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Dos "Sucatinhas" ao "Sucatão": história dos

aviões presidenciais brasileiros

O Sucatinha:
Durante o governo do Presidente Ernesto Geisel, tornou-se evidente que seria
necessário dotar a Força Aérea Brasileira de aeronaves presidenciais mais
modernas e de maior alcance que os One-Eleven VC-92 e Viscount VC-90 então
utilizados.

Naquela época, o jato comercial de maior sucesso no mercado era o Boeing 737-
200 Advanced. Desde 1969, a Vasp operava o modelo, e seus concorrentes Varig
e Cruzeiro do Sul logo a seguiram. Era uma aeronave versátil e confiável, que
dispunha de uma espaçosa cabine de passageiros, de seção idêntica à do jato
intercontinental Boeing 707, só mais curta.

Escadas embutidas nas portas traseiras: ítem raro nos 737-200 comerciais
A escolha do governo foi óbvia: em 1975, a FAB encomendou diretamente à
Boeing dois Boeing 737-2N3, em configuração executiva. A FAB exigiu várias
modificações em relação aos 737 comerciais, entre as quais uma escada embutida
na porta traseira, além da dianteira, para proporcionar maior independência de
infraestrutura de terra.

VC-96 em frente ao hangar do GTE, em Brasília


O primeiro desses jatos, c/n 21165, o 441º 737 na linha de produção, voou pela
primeira vez em 05 de março de 1976, e foi entregue à FAB em 31 de março do
mesmo ano, permanecendo nos Estados Unidos para configuração do interior e
depois transladado para o Brasil, onde chegou em 19 de agosto de 1976.
Recebendo o registro militar FAB 2115, foi incorporado imediatamente ao GTE, em
Brasília.

O FAB 2116 em Heathrow, Londres


O segundo avião, c/n 21166, o 445º 737 na linha de produção, voou pela primeira
vez no dia da entrega do 2115 à FAB, 31 de março de 1976. Em 13 de abril foi
entregue à FAB, permanecendo nos Estados Unidos para configuração do interior
e depois transladado para o Brasil, onde chegou vinte dias depois do 2115,
recebendo o registro militar FAB 2116.

Após um breve período de adaptação dos tripulantes e equipes de terra, a FAB


despachou os dois One-Eleven VC-92 para o Rio de Janeiro e colocou-os à venda.
Logo os dois VC-92 foram adquiridos pela Fordair, uma subsidiária da Ford Motor
Company européia, e seguiram para a Europa.

Os Boeing 737-200 logo revelaram suas qualidades. Tinham alcance suficiente


para atingir qualquer cidade do Brasil, a partir de Brasília, sem escalas, veloz e
confortavelmente.

Durante mais de 10 anos, os dois VC-96 só fizeram voos, com o Presidente a


bordo, dentro do Brasil e na América Latina. Todavia, o Governo resolveu operá-
los, depois, em voos para a Europa e os Estados Unidos, fazendo escalas técnicas
para reabastecimento. Sem encontrar maiores dificuldades, essas missões
tornaram-se, depois, muito comuns.

Uma das missões mais memoráveis dos VC-96 no Brasil ocorreu durante a visita
do Papa João Paulo II ao Brasil, em julho de 1980. O Governo Brasileiro colocou à
disposição do Papa o VC-96 2116, e essa aeronave conduziu o Sumo Pontífice a
onze Estados brasileiros durante a sua visita.

Dificilmente uma dessas aeronaves ficava indisponível, e os Presidentes que as


utilizaram geralmente colocavam uma delas à disposição de Chefes de Estado
estrangeiros em visita ao Brasil, utilizando-se da outra para o seu próprio serviço.
Em caso de problemas, o velho Viscount VC-90, o "Cafona", estava sempre a
postos.

No início dos anos 80, os aviões passaram por uma revisão nos seus sistemas de
navegação, e incorporaram novos recursos então exclusivos do modelo 737-300,
como o FMS e o TCAS, sistemas de gerenciamento de voo e de prevenção contra
colisão no ar, respectivamente.

Em 1989, os dois aviões passaram por um grande retrofit do assoalho para cima, e
todo o interior foi refeito, o que garantiu um melhor conforto para os ocupantes.
Embora confortáveis, os VC-96 eram desprovidos de qualquer tipo de ostentação,
bem ao sóbrio estilo da Força Aérea Brasileira.

Os Boeing VC-96 eram tão úteis ao governo que não ficaram restritos ao uso
exclusivo presidencial. Era muito usado por ministros de estado e outras
autoridades importantes em missões dentro e fora do Brasil. De fato, os dois
aviões acumularam um total de quase 50 mil horas de voo durante os 34 anos em
que ficaram em serviço.
A partir da década de 1990, os VC-96 passaram a voar para qualquer lugar do
mundo, sem maiores restrições, graças aos equipamentos modernos de
navegação e comunicação. Entre os aeroportos que frequentaram estavam Lisboa,
Kopenhagen, Zurique, Nova York, Cairo, Capetown, Osaka, Ilha do Sal e
Ascenção.

A mais longa missão executada pelos VC-96 foi transportar o Presidente Luíz
Inácio Lula da Silva ao Japão, em maio de 2005, com um total de 54 horas de voo.

Depois que o Boeing 707 (KC-137) presidencial da FAB ganhou o infame apelido
de "Sucatão", os dois VC-96, até então chamados de "Bregas" (como os demais
737-200 brasileiros), receberam o apelido de "Sucatinhas". Todavia, não existe
histórico de incidentes graves com esses aviões durante todos os anos em que
permaneceu em serviço, e seu estado geral era impecável.

Finalmente, em 2011, o Governo Brasileiro resolveu aposentá-los. Os dois aviões


mantiveram a plena operacionalidade até o fim, mas já tinham 34 anos de uso. A
FAB adquiriu, então, dois Embraer E190 novos, denominados na FAB como VC-2,
e os dois VC-96 foram retirados de serviço no dia 16 de abril de 2010.

A FAB despachou os dois aviões para a Base Aérea de Anápolis e os colocou à


venda. Todavia, mesmo as aeronaves tendo um baixíssimo número de ciclos e de
horas de voo, e estando perfeitamente conservadas, foram sempre mantidos sob
normas militares, e sua conversão em aeronaves civis é bastante complicada,
burocrática e cara, especialmente se a intenção do comprador for colocar os
aviões em serviço comercial. Não encontraram compradores, até o momento
(fevereiro de 2012).

A FAB, por fim, resolveu entregar o FAB 2116 para o Museu Aeroespacial
(MUSAL), e o avião executou o seu último voo, com destino ao museu, no dia 04
de novembro de 2011. A partir de 8 de novembro, foi exposto à visitação pública.
Quanto ao 2115, onde seu destino era incerto tendo rumores de que tenha sido
vendido para o ex-piloto de Fórmula 1 Nelson Piquet, mas tudo não passou de
especulação e o mesmo foi desmontado sendo levado para Foz do Iguaçú em
julho de 2016. Será totalmente reformado e ficará exposto por 10 anos já que a
FAB cedeu essa aeronave para a Helisul com esse tipo de acordo.

O Sucatão:

Em 1986, a FAB negociou com a Varig quatro aeronaves Boeing 707-300C, com a
intenção de convertê-los em aeronaves KC-137, de reabastecimento no ar, para
complementar sua frota de Lockheed KC-130 Hercules, e dotar a FAB de um
reabastecedor a jato.

A Varig estava substituindo os 707 por aeronaves mais econômicas, como os


Boeing 767, mas os aviões ainda estavam em boas condições de uso.

Os aviões escolhidos foram os que operavam na Varig com as matrículas PP-VJK,


PP-VJY, PP-VJX e PP-VJH, que seriam convertidas como aviões tanques KC-137
e levariam os registros FAB 2400, 2401, 2402 e 2403, respectivamente.

O PP-VJK da Varig deveria ser o FAB 2400, mas acidentou-se antes de ser entregue
Infelizmente, o PP-VJK, operando seu último voo comercial pela Varig, caiu na
Costa do Marfim em janeiro de 1987, foi substituido pelo PP-VLK em março do
mesmo ano, que levou o registro FAB 2404. Todas as quatro aeronaves voaram
para os Estados Unidos para serem convertidas em reabastecedores. Foram
equipadas com pods de abastecimento Beech 1080 nas pontas das asas, os quais
possuem mangueiras retráteis de 12 metros de comprimento e um "cesto"
estabilizador, no qual as aeronaves podem encaixar suas sondas para receber o
combustível. As aeronaves não possuem tanques extras de combustível, já que a
sua capacidade original é grande o suficiente para cumprir suas missões na FAB,
e sua configuração conversível de passageiros/carga foi mantida. Normalmente,
são destinados a trasnportar passageiros, em missões especiais.

A função primária dos KC-137 é o reabastecimento em voo dos caças das FAB
A aeronave 2401 (foto abaixo) foi equipada para servir como transporte do
Presidente da República em voos mais longos, nos quais os Boeing 737,
denominados na FAB VC-96, deixavam a desejar. O FAB 2401 se distinguia
externamente dos demais pela sua pintura VIP, em branco com uma faixa preta na
altura das janelas. O FAB 2403 também recebeu esse esquema. O primeiro voo do
FAB 2401 como presidencial ocorreu em 1986, transportando o Presidente José
Sarney, e mais de 2500 missões de transporte presidencial ocorreram depois
disso.
FAB 2401, com esquema de pintura VIP
O FAB 2401 possuia um interior VIP, com uma suíte a bordo para o presidente,
sala de reuniões e poltronas para as comitivas presidenciais. Apesar disso, o
interior era simples e austero, sem ostentação, mas bastante confortável. Esse
"kit" presidencial podia ser instalado nas outras aeronaves KC-137 da FAB, e o
FAB 2403 operou nessa configuração várias vezes.

Cama da suíte presidencial, a bordo do FAB 2401


Durante o Governo Fernando Henrique Cardoso, houve alguns incidentes com o
KC-137, e em uma dessas ocasiões o avião foi apelidado pelo então Chanceler
Luiz Felipe Lampréia de "Sucatão", depois de um incidente com um dos motores, a
bordo do FAB 2403. O apelido infelizmente caiu no agrado da imprensa e "pegou".
FAB 2403, atualmente parado
O Presidente Fernando Henrique Cardoso passou a evitar o avião e contratou
aeronaves Airbus A-330 da TAM para suas viagens intercontinentais, mas o
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a utilizar o FAB 2401, devido ao alto
custo dos contratos com a TAM, até adquirir uma aeronave Airbus A319 ACJ para
atender à Presidência, em fevereiro de 2004

O FAB 2401 foi repintado em cinza depois de aposentado pelo Presidente Fernando Henrique, mas o
Presidente Lula mandou repintar o esquema VIP
O velho, mas versátil, KC-137 é uma das aeronaves mais úteis da Força Aérea
Brasileira. Foi o único avião presidencial comprado já usado, mas não chegou a
decepcionar nessa função, a despeito do incidente sofrido pelo Chanceler
Lampreia e de restrições contra ruídos de aeronaves sofridas em alguns
aeroportos estrangeiros.
Dois KC-137 no Aeroporto Salgado Fillho, em Porto Alegre/RS
Embora praticamente desativado como aeronave presidencial, os KC-137 ainda
prestam bons serviços como reabastecedor em voo e como aeronave de
transporte de longo alcance e grande capacidade. Estão sempre presentes nas
missões humanitárias e no resgate de brasileiros vítimas de guerras e outras
catástrofes, embora tenham já 44 anos de uso, em média.

Interior do FAB 2402, mostrando o esquema misto carga/passageiros da aeronave: versatilidade.


A FAB já desmontou quatro velhos Boeing 707 para suprir o estoque de peças
para o KC-137, inclusive uma aeronave que já serviu como aeronave presidencial
do Paraguai, e que foi doada pelo governo daquele país.

Atualmente, apenas três aeronaves estão em serviço. O FAB 2403 foi retirado de
serviço temporariamente há cerca de 8 anos, para executar um Check C, mas não
voltou mais a operar, desde então. É possível que esteja sendo lentamente
canibalizado para não paralisar os demais.
o KC-137 em voo, no esquema cinza de baixa visibilidade
Não existe uma intenção declarada da FAB em substituir os KC-137 por aeronaves
mais modernas. Todavia, a oferta de peças de reposição no mercado é escassa,
pois o avião deixou de ser fabricado em 1979, há mais de 30 anos, e isso pode
forçar a uma desativação inesperada dos aviões.

As aeronaves KC-137 operadas pela FAB foram, ou são:

FAB 2400: Boeing 707-379C, c/n 19822, comprado novo pela Varig e entregue em
04 de novembro de 1968; Matriculado no Brasil como PP-VJK. Já estava vendido à
FAB, onde receberia o registro FAB 2400, mas não foi entregue. Acidentou-se com
perda total em Abdijam, Costa do Marfim, em 03 de janeiro de 1987, quando
cumpria o que seria último voo regular antes de ser entregue à FAB;

FAB 2401: Boeing 707-345C, c/n 19840, arrendado pela Varig da Seabord em
operação de lease back, veio novo e entregue em 26 de fevereiro de 1968;
Matriculado no Brasil como PP-VJY. Foi vendido para a FAB em 04 de julho de
1986, onde opera até hoje como FAB 2401. Voou muito tempo como aeronave
presidencial, e apelidado pejorativamente de "Sucatão"; esta aeronave foi cortada;

FAB 2402: Boeing 707-345C, c/n 19842, comprado pela Seabord, mas não
entregue. Veio novo e entregue à Varig em 06 de agosto de 1968, onde foi
matriculado como PP-VJX. Foi sequestrado três vezes, durante o Governo Militar,
por oposicionistas. Foi vendido para a FAB em 12 de novembro de 1986, onde
opera atualmente como FAB 2402; atualmente está parado na BAGL aguardando
ser vendido;
O FAB 2403 em voo, em 1993
FAB 2403: Boeing 707-320C, c/n 20008, comprado novo pela Varig e entregue em
14 de julho de 1969; Matriculado no Brasil como PP-VJH; Vendido para a FAB em
13 de março de 1986, onde opera até hoje como FAB 2403, e serviu como avião
presidencial reserva; esta aeronave foi cortada;

FAB 2404: Boeing 707-324C, c/n 19870, fabricado em 1968, foi comprado usado
da Continental, onde era N47332, e entregue à Varig em 30 de março de 1972:
Matriculado no Brasil como PP-VLK. Foi vendido para a FAB em 16 de março de
1987, em substituição ao PP-VJK, que foi acidentado ainda na Varig, e onde opera
até hoje como FAB 2404; foi acidentado em Porto Rico, destino desconhecido.

O FAB 2404 em manutenção no PAMA/GL