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JUÍZO DE DIREITO DA 2ª VARA CÍVEL DA COMARCA

DE_________________

PROCESSO Nº:

A CURADORIA ESPECIAL, atuando na defesa dos


interesses de ________________, vem, por intermédio da
__________________em exercício neste órgão de atuação, manifestar-se
acerca da petição de fls. 238/247, expondo e requerendo o seguinte:

I) Da impropriedade, em tese, do pedido de constituição de


usufruto:

Quanto ao pleito de constituição de usufruto, o mesmo não


deve prevalecer.

O usufruto é um direito real limitado, previsto nos arts.


1.390 e seguintes do Código Civil, cabendo destacar que a tipicidade dos
direitos reais deve, ainda, servir como cânone interpretativo de suas
hipóteses de constituição, de forma que demanda expressa previsão legal.

No caso em tela, o que se tem é justamente o oposto: o


Código de 1973 instituía, nos arts. 716 usque 724, a medida executiva
de “usufruto do bem móvel ou imóvel”, denominação que já causava
controvérsia e que foi expurgada pelo novo codex processual. De fato,
conforme ASSIS:

Essa técnica de expropriação na versão originária do CPC de 1973, era


de “usufruto de imóvel ou de empresa”, posteriormente transformada
em “usufruto de móvel ou imóvel”. Porém, a nomenclatura não
importava “identidade de características entre o instituto e o que
recebe igual denominação no direito material”.392 Em equívoco

1
análogo, porque traçou indevido paralelo com o paradigma civilista da
anticrese, incorreu a doutrina quanto à arrematação de real a real.
ASSIS, Araken de. Manual da execução. 18ª ed. São Paulo: RT, 2016,
p. 993.

O que prevê a Subseção X da Seção III do Capítulo IV do


Título II do Livro II do atual CPC é a penhora de frutos e rendimentos de
coisa móvel ou imóvel, que não se confunde com o antigo instituto (NERY
JR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Comentários ao Código de
Processo Civil. 2ª tiragem. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015, p.
1752); ao contrário, teve a função de substitui-lo, ou, pelo menos, de
aclará-lo, diante da impropriedade terminológica já apontada, que gerava
confusão entre as categorias.

Portanto, data venia, descabe, no atual estado do


ordenamento jurídico, a constituição do direito real de usufruto como
medida executiva.

II) Da análise, em concreto, da viabilidade de penhora de frutos


e rendimentos de bens imóveis:

Em regra, sem dúvida a penhora de frutos e rendimentos é


menos gravosa do que a adjudicação do bem ou sua alienação, vez que o
imóvel permanece no patrimônio do executado, tendo-se apenas o
cuidado em se nomear a figura do administrador, na forma dos arts. 868
e 869 do CPC.

Entretanto, no caso concreto, impende ser ponderada a


questão do tempo, eis que devem ser calculados os juros incidentes sobre
o valor total da dívida, já que, se maiores que o rendimento mensal, não
haverá razão para essa forma de penhora, que implicará em efeito mais
gravoso que a expropriação, haja vista que o executado perderá,
vitaliciamente, a posse do bem.

Como destaca Assis:


Não faria sentido o juiz avaliar a eficiência da penhora “para o
recebimento do crédito”, conforme acentua o art. 867, se no tempo
2
necessário para o pagamento da dívida, calculado pelo
administrador, não ocorresse a satisfação do exequente. Uma coisa
se vincula à outra.

O regime atual deixou em aberto o cálculo do tempo provável, sujeito


a inúmeros percalços, em que se dará a extinção. Deve o juiz,
portanto, ponderar se os rendimentos da coisa penhorada
conduzirão, dentro de prazo razoável, à solução da dívida. Tem duplo
aspecto, pois, o requisito: de um lado, os rendimentos hão de ser
suficientes para alcançar aquela solução rapidamente (caso
contrário, a penhora se revelaria gravosa ao executado e inútil para
sua finalidade); e, de outro lado, a penhora há de levar
obrigatoriamente à solução da dívida.

Em outras palavras, o juiz indeferirá a penhora se, à primeira vista,


os acréscimos naturais da dívida (reajustamento monetário e juros)
absorverem os rendimentos dos bens penhorados.
ASSIS, Araken de. Manual da execução. 18ª ed. São Paulo: RT,
2016, p. 996.

No caso sob análise, a tabela apresentada pelo exequente


indica a existência de viabilidade da penhora, desde que se consiga obter,
a título de aluguel, quantia igual ou superior a R$ 1.600,00 (mil e
seiscentos reais).

Dessa forma, entendendo V. Exa. pelo cabimento da medida


de penhora dos frutos e rendimentos do bem imóvel (haja vista que,
consoante demonstrado, não há que se falar em constituição de usufruto
na hipótese), deve a medida ser condicionada resolutivamente à
apresentação de proposta de locação pelo valor mínimo de R$1.600,00
(mil e seiscentos reais). Caso contrário, restará ausente sua viabilidade,
pois, como anteriormente exposto, implicará em perda vitalícia da posse
do bem pelo executado, agravando-se a onerosidade da execução.

Angra dos Reis, 17 de setembro de 2018.