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06/10/13 A mentalidade medieval - © Starnews 2001

~ A mentalidade medieval ~
Ao estudarmos em detalhe alguns dos aspectos da vida cotidiana
medieval, parece-nos conveniente chamar a atenção do leitor para
alguns dos traços mais característicos do que poderíamos chamar
“mentalidade medieval”.

Sobre alguns aspectos da vida medieval, particularmente nos séculos


XIII e XIV, chamamos a atenção para a vitalidade, o equilíbrio e a
magnífica civilização que caracterizam essa época, civilização essa
encarnada em obras-primas e que produziu grandes homens de rara
qualidade humana, que venerava como seus modelos: um São Luís; um
São Francisco de Assis... O que poderíamos apontar como o primeiro
traço característico da mentalidade medieval: a impregnação religiosa
que não está necessariamente associada ao clericalismo e dá à alma uma
singular liberdade em face de um mundo transitório que lhe compete
dominar.

Sobre a religiosidade medieval é característico da religiosidade medieval


que seus ideais espirituais encontraram expressão em um organismo
sociológico definido. A vida espiritual não era uma aspiração vaga nem
uma idéia abstrata. Era uma vida no pleno sentido da palavra, um
modelo organizado de conduta, personificada em distintas formas
institucionais e possuidora de uma existência econômica autônoma que a
tornava, ao menos potencialmente, independente do mutável ambiente
social que a rodeava.

Estudando especialmente a mentalidade medieval, apresentamos o senso


prático como um de seus traços mais característicos: nossos
antepassados medievais parecem não ter tido outro critério senão o da
utilidade. Na arquitetura, na arte, no quadro da vida cotidiana, não
propiciam lugar ao ornamento, ignoram a arte pela arte. Se uma goteira
se transforma para eles em gárgula, é porque sua imaginação intensa
permanece sem cessar desperta e aproveita tudo o que os sentidos lhe
revelam, mas não teriam tido a idéia de esculpir gárgulas que não
desempenhassem o papel de goteiras, como não teriam sonhado em
desenhar jardins unicamente para o prazer dos olhos. Seu senso estético
permite-lhes fazer surgir por toda a parte a beleza mas para eles a beleza

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não dispensa a utilidade. Há, pois na mentalidade medieval um espírito


positivo, realista.

O amor à poesia é outra nota característica da mentalidade medieval. A


poesia para as pessoas da Idade Média era uma forma natural de
expressão, fazendo parte da vida da mesma forma que as necessidades
materiais, ou, mais exatamente, que as faculdades próprias do homem
como o pensamento e a linguagem. E aqui se revela ainda o já citado
senso prático. O poeta não é para eles um anormal: é, ao contrário, um
homem completo, mais completo que aquele incapaz da criação artística
ou poética.

A atividade dos jongleurs ilustra bem o valor prático da poesia quando


se envolvem em tudo que excita, no momento, as paixões da multidão:
cantam ou recitam lamentações fúnebres, poemas apologéticos ou
verdadeiros panfletos. Em Paris os jongleurs trabalham a opinião
pública quer em proveito de um homem, de uma causa, de uma idéia e,
às vezes, contra homens ou contra idéias. Lembremos, a título de
exemplo, a atuação do famoso jongleur Rutebeuf que durante vários
anos usou de seu talento para escrever poemas que tinham por fim
lembrar aos cristãos seus deveres para com a terra santa, o heroísmo
dos que haviam tombado na guerra santa, o amor e o devotamento ao
sacrifício pela causa sagrada. Rutebeuf (século XIII) convida o povo a
condenar o egoísmo dos cavaleiros que só pensam nos seus próprios
interesses e a apoiar os ideais do rei e da Igreja.

A prudência, eis outra nota marcante da mentalidade medieval, que


também não deixa de manifestar o senso prático do povo do medievo. O
homem, na Idade Média, usa de tudo com medida: possui uma espécie de
desconfiança inata de suas próprias forças que coexiste curiosamente
com o élan e a audácia das grandes empresas a que a época assistiu.

A prudência medieval explica o grande respeito pela tradição, pelo


costume. Tudo o que está consagrado pelo tempo torna-se inatacável e
as descobertas, na arte, na arquitetura, na vida corrente, só se impõem à
medida que se apóiam na experiência. A Idade Média é caracterizada
como uma época de empirismo: não se fundamenta a vida sobre
princípios determinados de antemão; os princípios diretores de uma
existência decorrem das condições a que ela deve adaptar-se.

Essa prudência medieval parece estar bem expressa na afirmação de


Roger Bacon: Natura non vincitur, nisi parendo (Só se vence a natureza,
obedecendo-lhe) e é curioso lembrar que a teologia de Tomás de Aquino
situa a educação da consciência no exercício da prudência.

A noção de liberdade individual é outra nota característica da


mentalidade medieval, considerando que essa liberdade não aparece
como um bem ou um direito absoluto, mas, antes, como um resultado:
aquele cuja segurança está garantida, aquele que possui suficientemente
terras para poder enfrentar os agentes do fisco, e defender, ele mesmo, o
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seu domínio, é considerado livre porque possui, de fato, a possibilidade


de fazer o que lhe agrada. Os outros têm por princípio: segurança, em
primeiro lugar, e não parecem, aliás, sofrer a restrição, imposta pela
necessidade, à sua liberdade de locomoção, nem reivindicá-la como um
direito preestabelecido. Observe-se, contudo, que o homem medieval é
extremamente cioso dos direitos do grupo em que está integrado e que
são considerados indispensáveis à sua existência: liberdades familiares,
corporativas, comunais e outras foram sempre arduamente discutidas e
reivindicadas; quando necessário, defendem-nas com as armas nas
mãos.

O senso de humor constitui um significativo aspecto da mentalidade


medieval. O homem da Idade Média possui o senso do ridículo, o prazer
de rir e de fazer rir. Mistura com facilidade o sorriso com as mais
austeras preocupações. É necessário ter presente este senso de humor
para melhor compreensão de certas manifestações da época, do exato
sentido de certos textos. Nada escapa a esta tendência, nem mesmo
aquilo que a época tem no mais alto respeito; ficamos ás vezes chocados
com cenas de tavernas, com fins jocosos, introduzidas nos Mistérios e
seria completamente impossível, em nossos dias, reconstituir certas
cerimônias religiosas ou oficiais sem escandalizar o público habituado a
maior gravidade.

Um acendrado amor a tudo que está ligado diretamente à sua vida


cotidiana: o lar, a paróquia, o domínio, o grupo a que pertence eis uma
característica essencial da mentalidade do homem da Idade Média.

Uma cidade defende tão zelosamente suas liberdades como um senhor


sua castelania; as associações se mostram tão intransigentes com seus
privilégios, como um pai de família por seu feudo, por menor que seja; o
manoir, o lugar onde se habita, é considerado um santuário.

O amor a terra natal e à família não impede a existência de uma


constante migração de pessoas. Este gosto pela andança, esta sede de
conhecer terras distantes e estranhas, este prazer pela aventura constitui
certamente um dos mais marcantes e curiosos aspectos da mentalidade
medieval: desde o negociante que deixa sua loja para dirigir-se às feiras
da Champanha ou de Flandres, ou para traficar nas feitorias da África
ou da Ásia Menor, até o abade que vai inspecionar seus mosteiros, desde
os estudantes a caminho de uma universidade a outra, até os senhores
que visitam seu condado ou os bispos em viagem por sua diocese, desde
o reis que partem para a cruzada até o povo miúdo que se dirige para
Roma ou Santiago de Compostela, — todos participam mais ou menos
desta febre de movimento que faz do mundo medieval um mundo de
marcha.

Concluindo este rápido estudo de alguns surpreendentes e às vezes


aparentemente contraditórios aspectos da mentalidade medieval,
afirmamos que, em sua filosofia, em sua arquitetura, em sua maneira de
viver, em toda a parte explode uma alegria de viver, uma possante
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afirmação diante das quais vem-nos à memória a expressão irônica de


Luís VII a quem se reprovava pela ausência de magnificência: “Nós, na
corte de França, não temos mais que pão, vinho e alegria”. Palavras
magníficas que resume a Idade Média, época em que se soube, mais que
em qualquer outra, apreciar as coisas simples, sadias e alegres: “o pão,
o vinho e a alegria”.

~ Os sinos e as procissões na Idade Média ~


A importância dos sinos na Idade Média era muito grande, pois cada
som emitido significava um acontecimento diferente. O bater dos sinos,
certamente, marcava os principais eventos da vida urbana, quer
chamando os fiéis para a celebração dos ofícios divinos quer anunciando
festas; ora avisavam o início e o fim do trabalho, ora lembrando triste
acontecimento ou ainda alertando as pessoas para uma ameaça
iminente. Eram conhecidos pelos nomes: a grande Jacqueline, o sino de
Rolando. Toda a gente sabia o significado dos diversos toques, que,
apesar de serem incessantes, não perdiam o seu efeito no espírito dos
ouvintes.

Por todas as cidades, podiam ouvir sinos repicando, ressoando, retinindo


e carrilhonando, ora isolados, ora em concerto, repetidas vezes, em toda
parte onde houvesse uma casa de Deus.

O toque dos sinos também trazia doces recordações: lembranças de uma


paisagem ampla, suavemente ondulada; visões de aldeias e povoados à
luz do entardecer, de cidades de muitas torres ao brilho da manhã, da
liberdade da estrada...

O calendário litúrgico imprimia o ritmo às grandes festividades do ano.


As procissões constituíam manifestações importantes nessas festividades.
Algumas reuniam apenas os membros de uma mesma profissão, de uma
mesma confraria, conduzindo com grande pompa a imagem de seu santo
patrono através das ruas. Em outras, ao contrário, exprimia-se o
sentimento unânime da cidade, suas esperanças, seus temores, seu
reconhecimento. Para pedir aos céus o fim de uma longa estiagem, para
implorar o retorno da paz ou celebrar uma vitória sobre o partido
adversário, todas as classes sociais, gente da Igreja, burgueses, artesãos
e companheiros reuniam-se atrás das bandeiras, de cruzes, de relíquias e
as ruas das cidades assistiam ao passar de intermináveis procissões que
se renovavam às vezes durante vários dias seguidos, interrompendo toda
a atividade normal da cidade.

Decorava-se então a cidade com todo o fausto imaginável. Estendiam-se


tapetes ao longo das paredes, ornavam-se as casas com folhagens,
juncavam-se as ruas de flores. Cabe aqui uma observação curiosa: não
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existia na Idade Média o sentimento de pudor em ostentar


orgulhosamente o luxo, a riqueza em plena via pública, aos olhos
deslumbrados de uma multidão em que se misturavam os remediados
com os indigentes. A rua era o domínio comum onde o luxo de uns
acompanhavam lado a lado a miséria dos outros e onde se defrontavam
os aspectos mais opostos da vida social. Mas era também lá que ricos e
pobres se encontravam às vezes associados em manifestações coletivas
da vida profissional, política ou religiosa.

__________
Bibliografia: La Vie Quotidienne, Marcelin Defourneaux, Hachette, Paris – O
Declínio da Idade Média, Johan Huizinga, Editora Ulisséia, Rio de Janeiro, Lisboa –
O Som dos Sinos, Michael Kunze, Editora Campus, 1989.

~ Arnaldo Poesia ~

___________
Bibliografia: Lumière du Moyen Age, p. 249: “La Mentalité Médiévale”, Régine
Pernoud – La vie au Moyen Age, Geneviève D’Haucourt, Presses Universitaires de
France, 1952, Paris. Que sais-je? 132 – Ensayos acerca de la Edad Media,
Christopher Dawson, Aguilar S.A. Ediciones, Madrid, 1960 – La vie quotidienne,
Edmond Faral, Hachette, Paris – L’Éveil de la Conscience dans la Civilisation
Médiévale, p. 57, Chenu (Tradução de Arnaldo Poesia) – História do Mundo Feudal,
Mário Curtis Giordani, Editora Vozes Ltda., Petrópolis, 1983.

Links Relacionados:

Museu Bizantino
A Arte Medieval - Estilo Gótico
A Arte Medieval - Estilo Românico
Musée National du Moyen Age - Museu Nacional da Idade Média (em
espanhol)

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