ajustes
demanda a abertura de informações sigilosas da empresa, tais
como o faturamento, forma de funcionamento e estrutura
administrativa. Por isso os cuidados em proteger o vazamento
nesse processo de negociação são muitos relevantes.
Outra etapa a ser realizada é o valuation. Existem
empresas especializadas na realização de avaliação de
empresas, que utilizam diversos métodos para realizar esse
procedimento. Veja que a avaliação de valor de mercado de
uma startup difere das empresas tradicionais, pois a avaliação
dessas verifica basicamente sua parte contábil e o balanço dos
seus ativos e passivos. Já para as startups, o que
verdadeiramente vale é o seu potencial de crescimento
(contabilidade para a inovação), tendo em vista que essas
possuem a capacidade de aumentar exponencialmente suas
vendas e faturamento de forma imediata.

[ 167 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Por ser bastante complexa, essa etapa usualmente corre


em simultaneidade com as demais. Sua realização é
complicada, pois essa avaliação tem um caráter bem abstrato,
dependendo da análise de vários fatores, tais como o
posicionamento do produto no mercado e a expectativa de
evolução do negócio.
É a realização desse cálculo do valor da startup136 que
irá definir qual o montante a ser pago para que os investidores
obtenham ‘x’ porcento da propriedade da empresa. Em um
mero exemplo, caso a startup tenha seu o seu valuation
estimado em um milhão de reais, e os seus anjos tenham
disponível para investir na empresa 200 mil reais, estes terão
direito a adquirir 20% da empresa.
Por sinal, merece ressalva que a entrada de capital
amplia o valuation de uma empresa. Por isso, quando dizem
que uma startup atingiu um valuation de milhões de reais,
provavelmente este foi o valor que ela conseguiu arrecadar em
suas rodadas de investimentos.
Porém, lembre-se que a conta não é tão simples assim!
A realização de um investimento é uma negociação em que o
valuation é apenas um dos fatores.
Definido o valuation, cabe ainda aos sócios originários
observar quais serão as consequências jurídicas da entrada dos
novos sócios no negócio: irei perder a minha autonomia

136 Na reportagem Infográfico: como calcular o valuation de uma startup,


publicada no site Startupi, existem diversas imagens que simplificam os
estágios dessa estimativa numérica. Para mais informações, acesse:
<http://startupi.com.br/2014/06/como-calcular-o-valut/>. Há também
algumas “calculadoras” online para a realização do valuation. Uma delas está
listada na seção Informações Importantes deste livro.

[ 168 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

gerencial? Quem ficará com o poder da decisão final? Com as


cotas adquiridas, o novo sócio pode me retirar do negócio?
Terei consequências tributárias?
Outro aspecto a ser examinado diz respeito a que parte
do capital os sócios irão ceder naquela fase de investimentos.
Isso porque os empreendedores não devem “ir com muita sede
ao pote” no momento de tal recepção. A moderação deve ser
utilizada, pois a cessão de uma grande parte do percentual de
participação da empresa pode fazer com que os sócios
originários não tenham um capital social disponível no futuro
para obterem novos investimentos, sem que deixem de se
tornar os sócios majoritários ou até mesmo de participar da
empresa.

[ 169 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

10. ENCERRAMENTO E VENDA DA


STARTUP

Como todo ciclo, as empresas apresentam começo,


meio e fim. Uns empreendedores torcem para que o seu fim
demore bastante, se estabilizando no mercado e avançando
para níveis globais. Outros, para que o exit seja curto, mas com
uma rentabilidade incrível. Quem não queria ser sócio da
“Contrail Systems”, a startup americana que foi comprada por
US$ 176 milhões137 dois dias após o seu lançamento?
O fato é que, assim como a criação de uma startup
exige um planejamento, o seu encerramento/transferência para
terceiros também requer diversos cuidados. A manutenção da
startup com documentos antigos, ou a ausência de baixa em
órgãos estatais podem gerar inúmeros problemas ao negócio e
aos seus ex-sócios.
Primeiramente, trataremos do procedimento de
alienação. Na realização da venda ou cessão da startup, o
cuidado principal que os sócios devem ter se refere à
transmissão formal da startup aos adquirentes. Ou seja, os
documentos que atestam a venda devem ser averbados
perante o órgão onde a empresa se encontra constituída, e,
após isso, é importante que os alienantes comuniquem a todos

137 Startup com apenas três dias de vida é vendida por U$ 176 milhões.
CanalTech. 14 dez. 2012. Disponível em:
<http://corporate.canaltech.com.br/noticia/startups/Startup-com-apenas-tres-
dias-de-vida-e-vendida-por-US-176-milhoes/>. Acesso em: 25 jul. 2016.

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

os entes necessários, sejam eles públicos ou privados, acerca


da alteração da titularidade da propriedade da empresa.
É essencial também que os sócios retirem certidões
negativas de todos os órgãos, para que se resguardem em caso
de cobranças indevidas de débitos surgidos após a venda. Se a
venda não é comunicada a União, por exemplo, débitos
tributários poderão gerar execuções fiscais que, em algum
momento, poderão atingir os bens dos ex-proprietários da
empresa.
Por sua vez, para o procedimento de encerramento,
cada modelo societário possui um trâmite próprio para a
declaração do fim de suas atividades, que deve ser observado
nas suas disposições legais.
Por exemplo, para as Sociedades Limitadas, o Código
Civil dispõe que a dissolução da sociedade ocorre quando
configuradas alguma das situações previstas nos arts. 1.033 e
1.044 do Código Civil.138
Ocorrida uma das situações legais (que englobam
também a decisão dos sócios em encerrar as atividades), a
liquidação ocorrerá nos moldes definidos nos arts. 1.102 a
1.112 da mesma lei.

138 Art. 1.033. Dissolve-se a sociedade quando ocorrer: I - o vencimento do


prazo de duração, salvo se, vencido este e sem oposição de sócio, não entrar
a sociedade em liquidação, caso em que se prorrogará por tempo
indeterminado; II - o consenso unânime dos sócios; III - a deliberação dos
sócios, por maioria absoluta, na sociedade de prazo indeterminado; IV - a
falta de pluralidade de sócios, não reconstituída no prazo de cento e oitenta
dias; V - a extinção, na forma da lei, de autorização para funcionar.
Art. 1.044. A sociedade se dissolve de pleno direito por qualquer das causas
enumeradas no art. 1.033 e, se empresária, também pela declaração da
falência.

[ 171 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Assim, a assembleia de sócios deverá elaborar a ata de


encerramento da empresa, nomeando um “liquidante”, que não
pode ser um administrador da empresa, tendo este função de
realizar os procedimentos necessários para o encerramento
integral das atividades (seus deveres estão listados no art.
1.103 do CC).
Deve ser elaborado também o “Distrato Social”,
documento que irá dispor sobre o encerramento da empresa e
suas consequências importantes, tais como ocorrerá a divisão
dos ativos ou passivos existentes entre os sócios.
Por sua vez, nas Sociedades Anônimas, os
procedimentos de dissolução, liquidação e extinção estão
listados nos arts. 206 a 219 da Lei das S.A.
Realizado o procedimento de encerramento formal da
empresa, com o fim de suas atividades, os empreendedores
(ou o liquidante) devem realizar as seguintes apurações:

a) Regularidade no recolhimento do FGTS: se a


startup possuiu funcionários via CLT, é importante
verificar se existem débitos na Caixa Econômica
Federal referente ao recolhimento de tais valores.
Caso a situação esteja regularizada, a empresa
deverá requisitar a Certidão de Regularidade do
Fundo de Garantia (CRF).
b) Verificar a existência de débitos
previdenciários e tributários federais: o
contribuinte deverá acessar o E-cac da Receita
Federal para verificar a existência de débitos que
possam existir perante à Receita Federal ou que já
estejam em processo de ajuizamento pela
Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN).

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Caso não hajam débitos, é importante requisitar as


certidões negativas de débitos.
c) Verificar a existência de débitos tributários
estaduais e municipais: também é importante que
os empreendedores verifiquem perante os fiscos
dos municípios e estados onde atuam se há
débitos tributários. Não havendo, deverá ocorrer a
emissão das certidões negativas de débitos por
tais entes.
d) Encerramento de contas bancárias: apesar de
não ser um procedimento essencial para o
fechamento da empresa, esse procedimento
(juntamente com a liquidação de débitos perante
os credores e funcionários) é essencial para que a
empresa e seus ex-sócios não tenham problemas
com cobranças indevidas no futuro.

Obtidas todas as certidões, o documento de


encerramento da empresa (distrato social, ou formulários para
empresários individuais) devem ser averbados perante à Junta
Comercial (ou perante o órgão competente139), juntamente com
todas as certidões negativas obtidas, realizando todo o
procedimento de baixa da startup neste órgão. Os sócios
devem guardar consigo cópias de toda essa documentação,
como forma de se resguardarem de reveses futuros.
Feito isso, o último passo é a realização da baixa no
CNPJ e nas inscrições estaduais e municipais.
Encerrado esse procedimento, pode-se, por fim,
declarar o fim da startup de uma forma segura para todos os
envolvidos.

139Para as Sociedades Anônimas, a Comissão de Valores Mobiliários é o órgão


responsável para realização de tais atividades.

[ 173 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

11. DICAS GERAIS

Todo aquele que busca empreender, principalmente no


ramo das startups, deve estar sempre em busca de
conhecimento. Nessa área que envolve tecnologia, o saber é
muito importante e, ao mesmo tempo, volátil. Algo que é
moderno hoje, amanhã pode ser considerado ultrapassado.
Assim, para que o seu projeto não comece obsoleto, ou
para que sua startup não entre na bolha das empresas que não
possuem um diferencial para o mercado, é importante que os
seus empreendedores e colaboradores estejam sempre se
atualizando.
Nesse tópico, a área jurídica fica um pouco de lado, e
entra em evidência o lado empreendedor. Assim, listei algumas
dicas de sites, livros, séries e ferramentas que acredito que são
importantes, de alguma forma, para aqueles que estão
iniciando nesse mundo.
Espero que aproveitem!

Sites

Angel List: voltado para a recepção de investimentos,


realização de investimentos e obtenção de empregos em
startups.
https://angel.co/

Awesomeweb: encontre freelancers na área de webdesign e


desennvolvimento web.
https://www.awesomeweb.com

[ 174 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Beta List: busca reunir as startups que estão mais conectadas


com o futuro. As ideias mais avançadas e modernas estão aqui.
https://betalist.com/

Crew.co: encontre freelancers na área de webdesign e


desennvolvimento web.
https://crew.co

Erli Bird: empresa online que auxilia na mensuração da


usabilidade de um aplicativo, site ou programa, fornecendo
dados acerca dos potenciais usuários e resultados do produto.
https://erlibird.com/

EXAME: revista online que aborda temas variados de negócios


e empreendedorismo.
http://exame.abril.com.br

Foundrs: calculadora online que auxilia na divisão da


participação da empresa entre os fundadores.
http://foundrs.com/

How much to make an app: auxilia no cálculo do custo


financeiro da elaboração de um aplicativo.
http://howmuchtomakeanapp.com/

Pitcherific: auxilia na elaboração e treinamento dos pitchs.


https://pitcherific.com/

Product Hunt: reúne uma coletânea dos melhores produtos


relacionados à tecnologia.
https://www.producthunt.com

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

SEBRAE Canvas: ferramenta de planejamento de negócios,


que permite a interação entre os usuários.
https://www.sebraecanvas.com

StartSe: informativo online que trata de temas importantes


para a área das startups.
http://startse.com.br

Startupi: página de informações voltadas para startups.


http://startupi.com.br

TechCrunch: informativo online sobre as últimas tecnologias.


https://techcrunch.com/

Tecmundo: site de informações sobre tecnologias em geral.


http://tecmundo.com.br

Podcasts, filmes e séries

A rede social: película que mostra a história da criação da


rede social Facebook. Direção de David Fincher.

House of Cards: série exibida pela Netflix que retrata os


bastidores da política norte-americana. Fornece lições de
negociação e networking em ambientes hostis.

How to start a Startup: série de áudios e vídeos idealizadas


pela aceleradora Y Combinator e a Universidade de Columbia
sobre como iniciar uma startup. Gratuito e em inglês. Também
disponível no podcast do Itunes.
https://startupclass.co/

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

O lobo de Wall Street: filme que retrata o submundo das


bolsas de valores, com base na história real de Jordan Belford,
corretor de títulos da Bolsa de Valores de Nova York. Direção
de Martin Scorsese.

O negócio: a série brasileira exibida pela HBO mostra a


atuação de três mulheres que resolvem mudar um mercado
tradicional usando técnicas administrativas e de marketing: o
da prostituição de luxo.

O sócio: série que exibe a atuação do investidor Marcus


Lemonis, que reestrutura pequenas e médias empresas que
estão prestes a encerrar suas atividades. Mostra como uma
gestão eficiente e capacitada pode mudar o rumo do seu
negócio.

Silicon Valley: narra a trajetória de programadores que


buscam construir uma startup no Vale do Silício, o maior polo
de desenvolvimento tecnológico do mundo.

Walt antes do Mickey: filme que mostra a história real de


Walt Disney, e toda a sua superação antes de criar o
personagem de desenho mais famoso de todos os tempos.
Direção de Khoa Le.

Instituições

Associação Brasileira de Propriedade Intelectual


(ABPI): instituição sem fins lucrativos voltada para o estudo
da propriedade intelectual.
http://www.abpi.org.br

[ 177 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Biblioteca Nacional: órgão responsável pelo registro e


depósito de todas as publicações produzidas em território
nacional.
http://www.bn.br

Domínio Público: biblioteca digital de acervos que se


encontram em situação de domínio público.
http://www.dominiopublico.gov.br

Endeavor: organização de apoio a empreendedorismo e


empreendedores de alto impacto.
http://endeavor.org.br

InovAtiva Brasil: programa de aceleração e capacitação de


startups.
http://www.inovativabrasil.com.br/

Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI):


principal órgão de registro e depósito de propriedade industrial
e intelectual no Brasil. No site, é possível encontrar diversos
manuais de procedimento de registro e patenteamento de uma
criação.
http://www.inpi.gov.br

Organização Mundial da Propriedade Intelectual


(WIPO): instituição de regulamentação da propriedade
intelectual em âmbito mundial.
http://www.wipo.int

Portal do Empreendedor – MEI: portal online com diversas


informações acerca do Microempreendedor Individual.
http://www.portaldoempreendedor.gov.br/

[ 178 ]
Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

SEBRAE: é o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas


Empresas. Fornecem diversos tipos de suportes a tais
entidades.
http://www.sebrae.com.br

Startup Brasil: programa do governo federal que atua em


âmbito nacional na aceleração de startups.
http://startupbrasil.org.br

Livros

A estratégia do oceano azul, de W. Chan Kin e Renee


Maugborne.

Blá Blá Blá: o que fazer quando as palavras não


funcionam, de Dan Roaam.

Direito das startups, coordenado por Lucas Pimenta Júdice e


Erik Fontenele Nybo.

Geração de valor, de Flávio Augusto da Silva.

Lean Thinking (o pensamento enxuto), de James P.


Womack e Daniel T. Jones.

Rework, de Jason Fried.

Startup Brasil, de Marina Vidigal e Pedro Mello.

Startup: manual do empreendedor – o guia passo-a-


passo para construir uma grande empresa, de Steve
Blanck e Bob Dorf.

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Startups e inovação: direito no empreendedorismo,


coordenado por Tarcísio Teixeira e Alan Moreira Lopes.

Steve Jobs, de Walter Isaacson.

The art of start, de Guy Kawasaki.

The Lean Startup, de Erick Ries.

Venture Deals: Be Smarter Than Your Lawyer and


Venture Capitalist, de Brad Feld, Jason Mendelson e Dick
Costolo.

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Direito para startups, por Lucas Bezerra Vieira

Dúvidas, elogios, sugestões e críticas podem ser


encaminhadas para:

lucasvieira@qbb.adv.br

@direitoparastartups
@qbbadvocacia

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