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Darwinismo social e a arte

da reconciliação
Animais que apreendem, os homens sentiram-se feridos ao
perceber, com a teoria da evolução, que não são produtos
transcendentais nem resultado de um desígnio divino
por Edgard de Assis Carvalho

As sociedades humanas são produto de uma longa evolução, que exigiu


milhões de anos e que possibilitou a um pequeno bípede, com um cérebro
muito assemelhado ao de um chimpanzé, criar um estilo de vida que,
posteriormente, viria a ser chamado de cultura.

Desde que o mundo passou a ser explicado pela ciência, a fronteira entre
humanos e não-humanos nunca foi suficientemente explicada. A princípio,
resolveu-se o impasse afirmando que a Natureza era constituída não apenas
por terra, água e ar, mas também por animais de toda ordem, aí incluídos os
primatas não humanos, ou seja, gorilas, orangotangos, gibões, chimpanzés
e bonobos.

Regida pela universalidade dos instintos, na Natureza tudo era regular,


mecânico, imutável. Do outro lado do espelho, estávamos nós, primatas
humanos, caracterizados por uma fantástica capacidade de acumular
saberes, tradições, mitos e experiências e portadores de linguagem
articulada e simbólica, ponto culminante da evolução.

A divisão entre animalidade e humanidade e o sentido da evolução


biológica e cultural nunca foi consensual no campo da interpretação
cientifica. A antropologia tem muito a ver com isso, pois seu campo
privilegiado de pesquisa era basicamente constituído por povos não
ocidentais preconceituosamente considerados como inferiores, diferentes,
primitivos.
A descoberta desses povos e locais estranhos exigiu muita pesquisa,
entendimentos de línguas não conhecidas, além de coragem e
desprendimentos para tentar entender costumes, padrões culturais e formas
de adaptação à Natureza radicalmente diferentes. A primeira surpresa dos
pesquisadores foi que essas sociedades apresentavam uma harmonia
garantida pela existência de uma comunidade mais ou menos igualitária,
que retirava da Natureza as condições básicas de sua sobrevivência
material e imaterial e não apresentava grandes contradições cotidianas.

Mesmo orais, essas sociedades possuíam códigos próprios de mensuração


do tempo e do espaço, sistemas objetivos de equivalência de troca de bens,
mitos da origem e do fim do mundo, práticas mágicas que, num primeiro
momento, foram consideradas exóticas demais para um mundo ocidental
arrogante e dominador.

A intensificação das pesquisas acabou produzindo uma radiografia social


pormenorizada, mas não levou em conta que essas diferenças culturais já
faziam parte de processo histórico que opunha não apenas Oriente a
Ocidente, mas moderno a primitivo, capitalismo a nativo ou indígena.

Em fins do século XIX foi fácil colocá-los numa seqüência evolutiva linear
composta de primitividade, barbárie e civilização. Com a civilização
européia no comando do mundo, tudo aquilo que não se conformasse com
o padrão cultural dominante era simplesmente colocado na esfera inferior
da evolução social.

Na década de 40, a distinção entre natureza e cultura passou por alterações


significativas, mesmo que a primeira permanecesse caracterizada pela
diversidade dos padrões sociais e culturais. É bem verdade que a
observação dos macacos, nossos primos mais próximos, assim como as
multiplicidades de comportamento que exibiam para pesquisadores e
curiosos, era algo perturbador demais para a consciência moderna.

Desde que Charles Darwin (1809-1882) publicou a Origem das espécies,


em 1859, abriu-se uma ferida narcísica que até os dias atuais não está
cicatrizada, e é bom que não esteja. Para Darwin, nós, os humanos, não
vivemos do outro, ou de uma instância transcendente, um desígnio divino
incumbido de dar vida a qualquer tipo de matéria inerte. Viemos, isso sim,
de nós mesmo, produto de um processo evolutivo milenar que envolveu
muitas perdas e ganhos.
Em outras palavras, isso implica admitir que o homem, assim como a
totalidade dos seres vivos, descende de algo preexistente e menos
organizado. Essa idéia perturbadora de Darwin, mesmo que tivesse sido
combatida em sua época pelo pensamento conservador, religioso ou não,
permitiu que a fronteira entre natureza e cultura fosse repensada em outros
termos, o que de fato ocorreu muitos anos mais tarde com as idéias de
Claude Lévi-Strauss (1908). Para ele, entre a Natureza e a cultura havia
algo simultaneamente universal e particular, um fenômeno que se encontra
presente em todas as sociedades humanas e, ao mesmo tempo, é diferente
em muitas delas: a proibição ao incesto.

Se, para o padrão cristão-ocidental, incesto significava, e significa até hoje,


interdição sexual com pais e irmãos, a pesquisa em sociedades ditas
diferentes comprovam a existência de sistemas e nomenclaturas de
parentesco inteiramente diferentes dos nossos. Mais que isso, é a proibição
que garante troças exogâmicas de mulheres, bens e mensagens em certo
sentido, ela se torna responsável pelo avanço civilizatório, mesmo que seu
sentido não seja unilinear, movimento de mão única, do simples ao
complexo.

Em decorrência, passou-se a questionar se esses outros mundos eram


mesmo diferentes em natureza (primitivo X civilizado), grau (inferior X
superior) e pensamento (arcaico X moderno). Admitir que esses povos
pensavam como nós e, por vezes, melhor do que nós, representou um duro
golpe para muitos.

Constatou-se, assim, que o chamado pensamento selvagem, que não deve


ser confundido com o pensamento dos selvagens, próximo da intuição
sensível, conhece e classifica espécies animais e vegetais, reflete sobre elas.
Afastados da sensibilidade imediata, nós, os domesticados, temos conceitos
demais para intermediar ações e reações. Dividimos o mundo em
compartimentos, separamos palavras e coisas, alma e corpo, oralidade e
escrita, razão e loucura. Demasiado humanos, perdemos o sentido da vida.
Guardadas as devidas proporções, trata-se de uma perda evolutiva, mesmo
diante das fantásticas promessas do pós-humano e da tecnociência.

Foi difícil e, em certa medida, ainda o é, assimilar oralidade e escrita como


modalidades cognitivas complementares. É sempre mais confortável
simplesmente opor culturas orais, nas quais o tempo é cíclico e intransitivo,
e culturas escritas, nas quais esse mesmo tempo é não-cíclico e transitivo.
Em conseqüência disso, as alteridades foram simplesmente entendidas
como integrantes de um mundo sem história, frio, não-evolutivo, e isso
porque a oralidade não consegue fixar a flecha do tempo em documentos,
memorandos, arquivos e, muitos menos, acumular saberes para transmiti-
los às gerações futuras incumbidas de acelerar o processo sócio-histórico.

O arrogante pensamento domesticado, moderno, civilizado, que se


consolidou no planeta a partir do século XV, cercado das certezas que a
tecnociência passou a lhe fornecer, deixou de lado a preocupação com a
totalidade, passando a se concentrar no entendimento do fragmento, da
parte, supondo que, por meio dele, seria possível atingir uma maior
objetividade. Com isso, considerou magias e mitos como algo irracional e
irrelevante para o entendimento da vida social, produto descartável criado
pela mente obscura de selvagens que teimavam em não ingressar, e muito
menos entender a velocidade da história.

Não foram apenas as populações indígenas que sofreram na pele o


preconceito e a intolerância civilizatórios. Embora as concepções da teoria
darwinista e os mecanismos da seleção natural e da sobrevivência dos mais
aptos fossem válidos para a evolução da vida em geral, sua aplicação para a
sociedade redundou em racismo e genocídios de toda ordem. É mais do que
sabido que a transferência de conceitos e pressupostos teóricos e
conceituais de uma área para outra é sempre algo problemático. No caso
das sociedades humanas, serviu de alavanca e justificativa para a expansão
das ideologias raciais nazi-fascistas do século XX concretizadas em guerras
e extermínios planetários. Não resta dúvida que, neste terceiro milênio, o
problema permanece e que os “mais aptos” se arrogam o direito de reger o
destino da vida. Basta olhar o mapa do mundo para saber disso.

Termo cunhado pelo filósofo britânico Herbert Spencer (1820 - 1903), o


darwinismo social mantinha intocável o pressuposto da passagem do
homogêneo ao heterogêneo para a psicologia e a sociologia, passando a
considerar como mais avançadas as sociedades que exibissem uma
aceleração evolutiva significativa causada por revoluções tecnológicas
irreversíveis. A diversidade das culturas não redundou, porém, em
colaboração efetiva de povos e nações, mas manteve a dominação social,
política e cultural como eixo central das relações humanas.
A ampliação das diversidades levou antropólogos denominados neo-
evolucionistas, a partir da década de 50, a proporem uma classificação de
etapas evolutivas baseada em processos adaptativos do homem à Natureza.
A energia per capita despendida nas lides produtivas transformou-se num
instrumento de medida infalível. Partia-se do pressuposto de que, quanto
mais uma sociedade fosse adaptada e, portanto, mais apta, só lhe restava
sair de suas fronteiras, expandir-se para outros territórios. Se o
desenvolvimento tecnológico era intenso, a sociedade economizava energia
e dirigia sua intencionalidade ao progresso e à evolução sociais. Caso
contrário, gastava-se tanto tempo em estratégias de sobrevivência que não
sobrava energia criativa para nada.

Em decorrência disso, o que se tinha era estagnação, perpetuidade,


involução. Foram tantas as pesquisas e classificações que o mundo cindiu-
se em duas partes incomunicáveis: de um lado os evoluídos e adaptados, de
outro, exatamente o contrário. A evolução torna-se multilinear e o
desenvolvimento da tecnologia, a medida de todas as coisas. Mas uma vez
a arrogância do Ocidente mostra sua face e sua pretensão de
irreversibilidade diante da flecha do tempo.

Sapiens ao quadrado

INIMAGINÁVEL NO TEMPO DE DARWIN, a construção de tipologias e


seqüências evolutivas multilineares não conseguiu abalar o sólido edifício
das dualidades, e isso porque mantiveram a definição do que é o homem,
dentro de padrões demasiado normativos e classificatórios. Integrantes do
gênero homo, a espécie sapiens é faber, porque fabrica instrumentos,
loquens, porque articula sons, palavras, frases, simbolicus, porque atribui
significados aos objetos. Com o prosseguimento das investigações entre
primatas não humanos, tornou-se equivocado admitir que somos apenas
sapiens, aquele que sabe, isso porque macacos também são portadores de
sofisticados códigos de sociabilidade e comunicação, mesmo que não falem
como nós. Com 98% de carga genética semelhante a eles somos, agora,
sapiens sapiens.

A repetição do termo não constitui um mero capricho terminológico.


Funciona como um marcador definitivo de diferenças e semelhanças entre
primatas humanos e não-humanos. Mesmo que todos os homens sejam
considerados iguais no plano evolutivo e que, em princípio, não haja
diferença de natureza e grau entre quaisquer sociedades da Terra, essa
condição de universalidade não redundou em nenhum tipo de solidariedade
intercultural.

O final dos anos 60 provoca outra alteração na compreensão entre nós e os


outros, referente agora às formas materiais de vida, às relações com a
Natureza propriamente dita. Para muitos estudiosos das ciências humanas,
era impossível que os chamados povos primitivos fossem capazes de
garantir sua sobrevivência por meio de ações racionais, dado que a
racionalidade moderna, capitalista, sempre pronta a minimizar meios para
maximizar fins, passa a ser entendida como a única modalidade possível de
existência social.

O passo seguinte foi colocá-los à margem do processo histórico. Afinal de


contas, na qualidade de pré-lógicos e pré-racionais, suas ações não
obedeciam aos ditames da razão e, muito menos, da racionalidade
instrumental do mundo contemporâneo. A amplitude ideológica da
primitividade é muito mais ampla do que pode parecer à primeira vista. De
agora em diante ela se chama subdesenvolvimento, coisa de terceiro e
quarto mundos, nau sem rumo e destino. Sua atualidade histórica é o preço
a pagar pela exclusão econômica, social, cultural e política a que
compulsoriamente se submete.

O século XXI, que, para muitos, consagrará a sociedade do conhecimento,


deverá aprofundar condição da universidade por meio da intensificação das
pesquisas entre primatas não humanos. Observados em cativeiros, ou em
seus próprios ambientes localizados em longínquos ecossistemas naturais,
terão muito a nos dizer sobre vida comunitária, processos de comunicação,
relações afetivas e de poder e mesmo sobre ética, sexualidade e evolução.

O que nos resta é admitir que somos naturais porque inscritos numa
complexa evolução biológica, e culturais porque capazes de elaborar e
acumular estratégias de sobrevivência e adaptação onde quer que nos
encontremos. Em resumo, somos 100% natureza e 100% cultura, ou,
melhor dizendo, seres “uniduais”, carregamos conosco uma trajetória
biológica milenar, ao mesmo tempo que somos portadores de um vasto
acervo cultural constitutivo da memória coletiva da espécie.
Considerados como os únicos seres vivos verdadeiramente racionais,
porque falamos, comunicamos, planejamos, calculamos e competimos,
amamos e odiamos, essas características acabaram por nos conferir uma
superioridade ímpar perante os demais seres vivos. É preciso entender,
porém, que em cada um de nós existe algo que escapa a essas
características normativas demasiado sistemáticas.

A cada momento, somos invadidos por delírios, sonhos, excessos, loucuras,


que escapam a nosso controle explícito, consciente. Na verdade, somos
todos “homo sapiens sapiens demens”. Demens porque loucos e
descomedidos, por vezes excessivos, lúbricos, lascivos. Em nosso cotidiano
globalizado, pobre em significações cosmopolitas, temos de manter um
equilíbrio, sempre instável, alias, entre o sapiens e o demens, o uno e o
múltiplo, o universal e o particular, a ordem e a desordem, o global e o
local.

É possível supor que, em anos subseqüentes, a escrita da história e da


evolução humana mude de paradigma e essa oposição que ainda persiste
entre nós e os outros caia por terra como um castelo de cartas. É possível,
também, imaginar que a religação de todos os saberes da Terra seja
efetivada. Utopia realizável, essa religação instala a idéia de um mundo
qualificado por sentimentos de pertencimento a uma terra-pátria comum e
universal.

Sim, evoluímos como homens, mas essa condição não nos torna superiores
a nenhum outro homem. Não resta dúvida de que a flexibilidade mental e
comportamental são marcas da nossa evolução. Afinal de contas, conforme
Stephen Jay Gould (1941 - 2002), os humanos não são nada mais do que
animais que aprendem. Diante disso, é preciso estender o olhar para longe e
perceber que, sob a diversidade humana, existe um árduo processo sempre
apto a fornecer respostas semelhantes para os enigmas da vida e das
espécies.

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Box:

1. Milhões de anos foram necessários para transformar primatas em Homo


sapiens, diferenciar animalidade de humanidade e criar um modo de vida
chamado cultura;
2. A ideologia dominante classifica primitividade como
subdesenvolvimento, coisa de terceiro ou quarto mundo, nau sem rumo ou
destino;

3. Pesquisas com primatas não humanos mostraram ser equivocado admitir


que somos apenas Homo sapiens, pois eles também são portadores de
sofisticados códigos de sociabilidade e comunicação;

4. Povos primitivos, como os índios uarua, do baixo Amazonas, foram


colocados à margem do processo histórico, pois muitos estudiosos achavam
impossível que fossem capazes de garantir sua sobrevivência, já que a
racionalidade moderna capitalista é vista como única possibilidade de
existência social;

5. A aplicação da teoria de sobrevivência dos mais aptos resultou em


racismos e genocídios de toda ordem, como a deportação dos judeus no
século passado;

6. A evolução tornou-se multilinear. O desenvolvimento da tecnologia


passou a ser a medida de tudo. Sem ela, pressupõe-se que a luta pela
sobrevivência não deixe espaço para a criatividade e resulte em estagnação,
em involução.

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Edgard de Assis Carvalho é professor titular de antropologia,
coordenador do núcleo de estudos da complexidade – Complexus
– e do programa de pós-graduação em ciências sociais da PUC de
São Paulo.

Para conhecer mais:

A falsa medida do homem. Stephen Jay Gould. Tradução de Valter Lellis Siqueira.
Martins Fontes, 1999.

O quinto milagre. Em busca da origem da vida. Paul Davies. Tradução de Rosaura


Eichenberg. Companhia das Letras, 2000.

Então você pensa que é humano? Uma breve história da humanidade. Felipe
Fernández-Armesto. Tradução de Rosaura Eichenberg. Companhia das Letras, 2007.
Par-delà nature ET culture. Phillippe Descola. Gallimard, 2005.

Le singe em nous. Frans de Waal. Fayard, 2006.

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In:

SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL

HISTÓRIA Nº 7

ESPECIAL HISTÓRIA DA EVOLUÇÃO:

O HOMEM EM BUSCA DAS Origens