Você está na página 1de 5

160

Política social e Welfare State: uma perspectiva histórico-dialética

Ricardo Pereira SOARES*


Universidade de Brasília (UnB)

RESENHA
PEREIRA, Potyara A. P. Política Social: temas e questões. São Paulo: Cortez, 2008. 214 p. ISBN
9788524913914 (broch.)

BOOK REVIEW
PEREIRA, Potyara A. P. Política Social: temas e questões. São Paulo: Cortez, 2008. 214 p. ISBN
9788524913914 (broch.)

*Assistente social, mestrando do Programa de Pós–Graduação em Política Social do Departamento de


Serviço Social da Universidade de Brasília. E-mail: rich.suarez@gmail.com

, Vitória, v. 1, n. 1, p. 160-164, jul./dez. 2009


161
Política social e Welfare State: uma perspectiva histórico-dialética

O
livro é constituído de cinco propulsão após a Segunda Grande
capítulos. Cada capítulo Guerra.
apresenta um processo de
Além deste, a autora destaca outros
construção teórica indispensável à estudiosos da política social, como Derek
compreensão das principais categorias Fraser (1984) e Gaston Rimlinger (1971)
de análise da obra em seu conjunto: que demonstram ser, o Welfare State, um
política social e Welfare State (Estado de fenômeno comum a vários outros países
Bem-Estar), a partir de uma perspectiva com características específicas de cada
histórica-dialética. A autora afirma que a região, mas que teve sua “pré-história”
política social é um “processo complexo nas Poor Laws (Lei dos Pobres) inglesas.
e multideterminado, a par de ser Estas, por sua vez, datam do século XIV,
contraditório e dinamicamente com o objetivo principal de manter a
relacional” (p. 15). Assim, entre os temas ordem social, por meio de regulações
e questões discutidos no texto, destacam-
assumidas pelo Estado, ao perceberem
se os referentes às relações de
que a caridade cristã não daria conta de
antagonismo e de reciprocidade, ao controlar a miséria generalizada. Assim,
mesmo tempo, entre capital x trabalho e criaram-se leis que regulamentaram a
Estado x sociedade, tendo como perambulação de pessoas em busca de
referência os paradigmas marxistas e não melhores ocupações (Poor Law Acts), as
marxistas que as presidem. Poor-houses ou Almshouses, para abrigar
O primeiro grande tema tratado e pessoas incapazes para o trabalho, e as
discutido diz respeito à controvertida Workhouses destinadas aos pobres
identificação entre política social (social capazes de trabalhar. Mas, o marco
policy) e Welfare State. Para muitos, trata- diferencial entre estas iniciativas de
se de fenômenos equivalentes pelo fato controle dos pobres foi a criação do
de o Welfare State ser um modelo estatal Sistema Speenhamland (mais tarde
de intervenção que implantou e transformado em Lei), que “instituiu a
implementou sistemas de proteção idéia de direito do trabalhador (e não só
social, especialmente a partir do segundo do incapaz) à proteção social pública” (p.
pós-guerra. Logo, ambos, constituiriam 68).
uma resposta combinada aos embates de Sem encampar a visão evolutiva da
classes, que tiveram seu ponto alto nos política social, a autora considera que
fins do século XIX no auge da segunda tanto teóricos marxistas como não
revolução industrial, no qual a classe marxistas (liberais, principalmente)
operária conquistou direitos sociais. concordam que o Welfare State surgiu no
Como defensor desse posicionamento, a contexto da formação dos Estados
autora apresenta um pensador nacionais e com o desenvolvimento do
importante, Thomas Henry Marshall, capitalismo que se transformou no modo
conhecido como o teórico da cidadania, o de produção dominante após a
qual considera o Welfare State e as Revolução Industrial. Contudo,
políticas de seguridade (sociais) uma apoiando-se em autores como Ramesh
experiência inglesa que ganhou Mishra (1991), reconhece que o Welfare

, Vitória, v. 1, n. 1, p. 160-164, jul./dez. 2009


162
Ricardo Pereira Soares

State tem conotação histórica e direitos de cidadania, com T. H.


institucional (normativa) específica, Marshall, que rompe com a visão que
enquanto a política social, possui aliava a política social ao paternalismo.
“caráter e escopo genéricos que lhe Em sua construção lógica, a autora
permitem estar presente em toda e oportuniza - depois da reflexão sobre o
qualquer ação que envolva intervenção Welfare State e a política social, que não
do Estado” (p. 27) imbricado à se dá por findada aqui - uma discussão
sociedade. E, em tese, tal política teria sobre as relações entre Estado e
como norte a satisfação de necessidades sociedade tendo como eixo analítico a
sociais, e não a rentabilidade econômica política social. Para tanto, transita da
privada, fato que, sob o capitalismo, concepção funcionalista, baseada em
revelou-se altamente contraditório. Émile Durkheim, para a visão marxista,
Com efeito, com a extensão da cidadania amparada em Karl Marx, passando pela
conquistada por setores organizados da perspectiva compreensiva de Max Weber
sociedade, o Welfare State assumiu sobre o processo de regulação social que
configuração social-democrata e adotou incumbe ao Estado indispensável relação
políticas sociais que visavam não apenas com a sociedade. Nesse trânsito, observa
zelar pela ordem social estabelecida, que todos os três enfoques consideram o
punir a “vagabundagem”, ou se deixar Estado um agente de dominação; mas,
reger, livremente, pelo mercado (laissez- enquanto para o funcionalismo
faire), mas também prestar serviços e durkheimiano o Estado é agente de
benefícios como direitos devidos. controle social (do Estado sobre o
Segundo a autora, este foi o período em cidadão), para a sociologia compreensiva
que a política social teve os seus de Weber ele é a instituição que detêm o
melhores momentos como instrumento “monopólio legal da violência”. Em
de concretização de direitos sociais, contrapartida, para a concepção
embora, pelo fato de ser contraditória, marxiana (de Marx) o Estado é
também passou a atender interesses do responsável pela garantia de uma
capital. estrutura de classes; por isso, no
capitalismo, o bem-estar é incompatível
A partir desse ponto, Potyara Pereira
com as condições burguesas de
traz à tona reflexões sobre a política
exploração do trabalho pelo capital.
social a partir do “Paradigma dominante de
Todavia, afirma que tal pensamento, não
Estado de Bem-Estar”, que, conforme
impediu Marx de reconhecer que é
Roche (1992), contem três fases
possível à classe trabalhadora colocar
importantes, a saber: a defesa do pleno
limites ao despotismo do capital, no
emprego, com John Maynard Keynes,
interior da sociedade burguesa; e é com
como meio de regulação econômica e
base nesse pensamento, revelador da
social; a construção da Seguridade
existência de contradições no
Social, com William Beveridge, que uniu
capitalismo, que a autora, ao analisar o
ações no âmbito da assistência social,
Estado com o intuito de conceituar a
saúde, trabalho e educação, com base no
política social, toma como referência
keynesianismo; e a sistematização dos

, Vitória, v. 1, n. 1, p. 160-164, jul./dez. 2009


163
Política social e Welfare State: uma perspectiva histórico-dialética

moderna Gramsci e o último Poulantzas. contudo, esvazia papel do Estado como


garante de direitos, segundo a autora.
Assim, para ela o Estado, na sua relação
com a sociedade, é uma condensação de Destarte, Pereira concluí que o Welfare
forças econômicas e extra-econômicas State refere-se às instituições que visam
que operam dentro e fora do aparelho cumprir objetivos de bem-estar social
estatal tendo em vista a satisfação de com inserção temporal e histórica bem
interesses de classe contrários entre si. definida, enquanto a política social,
apesar de não ser a-histórica e a-
Com base nessa dinâmica contraditória,
temporal, é um processo longevo e
a autora expõe as principais imprecisões
ubíquo que, além de mediar a
conceituais existentes em torno da
contradição capital e trabalho, tem sido
política social. Para subsidiá-la, recorre a
capturada tanto por regimes políticos
Richard Titmuss, um dos pioneiros no
democráticos quanto ditatoriais. Não é
esforço de conceituar política social, nos
de estranhar que, na atualidade e em
anos 1950. Resgata autores
meio à decantada crise do Welfare State a
contemporâneos como Pete Alcock
política social esteja a serviço de pactos
(1996), para quem a política social
corporativos balizados pelo “princípio
também é uma disciplina acadêmica, o que
da subsidiariedade” com cunho
lhe confere possibilidade de possuir
voluntarista, que nega o bem-estar social
conhecimento próprio apesar de ter
como um direito do cidadão e dever do
caráter multidisciplinar. Além disso,
Estado.
para Alcock, a política social é uma
politica de ação que atua no mundo real
visando mudanças. A mudança Conclusão do resenhista
intencional e informada por pesquisa é
destaque na obra, pois, para Pereira, A obra fornece subsídios à compreensão
citando Titmus, a política social é de temas e questões que envolvem a
fundamentalmente um “princípio para a política social e o Welfare State, para além
ação” (p. 171); por isso, ela “só terá do que é comumente estudado. Recupera
sentido se quem o utiliza acreditar que criticamente autores, teorias, conceitos,
deve (política e eticamente) influir numa história e ideologias que deram e dão
realidade concreta que precisa ser sustentação aos diferentes modelos de
mudada” (idem). Welfare State e de política social no
Recentemente, surgiram tendências e transcurso da história econômica e
perspectivas de a política social mais ser política da humanidade, especialmente a
protogonizada pelo Welfare State, mas partir do século XIX.
sim pela Welfare Society (Sociedade de Assim, com sólidos conhecimentos
Bem-Estar), a partir da implantação do acerca da origem e desenvolvimento do
bem-estar pluralista ou misto, que prevê Estado de Bem-Estar e da política social,
integração de três “parceiros”, a saber: o a autora apresenta clara e
Estado, por deter o poder; o mercado, detalhadamente as circunstâncias e
por possuir o capital; e a sociedade, por características que nos levam a perceber:
ser o lócus da solidariedade. Este modelo,
, Vitória, v. 1, n. 1, p. 160-164, jul./dez. 2009
164
Ricardo Pereira Soares

as idéias básicas e as várias linhas de coordenadora do Programa de Pós-


evolução histórica da conceituação e da Graduação em Política Social, líder do
ação dessa política e de como ela não é Grupo de Estudos Político-sociais –
mesma coisa que o Welfare State. Da POLITIZA e coordenadora do Núcleo de
mesma forma, instiga-nos a descobrir Estudos e Pesquisas em Política Social -
quais as variantes teóricas (marxista e NEPPOS/CEAM da mesma
não marxista) que contextualizam e Universidade. Além desta, tem como
diferenciam as abordagens sobre o principais obras:
Estado Social, sociedade e as políticas
desenvolvidas em cada concepção. PEREIRA, Potyara A. P. A assistência
A leitura do livro não exige social na perspectiva dos direitos: crítica aos
conhecimentos prévios, densos, para ser padrões dominantes de proteção aos
entendida. O método de exposição pobres no Brasil. Brasília: Thesaurus,
utilizado consegue esclarecer aos leitores 1996.
os debates e contradições existentes em
torno das duas categorias centrais do ______. Necessidades Humanas: subsídios
texto. Logo, com estilo claro o objetivo, à crítica dos mínimos sociais. São Paulo:
da autora é alcançável em sua reflexão. Cortez Editora, 2008. Traduzido para o
espanhol pela Biblioteca Latino
Finalmente, com o estudo dessa obra,
Americana da Cortez Editora, em 2001.
podemos clarificar os fundamentos da
política social e do Welfare State e ter a
PEREIRA, Potyara. A. P. et al (Org.).
certeza que cada categoria analisada tem
Propostas alternativas ao neoliberalismo.
suas particularidades e objetivos
Brasília: Universidade de Brasília, 2004.
próprios. A obra deve ser um dos livros
básicos a constituir a biblioteca de quem
PEREIRA, Potyara. A. P.; BRAVO, Maria
pretende enveredar no estudo dos “temas
Inês S. (Org.). Política Social e Democracia.
e questões” discutidos.
São Paulo: Cortez Editora, 2008.

Sobre a autora de Política Social: temas


e questões

Potyara Amazoneida Pereira Pereira


possui graduação em Serviço Social
(1965) e Direto (1974). É Mestre (1976) e
Doutora (1987) em Sociologia pela
Universidade de Brasília- UnB e possui
pós-doutorado (1991-1992) em Política
Social pela Universidade de Manchester
– Grã Bretanha. Atualmente é professora
titular do Departamento de Serviço
Social da Universidade de Brasília,

, Vitória, v. 1, n. 1, p. 160-164, jul./dez. 2009

Você também pode gostar