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Nome: Carolina Duarte Zambonato

Obra: Fortunas do Feminismo – Traficantes de sonhos de Nancy Fraser

Fichamento 04: Capítulo 04

Nancy procura discutir o salário familiar em uma época pós-industrial, em que a crise
do Estado de Bem Estar tem múltiplas raízes, inclusive a desintegração da ordem de
gênero – núcleos familiares heterossexuais encabeçados pelo homem e que viviam
principalmente dos rendimentos ligados ao provedor masculino. Esta modificação tem
reflexos no modelo de salário familiar e implica desafios para pensar a justiça de
gênero.

Ante as modificações sócio-econômicas da era pós-industrial, a resposta que as


feministas têm dado para o desafio da justiça de gênero centram-se em dois modelos: o
provedor universal e a paridade do cuidador. O objetivo deste capítulo, portanto, é
discutir esses modelos, avaliando as vantagens e inconvenientes de cada um deles, a luz
de uma concepção complexa de justiça de gênero.

Esta concepção de justiça de gênero parte de critérios normativos levantados pela


autora, os quais buscam superar o debate entre “igualdade” (tratar as mulheres
exatamente como os homens) e “diferença” (tratar as mulheres de maneira distinta dos
homens na medida de sua diferença), os quais se colocam, por vezes, como polos
antitéticos no debate. Para isso propõe sete princípios normativos:

1. Princípio antipobreza: significa que necessidades básicas devem ser satisfeitas; 2.


Princípio da antiexploração: prevenir a exploração de pessoas vulneráveis, seja no
âmbito familiar, como no âmbito do trabalho ou na relação com a administração
pública; 3. Igualdade de renda: distribuição da renda per capita real; 4. Igualdade no
tempo de ócio: diz respeito à distribuição do trabalho ligado aos cuidados primários o
qual cria a possibilidade de tempo de lazer e ócio; 5. Igualdade de respeito: diz respeito
a não objetificação, sobretudo das mulheres no registro sexual, nas relações; 6. Princípio
de antimarginalização: promover a plena participação das mulheres em todas as áreas da
vida social; 7. Princípio antiandrocentrista: descentramento das normas masculinistas,
revalorizando práticas e traços subvalorizados ligados às mulheres.

Com base nesses princípios, a autora passa a analisar cada um dos modelos com base
nos princípios normativos da justiça de gênero.

Quanto ao modelo do provedor universal, busca-se alcançar a justiça de gênero


promovendo o emprego das mulheres, buscando universalizar o papel de provedor
familiar. Para isso seria preciso promover reformas trabalhistas destinadas a eliminar a
discriminação de gênero e, do ponto de vista cultural, eliminar a relação entre
masculinidade e provedor. Por isso, este modelo está muito longe das realidades atuais,
e exige uma massiva criação de empregos próprios da força de trabalho primária. Do
ponto de vista dos princípios da justiça de gênero, este modelo preveniria a pobreza,
bem como impediria a exploração e relacionamento dependentes. Quanto à igualdade
de renda, o modelo só consegue resolver esta questão de maneira medíocre, pois
embora ocorra uma equiparação salarial, outros eixos de diferenciação social operariam,
tais como a classe, a educação, a raça, etc.

Quanto igualdade do tempo de ócio este modelo é bastante pobre porque a


suposição de que o Estado e o mercado agora assumirão as responsabilidades
domésticas e de cuidado, é ilusória pois grandes parte destas funções não podem ser
delegadas (gravidez, assistência a emergências familiares, etc).

Quanto ao respeito, não é possível reduzir homens e mulheres ao critério de


cidadão trabalhador como única oportunidade de eliminar a diferença entre os sexos.
Por não promover uma equalização dos cuidados domésticos, é provável que neste
modelo as mulheres resguardem uma maior conexão com a reprodução e a
domesticidade, aparecendo como provedoras frustradas.

Quanto à antimarginalização, o modelo não promove a participação das


mulheres na esfera pública, apenas de modo “laborista”. E quanto ao
antiandrocentrismo, o modelo socializa apenas o lugar já tradicionalmente ocupado
pelos homens sem fazer o caminho oposto, levar os homens para o lugar doméstico
ocupado pelas mulheres.

Já o modelo de “paridade do cuidador”, observado em maior parte na Europa


Ocidental e nos socialdemocratas, busca diminuir o peso da diferença e elevar os papéis
reprodutivos e domésticos ao patamar do trabalho formal. Modelo extremamente
ambicioso, requer também uma reforma trabalhista e um programa de flexibilidade
tanto na jornada de trabalho, como na garantia da seguridade social, etc.

Quanto aos princípios da Justiça de Gênero, este modelo também incorre em


problemas, conforme assinala Fraser. Ele consegue combater a pobreza e a exploração
uma vez que equipara o trabalho doméstico ao trabalho formal e garante alguma renda
para as mulheres.

Quanto à igualdade de renda os resultados, entretanto, não são tão bons


conforme os exemplos da experiência nórdica, onde os trabalhos parciais acabam por
ser pior remunerados. Quanto ao tempo de ócio a paridade do cuidador obtém resultados
melhores, uma vez que as mulheres evitam a dupla jornada de trabalho. À igualdade de
respeito a valorização do trabalho doméstico equipara e dá mais dignidade às mulheres.
A antimarginalização torna-se difícil neste modelo porque consolida o modelo sexista
de divisão do trabalho doméstico, reforçando sua exclusão na participação da esfera
pública. O antiandrocentrismo é melhor combatido neste modelo, uma vez que valoriza
o trabalho doméstico ao invés de trata-lo como obstáculo ao emprego. Este modelo,
pelas suas controvérsias, também não é capaz de abarcar todos os princípios normativos
da justiça de gênero.
Se nenhum destes modelos é satisfatório, qual é a terceira alternativa? O ponto
principal destas deficiência é que embora estes modelos ou bem dividem os papéis
majoritariamente masculinos ou valorizem as funções reprodutivas e o trabalho
doméstico, em nenhum deles há uma divisão dos papéis exercidos pelas mulheres. Em
nenhum deles há uma indução dos homens aos cuidados primários.

“A chave para alcançar a justiça de gênero [...] é fazer que os atuais padrões de
vida das mulheres se convertam em regras para todos. Hoje em dia a mulheres
combinam o trabalho de provedora com o dos cuidados, ainda que com grandes
dificuldades e tensão. Um Estado de Bem-Estar pós-industrial deve garantir que os
homens façam o mesmo, e ao mesmo tempo redesenhar as instituições de modo que
eliminem a dificuldade e a tensão. Poderíamos denomina-lo o modelo do cuidador
universal.” (FRASER, p. 164)

De todo modo, a promoção da justiça de gênero só seria possível com a própria


desconstrução do gênero, onde a sociedade civil se apresentaria como espaço adicional
para os cuidados, superando o “laborismo” do provedor universal e o privatismo
doméstico da paridade do cuidador.