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Uso de cinza pesada na produção de concreto

autoadensável
Wellington L Repette, Lígia V. M. Siqueira, Lucas Onguero, André G. F. Cruz, Agostinho J. Dalmoro,
Mário G. Palombo

volume de cinza produzido [1]. Por outro lado, o uso da cin-


Resumo – Grandes volumes de cinza leve e pesada resultam za pesada, que corresponde a quase 25% da massa de cinza
da queima de carvão mineral nas usinas termoelétricas. Embo- residual produzida, é incipiente e pouco disseminado. Nesse
ra parte considerável da porção de cinza leve seja empregada contexto, o desenvolvimento de materiais que possam in-
na produção de cimento Portland composto, a destinação atual corporar maiores volumes de cinza de carvão justifica-se por
da cinza pesada é muito restrita e agrega baixo valor ao mate- permitir a destinação apropriada desse resíduo, agregando
rial, representando elevados custos de manipulação e destina-
valor ao mesmo e, principalmente, beneficiando o meio am-
ção às usinas produtoras de energia elétrica. Este trabalho
relata parte dos resultados de uma pesquisa em andamento que biente.
visa a utilização de grandes volumes de cinza pesado e leve na Hoje em dia, em decorrência dos avanços na área de ma-
produção de concreto autoadensável. Os resultados apresenta- teriais de construção, o concreto, o material mais empregado
dos neste artigo concernem a investigação sobre a cinza pesada na construção civil, passou a ter características especiais,
quanto à variabilidade do material na bacia de deposição, suas adequando-se às necessidades de aplicação e trazendo van-
características químicas e físicas e o processamento para uso tagens aos usuários. Dentre os tipos de concreto mais impor-
em concreto autoadensável. Os resultados do uso em pastas de tantes e de maior repercussão desenvolvidos na última déca-
cimento confirmam o potencial do uso da cinza em concreto e da está o concreto autoadensável [2]. Trata-se de um materi-
também apontam para a possível utilização da cinza moída
al com grande capacidade de escoar e que dispensa o aden-
como adição ativa na produção de cimento Portland composto,
trazendo benefícios econômicos e ambientais de grande magni- samento para a sua utilização. Essas características especiais
tude. fazem do concreto autoadensável um material de grande
interesse por promover a redução dos custos de aplicação e
Palavras-chave – concreto autoadensável, cinza pesada, cinza por resultar em estruturas e componentes de grande qualida-
volante, resíduo de. Sua aplicação pode se dar na construção de novas estru-
turas, nas indústrias de pré-moldados e pré-fabricados, e nos
I. INTRODUÇÃO reparos e reforços necessários à manutenção e recuperação
das construções em concreto armado e protendido. Em ter-
mos de composição, o concreto autoadensável é produzido
O projeto ANEEL a que este artigo se refere tem como tí- basicamente com os mesmos materiais utilizados para a
tulo “Utilização de cinzas volante e pesada na produção de produção de concreto convencional, com as distinções de
concreto autoadensável de elevado desempenho para uso na serem necessárias as utilizações de um aditivo superplastifi-
construção e manutenção de obras civis”, sendo identificado cante de grande eficiência (normalmente de base policarbo-
pelo código PD-0403-0007/2008. O projeto está em execu- xilato de sódio) e de um maior volume de partículas finas
ção e tem como entidade executora a Universidade Federal complementares ao cimento, em teores que, geralmente,
de Santa Catarina – UFSC e recebe suporte financeiro da estão entre 150 e 250 kg/m3 de concreto. O aditivo superflu-
empresa Tractebel Energia. idificante e o elevado teor de partículas finas conferem as
Grandes volumes de cinza de carvão, volante ou pesada, propriedades reológicas ideais ao concreto autoadensável –
resultam da produção de energia elétrica em usinas termoe- baixa tensão de escoamento e viscosidade plástica suficiente
létricas. Atualmente, as cinzas volantes têm na fabricação de para não permitir as segregações estática e dinâmica das
cimento portland a sua destinação mais comum, apesar do partículas.
consumo ser ainda insuficiente para a utilização de todo o O interesse pelo tema que é foco dessa pesquisa recai no
fato de que certamente a cinza volante e, potencialmente, a
Este trabalho foi desenvolvido no âmbito do Programa de Pesquisa e cinza pesada, são insumos que podem ser empregados como
Desenvolvimento Tecnológico do Setor de Energia Elétrica regulado pela materiais à parcela de finos, portanto, em grande volume, na
ANEEL e consta dos Anais do VI Congresso de Inovação Tecnológica em produção de concreto autoadensável, independentemente do
Energia Elétrica (VI CITENEL), realizado em Fortaleza/CE, no período de
17 a 19 de agosto de 2011. caráter pozolânico que estes resíduos possam eventualmente
Este trabalho foi apoiado pela Tractebel Energia através do Programa de apresentar. Em adição ao concreto, as cinzas encontrariam
P&D da Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL. uma utilização nobre na produção de um concreto inovador,
W. L Repette, L. V. M. Siqueira, L..Onguero e A.G. F. Cruz trabalham de uso potencialmente abrangente, e que tem interesse cres-
no Departamanto de Engenharia Civil da Universidade Federal de Santa cente no setor da Construção Civil. Além disso, a destinação
Catarina – Campus Florianópolis (e-mail:wellington.repette@gmail.com).
de grandes volumes de resíduos gerados pelas usinas termo-
J. A. Dalmoro e M. G. Palombo trabalham na Tractebel Energia (e-mail:
dalmoro@tractebelenergia.com.br). elétricas para a fabricação de outro material representará
benefícios ambientais e redução do impacto da atividade de
produção de energia elétrica ao meio ambiente.
Uma análise da viabilidade econômica do projeto ratifica
a sua importância para a empresa. Dados dos custos de ope-
ração do Complexo Jorge Lacerda indicam que a produção
mensal de cinza pesada está em torno de 16 mil toneladas.
Os custos com transporte da área de recuperação dessa cinza
até as bacias de destinação chegam próximos a R$10,00 por
tonelada (valores de 2009). Dessa forma, somente no trans-
porte existe o potencial da pesquisa resultar em economia de
aproximadamente R$160.000,00 por mês. Não obstante,
outras vantagens com reflexos econômicos advêem da redu-
Figura 1. Amostra de cinza pesada coletada.
ção ou eliminação das áreas de destinação (bacias), redução
ou eliminação de custos com esvaziamento das bacias, mai-
Para a análise das amostras de cinza pesada foram reali-
or facilidade de obtenção de licenciamento para ampliação
zados os seguintes ensaios em no máximo nove das amos-
de produção ou instalação de novas unidades produtoras e
tras coletadas:
redução dos custos ambientais de emissão de CO2.
− Análise química através de Espectrometria de Fluores-
Em resumo, a pesquisa em desenvolvimento investiga
cência de Raios-X - (FRX) (Philips Analytical model
uma alternativa inovadora para o uso de volumes considerá-
PW 2400) para verificar os 10 principais óxidos (SiO2,
veis de cinza volante e pesada na obtenção de um material
Al2O3, Fe2O3, CaO, K2O, Na2O, MgO, MnO, P2O5,
inovador de grande interesse para o setor da Construção
TiO2).
Civil, que é o concreto autoadensável.
− Análise por Difratometria de Raios-X (DRX Identificação
Neste artigo, serão apresentados os resultados parciais da
de fases minerais (Método do Pó)), com Theta variando
pesquisa com foco na caracterização, processamento e utili-
de 5o a 90o (Philips Analytical model PW 1830).
zação de cinza pesada na produção de pastas e argamassas
autoadensáveis com vistas à utilização deste resíduo, em − Distribuição granulométrica por granulometria por difra-
grandes volumes, na produção de concretos autoadensáveis. ção de laser, método a seco (CILAS 1064 Laser Granu-
lometer) para os grãos com dimensões entre 0,425mm e
0,001mm e por peneiramento a seco para grãos com di-
II. DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA mensões entre 9,5mm e 0,15mm (nove amostras).
Este trabalho relata os resultados parciais obtidos quanto Os resultados da composição química das cinzas pesadas
ao uso de cinza pesada moída na produção de pastas autoa- estão apresentados na figura 2. Observa-se que os principais
densáveis de cimento Portland. Primeiramente são apresen- compostos da cinza pesada são a sílica e a alumina, além de
tados os resultados da avaliação da variabilidade das carac- conter baixo teor de óxido de cálcio. O teor de carbono or-
terísticas da cinza pesada na bacia de deposição. Em seguida gânico é pequeno, estado por perda ao fogo como menor do
são relatados os resultados da produção e caracterização de que 3%, e não deve causar problemas no uso com o cimento,
cinzas pesadas moídas para emprego na produção dos con- dentre os quais se destacariam a maior demanda por água
cretos autoadensáveis. Os resultados dos ensaios realizados nas misturas e a incompatibilidade com aditivos superplasti-
para verificação da influência da incorporação de elevados ficantes. Se utilizada a classificação empregada para cinza
teores de cinza pesada moída em pastas autoadensáveis são volante descrita na ASTM C 618, a cinza pesada analisada
apresentados. enquadra-se na categoria F, que tem teor de óxido de cálcio
menor do que 10% [3]. Nesse particular, seu potencial é
elevado para que atue como pozolana se adicionada ao ci-
A. Avaliação da variabilidade da cinza pesada mento Portland. A variabilidade das cinzas, no que se refere
O conhecimento da variabilidade das características físi- à composição química, é baixa, seja no que diz respeito à
cas e químicas da cinza pesada na bacia de deposição é fun- profundidade de coleta como à posição na bacia de armaze-
damental para a avaliação do potencial de uso na confecção namento. A análise mineralogical indica principamente a
de concretos. Ao todo, foram coletadas dezenove amostras presença de quartzo (SiO2), mulita (3Al2O3.2SiO2) e hemati-
com aproximadamente 10 kg cada, obtidas em nove locais ta (Fe2O3).
distintos da bacia de deposição do Complexo Termelétrico
Jorge Lacerda, localizado na cidade de Capivari de Baixo,
Santa Catarina (SC). As profundidades de coleta variaram
entre a superfície, identificadas a como amostras A, e 1,5m,
identificadas como amostras B. A figura 1 mostra uma das
amostras de cinza pesada coletadas e ensaiadas.
70 ção.
Cinza 3A
60 Os resultados de distribuição granulométrica indicam que
)a Cinza 3B
ss 50 a cinza pesada apresenta variação de distribuição de tama-
a Cinza 7A
m nho de partículas tanto na extensão quanto na profundidade
, 40 Cinza 7B
%
( 30 da bacia de deposição. Essa variação é mais expressiva para
r Cinza 9A
o
e
T 20
a faixa de partículas com dimensões acima de 0,425mm. A
Cinza 9B
quantidade de partículas finas tende a ser maior na porção
10
superficial (amostras A) do que na porção com profundidade
0
SiO2 Al2O3 Fe2O3 K2O CO2* CaO TiO2 MgO
de aproximadamente 1,5m (amostras B). Os resultados indi-
cam que a cinza pesada terá que sofrer classificação por
Figura 2. Teores dos elementos químicos constituintes da cinza pesada.
peneiramento ou moagem para que seja utilizada como par-
tículas finas em concreto autoadensável.
As curvas de distribuição dos tamanhos das partículas es-
tão apresentadas nas figuras 3 e 4. Os resultados mostram
que as distribuições granulométricas são distintas para as B. Ensaios em pasta para avaliação da potencialidade do
cinzas coletadas na bacia de deposição, sendo que a fração uso da cinza pesada
de partículas finas tem variação em função da profundidade Os ensaios em pasta objetivaram a avaliação da potencia-
e da posição da área de coleta. Os teores de finos, admitidos lidade do uso da cinza pesada em concreto autoadensável,
nessa análise como a fração de partículas com dimensões tanto no aspecto reológico (fluidez, estabilidade da mistura)
menores do que 0,15mm, variam de 57% a 15% da massa quanto no aspecto de efeito na resistência. Nesta fase dos
total, de forma que se utilizada in natura, a cinza pesada estudos, empregaram-se cinzas moídas em moinho de bolas
produziria variabilidade significativa no concreto. de pequeno porte e sob diferentes energias de moagem. O
objetivo foi produzir cinzas pesadas moídas com diferentes
100 distribuições granulométricas, de forma a ser possível aferir
) 90
o efeito do grau de moagem no comportamento das pastas.
%
( 80
a Para a produção das pastas empregou-se cimento Portland
d
a
l
u 70 Cinza 3A de alta resistência inicial CP V ARI-RS, com características
m
u
c 60
Cinza 3B que atenderam os requisitos das normas NBR 5733/1992 e
A
te 50
n
Cinza 7A
NBR 5737/1993. Para se obter a autoadensabilidade das
a
s 40
s
Cinza 7B
pastas, mantendo-se a relação água/cimento (em massa),
a Cinza 9A
P 30
a Cinza 9B
utilizou-se o aditivo superplastificante GLENIUM 51
s
s
a 20 (BASF), de base policarboxilato de sódio.
M
10 Empregando-se diferentes energias de moagem, produzi-
0 ram-se 3 cinzas em moinho de bolas. A moagem deu-se
0.100 0.010 0.001 0.000

Diâmetro médio dos grãos (mm)


após a secagem da cinza pesada bruta em estufa a 110°C por
pelo menos 24 horas. As distribuições de tamanho de partí-
Figura 3. Distribuição granulométrica das cinzas pesadas – partículas
culas foram determinadas por granulometria a laser e estão
com dimensões entre 0,425mm e 0,001mm (determinação por granulome-
tria à laser). apresentadas na figura 5. Os resultados indicaram que as
cinzas 1 e 2 apresentaram, para efeitos práticos, mesma dis-
tribuição granulométrica, sendo, então, consideradas como
100
mesma cinza e identificada como cinza 1 quando da produ-
) 90
(% 80
ção das pastas de cimento. A cinza 1 corresponde ã cinza
a
d
a
mais fina, e a 3 é a mais grossa. O material resultante mais
l Cinza 3A
u 70
m Cinza 3B
fino foi denominado cinza 1 e, o mais grosso, cinza 3. A
u 60
c
A Cinza 7A cinza 1 apresentou massa específica de 2,40 g/cm³ e a cinza
e
t 50
n
a
Cinza 7B
3 de 2,14 g/cm³.
s 40 Cinza 9A
s
a Cinza 9B
P 30
a Cinza 2A
s
s 20 Cinza 2B
a
M Cinza 5A
10

0
10 1 0.1

Diâmetro médio dos grãos (mm)

Figura 4. Distribuição granulométrica das cinzas pesadas – partículas


com dimensões entre 9,5mm e 0,15mm (determinação por peneiramento a
seco).

A variabilidade das cinzas, no que se refere à composição


dos elementos químicos, é baixa, seja no que diz respeito à
profundidade de coleta como à posição na bacia de deposi-
100

) 90
%
( 80
a
d
a
l 70
u Cinza 1
m
u
c 60 Cinza 2
A
te 50
n Cinza 3
a
s 40
s
a
P 30
a
s
s 20
a
M
10

0
0.100 0.010 0.001 0.000

Diâmetro médio dos grãos (mm)

Figura 5. Distribuição granulométrica das cinzas pesadas moídas – par-


tículas com dimensões entre 0,425mm e 0,001mm (determinação por gra-
nulometria à laser).

Após peneiramento a seco, as porções das cinzas pesadas


moídas passantes na peneira foram analisadas por Fluores-
cência de Raios-X - (FRX). Os resultados estão apresenta-
dos na figura 6 e indicam haver uniformidade na composi-
ção química entre as amostras.

70
Figure 7. Microfotografia da Cinza 1 obtida ao MEV. Aumento de 100x
)a
60 (acima) e 750x (abaixo).
ss 50 Cinza 1
a
m
, 40 Cinza 2
%
( 30 Cinza 3
r
o
e
T 20
10
0
SiO2 Al2O3 Fe2O3 K2O CO2* CaO TiO2 MgO

Figura 6. Teores dos componentes químicos constituintes das cinzas pe-


sadas moídas.

Imagens das duas cinzas moídas foram obtidas por mi-


croscopia eletrônica de varredura (Philips XL30) a 10kV e
estão apresentadas nas figuras 7 e 8, mostrando que a Cinza
3 é mais grossa mas apresenta partículas mais arredondadas,
enquanto que a Cinza 1 é mais fina mas possui partículas
com forma mais irregular. Ambas apresentam elevada poro-
sidade.

Figure 8. Microfotografia da Cinza 3 obtida ao MEV. Aumento de 100x


(acima) e 750x (abaixo).

Estudos em pastas auto-adensáveis


As pastas avaliadas nessa fase apresentavam relação em
massa de 1 : 0,42 de cimento e água, sendo que as cinzas
pesadas moídas foram acrescentadas nas proporções de
10%, 25% e 40% em relação à massa de cimento. Antes do
preparo das pastas, os materiais componentes foram deixa-
dos em sala climatizada por pelo menos 12 horas, sob 25°C.
As pastas foram misturadas em argamassadeira, com os ma- Figura 10. Tempo de escoamento no ensaio de funil de Marsh.
teriais à temperatura de 23±2 oC. Para a avaliação das pastas
foram determinados os tempos de escoamento em Funil de
Marsh e o diâmetro de espalhamento no ensaio de mini- 250

Abertura final no mini-slump (cm)


Slump (figura 9). Os teores de superplastificante variaram
200
para que o espalhamento (mini-slump) das pastas resultasse CP
em 150mm±50mm, sem que houvesse segregação. Na tabela 150 10%
I apresentam-se as composições das pastas utilizadas neste 25%
programa experimental. 100
40%

50

0
Cinza 1 Cinza 3
Cinza Pesada

Figura 11. Abertura (espalhamento) final no ensaio de mini-slump.

Caracterização reológica (viscosímetro rotacional de cilin-


dros concêntricos)
O ensaio de reologia das pastas teve início 5 minutos após
Figura 9. Funil de Marsh (esquerda) e tronco de cone do ensaio de mini- a produção das amostras e foi realizado em um viscosímetro
slump (direita). rotacional de cilindros concêntricos de marca Thermo Haake
DC 10, modelo VT 500. O controle da temperatura dos en-
saios (23,0±0,5°C) foi feito através de um banho termostáti-
co acoplado ao equipamento. As análises reológicas foram
obtidas com variação da taxa de deformação de 0 a 150 s-1
(curva ascendente) e de 150 a 0 s-1 (curva descendente), com
Tabela I. Composições das pastas (em massa)
um tempo de 90 segundos para cada curva. Determinações
Cinza subseqüentes foram realizadas aos 30 minutos e 60 minutos
Cimento Água Superplas- para avaliação das alterações das propriedades reológicas
Mistura Pesada
CPV (kg) (kg) tificante (g) em função do tempo após o preparo das misturas. Na figura
(kg)
CP (Referência) 1 0,42 0,00 1,5 12 estão apresentados os resultados dos ensaios realizados
10% cinza 1 1 0,42 0,11 2,2 após 5 minutos de preparo das pastas.
25% cinza 1 1 0,42 0,33 4,0 A determinação dos parâmetros reológicos deu-se por re-
40% cinza 1 1 0,42 0,67 10,8 gressão linear das curvas tensão–taxa através do uso da
10% cinza 3 1 0,42 0,11 2,8 equação 1, denominada equação de Herschel-Bulkley (HB) .
25% cinza 3 1 0,42 0,33 5,3
[6]:

40% cinza 3 1 0,42 0,67 13,3
τ = τ0 + k γ n (1)
onde τ = tensão de cisalhamento (Pa), τ0 = tensão de es-
Os ajustes dos teores de aditivo superplastificante de base •
policarboxilato foram realizados para cada pasta objetivando coamento (Pa), , γ = taxa de cisalhamento (s-1), k = índice
a produção de misturas auto-adensáveis [4, 5]. Os referidos de consistência, n = índice de comportamento do fluido.
tempos de escoamento e diâmetro de espalhamento estão Para n < 1, o fluido é pseudoplástico; n = 1, newtoniano; e n
apresentados, respectivamente, nas figuras 10 e 11. Não > 1, dilatante.
houve segregação dos materiais durante e após os ensaios de A viscosidade plástica (µ’) foi calculada empregando-se a
fluidez e espalhamento. equação 2 desenvolvida por De Larrard, Ferraris e Sedran
[7]:
3.k • n −1
120 µ' = γ max
n+2 (2)
Tempo de escoamento (s)

100

CP
γ
80
10%
onde max é a taxa máxima de cisalhamento alcançada no
60 25%
ensaio.
40 40%
Os valores de tensão de escoamento e da viscosidade
plástica para todas as pastas estudadas estão apresentadas,
20
respectivamente, nas figuras 13 e 14.
0 Os resultados indicam ser satisfatória a incorporação de
Cinza 1 Cinza 3 cinza moída nos teores de 10% e 25% em relação à massa
Cinza Pesada
de cimento para a produção de pastas auto-adensáveis. Hou-
ve, inclusive, diminuição da demanda por aditivo superplas- de 40% parece ser inadequado para a produção das pastas
tificante, o que representa maior economia na produção das auto-adensáveis.
pastas. Para as finuras de cinza estudadas, o teor de adição

100
CP- 0% Cinza
90
Cinza 1 - 10%
Cinza 3 - 10%
)a 80
P Cinza 1 - 25%
(
o Cinza 3 - 25%
t 70
n Cinza 1 - 40%
e
m
a
60 Cinza 3 - 40%
h
la
si 50
c
e
d 40
o
ãs
n 30
e
T
20

10

0
0 20 40 60 80 100 120 140 160
Taxa de cisalhamento (1/s)

Figura 12. Curvas reológicas obtidas após 5 minutos do preparo das pastas.

3.50
)
a 3.00
P
(
o
t 2.50
n
e CP
m 2.00
a Cinza 1
o
c
s 1.50 Cinza 3
e
e
d
o 1.00
ã
s
n 0.50
e
T
0.00
5 30 60 5 30 60 5 30 60
10% 25% 40%
Tempo (min)
Figura 13. Variação da tensão de escoamento em função do teor e finura da cinza pesada e do tempo decorrido após o preparo das pastas.
0.60
)
s
. 0.50
a
P
(
a
c
it 0.40 CP
s
á
l Cinza 1
p 0.30
e Cinza 3
d
a
d
i 0.20
s
o
c
is 0.10
V
0.00
5 30 60 5 30 60 5 30 60
10% 25% 40%
Tempo (min)
Figura 14. Variação da viscosidade plástica em função do teor e finura da cinza pesada e do tempo decorrido após o preparo das pastas.

Resistência à compressão fc (7d)


)
Para cada pasta foram moldados cinco corpos de prova ci- a
P 60.0
líndricos de 5cmx10cm, tendo sido desmoldados após 48 (M
o 50.0
ãs
horas e submetidos a cura por imersão até as datas de ruptu- s CP (ref)
re 40.0
ra. O ensaio de resistência à compressão foi realizado con- p 10%
m 30.0
forme a NBR 7215/1996. Os topos dos corpos de prova fo- o
c 25%
à 20.0
ram fresados com 24 de antecedência da ruptura, que ocor- ai
c
40%
n 10.0
reu aos 7 dias e 28 dias, com os corpos de prova ainda satu- ê
ts
is 0.0
rados. A figura 15 ilustra os corpos de prova e as formas e
R Cinza 1 Cinza 3
típicas de ruptura à compressão obtidas. Os resultados de
resistência das pastas aos 7 dias e aos 28 dias estão apresen- Cinza Pesada
tados, respectivamente, nas figuras 12 e 13. Figura 16. Resistências à compressão aos 7 dias.

) fc (28d)
a
P 90.0
(M 80.0
o
ãs 70.0
s CP (ref)
e
r 60.0
p 50.0 10%
m
o
c 40.0 25%
à 30.0
ai 40%
c 20.0
n
ê
ts 10.0
is 0.0
e
R Cinza 1 Cinza 3

Cinza Pesada

Figura 17. Resistências à compressão aos 28 dias.

Observou-se que não houve comprometimento da resis-


tência à compressão, nem mesmo para o teor de adição de
cinza pesada moída no valor de 40% em adição em relação à
massa de cimento. São resultados animadores e que sugerem
a ocorrência de atividade pozolânica das cinzas pesadas mo-
ídas.
Figura 15. Corpos de prova (acima) e formas de ruptura típicas (abaixo)
nos ensaios de resistência à compressão das pastas com cinza pesada moí-
da. III. CONCLUSÕES
As caracterizações químicas e de granulometria e os re-
sultados de reologia e de resistência à compressão obtidos
para as pastas de cimento indicam ser grande o potencial do
uso de teores elevados de cinza pesada na produção de con- IV. AGRADECIMENTOS
cretos autoadensáveis. Os autores agradecem o financiamento a esta pesquisa
A variabilidade da distribuição granulométrica identifica- proporcionado pela Tractebel Energia no âmbito do progra-
da na bacia de deposição aponta para a necessidade de se ma de P&D da Agência Nacional de Energia Elétrica –
proceder a classificação e a moagem da cinza para a obten- ANEEL.
ção de partículas com finura elevada a ponto de serem utili-
zadas como a fração fina de concretos autoadensáveis. Por
outro lado, verificou-se que existe uniformidade das caracte- V. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
rísticas químicas das amostras coletadas nos diferentes pon- [1] V. M. MALHOTRA, P. K. MEHTA. High-performance, high-volume
fly ash concrete - Materials, mixture proportioning, properties, con-
tos da bacia, fato que torna a captação da cinza uma opera-
struction practice, and case histories. Ottawa, 2002.
ção mais simples e de menor custo. [2] W. L. REPETTE. Concretos de última geração: Presente e futuro. In:
Os resultados de reologia das pastas produzidas com cin- Geraldo Cechella Isaia (Ed). Concreto: Ensino, Pesquisa e Realiza-
zas moídas indicam ser preferível o uso de cinzas com me- ções. São Paulo: IBRACON 2005. 2 v. p1509-1550.
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40% de adição conduziram a resultados insatisfatórios quan- [4] S. GRÜNEWALD, J.C. WALRAVEN. “Characteristics and influence
to à reologia das pastas frescas. Quando utilizadas nos teores of paste on the behavior of self-compacting concrete in the fresh
state”. 5th International RILEM Symposium on Self-Compacting Con-
de 10% e 25%, as cinzas não comprometeram as proprieda- crete. Ghent, RILEM, 2007.
des reológicas das pastas autoadensáveis. [5] R. Le ROY, N. ROUSSEL. “The Marsh Cone as a viscometer: theo-
Pelos ensaios de resistência à compressão há indícios de retical analysis and Limit”. Constructions et Matériaux, Laboratoire
Central des Ponts et Chaussées, vol. 37, Paris, 2004.
que a cinza pesada moída atue como uma pozolana. O fato [6] American Concrete Institute. Report on Measurements of Workability
de não ter havido comprometimento da resistência é um and Rheology of Fresh Concrete. Manual of Concrete Practice - ACI
fator primordial para o uso da cinza em concretos estruturais 238.1R-08, p.70, 2008.
[7] F, de Larrard, C, F, Ferraris, T, Sedran T. “Fresh Concrete: A Her-
e potencializa a sua utilização como adição ativa na compo- schel-Bulkley Material”, Materials & Structures., vol. 31, pp. 494-
sição de cimentos Portland. Este aspecto em particular susci- 498.
ta o desenvolvimento de pesquisa no sentido de permitir o
emprego da cinza pesada processada como componente de
cimentos Portland pozolânicos. Comprovada esta possibili-
dade e viabilizado o seu uso, a aplicação da cinza pesada
processada como material complementar ao cimento Por-
tland impactaria positivamente e significativamente a ativi-
dade de produção de energia elétrica nas termoelétricas a
carvão mineral. Além de agregar valor ao resíduo, haveria a
diminuição significativa dos custos de manipulação e dispo-
sição, redução significativa ou mesmo a eliminação da ne-
cessidade de disposição e redução considerável na emissão
de CO2 no meio ambiente, uma vez que a necessidade de
consumo de clinquer Portland diminui na mesma proporção,
em massa, do teor de cinza adicionada ao cimento. Para ca-
da tonelada de clinquer produzido pela indústria de cimento,
produz-se igual quantidade de CO2.
A pesquisa no uso de cinzas em concreto autoadensável
prossegue com a produção e análise de desempenho dos
concretos autoadensáveis produzidos com elevados teores
de cinza leve e de cinza pesada moída (processada), particu-
larmente quanto ao desempenho no estado endurecido -
comportamento mecânico, desempenho à retração, resistêni-
ca à penetração de cloretos e à carbonatação. Os resultados
parciais desta pesquisa, apresentados neste artigo, permitem
concluir que o uso de cinza pesada em grande volumes é
uma possibilidade concreta na produção de concretos autoa-
densáveis. Também, como resultado da investigação em
curso, observou-se o efeito pozolânico da cinza pesada moí-
da. Este aspecto, por si só, conduz à necessidade de serem
realizadas pesquisas complementares, cujos resultados po-
dem impactar grandemente os setores de produção de ener-
gia e da construção civil.