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© Paulo Borges e Âncora Editora

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Capa: Andreia Figueiredo | Âncora Editora


Retrato de Agostinho da Silva da autoria de Maria Keil, solicitado por José Branco Rodrigues,
sócio-fundador e ex-presidente da Direcção da Associação Agostinho da Silva

Edição n.º 5016


1.ª edição: Fevereiro de 2006
2.ª edição: Março de 2006
3.ª edição: Fevereiro de 2016 (edição revista e ampliada)
Depósito legal n.º 404 779/16

Pré-impressão: Âncora Editora


Impressão e acabamento: Multitipo – Artes Gráficas, Lda.

ISBN 978 972 780 536 5

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OBRAS DE AGOSTINHO DA SILVA

AGOSTINHO DA SILVA
UMA ANTOLOGIA TEMÁTICA E CRONOLÓGICA

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Obras publicadas nesta colecção

Textos e Ensaios Filosóficos – Volume I


Agostinho da Silva
Textos e Ensaios Filosóficos – Volume II
Agostinho da Silva
Textos Pedagógicos – Volume I
Agostinho da Silva
Textos Pedagógicos – Volume II
Agostinho da Silva
Ensaios Sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira – Volume I
Agostinho da Silva
Ensaios Sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira – Volume II
Agostinho da Silva
Estudos Sobre Cultura Clássica
Agostinho da Silva
Estudos e Obras Literárias
Agostinho da Silva
Biografias – Volume I
Agostinho da Silva
Biografias – Volume II
Agostinho da Silva
Biografias – Volume III
Agostinho da Silva
Textos Vários – Dispersos
Agostinho da Silva
Agostinho da Silva e o Pensamento Luso-Brasileiro
Renato Epifânio
Tempos de Ser Deus
Paulo Borges

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Selecção, organização, introdução e apresentações
PAULO BORGES

AGOSTINHO DA SILVA
UMA ANTOLOGIA TEMÁTICA E CRONOLÓGICA

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PREFÁCIO

PAULO BORGES

AVISO AO LEITOR:
CONTEXTUALIZAÇÃO HISTORIOGRÁFICA
DA PRESENTE ANTOLOGIA

Paulo Borges, como jovem filósofo e, posteriormente, como professor


da Faculdade de Letras de Lisboa, encontra-se, por um lado, na origem de
uma decisiva popularização da obra do pensador Agostinho da Silva a par-
tir dos finais da década de 80 e, por outro, na base de uma profunda ligação
espiritual entre o pensamento de uma antiga geração provinda do profes-
sorado de Leonardo Coimbra na primeira Faculdade de Letras do Porto,
encerrada em 1931 (vínculo reflexivo inicial de Agostinho da Silva) – pro-
longado pelas tertúlias lisboetas de Álvaro Ribeiro e José Marinho em mea-
dos do século xx – e o de uma nova geração finissecular que se abria para o
horizonte da Filosofia em Portugal.
Com efeito, nesse período (décadas de 80 e 90), um livro de Paulo
Borges, Agostinho da Silva. Dispersos (ICALP), publicado em 1988,
com segunda edição no ano seguinte, antologia de intervenções avul-
sas editadas em revistas ou de textos há muito esgotados, atingiu uma
vigorosa dimensão cultural, que, de certo modo, atraiu uma parte da
juventude intelectual para o estudo, não dos filósofos coevos europeus
e norte-americanos, como tinha sido tradição permanente da elite

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agostinho da silva – uma antologia

cultural portuguesa desde os “estrangeirados” do século xviii, mas de


uma estranha tradição reflexiva eminentemente portuguesa a que se dera
o nome, igualmente estranho devido à sua dimensão “nacionalista”, de
“Filosofia Portuguesa”, que d­ iga-se, em abono da verdade, Agostinho da
Silva nunca comungou, devido ao seu pensamento de natureza univer-
salista, mas com a qual era por vezes confundido. Não que a antologia
organizada por Paulo Borges tivesse provocado uma adesão maciça a
este tipo de Filosofia, não provocou, mas, de um modo muito vigoro-
so, chamou a atenção para a existência de pensadores filósofos portu-
gueses vivos excluídos do mundo académico, que entrava então numa
deriva pós-moderna (Lyotard, Deleuze, Benjamin, Rorty, estudos retó-
ricos, Vattimo, Aganben, Derrida…), após a anterior deriva marxista e
bachelardiana da década de 70. Dava-se início, então, historicamente
falando, à recuperação de nomes de pensadores portugueses desde 1974
omitidos de jornais, de revistas e de histórias do pensamento: Sampaio
Bruno, Leonardo Coimbra, Sant’Anna Dionísio, Álvaro Ribeiro, Delfim
Santos, José Marinho, Agostinho da Silva, mas também nomes da gera-
ção seguinte, como António Quadros, Dalila Pereira da Costa, Afonso
Botelho, Orlando Vitorino, Pinharanda Gomes, António Braz Teixeira,
António Telmo e outros. Emblematicamente, por via da publicação de
Dispersos de Agostinho da Silva por Paulo Borges, restaurava-se o inter-
rompido fio histórico de ligação entre a primitiva (a primeira), a nova
e a novíssima gerações constitutivas do que se designou por “Filosofia
Portuguesa” no século xx.
Eis a “dimensão cultural” da antologia organizada em 1988 por Paulo
Borges sobre a obra de Agostinho da Silva – por um lado, uma espécie
de travão na assunção acrítica das modas intelectuais europeias – perma-
nente marca da cultura portuguesa, que Eça de Queirós designou por
um ingénito “francesismo” –; por outro, a chamada de atenção para a
existência de uma outra forma de fazer filosofia praticada por pensadores
portugueses, entre os quais, a um nível superior, Agostinho da Silva. No
século xxi, em inúmeras obras (O Jogo do Mundo. Ensaios sobre Teixeira de
Pascoaes e Fernando Pessoa; 2008; A Saudade como Via de Libertação, 2008;
Uma Visão Armilar do Mundo, 2010; É a Hora: A Mensagem de Fernando

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prefácio

Pessoa, 2013;…), Paulo Borges demonstrará a existência de uma vocação


universalista da cultura e do pensamento portugueses, ­libertando-os de
uma estrita visão nacionalista.
Neste sentido, Agostinho da Silva. Dispersos, mais do que um mero livro
de homenagem a um autor vivo, mais do que recolha de artigos avulsos
ou editorialmente esgotados, possuiu repercussões sociais e culturais que o
ultrapassaram, constituindo uma espécie de ponto de viragem no depau-
peramento pós-25 de Abril das reflexões filosóficas de autoria portuguesa e
um alerta para a necessidade de estudo desta tradição, mesmo da sua inclu-
são nos currículos académicos, como, a partir daí, gradualmente, começou
a ser praticado.
Suprema heterodoxia em 1988: Paulo Borges vinha dizer-nos que a obra
de Agostinho da Silva – cúmulo máximo do espiritualismo português de
Cunha Seixas e Sampaio Bruno – merecia ser conhecida dos portugueses
e estudada na universidade, como eram conhecidas e estudadas as obras de
Antero de Quental e António Sérgio; e – superior heterodoxia: a obra de
Agostinho da Silva “valia” tanto, do ponto de vista intrinsecamente filosó-
fico, ainda que num sentido espiritualmente oposto, à de António Sérgio,
um dos patriarcas da democracia pós-25 de Abril. Não caiu o Carmo e a
Trindade, mas conhecemos estudantes de Filosofia que compraram o livro de
Paulo Borges e o encadernaram com papel de lustro para não serem vistos na
Faculdade de Letras e nos cafés da Avenida de Roma a ­consultarem-no. Era
um mundo novo reflexivo que se abria – ler Agostinho da Silva e as suas pro-
postas milenaristas e paracletianas, em louvor do imprevisível e da existência
ecuménica de um Deus comum a todos os deuses, um pensador que acabara
de designar a então Comunidade Económica Europeia – eldorado ansiado
por Portugal – como “armazém de secos e molhados” vindo para perverter
a cultura portuguesa, e que louvava, ainda que heterodoxamente, à margem
da doutrina oficial de cúria romana, o catolicismo e a realeza medievais como
centros da identidade histórica portuguesa, significava, então, ir não só con-
tra as modas culturais da elite intelectual e dos seus costumes cosmopolitas
como desafiar a nova geração a redescobrir o antigo e permanente Portugal
dos valores da lealdade, da emoção, da lentidão, da fidelidade à palavra, da
amizade superior à competição e concorrência, do ser como superior ao ter.

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agostinho da silva – uma antologia

Em 2006, integrado nas comemorações do centenário de nascimento


do autor, após a edição de vários livros de diversos autores sobre Agostinho
da Silva, inclusive do início da “Obra Completa”, supervisionada por
Paulo Borges, e de um conjunto de originais do próprio Agostinho da
Silva, bem como da edição das suas conversas televisivas, Paulo Borges
publicou a primeira edição do presente livro, Agostinho da Silva. Uma
Antologia (Âncora Editora), cujo contexto histórico era já diferente do da
publicação dos Dispersos.
Paulo Borges e a Associação Agostinho da Silva (de que se tornara
Presidente numa direcção onde pontificavam Rui Lopo, Renato Epifânio
e Ricardo Ventura) tinham realizado um autêntico feito cultural, demons-
trando a existência de um verdadeiro filósofo português coevo, ainda que
excluído da Academia, mais por preconceito académico do que por conhe-
cimento da sua obra. Tratava-se agora de o popularizar ao nível dos estu-
diosos de Filosofia e das camadas intelectuais do regime político. Do ponto
de vista cultural, a Antologia agora reeditada cumpre esse desiderato. Ter à
mão uma síntese do(s) pensamento(s) de Agostinho da Silva e observar as
soluções por si propostas para os diversos temas e áreas da Filosofia.
Então como hoje, constatamos a existência em torno de Paulo Borges de
um núcleo de estudiosos de Filosofia que ambicionam fugir ao ­mainstream
ideológico e cultural – uma espécie de indústria do saber de massas que
tomou conta avassaladora do conteúdo de livros, cursos, seminários, jor-
nais e revistas –, núcleo que encontra no quadro intelectual e espiritual
proposto por Agostinho da Silva, não um vade mecum dogmático, mas
um ponto de partida para uma reflexão séria sobre os temas da filosofia, da
teologia, da cultura…

Miguel Real, 1 de Janeiro de 2016.

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INTRODUÇÃO

A primeira edição desta Antologia foi publicada em 2006, no ­âmbito


das comemorações oficiais do centenário do nascimento do Professor
Agostinho da Silva, em Portugal e no Brasil, que tiveram uma grande
expressão e dimensão pluricontinental (Europa, África e América) e a cuja
comissão organizadora em Portugal tive a honra de presidir, com a honra
acrescida de nesse mesmo ano ter estado no Brasil para abrir a Cátedra
Agostinho da Silva na Universidade de Brasília. Foi mais de um ano em
que se sucederam momentos inesquecíveis de entusiasmo e comunhão
espiritual, intelectual, cultural e humana em torno da evocação da passa-
gem neste mundo de um sábio que deixou e deixa marcas indeléveis em
todos os que com ele e com a sua obra conviveram e convivem.
Desde então a memória e a fecundidade da sua vida, pensamento e
obra não cessam de se tornar mais vivas e presentes. É já um lugar comum
reconhecer e dizer que Agostinho da Silva anteviu há cerca de meio século
temas, questões e desafios cruciais da crise do mundo contemporâneo, para
os quais apontou soluções e caminhos que, com toda a sua ­complexidade,
são hoje cada vez mais pertinentes. Agostinho foi um ser humano em mui-
tos aspectos exemplar, um pensador original de todas as experiências fun-
damentais, desde a espiritualidade e a religião até à política e à economia,
bem como um educador activo no despertar de consciências e na criação
de múltiplas universidades e centros de estudos, um tradutor criativo e um
poeta e escritor de elevado nível. A sua obra de vida, pensamento e escrita
transmite-nos uma poderosa visão alternativa aos rumos ainda dominantes,

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agostinho da silva – uma antologia

mas cada vez mais críticos, do paradigma globalizado da consciência e da


civilização. Agostinho é o visionário de um outro mundo possível à escala
planetária, radicado numa espiritualidade emancipadora da consciência,
no diálogo compreensivo e fraterno entre religiões e culturas, aberto a cren-
tes e descrentes, na transcensão dos velhos modelos pedagógicos, políticos,
económicos e sociais – entre os quais avulta o da cultura do trabalho, da
produção e do consumo – e numa abertura amorosa dos humanos a todos
os seres vivos e à Terra, tendo sido um notável precursor da defesa da natu-
reza e dos animais, várias décadas antes desta sensibilidade e preocupações
se haverem desenvolvido mais à luz do dia, como hoje acontece. Agostinho
é também um apaixonado pensador do papel mediador que na criação
desse mundo cada um de nós pode ter, a par das culturas portuguesa, bra-
sileira, lusófona e ibero-americana, em diálogo e cooperação fraternos com
todos os povos e culturas, com destaque para africanos e orientais.
Por todos estes motivos, na data em que se comemoram 110 anos do seu
nascimento, e em que se relançam iniciativas científicas em torno do seu
pensamento, julgo oportuno oferecer uma nova versão, revista e ampliada,
desta Antologia representativa das múltiplas dimensões e v­ ertentes da sua
obra, que constitua uma introdução cómoda aos seus grandes temas e ques-
tões, um aperitivo para uma leitura mais abrangente e aprofundada dos seus
textos e um contributo para repensar Agostinho crítica e criativamente,
quer o seu pensamento propriamente dito, quer as vias que a partir dele, das
suas fontes e das suas questões se abrem para uma melhor compreensão do
tempo presente que ajude a superar a crise em que hoje estamos. Portador
de uma visão global e coerente do sentido da realidade, do mundo, da vida,
da existência humana, da cultura, da história e da civilização, bem como
da vocação universal da comunidade de língua portuguesa, mas recusando
confinar-se numa dada especialidade do saber e da criação, Agostinho da
Silva expressou-a de uma forma ensaística, livre de rígidos compartimentos
conceptuais e disciplinares, o que exige uma leitura atenta para nos mean-
dros dos seus textos se encontrarem as articulações fundamentais das suas
ideias e das suas teses. É neste sentido que continuo a esperar que a presente
antologia, estruturada segundo temas nucleares e apresentando cronologi-
camente uma vasta selecção dos seus textos mais importantes, possa vir a

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introdução

ser um útil instrumento de trabalho e pesquisa para todos aqueles que, por
vários motivos, desejem iniciar ou desenvolver o conhecimento da obra
agostiniana no processo da sua génese e conhecer as razões do profundo e
inspirador impacto pelo autor deixado em várias gerações de portugueses,
brasileiros, lusófonos e outros leitores, c­ onviventes e correspondentes por
todo o mundo disseminados.
Naturalmente que, numa obra tão vasta, complexa e multiforme, difícil
seria abrangê-la na totalidade, sem deixar de incluir muitos textos significa-
tivos e alguns mesmo fundamentais. Optei assim pelo critério de recorrer
sobretudo às edições por mim organizadas e/ou coordenadas – os afama-
dos Dispersos e os doze volumes da Âncora Editora, que generosamente
abriu velas a esta odisseia editorial – e à bela edição de Presença de Agostinho
da Silva no Brasil, acrescentando excertos de traduções e da obra poética já
publicada, de três grandes entrevistas e alguns inéditos do espólio confiado
à Associação Agostinho da Silva, que espero abram o apetite do leitor para
a profundidade, riqueza e novidade do muito que está ainda por p ­ ublicar.
No que respeita aos doze volumes editados pela Âncora, privilegiei a selec-
ção de trechos dos livros de Agostinho ou de opúsculos (alguns, pela sua
importância, reproduzidos integralmente) e artigos mais extensos, em
detrimento dos imensos textos dispersos de menor dimensão.
No que concerne aos temas estabelecidos, que intitulam e estruturam os
doze capítulos do presente volume, reflectem naturalmente a minha leitura
global das vertentes e articulações fundamentais do pensamento e da obra
agostinianos, mas também as características particulares dos textos antolo-
giados. Devido às já referidas singularidades da obra agostiniana, em que
se torna difícil encontrar um tema tratado de modo isolado, sem remeter
para muitos ou todos os outros, decerto que o leitor encontrará textos que
poderiam ou deveriam surgir igualmente inseridos noutros capítulos. Por
compreensíveis razões tive que optar por situá-los apenas onde creio torna-
rem-se mais significativos, com raras excepções, em que um mesmo trecho
figura em capítulos distintos. Consciente dos limites e riscos das minhas
opções, sei que esta é apenas uma Antologia da obra de Agostinho da Silva,
que reflecte, nos moldes do possível e do razoável, o presente estado da
minha leitura e estudo da obra agostiniana. Seja como for, exorto a que a

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agostinho da silva – uma antologia

sua consulta, sendo cómoda, não convide ao comodismo de se pretender


que dispense a consulta e leitura de toda a obra ou da integralidade de
alguns dos volumes temáticos disponíveis. Neste sentido insisto que, se o
leitor aqui encontrar motivos de interesse, certamente mais vai descobrir se
se der ao gratificante trabalho de ler as próprias obras agostinianas.
Apresento ainda, no início de cada capítulo, uma visão e apresenta-
ção sintécticas daquilo que nos parecem as teses e questões fundamentais
dos textos nele presentes, expressando naturalmente aí outra dimensão da
minha leitura, interpretação e reflexão pessoal sobre o sentido do pensa-
mento e obra agostinianos. O que tem germinado ao longo do meu con-
vívio com o autor e os seus textos, desde a leitura fascinada de Reflexão,
em Janeiro de 1982, e essa tarde do mesmo ano em que, como se me
­conhecesse desde sempre, me franqueou as portas da sua casa em Lisboa, tal
como fazia com todos quantos o procuravam, para ficarmos horas esque-
cidas a viajar pelas sendas mais imprevistas do mundo, da vida, da cultura
e do espírito, janelas abertas sobre o glorioso estuário do Tejo. O convívio
com Agostinho da Silva, que decorreu desde então até à sua partida, foi
um momento alto dos muitos encontros com seres humanos ilustres que
a vida generosamente me tem oferecido. Se o digo é porque nunca o tive
pelo mestre que não pretendia ser nem me considerei um dos discípulos
que não queria e apenas para esclarecer possíveis e já ocorridos equívocos a
tal respeito. Tendo sido e sendo o convívio com ele, o seu exemplo, atitude
e ideias, uma das inspirações mais decisivas para o meu pensamento e vida,
nunca nas suas concepções me revi totalmente, havendo mesmo, como em
vida lhe expressei, consideráveis pontos de divergência. O que, mais do que
a adesão e a admiração, o gratificava e estimulava, exortando a que, nós, os
jovens, fôssemos mais além do que ele pensava. E isto, num mundo onde,
da religião às artes, letras, política e publicidade, quase todos parecem ter a
fraqueza, a insegurança e a cupidez de querer ser reconhecidos, elogiados,
venerados e seguidos, carecendo de clientela certa, acrítica e segura, mostra
toda a sua rara liberdade e grandeza. A liberdade e grandeza, aliadas à
generosidade, despojamento e amplitude de visão conciliadora dos mais
diversos e antagónicos sectores da sociedade portuguesa, da opinião, do
pensamento e da cultura, que fizeram com que, junto com vários amigos,

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introdução

por ocasião de umas eleições presidenciais, tenhamos lançado a ideia de


que ele seria, sem dúvida, o melhor Presidente-Rei que Portugal poderia
ter. Ter-se-ia realizado o ideal platónico de levar os sábios ao poder. Mas
ele confirmou que estávamos certos: recusando candidatar-se. Apesar de
acalentar as ideias que nos moviam.
Não foi esse o real motivo da sua recusa, mas, na verdade, nós, portugue-
ses e habitantes deste planeta, não o merecíamos. Como talvez não mere-
çamos também e ainda hoje o seu pensamento, no sentido de dificilmente
reunirmos as mínimas condições necessárias, não meramente intelectuais,
o que é pouco, mas de sabedoria e virtude, para o compreendermos ple-
namente. Um pensamento – este que o leitor tem em mãos – que não nos
desafia a menos do que a dar tudo, em todas as dimensões da nossa existên-
cia e vida, desde já e a cada instante, para realizar o melhor de nós mesmos
pondo-o ao serviço da mesma realização em todos os outros. Um pensa-
mento verdadeiramente r-evolucionário e radical, não no sentido de destruir
o quer que seja ou de substituir um poder e ordem opressivos por outros
equivalentes, embora de sinal contrário, mas de nos pro-vocar a rompermos
o estreito e asfixiante casulo da ignorância e do desamor egocêntricos em
que absurdamente encobrimos a e morremos para a nossa divina natureza
infinita, livre, sábia, amorosa e criativa. Um pensamento que, contra-a-cor-
rente dos hábitos mentais e emocionais dominantes num mundo escravi-
zado pela vaidade, a distracção, a ganância e a agressão, não se demite de
considerar a perfeição ética e espiritual em vida – aquilo a que o Ocidente
chama d­ ivinização e o Oriente iluminação – como o supremo direito e
dever de todo e cada ser humano perante si mesmo, o inteiro universo e
aquilo que de mais sagrado e precioso houver para si. Um pensamento que
não visa menos do que libertar o deus, o santo, o sábio, o herói e o génio –
ou seja, e melhor, o simples ser quem verdadeiramente se é – que persistimos
em agrilhoar nas tão sólidas quanto frágeis porque ilusórias masmorras do
nosso medo e das nossas fictícias esperanças e d ­ esejos egocêntricos.
Um pensamento que, no que diz especificamente respeito a nós, por-
tugueses, ao considerar como a nossa maior vocação, ampliada a toda a
comunidade lusófona, a de universalizarmos essa exortação à realização
do melhor de nós mesmos – contribuindo para a realização, em termos

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agostinho da silva – uma antologia

trans-nacionais, trans-partidários, trans-culturais e trans-religiosos, de


uma comunidade ético-espiritual laica e planetária –, tanto contrasta,
em sua generosa grandeza, com a mísera estreiteza dos fins (ou da sua
ausência) economicistas, produtivistas e consumistas que nos vêm quase
exclusivamente sendo apontados pela maioria dos nossos “representantes”
e responsáveis, e por nós passiva e cumplicemente aceites (pois eles são
o espelho de quem vamos sendo), como a suprema ou única razão da
nossa existência histórica. Com uma vocação da alma para coisas grandes,
para além dos limites em que no mundo nos foi dado viver, mas talvez
desde os Descobrimentos iludida e pervertida na busca da plena realização
nos falsos paraísos exteriores e do ter – primeiro África, depois Oriente e
Brasil e recentemente a Europa, que hoje se revela uma grande e salutar
­desilusão –, adiamo-nos incapazes de encarar e assumir o fundo de quem
somos, em toda a sua real pobreza e riqueza, como potencial e matéria-
-prima de um processo de aperfeiçoamento individual e colectivo, exigen-
te de árduo e criativo empenho espiritual e material e nada consentâneo
com expectativas ilusórias de salvações económicas, políticas ou religiosas
pré-fabricadas, importadas e fáceis. É por continuarmos delas escravos
que, ajuizando-nos sempre segundo critérios exteriores e superficiais, e
crentes inveterados em redenções vindas de fora, oscilamos, ao sabor das
vagas do mundo e da história, sobretudo as da economia, entre a euforia
vaidosa e mundana e a depressão auto-flagelante. É neste sentido que faze-
mos votos de que a visão agostiniana do nosso destino possível, caso não
abdiquemos da melhor das nossas possibilidades – ao arrepio do sucesso
fácil de ensaios superficiais e sem alternativas sobre os defeitos nacionais,
e com todos os seus riscos, se mal entendida ou instrumentalizada por
­neo-nacionalismos ­portugueses ou lusófonos –, nos habilite com um tóni-
co revelador do muito que podemos e de quão pouco o realizamos. Como
antídoto, no mínimo, à presente letargia em que, acompanhados por todo
o mundo dito civilizado, vegetamos sonâmbulos e hipnotizados, num sor-
riso vago que trai uma mais funda “apagada e vil tristeza”, ao som da
canção de embalar do consumismo e do hedonismo mais grosseiros e do
novo mito do crescimento económico ilimitado, tanto mais anestesiantes
e perversos quanto mais nos distraem de uma Terra e de uma comunidade

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introdução

de seres vivos, humanos e não-humanos, que sofre pelo comportamento


da humanidade dita civilizada e clama pela mutação da nossa consciência
e pela nossa acção solidária.
Outro Portugal Existe todavia. O de todas as pessoas, comunidades e
movimentos que, independentes em relação ao Portugal oficial dos gover-
nos, dos partidos, das igrejas de crentes e descrentes, da comunicação social
ao serviço de lobbies vários e da normose dominante, já se organizam para
viverem de modo alternativo e serem desde já, como praticou e exortou
Gandhi, a diferença que querem ver no mundo, em termos éticos, saudá-
veis e sustentáveis, movidos pela compreensão da íntima conexão e interde-
pendência de todos os seres e formas de vida. São esses, conhecendo ou não
a vida, pensamento e obra de Agostinho da Silva – e muitos o conhecem
e nele vivamente se inspiram – os seus verdadeiros continuadores, aqueles
que melhor correspondem já à exortação de Pessoa que Agostinho fez sua e
legou a todos nós: É a Hora! A Hora do despertar fraterno, activo e criativo
da consciência para um novo paradigma mental, cultural e civilizacional,
que passe pela abertura do coração ao Bem comum da Terra e de todos
os seres vivos, como proponho a partir da minha leitura da Mensagem de
Fernando Pessoa1.
Esta Hora soa a cada instante – agora mesmo! – e abrimo-nos a ela sem-
pre que decidirmos não mais culpar os outros ou por eles esperar e começar
por nós mesmos. Que mais não seja lendo atentamente e correspondendo
crítica e criativamente às pro-vocações agostinianas que aqui se nos dirigem.

Paulo Borges
31 de Dezembro de 2015

1
Cf. Paulo Borges, É a Hora! A mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa, Lisboa,
Temas e Debates / Círculo de Leitores, 2013. Cf. também Quem é o meu Próximo?
Ensaios e textos de intervenção por uma consciência e uma ética globais e um novo
paradigma cultural e civilizacional, Lisboa, Edições Mahatma, 2014; O Coração da
Vida. Visão, meditação, transformação integral, Lisboa, Edições Mahatma, 2015; Outro
Portugal Existe, Lisboa, Mahatma, 2015.

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AGRADECIMENTOS

Os nossos mais calorosos agradecimentos a todos aqueles sem os quais


não seria possível este e todo o presente trabalho de investigação e divul-
gação do pensamento e da obra de Agostinho da Silva: os seus filhos e
herdeiros, na pessoa do Professor Pedro Agostinho da Silva, as anteriores
Direcções e os nossos actuais companheiros na Direcção da Associação
Agostinho da Silva e, além de Helena Briosa e Mota, organizadora de
vários volumes aqui utilizados, os pesquisadores, transcritores e revisores
dos textos ainda inéditos: Amon Pinho, Romana Valente Pinho, Rui Lopo,
Sandra Pereira, Ricardo Ventura e Renato Epifânio.
Um especial e sentido agradecimento ao Miguel Real, notável pensador
contemporâneo e um dos mais notáveis intérpretes de Agostinho da Silva
e do pensamento português, pela generosidade de com o Prefácio haver
enriquecido a reedição desta obra.

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1. AGOSTINHO DA SILVA POR SI PRÓPRIO
E PELOS SEUS HETERÓNIMOS

Se é fascinante em Agostinho da Silva a liberdade de espírito e pensamento


com que derruba ídolos e ideias feitas, não menos o é a imensa ironia acerca
de si próprio, dessa auto-idolátrica importância com que habitualmente nos
consideramos e dos méritos e deméritos que os humanos lhe atribuíram. Na
verdade são aspectos complementares do mesmo desprendimento em relação
às convenções sociais e mundanas e à geral escravidão das mentes no apego ao
elogio e no temor da censura. Isto, junto com a sua fuga a todas as posições e
definições, sempre estreitas e limitadas, por fidelidade à totalidade dos possíveis
em si e na vida, denuncia nele, e sobretudo pela própria recusa de assim se
considerar, uma notável irrupção dessa sabedoria e santidade meta-doutrinais
que reúnem o melhor do Ocidente e do Oriente e que mais incisivo traço não
deixam do que o exemplo da vida e a palavra libertadora. Os seus textos, assu-
midamente escritos com a espontaneidade de quem fala, devem ser compreen-
didos à luz desse magistério fundado no exemplo e na oralidade que, afim ao
dos melhores mestres da humanidade, tão profunda e contagiante influência
deixou em todos quantos com ele conviveram, despertando-os para a busca
e o exercício do melhor de si, posto ao serviço de todos. Dotado de um vasto
saber obtido por estudo e experiência, fundador de universidades e centros de
investigação, nunca foi um intelectual fechado num domínio teórico nem um
académico obcecado e enfatuado com a carreira e o estatuto, apresentando-se
antes como o mais comum e simples dos homens que procurava praticar o que
pensava e comunicar o que sabia de modo adequado a todos os auditores. E
imensos foram, tratados com igual respeito: desde presidentes a vagabundos.

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agostinho da silva – uma antologia

Nunca será demasiado enfatizar, contudo, que nunca se viu como mestre
nem quis ter discípulos, estimulando antes os seus amigos e interlocutores a
encontrarem os seus próprios caminhos de auto-realização e a transcenderem
as ideias e vias por si percorridas. Neste sentido, tornar-se “agostiniano”, se tal
não for reconhecer-se na sua atitude geral perante a vida e significar aderir a
uma suposta doutrina ou via por si formulada, será a melhor forma de trair
o sentido libertador da sua exortação e exemplo. Que esse desprendimento em
relação a ter discípulos e essa vontade de que o superem seja timbre dos verda-
deiros mestres e educadores é uma verdade a considerar que não deve todavia
alimentar mitificações que foi sempre o primeiro a evitar, recusar e desmontar.

Agostinho da Silva – Tendo desistido de seguir carreira pela Marinha


de Guerra, e devido, segundo parece, a tê-la considerado muito monótona,
embora haja a versão de que não tinha bastante inteligência analítica para
trabalhar nas matemáticas, passou Agostinho da Silva à Faculdade de Letras
do Porto, cidade de onde é natural. Discípulo de Teixeira Rego, de Hernâni
Cidade, de Damião Peres, de Newton de Macedo, enfim de todos os grandes
mestres daquela excelente escola, onde os alunos se chamavam por sua vez
António Salgado Júnior, José Marinho, Álvaro Ribeiro, Sant’Ana Dionísio,
Delfim Santos, doutorou-se em Filologia Clássica e publicou alguns traba-
lhos da especialidade, embora sem grande brilho de erudição e até com inter-
pretações das quais certamente hoje discorda. Andou mais tarde pela Escola
Normal Superior, pela Sorbonne, pelo Colégio de França, pelo Instituto de
Estudos Históricos de Madrid, foi bolseiro da Junta de Educação Nacional e
da Junta de Relaciones Culturales de España, onde se interessou pela mística
do século xvii e pelo trabalho de Giner de los Ríos. Em Portugal, fez parte
do grupo Seara Nova, embora o seu interesse pela política tivesse sido sem-
pre praticamente nulo. No Brasil, foi fundador de vários estabelecimentos
de ensino superior, na Paraíba e em Santa Catarina, e, como disse o insigne
e ilustrado crítico Dr. João Gaspar Simões, que, a meu ver justamente, lhe
nega talento literário, mas lhe reconhece alguma habilidade de m
­ estre-escola,
o país o considera bastante sob o ponto de vista pedagógico. Depois de fun-
dar em Salvador, onde o conheci, o Centro de Estudos Afro-Orientais da

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agostinho da silva por si próprio e pelos seus heterónimos

Universidade da Baía, passou a Brasília, e aí organizou o Centro Brasileiro


de Estudos Portugueses, que me dizem estar funcionando muito bem. [...]
Embora tenha publicado ultimamente vários livros, um deles na Baía, o Só
Ajustamentos, mais o vejo como homem de acção do que como intelectual:
para o trabalho de pensar é místico demais; mas também, como homem de
acção, tem sido criticado por falta de persistência; desanima ou troca de tare-
fa muito facilmente. Além disso, seu estilo é muito de través; [...] os seus
Cadernos de Iniciação e outros escritos educativos de que tomei conhecimento
são em linguagem mais escorreita. Talvez fosse esta, e a de professor, a sua mais
natural e produtiva actividade [...]. – J. J. Conceição da Rocha, “As Folhas
Soltas de São Bento e outras – 1” [1965], in Textos Vários. Dispersos, p. 19.

Terminado o livrinho, que não reverei senão em provas, para me guar-


dar das tentações de ser escritor, sobretudo em assunto como este, e que
não tornarei a ler, como tem sucedido com todos os outros, para não correr
o perigo de o achar bom e parar ou o considerar péssimo e desistir, há que
pedir algumas desculpas, oferecer algumas justificações e desejar alguma
continuidade. Seja, logo, da primeira categoria a solicitação de que haja
paciência com aqueles meus longos períodos de que sempre se queixaram
os leitores e de que Eudoro de Sousa ou João Cascudo de Morais, não me
lembro bem qual, dizia que só se podiam entender pondo os dedos nas
conjunções, para separar oração de oração, e guardando cuidadosamente
na cabeça o sentido de cada uma, sendo qualquer dos dois tão bom leitor e
tão isento de vícios de inarticulação que vêm das histórias em quadrinhos
ou quadradinhos, força é admitir que se trata de um defeito que não devia
existir, já que o propósito é o de comunicar e comunicar fácil com o maior
número possível de interessados.
O que acontece, porém, é que muito mais que escrever me interessa
falar e aí, porquanto há gestos, pausas queridas e necessidade de respirar,
ficam as tais orações mais ou menos bem divididas e pouca gente dá por
que, afinal, houve apenas um período de princípio a fim do discurso; o
que escrevo será, pois, exactamente o que seria uma transcrição fiel do que
se poderia ter falado e talvez fosse de bom conselho a quem o lesse que o
fizesse alto, para me ouvir, mais do que ler-me; […]

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agostinho da silva – uma antologia

Mas o mais grave é que o mesmo falar me parece de menor interesse;


o que se tem de importante a participar, ou a comunicar, sempre as duas
palavras no seu significado etimológico de fazer do outro uma parte de nós
ou um comungante do que somos, isso se faz chegar e a nós volta, mais rico,
muito mais pelo silêncio do que pela palavra, escrita ou falada; estas são quase
sempre coisas de ponte de navio, como ordem de comando ou continência;
servem para a acção e não a mais profunda, porque está essa, a essencial, no
domínio das feitiçarias silenciosas ou, para os místicos, no aniquilar-se em
Deus. Ora sucede que nunca fui pensador, jamais me pus pensando, como
quem delibera andar ou comer, posto de parte naturalmente o quando estudo
e quero entender o que estudo, mas ainda haveria a discutir se isto é pensar e
não uma espécie de apurar vista ou ouvido; mas o pensar de invenção, admi-
tindo que alguma vez o houve, sempre o deixei por conta do cérebro, se é este
que pensa, como deixo o digerir por conta do estômago e o correr do sangue
por conta do coração e por conta das válvulas que nunca deixam refluir,
coisa fundamental. Ora o pensar assim, que era ao que se vinha, já outra vez
num longo período, importa-se pouco com os pontos finais e os parágrafos;
apenas acontece; acontece acordado e acontece a dormir; acontece certo e
acontece errado; e pode ser que se exerça em realidade ou sonho – Educação
de Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, pp. 146-147.

Não me preocupa no que penso nem a originalidade nem a coerência.


Quanto à primeira, tudo aquilo com que concordo passa a ser meu – ou já
meu era e ainda se me não tinha revelado. A minha originalidade está só,
porventura, na digestão que faço. Pelo que respeita à coerência, bem me rala;
o que penso ou escrevo hoje é do eu de hoje; o de amanhã é livre de, a partir
de hoje, ter sua trajectória própria e sua meta particular. Mas, se quiserem
pôr-me assinatura que notário reconheça, dirão que tenho a coerência do
incoerente e a originalidade de não me importar nada com isso – Pensamento
em Farmácia de Província, 1 [1977], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 319.

[...] para toda a gente do mundo, ponho como possível uma teoria nova
de se nascer. Naquela biografiazinha que estive escrevendo [...] ponho a
ideia de que eu, quando chegou a minha hora de nascer no céu das ideias,

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agostinho da silva por si próprio e pelos seus heterónimos

estava atento ao globo terrestre que ia passando pela frente à espera de


encontrar uma terra que me agradasse. E, como eu, estavam outros: quer
dizer, toda a gente escolhe o lugar onde nasce. Que nascer não é uma fata-
lidade, mas uma escolha preconsciente, daquela consciência que se perde
quando se voa do Céu para a Terra, como dizia Platão...
Não, senhor, o que eu escolhi foi Barca de Alva, que é a última terra
portuguesa antes da fronteira com Espanha, isto é, logo a seguir à Espanha.
Mas é muito difícil fazer o cálculo matemático necessário para de um
corpo em movimento, como é o Céu, ir acertar noutro corpo também
em movimento que é a Terra. Então os calculistas lá se enganaram e eu
fui parar ao Porto. Mas, logo que foi possível, repararam o erro e apenas
com alguns meses de idade fui realmente crescer para Barca de Alva. Fiz o
curso no Porto, andei por toda a parte quanto é mundo, mas a minha terra
continua a ser Barca de Alva.
E uma coisa muito importante foi que, em Barca de Alva, com os meus
amigos, grandes e pequenos, aprendi ao mesmo tempo português e espa-
nhol. De maneira que, de facto, se o Fernando Pessoa disse que a pátria
dele era a língua portuguesa, eu tenho ao mesmo tempo uma espécie de
duas pátrias. Sou na realidade ibérico, embora entenda perfeitamente as
diferenças que há de um lado e de outro, e se tiver de preferir talvez prefira
a parte portuguesa por várias das suas qualidades [...] – Vida Conversável
[entrevista de 1985], p. 14.

[...] não me importa nada que me critiquem. Exactamente como não


me importa nada quando me elogiam. Tanto me faz que uma pessoa me
elogie como me censure – eu considero aquilo como uma opinião pessoal
e não comparo com coisa nenhuma porque eu próprio não tenho opinião
pessoal a meu respeito. Não me sinto nem herói, nem criminoso, sinto que
vivo, sinto que sou – Vida Conversável [entrevista de 1985], p. 99.

(falando da demissão do Liceu de Aveiro) Estava, pois, a sentir-me


contente naquele meio quando surge a famosa lei Cabral, de normativo
tão estúpido quanto o promotor, que obrigava os funcionários públicos a
declarar por sua honra que não pertenciam a sociedades secretas nem jamais

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agostinho da silva – uma antologia

pertenceriam. Ora como já fizera, quando da tomada de posse, a declaração


de respeito pela Constituição, que até tinha um artigo do qual resultava
a proibição de pertença a associações secretas, achei demais e não assinei
declaração nenhuma.
Fui demitido, claro. Passei por herói – você é um paladino, disse-me na
altura o Hernâni Cidade – mas hoje interrogo-me muito sobre a inteligên-
cia e as verdadeiras razões da minha atitude. Sobre a inteligência política
– a minha avaliação actual da época da ditadura comporta alguns matizes
de perspectivação histórica relativamente ao que então pensava –, sobre
a inteligência, como direi, humana do acto – afinal talvez fosse preferível
continuar com toda aquela gente nova, que era excelente, ajudando-os a
saber querer coisas diferentes, em vez de, na prática, os ter abandonado – e,
principalmente, sobre as motivações mais profundas que me moveram. A
verdade é que me senti muito feliz ao sair de Aveiro e penso que aquilo de
estar a receber um salário regular para cumprir tarefas regulares me depri-
mia sem eu dar por isso. O grande gesto de recusa da declaração terá sido
uma manha interior para me escapulir, em beleza, de situação que, na rea-
lidade, me era insuportável. Se a não tivesse atalhado, provavelmente seria
hoje um velho melancólico, fumando cigarros tristes nos fundos de algum
café e achando que o país está acabado e não há nada para fazer – exacta-
mente o contrário do que hoje sou e penso. – “Entrevista com Agostinho
da Silva” (1985), in Dispersos, p. 50.

Me fiz gente se é que sou


em Barca d’Alva do Douro
para cima tudo celta
para baixo tudo mouro

o pior é que Alentejo


e Algarve tendo nas veias
como vou eu libertar-me
de tão apertadas teias

– Uns Poemas de Agostinho, p. 65.

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agostinho da silva por si próprio e pelos seus heterónimos

Sou marujo mestre e monge


marujo de águas paradas
mas que levam os navios
às terras por mim sonhadas

Também sou mestre de escola


em que toda a gente cabe
se depois de estudar tudo
sentir bem que nada sabe

mas nem terra ou mar me prendem


e para voar mais longe
dum mosteiro que não houve
e não haja me fiz monge

– Uns Poemas de Agostinho, p. 111.

Fui soldado no Brasil


marinheiro em Portugal
dos meses prefiro Abril
aurora primaveril
de liberdade ideal
das festas vou por Natal
em que inocência infantil
triunfante vence o mal
e sempre em sonhos de anil
sempre em vagas de real
fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal

– Uns Poemas de Agostinho, p. 46.

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agostinho da silva – uma antologia

Acho graça às homenagens


que me prestam,
excelente sinal de ilusões
que a eles restam;

sou tão humano quanto os outros,


com qualidades e defeitos
e mais as manhas que se escondem
em seus peitos;

[...]

de nós nada mais deixamos


que vãs memórias,
só Deus é grande, só Deus é santo
e o demais histórias

– Uns Poemas de Agostinho, pp. 17-18.

Bem bom que o povo se afaste


dos defeitos que me sente
fico assim eu próprio livre
de encantos de prender gente

– Quadras Inéditas, p. 18.

E não me chamem de mestre


sou apenas aprendiz
daquilo que me é o mundo
e do que sendo me diz

– Quadras Inéditas, p. 40.

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agostinho da silva por si próprio e pelos seus heterónimos

Eu nada sou é tudo quanto digo


um sonho apenas do senhor do mundo
me perco mesmo quando me consigo
e só me salvo se em não ser me afundo

– Quadras Inéditas, p. 51.

Lembrei-me agora de um título


que pois raro o céu me assuma
ser também honoris causa
de coisa alguma

– Quadras Inéditas, p. 56.

Mais que tudo quero ter


pé bem firme em leve dança
com todo o saber de adulto
todo o brincar de criança

– Quadras Inéditas, p. 59.

Ninguém me chame de mestre


nem ter discípulos quero
que chegue cada um por si
ao nada ser que venero

– Quadras Inéditas, p. 75.

Para não ter que ler textos


e o descanso estar seguro
tomei eu esta carreira
de historiar o futuro

– Quadras Inéditas, p. 89.

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agostinho da silva – uma antologia

Precisar só do preciso
fazer eu do longe perto
e não mandar em ninguém
me compõem céu aberto

– Quadras Inéditas, p. 100.

Sonhei que a vida era sonho


e sonhando despertei
para entrar num outro sonho
de que jamais acordei

– Quadras Inéditas, p. 126.

Todo vivo num empenho


e nesse empenho me gasto
não deixar rasto no mundo
e ser o mundo meu rasto

– Quadras Inéditas, p. 137.

Tudo o que faço no mundo


sem eu o fazer é feito
baila a vida em liberdade
sobre o nada em que me deito

– Quadras Inéditas, p. 141.

Um dos pólos de viver


é para mim aventura
mas outro tão bem querido
o de claustro e clausura

Quadras Inéditas, p. 144.

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agostinho da silva por si próprio e pelos seus heterónimos

Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime


metade da vida, sou do paradoxo que a contém no total – Pensamento à
Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 145.

Contradizer-me me dá segurança de que atingi a verdade possível –


Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 145.

Acompanhando Gide, faço votos por que a loucura me inspire e a razão


me exprima – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 149.

Passo a vida fabricando o real – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios


Filosóficos II, p. 156.

Oxalá no que digo entremostre o silêncio – Pensamento à Solta, in Textos


e Ensaios Filosóficos II, p. 159.

Sou especialista da curiosidade não especializada – Pensamento à Solta,


in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 160.

Claro que sou cristão; e outras coisas, por exemplo budista, o que é,
para tantos, ser ateísta; ou, outro exemplo, pagão. O que, tudo junto, dá
português, na sua plena forma brasileira – Pensamento à Solta, in Textos e
Ensaios Filosóficos II, p. 175.

Se me considerarem místico pelo critério deles estarei em muito boa


companhia, p. ex. a de Lao-Tsu, de Buda, de Sócrates e de Cristo; se pelos
meus critérios estarei com todos aqueles que tenham pensado todo o possível
como ilimitado – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 175.

Na realidade não estou interessado em coisa alguma; sim, porém, em


viver – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 177.

Lá por 1905, mas nada há mais difícil do que relacionar tempo e eter-
nidade, ou fixar-se simultâneo nos dois planos – os grandes pintores o

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agostinho da silva – uma antologia

fazem no olhar de suas figuras –, mas, enfim, por essa altura, comecei a
tomar atenção no belo globo que rolava diante de nós, e a tentar desco-
brir lugar aonde me agradasse descer para principiar minha vida. A meu
lado, outros faziam o mesmo, e até discutíamos os méritos de um e outro
ponto, mas sem voz, quanto me lembro, porque o nascer tira muito a
memória, como, depois o vim a reconhecer, concluiu Platão. – Caderno
de Lembranças, p. 15.

[…] o que, depois, surgiu [...] foi um encontro de rios, um que corria
para oeste, outro que vinha, mais modesto, do sul e do lado e tinha por
nome o de Águeda, de que talvez eu tivesse tomado a resolução de ter,
como um de meus padroeiros, Santa Águeda; sou muito muito ecuménico,
deve dizer-se, já que outro é Omulu, de origem nigeriana e também orixá
do terreiro de Olga de Alaketu, minha Mãe de Santo em Salvador da Bahia
– Caderno de Lembranças, p. 16.

[falando do nascimento, em 13 de Fevereiro] E, de súbito, em 06, Porto


em lugar de Barca d’Alva, o Porto de Campanhã e Bonfim, exactamente na
Barão de Nova Cintra (Rua ou Travessa), notada pelo Parque que, do lado
do rio, desce até à linha de caminho de ferro, e em prédio que decoravam,
na cimalha, figuras da Fábrica das Devesas – Caderno de Lembranças, p. 26.

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado


à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo – Cortina 1.

O problema dos políticos é o de mudarem o governo: o meu é o de


mudar o Estado. Contam eles com o voto ou a revolução. Conto eu com
o curso da História e a minha vocação e o meu esforço de estar para além
dela – Cortina 1.

Pela voz da Presidência da República e do Tribunal Constitucional se


[????], em 1985, o Estado Português a me readmitir no Serviço Público. E
curioso só agora ter eu compreendido que, em 1935, fui eu afinal quem
demitiu o Estado, não ele a mim […] – Cortina 1.

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agostinho da silva por si próprio e pelos seus heterónimos

Nem um momento ocioso, sempre, porém, com tempo livre – Cortina 1.

Não sou inglês por falar inglês. Não passo a ser católico se uso a lingua-
gem católica.
Aviso aos que não concebem que sob o Deus católico possa haver o
nada dos budistas – Caderno Três sem Revisão.

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2. OS HETERÓNIMOS AGOSTINIANOS

Pseudónimos e heterónimos, se bem que diferentes, expressam em


Agostinho a mesma lúdica exuberância de um sujeito que, descobrindo no
seu âmago um infinito criador, não pode sujeitar-se a ser sujeito, no sen-
tido de se confinar nos limites de uma dada determinação, personalidade
ou carácter, ou mesmo de um mero ser que não integre o seu outro, o não
ser, explodindo assim num irredutível e imponderável poder ser de ilimita-
dos modos. Dir-se-ia que o pensador busca autopoeticamente assumir – no
domínio da experiência humana, existencial e cultural, no jogo pelo qual
se reinventa e ficciona outros, simultâneos e interactivos modos de ser – essa
pletora de possibilidades que lhe advém da sua inerência a um Deus que
experimenta como um Nada que é Tudo, simultaneamente transcendente e
imanente ao teatro do mundo onde sempre imprevisivelmente se manifesta
e realiza pela fantasia criadora. A heteronímia, a exemplo da pessoana, que
muito o inspirou, é para Agostinho o exercício desse divino poder “ser tudo
de todas as maneiras” que liberta de toda a especialização, não apenas do
saber, do agir e do fazer, mas, mais radicalmente, do ser. Por ela o sujeito
se transcende e emancipa da sua convencional e psicossocial funcionalidade
identitária, assumindo e realizando a sua inata vocação de “poeta à solta”,
radicada no paradigma absoluto que é o próprio Deus, eternamente e a cada
instante autocriador de si como criador do mundo, totalidade da sua múl-
tipla expressão heteronímica, a partir do seu mais fundo, incriado, abissal
e anónimo Nada.

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agostinho da silva – uma antologia

Usei pseudónimos exactamente a partir de Aveiro. Escrevi muito na


Seara Nova, desde 1932 até não sei quando, talvez 1940...2 [...] Mas
enquanto escrevi na Seara, fi-lo com pseudónimos, não havia heterónimo
nenhum. Se me perguntar por que, não sei, sabe, mas talvez fosse por
estar aborrecido com o meu nome. [...] Um sujeito aborrecer-se de apa-
recer a assinar sempre as coisas dele. [...] escrevi também muito em Paris
com pseudónimo... [...]
O heterónimo é outra coisa [...] a pessoa pode reconhecer em si várias
potencialidades, por exemplo, a de ser autor teatral; o homem que faz
uma peça de teatro cria uma personagem mais nítida do que o autor de
um romance, por exemplo, em que ela está muito envolvida na paisagem
ou nos acontecimentos, ali a personagem está solta e ele inventa aquela
que não pode vir de outra coisa a não ser de dentro de si. Ou então pode
ser um modelo que apanhou em alguém e que ali vai pondo, retratando.
Mas pode ser que a pessoa sinta dentro de si uma outra personagem viva,
muitas vezes até contrária ou diferente de si, que ele quer pôr a funcionar
para, por exemplo, comodamente, fazer a crítica de si próprio. [...]
Onde reuni esta história dos pseudónimos e heterónimos foi na tal
publicação As Folhas Soltas de São Bento e Outras, que praticamente não
existe. Publiquei no Rio uma edição de trezentos exemplares, pouco mais
ou menos, para dar de presente aos amigos e nunca mandei exemplar
algum para nenhuma biblioteca; foi para os amigos lerem e para se diver-
tirem exactamente como eu me divertia com aquela história. Ali há perso-
nagens, que eu conheci em mim, mas também há coisas como se fossem
teatro. Assim na heteronímia pode haver as duas coisas – Vida Conversável
[entrevista de 1985], pp. 18-20.

A primeira ideia vem de há uns quarenta anos e do Porto, quando ainda


havia o Liceu Rodrigues de Freitas, eu estudava Ciências, o Agostinho,
Letras, depois da tentativa da Marinha, e vinham a minha casa, ou antes
ao meu quarto da Pensão da Rua da Vitória, quase em frente da Igreja de
2
Na verdade o período da colaboração mais assídua de Agostinho na Seara Nova vai
de 1928 a 1938 e em 1944 ainda publica “As Aranhas” [nota sugerida por Amon
Pinho e Romana Valente Pinho].

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os heterónimos agostinianos

S. Bento, ele e Amigos dele, alguns meus também, como o Guadalupe,


e o Caio que é médico em Trás-os-Montes e o que morreu na aviação,
agora não me lembra o nome. Todos eles andavam escrevendo, e até o
Caio fazia versos, de que ainda tenho alguns, muito difíceis de perceber,
mas que naturalmente também serão publicados aqui, se eles quiserem. O
Carlos, que também andava em Medicina, e de que o Guadalupe falou, na
“Teresinha”, esse é que não escrevia. Eu também não: uma vez tentei fazer
um soneto, mas saiu todo desasado. Os escritos vão ser só deles – António
Augusto de Botelho Mourão, Tenente-Coronel, As Folhas Soltas de São
Bento e outras – 1 [Fevereiro de 1965], in Textos Vários. Dispersos, pp. 15-16.

George Bryan Mallard – [...] nasci há mais de quarenta anos, numa


aldeia do Surrey, fiz engenharia aeronáutica, desci pela primeira vez dian-
te do Baleal num Catalina de patrulha em amaragem forçada, voltei à
Inglaterra, e de submarino, para ser abatido, pobre coisa de aventura à qual
as aventuras nunca chamaram, nem prenderam, nem marcaram; mas que
deram uma gostosa pensão de guerra que me permite o ócio nas suas duas
espécies, a de não trabalhar e a de não fazer trabalhar; sou alto, de olho azul
e uso barba; um tanto curvado, faço a minha comida, varro o quarto, sou
amigo de pescadores e o poderia ser talvez do Xá da Pérsia, porque, apesar
de inglês, não sou pedante e me dou com todas as classes sociais; gosto de
dormir, figos e Shelley; detesto vinho doce, mulher culta e Newton. Para
me igualar a grandes personagens, assino simplesmente
G. B. M.

– George Bryan Mallard, As Folhas Soltas de São Bento e outras – 1


[Fevereiro de 1965], in Textos Vários. Dispersos, p. 27.

J. J. Conceição da Rocha – No grupo de Paris era J. J. Conceição da


Rocha o único brasileiro e o único latinista [...]. Conceição da Rocha lia
tudo o que lhe era possível, estudava as suas dez ou doze horas por dia e
praticamente se não importava nada com o que pudesse fazer-se em outros
domínios da cultura; por mim, andava sempre distraído com ocupações
bem diferentes e tão preso a amigos que os interesses deles raramente

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agostinho da silva – uma antologia

passavam a deixar de ser os meus; o que deu tudo em não saber nada de
nada [...] – Mateus-Maria Guadalupe, As Folhas Soltas de São Bento e outras
– 2 [Maio de 1965], in Textos Vários. Dispersos, pp. 34-35.

Caio M. R. – [...] o nome completo é Caio Porfírio Martins Rodrigues,


a data de nascimento 3 de Abril de 1907, a naturalidade Verdelosa, dis-
trito de Bragança – correspondência com António Augusto de Botelho
Mourão, As Folhas Soltas de São Bento e outras – 3 [Maio de 1965], in Textos
Vários. Dispersos, p. 65.

Mateus-Maria Guadalupe – Queixando-se muito de sua preguiça, de


sua labilidade e de ainda não ter conseguido fixar-se um objectivo na vida,
padece a meu ver Matus-Maria de três defeitos graves, o de trabalhar muito,
o de ser demasiado persistente e de não admitir que a existência possa ter
metas várias, ou nenhuma. Nunca o vi desocupado, ora com suas traduções
do medieval, ora com seus insectos, ora visitando minas, ora clinicando um
pouco, ou pesquisando medicina, ora até lendo estratégia e táctica [...].
[...] Grande parte dos cursos que tirou se deve a pura desocupação, se
bem que se tenha de pôr como elemento importante o de que julgou a cada
passo que era aí que ia encontrar aquilo que todos chamam o sentido da
vida; talvez descubra algum dia que a vida não quer mais coisa alguma senão
que a vivam e que pensar deve ser olhado não como o que vai para além da
existência, dando-lhe rumo, mas apenas como uma das funções, ou um dos
espectáculos ou dos florescimentos da vida – G. B. M., As Folhas Soltas de
São Bento e outras – 3 [Maio de 1965], in Textos Vários. Dispersos, pp. 68-69.

Prof. Arnold R. Middlebee – […] Espero que não seja este o último
contributo do Senhor Professor Middlebee para nossa revista; sabemos
quanto se ocupa de coisas portuguesas, embora trabalhe sobretudo em
­história moderna, e a importância que dá à nossa acção no mundo [...].
É esta certamente uma ocasião de lembrar o nosso primeiro encontro
logo depois da guerra, no Quartel-General Australiano de Darwin, onde
S. Exa. Servia de oficial de ligação com os resistentes portugueses, graças
à língua que aprendera, ainda pequeno, com sua avó açoriana, perto de

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os heterónimos agostinianos

Oakland, creio eu, e ao conhecimento que já tinha então de nossas glórias


– A. A. B. M., As Folhas Soltas de São Bento e outras – 4 [Maio de 1965], in
Textos Vários. Dispersos, pp. 91-92.

[Gerdes Urutu] Não deixei de notar a presença, sempre diante de um


cálice de tequilla que parecia perpetuamente cheio, de um homem forte e
baixo, de óculos espessos, cabelo esgrouviado, mais embrulhado que ves-
tido numa gabardina também bastante mais suja do que limpa e com um
colarinho esquisito de ponta esquerda virada para cima.
Sentei-me na mesa ao lado e tanto bastou para a conversa: soube-o bra-
sileiro de Corumbá e percebi que numa época mais ou menos remota viera
descendo com o rio e isto o pode definir mais do que se eu dissesse pelo
rio: fora vagamente várias coisas e acabara abandonando tudo para viver de
empréstimos de amigos e conhecidos; as duas categorias se distinguiam pela
quantia emprestada [...] – Mateus-Maria Guadalupe, As Folhas Soltas de São
Bento e outras – 4 [Outubro de 1965], in Textos Vários. Dispersos, pp. 107-108.

Carriedo – [...] Exactamente num desses bairros [de Kobe, no Japão], [...]
encontrei eu Carriedo. [...] Pois este homem, que mora há quarenta anos no
japão, que come à japonesa, mora à japonesa, veste à japonesa, não me falou
de outra coisa senão de Espanha e dos problemas da Espanha, aonde nunca
voltou [...]. Como bom espanhol, Carriedo não teoriza sobre sua existência;
limita-se, ou dilata-se, a vivê-la plenamente; as teorias ficam para os carte-
sianos; como cartesiano, proporia eu que se visse em Carriedo uma explosão
daquele orientalismo que os observadores têm denunciado na evolução da
cultura peninsular e uma afirmação de que o motivo religioso ainda é o
mais forte na Ibéria, levando-o a fixar-se no País que, provavelmente, tendo
talvez logo atrás a Inglaterra, é o único em que sobrevive alguma liturgia de
vida – Agostinho da Silva, As Folhas Soltas de São Bento e outras – 5 [Rio de
Janeiro, Outubro de 1965], in Textos Vários. Dispersos, p. 113.

Coitado do Jurandyr, parece-me que ainda o estou a ver no tempo em


que tinham cortado no Jardim da Cordoaria, tão tradicional em frente
da velha Cadeia da Relação, as suas formosas camélias, […] coitado do

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agostinho da silva – uma antologia

Jurandyr, que ali ficava melancólico, como a pressentir que não viveria
muito mais tempo, parece-me que ainda estou a vê-lo, no meio das brin-
cadeiras dos outros, alongando muito as suas vogais brasileiras; às vezes
sorria, sobretudo com as graças do Agostinho, que é muito repentista, e foi
ele afinal quem lhe deu a ideia de ir para o Brasil […] – António Augusto
de Botelho Mourão, As Folhas Soltas de São Bento e outras – 5 [Rio de
Janeiro, Outubro de 1965], in Textos Vários. Dispersos, p. 117.

[…] João Cascudo de Moraes: […] a cuidar de sua farmácia pelas aspe-
rezas de Figueira de Castelo Rodrigo: […] com a ruminação de sua filoso-
fia fazendo-se enquanto avia receita, de óculos para a testa e algum tanto
impaciente, apesar de filósofo, das letras médicas, das perguntas do cliente
e até, parece, de ter no laboratório tudo o que lhe permite satisfazer o pedi-
do; e fazendo-se também, com o sol ainda rompendo, em grandes marchas
de cão ao lado, pela sua, e minha, favorita estrada de Barca de Alva; […]
talvez tudo isto, e o não repudiá-lo, lhe tenha dado aquele gosto de ser,
ou se julgar, um “filósofo de pés no chão”, um “pensador do quotidiano”,
um “imaginador do real”, para lhe empregar as próprias expressões […] –
M.-M. G, Ceuta, 23.10.67, As Folhas Soltas de São Bento e outras – 6 [Rio
de Janeiro, Outubro de 1968], in Textos Vários. Dispersos, pp. 144-145.

[Frei G. H.] Uma das vantagens das doutrinas de Frei G. H., que me
entretenho a transcrever para ver se acaso, depois de as aceitar, as entendo
melhor, é a de ficar tudo tão claramente obscuro que adquirimos a certeza
de que jamais o compreenderemos, podendo, por conseguinte, passar a
assuntos mais imediatos e práticos – João Cascudo de Moraes, As Folhas
Soltas de São Bento e outras – 6 [Rio de Janeiro, Outubro de 1968], in
Textos Vários. Dispersos, p. 147.

José Félix Damatta – Quem, depois da viagem de maravilha que é o


percurso por mar desde Mangaratiba a Paraty, e tanto melhor se houver
escala demorada em Angra dos Reis, mete do cais para a direita da cidade
em direcção à bateria do Defensor Perpétuo, encontra logo, entre bananei-
ras e abacateiros, uma pequena casa pintada de rosa e com todo o aspecto

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os heterónimos agostinianos

exterior das habitações remediadas do interior do Brasil; a surpresa vem


dentro […] ; quem abre a porta é um homem de mediana estatura, bem
sério e um pouco desconfiado de olhar, metido numa yukata de hotel
japonês, e descalço, naturalmente; […] tradução para português de uma
casa japonesa, o que está bem de acordo com as actividades favoritas do
homem que tão amavelmente me tratou no Consulado de Yokohama, se
aposentou o mais cedo possível para se ver livre das burocracias, mas que
[…] não pôde cumprir seu projecto de viver no Japão e por lá morrer e veio
estabelecer-se neste Paraty que, no fim de contas, fica à beira de alguma
coisa que se pode comparar com o Mar Interior. Vive traduzindo autores
japoneses, metido de manhã à noite na floresta temível dos kanji […] – A.
S., Tarragona, 67, As Folhas Soltas de São Bento e outras – 7 [Rio de Janeiro,
Outubro de 1968], in Textos Vários. Dispersos, pp. 151-152.

José Kertchy Navarro, que nasceu no Porto, a 14 de Janeiro de 1903,


era filho de Carlos Navarro, proprietário de uma das melhores tabacarias
da cidade, e da actriz espanhola, catalã, segundo parece, Ida Kertchy –
P. M., “Esquema Biográfico”, Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in
Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 273-274.

A primeira impressão que se colhia de José Navarro era de uma vivaci-


dade intelectual de que haverá poucos exemplos; o sangue espanhol que
havia nas suas veias revelava-se a cada passo num faulhar de imagens, em
que a fantasia se juntava à força, ou antes, a uma energia de invenção que
parecia inesgotável – José Muriel, “Nota Final”, Sete Cartas a um Jovem
Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 278-279.

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3. O HELENISTA E LATINISTA

Profundo conhecedor da Antiguidade grega e romana, Agostinho da Silva


pauta a primeira fase do seu pensamento por um neoclassicismo que cederá
progressivamente perante o reconhecimento das limitações do ideal helénico,
sobretudo confrontado com o novo sentido do amor cristão. Mas é nesse período
que estabelece – a partir da sua interpretação do mito da Idade de Ouro, da
possível origem do sacrifício na comemoração da mutação do regime alimentar
de frugívoro em carnívoro (onde mostra influências de Teixeira Rego, o pro-
fessor que mais o marcou na primeira Faculdade de Letras da Universidade
do Porto) e da sua teoria do teatro, tragédia e comédia, como purificação e
superação da cisão entre a vida social e a Vida cósmica – os elementos fun-
damentais da sua visão radicalmente crítica da civilização, sobretudo a de
modelo ocidental hoje globalizada, como procedente de uma cisão humana
relativamente a um primordial estado natural e divino. No jovem Agostinho,
por via da filologia e dos estudos clássicos, encontram-se assim as raízes de algu-
mas das ideias fundamentais que se manterão ao longo das diferentes fases da
evolução do seu pensamento. Seja o paradigma antigo da Idade de Ouro, seja
mais tarde o do Paraíso bíblico, não deixarão de enformar uma visão da pleni-
tude, unidade e harmonia entre humanidade, divindade e natureza, ou, mais
profundamente, da indistinção entre eu e outro – pretérita, oculta e virtual
e a recriar superiormente no futuro –, que permanece como o consciente ou
inconsciente alvo das mais fundas aspirações materiais e espirituais, sensíveis e
inteligíveis, de uma humanidade que, por essa saudade de um possível maior
que tudo o actualmente vivido como real, não pode deixar de se sentir mal com

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agostinho da silva – uma antologia

a civilização no seio da qual se limita e encerra, pois nela afinal se protege e


demite das suas melhores e superiores possibilidades, em troca de uma muito
pouca segura expectativa e aparência de segurança.

Ao passo que o grego se deliciava ouvindo as aventuras de Zeus e do


sorriso gracioso de Afrodite, o romano desejava sobretudo que Júpiter
enviasse a chuva benfazeja e Vénus fizesse florescer os jardins.
Interessava-o mais a prática religiosa do que a vida íntima dos deuses;
era, portanto, necessário, antes de tudo, conhecer as palavras propiciatórias
que chamam a protecção da divindade e repetir com fidelidade as fórmulas
que tinham algumas vezes conseguido o seu objectivo.
Era dever do homem religere, “observar com cuidado”, ser atento na
forma de praticar o culto, não cair no negligere, sob pena de imediato casti-
go dos deuses; a religião para o romano primitivo é um escrúpulo e a defesa
pela fórmula, que vale por si própria, contra as forças misteriosas que o
rodeiam – Sentido Histórico das Civilizações Clássicas [1929], in Estudos
sobre Cultura Clássica, pp. 101-102.

A característica essencial do espírito grego, aquela de que provêm todas


as outras e que, melhor que nenhuma, nos explica a magnífica florescência
dos séculos iv e v, é, sem dúvida, o amor insaciável da Beleza, o desejo de
qualquer coisa que seja sempre mais alta e mais nobre – A Religião Grega
[1930], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 111.

A vida artística do grego foi, ainda no mito de Platão, a corrida das almas
para o campo semeado de estrelas, para além do qual é possível contemplar
as Ideias puras; na obra de arte da Grécia a forma não é o fim último a que
aspiram os artistas: é a base que lhes permite, a eles e aos outros, subir mais
alto; a forma é, ainda e sempre, para o grego, uma reminiscência e a sua fixa-
ção para que a alma tenha onde se firmar na escalada luminosa para a Ideia
– A Religião Grega [1930], in Estudos sobre Cultura Clássica, pp. 111-112.

Mas a religião grega é, à primeira vista, um conjunto incoerente de fábu-


las, os seus deuses grosseiras ficções sem espiritualidade e sem beleza, todas

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o helenista e latinista

as suas acções profundamente imorais. Como é possível, pois, que uma


religião com essas características tivesse dado origem às obras de arte em
que, como vimos, se revela exactamente um tão grande desejo de libertar
os espíritos de tudo o que os prende à terra? O conflito é evidente e só pode
ser resolvido por um exame atento do que foi a religião grega – A Religião
Grega [1930], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 112.

Para sentirmos toda a sua capacidade de Beleza, não nos basta, porém,
estudar a religião dos gregos apenas como criação, não nos basta olhá-la
por si própria, seguir o desenrolar das gerações de deuses, as aventuras lon-
gínquas de Dioniso, ver como o grego consagra o seu lar e a sua cidade. É
preciso também tratá-la como criadora das obras-primas do génio helénico;
estudá-la como mãe fecunda da tragédia e do lirismo, como inspiradora da
estatuária e da arquitectura; conhecer, portanto, os pormenores do culto,
porque actos do culto eram as Dionisíacas, a oferta de estátuas, a elevação
dos templos, o cortejo sagrado das Pan-Ateneias – A Religião Grega [1930],
in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 112.

Há que estudar a religião grega à luz dos espíritos superiores, saber o


que eram os deuses, os grandes deuses, para um Platão e para um Fídias,
estudá-la despindo-nos dos preconceitos que nos deixou a apologética
­cristã – A Religião Grega [1930], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 112.

“Antes de tudo era o Caos”: e aos olhos do moderno surge, como uma
visão fantástica, a terra convulsionada, com os elementos confundidos
numa massa informe, mares e continentes revoltos e ligados inextricavel-
mente; o Caos é a desordem, a confusão que só uma vontade superior e uma
inteligência sobrenatural poderão ordenar, tornando-o cosmos regido de leis
imutáveis, o globo que rola harmoniosamente na harmonia das esferas.
E, no entanto, para o grego, esta ideia não existia; embora não possa-
mos saber com absoluta precisão o que era para ele o Caos, o grego parece
tê-lo tomado como um largo espaço, infinito, incomensurável, cheio de
trevas espessas; é já o άπειρον de Anaximandro e, logo de início, a religião
se apresenta singularmente próxima da filosofia.

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agostinho da silva – uma antologia

No Caos surge Gaia, a terra; mas, como o Caos ainda não é o ar, tam-
bém Gaia não é ainda a terra, a terra que o grego divinizará também, a
Mãe-Terra que produz o trigo, é a matéria de que ela se formará, pela inter-
venção dum terceiro elemento, Eros, o Amor – A Religião Grega [1930], in
Estudos sobre Cultura Clássica, p. 117.

Da cosmogonia helénica […] três ideias se destacam, basilares na


formação intelectual do grego: a ideia do esforço como instrumento para
atingir a perfeição, a ideia do amor universal, a ideia de ordem; por
elas chegará o povo helénico a dominar os mais adversos materiais e a
fazê-los exprimir todo o seu pensamento, a criar a harmonia da palavra
no verso e na prosa, a estabelecer as leis físicas que regem o mundo; por
elas o seu amor se estenderá a toda a Natureza e palpitarão de amor os
mármores das estátuas e os versos dos poetas; por elas, finalmente, o
grego criará a forma de governo em que se encontram e se fundem – a
democracia de Atenas – A Religião Grega [1930], in Estudos sobre Cultura
Clássica, p. 120.

Exactamente porque é um edifício de Beleza, o templo grego é uma


obra de inteligência; todos os elementos tendem para o mesmo fim, para
o bem comum, não apertando-se, premindo-se uns aos outros, como nas
abóbadas cristã, mas numa impressão de liberdade, de vida própria e indi-
vidual, de colaboração voluntária, como na democracia de Atenas; e, como
os oradores na assembleia do povo, o arquitecto foi a inteligência profunda
e a palavra encantadora que ergueram pedra sobre pedra, levantaram as
colunas, lançaram o entablamento, organizaram o frontão; ao som da lira
de Anfião as pedras se moveram a si próprias e, colocando-se umas sobre
as outras, formaram as muralhas de Tebas – A Religião Grega [1930], in
Estudos sobre Cultura Clássica, p. 120.

Se atendermos também às características do espírito grego, a prática da


policromia não nos parecerá estranha e imprópria do pensamento heléni-
co; este quis sempre realizar a união do intelectual e do sensível, da abs-
tracção e da realidade; ora, de todas as artes, a escultura é a mais intelectual

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o helenista e latinista

e, para que se não se perca na abstracção da linha, o grego junta-lhe, em


íntima união, a arte que mais se dirige aos sentidos: a pintura – A Religião
Grega [1930], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 162.

De todas as concepções da religião grega esta é das mais nobres e mais


puras: o homem toma como castigo não sentir a sua alma em estado de
Beleza e só se encontra plenamente justificado perante os deuses quando,
pela sua actividade íntima, o seu espírito se liberta e, em face das obras de
arte, lhe acodem as reminiscências das ideias puras.
Alma liberta de todo o pecado, porque ama a Beleza, o grego pode então
dirigir-se à divindade pela prece; mas antes que o faça ele deve testemunhar
ao deus o seu desejo de comungar com ele e com os outros homens; amor
de Deus e amor do Homem, eis toda a significação do sacrifício – A Religião
Grega [1930], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 165.

É possível que a princípio o sacrifício simbolizasse a queda por um


alimento animal, a expiação da morte da primeira rês; por qualquer cir-
cunstância, o homem, primitivamente frugívoro, teria sido obrigado a
alimentar-se com a carne de animais, até aí sagrados para ele; abatera o pri-
meiro e logo sentira todo o horror do seu crime: matara um companheiro,
um amigo, e o seu primeiro movimento foi de fuga; depois, para que os
deuses lhe perdoassem, fazia-os tomar parte no festim. O rito estranho das
Bufónias, antiquíssimo, reproduzia com pormenorização a cena primitiva:
havia a fuga do sacrificador, a acusação de todos os que tinham toma-
do parte na cerimónia; finalmente, a condenação dos instrumentos que
tinham servido para cometer o crime – A Religião Grega [1930], in Estudos
sobre Cultura Clássica, p. 165.

Mas o ritual das Bufónias já não era cabalmente compreendido pelos


antigos; o sacrifício perdera este carácter de dramatização das tradições
acerca da troca do alimento vegetal pelo alimento animal e passara a ser um
acto que testemunhava a reverência do homem pelos deuses e o seu desejo
de união com os outros homens.
[…]

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agostinho da silva – uma antologia

Todos eles ficam sendo simultaneamente convivas do deus e convivas


dos homens; comer com os deuses era a garantia de que se era puro e se
estava na sua graça: na idade de ouro, quando a virginal Astreia não tinha
ainda partido para os céus e todos viviam numa inocência primitiva, os
deuses muita vez vinham sentar-se à mesa dos homens e tudo resplandecia
de imortal claridade; comunicando com os deuses, por meio do alimento
que subira de material a místico, o homem renovava esse estado de primitiva
pureza – A Religião Grega [1930], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 166.

Já vimos, porém, a propósito do significado do frontão no templo,


como o grego foge da ascese, da completa absorção em Deus; e, se os seus
templos não possuíam essa fuga gótica para o céu, também a sua comu-
nhão se não desprendia completamente da terra, nem os deuses o quere-
riam: o homem deve ser amigo do homem, criação divina; daí o repasto
com os parentes, os convidados, os amigos – A Religião Grega [1930], in
Estudos sobre Cultura Clássica, p. 166.

Se o homem comunica com os deuses por meio do sacrifício, a cidade


presta também o seu culto aos imortais por meio das grandes festas em que
todos colaboram e se unem no mesmo movimento de gratidão e de amor.
Nelas se levavam à divindade, mais do que as hecatombes, as oferendas que
lhe provavam quanto os homens a veneravam e gratamente cuidavam das
suas dádivas: a glória dos corpos e a glória das almas, os músculos equi-
librados dos atletas e os rítmicos versos dos poetas, os jogos de Olímpia
e as tragédias das Dionisíacas – A Religião Grega [1930], in Estudos sobre
Cultura Clássica, p. 168.

[…] um conflito no espírito helénico entre o amor da Vida total e, por


outro lado, o constrangimento a que obriga a sociedade. A religião grega,
na sua última essência, é a adoração desta Vida plena, sem o cuidado
do mundo. […]
A lição dos deuses não era plenamente seguida sobre a terra pelos
homens; então os gregos sentiram a necessidade de expiar a culpa, de
viver a Vida divina, de, por um momento, se integrar no Universo. E a

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o helenista e latinista

tragédia não é mais do que a provocação do estado de espírito que o levará


a abandonar a vida social pela Vida plena; a tragédia é ainda uma orgia de
Dioniso, a agitação interior que rompe todos os laços que prendem a alma
e a impedem de se unir a Deus – A Religião Grega [1930], in Estudos sobre
Cultura Clássica, pp. 175-176.

Os espectadores da tragédia viam o conflito produzir-se na cena; a pouco


e pouco, a maravilha dos versos, a força do diálogo, a beleza dos coros,
a estatura dos actores, iam produzindo neles o entusiasmo orgiástico; por
reacção contra o que via e ouvia, o espírito libertava-se das leis sociais, subia
à Vida, abandonava as preocupações morais, purificava-se: a tragédia era a
κάθαρσις – A Religião Grega [1930], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 176.

As cerimónias dos mistérios [de Deméter, em Elêusis] compreendiam,


esquematicamente, uma parte de purificação e iniciação, outra parte de
comunicação com a divindade; a primeira era gradual, por vezes com
intervalos grandes entre os diversos ritos; à segunda só eram admitidos os
que mostravam o sincero desejo, o anseio profundo de não ficarem para
sempre retidos na vida social – A Religião Grega [1930], in Estudos sobre
Cultura Clássica, p. 184.

[…] o homem a quem foi revelada a Vida total tende, cada vez mais, a
desprender-se da vida social, ao desejo de não sentir a prisão das leis morais;
e, como elas existem, o iniciado procura não cair sob o seu domínio, para
que se não produza, violento, o conflito doloroso entre a sua natureza de
“Homem político” e o conhecimento que os mistérios lhe deram da grande
Vida – A Religião Grega [1930], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 185.

[…] então impõe-se a todo o homem a obrigação de libertar a partícula


de Dioniso em si contida para que seja finalmente completada a grande
Natureza divina e, nela integrado, gozar a Alegria completa e imperturbada.
Todo o sentido dos mistérios órficos está na libertação dessa centelha
divina que faz parte da nossa alma […] – A Religião Grega [1930], in
Estudos sobre Cultura Clássica, p. 186.

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agostinho da silva – uma antologia

[…] Dos gregos veio tudo o que hoje faz belo o catolicismo; […]
[…] Mas por todo o tempo ficará no homem a saudade, o anseio de
reencontrar essa Grécia divina onde se adoravam, sobre todos os deuses,
a Beleza e a Vida – A Religião Grega [1930], in Estudos sobre Cultura
Clássica, p. 187.

Como se sabe, os gregos possuíam, com muitos outros povos da


Antiguidade, a tradição de que em tempos remotos tinham os homens
vivido num estado de perfeita inocência e numa felicidade só comparável à
dos deuses; tratavam-se todos como irmãos, alimentavam-se de frutos das
árvores. Desconheciam as disputas e a guerra; havia entre eles e a natureza
uma completa comunhão, a tal ponto que nem mesmo distinguiam entre
si próprios e o mundo que os rodeava; e poderiam ter prosseguido nesta
existência beatífica se não se tivesse dado uma corrupção dos costumes, se
da Idade do Ouro se não tivesse passado para a Idade de Ferro, a actual, em
que todas as aberrações se tornaram normais na humanidade – A Comédia
Latina [1952], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 301.

[...] o que importa fixar agora, para que possamos compreender a


essência do teatro, tal como ele se nos apresenta surgindo na Grécia, é
que houve uma separação entre a natureza humana e o comportamen-
to humano, que se trocou a espontaneidade pela regra, a alegria pelo
sacrifício, a natureza pela sociedade; se não receássemos ir longe demais,
diríamos que se trocou o instinto pela razão ordenadora; houve uma que-
bra entre os impulsos mais profundos e a necessária vida social; foi-se
obrigado a remar contra a corrente do rio e só em raras ocasiões pôde
o homem voltar a esse profundo, íntimo, identificante contacto com o
mundo natural.
[...]
Na realidade, dadas as condições de vida que existiam, o homem nada
mais conseguia fazer que não fosse um conflito perpétuo entre a força do
instinto e a da inteligência previsora, entre fusão completa com a natureza
e a distinção entre um sujeito que pensa e um objecto que é pensado. Os
gestos e as palavras das festas da colheita, vindima e vinho novo nada mais

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o helenista e latinista

eram do que a expressão deste conflito que parecia insanável ao homem e


que provavelmente o é, neste sentido – de que só haverá paz para a consciên-
cia humana quando não existir distinção alguma entre o “eu” e o “outro”.
Por um lado aludiam ao conflito, visto no seu aspecto mais profundo,
envolvendo a toda a humanidade, mas essencial para a salvação, primeiro
biológica, depois até espiritual, da própria humanidade; falavam da disci-
plina contra a paixão, da honra contra o amor, do dever contra a piedade.
Por outro lado, representavam-no em pequenos casos individuais, que não
envolviam o destino humano, mas que eram, através das extravagâncias
dum temperamento, aspectos do mesmo conflito. Do primeiro enfoca-
mento do problema vinha a tragédia, do segundo a comédia; bastaria que
o aspecto individual sobrelevasse ao colectivo para a tragédia se tingir de
comédia, e foi o que sucedeu mais tarde, com o drama satírico e com a
tragédia à maneira de Eurípedes; e bastaria que a comédia apontasse a
aspectos colectivos para que o tom de tragédia se fizesse sentir.
Todo o teatro grego vem da consciência do conflito entre a natureza
humana e a história humana; é segundo se põe em aspecto de predomi-
nância uma ou outra das fases da batalha que encontramos ou a tragédia
de Ésquilo ou a comédia de Aristófanes – A Comédia Latina [1952], in
Estudos sobre Cultura Clássica, p. 304.

Toda a peça tem um desfecho, mesmo a tragédia, e sobretudo a tragé-


dia, como viu nosso pai Aristóteles; o real desfecho da tragédia é a catarse
do espectador, sua purga ou purificação; não diríamos seu baralhar e dar de
novo, antes seu desbaralhar e dar de novo; o que é mais difícil – Pensamento
em Farmácia de Província, 1 [1977], in Textos e Ensaios Filosóficos, p. 356.

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4. O BIÓGRAFO

Não deixando de recordar as Vidas de homens ilustres de Plutarco, as


biografias escritas por Agostinho, simultaneamente históricas e espirituais,
são vivos modelos éticos que, mostrando o esforço de auto-superação dos indi-
víduos em luta por realizarem ideais elevados nas condições mais adversas,
visam contribuir para a educação dos leitores mediante o recurso a exem-
plos concretos de que é possível, pelo combate espiritual, intelectual, moral
e social, triunfar sobre as limitações da ordem estabelecida no mundo, nas
consciências e em si mesmo. O santo, o religioso e o sacerdote, o poeta, o
escritor e o artista, o pensador, o cientista, o educador e o político, em sua
humanidade pulsante de força e fraqueza, igual à de todos nós, desafiam-nos,
por diferentes veredas, à mesma tarefa de realização da melhor virtualidade
oculta em cada um de nós. Constituindo documentos preciosos para avaliar
das fontes e da génese de alguns aspectos capitais do pensamento e da acção de
Agostinho da Silva, as biografias agostinianas, como se pode constatar pelas
reflexões a que dão azo, são ao mesmo tempo um espelho da complexidade
dos rumos mentais e vivenciais do autor. Elas mostram, por outro lado, os
fundamentos concretos, historicamente documentados, do que passa por ser o
sentido utópico do pensamento agostiniano, o qual não procede afinal senão
da constatação – derivada também da sua própria experiência pessoal – de
que é sempre possível modificar-se, desde já, a si e ao mundo no sentido da
maior beleza, da maior verdade e do maior bem.

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agostinho da silva – uma antologia

A originalidade de Montaigne revela-se-nos logo no título do livro:


Ensaios. O que entendeu o autor, o que entenderam os contemporâneos
por esta palavra? Para Montaigne o Ensaio é a experiência que ele faz
do seu pensamento na compreensão de assuntos complicados; diante
de uma doutrina filosófica, de um problema moral, de uma explica-
ção de factos que se lhe afigura mais interessante e tentadora, o senhor
de Montaigne, sem grande confiança na sua razão e nos seus conheci-
mentos, sonda a passagem; e vai andando enquanto encontra pé; quer
tenha que recuar por se lhe ter baixado o vau ou ser grande a força da
corrente, quer consiga atingir a outra margem, fez uma tentativa, uma
experiência, um Ensaio. A vitória não lhe traz orgulho, nem a derrota
o diminui, porque o seu fito não é, convencido da supremacia do seu
pensamento, encerrar-se numa torre de marfim e não o experimentar
mais: é, pelo contrário, ir à procura de maiores rios e de passagens mais
fundas e perigosas.
Não avança resoluto e confiado; pensa e escreve como viaja; desvia-se,
volta para trás, o termo da jornada vale para ele menos do que o cami-
nho a percorrer, o que foi sempre a única forma de pensar ou viajar com
proveito. Ele próprio nos diz que, na onda a que se meteu, a razão lhe
caminha vacilante, a cada momento errando o passo; mas que importa? O
essencial é que se faça a experiência. E esta experiência, posta em crónica,
constituiu os Ensaios.
Os contemporâneos entenderam-no bem, quando, ao citarem em
latim o livro de Montaigne, escrevem sempre Conatus, tentativas; e é
um erro julgar, como queria Sainte-Beuve, que a tradução exacta seja
Lusus; quanto mais estudamos Montaigne, tanto mais nos convencemos
de que não há nos Ensaios nada de divertimento, de entretenimento, se
quisermos; há a marcha de uma razão que se procura a si própria e aos
objectos de conhecimento e já veremos que é esta uma explicação aceitá-
vel da sua evolução intelectual e das certezas a que chega no seu último
pensamento. Montaigne foi o homem que experimentou intelectualmen-
te, como outros depois, seguindo o caminho aberto, experimentariam
materialmente – Miguel Eyquem, Senhor de Montaigne [1933], in Textos
Pedagógicos I, pp. 84-85.

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o biógrafo

A hora aproximava-se; Francisco, sem falar, com os olhos cerrados,


escutava os irmãos que repetiam os seus versos; depois, no silêncio que
fizeram para ouvi-lo, abençoou todos os frades presentes, todos que se
encontravam espalhados pelo mundo, todos que haviam de entrar na sua
ordem até se consumarem os séculos; pediu que à hora da morte o esten-
dessem nu sobre a terra, num protesto de fidelidade a sua esposa, a Senhora
Pobreza. Calou-se de novo e já o dia declinava; um raio de sol penetrara
pela porta da cabana, rapidamente fugia na parede; então, de súbito, com
voz que recobrara toda a clareza e harmonia de outrora, Francisco entoou
um salmo de penitência, a entregar-se nas mãos de Deus, a elevar até ele
a sua alma; à última estrofe um silêncio encheu toda a cabana; a noite
fechava-se; Francisco morrera cantando; e as cotovias que recolhiam aos
seus ninhos voltearam no ar, demoraram-se em chilreios, numa derradeira
despedida ao grande amigo que partira – Vida de Francisco de Assis [1938],
in Biografias I, p. 82.

Os alunos levantavam-se ao nascer do Sol e Pestalozzi assistia, no pátio


do colégio, às lavagens que se faziam, mesmo no Inverno, com a água
quase gelada que corria das bombas. Não os queria educados para uma vida
de moleza; quando saíssem do colégio deviam levar os corpos de aço que
resistem a todos os embates e as almas que sabem dominar os ímpetos e as
recusas da carne; enérgicos e vivos, não se abandonariam às fraquezas dos
que dormem doze horas e têm medo da água, dos que hibernam sob a neve
e se espapaçam no Verão. Para lhes formar o corpo e o espírito introduziu
no colégio a ginástica e os jogos que, num ambiente de salutar, educativa
camaradagem, os mestres praticavam juntamente com os alunos; as rela-
ções que se travam nos desportos entre o professor e o rapaz unem mais que
todas as aulas e preparam melhor de que outro meio qualquer o terreno de
ensino; à sua iniciativa devia em grande parte Pestalozzi o êxito da escola
de Yverdon – A Vida de Pestalozzi [1938], in Textos Pedagógicos I, p. 176.

Estava realizada a obra por que lutara toda a vida; os mercados de


Nova Orleães, as algemas e as vergastadas acabavam para sempre; a poder
de sacrifícios, de horas trágicas, de tenacidade e rectidão, uma grande

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agostinho da silva – uma antologia

mancha desaparecia da terra; milhares de almas renasciam, numa espe-


rança imensa para todos os que sofrem e para todos os que lutam pela sua
liberdade; o caminho ficava traçado para o futuro: pela íntima união da
energia e da bondade, será possível restituir à sua dignidade de homens
todos os que as circunstâncias lançaram na miséria e numa vida de ani-
mais; nenhuma empresa se revelava impossível a quem nela pusesse a
vontade que nada quebra, o seguro conhecimento dos meios de que se
tem de servir e o ideal que ampara e conduz através de todos os des-
vios e obstáculos; o movimento continuaria e mais cedo ou mais tarde
lhe haviam de sentir os efeitos os obscuros trabalhadores que, de todo o
mundo, o tinham acompanhado na faina – Vida de Lincoln [1938], in
Biografias I, pp. 259-260.

Adorariam o Senhor pela vida do espírito e pela vida do corpo; seriam


limpos de alma, amigos do próximo, a todo o homem vendo como
irmão, dispostos sempre a socorrê-lo e a ajudá-lo a ser homem; não se
deixariam mover por nenhum interesse baixo e mesquinho, procederiam,
em qualquer ocasião, com generosidade, com nobreza e verdadeiro amor
de Deus; despiriam as atitudes sobranceiras e a indiferença ante a miséria
dos outros, jamais se serviriam da maldade e da mentira para atingirem o
seu fim; sóbrios na comida e na bebida, continentes no prazer, senhores
das paixões e dos impulsos, seriam calmos em face da alegria e da dor,
prontos a despojarem-se dos bens que lhes desse o Senhor, moderados
no gozar do que o céu lhes tivesse concedido – Vida de Moisés [1938], in
Biografias I, p. 298.

Facilitavam-lhe o trabalho de apaziguamento a sua serenidade, o des-


prendimento pessoal de vaidades e honras, o amor pela América, a cons-
ciência de que não era uma simples figura de político, mas um educador
do seu país, finalmente, as seguras informações sobre todos os problemas;
os ministros encontravam-no sempre na posse de dados que a eles lhes
faltavam e nos pedidos de conselho que lhes fazia Washington viam sempre
mais um procedimento cortês do que uma real necessidade do presiden-
te; conhecia todas as questões e a sua opinião, que sabia pôr à prova de

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o biógrafo

demoras, acabava sempre por vencer; ele representava a alma profunda do


país, livre das agitações da superfície, como a grande massa do mar sobre
a qual se agitam e rolam e desabam as vagas – Vida de Washington [1939],
in Biografias II, p. 83.

É lícito concluir-se imediatamente que a criança pode ser muito diferen-


te do adulto e estar, no entanto, preparando com todas as garantias de êxito
esse mesmo adulto, exactamente como a lagarta de couve prepara a borbo-
leta; não é um pequeno adulto que se vai educando e que tem de apresentar
todas as características específicas do adulto no seu comportamento biológi-
co e social; a criança é um estado biológico especial, é, por assim dizer, um
animal à parte, com características particulares, e que não podemos tratar
segundo as mesmas normas que empregamos para o indivíduo completa-
mente formado; pretender levar a criança a proceder como nós é exercer
sobre ela a mesma inqualificável violência que exerceríamos sobre a lagarta,
dando-lhe lições de voo ou obrigando-a a alimentar-se de sucos de flores.
Com a Montessori, a infância é uma noção substantiva, que existe por
si própria, sem necessidade de relacionação com qualquer coisa que se con-
sidere fundamental dentro da espécie; da criança nada há a exigir senão
que se desenvolva segundo o seu ritmo e toda a interferência tiranizante
do indivíduo adulto, que vive conforme um ritmo completamente diverso,
não lhe pode ser senão prejudicial; o respeito pela personalidade infantil, a
recusa a toda a acção modeladora decorrem naturalmente da ideia de que
o impulso vital da criança é soberano e o único operário capaz de construir
o ser que se espera que surja: deixemos a criança livre das nossas pressões
e ela, por si, se transformará no adulto – O Método Montessori [1939], in
Textos Pedagógicos I, p. 197.

[…] durante a sua direcção, Oundle inteira era um templo; o seu tra-
balho nunca foi para Sanderson nem uma profissão nem uma vaidade: foi
uma maneira de servir os homens, com uma ampla inteligência, com um
amor que se não dispersava em ternuras e sacrifícios passageiros, com uma
obstinação consciente e minuciosa, com um sentido igual das linhas gerais
e do pormenor necessário a toda a realização.

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agostinho da silva – uma antologia

Os seus alunos saíram, como queria, com a visão clara dos grandes pro-
blemas humanos e dispostos a fazer o possível para que o amor cristão entre
no domínio que até agora lhe tem resistido mais teimosamente: no domínio
económico; saíram com entusiasmo para se baterem na vida, não por van-
tagens meramente pessoais, mas por uma organização geral que dê a todos
os homens a possibilidade de se desenvolverem; saíram com a energia que
não desanima diante de nenhuns obstáculos e antes os toma como os seus
melhores auxiliares para que se apure e se estabeleça mais firme.
Todos eles aprenderam no contacto com Sanderson que a vida só é
bela quando é uma empresa em benefício dos outros homens e do mundo,
quando sai da rotina que esteriliza para os perigos da aventura intelectual
ou da aventura de acção; e o ambiente de Oundle, toda a sua actividade,
toda a sua admirável organização, todo o ímpeto espiritual que o animava
lhes puseram, como a primeira das suas obrigações na vida, lutar para que
os homens seus irmãos tenham na oficina, no campo, na escola, na vida
pública, a mesma liberdade, os mesmos direitos e os mesmos deveres, os
mesmos recursos e as mesmas perspectivas – Sanderson e a Escola de Oundle
[1941], in Textos Pedagógicos I, p. 284.

[…] por palavras cómodas, poderíamos dizer que o ideal de Owen era
que todo o operário de New Lanark tivesse como preocupação essencial,
satisfeitas as necessidades de corpo, as suas relações com o irmão homem e
a sua posição dentro da ordem universal; era afinal um objectivo religioso;
e parece efectivamente que, apesar de toda a sua insistência no raciocínio –
chamavam-lhe os amigos «a máquina de raciocinar» –, Owen era sobretudo
uma alma religiosa, mais movida pelo sentimento do que pela inteligência,
mais disposta a alcançar um paraíso do que simplesmente a compreender,
a ordenar o mundo – Vida de Robert Owen [1941; levantamento de Amon
Pinho], in Biografias II, p. 115.

[...] mas era-lhe impossível isolar-se, não lançar mão ao que na cidade
precisava de fazer-se: depois, nada lhe aparecia mais interessante do que as
relações humanas, os negócios públicos, a actividade social que vai permi-
tindo realizar-se a um tempo o bem dos outros e o nosso, que vai educando

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o biógrafo

lentamente, habituando-nos a reprimir os defeitos próprios e a suportar os


dos outros, sempre com bonomia, sempre com simpatia, sem as exigên-
cias que poderíamos ter para espíritos puros; […] não pregava ascetismos,
renúncias, nem marchas gloriosas para regiões angélicas; temos acima de
tudo de organizar bem a vida da terra, com o máximo de conforto e de
facilidade, de possibilidades de satisfazer o gosto de todos; achava que seria
excelente que toda a humanidade pudesse estar um dia na sua situação, se
tivesse também retirado dos negócios, e fosse, sem excessos, sem pressas,
mantendo perfeitas relações de vizinhança, tentando penetrar o desconhe-
cido, tentando surpreender, para os utilizar, os segredos da natureza; sabia
também, por outro lado, que os homens não podem ser melhores enquanto
as coisas não o forem e que é dever, mas dever agradável, do que se viu com
mais inteligência, ou melhores circunstâncias, cuidar do progresso material,
ou inventando novas comodidades de vida ou lutando por que as já conhe-
cidas se possam estender ao maior número de pessoas; quem trabalhasse
simultaneamente nos dois campos maiores serviços prestaria […] – Vida de
Franklin [1942], in Biografias II, pp. 171-172.

O que era seguro era estar-se numa época de crise e ir sair de todo
aquele século um mundo novo, se a sua construção estivesse dentro das
possibilidades humanas; os grandes edifícios sociais e políticos, os grandes
princípios religiosos, as próprias normas literárias e artísticas manifestavam
à mais ligeira observação os sinais do abalo profundo que não deixava de
agitá-los; o homem do futuro já não cabia nas armaduras que vinham dos
avós e ao esforço brutal que fazia por conquistar a liberdade a­ bolavam-se
as lâminas e estouravam os fechos; as próprias reacções eram sinais de
derrocada; os fracos lamentavam-se e desejariam ter vivido em anos mais
tranquilos, sem nenhum grave problema a resolver, com as escalas hie-
rárquicas perfeitamente dispostas e a existência decorrendo como um fio
monótono de fonte; Zola, porém, considerava como o mais belo dom dos
deuses terem-no lançado para o fragor das torrentes, terem-lhe concedido
ajudar as gotas companheiras na faina de abrir caminho, entre espumas
e tumultos, para o verde sossego dos plainos – Vida de Zola [1942], in
Biografias I, pp. 127-128.

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agostinho da silva – uma antologia

De pé no tabuado do andaime, com a cabeça violentamente inclina-


da para trás, ou então deitado, escorrendo-lhe as tintas pela cara, Miguel
Ângelo pintava; só perturbava o silêncio sagrado da capela o leve som do
aprendiz preparando as tintas, ou um gemer de tábuas sob os passos quando
o estucador vinha lançar o preparo; nenhum dos ruídos de Roma penetrava
ali dentro, tudo era calmo, mais calmo ainda na penumbra dos andaimes;
para Miguel Ângelo era como se estivesse muito longe da terra, como se a
terra mesmo ainda não existisse e já na imaginação de Deus fosse surgindo
o primeiro homem, depois a primeira mulher, depois toda a multidão de
profetas e sibilas que um dia haviam de pregar ao mundo, já pervertido, a
palavra divina; sozinho, com o seu povo de gigantes, Miguel Ângelo sentia
que estava finalmente exprimindo sem qualquer limitação todo o seu sonho
de grandeza, que a vida inteira se estava fixando no tecto da capela, como
se o milagre antigo se tivesse renovado; e agora, idêntico ao Deus criador,
nenhum mal o perturbava, não havia no seu espírito combate algum entre
as potências diabólicas e as inspirações do céu; tudo era vivo e forte, tudo
fazia parte do existir, tudo possuía a sua beleza, tudo desempenhava o seu
papel; as barreiras do espaço e do tempo que amesquinham, tornando-lhas
possíveis, as visões do homem desapareciam, e com elas todas as distinções
que o atormentavam, todo o drama que durante tanto tempo lhe mer-
gulhara em agonia o coração desfeito; Deus era artista como ele e só lhe
importava a harmonia geral da composição, não o que pode ver cada qual
duma posição limitada; cada um dos elementos que o pincel lançava sobre
o estuque fresco era um elemento essencial, com doçura ou braveza, com as
graças do corpo ou com a marca inconfundível dos que são devorados pelo
espírito; tudo bom no mundo, afinal, tudo nota indispensável na melodia
sem par, tudo harmonioso resultado dos dados anteriores; era pela com-
preensão universal, a paz que descia sobre o peito dilacerado de cuidados,
o afastava da vida parcial, o levava à mão direita de Deus, para que o olhar,
já divino, adorasse a variedade do Universo; e, para ser digno desta graça
de revelação, Miguel Ângelo quase não deixava o seu trabalho, dormia
numa pobre enxerga, às vezes mesmo no sobrado, alimentando-se a pão
seco como um miserável, domava as suas iras, apagava as suas ambições;
tinha sempre ante os olhos, como um padrão de vida, a figura de Cristo;

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o biógrafo

só de quando em quando o assaltava o receio de que Deus, por o ver tão


longe da perfeição, o afastasse de si, o mergulhasse de novo no intenso
sofrimento – Vida de Miguel Ângelo [1942], in Biografias II, pp. 246-247.

A este Deus de Verdade e de Amor não se rende outro culto que não seja
o esforço contínuo para que se desenvolvam os conhecimentos humanos e
se estabeleça na Terra uma maior fraternidade; não é um Deus cujos fiéis
vejam como perigoso todo o progresso das ciências e Lamennais pensa que
o espírito divino pode estar presente em todo o seu esplendor num labora-
tório ou numa oficina de motores; é a vida em todas as suas manifestações
que revela Deus, nos faz chegar mais perto dele, nos dá, ao seu contacto, a
força que nos levará a empresas mais altas; não nos penetraremos de Deus
pelas rezas automáticas ou pelos simbolismos que ninguém compreende:
é trabalhando, colaborando na grande obra de humanidade, tentando por
nossa parte descobrir a verdade que nos mostramos dignos da grandeza,
da compreensão, do infinito entendimento de Deus – Vida de Lamennais
[1943], in Biografias III, p. 67.

Porventura se terá até de ultrapassar os próprios domínios da vida


humana; tudo leva a crer que não haja existência alguma que não seja
dolorosa, que tudo no universo sofre, mesmo que apenas o homem tenha
possibilidade de expressão; que profundo sofrimento se não poderá ocultar
nos mundos que suspeitamos girando em volta das estrelas, e, mais perto
de nós, nas árvores das estradas e dos campos, nos animais que por vezes
nos contemplam como se implorassem uma palavra de compaixão; nas
próprias rochas das montanhas, prisioneiras da sua brutidade, nas ondas do
mar, incessantes rolando num esforço eterno de vencer o invencível; a vida
não é mais do que um episódio insignificante do sofrimento universal, e só
tem algum valor pelo afloramento que traz ao nosso espírito da tragédia do
mundo; para nenhuma criatura a vida tem sentido e vale a pena viver-se.
O pastor do Canto notturno interroga, na poesia em que talvez Leopardi
exprimiu com mais força o seu sentimento da infelicidade fundamental
da vida, a lua que vaga, silenciosa e pálida, pelos céus da Ásia; que sentido
pode ter o seu curso mil vezes renovado? A que tende o eterno girar, a

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agostinho da silva – uma antologia

carreira imortal? Talvez a tanto como a vida humana, o absurdo passar da


infância à juventude, da juventude à virilidade, depois à velhice, finalmen-
te à morte, onde ficam para sempre sepultados os projectos e os sonhos;
sofre-se vivendo, como nascendo se sofreu, como ao morrer se sofrerá; de
tudo fica apenas a lembrança na memória dos que vêem mais perto, mas
passada que seja uma geração já a vida do homem foi como se não tivesse
existido; mesmo para os grandes, para os artistas, para os sábios, para os
incansáveis investigadores da verdade e do belo, que poderá produzir de
duradoiro todo o esforço, toda a fadiga indescritível? Um dia, a própria
Terra gelará nos espaços e da Humanidade, com todas as suas lutas, todas
as suas ambições, todas as suas glórias e misérias nada mais restará do que
um pouco de pó; inútil a virtude, inútil a coragem, inútil o saber, inútil o
talento. Tudo inútil no mundo e feito apenas para se conservar a ilusão de
que realmente se vive, de que não há, em todas as nossas horas de existir,
apenas uma demora na chegada da morte, uma acção da hora inexorável.
Será então o agir o supremo remédio, teremos nós todos que invejar os
animais e as plantas, mais ainda, pela sua insensibilidade que nem precisa
de acção, os seres inanimados? Será o ideal girar arrastado por forças inevi-
táveis, sem que haja sequer o sentimento do que se passa, sem possibilidade
de lutar e vencer? Talvez: mas há, no silêncio da noite, na luz lívida e fria
do luar, no olhar gelado das estrelas, uma confissão de que tudo sofre, no
mundo, de que a dor não existe apenas para o homem; em nenhuma con-
dição se pode encontrar a felicidade senão através das ilusões: sem que se
possa esclarecer porquê, a vida é trágica e o primeiro dever de quem pensa
é pôr o sofrimento, solidamente, como a base de todo o existir. Fugir à dor
é, apenas, para Leopardi, a pior das covardias, a única que verdadeiramente
pode retirar dignidade humana; saber que a vida é trágica, que a vida não
tem solução, que a vida é um engano, e proceder como se o não fosse é a
marca definitiva de coragem, a afirmação plena de valor, a arte suprema do
heroísmo – Vida de Leopardi [1944], in Biografias III, pp. 128-129.

Temos que levar gente, não a uma vida cómoda, a uma vida fácil, mas
temos que ter a coragem de levá-la a uma vida difícil, a uma vida perigosa,
pois só com uma vida difícil, rigorosa e perigosa, dá o homem o melhor

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o biógrafo

de si próprio. É necessário obrigá-lo a saltar obstáculos. A primeira tarefa


de educador é procurar varas bem altas e obrigá-lo a saltar. Baden-Powell,
o que fez nessa conferência célebre foi exactamente isso, o exigir que se
ponha diante das pessoas um objecto que vá muito além daquele que lhe
possibilitam as suas forças.
Ele queria, para todos os rapazes e para todas as moças, quando chegas-
sem a essa idade, uma educação que lhes temperasse a vontade, não mais
gente na rua vendo gente passar, não mais gente encostada pelas portas dos
cafés, não mais gente de 20 anos vergonhosamente desocupada, passando
todo o dia sem fazer coisa nenhuma, fraquíssima de carácter, fraquíssima de
corpo, esperando que chegue o tempo de jantar para que chegue o tempo de
dormir para que chegue o tempo de se levantar – Baden-Powell, Pedagogia e
Personalidade [1961], in Textos e Ensaios Pedagógicos II, pp. 26-27.

De uma coisa poderiam estar certos, de que o não desanimavam; sen-


tia-se impelido por uma energia que não alcançariam vencer e que o levava
sem cansaço de uma experiência a uma discussão, depois a uma nota para a
Academia ou a resposta ao artigo de um polemista; seria ilógico refugiar-se
no laboratório como numa cela: tinha de ser simultaneamente o sábio que
descobria o remédio e o homem de acção que o impunha; um momento
de fraqueza da sua parte e a miséria se prolongaria por mais uns anos para
todos os desgraçados cujos sofrimentos o tinham impressionado; por bem
ou mal, não havia no seu temperamento, claramente o sentia, a impas-
sibilidade filosófica de muitos dos seus colegas; era um rijo combatente
com que tinham de haver-se e que replicava a todas as calúnias e a todas
as deformações das suas ideias, restabelecendo a verdade […] – Vida de
Pasteur [sem data], in Biografias I, pp. 181-182.

Durante cerca de três anos Leonardo esboçou, desenhou, coloriu, reto-


cou o retrato de Mona Lisa, era preciso que nele se fixassem as horas de
encanto magnífico e que o retrato fosse o retrato dos dois, o da mulher a
que Leonardo revelara uma existência que lhe parecia para sempre recusada
e a do artista que finalmente amara, com o amor mais puro, mais belo,
mais feliz, o amor que se dá e não exige, o amor que é ainda uma criação

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agostinho da silva – uma antologia

de arte e apurando o amado, elevando-o acima de si mesmo, completa o


criador, lhe dá a plena consciência da sua grandeza e, com ela, a coragem
que se não dobrará ante nenhum obstáculo, a compreensão mais ampla de
toda a nobreza, de toda a profundidade da vida, a plena aceitação de todo
o sacrifício que for necessário fazer para que a vida se cumpra, se realize, se
complete. Tudo quanto foi difícil serviu, todo o sofrimento lhe deu sensi-
bilidade para este momento supremo, toda a solidão lhe afirmou o sentido
de convivência, de humanidade, de simpatia sem o qual o amor de Mona
Lisa teria sido impossível. Já nem podia distinguir entre a arte e a vida,
entre a realidade e o sonho; o que pintava não ia ficando como que fora da
sua alma, apreensível como espectáculo à maneira do que sucedera com a
Ceia e as Madonas; o quadro era um momento da vida, penetrava-lhe no
espírito, dava-lhe amplitude, finura, e uma radiosa exaltação que nunca
sentira e que era a mais perfeita, a mais completa felicidade que poderia
imaginar; quando Mona Lisa saía ficava a saudade da hora que tão breve
passara e como que a impressão de que ela nunca mais poderia voltar:
tão perfeita, tão completa, como era possível que de novo se reunissem
todos os elementos que a tinham revestido de tão puro encanto? Mas ela
tornava, sentava-se diante do pintor, cruzava as mãos no regaço ou sobre
o bordo de um tamborete e bastava um movimento ligeiro de lábios, um
volver de olhos, a silenciosa, tranquila beleza daquelas mãos cheias e finas,
inteligentes e sensuais, para que já não houvesse a lembrança da hora que
passara: o presente o tomava todo em si, o próprio tempo se libertava do
quadro que o prendia e Mona Lisa lhe sorria de toda a eternidade para toda
a eternidade e o salvava da vida e o salvava da morte – Vida de Leonardo da
Vinci [sem data], in Biografias III, pp. 211-212.

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5. O POETA, O NOVELISTA,
O CRÍTICO LITERÁRIO E O TRADUTOR

Agostinho da Silva desdobrou o seu imenso talento de escritor nos domínios


da novelística e da crítica literária, onde manifestou um interesse acentuado
pela literatura francesa, mas cremos ser no domínio da poesia e da tradução que
nos deixou obra mais original e significativa, da qual estão por publicar muitos
inéditos. Convivente assíduo e tradutor, ou melhor, recriador, de grandes auto-
res e poetas – de Aristófanes, Platão, Virgílio, Horácio, Catulo e Lucrécio a Lao
Tsé e Li Bai, passando por Silesius, Rilke e Cavafis, entre muitos outros, quase
sempre lidos nas línguas originais –, deixa-nos na obra até hoje publicada uma
poesia singela, frequentemente com uma espontaneidade e rima afim ao gosto
popular, por vezes formalmente pouco elaborada, mas sempre densa de sentido,
expressando num verbo condensado e súbito os mais profundos rasgos intuitivos
e assumindo também uma dimensão pensante onde se retomam e aprofun-
dam os grandes temas e questões da sua visão mística, especulação metafísica
e exortação ético-sapiencial. Para além do seu intrínseco valor poético, revela
assim uma importância capital para a compreensão dessas dimensões do seu
pensamento, tanto mais que é nesta forma mais depurada e criativa que ele se
abre nalguns dos seus lances mais ousados, penetrantes e eloquentes, a partir dos
quais ganha sentido e inteligibilidade muito do que expressa em termos mais
prosaicos e discursivos. As suas quadras, lapidares e incisivas, são muitas vezes
impregnadas do operativo poder do paradoxo subversor das estruturas da mente
conceptual, recordando os haiku ou os kôan Zen, a cujo espírito confere uma
equivalente expressão na tradição da poesia popular portuguesa.

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agostinho da silva – uma antologia

Do caso Zola se pode tirar também uma conclusão interessante para uso
da crítica científica: a de que é excelente não se guiar ninguém pelas decla-
rações que os artistas fazem sobre si próprios e sobre as suas obras; de todos
os que as lêem são eles os mais sujeitos a enganarem-se quando procuram
formular juízos de valor: porque pretendem raciocinar, fazer pensamento
discursivo, sobre o que foi puramente acto estético; e porque pretendem,
sobretudo, apontar a sua obra como um produto de raciocínio obedecendo
a princípios e a fins. O que é quase sempre falso – “Zola” [1931], in Estudos
e Obras Literárias, p. 360.

É no encerrar-se deste modo, no sentir-se viver essa vida de ideal, de


pureza, de renúncia, no contemplar cada vez mais alto e mais brilhante
o fogo que nos animou nos anos de aprendizagem, que reside precisa-
mente a felicidade; não se trata de uma realização, mas de uma perpé-
tua virtualidade, não de uma chegada, mas de uma carreira eterna; era
parente de Stendhal aquele que escreveu querer antes o problema do que
a verdade; ao passo que as almas vulgares têm a felicidade como uma tela
pintada e só o representado difere para cada uma, a alma enérgica consi-
dera-a uma tela em branco que fosse consciente da sua p ­ ossibilidade de
mil paisagens.
[…]
A energia fortifica-se e desenvolve-se pela comunhão com todos os
nobres espíritos – pintores, músicos, poetas, heróis ou santos – seja qual
for a sua época, seja qual for a sua raça; pôr limitações em nome de prin-
cípios indefinidos e de doutrinas caóticas é, para Stendhal, como todas
as manifestações de gregarismo, a negação da energia; o que importa é
ser, não saber o que são os outros, ter cada um a força invencível do seu
isolamento, a convicção firme de que tende para Deus e não para a bestia; e
no longo caminho, que se parece estranhamente com um calvário, servirão
de cireneus todos os que tiveram a mesma tranquila coragem e sofreram,
inquebrantáveis, os insultos da populaça e a cada queda sobre as pedras
agudas se levantaram com mais serenidade e mais amor ao Espírito.
Para este justo que sofre há também um paraíso e uma glória: em
­primeiro lugar na consciência do seu sacrifício, depois nos momentos de

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

êxtase que a força de alma, a energia, lhe oferece. Stendhal, partindo da


ideologia, do raciocínio frio, das abstracções geométricas, chega, como
porto último da sua doutrina, ao misticismo mais ardente e mais puro.
O êxtase, diz ele, é a absorção completa do indivíduo no objecto amado,
mulher ou música, poema ou painel; uma suspensão de vida, um levi-
tar, envolto numa claridade de sonho, como se vê em certos santos de
Murillo; um contacto extático com o fundo último da realidade, um per-
der-se em Deus, provocado pelas criações colossais e dolorosas de Miguel
Ângelo ou pela radiosa e harmoniosa beleza de Matilde Dembowski –
Stendhal. Mérimée. Dois Ensaios de Interpretação [1947], in Estudos e Obras
Literárias, pp. 26-27.

Não me parecia assim tão importante que Patrick tivesse saúde ou


não. O mundo rolaria, mesmo sem ele. Mas Herta? Porquê sacrificar
uma vida inteira? Porquê consagrá-la àquele homem, que podia falhar,
quando ela mesma teria certamente diante de si tanta coisa bela que
fazer. Bem: por exemplo? E fiquei sem saber o quê. Que há afinal de
belo para fazer no mundo? Ciência, arte, religião, política? Tudo ilusórias
formas de agitar-se.
Quem sabe se ela não estaria na razão e se o mais belo e o único belo
destino, não é esse, o de amar alguém, e arder, para o salvar? E olhem isto!
Sobre aquela vastidão de matas, agora, porque nos íamos aproximando do
Amazonas, com grandes águas que pareciam paradas, me lembrei de Barca
de Alva, onde morei menino, e das mocinhas que brincavam connosco,
alguma das quais, se fosse eu menos aventureiro, poderia ter dado à minha
vida o sentido que não terá agora nem jamais. Que ideia esquisita! – Herta.
Teresinha. Joan. Três Novelas ou Memórias de Mateus-Maria Guadalupe
[1953], in Estudos e Obras Literárias, p. 94.

Parti, pois, por uma daquelas manhãs claríssimas do Rio, quando


Guanabara, céu e rumor longínquo de cidade cercam o aeroporto de tão
grande carinho e de tão grande paz que é, depois de despachados todos
os papéis de viagem, como se se estivesse desprendido, pelo que respeita a
actividade, de todo o mundo dos vivos, e apenas se olhasse o espectáculo

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agostinho da silva – uma antologia

que eles oferecem com interesse, com amizade, mas sem participar em
nada de sua agitação, a que só não chamo vã porque aprendi de um
amigo filósofo que ela é talvez o mudar-se em tempo da quietude eter-
na; coisa que não entendi bem, mas me pareceu admirável – Lembranças
Sul-Americanas de Mateus-Maria Guadalupe [1957], in Estudos e Obras
Literárias, p. 186.

minha praia ardorosa

Minha praia ardorosa e solitária


aberta ao grande vento e ao largo mar,
tu me viste querer-lhe com a doce
piedade das sombras do luar;

teus cabos se adiantam como braços


para abraçar as ninfas receosas
que fugindo oferecem sobre as vagas
suas nítidas formas amorosas;

braços paralisados por desejo


que o mundo e sua lei não permitiu
ou suspendeu amor, que livre jogo
maior que posse em fugaz tempo viu;

e como vós me alongo, e como tu, areia,


me ofereço a toda a sorte,
por sua liberdade, ou por destino
que, por só dela, seja belo e forte.

– Caio M. R., As Folhas Soltas de S. Bento e Outras – 3 [1965], in Textos


Vários. Dispersos, p. 67.

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

balada do amor e da morte do alferes cristóvão rilke

Sempre a cavalo, sempre a cavalo, sempre a cavalo, de dia e de noite,


de noite e de dia, sempre a cavalo, sempre a cavalo, sempre a cavalo.
E a alma se tornou tão alquebrada, e tão grande a saudade se tornou.
Já se não avista nenhum monte, quase não há nenhuma árvore. Nada
ousa erguer-se. Estranhas, sedentas cabanas se encolhem à beira de fontes
já secas. Torre nenhuma em nenhum sítio. A vista igual, sempre: estão a
mais os dois olhos. Muitas vezes, só à noite, parece, se conhece o cami-
nho. Será possível que atrás voltemos, durante a noite, toda a extensão
que ao sol estranho pesadamente conquistámos? Bem pode ser. E o sol é
denso, como entre nós em pleno Verão. Mas foi no Verão que nós par-
timos. Dentre a verdura, o trajo delas resplandecia um tempo imenso. E
há tempo imenso que nós seguimos, sempre a cavalo. Já deve ser agora
Outono. Pelo menos lá, onde mulheres, ­saudosamente, pensam em nós.
[…]
Descansar! Ser hóspede uma vez. Não ter sempre de matar os desejos com
parcimónia no gastar. Não ir às coisas como inimigo. Deixar uma vez que
tudo suceda, e saber: O que sucede é bom. De quando em quando precisa
a alma de repousar, de se dobrar dentro em si própria, sob colchas de seda.
Sempre soldado, não. Trazer soltos os cabelos, livre o pescoço do colar, e sen-
tar-se em cadeiras de seda, e estar, até à ponta dos dedos, como depois de um
banho. Ir de novo aprender o que são mulheres. E o que fazem as de branco
e as de azul como são; e que mãos têm, e como canta o riso nelas quando lhes
trazem pajens loiros as salvas belas, pesadas de frutos suculentos.
Principiou por ser banquete, foi depois festa, nem sabem como. As
altas luzes oscilavam, falas voavam. De brilhos e vidros surgiam, tinindo,
confusos os cantos. Por fim, das cadências, fruto maduro, a dança brotou.
E a todos levou. Havia nas salas ondas, marulhos, escolhas, encontros, e
despedidas e reencontros, gozo de brilhos, luzes que cegam, e o baloiçar-se
à brisa de estio que havia nas vestes de ardentes mulheres.
De vinho escuro e de milhares de rosas, o tempo, correndo, sussurra no
sonho da noite.

– Rainer Maria Rilke, tradução de Caio M. R., As Folhas Soltas de S.


Bento e Outras – 4 [1965], in Textos Vários. Dispersos, pp. 99 e 103-104.

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agostinho da silva – uma antologia

um poema de gerdes urutu

[…]
Talvez vos não agrade estar a falar do que é difícil entender
Então vos vou dizer que Deus ao princípio estava sozinho
Mas sendo Deus tinha tudo dentro dele e não se podia manter
Sem perceber ao menos que era Deus e estava sozinho.
Logo que percebeu que era Deus e passou a estar acompanhado por si
[mesmo
sucederam duas coisas que modificaram toda a cena
foi a primeira que explodiu o mundo de dentro dele a esmo
atirando tudo de uma vez cá para fora a plena
mão porque ele Deus se viu ele todo e nada podia deixar de ver
e surgiu tudo ao mesmo tempo e lá saiu o bicho humano
que este vai vendo aos poucos o que foi Deus ao perceber
como sempre percebeu que ele só era tudo insano
quem julga que o mundo foi criado aos bocados e que instinto
em moscas ou em nós não é roda dentada sobre roda dentada.
Mas isto é só o quadro que me está vindo em verso e em que pinto
a criação do mundo mas na mesma altura já falada
Deus só porque se viu viu depois dele o que era ele
viu afastado dele o que era ele e já usando a nossa língua chamou-lhe
[filho
que talvez também o nosso filho verdadeiro seja aquele
em que o melhor nos vemos se em nós olhamos o melhor
ou o pior em nós se em nós por pouca fé e coragem
nos impressionamos com o que somos quase sempre isto é pior.
Como porém não há remédio ou haverá demorarmo-nos aqui é só
[bobagem.
E esta foi a segunda coisa mas houve terceira afinal
foi que Deus percebeu que ele e o filho eram iguais
e a isto que neles por ser só de um era o igual
parece que chamou sopro ou ar por nós dizermos que os filhos dão ares
[aos pais

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

mas sopro ou ar é espírito e nós por ser ele de Deus dizemos que é santo.
Mas Deus ficara parado em ser pai e logo ficou parado em ser filho
mas onde parar o espírito que estava e não estava em qualquer dos dois
caça daqui caça dali e o espírito fugindo
e os mortais atrás dele coisa que deu
depois loucas paixões ao perpassar o ar indo
do nada ou tudo para o tudo ou nada ou eu
e ao dar ao homem a saudade de Deus e o desejo de não ter história
de ter tudo ao mesmo tempo no pensamento e no peito
de nada ter no passado e ser memória
de nada ter para o futuro e ser-lhe afeito.
[…]

– Gerdes Urutu, As Folhas Soltas de S. Bento e Outras – 5 [1965], in


Textos Vários. Dispersos, pp. 110-111.

simpósio

[…]

Eu na verdade sou velho,


mas bebo melhor que os moços
e, se vamos a dançar,
usarei por ceptro um odre,
que férula alguma tenho.
E se alguém quiser lutar,
salte aqui, que lutarei.
Menino, uma boa taça
de mel e de doce vinho
misturados traga já.
Eu na verdade sou velho,
mas dançando aí no meio
um Sileno imitarei.

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agostinho da silva – uma antologia

O coração satisfeito,
logo que bebo o meu vinho,
às Musas canta em meu peito.
Logo que bebo o meu vinho
se me desgarram cuidados
e vão ao vento do mar
os conselhos desvairados.
Logo que bebo o meu vinho
vem Baco hostil à tristeza
e me leva por caminho
de aura florida e beleza.
Logo que bebo o meu vinho
vou grinalda entretecer
e canto, flor na cabeça,
a doçura de viver.

Logo que bebo o meu vinho,


com o corpo perfumado,
entoo, cingindo a moça,
carme à Cípria dedicado.
Logo que bebo o meu vinho
dentro da côncava taça
fica-me o espírito alegre,
partilho do coro a graça.
Logo que bebo o meu vinho
torna a mim a confiança:
isto pelo menos levo,
que ao resto a morte o alcança.

Amor um dia não deu


por uma abelha entre as rosas
e, coitado, foi picado
num dedo das graciosas

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

mãozinhas como chorou!


Correu, de braços no ar,
para a bela Citereia:
“Morro, mãezinha”, gritou,
“eu morro, o bicho matou-me!
Uma serpente pequena,
com asas, a que no campo
chamam abelha, picou-me”.
Disse-lhe ela: “Se o ferrão
da abelha te machucou,
vê tu o que sofrerão
os que o teu dardo alcançou”.

Bebamos o quente vinho


e celebremos a Baco,
o grande inventor das danças,
o guloso de canções,
o companheiro de Amor,
o dilecto de Citera.
Dele vem embriaguez,
dele a graça se origina,
por ele some-se a Dor,
por ele adormece a Angústia.
Trazem os belos mancebos
a bebida misturada
e põe-se em fuga o desgosto
nos ventos que vão passando;
tomemos, pois, a bebida,
lancemos fora cuidados.
Para quê preocupar-se
com todas essas tristezas?
Que sabemos do futuro?
Se esconde a vida aos mortais.

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agostinho da silva – uma antologia

Quero, pois, beber, dançar,


perfumado divertir-me
com as formosas mulheres.
Quem quiser, para si tome
tudo o que haja nos cuidados.
Alegres, bebamos vinho
e celebremos a Baco.

O que eu desejo é bailar


na dança dionisíaca,
o que eu quero é tocar lira
nas festas da mocidade.
Mas o que a tudo prefiro
É divertir-me com jovens,
Todo enfeitado na fronte
De grinaldas de jacinto.
Inveja não me indispõe,
A ninguém desejo penas
E da língua maldizente
Detesto os vivos farpões,
Odeio as disputas ébrias
De banquete além das metas.
Mas ir bailar com as moças,
Me acompanhando na cítara,
Isso sim, que é vida e gozo.

[…]

– Anacreonte, tradução de Jurandyr e Agostinho da Silva, As Folhas Soltas


de São Bento e outras – 6 [1968], in Textos Vários. Dispersos, pp. 135-138.

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

lume

A distante cordilheira, queixada de tubarão,


suas presas desnuda para o céu.
Vultos de gente transformada em corvo.
A negridão da noite tudo cobre.

Nem jornais,
nem relógio,
só a imensidão deste faval.
Eu estava meio no ar, como se houvesse
me perdido no tempo que é dos deuses.
De quando em quando, os últimos modelos de avião
voavam lá por cima em formação
e logo ouvia o ruído
das metralhadoras da Skoda.
Perguntei
Tem esperança?
Não respondeu;
Que tem então?
Apontou para o jardim
onde se via, em montes ou espalhado,
seco, esterco de boi;
Que é isso?
Lume!
Lume?
Uma bolada de esterco
debaixo dum caldeirão
ardia, branca e vermelha.
Então ele e eu pela primeira vez
rimos um riso de homens e de deuses,
rimos o riso de homens e de deuses.

– Kondo Azuma, tradução de José Félix Damatta, As Folhas Soltas de


São Bento e outras – 7 [1968], in Textos Vários. Dispersos, pp. 154-155.

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agostinho da silva – uma antologia

o sonho de cipião

[…]
“Se, por isso, se perder a esperança de regressar a este ponto, em que
está tudo que vale para varões generosos e ilustres, que importância terá
então essa glória humana que mal pode atingir a tão exígua parte de um só
ano? Se queres, portanto, olhar ao alto e contemplar este eterno lugar de
habitação, não confies nas palavras vulgares e não ponhas em recompensas
humanas a esperança de teus actos: o que importa é que só o carácter
te conduza, por suas próprias atracções, às honras verdadeiras; do que de
ti os outros falem, tratem eles. E falarão, sem dúvida; mas todas as suas
palavras se cingem àquelas estreitas regiões que vês, jamais foram eternas,
abatem-se com a morte dos homens e com o esquecimento dos pósteros
se extinguem”.
Tendo ele proferido tais palavras, disse-lhe eu: “Ó Africano, se o bem
merecer da pátria é caminho pelo qual se passa a esta entrada do céu, e ape-
sar de desde criança ter seguido teus passos e os de meu pai, jamais faltando
ao que de vós poderia ser digno, certamente vou agora, depois de me ser
mostrado um tal prémio, esforçar-me com maior diligência”.
“Esforça-te, pois, respondeu ele, e fixa bem que não és tu que és mortal,
porém esse teu corpo; não és realmente o que essa forma indica, pois só é
cada um o que sua alma o é, e não essa figura que se pode mostrar com o
dedo. Fica, por isso, sabendo que és um deus, se é na verdade um deus o
que vive, o que sente, o que lembra, o que prevê, o que rege e governa a esse
corpo, de que é preposto, exactamente como ao mundo o outro deus, o
supremo; e assim como move ao mundo, até certo ponto mortal, o próprio
deus eterno, assim, ao frágil corpo, a alma sempiterna. Efectivamente, o
que sempre se move eterno é; mas o que tem de atribuir seu movimento a
alheia origem, o que de fora é impelido, certamente terá seu fim de vida,
quando houver o fim do movimento. Só aquilo que a si próprio se move,
e que, portanto, nunca a si próprio se deserta, pode jamais deixar de se
mover; para as coisas, porém, que são movidas, eis aqui a fonte, eis aqui
o princípio do mover-se. Ao princípio, porém, não há origem; tudo vem
do princípio, sem que ele, no entanto, possa nascer de qualquer outra

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

coisa, porquanto não seria princípio o que de fora proviesse: e, se nunca


se origina, também na verdade nunca morre. Se o princípio realmente se
extinguir, não poderá renascer de outro ponto qualquer, nem outro virá a
partir dele próprio por ser fatal que tudo de um princípio surja. Daqui se
conclui que tem de vir o princípio do movimento daquilo que por si se
move; não pode ele nem nascer nem morrer; se desaparecesse, teriam de
parar, necessariamente, o céu inteiro, a natureza inteira, e não haveria mais
força alguma de que pudesse receber o seu primeiro impulso. Se é, por-
tanto, claro existir alguma coisa que por si própria se move, quem haverá
que negue ser esta a natureza atribuída às almas? É, de facto, inanimado
tudo que somente é impelido por um estímulo externo; o que, porém, é
animado, isto se move por causa interior e sua; é esta realmente a própria
força natural da alma; e, se é ela a única, dentre tudo, que a si se move,
decerto que não nasceu, e que é eterna. Exerce-a, pois, tu e no melhor que
há, que o melhor é todo o cuidado que se tem na salvação da pátria: a alma
por ele impelida e excitada mais veloz virá a este seu lugar, sua mansão;
o que tanto mais rápido será se, mesmo quando encerrada no corpo, sair
fora elevando-se e, ao contemplar o que está no exterior, abstrair de seu
corpo o mais possível. Efectivamente, as almas daqueles que se deram às
voluptuosidades do corpo e a elas se ofereceram como servos e, por impul-
so de paixões às voluptuosidades submissos, violaram as leis de deuses e de
homens, essas, ao escaparem dos corpos, ficam rodeando só a Terra e não
voltam a este lugar senão aguilhoadas por séculos e séculos”.
Ele se retirou: despertei eu do sono.

– Cícero, tradução de Agostinho da Silva, Bahia. Colecção de Folhetos


[1], in Textos Vários. Dispersos, pp. 168-169.

É manhã de verão, mas já as folhas


da figueira, que seca, se enferrujam
e murmuram no vento
e nos ramos que tremem e temem que lhes fujam.
Dormir ou não dormir? Os fios eléctricos,
neles cigarras cantam, vão pelo céu acima;

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agostinho da silva – uma antologia

murchas, as folhas, murmurando ao vento,


murchas, as folhas tremem, e os ramos temem
o fim que se aproxima.
Dormir ou não dormir? Quieto e escuro o céu,
o céu que os cabos cortam,
nuvens cobrindo o sol com seu véu.
Cigarras – tão distante a meus ouvidos.
E os que eu amo – perdidos.

– Nakayara Chuya, tradução de José Félix Damatta, Pensamento em


Farmácia de Província – 1 [1977], in Dispersos, pp. 642-643.

do “auto do diaboo, do sages platom e do minino”


Anónimo, ou anheterónimo, e tardio, de um medíocre imitador de
Mestre Gil

Hu diaboo

Quem vem à Barca quem vem


Quem quer falar ao Moraes?
Vens cá tu que tudo entendes
Vegadas mal outras bem?

Platom o Sages

Eu vou hi senhor Diaboo


Para vos cortar o rabo
Que vós bem comprido o tendes.

O diabo
Vinde vós logo seguido
Este rabo me incomoda
Não me deixou ir à boda
De Brancanes minha avó

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

Nem pude ir dançar de roda


Na Bica do Mija Só.

Platom

Oo gracioso que sois!


Vos perdoarei o corte
Só por tentar minha sorte
De procurar a botica
E ver a triste que fica
A minha prosa gregueira
No linguaje de má morte.
Mas não sei se me convém.
Essa barca vai e vem?

Hu minino

Eu vo-lo direi de praça


Venha lá o que vier
Não acho nenhuma graça
Nesse não quer porque quer.
Senhor sages Platom
Não basta a geometria
Mais vale juízo bom
Pra se chegar onde se ia.

– Pensamento em Farmácia de Província – 4 [1977], in Dispersos, pp. 653-654.

sobrevoando o atlântico

Há uma parte de teu sonho, Amiga,


de que não te lembraste: viste sair do mumificado coração
de uma Menina egípcia – filha de Nefertiti – a mandala de folhas verdes.
Houve quem amasse as pequeninas folhas,

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agostinho da silva – uma antologia

elas cresceram e à sua sombra lançou Sócrates


a ideia geral (disse Platão) de que o corpo
é a face visível do espírito e o espírito
a invisível do corpo; e ao lugar onde tudo assim reina
designou misteriosamente ou misticamente por 324.
E quando agregou a si os que talharam o mármore,
os que dispuseram as linhas e os que compunham palavras,
a todo o conjunto chamou ele Talhamar.
E outra vez, do mumificado coração de uma Menina grega
surgiram folhas verdes que tiveram quem as amasse:
aí houve engenharia e direito e administração
e agudo senso do concreto – e a tudo isso se chamou Roma.
Só que faltava mundo ao mundo e de novo
do mumificado coração de uma Menina –
filha de pai romano e de mãe bárbara, à sombra
se chamou Catedral e nela houve complexa música
e poetas de variadas línguas nela escreveram Poemas
e se lançaram matemáticos a distantes regiões
de que nem Euclides tivera ideia. Viste agora, Amiga,
nascer outra mandala – e as amamos nós, às suas folhas
e elas vão ser a plena liberdade do homem
e a imaginação imperando no mundo e o Paraíso reconquistado
e tão absoluto Amor que todas as filosofias
lhe serão apenas achas de fogo e nele, por Deus, nos consumiremos.

– assinado George A. S., Cadernos Rioarte [1985], in Dispersos, p. 787.

reis alexandrinos

Nas ruas se postou Alexandria


aquele dia para ver passar
os filhos de Cleópatra rainha:
eram Cesarião, os mais pequenos,
e também Alexandre, Ptolomeu;

80

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

os levam ao ginásio a coroá-los


em luzida parada militar.
Será, pois, Alexandre rei da Arménia
e da Média e dos Partos; da Cilícia,
da Síria e da Fenícia Ptolomeu.
De seda cor-de-rosa, um pouco ´frente,
Cesarião se via, tendo ao peito
Um ramo de jacintos, como cinto
Pois dobradas fileiras de safiras
e dobradas fileiras de ametistas,
de branca fita os laços dos sapatos
com pérolas rosadas recamados.
Rei dos Reis será ele, assim ficando
acima dos pequenos seus irmãos.
Mas bem sabia o povo alexandrino
que tudo isto era engano, e só teatro.
Ia, porém, o dia quente e belo,
de claro azul o céu, com o ginásio
um triunfo das artes, e perfeito
todo o luxo da corte, e quanta graça,
beleza quanta a de Cesarião,
Cleópatra é a mãe, o sangue lágida.
Alexandria inteira corre à festa,
de entusiasmo grita, em grego, egípcio,
até hebreu se escuta, num encanto
de espectáculo assim; só que sabendo,
como tão bem sabia, o que valia
aquilo tudo, os títulos vazios,
e que eram nada os próprios reis aqueles.

– C. P. Cavafis, “E do original o tentou traduzir Agostinho da Silva”,


Carta Vária XLVI, 7.6.87, in Dispersos, pp. 850-851.

81

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agostinho da silva – uma antologia

baruch spinoza

Bruma de oro, el Occidente alumbra Ocidente a janela em bruma de ouro


la ventana. El asiduo manuscrito A luz evoca. Assíduo, o manuscrito
Aguarda, ya cargado de infinito. Já prenhe de infinito a hora aguarda.
Alguien construye a Dios en la penumbra. Alguém nesta penumbra a Deus constrói,
Un hombre engendra a Dios. Es un judio Um homem Deus engendra. Ë um judeu
De tristes ojos y de piel cetrina; De tristes olhos e de cítrea pele.
Lo lleva el tiempo como lleva el rio O tempo o leva como leva um rio
Una hoja en el agua que declina. A folha que nas águas vai descendo.
No importa. El hechichero insiste y labra Não importa porém; com delicada
A Dios con geometria delicada; Geometria insiste o feiticeiro
Desde su enfermedad, desde su nada, E a Deus cinzela; da doença parte
Sigue erigiendo a Dios con la palabra. Para além do que nele só é nada.
El más pródigo amor le fue otorgado, A Deus vai erigindo com palavras.
El amor que no espera ser amado. O mais pródigo amor lhe foi doado,
 Amor que não espera ser amado.

– Jorge Luis Borges, Carta Vária LVII, 5.10.87, in Dispersos, pp. 861-862.

As costas da mulher no espelho se espelhando


brilho macio de cera. Castanha, a cabeleira,
no dorso seu tão liso luz de fosforescência.
Borla do pó calda no lençol que, formando
com rugas de seu pano a carta marinheira
de águas mediterrâneas, a abril representa
em sua ausente essência.
E o transe da mulher. Como cantava
com as linhas do corpo ruas de sua aldeia
e a ladeira do porto e o vinho que espumava
e a concertina
e até fina a chuva sobre o polido corpo se passeia.
Pela janela atira a borla. Da janela atirada
lá vai como flor que o solo espera
e é Mar Mediterrâneo e perfume no ar a primavera.

– Kondo Azuma, É a Hora [Fevereiro, 1988], in Dispersos, p. 887.

82

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

poeminha que saiu

Viva a vida disse a vida


e nunca mais se morreu
Deus em si nos retomando
o tempo eterno nos deu

nunca mais fomos poetas


que era coisa de sofrer
agora somos poemas
como Ele é de sempre ser

nunca mais fomos crianças


distantes de ter crescido
com saudades de um passado
para nós sempre vivido

nem do futuro ansiosos


pois o temos no passado
nem de espaços repartidos
se faz o mundo sonhado

se sonhamos ou vivemos
é pergunta que sumiu
a ser viemos de estar
o presente ninguém viu

só porque ousámos querer


esse querer não querendo
e fomos fazendo o feito
esse fazer não fazendo.

– É a Hora [Setembro, 1988], in Dispersos, p. 912.

83

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agostinho da silva – uma antologia

Antes teor que teorema


vê lá se além de poeta
és tu poema

– Uns Poemas de Agostinho, p. 10.

Atingira um silêncio tão de espanto


que era todo universo à sua volta
um seduzido canto

– Uns Poemas de Agostinho, p. 11.

Se eu chegar a ser dum Outro


mas de mim não me perdendo
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo

não só homens mas também


os animais e as plantas
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas

terei decerto cumprido


meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já ressurrecta da morte

– Uns Poemas de Agostinho, p. 106.

Acordo e sai um poema


Alguém mo sonhou de noite
Só preciso não ser nada
Para que a musa se afoite

– Quadras Inéditas, p. 9.

84

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

Como durmo sossegado


Sabendo que por mim vela
Uma coisa que sonhando
Vivo me tem dentro dela

– Quadras Inéditas, p. 19.

Deixa desfilar o mundo


quieto fica distante
não estar interessado
é que é o interessante

– Quadras Inéditas, p. 28.

Do que é certo desconfia


Do duvidar te enamora
É bom não saber de Deus
Quem de dentro a Deus adora

– Quadras Inéditas, p. 35.

É ciência subir os Himalaias


e criar matemática sem fim
mas é cultura vê-la poesia
e ter os Himalaias dentro em mim

– Quadras Inéditas, p. 38.

Em mim tenho o mundo inteiro


e mais que tudo as estrelas
é procurá-las no céu
o que me impede de vê-las

– Quadras Inéditas, p. 39.

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agostinho da silva – uma antologia

Mais que a teu Deus sê fiel


ao que tu sejas de Fé
talvez o Deus que te crias
oculte o Deus que Deus é

– Quadras Inéditas, p. 58.

Não verás em mapa algum


rumo das ilhas de amor
aguarda que a deusa queira
te mostrar o seu favor

– Quadras Inéditas, p. 71.

Naquela Ilha dos Amores


que sonhou Camões outrora
só entra e fica liberto
quem lá viva desde agora

– Quadras Inéditas, p. 72.

Nunca voltemos atrás


tudo passou se passou
livres amemos o tempo
que ainda não começou

– Quadras Inéditas, p. 77.

O mais simples alicerce


traz logo a casa traçada
se eu quiser chegar a Deus
começarei por ser nada

– Quadras Inéditas, p. 80.

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

O mundo é só o poema
em que Deus se transformou
Ele existe e não existe
tal a pessoa que sou

– Quadras Inéditas, p. 81.

O que ardeu era o passado


e lá reviveu morrendo
ao fogo se deu inteiro
e ao novo gerou ardendo

– Quadras Inéditas, p. 84.

O que chamamos verdade


é coerência inventada
por um saber que imagina
que sabe e não sabe nada

– Quadras Inéditas, p. 85.

Oxalá por saber tanto


me apeteça ficar mudo
só então vendo sem ver
aquele nada que é tudo

– Quadras Inéditas, p. 88.

Por mais humilde que sejas


és aristocrata e nobre
não há ninguém que te iguale
em tudo que o céu te cobre

– Quadras Inéditas, p. 96.

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agostinho da silva – uma antologia

Primeiro há um pensamento
que pensa sem pensador
e logo pensa quem pensa
que pensa tudo ao redor

– Quadras Inéditas, p. 102.

Quando morre o que viveu


nada se desequilibra
força emana cá e lá
Deus a si próprio transmigra

– Quadras Inéditas, p. 104.

Se Ele é tudo o que tu dizes


Ele o Nada pode ser
e se é Nada livre está
para ser o que quiser

– Quadras Inéditas, p. 115.

Se não sabes o caminho


e a sorte nenhum prefere
toma então pelo mais duro
é esse o que Deus te quer

– Quadras Inéditas, p. 117.

Só com alguns estarás


enquanto forem a rodos
mas apenas no deserto
poderás estar com todos

– Quadras Inéditas, p. 124.

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

Talvez chegues tu a ver


que só nada é real
e que a partir de não ser
te construirás total

– Quadras Inéditas, p. 132.

Todo o momento que foge


a eternidade encerra
só atingirás o céu
por cuidado passo em terra

– Quadras Inéditas, p. 136.

Tudo o que existe na vida


em vida à morte sustenta
mas vidas outras a morte
por matar as alimenta

– Quadras Inéditas, p. 139.

Vida lhe é tanto de amor


e amor à vida tão forte
que morte não lhe dá na vida
vida vê na própria morte

– Quadras Inéditas, p. 147.

poema que pessoa nunca pôs na arca

De Álvaro sei como sei


desse latim do Ricardo
do pensamento de Alberto
luz incerta em gato pardo

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agostinho da silva – uma antologia

sei de algum outro tão bem


como ele sabe de mim
e de quantos sei ainda
metidos na arca sem fim

e de Bernardo esquisito
como espelho em mim cravado
se se quebra me quebro eu
mas sangue só de meu lado

sei com todo o pormenor


de tudo o que me nasceu
sei de toda a criação
só não sei o que sou eu

– Do Agostinho em torno do Pessoa, p. 11

Que, palhaços do circo do Senhor,


sejamos loucos do mais belo siso
transformando num jogo a nossa dor
e a dádiva das lágrimas em riso

– Caderno Três sem Revisão.

[…]

Não te confunda, Amigo, eu nada ver


pois deslumbrado estou com meu não ser.

[…]
Minha morada é onde não moramos
e convosco vivo eu onde não estamos.
Para nos vermos só lugar incerto,
talvez, além de Deus, só o deserto.

90

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

Em Deus minha grandeza, em mim seu nada,


mas sermos desiguais ideia errada.

[…]

Se te livras de tudo que é medida


é só de eternidade a tua vida.

[…]

Como podias tu herdar a Deus


se te não morresse Ele aos olhos teus.

[…]

Em Deus vivia eu antes do mundo


pois sempre Se me deu do mais profundo.

[…]

A rosa que tu vês com teu olhar


sempre assim foi em Deus, sem começar.

[…]

É Deus decerto o nada, e, quando assoma,


só em mim Ele existe se me toma.

[…]

A razão de ser rosa é só ser rosa


e bela assim surgir, silenciosa.

[…]

91

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agostinho da silva – uma antologia

Meu salvador é Deus, eu salvo o mundo


se em mim entra como eu nEle me afundo.

[…]

Abandonar-se a Deus a Deus encanta,


mas abandonar Deus mais do que espanta.

[…]

Dá atenção a tudo o que vês hoje


pois, se foges ao tempo, Eterno foge.

[…]

Onde nasce esse eterno por que lido?


Onde tu de ti próprio andas perdido.

[…]

Tão nobre sou que posso em terra ser


imperador ou rei; Deus, se quiser.

[…]

Nem chuva ou sol o são só para si,


dos outros deves ser, não só de ti.

[…]

Nunca entrarás no céu, daqui cativo,


se dentro em ti não fores tu céu vivo.

[…]

92

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

Se, na vida, tu foges ao inferno,


sem dúvida o terás na morte, eterno.

[…]

Já chega de leitura, se mais quer,


só se em si próprio escrita o ser lhe fere.

Nota final

Resumo, por enquanto: Ao que eu entendo,


só Deus existe. O resto é Ele sendo.

– Angélico Silésio, Versos seus que, pelo Nada e Tudo, adoram Deus – Poetas
de Fora em Linguagem de Dentro, tradução de Agostinho da Silva [1992].

Corre nas taças de ouro o rubro vinho


quando chega a menina de quinze anos,
um cavalo fogoso é o que monta.
Marca-lhe as sobrancelhas firme negro
e são as botas de cetim vermelho.
Ainda não acerta nas palavras,
mas canta bem melhor que rouxinol.
Vem a festa animada, vem a moça,
e moça se aconchega nos meus braços.
Olha, aqui estão cortinas cor de hibisco:
que vamos nós fazer por detrás delas?

[…]

Os montes de Esmeralda já descemos


e é só a Lua a nossa companheira.
Quando olhamos atrás, os arvoredos
nos fazem horizonte de verdura.

93

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agostinho da silva – uma antologia

Damos as mãos e quando lá chegamos


nos abrem as crianças nossa porta.
Dão os bambus a sombra da vereda
e roçam trepadeiras nossa roupa.
Na harmonia de paz e de sossego
os nossos versos lemos e bebemos
vinho que nos é dádiva dos deuses
e até cantamos “Vento dos Pinhais”.
O tempo passa calmo, se olha o céu,
pálida vai ficando a Via Láctea.
Embriaguez nos toma, mas libertos
do mundo das ciladas nós estamos,
aquele mundo que dos homens vê.

Sou pessegueiro em flor e estou num poço,


Para que posso olhar, a quem sorrir?
És a Lua brilhando em firmamento,
pouco tempo tiveste para mim
e depois para sempre te afastaste.
Nem lâmina mais fina poderá
cortar ao meio as águas que são rio;
assim meu pensamento, como as águas,
atrás de ti correndo sempre irá.

[…]

Subiu uma águia cada vez mais alto


e descobriu voando toda a terra.
Mas de repente, mesmo a meio do céu,
se lhe quebrou o voo, asas cansadas
em queda se debatem, já caiu.
Mas o vento que as asas despertaram
continua voando além dos anos.

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

Amigo, não recuses mais o vinho.


Vento de Primavera nos sorri,
pessegueiros, ameixieiras, para nós,
seus velhos conhecidos já se enfloram,
cantam os rouxinóis em verdes copas,
banha o luar as taças que são ouro.
Os jovens de ontem, de rosado rosto,
hoje são velhos de cabelo branco.
Silvas invadem as mansões reais,
veados pastam nos terraços nobres.
Há poeira e poeira atrás das portas
que foram de palácios soberanos.
Porquê não se beber este licor?
Onde é que paira agora o que houve de homens?

Sou o homem daquele lótus verde,


o letrado que vistes solitário,
decerto um imortal em seu desterro,
há uns trinta anos bem famoso até
em todas as tabernas do país.
A que vêm perguntas, comandante?
Sou só, reencarnado, um velho buda,
aquele buda das migalhas de ouro.

[…]

“Envelheçamos juntos” me disseste


“com cabelos de neve e de luar”.
Agora outra mulher contigo está,
eu estou longe, triste e magoada.
Enche a taça de vinho, última vez,
e brinda ao esquecer-se, entoa o canto
da avezinha que morre sobre a neve.
Irei em minha barca pelo rio,

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agostinho da silva – uma antologia

pelas águas barrentas, até ele


se dividir em dois, lados opostos.
Menina apaixonada, por que choras?
Acaso encontrarás homem leal
capaz de te dizer, sem que se esqueça,
“Envelheçamos juntos”? Nunca mais.

– Li Bai, Uns Versos de meu Sonho Embriagado, “Lhos pôs como aqui vão
o Agostinho”, Poetas de Fora em Linguagem de Dentro [1992], in “Li Bai e
Lao Tse (traduções inéditas de Agostinho da Silva)”, edição e a­ presentação
de Manuel Pina, Revista Internacional de Língua Portuguesa (Lisboa,
Novembro de 1994), pp. 271 e 274-276.

Estrada Real das Estradas, se te quero prender já não és tu,


e nome algum te será, no jamais dos jamais, adequado.

Enquanto não tens nome, representas, ó Estrada, o começo do mundo,


e logo que tens nome, ó Estrada, constituis toda a matriz dos seres.

No que não és tomamos teu segredo e te trilhamos toda,


e pelo que já és, ó Estrada Real, nós te iremos trilhando.
O Ser e o Não Ser saem de um fundo só,
e só nomes, ó nomes, um do outro os distinguem,
e no fundo, no fundo, Escuridão lhe chamamos.

E quando à Escuridão mais escura a tornamos,


é que abrimos as portas, Estrada, aos Espantos totais.

ii

Não é que toda a gente considera que o belo é o belo,


quando é nisto mesmo que consiste ser ele feio?
Não é que toda a gente considera que o bem é o bem,
quando é nisto mesmo que consiste ser ele mau?

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

Porque ser e não ser se engendram um ao outro,


porque fácil e difícil se completam um ao outro,
porque curto e comprido se formam um pelo outro,
porque a voz e o som se acordam um com o outro,
porque antes e depois se seguem um ao outro.

Daí o viandante ajuizado


seguir o método de não agir
e o de ensinar sem dizer palavra,
surgindo tudo à sua volta
sem que lhe seja autor.
Sem que lhe seja autor.

Do que produz não se apropria


e do que faz não espera nada,
trabalho pronto jamais o prende;
porque o não prende eterno fica.

iii

A quem merece não dá glória


para que o povo não discuta;
nem aprecia o que é tesouro
para que o povo o não dispute;
nem vai expor o que outro inveja
para que a alma se lhe não turve.

Se tem juízo, quem governa o povo


lhe aligeira o pensar
e lhe aumenta o comer,
lhe enfraquece o desejo
e lhe dá força aos ossos.
Que teu povo, viandante ajuizado,
não inche de saber nem de querer,

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agostinho da silva – uma antologia

e que intelectuais se não metam na acção.


Pratica o que não faças,
tudo em ordem estará.

[…]

lxxxi

As palavras verdadeiras
raras vezes são de agrado,
as palavras agradáveis
raras vezes são verdade.
Honesto não fala à toa,
fala à toa o desonesto.
Inteligência não é
o mesmo que erudição,
como erudição não é
o mesmo que inteligência.

O justo evita juntar,


entregando se enriquece;
depois de ter dado tudo
é mais rico do que dantes.

A Estrada Real do céu


dá favor sem prejuízo;
age a virtude do justo
sem reclamar coisa alguma.

– Lao Tse, Ideia do Tao Te King ou Guia da Estrada Real para o viajan-
te ajuizado sendo a substância de Lao Tse e o tempero de Agostinho, in “Li
Bai e Lao Tse (traduções inéditas de Agostinho da Silva)”, edição e apre-
sentação de Manuel Pina, Revista Internacional de Língua Portuguesa
(Lisboa, Novembro de 1994), pp. 276-278 e 317.

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

Ó deusa veneranda, te apieda


deste filho e do pai, pois tudo podes,
já que não foi em vão que te deu Hécate
ser senhora dos bosques dos Avernos,
se é verdade que pôde Orfeu chamar
os Manes de uma esposa por encantos
das harmonias duma trácia cítara,
e se também pôde Pólux ao morrer
resgatar seu irmão, se tanta vez
pôde ele refazer este caminho.
E que direi de Alcides e Teseu
eu que venho de Jove, o Soberano?”.
Estava ele esta prece formulando
com sua mão pousada sobre altar
quando a sacerdotisa assim falou:
“Herói nascido de divino sangue,
filho de Anquises e troiano inteiro,
fácil é o descer para o Averno,
porque a sombria porta que é de Dite
patente se encontra ela dia e noite,
mas o que custa mais é o regresso,
o tornar a ser livre a todo o vento,
pois aqui é preciso todo o esforço.
Bem poucos o fizeram, foram homens
que Júpiter amou ou, por virtude,
até ao céu levou, ou que dizemos
dos deuses terem sido puros filhos.
Aqui há tudo à morte impenetrado
e Cocito o rodeia em negras voltas.
Mas se em teu peito tens um tal ardor,
um tal desejo de, por duas vezes,
cruzar as mortas águas duma Estige,
de duas vezes ver sombrio Tártaro,
de te esgotar um insensato esforço,

99

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agostinho da silva – uma antologia

tens de saber primeiro o que fazer.


Em árvore, em ramos bem difíceis
de serem desviados, há um deles,
de brando caule e de folhagem de ouro
o consagrado à Juno dos Infernos.
Bosque inteiro o defende,
sombra oculta no mais cavado dos escuros vales.
Mas a ninguém é dado aproximar-se
do mistério que é terra por debaixo
antes de ter tirado desse ramo
pequeno enxerto de cabelos de ouro
que decidiu Prosérpina seu fosse,
é presente que tem de lhe ser dado.
Arrancado o raminho, nasce um outro
que é igualmente de ouro e que não deixa
de brotar novamente com folhagem
que é do mesmo metal. Busca-o pois,
trabalhem os teus olhos, quando o vires
com tua mão o colhe, ritual.
Deixará docilmente que assim faças
se os destinos te forem favoráveis,
pois que, se assim não for, não poderás
alcançar com esforço o que pretendes,
mesmo que duro ferro tu empregues.
Depois, se o corpo de um dos teus amigos
repousa já sem vida e com a morte
a tua frota infecta enquanto estás
em nossos limiares a consultas,
leva o primeiro ao pouso que convém,
ao túmulo em que tens de o encerrar,
depois traz ao altar ovelhas negras
te purifica com o sacrifício.
Só assim tu verás bosques de Estige,
o reino que não se abre a quem é vivo”.

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o poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor

Seus lábios se fecharam e se cala.


Eneias, de olhos baixos, com tristeza,
começa logo a andar e deixa a gruta,
mas em seu coração tudo revê
deste misterioso acontecer.

– Virgílio, Eneida, in Obras de Virgílio. Bucólicas. Geórgicas. Eneida,


­tradução do latim de Agostinho da Silva, pp. 285-287.

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6. ANTROPOLOGIA, ÉTICA E EDUCAÇÃO. A SANTIDADE

Fundado numa concepção do ser humano seja como Deus em potência, seja
como Deus em devir existencial ou Deus sendo, não separando do Infinito o
íntimo de cada ser humano e não lhe conferindo assim limites, Agostinho exorta
a uma ética da assunção dessa superior possibilidade de realizar e transcender
todo o possível, de realizar sobretudo o “impossível”, como o valor e fim supremo
a consumar ou manifestar em vida, traduzido num pôr-se ao serviço da pro-
moção do mesmo fim em todos os homens, sem esquecer o cuidar o bem de todos
os seres vivos e da própria Terra como integrantes dessa suprema realização. A
ética do descentramento amoroso culmina numa visão da santidade como o
supremo direito e dever de todos os humanos, onde o pleno cumprimento de si
é, como veremos no capítulo dedicado à religião e à mística, a divinização. A
esta luz procede a uma crítica radical das finalidades pedagógicas dominantes,
tendentes a sacrificar a ampla curiosidade e inventividade do espírito infantil
ao especialismo e à funcionalização do adulto, em obediência às necessidades
sócio-político-económicas de uma civilização divorciada do divino e da natu-
reza, propondo-lhes como alternativa uma educação inspirada pelo modelo
evangélico da criança, enquanto categoria psicobiológica, mas acima de tudo
símbolo da inocência, disponibilidade e criatividade sempre latentes em todo o
ser humano. Agostinho propõe uma educação não das crianças para se tornarem
adultos, mas das crianças para preservarem as suas melhores qualidades e dos
adultos para reassumirem as qualidades da criança entretanto em si sepulta ou
encoberta pela necessidade de lutar pela vida, aprendendo assim a respeitá-las e
preservá-las nos mais pequenos.

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agostinho da silva – uma antologia

Crítico dos pressupostos e práticas da pedagogia dominante, Agostinho foi sempre


um educador que estudou e praticou modelos alternativos, destacando-se a prodi-
giosa actividade de divulgação cultural na qual, aproximadamente entre 1937 e
1947, após a sua demissão do ensino público – por se haver recusado a assinar uma
declaração de compromisso ideológico, exigido a todos os funcionários públicos pelo
Estado Novo, acto heróico e quase isolado (só acompanhado por um outro funcioná-
rio e um protesto de Fernando Pessoa) que foi e é, só por si, um exemplo ético impe-
recível –, constituiu e estendeu por todo o país, mediante publicações e palestras, um
verdadeiro sistema de educação popular paralelo, destinado a fornecer informação
fundamental e crítica aos que não tinham possibilidade de aceder ao ensino superior.
Ensino superior onde se destacou, no Brasil, como fundador de várias universidades
e centros de estudos, primando sempre pela transmissão não convencional de um
saber tendente menos à erudição especializada do que à realização integral do ser.

“(...) a amizade pela árvore, pelo riacho, pelo animal livre é indispensá-
vel para a formação de um ser humano que pretendemos amplo e nobre”
– O Método Montessori (1939), in Textos Pedagógicos I, p. 232.

A noção de que se fez um sacrifício depõe mal a favor da perfeição


espiritual de quem o praticou – “Da vida filosófica”, Considerações [1944],
in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 96.

O desprender-se da segurança e da comodidade, o mergulhar na incer-


teza e na dura restrição só para continuar fiel às bases em que assentou o
pensamento e se quis fundamentar toda a vida é já a certeza, para aquele que
verdadeiramente serve o espírito, de que segue o bom caminho, de que a sua
posição adversa à grande massa é ainda aristocrática, isolada, como é preciso
que seja – “Aspecto interior do sacrifício”, Considerações [1944], in Textos e
Ensaios Filosóficos I, p. 97.

Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua


norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a
sua profissão […].

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antropologia, ética e educação. a santidade

A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o cami-


nho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos
destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia
dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto,
paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará
melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere;
mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala
– “Aspecto interior do sacrifício”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios
Filosóficos I, pp. 103-104.

Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que
os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos
os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais
absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se
ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos
irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém
terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos,
pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desa-
pareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais
belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum
desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e
canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra
que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o
interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor – eis
todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e
o amor do próximo.
Para que me fique inteira esta figura do professor hei-de juntar-lhe uma
curiosidade universal, uma helénica elasticidade e juventude espiritual: não
o quero especialista, porque a sua missão não está em transmitir uma ciên-
cia; […] Há-de pois ter o espírito aberto a todas as correntes, nau pronta a
sulcar todos os mares; mais do que a ninguém compete-lhe ter uma ideia
do mundo tão perfeita quanto possível; como o havemos de imaginar com-
pletamente ignorante neste ou naquele domínio? Esta exigência lhe assegura
uma vida de trabalho, horas todas ocupadas e férteis e contínuos projectos;

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agostinho da silva – uma antologia

por consequência a mocidade, o entusiasmo e a alegria que requer a missão


pedagógica – “Projecto de um mestre”, Considerações [1944], in Textos e
Ensaios Filosóficos I, pp. 104-105.

Todo o ambiente é favorável ao forte; de um modo ou de outro ele o ajuda


a cumprir a missão que se impôs e a conseguir ir porventura mais além das
barreiras marcadas. A derrota deve mais atribuir-se à invalidez do impulso
interior do que aos obstáculos que lhe ponham diante, mais à alma incapaz de
se bater com vigor e tenazmente do que às resistências, às invejas e às dificul-
dades que o mundo possa levantar perante Hércules que luta – “Em louvor
do contrário”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 111.

O mal que se vê é aguilhão para o bem que se deseja – “Em louvor do


contrário”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 111.

Mais custa quebrar rocha do que escavar a terra; mais sólido, porém, o edifí-
cio que nela se firmou. A grandeza da obra é quase sempre devida à dificuldade
que se encontra nos meios a empregar, à indiferença que cerra os ouvidos do
povo, e aos mil braços que logo se levantam para deter o arquitecto – “Em lou-
vor do contrário”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 112.

Não te poderás considerar um verdadeiro intelectual se não puseres a


tua vida ao serviço da justiça; e sobretudo se te não guardares cuidadosa-
mente do erro em que se cai no vulgo: o de a confundir com a vingança. A
justiça há-de ser para nós amparo criador, consolação e aproveitamento das
forças que andam desviadas; há-de ter por princípio e por fim o desejo de
uma Humanidade melhor; há-de ser forte e criadora; no seu grau mais alto
não a distinguiremos do amor – “Pelos vencidos”, Considerações [1944], in
Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 112.

A pior traição que podemos cometer perante o moço que se aproxima


para que lhe digamos a Verdade é ocultar-lhe que para nós essa verdade se
encontra tão longínqua e velada como a ele se apresenta – “Quanto aos
noviços”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 113.

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antropologia, ética e educação. a santidade

Não te deixes derrubar pela insignificância dos pequenos movimentos e


serás homem para os grandes; se jamais te faltar a coragem para afrontar os
dias em que nada se passa, poderás sem receio esperar os tempos em que o
mundo se vira – “Dos dias monótonos”, Considerações [1944], in Textos e
Ensaios Filosóficos I, p. 113.

Reservemos para nós a tarefa de compreender e unir; busquemos em


cada homem e em cada povo e em cada crença não o que nela existe de
adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e
de abordável, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda
a nossa energia em estabelecer um mútuo entendimento; ponhamos de
lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a
nossa simpatia.
Reflictamos em que são diferentes os caminhos que toma cada um para
seguir em busca da verdade, em que muitas vezes só um antagonismo de
nomes esconde um acordo real. […]
Não os queremos trazer ao nosso grémio nem ingressar no deles; ape-
nas desejamos que da melhor compreensão entre uns e outros, do conhe-
cimento das essências, se erga a morada de um Pai que não distingue
entre os eleitos e a todos por igual protege e incita; cada um ficará em
sua lei; só pretendemos que não tome os de leis diferentes por implacá-
veis inimigos ou por almas perversas e perdidas; são homens como nós e
vão-se dirigindo ao mesmo fim; desde já os vejamos como futuros com-
panheiros – “Por um fim de batalha”, Considerações [1944], in Textos e
Ensaios Filosóficos I, p. 117.

A primeira condição para libertar os outros é libertar-se a si próprio;


quem apareça manchado de superstição ou de fanatismo ou incapaz de
separar e distinguir ou dominado por sentimentos e impulsos, não o toma-
rei eu como guia do povo; antes de tudo uma clara inteligência, eterna-
mente crítica, senhora do mundo e destruidora das esfinges; […]
Hei-de vê-lo depois despido de egoísmos, atento somente aos motivos
gerais; o seu bem será sempre o bem alheio; terá como inferior o que se
deleita na alegria pessoal e não põe sobre tudo o serviço dos outros; à sua

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agostinho da silva – uma antologia

felicidade nada falta senão a felicidade de todos; esquecido de si, batalhará,


enquanto lhe restar um alento, para destruir a ignorância e a miséria que
impedem seus irmãos de percorrer a ampla estrada em que ele marcha.
Nenhuma vontade de domínio; mandar é do mundo de aparências,
tornar melhor de um sólido universo de verdades; […]
Será grato aos contrários, mesmo aos que vêm armados da calúnia e da
injúria; compassivo da inferioridade que demonstram fará tudo que puder
para que melhorem e se elevem; responderá à mentira com a verdade e ao
ódio com o bem; tenazmente se recusará a entrar nos caminhos tortuosos,
se o conseguirem abater, tocará com humildade a terra a que o lançaram,
­descobrirá sempre que do seu lado esteve o erro e de novo terá forças para a
luta; e se o aplaudirem pense logo que houve um erro também – “Quanto aos
noviços”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 119-120.

Creio que uma das atitudes fundamentais do homem humano deve ser a
de reconhecer em si, numa falta de compreensão ou numa falta de acção, a
origem das deficiências que nota no ambiente em que vive; só começamos,
na verdade, a melhorar quando deixamos de nos queixar dos outros para
nos queixarmos de nós, quando nos resolvemos a fornecer nós mesmos ao
mundo o que nos parece faltar-lhe; numa palavra, quando passamos de
uma atitude de pessimista censura a uma atitude de criação optimista, opti-
mista não quanto ao estado presente, mas quanto aos resultados ­futuros –
“Revolta”, Glossas [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 58-59.

[…] quem se encontrou na terra com algum espírito tem o dever de o


usar e tanto melhor exercerá a sua missão quanto mais d
­ esinteressadamente
o fizer; toda a grande obra supõe um sacrifício; e no próprio sacrifício se
encontra a mais bela e a mais valiosa das recompensas – “Revolta”, Glossas
[1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 60.

Acha você que temos de estabelecer distinções entre os momentos graves


e os não graves da vida? Será, por exemplo, mais grave casar-se do que entrar
no eléctrico? […] Todos os nossos actos podem ser igualmente graves e só
porque são actos: tudo é consequência de tudo, nenhum elemento se perde

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antropologia, ética e educação. a santidade

nesta máquina do mundo; tudo o que façamos se reflecte no que vem, é já


mesmo o que vem. Como havemos de dizer que tal acção é grave, séria, que
outra o não é? – Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios
Filosóficos I, p. 243.

Já você outro dia se revoltou perante o meu prazer de embarcar, embar-


car sempre, acreditando cada vez menos nos portos de chegada; […]
continuo […] a ter como mais firme dentro em mim a aspiração de que
um atinja o heroísmo de me atirar a todas as batalhas em que não haja
esperança de vitória. […] Não me tentam nada as estradas que vão de um
ponto a outro, de que sabemos, à partida, a quilometragem e a direcção;
tentam-me as estradas que não vão dar a nenhum ponto. […]
[…] embarcar num navio que nunca chegará, rumar por mapa e bússola
ou goniómetro para o porto que não existe – Sete Cartas a um Jovem Filósofo
[1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 246-247.

Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe


disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; […] Os meus conse-
lhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da
oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento
lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim;
porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me
anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem – Sete
Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 248.

[…] mesmo quem não vale nada vale muito – Sete Cartas a um Jovem
Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 260.

Todo o mestre […] quer seus discípulos iguais a ele; mesmo quando pare-
ce dar-lhes a maior liberdade. […] Claro está que Deus é o grande mestre:
chove sobre o justo e o injusto. Mas nos mestres da Terra, se os não ­alargarmos
às proporções divinas, isto é, se os não fazemos desaparecer, há sempre uma
semente de tirania. Se sou mestre, não posso fugir à fatalidade – Sete Cartas a
um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 248.

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agostinho da silva – uma antologia

É o insatisfeito, como era natural, que junta alguma coisa à realidade;


desde que o homem se encontre bem na vida a força que o levava a criar,
seja qual for o domínio, afrouxa e estanca. […] à vida venturosa poucos ou
ninguém resiste. É mais fácil resistir à desgraça – Sete Cartas a um Jovem
Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 264.

Quanto mais o Luís se sentir só, melhor irá; mas há duas espécies de
solidão: uma, que vem de não acompanharmos os outros, outra que vem
de não nos acompanharem eles, a segunda é que vale: esteja sempre com
os homens e faça o possível porque eles não estejam consigo – Sete Cartas a
um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 267.

[…] nada é pequeno, se o levantarmos, utilizando toda a nossa altura,


e toda a nossa força, se o levantarmos acima de nós, o mais que pudermos,
até quase não suportarmos as dores nos músculos – Sete Cartas a um Jovem
Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 267.

Estou a exigir muito de si? Quem lhe há-de exigir muito senão os seus
amigos? Eles receberam o encargo de o não deixar amolecer e, pela minha
parte, tenha você a certeza de que o hei-de cumprir. Você há-de dar tudo o
que puder, e mesmo, e sobretudo, o que não puder; porque só há homem,
quando se faz o impossível; o possível todos os bichos fazem. Quando você
saltar e saltar bem, eu direi sempre: agora mais alto! Que me importa que
você caia. Os fracos vieram só para cair, mas os fortes vieram para esse
tremendo exercício: cair e levantar-se; sorrindo – Sete Cartas a um Jovem
Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 268.

[referindo-se à revolução industrial inglesa] De então para diante em


nada mais se mudou, na grande massa de educação, senão nas técnicas
de fabricar adultos pelo assassínio das crianças; a humanidade de jeito
ocidental pratica em grande escala o infanticídio de espírito, apenas o
punindo quando é físico porque isso lhe rouba definitivamente a matéria
prima do adulto. Aquelas crianças que várias vezes Fernando Pessoa apon-
tou como a melhor coisa que há no mundo, aquele Menino eternamente

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antropologia, ética e educação. a santidade

criança e humano que era para Alberto Caeiro o Deus verdadeiro e supre-
mo que faltava no universo, a essas diariamente as sacrificam as nos-
sas escolas, diariamente as crucificam, diariamente as imolam nas aras
da Eficiência” – Um Fernando Pessoa [1959], in Ensaios sobre Cultura e
Literatura Portuguesa e Brasileira I, p. 115.

As qualidades infantis, que se deveriam conservar até à morte como


qualidades distintivamente humanas, as da imaginação, em vez do saber,
do jogo, em vez do trabalho, da totalidade, em vez da separação; são essas
e não as outras as que têm demonstrado os grandes criadores de ciência, os
grandes artistas, ou os grandes políticos: por isso os perseguimos quando
vivos e os aproveitamos, porque já eficientes, quando seguramente mortos.
Não haverá salvação para o mundo enquanto não entendermos e fizermos
penetrar em nossas consciências este facto basilar, e enquanto as nossas
escolas, transformando-se inteiramente, não forem, em lugar de máquinas
de fabricar adultos, viveiros de conservar crianças; enquanto não forem
as crianças que nos levem, não pelo caminho que uma ciência fáustica
previu, mas pelo que houver, dando a mão, ao mesmo tempo, a nós e às
coisas: enquanto não for o Menino Jesus nosso Deus verdadeiro – Um
Fernando Pessoa [1959], in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e
Brasileira I, pp. 115-116.

(...) cultura, para o indivíduo, é, na sua melhor expressão, despir-se


do acidental para que apenas brilhe a partícula de eterna chama que lhe
coube revelar aos homens (...) – “Condições e Missão da Comunidade
Luso-Brasileira” (1959), in Presença de Agostinho da Silva no Brasil, p. 120.

O terem sido criados à imagem e semelhança de Deus os faz compa-


rar-se não com Ele, mas com o ser vivo que se lhes segue na escala. Não
encetam por essa reflexão o caminho que lhes permitiria superar-se: dele
se afastam, porque vão apenas afirmar uma superioridade própria sobre o
bicho, e, indo além do que lhes ordena a necessidade histórica, se julgam
no pleno direito de o escravizar e utilizar a seu belo prazer – “Semelhança
de Deus”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 26.

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agostinho da silva – uma antologia

[…] um progresso. Mas em que sentido um progresso? No único senti-


do em que a palavra pode ser tomada, quando se trata da aventura humana:
no sentido de que se pretende para o homem cada vez maior liberdade para
poder ser o que é na essência; por outras palavras, cada vez mais direito de
cumprir o que é seu dever, seu único dever; repetindo o que disse já, tanta
vez, e direi sempre: o dever de ser santo – “Teocracia”, As Aproximações
[1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 29.

Temos santos entre nós e não os conhecemos porque nos atrapalha o


participarem eles tão intimamente da nossa vida e, sobretudo, o tão frequen-
temente nos utilizarmos nós deles para a nossa vida, mas, se assim não fosse,
já teríamos nós dado há muito tempo a mulheres e crianças o lugar que ver-
dadeiramente merecem; e já teríamos entendido por que motivo tão facil-
mente Jesus se comovia ante a sua fragilidade e a sua miséria – “Alicerces da
Paz”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 42.

Não creio que se possa definir o homem como um animal cuja caracterís-
tica ou cujo último fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja
essencial o viver alegre. O que é próprio do homem na sua forma mais alta
é superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou
não ser feliz e ver até o que pode vir do obstáculo exactamente como melhor
meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combinações
seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si próprio, como infe-
liz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria que se
não quebra, daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto
existe, a amar todos os homens apesar do que possa combater, e é mais difícil
amar no combate do que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem
de Deus a atitude de obediência ou melhor, de disponibilidade, de quem
finalmente entendeu as estruturas da vida – “Cruz, Política e Dinheiro”,
As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 42-43.

[…] só se deve desejar a alguém que se cumpra: e o cumprir-se inclui a


desgraça e a sua superação – “Cruz, Política e Dinheiro”, As Aproximações
[1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, 1999, p. 43.

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antropologia, ética e educação. a santidade

[…] escusamos de supor que teremos alguma espécie de salvação


enquanto formos tristes, isto é, enquanto supusermos que consiste a ale-
gria, à fácil maneira americana, em tirar retratos rindo; ser alegre consiste,
pelo contrário, em não ter medo de retratos sério: em não ter medo de estar
só – “Imperfeição do Renascimento”, As Aproximações [1960], in Textos e
Ensaios Filosóficos II, p. 58.

[…] a acção só vale quando é feita como um exercício, e um exercício


com amor, quando é feita como uma ascese, e uma ascese por amor de
que se liberte o Deus que em nós reside. E se a acção implica amargura, o
que há a fazer é mudar de campo: porque não é a acção que estará errada,
mas nós próprios – “Fadiga Política”, As Aproximações [1960], in Textos e
Ensaios Filosóficos II, p. 63.

Creio que chegámos ao ponto essencial: o grande homem só será verda-


deiramente grande, se, a par do génio criador e a par do amor dos homens,
tiver a amplidão de alma necessária para não ter como seu modelo e seu
mestre nenhum outro grande homem, nenhuma figura meio sobrenatural,
mas esta criatura paciente, persistente e acima de tudo humilde, e de muito
bom amor, que é o jumento […] – “Fadiga Política”, As Aproximações
[1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 63.

[…] não deve estar nem fora de nossas cogitações nem fora de nossas
ambições a da santidade para todos: mais difícil porque, se para ser médi-
co, engenheiro ou professor, é necessário ter em vista o próprio objec-
tivo, para se ser santo deverá ser uma das condições o não ter objectivo
algum – “Sobre Vocação”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios
Filosóficos I, p. 75.

[…] não andamos muito deserdados, não obstante as aparências, da


vocação do que está para além do profissional ou do criador, da voca-
ção de Santo: da vocação de imoto contemplador e adorador de imoto
Deus – “Sobre Vocação”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 78.

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agostinho da silva – uma antologia

Quanto a nós mesmos, nenhuma vida tem qualquer significado ou


qualquer valor se não for uma contínua batalha contra o que nos afasta
da perfeição que é nosso único dever. Tão estranha e maravilhosamente
somos compostos de eternidade e de tempo que, sendo a nossa única e
real vocação a de ser santos, a cada passo nos estamos especializando, nos
estamos deixando arrastar e prender por todos os outros fragmentos de
vocação ou por todo o passageiro chamamento que por acaso ouvimos.
E este é nosso primeiro ponto de combate: o de não deixarmos que o
que é puramente temporal tome em nossas vidas o lugar que se deve ao
eterno – “Ritmos de Marcha”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 82.

Aquilo que distingue realmente uma criança de todo o resto que é vivo
no Universo é a capacidade enorme de sua absorção no jogo. A capacida-
de enorme de imaginar que as coisas efectivamente estão surgindo como
ao toque mágico de uma vara de fada e fazer que perante isso o tempo
não exista. O milagre que uma criança faz quotidianamente no mundo
é aquele milagre de conseguir que o tempo desapareça de sua vida na
realidade. Aquela historieta que se conta do monge da Idade Média que
esteve trezentos anos ouvindo um rouxinol cantar e teve por aí a ideia
do que deve ser a eternidade, esse milagre de monge medieval é repetido
­realmente pela criança todos os dias quando brinca. Tempo para ela desa-
parece, e é o adulto que vem impor-lhe normas de tempo; o adulto existe
no mundo da criança para interromper a cada momento a história do
monge e do rouxinol – Baden Powell, Pedagogia e Personalidade [1961], in
Textos Pedagógicos II, p. 24.

Não há hoje nenhum mestre, por mais abnegado que seja, […] que se
despoje ou pense sequer em despojar-se tão inteiramente de sua personali-
dade, que condescenda em transformar-se, ele adulto, em criança, em lugar
de levar a criança a transformar-se em adulto. E esta passagem da criança
a adulto, este assassínio, que todos os anos cometemos aos milhares, de
transformar crianças em adultos tem sido sem dúvida um dos episódios
mais terríveis de toda a dolorosa marcha que principiou com a expulsão

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antropologia, ética e educação. a santidade

do Paraíso. No fundo, para termos homens eficientes, matamos crianças;


crianças que são, como Jesus perfeitamente o viu, os únicos sinais que do
céu nos restam para a vida quotidiana.
Estas duas atitudes opostas, a de imitação do adulto e a de imitação da
criança, põem naturalmente como resultante dois tipos opostos de escola: a
escola do Estado que forma cidadãos, cidadãos-soldados, para a guerra ou
para a paz, e a escola da Igreja que devia formar santos, santos para o céu
e santos para a terra. Embora possam conviver, só deixará de haver guerra
quando a escola da igreja vencer a escola do Estado, isto é, quando se vier a
reconhecer que, para o homem, é muito mais importante ser santo que cida-
dão; quando à palavra de César se antepuser, e neste ponto como em muitos
outros, a palavra de Cristo; quando, cumprindo-se a oração dominical, a
ordem que no céu reina igualmente dominar no mundo – “Cristianismo
e Escola”, Só Ajustamentos [1962], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 113.

Se podemos ver igrejas e estados como directamente dependentes d ­ estas


separações do homem, como seus símbolos e como seus agravadores,
teremos logo de lhes juntar o elemento de que se servem para manter as
circunstâncias de que nasceram, incutindo a ideia de que essas circunstân-
cias são a verdadeira natureza e que a sua conservação garante a sobrevi-
vência dos homens e do mundo. A escola tem-lhes sido sempre invenção
modelada à vontade e tão fiel servidora que possivelmente não poderiam
sobreviver sem ela e com ela terão que desaparecer. Sua primeira caracterís-
tica é a de separar a criança do adulto; nos povos que encontramos ainda
mais perto da natureza e que a civilização destrói, ou por uma fatalidade
intrínseca ou para que mais facilmente se lhe aceitem as teses de que o
verdadeiro homem é aquele que todos conhecemos, o dos exércitos, o das
hierarquias eclesiásticas, o das caixas económicas, o dos quintais guardados
por cachorros, o menino se educa, se faz homem ao contacto dos adultos,
participando de toda a sua vida, sem nenhuma ideia de inferioridade e sem
nenhuma violência. Quando a separação se instala, quando se cria planta ou
animal para devorar, quando se caça ou pesca, quando se constrói a p­ rimeira
casa, quando se entretece o primeiro cesto para guardar alimento, o
que se deveria pôr como origem do sistema bancário, com seu empréstimo a

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agostinho da silva – uma antologia

juros e tudo o resto, logo a escola surge, com a sua filosofia basilar, a de
que é o menino que se deve guiar pelo adulto e não o adulto que se deve
educar pela criança, conforme inutilmente, e sobretudo a cristãos, o tentou
fazer entender Cristo; com a sua trindade de processos, o de colocar a
escola em lugar segregado, o de encarregar um especialista, geralmente o
que não sabe fazer mais nada, de ensinar o que o grupo acha desejável, e o
de não soltar ninguém sem um exame que é sempre de suficiência em todos
os sentidos da palavra; com, finalmente, a sua preparação do menino para
que seja como todos os adultos e entre na vida com todas as ferocidades que
eles adquiriram. Todas as nossas escolas são escolas de guerra, pelo recru-
tamento, porque só queremos os mais aptos ou aqueles que julgamos mais
aptos, pela disciplina do curso e do comportamento, e pelo nosso objectivo
de, no final dos estudos, os repartirmos por armas; poderíamos ingenua-
mente supor que pelo menos se salvariam os que vão por aquilo a que
chamamos humanidades; que esses seriam apenas humanos, nada mais;
longe disso, porém: cabe-lhes o pior da guerra e da matança; em geral o
ensino os tenta: acabam professores; e a razão é sempre a mesma: não
sabendo fazer, ensinam a fazer – “Ecúmena” [1964], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, pp. 200-201.

Todas as reformas de ensino vão sempre naturalmente no sentido de


tornar escola mais eficiente, não no sentido de a eliminar; no sentido de
mostrar às crianças toda a majestade de saber do adulto, em lugar de lhes
descobrir o quanto eles ignoram; no sentido de lhes incutir no ânimo que é
sempre o adulto que têm de imitar, nunca no sentido de solicitar que ensi-
nem elas ao adulto como pode ele restabelecer a aliança quebrada; aquele
reatar de unidade que realmente justificaria danças diante de arcas que
jamais viriam a dar de si os cofres e as caixas-fortes. Aperfeiçoam-se cadei-
ras e carteiras com o mesmo sentido de comodidade e de eficiência com
que se aperfeiçoam as coronhas das armas de fogo; mesmo quando os livros
parecem feitos para incitar a que se pense são eles apenas endereçados a que
o pensar melhor resulte em maior eficiência, exactamente com as mesmas
intenções com que se ensinam a recrutas as trajectórias parabólicas; e as
variações que se fazem nos métodos e processos nunca vão ao essencial de

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antropologia, ética e educação. a santidade

cessar a guerra que, com a escola, fazemos à criança: são sempre variações
de ordem unida e de táctica. As escolas realmente novas, as de um Tolstoi,
as de um Sanderson, as de um Washburne, as de um Ligthart, as de um
Faria de Vasconcelos, as de uma Armanda Alberto são apenas relâmpa-
gos de esperança, logo abafados pelas realidades dos sistemas económicos,
capitalistas ou socialistas, que ambos são de separação e de guerra; dos sis-
temas políticos, uni ou pluri-partidários, que todos eles se alicerçam sobre
multidões de reduzida capacidade de invenção, de limitado espírito crítico
e de pouca fé em que lhes possa o futuro trazer idades de ouro que crêem
apenas invenções de poetas, e já se sabe, pela fábula, escolar, económica,
governamental e conciliar, da formiga e da cigarra, que poetas são animais
preguiçosos, imprevidentes e desprezíveis; finalmente das religiões insti-
tuídas e convencionais para as quais valem pouco os corpos místicos e o
muito dos muitos os materiais. São escolas de visionários, de anarquistas e
de loucos: escolas em que a iniciativa é da criança, a que o adulto assiste e
em que aprende, ou reaprende a ter imaginação, a criticar, a se integrar no
jogo como num trabalho ou no trabalho como num jogo, a sonhar consi-
derando o sonho actividade necessária e legítima, numa palavra a ter todas
as qualidades que perturbariam a calculada e, o que supõem, segura vida
dos desembargos do paço ou dos presídios supremos – “Ecúmena” [1964],
in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 202-203.

No essencial as escolas actuais não são diferentes da escola romana,


como esta não era diferente, senão nas matérias ensinadas, de qualquer
sistema educativo dos povos mais primitivos; escola é um lugar para onde
menino é levado de modo a que se separe de adulto na sua vida total, e
este é o primeiro defeito; consiste o segundo em que lha dão um mestre,
geralmente especializado em educar porque não sabia fazer mais nada; e
apontaremos como terceiro que se trata na escola não de deixar que o
homem se desenvolva na sua plenitude, mas de o levar a que sirva com
utilidade, e sobretudo com respeito, os que, já eles, se não desenvolveram.
Escolas, num resumo, são escolas de guerra, para este simulacro de paz em
que todos andamos. – “Notas para uma posição ideológica e pragmática da
Universidade de Brasília” (1964-1965), in Dispersos, p. 241.

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agostinho da silva – uma antologia

(...) tivemos até hoje só duas expressões de verdadeiro ensino superior.


Uma foi com os gregos, tinha por instalação mercados e ginásios, tinha
por alunos voluntários e tinha por mestres aventureiros de espírito, e às
vezes de corpo. Tornou inteligível e defendeu aquilo de que o mundo mais
precisava para se organizar, a ideia geral, e à volta dela construiu o excelente
instrumento de compreensão prática e de acção que tem sido a filosofia.
Acabou, não quando se fechou uma escola em Atenas, mas quando os
que possuíam a ideia geral, e não eram ao mesmo tempo cépticos, e só aí
estaria a salvação, tiveram tentações de governo, ou nele se instalaram, ou
à sombra dele viveram. Governo é muito bom para impor uma ideia geral;
mas bem ruim para que ele frutifique.
Tivemos a segunda Universidade quando se resolveu igualmente tornar
prática, inteligível e defensável, a corrente de fraternidade lançada pelo
Cristo, com uma base digamos material, lendo um caridosamente para
outros, e explicando-o, o livro que viera a possuir, e com base racional de
demonstrar que, apesar de tudo, não era inteiramente estúpido tentar ser
bom. Mas esta Universidade fechou também: fechou na altura em que a
imprensa se tornou prática e barata e o analfabetismo se perseguiu como se
fosse uma doença, quando pode, por exemplo, ser uma teoria da cultura;
lente, que significa, paradoxalmente, o que lê, ficou sobrando, e a frequên-
cia obrigatória é sua última tentativa de salvar-se. Mas fechou ainda muito
mais seguramente quando a instauração do capitalismo veio mostrar que
ser bom é que é irracional; mas, como, por outro lado, capitalismo deu
progresso técnico e progresso técnico acabará por libertar os homens da
escravidão económica, dando-lhes tempo e ânimo para que se deleitem
com os lírios dos vales e os pássaros do céu, o que há hoje de cristão nas
Universidades é exactamente o que delas pusemos fora por motivos teóri-
cos, as tais agronomias, engenharias ou farmácias.
Se as duas Universidades anteriores foram precursoras, cada uma em
seu campo, talvez convenha pensar as que hoje se criem como devendo
igualmente abrir caminho. Mentalmente, talhámos o mundo com os
gregos, e, talhando-o, o limitámos, acho eu, ao que nos é útil para a
acção; moralmente, o talhámos com o cristianismo, mas aí veio a pie-
dade e um mais agudo sentimento de nossos desterros, e novamente

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antropologia, ética e educação. a santidade

limitámos as nossas forças. Agora, porém, não se vê donde venha o obs-


táculo: estamos livres para criar, porque nem precisamos das filosofias
estreitas, e estreitas por filosofias, que eram base de acção e só admitiam
o mítico quando em desespero de meios; nem precisamos igualmente de
amar o nosso semelhante tanto quanto a nós mesmos; talvez nem preci-
semos de nos amar a nós mesmos; talvez baste amar a fantasia, o que é
porventura amar o essencial de Deus. A universidade do futuro não vai
ser de políticos, nem de fraternos lentes; vai ser de criadores; sem peia
alguma, nem do compreender nem do amor. – “Notas para uma posição
ideológica e pragmática da Universidade de Brasília” (1964-1965), in
Dispersos, pp. 242-243.

Creio, primeiro, que o mundo em nada nos melhora, que nascemos


estrelas de ímpar brilho, o que quer dizer, por um lado, que nada na vida
vale o que somos, por outro lado que homem algum pode substituir a
outro homem. Penso, portanto, que a natureza é bela na medida em que
reflecte a nossa beleza, que o amor que temos pelos outros é o amor que
temos pelo que neles de nós se reflecte, como o ódio que lhes sintamos é
o desagrado por nossas próprias deficiências, e que afinal Deus é grande
na medida em que somos grandes nós mesmos: o tempo que vivemos, se
for mesquinho, amesquinha o eterno. E penso, quanto à segunda parte,
que todo o homem é diferente de mim, e único no Universo; que não sou
eu, por conseguinte, que tem de reflectir por ele, não sou eu quem sabe o
que é melhor para ele, não sou eu quem tem de lhe traçar o caminho; com
ele só tenho o direito, que é ao mesmo tempo um dever: o de o ajudar a
ser ele próprio; como o dever essencial que tenho comigo é o de ser o que
sou, por muito incómodo que tal seja, e tem sido, para mim mesmo e
para os outros. Quanto aos outros, até, e sobretudo, no amor se tem de ter
cuidado; gostar dos outros e lhes querer bem tem sido o motivo de muita
opressão e de muita morte dos espíritos que vinham para viver; é esta uma
das boas intenções de que mais está cheio o inferno; não tens essencial-
mente de amar nos outros senão a liberdade, a deles e a tua; têm, pelo
amor, de deixar de ser escravos, como temos nós, pelo amor, de d ­ eixar de
sermos donos do escravo.

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agostinho da silva – uma antologia

Ora o que a vida tem feito dos homens tomados no seu conjunto, e
fora o reduzido exemplo de algum grupo que mais conseguiu furtar-se
a exigências sociais, tendo sido pervertê-los, aguçando-os para a batalha,
pondo-lhes a concorrência como uma virtude e o triunfo sobre os outros
como uma marca de especial favor de Deus; tem ajudado muita gente a
prelibar prazeres do céu o ir supondo desde agora que há contemporâneos
seus já votados aos tratos dos diabos. A ideia do bom selvagem, corrompido
depois, que veio para a Europa com os índios brasileiros, ajudou a fazer a
Revolução Francesa, teve em seguida crédito antropológico e hoje é menos
querida dos homens da ciência, que tem de se pôr de novo como um
conceito positivo, mas abandonando a suposição de que pode ser melhor
do que a nossa qualquer sociedade que já tenha uma economia organizada
para a produção, e que veja, portanto, o homem, não como um ser natu-
ral, mas como um produtor; que já tenha uma escola funcionando para a
transmissão de segurança do grupo; que já tenha um sistema de magias e
ritos que a livre de terrores.
Nenhum adulto foi bom em tempo algum, com excepção dos santos, os
quais, qualquer que fosse a religião que os santificou, concordaram todos
com as palavras evangélicas em que se aponta a criança como paradigma
de homem e fizeram todo o possível pelo regresso à infância; o que dá
poderoso significado, e não já como sobrevivência do passado, mas como
prenúncio de futuro, àquela antiga festa portuguesa, hoje das llhas e Brasil,
em que o povo, mais sábio que os doutores, coroa uma criança Imperador
do Mundo. E é à criança que temos de considerar o bom selvagem,
­estragando-a, d­ eformando-a, inutilizando-a o menos que nos seja possível,
defendendo o seu tesouro de sonho, jogo e criação, a sua ­espontaneidade
e a sua malícia sem maldade, o seu entendimento sem análise e o seu amar
do mundo sem a preocupação das sínteses; e foi afinal desta criança feita
Deus, ou Deus se revelando, para um novo Evangelho, que nos falou
Alberto Caeiro, o poeta que se afirmou no que toca aos jeitos de viver, o
mais português de todos os poetas portugueses.
Acreditando, pois, que o homem nasce bom, o que significa para mim
que nasce irmão do mundo, não seu dono e destruidor, penso que a edu-
cação, em todos os seus níveis, formas e processos não tem sido mais que o

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antropologia, ética e educação. a santidade

sistema pelo qual esta fraternidade se transforma em domínio. Não tendo,


por outra parte, certeza alguma de que tenha havido a evolução de que toda
a gente fala como de uma absoluta verdade científica, não porei que foi ao
passar de um estádio animal a uma forma reconhecidamente humana que
o homem iniciou a sua guerra para submeter à sua vontade as forças físicas
e assegurar assim a sua sobrevivência; direi apenas que o homem, tal como
o conhecemos, se fez rei do mundo e irá até onde quiser pela força da sua
inteligência, a persistência no querer e a piedade nenhuma pelo que possa
vir a opor-se; todos os fracos, do grupo ou não, serão esmagados, e, sabedo-
res disto, todos nós, pelos tempos fora, temos querido que a escola, escola
chinesa ou escola alemã, escola chamada progressiva ou escola retrógrada,
seja fundamentalmente uma fábrica de fortes. Fortes para a invenção na
indústria e a concorrência no comércio; fortes para as filosofias que nos des-
cansam sobre os mistérios do Universo e permitem agir com a consciência
em tranquilidade, pelo menos tranquilidade relativa, pelo menos tranquili-
dade de uso social; fortes para as defesas enérgicas e sem muitas perguntas
perturbantes quando alguém nos ameaça na nossa segurança; fortes para
abrirmos caminho, fortes, e aí vem a palavra final, para vencermos na vida.
O grave de tudo isto é que nos lembramos sempre da criança que fomos
e que por nossas mãos matamos, às vezes nos consolando com a ideia de que
eram as mãos dos outros que estavam apertando as nossas para o estrangula-
mento, mas sentindo bem que o vencer na vida significa afinal o ter vencido
a vida; que o nosso império se construiu sobre mortos e que realmente
somos todos nós um Infante D. Henrique que ao irmão atraiçoa para que
Ceuta não caia; e Ceuta, afinal, caiu; ou não teve ainda, pelo menos, destino
que se visse. Estaremos todos, no mundo inteiro, tomando Ceuta e conser-
vando Ceuta, sem vitória final que lhe dêmos? De tal modo nos terá domi-
nado o nosso sistema de educação que nunca mais criança alguma nascerá
para ser livre na plena liberdade do mundo? Terá o feitiço tomado conta do
feiticeiro e cada vez aperfeiçoaremos mais os nossos sistemas pedagógicos
apenas para que cada vez seja maior a nossa eficiência na batalha da vida, ou
na batalha em que transformamos a vida? Nenhum dos melhores acreditou
jamais em que tal se desse; fé e esperança se têm unido para assegurar que
para além de todas as violências, porventura necessárias para que o grupo

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agostinho da silva – uma antologia

humano se organizasse, o tempo virá de caridade, entendendo-se caridade


não como aquele suplemento de humilhação que se leva aos que caíram
na luta, mas como o amor irrestrito que, embora consciente dos defeitos
do amado, o ama sem pensar em saldo positivo ou negativo – Educação de
Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, pp. 90-93.

No futuro que chega e se adiantará na medida em que o quisermos nós


todos e o incorporarmos desde já à nossa existência, dentro de todas as
limitações e sofrendo de todos os embates das ordens que estão condenadas
a desaparecer, mas que, agonizando, ferem, a educação não poderá ser mais
do que o fornecer a cada um tudo o que solicite para que a sua pessoa se
possa desenvolver e afirmar; repetindo a afirmação de que se nasce bom
e capaz de tudo o que signifique amor pela vida – até que dois versos se
tornem realidade e se transforme o amador na coisa amada e todos achem
que é sempre curta a vida para o longo amor que, livre, em nós, já livres,
arderá –, a educação não terá nenhuma outra tarefa senão a de deixar que
a bondade inicial esplenda e seja. Resumindo, diria pensar que a natureza
humana, mais do que boa, é excelente; que a sociedade, e nela a educação,
ajudando o homem a sobreviver, o tem limitado, e muito, no melhor, que
é o seu ser livre; mas que o pior passou e que todo o sofrimento e toda a
treva serão apenas pesadelos finalmente em paz e luz desfeitos – Educação
de Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, pp. 93-94

A primeira tarefa essencial que existe para todos os portugueses não é a


da política; ela seguirá, pelo menos nos próximos tempos, rumos em que
pouco poderemos influir, tanto da parte de quem governa ou de algum
modo detém poder como do lado de quem dele está excluído; ou se exclui,
o grande trabalho, o tal imenso desafio que se nos apresenta é o de educar
o povo, insistindo em que educar não é levar ninguém a ser isto ou aquilo,
não é tentar influir de qualquer modo em sua orientação futura, mas dar
meios de expressão à sua capacidade criadora e de comunicação, quer ela
se exerça lendo e escrevendo quer manualmente num ofício, e sem que se
separe uma actividade da outra – Educação de Portugal [1970], in Textos
Pedagógicos II, p. 117.

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antropologia, ética e educação. a santidade

[...] bem longe estaremos de qualquer resultado positivo se o povo,


ao mesmo tempo que se educa, isto é, [...] ganha meios de expressão, se
deseduca por maquiavelismos ou silêncios do jogo político, pelos interesses
a curto prazo de uma economia de exploração ou por lhe porem como
ideal não ser o que é, mas o modelo estrangeiro e adverso que pareceu mais
desejável aos poderosos de momento – Educação de Portugal [1970], in
Textos Pedagógicos II, pp. 119-120.

[...] livro só serve como relatório do que outro viu e nos pode ser
útil, ou como arquivo de perguntas; se toda a escola devia ter uma
biblioteca do que já se sabe, devia ser-lhe paralela outra, ainda mais
fecunda, a do que não se sabe – Educação de Portugal [1970], in Textos
Pedagógicos II, p. 138.

Creio que deveríamos continuar a considerar, como texto fundamen-


tal, o de que foi o homem criado por Deus à sua imagem e semelhança,
entendendo-se claramente que, ao contrário do que se não deveria supor
e se tem suposto, não significa ele que seja Deus um homem, só que
maior e mais poderoso, mas sim que é o homem um Deus; Deus ainda
não realizado e em acto, mas um Deus sempre em potência; um Deus
cuja divindade consistiria essencialmente como que no direito e no dever
de ser Deus, como que num perpétuo encaminhar-se para o formular de
uma lei que só tivesse uma intenção e um artigo; o de que é sua única
obrigação a de se não regular por mais norma nenhuma que não seja a da
mais absoluta liberdade – “Teologia Humana” [1970], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 231.

[…] uma boa definição de homem, para além de suas limitações físicas,
seria a de que é um ser de embrionária liberdade, cujo dever, cujo destino e
cuja justificação é o da liberdade plena; plena para ele, plena para os outros,
plena para os animais, plena para ervas, plena talvez até para seixo e mon-
tanha – “Nota a Cinco Fascículos” [1970], in Textos e Ensaios Filosóficos II,
pp. 262-263.

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agostinho da silva – uma antologia

(...) bom seria que sumisse logo a diferença, hoje tão diária, entre gente
e intelectual; ou professor; que em geral só ensina o que sabe, não o que é;
por mim o digo. – “Quando há no mundo crise...” (1971), in Ensaios sobre
Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II, p. 171.

[…] sou […] obrigado a dizer, para que me não julguem humanista,
ou da espécie do Renascimento ou de outra mais moderna, a daqueles que
tanta fé têm no real que acham que só existe o que vêem, palpam, sentem,
que para mim o homem não acaba no homem: é apenas o mais perfeito
sinal que existe na criação do que a ela transcende; devemos, portanto, ter
como nossa obrigação principal dar ao homem tudo de que ele necessita, de
material e de espiritual, para que através do homem seja nítida a m ­ ensagem
e possamos claramente entender o que tão escondido tem andado. Nada,
pois, de nos preocuparmos com o tal transcendente, seja qual for o nome
que lhe dêmos, até que se tenha o homem libertado de todas as gangas que
o têm envolvido, e de tal modo que revolução do Paleolítico, revolução do
Neolítico, Revolução Industrial e a actual, maior, nossa revolução técnica,
pouco sejam perante a revolução que há a realizar nos domínios da liber-
dade material, da liberdade de saber e da liberdade de criar – “Quando não
há, el-rei o perde” [1972], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 287.

Pois vamos agora ao nosso problema de escolas e de pedagogias. Só


existem umas e outras porque a luta pela sobrevivência económica e a
deficiência de metafísica deseducaram a Humanidade e afinal fizeram de
cada pai e cada mãe seres pouco aptos a educar seus filhos e os filhos dos
outros; houve como que um comum instinto de salvação e se apartaram
as crianças dos adultos, confiaram-se as crianças a educadores, para que
se transmitisse o melhor do que se ia conseguindo e também persistisse
em cada educando, e aí as coisas foram sempre mais difíceis, o desejo de
melhorar o que havia, Como não há educação geral, el-rei [o homem] o
perde e vai à escola. Mas tudo está mudando: […] pois também está a
educação ultrapassando a escola, reclamando a formação permanente dos
adultos para que possa cada um educar e fazendo apelo para que todos
sejam mestres ao mesmo tempo que alunos. Tem de ser o Universo inteiro

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antropologia, ética e educação. a santidade

a grande, limpa e abundante mesa a que nos temos de sentar todos para
comer, para comungar, isto é, comunicar e ter consciência de que fazemos
parte do comum, e para, conversando, nos conhecermos, em perfeição a
nós, aos outros e ao mundo, que é isso, ao que me parece, o que é educa-
ção e escola – “Quando não há, el-rei o perde” [1972], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, pp. 288-289.

E agora vamos lutar contra os dragões. O primeiro é o ideal de um pro-


duto bruto nacional sempre crescente e um sempre mais elevado nível de
vida material. Neguemos tal ideal. O que queremos é que o produto nacio-
nal seja distribuído com justiça, isto é, com amor, e que a qualidade do
nível de vida seja elevada. Como indivíduos podemos escolher ser pobres
(não miseráveis, com certeza) e recusarmo-nos a comprar, passando para
os outros o que é demasiado para nós. Empresas e governos querem que
sejamos ricos e tenhamos coisas. Sejamos pobres e sejamos coisas – repito,
ser coisas, não ter coisas.
O segundo dragão é a informação, desde a bisbilhotice e a escola até à
imprensa e à televisão. O modo de lutar é dizer a verdade, e somente a ver-
dade, cada vez e em cada coisa, e estarmos prontos a informar quem quer
ser informado. Noutras palavras, devemos ser professores de todos que
queiram aprender e nunca deixarmos que a nossa inquiridora, ansiosa em
aprender e crítica mente adormeça, nunca apoiar erros e mentiras, nunca
ficar passiva em confronto com agressões contra a nossa inteligência, o
nosso poder de julgar e comparar e o nosso poder criativo. Podemos fazer
isto como indivíduos, como pontos com alma.
E eis que chega o terceiro dragão, o pior deles todos – a nossa tendên-
cia de pertencer a grupos, de ter um partido político ou uma igreja que
pense por nós, de consultar ou seguir professores e gurus, numa palavra,
de engolir a vida como criança chupa o leite do biberão. Na realidade nós
somos piores, porque no nosso caso o leite já está digerido. Está alerta em
relação à dinâmica dos grupos e de invenções skinnerianas similares. Tu
podes, com certeza, conviver com os outros, mas nunca seres os outros.
Eles podem ser muito bons, mas tu és sempre melhor porque és diferente
e o único com as tuas características.

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agostinho da silva – uma antologia

Podes, e deves, ter ideias políticas, mas, por favor, as tuas ideias políticas,
não as ideias do teu partido; o teu comportamento, não o comportamento
dos teus líderes; os interesses de toda a Humanidade, não os interesses de
uma parte dela. E lembra-te que «parte» é a etimologia de «partido».
O mesmo se aplica às igrejas, se tens uma religião que não é a princi-
pal religião para mais ninguém, como um objecto é principal para todas
as palavras que ela possa significar em todas as nossas linguagens. Está de
sobreaviso em relação a gurus e outros líderes carismáticos. A atracção
­pessoal é o seu esconderijo e nada pode ser pior do que ela para a liberdade
de actuar e pensar. Se possuis ou estás possuído, então estás perdido. Neste
caso só o amor te poderá salvar. E amor é raro, raro e frágil, frágil e rápido –
“Três dragões” [1973], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 293-294.

Quando se reconhecer o destino de santidade de todos os homens, em


todos saudaremos o sinal de que são criadores e de todos esperaremos que um
mundo novo nasça com o seu nascer, sem que circunstância alguma os impeça
de cumprir a missão que trouxeram, em toda a criança veneraremos a promes-
sa de redenção do mundo, grade alguma poremos ao que não entendermos,
não negaremos alimento algum a nenhum corpo e, no que o anima, nos cur-
varemos ao sopro que, soberano, de quem quer vem e vai aonde quer e como
quer – “Voltas a mote alheio” [1973], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 303.

Na produção animal, deve escolher-se a fonte de proteína que seja ao


mesmo tempo a mais barata e a mais adequada a cada Povo, i­nsistindo-se,
porém, sempre, no consumo da proteína vegetal equiparável: animal está
no mundo para ser nosso companheiro, não nosso escravo e vítima –
“Proposição” (1974), in Dispersos, p. 623.

[…] do que caracteriza homem como homem: a luta de Jacob com o


anjo, o dever essencial de tentar igualar Deus, quer o haja, quer o imagine-
mos, pondo até como inferior o de ser santo, sendo os santos de hoje, ou
os artistas, ou os sábios, simples esboços ou larvas do que amanhã poderá
ser o homem – Pensamento em Farmácia de Província, 1 [1977], in Textos e
Ensaios Filosóficos II, p. 353.

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antropologia, ética e educação. a santidade

Diríamos, voltando ao princípio, que não somos muito diferentes do


que Pessoa foi, descontado o nível, e que só pela pressão das circunstâncias
ambientes ou por comodidade nossa nos não distendemos aos vários que
somos, exactamente como ele o fez. Contra o que somos ou fomos ou for-
mos, como fenómeno ou heterónimo – e uma teologia mais ousada a tudo
poderia dar como heterónimo de Deus, e dele só de heterónimos sabemos e
sobre eles escrevemos a nossa física ou a nossa psicologia, podemos cometer
muitos pecados que a tudo nos será dada vénia, por muito demorada que
seja. Mas ao que vai contra o constante imprevisível que em nós demora,
desse não haverá saída, nem com o pior dos infernos, já que como poderia
haver inferno que apagasse a tentativa de destruir uma partícula de Deus
que simultâneo relampeja na centelha e a toda ela e a tudo o mais excede?
Pecado esse a que, como sabeis, e sem especificar, se chama, de comum, o
pecado contra o Espírito Santo, já que é esta a pessoa do Trino Deus que,
imprevisível, aonde quer levanta voo. Esse não o cometeu Pessoa: preferiu
morrer. E assim como, desdobrando-se, nos deu exemplo de como devería-
mos viver, assim, morrendo, nos incitou a que nos recusemos ao essencial
suicídio de, em nós e por nós, destruirmos a Vida. Se quiserem, que nos
suicidem os outros, como fizeram a Sócrates ou a Antero, e nos seja amparo
no passo o pairante, compreensivo olhar de Caeiro e nos leve ele ao Sonho
na companhia do Menino e pelo concreto do mundo: no fim de contas não
matarão em nós senão um heterónimo – “Do previsível e do imprevisível”
[1981], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 381.

Luís Machado – (...) estrangulamos toda a autenticidade...

Agostinho da Silva – Às vezes, ouvia contar uma história sobre umas


índias na Bolívia, acho que era na Bolívia, que não gostavam do feitio
da cabeça com que lhes nasciam os filhos. Então, punham-lhes umas
talas, para eles terem uma cabeça “apresentável” em sociedade, e só quan-
do a cabeça se aproximava do formato de um cubo, então é que as mães
­bolivianas ficavam satisfeitas.
Hoje, as pessoas dizem: oh!, felizmente acabaram essas brutalidades,
acabou essa porcaria toda! Mas na verdade não acabou, porque, hoje,

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agostinho da silva – uma antologia

quando uma pessoa faz um curso e consegue alcançar o doutoramento,


em geral sai de lá com a cabeça cúbica. – A Última Conversa. Entrevista de
Luís Machado (1993), p. 101.

(sobre as crianças) (...) o que eu acho graça é ao universo extraordinário


que elas inventam, sobretudo antes de irem para a escola. Depois, as únicas
coisas que têm engraçadas é quando realmente fogem da pedagogia. Porque só
visto assim é que elas são extraordinárias. Quando se procura nelas a poesia, e
não outra coisa qualquer, são realmente uma gente extraordinária. Já viu o que
elas inventam, as perguntas que fazem, o modo como atrapalham toda a gente
grande... – A Última Conversa. Entrevista de Luís Machado (1993), p. 103.

De todos os seres que existem é o homem o mais complexo; por outro


lado, é o mais próximo de Deus como ser pensante; mas Deus, porque é o
Ser, é o mais simples dos seres; o mais complexo é, no mundo, a imagem
e semelhança do mais simples – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 145.

Todo o esforço de manter a personalidade impede o vir a tê-la –


Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 145.

Onde estariam meu bem e meu mal se não existisse eu; e o absoluto que
seria se não houvesse o relativo que sou eu – Pensamento à Solta, in Textos
e Ensaios Filosóficos II, p. 155.

Se não apontares ao impossível te sairá baixo o tiro ao possível –


Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 158.

Todo o homem é filho de Deus; poucos, porém, se arriscam a prová-lo –


Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 158.

Para o homem existe apenas uma obrigação: a de atingir a plenitude de


Deus. E só por um meio o alcançar: o de, ao longo da vida, se tornar no
homem que é – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 162.

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antropologia, ética e educação. a santidade

Se te não decidires a resolver tudo acabarás por não resolver nada –


Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 165.

A publicidade é uma fábrica de perfeitos fregueses, ávidos e estúpidos; a


educação, que lhe é paralela, fabrica cidadãos servis e crentes – Pensamento
à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 169.

Procura considerares-te inexistente e assim, ao contrário do que pensava


Nietzsche, nunca serás, com teu interesse e serviço dos outros, um despreza-
dor tirano de ti próprio. Procura realizar-te nos outros, em todos os outros,
e só assim serás totalmente vário, como deves, em honra do Espírito que
em ti habita – Cortina 1.

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7. SER, CONHECER, AGIR, CRIAR, AMAR.
POESIA, FILOSOFIA E CIÊNCIA

Pensador à margem da tradição académica dos professores de filosofia e


dos filósofos profissionais, conversador, ensaísta e provocador de ideias, acções e
vidas mais do que doutrinador, Agostinho reassume porventura a tradição ori-
ginária da própria filosofia em que esta é inseparável da vida, na sua dimen-
são comunitária, prática e dialogante ou, como gostava de dizer, recorrendo
à expressão do Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza, “conversável”.
Preferindo à filosofia, como mero sistema teórico, a sabedoria popular e a sabe-
doria divinamente infusa, ciente dos limites do próprio pensar e colhendo o
que encontra no cristianismo de superior à tradição helénica, considera que a
suprema actividade humana, no limiar divina, é sempre o amor, o qual supera
as possíveis mediações que são filosofia, ciência, arte e política na experiência
imediata dessa unidade inefável em que fulgura a Verdade oculta a toda a dua-
lidade e antinomia conceptual, a começar pela que se estabelece, em todas as
restantes dimensões da experiência humana, entre sujeito e objecto. Um amor
omnicompreensivo e unitivo que, sendo místico, no sentido de conduzir à fusão
com o fundo último e inexprimível do real, não deixa de ser criador, pois
consubstancial ao Infinito agostiniano, simultaneamente humano e divino, no
qual Deus e as mentes co-inventam a cada instante a si e ao mundo. Pensar
é assim, em Agostinho, sempre inseparável do exercício desse amor poético que
não objectiva o real num sistema de representações, mas antes o transfigura e
recria numa ordem superior de possibilidades.

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agostinho da silva – uma antologia

[…] não seria mau que […] a filosofia deixasse de ser apenas uma disci-
plina ensinável para voltar a constituir um engrandecimento e uma razão de
vida; correria talvez melhor o mundo se escolas de existência filosófica agis-
sem como um fermento, fossem a guarda da pura ideia, dessem um exemplo
de ascetismo, de tenacidade na calma recusa da boa posição, de alegria na
pobreza, de sempre desperta actividade no ataque de todas as atitudes e dou-
trinas que significassem diminuição do espírito, ao mesmo tempo se recu-
sando a exercer todo o domínio que não viesse da adesão – “Aspecto interior
do sacrifício”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 94.

Demarcar os caminhos da razão, sem olhar às aplicações nem ao tempo,


é verdadeira ciência; servir-se dos resultados do pensamento puro para comodi-
dade da vida ou para os interesses de momento entra já nos domínios da técnica
[…] – “Ciência”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 120.

O Estrangeiro – […] todos os homens procuram a felicidade; eu pro-


curo a verdade, Diotima, ainda que ela me faça o mais infeliz de todos os
homens, ainda que a posse da verdade me impossibilite a vida – Conversação
com Diotima [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 129.

Se a beleza se contém no amante e não no objecto amado, o verdadei-


ro amante amará o belo e o feio, sem que os possa distinguir; creio até,
Diotima, que é no amor do que aos olhos vulgares aparece repugnante e
doloroso que se afirma a alma do verdadeiro amante – Conversação com
Diotima [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 131.

O Estrangeiro – […] muito mais me deleita, Diotima, a imaginação,


o poder criador, a perfeita compreensão com que se podem exprimir as
correntes do mundo e penetrar, pela variedade, aos pontos fundamentais
a que não chega a rigidez do político ou do filósofo – Conversação com
Diotima [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 140

O Estrangeiro – Queria que nunca te esquecesses, Diotima, de que não


estamos, como os filósofos, a desvendar os segredos do mundo e de que não

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ser, conhecer, agir, criar, amar. poesia, filosofia e ciência

veio aqui nenhum de nós, senhor de uma doutrina, convencer o outro de


que ela é a única verdadeira. Nós estamos apenas a imaginar uma possível
explicação do mundo e, por mim, tomá-la-ei apenas como um poema, belo
em si; verdadeiro, quem o sabe? – Conversação com Diotima [1944], in Textos
e Ensaios Filosóficos I, p. 149.

O Estrangeiro – Disse-te que buscava a verdade, mesmo com o risco de


não poder ser feliz; para te falar com mais segurança, essa busca da verdade
é apenas a procura de um quadro em que eu possa fazer vibrar o meu amor,
sem que o venha perturbar qualquer falta de lógica.
[…]
O perfeito amor exige a vigorosa inteligência – Conversação com Diotima
[1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 163.

O Estrangeiro – A Grécia, que me encanta, tem todas as qualidades


[…], mas falta-lhe talvez a do Amor.
[…]
Não falei, Diotima, de pensamentos sobre o amor, nem do amor das
ideias, nem do amor da beleza que a ela se dirige pondo de lado a fealdade.
Falo do outro amor, capaz de sacrificar todas as possibilidades de quem o
sente, para que o inferior não fique na sua inferioridade. […] e se um dia
surge na terra o amor em que penso – o amor que morrerá pelos escravos,
pelos humildes, pelos vagabundos que não têm onde recostar a cabeça, o
amor que se sacrifica por aqueles que parecem não ter mérito algum, então
[…] a vida seguirá rumos que hoje nos parecem totalmente fechados –
Conversação com Diotima [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 167.

O Estrangeiro – […] eu não sou um filósofo. […] Não, Diotima, sou


um poeta: mais imagino a vida que a explico…
[…] Todo o poeta é um actor e nem eu próprio sei realmente se o que
ouviste é de mim ou de uma das minhas personagens. Existo eu próprio
fora delas, nitidamente separado de cada uma das minhas criações? […]
Não tens que me considerar a mim mas ao estrangeiro que falou: com ele
conversaste, não comigo. E talvez que de novo, Diotima, ele volte um dia

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agostinho da silva – uma antologia

ao teu santuário e tenha outro poema que responda melhor à nova inquieta-
ção da tua alma: a inquietação, em ti, da grande alma divina – Conversação
com Diotima [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 169-170.

Para o que ama a Verdade não há descanso nem termo, porque a vê no


próprio caminhar, a surpreende no esforço contínuo da marcha; o amor da
Verdade não é um desejo de chegar, mas o anseio de superar. Não me importa o
resultado, mas o método – Glossas [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 37.

Você tenciona […] ser um filósofo, não no sentido de que exporá dou-
trinas alheias ou construirá uma sua doutrina e se dará satisfeito com tudo
isso, mas no sentido de que tentará pôr a sua vida de acordo com a sua filo-
sofia, à maneira de certos gregos e de quase todos os hindus – Sete Cartas a
um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 232.

Quem fala de Amor não ama verdadeiramente: talvez deseje, talvez pos-
sua, talvez esteja realizando uma óptima obra literária, mas realmente não
ama; só a conquista do vulgar é pelo vulgar apregoado aos quatro ventos;
quando se ama, em silêncio se ama: às vezes o sabe a mulher amada, mas
creio até que num amor que fosse pleno, em que nada entrasse das preocu-
pações da terra, nem ela o saberia – Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945],
in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 239-240.

Não é quando se está em transe de amor, o único momento em que


verdadeiramente se ama, que se escreve ou se compõe ou se pinta: é depois,
quando o amor se abateu, quando reina o artista, […] e há do amor apenas
a lembrança, quase uma reminiscência platónica, no sentido de que foi uma
experiência que nos excedeu e de que só poderemos recordar fragmentos e
talvez o que menos valha – Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos
e Ensaios Filosóficos I, p. 240.

O verdadeiro Amor é talvez impessoal: enquanto há um objectivo bem


definido, bem claro aos nossos olhos, não amamos – Sete Cartas a um Jovem
Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 240.

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ser, conhecer, agir, criar, amar. poesia, filosofia e ciência

[…] está convencido de que a inteligência do homem pode penetrar o


universo, de que há uma coincidência entre a razão e a ordem do mundo.
Creio que você, de facto, está talhado para a filosofia e para a espécie mais
curiosa de filosofia, a dos sistemas, já tem um dogma, o da razão; depressa
adquirirá os que lhe faltam – Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in
Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 242.

O verdadeiro Amor é talvez impessoal: enquanto há um objectivo bem


definido, bem claro aos nossos olhos, não amamos – Sete Cartas a um Jovem
Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 240.

Em todo o grande homem há como que um resumo da Humanidade


[…]: o grande homem reúne em si o feminino e o masculino; o amor
de um grande entra na teoria de Aristófanes: é o encontro de uma das
suas metades – Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios
Filosóficos I, p. 251.

Apaixona-se o fraco, o forte cria. Quando se ama, inventa-se inteiro o


objecto amado […]. – Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e
Ensaios Filosóficos I, p. 257.

Se você algum dia sentir com o amor, no sentido de prisão por alguma
coisa ou alguém, esse receio do grande artista e esse desejo de que não fosse, de
que não tivesse sucedido a você o que lhe parece ser ou um dom imerecido da
vida ou uma exigência a que as suas forças nunca poderão corresponder, então
pode estar certo de que Deus o visitou e terá atingido alguma coisa de bem
mais alto e bem mais belo do que essa pobre filosofia; é possível até que essa
sua filosofia como esta minha física sejam apenas substitutos do amor para
pessoas fracas; deram-nos alteres de menor peso porque não nos viram com
bons músculos. É uma pena que tenhamos de sentir este desprezo por nós
próprios, mas que havemos nós de fazer se em lugar de amarmos nos entrete-
mos pacificamente, com a paz dos miseráveis, a comentar Kant – e sem saber
se o percebemos – ou a estudar Einstein – e sem saber se o percebemos? – Sete
Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 258.

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agostinho da silva – uma antologia

[…] que filosofias pitorescas são essas que pretendem explicar o mundo
e têm de bulhar? Uma filosofia, ao que eu entendo, tem de ser uma explica-
ção total do universo: porque não inclui então aquele que nos aprece como
adversário? […] Dirá você que uma concepção dessas, em que todos os
contrários se harmonizam, só é possível em Deus. Vamos então nós desistir
de chegar a Deus? Essa, para mim, é que é a grande tarefa filosófica, como
é a grande tarefa da arte, da ciência, da religião e da sociologia ou, melhor,
da política. Do amor também: do amor sempre, porque, se é verdadeiro,
ele supera a ciência e a arte, a filosofia e a política – Sete Cartas a um Jovem
Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 262.

Se uma luz de caridade não brilha em si, para que lhe serve viver? Um
filósofo mais? Outro filósofo para cair nos poços, outro filósofo para que
acertemos os nossos relógios, outro filósofo que beba pacatamente cerveja
e diga mal da vida? Acho que não vale a pena. Ou você vem a casar a filoso-
fia com Jesus, ou então pode retirar-se, porque o mundo dispensa-o – Sete
Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 263.

No seu ponto mais alto, a filosofia é uma criação perfeitamente similar


à criação artística ou religiosa ou amorosa; quem não tem nervos de artista,
força de imaginação e […] uma vida rica pode ser professor de Filosofia,
mas duvido que chegue alguma vez aos planos em que vale realmente
a pena ser filósofo – Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e
Ensaios Filosóficos I, p. 264.

O que lhe convém a você, se não vai ser professor de Filosofia, é a agita-
ção, o tormento, as dificuldades de todas as espécies, a luta interior e exterior,
e, no fim, um obstáculo insuperável, uma boa derrota; sob o ponto de vista
estético o que interessa é não se ter conseguido o que se queria e a vibração da
beleza vale mais para os homens, até em sectores que nada parecem ter com
a beleza, do que as vibrações da vitória. Só os maus romances, as más peças,
as más fitas de cinema, têm bons fins. Por que motivo os havemos de desejar
para as nossas vidas? Querido amigo Luís, oxalá você falhe – Sete Cartas a um
Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 264-265.

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ser, conhecer, agir, criar, amar. poesia, filosofia e ciência

A dor só é realmente fecunda quando a amamos, quando a vemos como


indispensável à escultura que se está fazendo na nossa alma. Há-de haver,
para que as obras nasçam, o sentimento doloroso, como o teria qualquer
homem, e a gratidão pelos destinos que o concederam a nós, pobres e humil-
des, o amor pelos golpes que nos desfere, o que inclui naturalmente a com-
preensão, e o amor também, daqueles de que o destino se serve para despedir
as grandes marteladas que vão forjando o metal. O criador é uma espécie de
monstro em que há o homem e o outro; quem desanima, quem se abate,
quem chora é o homem: o outro, se é grande, até os desprezos utiliza. O
essencial é que o homem nunca traia o artista, que a troco de uma felicidade
que tanta gente tem se perca a obra que ninguém mais poderia realizar – Sete
Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 266.

Só sabemos, seguramente, de uma amizade ou de um amor: o que


temos pelos outros. De que os outros nos amem nunca poderemos estar
certos. E é por isso talvez que a grande amizade e o grande amor são aque-
les que dão sem pedir, que fazem e não esperam ser feitos; que são sempre
voz activa, não passiva – Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e
Ensaios Filosóficos I, p. 267.

Se precisamos neste momento mais do que tudo de uma filosofia, se a


nossa carência essencial não é a de soluções sociais, que já estão lançadas e se
realizarão por nossa vontade ou contra nossa vontade, ou a de soluções téc-
nicas cujo curso poderíamos dizer fatal, mas de uma solução de pensamento
integral, isto é, de uma metafísica, é quase certo, qualquer que seja a forma
por que venha a ser exposta, que apresentará as duas características basilares
de todas as grandes metafísicas que têm surgido no mundo, mormente
daquelas que surgiram salvando-o, nos momentos de crise mais grave: será
uma metafísica perfeitamente racional e lógica e, se quisermos ­exprimir-nos
assim, civil e laica na sua estruturação, no seu desenvolvimento, no que
apresentar de diálogo, de convivência ou de implicação científica; mas,
no surto inicial, na inspiração mais íntima, e, também, nas suas últimas
conclusões, a sua natureza será de carácter religioso, numa solidariedade
profunda com o universo, vendo-o como existência espiritual e como capaz

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agostinho da silva – uma antologia

de se concentrar, intemporal e inespacial, num princípio divino, como


sua base, sua regra e sua justificação” – “O valor atual das Faculdades de
Filosofia” (1953), in Presença de Agostinho da Silva no Brasil, p. 77.

Reclamarei, pois, logo de início, para as Faculdades de Filosofia uma


promissora inutilidade, pelo que se refere à organização prática da vida,
a este aparelhamento social de que naturalmente precisamos para atingir
outros mais altos fins, mas que de nenhum modo devemos deslocar da sua
dupla função de ambiente e utensílio.
Mas, se abandonamos a sua defesa como instituição utilitária, nem
temos de a fazer como atividade desinteressada: exatamente como o fulcro e
a guarda indispensável do movimento da roda é o centro imóvel, de modo
idêntico gira a grande roda do mundo; tudo será morto, gelado, e na reali-
dade inútil, se não repousar em última análise no ponto imóvel da medita-
ção, da pesquisa pura, da unidade essencial com os próprios fundamentos
do Universo.
Definiremos, pois, as Faculdades de Filosofia como a única instituição
de vida civil em que se pode encontrar esse ponto, não de refúgio das ativi-
dades da vida, não de torre que defenda do grande fluxo de energia do uni-
verso, e defendendo mate, mas de concentração total dos fundamentos de
todos os nossos atos; concentração feita principalmente por três meios que
não devem de maneira nenhuma andar dissociados: o do conhecimento
exato do comportamento do homem e do mundo; o da redução a leis cada
vez mais gerais das fórmulas de comportamento; o da criação de novos
comportamentos – “O valor atual das Faculdades de Filosofia” (1953), in
Presença de Agostinho da Silva no Brasil, pp. 77-78.

(falando das Faculdades de Filosofia) (...) elas poderão prestar o inesti-


mável serviço de congregar aqueles que se não sentem chamados às tarefas
ativas, aqueles cuja preferência vai para a solidão, a meditação, e, quanto
possível, uma vida filosófica. Eis aqui outro ponto essencial: creio que tem
sido um dos grandes males da nossa civilização de ocidente o de adotar
doutrinas como se usam adornos, sem qualquer compromisso ou transfor-
mação do espírito; ao passo que para um hindu não tem importância que

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ser, conhecer, agir, criar, amar. poesia, filosofia e ciência

se escolha tal ou tal outro sistema de filosofia, contanto que a vida seja filo-
sófica e que o procedimento não desminta a doutrina, para nós o que tem
importância é o teor do pensamento que se adota e não a vida que se faz.
Gostaria de ver as Faculdades de Filosofia iniciar uma viragem neste ponto
fundamental para a história humana e chamar a si, com a atração poderosa
do que poderíamos denominar a sua vivência quotidiana da filosofia, todos
os que, e muitos são, se não satisfazem com as ordenações vulgares da vida,
mas não têm coragem ou não têm ponto de apoio para, por si próprios,
tomarem os caminhos que redimam.
É, pois, chamando a si os mais puros de intenção e de procedimento;
chamando a si aqueles aos quais repugnam as batalhas da técnica, os passos
inevitáveis pelos quais ela se tem de realizar; chamando a si os que pretendem
descortinar com clareza tudo o que se fez e o muito que há ainda a fazer para
que a vida no mundo, e refiro-me aqui à vida do espírito, se estabeleça em
bases toleráveis, que as Faculdades de Filosofia podem contribuir para que,
no dia em que a Palavra surja, não vá mais uma vez a humanidade, como
quase sempre tem feito, destruir quem lhe traz a mensagem de libertação.
Atribuiria às Faculdades de Filosofia, no seu labor retirado, talvez pouco
brilhante e talvez pouco popular, a missão de pavimentar os caminhos para
os futuros santos de Deus e chamaria a prepará-los todos aqueles que pode-
riam tomar como a mais importante de todas as técnicas a de dar espírito às
técnicas e como a mais perfeita de todas as vidas a que abriria as portas de
uma vida futura verdadeiramente digna de homens; aqueles em que brilha
acima de todas as flamas uma centelha de ideal, a quem o mundo não satis-
faz e têm no entanto a certeza de que é possível torná-lo mais belo e melhor.
Gostaria de terminar estas palavras com um apelo a todos eles: sei de
todas as dificuldades que se encontram no caminho, de todas as deficiên-
cias da instituição, de todas as vacilações e fraquezas da natureza humana,
de toda a limitação geral, pelo simples fato de existirmos: mas creio, acima
e para além de tudo, e como a tudo redimindo, nas infinitas possibilidades
de reencontrarmos dentro em nós o espírito puro de que partimos e de
alcançarmos no fim da jornada o mesmo puro espírito a que de toda a
eternidade nos dirigimos e destinamos. “O valor atual das Faculdades de
Filosofia” (1953), in Presença de Agostinho da Silva no Brasil, pp. 80-81.

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agostinho da silva – uma antologia

Acontece, porém, que [...] a atitude inteligente e largamente humana


não é a de aceitar dilemas, mas ou a de mostrar que são falsos ou a de se
encarreirar a terceiras soluções de que o lógico se não lembrou, a não ser
que lhe não fosse conveniente pô-las – Reflexão [1957], in Ensaios sobre
Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, p. 27.

[…] é fora de dúvida que nossa homenagem maior vai ao que, por
assim dizer, há de incriado na criação; é a própria possibilidade em si
que admiramos, não ela tornando-se coisa; é como se, no fundamental,
estivéssemos adorando Deus numa altura em que ainda não houvesse
mundo; ou, por palavras que pareçam menos paradoxais: como se, haven-
do mundo, a nossa adoração fosse para o Deus preexistente a ele, mas o
contendo já – “Sobre Vocação”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, pp. 77-78.

No fim de contas, uma filosofia é feita de meia dúzia de ideias, e o que


tem dado trabalho aos filósofos não tem sido propriamente o descobri-las;
na maior parte das vezes […] pensar o essencial custa tanto como sonhar;
uma filosofia, no que contém de fundamental, é, para o pensador, gratuita:
palavra que, como se sabe, é aparentada com a de Graça. O que custa para
o filósofo é, primeiro, libertar-se de todas as odeias que andam no ar que
respira e que são quase sempre superadas na altura em que aparece; depois,
experimentar uma e outra vez, teimosamente, se as tais ideias fundamentais
são coerentes entre si, porque são às vezes os sonhos tão enganadores como
a própria realidade; finalmente se lança o pensador à tarefa de desembara-
çar o enrolado novelo que o mundo lhe apresenta, mostrando como todo
o fio não é mais do que a ligação entre dois extremos, o da eternidade e o
do tempo, o da substância e o do acidente, o de Deus e o do homem. E
neste trabalho de desenrolar o novelo se lhe vai a vida – “Repetição, Estilo,
Pensar”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 79.

Filosofia separada de teologia é invenção do Diabo; e para o filósofo que


é essencialmente teólogo, o que não é a mesma coisa que saber teologia,
a autêntica grandeza reside na capacidade de fazer no campo da filosofia

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ser, conhecer, agir, criar, amar. poesia, filosofia e ciência

o que fez um Fra Angelico no campo da arte, pintando algumas de suas


melhores obras em lugares que provavelmente poucos visitariam; o essen-
cial para o pensador é pensar, por si e para si, em Deus e perante Deus;
o resto, a preocupação ou desejo de aparecer, pode ser uma ­simpática
preocupação de adolescente; mas deve desaparecer com a idade adulta –
“Repetição, Estilo, Pensar”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, pp. 81-82.

Amor atinge de pronto e por sua essência o que inteligência e vontade


de obedecer atingem por desvios. Só que é mais difícil amar do que enten-
der ou obedecer. A muitos parecerá o contrário, porque estão confundindo
o amor com o desejo, porque estão confundindo o que destrói, mesmo que
crie, com o que longe de destruir aumenta a realidade do que existe. Quem
ama verdadeiramente ama o que lhe aparece, tal como é, e, ao mesmo
tempo, o que será aquele mesmo ser desenvolvendo-se, como Deus o quer,
em plena liberdade. Amar alguém ou alguma coisa é primacialmente ins-
talá-lo num clima de plena liberdade, com todos os riscos que a liberdade
comporta: desejar é limitar na liberdade, a nós e aos outros. Mas quan-
do verdadeiramente amor existe, então realizamos na terra o que há de
mais belo e de mais raro: porque todo o amor que ama o eterno é o amor
de Deus amando-se a si próprio – “Ritmos de Marcha”, As Aproximações
[1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 85.

Mesmo, porém, que tudo reneguemos do passado, há duas atitudes


humanas que certamente vão ficar: a contemplação e a acção. Não ima-
ginamos homem que na sua vida ou na História não tenha alguma vez
olhado céu e mar, com amor se perdendo; igualmente nenhum que alguma
vez, plenamente concentrado, se não tenha lançado a alguma tarefa que,
inteligente e claramente, lhe tenha aparecido como essencial. Porque é isto
agir; o resto é ou agitar-se, ou simplesmente trabalhar; o qual trabalhar,
qualquer que seja o grau de liberdade, é sempre escravatura.
[…]
Naturalmente, a solução estará em fazer convergir os dois movimentos,
tendo sempre em vista que o ponto-limite, que talvez não possamos alcançar

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agostinho da silva – uma antologia

em vida, será o de fundir uma autêntica contemplação e uma perfeita acção


na actividade de orar – “Contemplação e Acção”, Só Ajustamentos [1962],
in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 115-116.

A filosofia, no sentido em que a entendemos de actividade teorética


e laica, é afinal um pequeno episódio numa longa história humana; um
episódio do mediterrâneo, poríamos ainda para precisar ideias. A filosofia
grega, abafando correntes espirituais que hoje são quase exclusivamente do
domínio da arqueologia, pode ter sido apenas um instrumento de domí-
nio; e daí o carácter ligeiramente, ou gravemente, desumano que sempre
me pareceu ter a filosofia grega e que tanto contribuiu para a rápida vitória
do Cristianismo. Cristianismo que, vencendo por não ser uma filosofia,
depois, para satisfazer ao mundo, recaiu em grande parte na filosofia, o
que trouxe graves complicações. A filosofia pode perfeitamente ter sido um
fenómeno histórico. E acabar. Deixando o campo às aspirações puramente
religiosas, que são as eternas do homem. E, na realidade, as únicas que
poderão conduzi-lo a uma plena vitória sobre o mundo; e sobre si próprio,
que ainda é o mais difícil – “Tomada de Consciência”, Só Ajustamentos
[1962], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 140-141.

[…] é essencial para Platão uma ideia exactamente contrária à de que


vínhamos falando. A verdade, para ele, o deus, para ele, não é o que se
esconde, mas o que se desprende daquilo que o oculta; em Platão nenhuma
serpente tem direito algum de ficar latente nos capins; é, primeiro, objecto
de laço caçador, ao que chama maiêutica e pedagogia; depois protótipo de
classificação zoológica, com a grande ideia que nos tem alimentado sécu-
los, respeitosa excepção para os portugueses, de que o que existe realmente
não é o bicho, mas o género e a espécie a que pertence; por fim, pele de
museu, coitada da viva cobra em seus matos latente. A cobra, para Platão, é
alatente, e alethe é o contrário do que lanthanei, esconde ou se esconde […]
Por descobrir se inicia o grande drama. Da árvore do bem e do mal é
Platão, porque julga saber, o melhor colhedor de frutos. Logo depois de
estabelecer que a verdade é o que não está oculto, o que é apenas uma verda-
de pragmática, […] passa a afirmar que o que todos veriam como existente

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ser, conhecer, agir, criar, amar. poesia, filosofia e ciência

não existe na verdade, mas é apenas o que esconde a verdade; o que existe
é o que parece, é uma opinião, é uma doxa, não nos e­ sclarecendo, porém,
sobre outro problema, esse sério, grave e fundamental, o de se não existe
apenas o que é ilusão, engano e escondedouro; se realmente a verdadeira
serpente não é a que, ocultando-se, nos deixa a inocência das relvas sem
pavor. Aplaudiria Platão se tivesse demonstrado que tudo é ilusão e nos
instalasse de pleno no sonho, sem tentar, por um golpe da cama-de-gato
que são filosofia e ciência, fazer-nos crer que alguma coisa existe de real, a
não ser a ilusão como ilusão; mas foi mais longe, nos deu ideias gerais, e
normas; criou os tiranos, que são apenas os donos das ideias gerais.
É bom saber-se, pois, ou se ser, que a ciência de que falamos e a filosofia
de que falamos se baseiam essencialmente no contraditar da ideia de que a
verdadeira verdade só o é quando oculta, de que o mundo é uma opinião,
mas que não há outra realidade senão essa opinião, e de que afirmarmos do
núcleo de tudo, ou de Deus, que ele existe ou não existe é tomarmos uma
posição que nada autoriza. Só posso aceitar um Deus que seja total; dizer
que ele existe é pôr-me a mim como sujeito diante dele como objecto; por
aí me escapa logo o Deus total, que nos englobaria a um e outro. Do deus
que eu digo existe, e que os ateus negam existir, apenas posso talvez afirmar
que ele é uma opinião e uma opinião existente; e posso também supor
que ele serve para isso, para haver um partido, que é o meu, dos teístas, e
o outro, o dos ateístas; e para haver várias igrejas, por exemplo, a que vê
Deus do lado esquerdo e a que vê Deus do lado direito. E estão-se fazendo
muitas reuniões, que custam muito dinheiro, mas não tem dúvida, o povo
paga, e viajando-se muitas viagens, mas não tem dúvida, o povo paga, e
dando-se muitos abraços, e aí o povo até paga para ver, pobre povo que
nem sabe desprezar os espectáculos dos grandes, para que a igreja que vê
Deus do lado direito perdoe à igreja que vê Deus do lado esquerdo; e peço
desculpa de não ter escrito igreja com um I, maiúsculo.
Não creio, pois, que tenha grande importância discutir-se quais são as
relações entre ciência e filosofia; acho que tem importância o que elas são,
no conjunto, quando comparadas com a não-ciência e a não-filosofia que
já existiram e que oxalá existam de novo, ou vão existindo, à medida que
o desvio do espectro for sendo cada vez menos acentuado, à medida que

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agostinho da silva – uma antologia

as galáxias forem regressando dos limites do universo, inexistentes, a seu


centro, também, e felizmente, inexistente; à medida que toda a massa se
for transformando em energia, e acabarem por aí a física e a química, a
biologia e a matemática, e, o que será ainda mais lamentado, os empregos
de físico ou de matemático. Ciência e filosofia são episódios da história
humana, são saudades, disfarçadas em raciocínio, de um Paraíso a que
desejamos voltar, a que teremos de voltar, Paraíso do escondido, Paraíso
do que se não julgue uma opinião mas uma existência, Paraíso dos bichos
um a um, meus companheiros e meus eus, não paraíso de Lineu, com seus
géneros e espécies.
Como a saudades, devemos dar-lhes a maior importância, mas o
­objecto de que temos saudades, esse é que vale; à cobra que não vemos
e que oxalá jamais vejamos, para essa vai a nossa adoração e o nosso
desejo de a sermos, com suas cores, seu faiscar de olhos, seu roçar-se
nos tais capins que o orvalho madruga, e de propósito inverto os ter-
mos, para ver se ajudo, no tão-pouco que posso, a destruir essas ideias de
causas e de efeitos, que tomaram conta do mundo, a que tanto conviria
que se tivesse ficado na ideia não-científica e não-filosófica da concomi-
tância, da companhia, de se dizer apenas que um fenómeno vem com
outro fenómeno e não que um ao outro causa. Procurando descobrir ou
determinar quais as relações entre ciência e filosofia estamos jogando,
ou vendo jogar, à cabra-cega, coisa de meninos transferida para gente
grande; e com isto quero dizer o seguinte: que estragamos o jogo; porque
o julgamos realidade; joga m ­ enino, como se fosse jogo real, mas sabe
que o não é; nós, e só às vezes, suspeitamos que o jogo não é real, mas
o ocultamos, porque nisso vão os nossos empregos e receamos que no
futuro não possamos viver sem geladeiras; sobretudo receamos confron-
tar-nos com a ideia de que a ciência e a filosofia são apenas produtos de
um mundo de acção, respostas do Universo a uma pergunta dirigida e a
que não poderia dar outra resposta, porque lhe perguntamos, que é que
eu posso fazer contigo, mundo?, quando apenas nos competia viver com
ele, mundo. Receamos dar-nos ao viver em que, em lugar de procurar a
verdade a saibamos improcurável e incontrolável, excepto se a formos;
em que em lugar de perguntarmos se alguma coisa é, nos limitemos a ser;

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ser, conhecer, agir, criar, amar. poesia, filosofia e ciência

em que consideremos que tudo o que em Platão está entre as historinhas


e os mitos é puro lixo indo-europeu, puro andaime de automação e do
lazer; em que consideremos que o verdadeiro Sócrates, verdadeiro como
homem, não como grego de seu século, era o do daimon; em que o ver-
dadeiro Descartes era o da romaria e o verdadeiro Espinosa o polidor de
lentes e o verdadeiro Einstein o que morre no desespero de perceber que
toda a ciência acaba numa equação e que toda a equação é apenas uma
pré-verdade. Espero que um dia olhemos a serpente e a vejamos oculta;
que a ciência e filosofia sejam, no presente, um sonho do passado, e que o
mesmo aconteça com a arte e com a religião. Que a Ilha dos Amores não
tenha ficado só para portugueses, e os heróis de todo o mundo, no senti-
do de todo o mundo herói, a ela aborde, e fecunde ninfas infecundas, e
veja passado e futuro como presente, e veja as máquinas dos céus como a
inadjectivável fusão da irrealidade e do real – “Aqui falta saber, engenho
e arte” [1965], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 213-216.

Pode ter-se a ideia de que o artista, e usaremos aqui a palavra tanto


no sentido académico das Escolas de Belas-Artes, que parecem ter vida
resistente, como no sentido, que é do povo, do operário que, através do
satisfazer ao patrão, mais ainda à sua arte satisfaz, pode supor-se então que
o artista vai lançando no mundo o de que Deus se esqueceu ao construí-lo.
Nesta sua posição, seria o criador quem vai revelando a Deus sua infinita
riqueza, pois ter Deus criado o mundo não é mais do que ter tomado
consciência do que era; o que ficou oculto, como em dobras de manto, lho
mostra ele. Talvez, porém, lance este pensamento desaconselhável distância
entre o pintor e o astrónomo e seja mais razoável que ambos apenas vêem
primeiro o que estava oculto aos olhos do vulgo, quer se trate dos quasares
com seus 70 por cento da velocidade da luz, quer se trate da beleza da
florentina de sempre fixada para sempre nos limites em que a matéria e
energia e desejo de vida e saudade de vida divinamente se equivalem.
De qualquer modo, tudo isso surge porque os homens o fazem e, se o
princípio, ou a primeira fatal queda, que o mesmo vale, principiou com
a consciência, a um segundo princípio o principiaríamos com o Verbo,
e a uma terceira queda a iniciaríamos com a Acção, queda salvadora esta

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agostinho da silva – uma antologia

porque por ela poderemos voltar ao Indenominado e do Indenominado


à Inconsciência, fechando o ciclo. O que contribui para o progresso do
mundo, tal como ele se nos apresenta hoje, não é o pensar ou o imaginar
ou o fantasiar, mas o fazer. O que não amarramos no feito, máquina, livro,
discurso ou vida, se nos esvai em esvaída névoa, e ficamos pior do que
pastor de nuvem, porque pairamos só, fantasma de zagal, sem um vulto e
sem sombra, num límpido céu que, por nos não ver, nem nos acolhe nem
nos repele – “Quinze Princípios Portugueses” [1965], Ensaios sobre Cultura
e Literatura Portuguesa e Brasileira I, p. 281.

Quando se fala de pensamento português, raras vezes os nossos inte-


lectuais, vítimas de um sistema de educação que, tendo por base uma
economia de falsas aristocracias e por objectivo a imitação de modelos
estrangeiros condenados a desaparecer, pois temos ido quase sempre
atrasados e quase sempre à fonte errada, fatalmente os separa do povo e
lhes faz ignorar e desprezar o povo, raras vezes, pois, têm eles procurado
saber que pensamento elaborou e adoptou o povo, não como uma ideia
a que se adere, que assim têm ido em geral as filosofias de ocidente, mas
como uma ideia que se é, a exemplo de Sócrates, cuja santidade só foi
perturbada por uma maliciosa inteligência de advogado, e a exemplo de
todos os santos que houve depois, em estóicos ou cristãos ou ateus, que
é Deus bastante grande para até não ser quando alguns dos melhores
assim o preferem.
Perceberam já os que têm algum hábito de me ler ou escutar que vou
trazer de novo a terreiro o culto popular do Espírito Santo […]; e como,
exactamente à maneira do que já sucedeu com a doutrina de Cristo,
­precisam os homens, enquanto considerarem a razão como sua faculdade
essencial, de uma filosofia, que seria neste caso uma teologia, bom seria
que os nossos aprendizes de filósofo ou os nossos filósofos diplomados
dessem descanso a seus pensadores mais em moda ou a suas arqueolo-
gias filosóficas e procurassem pelo menos imitar o que fazem, quanto
ao Espírito Santo, teólogos de força, pondo em racional o que o povo
sente e, na medida em que o pode, faz. Acresce a tudo que, como estou
­convencido de que, por se tratar do Absoluto, é impossível vir a elaborar-se

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ser, conhecer, agir, criar, amar. poesia, filosofia e ciência

uma integral teologia do Espírito Santo, fico bem descansado quanto à


eventualidade de estragarmos, com mais uma filosofia, o que é, e tem de
continuar a ser, comportamento puro – Educação de Portugal [1970], in
Textos Pedagógicos II, pp. 100-101.

(...) quem se priva de tempo e sonho nada mais tem a fazer do que
marcar a data do enterro – “Sobre Índios e Suecos” (1971), in Ensaios sobre
Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II, p. 101.

[…] Não há hoje no mundo nenhuma crise real de ciência ou de téc-


nica, de política ou de moral, de pedagogia ou de arte. Tudo vem como
aspecto ou como projecção de uma crise de pensamento filosófico: a mul-
tidão de fenómenos, materiais e espirituais, excedeu as disponibilidades do
homem pensante, habituado a sistemas do real, quanto agora se lhe abrem
as exigências de concatenar, num todo único e vivido, o real e o possível;
habituado a ser apenas filósofo ou apenas místico quando tem que se virar
agora a ser simultaneamente místico e filósofo, com a agravante de que, se
era místico de uma só religião ou filósofo de uma só filosofia, tem hoje de
encarar o ser místico de todas as religiões e filósofo de todas as filosofias –
“Vicente: filosofia e vida” [1972], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 279.

Exige-se, para o perfeito amor, que o amado ame o amante; que este
ame, em si próprio, o amante que ama o amado e que o amado ama, o
mesmo tendo de haver no correspondente. Que os amantes amem nos
amados os amantes que a eles os amam. Ou, mais simples: que o amor se
ame – Pensamento em Farmácia de Província, 1 [1977], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 356.

(...) são dois verbos distintos, o verbo “amar” e o verbo “ter”; a posse des-
trói sempre o amor. – A Última Conversa. Entrevista de Luís Machado, p. 79.

Repare que no amor o sujeito pode ser activo, mas a paixão é passiva,
vem da palavra passio (passivo), não é verdade?, exactamente passividade.
Ora o amor é activo, portanto, criador; a paixão já não, dado que o ser foi

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agostinho da silva – uma antologia

dominado por alguma coisa. Quando se diz: estou apaixonado por isto ou
por aquilo, no fundo também podemos dizer, se quisermos, estou domina-
do por isto ou por aquilo. A pessoa que se apaixona por outra tem tendência
a obedecer-lhe... – A Última Conversa. Entrevista de Luís Machado, p. 88.

Temos, sobretudo, de aprender duas coisas: aprender o extraordinário


que é o mundo e aprender a ser bastante largo por dentro, para o mundo
todo poder entrar. – A Última Conversa. Entrevista de Luís Machado, p. 96.

Penso como ser pensante que nada existe senão o pensamento, o qual
me pensa como ser pensante – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 146.

Só há espaço quando se vê e só há tempo quando se pensa – Pensamento


à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 152.

A nossa mente olha o Eterno e o faz Tempo – Pensamento à Solta, in


Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 154.

A nossa mente olha o Vazio e o faz Espaço – Pensamento à Solta, in


Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 154.

Tem o mundo direito e tem avesso; a Verdade é o que está no meio


–Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 155.

Livre mesmo só a criação: todo o Criado é do império da Lei – Pensamento


à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 161.

Só pensar não é uma ilusão; logo, porém, se lhe procuro o sujeito me entro
em ilusório – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 162.

Talvez não tenha cada um sua mundividência; mais certo seria dizer-se
que tem sua mundinvenção, e que só essa é real – Pensamento à Solta, in
Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 174.

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ser, conhecer, agir, criar, amar. poesia, filosofia e ciência

No psicossomático, verei, na psique e no soma, dois aspectos […] de


alguma coisa que é um e outro; e a esse alguma coisa ainda chamaria pen-
samento, não o pensamento pensado, que será o de cada um de nós, mas o
pensamento pensante – o que não tem pensador – Pensamento à Solta, in
Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 175.

Posso mudar se me penso mudado – Pensamento à Solta, in Textos e


Ensaios Filosóficos II, p. 178.

Que não haja restrição a Amor algum; mas que o Amor restrinja –
Cortina 1.

Nada peças nem perguntes, inventa o mundo – Cortina 1.

Como tudo é possível, ousemos fazer rumo ao impossível – Cortina 1.

Talvez a maravilha do homem seja a de que seus sentidos lhe fazem


tomar como real o que sua mente imagina. Chamo sua mente à mente do
homem que é o conjunto dos homens – Cortina 1.

Filosofia é provocação e dúvida: jamais certeza e ensino. Platão se per-


deu quando fundou a Academia. Virou dono da verdade e aprendiz de
tirano – Cortina 1.

O que se quer existe – só que está coberto: Por isso se chama à busca
feita pelos Portugueses Descobrimentos – Cortina 1.

Pensa na morte como um despir-se do corpo e fortifica o teu espírito


para que ele não perca o ânimo de agir, mesmo que sem/só [?] – Cortina 1.

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8. CULTURA, CIVILIZAÇÃO, HISTÓRIA, ARTE E VIDA

Uma intuição fundamental de Agostinho, que vimos surgida na interpre-


tação do mito e da religião gregos, é a de que o actual processo histórico-civili-
zacional, predominante a nível planetário, procede da ruptura de um estado
primordial, simultaneamente humano, natural e divino, ou mesmo anterior
a toda a distinção entre sujeito e objecto, porventura causada pela escassez
alimentar e pela explosão demográfica. Assim se teria passado de pequenas
comunidades a grandes sociedades belicamente organizadas para a luta pela
sobrevivência, com o surgimento da propriedade, das relações de poder, do
trabalho, da pedagogia e da religião instituída, tudo formas defensivas e agres-
sivas da humanidade prosseguir o seu combate para, com a expectativa de
realizar o seu bem, na verdade enganosamente rejeitar e se emancipar de uma
Vida plena. Mas o sentido desta cisão, que é a matriz de toda a história, é a
sua própria transcensão, o que o pensador, sempre atento aos acontecimen-
tos mundiais e ao seu sentido global, tende a considerar inscrito num divino
plano providencial e que vislumbra possível pela colocação de alguns derivados
da própria civilização, como os recursos tecnológicos, ao serviço da libertação
humana dessa luta pela subsistência e da reconquista, a um nível superior, do
ócio e da abundância paradisíacos e pré-históricos, pelas quais todos os huma-
nos (e não só alguns, como até agora) se possam enfim dedicar à realização e
fruição das suas superiores e divinas possibilidades de amar, contemplar e criar.
O que só considera todavia possível por uma profunda metanóia ou trans-
formação espiritual, que parta do indivíduo para a colectividade e que leve
a uma abdicação voluntária dos demais frutos da civilização, em particular

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agostinho da silva – uma antologia

da noção de propriedade, raiz de uma sociedade organizada para o trabalho,


a produção, o consumo e o lucro e dominada pela competição e a ganância,
absurda e contraditoriamente reprodutoras do mesmo estado de insatisfação e
carência que pretendem superar.

Diotima – Serias capaz de atribuir toda a filosofia de Sócrates a esse


medo da vida, a esse terror de a saber insuportável?
O Estrangeiro – Sempre o tenho pensado, Diotima; talvez mesmo
todas as filosofias dos homens nada mais sejam do que expressão do
horror pelo martírio, do que uma fraqueza inconfessada perante o
duro existir, do que uma ilusão a que, para conseguirem viver, dão o
nome de certeza – Conversação com Diotima [1944], in Textos e Ensaios
Filosóficos I, p. 135.

Sente-se o que você diz: a impressão de que verdadeiramente a vida é


nobre e bela, forte, calma e clara, e de tão extraordinário encanto, de tão
ardente energia que se plenamente tivéssemos consciência do que é a vida
não a poderíamos suportar. Explodíamos. – Sete Cartas a um Jovem Filósofo
[1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 238.

[...] pelos fins do século xix, e confirmando-se principalmente com os


trabalhos dos etnógrafos e dos viajantes dos princípios do século xx, surgiu
a descoberta de pequenas populações, na África, na Oceânia, na América
e na Ásia, que viviam uma existência totalmente diversa da que é habitual
aos homens e correspondendo ponto por ponto à descrição que tinham
feito os gregos da humanidade dos primeiros tempos. Os mais primitivos
destes povos, os que se apresentavam com mais puras características, sem
interferência alguma de povos em mais adiantado estado de civilização,
viviam dos frutos que colhiam nas florestas, às vezes de caça e pesca, eram
extremamente alegres, fidelíssimos às instituições monogâmicas, dando
perfeita igualdade de tratamento às mulheres, incapazes de castigar as
crianças, e sem nenhuma espécie de propriedade, sem organização social e
sem nenhum vestígio de religião organizada.

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cultura, civilização, história, arte e vida

Agora já não havia nem tradição de gregos nem simples fantasia de poetas;
existiam homens que viviam ainda em plena idade de ouro; e era fora de
dúvida que, para se passar dessa idade de ouro, desse paraíso, para o que o
mundo fora depois, tinha sido necessária uma revolução radical, uma quase
transformação de natureza, uma queda, para usarmos uma terminologia que
muitos julgam ainda não histórica. Não se via, no entanto, como se tinha
dado a mudança, nem existe ainda hoje nenhuma hipótese perfeitamente
satisfatória; crê-se, porém, que deve entrar em linha de conta um factor bio-
lógico importantíssimo, o da fome. A certa altura, tendo rareado os frutos da
floresta, o homem ter-se-ia voltado para a alimentação animal fornecida pela
caça e pela pesca, e para uma forma primitiva de agricultura, a que se teria
seguido uma forma primitiva de pecuária. Em lugar do contacto perfeito com
a natureza, só possível com uma alimentação frugívora, o homem entrava
agora em guerra com a natureza, no que respeita às actividades de caça e pesca.
Por outro lado, a agricultura conduzia à escravização da mulher, a
pecuária à escravização dos animais. E é então que aparecem as primeiras
sociedades, que devemos cuidadosamente distinguir do simples agrupa-
mento humano, as primeiras religiões organizadas, o sentido da posse; é
então que aparece a educação das crianças, a pedagogia de que tanto nos
orgulhamos, e que não é mais do que a submissão e extinção gradual dos
instintos e das espontaneidades criadoras que não podem ter cabimento
na vida social; surge tudo o que se tomou por natureza humana e que não
é senão o resultado da pressão e da deformação a que, por necessidade de
defender a vida, foi submetido o homem – A Comédia Latina [1952], in
Estudos sobre Cultura Clássica, pp. 302-303.

À medida, porém, que a civilização evolui, sempre no sentido de um


maior poderio técnico, a noção de sagrado vai atenuando-se; todos os actos
da vida passam a ser civis, desligando-se de qualquer ideia de sobrenatural;
o mundo parece, não como um conjunto de sinais de Deus, que o homem
venera, teme ou respeita, e de que participa pelas formas sacramentais, mas
um domínio laico, como uma propriedade a seu inteiro dispor e em que
ele exercem todos os direitos de usar, gozar e abusar, com que se define a
noção clássica de propriedade.

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agostinho da silva – uma antologia

O homem vive, desde então, não para adorar o que vê, como o­ utrora,
não para fazer de todos os seus actos uma tentativa de reconquistar o paraí-
so perdido, mas para se aproveitar do que existe, para dominar, para se
afastar cada vez mais da inocência da Idade de Ouro, com o risco de nunca
poder reencontrar o caminho; o que seria bem trágico, porque já está na
posse dos meios materiais que lhe permitiriam viver a vida do primitivo,
sem os inconvenientes da incerteza e da fome, sem correr os riscos de ter
de novo que percorrer a longa, perigosa e dramática aventura da história;
cada vez mais o homem se tem posto e considerado mais no mundo como
o dono do mundo, com o direito de destruir os animais e as plantas, de
escravizar os irmãos homens, de transformar a vida inteira nalguma coisa
que não tem outro fim senão o de sustentar a sua vida material.
A vida tornou-se laica e tornou-se feroz, implacável e, o que é pior
ainda, sem sentido nenhum que eleve a vida além da vida. É uma série de
momentos em que se produz para se consumir e se consome para se poder
produzir de novo. As relações do finito com o infinito, da parte com o
todo parecem, em instantes mais críticos, correr o risco de se perder por
completo; o acto gracioso da oferta aos seres fraternos e aos seres supe-
riores, a gratuitidade do viver, desaparecem rapidamente de um mundo
que se dessacratiza.
Costuma-se dizer que o progresso técnico superou o progresso moral;
mas o que há na realidade é que o progresso técnico se fez à custa do fundo
moral da humanidade, do seu fundo divino; e as grandes épocas de crise
são exactamente aquelas em que o progresso técnico é o mais elevado pos-
sível e a consciência moral uma luz mínima que parece a cada momento
ir apagar-se de todo no fragor das tempestades económicas e políticas – A
Comédia Latina [1952], in Estudos sobre Cultura Clássica, pp. 306-307.

O elemento humano foi tendo ligações cada vez mais remotas com o
elemento sagrado até que de todo se separa, sem que no entanto o teatro
tenha perdido o primitivo carácter mágico de fazer do actor e do espectador
um participante na vida de outros seres; ou melhor, de o transformar num
outro ser, fazendo-o entender assim a identidade de todos os aspectos da
criação – A Comédia Latina [1952], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 308.

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cultura, civilização, história, arte e vida

Perdido um céu primeiro, quer o céu de que falam os textos sagrados,


quer aqueles que a mais moderna antropologia vai assinalando nos povos
realmente primitivos, a grande marca da queda não esteve em ter que se
ganhar o pão com o suor do rosto ou na dor se criar ou em se ter que
arquitectar toda a complicada aparelhagem social que hoje nos envolve. O
ponto realmente sério, aquilo que marca a que distância se veio parar da
existência edénica, é que foi possível passar a discutir se a civilização deve
ser de carácter predominantemente masculino ou predominantemente
feminino; foi possível haver partidários de patriarcados e de matriarcados
e foi possível à Humanidade experimentar uma e outra forma de governo;
e foi-lhe sobretudo possível estar tão desatenta das verdadeiras realidades e
de seu direito destino, que lhe passaram despercebidas advertências como
a de Aristófanes com os seus andróginos ou a de Vinci com o seu S. João
Baptista: a advertência de que só há uma forma de harmoniosa existên-
cia humana; aquela em que o homem e mulher funcionem como as duas
partes de um todo, como as duas faces de uma una essência; sem patriar-
cados nem matriarcados. Com o governo, numa vinda do Espírito Santo
consolador, do intrínseco amor que um ao outro une – Reflexão [1957], in
Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, pp. 32-33.

[...] a ideia de que, através de todos os desastres, de todas as misérias, de


todos os desfalecimentos, de todas as fraquezas, é história do mundo o que
se está fazendo ao mesmo que a história do indivíduo e que uma e outra se
encaminham para o mesmo ideal de santidade, para o mesmo rumo de frater-
nidade, para o mesmo céu de uma terra sobrenaturalizada – Reflexão [1957],
in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, pp. 55-56.

[...] é exactamente pela técnica, mas pela técnica tomada como um


jogo geral e não como um meio individual de ganhar dinheiro ou poder,
que pode o homem abrir o seu caminho de regresso ao Paraíso: mas, para
tomar a técnica como um jogo, é preciso que se seja anteriormente criança:
a conversão religiosa ao Menino Jesus deve preceder a revolução social –
Um Fernando Pessoa [1959], in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa
e Brasileira I, p. 116.

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agostinho da silva – uma antologia

O vício de pensar é porventura dos mais daninhos que se abateu sobre


a humanidade e quanto mais felizes seríamos se pudéssemos regressar a
tempos que, simbolicamente, chamaríamos de ante-pré-socráticos, quan-
do a filosofia ainda não aparecera com a pretensão de substituir o conto de
fadas, ou até antes disso, quando o conto de fadas ainda não aparecera com
a presunção de substituir a vida – Um Fernando Pessoa [1959], in Ensaios
sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, p. 106.

Porque o importante é que a energia se não limite e o que é verdade é


que a energia é essencialmente livre; o seu sopro é o sopro do Espírito e o
que convém a homens é como que um novo voto monástico de obediência,
ou melhor, de disponibilidade: estará sendo essencialmente homem aquele
que estiver, todos os dias, disposto a seguir nas direcções a que novo surto
de energia o fizer rumar. Não tenhamos por fundamentais as precauções que
apenas nos faz tomar o nosso medo de nos magoarmos na vida, e de sermos
tão pouco respeitados pelo nosso próximo que nos venha a faltar o pão do
corpo, e aquele pão do espírito que consiste em gozar na nossa praça da mais
profunda consideração e confiança. Poderia dizer-se, levando a ideia ao ponto
extremo, que teremos atingido o máximo de nós próprios quando ninguém
tiver em nós a menor confiança; quanto a respeito, a história é outra: porque
teremos o respeito dos grandes, dos que reconhecem e adoram a energia; e
só, como um louvor, o desrespeito dos fracos – Um Fernando Pessoa [1959],
in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, pp. 111-112.

A história, proveniente da queda, isto é, de não ter tido o homem


bastante confiança em Deus, trouxe sucessivamente outras quedas: uma
delas, e porventura a mais terrível, foi a de terem os homens deixado de
serem a imagem e semelhança de Deus nesse ponto: o de serem capazes,
como Ele, da multiformidade da vida e não apenas da sua uniformidade.
Fomos todos obrigados a ser especialistas. […] – “Semelhança de Deus”,
As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 27.

E não julguemos que nos vamos libertar desta condição de e­ specialistas


apenas pela própria fatalidade do desenvolvimento científico e técnico. […]

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cultura, civilização, história, arte e vida

Jamais ninguém conseguirá entravar o progresso técnico do mundo: mas é


fora de dúvida que ele pode servir para escravizar ou para libertar. E é também,
por outro lado, fora de dúvida que a liberdade só se obtém e mantém por um
esforço contínuo de vontade, a liberdade realizada, é evidente, porque a outra
é de nossa estrutura. A máquina só servirá para não sermos especialistas na
medida em que pela meditação, pela oração e pela acção reafirmemos a nós
próprios como um valor positivo a nossa semelhança com Deus neste parti-
cular: o de nos recusarmos a qualquer espécie de especialismo – “Semelhança
de Deus”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 27-28.

No fim de contas a questão que se põe quanto ao artista é se ele o pode ser
na plena acepção da palavra, se não houver da sua parte uma total entrega a
Deus, com todo o ascetismo e toda a poderosa actividade que tal atitude traz
consigo. Possivelmente, toda a arte não é mais do que a revelação, fragmentada
por homens, tempos e países, do Artista supremo que Deus é; a marca essencial
de Deus é provavelmente a sua fantasia de criação: daí o Amor e a Acção; Amor
ao que dele surge, Acção para que dele surja. Fantasia criadora que simultanea-
mente nos dá o tempo e a eternidade” – “Criação Própria”, As Aproximações
[1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 37.

[…] o entendimento racional da História, nas suas origens, em todo


o seu desenrolar e nos seus fins últimos, mostrará como toda ela vem,
e em todas as suas características, de alguma vez ter suposto o homem
que eram melhores os seus próprios planos do que os planos de Deus, de
que era melhor mandar do que obedecer, de que, finalmente, valiam mais
as suas pobres geometrias a três, quatro, cinco ou n dimensões do que a
­fundamental geometria divina, a geometria a dimensão alguma. […]
[…] é a raiz de tudo ter tido o homem uma visão de si próprio que
não era uma visão em Deus, de se ter considerado o homem como um ser
separável e separado de Deus – “Alicerces da Paz”, As Aproximações [1960],
in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 40.

[…] temos que voltar aos povos naturais, como uma etapa necessá-
ria para o caminho do sobrenatural, e sem dúvida voltaremos, ou por

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agostinho da silva – uma antologia

nossa livre vontade ou, como tantas vezes sucede àqueles a quem Deus
mais ama, pela viva e contundente força de golpes exteriores. Temos,
primeiro, que pôr de lado, do que vamos ganhando, tudo aquilo que não
é inteiramente necessário: não se trata ainda daquele casamento com a
Senhora Pobreza que estará um dia para todos como outrora esteve para
o que foi Poeta e Santo; […] Em segundo lugar, o que pouparmos não
deve ser olhado como uma segurança para nós, mas, no fundo, como
trabalho que doamos a nossos irmãos homens, num esforço comum para
que se anulem as fatalidades físicas, se entre o mais depressa possível na
época das fábricas automáticas e se atinjam todas as condições materiais
indispensáveis a que não seja o egoísmo, para os mais fracos, uma quase
necessidade, e não seja um cristianismo autêntico, para os melhores,
um quase suicídio – “­Pé-de-Meia”, As Aproximações [1960], in Textos e
Ensaios Filosóficos II, p. 56.

Sabe-se perfeitamente, mas não é mau repeti-lo ainda uma vez, não
propriamente para que o entendam ou fixem os outros, mas sobretudo
para que, pelo exercício contínuo a ideia se mantenha com nitidez e faça
mais parte de nós próprios do que da nossa bagagem, como a palavra
“bárbaro” não significa de modo algum selvagem, mas apenas designa
aquele que, balbuciando, demonstra falar mal uma determinada língua
que se convencionou chamar de cultura. Foi isso o que sucedeu em rela-
ção aos gregos, os quais cunharam o termo, foi o que depois entenderam
os romanos, e neste caso muitos dos que balbuciavam latim eram muito
mais cultos do que os donos da língua de cultura; na realidade, o bárbaro
era apenas o estrangeiro; compreende-se, no entanto, a evolução do sig-
nificado da palavra e as várias facetas com que depois se apresentou na
sua semântica.
De qualquer modo, e aparecendo-nos hoje muito mais rico do que nas
suas origens, designará para nós o termo de bárbaro todo aquele que efec-
tivamente balbucia uma certa língua de cultura, e não apenas no aspecto
de determinada estrutura linguística: todo aquele que balbucia, volunta-
riamente ou não, um conjunto de factos culturais que já não vemos como
independentes da própria natureza humana. Ainda mais, porém: não

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cultura, civilização, história, arte e vida

tiraremos à palavra a acepção ou aspecto histórico que tomou, desde que


tivemos de aprender a História do curso secundário: a das multidões que
esperam, fora das fronteiras de grandes regiões de cultura mais ou menos
pacífica, o momento de se apoderarem delas e de as utilizarem em seu pró-
prio benefício. Finalmente, o bárbaro será ainda, e aqui à maneira român-
tica, que é de resto a maneira de Tácito, o ser novo, cheio de energias,
que destruirá uma sociedade apodrecida, fazendo desaparecer, ­porventura,
muita coisa que merecia salvar-se, deixando escapar muita outra que mere-
cia perder-se, mas acabando por infundir sangue novo ao que, sem ele,
corrompendo-se, corromperia.
Consideraríamos então como língua cultural, quer expressa em inglês,
quer em russo, quer em malaio, tudo aquilo que para alguns poucos entrou
de tal modo em sua vida, em seus sistemas de pensar, de sentir e de agir,
que a cada momento é a mesma a sua surpresa, quando o vêem pronun-
ciado de outro modo. Este novo vernáculo incluiria, por exemplo, tudo o
que diz respeito à subordinação das técnicas a fins espirituais do homem;
tudo o que se refere à forma de convivência superior que se expressa pela
democracia, entendendo aqui a palavra no seu sentido de possibilidade de
dialogar, sem erguer a voz e escutando e procurando entender a opinião
do adversário, quer seja sobre pintura, quer sobre economia, quer sobre
política, significando depois o submeter-se a minoria não propriamente à
vitória da maioria, mas o aceitar a dita minoria que pode ter havido no que
pensa um desvio do normal entendimento humano; tudo ainda o que põe
a contemplação como o mais desejável do que a acção, a paixão mais pura
que a vontade, a cruz de maior valia do que a espada.
Ora, não podemos deixar de entender que, apesar de todos os orga-
nismos de trabalho espiritual e cultural que existem no mundo, apesar de
todas as enganadoras pretensões de políticos de fácil afirmação, apesar de
todas as ilusões daqueles optimistas que só o sabem ser quando fecham
os olhos às realidades do Universo, pouquíssimos são os que falam com
perfeição essa língua de cultura tal como se tentou definir e cada vez
menor é o número dos que fazem algum esforço para verdadeiramente
a entender; cada vez também menor o número dos que ainda se não
renderam à pressão invasora. Milhões e milhões de pessoas já nem acham

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agostinho da silva – uma antologia

a mínima estranheza em serem os anúncios de comércio de natureza


sexual; não lhes parece fora de toda a norma de cultura que uma emis-
são musical seja interrompida por frases de propaganda ou que exerçam
qualquer pressão sobre o seu espírito para o levarem a comprar coisas de
que inteiramente não precisa; aceitam sem protesto, e vêem mesmo aí
uma renovação do espírito religioso, que uma cerimónia, perturbando-
-lhe todo o sentido íntimo, seja explicada em altas vozes enquanto se vai
realizando; insultam-se em nome da arte, da ciência e da cultura; e acabam
até por achar alguns méritos nos regimes cujo primeiro cuidado é o de
impedir que se expandam livremente as opiniões dos adversários: já esta
palavra é ruim, porque em política não há adversários: há ­colaboradores
com outra opinião.
A verdade é que o mundo está cheio de bárbaros e nenhum país está
livre deles; a língua do verdadeiro entendimento, da fraternidade, da con-
vivência, das ideias mais sugeridas que impostas, porque toda a caridade
está em conseguir que as boas ideias surjam nos outros e não em nós; a
língua, quase diríamos de silêncio, que levava a que se entendessem os
espíritos sem que de mais vibrasse o ar, vai sendo cada vez mais sufocada
pelos que sabem gritar e aí encontram uma perfeita expressão das afirma-
ções de sua personalidade; a época é de vitória para quem empurra e clama:
de vitória aparente; porque já também no outro desabar de um tempo de
paz, acabaram os bárbaros, ao fim de certo tempo, por se agrupar à volta
de silenciosos conventos.
Indiscutida a existência dos bárbaros, inutilmente lhe procuraríamos
agora, entre eles e o império, fronteira desenhável em mapas; levantar
muros desta espécie entre o chamado Oriente e o chamado Ocidente é,
pelo menos, ingénuo: o que há, de um lado, é apenas ter-se levado às suas
últimas consequências lógicas o espírito de heresia protestante e o de guer-
ra capitalista, que do outro ainda o Catolicismo conseguiu manter dentro
de alguns limites, e isto apesar da falência, da fraqueza, da deserção de
tão grande número de seus adeptos. O bárbaro hoje está por toda a parte,
dentro e fora das fronteiras, é branco, preto, amarelo e de todas as cores
intermédias, se infiltra em todos os agrupamentos políticos e pertence a
todas as religiões; pode aparecer defendendo qualquer forma de economia;

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cultura, civilização, história, arte e vida

a barbárie, hoje, não se caracteriza nem por uma raça nem por um credo:
é uma forma generalizada de comportamento humano. E todas as circuns-
tâncias são de molde a favorecer a sua vitória: uma vitória temporária, mas
que pode durar séculos.
Os progressos técnicos, que toda a gente está confundindo cada vez mais
com progresso humano, vão criar cada vez mais também um suplemento
de ócio que, excelente em si próprio, porque nos aproxima exactamente
daquele contemplar dos lírios e das aves que deve ser nosso ideal, vai criar,
olhado à nossa escala, uma força de ataque e de triunfo; mais gente vai ter
cada vez mais tempo para ouvir rádio e para ir ao cinema, para frequentar
museus, para ler revistas ou para discutir política, e sem que preparo algum
lhe possa ter sido dado para utilizar tais meios de cultura: a consequência
vai ser a de que a qualidade do que for fornecido vai descer cada vez mais
e a de que tudo o que não for compreendido será destruído; raros novos
beneditinos salvarão da pilhagem geral a sempre reduzida antologia que
em tais coisas é possível salvar-se.
O choque mais violento vai dar-se exactamente, como era natural,
nos países em que existir uma liberdade maior; nos outros, as formas
autoritárias de regime de certo modo poderão canalizar mais facilmente
a Humanidade para a utilização desse ócio; sucederá, porém, o seguinte:
nos países não-livres, porque nenhum há livre, mas enfim mais livres,
algumas consciências se erguerão dos destroços e pacientemente, com
todas as modificações que houver a fazer, converterão o bárbaro ao
antigo e sempre eterno ideal de “vida conversável”; nos outros, a não
sobrevir uma revolução causada pelo tédio ou pelo próprio desabar da
outra metade do mundo, o trabalho será mais difícil porque se terá de
arrancar os homens, no seu conjunto, à ideia de que o que vale é a segu-
rança material, o conforto técnico e, se for possível, nenhum rumor de
pensamento dialogado.
Esta não já invasão mas explosão de bárbaros terminará a nossa
Idade Média, aquela que veio ininterruptamente, só superficialmente
mudando de aspecto, desde o século iii ou iv até nossos dias, e que se
caracterizará talvez pelo esforço de fazer regressar o homem de uma vida
social a uma vida natural. E só nos resta, no meio do inevitável tumulto,

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agostinho da silva – uma antologia

preparar no que pudermos aquela Idade Final que levará o homem a


uma vida de sobrenatureza; a qual hoje só pela morte podemos atingir –
“Bárbaros à Porta”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos
II, pp. 64-67.

Haveria uma forma segura de não ser herege, e seria esta a de não
pensar […]
Errar para os lados da heresia é coisa que a cada passo pode surgir no
caminho de quem pensa e de quem pensa como se deve pensar, isto é, não
como alguma tarefa que se executa em horário fixo ou que serve para escre-
ver artigos ou para dar aulas, mas como uma função de todo o ser, como um
esforço não só para a clareza, a plenitude de visão, a intuição das ideias, mas,
ainda mais, para as integrar no próprio teor da vida – “Riscos Heterodoxos”,
As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 67-68.

Teve o homem receio de não haver mais a possibilidade de entender, de


sentir, de se fundir no uno quando, por se ter separado dos planos de Deus,
como já antes se separara o anjo, principiou a separar-se do que até aí fora
inteiramente seu irmão e, mais do que irmão, como que um dos aspectos
de seu próprio corpo e de sua própria alma. Pela agricultura, escravizando
a planta, dela se separou, pela caça, e pelo criatório, destruindo ou escravi-
zando os animais, deles se separou; mas agricultura e criatório trazem con-
sigo a propriedade, o cão de guarda e o rei, o banco e o soldado, a escola e o
tributo, e a opinião que se chama pública mas é sempre realmente de quem
pode e manda; como consequência é de seu irmão homem que o homem
se separa, com uma suprema, embora não definitiva, vitória do Diabo; e
não definitiva porque estão com o homem, como frágeis, arriscadas, mas
insubmersíveis jangadas sobre os mares, a religião que viria do tal medo, e a
ciência a que chamamos pura para a distinguir do motor Diesel e que vem
do receio de nos fugir, por nos termos desviado do Uno, o entendimento
das máquinas internas que são apenas o pensamento sendo, e a arte em
que desesperadamente, com tragédia e com bem-aventurança, os homens
tentam fixar uma eternidade de que têm saudades e desejos – “Ecúmena”
[1964], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 194.

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cultura, civilização, história, arte e vida

Então um dia, a uns fenícios, e outra vez me instalo na etimologia, a uns


homens morenos ou peles-vermelhas, que isso quer dizer fenício, sobrevie-
ram como a outros na recente História, faces pálidas e cabeleiras louras que
desciam do Norte, e que vinham para triunfar; a homens contentes com
um deus que se escondia o mais possível e que agia por seus delegados, e
aos delegados, não a ele, se rezava; com um deus que era íntegro e sobre
cuja existência ninguém discutia, que se pode saber da existência de Deus;
com um deus que, finalmente, falava o menos possível; sobrevieram os
contrários, com valores totalmente distintos, e adversos; a homens insta-
lados no mundo como uma realidade, e pouco preocupados com organi-
zação, acção, política, talvez moral, talvez saber, desceu a invasão dos que
iriam criar teologia, filosofia e bancos, universidades e ascensores, ideias
gerais e carteiras de identidade, eficiência e responsabilidade, o governo, e
seu espanhol contra, o bravo espanhol que nunca se rendeu e considera a
toda essa civilização como o máximo de selvajaria; e é, mas desaparecerá.
Agora, porém, seremos historiadores e não profetas. Trataremos dos que
vieram e, depois de um longo período de batalha, tendo de compor com o
inimigo e dando mestiços como os pré-socráticos, os órficos, Elêusis, con-
seguiram impor-se, até gerarem, no Mediterrâneo, o direito romano; para
além do limes com que tentaram resistir, Fausto e sua ciência; para além do
mar, em que o mistério, guarda de Deus largo tempo se defendeu, e apenas
se rendeu a quem para ele ia mergulhado no Espírito Santo, refiro-me aos
portugueses, também espanhóis e últimos fenícios, para além do mar, a
civilização que trabalha e ganha em lugar de contemplar e unir, que é a tare-
fa que nos resta, depois que eles tenham organizado o mundo de maneira
que possamos ser como as aves do céu e como os lírios do vale – “Aqui falta
saber, engenho e arte” [1965], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 212-213.

[...] reconhece o povo que Deus escreve direito por linhas tortas; mas
sabe que o torto das linhas não é da responsabilidade de Deus, mas da
nossa, e que as tortas linhas humanas, a miséria dos campos, a monotonia
e incerteza das fábricas, a opressão dos governantes e os desfalecimentos
das igrejas podem perfeitamente ser remediadas pelos homens – Educação
de Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, p. 142.

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agostinho da silva – uma antologia

(falando do Marechal Cândido Rondon) Quando conseguiu fundar,


com o mesmo lema (“Morrer se for preciso, matar nunca”), a que muitos
dos seus funcionários se sacrificaram, o Serviço de Protecção aos Índios,
um tempo novo principiou para o indígena brasileiro, o tempo de o verem
não como um selvagem, mas como uma das criaturas que melhores exem-
plos poderiam dar do amor universal: amor a animais que se não escra-
vizam, mas que são inteiramente companheiros, deles se não esperando
serviço algum e não os desabituando da sua vida própria pela esmola que
se lhes dê de comida e abrigo; pássaro, lá vai, lá voa, lá volta livre; amor
à natureza das plantas, dos montes ou dos rios ou das estrelas, vivificados
em mitos; amor ao ser humano, à mulher que se não oprime, à criança
que se não maltrata.
(...)
E o tempo lhes é livre. Dentro de uma economia de pura subsistência,
excepto nos pontos em que já se faz sentir mais o efeito da presença do bran-
co e em que precisa de dispor de material de troca, poucas horas gasta por
semana nas pescarias, nalguma caça, pouca, e no trato da sua roça que lhe
dá a farinha de mandioca. O resto do dia é para as longas conversas com os
outros membros da tribo, para as festas, para os jogos, para aquela contem-
plação, aquele embevecimento do mundo de que cada vez mais se afastam
aqueles a quem consideramos civilizados – “Sobre Índios e Suecos” (1971),
in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II, p. 104.

(...) são os irmãos Vilas Boas os representantes certos de todos os que no


Brasil ou fora dele pensam (a respeito do índio ou de qualquer outro dos
povos do mundo habitualmente considerados primitivos em tudo, quan-
do o são apenas se referidos à nossa civilização técnica) que lhes temos
de proteger a existência, não como a animais raros que se preservam da
extinção ou se isolam para que não nos incomode a sua morte, mas como
mestres daquilo que nós desaprendemos: o tempo livre, a convivência
humana, a contemplação do universo; e restabeleçamos o que mais nos
falta e só de onde a onde o têm alcançado os místicos: a unidade entre nós
e o mundo – “Sobre Índios e Suecos” (1971), in Ensaios sobre Cultura e
Literatura Portuguesa e Brasileira II, p. 106.

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cultura, civilização, história, arte e vida

“(defendendo a atribuição do Prémio Nobel aos irmãos Villas-Bôas,


pela sua obra de protecção dos índios brasileiros) O importante é levar
a Suécia a dar o prémio reconhecendo por aí que não vale nada ganhar
muito dinheiro com dinamite ou artilharia anti-áerea se perde interesse a
vida; que a técnica só deve servir para que possa haver mais ócio e cada um
seja mais livre para contemplar e criar; que só formas de economia colec-
tivista podem trazer a paz desde que se desenvolvam na liberdade; e que o
grande cuidado de todos os brancos deve ser o de entender a vida dos ver-
melhos da América, dos pretos da África ou dos amarelos e pardos da Ásia
e criar, de culturas compartimentadas, uma vasta cultura humana, levando
lá as técnicas, sem as quais jamais haverá lazer e abundância, trazendo de lá
a Humanidade que bem sumida anda por estas nossas paragens.
Ajudemos os suecos e todos os euro-americanos que entopem as ruas
de automóveis, desaprenderam a conversar para olhar a televisão e de bom
grado trocariam a liberdade por mais douradas gaiolas; consideremos os
Vilas Boas como os mensageiros que a eles vêm dos índios e lhes aconse-
lham outro rumo de vida que os leve menos ao estupefaciente, ao psiquia-
tra (que mais louco é às vezes), ou ao suicídio, que se faz de várias formas,
incluindo o desastre e a guerra; e consideremos que conceder-lhes o prémio
significaria que foi ouvido o recado e que vão ser lançados índios e suecos
no caminho mais certo: o de irem ao encontro uns dos outros, como acon-
teceu com os portugueses do descobrimento, juntando as ferramentas que
fabricam mundo à rede que no mundo nos balança; juntando à realidade
o sonho; juntando à ciência o mito. – “Sobre Índios e Suecos” (1971), in
Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II, p. 107.

“(...) os índios não são de modo algum os selvagens das concepções vulga-
res, mas pelo contrário homens que, pelo seu senso integral da vida, pelo seu
apuramento estético, pelo seu comportamento como ser social, têm prova-
velmente muito mais que nos ensinar a nós, com nosso existir fragmentado,
nosso critério de utilidade e nossas diárias brutalidades, do que têm eles que
aprender connosco, ressalvada naturalmente a introdução das técnicas que lhes
podem aplanar muitas das dificuldades que encontram” – “Três vezes se diria...”
(1971), in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II, p. 145.

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agostinho da silva – uma antologia

Em primeiro lugar devemos esclarecer aquilo em que claramente acre-


ditamos, porque é possível que estejamos somente a seguir, que nem car-
neiros, acanhadamente, os caminhos que nos foram abertos pelas nossas
famílias, igrejas, partidos políticos, pelas maiorias do nosso país e socieda-
de, ou pelas nossas próprias confusões. Não precisamos de ter uma meta-
física muito complicada porque, se alguma vez conhecermos a verdade
última, ficaremos talvez surpreendidos por reconhecermos que foi fácil e
que as teorias dos nossos pensadores eram uma poesia bela sobre a Verdade,
mas não a Verdade. Ou talvez reconheçamos que a Verdade é somente para
o silêncio. Devemos acreditar em nós próprios, nos nossos irmãos e numa
ordem do mundo escondida e cheia de significado. Talvez haja alguém
que pense que é demasiado. Eu acho que é suficiente – “Os três dragões”
[1972], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 212-213.

[…] resumiríamos isso de Humanidade primitiva, dizendo que bandos


de homens, mulheres e crianças vagavam por um quase deserto planeta,
sem horários nem grades, sem ideia de direitos e de deveres, sem talvez nem
laivos de transcendente, mas pondo já suas flores de despedida ou votos de
bom porto sobre o corpo dos mortos, alimentando-se os vivos do que iam
encontrando e tendo sempre comida renovada e fresca, já que estava a seu
dispor toda a extensão da Terra. Idade de Ouro – é curioso caracterizarmos
o que foi pelo que sempre apareceu precioso pelas suas qualidades físicas
e hoje no combate à inflação – se chamou a uma vaga lembrança alterada
e embelezada por poetas – ou Paraíso Terreal, bem tocado de seu celeste,
é o nome próprio ou heterónimo, e, como para todos os heterónimos, a
pergunta fundamental, de tão difícil resposta, é heterónimo de quê?, dessa
primeira época de nossas aventuras na Terra. Todos felizes, ao que se crê,
o que aparecia oferecido pela Natureza se consumia, e se passava adiante.
Ninguém mandava, embora se ouvisse, como é de aceitar, a experiência
dos mais velhos, e não assim tão velhos, porque se vivia pouco. Mulheres
e crianças não tinham estatuto algum de subordinação e ninguém aparecia
a defender direitos de propriedade. Se havia cão a acompanhar o bando, o
fazia por curiosidade ou amor ou casual solidão de algum poeta de quatro
patas. Com a sempre renovada abundância ninguém pensava em poupar e

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cultura, civilização, história, arte e vida

só bastante mais tarde apareciam os vasos de barro ou os trançados cestos,


antecessores longínquos de nosso sistema bancário, agora, como se sabe,
ameaçado de falência internacional: as portas do futuro se abrem às vezes
em alvoradas de catástrofe.
Tudo poderia ter durado se a vida dos homens fosse eterna ou se a
reprodução já obedecesse estritamente a critérios de estatística chinesa.
Não era, porém, o que sucedia e tanto foi aumentando a população que
cada vez tinha o grupo menos âmbito a seu dispor: houve a primeira linha
de proibição para outros homens, houve alguém a guardá-la com sua pedra
ou seu capacete ou, nos intervalos de ausência, seu obediente cão de sólido
dente à mostra, o qual cão ainda um dia teria de aprender a farejar explo-
sivos ou droga; percebeu a mulher que tinha de obedecer a seu marido – e
sorte quando era só um –, guardando para bem mais tarde a revindic-
ta; tomaram as crianças o caminho da escola, tiveram de aprender não
aquilo de que gostariam, mas o que gente cada vez mais distante achava
necessário e, em lugar da liberdade de fazer perguntas, foram submetidas
à aprendizagem das convenientes e sociais respostas; surgiram os bancos,
os economistas e os ministros das Finanças, todos iluminados de estra-
tégias pelas quais geriam muita basilar ignorância de nós todos; pareceu
a quase todos que tudo se sanava tendo audácia, tendo prestígio, carro
maior do que o vizinho do lado; só que tudo por vezes desabava, comido
pelo bicho interno da progressiva supressão da liberdade, mesmo que ela
estivesse exarada em Constituições; sufocou-se no ter a maravilha do ser. À
Humanidade de ouro se substituía, quando muito, uma escravidão apenas
dourada. Escravidão de gente, de plantas quase só com direito de nascer o
que fosse considerado útil, escravidão de bicho e, agora, com o robótico,
escravidão de metal e energia, que também metal é, talvez a pior, a mais
destrutiva de todas as servidões, pois que de escravos sem consciência, e só
quando há consciência há esperança – “Prefácio de Regresso ao Paraíso, de
Teixeira de Pascoaes” [1986], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 368-369.

A tradição mais profunda é a que vem da pré-história: noção alguma de


propriedade; nenhuma instituição do sagrado; acordo sim, chefia não; de
escola nem sinal” – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 157.

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agostinho da silva – uma antologia

Não creio que uma sociedade que confortavelmente se admira se possa


transformar a si própria; advenha o bárbaro que a inveja e, porque a inve-
ja, a destrói e se destrói; nem a satisfação nem a inveja são criadoras –
Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 164.

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9. SOCIEDADE, POLÍTICA, ECONOMIA

Se é no plano social, político e económico que mais facilmente se eviden-


ciará o sentido revolucionário e radical do pensamento agostiniano, ele decorre
natural e mais profundamente da sua espiritualidade e da sua ética. Pensador
libertário enquanto pensador da libertação, em todos os seres, humanos e não
humanos, bem como no próprio mundo natural e no universo, da sua oculta,
esquecida e oprimida natureza divina, pensador da emancipação de todos os
limites, idealiza o regresso das sociedades humanas à comunhão divina e cós-
mica, vê na política uma oportunidade de descentramento ético, de desenvol-
vimento da consciência e de progresso na santidade, proclama a necessidade de
se ultrapassar a noção de propriedade – individual ou colectiva, capitalista
ou socialista, de coisas, pessoas, animais, da Terra ou de si próprio –, numa
experiência de despojamento total, segundo o modelo evangélico e uma sua
leitura que, além de alimentada por outras tradições, como as orientais, colhe
muito de São Francisco de Assis e dos franciscanos espirituais. Todavia, a par da
tentativa de ser o primeiro exemplo da realização de tais ideias (como aconteceu
na comunidade alternativa que criou, com a família e amigos, no Brasil, em
Itatiaia, no final dos anos quarenta) e atento à necessidade de um progresso gra-
dual, em termos colectivos, em direcção a este fim, exorta à participação activa
nos desafios e tarefas da vida política, porém fora das estruturas partidárias, as
quais, sendo fruto, como adverte na designação de “partidos”, da fragmentação
e da parcialidade, e limitadas pela ideologia e o apetite do poder, pela incom-
preensão e ódio ao adversário e pela demagogia manipuladora, tendem sempre
a sacrificar o bem comum a estreitos interesses particulares e de grupos.

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agostinho da silva – uma antologia

Na verdade, como declarou, um dos seus grandes motivos e ­preocupações foi


sempre a política, no sentido de uma organização global do mundo visando o
bem e o cumprimento do sentido superior da existência e da vida. Neste sen-
tido foi um dos escassos representantes contemporâneos da chamada “Grande
Política”, que pensou a nível planetário, perscrutando sempre o rumo e sentido
dos acontecimentos históricos, mas que via necessariamente radicada nas rela-
ções mais íntimas de cada homem consigo mesmo e com os seus mais próximos.
Daí que, sobretudo no final da vida, tenha proposto e inspirado, para a reno-
vação mental, social e política do futuro, a sua antecipação em pequenas comu-
nidades alternativas e paralelas à decadente sociedade instituída – designadas
por exemplo como “Conventos Sonho” ou “Impérios” dos “Irmãos Servidores”,
por inspiração no modelo monástico e nas confrarias do culto popular do
Espírito Santo –, que possam ser o embrião recriador, a partir de dentro e
em obediência a valores espirituais e éticos, de um tecido social mais vasto,
verdadeiro e são. Tal como outrora, nas invasões “bárbaras”, foi nos mosteiros
que se preservou o património espiritual e cultural que haveria de civilizar o
próprio “bárbaro”, seriam agora estas micro-comunidades, enquanto a actual
civilização degenera em barbárie, a preservar, acalentar e desenvolver o germe
do mundo novo por vir.

É ilusória toda a reforma do colectivo que se não apoie numa renovação


individual; ameaça a ruína a todo o movimento que tornarem possível a
ignorância e a ilusão – “Quanto aos noviços”, Considerações [1944], in
Textos e Ensaios Filosóficos I, 1999, p. 114

Não defendo este partido, nem o outro; se ambos diferem à superfície


e podem arrastar opiniões, aprofundemos nós um pouco mais e olhemos
o substrato sobre que repousa a variedade; o mundo das formas levanta
oposições que se desfazem à luz do entendimento; […]
Que vejo de comum? O rebanho dos homens, ignorantes e lentos no
pensar, que se deixam arrastar pelas palavras e com elas se embriagam; nos
mais altos, a fuga das responsabilidades claramente assumidas, a recusa ao
sacrifício de tudo ante a ideia, a disposição para manejarem a bondade e o

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sociedade, política, economia

heroísmo dos outros, o imoderado apetite do poder, o ódio cego ao adversá-


rio que procuram vencer por qualquer meio; a alimentar o fogo da acção as
mesmas confusas noções, as mesmas frases de catecismo branco ou vermelho,
os mesmos ritos, as mesmas superstições – “O Terceiro Caminho”, Diário de
Alcestes [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 216-217.

Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número


dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se
mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos não porque tenham
este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos
e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam,
sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de
um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo
defendem o direito de pensar e de ser digno – “O Terceiro Caminho”,
Diário de Alcestes [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 217.

[…] a democracia cometeu, a meu ver, o erro de se inclinar algum tanto


para Maquiavel, de ter apenas pluralizado os príncipes e ter constituído em
cada um dos cidadãos um aspirante a opressor dos que ao mesmo tempo
declarava seus iguais. […] E de facto, o que se tem realizado é, quase ­sempre,
um arremedo de democracia sem verdadeira liberdade e sem verdadeira
igualdade, exactamente porque se tomou como base do sistema uma relação
do homem com o homem e não uma relação do homem com o espírito
de Deus. Por outras palavras: para que a democracia se salve e regenere é
urgente que se busque assentá-la em fundamentos metafísicos e se procure a
origem do poder não nos caprichos e disposições individuais, mas nalguma
coisa que os supere e os explique, aprovando-os ou reprovando-os. O indiví-
duo passaria a ser não a fonte mas o canal necessário ao transporte das águas;
nenhuma autoridade sem ele, nenhuma autoridade dele – “Democracia e
Poder”, Diário de Alcestes [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 228-229.

28. A transformação das condições económicas do mundo não é mais


do que uma racionalização das condições de produção e distribuição;
ao mesmo tempo é a afirmação feita por cada homem de que perdeu o

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agostinho da silva – uma antologia

seu egoísmo. A propriedade privada e a propriedade colectiva, legais num


momento do mundo, não se compreendem agora ou dentro em pouco e
perturbam o homem. Para o homem feliz, unido a Deus, não pode haver
senão um regime de não-propriedade, seja qual for o domínio considerado
(bens materiais, animais, mulheres, crianças).

29. A política não é essencial no mundo; é agora um estádio neces-


sário e passageiro. – Alcorão (1947), in Presença de Agostinho da Silva no
Brasil, pp. 70-72.

(...) economias, políticas e escolas são apenas instrumentos mais ou


menos cómodos ou mais ou menos adaptados às tarefas que se tiverem em
vista; e se o objectivo for economia, política ou pedagogia, e não o homem
nas suas relações fundamentais com Deus e por aí com os outros homens,
o risco que se corre é o de olhar a Humanidade como um meio e não como
um fim; acaba por se ter gente para servir um sistema, não um sistema para
servir gente: ou melhor, para a capacitar ao serviço de Deus. – “Condições
e missão da Comunidade Luso-Brasileira” (1959), in Presença de Agostinho
da Silva no Brasil, p. 123.

Não temos nada que abolir escravos se isso significa que ninguém
ficará com tempo livre para coisa alguma que não signifique assegurar a
­subsistência. O que temos é de inventar escravos que nos não ponham, tra-
balhando para nós, problemas de consciência. E os inventamos pelo sacri-
fício, consentido ou não, de milhares de homens em milhares e milhares
de gerações; as máquinas que hoje temos à nossa disposição não são mais
do que escravos de aço que só esperam que tenhamos mais um lampe-
jo de ­inteligência, libertando-nos de sistemas económicos quase inteira-
mente superados, para os podermos utilizar a pleno rendimento – “Sobre
Escravatura”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 19.

Tantas e tais coisas se tem cometido naquilo a que se convencionou


chamar o campo da política, e que não é, grande parte das vezes, mais
do que uma livre carreira deixada a todos os impulsos da ambição ou do

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sociedade, política, economia

desejo de domínio, que hoje, aos olhares da maior parte das pessoas, a
política aparece como alguma coisa inteiramente afastada dos caminhos da
santidade. É como se, considerando-se o Santo como inteiramente conver-
tido aos planos de Deus, se pusesse o político como inteiramente virado
por seu turno para os planos do Demónio – “Política e Santidade”, As
Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 21.

Pois é isto exactamente o que fez a essencial grandeza de S. Luís, de


Lincoln ou de Gandhi. Que se recusaram a separar um plano do mundo
do outro plano do mundo; que se recusaram, com uma exemplaridade
humana pela qual nunca lhes ficaremos suficientemente gratos, porque
nada há de mais raro no Universo do que exemplos de não-especialismo,
a ser apenas ou políticos ou santos, como provavelmente o tiveram em
certo momento da carreira ao inteiro dispor; quiseram ser as duas coisas e
o foram; e em lugar de resultar daí, como seria de esperar do que em geral
se diz de enciclopedismo e de especialismo, que fossem medíocres num e
noutro campo, o que resultou foi que o serem santos os ajudou a serem
políticos e o serem políticos lhes deu mil ocasiões de se mostrarem santos.
Seria cair no absurdo de supor que não há lógica no mundo ou que
tudo se passa como se a vida total do Universo estivesse dividida em
dois compartimentos; aceitar que se tem de escolher entre a santidade
e a política. Nada existe de pensável que não arranque sua origem de
uma origem comum a tudo o outro que de pensável exista; floresce
por terra e céus um jardim cuja raiz é a mesma; o que se faz por um ou
outro lado, por mais diferente que pareça, não é senão aspecto diferente
da mesma essência e da mesma existência de Deus. Se a política é, no
fundo, a acção para que os homens na sua totalidade possam santificar-
-se, a santidade é a mesma luta para que o mesmo ideal se atinja dentro
em nós. São as duas frentes em que se combate, basilarmente, contra
as mesmas hostilidades ou as mesmas indisposições do mundo físico. E
contra os mesmos involuntários inimigos. Quem se me opõe no campo
de batalha, aí está por uma carga muito mais pesada do que imagina,
em virtude de fatalidades físicas suas, por exemplo, a de ter nascido
naquele país e não noutro, naquela época e não noutra; em virtude

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agostinho da silva – uma antologia

de fatalidades históricas que séculos sem número lhe jogam sobre os


ombros; e talvez por uma outra fatalidade: a de por inteligência ou por
educação não ter compreendido que outras possibilidades havia além
da luta. E, quando a batalha é no coração do homem, aí se encontram
presentes as mesmas fatalidades do momento e do lugar em que nasceu,
da história individual e da história colectiva, de constituição física e
de se não ter, quantas vezes, visto que eram diferentes os caminhos. Só
que, num caso e noutro, e isto é essencial para nos distinguirmos de
quem pensa errado, nós podemos, pelo uso de nossa liberdade, superar
esse involuntariato, podemos não aderir ao que nos  cerca; podemos
recusar-nos ao Diabo.
E não se julgue que se defende a ideia de um homem que, sendo Santo,
faz política ou que, sendo político, se encaminha à santidade. O que se
quer é a totalidade de um homem em potência lutando pela totalidade
do homem em acto; o ser batendo-se pelo seu direito de ser; e continua-
mente protestando, pela cuidadosa observância dessa sua unidade e dessa
sua totalidade, contra os que vêm e, segundo as velhas artes demoníacas,
de novo querem separar o que se viu unido. O mal não se introduziu no
Paraíso e daí ao mundo pegando juntos homem e mulher; para os bater os
separou. E, quando aparecem as ideias de deixar a política para os políticos,
e cuidarem os santos de sua salvação, aí temos de novo a Serpente pronta
a tentar perder. O que não quer dizer, evidentemente, que seja a única
política possível a de grupos e de partidos; e que seja nessa que tenha de
intervir o santo. Muito ao contrário se me afigurariam as coisas; a política
do santo ou, para nos mantermos dentro da ideia e do vocabulário que
melhor nos pareceu, a acção do homem que seja ao mesmo tempo santo e
político, essa se deve exercer num campo em que se unam todos os grupos
e em que todas as nações sejam uma nação.
No fim de contas já é tempo de que a atitude a tomar seja uma atitude
de conjunto e não uma atitude de fragmentação. Demasiada tendência
temos nós tido, levados por interesses, por impulsos, e pelo tal peso das
fatalidades, para ingressarmos num grupo contra outro grupo, para nos
alistarmos naquela política de cabila que em geral encontramos por todos
os países da Terra. Chegou a hora de irmos por um caminho inteiramente

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sociedade, política, economia

diferente e em que percamos muito menos tempo a discutir a teoria,


embora ela deva estar continuamente presente ao nosso espírito e embora,
sinal supremo dessa atitude de política, estejamos dispostos a substituí-la
por outra que se nos demonstre mais verdadeira. Mas o que vai decidir
tudo é a própria acção. É necessário que surjam no mundo, a exemplo do
que foram os frades-soldados da Idade Média, frades-políticos, homens
que, imolando tudo o que lhes é estritamente pessoal nas aras do geral,
não queriam terras separadas do céu, nem céus separados da terra, mas
sempre e sempre e sempre os dois unidos no mesmo esplendor de frater-
nidade, de paz e de bem-aventurança. Não se suponha, porém, que isto se
fará falando ou escrevendo ou pensando; isto se fará fazendo. E fazendo
pela não-intervenção absoluta na política de grupos; pela escolha, para
governantes, de homens e não de legendas; pela atenção aos problemas
locais e imediatos e não só aos planetários e futuros; e, como base de tudo,
pela conquista e domínio de si mesmo, através do caminho único que têm
apontado a experiência e os séculos: o caminho da ascese mais rigorosa
e absoluta, da oração contínua e do amor aos homens em Deus e por
Deus” – “Política e Santidade”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, pp. 22-24.

De qualquer modo, mesmo com o melhor dos caracteres, a mais pura


das motivações, a verdade é que se vai para a política […] com a intenção
de representar um papel, de exercer uma acção, de moldar os outros. Talvez
não fosse absurdo pensar no que sucederia se, em lugar de tudo isso, se
entrasse na política com a ideia de perguntar o de que precisa o mundo,
o que pedem os homens à volta; com a ideia de sofrer uma paixão mais
do que exercer uma acção; com a ideia de se moldar a si próprio antes
de imaginar qualquer escultura sobre os outros. Manter a alegria durante
a actuação política, manter a confiança no melhor dos outros e o amor
dos outros, encontrar a fonte perpétua de energia, exige que o político ao
entrar em cena faça ao mesmo tempo o abandono de si próprio, o que é
mais comum em política do que muitos julgam, e o abandono da ideia
de que vem fazer qualquer outra coisa senão estar à disposição de Deus,
para que Deus, no grande abrasivo que são os homens no seu conjunto e

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agostinho da silva – uma antologia

agindo no conjunto, o liberte das asperezas de nascimento que são grande


empecilho para entrada nos céus. Servindo como deve, o homem ­público,
na realidade, se vai servir: os obstáculos perante os quais se ponham todas
as ideias menos a de desistir serão as suas melhores oportunidades, as vitó-
rias serão o seu maior perigo; as censuras terão sempre razão, porque a si
próprio se terá de reconhecer como muito pior do que os outros o supõem,
os aplausos provirão sempre de um engano e serão sempre o sopro incen-
diário sobre a centelha de pecado que mais tempo leva a apagar-se, a do
orgulho” – “Fadiga Política”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 62.

[…] em política não há adversários: há colaboradores com outra opi-


nião – “Bárbaros à Porta”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 65.

Sustento o seguinte: que, enquanto se é dono de alguma coisa ou ani-


mal ou pessoa, e muitas vezes temos que o ser para que cumpramos o
nosso dever social, estamos dificultando o nosso entendimento com Deus,
estamos impedindo que a sua vontade plenamente se revele. Pondo a ideia
de uma forma dura e rápida: quem tem, não é. E é, entre outras razões, por
não terem, que são possíveis os santos e que, apesar de todos os desvios,
são ainda as ordens religiosas o sal da terra – “Sistemas de Economia”, As
Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 87.

Sob o ponto de vista de verdadeira humanidade, a existência de pro-


prietários e a existência de assalariados são impedimentos a que se realize,
como empreendimento colectivo, o Reino de Deus. É, no fundo, uma
guerra: e guerra impeditiva naturalmente da profunda paz a que aspira
a nossa natureza” – “Sistemas de Economia”, As Aproximações [1960], in
Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 87.

[…] a guerra económica, a competição subjacente ao capitalismo


são um sentimento e uma atitude e uma situação inteiramente opostas
à fraternidade do catolicismo. A possibilidade de uma economia sólida,

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sociedade, política, economia

abundante e livre para todos os homens é uma condição indispensável para


que o catolicismo se estabeleça na Terra em toda a sua plenitude.
A máquina socialista, porque é a melhor máquina económica que existe,
pode, portanto, servir ao catolicismo e tem este que, t­omando-o inteira-
mente para si, não em nome de considerações racionalistas ou humanitárias,
como o fazem os socialistas, mas em nome da vontade de Deus, fazer dele
um dos seus instrumentos de domínio da Terra, isto é, da sua c­ aminhada,
lenta, longa e difícil para os reinos divinos – “Socialismo, Comunismo,
Catolicismo”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 92.

[…] a ideia, que vem do Evangelho, de que a liberdade económica


é essencial para o homem; de que nem contemplação nem louvor de
Deus, nossa missão primacial, são possíveis se estamos preocupados com
os problemas de organização económica da Terra, com os problemas de
n­ossa sobrevivência; de que só, não uma propriedade colectiva, como se
costuma dizer, mas uma não-propriedade pode assegurar quadro eficiente
de s­antidade, como se tem demonstrado com os viveiros de espirituali-
dade que têm sido as ordens religiosas – “Comunidade”, Só Ajustamentos
[1962], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 101.

De todos os hábitos a que nos entregamos, um reina sobre todos os


outros no que se refere a malefícios quanto ao mundo futuro. É o hábito
de ter chefes. O medo das responsabilidades, o gosto de se encostar aos
outros, o jeito mais fácil de não ter que decidir os caminhos fizeram que
a cada instante lancemos os olhos à nossa volta em busca do sinal que
nos sirva de guia. Quando surge uma dificuldade de carácter colectivo, a
primeira ideia é a de que devia surgir um homem que tomasse sobre seus
ombros o áspero martírio de ser chefe. Pois bem: pode ser que isto tenha
trazido grandes benefícios em outras crises da História; nem vale por outro
lado a pena saber o que teria sido a dita História se outras se tivessem
apresentado as circunstâncias. Mas, na presente, a verdadeira salvação só
virá no dia em que cada homem se convencer de que tem que ser ele o seu
chefe. Ou, dentro dele, Deus” – “Obstáculos”, Só Ajustamentos [1962], in
Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 144.

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agostinho da silva – uma antologia

Diria o Espírito, se a esta matéria o chamássemos como criador, que só


a nenhuma ideia de propriedade está de acordo com Ele e que já o disse
Cristo para que o ouvisse Atlântico e já o disse Buda para que o ouvisse
o Pacífico. A propriedade individual destrói o homem porque o torna
um escravo do que possui e o corrompe pelo poder que lhe dá sobre os
outros homens; a propriedade colectiva não corta as desconfianças, qual-
quer que seja a forma que se adopta, e talvez exija, para que funcione,
mais polícias burocráticas do que a individual; deixa-se de ser escravo
de gente, a uma e uma, mas não é seguro que se deixe de ser escravo de
repartições em que a gente se agrega; desaparecem a fome, a doença, o
desabrigo, mas há que pôr no outro prato da balança o ter de se seguir a
opinião dos chefes, já agora gerais, não de empresas que, parceladas, me
permitem passar de uma a outra, e o ter de se temer a acção das secretas.
Mas não é este o problema a que o Espírito vem, o que perante Ele per-
guntamos é como passaremos de qualquer das pontas de alternativa ao
não haver dono de coisa alguma, para além dos donos de uma parte ou
dos donos do todo; ou, por outra pergunta, como nos será possível atingir
o estádio em que nenhuma propriedade será de nenhum proprietário,
em que volveremos, ricos, de humanidade e de experiência, a um dos
pontos em que a separação se fez. Nos responderá talvez que primeiro
deve vir a imaginação criadora, depois a ordenadora, que temos de ver
um futuro tempo em que todo o produto manufacturado, pelo emprego
das fábricas automáticas, não exigirá de ninguém trabalho involuntário e
seja tão natural, tão abundante e tão livre, como eram para os colhedores
de alimentos as raízes e os frutos e como é hoje o ar que se respira; um
dia, nenhum objecto de vida, nenhuma das máquinas de existir obrigará
ninguém a nenhum esforço e a sua abundância não obrigará ninguém
a fabricar nenhum daqueles sistemas económicos que significam apenas
uma luta contra a escassez. O homem passará da sua condição artificial e
diabólica de produtor à condição natural, e por isso divina, de consumi-
dor; da batalha de egoísmos individuais que é o capitalismo se passou em
nosso tempo à batalha de egoísmos colectivos que é o socialismo, quer a
luta se dê no plano mesquinho das empresas colectivas de uma Jugoslávia,
quer no plano que abala o mundo do acrimonioso diálogo de chineses e

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sociedade, política, economia

russos; talvez ainda em nosso tempo se possa ir de qualquer destas guerras


à paz dos deuses que a automação nos deverá trazer – “Ecúmena” [1964],
in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 195-196.

Conviria talvez que se experimentasse desde já um outro sistema, o


de não haver partido algum. Partidos são sempre máquinas de agir e o
que estava ao princípio não era a acção, mas o deleite das relações lógi-
cas e o deleite da linguagem quanto possível matemática em que elas se
­exprimem. No partido, a intensa opinião se fragmenta e apuramos aqui-
lo em que diferimos dos outros homens, não aquilo em que lhes somos
irmãos; g­ uiamo-nos por um ser geral que nos supera e por ele nos subs-
tituímos; vive em nós a tribo, muito mais do que a humanidade. Mas é
num mundo de partidos que vivemos […]; não temos portanto outra
possibilidade senão a de aceitar o jogo tal como ele se põe, exactamente
como partimos de uma economia capitalista ou socialista para a econo-
mia da automação. O melhor será que não pertençamos a partido algum,
porque a política não é uma essência de ser, como a religião, a ciência ou
a arte, nas quais todos deveríamos estar: é uma pura fatalidade histórica,
como a economia, ou a administração, como também a medicina ou a
engenharia; que não pertençamos a nenhum dos partidos plurais e que
não estejamos em nenhum partido único ou no seu, ou seus, contrários.
A nossa acção, quanto a eles, tem de ser dupla: a de tentar que a cada
momento, pelo que somos de capacidade de pensar libertos, influamos
a sua liberdade, na sua largueza de entender e na sua generosidade de
proceder; e a de, no momento de escolha, e no partido único a escolha é
sempre abstenção, quer ela apareça ou não nos resultados oficiais, irmos
por aquele que mais de acordo esteja com o que pensarmos e, sobretudo,
com o que formos. Bom seria, por outro lado, que se defendesse o direito
de se intervir na política, de se fazer política, sem pertencer a partido
algum, criando-se condições eleitorais em que as máquinas partidárias
não tivessem que entrar, nem se tivesse que pertencer ao governo para
triunfar junto do povo. Uma política sem partidos, nem sequer o único,
é a condição indispensável para que o Reino se instaure e para que, ins-
taurado, seja. Acima de tudo, combatemos o que separa: e não são as

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agostinho da silva – uma antologia

opiniões individuais, mas as opiniões de grupo, o que realmente sepa-


ra homem de homem; arregimentados, nos perderemos no melhor que
temos: o ser irmão do mundo – “Ecúmena” [1964], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, pp. 199-200.

Talvez se devesse começar por discutir o problema da guerra e do seu


papel nas sociedades, já que se está hoje bastante longe de ver a guerra como
consequência da maldade do homem ou das condições económicas a que
tem estado sujeito, pondo-se a hipótese de que ela seja um dos elementos
essenciais de manutenção de uma sociedade, alguma coisa como uma litur-
gia da morte ou um sacrifício humano em grande escala ou um supremo
confronto com o existir. Mesmo que assim seja, é a Paz que se tem de pôr
como ideal, já que é possível pensar que há diferença entre grupo huma-
no organizado segundo determinadas normas para alcançar determinados
fins; Adão e Eva no Paraíso, contemplando a Beleza do mundo, ou sendo,
indistintamente, do mundo e de Deus, a Beleza em si, constituíam um
grupo humano; expulsos pelo Arcanjo, com Adão caçando e Eva porventu-
ra fiando, são uma sociedade, provavelmente já com suas guerras para que
a união seja viva e se mantenha, do que Ovídio mais tarde dará resumo e
testemunho quando escreve que o zangarem-se amantes é reafirmar-se o
amor. Mas o Paraíso se reconquista, o que Milton viu; e no Paraíso, pelo
reconhecimento da unidade perfeita, não serão necessárias as iras do amor.
Se o ideal último do Português é reconquistar o Paraíso e entrar naquele
despojar-se de espaço e tempo a que Luís de Camões preludiou com a Ilha
dos Amores, serão dispensáveis as guerras e terão sido os melhores militares
os que têm visto a sua missão como sendo essencialmente a de manutenção
da Paz, para que o mundo se vá construindo, não os que são tentados pelas
aventuras ou pelos lucros das guerras – Educação de Portugal [1970], in
Textos Pedagógicos II, p. 131.

Veja pois o Povo como seu mestre e guia a Criança que toma para seu
Imperador e saiba esta, pelo saber infuso que não vem dos livros ou pelas
estruturas do espírito que do mistério traz, que só se pode imperar quan-
do se serve e que ministro algum é bom quando uma e outra vez se não

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sociedade, política, economia

repete a si mesmo que lhe vem o nome de valer “minus” ou menos e que
pertence o magistério aos outros, os que são “magis” ou mais”; afinal, por
ambos servirem e mandarem, não sirva ou mande qualquer deles, e sejam,
plenos, gente, que não se fez para servir ou mandar; mas para ser larva de
Deus; que oxalá crisalide e voe – Educação de Portugal [1970], in Textos
Pedagógicos II, p. 145.

(...) que se vá para além das soluções económicas que prevêem pro-
priedade colectiva e se ponha como ideal que não haja propriedade algu-
ma de ninguém, nem do geral, e sejam campos e matos e plantas e bichos
tão plenamente livres como o tal Espírito que sopra onde quer: o que
desejamos e precisamos do mundo nos seja dado, não arrancado a ferros;
(...) que se tenha quanto a governos o desejo de que os que, por esta ou
aquela circunstância, tomam sobre si tão pesados e preciosos encargos
deles se vejam livres o mais depressa possível e ninguém se reja a nin-
guém, nem sequer a si próprio; e (...) mais que tudo que, pela liberda-
de económica e pelo desaparecimento da política, Deus se veja, por um
autêntico ecumenismo, finalmente livre de suas igrejas particulares e só
tenha para o adorar a universal Igreja de todos os seres. Isto tudo se dirá,
como é evidente, utopia loucura: sinal de que algum dia será realidade
e juízo. – “Originalidade Portuguesa” (1970), in Ensaios sobre Cultura e
Literatura Portuguesa e Brasileira II, p. 29.

Há, porém, teologias que parecem tornar possível pensar os nossos con-
ceitos habituais de Deus e de Diabo como dois aspectos diferentes de uma
mesma Unidade que, por o ser, foge a todas as nossas redes lógicas; não
estariam, portanto, as acções demoníacas fora de uma Providência mais
geral do que aquela que é comum conceber-se. No caso presente, diríamos
que, talvez, sem a introdução e florescimento do capitalismo, não pudesse
a Humanidade ter sobrevivido ao aumento gradual da população e, por
conseguinte, à diminuição de território de subsistência disponível para cada
grupo e não pudéssemos ter hoje à nossa disposição, teórica ou ­praticamente,
os meios necessários para nos libertarmos de todas as tiranias das forças
naturais e, pela conquista da nossa liberdade, podermos reconduzir também

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agostinho da silva – uma antologia

à sua liberdade as plantas e os bichos. Até o ar atmosférico, que parecia ainda


o mais livre, já que o respiramos sem contador de metro cúbico, se vê agora
vítima das nossas poluições, as quais são tão graves que já hoje preocupam
por todo o lado os príncipes do mundo, inclusive aqueles para os quais não
tem importância alguma a poluição dos espíritos – “Sobre Índios e Suecos”
(1971), in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II, p. 101.

Talvez o ser a democracia etimologicamente o governo do povo não


implique que seja ela o governo da maioria, embora se deva tratar sempre
de saber o que deseja a maioria, tornando-a o menos silenciosa possível,
quer como sensibilidade quer como palavra; é, por outro lado, seu sentido e
seu cumprir-se incompatível com governos de minoria: uma hipótese para
livrar da dificuldade seria a de que um governo verdadeiramente democrá-
tico seria aquele que, fora da batalha, firmemente convencido de que avan-
ça o mundo pelo total de sua gente e com tanto apreço por uns como por
outros, a todos vendo como criatura de Deus, se deixasse de ser ou querer
ser brilhante, decisivo e supremo e se entretivesse tecendo compromissos
entre uns e outros; sem representar nem maioria nem minoria, mas o em
que elas coincidam e às vezes se não vêem, mas que é finalmente espinha
dorsal de uma história a fazer-se; governo democrático seria, idealmente,
um governo de santos e filósofos, firmes no bem dos outros, não no seu,
pessoal ou de grupo; santos de vontade também, que realmente o têm sido
todos, em todas as religiões; e sábio, igualmente, dos saberes da terra, cien-
tífico as técnicas (sic), que quase sempre têm estado fora das preocupações
dos santos e de muito filósofo – “Três vezes se diria...” (1971), in Ensaios
sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II, 2001, pp. 146-147.

(...) seria o ideal que principiássemos nós por não distinguir entre
nacional e estrangeiro (...) – “De Xingu e seus índios” (1971), in Ensaios
sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II, 2001, p. 157.

Haja o que houver, seja qual for o regime, por maiores que sejam a cor-
dialidade e a liberdade, está o povo sempre do lado que apanha, do lado de
cá das mesas de exame e do lado de fora dos postigos burocráticos; do lado

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sociedade, política, economia

do cérebro desempregado, do coração prisioneiro, do estômago insatisfeito.


O objectivo final, portanto, é o de que não haja povo, de que não haja dife-
renças económicas, nem culturais nem sociais: do que são sinónimos, nos
vários dialectos, sociedade sem classes, reino de Deus, acracia ou anarquia,
e até o Quinto Império, do Vieira a Pessoa – Pensamento em Farmácia de
Província, 1 [1977], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 355.

Quem sabe se. É de boa prudência ir acumulando hipóteses nos armazéns


do futuro, sabendo-se de antemão que sai quase sempre realizada aquela
que nem por sombras tinha acudido ao arquitecto destes casos a ser. Tem
o mundo ou o que ou o quem o governa não no sentido de mando, e sim
no de dar leme a barco, – mais saber ou imaginação que cada um de nós.
Mas, apesar dos desacertos, tentar é excelente. Pode ser, por exemplo, que
Portugal um dia se tenha de reorganizar, para que enfrente uma primeira
parte do que lá para trás lhe ficou sem concreto; nem que seja, mas creio
que o não será, para assistir aos feitos, já só deles, de seus filhos brasileiros
ou africanos. Talvez principie pelo basilar e peça que as aldeias escolham
os seus melhores, um para que fique de regedor, outro ou outros para que,
juntamente com outras aldeias, organizem a freguesia, e que ela, por elei-
ção entre os eleitos, mande seus delegados a constituírem o concelho, feito
este segundo a conveniência dos vizinhos e não por fantasias de um soba de
Lisboa que talvez nem corografia saiba. São os enviados destes concelhos
que terão de se reunir em Cortes, de ouvir de quem saiba, na primeira
linha os da Geografia, como deverão ser as regiões e as propor. A quem as
propor? Ao que logo de início tiverem escolhido como primeira figura do
Estado, Presidente lhe chamem ou Rei, vitalício enquanto tiver vida que
sirva, e que escolherá seu Conselho de modo a contemplar: as organizações
de trabalho, que esperamos já não incluam patronato algum, tudo patrão
de si próprio; as de cultura, com saberes, artes e igrejas, inclusive a dos
ateus; as que tenham por principal ocupação os caminhos políticos, isso
mesmo, aquelas a que hoje chamamos de partidos, Conselho que transfor-
mará em leis as propostas das Cortes, designará ministros que não sejam
seus membros, será juiz da vitalidade do Chefe do Estado, indicará quem
a seu parecer o poderia substituir – mas que o decidam as Cortes – e a

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agostinho da silva – uma antologia

elas convocará regularmente para que ouçam relatório do feito, aprovem


ou reprovem, proponham o que queiram e a ele próprio o varram se tal
lhes parecer bem. Tudo pode ter antes um tal descalabro que as primeiras
Cortes sejam de dois ou três concelhos: pelo mesmo ou menos princi-
piou Portugal e se estendeu a todo o mundo físico; talvez pelo idêntico
tenha de passar para que a reinos de Espírito, que outros não queremos, se
eleve então. No que já tarda – 82: Semanário do mês de Santiago o qual lhe
­aparecendo pensado compôs em linguagem Agostinho e assim o enviou a seus
Amigos [1982], in Dispersos, p. 746.

Quando hoje se diz que o que é preciso é manter o subsídio de desempre-


go, não estou de acordo, porque acho que o que é preciso é criar um subsídio
ao ócio... – A Última Conversa. Entrevista de Luís Machado (1993), p. 47.

A única revolução definitiva é a de despojar-se cada um das proprieda-


des que o limitam e acabarão por o destruir, propriedade de coisas, pro-
priedade de gente, propriedade de si próprio – Pensamento à Solta, in Textos
e Ensaios Filosóficos II, p. 148.

Não é anarquista quem reclama a liberdade do indivíduo: só o é quem


se esforça por que lhe deixem cumprir o dever de ter com tudo o que
é outro uma total relação; relação a nossos olhos, fusão aos de Deus –
Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 150.

Todo o mundo é de Deus; privá-lo da propriedade pela propriedade


privada é puro sacrilégio – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos
II, p. 151.

Muito problema se tenta resolver por meio da política: a chave, no


entanto, a tem a santidade – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 152.

Não te satisfaças com o programa de um partido: inventa melhor –


Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 153.

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sociedade, política, economia

A liberdade para os partidos é uma coisa, e essencial; o governo pelos


partidos outra, e dispensável – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 153.

Partido é uma parte: sê inteiro – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios


Filosóficos II, p. 153.

Por mim, passaria o capitalismo das categorias económicas para as psi-


cológicas. Há almas capitalistas – de agressividade, de egoísmo, de gosto
do prestígio e do poder, de espartilhantes dogmas – que até em socialismo
ou anarquismo se manifestarão. Em última análise assentará o Reino na
conversão interna, na metanóia: só que as leis ajudam – Pensamento à Solta,
in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 168.

Uma economia cooperativa deve ter como objectivo essencial eliminar o


económico – por um avanço da ciência e da técnica ao serviço da mística –
Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 168.

No político, distingo dois momentos, o do presente e o do f­uturo.


Principiando pelo segundo desejo o desaparecimento do Estado, da
Economia, da Educação, da Sociedade e da Metafísica; quero que cada
indivíduo se governe por si próprio, sendo sempre o melhor que é, que
tudo seja de todos, repousando toda a produção por um lado no amador,
por outro lado na fábrica automática, que a criança cresça naturalmente
segundo suas apetências sem as várias formas da cópia e do ditado que têm
sido as escolas, públicas e de casa, que o social com suas regras, entraves
e objectivos dê lugar ao grupo humano que tenha por meta fundamental
viver na liberdade e que todos em vez de terem metafísica, religiosa ou não,
sejam metafísica. Tudo virá, porém, gradualmente, já que toda a revolu-
ção não é mais do que um precipitar de fases que não tiveram tempo de
ser. Por agora, para o geral, democracia directa, economia comunitarista,
educação pela experiência da liberdade criativa, sociedade de cooperação
e respeito pelo diferente, metafísica que não discrimine quaisquer outras,
mesmo as que pareçam antimetafísicas. Mas, fora do geral, para qualquer

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agostinho da silva – uma antologia

indivíduo, o viver, posto que no presente, já quanto possível no futuro:


eliminando o seu supérfluo, cooperando, aceitando o que lhe não seja
idêntico – e muito crítico quanto a este –, não querendo educar, mas
apenas proporcionando ambiente e estímulos, e procurando tão largo pen-
samento que todos os outros nele caibam. Se o Futuro é a Vida, vivamo-la
já, que o tempo é pouco: que a Morte nos colha vivos, e não, como é de
hábito, já meio mortos; aliás, suicidados – Pensamento à Solta, in Textos e
Ensaios Filosóficos II, pp. 175-176.

Porque a mania da política hoje é ser da oposição. Para mim, a verda-


deira política não é essa, a verdadeira política é a da composição: ver o que
é aproveitável no outro e o que parece ser aproveitável em nós e tentarmos
então que essas duas coisas vão para a frente juntas, não é assim? – A Última
Conversa. Entrevista de Luís Machado (1993), p. 42.

Eu serei o agente social perfeito na medida em que acentuar, no deci-


sivo, o divino que há em mim, o divino anónimo e não heterónimo. O
importante é que, no não fundamental, coexista o heterónimo com o
anónimo – como coexiste no mundo – Cortina 1.

Perante o que já avançaram ciência e técnica e, em cada um, o ideal de


humanidade, são o capitalismo e o socialismo duas formas idênticas e por
isso concorrentes de estupidez – Cortina 1.

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10. HISTÓRIA E CULTURA PORTUGUESA,
BRASILEIRA E LUSÓFONA

Na descendência directa dos grandes poetas-profetas, ou seja, criadores-


-reveladores, do destino universal de Portugal que foram Luís de Camões,
António Vieira e Fernando Pessoa, Agostinho da Silva desenvolve aqui uma
das dimensões mais apaixonadas, persistentes e importantes do seu pensamento,
obra e vida. Colhendo dos referidos autores uma noção de Portugal como ideia
ou categoria metafísico-religiosa, e de Jaime Cortesão a sugestão da inspiração
joaquimita e franciscana do culto popular do Espírito Santo, fundado pela
rainha Santa Isabel, e dos Descobrimentos – com base num fundo de inquie-
tação religiosa e heterodoxa pré-nacional, que remontaria ao priscilianismo –,
Agostinho assume o espaço da língua, da cultura e do espírito português, bra-
sileiro e lusófono como o de uma grande comunidade messiânica laica cuja
suprema vocação é ser mediadora de uma nova revelação do universal e do
divino no mundo, contribuindo para um estado futuro da consciência humana
onde se transcendam todas as oposições e antinomias e se viva a experiência da
concórdia e da totalidade. No domínio espiritual compete-lhe promover uma
Igreja verdadeiramente católica, no sentido etimológico de universal e ecuméni-
ca, onde o cristianismo e as demais religiões, sem esquecer o ateísmo e o agnos-
ticismo, possam igualmente conviver como diferentes expressões de uma mesma
e informulável verdade, enquanto no plano temporal lhe cabe propugnar uma
comunidade ético-política trans-nacional, trans-cultural e trans-ideológica.
Trata-se de organizar o “Tudo para Todos”, esse escatológico reino da abundân-
cia na tradição portuguesa designado como Império do Espírito Santo, Ilha dos
Amores, Quinto Império, Neo-Paganismo ou Reino de Deus na Terra. O que,

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agostinho da silva – uma antologia

na visão agostiniana, não é mera aspiração ou utopia, mas a possibilidade em


aberto que se pode realizar mediante uma conjunção do mundo lusófono e ibé-
rico e sua aproximação à África e ao Oriente, oferecendo um modelo alternativo
ao presente ciclo da civilização europeia e norte-americana, que lhe permita,
orientando para fins superiores os seus recursos tecnológicos, uma metamorfose
redentora do seu actual esgotamento e decadência.

O que não quer dizer que se não tenha uma ideia muito clara do que
vale a Europa em face da Hispânia. Não creio que a verdadeira cultura e a
verdadeira humanidade e o verdadeiro futuro do mundo estejam para lá dos
Pirinéus; não creio que aquilo a que se deveria chamar a Europa, excluindo
cuidadosamente não só a nossa Península Ibérica, mas igualmente o Sul
da Itália, daquilo a que hoje se chama Europa, não creio que a Europa da
gente loira, ordenadora e filosófica seja muito mais do que isso, ordenadora
e filosófica, e possa ver-se livre, a não ser por uma transformação que lhe
atingiria o próprio cerne, daquele feitio utilitário, prático e mecânico, que
a América do Norte, sua herdeira, levou às últimas consequências.
Posto este credo, que é talvez um pouco violento e simplista, mas que
tem a vantagem de ser firme, e bastantes vezes a Europa, para ser firme,
tem sido violenta e simplista, não voltaremos à questão senão aciden-
talmente e se tal se oferecer. O que nos importa aqui é a Península, o
que nos importa aqui é a tal Espanha, de Mediterrâneo a Atlântico e do
Cantábrico a Gilbraltar. E a interrogação que nos pomos a nós próprios
é se essa Espanha alguma vez o foi plenamente; e, se o não foi, porquê; e
como poderá ser. Ora, o que a Espanha foi, quando a deixaram à vontade;
e o que protestou, quando impedida; e o que, ou atinge ou morre, se
apresenta sob dois signos, por assim dizer: o signo da variedade e o signo
da convivência – Reflexão [1957], in Ensaios sobre Cultura e Literatura
Portuguesa e Brasileira I, p. 28.

Ora, de um modo geral, eu posso ter diante da vida duas atitudes: a de


a utilizar e a de deixá-la exercer-se, para meu recreio e dos outros, como se
fosse um jogo. De cada vez que as tais circunstâncias históricas, quem sabe

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

por obediência a que leis internas do mundo, precisaram de espanhol sob


pressão, fabricaram-lhe recipientes de grossíssimas paredes; prenderam o
espanhol; prenderam-no com os romanos, prenderam-no com os visigodos,
prenderam-no com Carlos V, prenderam-no com o breve parlamentarismo
e com outros sistemas mais modernos; e talvez outras prisões o esperem, se
os fados lhe não correrem favoráveis. Acho que o único recipiente elástico
que lhe fabricaram foi o do califado de Córdova e um pouco o dos reinos
de taifas; talvez uma rápida Idade Média, com seus “comuneros”. Depois,
cilindro e válvula; exígua válvula.
O grande instrumento de todas estas prisões foi sempre o ­castelhano,
pagando com os seus defeitos as suas qualidades, pagando com a sua
violência a sua paixão, pagando com a sua intolerância a sua fidelidade,
pagando com o seu jeito predador a solitária beleza do pastor-cavaleiro.
E as vítimas, não falando agora do espanhol individual, foram as outras
regiões da Península, nascidas para ser as livres colaboradoras de um gran-
de todo e condenadas, por um trágico destino, a ser, em opressores regi-
mes centralistas, um nada para um quase nada de valor humano. Galiza,
Catalunha, Navarra, Andaluzia, Bascos, Levantinos, ao correr da história,
pouco mais do que escravos de escravos: porque escravidão, no fim de
contas, pelo que respeita a degradação humana, age para os dois lados,
para o lado do opressor e para o lado do oprimido. Com uma grande
vantagem a favor das regiões periféricas: é que, vencidas, jamais se sub-
meteram; e, no momento oportuno, se poderão comportar como nações
livres que jamais renegaram a sua liberdade e jamais, abandonando seus
mortos, desistiram da luta.
E aqui, ao que me parece, se insere a grande façanha de Portugal.
O que Portugal fez de maior no mundo não foi nem o descobrimen-
to, nem a conquista, nem a formação de nações ultramarinas: foi o ter
resistido a Castela. O ter mantido, através de sangue e fogo, o princípio
de independência dos territórios periféricos. E o ter mostrado, naquilo
que cabia em suas forças, e mais do que isso, porque verdadeiramente
história só se faz assim, naquilo que estava muito para além de suas forças,
de que modo uma Espanha livre e convivente poderia ter transformado
a face do mundo. Aceita-se hoje em história de Roma que o assassínio

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agostinho da silva – uma antologia

de César, impedindo-o de levar por diante o seu projecto de romaniza-


ção do mundo europeu, do Báltico aos Urais, veio pôr depois todos os
problemas que resultaram da existência de bárbaros não romanizados;
veio pôr o problema da Prússia e veio pôr o problema da Rússia. Uma
Península livre e una, com regiões culturalmente autónomas e com des-
centralização administrativa; uma Península a que se tivesse estendido
o sistema de governo peculiar da Idade Média portuguesa, isto é, o de,
numa prefiguração da Commonwealth, haver uma companhia de repú-
blicas unificadas por uma coroa; uma Península que tivesse conservado
aquele gosto de conversação de “vida conversável”, como diria mais tarde
um navegador, para cristãos, judeus e árabes, essa Península, para lá de
todas as contingências económicas, teria dado modelo ao mundo. Teria,
como numa renda de bilros, dado o “pique” ao mundo. E o dito mundo,
Europa inclusive, se podia depois ter dado à tarefa de ir plantando alfinete
e lançando ponto. Que foi, de certo modo, o que fizeram, mesmo só com
o trabalho de Portugal.
Por ter garantido a possibilidade, pelo menos em amostra, de arquitectar
o que teria sido um universo verdadeiramente católico, vejo eu Aljubarrota
como a maior batalha da história, a par daquela outra em que Constantino
venceu Justiniano. Não apenas por isso, no entanto. Mas igualmente por-
que é só em Portugal que as outras nações da Península podem ver uma
esperança e um ponto de apoio para uma futura liberdade. Por circunstân-
cias próprias, e evitarei o mais possível dizer da raça, ou de ambiente ou de
economia ou de missão divina, e por vontade intrínseca e ainda por longo
treinamento, porque estas coisas na realidade não se aprendem na fantasia,
mas vendo e pelejando, Portugal é, de todos os cantos da Península, o
único que tem verdadeiramente génio político, talvez, de todas as gentes
que falam latim pelo mundo, o único real herdeiro do povo romano.
Só que, por fatalidade, e logo desde o começo, faltou a Portugal, para
uma plena acção, a companhia e a integração de seu complemento natural
para os lados do Norte. A acção de Portugal no Brasil não teria sido o que
foi, apesar de toda a actuação do minhoto nas Gerais, garantindo um Brasil
interior, ou do transmontano sobre o Prata, garantindo afinal a fronteira
de Oeste, se não tivesse havido o bandeirantismo dos seus alentejanos e,

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

indirectamente, as suas guarnições algarvias para o Sul; a gente mais ou


menos mourisca para o sul do Tejo, a gente já de falar c­rioulo, os que
vinham do deserto e de seu gosto aventureiro e livre, serviram de comple-
mento aos de Entre-Minho-e-Tejo, verdadeira base de Portugal, o Portugal
da gente que finca pé na terra e obriga a terra a dar tudo o que tem, metal
ou seiva, ou isso mesmo, base a conto de lança. Mas, para o Norte, a
Galiza não estava.
Não estava a Galiza que, para empregar as palavras do dito popular em
que se define a casa bem governada, podia ter arcado enquanto Portugal
barcava. Com o tal galego “sórdido”, no sentido camoniano, talvez o ouro
da Índia e Brasil tivesse dado maior proveito e se não tivesse, em plena
época de afluxo de riquezas, de fazer aportar ao Tejo frotas de cereal para
pão. Por outro lado, talvez sua “nai” não tivesse sido sempre o galego, que
emigra sem ser aventureiro, a eterna figura velada pelas lágrimas dela e pelas
lágrimas dele; talvez as “campanas de Bastabales” não ressoassem na delida
chuva com o tão melancólico chamar. Mas tempo vem atrás de tempo;
se há “talvez” para o passado da História, há “talvez” igualmente para o
futuro da História; pode ser que um dia a reintegração da Península em si
mesma, na sua liberdade essencial, se faça através da reunião de Portugal e
de Galiza. Dos dois noivos que a vida separou – Reflexão [1957], in Ensaios
sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, pp. 29-31.

Acontece, porém, que uma das marcas essenciais do homem está, com
todos os males que tal possa acarretar, na sua possibilidade de se opor,
de resistir a Deus, e eis um ponto em que deviam meditar todos os que
pretendem conduzir homens aos seus fins deles, não dos próprios homens;
mas também é verdade que esses, por seu turno, estão resistindo a Deus.
O Português podia ter resistido ao apelo do longe, Portugal podia ter-se
recusado à acção. Tudo esteve afinal em pôr ou não o Minho como frontei-
ra. Esse primeiro rio que separou foi a origem de todos os outros rios que
depois separaram; rios de lágrimas. Todos podiam ter ficado quietos em
suas casas, sem que as mulheres vestissem luto, e sem que, simbolicamente,
as casas se fechassem para só reabrirem no dia em que eles voltam, se para
ficar, dobrado riso, se para retornar, dobrada mágoa.

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agostinho da silva – uma antologia

E então voltaríamos ao tal princípio dos antropologistas. Também teria


sido possível a todo o conjunto da Humanidade, quando as circunstâncias
se tornaram adversas, jogar-se no mato como um bicho doente e se deixar
morrer. O homem, no entanto, que além de tudo tinha à sua disposição os
dois instrumentos maravilhosos de um cérebro que lembra e correlata e de
um polegar que se pode opor aos outros dedos, o homem tomou a atitude
que, depois, se foi repetindo pela história: recusou render-se; e, batendo-se,
sofreu, e, sofrendo, descortinou caminho de regresso ao paraíso. Portugal,
então, no seu lugar da História, também se não rendeu e quando el-rei, o
Rei dos Reis, o chamou para seu apelido contra o infiel, também se não
furtou a seu lugar na hoste.
E se Portugal não tivesse embarcado, quem teria embarcado? O longín-
quo viking em que põem tanto empenho historiadores que não compreen-
dem não ter importância descobrir a América se não se trata de cristianizar
a América? Franceses que, quando embarcaram, o fizeram sob o signo de
Calvino e fizeram funcionar entre cristãos um capitalismo que pode ter
sido muito útil, mas é essencialmente anticristão? Ingleses que, quando
embarcaram, foi para estender pelo mundo aquela defesa da usura que
logo Bentham codificou? Toda essa Europa cujo embarque, a par de todos
os benefícios que lhe possamos creditar, o que fez, no essencial, foi tornar
quase odiado ou risível entre outros povos o nome de Cristo? Se a alguém
competia fazer-se ao mar, e eu conto o fazer-se ao mar, metaforicamente,
desde que principiou a conquista e ocupação do Alentejo, se a alguém
competia fazer-se ao mar para levar a boa nova ao infiel, esse alguém era
evidentemente o Português.
Tinha a resolução de ataque, a energia de combate e a resistência sob o
tempo adverso que faltavam à doce, lírica, feminina Galiza. Tinha, como
nenhum outro povo da Espanha, aquela noção de fraternidade sem a qual
todo o cristianismo é mero vácuo. Fraternidade interna, fraternidade pela
fusão íntima, pela tranformação ao ígneo sopro do amor de Deus e do ser-
viço de Deus. O Português lembrava-se, e da única forma perfeita em que
o lembrar existe, que é vivendo-o, o Português lembrava-se da irmandade
antiga de mouros, de cristãos e judeus, antes de franceses e de almorávidas;
irmandade que não vinha de conciliações e de concessões e de todos os

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mesquinhos arranjos a que está demasiado habituada a nossa época, edu-


cada em tratados de comércio. A fraternidade que ali havia era a outra, a
que vinha de S. Paulo proclamando que depois do Cristo era absurda toda
a distinção entre judeu e gentio, entre incircunciso e circunciso. A que,
tendo a sua raiz em Cristo, dera, além das palavras de S. Paulo, as palavras
do Evangelho de S. João e permitia que um pintor português fizesse assistir
à missa do Espírito Santo judeus e mouros sem que uns e outros abdicas-
sem de suas crenças religiosas. Isto exactamente tentou Portgual e não lhe
consentiram as circunstâncias do mundo que até agora o levasse por diante:
tentou espalhar pelo universo um catolicismo tão católico que até o infiel
nele coubesse. À dimensão do catolicismo, à verticalidade do catolicismo
que lhe permite reunir a velha que humildemente reza seu padre-nosso
e S. Tomás que humildemente constrói uma teologia; ao comprimento,
digamos assim, do catolicismo que o faz ter bispos africanos e chineses;
Portugal tentou acrescentar uma outra dimensão que, por não ser geomé-
trica, não é menos real: a largueza. Portugal foi o missionário da largueza
do reino de Deus e a isso se prende provavelmente muito do seu anticleri-
calismo; e, no plano antropológico, muito do seu gosto pela mestiçagem.
Se este era, a Portugal, o chamamento de Cristo, como haveria de recu-
sar-se? Se este era o apelo do Menino que não queria mais nada do que
dirigir-se a casa de seu pai; a qual casa, quando viesse, seria todo o mundo
inundando-se na luz de eterna aurora, como haveria de recusar-se este S.
Cristóvão que, além de tudo, não estava, como o outro, trôpego e cansado
e quase moribundo, mas de pura energia fervia e ruflava? Como havia de
pôr impedimento de amores e de saudades, embora fossem esses amores,
com tudo o que da terra podem ter, retrato de amores celestes, e embora
fossem essas saudades aquelas de que acaba por morrer, porque são, na
Babilónia, saudades de Sião e, na Jerusalém terrestre, a cadente visão, a
visão destruidora da Jerusalém celeste?
Falando a todas as Senhoras, partiam sempre delas, tristes, os olhos
dos poetas, “tão tristes por vós, meu bem”; e falando de todos os poetas,
desejavam todas as amadas, como a da Nazaré, que “o mar tivessse varanda,
para ir ver o seu amor nos bancos da Griolanda”. Mas Cristo, como uma
era nova para o mundo, e a Espanha, que deveria ter sido e que não foi,

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agostinho da silva – uma antologia

e a Europa que, mais tarde, desviada pelo protestantismo, outras missões


teria, tudo lhe ordenava que partisse. A literatura portuguesa como a vida
portuguesa abrem-se sob o signo do dever de acção e sob o signo da sauda-
de; e esses dois signos marcaram a vida do Português para a História, tanto
no que respeita à acção externa de Portugal como à sua vida interna. Tudo
o que o Português realizou, com todas as imperfeições que são da raça
humana, é de jeito missionário. E tudo o que o Português reclamou sempre
de todos os governos que sucessivamente tomaram conta do país foi isso
mesmo: que lhe dessem o direito de cumprir o seu dever de ser católico:
isto é, fraternal e universal – Reflexão [1957], in Ensaios sobre Cultura e
Literatura Portuguesa e Brasileira I, pp. 34-36.

O que torna Luís de Camões, além de todos os méritos de pensamento


ou de literatura que se lhe possam atribuir, o que torna Camões um p ­ erfeito
representante da sua época e do drama que estava vivendo Portugal é que,
nele mesmo, a sua vida é toda espedaçada entre o ideal a que se endereça,
como se mais vida nenhuma merecera ser vivida, e a realidade a que o
condena o seu acidental de temperamento ou as circunstâncias de meio
tanto externo como interno a que sem o querer se viu submetido. Porque
Portugal não se mantivera firme na linha de seu dever cristão, ele ia rea-
lizar, pelo menos em parte, a missão que lhe cumpria na vida, a de trazer
ao conhecimento do antigo os mundos novos que seriam o penhor e a
esperança de alguma solução que haveria para a Humanidade quando os
problemas do seu destino se pusessem mais agudamente; mas a ia realizar
na dor, a ia realizar no sofrimento de sentir como a cada passo estava train-
do o seu mais íntimo ideal, como a cada momento a matéria do mundo se
furtava a ser a tangível resposta ao pedido do espírito.
A vida de Gamões se passou no que teve de melhor a procurar o amor
de espaço e tempo que pudesse corresponder ao que a mente lhe desenha-
ra e lhe desenhara da mais ardente maneira por que o poderia ter feito:
revelando-lhe, platonicamente, como objecto de amor a estrutura de seu
próprio espírito. Por todo o efeito de imaginar, era ele ao mesmo tempo
o amador e a coisa amada; Portugal apaixonado pela imagem de Portugal.
Não como narcisismo: Narciso na água vê Narciso; Camões ou Portugal,

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

quando meditam sobre si, o que vêem não é nenhuma das realizações de
ideal que se podem apreender num certo lugar ou numa certa hora; o que
eles vêem é aquele mundo contemplado pelas almas quando ainda as não
aprisionou o corpo. O mundo pelo qual Portugal e Camões teriam gosto-
samente perdido a vida é o mundo não das existências mas das essências;
com uma condição, a de que não fossem essências intangíveis, puramente
ideais; Portugal e Camões perdem a vida por um mundo, sempre de futuro
e nunca de passado, um mundo em que finalmente se conciliassem, se
unissem num só corpo de doutrina Aristóteles e Platão: em que o ideal
fosse, ao mesmo tempo, do mundo dos sentidos. O que talvez só possa
vir naquele reino do Espírito Santo que Joaquim de Flora, sem humildade
perante a Igreja e portanto hereticamente, cria vir a ser a terceira e última
idade da História.– Reflexão [1957], in Ensaios sobre Cultura e Literatura
Portuguesa e Brasileira I, pp. 34-36.

Cada vez menos, porém, poderia o clima europeu fornecer camaradas


e guias. E Portugal cada vez se sente mais dominado, mais enredado pela
Europa no sentido de entrar na carreira de civilização a que ela própria se
lançara; pressão que principalmente se mede pela pressão da Espanha, a
qual, por seu turno conquistada pela Europa através do germanismo de
Carlos V, pouco mais poderia fazer do que entrar num regime de doloroso
compromisso entre o que ela própria é e o que a obrigam a ser; do que, afi-
nal, só vai ter o primeiro sinal, logo perdido, de liberdade, quando o povo
um dia se revoltar contra as tropas de Napoleão. Por enquanto, porém, os
tempos, para toda a Península, são os de sofrer e de esperar.
É esta posição dramática de Portugal, muito mais dramática do que a da
Espanha, porquanto a sua mensagem era de muito mais larga fraternidade
cristã, o que não tem sido entendido pelos historiadores da cultura quando
falam de uma decadência de Portugal; Portugal não decai, pela simples razão
de que nem sequer chegou a atingir o ponto mais alto de seu desenvolvi-
mento. O que na realidade aconteceu é que o que Portugal podia ter sido se
chocou com uma Europa com muito mais força do que ele e que escolhera
caminhos bem diferentes; para pôr as coisas ainda mais nitidamente, é que
Portugal, nessa altura, e para a quase totalidade das suas actividades, passa a

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agostinho da silva – uma antologia

ser um país ocupado por tropas estrangeiras; tropas c­ ulturais, entenda-se, o


que não quer dizer que não sejam das mais ofensivas e das mais opressoras.
Quem no fim de contas está decadente é a Europa, tão longe agora de seus
ideais medievais; mas essa decadência não só tem força, como, por outro
lado, está de acordo com aquele destino histórico que parece querer resolver
os problemas materiais da Humanidade e deixar que depois ela resolva os
espirituais que daí resultarem.
De qualquer modo, a situação em que se viu Portugal a partir do século
xvi foi a da impossibilidade de seguir na sua carreira medieval, na ciência,
na arte, na filosofia ou na religião ou no proceder humano. ­Torna-se-lhe
impossível continuar aquele averiguar do mundo que fora fraterno,
mesmo quando os pesquisadores são da altura de um Pedro Nunes, de
um Duarte Pacheco ou de um D. João de Castro; não pode prosseguir
nas experiências que principiavam agora a casar um gótico europeu com
todo o simbolismo e colorido novo de uma arte oriental; corta-lhe uma
nova filosofia o desenvolvimento do que podia ter sido o pensamento
medieval substituída que fosse a falsa ou defeituosa ciência, por outra de
mais seguros fundamentos ou pelo menos mais de acordo com os factos,
como de resto tinham ensinado um Santo Alberto ou um Rogério Bacon;
imposições religiosas, que são no fundo o resultado do levante luterano,
cortam-lhe igualmente o progresso daquela religião do Espírito Santo em
cujos Dons, transferidos a uma prática colectiva, a Humanidade poderia
renascer; e, finalmente, o obrigava a tomar contra grupos humanos atitu-
des de discriminação que estavam em completo desacordo com toda a sua
maneira de ser.
E é a isto, a, por um lado, não ter podido, devido à pressão da Europa,
continuar a ser o que era, e, por outro, se ter recusado, como se diria em
termos modernos, a colaborar com o inimigo, que se chama a decadência
de Portugal. Muito melhor viu Camões o problema quando falou na auste-
ra, apagada e vil tristeza; austera, porque se preferia quebrar a alma a pô-la
ao serviço do que a não valia; apagada, porque a única atitude era essa, a
de sumir para um bem profundo esconderijo, a de nunca mais aparecer em
anais de cortes que já não eram Cortes de Amor, nem as Cortes de Deus;
e vil, sim, mas não vil do lado de Portugal: vil de quem impunha estilos

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de vida que de nenhum jeito eram nacionais; de quem, por estrangeiros


moldes, estava recortando Portugal; além de tudo, impondo-lhe, pelo ter-
ror, um regime de silêncio; e deseducando-o, por uma educação que era
fundamentalmente dirigida, pelo Estado, para o Estado.
Para dizer tudo numa palavra, Portugal, para os verdadeiros ­portugueses,
se tornava um país inabitável. Ao contrário da denominação histórica que
se tornou corrente, os verdadeiros estrangeirados eram realmente os que,
ficando em Portugal, serviam o poder; os outros, os que emigravam o mais
que podiam, esses eram os reais portugueses, os portugueses tradicionalistas,
os portugueses; que preferiam todos os incómodos de um exílio à dor de
viver numa pátria que, de sua, só tinha o tal elemento material de céu, terra
e mar. Felizmente o mar; e, para além do mar, as terras a que dificilmente
chegava o poder do rei e de seus instrumentos de coacção, as terras em que
se podia ser livre e reatar o medievalismo português e em que, nos momen-
tos de emergência, se podia recorrer às técnicas de esconderijo no mato
aprendidas com o silvícola ou às técnicas de quilombo aprendidas com o
negro foragido. O Brasil passa a ser a Terra da Promissão desde que Portugal
se transformara num Egipto de faraós. E é esse o mais profundo significado
não só das primeiras fugas de embarcadiços que o rei ­inutilmente tenta
impedir com os vários regimentos, como do êxodo que vai aumentando
até à verdadeira emigração em massa que se dá para as Minas no século
xviii; Portugal procura reconstruir-se onde a Europa não chegue, e sempre
chegará de mais, infelizmente; e quando um dia, depois de todos os varia-
dos tumultos, revoltas, protestos e inconfidências, o Brasil proclamava sua
independência, o que se proclama é muito menos a independência diante
daquilo que era, jurídica e geograficamente, o Portugal continental do que
a independência de um verdadeiro Portugal diante de um Portugal abastar-
dado; a revolta do Portugal ideal perante o Portugal real.
[…]
Portugal ideal em que o primeiro momento é marcado pela actuação
de Vieira, cuja grandeza só pode ser plenamente aferida quando se lhe
liga a figura à construção desse Brasil que afinal sonhava como base ou
centro de um Quinto Império, para que Portugal provavelmente, para
quem tinha olho de águia, se revelava já impotente. O pregador, cuja

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agostinho da silva – uma antologia

literatura é apenas um dos elementos que lhe formam a personalidade,


e quanta vez, tentação do brilho, a deformou, viu como ninguém que
era extraordinariamente difícil que Portugal se recuperasse da crise; o seu
senso político e a sua adivinhação profética, e nestes dois pontos muitos o
veriam ainda maior do que como escritor e orador, com possibilidades de
retomar a guia do mundo; havia efectivamente a recear que ou se limitasse
a desempenhar um papel na política da Espanha, o que podia, como ainda
pode, ser de uma extrema importância, ou, subjugado a outros regimes
estrangeiros depois de o ter sido àquele, acabasse por não ter outro anelo
senão o daquela paz de abandono da acção, de aposentadoria, que é afi-
nal um simples prefácio da paz final do cemitério. E então, para Vieira,
Portugal passa a ser não propriamente um determinado país – no qual, no
entanto, ainda tenta intervir, supondo que a força acumulada no Brasil por
jamais se ter aceitado no período de 1580 a 1640 qualquer interferência
espanhola poderia ser transferida para Portugal –, mas sim uma ideia a
difundir pelo mundo. Dizer-se Portugal é para Vieira dizer-se não os graus
de longitude, a latitude que ficam entre tal ou tal ponto da carta, mas o
reino de irmandade, de compreensão, de cooperação que se devia estender
pelo universo como preparação necessária para um futuro Reino de Deus.
Portugal estaria e seria em qualquer parte do mundo em que estivesse um
português pensando à maneira portuguesa; e o centro desse Portugal era
naturalmente, e porque ele aí estava, uma baía ou uma praia do Maranhão
ou um pouso no Tocantins, muito mais do que os paços de Lisboa; onde,
no entanto, ainda um rei continuava, no que merecia ser apoiado, a defen-
der um Portugal que algum dia poderia ajudar a resolver o problema de
Castela; e da Europa – Reflexão [1957], in Ensaios sobre Cultura e Literatura
Portuguesa e Brasileira I, pp. 62-65.

Quem espera às vezes desespera, outras vezes continua esperando, isto


é, continua mantendo viva a sua luz de esperança. A literatura portuguesa
contemporânea, tomada no seu conjunto, oscila de um a outro ponto,
mesmo num só autor, mesmo por vezes numa só obra. É como se corren-
tes contrárias a percorressem, ou como se, conservando viva a sua fé nos
destinos da nação, julgando-a realmente capaz de vir a dizer sua palavra

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no mundo, por momentos também pusesse a batalha como inteiramente


perdida; como se a estrutura europeia lhe tivesse tirado para sempre toda a
possibilidade de ser; como se nada mais houvesse a aguardar do que a subs-
tituição de regimes de carácter estrangeiro aos anseios da grei por outros
regimes igualmente estrangeiros; como se no mundo nada mais houvesse a
fazer do que suportar pacientemente a vida e, quando muito, esperar que
a misericórdia de Deus seja bastante grande para que não mais renasça. A
consciência mais apurada do que se foi, dada pelos estudos históricos, veio
tornar mais negro o abismo de desastre do que se passou a partir de meados
do século xvi, senão antes ainda; e, por outro lado, o progresso das técnicas
de produção e distribuição veio tornar mais agudo o pungir dos desníveis
económicos entre a população. Mas o mais grave é que, na literatura de
carácter, digamos, mais contemplativo, toda a aspiração para Deus, para
uma realização plena do Eu superior é cortada de desalentos, de dúvidas,
de recuos e de incertezas que de nenhum modo estão dentro do verdadeiro
modo de ser do português.
Para desembaraçarmos o campo daquilo que não é essencial, diremos
que tanto num feixe de problemas como no outro o caso português é, com
todas as diferenças que houver, uma das centenas de casos espalhados pelo
mundo, Pelo que respeita ao económico, a verdade é que, tendo resolvido,
pelo menos teoricamente, o problema de produção, sendo hoje capaz, pelo
auxílio da técnica e da ciência, de, como um novo feiticeiro, criar o que
quiser onde quiser, o homem ainda não pôde resolver satisfatoriamente o
problema da distribuição dos géneros produzidos. Por uma série de fatali-
dades que são fundamentalmente de carácter histórico e de hábitos adqui-
ridos, de maus hábitos, deve dizer-se desde já, a situação a que se chegou,
pelo desenvolvimento da tal economia de jeito protestante e judaico; pela
desgraçada confusão e junção entre liberalismo político e liberalismo eco-
nómico, que são contraditórios entre si; e porque economias de tipo novo
surgiram acompanhadas, em geral, de regimes de restrição de liberdade, se
recua continuamente diante da decisão final, que é a única lógica, de tornar
realmente cristã uma civilização que apenas o tem sido na aparência ou em
raros, não permitindo que vá aumentando, de um lado a quantidade de
produtos elaborados e, do outro lado, a quantidade dos que nem esperanças

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agostinho da silva – uma antologia

podem ter de vir a consumi-las [sic]. Estamos, paradoxalmente, recusando-


-nos, com todos os meios para o fazer, a varrer de vez da face do universo a
miséria material da Humanidade. Uma economia e uma política de vistas
curtas dominam ainda o que é, no fim de contas, pela natureza do génio que
o criou e por outras muitas razões, um património geral da Humanidade.
Por outro lado, e no caso de não sobrevir uma guerra que, embora esten-
dendo-se por todo o planeta, reduziria a Humanidade, pela acção a um
tempo intensiva e extensiva das novas armas, à situação idêntica àquela a
que ficou reduzida a Europa do Sul nos primeiros tempos da Idade Média,
põe-se outro problema, este respeitando já não ao material, mas ao espiritual
da humanidade. Que vão fazer os homens bem alimentados, bem vestidos
e bem alojados e bem transportados que a técnica nos poderia apresentar
desde já? Nenhuma experiência foi jamais feita em grande escala e, portanto,
nada se pode afirmar de um modo que seja mais ou menos científico; mas há
todas as razões para temer, pelo exemplo de certos países em que se atingiu
já um nível de vida razoavelmente elevado, que a Humanidade caísse na
mais deplorável das decadências, isto é, na satisfação de si própria, na felici-
dade material, na ausência de todo aquele agudo espinho ou daquele amor
insatisfeito ou daquela saudade que impelem a alma para o seu verdadeiro
objectivo, a santificação em Deus. Poderíamos até dizer que o terem apa-
recido regimes de economia nova com governos de carácter opressivo seria
ainda como que uma providência divina para que o espírito, sofrendo, não
deixasse adormecer o homem para a sua verdadeira tarefa, a da construção
do reino de Deus que de nenhum modo podemos confundir com a orga-
nização técnica do universo físico. Mas é evidente que se trata de governos
de carácter transitório: porquanto, ou a Humanidade abdica do seu papel
à superfície da terra ou a liberdade tem de ser restabelecida em toda a sua
plenitude: a liberdade da busca de Deus, do culto de Deus, da afirmação de
Deus; do que, para cada um, esse Deus fez. A qual liberdade, por outro lado,
será sempre rara, ou quase sempre infantil ou quase sempre falsa, enquanto
se não assegurar, de uma vez, a solução do problema económico.
O problema português é, pois, um problema do mundo, E os escri-
tores portugueses que ainda, qualquer que seja o motivo por que o
fazem, se ­curvam sobre o povo, sobre a sua vida material, lhe narram as

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

necessidades, as aspirações, quase sempre, pelo que mostram, bem redu-


zidas, e fazem sobre isso uma literatura que embora muito interessante
e porventura muito útil sob o ponto de vista humano, não será, na tota-
lidade, altamente valorizada pelo futuro, quanto ao grau de excelência
literária, esses escritores apenas estão ecoando num canto da Península o
grande lamento universal dos pobres que ninguém liberta da sua pobre-
za, dos camponeses para quem sempre a terra foi madrasta, dos operá-
rios que são apenas “mão-de-obra”, das crianças que, quando escapam
de morrer, vivem para penar, das mulheres que a prostituição espreita,
dos velhos para quem o hospital é o paraíso que, do vão das portas ou
sob as pontes, se afigura inatingível. Dessa paixão do mundo, que é o
prolongamento na história humana da paixão de Cristo, todos partilham
ainda, infelizmente, sobre a terra, mesmo entre os povos que parecem
mais prósperos: o caso português, por este lado, não é nem original nem
marcadamente português.
Não o é também pelo que respeita aos anseios espirituais. Tanto ou mais
do que o problema de soluções materiais, que são de resto, para os que já
têm o suficiente para se livrar da miséria, mas pensam na miséria dos outros,
anseios de natureza puramente espiritual, tanto ou mais do que o problema
material, que se resolverá de qualquer modo, se põe o problema de ordenação
espiritual, quer seja para os que são de espécie predominantemente racional,
numa filosofia, o que será sempre uma solução extremamente precária, quer
seja para os de natureza afectiva, dentro do campo religioso. Sente-se que
toda a massa de conhecimentos e de experiências novas exige que se repense
uma filosofia ou que se reviva uma religião. E, ou efectivamente se encontra
uma solução para esta ordem de questões ou tudo o que se fizer sob o ponto
de vista económico significará para o futuro humano da Humanidade o
mesmo do que nada. Porque, donde a fome se tiver ausentado, o tédio virá
com o seu desespero não menos terrível. E à pergunta hoje quotidiana para
milhões e milhões de homens de “como viver?” se substituirá a pergunta de
“para que viver?”. A qual, mesmo pelo pouco que hoje podemos observar,
não é menos terrível na sua mortalidade. Ora, os poetas ou prosadores por-
tugueses actuais que nos falam das suas angústias de espírito não o fazem
em termos muito diferentes de outros escritores do mundo; até condições

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agostinho da silva – uma antologia

menos graves de tédio ou sofrimento os poderiam porventura fazer clamar


com menos intensidade e menos desespero trágico, qualquer que seja, em si
mesmo, o valor da expressão literária desses sentimentos.
Não são, portanto, estes pontos os que fundamentalmente interessa-
riam no estudo temático da literatura portuguesa contemporânea. O que
impressiona, para quem a olha de fora, a não ser que outras razões interve-
nham, é a extrema raridade de toda a afirmação de que tiveram os portu-
gueses resposta própria e fórmula própria para lançar a esta interrogação ou
interrogações do mundo. Parece que o terem estado durante tanto tempo
jungidos a formas de governo de carácter estrangeiro e como que o receio
ou a fatalística certeza de que outras se sigam às que lhe são experiên-
cia, os fazem duvidar da eternidade do Portugal liberal da Idade Média,
do Portugal dos concelhos, das aldeias de propriedade comunitarista, do
Portugal que dizia “Não!” aos reis, do Portugal que era ao mesmo tempo
científico e prático, do Portugal que reunia cristãos, mouros e judeus
na cerimónia em honra do Espírito Santo que Nuno Gonçalves pintou,
daquele Portugal submetido a partir do Renascimento a forças que lhe
eram completamente adversas, mas sobrevivendo apesar de tudo e cui-
dando ao máximo que lhe era possível do que estava para além do mar;
daquele Portugal que é uma ideia, fora ser uma realidade geográfica. Parece
que o tão longo eclipse os faz duvidar da luz do Sol.
A experiência portuguesa da Idade Média, se revivida, poderia assegurar
ao mundo que há possibilidade de economias que, sendo comunitárias,
não se baseiam na ideia de propriedade colectiva, a qual, sendo proprie-
dade, sempre de qualquer modo embaraçará a marcha para o Céu, mas se
baseiam na ideia de não-propriedade, que é a única verdadeiramente cristã.
Poderia assegurar ainda, lembrando todas as formas de prestação mútua de
serviço, que nem só o salariado garante o funcionamento da máquina da
produção. Poderia assegurar que é compatível com a direcção de conjunto,
hoje indispensável a toda empresa humana, a descentralização ampla que
permita a cada município administrar-se ao máximo por si próprio, asse-
gurando localidade ao seu interesse comum e garantindo individualidade e
participação a cada um dos seus componentes. Poderia finalmente assegurar
que, como tanto já se tem desejado que se afirme claramente, o catolicismo

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

não é impensável, bem pelo contrário, como a religião ­universal de toda


a Humanidade; basta que se atente, como Portugal atentou, nas palavras
do Evangelho de S. João, em que fala daquela última idade do mundo que
será o Reino do Espírito Santo, com os homens vivendo na sua integridade
uma inteira vida; não, despedaçados na angústia, económica e noutras, só
farrapos de vida.
Mas também é possível readmitir-se uma hipótese anterior, a de que
Portugal-ideia não possa um dia encontrar na Europa nenhum ponto de
apoio e que seja de fora que a si mesmo tenha que ser restituído, numa
­operação espiritual muito mais vasta e muito mais demorada, porquanto
abrange agora o universo, do que aquela que materialmente tentou e venceu
um dia o primeiro imperador do Brasil. No fim de contas, se, desde que a
Idade Média entrou em agonia em Portugal, não porque suas forças se tives-
sem esgotado, mas porque outras forças a sufocaram de fora, o verdadeiro
Portugal emigrou e não parou mais de emigrar, ou forçado ou voluntaria-
mente, não é impossível de imaginar, se algum dia as condições da Europa o
aconselharem, que Portugal de novo se possa apoiar, para vencer o que lhe for
adverso, em tudo aquilo que heroicamente fez surgir do nada ou na América
ou na África ou na Ásia; e que aí representa o Brasil, como foi o pensamento
de Vieira, de Gusmão e de D. João VI, um papel de importância primacial.
Ou que tome o Brasil, decididamente, se a Europa não oferecer condições
de criação civilizadora, o que é muito possível, que tome o Brasil inteira-
mente sobre si, como parte de seu destino histórico, a tarefa de, guardando o
que Portugal teve de melhor e não pôde plenamente realizar e juntando-lhe
todos os outros elementos universais que entraram em sua grande síntese,
oferecer ao mundo um modelo de vida em que se entrelaçam numa perfeita
harmonia os fundamentais impulsos humanos de produzir beleza, de amar
os homens e de louvar a Deus: de criar, de servir e de rezar – Reflexão [1957],
in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, pp. 82-87.

O que permitiu à Europa dominar Portugal, chegando ao extremo de


lhe apresentar o que há de mais estrangeiro, de mais alheio à índole nacio-
nal como inteiramente nacionalista, foi o pecado de ter levantado como
valores supremos de vida humana os do adulto, o saber, o trabalho e aquela

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agostinho da silva – uma antologia

separação de sujeito-objecto que permite a filosofia, a ciência e a técnica. A


Europa se vendeu ao Diabo e o dinheiro que nisso ganhou lhe serviu para
comprar Portugal – Um Fernando Pessoa [1959], in Ensaios sobre Cultura e
Literatura Portuguesa e Brasileira I, p. 115.

Por mais numerosas que sejam as boas vontades e por maiores e mais
desinteressados que possam ser os esforços no sentido da sua realização,
nunca a Comunidade Luso-Brasileira passará do nível dos projectos ou dos
remas de oratória, enquanto se não tiver a plena consciência de que se não
trata somente de arquitectar mais um bloco económico ou político ou de
ligar por um impulso puramente sentimental regiões que têm de comum a
origem, as tradições ou a língua. Quer isto dizer que não bastará uma cons-
ciência das chamadas realidades; ou das forças mais próximas da poesia
lírica, e até sobretudo da má poesia lírica, do que das forjas revolucionárias
que realmente modificam a estrutura do mundo humano e o tornam mais
próximo de sua estrutura divina; ou qualquer dos outros dinamismos habi-
tuais para levar a cabo, ou sequer para iniciar, um movimento que poderá,
nas suas consequências, ser o mais importante da História, e que não valerá
mesmo a pena realizar se efectivamente o não for.
A Comunidade Luso-Brasileira tem de ser, quando existir, não outra
qualquer espécie de Império, uma força concorrendo com outras forças,
uma outra centralização que siga a monótona corrente das centralizações,
mas realmente o começo de uma vida nova para a Humanidade, o primei-
ro passo seguro para a reconquista de um Paraíso que só tem estado em
espírito de teólogos ou de filósofos ou de poetas, mas que jamais entrou
nas cogitações de políticos; a linha mística e religiosa tem de ser aqui mais
importante do que as argúcias de realistas que manejam homens como se
eles não fossem à imagem e semelhança de Deus: e nenhuma economia,
nenhuma sociologia, nenhum acto humano verdadeiramente criador tem
de ser considerado senão como o sinal, a manifestação e a indicação de que
está na vontade divina, na própria estrutura do evoluir do mundo, que ele
siga pelos caminhos a que a Comunidade o pode dirigir. – “Condições e
Missão da Comunidade Luso-Brasileira” (1959), in Presença de Agostinho
da Silva no Brasil, pp. 119-120.

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

De tudo quanto é Europa, é ainda Portugal, apesar de todos os erros, o


menos Europeu e lhe constituem uma reserva imensa de não-europeísmo
os territórios de África e de Ásia em que o seu colonialismo foi sempre,
malgrado as imposições capitalistas da Europa, um colonialismo em que
alguma coisa ficou de fraternidades medievais à volta do Espírito Santo. E
de tudo quanto não é geograficamente Europa, é Brasil, pelo seu imenso
interior, o que mais indemne ficou aos contactos europeus, embora tenha
praticamente apreendido da Europa tudo quanto é necessário que da
Europa fique para a construção de uma civilização futura; (...)
Esta posição ao mesmo tempo europeia e não europeia de uma futu-
ra Comunidade; a possibilidade de efectuar agora o Renascimento que
poderia realmente lançar o mundo a caminhos definitivos, isto é, o
Renascimento do que a Idade Média portuguesa estava elaborando e o
outro Renascimento cortou; as ideais posições de contacto que ofereceriam
territórios ultramarinos que viessem a libertar-se plenamente da antiga
metrópole, que passaria a não ser mais do que o território mais apropria-
do para os contactos europeus que ainda houvesse a fazer e o necessário
ponto de apoio para a realização de uma verdadeira Espanha, tudo a indica
como a mensageira de paz num mundo à beira da guerra e como a única
força capaz de restituir ao universo a confiança em Deus e em si mesmo. –
“Condições e Missão da Comunidade Luso-Brasileira” (1959), in Presença
de Agostinho da Silva no Brasil, pp. 122-123.

A missão essencial dos portugueses foi a de cristianizar o mundo, u


­ nindo
os homens, chamando-os a uma plena fraternidade, tendo por ideal que não
houvesse em todo o ecúmeno senão um só rebanho com um só pastor: indo
porventura ainda mais longe, porque quando os marinheiros e os aventu-
reiros pasmam para as maravilhas do céu, terra e mar, quando um pintor
inclui pela primeira vez uma ave americana na Criação do Mundo, o que se
está realmente buscando é incluir igualmente o mundo não humano nesse
amplo cristianismo. Por outro lado, e aqui poremos por símbolo outro qua-
dro, de Viseu, o indígena de terras descobertas que o português traz a adorar
Jesus no grupo dos Reis Magos, vem trazer suas ofertas ao Deus Menino,
aquele que S. Francisco adorou também, e que os homens demasiado

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agostinho da silva – uma antologia

esquecem: porventura aquele que é, incluído na segunda Revelação, a ter-


ceira, capaz de trazer a definitiva Redenção e a recondução ao Paraíso. E não
é por isso de estranhar que em outras tábuas, num Inferno a que preside
um índio do Brasil, tão duramente se tivessem condenado todos os adultos,
inclusive alguns dos que mais perto deveriam ter estado dos Meninos, flor
do mundo, seus verdadeiros mestres e seus verdadeiros guias.
O que a Comunidade Luso-Brasileira tem de realizar no Universo é,
para além de toda a sua estrutura política ou económica, uma missão reli-
giosa, naquele reatar de apostolado por que o mundo espera a partir do
século xv. Só essa missão religiosa será capaz de ligar os dois mundos adver-
sos de Oriente e Ocidente, ou melhor, de Europa e não-Europa, que hoje se
defrontam; (...)” – “Condições e Missão da Comunidade ­Luso-Brasileira”
(1959), in Presença de Agostinho da Silva no Brasil, pp. 123-124.

Foi condenado o Joaquim de Flora, não por ter pregado o império do


Espírito, nem por ter profetizado a Idade em que seria o homem inteira-
mente livre para a criação, e mais dócil ao sopro inspirador do que desejoso
de afirmar sua vontade, sua iniciativa, seu pioneiro ardor, mas por ter ligado
as suas ideias à convicção, logo expressa sem humildade, de que era tem-
porário o catolicismo e secundaria, em face da do Espírito, a revelação de
Cristo. Diríamos até que foi condenado, não pela largueza do seu pensar,
mas por ser estreito; por não ver que, na ida de Jesus para que o Espírito
viesse, nada mais se estava afirmando que a perfeita espiritualidade do
Consolador; por não entender que não haverá nunca revelação do Espírito,
porque O serão os homens totalmente quando Ele chegar, sem novas tessi-
turas, pelo mundo fora, de objecto e de sujeito; e que só existem revelações
quando é necessário que venha a luz de fora, por se lhe terem fechado, por
dentro, as possibilidades de seu brilho.
Foram os Portugueses mais largos e se fixaram no Cristo, como ver-
dadeiro e último profeta, entenderam que se não tratava de considerar a
Igreja como finita no tempo e na missão, mas de a fazer abraçar o infini-
to do universo em toda a hora e seu lugar; e enquanto os Impérios não
vinham, eles os construíram ao lado de suas Igrejas, e coroavam meninos,
lembrando-se da pedagogia dos Evangelhos que nos manda ser como eles

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

e não afeiçoá-los à nossa imagem e semelhança. Mas não era ainda ade-
quado o tempo, embora porventura o tivessem julgado; não viram que os
milénios proféticos são muito mais longos do que a paciência humana, e
que outras idades, sem Espírito e quase sem Cristo, teriam ainda de passar,
para que o acesso ao Céu pudesse ser, não apenas de alguns eleitos, mas
de todos os homens, pela abolição de fronteiras entre vida e morte, pela
transformação da Terra inteira em Paraíso e êxtase. – “Notas para uma
posição ideológica e pragmática da Universidade de Brasília” (­­1964-1965),
in Dispersos, pp. 243-244.

(...) pouco se fez quanto à teologia do Espírito Santo, em si própria, e


nas ligações que parecem existir com atitudes como as do Tao ou as do Zen;
talvez, neste ponto, o puro estudo teológico levasse a entender melhor a
facilidade e a fecundidade das ligações dos portugueses dos Descobrimentos
com as civilizações do Oriente e desse base de partida para que realmente
se unissem as duas formas do comportamento no mundo. Por outro lado,
se afastariam muitas das incompreensões de Trento, muitos dos Irmãos
separados se poderiam reunir, muita hostil catequese se poderia pôr de
parte; e não seria a menor das surpresas verificar que, como numa profecia
de sua acção no mundo, o povo brasileiro, de Norte a Sul, desde as formas
do Rio Grande e da Bahia até aos sincretismos reveladores, e lógicos, de
Goiás e do Amazonas, guardou o culto do Espírito Santo, combatido em
Portugal e dele expulso, como um último refúgio nos arquipélagos já de
vocação atlântica. – “Notas para uma posição ideológica e pragmática da
Universidade de Brasília” (1964-1965), in Dispersos, p. 245.

Para Camões, no entanto, nem os conventos servem, para que heróis


se recreiem ou se recriem; conventos são coisas ainda e neles pode andar a
verdade, mas não são a verdade. A junção do relativo e do geral, só possível
não noutro geral superior, que esse são comummente as divindades, mas
no Absoluto, Camões a faz naquela Ilha em que marinheiro já o não é,
porque nem está a terra em mapas, nem jamais poderá amarrá-la a rumo
e estima ou a sistemas de coordenadas, e em que as deusas são as ninfas
[...]. Além de tudo, os Lusíadas teriam sido para Camões uma teoria da

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agostinho da silva – uma antologia

História, que, ao ser, não é senão a revelação cada vez mais ampla da ideia
geral no fenómeno; a vitória do bem relativo sobre o mal relativo, com o
consequente desaparecimento da ideia geral de mal; e que terminará por,
num lugar sem espaço e numa hora sem tempo absorver todo o relativo
humano no geral metafísico, ou lógico, e fazer que Deus seja, não a verda-
de que anda nas coisas, mesmo gerais, mas o que se não sabe, por já não
haver coisas, se é verdade ou se é mentira, ou até, mais simplesmente se é
ou se não é – “Vinde cá, meu tão certo secretário”, in As Folhas Soltas de São
Bento e outras – 1 [1965], in Textos Vários. Dispersos, p. 26.

Não nos interessaria especialmente o pensamento deste herético


[Joaquim de Flora], um dos muitos que surgem na Idade Média, nem
o seu destino de condenação pela Igreja que ele afirmava não ser eterna,
porquanto o Cristo de quem era, se era eterno em sua eternidade, não era
perpétuo no tempo e, por conseguinte, passaria na História; não nos inte-
ressaria igualmente que os franciscanos que se conservaram quanto possí-
vel fiéis a S. Francisco na estrita observância tanto se tivessem apoiado em
suas ideias, se a onda de choque por ele provocada na Itália se não tivesse
propagado à Península e não tivesse vindo a ter os seus maiores efeitos
nesta pequena casa lusitana e efeitos tanto mais notáveis quanto se não
expressam por livros, por filosofias, por leis, por actos cultos de gente culta,
mas por acções, por procedimentos, por criações populares, passando-se
do plano da especulação, que nunca foi muito de portugueses, ao plano do
agir, inteiramente e criadoramente nosso.
Não se conhece, documentadamente e com científica exactidão his-
tórica, de que modo as ideias ou, diria antes, os sentimentos de Joaquim
de Flora passaram a Portugal; parece, no entanto, pela sua difusão na
Itália, pela existência de ligações políticas entre territórios italianos e os
de Aragão e Catalunha, pelos interesses e capacidade de propaganda de
um espírito tão inquieto como o de Arnaldo de Vilanova, amigo da prin-
cesa Isabel, pelo casamento desta com D. Dinis, pela contemporaneidade
de sua vinda para Portugal com o aparecimento de templos dedicados ao
Espírito Santo, pelas suas ligações com ala mais radical do franciscanismo,
que não será absurdo supor ter sido ela a introdutora do culto em Portugal

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

e ter-se ele irradiado a partir de Alenquer, a vila da rainha. Mas o que mais
importa pôr em relevo é, por um lado, o ter aparecido o culto numa altura
da ­história de Portugal em que se faz a nacionalização dos Templários, por
outro lado o ter ele de tal modo impregnado a nação portuguesa.
Quanto à primeira circunstância, diríamos que ela nos parece funda-
mental para se entender plenamente o sentido dos Descobrimentos e para
se tentar resolver de uma vez por todas o que diz respeito aos motivos que
teriam levado os Portugueses à empresa do mar: se se atender a que a teoria
última do procedimento dos Templários é provavelmente a de que a tarefa
mais urgente de homens conscientes de seu destino universal e transcen-
dente é a de fazer do mundo um todo, conservando nas características
individuais dos homens e das nações o que dá variedade e por aí de Deus
nos enamora, mas vendo para além delas o que têm de substrato essencial e
por aí nos fundindo em Deus, e indo porventura a um estádio ainda mais
além em que Deus seja simultaneamente o uno e múltiplo; […].
Quanto à adopção do culto pelo povo, diríamos que nos não parece que
possa existir conversão voluntária e só ela é na realidade conversão, quando
o choque vindo de fora não é apenas o que fixa num aspecto exterior,
num esquema facilmente apreensível por nós e pelo próprio interessado,
uma disposição interna, exactamente como um leve movimento fixa nas
suas estruturas de gelo as moléculas do fluido cujas posições recíprocas ou
relações de carga já eram efectivamente as do gelo. Se o povo português já
não estivesse preparado para adoptar com o entusiasmo com que o fez o
culto do Espírito Santo, ele teria sido apenas uma das muitas modas que
têm aparecido na história da cultura portuguesa, feita, pobre dela, muito
mais da resistência a influxos externos do que do pleno florescimento de
suas possibilidades internas. Seria uma heresia de raros ou uma filosofia de
cultos, e a maior parte das filosofias de cultos tem sido em Portugal here-
sias de raros, actividades com as quais o povo nada tem que ver e de que
felizmente se defende bem porquanto as ignora; o que, estendido a todo o
mundo da cultura de língua portuguesa, nos levaria a duvidar de que seja
um grande benefício alfabetizar o povo enquanto o considerado escol con-
tinuar a ser o que em geral tem sido; talvez pudéssemos até dizer que uma
das causas de ainda confiarmos tão plenamente no futuro de nossa cultura

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agostinho da silva – uma antologia

seja a de não ter a grande massa popular tomado conhecimento algum


do pensamento em que a nossa inteligência adopta, rumina ou deturpa
pensamento estrangeiro, que é quase sempre pensamento alheio e quantas
vezes pensamento contra.
Creio, pois, que o povo português já tinha consigo tudo o que era neces-
sário para que as ideias que vinham de fora, trazidas por gente tão próxima
do povo como a Rainha Santa e os franciscanos observantes, lavrassem de
extremo a extremo do País. Poríamos em primeiro lugar um substrato de
inquietação religiosa, tão mal conhecido ainda, que arranca das raízes do
priscilianismo e que está, como já tem sido notado, na Demanda do Graal
ou na poesia dos Cancioneiros e em que um anseio de fusão com a natureza,
de reconciliação com a planta e o animal, se sobrepõe a critérios religiosos
que sancionam afinal um estado de ex-comunhão; poríamos depois o par-
ticularismo deste canto da Península tão sensível em todos os domínios,
mas que, no campo que nos interessa agora, se tem manifestado tantas
vezes e até em tempos bem recentes por, digamos, uma certa desconfiança
de Roma que é, no fundo, a desconfiança por uma centralização que pode
conduzir a uma perda da liberdade; viria em terceiro lugar, pela instituição
do município, pela propriedade concelhia colectiva, pelo funcionamento
das Cortes, que nada têm que ver com qualquer espécie de Parlamento ou
Congresso de nossas épocas, pela existência de um rei, que é constitucional
no sentido de que a Nação o aceita porque ele não é superior às leis, nem
as faz e desfaz a seu bel-prazer, e a cidadão algum se veda o direito à crítica,
embora haja naturalmente a considerar os privilégios de classe e as sujeições
económicas, viria, por tudo isto, um sentido de convivência, de capacidade
de entendimento, que faz de Portugal, desde o início, mesmo durante a
monarquia, e sobretudo durante a monarquia, pelo menos até o século xv,
uma República e uma República verdadeiramente popular e democrática,
capaz de compreensão e amor do local e capaz de encontrar nesse local as
bases gerais daquele comércio que estava nos propósitos dos Templários e
que D. Dinis, criando a Ordem de Cristo, sagrou plenamente nosso; um
povo insatisfeito com os cultos institucionais, ansioso de comunhão com
o mundo, impaciente de autoridades externas, politicamente livre e sem
a pressão de capitalismos inimigos de sua natureza e, mais largamente, da

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

natureza humana, toma para si a heresia do italiano, mas já na realidade


sem mácula herética, porquanto não eram as ideias que interessavam mas
sim os actos, não havia orgulho algum de quem deseja mandar, mas a
humildade de quem sente que obedecer é melhor, não se combatia quem
quer que fosse, mas se procurava unir a todos naquela “vida conversável”
de que ainda no primeiro terço do século xvi falava Pêro Lopes de Sousa e
sobretudo se punha todo o empenho em se fazer compreender que se não
é importante senão na medida em que se passa o poder às gerações f­ uturas,
em que se não faz grande ideia de si próprio e em que a preocupação
essencial se não põe em discutir ou construir sistemas, mas em dar aos
homens a esperança de que sua miséria não será eterna e que tempos virão
em que a fome, a cadeia, o temor em qualquer das suas formas, o trabalho
como superior ao sonho, o homem de acção como superior ao poeta, serão
apenas péssimas lembranças do passado e em que a fábula de La Fontaine
sobre a cigarra e a formiga será tida não como exemplo de meninos para
que um dia venham sabiamente a emprestar a juros, dominar pelo poder
seus irmãos homens, evitar que eles cumpram o seu dever máximo de
serem diferentes, mas como uma desesperada ironia e um contido protesto
ante um mundo que tão duramente tem tratado os seus artistas e os seus
heróis, os seus sábios e os seus santos.
Poderia, no entanto, pôr-se a hipótese de que tudo o que apontamos
quanto a inquietação religiosa, a particularismo regional e a sentido de
convivência política não seja mais do que a manifestação exterior, do que
o apreensível sintoma de uma mais profunda vivência e que não tenhamos
de procurar a base essencial numa adesão íntima, não raciocinada como
que intuída fora de tempo e de espaço, a uma visão de Deus nada apropria-
da a filosofias ou teologias construídas pela razão, mas inteiramente segura
e impecavelmente lógica, como fundamento de uma vida que se quer vivi-
da em inteira plenitude. Tudo se passa para o Português, nada disposto a
amputar-se em qualquer procedimento da sua intensa capacidade de viver,
do plurifacetado de seu carácter, da complexidade do conjunto de suas ape-
tências e de suas acções, como se o que lhe parecia existir como fundamen-
to de tudo fosse uma divindade não definida pela organização do mundo,
ou pela justiça, ou pela omnipotência, ou pelo amor, ou pela caridade, mas

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agostinho da silva – uma antologia

um Deus, digamos assim, indefinido pela sua absoluta liberdade, por uma
capacidade de vir a ser que sobrepujaria sempre qualquer manifestação de
ser e para o qual qualquer acto seria efectivamente e sempre uma limitação
e uma queda, não o sendo, contudo, o total conjunto de manifestações,
existente simultaneamente no tempo e na eternidade e a que poderíamos
chamar o universo, não o limitando naturalmente ao nosso universo de
geometria a três dimensões, mas admitindo-o para todas aquelas geome-
trias que podemos pensar e para todas aquelas que naturalmente se ocul-
tam ainda no ponto final de uma geometria a todas as dimensões ou, o que
o mesmo será, a dimensão alguma. Não se poderia aprisionar este Deus dos
Portugueses em sistema algum, código algum o conteria, infinitas seriam as
suas manifestações, imprevisíveis os seus p ­ rocedimentos, nem se podendo
sequer atribuir-lhe uma existência, ou pelo menos prová-la em linguagem
humana, como igualmente seria impossível na mesma linguagem humana
o declarar não existente. Já passando além daquele absoluto silêncio que
seria a única expressão condigna da nossa compreensão de Deus, diríamos
que para ele só existe uma lei e que essa lei é a sua infinita liberdade de ser
e, pela consciência do que é, a sua igualmente infinita capacidade de criar.
É evidente que, criado o homem à imagem e semelhança de Deus, bri-
lha seu espírito como uma centelha do imenso fogo divino e é seu dever
acima de tudo tomar consciência da liberdade que lhe é essência e lhe ir
dando realização no mundo, recusando-se o mais possível a sistemas, vendo
toda a opressão como uma diminuição de Deus, procurando realizar o mais
possível com o mínimo de instituições, considerando que a sua ­obrigação
máxima não é a de obedecer, nem a de se sacrificar, nem a de limitar as
suas manifestações, mas pelo contrário a de as expandir ao máximo, não
cortando nenhuma das suas capacidades criadoras e não se deixando adop-
tar nenhuma regra que lhe ponha fronteiras. Por outro lado, e porque está
mergulhado no conjunto do mundo, que também é Deus sendo, sabe que
só irá ao máximo de suas possibilidades quando o grupo humano com
ele for e quando ao grupo humano, refazendo a unidade primitiva, se
­juntar o resto da criação numa liberdade total de um mundo escravizado
à História, mas finalmente se podendo perder na imensidade de Deus, no
seu não e­ xistir, para logo depois, ou simultaneamente, num movimento de

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

expansão outra vez brilhar no esplendor de ser. Finalmente, e porquanto


sabe das infinitas possibilidades de Deus e das variadíssimas formas por que
se pode manifestar, o Português está pronto a ir ao encontro de todos os
homens, de todas as raças e de todos os credos, baseando-se no seu próprio
não existir para que possa plenamente existir como ser convivente.
Pode ser, portanto, que a propriedade comunitária, pela liberdade eco-
nómica que dá ao homem, que a federação de repúblicas concelhias que é
realmente o Portugal da Idade Média, pela liberdade que lhe garante, que
a adopção do culto do Espírito Santo, pela liberdade teológica que vem
de se apoiar a vida inteira naquele insubstancial substante de que falou
recentemente um dos nossos mais penetrantes pensadores, não sejam todas
mais, do que os actos pelos quais se manifesta o identificar-se o próprio
espírito com o de um Deus que escapa ao definir-se e que, por se escapar,
se afirma. E a mesma raiz se poderia apontar para a rápida e íntima adesão
ao franciscanismo ou para a futura acção que transcende o descobrir ou o
comerciar ou até o cristianizar para se instalar no plano da afirmação de
que a variedade é o sinal de Deus e de que só o ecumenismo, olhado como
linguagem universal sob as linguagens particulares, convém ao homem
porque convém a Deus e, por outra parte, porque um Deus que se não
pode provar só existe enquanto e porquanto nele se crê, convém a Deus
porque convém ao homem.
Seja como for, o que parece certo é que a partir dos fins do século
xiv, mas afirmando-se sobretudo durante o século xv, se estabelece em
Portugal um culto popular do Espírito Santo, que não deixa, no entanto,
por ser popular, de o ser igualmente da família real, o que apareceria,
para além de toda a outra documentação que se pudesse apresentar, no
documento máximo constituído pelos Painéis denominados do Infante
ou de S. Vicente. Tem esse culto como acto fundamental a coroação pelo
povo de um imperador, que é às vezes um adulto, mais frequentemente
uma criança; coroado e empunhando seu ceptro, adornado, nos exem-
plares que se conhecem, e que podem reproduzir tipos mais antigos, das
pombas simbólicas, aquelas mesmas pombas que voam em Aljubarrota
sobre o exército português, já como sinal de vitória, ou então da flor-de-
-lis, aquela mesma flor-de-lis que seria para Joaquim de Flora o sinal da

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agostinho da silva – uma antologia

Idade Nova e que distingue, como marca do Norte, a cartografia por-


tuguesa das cartografias anteriores, dá o imperador, proclamado talvez
em oposição ao imperador bárbaro do Santo Império de Roma coroava
[sic], início a seu Império, nome ainda hoje da construção levantada ao
lado da igreja local. Marca-se o início desse Império com a libertação
dos presos e com um banquete aos pobres; no reino novo que come-
ça, e que é o Reino de Deus, não haverá mais homens privados de sua
liberdade e não haverá mais homens submetidos a todas as limitações da
miséria; a liberdade que o Espírito Santo traz consigo não é nenhuma
liberdade ­puramente metafísica e, exactamente porque estamos tratando
com Portugueses, povo do concreto, do prático, do real, numa perfeita
coexistência com um máximo de abstracção tão abstracto que nem a mais
abstracta das linguagens o poderia adequadamente exprimir, a liberdade
do Império que se inaugura é a liberdade que consiste em não estar preso
e é a liberdade que consiste em não ter fome. A tudo se junta, quando o
imperador é uma criança, um outro simbolismo, além de um anúncio:
reside o simbolismo em se p ­ roclamar que desse momento para diante não
é o trabalho que valerá mais no mundo, mas sim o jogo; não é o cálculo
que levará a palma, mas sim a fantasia; não é a chamada realidade que
manietará o sonho, mas sim o sonho que subjugará o real, ou, afastando
o véu das ilusões, nos mostrará em que sombras acreditávamos em lugar
de deixar que nos banhasse um sol pleno. Reside o anúncio em se dizer
que pela primeira vez se obedecerá ao preceito de, se quiser ser perfeito se
ser como as crianças, de as seguir para que entremos nos reinos celestes,
de as ter como modelo dos adultos e não de, em nossa pobre vida de
apenas larvas de gente, as obrigar a elas a diminuir-se, a limitar-se, no
fim de contas a virem a ser apenas um desprezível reflexo do que eram
e poderiam ser para se adaptarem a esta limitada vida em que no meio
de tanta amargura vamos realizando a tarefa de caminhar de um Paraíso
remoto e perdido a um Paraíso reconquistado, a um Paraíso que mais
reconquistaremos talvez pelo abandono do que pela vontade, pela paixão
do que pela acção, pelo nos deixarmos ser o que somos do que pelo nos
antepormos modelos que sigamos.
[…]

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

Ora é esta exactamente a mensagem do culto do Espírito Santo, agora


racionalizada, enquanto o povo português, de acordo com as suas mais firmes
características e mais de acordo até com a própria doutrina, preferiu ir pela
linha da acção, comungando no que de fundamental encontrou em todos
os céus e mares do mundo, em todas as raças de homens, em todos os estilos
de vida, deixando para outros a tarefa menos interessante de codificar a exis-
tência, de a manipular, em vez de a esgotar em todas as suas possibilidades
e por isso mesmo paradoxalmente a renovar no seu ímpeto de criação. Foi
bom que não tivéssemos filosofia organizada em sistema; foi bom que nunca
tivéssemos dado grande atenção ao próprio construir da ciência e de prefe-
rência a tivéssemos utilizado para viver; foi excelente que o máximo de nossa
arte fosse afinal a fixação para o eterno, nos Painéis, da nação portuguesa no
ramo ascensional de uma curva de acção que circunstâncias não deixaram
completar, mas por cuja força interna o mundo ainda espera; foi perfeito
que a linha marcante de nossa literatura seja a das memórias do agir interno
ou externo ou o desejo e a profecia de uma acção que supera os reticulados
em que tem decorrido a existência dos outros povos: tudo concorre para que
um dia, quando se estabeleça realmente na Terra o reino do Espírito Santo,
com uma economia que não seja uma simples luta contra a miséria, mas um
alicerce de liberdade; com uma política que não seja a da manutenção no
temor, mas a das condições de liberdade; com uma educação que não seja
a de continuar nos trilhos conhecidos, mas a de inventar caminhos novos
e caminhos de liberdade, os povos de cultura portuguesa tenham menos
dificuldades que os outros em soltar-se do que foi apenas andaime de cons-
trução, depressa se instalem no essencial e se votem, não ao fragmentário e
ao que está afinal à medida do homem, mas ao que é total e à medida de
Deus; que os povos de cultura portuguesa satisfaçam a sua sede secular de
plenitude e reconheçam os outros, que tantas vezes se julgaram superiores e
a que tanto andaram encostados os que procuravam educar o povo em vez
de se educar no povo e com o povo; que o nosso objectivo supremo não
estava em conquistar parcelas do real, mas em nos fundirmos com a essência
do ser e com a universalidade do fenómeno, arriscando-nos, como disse o
Poeta, à aposta do todo ou do seu nada, talvez para que, no fim da viagem,
e desde que nenhuma esperança de vitória seja perdida, conquistemos uma

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agostinho da silva – uma antologia

realidade mais alta, aquela que nos permitiria efectivamente fazer do mar o
mar sem fim, aquela que se comporia do que de melhor tiveram Ocidente
e Oriente, uniria Cristo e Lao-Tseu e nos daria, num eterno sendo e vir a
ser, aquele Espírito Santo que é a fusão perfeita do Todo e do seu Nada. –
“Algumas considerações sobre o culto popular do Espírito Santo” [1967],
in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, pp. 321-335.

Perguntar-se-á donde vem a diferença espanhola, que já notou na lite-


ratura e vai notar na vida; acho ser o Império deles para o lado de Santa
Teresa e de São João da Cruz, o português para o lado dos Infantes, dos
Albuquerques, dos Vieiras; o único espaço de que o espanhol precisa é o
espaço interior de sua alma; o português de mares; se trabalharmos bem
numa unidade superior destas diferenças, voltaremos ao tempo, antes de
portugueses e espanhóis, em que o Espírito pairava sobre as águas (...). –
Carta VI (6.9.68), in Cartas de Agostinho da Silva para António Telmo, p. 47.

Fui a Krishnamurti mais para o ver do que para o ouvir, e uma vez;
acho que ele representa o melhor do pensamento indiano, ou oriental, se
quiser, o princípio de que a reforma que vale é a reforma do indivíduo; os
ocidentais vão pela reforma do exterior; a terceira posição é a dos ibéri-
cos: as duas coisas ao mesmo tempo; os místicos eram conquistadores e os
conquistadores místicos. Acresce ainda que ocidentais – indo-europeus – e
orientais indo-europeus também (estou falando das fontes indianas) têm
ambos a ideia de acção, interior ou exterior; aqui entra português, como o
mais refinado dos ibéricos: temos a acção – dupla, ocidental e oriental – e
o para além da acção (teologia do Espírito Santo); agir e em cada momento
da acção estar inteiramente fora dela, olhá-la apenas como um dos fenóme-
nos do universo, eis o que é português; ter fidelidade a uma coisa que é ao
mesmo tempo destino e liberdade; recusar o que não seja tudo; não aceitar
isto contra aquilo. Os portugueses hoje, coitados, acho que nem sabem
que existem como portugueses; esperemos que ainda acordem no nosso
tempo; dependerá de acordarmos nós plenamente primeiro, e de lhes dar
depois uns bons gritos para os acordar a eles. – Carta IX (12.10.68), in
Cartas de Agostinho da Silva para António Telmo, p. 53.

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

Chama-se Pátria ao lugar em que se nasce; e, porque Pessoa nasceu em


Portugal, supôs-se sempre no que precede que o escrito por ele se refere
a um Portugal expandido à medida da expansão de sua língua e que a
Pátria pensada se lhe alargou desde as fronteiras da Bolívia aos limites da
Indonésia; e aqui trouxemos tal pensamento ou tal interpretação de seu
pensamento a jeito de fábula ilustrativa ou da autoridade em que, por mau
costume, todos nós gostamos de nos apoiar. Outros irão por outro lado e
farão a hipótese de que Pessoa se refira ao poeta que nasceu quando, aban-
donando seus exercícios literários em língua inglesa, passou às exegeses e
profecias de língua portuguesa; de qualquer modo teríamos a língua como
pátria; mas na segunda consideração; ela seria não a pátria do homem
político, com uma futura unidade portuguesa dando abraço ao mundo,
mas a pátria do homem religioso e mágico para o qual o português seria a
língua dum Evangelho definitivo, diria Joaquim de Flora de um Evangelho
Eterno, Evangelho para um Universo, não já apenas dos homens, mas de
todos os seres; ao latim, língua da Igreja de uma era de fraternidade, ou,
pelo menos de sua pregação e seu anelo, sucederia o português, língua da
Igreja de uma era de liberdade; e de uma era ecuménica; para empregar as
palavras no seu significado exacto, à língua de uma Igreja cristã sucederia a
língua de uma Igreja realmente católica; quero eu dizer, Universal.
Ora acontece que, por acaso ou desígnio, venho de uma experiência,
digamos geográfica e de acção, que tem sido mais larga do que a de Pessoa;
e, quando se encontram pelo mundo, de Timor à Costa de África, os
milhões de portugueses que não falam português e desejam acima de tudo
continuar portugueses, circunstância de que facilmente se esquecem os
que limitam Portugal à tal pequena casa lusitana, ao mesmo tempo que,
do outro lado, os mais retoricamente patriotas se mostram bastante indi-
ferentes a que eles falem ou não falem português; quando se encontram
na Europa ou na América ou na Ásia os emigrantes que desaprenderam a
sua língua por lhes não ter sido dada nenhuma espécie de apoio cultural,
todos os serviços responsáveis, e que, no entanto, continuam portugueses,
de coração ou de direito, com a mesma persistência e a mesma melancolia
que em suas terras natais de seus avós herdaram; quando, por outra parte,
vemos o Daomé, um dos mais dignos, conviventes e infelizes países da

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agostinho da silva – uma antologia

África, solicitar a Pedro II que o Brasil o tomasse sob seu protectorado, o


que, como era de esperar do erudito burocrata, teve resposta negativa, e,
em nossos dias, com a Universidade da Bahia, lançar as bases de um acordo
para que juntos se ocupem de São João Baptista de Ajudá, aí conservando
a lembrança da acção de portugueses; e quando o Brasil, onde floresceu
o que de melhor havia em Portugal, aparece como uma terra de promis-
são, e isto apesar de todas as incertezas, à gente de países tão desenvolvi-
dos como a Alemanha, a América do Norte ou o Japão, e como modelo
de convivência racial a nações que têm problemas de contacto; quando
se procura o ponto de convergência de todas estas atitudes, principia-se
pensando se podemos conservar a ideia de Portugal como o conjunto de
povos que falam português ou se a temos de encarar como uma forma de
ser, elevada já de categoria social e psicológica a categoria metafísica ou
religiosa, forma de ser que apareceria como desejável a todo o mundo, e
que portugueses, esses agora os dos povos de língua portuguesa, a todo o
mundo deveriam levar.
Quando se fala de pensamento português, raras vezes os nossos inte-
lectuais, vítimas de um sistema de educação que, tendo por base uma
economia de falsas aristocracias e por objectivo a imitação de modelos
estrangeiros condenados a desaparecer, pois temos ido quase sempre atra-
sados e quase sempre à fonte errada, fatalmente os separa do povo e lhes
faz ignorar e desprezar o povo, raras vezes, pois, têm eles procurado saber
que pensamento elaborou e adoptou o povo, não como uma ideia a que se
adere, que assim têm ido em geral as filosofias de ocidente, mas como uma
ideia que se é, a exemplo de Sócrates, cuja santidade só foi perturbada por
uma maliciosa inteligência de advogado, e a exemplo de todos os santos
que houve depois, em estóicos ou cristãos ou ateus, que é Deus bastante
grande para até não ser quando alguns dos melhores assim o preferem.
Perceberam já os que têm algum hábito de me ler ou escutar que vou
trazer de novo a terreiro o culto popular do Espírito Santo, que, já para
não citar o Brasil, visto que estou escrevendo especialmente para os por-
tugueses de territórios juridicamente portugueses, é a religião viva dos
Açores, tão viva que me parece que a obrigação essencial dos açorianos
deveria ser a de irem pelo mundo como missionários do seu culto; e como,

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

exactamente à maneira do que já sucedeu com a doutrina de Cristo, preci-


sam os homens, enquanto considerarem a razão como sua faculdade essen-
cial, de uma filosofia, que seria neste caso uma teologia, bom seria que os
nossos aprendizes de filósofo ou os nossos filósofos diplomados dessem
descanso a seus pensadores mais em moda ou a suas arqueologias filosó-
ficas e procurassem pelo menos imitar o que fazem, quanto ao Espírito
Santo, teólogos de força, pondo em racional o que o povo sente e, na
medida em que o pode, faz. Acresce a tudo que, como estou convencido de
que, por se tratar do Absoluto, é impossível vir a elaborar-se uma integral
teologia do Espírito Santo, fico bem descansado quanto à eventualidade
de estragarmos, com mais uma filosofia, o que é, e tem de continuar a ser,
comportamento puro.
Como sei, por outro lado, que o falar-se de Espírito Santo implica nuns
o receio de heresias, porque até a isso se chegou, poder ser considerado
herético o culto de Paracleto, e noutros o ressaibo de interpretações paro-
quiais que andaram tantos séculos de acordo com os interesses dos pode-
rosos e hoje mostram ainda tanta resistência a reformar-se, deixaremos de
lado o nome, que pouco importa, e examinaremos o que o culto inclui
– Educação de Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, pp. 99-101.

É religião, portanto, o que Portugal, explicitando-a, tem que dar a si


próprio e ao mundo, indo para além de simbolismos e rituais e entenden-
do que, só cumprindo-se inteiramente o homem, se pode inteiramente
cumprir o Espírito; não há religião alguma que possa ser, excepto para
raros, contemplação pura, adoração sem exigência de retorno, paz para
além de todos os medos e todos os divórcios, enquanto o conjunto da
Humanidade não tiver o suficiente para viver, não puder livremente tomar
conhecimento do mundo e não tiver consigo o domínio do sonho; educar
Portugal, o pequeno Portugal da Europa, o maior já de África e de Ásia,
o imenso da América, e educar cada um dos homens que o constituem,
pretos, vermelhos, amarelos, é dar os meios de não ser afinal frustrada
cada vida que nele nasce e de fazer que cada uma delas seja, para o resto da
Humanidade, a luz de entendimento que nenhuma técnica dá, mas que
todas elas permitem libertar.

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agostinho da silva – uma antologia

Religião que se tem de exprimir na língua portuguesa, a qual é essencial


ensinar a todos os portugueses, pondo nisso o esforço imediato, fazendo que
a falem, a falem bem; com a repousada gravidade e a música vocálica que
lhe é essencial e a carinhosa doçura e a malícia que o além-mar lhe acrescen-
tou, e com toda a riqueza de vocabulário que sua condição planetária lhe
deu; que a entendam lida, já, que apesar de todas as formas novas de comu-
nicação que representam um avanço de cultura e tirarão a Humanidade
dos hábitos mentais do liberalismo alfabético ainda se ­escreve no mundo,
existem bibliotecas, e durante muito tempo se escreverá, quantas vezes de
mais; e que pela língua escrita saibam comunicar consigo próprios e com os
outros, sem que sintam em si essa diminuição de humanidade que é o ser
analfabeto numa sociedade que o marginaliza.
Religião que não é mais uma entre as outras, mas o aviso que todas elas
são um sinal de Deus, um esforço de chegar a ele e um permanente desejo
de que nele se fundam os homens com tudo o que foi vivo no passado,
mesmo que o próprio passado seja morto, tudo o que é imaginado no
futuro mesmo que seja o próprio futuro imaginário. Repete o Espírito,
absoluto de existência, que Deus tanto está na missa cristã como na ablu-
ção muçulmana, tanto se manifesta pelo orixá africano como pelo taoismo
chinês, tanto resplende nas danças do Xingu como nos mitos de Timor;
repete, ao considerar os ateus, e não esquecendo que são ateus os budistas,
ao considerar os agnósticos ou os que se dizem anti-religiosos, quando são
apenas contra o explorar-se o que é religioso com objectivos que o não são,
repete o Espírito que Deus brilha no reverso das medalhas exactamente
como no anverso; e repete o Espírito que sendo obrigação essencial de cada
um converter-se à sua própria religião, numa vontade contínua de aperfei-
çoamento seu e dela, nunca será plenamente religioso se não entender cada
uma das outras religiões como se sua fosse.
Parece disposto o Império Português, e aqui se toma Império no seu
sentido açoriano de lugar que se serve e não daquele em que se manda,
parece disposto o Império, nas malhas que teceu e que não são apenas
de fatalidade, para que dêmos nós consciência ao mundo de que ecume-
nismo não consiste no lento negociar de tratados de acomodação entre
arqueologias sobreviventes nem se resume a ecúmena à porção limitada de

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

hemisfério norte em que mais se enraizou a mensagem de Cristo, dando-se


aqui de barato que são já de Cristo as Igrejas cristãs e não apenas o v­ agaroso,
doloroso, quase sempre interrompido esforço para que finalmente um Deus
possa fazer coincidir seu Descimento da Cruz com o descimento da cruz
que desejamos para todos os homens.
Ecumenismo consiste em ver todas as religiões como os vários aspectos
da religião portuguesa, e por Portugal esperemos que humana, da religião
do Espírito, que um dia, na sua forma última e pura, abandonará todos os
ritos pelo de viver a vida graciosa, trocará todas as orações pelo perder-se
em Deus, e, tendo atingido a realidade, lhe serão sacramentos símbolos só.
O ecumenismo português tem de se afirmar pela igualdade de tratamento
teológico e político de todas as religiões que Portugal contém, tratamento
consequente ao ver-se claro que pode muçulmano ensinar a cristão o que é
a Fé, pode cristão ensinar a confucionista o que é a Esperança, podem todos
juntos ensinar a todos, procurando que os outros estejam sempre melhor
e sejam sempre melhores e tenham sempre o melhor, o que é a Caridade.
Ecumenismo não é contrato, é vida; vida plena e cogulada, como Deus a
quer – Educação de Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, pp. 104-106.

Se a missão de Portugal, da pátria de língua portuguesa tão i­ ntensamente


entendida que para mim sejam pátria em sentido restrito Moçambique ou
Baía, mesmo que nascido em Portugal, e em mim floresça a cultura de um
negro tão fortemente como a minha; se a missão de Portugal, âmbito da
religião do Espírito, tão profundamente vivida que seja eu muçulmano
mesmo que baptizado, é a de organizar a paz do mundo, nada poderá ser
feito sem que, dentro dele, tenham paz os homens que o formam e se pos-
sam entender em si e entre si para que a tarefa se cumpra e, cumprindo-se
a tarefa, se cumpra Portugal. Paz que de modo algum será, se a liberdade
não for, para tudo, a base essencial – Educação de Portugal [1970], in Textos
Pedagógicos II, pp. 109-110.

Portugal, o grande, o todo, o de amarelos, brancos, pretos e vermelhos,


o de islamitas, cristãos, judeus, animistas, budistas, taoistas, o da América,
Europa, Ásia, África, Oceânia, o dos municípios, tribos e aldeias, o de

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agostinho da silva – uma antologia

monarquias e repúblicas, o dos grandes espaços conhecidos e o dos espaços


ignotos ainda, dentro e fora do homem, o Portugal núcleo de formação de
uma União Internacional dos Povos para o desenvolvimento, a liberdade
e a paz, […] deve, audaciosamente, preceder os outros povos, estabelecen-
do ensino ou aprendizagem superior que estejam já encaminhados a uma
era em que o homem seja plenamente criador e deixe como traço de sua
passagem na vida esse aproximar-se cada vez mais da essência da criação
divina – Educação de Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, pp. 126-127.

[...] segura convicção de que foi feito Portugal para a Paz, que o seu
Deus não é o Deus dos exércitos, que o seu Cristo não é o que foi invocado
nas batalhas contra homens que por seu turno iam traindo Alá, mas sim o
Menino Jesus do Presépio de Greccio, o Imperador açoriano, a Criança do
Evangelho de Caeiro; a rediviva infância – Educação de Portugal [1970], in
Textos Pedagógicos II, p. 116.

(...) temos de descobrir e formular a identidade da mensagem divina


e humana que veio, aos Portugueses do total, pelas palavras de Cristo,
de Maomé ou de Buda, ou se exprime por canto, dança ou escultura ou
­silêncio, desde os orixás africanos às liturgias malaias. – “Realidade e Sonho”
(1970), in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II, p. 34.

A língua portuguesa só cumprirá o seu destino e dever quando chegar


a esses povos como meio de expressão de uma doutrina ou de uma con-
cepção da vida que esteja, para os nossos tempos e os que virão, como
estava, para os séculos de expansão marítima, o conjunto formado pelo
cristianismo, o capitalismo e a autoridade real. Na religião, um ecume-
nismo que seja não ecléctico mas de orgânica, de síntese, de um renascer
profundo, depois de morte ou mortes; na economia, o sistema que liberte
o consumidor de todos os inconvenientes de uma sociedade que, apesar
do que se diz, não é de consumo, mas de produção; na disciplina social, o
haver quem coordene em lugar de quem mande. É esta a real tarefa a que
o mundo chama Portugal e o Brasil. Aprender o Português como língua
futura, não de passado; não de relatos, mas de projectos; não de saudades,

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

mas de esperanças. É sob este ponto de vista universal que têm de ser
apreciados e resolvidos os problemas com que se defrontam os povos de
língua portuguesa – e, na sua esfera individual, mais poderosa do que
nenhuma, cada um dos homens que a falam, os quais, quase sempre, não
a lêem nem a escrevem – “Para exprimir o quê?” (1970), in Ensaios sobre
Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II, p. 51.

(...) tessituras que talvez viessem a resolver-se pelo reconhecimento da


unidade essencial entre a teologia do Espírito Santo, que era a do povo
português, tão abstracta que se não submete a discurso, e o budismo
japonês da linha zen, plenamente instalado para além do lógico e ainda
irmão do que pensavam ou sentiam portugueses na desconfiança com que
olhavam religiões instituídas, burocráticas, de pé-de-meia e de seguro de
vida – “Da Fé e do Império” (1971), in Ensaios sobre Cultura e Literatura
Portuguesa e Brasileira II, p. 78.

Aqui estaria, nesta cruz de Brasília, que Lúcio Costa riscou no mapa
com o simples propósito de assinalar um ponto, mas que se carregaria de
significado religioso, não o da crucificação de Cristo, que esta se fez no
Velho Mundo, mas o de sua Ressurreição na ressurreição de cada homem
de todas as misérias de que tem sido vítima, aqui estaria talvez o símbolo
e o ponto de arranque de uma nova Nação Portuguesa que exercesse a
sua influência de paz social para a ordem interna e de paz ecuménica para
a ordem externa, que se lançasse de norte a sul e de leste a oeste para as
tarefas da convivência, e que fizesse suceder à inteligência grega, à força
romana, à fraternidade cristã, à técnica europeia a una Humanidade por
que todos anseiam e que só se realizará na liberdade, na esperança e na
audácia. – “Continuações” (1971), in Ensaios sobre Cultura e Literatura
Portuguesa e Brasileira II, p. 98.

O que havia a repelir era a submissão à máquina, a invasão das horas


de ócio, do sagrado do diálogo do homem consigo mesmo: coisa em que,
nos primeiros tempos, colabora muito a preguiça indígena com a preguiça
lusitana: ao homem que afinal descobrira o mundo badalando a perna

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agostinho da silva – uma antologia

sobre a borda do barco oferecia o tupi o balanço na rede e a doce embria-


guez do fumo. – “Sobre Índios e Suecos” (1971), in Ensaios sobre Cultura e
Literatura Portuguesa e Brasileira II, 2001, p. 103.

Se a missão que cabia à Península era a de unir o mundo, sobretudo no


sentido norte-sul, que falhara aos romanos, e que ainda hoje é claro na opo-
sição de povos desenvolvidos a povos subdesenvolvidos, numa economia de
fraternidade, num regime de liberdade e numa religião universalista, que não
era o catolicismo de Roma, mas o dos portugueses, a Península a traiu logo de
início; cometeu pecados mortais, isto é, praticou aqueles actos que matam a
alma e impedem todo o avanço futuro. Tomando o Infante D. Henrique como
símbolo, e só para nos referirmos a Portugal, repartiu ele escravos, embora
chorando, e por aí lançou o país no caminho do capitalismo, a que o outro,
o de fora, só vem dar o aperfeiçoamento dos processos; recusa-se a entregar
Ceuta, consagrando a razão de Estado, que depois, na esteira de Fernando e
Isabel, leva a expulsar nossos irmãos judeus e mouros e a destruir os forais;
e, entrando pelo caminho das conversões à força e dos baptismos em massa,
comete o imperdoável pecado contra o Espírito Santo, de que era adepto.
Se a Península, e tudo o que dela veio, ainda se quer salvar, é todo o contrá-
rio o que há a fazer agora, numa tentativa sua, não copiada de moldes estran-
geiros, de uma economia colectivista, baseada no consumo e não na produção,
na libertação do homem e não na escravatura à máquina, no grupo e não na
concorrência; de um regime em que possam os homens cumprir plenamente
o dever de pensar, de se informar e de, livres, contribuírem para o progres-
so de sua comunidade; de um ecumenismo religioso que se não entretenha
em negociações diplomáticas com Cantuária ou Worms ou Constantinopla,
mas integre no mesmo corpo místico a todos os teístas e a todos os ateus do
mundo; mundo que nos espera e seguirá se tivermos a coragem de ser outros:
os que não somos e éramos” – “A coragem de ser outros” (1971), in Ensaios
sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II, 2001, pp. 132-133.

(defendendo a atribuição do Prémio Nobel aos irmãos Villas-Bôas, pela


sua obra de protecção dos índios brasileiros) Em termos largos, lutam pela
concessão do prémio os que pensam que o ideal da vida humana consiste

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

em estabelecer economias mais atentas ao social que ao individual, em


organizar sistemas políticos em que tenha cada um a sua voz e em que
a marcha se faça não porque uns mandam obedecendo os outros, mas
porque todos caminham juntos por consenso de todos, e em deixar que
tenha cada qual a concepção que melhor lhe pareça sobre o misterioso
mundo à sua volta. E talvez se possa pensar que devem contar-se entre
eles todos os portugueses, quando, como cada vez mais vai acontecendo,
se considera que Portugal foi travado na plenitude de seu destino históri-
co exactamente pela introdução, nos finais da Idade Média, de um capi-
taloismo g­ ermano-italiano, de um cesarismo romano e de uma violenta
­Contra-Reforma que lhe eram estranhos e antagónicos. No seu significado
mais restrito, a batalha dos Vilas Boas é uma batalha pelo direito que têm
os índios de seguir sua vida própria e de serem integrados sem conflitos à
civilização brasileira, que portuguesa é; no seu sentido mais amplo pelo que
a nós respeita, é uma afirmação da consciência de que a Nação Portuguesa,
Portugal e Brasil, só se poderão cumprir na medida em que entenderem
como legítimas as culturas alheias e, mais do que legítimas, como enrique-
cendo a sua própria cultura; em que puserem os olhos, e as adaptarem às
técnicas modernas, em economias em que os homens, para sobreviver, não
vão ao paradoxo de se matarem; em que puderem pensar governos que
muito ouçam e pouco mandem – “Três vezes se diria...” (1971), in Ensaios
sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II, 2001, pp. 145-146.

Será problema de tão grande monta negociar com os anglicanos, pro-


testantes ou ortodoxos, quando todos juntos são apenas uma pequena
mancha no grande mundo religioso em que entram muçulmanos e hin-
dus, budistas e sintoístas, animistas e taoístas, e até ateus, que não são
muito longe das correntes teológicas do Deus que é morto, e talvez ainda
dos marxistas, que já foram considerados apenas como seguidores de uma
doutrina cristã herética?
Creio que se estas perguntas se devem pôr a qualquer homem, muito
mais parecem adequadas quanto a homens da Nação Portuguesa, a qual,
vou repetindo de outros escritos, é o conjunto do homens que falam ou
deviam falar Português, o que implica esta Portugalzinho em que agora

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agostinho da silva – uma antologia

estou e escrevo, as Ilhas Atlânticas, que espero voltem a ser um dia


Afortunadas, ou uma Guiné, ou um Brasil, ou uma África Austral, ou uma
Goa e uma Malaca, ou um Timor e um Macau, ou uma New Bedford e
uma Oakland, ou a comunidade emigrada de Paris e de Sidney, ou aque-
les simples lugares, como o Guajará Mirim, que visitei nas fronteiras da
Bolívia, em que um português só e sozinho se passeava impávido como se
tivera atrás de si todas as forças do mundo.
[…] Português nasceu para definir Igreja como o conjunto de todos
os homens, passados, presentes e futuros, convictos de que, pela acção do
Espírito, orando, meditando, pregando, ou pela ascese, por que não vou
muito, ou pela liturgia, por que muito vou, podem modificar o mundo de
modo a que todos os homens tenham plena liberdade, liberdade económi-
ca, liberdade de saber, liberdade de pensar.
Homens convictos de que capitalismo foi uma fatalidade histórica, pela
qual se tinha de passar, mas de que hoje felizmente nos podemos ver livres;
que achem que socialismo ainda não é um sistema perfeito, mas é já bem
melhor que o tal sistema da iniciativa privada; homens seguros de que só
pela produção automática, baseada em ciência e técnica, poderemos dar a
todos, sem conflitos, o de que precisam para viver. Homens que pensem,
por outro lado, que a vida inteira tem de ser escola para todos e que o
caminho para esse ideal é o de escolas cada vez mais abertas, cada vez
com menos predomínio dos professores, cada vez mais centradas nas pos-
sibilidades criadoras da criança. Homens que finalmente olhem todos que
pensam como seus irmãos, não como adversários que se trata de destruir
ou de captar por manhoso artifício ou suborno ou pressão económica.
Impõe-se aos portugueses religiosos, e para mim o são todos que se
mantenham fiéis às suas ideias e nos quais tanto valha perguntar-se pelo
que dizem como pelo que fazem, acabando-se de vez com Frei Tomás pro-
verbial, impõe-se a eles uma metanóia, um pulo de espírito, uma trans-
formação de ser para que Portugal, repito, a Nação Portuguesa, passe do
sonho ao real, do messiânico ao histórico, do Alcácer Quibir em que mor-
reu à Brasília em que ressurgirá.
Foi até agora a Igreja Católica uma parte da Igreja Cristã; consistirá
fundamentalmente a metanóia em ver a Igreja Cristã como uma parte

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

da Igreja Católica, de que sejam outros componentes os anglicanos e os


budistas. O que a Igreja Católica tem de afirmar antes de mais é o seu
carácter universal, opondo-se por aí a todos os antagonismos de confis-
sões, a todos os conflitos nacionais e internacionais, a todas as divisões
de classe, a todos os racismos, a todas as descrições [sic; discriminações?]
políticas. Mas opondo-se, não com as prudências, as mansidões e as meias
palavras que tanto se parecem com a hipocrisia, mas lembrando-se com
lição essencial de muitos dos Salmos e de muito do Sermão da Montanha,
opondo-se com decidida firmeza, com a violência das certezas e com os
escândalos das plenas convicções.
Dentro dessa Igreja Católica, universal, ecuménica, que os portugueses
têm obrigação de construir, inteira liberdade, para o infiel e para todos:
desistência de possuir seja o que for de bens materiais, o tal voto de pobreza
que me parece só estar hoje em pleno vigor nos admiráveis irmãos e irmãs
do Padre de Foucauld; desistência de possuir gente, coisa fatal enquanto
houver capitalismo, exércitos, burocracia e o tal pátrio poder, desistência
essa que é porventura a significação essencial do voto de castidade do sacer-
dócio e da gente de ordens e de congregações; finalmente, desistência de
se possuir a si próprio, expressa no voto de obediência que se tem agora
de transferir do superior para Deus, como o fazem os muçulmanos ou
povo português na sua filosofia do “tinha que ser” e “estava escrito” muito
melhor do que muito eclesiástico ou simples fiel.
Esta é a revolução a que nos chamam, esta a presença que se impõe, este
o diálogo que se tem de travar. Temos todos de estudar muito, de pensar
muito e, sobretudo, de ser muito, com todas as dificuldades que nos levan-
tam ou natureza ou hábitos ou ambiente ou ambições; tem de nos ser pão
quotidiano a diária humilhação de nos sentirmos piores do que queríamos
ser; temos de saber e sentir e nos convertermos ao que são os homens do
zen ou do candomblé até que encontremos, e sejamos, a essência que a
tudo liga; se formos incapazes de o dizer ou escrever, sejamo-lo, o que
vale mais, e rezemos, para que o sejam os outros. Se o não fizermos, não
cumpriremos o ao que viemos; e que dirá quem nos mandou quando che-
garmos de mãos vazias e olho baixo? – “Nota a Cinco Fascículos” [1971],
in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 265.

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agostinho da silva – uma antologia

Não creio que a Nação Portuguesa, repito, a Nação Portuguesa que foi
até 1822 um só Estado, que hoje se encontra dividida em dois e pode ama-
nhã ser vários ou um só, e neste caso, federativo, que o é já Brasil, não
creio que a Nação Portuguesa tenha que desempenhar no mundo qualquer
relevante missão científica, técnica ou industrial ou puramente política; e,
se a tivesse, me interessaria pouco sua missão, já que me parece que não está
a Humanidade essencialmente precisada de tais empreendimentos. Se tem
alguma que lhe seja própria é a de iniciar entre todos os homens uma con-
vivência de espírito, como outrora iniciou pelos descobrimentos, que tanto
foram o do caminho marítimo para a Índia como o do interior de Mato
Grosso ou da Amazónia ou dos reinos do Monomotapa, uma convivência
digamos física ou antropológica. A missão da Nação Portuguesa é a da Paz;
se outra não (sic) tivesse seria sem sentido a sua história e inútil a sua presen-
te existência; para ser o que estão sendo os outros mais lhe valeria não ser.
Não há, porém, missões de paz para o lado de fora que se não alicercem
numa paz interna: paz económica, pelo doseamento, equilíbrio produti-
vo e de consumo, compromisso dos grandes sistemas que hoje dividem o
mundo, o colectivista e o individualista, sempre, no entanto, a caminho
do primeiro, que mais está em nossa natureza portuguesa e humana, e
­decerto se poderá um dia realizar na liberdade; paz de espírito pela educa-
ção permanente, o que significa informação livre, acesso às escolas de todos
os graus, solicitação, a cada momento, do espírito crítico e da imaginação
criadora, e metafísica ou religião, mais vou pela segunda, como cada um,
sobre a base de educação de que se falou, a possa, saiba, ou queira; paz polí-
tica, pela ideia de que ninguém possui, nesses campos, a verdade suprema e
segura, de que tudo que se faça é uma aproximação do que se poderia fazer
e de que a construção de uma comunidade está sempre errada quando dela
não participam todos os seus membros, mesmo aqueles a quem supomos
de pensamento mais absurdo, e que nos convençam a nós se razão têm, os
convençamos nós a eles, se o contrário se dá.
Sei ainda que a base de tudo é a paz interna de cada homem consigo
mesmo e que é isso o que muitos e dos melhores reclamam a cada momento
e nos trazem o exemplo dos santos, que a tiveram, e mesmo nas piores condi-
ções; replicarei que essa não é a lei geral e que precisamos nós muito, os que

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não somos santos, de situações, leis e governos que, à força de nos suporem
ou quererem santos, nos não lancem ao inferno; queremos só um Estado
que nos ampare em nossa humana fraqueza e que saiba que o melhor, para
tal, é deixar que compúnhamos livremente, harmoniosamente, o que em
nós e nos outros é positiva força. – “Três vezes se diria...” (1971), in Ensaios
sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II, pp. 147-148.

Mas que é Português se não experimenta, ousa, afronta problemas e


lhes traz soluções novas? É lenda apenas que se descobriu mundo? (...)
É desvairado empenho o de trazer ao mundo, para os problemas que o
defrontam, soluções nossas novas? – “Há quem proponha chamar-se-lhe
docimologia...” (1971), in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e
Brasileira II, p. 184.

(...) a largueza ecuménica de pensar, e estou aqui a lembrar-me espe-


cialmente de terras da Nação Portuguesa em que somos católicos, protes-
tantes, muçulmanos, budistas, confucionistas e ainda aquelas indefinições
que nadam por África, por Brasil ou Timor; e ainda ateus, para mim, nos
que conheço, tanto religião como as outras; (...) – “Há quem proponha
chamar-se-lhe docimologia...” (1971), in Ensaios sobre Cultura e Literatura
Portuguesa e Brasileira II, p. 186.

E a propósito de Quinto Império: como faz mal ouvir falar ainda de


sebastianismo sem que se entenda nada do assunto. Acho que importam
três pontos: que D. Sebastião foi sujeito do fenómeno como podia ter
sido outro ou nenhum, isto é, um ser puramente mítico; creio que o
foi ele por ter sido o rei que veio, justificadamente ou não, dar alguma
esperança ao povo, depois de gente que tão mal entendeu Portugal, como
D. João II e D. Manuel e D. João III; pelas próprias loucuras, depois
do chamado juízo de seus três antecessores, juízo, acentuadamente nos
dois últimos, de empresários sem talento. O segundo ponto é não ser o
fenómeno estritamente português: é de vários lugares e de vários séculos
e, no que mais interessa, peninsular: vem dos comuneros e das germa-
nias contra Carlos V e passa a um Bandarra que o glosa muito antes de

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agostinho da silva – uma antologia

Alcácer. Terceiro ponto: é a maneira por que o povo protesta contra a


dominação da estreiteza religiosa que veio com Trento, e de que só hoje
principia a Igreja a libertar-se; contra a economia da iniciativa privada,
do capitalismo eficiente e sem alma, felizmente moribundo em nosso
século, mas ainda com cada unhada, Santo Deus!; contra o absolutismo:
absolutismo que afinal está em germe em todo o governo e se afirma a
cada distracção ou fraqueza da comunidade; absolutismo que ainda tem
decerto muita força: o que actualmente estará em jogo no mundo não é
a justiça económica, é a liberdade. “Quem a tem chama-lhe sua.”. Com
o perigo derivando sobre a criação científica, sobre o seu pleno aproveita-
mento técnico e, como consequência, para a própria justiça económica,
mais fácil na abundância. O povo esteve certo e está certo se continuar
sebastianista neste sentido, o de protesto contra uma cultura estrangeira
imposta à força, força física ou força de palavras que não entende, já
que nada mudou substancialmente desde os fins do século xvi: sempre
teve Portugal regimes de corte estrangeiro e impostos tal qual os tivesse
ditado Carlos V: com mais ou menos bruteza, com mais ou menos lábia.
Mas será erradamente sebastianista quem julgar D. Sebastião um grande
homem: coitado, não o foi; errado ainda, se supõe que a salvação lhe pode
vir dos outros e não dele próprio: salvação do povo pelo povo, por cada
homem que o compõe, por cada alma que nele, todos os dias, tentam
assassinar” – Pensamento em Farmácia de Província, 1 [1977], in Textos e
Ensaios Filosóficos II, pp. 355-356.

Vejo a primeira “Renascença” – e sua Faculdade de Letras – como tendo


procurado um centro a Portugal e o encontrado num “indefinível vivido”,
aquele a que José Marinho, em alargamento total, chamou “insubstancial
substante”.
Olho a segunda – e sua Faculdade – como desejando definir o que
é periferia portuguesa, nesse outro indistinto a fixando em que constrói
Portugal, com chineses, malaios e japoneses, com muçulmanos e judeus,
com africanos e ameríndios, e até com europeus, aquela concreta tessi-
tura de “vida conversável”, sempre renovada e aberta, de que falou, num
momento supremo de cultura, o Pero Lopes em costas do Brasil.

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Gosto de imaginar uma terceira – e lhe seja Faculdade o Mundo – em


que periferia e centro se confundam, em que lembrança e projecto num
mesmo tronco floresçam, em que abstracto e concreto uma só estátua, e
animada, formem, em que o Deus que adoremos seja o de Tudo e Nada,
sempre em nós, de nós, a nós, por nós, voltando, num perpétuo e momen-
tâneo e parado mover-se de imanência e transcendência, como em simultâ-
neas sístole e diástole: só então Portugal, por já não ser, será – “Mensagem”,
Nova Renascença, n.º 1 (Porto, Outono de 1980), in Dispersos, p. 697.

Assegurado o Reino, casa o moço Dinis com a princesa que de mar


vem, de outro mar já bem navegado dos antigos e, para os seus, líquido
caminho a domínios de Itália. Lhe fala ela da profecia que dessa Itália veio,
pregada por um cisterciense abade Joaquim que o Papa condenava e talvez
Bernardo o Patriarca absolvesse e apoiasse, profecia de uma futura e final
Idade do Espírito Santo, em que o Divino já não seria o Pai, ordenador,
legislador monarca sem o qual o mundo não seria, nem o Filho que em Pai
cuidadoso O renovara, passando os homens de subordinados à autoridade
a protegidos irmãos uns dos outros, mas, por essência, a inspiração criado-
ra, o misterioso, imprevisível impulso que faz surgir da matéria os místicos
e os sábios, os poetas e os heróis e do imaginário sonho faz o mundo real e
do concreto ao imaginário de novo alça seu voo.
Ao toque na terra de Portugal, com os franciscanos espirituais receben-
do o legado que era simultaneamente de São Bernardo e São Francisco e
Joaquimita, já o Império do Espírito Santo não é futuro, mas da hora que
passa. O Pentecostes se repete – nos Painéis de São Vicente pintado se verá –
e todos os Portugueses, quem sabe se igualmente alguém de Borgonha, são
apóstolos, e é a Nação inteira que se retrata no momento exacto do mila-
gre que ao mundo muda. Desse Império não poderá ser Imperador, como
daquele a que irrisoriamente se chamava Santo, nenhum corrupto homem
de guerra e de ganância e de cego poder, mas a Meninos se confere a Coroa,
pois que seu domínio será o da entrega ao sonho, à inocência do brincar, à
imaginação que do tempo e do espaço se liberta: e quando esses Meninos
plenamente crescerem, séculos e séculos depois, livres de economias que se
baseiam na miséria e de códigos que tão dificilmente edificam prisões – por

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isso na Festa se dão banquetes e se libertam detidos –, eles, homens que


serão maduros por terem perante o jogo da vida a compenetração que tive-
ram no jogo da infância, já não vão ser apenas adoradores do Divino, mas
a ele eternamente se unirão em ideais, irreais e concretas Ilhas dos Amores.
[…]
No metafísico religioso ou não, liberdade plena, e muito haveria, no
culto do Divino que Santa Isabel instituíra e o Povo fizera, das antigas festas
da Primavera ou de colheitas, de lembranças de Prisciliano ou de afirmação
de direitos e esperanças de uma economia mais além que a nenhum opri-
misse, sempre no caminho do colectivo, só plenamente criador o homem
quando livre dos entraves da vida e do crime a que a miséria tenta; sem que
se desrespeitasse a Igreja que, segundo o de Flora, apoiado em São João,
algum dia haveria de passar à Igreja total ou nenhuma do mundo, inteira do
Espírito Santo, a mais abstracta e unitiva das Sagradas Pessoas da Trindade
Santíssima – “Fantasia Portuguesa para Orquestra de História e de Futuro”,
Cultura Portuguesa, n.º 2 (Lisboa, 1982), in Dispersos, pp. 708 e 710.

Em quase fim de rota, se desembarcaria na inocente terra do Brasil,


fixando no concreto a imaginária ilha que, com idêntico nome, se pusera
no Atlântico Norte, para repouso de bem-aventurados; e aí, em miscigena-
ção diferente da que pensara Albuquerque, se gerariam, pela cristianização
do tupi e pela tupinização do cristão, os novos homens mamelucos, esses
que, pelo saber de internos rios unido ao saber de mares externos, poriam
seus marcos na raiz dos Andes e construiriam o país do qual, por ciência e
magia, por abandono e vontade, por cepticismo (que significa procura) e
por fé (de fidelidade irmã), podem surgir as realidades utópicas.
Mas, como ainda o Poeta [Camões] o ensinou, nenhuma destas via-
gens, nenhuma destas empresas – e ninguém nunca as tentou nem maiores
nem iguais – era a definitiva. Se a História é história paralela de divino e
de humano, competindo ao primeiro demonstrar que Fado e Liberdade
são as distintas e simultaneamente inseparáveis páginas da pensada e real
folha da árvore ou livro que é o mundo, competindo ao segundo ir insa-
tisfeito e paciente no seu rumo prescrito, com calma no triunfo próprio
e melancolia na derrota de quem seja adverso – para quê os desastres de

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

alguém? –, a abordagem que vale é a das praias em parte alguma situadas


em que os dois se reúnam e em que, na perfeita unidade, possam os deuses
humanar-se e possam os heróis, livres de tempo e espaço, contemplar no
conjunto, como Deus a contempla e é, a aventura da História, e, ainda
como Deus a contempla e é, a Máquina do Mundo. Só essa Ilha será, para
Portugueses, a do verdadeiro Descoberto e a do essencial Amor; e por eles,
para o inteiro Universo, a única Jerusalém Celeste que a nós todos, cativos
da Babilónia, deve inspirar e guiar, e salvar – “Fantasia Portuguesa para
Orquestra de História e de Futuro”, Cultura Portuguesa, n.º 2 (Lisboa,
1982), in Dispersos, pp. 713.

portugal ou cinco idades


Conto de Páscoa a seus Amigos oferecido

1.

Dando expressão política a particularidades geográficas e étnicas, interes-


sada pelo comércio marítimo e aguilhoada ainda pelas ambições e planos de
Borgonha e de Cister, se constitui a Nação no século xii como independente
de seus irmãos de Ibéria. Embora a tarefa principal tenha sido a de empurrar
o mouro para o Sul, com as fronteiras provisórias, sempre avançadas, do
Douro, do Mondego, do Tejo e do mar de Algarve, não se deixou de pensar
na raia de leste e, durante séculos, foi uma das determinações da vida do
País a oposição, com fortuna vária, a Leão e Castela, quase sempre confun-
didas com a totalidade da Espanha, que bem virada estava a outros pontos.
Internamente, se estabelece Portugal como uma rede de municípios repu-
blicanos e democráticos, cada um com sua constituição adequada às carac-
terísticas locais, confiando-se a representação ou convivência de todos eles
a delegados que se reuniam em Cortes, sem prazo fixo, e aí discutiam dos
problemas particulares ou comuns do Reino; a tudo coordenando, havia o
Rei, simultaneamente hereditário e electivo, ainda que por sanção, Rei sem
capital fixa, mais fiando de seu passo que de um Paço; donde estava vigia-
va, ouvia, ordenava, dispunha, melhorava e, às vezes, pois que h ­ umano,
­piorava. O económico se firmava no comunitarismo agrário e pastoril, mais

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agostinho da silva – uma antologia

tarde alargado ao mar, com as aldeias na posse colectiva de suas terras e de


seus instrumentos de trabalho e de vida, mas com economia de mercado no
que tangia ao produto de seus sorteados lotes; o que não era do Povo era
do Rei, dos nobres ou do clero: de alguma forma, daqueles a que o geral
se confiava para o governo ou a defesa ou o transcendente, no qual último,
ainda que diluída, se guardava a lembrança anti-romana do priscilianismo
e se havia de mostrar o joaquimismo como forte muro nacional: Deus e
Papa se distinguiam claro. Fora uma ou outra escola – e a experiência da
Universidade não foi das melhores – se educava a gente menos em e­ scrituras
do que no que se via nítido e no que se vivia profundo. O que daria seu
fruto. Ou «fruito», como então se dizia e mais belo encontro.

2.

Com o ferrolho de Aljubarrota a fechar por algum tempo os portões do


norte e os de leste, se abriam, para continuar o impulso inicial, o mar do
Algarve e o do Grande Oceano. Dava aquela varanda para a inteira África,
ou pela travessia do Magrebe ou pelas conhecenças de costa; dava o ­segundo
para tudo que fosse necessário para, pela primeira vez, circum-navegar o
Globo. No duplo empreendimento se juntaram todas as possibilidades da
Nação, a si própria pondo de lado: ao ordenar da casa se preferiu a explo-
ração, ou invenção, de um mundo que cidade fosse; houve a curiosidade
de saber e o gosto da experiência, sobrelevando o do experimento, por ela
depois desencadeado – mas noutras terras; houve a cobiça do ouro e a aven-
tura da navegação, do combate e do roubo; houve o espanto e a adoração
do descoberto; houve o apuramento de uma cosmografia e de uma náutica
que fizeram rir das mal fundadas propostas de um Colombo; houve a sufi-
ciência da impante riqueza que repeliu Magalhães; houve a esperança de
uma religião ecuménica, mas faltou a especulação que a levasse para além
do cristianismo, a este o vendo como caso particular, ainda que a Portugal
mais adequado, da mística geral. De tudo resultou que se verificaram a
unidade dos mares e o ilhamento dos continentes; que, no comportamen-
to pessoal, não na doutrina, se deram razoavelmente o extremo budismo
do Japão e a essência do joaquimismo em Portugal popularizada; que se

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

livrou a Europa de acreditar nos erros dos Antigos e se lhe inculcaram


como critérios de verdade, – ainda que não, por indefinível, do verdadeiro,
– a geometria dos gregos e a álgebra dos árabes; que se deslocaram milhares
de homens a tentar utopias, por exemplo a de europeus na América do
Norte e a de Portugueses no Brasil; que pôde um poeta desta finisterra ver
como paralelas as acções dos homens e dos deuses e lhes profetizar a fusão.
Dele, porém, não tomou Portugal a lição de que se não deve escalar o céu,
nem ter amores incongruentes, nem odiar o futuro, pois que Adamastor
não é modelo. Tudo se foi pagando, a partir de D. João II, na frustração
da política, da economia, da educação e da transcendência do País. Ainda
houve, nos inícios do século xix, a tentativa de retirar a capital do armazém
que era, ou fora, Lisboa, para a fixar na promissora terra brasileira; nada,
porém, podia resultar, apesar da força que ainda houve para abrir na África
os fundamentos de países novos; só que, lógica e paradoxalmente – mas é
de portugueses a união de contrários –, com a revolta africana se fechou o
ciclo do Império; ou da Pimenta, como quisermos.

3.

O mais provável é que na vida nada tenha importância a não ser a


Vida, com sua Morte inclusa, claro está; nela, porém, tudo tem impor-
tância, independentemente dos sinais de positivo ou negativo que nós
lhe juntemos, na nossa ignorância ou esquecimento de que, no fundo,
nada tem sinal algum. Quanto à História, apenas costumo pôr de relevo
duas Revoluções, desprezando, injustamente, todas as outras: aquela que,
com o primeiro sílex lascado, fez de um antropóide o homem, e a outra,
bem recente afinal em comparação com a primeira – talvez se verifique
em História a mesma lei que rege o afastamento das galáxias –, a outra
revolução, dizia eu, que tornou o sílex automático pela basilar invenção
do microcircuito. Pois, quando Portugal regressou à Península, ­davam-se
os primeiros sinais desta segunda revolução: o capitalismo esvaía-se em
desemprego que ninguém era capaz de ver como o toque precursor da vida
livre e criadora que hoje temos; o que se chamava socialismo, e era bastante
mais capitalismo de Estado, mas representava um imenso progresso sobre

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agostinho da silva – uma antologia

o privado, continha com dificuldade, e a cada passo abrindo brecha, os


anseios de liberdade do homem; iniciava-se na produção o reino do autó-
mato, e não havia quem lhe adaptasse a economia, nem a política, nem
a educação, que continuava a preparar para o trabalho, nem perdia o que
respeita ao transcendente aquele jeito de disciplina que para muito ano
marcara Trento. Além de participar da comoção geral do mundo, sofria
Portugal da sua ingénita pobreza, de sua ignorância, da inadequação de
suas técnicas, de durante tanto tempo se haver ausentado de seu lar, da
influência de muito pensamento que lhe era estrangeiro, pouca importân-
cia dando ao mais próximo, que seria o de seus irmãos ibéricos, e, como
consequência de vários períodos de governos autoritários, de uma confusa
liberdade que a pouco podia conduzir. Em todo o caso, mais por obra de
causas da História a que não damos nome (e ora pergunto eu: como dar
nome ao que porventura é coisa alguma?) do que por decisão dos homens
– a vida de Portugal sempre foi muito «apesar deles» –, o País se encami-
nhou ao futuro pelo desafogo das coacções; pela regionalização, de que deu
exemplo aos vizinhos espanhóis; pelo acentuar das autarquias; pelo reforço
do cooperativismo, embora este ainda, fora o que se deu no Alentejo, de
modelo importado; por, graças à TV, uma ligação popular com o Brasil; e
por uma geral boa vontade quanto às Áfricas, boa vontade que, por falta
de meios, pelo menos por falta de meios, se não tingiu de neocolonialismo;
até a desordem no ensino facilitou o passo a futuros critérios de educação,
mais próximos de Platão do que da Palmatória. O tempo, sem dúvida, foi
doloroso aos que o viveram; a soma, porém, depende das parcelas: se a
uma tirássemos, não seria decerto nossa vida o que hoje está sendo.

4.

Milagre seria que Portugal tivesse escapado incólume de todos os gra-


ves, profundos acontecimentos que, durante os séculos xxi e xxii, tanto
mudaram a face da ecúmena. No hemisfério norte, o desabamento eco-
nómico, social e político de todos os países de alta industrialização, desde
os japoneses no extremo leste até os americanos na ponta ocidental, fez
que o País sofresse as repercussões de toda a perda de rumo da Europa,

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

justificando os que sempre tinham estado contra a chamada integração no


igualmente chamado Mercado Comum; por outro lado, os levantamen-
tos dos povos asiáticos, dos africanos e dos, digamos, americanos ibéricos,
desde o Rio Grande ao Cabo Horn, com, em muitos pontos, invasões da
Euro-América, tiveram igualmente efeitos não só em Portugal como em
toda a Península, que finalmente veio a mostrar-se solidária e a tomar cons-
ciência de que seus recursos culturais e humanos poderiam desempenhar
grande papel na transformação para melhor do hemisfério a que geogra-
ficamente pertence. No que, a meu ver, deve ter tido grande influência
todo o trabalho de história das ciências a lembrar no momento oportuno,
quanto a Europa ficou devendo ao que a Ibéria lhe levou de conhecimento
do concreto, de matemática e de filosofia, não sendo poucos os que então
defenderam a ideia de que era, por assim dizer, a Europa que tinha de se
integrar na Península, não o contrário; e da Península, ou pela Península,
deveria receber, de orientais, africanos e sul-americanos, lições de orde-
namento humano e de olhar o saber, de novo, como louvor e meditação
do criado, jamais como fonte e instrumento de poder. Quanto à faixa
oeste da Ibéria, desde o Cantábrico ao já Mediterrâneo que ao Estreito
emboca, mas, fazendo notar que o mesmo se estava dando em outras
regiões peninsulares, o que importa acentuar é que voltaram a ter voz
as pequenas unidades populacionais; que ressuscitaram, modernizados,
muitos dos foros e forais, num definitivo enterro de Carlos V e seu com-
padre D. Manuel; que a propriedade comunal de terras se instaurou em
pleno e que se colectivizou, mas não estatizando, tudo o que se referia a
outros meios de produção, aos de transporte e aos de crédito; que a demo-
cracia directa das aldeias foi a base de toda a organização política, com
assembleias de Nação semelhantes às Cortes, só que regulares, conselhos
de coordenação a substituir ministérios e com presidentes eleitos a prazo
longo de mandatos; todo o sistema de educação, que já não era mais,
em espírito e métodos, do que sobrevivência do medievo, por si mesmo
sumiu; até o nome de escola retomou o seu significado de tempo livre:
tempo livre de aprender, querendo, não de ensinar por oficio; tempo livre
de conservar, no adulto, a criança; de ninguém mais, homem feito, viver
para sempre com a saudade de si próprio.

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agostinho da silva – uma antologia

5.

A meu parecer, que ponho aqui mais como poesia do que como matemá-
tica – mas qual é a diferença? –, a viragem decisiva para a entrada em nova
fase do mundo se deu com a constituição política de uma Península diversa
e una; a qual, embora pensada e debatida nos séculos xix e xx, só teve forma
a partir dos fins do xxi: todas as regiões ou nacionalidades ou etnias, como
se queira, tiveram sua inteira autonomia sem que, no e­ ntanto, se desirma-
nassem; se puseram de acordo quanto às bases da economia, passando da
noção de propriedade colectiva para a de não propriedade, o que bem difícil
seria de entender para homens de tempos anteriores, esses mais que passados
e enterrados: o que significou que ninguém foi nunca mais dono disto ou
daquilo, excepto naturalmente o que era de uso pessoal de cada um, inclu-
sive as casas com seus jardins e campos de recreio: a terra não foi mais nem
sequer de Portugal; Portugal e a terra eram o mesmo, coincidiam, e era o
solo tão livre como o ar – lá se foi também isto de mar exclusivo e de espaço
aéreo – e mais livre ainda do que o ar quem não mais tinha a propriedade
fosse do que fosse; a própria renda de uso tem vindo a diminuir e espero que
em breve, pelo sempre contínuo aperfeiçoamento das técnicas, nem a tal
tenhamos de satisfazer, em termos de trabalho esporádico. Dado esse passo
essencial, tudo o resto se acertou, e nas linhas políticas que Portugal tinha
adiantado, pois que, na realidade, sempre fomos de acção previamente ima-
ginada e passada depois no crivo da experiência, bastante diferentes nisso de
nossos irmãos castelhanos, esses mais de sonhos de pretérito e, em seguida,
de boas topadas no caminho. O ponto final deste parágrafo histórico foi o de
se estabelecerem os quatro centros de acção: o de Toledo, para encontro geral
– e bem contente deve ter ficado o Afonso X lá onde está, se está, com sua fé
em Santa Maria, que fé era em tudo isto, e com suas leis, que também disto
eram o que na época podia ser; o de Tarragona, para o que é Mediterrâneo;
o de Tomar, que olha ao Ocidente e se encarrega em especial de tudo o
que pelo mundo se exprime em línguas ibéricas; e o de Compostela, em
que a Europa, como outrora, vai peregrinando e se reencontrando. Foi o
modelo peninsular que desbloqueou toda a América do Sul, com suas novas
Nações Unidas, tendo finalmente tomado os índios como farol de vida, não

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

como arqueológico passado; que fez refundir as fronteiras internas de África,


abolidas de vez as de Berlim; e que, sobretudo pela acção de Moçambique,
Malaca e Timor – Macau se aboliu em fábricas e jogo deu nova fisionomia
a todo o sudeste da Ásia. O resto por si veio: milhões ou biliões de homens
saíram da sua pré-humanidade, fizeram na idade própria o que lhes cabia
de serviço civil – fui eu ordenança de hospital cooperei nas Fidji durante
três anos – e nunca mais ninguém lhes exigiu coisa alguma, a não ser que se
realizassem. Somos agora livres, não de voar, como numa cantiga do século
xx, mas de criar, o que é melhor: nosso reino é o sonho, nosso palácio o
concreto; faço eu, por exemplo, o que posso na matemática do nulo e das
somas não comutativas, o que me permite ir além do transfinito e substitui
com vantagem o Zen de séculos pretéritos; no pilotar navio, em que estou
com arte; e no grego clássico, mania que me deve ter vindo, em campo cro-
mossómico, de antepassado meu do século xx, por acaso de nome idêntico;
e ainda com tempo de passar a meus netos apontamentos como este que vou
acabando de escrever. Até, por tudo, crendo que estamos no limiar daquela
final Idade de que profetizou o bom Abade Joaquim; o pior é que ele já o
julgava em seu século xii; sendo igualmente verdade que, se eu vou pela
matemática, coisa alguma é final – Portugal ou Cinco Idades. Conto de Páscoa
a seus Amigos oferecido [1982], in Dispersos, pp. 725-730.

[…] O ponto fundamental é […] que os Os Lusíadas não tratam realmen-


te da viagem do Gama, embora a narrem com tanto pormenor: a expedição
que saiu do Restelo e contra a qual bradou o Velho, homem do concreto
e talvez até um dos primeiros que terá tido a ideia da escrituração contábil
por partidas dobradas, ia para atravessar o Oceano de espaço e tempo e
verificar se ele se prolongava para sempre a toda a parte, dando volta ao
mundo, o rodeando, o cercando, por exemplo, de Aristóteles e Plínio, ou
se, pelo contrário, feita a honesta, paciente, audaciosa viagem, se chegaria
a alguma coisa que já nem coisa era e que, o não sendo, não se apresentaria
tecida de hora e de lugar, ficando indeciso se são o tempo e o espaço que aos
fenómenos criam, ou se estes a eles os evocam, ou se o ­conjunto é de um
lado e outro coincidente aparecer das aparências: por outras palavras, uma
flor do Nada com sementes de Tudo; inesgotáveis sementes.

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agostinho da silva – uma antologia

Segundo o Poeta, toda a viagem humana, todo o transcorrer de nossa


vida, deveria seguir o comportamento dos nautas na humildade do quoti-
diano – Solta vela, ferra pano, meneia o leme ou ele às vezes te meneie a ti,
sobe aos outeiros para sondar horizonte, desce deles pelo medo geralmente
chamado de prudência, aguenta o escorbuto ou as traições, que são escor-
buto interior, goza a hora que passa ou tranquilo a dorme, sê cumpridor
em teus quartos de vigília, ama teu dia, mau ou bom que o aches, lamenta
o fado dos gigantes brutais e até faz comércio sem nele te enleares, não te
exaltes nada ao contar a história de teu País, embora a ela e ele tu exaltes,
não te aborreças demais em Calicute e toma cuidadosa nota do que, cla-
ramente visto, contraria as observações ou suposições anteriores. Não é
demais pedir atenção para este ponto: o «claramente visto» é ali um critério
de verdade, em lugar da coerência que hoje exigimos no pensado, mais
crentes, como somos, em teoremas que em sentidos; pois não é que cada
um vê o que imagina ou imagina o que vê?
Nada mais se exige de cada homem senão que se cumpra e que, cum-
prindo-se, desempenhe seu papel na representação geral, com serenidade
se julgando, a si próprio e aos outros. Que disse eu? Julgando? Não, não
julgando; contemplando, a não ser como quem inventa dados de um pro-
blema só pelo gosto de vir a resolvê-lo. Mas o mundo não é problema, é
um dado, como dados somos: que como dados nos comportemos, não
com angustiadas perguntas.
Seja nossa vida, no mais profundo, – livres de a enfeitarmos, se tal é
nossa vocação, com as flores da arte –, disse Camões ao estucador, um
tranquilo assumir do que acontece, graça ou desgraça, conflito ou amor,
sempre, no entanto, sem perdermos a noção de que pode o nosso papel
ser o do desânimo e o do martírio, culpa do contra-regra. Por um lado
como se estivéssemos em sala de espectáculo, olhando como os outros vão
na peça; por outro lado, subindo nós ao proscénio sempre que nos toque
a vez. Sinceros actores nos cabe ser, agudos críticos que nada perdoem se
houver faltas, mas a todas entendam, pois máquina do mundo são.
Isto, naturalmente pelo que respeita ao navegar, visto que, no ­conjunto
é plano importante o do céu, com seu Deus ou Deuses; como se a nossa
peça fundamental, embora com personagens diferentes, uns eternos,

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

outros perituros, se representasse em dois palcos da mais exacta corres-


pondência. Se eu fosse de influências (mas sabei que nunca pude suportar
literatura comparada ou coisa semelhante) diria que sofreu Camões aqui a
de Joaquim de Flora que, em sua teologia da Trindade, casou o temporário
e o perpétuo, aceitando que sempre foram coetâneos o Padre, o Filho e o
Espírito Santo, havendo entre eles, simultaneamente, uma diferença de
tempo, logo transposta em História pelas três Idades de que falava o nosso
Abade, conceito este tão da natureza do povo de Portugal que imediato o
inseriu em sua religião popular; mas a grande influência em Camões foi a
de Portugal mesmo.
Tudo equivaleria a dizer que é eterno o tempo e jamais principiou,
não acabará nunca, e que toda a criação eterna é, de uma vez por todas e
contínua, sem interrupção alguma. Tudo muda e nada muda, tudo passa
e nada passa; é a viagem dupla e una: pelo mar do Eterno, sobre as vagas
da Hora. Mas o acentuou ele mesmo […] : Quando soube do monge
calabrês já pensava ou o sentia todo; como, quando soube de Prisciliano,
já o pusera ou ia pôr em suas pinturas da natureza, desde a de paisagem à
erótica. Pois não era Luís de Camões de Portugal e Galiza? E porque não
aceitar que fosse tudo, como a Português ou Galaico-Português cumpre,
sem preocupação alguma de escolher, admitir ou excluir, naquele total
abraço a que chamava o Poeta Jerusalém Celeste, Vieira Quinto Império e
Fernando Pessoa o Neo-Paganismo. Tornemos coerentes os contrários em
toda a tessitura de pensar e viver e nos fundemos em ser o irracional tão de
razão como o seu inverso. E se, como pendo a crer, […] não há no mundo
mais nada além de pensamento que talvez a nós nos pense como seres pen-
santes, tudo ainda por cima sem pensador supremo, admiremos, amigos,
a tapeçaria, sejamos nela gostoso ou maltratado fio, que outra coisa não
poderíamos ter sido sendo tudo como é no resto. E saída só uma: pular
acima de tudo isto, viajar aos páramos em que ninguém sabe da razão ou
vontade; além do mais, porque aí ninguém existe mesmo.
Como intitularia então eu o poema de Camões […]? Pois Viagem
do Nada que nós somos, por Tudo sermos, ao Tudo que são todos sendo
Nada. Um pouco comprido, valha a verdade, e talvez um seu tanto con-
fuso; afinal bem fez ele chamando-o apenas de Os Lusíadas, isto é de Os

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agostinho da silva – uma antologia

Portugueses; que aqui onde escrevo estes apontamentos para futuros e ver-
dadeiros historiadores, pois nada mais sou do que amador de casos, ou no
Brasil ou na África, sempre Portugueses ou Lusíadas somos: é a Língua
nossa raiz e nossa fronde, nossas flores e nossos frutos, vida nossa e nossa
morte, cumprindo-nos fincar um pé num dos lados do mundo, outro no
mais distante – se é que lados tem –, ao universo medindo e limitando com
este nosso passo sem limite – De como os portugueses retomaram a Ilha dos
Amores [1982], in Dispersos, pp. 736-738.

De política externa. Ao que nós todos tendemos, os da Língua Comum –


angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guinéus, mauberes, ­moçambicanos,
portugueses, sãotomenses, (será que poderia acrescentar galegos?) –, é fazer
do mundo a cidade de todos e para todos, a polis global, que daí vem polí-
tica e meta lhe deve ela ser. Política externa que sempre seja a interna virada
para fora, aos de dentro tratando com a largueza humana que para os de fora
se requer. Com Povo algum deixaremos de ter relações de coração, que tal
é o étimo de cordial, embora com seus governos tenhamos as elementares
precauções que se têm com vespa ou com bicho, ainda que doméstico, de
retráctil unha. Toda a economia será de cooperação, para que assim nossas
metafísicas, teológicas ou não, passem dos professores de filosofia ao quo-
tidiano de nossos procedimentos. Caminhará a educação para ser o pleno
entendimento de nossas culturas peculiares, vendo a todas as outras como
suas irmãs, pois que humanas, ainda que não gémeas. E à metafísica ela pró-
pria? Acima de tudo ecuménica, mas, na verdade, para além de ecuménica,
que só quer dizer do que, nosso conhecimento, é habitado: no fim de tudo
a desejamos cósmica. Talvez um amplo abraço de Aristóteles e Platão, desde
tão longe adversos: que faça as pazes o leão do céu com o da terra; e quem
sabe se não teremos para isto de acabar firmando nossos pés naquele para
além de tudo ou nada que já anda no Buda e se apura nos mestres zen; ou,
se preferimos as linguagens de hoje, nos melhores dos físicos: para além dos
que muito a sabem os que, parece, melhor a entendem. Como estamos em
todos os continentes, de firme planta como na América, ou irredentos como
em Timor, nos caberão tarefas várias: por exemplo, na Europa, e com nossos
coabitantes da Ibéria, renovarmos a salvação que levámos aos transpirenaicos

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quando os trouxemos das ideias puras ao firme chão da mortal existência, ou


quando lhes comunicámos o descoberto; do outro lado do Atlântico, agre-
gando a poeira de nações que saíram da intransigência castelhana; na África,
pensando de novo no mapa-cor-de-rosa, agora para sempre independente
do Terreiro do Paço; no Índico e Pacífico, lançando ponte de poldra a pol-
dra do que ainda é a Língua ou do que jamais deixará de lhe ser l­embrança.
Talvez Ela, o que mais nos liga, não seja o veículo de pregar Evangelho
Português, como o teria pensado Fernão Lopes: mas quem sabe se não será
bem adequada para entender e praticar o Outro; alargado, porque Deus pai
universal, a todos os teísmos ou ateísmos do mundo – 82: Semanário do mês
de Santiago o qual lhe aparecendo pensado compôs em linguagem Agostinho e
assim o enviou a seus Amigos [1982], in Dispersos, pp. 745-746.

Costumo insistir em três pontos que me parecem essenciais na história


da cultura portuguesa. É o primeiro o do Culto Popular do Espírito Santo,
o segundo o do pensamento messiânico do Padre António Vieira, o tercei-
ro o da heteronímia do Poeta Fernando Pessoa.
Assinala-se a existência do Culto com a vinda da Princesa Isabel a casar
com El-Rei Dom Dinis; dura ele, vigoroso, até meados do século xvi, passa
às Ilhas Atlânticas dos Açores e da Madeira, sobretudo ao primeiro arqui-
pélago; e propaga-se depois, por emigração, ao Brasil e América do Norte.
Caracteriza-se o segundo, no século xvii, pela concepção do Quinto
Império.
É o terceiro do século xx e bem conhecido pelo que escreveram Álvaro
de Campos, Ricardo Reis ou Alberto Caeiro, talvez até um a quem Pessoa
terá aplicado seu próprio nome, e outros que ficaram mais ou menos
apontados ou esboçados.
Curiosamente, são os três de algum modo peninsulares: Era Isabel,
depois santificada, do Reino de Aragão; militou Vieira na Companhia
de Jesus de Santo Inácio de Loiola; teve Pessoa ascendência galega, aí
como Camões.
Embora as considere de extrema importância, deixarei de lado a teolo-
gia de Joaquim de Flora, geralmente vista como herética, e a sua teoria da
história humana que estão na raiz do Culto do Espírito Santo – o Popular,

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agostinho da silva – uma antologia

acentuemo-lo – e que tem como características fundamentais o surgir uma


criança como imperador do Império do Espírito Santo, que um dia se
instaurará no mundo, a celebração de um banquete gratuito de que todos
podem participar, e o abrirem-se as portas da cadeia local, entendendo-se
que, com o Império, se banirá da terra o crime.
Lançando esta festa de Pentecostes, propôs o Povo de Portugal e propôs o
do Brasil que políticos e técnicos digam como se salvam as crianças da mor-
talidade infantil das estatísticas; como se impede que desastradas concepções
pedagógicas estiolem a sua imaginação, o seu nativo poder criador, o seu
directo e aberto abraço à Vida; como conseguir que a sobrevivência não seja
o sacrifício e a angústia de existências inteiras; e, finalmente, como modifi-
car a noção de crime e se lhe verem nas origens condições sociais defeituosas
ou estruturas pessoais que as ciências da saúde poderão vir a modificar.
Quanto ao Padre António Vieira, era ele de opinião, num largo comen-
tário ao Sonho do Livro de Daniel, que aos quatro impérios registados pela
História se seguiria um Quinto, que os portugueses deveriam estabelecer e
alargar ao mundo e que, vindo depois dos quatro, se caracterizaria funda-
mentalmente por não ser seguido de um sexto; não seria, como os outros,
mais uma tentativa falhada: era o último e o definitivo.
Se perguntássemos ao Padre por seus aspectos, decerto nos volveria ele
que nos bastaria pensar em quais teriam sido as causas do desabar dos
precedentes e alvitrar que não tivesse o Quinto tais defeitos – dando-nos,
além de tudo, a liberdade de nomear os impérios que quiséssemos, como
o fez Fernando Pessoa em um de seus poemas de Mensagem, ai sugerindo
ele Grécia, Roma, Cristandade, Europa.
Talvez nós, menos preocupados com a métrica e reportando-nos tam-
bém apenas a este lado do mundo, ainda nos lembrássemos de algum meso-
potâmico, egípcio ou persa e lhe baseássemos o desaparecimento em não
ter ele descobrido o Abstracto, como o fizeram os Gregos, embora também
a estes lhes marcássemos ruína por à Razão terem dado a primazia ou por
não terem ido além da reduzida fórmula política de suas cidades-estado. No
de Roma censuraríamos o prestígio excessivo que se deu à formação militar
e o aplauso à retórica, bem distinta da eloquência – e aqui oporíamos nós
Cícero a Demóstenes –, assim como os duradouros enredos da burocracia

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

e, sobretudo, a anquilosante rigidez de seu Direito, túmulo da filosofia


grega construído em pedras que inteiramente deviam ter sido despedaçadas
pela Ressurreição de Cristo. À Cristandade veríamos, como veio de fraque-
za, o pecado do pacto com o imperador Constantino e explicaríamos uma
falência da Europa por se ter ilaqueado nos erros que herdou de Grécia e
Roma e por, utilizando os Peninsulares, ter levado, apesar da grandeza dos
Descobrimentos, apenas uma falsa aurora às Américas e à África e à Ásia.
No Quinto Império, ao que entendemos de Vieira, mística e razão se
fundem no Logos do Evangelho joanino. Não será o Direito a Lei que pune
o crime, mas a que salva o criminoso de si próprio. Não terão os homens
como ideal perseguir os que virem como infiéis por terem outras linguagens
religiosas ou ideológicas, por mais irreverentes ou ofensivas que pareçam,
mas cuidarão daqueles infiéis, e são biliões os de hoje, que, por defeitos pes-
soais ou próprios, vivem e morrem totalmente infiéis a si mesmos, traindo o
único exemplar que na realidade eram e a cujo esplendor vinham. E forma
alguma de pensar e de ser estará ligada ou submetida a poder, o qual, por ser
poder, isto é, posse de outrem, inteiramente se exclui da identidade divina.
Ao Poeta que acima foi chamado para nos nomear quatro impérios o
traremos agora a terreiro para que nos deixe outro problema e, por ele,
nos sugira, quem sabe, algum caminho certo de ser e proceder: O proble-
ma de saber se qualquer imaginado e desejado Quinto Império, seja qual
for o nome que lhe dermos, não terá de começar, não, como tem sido
nossa tendência, ou nosso vício, pela acção política geral, afinal ao exterior
virada, mas por nós próprios, num esforço que, basilarmente, sobre nós
mesmos exerçamos.
A sua heteronímia, o seu desdobrar-se em diverso (e não nos esque-
ça neste campo o caso de António Machado) que, levados ao máximo,
concentrariam o individual naquele íntimo ser que só talvez se pudesse
definir como simultaneamente assumindo um tudo e um nada, para que
inteiramente se soltassem e fossem os vários de que, segundo parece, todos
somos constituídos, seria, para todos também, o primeiro acto de abolir um
império que a todos tem oprimido – o de cuidarmos em nós primacialmen-
te do profissional e do especialista, em lugar de nos abalançarmos a uma
humanidade total, como seria de nosso dever e, por certo, de nosso gosto.

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agostinho da silva – uma antologia

Por caminho difícil, desconhecido e perigoso, mas muito na linha que,


em riscos semelhantes, levou espanhóis e portugueses a revelarem mundo
ao mundo, e o que é mais, como se sabe, a novas estrelas lhe descobrirem.
Das aventuras que tal exige nos dizem bastante, para citar só dos que escre-
veram, a vida de um Cervantes ou de um Camões, ou o que foi a roupeta
para Vieira ou, para Fernando Pessoa, seu imprevisível quotidiano.
Não é, por outro lado, impossível que do individual se passasse a um
universo metafísico, a tudo que existe, como pensamento ou como fenó-
meno, considerando como heterónimo do Ser Fundamental, também a
este tentando definir como fundindo em todo o tempo e fora do tempo,
em qualquer ponto sem dimensões e num espaço de todas elas, o pleno e o
vazio, termos últimos de todos os corpos e de todas as mentes.
Talvez nós, Povos de Línguas Ibéricas, pelo mundo em pedaços repar-
tidos, numa comum experiência de amorosos, tenhamos de meditar tudo
isto quando a circunstância histórica nos leva a abordar a Europa, não só a
económica, mas igualmente a geográfica e a universal, e a nela entrarmos
juntos, sem Tratado algum de Tordesilhas, para lhe levarmos nosso amplo
sentido, simultaneamente divino e humano, e lhe trazermos connosco os
homens de Ásias e Áfricas e Américas, num ingresso ordenado que não
repita as perturbações do fim de Roma, mas definitivamente acabe com as
estreitezas do passado. Como aqui, em Olivença, estamos terminando uma
delas: com o presente e o restrito iluminando o futuro e o geral – “Uma
Carta de Ajuda” [1985], in Dispersos, pp. 779-782.

[...] Fernando Pessoa podia pensar no neopaganismo como se fosse a


evocação de uma concepção religiosa heteronímica [...]. Ele era um neopa-
gão e, como homem, o deus interior dele manifestava-se em várias perso-
nalidades, como a divindade grega se manifestou na pluralidade dos deuses
– Vida Conversável [entrevista de 1985], p. 29.

[...] o que me parecia que se devia fazer era uma comunidade luso-
-afro-brasileira com o ponto africano muito bem marcado. Quer dizer, se
pudesse, eu poria o ponto central da comunidade, embora cada um dos
países tivesse a sua liberdade, a sua autonomia, em África, talvez Luanda

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ou no interior de Angola, no planalto, de maneira que ali se congregassem


Portugal e o Brasil para o desenvolvimento da África e para que se firmasse
no Atlântico um triângulo de fala portuguesa – Portugal, Angola, Brasil –
que pudesse levar depois a outras relações ou ao oferecimento de relações
de outra espécie aos outros países. [...] De maneira que eu continuo a
pensar que, aquando da revolução em 1974, se poderia talvez ter tentado
isso – Vida Conversável [entrevista de 1985], p. 46.

E o que é a Ilha dos Amores? É o Império do Espírito Santo entre


os homens. É não perder nenhuma das características de ser homem e
ganhar todas as que se atribuem a Deus. Porque os homens ali, como se vê
pelo seu comportamento com as ninfas, são plenamente homens, comem
e bebem no banquete, mas depois estão fora do Tempo, e fora do Espaço,
como está Deus. Fora do Tempo, de toda a História, de toda a Eternidade;
e fora do Espaço, que a máquina do mundo está lá mas como o Espaço,
todo ondulante, sai todo da máquina do mundo, os cavalheiros estão fora
da máquina do mundo. São homens e divinos ao mesmo tempo. Camões
acha que o ideal do Português é chegar a um estado em que aquilo que se
mantém hoje separado, ou é até contraditório, [aparece como] uma parte,
a outra parte do mesmo universo. É o lado luminoso e o lado oculto da
Lua conforme a posição em que cada um estiver a olhar para a Lua, ou
tiver imaginação para imaginar que coisa será o luar do lado onde não há
luar – Ir à Índia sem abandonar Portugal [entrevista de 1987], in Ir à Índia
sem abandonar Portugal / Considerações / Outros Textos, p. 48.

A palavra latina que se identifica com o coração, a que nós damos


funções que não são as do cérebro, pois ele faz o favor de fazer muito
mais, a palavra latina é cordis, donde vem cordial – coração, afectuoso. Os
Italianos, descendentes directos dos Romanos, chamaram-lhe cuore e os
Franceses coeur. Mas nem os Portugueses nem os Espanhóis caíram nessa,
deram-lhe mais importância! Introduziram-lhe um aumentativo, porque
coeur deu em português coração, e em espanhol corazón, com uma acentua-
ção nítida no aumentativo. Para se ver como isto é claro, perguntem-lhes
o que é que fizeram de “cabeça”? Fizeram a palavra “cabeção”, que é uma

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agostinho da silva – uma antologia

coisa que não vale nada, é um simples acessório no vestuário. Ora o cora-
ção é que é o pólo a que as coisas se têm de referir, é o sentimento, é... Mas
ainda tem outra coisa, sabe? Coeur, no indo-europeu, tem a mesma raiz
que a ­palavra “acreditar” – credere –, portanto deu “crença”, “crer”, etc. – A
Última Conversa. Entrevista de Luís Machado (1993), p. 78.

Luís Machado – O senhor, para além de acreditar, é mesmo um defensor


acérrimo do Quinto Império!...

Agostinho da Silva – É claro que acredito no Quinto Império, porque


senão o acto de viver era inútil. Para quê viver se não achássemos que o
futuro vai trazer-nos uma solução que cure os problemas das sociedades de
hoje? – A Última Conversa. Entrevista de Luís Machado (1993), p. 99.

Mas voltando ao culto popular do Espírito Santo: os Portugueses, com a


“coroação do menino imperador”, queriam dizer sobretudo que o homem é
a coisa mais extraordinária que aparece no mundo, é o inesperado feito pes-
soa. Por isso celebravam a festa com um banquete gratuito e abriam a cadeia
e soltavam a gente que estava lá dentro. Você já imaginou se um dia o nosso
Mário Soares desse um indulto alargado? Sim, porque eu acho que ele devia
dar também indulto aos guardas: nunca dá, é só aos presos. O guarda está
mais preso que os presos, não é assim?, está preso na cadeia (porque tem de
estar lá a vigiar), está preso pelos presos, e só cometeu um crime: nascer pobre.
Portanto, toda a gente deveria ser indultada, tal como fazia o ­menino. – A
Última Conversa. Entrevista de Luís Machado (1993), pp. 99-100.

Nos Açores, a festa, às vezes, era celebrada com a coroação de um


homem pobre, mas o habitual era ser uma criança, dado que representava
o modelo do homem. Escolhiam um menino que nem à escola primá-
ria ainda tivesse ido. Olhe, o Roberto Carneiro chegou a ser imperador
do Espírito Santo na Terceira, aos 4 anos, quando felizmente ainda não
tinha sido educado. Eles só coroavam “imperador do mundo” aqueles
que tinham escapado à educação. – A Última Conversa. Entrevista de Luís
Machado (1993), p. 100.

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história e cultura portuguesa, brasileira e lusófona

Portugal descobriu, quase sempre por fora, o Oriente, a África, a


América Latina e o de fora trouxe à Europa; precisa agora de os descobrir
por dentro e de a eles, neles se dissolvendo, levar a Europa – Pensamento à
Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 151.

Portugal só plenamente será quando perceber que a viagem cantada nos


Lusíadas é a da Ilha dos Amores, onde divino e humano darão filhos que, sendo,
não existam – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 154.

A viagem que vale é a da Ilha dos Amores, só se lá chega, no entanto,


depois de cumprir a da Índia – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 156.

Duas possibilidades para Portugal: ou o regresso à integridade peninsu-


lar ou, pela ligação com o Brasil – e até, por aí, com a África e o Oriente –,
salvar-se de ser apenas um sobrevivente como são o Egipto ou a Grécia ou
a Pérsia – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 167.

Se fosse escrever uma história de Portugal principiaria por São Bernardo,


seu pensamento templário, suas relações com a Casa de Borgonha, e lhe
atribuiria a fundação de Portugal como ponto de partida para a conversão
pacífica do infiel; como base indispensável Alcobaça, propriedade comu-
nitária de agricultura modelar, centro transmissor de saber e sustentáculo
de uma fé no futuro, tudo bem dentro do espírito beneditino de Cister.
E algum dia os historiadores de Academia e Universidade encontrariam
os documentos que o provassem – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios
Filosóficos II, Lisboa, Âncora Editora, 1999, p. 169.

As traições de Afonso Henriques; o esbulho de Afonso III; as infideli-


dades de Dom Dinis; a execução de Inês de castro; o abandono do Infante
Dom Fernando – tudo pecados de Portugal: e tanto o enfraqueceram que
não houve defesa possível perante o capitalismo germano-italiano, o cesa-
rismo real e a contra-reforma, inteiramente opostos à economia comuni-
tária, ao municipalismo democrático e à religião do Espírito Santo que

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agostinho da silva – uma antologia

caracterizavam a Nação; pecados que ainda se não pagaram; que talvez


exijam que Portugal de si próprio se despoje; que inteiro se faça monge
– e que deixe aos que criou fora de si os encargos do tempo. Sobretudo
falo de Brasil e de África; de Goa e de Macau; de Nagasaki e de Timor –
Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 170.

Poderia dizer-se que tudo que tenho escrito de História de Portugal


vem de desejar que a Nação seja, no futuro, o que devia ter sido sempre no
passado – Cortina 1.

De imediato, nos interessa no mundo duas regiões: A Península e a


Europa. Quanto à Península, tudo deve ser feito no sentido de a passar a
Federação Jurídica das Culturas Ibéricas. Na Europa, o papel da Península
é o de organizar uma entrada pacífica de alguma África e de alguma
América de línguas ibéricas, para que lhe não suceda o que aconteceu com
o Império Romano com a invasão tumultuosa dos bárbaros – Cortina 1.

Uma lista dos defeitos dos portugueses devia levar o político inteligente
a elaborar projecto de sociedade em que eles passassem apenas a ser carac-
terísticas, ou quem sabe se qualidades – Cortina 1.

Pondo as coisas no extremo, o que pode acontecer a Portugal é frag-


mentar-se em culturas, como a Espanha, e formar, com o outro lado da
fronteira, uma série de federações culturais, depois abrangidas numa geral
de mar a mar, em seu setentrional limite dos Pirinéus. Portugal e a Espanha
culturais sairiam da história para entrarem na geografia e a Ibéria sairia da
geografia para entrar na história – Cortina 1.

O Portugal a repescar e a tomar formulação moderna é o da federação


de repúblicas municipais, comunitarista na economia, da educação pela
experiência, de democracia na política, o que é diferente de partidocracia,
de democrático igualitarismo na sociedade e de metafísica que mais seja
pela acção do que pela palavra, com plena aceitação do vário no individual
e no colectivo – Cortina 1.

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11. METAFÍSICA, TEOLOGIA E COSMOLOGIA.
RELIGIÃO E MÍSTICA

Pensador dos diversos níveis de realidade a partir da experiência disso que


a todos, ao próprio sujeito e ao pensar transcende, o cume e a fonte suprema da
visão agostiniana coincidem no “Nada que é Tudo”, paradoxal indicação do
inefável. Na convergente linha do neoplatonismo grego e cristão, do não-dua-
lismo oriental e da experiência mística universal, o Deus agostiniano sugere-se
como o inefável, o uno ou um absoluto simultaneamente transcendente e ima-
nente ao ser humano e ao mundo, onde se unificam e superam todos os contrá-
rios. É dessa instância que a consciência, a história e a civilização humana se
cindem com a saudade do regresso à paz da não diferenciação entre sujeito e
objecto. É dessa cisão e do medo e insegurança assim gerado que a religião e as
religiões se originam como busca de religação do que foi separado. Em termos da
linguagem trinitária cristã e do paracletismo ecuménico onde vislumbra o único
catolicismo (no sentido etimológico de universalismo) autêntico, esse absoluto é
o Espírito Santo, inovadoramente pensado como anterior às demais pessoas da
Trindade, Pai e Filho. Deus anónimo, patente nas miríades de heterónimos que
constituem o universo, mas radicalmente oculto e irrevelado, ou só desvelado no
silêncio da união mística, o nada e tudo ser, o existir e não existir em simultâ-
neo, como na visão quântica dos fenómenos, funda o mais amplo ecumenismo,
onde religiões, ateísmo e agnosticismo expressam igualmente aspectos parciais
da verdade. O que faz de Agostinho um dos mais ousados e insuperados pio-
neiros do tão actual diálogo inter-religioso, que todavia praticou e propugnou
à escala mais ampla de um diálogo trans-religioso. Mas o que mais importa,
como irrecusável fundamento da própria possibilidade desse diálogo, é que cada

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agostinho da silva – uma antologia

um descubra e frua, para tal criando caminhos próprios, a sua essencial iden-
tidade com esse inefável absoluto, simultaneamente deserto e oásis insuperável:
“Crente é pouco sê-te Deus / e para o nada que é tudo / inventa caminhos teus”.

1. Existe um Deus que é o conjunto de tudo quanto apercebemos no


Universo. Tudo o que existe contém Deus, Deus contém tudo o que ­existe.
Pode-se, sem blasfémia, considerar o aspecto imanente ou o aspecto trans-
cendente de Deus; pode-se, sem blasfémia, falar não de Deus mas apenas
do Universo, com Espírito e Matéria, formando um todo indissolúvel.
A doutrina de Deus, tal como a pôs Cristo, permite considerar todas as
religiões como boas embora em graus diferentes, todos os homens como
religiosos. Não poderá, portanto, fazer-se em nome de Deus qualquer
perseguição: todo o homem é livre para examinar e escolher; a maior ou
menor capacidade de exame e o resultado da escolha serão, em qualquer
caso, a expressão do que ele é e do máximo a que pode chegar segundo as
suas capacidades.

2. A visão mais alta que podemos ter de Deus, nós que somos apenas uma
parte do Universo, é uma visão de Inteligência e de Amor; os pecados fun-
damentais que o homem poderá cometer são as limitações da Inteligência
ou do Amor: toda a doutrina estreita, sem tolerância e sem compreensão
da variedade do mundo, toda a ignorância voluntária, todo o impedimen-
to posto ao progresso intelectual da humanidade, toda a violência, todo
o ódio, limitam o nosso espírito e o dos outros, impedem que sintamos a
grandeza, a universalidade de Deus.

3. Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa home-


nagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando
desenvolvemos a nossa Inteligência e o nosso Amor: um laboratório,
uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus;
uma oficina é um templo de Deus; um homem é um templo de Deus,
e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos
temos capacidades de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais ele-
vado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito. Estão ainda


longe de Deus, de uma visão ampla de Deus, os que fazem consistir o seu
culto em palavras e ritos; mas dos que subirem mais alto não pode haver
outra atitude senão a de os ajudar a transpor o longo caminho que ainda
têm diante. Ninguém reprovará o seu irmão por ele ser o que é; mas com
paciência e persistência, com inteligência e com amor, p­ rocurará levá-lo
ao nível mais alto.

4. Para que possa compreender Deus, para que possa, melhorando-se,


melhorar também os outros, o homem precisa de ser livre; as liberdades
essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social,
liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desen-
volver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará
nenhum domínio, ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver
aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem
intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando,
em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for
alargando; para o bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de
rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se
educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liber-
dade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito
se liberte de preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de
mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro
homem; ninguém deve, pela posse dos meios de produção e de trans-
porte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito
ou a liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização
humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma
coacção de governo, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar
­gradualmente e pelo esforço fraterno de todos – Doutrina Cristã [1943], in
Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 81-82.

Limitamos Deus atribuindo todos os males ao Diabo. Uma infini-


ta bondade e uma infinita justiça, despidas de todo o pensamento que
a moral condena, fazem suspeitar que se empregou na construção uma

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agostinho da silva – uma antologia

escala demasiado humana; mais uma vez nos julgámos os senhores absolu-
tos do mundo; mais uma vez nos quisemos centro do universo e nos vimos
tratados com atenção e carinho especiais.
Não ousou o homem pôr a maldade entre os atributos de Deus e pecou
primeiramente porque foi estreito; e de novo pecou porque foi tímido.
Consolava-o a ideia de uma protecção sempre possível e a mente, que se não
levantava ao total, só pôde conceber a explicação infantil e ilógica dos dois
demiurgos. Fugimos da aspereza e erguemos um palácio de fadas, ­esplêndido
e seguro, mas enervante e mole; tememos a vida e a vida se vingou.
Restituamos a Deus toda a sua grandeza; reconheçamos o seu poder na
violência e no terror; tenhamos por divino o abaixamento destes tempos;
emana Caim do espírito supremo – como Abel; não tiremos a Deus o que
temos como ideal superior: a vontade de progresso; não o despojemos,
por interesse egoísta, do prazer de marchar, não lhe demos em troca da
­variedade que roubamos a monotonia a que aspira a alma baixa.
E em face de um Deus pleno e terrível sejamos heróicos; cresçam as for-
ças com que lutamos, seja mais larga a compreensão, mais perfeito o amor;
enfrentemos o mal, cara a cara, e adoremos o Senhor no inimigo que nos
derruba e pisa. Sejamos bravos e tolerantes. Não vacilemos na derrota, nem
um instante voltemos costas ao perigo; mas não abusemos da vitória. É este
o dom que nos oferece um Deus liberto de cadeias terrestres” – “Quanto a
Deus”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 114-115.

O Estrangeiro – Haveria, portanto, de um lado uma cadeia de aparên-


cias, uma cadeia de corpos, sucedendo-se no tempo e no espaço, no outro
uma cadeia de almas palpitando na alma universal. Como nenhum corpo
é independente doutro corpo, nenhuma alma, Diotima, é independente
de outra alma; há, realmente, só uma aparência, o mundo, só uma alma,
o entendimento de Deus – Conversação com Diotima [1944], in Textos e
Ensaios Filosóficos I, p. 147.

O Estrangeiro – […] tudo tem alma, Diotima, no sentido de que tudo


se reflecte na alma; nada tem alma, no sentido de que só uma alma está
pensando, contemplando o espectáculo da cadeia infinita dos seres. No

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

primeiro caso, tudo sofre no mundo; mas parece-me que há aqui sobretudo
uma expressão inexacta; creio, Diotima, que só sofre a alma do deus, aquilo
a que, muito mal, chamamos a nossa alma; quando sofro, não sofro eu, sofre
o deus. Eu, pelo que “eu” designa de alma, é um abuso… – Conversação
com Diotima [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 151.

O Estrangeiro – Mas não poderemos nós considerar que há momentos


em que o deus reflecte sobre o seu poder criador e mantenedor, em que
vê tudo o que lhe passa diante […] como um jogo da sua fantasia, uma
vida que existe apenas no seu poderoso pensamento? Nesses momentos,
também a vida é como se não existisse, também tudo vai fundir-se no vasto
seio divino, tudo se reconhece como da mesma essência fundamental e por
um instante, que se não conta em tempo, o universo inteiro está à beira da
morte, da impossível morte – Conversação com Diotima [1944], in Textos e
Ensaios Filosóficos I, p. 159.

Diotima – E não te parece que tenhamos esgotado, com a arte, a ciên-


cia, a filosofia e a religião, todos os meios de que está dotada a vida para
que possa superar-se na medida em que o deus a sente dolorosa?
[…]
Queres porventura dizer que vale mais o Amor do que qualquer dos
outros meios de que falámos?
O Estrangeiro – Creio que sim, Diotima, que é esse exactamente o mais
poderoso de todos, mesmo na sua forma mais grosseira do amor terrestre
em que, num momento de união de dois corpos, a alma se afunda nos
abismos do que já quase não é vida; do amor se desperta como dum êxtase,
porque aparência e alma se fundiram num todo. […] Mas […] quem ama
carnalmente pouco ama, porque se prende ao indivíduo. O grande amor,
Diotima, está para além das ilusões, está para além do que o deus pode
ver como a simples ligação de duas aparências. O amor de que tu mesma
falaste, o amor que supera o nosso corpo e os outros e dando-se conquista a
vida, esse é o único amor que pode por mais tempo tornar menos dolorosa
ao deus a necessidade de viver – Conversação com Diotima [1944], in Textos
e Ensaios Filosóficos I, p. 161.

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agostinho da silva – uma antologia

O Estrangeiro – […] Mas quem ama, Diotima, tudo vence; com a


última parcela de egoísmo se dissolve quase de todo o laço que prendia ao
indivíduo; como não há-de fugir a dor da vida? Se ama, o deus penetra,
aceitando-o, no mundo que lhe surge e procura infundir-lhe liberdade,
e procura, porque a ama, levar cada aparência a um plano de total; nos
outros meios, a posição inicial é sempre a de espectador e de espectáculo:
no amor, logo de princípio, tudo se liga e funde – Conversação com Diotima
[1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 162.

Diotima – As ocupações que prendem tantos homens são absurdas peran-


te a realidade final: só a arte, a ciência, as outras actividades de que falámos,
acima de tudo o amor, podem trazer até nós a paz por que ansiamos. Vogar
ao eterno e ao total, eis o nosso fim último, a nossa salvação, o nosso dever.
O Estrangeiro – Somos dois entre poucos, Diotima; a maioria dos homens
está curvada às duras tarefas que os não deixam ser humanos, que os não dei-
xam nem sequer tentar a breve fuga que lhes tornaria mais suportável a vida.
[…] é preciso, antes de mais, que todos possam empreender a jornada –
Conversação com Diotima [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 163-164.

Mas Cristo sentiu que o Reino de Deus só se poderá realizar quando


todos forem eleitos e que a doutrina terá de ser tão ampla e tão essencial-
mente simples como é porventura a própria realidade – para que todos a
compreendam e a todos ela mesma possa compreender – “Cristianismo”,
Glossas [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 35.

Ponhamos, pois, de lado o fim que os cristãos pretendiam atingir e que


nos não interessa já agora, e atentemos no seu método. Duas características
o distinguem: em primeiro lugar, dos dois caminhos que se lhes ofereciam,
os cristãos tomaram o mais difícil, o da oposição a quem tinha o poder, a
quem dispensava a riqueza, a glória, a quem era o senhor absoluto das suas
vidas; em segundo lugar, afirmaram o primado do espírito, levantaram em
frente da agressão um muro de amor, levantaram em frente da tentação um
muro de desinteresse; nunca atacaram os seus inimigos, mas procuraram,
apesar de tudo, que aumentasse o número dos seus amigos; eram calmos

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

perante a injúria, jamais fugiram dos centuriões; quando os mandavam


renegar o seu Deus, brandamente mostravam a impossibilidade de o fazer;
e do fundo da alma pediam que ele iluminasse o espírito dos que o perse-
guiam. Ora é pela posse plena deste método que anseiam todos os que hoje
têm dentro de si algumas sementes de futuro e o não confundem, como
tantos outros, com as construções mal equilibradas e grosseiras que se fazem
de restos do passado; desejam que o seu espírito lhes dê sempre a coragem
de escolherem a ladeira mais pedregosa e áspera, de tão nobre e serenamente
percorrerem os caminhos da vida, que nunca entre na sua alma o impulso
de responderem ao mal com o mal; coragem também de indicarem aos
outros homens, sejam quais forem as circunstâncias, o rumo a tomar, de não
desanimarem na obscuridade e na derrota, não se orgulharem com o triunfo
e a popularidade que provém na maior parte das vezes de um mal-entendi-
do. Se forem tão puros e constantes como os cristãos, sentir-se-ão melhores
ainda porque toda a sua recompensa estará na certeza de que prepararam
a estrada a outros que se dirigirão para ideais mais elevados e mais vastos –
“Cristianismo”, Glossas [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 37-38.

O verdadeiro Amor é talvez impessoal: enquanto há um objectivo bem


definido, bem claro aos nossos olhos, não amamos. Como enquanto há
um Deus pessoal se não atingiram as maiores alturas místicas – Sete Cartas
a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 240.

E talvez o maior amor seja o dos místicos porque esse tem consigo a
suprema qualidade de nunca ser plenamente realizável – Sete Cartas a um
Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 258.

1. Existe um Princípio Absoluto, Deus, em que se contêm todas as


possibilidades, a que se não pode dar nenhum atributo, porque se definiria,
e que tanto pode ser designado como tudo ou como nada.

2. Deus, porque têm todas as possibilidades, não só em potência como


em real existência, porque é tudo, tem forçosamente de incluir a vida, no
seu sentido mais amplo.

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agostinho da silva – uma antologia

3. A vida é fundamentalmente a presença simultânea de um sujeito e de


um objecto, intimamente ligados entre si pela presença de Deus; Deus, sob
este aspecto, é o que permanece estável na variação constante e correlativa
do sujeito e do objecto.

4. Se Deus é a Lei, há caminho para Deus através da ciência; a existên-


cia de Deus pode ser provada racionalmente.

5. Deus, sendo a Lei, não a tendo de fora, mas sendo-a ele mesmo,
intrinsecamente, é também a Liberdade.

6. Se Deus está no íntimo de todo o contato, de toda a relação entre


sujeito e objeto, Deus é imanente e o universo, em todos os seus aspectos,
não é mais do que manifestações de Deus; é Deus sendo.

7. Por outro lado, o Universo, a vida, saiu de Deus, e ele é infinito em


face de sua finitude, está como um princípio, como uma companhia e
como um fim; Deus, neste sentido, é criador e transcendente.

8. Só há no Universo um Espírito, o Sujeito, e um Corpo, o Objecto,


ambos determinados por leis, ou próprias ou de correlação, que não são
mais do que casos particulares da Lei que Deus é.

9. A alma do homem, o que em nós sentimos diferentes do Objecto,


não é mais do que a impressão particular no Espírito Universal do fenóme-
no particular que somos como corpo, no Corpo Universal.

(...)

15. Podemos falar simultaneamente de Criação e de Evolução; o funda-


mental da Evolução é que nenhum estado B poderia ter existido sem o esta-
do A que o condiciona: o olho do mamífero sem o olho da euglena; o que
não impede a Criação de cada um dos estados B; é por isso que a Evolução
não é lenta: natura facit saltus; a Criação está no tempo e fora do tempo.

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

16. Se há uma causa final e uma Lei, nada é mau, nem em si próprio
nem no conjunto do Universo. Tudo serve a algum fim. Tudo está sendo só
o que poderia ser. Tudo o que está sendo é o melhor possível.

17. Dizemos que alguma coisa é má apenas porque a nossa visão


limitada do mundo a faz aparecer como má, isto é, como oposta ao que
seria nosso desejo; as coisas deixarão de ser más (ou boas, como oposto
a más), no momento em que transcendermos a nossa visão particular
do Universo.

18. Podemos chegar a esse ponto, não indo para além de nossos limi-
tes externos, o que seria impossível, mas profundando em nós, indo à
mais íntima ligação que podemos descobrir entre Sujeito e Objecto.
Procuremos o Deus imanente e atingiremos de golpe o Transcendente.
Deus só pode atingir-se através da experiência, de toda a experiência
orientada por ele.

19. Significa isto que atingiremos ao mesmo tempo a Lei e a Liberdade,


a Verdade e a Felicidade; numa palavra, que coincidiremos com Deus.

(...)

23. Este coincidir com Deus, este integrar-se simultâneo na Lei e no


fenómeno, do espírito ou do corpo, significa que se é feliz, que se atingiu
a calma perfeita, sem que se tenha perdido a acção; é o repouso completo
no mais completo movimento. Um êxtase e uma ação.

24. A união com Deus aniquila o que sou eu como oposto aos outros;
não há mais egoísmo; nem revoltas da vontade; nem amor com desejo. O
amor com desejo é santo porque é uma nostalgia de Deus, uma busca da
calma perfeita; o amor sem desejo é o estar-se em Deus.

(...)

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agostinho da silva – uma antologia

26. O homem que atingiu a real felicidade pela união com Deus é
perfeitamente moral; perante ele, só os outros existem, não ele mesmo; e
porque age, porque se deleita no fenómeno (só perturbante se ao mesmo
tempo não possuímos a Lei), o amor que temos aos outros é activo e toda
a acção é conduzida a que existam no mundo as condições da mesma
­felicidade para os outros.

27. Há condições de felicidade para todos, quando se explicita a lei


em tudo quanto existe. Se se percebe realmente por que motivo se sofre, o
sofrimento não existe senão como exterior.

28. A transformação das condições económicas do mundo não é mais


do que uma racionalização das condições de produção e distribuição; ao
mesmo tempo é a afirmação feita por cada homem de que perdeu o seu
egoísmo. A propriedade privada e a propriedade colectiva, legais num
momento do mundo, não se compreendem agora ou dentro em pouco e
perturbam o homem. Para o homem feliz, unido a Deus, não pode haver
senão um regime de não-propriedade, seja qual for o domínio considerado
(bens materiais, animais, mulheres, crianças).

29. A política não é essencial no mundo; é agora um estádio necessário


e passageiro.

30. Todas as religiões são verdadeiras como linguagem; mas o verdadei-


ro templo de Deus está na alma do homem que atingiu a felicidade; e o seu
verdadeiro culto é o amor sem desejo de tudo quanto existe no mundo. –
Alcorão (1947), in Presença de Agostinho da Silva no Brasil, pp. 70-72.

Na minha hipótese, Sujeito e Objecto, sendo eternos, são imortais. O


homem é um caso particular do Sujeito e Objecto (alma e corpo); portan-
to, imortal; a sua alma continuará sendo alma, o seu corpo sendo corpo;
mas alma e corpo serão diferentes, o que se pode exprimir comodamente
pelo termo de reincarnação. – Alcorão (1947), in Presença de Agostinho da
Silva no Brasil, p. 72.

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

Admitido um princípio e uma finalidade é absurdo falarmos de mal;


tudo é uma só coisa (nem bom, nem mau em si), tudo tende à finalidade
Vida (mui logo à finalidade Deus), tudo está servindo, seja como for; tudo
é bom para.
Negando o mal, não nego o sofrimento. Mas sabe que não considera-
mos um mal todo o sofrimento que nos aparece com uma finalidade. O
que angustia os homens é um porquê? que é no fundo um para quê? Nesta
ideia temos um para quê? (a Vida e por ela Deus) e um porquê? (o Universo
é determinado nos seus fenómenos físicos e psíquicos; o que é só podia
ser o que é).
Creio, além disso, que o sofrimento é um dos factores mais eficientes
da nossa vida moral, desde que o integremos na marcha moral do mundo;
apura-nos no sentido de que nos leva ao mais profundo de nós; o não
sofrimento (que não é o mesmo que felicidade) gera o egoísmo, o encadea-
mento na aparência, a indiferença à procura de Deus.
Note-se ainda que o sofrimento é menor à medida que o nosso egoísmo
se desvanece, que amamos realmente os outros e não nós nos outros, como
quase sempre sucede (gosto de um amigo, de estar com ele, porque me
sinto bem junto dele, não porque ele se sente bem junto de mim).
Quando sofrem os outros? Criança, animal... Lembre-se dos tais con-
tos da pomba encantada e do príncipe que a pica; o sofrimento ou serve
para o ser que o passa, ou para quem o presencia (e sofre tanto como
ele). Podemos dizer que a criança ou o animal nem tirarão proveito do
sofrimento, nem nos amam o bastante para que sofram por nós; Deus, no
entanto, está em tudo; só há um Sujeito e um Objecto; tudo o que sofre,
sofre pelo mesmo e para o mesmo, seja qual for o fenómeno particular em
que o presenciamos.
Sofreremos o menos possível, talvez cheguemos a não sofrer, se ­estivermos
bem no fundo de nós, se florescer por completo o Deus oculto em nós.
Poderá dizer-se que uma doutrina de aceitação do sofrimento é conser-
vadora; em primeiro lugar, creio que não se pode ser conservador: o uni-
verso avança segundo leis próprias e progride (maior riqueza de vida, maior
possibilidade de Deus); em segundo lugar, agiremos sempre segundo o que
somos, mais ou menos profundamente.

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agostinho da silva – uma antologia

De resto, se digo que o sofrimento nos apura, unindo-nos a Deus,


não posso ser tido como conservador, porque o abatimento de todo o
egoísmo em cada homem significaria a resolução de todos os problemas
sociais (abolição da ideia de propriedade, quanto a bens materiais, pes-
soas, seres vivos). – Alcorão (1947), in Presença de Agostinho da Silva no
Brasil, pp. 73-74.

[...] só haverá paz para a consciência humana quando não existir distin-
ção alguma entre o “eu” e o “outro”. – A Comédia Latina [1952], in Estudos
sobre Cultura Clássica, p. 304.

[...] a experiência mística de todos os séculos, de todos os países e de todas


as religiões demonstra que o auge do sentimento religioso consiste numa fusão
entre objecto do culto e sujeito do culto, num transformar-se o amador na
coisa amada, num aparecimento da unidade perfeita onde a dualidade existia.
Para um observador de fora, um homem intrinsecamente religioso, em perpé-
tuo êxtase religioso, poderia dar a impressão de não estar prestando nenhum
culto a nenhum Deus e, na vida prática, esse homem ­comportar-se-ia com
a alegria, a espontaneidade, o desprendimento do selvagem, sem que tam-
bém fosse necessário, fatal, o aparecimento de qualquer espécie de rito: esse
homem teria reconhecido Deus em si e nos outros e viveria, naturalmente,
sem tu e sem eu, de igual para igual, num universo inteiramente divino. – A
Comédia Latina [1952], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 305.

O mais seguro, no entanto, é que a vida religiosa, ou melhor, a religião,


só tenha aparecido, conscientemente, com a primeira ideia dum Deus trans-
cendente, de um ser além do humano, e que todo o progresso neste assunto
tenha consistido em apurar essa noção de transcendente até ao ponto de ter
sido possível o aparecimento de uma noção imanente de Deus, sem que,
porém, seja necessário o opor-se uma à outra; e que todo o progresso futuro,
pela insistência, agora, sob o aspecto imanente, leve a uma vida religiosa,
que, externamente, se não distinga da vida religiosa, se a têm, dos primitivos
actuais, realizando-se por aí o sonho místico de um misticismo universal. –
A Comédia Latina [1952], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 306.

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

Efectivamente, se tomássemos esta expressão de catolicismo no sentido


interno da palavra, poderíamos dizer que houve até hoje na Humanidade
duas fases ou períodos católicos, ambos caracterizados pela fusão do que
parecia antinómico. Um primeiro catolicismo, expresso sob o ponto de
vista religioso e moral pelos hebreus e sob o ponto de vista cívico e prático
pelos romanos, dá o melhor equilíbrio possível de vivência às tendências do
homem natural e às necessidades do homem social; destruída a possibilida-
de de existência idêntica à dos primitivos autênticos dos a­ ntropologistas,
e obrigado a viver em sociedade, o homem, com o Velho Testamento e
o direito romano, marca, pela aliança entre os propósitos de Deus e os
propósitos humanos e pela racionalização da disciplina, a sua vontade de
vencer os obstáculos ante o futuro, sem perder de todo os seus direitos e as
suas lembranças de uma unidade de ouro. Para esses homens, a comunida-
de é, em resumo, a legião eleita, em marcha de Deus para Deus, expiando,
pelas injunções de carácter digamos militar, o pecado quase involuntário
de sua primeira queda. E são exactamente as aquisições deste primeiro
catolicismo ou universalismo, dominado por Jeová e suas outras repre-
sentações celestes ou terrestres, que possibilitam o desenvolvimento dum
segundo período universalista em que, ao aspecto de comando de Deus se
junta o seu aspecto de paternidade; a família criada já não é para Ele ape-
nas o grupo que dirige, é sobretudo o grupo que ama e a que impõe, por
inspiração e permeação, o ideal de amor, e, por conseguinte, a aceitação
do sacrifício, não já propriamente por uma causa, mas pelo irmão homem.
Para resumir um pouco duramente, a um catolicismo de carácter mosaico
se substitui, sem quebra da continuidade histórica, um catolicismo cristão:
um universalismo cristão.
Posta assim a ideia de que não seria o catolicismo apenas um momen-
to ou uma parte do cristianismo, como se fixou em história superficial,
mas sim o cristianismo um aspecto deste universalismo ou catolicismo
que concorda com a mais estável e profunda essência do homem, cabem
a possibilidade e a esperança de que venha a definir-se, dando estru-
tura espiritual aos progressos da Humanidade, uma terceira fase cató-
lica, cujo advento histórico se marcaria pelo regresso dos protestantes
ao seio da Igreja, como, logicamente, o triunfo do cristianismo deveria

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agostinho da silva – uma antologia

ter implicado a conversão dos judeus. Terá este catolicismo de repousar


fundamentalmente sobre valores que sejam ainda, por assim dizer, mais
autênticos do que os de disciplina e de sacrifício, discutíveis em si e, de
certo modo, dirigidos a um fim externo à própria essência do homem
considerado como indivíduo. Como os quatrocentos anos de paz roma-
na possibilitaram a inteira realização do Deus hebraico e o surgir do
seu novo aspecto de Pai, as conquistas de um movimento que foi no
íntimo protestante poderiam permitir a plenitude de um cristianismo,
que mais tem dirigido os nossos pensamentos do que as nossas acções,
e também a afirmação de aspectos novos que seriam capazes de salvar
a Humanidade do perigo de falência que actualmente a ameaça. Teria
de centrar-se no único ponto em que o desenvolvimento individual em
nada colide com a fraternidade e a eternidade do grupo: não seriam mais
imperativas uma ciência votada à técnica e ao poder, nem uma política
virada ao domínio, nem uma economia de divisão e concorrência; tudo
o que o homem pôs como objectivo e ganhou com a sua luta e o seu
sofrimento dá possibilidades de que o catolicismo, renovando-se, abra
livre acesso àquele poder de imaginação criadora que sempre esteve mais
ou menos impedido ou limitado pelo esforço de disciplina e de sacrifício.
De um modo essencial, se substituiria a tarefa pelo jogo. Se traria à plena
luz a Pessoa da Trindade cujo valor, historicamente, foi quase sempre o
de estar implícita ou no Pai ou no Filho, e, por a trazer à plena luz, se
marcaria o triunfo da realidade íntima do mundo, pelo menos tal como
ele se nos manifesta em espaço e tempos. Se reuniria a universalidade dos
homens naquele consolador, livre e vital universalismo anunciado nas
palavras antigas do Evangelho de S. João: o universalismo ou catolicismo
do Espírito Santo – “Superação do Protestantismo” [1954], in Textos e
Ensaios Filosóficos II, pp. 188-189.

[...] recusar-se a um caminho de santidade porque se não é santo é


covardia e não coragem; desesperar de que seja possível nascer de novo
um Deus na estrebaria de nossa alma é o desespero que porventura a eter-
nidade não perdoa – Reflexão [1957], in Ensaios sobre Cultura e Literatura
Portuguesa e Brasileira I, p. 55.

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

Quem sabe se esse Espírito Santo, que é o amor eterno do Pai e do Filho,
quem sabe se essa “verdade que nas coisas anda” não é o ponto de contacto,
a mais alta realidade, a inefável essência em que tempo e eternidade se
revelam da mesma natureza, se revelam coetâneos e idênticos? – Reflexão
[1957], in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, p. 55.

Num mundo de adultos e de adultos habituados a pensar, Jesus teria de


crescer, para pregar, porque os homens só entendem a pregação e não a vida,
e para de novo ser crucificado, porque eternamente os homens estão crucifi-
cando, pelo que os não vale, o melhor de si próprios – Um Fernando Pessoa
[1959], in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, p. 107.

[...] num universo de qualidades infantis, num Paraíso, – e é por isso,


porque os adultos aí eram crianças que não havia crianças com Adão e Eva,
e só as houve depois que, para podermos comer e se vestir, principiaram
eles a ser adultos, – num Paraíso, todo o governo que não for amar será
absurdo, toda economia que não for colher será absurda, toda a teologia
que não for contemplar será absurda – Um Fernando Pessoa [1959], in
Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, p. 116.

Neste rio que corre todos flutuamos juntos: só Deus, da margem, espia o
rio que dele corre e regressa a ele. Nada determina especialmente coisa algu-
ma: o entrechoque e a inter-relação soberanas reinam – “Repetição, Estilo,
Pensar”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 80.

É por esta atitude de directo amor, de pura contemplação, de fazer perder-


-se o eu na grandeza que plenamente se lhe revela, que eu, se se não tratasse
de grande extravagância, admitiria que alguém, perguntado sobre sua religião,
pudesse inscrever “Matemática”, embora saiba quantos são matemáticos ape-
nas porque tiveram paciência de resolver todos os exercícios do livro de escola
ou se resignaram a continuar, mesmo sem entender o que aprendiam. Mas
aquilo a que venho é o seguinte: que esta contemplação matemática é para
mim como uma primeira forma, uma imperfeita imagem do domínio que me
parece inatingível a toda a espécie de sanção social: a religião. Não a religião

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agostinho da silva – uma antologia

que apenas consiste em praticar os actos exteriores que um actor profissional


sem fé poderia ainda representar muito melhor; não a religião que consiste
em ser bom na vida, porque tal se pode conseguir a partir de fontes que não
são verdadeiramente religiosas; mas aquela religião em que tornar-se um “ser
orante” lança o homem na única aventura que vale a pena de ser vivida; em
que o entregar-se a Deus de todos os instantes o faz compartícipe da própria
aventura divina. E afinal que aventura de Deus é esta? A muito simples e inter-
minável aventura de ser plenamente o que se é. E de o ser em cada momento
como o seria na totalidade das horas; isto é, de unir a cada instante eternidade
e tempo como se estivesse mergulhado naquele inteiro acto de oração que é
a morte e que nenhum facto de vida, social ou não, poderá jamais atingir –
“Coacção”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 34-35.

O mal terrível que está roendo tudo e que poderá tornar toda a neces-
sária transformação económica um mal ainda mais grave, se ela não for
acompanhada de uma renovação religiosa, é que a vida se tornou inteira-
mente laica e, por consequência, inteiramente monótona: nenhuma hora
se distingue de outra hora por um rito ou uma cerimónia especial; e nela
se não imprime sobre a matéria comum da utilidade o selo específico da
presença de Deus. É só na missa que entrevêem alguns a santidade do
pão; só nas procissões que se apercebem alguns da santidade do andar;
só na hora da morte que em alguns desponta já bem tarde a santidade da
luz. E para remédio dessa dessacratização, que é o fundamental da deca-
dência do sentimento religioso, ou pelo menos de suas expressões, nada
valem esforços intelectuais e renovações ritualistas; acima de tudo têm os
próprios intelectuais e os próprios ritualistas de encontrar a virgindade de
espírito e a humildade e a clara vontade de, pondo o resto de parte, cum-
prirem a tarefa basilar de se ofertarem aos desígnios de Deus; e com tanto
mais gosto quanto mais desconhecidos forem – “Renovação Religiosa”, Só
Ajustamentos [1962], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 123.

O homem só poderá salvar-se do ócio que o ameaça se aprender a


sair de si próprio e se utilizar toda a liberdade de que poderá fruir para
que plenamente se entregue àquele apaixonado amor, que, livrando-o

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

de ter planos particulares, o integrará no grande plano do caminho


do plural para o uno; do objecto para o sujeito; dele mesmo a Deus
– “Automatismo e Ócio”, Só Ajustamentos [1962], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 127.

Conheci um pensador, de resto involuntário, que assistia com todo o


fervor à Santa Missa e considerava ao mesmo tempo, nas suas aulas de
Universidade, que todas as religiões, inclusive provavelmente a dele (e
diz-se provavelmente porque, pertencendo o homem à Universidade, não
tinha obrigação alguma de ser fiel à inteligência, mesmo lógica), que todas
as religiões se tinham originado do medo. [...] o medo essencial seria nesse
caso um medo da vida; e que, dado, que não seria possível ao homem ter
medo da vida se nela estivesse plenamente incluído, tudo viria de, num
momento da sua existência, e principiando aí a sua história, o homem
ter entrado com a vida numa dualidade de diálogo, estabelecendo-se rela-
ções de sujeito e objecto. A insegurança viria toda ela de uma separação;
e o separador fundamental seria, não, etimologicamente, o Diabo, mas
o espírito que nele separara o anjo de Deus; o medo poderia ser então o
terror de tudo o que separa e que, como consequência, nos faz temer onça,
trovão ou pensamento de outro homem, se não é o de unir o pensamento
deste homem. Religião, por um desejo de unidade, por uma afirmação
de unidade, por um ser unidade na reza, no rito, no sacrifício, teria então
origem no medo, mas origem de reacção; é-se religioso porque se afirma
que, apesar de quanto separa, se põe acima de tudo, como valor, a unidade,
se repele a divisão, e expressa o desejo supremo de fusão no Uno. Uno
anterior à rebelião do anjo, com Deus e o Diabo, o Bem e o Mal, o Ser
e o Não Ser; Uno de que qualquer conceito é já limitação e a que nem
sequer se pode atribuir existência, porquanto já são estas ideias de sujeito
e objecto; é para este alvo do além de tudo que todas as flechas religiosas
se dirigem; e nunca saberemos quando o atingem: porque o alcançá-lo
necessariamente se exprime no silêncio. Mas é possível dizer quando ainda
se não atingiu o alvo: quando, como eu e como ele, falamos ou escrevemos
de religião; discutimos, logo estamos longe – “Ecúmena” [1964], Textos e
Ensaios Filosóficos II, pp. 191-192.

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agostinho da silva – uma antologia

As religiões, portanto, além de tudo porque falam, e como falam, se


declaram históricas: tiveram um princípio, vimos que de algumas houve
fim, outras terão porventura e igualmente o seu fim. Fundadas sobre o
não-separar, tão forte lhes foi a História que muitas delas acabaram por se
dividir, e por aí terminaram como religiões; só são verdadeiramente reli-
giosas aquelas que, para além de toda a dissonância, sempre afirmaram a
fundamental unidade, aquelas que sempre puseram acima de tudo a fra-
ternidade, aquelas para as quais mais vale ser bom irmão do que excelente
sábio – “Ecúmena” [1964], Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 192.

Costuma cada um considerar verdadeira a sua religião pelo que ela é;


gostaria de considerar verdadeira a que eu tenho, ou melhor, a que me
tem, pelas possibilidades que oferece de ser ou de não ser. A razão volun-
tária essencial de me ver católico não seria a da existência de um Deus
Pai ou de um Deus Filho; seria a da crença no Deus Espírito Santo. É o
Espírito o que une Pai e Filho, dos quais vem tudo o resto, como criação
da redenção; é o Espírito o traço comum de sujeito e objecto, por onde se
estabelece todo o diálogo; é o Espírito a fonte indefinível de onde a vida
pode fluir sob quaisquer formas, aquelas que eu conheço e venero ou não,
e aquelas de que nem sequer posso ter uma ideia; é o Espírito que anima
os que estão comigo e os meus adversários; Foi o Espírito quem me trouxe
o Cristo e quem a outros trouxe Buda, Maomé e Lao-Tseu; foi o Espírito
quem me deu Eckhart e quem me deu a geometria analítica, nele se recon-
ciliam Aristóteles e Platão, nele se acabam as geografias, ou políticas, que
separam Ocidente de Oriente: Por ele a Igreja é, e só o será enquanto Ele o
quiser; quando se canta “Veni, creator Spiritus”, inicia-se a maior aventura
da História: porque nunca se sabe o que Ele irá criar; e pode não criar coisa
nenhuma e refluir à Unidade essencial; é o Espírito quem torna todas as
religiões aceitáveis, embora só seja verdadeiro o cristianismo, porque só
o cristianismo o põe como Deus; e se fordes fiéis a este culto do Espírito
podereis ir ao encontro de qualquer religião e qualquer religião poderá vir
a vós, porque continuareis fiéis ao essencial do cristianismo. E não preci-
sam os outros povos de outra catequese senão desta, a de que existe um
Espírito: talvez acabem por encontrá-lo, mal expresso, ou inexpresso, em

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

suas próprias religiões; e talvez a própria perfeição do Espírito mais o garan-


ta inexpresso do que expresso. O que até aos chamados ateus daria entrada
no grémio. Entregue ao Espírito, venero a hierarquia e a critico; aceito o
dogma como o mais humilde dos fiéis e tento a cada passo matematizá-lo;
creio ao mesmo tempo na eternidade do catolicismo e na sua historicidade;
ancorado no Uno busco o vário, embriagado do vário ao Uno refluxo, se
embriagado: o que creio não suceda – “Ecúmena” [1964], Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 193-194.

[...] pouco se fez quanto a teologia do Espírito Santo, em si própria,


e nas ligações que parecem existir com atitudes como as do Tao ou as
do Zen; talvez, neste ponto, o puro estudo teológico levasse a entender
melhor a facilidade e a fecundidade das ligações dos portugueses dos
Descobrimentos com as civilizações do Oriente e desse a base de par-
tida para que realmente se unissem as duas formas de comportamen-
to no mundo – “Notas para uma posição ideológica e pragmática da
Universidade de Brasília” [1964-1965], in Dispersos, p. 245.

[...] somos à imagem e semelhança de Deus da Trindade quando já


divididos, mas, quando unidos plenamente, à imagem e semelhança do
Espírito Santo, o gerador imprevisível [...].
[...] Platão e Aristóteles se reúnem sem contradição, como complemen-
tares e indispensáveis um ao outro, num Deus, já não pessoa da Trindade,
mas reunião indefinível, supraconceptual, de todas elas três; se reúnem num
único Deus total e verdadeiro que existe: o que, não sendo, vai sendo o quan-
do, o como e o enquanto somos. A esse Deus, sem culto, cultuaremos com
todo o culto; em todo o culto – “Quinze Princípios Portugueses” [1965],
Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, pp. 275-276.

Ora, quando o renascer for de nosso próprio domínio, o que teremos


de ter, juntamente com o durar, é essa infinita capacidade de ser tudo;
não até o ser tudo, mas o estar disponível para o ser, não descansan-
do nunca sobre o ofício que se tomou, não supondo que se deve conti-
nuar até ao fim da vida no mesmo chouto de asno obediente, querido. A

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agostinho da silva – uma antologia

profissão de hoje foi a de hoje, poderá ser a de amanhã, mas saiba el-rei
que nessa mesma noite abrimos o livro novo e seremos, com a novida-
de, homem novo também. O Deus que criou o mundo tal qual ele é,
o adoraram sobretudo nossos avós, e em grande parte por medo; nós,
porém, vamos entrar na Ordem dos que principalmente adoram o Deus
de cujo mundo se não sabe ainda, nem sequer se o criará. Deus livre para
homens livres, Deus que, recolhido a si o presente Universo, depois que
até o limite se lhe expanda, o possa voltar de novo pelas mesmas leis, ou
a outras imponha, talvez obedecendo à única lei sua, a de inventor de
leis – “Quinze Princípios Portugueses” [1965], Ensaios sobre Cultura e
Literatura Portuguesa e Brasileira I, p. 280.

Deus aspira a que o deixem em descanso, a que não digam nada sobre
ele, a que não discutam se existe se não existe, se mais vale pelo amor
ou pela acção, como se importasse alguma coisa a Deus amar ou agir, e
que o deixem, depois de ter explodido, nos limites da luz, as suas últimas
galáxias, voltar, passando por seu hidrogénio primitivo, ao pré-átomo ou
ao não-átomo de que tudo saiu, que o deixem aposentar-se na eternidade,
depois de seu labor de seis dias, presentes sempre e sempre sendo, pois que
Deus não tem ciclos e, simultaneamente, é tudo o que possamos pensar, e
um não-pensamento, se pensável.
Quero eu dizer, ou quereria eu dizer, se me não faltassem os tais saber,
engenho e arte, que o que se manifesta nas igrejas é o Deus que nos é útil,
talvez realmente o único que podemos compreender, já que nos apostámos
em compreender, faltando, por tentação da serpente, já anteriormente ten-
tada por si própria, à nossa natureza fundamental de ser sem compreender,
de existir tranquilamente sem sujeito nem objecto, de nos instalarmos sos-
segados no presente; […] – “Aqui falta saber, engenho e arte” [1965], in
Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 210.

Diria então que um Deus não surpreendido no seu acto de manipular,


ou não manipulado, seria essencialmente um Deus que se esconde. Não
poderia dizer nada sobre ele, nem de bem nem de mal, não lhe fixaria
nenhum atributo, pois que os atributos que pregamos em Deus são apenas

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

os rótulos de preço, preparação de uma venda de Deus a nós próprios e aos


outros; […] Deus se esconderia, Deus está oculto, de Deus, ao a quem não
rezo, nada posso dizer; do outro, daquele a quem rezo, todo eu sou pala-
vras. Lembro-me agora das latinas e diria lated anguis in herba, donde seria
tão fácil lated deus in mundo; […] seria a serpente até, pois não estão as de
Creta nas mãos da desnuda deusa, a melhor aproximação que pode haver
de símbolo a uma pura, ou a mais pura, teologia: deus e o Diabo juntos;
só que, no capim, latentes – “Aqui falta saber, engenho e arte” [1965], in
Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 210-211.

[…] o ser de Deus é ao mesmo tempo existir e não existir; o mais pró-
ximo de Deus que temos na vida é sonhar, e não me refiro aqui ao sonhar
dormindo, mas ao sonhar que vem desde Homero ao Diesel, e do sonhar
diremos que existe e não existe ao mesmo tempo; existe como sonho, não
existe como realidade; é uma irrealidade donde vem tudo o que no real
vale; é um ponto sem existência, de que brota uma inteira geometria do
que existe. Deus é o mesmo: existe como Deus, não existe como não-
-Deus, embora provavelmente o pense; mas não creio: porque Deus se se
pensa, ou quando se pense, logo se vê como objecto; e este partir-se em
sujeito e objecto destrói o próprio Deus; para que se não destrua quando
pensa, só o Espírito Santo lhe vale, o qual é laço sempre presente, sempi-
terno, entre qualquer sujeito e qualquer objecto, entre o Pai e seu Filho.
Deus é, e é o que é e é no que é. Dele participando, tudo é real e sonho.
[…] Lembro-me de que seria bom juntar ao esconder-se de Deus, ao
seu existir, digamos ser, e de preferência, por estarem fundidos sujeito e
objecto, um não falar, um não dialogar, nem um monologar também, que
é sempre um diálogo hipócrita, um diálogo que não ousa confessar-se, mas
que espera ser ouvido, um cauteloso diálogo que foge à contradita, mas
que chama aplauso. Deus, e volta-se a insistir que não o deus das igrejas,
que não o deus separado do diabo mas o deus cujo símbolo melhor seria
exactamente o do Espírito Santo, Deus esse, mantém-se em silêncio. Deus
é alogos, não logos. Ao princípio dos princípios não era o Verbo; mas veio
no princípio do que é nosso agora – “Aqui falta saber, engenho e arte”
[1965], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 211-212.

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agostinho da silva – uma antologia

Pondo de parte todas as muitas críticas que possivelmente haveria a


fazer à insistência no pensamento individual e à chama de orgulho, o
que naturalmente caracteriza, mais talvez do que, o conteúdo ideológico,
o verdadeiro herege, e para resumir, tentando não ser muito infiel, um
pensamento complexo e tão estreitamente ligado a circunstâncias de vida,
diríamos que o tema essencial de Joaquim de Flora é o de uma teoria da
história ligada a uma audaciosa suposição de que Deus evolui ou de que,
pelo menos, cada uma das pessoas da Trindade tem, num contexto de eter-
nidade, seu tempo de se mostrar com maior vigor, devendo dizer-se logo,
como para uma grande maioria de autores de teologias e filosofias, que não
é fácil decidir se o que se refere ao plano do sobrenatural decorre de uma
meditação do natural ou se, pelo contrário, a doutrina de Deus é apenas
uma justificação do que se desejaria em plano de homens.
Seja como for, e ainda podendo conceder-se que a criação ideológica se
faça simultaneamente nos dois planos ou numa intersecção a nós desco-
nhecida, da qual para um e outro lado se projecta, o que parece certo é que,
para Joaquim de Flora, a pessoa do Pai se ligaria a uma tarefa fundamental
de criação e organização do mundo, com peculiar insistência, como é natu-
ral, no que se refere à ordem e à disciplina; trata-se basilarmente de passar
de um caos, que Joaquim de Flora, como tantos outros, supõe pensável, a
um cosmos, em que, também como em tantos outros, o homem é a medi-
da de todas as coisas, embora se possa simultaneamente admitir que alguns
dos efeitos provêm apenas de nossas limitações na apreciação do conjunto;
é, na escala humana, o tempo dos impérios em que o cidadão se subordina
à cidade e em que surgem os aglomerados urbanos, as hierarquias políticas
e divinas, os sistemas de comunicação, as aparelhagens administrativas, as
máquinas militares e até, com os Gregos, e nisto reside a sua criação funda-
mental, aquela outra máquina que, fundada sobre a ideia geral, se chama
filosofia e nos permite a nós manipular o mundo nos dois aspectos em que
ele se nos revela, o do pensamento e o da extensão.
Esplende logo a seguir a pessoa do Filho e aí se acentua não a discipli-
na mas a caridade, não a subordinação político-militar mas a ajuda entre
irmãos, não o sacrifício para que as cidades triunfem, mas o apagar-se para
que o próximo veja como mais suportável a sua provação na vida; é a época

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

em que uma Igreja paternal fundada sobre a revelação de Cristo e o exem-


plo dos Santos tenta que haja um só rebanho, sob a guarda de um só Pastor,
ainda que, e isto não o chega a saber Joaquim de Flora, esteja já bem próxi-
mo o tempo em que os nacionalismos dominarão, em que o juro encontra-
rá sua justificação teológica e em que a própria Igreja, por iniciativa de uma
Europa bárbara que permanece bárbara, se vai dividir numa guerra das
mais ferozes e da qual, em última análise, se vieram os progressos técnicos,
veio igualmente o perigo da subordinação do homem à máquina e, o que
é pior, da subordinação do homem a outros homens que já não têm por
simples apoio para as decisões os seus caprichos, o que ainda seria poético,
e humano, mas o final de cálculo de suas aparelhagens electrónicas.
Não parecia, no entanto, ao herético italiano que este fosse o destino
final da Humanidade; acreditava em que, exactamente como se vira livre
dos impérios da disciplina, tempo viria em que estaria liberto das obrigações
do sacrifício, em que a ajuda ao próximo não seria o seu primeiro dever e em
que o círculo fechado de se amar a si e aos outros se romperia para um plano
transcendente à sua vida em sociedade. Certamente que fora necessário o
sacrifício e Cristo lhe dera exemplo eterno, mas o próprio Cristo anunciara,
pelo Evangelho do discípulo amado, que seu tempo era limitado e que era
preciso que ele se fosse para que viesse aos homens o verdadeiro Consolador,
para que o Espírito baixasse e se estabelecesse e com ele viesse o Império da
Fraternidade, e uma rede de Amor envolvesse ao mundo inteiro e o fogo
criador, supremamente livre, viesse determinar, à escala de todo o homem,
a mesma explosão inventiva ou reveladora que dera origem ao universo –
“Algumas considerações sobre o culto popular do Espírito Santo” [1967],
Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira 1, pp. 321-323.

Repete o Espírito, absoluto de existência, que Deus tanto está na missa


cristã como na ablução muçulmana, tanto se manifesta pelo orixá africano
como pelo taoismo chinês, tanto resplende nas danças do Xingu como
nos mitos de Timor; repete, ao considerar os ateus, e não esquecendo que
são ateus os budistas, ao considerar os agnósticos ou os que se dizem anti-
-religiosos, quando são apenas contra o explorar-se o que é religioso com
objectivos que o não são, repete o Espírito que Deus brilha no reverso das

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agostinho da silva – uma antologia

medalhas exactamente como no anverso; e repete o Espírito que sendo


obrigação essencial de cada um converter-se à sua própria religião, numa
vontade contínua de aperfeiçoamento seu e dela, nunca será plenamente
religioso se não entender cada uma das outras religiões como se sua fosse –
Educação de Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, p. 105.

[…] da religião do Espírito, que um dia, na sua forma última e pura, aban-
donará todos os ritos pelo de viver a vida graciosa, trocará todas as orações
pelo perder-se em Deus, e, tendo atingido a realidade, lhe serão sacramentos
símbolos só – Educação de Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, p. 106.

[...] teologia ecuménica, para que todas as religiões contribuiriam e que,


livrando as almas de fantasmas, as prepararia para existirem na única teo-
logia que julgo não formulável em discurso, e por isso a melhor, a Teologia
do Espírito – Educação de Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, p. 130.

Ora o que importa é viver e dar vida, a vida total, a do Reino de Deus,
que tem sido ideal de todas as Igrejas, mesmo quando mais parecem meditar
sobre a morte. E, se podemos ver a Arte como a lembrança contínua, pela
Beleza e pela Piedade, de que o Reino existe; a Ciência como o entendimen-
to da sua harmonia essencial, por aí se voltando a conceitos pitagóricos; a
Técnica como a desbravadora dos terrenos que se hão-de pisar na grande
marcha para que o Reino venha; a Política como o guia que procura os cami-
nhos melhores, nem sempre bons; nos aparecerão as Igrejas como o lugar em
que pela suprema concentração de espírito individual e colectivo, e é esse o
único tipo de oração em que deveremos pensar, o Reino se deseja, se implora
ou se exige, e, pela Fé no Espírito, constrói-se – Educação de Portugal [1970],
in Textos Pedagógicos II, p. 133.

[…] são as Igrejas, no melhor, a ausência da dúvida e a adequação do meio


e de seu fim, já que, pelo espírito, ao Espírito se busca; nenhuma Igreja a si pró-
pria se pode corromper, de dentro para fora; mas tem sido bem frequente que
sobre elas venham interesses económicos ou políticos, sempre tão ligados entre
si, e as capturem como escravas; escravidão que, parece, muito agrada a muitas.

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

[…]
Começa o positivo das Igrejas pela fé no sobrenatural, fé em que parece
vacilam hoje tantos eclesiásticos que suponho preferem o económico e o
político, e justamente o preferem se tal fé lhes falha, pois lhes compete,
antes de tudo, não ser hipócritas; a ocupação essencial das Igrejas devia ser
essa mesma, a de testemunhar o sobrenatural, soltando de si todos os que
as tomaram como uma carreira social, todos os que a elas foram levados
porque não dispunham de recursos para que frequentassem outras escolas,
ajudando ao reingresso na vida laica todos os que nelas se conservam apenas
porque têm medo, e muito justificado, da existência bárbara que ainda é
a da maior parte dos homens; as igrejas têm de ser as destemidas naus dos
grandes místicos, que nunca foram, em religião alguma, os indiferentes, os
falhados ou os débeis mentais que fantasiam os críticos de pouco aviso e
ainda muito menor erudição.
Continua o caminho pelo libertarem-se as igrejas de todas as proprie-
dades que lhes têm sido cativeiro, lembrando-se de que todo o possuir
corrompe ou, e de novo citarei poeta, lembrando-se de que ter é morrer,
e foram elas feitas para a Vida; se outros exemplos não houvesse, bastaria
meditar em quanto bem fez ao budismo e xintoísmo japoneses a reforma
agrária de MacArthur, pondo para fora os que nelas estavam por interesse,
e como, apesar de todas as restrições governamentais, estão vigorosamente
se afirmando as igrejas cristãs, muçulmanas, budistas ou judaicas dos países
de leste. E acho que muito bem finalizariam as igrejas seu preparo de ver-
dadeiro ser se continuamente lembrassem a governantes e a governados que
a única lei por que se rege Deus é a de sua infinita liberdade, que todo o
dono de escravos se escraviza, e que nasceram os religiosos no mundo com
o dever supremo de dar, sem medo e sem rancor e à sua escala humana,
testemunho da liberdade divina – Educação de Portugal [1970], in Textos
Pedagógicos II, pp. 134-135.

[falando da “palavra, escrita ou falada”:] “[...] servem para a acção e não


a mais profunda, porque está essa, a essencial, no domínio das feitiçarias
silenciosas ou, para os místicos, no aniquilar-se em Deus” – Educação de
Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, p. 147.

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agostinho da silva – uma antologia

Mas vamos repetir a esquerdas e direitas, quaisquer que sejam suas possi-
bilidades de diálogo, que nada do que penso vejo como satisfatório e como
definitivo; posso dizer, sem paradoxo, que só tenho fé na dúvida, a exemplo,
na minha pequenez humana, de ter Deus a liberdade como sua única lei;
quer dizer esta segunda parte que Deus está sempre inventando e sempre
com uma infinita possibilidade de mais inventar, como se ainda não tivesse
inventado nada; como o que inventa me aparece a mim, preso nas malhas
de espaço e tempo, quase sempre como em pares de contrários, nunca me
tomo decididamente por um ou outro termo do par, senão quando se trata
das definições práticas da vida: por exemplo, é melhor que o povo coma
do que não coma; é melhor que se fale bobeando do que se rebente calado;
é melhor a fábrica automática do que os navios negreiros; mas, no resto,
duvido; o mundo em que vivo é uma equação: não me importo com o que
significam os termos; sei apenas que são iguais; então todo o mistério reflui
ao próprio sinal de igualdade que os separa e os une; mas só saberei desse
mistério quando não houver mais membros de equação e quando, portanto,
não tiver o sinal qualquer espécie de significado; o que talvez só se realize, a
nosso nível, na viva morte dos santos; repetirei ideias para que fiquem, senão
bem claras, pelo menos bem lembradas, e me não atribuam outras: nos san-
tos de qualquer religião, ou de nenhuma; os quais devem estar incluídos,
para os católicos, nas celebrações l­itúrgicas do Primeiro de Novembro –
Educação de Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, pp. 149-150.

Seja como for, tem a Igreja pela frente uma tarefa complicada, que seus
membros mais conscientes e de maior fé verão como menos entregue ao
talento, boa vontade ou habilidade de homens do que às inspirações de
divindade ou de santidade que o corpo místico e o corpo prático souberam
receber e seguir; como, segundo o povo, escreve Deus direito, mas por tortas
linhas, poderão vir as soluções de formas muito diferentes daquelas que se
estão pensando ou antevendo; parece, no entanto, que assentariam em duas
bases, a de que podem perfeitamente ser dispensados da Igreja os que a ela
foram por medo ou conveniência, que medo é, e a lembrança de que cato-
licismo, quer, etimologicamente, dizer universalismo e, portanto, um ecu-
menismo que se não importe apenas com cristãos, mas vá aos muçulmanos,

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

aos animistas, aos budistas ou aos xintoístas, e, ouso dizê-lo, aos agnósticos
e aos ateus, ensinando a todos fé na vida, que Deus é, esperança no futuro,
que Deus já é, só que ocultamente a nossos limitados olhos, e uma caridade
que se desprenda do material, entregue esse, com melhores resultados, à eco-
nomia e à política, e se debruce sobre os problemas espirituais do homem,
compreendendo a todas as angústias e amparando a todos os desvios.
Parece, porém, que o mais grave de tudo não é a crise que possa haver
dentro da Igreja, limitada afinal a alguns milhões de homens, mas a que,
fora dela, há quanto a ela, e que abrange, essa, biliões de homens; em
cada nação teoricamente cristã são muitos os que não acreditam mais na
sinceridade da Igreja, apoiam sem discutir todos que vão contra ou a dei-
xam, e vêem todas as medidas de compreensão de novos tempos como
simples habilidades políticas, destinadas a fundamentalmente conser-
varem o poder e manterem o lucro; fora das nações cristãs, os povos de
Ásia ou África, que sentiram em sua carne o missionário que precedia o
comerciante e soldado, ou os povos da América, para os quais a Igreja este
sempre ao lado do tirano local, igualmente olham consagrações ou visitas
ou apoio à libertação como puro jogo estratégico de influência a guar-
dar ou a­ umentar; o difícil, para a Igreja, vai ser persuadir mundo de que
seu proceder é de real conversão, com arrependimento e bom propósito;
confissão geral, penitência e comunhão dos santos, eis o que muitos recla-
mam, esperam e desejam, confiados n divindade da Igreja; que a Deus os
restituiria, lançando-os pela única estrada em que plenamente podem ser
homens: a de superar humanidade – “A Difícil Prova” [1970], in Textos e
Ensaios Filosóficos II, pp. 248-249.

Talvez houvesse, quanto ao conjunto, que formular uma hipótese: a de


que a Igreja está apenas atravessando uma garganta de serra, de que está
somente sofrendo, como lhe compete, sua própria paixão, de que, crucifica-
da, ressurgirá, não já para as limitações da terra as para toda a amplidão dos
céus, não já companheira dos Estados mas servidora dos homens e queren-
do não já somente uma sociedade justa, que isso o farão os homens, mesmo
sem ela, mas uma sociedade de homens justos, isto é, santos; de homens
que entendam a todo homem e a todo o vejam como irmão e até como

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agostinho da silva – uma antologia

irmão superior, qualquer que seja a raça ou o credo; que tenham qualquer
problema material dos outros como sua pungente aflição de espírito; que
possam dispensar o sinal exterior do sacramento por serem de sagrada estru-
tura; que se digam católicos, isto é, totais, por estarem dentro eles, com
eles, o muçulmano e o budista; que se digam apostólicos por todos os dias,
infatigáveis, se pregarem a si próprios que devem ser melhores do que são;
que sejam romanos por quererem, alargando o ideal de Roma antiga, de
que deveriam ser herdeiros os homens que falam português, que seja todo
o homem cidadão do mundo: que passemos da província ao Universo –
“Desfiladeiro” [1970], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 256-257.

[…] se os homens acreditassem bastante em Deus não haveria tanta teo-


logia, tanto rito, tanta disputa entre as várias crenças ou sistemas de crença;
estou em pensar que o ecumenismo actual demonstra que os homens estão
a entender melhor o que é religião e vêem como Deus esplende nas reli-
giões dos outros, não só nas deles. Há escassez de Deus, por isso ainda há
tanta Igreja e tanta concorrência e tanto apelo à disciplina, como obrigação
de fila em colectivo. Abunde Deus e se calarão a propaganda e os códigos.
[…] está indo a religião para o caminho de ver Deus como superior
às igrejas e até corno mais pronto a aparecer no coração de cada homem,
mesmo no daqueles que se dizem ateus, do que em burocracias ou nas
cerimónias que vãs são quando do espírito não brotam como sua ­linguagem
e presença – “Quando não há, el-rei o perde” [1972], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, pp. 288-289.

Pois é aqui que efectivamente começam as minhas atrapalhações. Se eu


digo que Deus existe, segundo os nossos pobres, ignorantes ou pelo menos
limitados critérios, lá se vai a ideia de que Deus não existe, também segun-
do os mesmos limitados, ignorantes e pobres critérios, já não sabendo eu
que fazer de meus irmãos ateus que aparecem no mundo tanto quanto
eu, sobre os quais chove e faz sol como sobre mim e que, coitados, ainda
têm de aturar os que dizem acreditar em Deus, ou acreditam mesmo, que
aqui faz o hábito o monge, apenas porque têm medo de escorregar na rua
e quebrarem a perna ou de lhes ir pelo petróleo abaixo o juro da ESSO.

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

Diz-me Frei G. H. que posso tranquilamente continuar a pensar que


Deus, simultaneamente, existe e não existe. Veria então Deus, muito de
acordo com uma ideia da física cosmológica de nossos dias, e não me serve
para nada um Deus que não resista à ciência, como o átomo inicial que
explode em mundo, logo que, como não podia deixar de ser, por estar nele
incluída a consciência, toma conhecimento de si mesmo: ao tomar Deus
conhecimento de si próprio, se vê, ou é, sujeito e objecto, Pai e Filho, com
um intervalo imediato de tempo e de espaço, como me sucede a mim
quando me vejo ao espelho, ou me penso espelhado; mas, como acontece a
mim e à minha imagem, a semelhança os liga, a identidade os une; e isto,
que só existe quando Deus existe e porque é Pai e Filho, sujeito e objecto,
chamarei eu de Espírito Santo.
Pondo de lado esta questão do Espírito Santo, para não exaltar os meus
amigos de esquerda que me crêem místico, oxalá o fora, porque estaria
então bem seguro de inteligência, de espírito prático e de não cair nunca
em catecismos, pretos ou vermelhos, e para não descansar os meus amigos
da direita que poderiam julgar, confundindo este meu Espírito Santo com
a pomba amestrada que durante tanto tempo, mais com artes de corvo,
separou a Igreja do Cristo que a fundou, direi agora, acumulando as enor-
midades, mas sempre com o acordo e, vamos lá dizer, a protecção de Frei
G. H., que no momento em que o mundo explode de Deus, ou Deus
explode em mundo, deixe ele de existir como Absoluto e, portanto, como
Deus; é, já, a Trindade; e dessa, claro está, posso eu falar; o que não vale a
pena, pois de outra coisa não têm tratado os teólogos.
A complicação agora é que penso que esta explosão não se deu de uma
vez para sempre, mas se está dando a cada momento, e já dizer momento é
pôr o tempo como discreto, o que só aceito em relógios, os quais, embora
se saiba, é bom dizê-lo, não medem tempo, mas espaço; quero eu significar
na minha que tempo e eternidade coincidem, que Deus e a Trindade são
simultâneos e que, em física, a expansão e a contracção do Universo se
dão ao mesmo tempo. Se assim for, ou fosse, teríamos aqui uma abertura
para não aceitar a lei de evolução: como a energia aparece por quantidades
discretas, os quanta, o Universo inteiro apareceria igualmente por quanta:
um bicho não vem de outro bicho, aparece depois de outro bicho, e já o

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agostinho da silva – uma antologia

dizer depois é mesmo termo prático nosso; coisa que também, acho eu,
mas sempre com medo de dizer bobagem, aponta física quando não sabe
mais em certos fenómenos que surpreende que coisa vem antes e que coisa
vem depois ou se tem ainda algum sentido dizer antes e depois. […]
Poderíamos então supor que o determinismo é seguro em cada e para
cada momento do mundo e que, de cada um desses momentos, posso eu
dar uma imagem matemática, mas que, ao retrair-se o Universo, ao passar
a Trindade a Deus, ao passar o relativo ao absoluto, restabelece-se como lei
a liberdade e o que depois surge pode ser totalmente diverso. Há a cada
momento estradas de Damasco: um homem se aniquila, outro diferente,
até contrário, surge. Não se é criminoso porque se quer, não há à nossa
volta o mundo que se quer: mas não é impossível que, por se querer, por
uma concentração suprema do espírito, se não possa pular de quantum e
nos transformemos a nós e ao mundo. O Universo, a nós nos incluindo,
não é estático: vai e vem, sobe e desce […].
Já agora, que me provocaram, praticamente me intimaram a falar de Deus,
direi mais que não compreendi nunca haver contra a existência de Deus o
argumento da existência do mal. Que Deus absoluto seria esse, que totalida-
de seria essa, se não pudesse aí haver aquilo a que chamamos mal e aquilo a
que chamamos bem, se não houvesse a gazela que sofre a dentada do leão e
o leão que da gazela vive; para todos existe o Diabo, em bicho o predador,
em planta o ruminante, em homem o a que chamamos vício; para Deus não,
nada, para Deus, é isto ou aquilo, embora o possa ser para a Trindade; tudo,
para Deus, só é, sem isto nem aquilo; para o Pai é o Diabo, ou era um anjo
inteligente como todos, e de iniciativa como nenhum, e a quem o Pai achou
que, apesar de tudo o que podia suceder, e sucedeu, inaugurando História,
e pergunto se já se pensou bastante em que é o Diabo o pai da História e
deveríamos, portanto, fazer o possível por a abolir, a quem o Pai achou que,
apesar de tudo, era melhor conceder liberdade de imprensa e até liberdade
religiosa, de cujas consequências só João XXIII conseguiu ir livrando a Igreja.
Bom, afinal […] me alonguei bastante sobre o Absoluto; mas quero repe-
tir que dele se não pode falar: ou o sentimos ou o não sentimos; levita-nos,
como a Santa Teresa e a tanto outro santo, cristão ou não cristão, pois muita
gente julga que só há santos cristãos, se somos leves; se somos pesados, como

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

me sucede a mim, ficamos com os dois pés, e às vezes com suspeitas de


quatro, bem pregados no chão; tomem nota disto os realistas que suspeitam
de místico tudo que é apenas inteligente e os idealistas que defendem o ideal
para os outros e o real para eles: real de res, coisa, e real de rex, rei” – “Sobre
ideia de Deus” [1974], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 296-298.

[…]
6. Parece-me, por outro lado, que se não pode construir nenhuma filo-
sofia geral ou metafísica sem admitir, com o velho Espinosa, que se tem
de partir da ideia de alguma coisa que é constituinte de tudo, mas da qual
se não pode dizer, como ele, que é substância, porquanto excluiríamos o
insubstante, nem que é deus, porque excluiríamos tudo a que não chama-
mos deus, nem sequer que existe fora do pensamento, porque estaríamos
excluindo o que não existe; de resto, basta pensar esse alguma coisa como
pensável para já excluirmos o que não pensamos.
7. Penso assim que esse alguma coisa é nada, só sendo alguma coisa
quando todas as coisas existem e o fazem pensar como A Coisa. Logo que
isso se dá, existe o a que chamamos o Universo, como suas imutáveis leis,
imutáveis naquele Universo, portanto sob o domínio do que se chama
determinismo no mundo material e destino no mundo humano.
8. Creio que esse explodir do Nada em Tudo não se deu de uma vez
para sempre no mundo, mas se está dando a cada momento, sendo pura
ilusão nossa a ideia de sua continuidade: cada ocultação do determinismo
detectada pela ciência, cujo progresso não vejo como ilimitado, como não
vejo o da Humanidade – o passo final será o salto do determinismo para
a liberdade –, significa a passagem de um mundo a outro (a paleontologia
estratigráfica pode não ser o fruto de uma evolução, mas o testemunho dos
saltos de um mundo a outro).
9. Cada mundo criado tem leis fixas, e destinos humanos; cada inter-
valo significa a liberdade de aparecer outro mundo com diferentes relacio-
namentos legais.
10. Entrarei agora em linha de conta que aquilo a que chamo mundo
é, na realidade, a ideia que eu tenho do mundo: outro ser completamente
diferente teria dele um conceito completamente diferente.

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agostinho da silva – uma antologia

11. Portanto, para que surja um mundo diferente do actual, basta que
eu mude, que me insira naquele momento em que o alguma coisa se reco-
lhe ao nada, o que só pode ser preparado e propiciado por um compor-
tamento dentro do mundo que existe, mas o mais diferente possível dos
comportamentos normais, o que é o conceito fonte das várias asceses de
tantas culturas e o conceito fonte daquilo que nos Evangelhos cristãos vem
designado por metanóia ou, calculo, o samadhi de Oriente.
12. A responsabilidade do mundo, tal qual ele é, está, por conseguin-
te, em mim e não nos outros – pessoas ou estruturas – e em mim, se o
momento é certo, se estou eu certo, se procedo certo (tal como os alqui-
mistas o julgavam para a limitada operação de transmutar matéria, se não
para a mais vasta de transmutar a vida), reside o poder de modificar o
mundo, de o fazer nascer outro.
13. Deixando de ter vontade própria – caso contrário não se atingiria o
nada que pode ser tudo –, só posso contribuir para que surja um mundo
que agrade aos outros, isto é, àqueles que mostram real impulso de não
serem o que são, impulso real e válido dentro do que eu próprio penso
estar certo – porquanto, até o último momento, é no universo que existe
que estou agindo, a todos parecendo o novo que surgir como a consequên-
cia lógica das circunstâncias do anterior, o que ainda pode dar a vantagem
de se poder conservar anonimato próprio” – “Até ao primeiro quartel do
século xx…” [1976], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 306-307.

Deus não é feliz nem infeliz: Deus se cumpre, isto é, etimologicamente,


Deus não tem em si vazio algum, ou, por outras palavras, Deus é, e ser lhe
basta, mesmo quando não é ou se oculta. Por ser o Ser, não faz reflexões sobre
o ser. Na medida em que tendemos ao Ser não as devíamos fazer nós, e antes
nos caberia adorar aquela deusa Tácita, a do perfeito silêncio, de que era
devoto o rei romano. O que, porém, acontece é que o silêncio é linguagem,
como a pausa é música; seremos sempre prisioneiros desta maravilha que é
ser gente e espero que assim continue mesmo que um dia, simultaneamente,
tenhamos a prisão de que falo e a outra de não ter por lei senão a liberdade
total, acabando com tudo quanto é determinismo e ciência – Pensamento em
Farmácia de Província [1977], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 311-312.

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

Fica para pensar melhor se, como uma página é implícita a outra
página, o Criador é implícito à Criação – ou vice-versa – e, portanto,
se Deus e o mundo são implícitos, sendo a esta fundamental relação
que o Quarto Evangelho chama Logos. Se, por outro lado, é o homem
à imagem de Deus, há nele, homem, os dois elementos, um de criador
que exige liberdade, e outro de criado, que exige determinismo. Se o
indivíduo não projecta, sendo, sobre si próprio e sobre os outros a uni-
dade que é e de que provém, ganha o determinismo a primazia e será
«burocrata» a palavra chave de todo o vocabulário; se, porém, o faz,
avança a liberdade e se livra o dito vocabulário da palavra ­«impossível»
– Pensamento em Farmácia de Província [1977], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 319.

[…] Teologia, a qual, além de tudo, tanto quanto o alcanço, repousa


numa revelação; ora para um ser revelar a outro seja o que for alguma
identidade tem de haver em suas naturezas, isto é, há pontos comuns entre
Deus e o homem. Deus, porém, não é divisível: é, pois, com a totalidade
de Deus que o homem pode ter identidade. Ou outra ideia, provavel-
mente tão tola como a anterior: o homem só existe para mostrar como
seria Deus se divisível; por isso dura um relâmpago porque logo a unida-
de se restabelece, ou se recusa a não ser, e a isso chamamos morte. Só a
Humanidade inteira representa a nossos olhos de tempo e espaço o que
em Deus é humanidade; faltando ainda o que em Deus é animal, planta
e pedra; e, finalmente, se é que podemos falar de um finalmente quanto a
Deus, aquilo que Deus é independente do mundo que Deus criou ou que
sempre lhe foi. Conclusão: até nova ordem dos sábios, João Cascudo vai
pela divindade de Cristo e, com a dele, a de todos os homens. Para apro-
veitar, acrescenta a esta conclusão o início de uma nova história: a de que,
para ser cristão, não é indispensável acreditar na ressurreição de Cristo;
basta aceitar a sua eternidade, na qual foi intervalo sua dolorosa vida, tão
torturada pelo poder dos poderosos e pela ignorância dos ignorados e pela
humilhação dos humilhados. […] como a de milhões ou biliões; ainda
hoje – Pensamento em Farmácia de Província [1977], in Textos e Ensaios
Filosóficos II, pp. 362-363.

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agostinho da silva – uma antologia

Eu estou entre os primeiros homens prontos a ter um ócio. E quais


são os dois problemas desses homens? Um problema é o de comer, e o
outro problema é o tal, o de estar ocupado. Isto é, exactamente o de
empregar a imaginação; porque só se deve estar ocupado com aquilo que
emprega a imaginação, o poder criador, aquela tal centelha interna que
faz que muitos sujeitos digam que o homem é à imagem e semelhança de
Deus. Eu não quero mais nada. Eu não quero mais nada senão que essa
fagulhinha – as pessoas dizerem que o homem é à semelhança de Deus –
ainda se consiga superar para incendiar o homem, aquele homem que nós
conhecemos, e trazer verdadeiramente criadores ao mundo. Que, no fim
de contas, é imitar aquilo que Deus fez no princípio. Que coisa era Deus
quando criou o mundo, se é que há Deus e se é que Ele criou o mundo?
(Estou seguindo as Teologias tradicionais nas ocidentais praias lusitanas,
não é?) Como é isso? Deus não tinha obstáculo nenhum pela frente; o
obstáculo só apareceu depois, com o primeiro anjo que achou que tinha
planos próprios e acabou por dar no Satanás. Deus estava inteiramente
solto. Nem sequer existia uma coisa que se chama o Nada. Quando Deus
começou a criar o Mundo nem o nada existia para atrapalhar, porque só
Ele existia. Então, Ele é o poeta à solta. Deus pode ser definido como o
poeta inteiramente à solta. Pois eu quero que os homens sejam poetas à
solta! A mim não me interessa nada que um homem siga um profeta, ou
um pregador, ou uma personagem importante, um santo, ou Maomé,
ou qualquer coisa dessa espécie; eu quero que o Homem se preocupe
em seguir aquilo que é o seu ideal. […] Por exemplo, um cristão não
tem nada que andar a imitar os Santos. O Santo é apenas um Deus com
pecados, um Deus com faltas. O ideal do cristão ocidental é chegar a
Deus. Impossível? Pois naturalmente é impossível, como é impossível
a um polígono acabar por ajustar-se ao círculo no qual está integrado.
Claro, o que pode é ter muitos lados, e mais lados e lados ainda, até que
quase se aproxima. Mas nunca dá o salto, porque quando der o salto esca-
pou-se da Geometria (Só é Geometria enquanto se vai partindo aos boca-
dinhos, não é?). Então, soltou-se da Geometria e quando a gente se solta
da Geometria, meu caro amigo, quer ela seja euclidiana ou não euclidia-
na, safamo-nos de tudo quanto é racional, entra-se no puro domínio do

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

irracional. Ao passo que a aproximação a Deus (eu ponho Deus como o


Absoluto, o Ideal, qualquer nome que lhe queiram dar), a aproximação a
Ele é sempre um negócio racional […]. E não é preciso andar pelas mís-
ticas, de que eu desconfio muito… Embora me chamem para aí místico,
eu desconfio muito dessa história. Basta ir pela Física. […] – Ir à Índia
sem abandonar Portugal [entrevista de 1987], in Ir à Índia sem abandonar
Portugal / Considerações / Outros Textos, pp. 22-23.

Crente é pouco sê-te Deus


e para o nada que é tudo
inventa caminhos teus

Uns poemas de Agostinho, p. 22.

(...) eu sinto-me cada vez mais apaixonado, mas por coisas que a mate-
mática não prova que existam, isto é, por religião. Às vezes, as pessoas
dizem-me assim: mas há os ateus. Não há, porque são religiosos também.
A matemática não pode provar que há Deus, nem pode provar que não há,
portanto é uma crença acreditar que há ou que não há. O cristão acredita
que há e o ateu acredita que não há. Nas coisas importantes da vida, é
assim, nós nunca temos prova matemática. Qual é a prova matemática de
que um de nós não está a sonhar que está com o outro? Não há... Eu não
vejo maneira de se provar isto pela razão matemática, porque não se sabe
se somos reais, se somos imaginários – A Última Conversa. Entrevista de
Luís Machado, p. 90.

Nada se entende se não se entende que o todo e o nada são o mesmo. O


que é ter transcendido o entender – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 145.

Chamando Deus ao Pensamento, nome que dou ao inominável, um


dos pensamentos que há em Deus (dizer que Deus o tem seria antropo-
morfizá-lo) é o de um Deus como nós o concebemos; o outro é o Diabo) –
Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 145.

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agostinho da silva – uma antologia

Ser ou Nada são os dois nomes que dou ao mesmo alguma coisa, ou
nenhuma, que não tem nome; à qual pôr um nome é sacrilégio – Pensamento
à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 146.

Se és de uma religião, cumpre-a, tendo simultaneamente a certeza de


que tudo aquilo é nada – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos
II, p. 146.

Detesta o cientista toda a contradição; o artista não a julga; o religioso


absorve-a no melhor de seu deus – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 148.

[…] o defeito que tiveres não vem de ti, pois que do céu desceste: vem do
trato do mundo, que te criou a ideia de teres corpo autónomo e seres dono
de tua alma – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 149.

Não há fim supremo para o homem que não seja o de se ver, se ainda
se vê, absorvido pelo Deus que o habita – Pensamento à Solta, in Textos e
Ensaios Filosóficos II, p. 149.

Hipócrita quer dizer actor; por fraqueza faço de homem quando, fora do
palco, seria Deus – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 150.

A meditação sem objecto é a seta que se dispara sem que o arco a solte
– Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 151.

Vai sendo o que sejas até seres o que és, que é Deus sendo; e, cuidado,
não te percas enquanto vais sendo – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 151.

Só houve Pai quando houve Filho – e sempre os houve, não sendo


mais que um; só houve Comum Espírito, por isso Santo, quando houve os
dois; e logo que houve três se verificou que nada mais havia senão Um –
Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 154.

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

Deus é sempre duplo: aquele que é e aquele que eu entendo; a este


chamo Cristo – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 153.

O homem perfeito seria teísta e ateísta pois que é Deus ser e não ser, se
perfeito, já não homem, pois que Deus – Pensamento à Solta, in Textos e
Ensaios Filosóficos II, p. 157.

Se dizes que O-que-é é lhe roubas a possibilidade de não ser; só te


resta, sobre ele, aprender o silêncio – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios
Filosóficos II, p. 160.

A certa altura, e sempre, Deus entrou em êxtase e, simultaneamente, apa-


receram a sua transcendência e o mundo; quando o homem, à sua imagem e
semelhança, em êxtase entra, pela criação, simultaneamente surgem a imanên-
cia e o nada – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 160.

Talvez budismo Zen vá à frente de tudo; não, porém, tão longe que se
pense pensado e não somente pensando – Pensamento à Solta, in Textos e
Ensaios Filosóficos II, p. 161.

Quanto a princípio, nem sequer o Deus que adoramos sabe quando


adormeceu e principiou sonhando o mundo; sabe-o, porém, O de que não
sabemos – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 162.

Há que distinguir em Deus a Criação e a Criatividade: da primeira vem


o fenómeno; da segunda o imprevisto; tudo se passa na primeira segundo
a Lei, tudo se passa na segunda em puro Milagre – Pensamento à Solta, in
Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 162.

Não se entende que sempre tivesse havido evolução; alguma coisa foi
criada, alguma vez houve início, se alguma vez porque não sempre; mas
a real criação foi a que criou de si próprio o Criador, eis aí o que se não
entende: mas, como não se entende por excesso, não por defeito, eis aí o
certo – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 164.

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agostinho da silva – uma antologia

Deus é só o pensamento livre de tempo e espaço, sendo suas maiores


expressões a da lei científica, a da obra de arte, a da consciência moral –
Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 165.

Toda a prova da existência de Deus o rebaixa a nosso próprio nível –


Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 166.

O mais válido em religiões é, como em matemática, aceitar-se racional-


mente a presença e actuação do irracional – Pensamento à Solta, in Textos e
Ensaios Filosóficos II, p. 167.

Não é possível pensar um Deus que não contenha um Diabo, ­porquanto


total e livre – Cortina 1.

A Igreja vive crucificada, quer o sinta ou não: É o eterno, crucifi-


cado no Tempo. Só o Espírito Santo, que nos dois vê um só, a pode
libertar. Para tal, é preciso que se desprenda de tudo o que lhe ficou de
ruim, dos séculos em que adorou o Pai e se julgou submissa ao Filho –
Cortina 1.

Há no mundo um Poeta que só se dá a conhecer por heterónimos e de


que nós não temos expressão alguma para a ortonímia: O de que sabemos
chama-se Deus – Cortina 1.

No centro de Tudo, de cada um e do Todo, o Logos que ao princípio


era, o Nada como definição última do tudo, o “já lá estar” em todo o
futuro que se queira. (Ou seja: São João, o essencial do Buda, a fazedora
inacção do Tao) – Cortina 1.

Ao conjunto do espírito de todos os homens do mundo e do que dele


sabia se chamou Espírito Santo – Cortina 1.

Deus é imanente e transcendente ao homem; o homem é imanente e


transcendente a Deus – Cortina 1.

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metafísica, teologia e cosmologia. religião e mística

Penso […] que Deus é a um tempo imanente e transcendente. […]


Ao Deus transcendente se presta culto pela fusão em seu nada, […] ao
imanente por dar ao homem tudo o de que ele precise para que se cumpra.
[…] Suprema harmonia dos contrários, eu te adoro, e te procuro imitar,
dentro de minhas humanas limitações” – Lucubrações Religiosas de Frei
Agostinho dos Aflitos de seu Natural Vadio Anarquista subsidiado por Amigos
entre os quais o Brasil.

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12. O PROFETA E VISIONÁRIO

Na linhagem dos grandes profetas e visionários, Agostinho da Silva vive


um presente já apocalipticamente transfigurado pela deslumbrante visão da
Presença eterna (também uma Ausência, enquanto irredutível a toda a con-
cepção, expressão, representação e experiência). É a partir daí que anuncia à
comunidade dos humanos a iminência, em função da sua disponibilidade e
entrega, de um estado onde, cessando enfim todas as lutas e contradições do
espírito, do intelecto e da história, individual e comunitariamente se cum-
prirão plenamente as melhores possibilidades humanas numa total harmonia
consigo, o universo e o divino. Reino de Deus ou Idade de Ouro, nele desa-
parecerão as ilusórias antinomias entre céu e terra, natural e sobrenatural,
tempo e eternidade, contemplação e acção, humanidade, mundo e Deus.
Mostrando um acolhimento subtil da influência de Joaquim de Flora, con-
sidera que à relação entre senhor e servo, na Idade do Pai, e à relação entre
irmãos, na Idade do Filho, sucederá, na Idade do Espírito, e superando a
própria mensagem de Cristo, uma última revelação: aquela que, inobjec-
tivável porque não exterior, só pode vir da relação mais íntima, profunda
e secreta de cada um consigo próprio. Se a Idade Antiga durou até à Idade
Média, e se esta dura até hoje, o que funda a Idade Nova e porventura
última é esse inaparente e inobjectivável desvelamento do nosso divino fundo
sem fundo. Aí reside a verdadeira e definitiva Revolução, inauguradora dos
“tempos de ser Deus”.

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agostinho da silva – uma antologia

A expressão Reino dos Céus ou Reino de Deus que Jesus emprega para
designar a humanidade futura não significa de modo algum uma ascensão,
após a morte, para um paraíso distante e vago; neste ponto os textos são
bem explícitos: é a terra que os bons possuirão, não o céu, é a nós que
há-de vir o Reino e não os homens que terão de ir ao Reino; Reino dos
Céus ou Reino de Deus quer dizer Reino divino, isto é, realização na terra
do pensamento de Deus; parece que se interpretaria facilmente o que pen-
sava Jesus substituindo-se Reino de Deus por plenitude de vida; o Reino é
um momento do mundo, uma fase final de uma longa evolução em que os
homens, sem necessidades materiais por satisfazer, se sentirão plenamente
de acordo consigo e de acordo com o universo; estarão utilizadas todas as
suas possibilidades numa actividade harmónica e bela – O Cristianismo
[1942], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 60.

No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá


nenhuma restrição de cultura, nenhuma coacção de governo, nenhuma pro-
priedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno
de todos – Doutrina Cristã [1943], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 82.

O Estrangeiro – […] talvez envolta em nevoeiro esteja avançando para


nós e se revele um dia subitamente, como a galera que se liberta da bruma
e toda se doira ao sol nascente, uma realidade mais alta e mais bela que o
amor, uma força em que se fundem o entendimento e o amor, um acto
pelo qual compreender e adorar sejam apenas as várias gradações da mesma
chama poderosa e eterna. O amor não dará todo o seu fruto senão quando
se unir à inteligência da tua Grécia e quando os dois concorrerem nesse
esforço para aniquilar a vida, para que a dor desapareça… – Conversação
com Diotima [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 162.

Olha, eu sei que todo o mundo um dia se há-de transformar em liber-


dade e ser mais sereno, mais transparente e mais puro do que este céu de
crepúsculo que nos envolve; cada um de nós, quando nasce, recebe uma
parte da injustiça do mundo, e a alma dos que morrem depois de se terem
despojado do que lhes coube de tirania, de egoísmo e de brutalidade, vai

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o profeta e visionário

contribuir para formar esse céu, como cada gota contribui para a extensão e
a profundidade dos mares; essa é a vida eterna, essa a delícia dos que se ele-
geram; para os outros tudo será como se não tivessem vivido e uma vez mais
passarão sobre a terra, numa experiência da sua vontade e da sua coragem
– Parábola da Mulher de Loth [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 171.

[…] não chegaremos até ao fim dos tempos. E creio que, se chegássemos,
veríamos desaparecer com o universo toda a distinção entre útil e inútil, ou
entre favorável e prejudicial; o céu e o inferno estão em função de existência e
de espaço; no dia em que tudo isso desaparecer ou no momento em que tudo
isso se supere, no momento em que haja eternidade, nada foi útil ou prejudi-
cial: tudo foi, simplesmente; e ninguém julgará, e ninguém será condenado –
Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 236.

As sementes remotas, porém, não morreram de todo e serão capazes


de germinar num terreno que se lhes apresente favorável; é quase certo
que está muito mais perto do que geralmente se julga o fim do tempo do
sacrifício e de batalha; temos hoje à nossa disposição os meios técnicos de
dominar a fome e a miséria e de dar ao homem uma liberdade sem limites
para exprimir a sua verdadeira natureza; o que ainda trava o nosso cami-
nho é a convicção em que nos encontramos quase todos de que o homem
é um animal egoísta, batalhador e feroz, convicção que adquirimos em
toda a longa experiência histórica, e nos faz tomar por estrutura o que é
simplesmente acidental; só a fé no homem, nas possibilidades divinas do
homem nos pode levar de novo à Idade de Ouro, tal como a representaram
os poetas; tempo de fraternidade e de amor, sem angústia e sem dramas,
tempo de contemplação e de absorção em Deus, tempo de acção mental,
a mais verdadeira e a mais eficaz de todas as orações. E o teatro será então,
por completo, litúrgico e sagrado, sem nenhuma tragédia e sem nenhuma
comédia, porque o homem se integrará na natureza ou levará a natureza ao
nível do seu próprio espírito; será o teatro da fantasia do sopro lírico, da
pura dança, do louvor a Deus e da oferta a Deus, do esplendor que inun-
dará as almas, depois do longo, do penoso, do quase desesperado caminhar
– A Comédia Latina [1952], in Estudos sobre Cultura Clássica, pp. 317-318.

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agostinho da silva – uma antologia

[…] há uma Idade Antiga, a que termina com o surgir de uma Europa
Cristã, e uma Idade Média, que ainda dura, mas que não será eterna; a
Idade Nova aproxima-se, possivelmente Idade Última; […] vamos entrar
mais cedo ou mais tarde num estádio humano de que não tivemos prece-
dente algum e de que nenhuma utopia nos poderá dar ideia, porquanto
são as utopias não real invenção de futuro, mas crítica ao presente e novo
arranjo dos presentes elementos – “Agonia e Morte da Universidade”, As
Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 47.

Apontam já, porém, os indícios do que virá depois da Idade Média,


que tão longa tem sido; vamos libertar-nos, pelas técnicas, das fatalidades
físicas, vamos substituir a miséria forçada que tem pesado sobre a quase
totalidade dos homens pela pobreza com que voluntariamente se casarão
os melhores dentre eles; e vamos a tal ponto alargar pelo mundo um cato-
licismo já sem pressões económicas que os hereges a ele virão e haverá de
novo o só rebanho de um só Pastor, Pastor celeste mais que terreno; have-
rá ainda por muito tempo no Universo muito americano e muito russo:
haverá, porém, muito mais santos para os suportar.
A Idade Nova, Universidade Nova, e nem sequer o nome sobrará; não
haverá o encontro e o diálogo dos Gregos nem o nosso ensino ainda medie-
val; não haverá doutrina que se imponha, mas simplesmente amor que se
liberte; não haverá mestres que ensinam, haverá simplesmente mestres que
estudam; não teremos separação entre os que sabem e os que não sabem e
terá a cultura deixado de ser a terrível barreira que se tem levantado entre
os homens; e, por fim, quem sair do que vier em vez de Universidade, sairá
não com o espírito de mandar mas com o espírito de servir. À resignação
ao relativo substituiremos o culto do absoluto; ao imitar o criar; ao poder
o contemplar; mais importante do que tudo, ao estarmos o sermos. O que
será, na essência, a grande consolação do Espírito Santo – “Agonia e Morte da
Universidade”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 49.

Temos de passar àquele período, apenas de sonho ou de loucura mesmo


para os mais agudos pensadores, em que só haja, pela gratuitidade da pro-
dução, dádivas de Deus e do Amor. Em que se superem os sistemas, para

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o profeta e visionário

que a Natureza triunfe. E em que, triunfante o natural, o homem possa


conceber esperanças de sua última e definitiva revolução, a do sobrenatu-
ral. A de se transformar a terra e céu nalguma coisa que os supere; a de se
casarem tempo e eternidade; a de não haver mais distinção alguma entre
o homem e Deus – “Sistemas de Economia”, As Aproximações [1960], in
Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 89.

Agora, porém, a revelação em cuja véspera estamos, e é o fio de luz


que tão poucos vêem na só aparente escuridão do mundo, não é a da
relação de sonhar [sic, senhor?] para homens ordenados, nem a da relação
de irmão para irmão. É a da íntima e profunda e secreta relação de cada
um consigo próprio. Como poderia ela vir de fora com um pregador,
um anunciador, um evangelista, que eu e os outros pudéssemos ver com
os nossos olhos de carne e pudéssemos arquivar nos pobres e falíveis
anais de nossa história? Cristo foi o mensageiro último de que os homens
puderam ser testemunhas. O que não quer dizer que tivesse sido essa a
última mensagem.
A última, a que nos abrirá plenamente portas de glória que serão ao
mesmo tempo para o mundo e para fora dele, que serão simultaneamen-
te de tempo e de eternidade, de individual e de colectivo, de santidade
estendendo-se na horizontalidade de todo o planeta e na total verticali-
dade de cada homem, e acabando assim com todas as falsas antinomias
que, pela sua duração na História, se tinham quase visto como inerentes
à própria natureza da Humanidade e do mundo; a última revelação,
essa virá de nós para nós mesmos, e ninguém dará por ela a não sermos
nós. Será como que o pleno lembrar-se daquele reino de pura essência
de que falou Platão, e aquela plena transformação do homem de que
Jesus falou.
Esperar que tal venha de movimentos de massas e de associações organi-
zadas e de conferências internacionais e de discussões teológicas ou fi
­ losóficas
é ideia totalmente absurda.
Em primeiro lugar, não sabemos ao certo qual será a sua natureza, com
que características se apresentará; depois, não lhe podemos prever nem
tempo nem lugar, finalmente, ninguém terá que sair nem de sua religião,

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agostinho da silva – uma antologia

nem de sua filosofia, nem talvez mesmo de seu partido. Só terá que ser
tudo o que é hoje, mas não a meias, não em compromisso, não sem uma
total entrega ao que apresenta como seu ideário.
E, principalmente, sem que por um esforço de ascese, de abstracção do
que no mundo distrai, de atenção contínua e profunda ao que mais vale
em si, não esteja pronto a escutar e a seguir aquela débil voz que parecerá
de nada, mas que, sobrepondo-se a todos os ruídos do mundo, a todas as
“matinadas vãs” de que falava o velho Sá de Miranda, será ­alteando-se o
canto de final unidade do que sou eu, do que é outro – “Terceira Revelação”,
Só Ajustamentos [1962], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 137.

Põe-se portanto o problema de saber que espécie de política se deve-


rá adoptar para que se atinja esse Reino do Espírito Santo, esse Quinto
Império que tão desejável parece e em que todas as religiões serão apenas a
face convencional e humana de um Divino que se não pode definir e em
que a economia, em qualquer dos seus sistemas, será puramente do passa-
do; levando-se ainda em linha de conta que nenhum meio que se empregue
poderá ser de natureza diferente dos fins a atingir, tais quais eles se fanta-
siam; do meio em si próprio, como bom ou mau, podemos nós aquilatar
agora mesmo nas condições em que vivemos e agimos, do fim só podere-
mos julgar, como realidade, não como imaginação, quando o tivermos rea-
lizado: e aí poderá ele, nos seus efeitos, ser bem diferente do que julgámos;
convém portanto que seja a natureza do meio o que nos prende, não o fim a
alcançar; porque talvez até o meio, bom por si mesmo, se nos revele ter sido
sempre a essência do fim que tínhamos posto no espírito. Se queremos uma
religião que seja verdadeiramente de eternidade e de unidade, se queremos
uma economia que seja de generosidade e de desprendimento convém que
nos instalemos quanto possível desde já no uno, no eterno, no generoso e
no humano; bastante, involuntariamente, iremos ao contrário; é bom que
sejam todos nessa direcção os nossos impulsos voluntários. Por outro lado,
e exactamente por que tempo e eternidade nos parecem como coetâneos,
pode ser que o Reino não seja um acontecimento apenas de história e rele-
gado ao futuro; pode ser que, empregando desde já como meio o que nos
aparece como objectivo, ele nos rompa no próprio agora, que o estado de

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o profeta e visionário

espírito, sua essência, se consiga afirmar, apesar de todas as condições mate-


riais que lhe são contrárias. A política de hoje tem de estar impregnada, tem
de estar grávida, da política futura, exactamente como o Cristo anunciou
Ele próprio a vinda do verdadeiro Consolador e exactamente como a cria-
ção científica e técnica leva fatalmente à produção automática – “Ecúmena”
[1964], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 197-198.

Creio, porém, que as línguas de fogo do Consolador queimarão desta


feita radicalmente tudo o que tiverem de queimar; por sua benignidade,
duas vezes poupou os homens, ou tinha sua própria invenção de história
de correr pelas linhas que, uma vez traçadas, se apresentam como fatais, a
não ser que o Espírito se recolha ao Espírito; poupou-os quando os man-
dou à primeira pregação que poderia ter redimido e caiu ela na terra sáfara
que herdámos de Israel e de Roma, com suas autocracias de Deus e do
Imperador, que ainda estão sobrevivendo, como era de prever, na passagem
da propriedade individual à colectiva, embora esteja a favor desta última
etapa a ideia de que tempo virá sem Israel e sem Roma; poupou-os depois,
quando confiou a Portugal o encargo de verdadeiramente cristianizar o
mundo e Portugal desertou submetendo-se a indo-europeus que andavam
aperfeiçoando o capitalismo tornando o juro legítimo e andavam aperfei-
çoando o mosaísmo comprometendo ainda mais a fraternidade de homem
a homem e de povo a povo; que os não poupe agora quando, incerta a
China, as esperanças do mundo se voltam ao Brasil e todos ansiamos por
que o Brasil não traia: sabemos que não trairá por maldade, nem por cobi-
ça, nem por ambição do mando; pode, porém, trair por indecisão, por
fraqueza, por temor da violência, por ser bom demais, isto é, por não ter
coragem de ser verdadeiramente bom. Se o Brasil não trair as línguas de
fogo varrerão a terra e nas chamas se consumirão capitalismos, socialis-
mos, hierarquias e o século, partidos e autocratas; escolas, com eles irão,
de jardins de infância às universidades, que são uma espécie de jardim de
infância dos velhos; o que esperamos que surja é o lugar único de educação
e de vida, para adultos e para crianças, em que o criar vá muito além do
saber e lhe seja este puro servo, em que se procure sobretudo averiguar
do que se não sabe, não do que já se conhece, em que o jogar se encontre

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agostinho da silva – uma antologia

com o trabalho, em que a liberdade crie sua própria disciplina e em que o


contemplar domine o agir, e em que o adorar se sobreponha ao poder; que
das máquinas de fabricar adultos nem as ruínas sobrem; que a criança cres-
ça harmoniosamente e livremente, sem as deformações que lhe infligimos
para que funcione, e raras vezes funciona, na vida que lhe fabricámos; que
seja perfeita, na perfeição de suas conscientes intenções, não na perfeição
do modelo que lhe demos; que a deixemos, pela liberdade e o amor, ser
perfeita como nosso Pai é perfeito; eis, de longe vindos, o conselho e a
ordem – “Ecúmena” [1964], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 203-204.

Talvez um dia um trecho de epopeia escrita por um homem que reunia


em si contemplação e acção venha a deixar de ser matéria proibida e se
lhe veja a ilha como o lugar onde as antinomias terminam e onde os para-
lelismos se fundem; talvez se resignem os exegetas a aceitar que não tem
essa ilha nem lugar nem tempo, que nenhum mapa de contínuo a quatro
dimensões a pode ou poderá marcar; talvez, por uma transformação de
espírito quase inverosímil, aceitem desembarcar onde não há desembarque
possível, e contemplem sem o ver, como na mística, o casamento de heróis
e deusas, na fusão dos dois planos, o de eternidade e o de tempo, em que
sempre a História se passou, mesmo quando não era, e se passará, mesmo
depois de finda; talvez percebam que são a mesma coisa céu e terra para os
homens aos quais verdadeiramente o Reino veio. Para o navegador que tem
por termo os leitos citereus, mesmo que tenha sido ele o humano herói que
foge se tem medo e se lamenta dos desastres e increpa os fados que lhe são
contrários, realidade e irrealidade passam a equivaler-se ou a unir-se no
que está para além de nossas pobres, práticas e políticas distinções; todos
os deuses se juntam ou se desvanecem num só deus, o da verdade que nas
coisas anda, e as coisas se desfazem e se perdem, excepto no que são dessa
verdade que o Deus é; anda o que é fora de todo o objecto, porquanto
verdade e não apenas aparência, e só o objecto, porque nele anda a verda-
de, a traz inteira aos que têm olhos para a olhar, mas deles desistem, e a
vêem. Talvez um dia, caídas todas as grilhetas da economia, mesmo as da
abundância, que poderão ser ainda mais difíceis que as da fome, possam os
homens do mundo inteiro ascender à verdade total, a que não tem filosofia,

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o profeta e visionário

nem ciência, nem obra de arte; a que, ao ser, tudo destrói; a que nenhuma
roupagem contorna como vulto; a quem nenhum espelho reflecte como
face; a quem ninguém define, porque nela todo diálogo se apaga, porque
nela o Espírito que é se revela essência una de Deus Pai e de Deus Filho. E
só então, no tal mar que continuará praiando sem costa alguma em que se
embale, terá fim, e resposta, a queixa e prece que a nós todos, perseguindo,
incita: “Senhor, falta cumprir-se Portugal! – “Ecúmena” [1964], in Textos e
Ensaios Filosóficos II, pp. 206-207.

Pelo que tem sido até hoje, começa o homem assegurando a sua vitó-
ria sobre as fatalidades físicas do Universo; estamos na época da história
que marcará a ascensão final da Humanidade à abundância dos meios
de existência, à curiosidade sem limites por todos os aspectos do grande
espectáculo, do magnífico conto de fadas que pode ser a vida, à possibili-
dade de mergulhar sem medo no mistério que nos cerca; estamos no início
de tempos em que nos parecerão incompreensíveis a economia em que o
homem foi utensílio e não destino; a informação que foi limitada segundo
as conveniências dos que, deste ou daquele grupo, detinham o poder; e os
sistemas e instituições em que o terror do mistério foi mais forte do que o
seu apaixonado amor.
O reino que virá é o reino daqueles que foram crucificados em todas as
épocas, por todas as políticas e por todas as ideologias, apenas porque acima
de tudo amavam a liberdade e a consideravam, não ao medo, às restrições
e à força, como o grande motor do mundo; o reino daquele Deus que
viam definindo-se fundamentalmente por não obedecer a nada e a ninguém
senão à sua divina natureza; e o reino que desejam para homens que não
sintam obrigação alguma que não seja a de se aproximarem ­quanto possí-
vel da divindade de ser livre, livre no viver, livre no saber, livre no criar –
Educação de Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, p. 93.

Todas as esperanças nos são abertas; os avanços tecnológicos estão


ao nosso dispor e para o único fim em que serão úteis, para nos darem
tempo livre; talvez, durante alguns séculos ainda, tempo livre para criar-
mos matemática ou poesia ou pintura; depois, tempo livre já mais certo,

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agostinho da silva – uma antologia

que é o de vermos a matemática ou a poesia e a pintura como existindo no


mundo à volta com mais plenitude do que em nossas equações, versos e
quadros, dispensando a existência dos artistas, que terão sido apenas meios
de comunicação da beleza para quem ainda não podia ver directamente; e
afinal, na idade melhor, sendo nós próprios matemática, poesia e pintura,
vivendo arte e ciência, e, por viver, as criando; este é o tempo livre que
Deus tem; vive, e o mundo é, vive o mundo, e Ele é; o qual Deus nos quer
à sua imagem e semelhança, como nós o temos querido à nossa; quando
as duas vontades se encontrarem, e só então, haverá Paraíso – Educação de
Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, p. 126.

Mas a tecnologia, em que se avançará sempre, se não houver a catástro-


fe de uma guerra nuclear, [...] e se se conseguir pôr de parte um sistema
económico em que o invento fica à inteira disposição do capital e não
do trabalho e serve mais ao lucro que ao consumo, [...] garantirá uma
produção de maior abundância com menos horas de trabalho, anteven-
do-se que a comunidade poderá prover as suas necessidades apenas pelo
recrutamento dos jovens e durante um tempo que pouco excederá, se
exceder, o do actual serviço militar – Educação de Portugal [1970], in
Textos Pedagógicos II, p. 133.

[...] creio o bastante na história para ter a certeza de que ela se fará
como se tem feito, sempre em avanço, de que reconquistaremos o Paraíso,
por mais complicadas que sejam as voltas em que a serpente se enrola, e de
que o supremo destino do homem consiste em ser santo e deus, portanto
livre – Educação de Portugal [1970], in Textos Pedagógicos II, p. 149.

Mas os tempos virão, os tempos de ser Deus; virão talvez por linhas
tortas, como é costume; virão pela colaboração de todos, mesmo dos que
são contra, porque é o mundo máquina muito bem montada em que todas
as rodinhas trabalham em conjunto e nenhuma, mesmo que o pretenda,
foge a seu eixo e à sua função; um dia os homens, quando forem deuses,
ou, pelo menos, mais deuses do que são hoje, entenderão isto e deixarão de
escrever História que absolva ou condene: descreverão apenas, explicarão

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o profeta e visionário

e justificarão; como nenhum relojoeiro é a favor do escape contra a corda:


tudo é peça do relógio, e indispensável como peça. Pois serão deuses: sem
uma política que os force a ser manhosos como escravos; sem religiões que
se estabeleçam sobre o medo; e sem escolas que logo de princípio, pela car-
teira, a cópia e o ditado, nos modelam para as facilidades do trânsito e nos
abortam para o infinito de Deus – “Teologia Humana” [1970], in Textos e
Ensaios Filosóficos II, pp. 232-233.

Creio de facto que pobres sempre os haverá entre nós e, se à crença é


preciso acrescentar a vontade, com toda a força o desejo. Pobres volun-
tários, que aos involuntários o Diabo os espreita. Pobres de a nada pos-
suírem, nem individual nem colectivamente, e de, portanto, não serem
possuídos pelas posses; de a ninguém terem como se donos fossem, ainda
que pareçam servir; de nem de si mesmos serem proprietários, já que a
Deus obedeçam no que deles fez, faz e fará.
Mas, para ser pobre voluntário, é necessário ser, antes, rico, como
Francisco o foi, no que riqueza pode dar de dignidade (sempre em risco),
de prestígio (sempre humilhante), de poder (sempre corruptor). Daí que
em nada me aflija verificar-se que cada revolução social significa o acesso
de uma ou várias classes ao domínio das coisas.
Só depois de todas as revoluções – e as haverá, pois a inteligência é impo-
tente perante os hábitos, sobretudo os maus, dos poderosos – virá a revolução
que vale e em que será guia o voluntário Pobre de Assis, santo só então para
os homens de todas as religiões e para os que tenham a de as não terem: a
revolução do despojamento, da disponibilidade e do ascender à poesia: pois
que somente como Poeta, isto, é, Criador, na Arte, na Ciência, na Técnica,
na Acção e na Contemplação, será o homem verdadeiramente à imagem e
semelhança do Divino: Centelha em nós do Pensamento ­eterno” – “Virá a
Revolução!” [1981], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 377.

A tudo, no entanto, temos de ver como etapa, necessária etapa de mar-


cha, como, por exemplo, para a liberdade de navegar o inteiro mar de
algum modo serviu a imposição papal de que não honrassem os francis-
canos seu voto de pobreza; robótica e informática vão servir um dia para

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agostinho da silva – uma antologia

que nos libertemos de toda a máquina, se replante o mundo do que, livre


e belo, nos ofereça seu fruto, e seja poesia cada homem mais do que cada
homem poeta, junto se abrindo corpo e alma, já ninguém os vendo como
de natureza diferente e tantas vezes como antagónica, mas em profunda,
superior harmonia, como, ao que parece, vêem os físicos seu determinismo
do macro-real e sua heisenberguiana incerteza do microcosmo, isto tudo
dando de barato que seja o cosmos equivalente a real, embora o seja para
nós, ainda demasiado humanos; talvez não venha a haver nenhuma distin-
ção entre passado e futuro e presente, “talvez que mortos nos sonhemos
vivos / talvez que vivos nos saibamos mortos”. Talvez que sobre nós pese
apenas uma fatalidade, aquela de que não sabemos ou não podemos soltar
a nossa própria concepção de Deus: a fatalidade de ser livre. Ou quem
sabe se não haverá aqui uma nova prisão e um novo incitamento a que
voando regressemos a Paraíso mais vasto: o de não haver nenhuma espécie
de distinção e de incompatibilidade entre o fatal e o livre, o de ser cada
coisa ela própria e qualquer outra, o de ser simultaneamente verdadeira e
falsa geometria a de todas as dimensões e a de nenhuma delas. Jardim de
encanto em que nem penses que és: em que apenas sejas. Sem perguntar o
quê – “Prefácio de Regresso ao Paraíso, de Teixeira de Pascoaes” [1986], in
Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 368-369.

Um dia nada será de ninguém, pois todos acharão, por criadores, que
têm tudo – Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 146.

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BIBLIOGRAFIA3

obras

Dispersos, introdução de Fernando Cristóvão, apresentação e organização


de Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989, 2.ª edição revista e aumentada.
Do Agostinho em torno do Pessoa, Lisboa, Ulmeiro, 1990.
Quadras Inéditas, Lisboa, Ulmeiro, 1990.
Uns Poemas de Agostinho, Lisboa, Ulmeiro, 1990, 2.ª edição.
Ir à Índia sem abandonar Portugal / Considerações / Outros Textos, Lisboa,
Assírio & Alvim, 1994.
Vida Conversável, organização e prefácio de Henryk Siewierski, Brasília,
Universidade de Brasília, 1994.
A Última Conversa. Entrevista de Luís Machado, prefácio de Eduardo
Lourenço, Lisboa, Editorial Notícias, 1996.
Textos e Ensaios Filosóficos I, introdução e organização de Paulo Borges,
Lisboa, Âncora Editora, 1999.
Textos e Ensaios Filosóficos II, introdução e organização de Paulo Borges,
Lisboa, Âncora Editora, 1999.
Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, introdução e
organização de Paulo Borges, Lisboa, Âncora Editora, 2000.
Textos Pedagógicos I, introdução e organização de Helena Briosa e Mota,
Lisboa, Âncora Editora, 2000.

3
Indicamos apenas a proveniência dos textos utilizados na presente Antologia.

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agostinho da silva – uma antologia

Textos Pedagógicos II, introdução e organização de Helena Briosa e Mota,


Lisboa, Âncora Editora, 2000.
Estudos sobre Cultura Clássica, introdução e organização de Paulo Borges,
Lisboa, Âncora Editora, 2002.
Estudos e Obras Literárias, introdução e organização de Paulo Borges,
Lisboa, Âncora Editora, 2002.
Biografias I, introdução e organização de Helena Briosa e Mota, Lisboa,
Âncora Editora, 2003.
Biografias II, introdução e organização de Helena Briosa e Mota, Lisboa,
Âncora Editora, 2003.
Biografias III, introdução e organização de Helena Briosa e Mota, Lisboa,
Âncora Editora, 2003.
Textos Vários. Dispersos, introdução e organização de Paulo Borges, Lisboa,
Âncora Editora, 2003.
Caderno de Lembranças, fixação do texto, transcrição, introdução e notas
por Amon Pinho Davi e Romana Valente Pinho, Corroios, Zéfiro, 2006.
Presença de Agostinho da Silva no Brasil, organização de Amândio Silva e
Pedro Agostinho, Rio de Janeiro, Edições Casa de Rui Barbosa, 2007.
Cartas de Agostinho da Silva para António Telmo, introdução prefacial de
António Cândido Franco, transcrição, organização, notas e comentários
de João Ferreira, Pedro Martins e Rui Lopo, com a colaboração espe-
cial de Maria Antónia Vitorino, Amon Pinho Davi, António Cândido
Franco, Armando Carmelo e Romana Valente Pinho, comentário pos-
facial de João Ferreira, Editora Licorne, 2014.
Caderno Três sem Revisão [inédito; pesquisa e recolha de espólio por Amon
Pinho, Helena Briosa e Romana Valente Pinho; transcrição de Rui Lopo
e Sandra Pereira; revisão final de Renato Epifânio, Ricardo Ventura e
Rui Lopo].
Cortina 1 [inédito; pesquisa e recolha de espólio por Amon Pinho, Helena
Briosa e Romana Valente Pinho; transcrição provisória de Rui Lopo e
Sandra Pereira].
Lucubrações Religiosas de Frei Agostinho dos Aflitos de seu Natural Vadio
Anarquista subsidiado por Amigos entre os quais o Brasil [inédito; pes-
quisa e recolha de espólio por Amon Pinho, Helena Briosa e Romana
Valente Pinho; transcrição de Rui Lopo].

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bibliografia

traduções

Dispersos, introdução de Fernando Cristóvão, apresentação e organização


de Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989, 2ª edição revista e aumentada.
Angélico Silésio, Versos seus que, pelo Nada e Tudo, adoram Deus, Poetas de
Fora em Linguagem de Dentro, tradução de Agostinho da Silva [1992,
inédito; pesquisa e recolha de espólio por Amon Pinho, Helena Briosa
e Romana Valente Pinho].
Obras de Virgílio. Bucólicas. Geórgicas. Eneida, tradução do latim de
Agostinho da Silva, s. l., Círculo de Leitores, 1993.
“Li Bai e Lao Tse (traduções inéditas de Agostinho da Silva)”, edição e apre-
sentação de Manuel Pina, Revista Internacional de Língua Portuguesa
(Lisboa, Novembro de 1994), pp. 269-317.

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ÍNDICE

Prefácio................................................................................................................. 7
Introdução.......................................................................................................... 11
Agradecimentos................................................................................................. 19
1. Agostinho da Silva por si próprio e pelos seus heterónimos.................. 21
2. Os heterónimos agostinianos��������������������������������������������������������������������� 35
3. O helenista e latinista���������������������������������������������������������������������������������� 43
4. O biógrafo���������������������������������������������������������������������������������������������������� 53
5. O poeta, o novelista, o crítico literário e o tradutor������������������������������ 65
6. Antropologia, Ética e Educação. A Santidade�������������������������������������� 103
7. Ser, conhecer, agir, criar, amar. Poesia, filosofia e ciência�������������������� 131
8. Cultura, civilização, história, arte e vida������������������������������������������������ 151
9. Sociedade, política, economia����������������������������������������������������������������� 169
10. História e cultura portuguesa, brasileira e lusófona��������������������������� 187
11. Metafísica, teologia e cosmologia. Religião e mística������������������������ 251
12. O profeta e visionário����������������������������������������������������������������������������� 291
Bibliografia������������������������������������������������������������������������������������������������������ 303

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