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LUIS DA CAMARA CASCUDO E 0 CONHECIMENTO DA TRADIGAO RESUMO Aborda-se o perfil intelectual de Luis da Camara Cascudo como estudioso do folclore, da cultura e da tradicao. Aponta-se 0 motivo folclé- rico € os contos, as narrativas, a novelistica, 0 romance, as cangGes, os costumes, autos popu- lares, as dancas e os mitos retidos na meméria coletiva e expressos nos depoimentos orais como idéias nucleares nesse campo. ABSTRACT Luis da Camara Cascudo’s intellectual profile is here approached in his capacity of spe- cialist in folklore, culture and tradition. Folklo- re as a leitmotif, and the tales, the narratives, the novelistic forms, the novels, the songs, the customs, the popular short plays, the dances and the myths preserved in the collective memory and expressed in oral pronouncements are presen- ted as nuclear ideas in this field. Dentre as intimeras rotulacées que fo- ram atribuidas a Luis da Camara Cascudo, sem diivida a que Ihe permitiu reconhecimento na- cional ¢ internacional foi a de “estudioso do folclore”. Via o folclore como uma disciplina interligada com as demais ciéncias humanas, como a psicologia, a etnologia e a sociologia. Para ele, seu estudo exigia trabalho paciente e meticuloso, além de procedimentos rigorosos de investigagao para descrever e interpretar 0 assunto, como também pensava Stith Thomp- son, seu héspede em Natal, e tantos outros es- tudiosos do folclore, como, por exemplo, Ama- deu Amaral, Florestan Fernandes e Mario de Andrade. Vania de Vasconcelos Gico- UFRN. Reconhecia 0 folclore ainda como reali- dade social, psiquica e cultural, o que implicava interpreté-lo numa perspectiva sociolégica, o que fez mais sistematicamente a partir de 1941 com a criagdo da Sociedade Brasileira do Folclore. Neste ano, Florestan Fernandes também passou a empenhar-se em focalizar o folclore nessa pers- pectiva, tendéncia da época e que os tornava “fol- cloristas”, com reconhecimento das esferas ci- entificas, representadas por Roger Bastide, Lévi-Strauss, Silvio Romero, Joao Ribeiro, Ama- deu Amaral, Pereira da Costa e tantos outros que contribuiram com seus estudos para aprofun- dar as investigagdes dos costumes e tradicdes e delimitar o campo de pesquisa do folclore. Os estudiosos, assim posicionados, acre- ditavam que o folclorista deveria descrever e in- terpretar os dados culturais como fendmenos sociais, considerando-os parte das situacdes de vida em que esses dados foram observados, im- putando-Ihes uma origem, determinando-lhes as fontes e indicando-lhes uma certa dinamica. Para cumprir estas exigéncias, o pesquisador deveria anotar na identificagio dos dados coletados, a localidade em questao, a data de quando o fe- némeno fora observado pela tiltima vez € se 0 costume era ainda de uso local, além do nome e ocupagao do informante. Tais informacées sao encontradas nos cadernos de notas do norte-rio- grandense considerado 0 maior folclorista bra- sileiro por alguns, e as vezes acompanham os dados dos seus trabalhos publicados. Para Cas- cudo, folclore era a “cultura popular, tornada nor- mativa pela tradigdo. Compreendia técnicas e pro- cessos utilitdrios que se valorizavam numa Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 56 ampliagdo emocional, além do angulo do funcio- namento racional”,’ conforme conceituou no seu Diciondrio do folclore brasileiro. Justificando a idéia de que essa expresso cultural poderia ser estudada do ponto de vista de varias ciéncias sociais, exigindo para isso método de investigacao, interpretacdo, comparacao e clas- sificagdo para resgatd-lo da visdo simplista de algo pitoresco e exético, engracado e superficialmente turfstico, empenhou-se no estudo dos contos e do motivo folclérico que deveriam ter como caracte- risticas, a antigiiidade, o anonimato, a divulgacao ea persisténcia. Seria preciso, ainda, que o motivo, o fato, a aco e os contos estivessem marcados na memé- ria do povo e anénimos em sua autoria quanto aos nomes préprios, a localizacao geogréfica e & data, ao mesmo tempo que divulgados em seu co- nhecimento e recursivos nos repertérios orais. Muitas vezes Cascudo viu-se impelido a documen- tar, ele préprio, os temas que pretendia investigar, como aconteceu com os estudos da literatura oral, que eram para ele a “cultura popular, a tradugdo veridica e tinica do britdnico ‘Folk-lore”,? e das dan- cas dramaticas compostas para os folguedos ca- racterizados pela coreografia, como Caiapés ¢ Ca- boclinhos, ¢ pelos “autos” do Bumba-meu-boi, Fandango, Cheganga Pastoril e Congo. A formagio de colecées de material folclé- rico, atividade vista hoje como de menor impor- tancia, estava entre as nobres tarefas de estudio- sos do folclore, como demonstram os trabalhos de Silvio Romero que privilegiaram a coleta e siste- matizagéo das tradig6es populares e a investida de Joao Ribeiro que destacou, entre suas ativida- des, 0 inventdrio das fontes primédrias e secundé rias do folclore brasileiro. Florestan Fernandes, analisando os estudos folcléricos em Sao Paulo, no livro “O folclore em questo”, avaliou que a preocupacao de dar cunho cientifico-positivo a pesquisa folclérica levou varios estudiosos a se in- ) CASCUDO, Luis da Camara. Diciondrio do folclore brasilei- ro. Rio de Janeiro: INL, 1954. p. 40. * Id, Literatura oral. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia; Sao Paulo: USR 1984, p. 11. teressarem tanto pela formagio de colegdes, como pela andlise genético-comparativa e pela discus- so tedrico-metodolégica do folclore. Segundo Fernandes, parecia haver uma in- dicacao para os folcloristas 6 comecarem suas ati- vidades de especialistas depois de constituidas as suas colegées de materiais folcléricos, como suge- riam os trabalhos de Aaerne e Thompson, alids, sempre citados nos estudos cascudianos. As ativi dades especificas do estudioso do folclore revela- vam-se também “na andlise dos temas, no estudo de sua distribuigio cronolégica e espacial e na com- paragao deles entre si, através de diferentes sistemas folcléricos”.? Admitia, ainda, que o folclorista ao envolver-se em tarefas dessa natureza, tinha espe- cial interesse na formacao de colegdes porque pre- cisava aplicar as técnicas de registro das ocorrén- cias observadas, procedimentos estes sempre empregados por Camara Cascudo nos seus estu- dos etnogréficos. Com o avanco da pesquisa empirica no cam- po das ciéncias sociais, houve uma diminuicao na importancia desses registros documentais, tendo em vista a formago dos bancos de dados referen- tes ao assunto. Muitas vezes, entretanto, a obra de Camara Cascudo é julgada do ponto de vista da situacao da pesquisa contemporanea, na qual, a importancia do registro dos materiais folcléricos nao tém a mesma prioridade daquela recebida no comeco do século, por ja existir uma meméria so- cial acumulada. Tal maneira de julgamento, por- tanto, leva a uma visdo distorcida da importancia da sua contribuigao na drea de estudo que se de- dicou e contribuiu exaustivamente. Os estudos etnogréficos brasileiros foram os precursores das pesquisas antropolégicas e nao 08 estudos folcléricos. Florestan Fernandes, nos seus estudos sobre o assunto, aponta Joao Ribeiro como uma das excegées a essa tendéncia, cujas preocupagées foram direcionadas ao campo espe- cifico da anélise folclérica. Em Séo Paulo, argu- mentava 0 autor citado, apenas Amadeu Amaral, * FERNANDES, Florestan. 0 folclore em questo, Séo Paulo: HU- CCITEC, 1989. p. 10. S88 Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 no campo da poesia popular e Mario de Andrade - companheiro de Camara Cascudo, nas viagens et- nogrdficas ao Nordeste - no campo do folclore musical, realizaram obra propriamente folclérica; os demais, e eles mesmos sob outros aspectos, tra- balharam no campo da investigagao etnogréfica. E necessario registrar, ainda, que os estu- dos folcléricos, como preocupacées do conheci- mento mais sistematizado, tiveram suas raizes nos princfpios da “filosofia positiva de Augusto Comte e do evolucionismo inglés de Darwin e Herbert Spen- cer”* e propunham-se a determinar 0 conheci- mento peculiar do povo e dos elementos que cons- titufram sua cultura, Mas 0 conceito de cultura estava vinculado ao patriménio histérico das clas- ses mais elevadas e seria caracteristicamente uma cultura transmitida por meios escritos, compre- endendo todos os conhecimentos cientificos, as artes em geral e a religido oficial. Nessa compreensio, o termo folclore sig- nificaria e conteria os elementos que constitu- iam o que se poderia entender como a cultura das classes baixas, transmitida oralmente. Abrangeria, portanto, os valores residuais da civilizacdo e das manifestagdes culturais. Em outras palavras, os estudos folcléricos tratari am de reorganizar e registrar, por analogias, 08 dispersos fragmentos da vida cultural das po- pulages que se encontram & margem dos c digos culturais marcados pela escrita e pelos padrdes homogéneos da cultura cotidiana. Nes- sa direcao, 0 estudioso do folclore propunha-se a estudar os modos de ser, de pensar e de agir peculiares do povo, como técnicas de registro imediatas que permitiam a sobrevivéncia ma- terial e imagindria do capital cultural através das lendas, das superstigdes, das dangas, das adivinhacées, dos provérbios e tantos outros referentes sociais. Camara Cascudo, na sua compreensio de folclore, do conceito de cultura popular e do entendimento do que representava para ele a “Ibid, p. 38. 57 categoria povo na sociedade, oscilou entre as orientagées positivistas. Embora, muitas vezes, tenha recebido reprovacao da ala intelectual mais conservadora, contrapés-se ao determinis- mo do mundo da produgao das idéias, princi- palmente, quando iniciou suas pesquisas de campo sobre 0 folclore, no cendrio de atuacao do Principe do Tirol. De forma insubmissa, apro- veitou-se das areas de dominio da elite cultural e intelectual e andava nos “antros” recolhendo seus dados para elaboragao dos seus livros, en- fatizando os aspectos dindmicos do folclore, a exemplo de Edison Carneiro, sem deixar de re- conhecer que a funcdo deste consistia na pre- servacdo das manifestacdes ou elementos da cultura popular. Mesmo tendo uma visio dual do concei- to de cultura, considerava a cultura erudita popular como complementares e nao partilha- va do pensamento positivista no que se referia ao dominio cultural das camadas eruditas da sociedade. Pensava que estas assimilavam as crengas tradicionais a partir de referentes con- taminados por diversificados valores, como as- segurou no prefacio dos “Cantos e contos po- pulares do Brasil”, de Silvio Romero, conseqiientemente, a legitimidade das crencas tradicionais estava no povo, que expressava esse saber autenticamente. Compreendia os fatos apresentados e ca- racterizados como folcléricos, numa correlacao com os fatos culturais, os quais podiam ser es- tudados como aspectos particulares da socio- logia cultural e da antropologia. Assim, estu- dou 0 folclore como fenémeno sécio cultural, configurando-o a partir das manifestagdes po- pulares como expressao de historicidade. Expressou as conexées entre fato social, folclore e fato cultural no seu livro Givilizagao e cultura, admitindo que a etnografia geral nao podia ser uma subdivisdo da antropologia cul- tural, visto que estava convencido serem “todas Cronos, Natal-RN, v1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 58 as culturas nascidas do ethnos, grupo de gente, ¢ no do anthropos, unidade aproveitadora do la- bor comum”.$ Para ele, a etnografia era “realmente o estu- do da origem, desenvolvimento e permanéncia soci- al das culturas”, mas nao havia culturas superio- res nem inferiores, mas sempre, “culturas, reunides de técnicas suficientes para a vivéncia grupal”,® e para compreender o fenémeno total da civiliza- co local era preciso entender que o todo civiliza- dor era maior que a soma das partes culturais. En- tendia ainda a cultura como patriménio tradicional de normas, doutrinas, habitos, aciimu- lo do material herdado e acrescido pelas aporta- Ges inventivas de cada geracao. E cada geracao reunia elementos de outras culturas circunjacen- tes ou longinquas, julgadas capazes de auxilio e avango na terra natal, perpetuando a tradicao, que seria 0 “patriménio de observagées que se tornaram normas. Normas fixadas no costume, interpretando a mentalidade popular”, circunscrevendo-se na me- méria social, que era, para Cascudo, a “imagina- $40 no povo, mantida e comunicdvel pela tradicéo, movimentando as culturas convergidas para 0 uso, através do tempo”,? Nesse complexo mestico e plistico de men- talidades e normas, se fixava a aco coletiva, cuja vida e perpetuacao se davam pelo “sangue, heran- ¢a moral e a educagao doméstica”. O poderoso folk- lore, as crencas, as tradicées religiosas e 0 clima social tinham, pois, a funcdo de um cimento fun- damental e antropolégico, a partir do qual emer- giam os padrées mais alargados da histéria e da cultura de um povo. Do ponto de vista da sistematizacao dos da- dos, os estudos teméticos do folelore indicam dire- ses diferentes, restritas ou bastante especializa- das por dreas de investigacao. Poderfamos mesmo distingir trés direges, como admitia Florestan Fer- nandes nos estudos tematicos do folclore. Na sua primeira direcao, a partir das inspiragoes de Boas, * CASCUDO, Luis da Camara. Civilizagio e cultura, 2.ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983. p. 22. Ibid. p. 18, "Id. Tradigao, ciéncia do povo. Sao Paulo: Perspectiva, 1971. p. 9. mas repassada mediante a influéncia de Hersko- vits, estao os estudos tematicos dos mitos, dos con- tos, da poesia, das adivinhagées, dos provérbios, da mtisica e da danca. Ampliando os interesses sob as orientagGes de Redfield, esta o segundo grupo de trabalhos que abrange as técnicas e as crencas, € comportamentos rotineiros de cunho tradicio- nal, observaveis nas relagdes do homem com a natureza, com seu ambiente social ou com o sa- grado. A terceira direco do temario abrangeria os trabalhos de investigacao sociolégica, que tor- na 0 folclore sinénimo de cultura popular. A producao intelectual de Camara Cascu- do retine todas estas teméticas, exibindo um ver- dadeiro caleidoseépio textual que manifesta o te- mario das lendas, dos mitos indigenas, dos costumes, da novelistica, das parlendas, cantigas ¢ brincadeiras infantis, dos folguedos, das supers- tigdes, visagens e assombracées, das dancas, das bebidas e alimentos, dos gestos, das locucées tra- dicionais, da religido no povo, catimbé e magia branca. Estudou 0 comportamento do homem bra- sileiro, especialmente numa perspectiva universal ena sua Antologia do folclore brasileiro, registrou a normalidade do branco, negro, mestigo ¢ indi- gena, tornando a obra uma “antologia pau-bra- sil". Nela apresentou os aspectos mais vivos do povo brasileiro nos quatro tiltimos séculos, aspectos es- ses expressos pelos cronistas coloniais, naturalis- tas estrangeiros e estudiosos brasileiros, detendo- se nos elementos étnicos formadores, contidos nas Iendas, nos mitos, nas superstigdes e nas cantigas. Acreditava na existéncia de um folclore in- digena e de um folclore negro, apesar de repudia- do pelos folcloristas classicos. Achava essencial re- editar as observagées dos naturalistas para que servissem de ponto de referéncia num confronto ou pesquisas de origem de costumes, permanen- tes ou emergentes, no proceso humano dos folk- ways. Discutiu os conceitos de permanéncia e constancia do folclore no tempo € no espaco, ca- racteristicas sempre buscadas no motivo folcléri- co, como 0 que “permanece, continuo, que ndo hd SS) gs Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 interrupedo”, e, respectivamente, entendia cons- tantes como 0 “motivo que nao se desloca, imével, inalterdvel, imutdvel”*, portanto, sua preocupacao nos estudos folcléricos estava voltada para os ele- mentos essenciais do panorama folclérico brasi- leiro no que dizia respeito ao exame das origens e andlise temdtica das constantes e permanentes. Dentre os critérios para selegao e interpretacao dos assuntos estudados também levava em conta a “fi- xagéo do elemento popular” que seria divulgado através da leitura dos trabalhos publicados, inten- 40 com a qual elaborou uma sintese do assunto mostrada no livro Follore do Brasil. Além disso, indicava referéncias cruzadas, remetendo sempre os leitores para obras correlatas, ampliando, as- sim, seu raio de acesso as informacées. Esses elementos essenciais do mundo do fol- clore tinham como sustentacao uma literatura oral, versos, cantigas, lendas e herdis, numa tradi- ao viva do seu emprego. Cascudo argumentava que, sendo 0 folclore uma cultura do povo, era viva, util, natural e que as raizes iméveis do passado poderiam ser evocadas como indagacées de anti- gitidade, uma das caracteristicas do motivo folclé- rico. Como o povo tinha o senso utilitério em nivel elevado, os utensilios que iam sendo substituidos Por outros mais eficientes e cémodos, passavam a circular mais lentamente, mas 0 patriménio tra- dicional era conservado. Lamentava sempre que os motivos de pesquisa do folclore fossem conside- rados de menor importancia e estivessem ausen- tes dos curriculos universitarios, impedindo uma articulagéo mais fluida do pensamento entre 0 vi- vido e 0 estudado pelo “outro lado da cultura” e seguindo seu propésito de ressaltar as constantes € permanentes do folclore brasileiro ia situando no tempo cada elemento tratado, detendo-se na origem e permanéncia dos temas. 0 Principe do Tirol estava ciente da distin- do aferida aos cientistas em funcao do que eles estudavam. Tal constatagao encontra ainda hoje plena aderéncia com a hierarquizagao e valora- Gao desigual entre as diversas especialidades do saber, quando algumas disciplinas sao entendidas "Id, Foicore co Brasil. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1967. p.9-18. 59 como mais nobres que outras. Para ele, certos te- mas davam prestigio ao pesquisador e outros exi- giam uma prodigiosa retérica para valoriza-los. Um livro sobre educacao, finangas, economia, assis- téncia social, higiene ou nutricdo, por exemplo, emprestava ao autor um ar de competéncia seve- ra, de idealismo pratico, de atencao aos “altos pro- blemas”. Mas quem ia se convencer da necessida- de de uma pesquisa etnogréfica sobre a rede de dormir?. Indagava e citava Cicero no prefacio: “Fa- miliarizados com os objetos vistos todos os dias nao 05 admiramos mais e nem sonhamos pesquisar-lhes as origens”. Congratulando-se com a corrente que va- lorizava os elementos humanos e de uso cotidiano como indicadores dos estudos da etnografia, “va- lendo iguais ou melhormente aos pontos de referén- cia cldssicos e documentais, arquivos, monumentos e museus”, iniciou seus estudos na intencdo de pes- quisar as “coisas que vemos, usamos, construimos, conhecemos e nunca pensamos dignas de nossa aten: eo e cuidado cultural”, Assim pensando, deu vida a narrativa e trouxe para sua obra, no campo dos estudos da tradigéo, tematicas da danca, da capoeira, da be- bida e dos alimentos populares, bem como das defesas magicas dos banhos de cheiro com plan- tas medicinais que atraiam a felicidade. Incluiu nessas preocupacées a terapéutica, as formulas tradicionais de guardar a satide, os remédios que facilitavam a intervencao sobrenatural, e as dis- cusses do homem subalternizando os deuses ao servico da conservagao pessoal e dispondo as for- cas mgicas para o seu estado de tranqiiilidade, 0 que estudou mais particularmente no livro Melea- gro, pesquisa do catimbé e notas de magia bran- ca no Brasil. Chama-se Meleagro em referéncia a um “principe etélio” (Etélia - Grécia antiga), e 0 vocabulo quer dizer também “feitigo da Grécia em mao africana”, sentido mais aproximado daquele empregado por Cascudo. Nesse livro estudou 0 mau-olhado, 0 que- branto, os amuletos, 0 feitigo, o despacho, a coisa- feita, 0 ebé, a muamba. Ocupou-se largamente da * Id. Rede de dormir: Rio de Janeiro: MEC, 1959. p. 20. eS Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 60 flora medicinal dos feiticeiros, de remédios repug- nantes, defurmigacées e do emprego do sangue, da saliva, do sopro nos sortilégios da magia, do envultamento, do transe, da possessio, da inter- vencao dos espiritos e analisou a dependéncia da populacdo brasileira em relagéo aos processos de magia. No Folclore do Brasil, sua sintese do assun- to, deteve-se com mais vagar nas dangas tradicio- nais como 0 frevo, genuinamente pernambucano, na quadrilha, danga dos saldes da burguesia fran. cesa e popularizada no Brasil imperial e no fado. Este, que teria nascido brasileiro e era marcado pela animacao quando aporta em Portugal, fixan- do-se em Lisboa, torna-se uma cangio tragica e pessimista, cantando fatalismos e abandonos. No estudo das dancas populares discutidas em varios Pontos da sua obra, esto o bumba-meu-boi, com exaustivo capitulo no trabalho “Tradig6es popula- tes da pecudria nordestina”, a cheganca, 0 congo € 0 fandango nas quais manteve a denominacao de “autos”, reservando a denominagio de “dancas dramaticas” para as representagées caracteriza- das pela coreografia, todas elas jé discutidas no “Dicionario do folclore brasileiro”. Quanto a capoeira, situou sua origem e mo- dificagbes desde o sul de Angola até a pratica mo- vimentada e sugestiva na ilha de Luanda, entre os pescadores e marinheiros, trazendo suas constan- tes ao Brasil, principalmente ao Rio de Janeiro, Salvador e Recife. E no “Diciondrio do folclore bra. sileiro” que aprofunda o assunto. Nos estudos dos provérbios brasileiros, abor- dados nessa sintese, escolheu um jé examinado por Joao Ribeiro ¢ Afrdnio Peixoto, denominado “Em tempo de murici, cada um cuide de si”, para expli- car 0 “egoismo dos homens nas ocasiées dificeis ou perigosas”. Das lendas, anedotas e adivinhagées fez uma breve antologia e indicou uma importan- te bibliografia de referéncia para maior aprofun- damento do tema. Quanto aos contos, reeditou exemplos de cada categoria e propés a divisdo por assunto, que havia publicado no seu livro Contos Tradicionais do Brasil, em 1946, classificando cada especialidade: Contos de Encantamento, quando intervém o ma- ravilhoso, sobrenatural, magico. Contos de Exemplo, com intengdo moral. Contos de Animais fbulas ou simplesmente ages de astcia, hilariantes, Facéias, anedotas. Contos Religiosos, com intervengéo divina, Deus, Santos, Anjos, Nossa Senhora. Contos Etiolégicos, explicando a forma curiosa de um animal, vegetal, mineral. Contos de Adivinhagdo, onde a vit6ria do heréi de- pende de decfrar um enigma. Contos Acumulativos, onde o assunto é uma série encadeada de motives Natureza Denunciante, onde o crime oculto étor- nado piiblico e punido pela dentincia de animais, plantas, pedras,estrea, et. Deménio Logradeo, temas em que o Diabo évencido pela asticia do homer. Ciclo da Morte, contos em que a morte, personal zada, participa e sempre vence. Contos Sem Fim, em que o heréi deverd contar uma estéria intermindvel' °, No panorama das “festas tradicionais”, resumiu aquelas que considerava essenciais ¢ com maior drea de permanéncia e assiduidade na apresentacao, como foram exemplos os ci- clos ltidicos, Carnaval, Divino, $0 Joao e Natal que centralizam as maiores expressdes dos fol- guedos e bailes populares. Os demais folguedos sdo complementares as festas locais dos oragos ou decorrem da Semana Santa, Aleluia, Espirito Santo e Corpo de Deus. As informacées sobre folguedos e dangas populares foram restringi- das as mais vulgares, as constantes no tempo e permanentes no espaco, complementado 0 assun- to com farto documentario das adivinhacdes, bebidas e a letra das muisicas das festas. Reite- rou, na apresentacao do trabalho, sua preocu- Paco com um conhecimento em extensio na- cional do folclore, dizendo-se ainda na fase de “colheita e armazenamento dos materiais” fol- cléricos. Na especialidade das técnicas, como com- portamento rotineiro de cunho tradicional, regis- trou o artesanato santeiro utilizando-se de depoi- mentos para documentar a criatividade dos "Id. Folclore do Brasil, p. 60. —— Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 “artistas do imagindrio”, como eram chamados. Seus depoimentos também valiam para denunci- ar a agao dos colecionadores que faziam desapa- recer os “sobreviventes vultos, apiedados e severos nas camarinhas escuras e pudorosas” dessas ima- gens que representavam a expresso das artes, oficios, origens e permanéncias do folelore santei- ro e habitavam os campandrios e os oratérios do- mésticos, sendo todos eles cuidadosos trabalhos dos escultores “santeiros” e “imaginérios”, Para Cas- cudo, até o limiar do século XX, era inconcebivel uma residéncia brasileira sem 0 pequenino armé- rio do oratério, de forma ogival, escondendo e de- nunciando os protetores da familia, os deuses la- ratios do catolicismo. Santeiro, no comeco do século, principal- mente, no sertéo do Nordeste, era 0 beato fervoro- 80, exagerado, numa afetacéio monopolizadora do zelo littirgico. O nome de quem fazia santo era “imaginario”. Depois, os nomes confundiram-se e “santeiro” passou a nominar o artesao popular que tinha o oficio de fazer imagens dos santos, vulga- rizando aquelas vindas de Portugal, trazendo-Ihes, © azul e branco das roupas, a fisionomia de tez branca e bochechuda, deixando descoberta ape- nas 0s joelhos dos santos, onde se podia tocar com 0 polegar e pedir gracas. Registrando as supersticdes populares, fica indicada a continuidade da crenga. Ele proprio possuia uma dessas imagens visitadissimas pelas “inocentes”, como eram chamadas as “meninas”, uma aluso as mulheres solteiras. Aquelas que Passassem o polegar naquela regido sagrada do santo e se benzessem, fatalmente casariam. Di- zia que a imagem da sua casa jé tinha uma baixa nos joelhos. Quando Assis Chateaubriand perguntou ao folclorista se ele podia escrever um ensaio sobre a jangada, ele respondeu afirmativamente porque tinham sido os pescadores e jangadeiros seus mes- tres das coisas do mar. Pescadores de muitos anos, pacientes e entusiasmados com a doutrina ensi- nada e aprendida de pai para filho. Além disso, "Id. Prelidio do artista popular. In: 7 BRASILETROS e seu uni- verso. Brasilia: MEC, 1974. p. 13, 61 aprendera nos livros e nas suas observacées pes- soais, desde crianca, 0 folclore do mar. Ia sempre ao “Canto do Mangue”, ancoradouro das peque- nas embarcacées pesqueiras, ao lado do Porto de Natal, cidade em que nascera ¢ vivera, para apre- cid-las na chegada ao continente. Muitas vezes, na praia de Areia Preta, onde localizava-se sua casa de veraneio, no comeco do século, recolheria a narrativa do cotidiano dos pes- cadores, fixando temas e comentérios dos infor- madores fiéis, amigos de trinta anos que no Ihe omitiam confidéncias comprometedoras para 0 jangadeiro, o pescador, via de regra, taciturno lacénico. Afirmava Cascudo, que nao havia um vocabulério fluente para expressar a visio de mun- do do pescador, diferentemente do vaqueiro, que descrevia seus feitos com grande euforia, gesticu- lagao e interpretagao dos cenérios, além do uso da entonacao verbal. jangadeiro punha as palavras lenta- mente, rememorando o desenho verbal, com pe- riodos curtos, indispensdveis, mas firmes e co- municantes, porém sem veeméncia. Seria a convivéncia com o siléncio, envolvida com a musicalidade do mar, visto que o ressoar da voz humana afugentaria o peixe dos barcos pesquei- os, por isso nao existiam cantigas de pescado- res e sim aquelas que falam e contam suas aven- turas. Nao havia, para os pescadores, o sentimento de autoria das cancées populares, mas isto nao afetaria a sensibilidade do homem praieiro, que compensava o siléncio do mar com a vivacidade em terra, participando de festas tra- dicionais e rodas musicais. Na constante da vida das populagées prai- eiras, ricamente expressa pela imagem da janga- da, o pescador era filho e seria pai de jangadeiro. Nao tendo outra expectativa profissional na fa- milia, cada nova geracao escolhia a jangada como seu emblema de viver. 0 comum era ter nascido a beira-mar e ajudado, desde menino, nas tare- fas da pescaria, empurrando a embarcacio so- bre os rolos feitos do tronco dos coqueiros ou puxando 0 cabo das redes de pescar sob os olha- res atentos dos mais velhos que cuidavam de cum- prir os hordrios rigidos dos jangadeiros. EE Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 62 Aprendiam cedo as nogées basicas da na- vegacao que eram desenvolvidas a partir da mar- cago de pontos do litoral costeiro como morros, dunas, drvores e pedras que serviam de indicacao ao deixar a praia ou ao se aproximar dela. Esse conhecimento sistematicamente passado de gera- cao a geracdo dispensava o uso, nas jangadas, de buissolas e hodémetro. Tudo ficando a cargo da meméria, que guardaria com exatidgo as posigdesnitidas do caminho e do assento. O caminho corresponderd a latitude, nor- tee sul, eo assento serd a longitude, lestee oeste, tinicos pontos que precisam para a localizagdo!? no mar a partir dos acidentes geogréficos. Ainda nesse trabalho sobre a jangada ¢ le- vado em conta o mecanismo social do exercicio da profissao do jangadeiro, comparando “sua in- comprimivel personalidade” com a do vaqueiro. Ambos estavam liberados dos limites das rotinas do trabalho mecanicista, desfrutando da liberda- de individual para desempenho profissional. Tal condicao reforcava no pescador, mais acentuada- mente, a defesa das idéias de liberdade do traba- Ihador. A jangada, seja na sua forma material ou metaférica, exemplifica uma permanéncia das mais velhas do mundo. Cascudo dedicou-lhe cui- dadoso documentério, fazendo comparagées e es- tudando sua origem e 0 vocabulério, reeditando antologia e dedicando muita atencio aos motivos foleloricos dos utensilios, bebidas, comidas, dan- ‘cas, ritos, episédios de pesca e mergulhadores, bem como as receitas e rituais desses personagens do mar. A recomendacao dos jangadeiros para comer peixe, por exemplo, estava baseada na tradicao indigena e dos orientais, para os quais, 0 peixe deveria ser cozido na 4gua e sal e nao assado, para nao perder a sustanga. Depois de comido com pi- ro que nao deveria ser fervido, bebia-se 0 caldo, porque o organismo jé havia absorvido as forgas do peixe. “1d, Jangada, Rio de Janeiro: MEC, 1975. p. 20 Na coleta das reminiscéncias registrou as supersticdes dos pescadores, principalmente aque- las provenientes das figuras dos antepassados, no que diz respeito as proezas das pescarias de peixes com diferentes personalidades, ventanias, assom- braces marinhas, monstros e lendas, como as das sereias e seus encantos, simbolo da seducio irre- sistivel, sugestéo carnal endoidecendo jangadeiros e pescadores. Nessa odisséia, que nao faltaram heréis, so recontados os mistérios do mar, como a procissiio dos néufragos composta pelas almas de afogados, circulando em siléncio, ressaltando que, para os pescadores, nao “é doce morrer no mar”. Nenhum pescador o deseja. Apés conclusio do livro sobre a Jangada, Cascudo decide enfrentar tematicas como 0 carro de boi, a rede de dormir, o papel recortado para bolos, 0 tabaco. Ao tabaco dedicou artigo sobre 0 cachimbo inglés. Do papel recortado para bolos, usado para envolver e presentear pao-de-I6 as mies de recém-nascidos, no interior do sertao, tra- tou em capitulo do seu livro “Histéria da alimen- tacdo”. A pesquisa etnografica sobre o carro de boi ficou esquecida para que mergulhasse na Rede de dormir. Sistematizou o assunto, escasso na lite- ratura dos anos cingiienta e historiou as origens da rede de dormir. Para ele quem primeiro deno- minou a hamaca sul-americana de rede foi Pero Vaz de Caminha na chegada as terras de Santa Cruz, quando a viu numa maloca tupiniquim em Porto Seguro. 0 indios chamavam-na “ini”, ou seja, aquilo em que se dorme: rede-de-dormir. Os aru- acos chamavam hamaca a esse utensilio domés- tico. E hamaca passou para o francés (branle; hamac), italiano (amaca), inglés (hammoch), alemao (hangematte), holandés (hangmat, hangmak, hamgemach) e para o espanhol (ama- che, hamaca). De origem indigena amerindia espalhou- se do centro e das Antilhas para o sul do conti- nente. O portugués transportou-a para a Afri- ca, india, China, Jap4o, Coréia e para a Oceania, Polinésia, Micronésia e ilhas dos mares dos Sul. — Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 ‘Também os ingleses a teriam conduzido para a india. Interessante observar que mesmo tendo aclimatado-se na Africa, os escravos negros vin- dos para o Brasil, nao se acostumaram com ela, viveram e morreram sem abandonar a dormida no chao. Para Cascudo, a importancia da rede de dormir e sua permanéncia dava-se nos quadros do cotidiano brasileiro, principalmente do Nor- deste e Norte do pais, onde a rede foi usada para descansar, balancar, amar, criar - como ele a usa- va na escritura dos seus textos - dormir e trans- portar gente para passear e enterrar os mortos, criando lendas e supersticées sobre o seu uso. No cenério do cotidiano também foi bus- car a Histéria dos nossos gestos, como elemento essencial de comunicabilidade, insepardvel das manifestagdes verbais, néo sé dos individuos, mas principalmente da nagao. Argumentava que 0s gestos como expresso do pensamento con- vencionado pela mimica, através do tempo, foi a primeira forma de comunicagao humana e ainda mantinha sua eficiéncia nos varios recan- tos do mundo, no limiar do século XXI. Desenvolveu estudos sobre 0 assunto ¢ observou a universalidade de alguns acenos, 0 que reiterou em livros como “Civilizagao e Cul- tura” e 0 “Diciondrio do folclore brasileiro”. Para ele, o gesto caracterizava-se pela antigiiidade, anonimato, divulgacao e persisténcia do motivo folclérico, podendo ainda ser pesquisado como uma “permanente” etnografica, por ser docu- mento vivo, simultaneamente milenar e contem- pordneo, individual e coletivo. Como anunciava no “Diciondrio do fol- clore brasileiro”, os gestos mais antigos so ex- pressos pelas mos e os mais recentes pelos olhos, eo critério mais comum para classificd-los tem sido pelas suas inteng6es a saber: “negativas, afir- mativas, normativas (ordens, convites, missdes) € religiosas (submissdo, vénia, adoragao, respeito), origem dos gestos de saudagao em sua maioria”.? Id. Diciondrio do folelore brasileiro. 7. ed. Belo Horizonte: Tratiaia, 1993. p. 430. 63 Nao existia nos resultados das suas investiga- des a mesma traducio literal para todos os ges- tos, mesmo para aqueles universalmente conhe- cidos, como observou na andlise dos gestos que representam negativa e afirmativa, gesto de ca- bega na horizontal e vertical, que tinham signi- ficagao inversa para chineses e ocidentais. Esti- rar a lingua, sendo insulto na Europa e América, significava saudagao respeitosa no Tibete. En- tre aqueles gestos universalmente conhecidos e aceitos quanto aos significados, sempre dava exemplo do aceno dos “Bragos erguidos”, gesto que 0 motivou na escritura do trabalho sobre o assunto e do gesto do aplauso, “Bater as palmas”. Sendo o gesto anterior & palavra, os dedos ¢ bragos humanos falaram milénios antes da voz. Através do gesto, o homem liberta e exterioriza 0 pensamento. A partir da imagem gesticulada, 0 vaqueiro do interior do sertdo nordestino se rela- ciona com 0 mundo em sua volta. Dizia o mestre que, se Ihes amarrassem as mos, falaria muito pouco. Por isso entendia que a palavra sem o ges- to era precaria e pobre para o entendimento te- mitico, dando os exemplos do abecedirio dos sur- dos-mudos, entendido pela posicao dos dedos ou dos bracos, para traduzir as letras do alfabeto no cédigo da linguagem verbal, e dos acenos orienta- dores nos ambientes onde a voz. humana estivesse impossibilitada de fazer-se ouvir, como 0 dedo em riste nos labios, significando siléncio. Pode-se pois, comecar a entender uma cultura pelas expressdes, gestuais. E se ndo ha obrigatoriedade do ensino, 0 gestual é indispensavel no ajustamento da condu- ta social. Todos nés aprendemos o gesto desde a infancia e nao abandonamos seu uso pela exis- téncia inteira. Os desenhos paleoliticos registravam, os gestos mais antigos, de mao e cabeca, e toda literatura classica da histéria, de viagens, do tea tro e dos poemas mostram 0 gesto como expres- so das manifestagées socioculturais, Dessas manifestacdes socioculturais, Cas- cudo deteve-se exaustivamente na sociologia da alimentagéo como fato social, respaldando-se na histéria e na etnografia. Nas suas pesquisas ndo esqueceu de inventariar a “alimentago popular em sua normalidade e variancia” dos dias festivos, ee Cronos, Natal-RN, v1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 64 do ciclo religioso, da comida antiga e suas modifi- cages, e dos pratos tradicionais, percebendo os fazeres e prazeres alimentares como manifestagdes culturais. Na sua Histéria da alimentagdo no Brasil concebeu as nuances do folclore contidas na pré- pria historia dos grupos humanos nos seus itine- rarios e aculturages. A vastidao temética do as- sunto orientava etnégrafos e folcloristas a verificarem seus dados nas supersticdes alimenta- res, ¢ na etiqueta tradicional A mesa - 0 respeito - que era um vestigio religioso constante. Estuda- va-se, jd na época, as preferéncias gastrondmicas e suas cantigas originais; a antigiiidade dos ver- sos ¢ 0 vocabulério usual das referéncias aos ali mentos observavam-se as permanéncias das fra- ses feitas, locugdes, imagens comparativas, exclamagdes de protesto e desabafo, temas predo- minantes em todas as classes sociais, como ele pré- prio observou, a exemplo dos trabalhos realizados € daqueles elaborados por Hildegardes Vianna e Edison Carneiro. Além dessas nuances do folclore da ali- mentacio chamou a atengao para as crendices existentes sobre os utensilios da cozinha e do fogo. Reuniu exigéncias tradicionais, respeitos e regras que deveriam ser mantidas para melhor resulta- do no uso das técnicas culindrias, no preparo dos temperos, no arranjo prévio de carnes, peixes, crustdceos, moluscos, aves e caca. O proprio com- bustivel era motivo de supersticao, sendo escolhi- do com certas precaucées, pois mantinha o mile- nar prestigio sagrado. As panelas, frigideiras e cacarolas tinham personalidade prépria e 0 cozi- nheiro/cozinheira deveria seguir certos preceitos para nio violar certas crendices no tocante aos temperos, tempo da coccao e molho, porcdes de sal e aciicar, alimentos que deveriam ser assados ou cozidos, utensilios e posigdes para mexer os acepipes. Cascudo preocupou-se ainda em mostrar a antigitidade de certas predilecdes alimentares que os séculos fizeram habitos explicaveis como uma norma de uso ¢ um respeito de heranca dos man- timentos de tradigéo. A modificagio desses usos dependia, para ele, do processo de formacao tem- poral. Por isso impunha-se & compreensao da cul- tura popular como realidade psicolégica, entida- de subjetiva atuante, dificil de render-se a uma imposicdo legislativa ou a uma pregacio. No cardépio indigena pesquisou as “cons- tantes” e “permanentes” alimentares das dietas sélidas e liquidas. Discutiu a origem, técnicas, re- cursos e condimentos da alimentacao, além da participaco desse cardapio na comida contempo- rénea nacional. Na dieta africana, especialmente d’Africa Ocidental, dos sudaneses e bantos, fez um levan- tamento do panorama alimentar em suas raizes constantes, partindo de informacées de fins do século XV, e sua presenca nos viveres do engenho de aciicar brasileiro, na primeira metade do sécu- Jo XVII, assim como as permutas afro-brasileiras, até o século XVIII, sendo as épocas seguintes com- plementares das permutas e nao modificativas da alimentacao. Na ementa portuguesa, como chamava o cardapio dessa alimentacao, deteve-se nas fontes de estudo da cozinha brasileira. © portugués, ins- talando-se para ficar definitivamente no Brasil, recriou, aqui, 0 seu ambiente familiar, cercando- se dos recursos domésticos aos quais estava habi- tuado. Comecou a fazer aqui seus doces, manja- res e pratos preferidos, com os azeites, os temperos, a manteiga, a valorizacao do agticar, do milho, do sal e do ovo. Trouxe também suas festas tradicio- nais com seus cantos, dancas e cardépios caracte- risticos do So Joo, Natal, Entrudo (origens do carnaval) e Quaresma - as quatro festas do ano. Na cozinha brasileira analisou como a des- pensa portuguesa comecou a ser brasileira. In- vestigou os elementos basicos dessa alimentagao, detendo-se no binémio feijao-e-farinha, na feijo- ada, no suplementar arroz, com suas variancias, arroz-doce, arroz-de-leite, arroz-de-coco, Estu- dou temperos como o sal, a pimenta e o acticar, a0 qual dedicou, um trabalho exclusivo “Sociolo- gia do acticar”. Neste livro, revelou os aspectos socioldgicos da producao acucareira, enfatizan- do o enraizamento dos habitos, tradicdes, supers- tigdes, cédigos de moral e religioso. Destacou tam- bém a vinda do acticar para o Brasil-colénia, sua Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 ascenso e industrializagao, as categorias sociais envolvidas na sua cultura, as designagées indi- genas ¢ africanas e sua importancia nutritiva. Nas técnicas culindrias, sua pesquisa et- nografica registrou com detalhes uma classifica- go que dava conta dos assados, cozidos, guisa- dos e frituras. As sopas, os caldos e as papas, 0 preparo da carne e do peixe, dos molhos, bolos e doces, receitas e as influéncias alemas e italia nas. Incluiu ainda nessas técnicas culindrias 0 uso das frutas e a preparacao da dieta para as gravidas ¢ a alimentacdo infantil. No ritmo da refeico deteve-se nas origens da etiqueta, nos habitos da merenda e aperitivos, “sandwich” e cachorro-quente. Abordou ainda as “Satides can- tadas e cangées de beber”, documentério musi cal, influéncia da cozinha francesa no Brasil e 0 “métier” do banquete. Gestos, superstigdes e costumes, exibidos as refeigdes foram registrados na sua obra, como fa- ria comentando a “Geografia da fome” de Josué de Castro, no artigo intitulado “O historiador da fome” para 0 Diario de Noticias: “Ainda hoje, com tantos séculos de marcha, a maior festa oficial é dar-de-comer ao visitante, rei, barao, soldado, la- drao. A maior homenagem é o brinde-de-honra, no fim, de copo na mao, ao redor da mesa. Erga- mos as nossas tacas...”. E reiterando sua preocu- pacdo no estudo das permanentes e constantes da alimentagéo como expressao cultural, dirigiu-se, em varios pontos do trabalho, para a importéncia do paladar no “gosto” alimentar. O temario das superstigdes e costumes sem- pre constituiu para Cascudo “uma das mais se- dutoras indagacées na cultura popular”, como diria na sua jornada através do universo supers- ticioso expressa na Voz de Nessus. Nessa invest da dialogou com o leitor as suas crencas recebi- das da hereditariedade social, porque todos nés tinhamos supersticdes. Diante disso, escreveria um dicionério brasileiro de supersticdes e nao um dicionario de supersticdes brasileiras. ‘A supersti¢ao, para ele, era uma sobrevi- véncia de cultos desaparecidos dos quais ficaram vestigios que atualizam as proibigdes ou os atos vocatérios de infelicidades de outrora, “supersti- 65 cdo, super-stitio, 0 — que ~ sobreviveu”. Esses ves- tigios ajustavam-se psicologicamente aos elemen- tos religiosos contemporaneos, sempre condicio- nados mentalidade popular. Escreveu sobre 0 assunto Anubis, culto aos mortos e Religido no povo, pesquisas etnogréficas que buscavam a elu- cidacdo das origens e suas sobrevivéncias comu- mente ignoradas mas sempre obedecidas. Transcrevendo da mitologia grega a gene- alogia de Antbis, cujos vestigios egipcios, mes- mo dilufdos em outras tradig6es, continuavam no cotidiano brasileiro, observou as superstig6es nos, ritos funerdrios. Dentre os temas estudados pa- recem mais presentes, no cenario atual, aqueles vestigios em torno do nome do morto, do cada- ver, do veldrio, do enterro e da sepultura, dos dias depois da morte e do luto, bem como da viagem para 0 outro mundo, do anjo e do pagao e do julgamento da alma. Complementou o temério das superstigdes no livro com o estudo do uso da saliva, do pé direito, das advinhas de Sao Joao, do pisar & terra descalco e do nao olhar para tras, correlacionando-os aos ditames de Anubis que tudo fiscalizava. Para que o percurso do acompanhamento de Antibis nao fosse dificultado, certos procedi- mentos deveriam ser obedecidos, como os referen- tes ao nome do morto, que por sua forca sugestio- nadora poderia materializar 0 objeto evocado. Assim, chamé-lo traria o morto de volta, por isso a referéncia deveria ser feita ao morto, ao falecido, ao defunto. Antibis sabia os nomes que deviam ser esquecidos e que jamais receberiam alimentos para suas almas. Esses defuntos teriam os nomes apa- gados das paredes dos templos, trazendo 0 costu- me do “varrer o rastro” para esquecer alguém, tird- lo da meméria. Quanto ao cadaver, ainda é guardado o costume de fechar-lhes os olhos para 0 mundo, e nao levar nada que signifique vaidades, além da posicao dos seus pés que devem ficar em direc & porta do recinto no qual estiver, ao contrério da posigdo que veio ao mundo, e das maos que devem estar cruzadas. A guarda ao morto vem de tradigao oriental. As exceléncias (oragbes em verso) e os benditos foram trazidos pelos colonos Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 66 portugueses e a “encomendacao” do corpo seria © envio ao julgamento divino. Devia entrar no ce- mitério carregado por aquele que Ihe havia tira- do de casa. O féretro devia seguir lento, em sinal de respeito e para nao chamar outras pessoas a sua condicao. As carpideiras, que choravam os mortos, vindas do Egito através da Grécia e Roma nao existem mais. O direito ao tumulo era sagra- do porque sem a sepultura a alma ficaria erran- te, conforme esta registrado no livro ‘Jangada”. Os trés e sete dias apés a morte tinham seus sig- nificados. A alma sé abandonava 0 corpo ao ter- ceiro dia, quando Jesus Cristo ressuscitou, e no sétimo dia, conforme o preceito litirgico hebreu, a alma estava limpa, podendo-se rezar missa. ‘Também seriam sobrevivéncias condiciona- doras da mentalidade popular, a mimica que estu- dou na “Histéria dos nossos gestos”, bem como a enunciagio de frases que registrou nas “Coisas que © povo diz” e expressbes “afastadoras do mal, ou rentincias denunciando os limites licitos das devo- GGes diluidas no tempo”, os provérbios do folclore brasileiro. Documentario de “frases feitas” de uso centenério e corrente do povo portugués e brasilei- ro, as quais foram prefaciadas por Maria Aliete Galhoz, da Universidade de Lisboa, em 1983, anali- sando as diversas perspectivas da motivacao de Cé- mara Cascudo. Para a autora, a maioria das ex- pressdes registradas continuava sendo usada em Portugal com ligeira variagéo de preposigdes, outras persis- tem similarmente por manutengdo de um mesmo campo semdntico e algumas se iluminam de senti- do ainda pragmatico nas reminiscéncias contextu- ais e familiares da minha vivéncia delas.'* Muitos dos verbetes, para a comentadora, poderiam ser religados a sua persisténcia ou vesti- gios da fala portuguesa e seriam “solo de palavras” para uma sondagem antropoldgica “de restos”, acul- turados, mortos, substituidos por novas expresses de linguagem. “Goisas que o povo diz” foi incorporado ao Locugées tradicionais do Brasil que trata da ‘1d. Locugées tradicionais no Brasil: coisas que o povo di. Reci- fe, UFPE, 1970. p. 24. investigagao da origem dos addgios populares colhidos diretamente do povo, principalmente do sertao nordestino brasileiro que parecia, para Cascudo, manter-se no século XVIII e teve como trabalho orientador “Frases feitas” de Joao Ri- beiro. Limitou sua coleta das quinhentas e cin- co locucées, as locugées tradicionais. Posterior- mente, ampliou esse universo com expressdes de construcées mais recentes, tendo em vista 0 uso insistente, inclusive, pela populacao mais jovem. Uma das locugdes mais antigas registra- das é 0 Salve ele! de niimero trezentos e sessen- ta e nove, com seus correspondentes, Viva! Sati- de! Seja bem-vindo! Saudagdo cordial e popular por todo Brasil. Salvar, no século XVI quando o brasileiro nasceu, era sau: dar. Ainda hoje, ‘salva’ de palmas ou de artilharia. Onavio ‘salvou a terra’ com cento e um tiros. Salva real. Originava-se do ‘almejar satide’a alguém. Dar 0 ‘Deus te salve’. Era o Salve, saudagéo matinal em ‘Roma, dedicada a Deusa Salus, filha de Esculdpio,'* © bom dia atual. Dentre os vestigios da superstigiio, também estavam os elementos religiosos contemporaneos investigados no estudo da Religiao no povo que foi uma exposigao do antigo cotidiano reverente a Deus permanente nas tradigdes. Interessava a Cascudo © espirito divino nas entidades grupais dentro da igreja ou fora dela, além do comportamento ex- primindo a conviccdo intima de uma ortodoxia he- reditdria, recolhida a partir de depoimentos orais. Tais depoimentos, muitas vezes, explici tavam divergéncias antagonismos se conside- rado © teor valorativo das interpretacdes dos in- formantes, mas houve uma média constante nas informagées coletadas. A partir desses dados, es- creveu sobre temas como a devogao popular a Nossa Senhora, aos santos tradicionais do Brasil, as santas almas benditas, o habito de rogar pra- gas e tomar bencio, e sobre “a ciéncia de Deus no povo”, que intitulou teologia popular. A religido no povo é entendida como uma referéncia que realca a colaboragao de milénios e "Tid, p. 27. Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 retirava do culto ortodoxo os elementos adapté- veis A devocdo tradicional, sempre sob a superin- tendéncia da fé. Pensava que as fungdes do ho- mem, no ofegante século XX, haviam mudado muito pouco, apesar de todo o desenvolvimento tecnolé- gico, principalmente no tocante as superstigdes, € dew 0 exemplo de que o homem foi a lua levando no bolso uma figa da Bahia. Assim, a alma do povo apenas mudava os trajes e os instrumentos de tra- balho, mas, ante as provacdes naturais de sobrevi- véncia, reagia com os mesmos gestos, as mesmas interjeigdes dos antepassados. Supunha que, sem a intervencao do clero na vida mental do povo, seria possivel a manuten- cao da heranca de receitas e conceitos para julgar as ocorréncias do cotidiano. Acreditava que a ori- ginalidade da tradigao estava no povo, afirmando que para estas pessoas 0 sobrenatural era légico pela simples evidéncia, explicando-se pelo préprio “mistério impenetravel ds argticias da curiosidade humana”. E reiterava que, ao contrario dos inte- lectuais, o popular nao se interessava pela expli- cacao do fenémeno, mas unicamente por sua in- terpretaco. Tinha a intuigao do siléncio “impassivel a todas as perguntas, infaliveis e intiteis”.:° Esse pro- cedimento dificultava a invasdo dos anseios revo- lucionérios no plano religioso, preservando as tra- digdes. Entretanto, longe da idéia de estagnacéo, as formatagées culturais ligadas & tradigao se rea- limentam, segundo Cascudo, mais propriamente da metamorfose das bases milenares, construidas pelas defesas, “evitacdes” ou aliangas com o inex- plicavel, entendido como sobrenatural, férmulas compativeis com suas primeiras experiéncias so- ciais - inconsciente coletivo. Camara Cascudo prosseguiria argumen- tando que os brasileiros so representantes de po- vos alimentados de um alto patriménio superstici- 080, constituidos pelos descendentes dos amerabas, portugueses e africanos, memérias vivas nas suas reminiscéncias. A influéncia marcante era euro- péia, via portugueses, seguida pelas tradigdes su- °° 1d. Superstio no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1985. p. 322: Religido no povo. 67 persticiosas dos escravos africanos e indigenas. 0 Brasil central, tendo em vista a movimentacao comercial do ouro e dos diamantes, manteve mai- or abertura para a troca de idéias com os euro- peus, observacées registradas nas jornadas de via- jantes como Saint-Hilaire e von Martius. Nos sertées do Nordeste, desde a Bahia até 0 Piaui, as populagées do interior mantive- ram-se realimentadas pela cultura do passado. Nos mais diversos aspectos das manifestacdes culturais, as tradigdes eram mantidas. Conser- varam até pelo menos a primeira década do sé- culo XX, quando conviveram, naquele cendrio, com os arcaismos do século XV. Como exemplo disso esta o transporte de liteira, que Cascudo presenciou sua mae utilizando, conforme regis- trou nas “Locugées tradicionais no Brasil”, pes- quisa de expressées da linguagem, na qual foi possivel perceber a preservacdo da estrutura lin- giiistica do século passado. Além disso, as populagdes sertanejas man- tiveram o culto da tradigao hereditdria na alimen- taco, nos costumes, nos mitos, lendas, supersti- Ges € em varios outros aspectos pesquisados registrados em diversos pontos da obra cascudia- na como, por exemplo, no campo das supersticdes registrados na “Voz de Nessus”. No Vaqueiros e cantadores observou os mo- tivos principais da poesia tradicional sertaneja, con- forme viria a registrar nos Estatutos da Sociedade Brasileira do Folclore, classificando-a em ciclo so- cial do gado, ciclo heréico dos cangaceiros ¢ hist6- ias de bichos. Quanto A métrica das expressoes potticas, dividiu o material coletado em quadras, versos de sete-silabas, décimas e parcelas, bem como em poesia mneménica e tradicional, estabe- lecendo uma subdivisdo para estas duas tltimas categorias. Assim a poesia mneménica e tradicional continha temas romanescos como a “Donzela Te- odora” e a “Princesa Magalona”. O Pé-quebrado, 0s A.B.C. € os Sinais e Oracées, principalmente aquelas rezas para bichos mordidos de cobra e ado- entados, que muitas vezes eram curados pelos ras- tros. Do ciclo do gado constam os registros com as devidas poesias, algumas vezes musicadas, sobre Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 68 © temério rural das Vaquejadas e Apartacées ¢ as Gestas de animais, como a solfa do “Boi Surubim”, © romance do “Boi da Mao de Pau” e os estudos sobre 0 cantador com suas sagas e fontes de eru- dicdo e inspiracdo, como foi exemplo seu primeiro artigo sobre o folclore, “O aboiador”, publicado na “Revista do Brasil”, em 1921. Incluiu ainda nos registros da tradicao ser- taneja, no t6pico sobre o Cantador, os modelos de louvacao, a cantoria, 0 desafio e um documenté- rio sobre o Padre Cicero, 0 negro nos desafios do Nordeste, ¢ 0 cangaceiro e seu banditismo serta- nejo, incluindo as faganhas de Lampiao e Maria Bonita. Traria ainda, nesse documentério das tra- digdes populares, versos que contam as aventuras de Pedro Malazarte no folclore poético brasileiro. Aliés, Florestan Fernandes no “Folclore em ques- to” citou os registros de Camara Cascudo, nos “Contos Tradicionais do Brasil” (1946, p. 218-25), apontando que o autor havia, naquele caso, se res- tringido “a referéncia de algumas fontes bibliogrdfi- cas importantes, deixando de lado a andlise do pro- cesso de transformagao dos temas e dos contos no Brasil...” (1989, p.121). Gumercindo Saraiva, no seu livro “Camara Cascudo: musicélogo desconhecido” (1969, p.94), afirmou que a “Revista Brasileira de Musica” pu- blicou uma diviso da obra “Vaqueiros e cantado- res”, em cinco partes, estudo realizado por A. Fr tas que continha o seguinte temédrio: Os motivos da poesia tradicional sertaneja; Os motivos do ver- 80 sertanejo; A poesia mneménica e tradicional nos romances, no pé-quebrado, no A. B. C. € nos “pelo sinal” e “oragdes”; O ciclo do gado; e 0 ciclo, social, que estuda minuciosamente e completa o Cantador, a Cantoria e o Desafio. ‘As fugas de amor das “meninas” das ca- marinhas, prendas para os cavaleiros dourados, bem como a honra dos homens casados, estavam presentes na poesia do povo e foram registradas no trabalho Flor dos romances trdgicos. Os versos da poesia tradicional traziam para a meméria do povo a consténcia dos grandes motivos emocionais, notadamente os acontecimentos amorosos, ple- beus e fidalgos, findando em sangue para lavar a honra dos traidos e dos injustigados. Era o regis- tro da aventura do homem valente, transgressor € julgado por outra légica que nao fosse a do Cédi- go Penal. A coragem, a bravura e o arrojo provo- cavam a simpatia, mas ndo a solidariedade no ser- to. Era indispensavel uma justificativa moral para que todos compreendessem a necessidade de la- var a honra com sangue e legitimar o crime. Desse cenério, nosso etnégrafo recolheu os versos da poesia da continuidade sentimental, expressos através dos depoimentos orais. Ouvir 0 povo era curso universitdrio para Cascudo. A tradigao oral denunciante dos costu- mes, idéias, mentalidades, decisdes e julgamento, como estes dos romances trdgicos, estava presen- te nas lendas, cantos e mitos cheios de mistérios, como aparece na suia Geografia dos mitos brasilei- ros. As cantigas, fébulas, ditados populares dao um tom singular ao “Coisas que o povo diz”. 0 mesmo ocorre com os versos improvisados e co- municativos que tecem a narrativa de “Vaqueiros e cantadores”, e com as historias das noites enlua- radas e aquelas contadas pela velha Bibi, em Trin- ta estorias brasileiras, Os melhores contos popula- res de Portugal, Cinco livros do povo e os Contos tradicionais do Brasil. Neste ultimo, reuniu cem contos, varios deles j4 publicados em outros tra- balhos de registro da literatura oral. O conto popular para Camara Cascudo era, entre todos os materiais folcléricos, 0 mais amplo ¢ expressivo, apesar do menos examinado, reuni- do e divulgado. Constitufa elemento indispensavel para as ciéncias afins estudarem a psicologia co- letiva e a cultura humanista. Além disso, era uma viagem de retorno ao pais da infancia para reen- contrar, no referente imaginario, os primeiros he- réis com suas cismas, sonhos, movimento de soli- dariedade, amor, édio e compaixdo, sentimentos mostrados nas histérias ouvidas quando crianca. Raramente transcrevia histdrias das fontes jd editadas, preferia o registro vindo da literatura Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 oral. Isso Ihe parecia propiciar a valorizagao do folclore, visto que o conto popular revelava infor- maces historicas, etnograficas e dos varios cam- pos do conhecimento da sociedade. Numa tentativa de sistematizacao dos con- tos, dividiu os cem contos tradicionais em catego- rias, compreendendo os contos de encantamento, exemplo, animais, facécias, religiosos, etiolégicos, em torno do deménio logrado, contos de adivinha- do, da natureza denunciante e acumulativa, ree- ditados na obra “Folclore do Brasil” com ligeiras modificacdes. Fixou as peculiaridades do conto popular que deveriam ser revestidos de caracteris- ticas da antigilidade, anonimato, divulgacio e per- sisténcia, mesmas exigéncias feitas a0 motivo fol- clérico. Embora reconhecesse que o problema da classificagdo dos contos populares ja havia sido resolvido pelo método Aaerne - Thompson, Cas- cudo declarava que sua classificagio havia sido recebida com “simpatia pelos mestres do folclo- re”. Acrescentava peculiaridades na sua divisao, nao fixando o elemento formador do conto, mas agrupando o material segundo caracteristicas mais tipicas do grupo de temas, critério empre- gado quando prefaciou os “Cantos e contos po- pulares do Brasil” de Silvio Romero, fixando pelo motivo essencial do episédio, sua permanente. Analisando o contexto etnografico e hist rico do mito, registrou as histérias que advinham dos “mitos ainda vivos, correntes e crentes na imagi- nagdo popular”.:’ Aqueles que se articulavam com acidentes geograficos ou fenémenos meteorolégi- cos e com fatos sociais (familia, trabalho, educa- do, amor) ou religiosos foram excluidos da Geo- grafia dos Mitos Brasileiros, para serem incluidos na “Etnografia Tradicional do Brasil”, titulo inici al pensado para os “Contos Tradicionais do Bra- sil”, A parte poética desses mitos jé havia estudado ¢ inserido nos “Vaqueiros e Cantadores”. "1d, Geografia das mites brasileiras. Rio de Janeiro: José Olym- pio, 1947. p. 15. 69 Na década de 40, Cascudo, a exemplo de outros estudiosos, estava preocupado em “salvar material o mais avultado, 0 mais longinquo” pos- sivel, como expressaria no prefacio & “Geografia dos Mitos Brasileiros”. Adota indicagdes metodo- légicas alheias para seu trabalho, embora nao de todo convicto, visto que era avesso a esse procedi- mento. Depois de tanto material ido e owvido, em anos ¢ anos de amorosa curiosidade, descubro a obriga- gio de filiar-me a uma escolha, escolher um ca ‘minho, marcar numa diregdo, sob as pens da lei folclérica."* E usaria para estudar o folclore contido nas narrativas miticas uma classificagao de uso corrente, Essa classificagéo que elegeu, com modificagées pessoais, era, para si mesmo, a mais velha e classica, a mais simples, primitiva ¢ logica das classificacées. Dividiu em dois qua- dros gerais 0 mundo “espantoso” em que viveu. Mitos primitivos e mitos secundérios locais. Sub- dividiu os primeiros em mitos gerais indigenas - Jurupari, Curupira, Anhanga, Mboitata, ‘Tupa, Ipupiaras - e os europeus diversificados pelo elemento colonial brasileiro - amerabas, negros, mesticos - e que vém a ser Lobisomem, Mula-sem-cabeca e Maes-d’agua. Nos Cinco Livros do Povo estudou a no- velistica, tornando-se suas investigages 0 pri meiro trabalho brasileiro sobre o assunto, es- crito com documentacio existente fora do pais. Pesquisou as origens, transmissdo e persistén- cia de cinco das mais antigas e populares des- sas novelas no Brasil, vindas de Portugal, sen- do, trés delas, traduzidas do castelhano. O estudo desses livros, que se tornaram popula- res no interior do Nordeste, revelou a constan- cia de seculares histérias da tradicao européia, que ainda permaneciam no imaginario popu- lar através da literatura tradicional. As cinco ' Ibid., p. 15. Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 70 tradicionais novelas populares estudadas por Cascudo representavam idéias, sentimentos, virtudes e caracteres do povo e traziam histéri- as da Donzela Teodora, Roberto do Diabo, da Princesa Magalona, da Imperatriz Porcina, Joao de Calais e informagées sobre a histéria do Im- perador Carlos Magno e dos Doze Pares de Franca. As histérias da Donzela Teodora repre- sentavam a valorizaco emocional da inteligén- cia feminina. Roberto do Diabo incorporava a valentia a servico do mal, sendo seu persona- gem muito sedutor. Depois arrependia-se das maldades e tornava-se um contrito soldado de Deus, pelejando o bom combate de espada e langa em defesa do direito e da justica. A Prin- cesa Magalona representava 0 romance da fi- delidade e o juramento de amor eterno. A tra- ma circunstanciava cenas de justica, torneios, viagens e saudades, caridade, cativeiro e pri- so, mas termina com final feliz. A Princesa Porcina era o elogio da casta esposa, sofredora e fiel, tudo enfrentando para manter-se digna do nome ilustre de mulher casada Joao de Calais, com suas viagens e aven- turas resgatava o elemento sempre impressio- nante do morto agradecido. Suas facanhas es- palhavam 0 motivo do resgate do cadaver do devedor, que nao tinha direito & sepultura. Ou- tra tematica comum nos contos universais da literatura oral, era o cumprimento da palavra dada, implicando até o sacrificio do préprio fi- Iho, caso a promessa nao fosse cumprida. Nos “Cinco Livros do Povo”, aparecem as informagées sobre a Hist6ria do Imperador Car- los Magno e dos Doze Pares de Franca. Discutia também as origens e as versdes de cada um dos cinco livros de novelisticas mais divulgados, bem como as alteracées das histérias e 0 aco- Ihimento que cada uma encontrou no povo bra- sileiro, através da literatura de cordel, expres- sio do folclore pottico. Os contos e o motivo folelérico so, por- tanto, os sinalizadores das idéias nucleares de Camara Cascudo no campo do conhecimento da tradigéo. Quando William John, em 1846, conceituou a expresso folclore, o fez para substituir diversas outras que designavam o estudo das tradices populares entre as quais figurava a literatura. Considerando que 0 fol- clore estudava apenas a cultura dos grupos dgrafos, Sébillot, também no século passado, em 1881, criou a expresso literatura oral, para sintetizar as expressdes artisticas da fala do povo. Baseado nesse conceito, Cascudo escre- veu sua obra Literatura oral, repositério de fol- clore, abrangendo as narrativas, os contos, a novelistica, romance, cangdes, costumes, au- tos populares, dangas, e mitos retidos na me- méria coletiva e expressos através dos depoi- mentos orais. Mais tarde, quando publicou “Cinco Livros do Povo”, ampliou seu entendi mento de literatura oral, criando a expressao “Literatura popular”, que abrangeria a litera- tura oral, a literatura tradicional e a literatura popular. A rearticulacéo das manifestacées cul- turais da obra de Luis da Camara Cascudo pos- sibilita aos estudiosos das suas idéias reorde- nagdes em um todo simultaneamente mesclado e aberto, que percorrem os dominios da cultu- ra, do folclore e do conhecimento da tradicio. Essa abrangéncia de estudos em um s6 autor, por sua vez, confere a Camara Cascudo tons interpretativos, que abrangem e extrapolam as miiltiplas nuances explicitadas, nos diversos in- ventdrios da produgao de trabalhos que discu- tem tais idéias nucleares. Assim, para além de um determinismo tematico, o mundo das idéi- as do Principe do Tirol exibe, confortavelmen- te, o pensamento de um bricoleur, na concep- cao levistraussiana, um artesao da sociabilidade humana. Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 55-72, jan./jun. 2000 REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS 1 - CASCUDO, Luis da Camara. Antologia do fol- clore brasileiro. 4.ed. Sao Paulo: Martins, 1971. - Antibis e outros ensaios. 2.ed. Rio de Janeiro: FUNARTE: INF: ACHIAME; Na- tal: UFRN, 1983. Cinco livros do povo. 3.ed. Joao Pes- Editora Universitaria da UFPB, 1994. 80% - Civilizago e cultura. 2.ed. Belo Hori- zonte: Itatiaia, 1983. - Contos tradicionais do Brasil. 4.ed. Belo Horizonte: Itatiaia; Sao Paulo: Edi- tora da USR 1986. 6- - Diciondrio do folclore brasileiro. 7.ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1993. 7- Flor dos romances trdgicos. 2.ed. Na- tal: Fundacdo José Augusto, 1982. 8- ; Folelore do Brasil. 2.ed. Natal: Fun- dado José Augusto, 1980. 9 - Geografia dos mitos brasileiros. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia; S40 Paulo: Ed. da USP 1983. 10- . Histéria da alimentagao no Brasil. 2.ed. Belo Horizonte: Itatiaia; Sao Paulo: Ed. da USR 1983. 2v. 11. . Histdria dos nossos gestos. 2.ed. 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