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Cláudio Umpierre Carlan, Pedro Paulo Funari, Raquel Funari, Cinema e o Mundo

Antigo, Antiguidade através da sétima arte. Saarbrücken, Novas Edições Acadêmicas,


2015, ISBN 978-613-0-15747-0, pp.1-3.

A imaginação da Antiguidade pelo cinema

Como podemos chegar ao passado, senão por meio da nossa imaginação? Robin
Collinwood (1889-1943), o grande arqueólogo, filósofo e historiador britânico advertia,
ainda na década de 1930, que nada seria possível sem a imaginação, algo que os jovens
de nossos dias conhecem pelo norte-americano Barney e sua Ilha da Imaginação (1994).
Trata-se, não por acaso, de um personagem, Barney, cinematográfico, se assim se pode
dizer, difundido pela Public Broadcasting System (BPS) pelo mundo afora. Ambos, o
grande estudioso e o genial boneco, retratam uma única questão: o papel central da
imaginação. Também não é mera coincidência que Michael Shanks, o grande
arqueólogo britânico, hoje professor em Stanford, Michael Shanks, tenha nomeado seu
mais recente volume “A imaginação arqueológica 1”.

Mas, o que quer dizer isso? Por um lado, claro, significa que nada somos sem a
insinuação, sem o simulacro, sem a referência a algo que não está aqui, mas poderia
estar. Aristóteles, em sua Poética (9.1451b5-7), já advertia que aquilo que poderia ser é
sempre mais profundo e relevante do que foi de fato, em sua efemeridade. O assassinato
de uma pessoa de um indivíduo, por mais importante que seja, como no caso de Júlio
César (100 – 44 a.C.), não pode ser comparado com o assassinato imaginário de Édipo
de seu pai, Laio. O primeiro é um fato circunstancial, o segundo é uma questão perene e
eterna. Isto está na origem de toda a literatura, incluindo-se, aí, o cinema, uma forma de
narrar algo que poderia ter acontecido, que é verossímil, que nos leva pela imaginação
ao onírico, tanto num caso, como no outro.

O cinema está, portanto, na esteira de uma longa tradição humana de imaginar e


de contar histórias. Segundo alguns estudiosos, o que caracteriza a espécie humana, à
diferença de outros animais e de outros hominídeos, é, justamente, a capacidade de
imaginar, para além da realidade imediata e presente. Para o ser humano, em qualquer
época e circunstância, o hic et nunc, o aqui e agora, não é senão uma noção relacional
entre o passado e o futuro, entre um lugar e outro. Em certo sentido, então, a
humanidade está nesse viver um eterno movimento de abstração, é sentir o presente não
como algo em si, mas uma passagem entre imaginários. O cinema é, pois, a
quintessência do humano, como poderiam concordar Collingwood e o personagem
Barney (mas, faz diferença que um tenha sido um ser humano e o outro uma criação
humana?).

1
Michael Shanks. The Archaeological Imagination (Walnut Creek: Left Coast Press, 2012; cf. Pedro Paulo
A. Funari, Review, European Journal of Archaeology 17 (2) 2014, 350–365.
E o que é antigo, velho? Para um indivíduo, velho pode ser um pão com algumas
horas, antigo um carro com vinte anos. Para além do indivíduo, tudo é antigo por
imaginação: D. Pedro I, Júlio César ou Tutancamon, todos só existem na nossa cabeça,
como diriam Collingwood e Barney. A convenção de denominar de antigo um período
entre 3000 a.C. e 410 d.C. é apenas isso, uma convenção. Mas revela muito sobre nós
mesmos, que assim o fazemos, pois chamamos Júlio César de antigo, mas Napoleão ou
Hitler são contemporâneos. Os antigos, neste contexto, estão distantes, mas ao mesmo
tempo reaparecem a todo instante, como o próprio Júlio César que estava lá há dois mil
anos, mas também em Shakespeare ou Bertold Brecht.

O cinema foi o grande responsável por potencializar a imaginação sobre quase


tudo, inclusive a Antiguidade. E isso tem sido fundamental para que os próprios
estudiosos do passado formem suas ideias a respeito da História. Richard Hingley 2
mostrou como os acadêmicos formaram suas ideias sobre Roma antiga a partir daquilo
que liam e imaginavam quando eram crianças, em fins do século XIX, pouco antes da
difusão do cinema. A partir daí, não há dúvida que vemos o passado pelas lentes
cinematrográficas. Este volume congrega o que há de mais criativo, na produção
brasileira, sobre o tema. O leitor ficará encantado e será levado, pelos meandros
misteriosos da imaginação aos mais recônditos meandros da Antiguidade e da nossa
própria época. Passado e presente, faces de uma mesma moeda, apresentam-se nesta
obra que poderá inspirar tantos a também se dedicarem a um tema tão profícuo.

Pedro Paulo A. Funari

Professor Titular do Departamento de História

Laboratório de Arqueologia Pública

Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais

Universidade Estadual de Campinas

2
FUNARI, Pedro Paulo A. As formas o discurso historiográfico. In: VERNANT, Jean-Pierre; FUNARI, Pedro
Paulo A.; HINGLEY, Richard. Textos Didáticos: Repensando o Mundo Antigo. 2. ed. rev. e aum. Campinas:
IFCH/UNICAMP, 2005, p.63-70.