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10/01/2020 Polícias param de divulgar nomes e fotos de presos após lei de abuso de autoridade entrar em vigor | São Paulo | G1

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SÃO PAULO

Polícias param de divulgar nomes e fotos de presos após lei de


abuso de autoridade entrar em vigor
Colocar presos de mesmo sexo ou menores de idade em mesmo compartimento, dar início a investigação sem
indícios ou divulgar nome de detidos, apontando-os como culpados, passou a ser considerado crime. Policiais dizem
que mudanças afetam trabalho nas ruas.

Por Tahiane Stochero, Beatriz Borges e Kleber Tomaz, do G1 SP


10/01/2020 06h00 · Atualizado há 8 minutos

Suspeito de participação em assalto com morte é preso em Ribeirão Preto (SP); polícia deve deixar de publicar imagens de suspeitos. — Foto: Reprodução/EPTV

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10/01/2020 Polícias param de divulgar nomes e fotos de presos após lei de abuso de autoridade entrar em vigor | São Paulo | G1

Polícias militares e civis de pelo menos 5 unidades da federação (São Paulo, Espírito Santo, Distrito Federal, Santa
Catarina e Rio Grande do Sul), ouvidas pelo G1, deixaram de publicar em redes sociais, em páginas institucionais e
de divulgar à imprensa fotos e nomes de suspeitos ou presos desde o dia 3 de janeiro, quando entrou em vigor a
nova lei de abuso de autoridade.

A lei, criticada por juristas e magistrados quando foi sancionada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro
(PSL), em 2019, define cerca de 30 situações que configuram abuso e é alvo de questionamentos de organizações
que defendem agentes públicos no Supremo Tribunal Federal (STF).

Agora, passam a ser crimes ações que até então eram consideradas infrações administrativas ou atos ilícitos
punidos no âmbito cível. Um exemplo são os atos de constranger o detento a exibir seu corpo “à curiosidade
pública” ou de divulgar a imagem ou nome de alguém, apontando-o como culpado". Agora isso pode levar uma
autoridade a ser punida com penas de 1 a 4 anos de detenção e de 6 meses a 2 anos, mais multa, respectivamente.

Não é necessário que a vítima acuse o agente público pelo fato. Os crimes são de ação pública incondicionada,
quando é dever do estado investigar e punir.
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A exceção para divulgação de nome e fotos ocorre com suspeitos foragidos com mandado de prisão em aberto.

Delegado vê prejuízo às investigações


Em São Paulo, por exemplo, a Secretaria da Segurança Pública informou que "os policiais são constantemente
orientados acerca das legislações em vigor". "No tocante a lei de abuso de autoridade, simpósio e cursos foram
ministrados aos policiais civis pela Acadepol, que, inclusive, editou súmulas de orientação deixando-as
disponibilizadas para consulta de todos os agentes." (leia mais abaixo)

Para o delegado Gustavo Mesquita Galvão Bueno, presidente da Associação dos Delegados de Polícia Civil de São
Paulo (ADPESP), a proibição da divulgação das imagens de suspeitos "causa prejuízo nas investigações".

"A divulgação de fotos de presos, não de forma irresponsável e indiscriminada, mas com responsabilidade e em
casos com prova de autoria do crime, é um instrumento que nos ajudava a solucionar inúmeros crimes, porque a
população reconhecia. Infelizmente, isso será prejudicado, para não dizer, anulado", diz Bueno.

"Infelizmente, nesta lei, optou-se por privilegiar a privacidade do criminoso do que a


segurança pública", afirma o delegado.

Além da divulgação ou exposição indevida da imagem de detentos, passam a ser considerado crimes:

· colocar presos de diferentes sexos ou crianças no mesmo espaço;

· o agente público não se identificar durante uma abordagem;

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· iniciar investigação sem indícios;

· apontar alguém como culpado antes da Justiça;

· decretar prisão sem fundamento;

· entrar na casa de alguém “à revelia”.

(Veja, mais abaixo, maiores detalhes sobre os crimes):

A Polícia Militar do Espírito Santo fez uma cartilha de bolso para lembrar aos policiais que, no dia a dia do trabalho,
não podem expor, em determinadas situações, o preso a uma situação vexatória, mas diz que continuará
repassando à imprensa o histórico das ocorrências, sem divulgar nomes.

A Polícia Civil capixaba também orientou, por meio de um documento interno, seus agentes a tomarem precauções
em entrevistas "atentando-se para a não divulgação de dados qualificativos de presos/indiciados/investigados ou
qualquer elemento que possa qualificar como criminalização prévia ou exposição da intimidade."

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PM do Espírito Santo faz cartilha 'lembrando' policiais de usar a identi cação pro ssional e para não divulgarem imagens de pressos — Foto: Reprodução

Orientações sobre divulgação de fotos


As polícias do Distrito Federal e de Santa Catarina informaram que não irão mais divulgar oficialmente fotos dos
presos. Já a Polícia Civil do Rio Grande do Sul fez um comunicado interno aos agentes alertando sobre o risco da
reprodução indevida de fotos de presos e informando que também não repassaria institucionalmente fotos de
detidos ou suspeitos.

Outras corporações militares, como as de Minas Gerais, São Paulo e Amazonas informaram ao G1 que ainda
estudam como regulamentar os procedimentos. Em Belo Horizonte, o Estado-Maior da PM (como é denominado o
alto comando da corporação) se reuniu ao longo desta semana para finalizar uma recomendação que será emitida a
todos os PMs.

Em São Paulo, a Academia de Polícia Civil publicou 10 súmulas orientando delegados sobre como proceder no
inquérito, defendendo a independência na investigação e no ato de indiciamento.

"Ao fazer o indiciamento, o delegado está amparado pelo estrito cumprimento de dever legal, que é uma excludente
de ilicitude. Ele não pode ser responsabilizado [pela lei de abuso, por apontar uma culpa anterior do suspeito] por
estar fazendo o seu trabalho, ele está balizado e respaldado pela independência funcional", defende o delegado
Gustavo Galvão Bueno.

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Até o m de 2019, polícia divulgava imagens de rosto de suspeitos, como o caso de ex-marido preso por ameaçar mulher em Cuiabá — Foto: Polícia Civil de Mato
Grosso/Assessoria

PM em SP fez comunicado interno


A PM de SP informou que “ainda não editou um comunicado interno oficial” sobre a nova lei, mas que orienta os
policiais sobre a legislação em vigor. Oficiais da corporação ouvidos pela reportagem dizem que, desde o dia 3,
foram orientados a recomendar “diariamente e exaustivamente” à tropa que sai para o policiamento ostensivo para
se precaverem de problemas frente à lei.

Um tenente da corporação ouvido pelo G1 afirmou que não poderá mais enviar imagens de presos em uma
operação contra ladrões de casas, por exemplo.

“A foto, eu posso mandar dos produtos furtados da residência. Agora, dos


criminosos, tem uma nova lei de abuso de autoridade que foi sancionada e entrou
em vigor proibindo enviar fotos dos indivíduos, mesmo que de costas, que
exponham ele antes do devido processo legal, antes da formalização de que são eles
que realmente que praticaram o crime. Então, tem essa nova lei e estamos
limitados”, disse um oficial da PM de SP.

Impasse na busca por criminoso


“Há casos, como o de um estuprador em série, em que era divulgada a imagem para se buscar mais vítimas, por
exemplo. Isso agora não pode mais. Isso é um ponto delicado, vai favorecer o criminoso", diz o coronel da reserva
Elias Miler da Silva, presidente da organização Defenda PM, que reúne oficiais da reserva e da ativa de policiais
militares do país.

“A população pode sentir, talvez, que há um ‘estado de impunidade’. Mas, se você está procurando vítimas e não
pode divulgar, como fazer?”, questiona Silva.

Atos que passam a ser considerados crimes:

· Divulgação de imagem ou exibição de preso: constranger preso a expor corpo ou submetê-lo à situação
vexatória ou constrangimento público e divulgar imagens de suspeitos atribuindo a eles culpa por um crime.

· Identificação: o policial não usar, por exemplo, a tarjeta de identificação na farda, ou mentir o nome.

· Condução de detidos: manter, na mesma cela, confinamento ou no carro no deslocamento, presos de sexos
diferentes e também crianças e adolescentes até 12 anos.

· Domicílio: entrar em uma casa ou local sem autorização, sem informar o dono, ou sem autorização judicial.

· Mandado de prisão: cumprir mandado de prisão à noite ou entrar em local privado à noite, entre 21h e 5h.

· Interrogatório: continuar questionamentos após preso dizer que quer ficar calado, levar sob condução
coercitiva para depoimento sem antes intimar para comparecimento, pressionar ou ameaçar a depor ou obrigar
a fazer prova contra si mesmo.

· Prisão: determinar ou manter prisão ilegal ou deixar de relaxar prisão quando devida.

· Bloqueio de bens: o juiz decretar a indisponibilidade de valores em quantia que extrapole exacerbadamente a
dívida.
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· Investigação: dar início a inquérito sem indício de crime, divulgar trechos da investigação ou gravações com a
imagem do preso falando ou prestando depoimento.

Nas páginas das corporações na internet e nas redes sociais e na internet, como no caso do Rio Grande do Sul, é
possível ver a transição na mudança de ano: até 31 de dezembro de 2019, em notícias divulgadas, há várias imagens
de presos. Em janeiro de 2020, não há fotos de detidos nem de costas. Agora há apenas reproduções de materiais
apreendidos e informações sobre casos, sem citar o nome de suspeitos.

Polícia Civil do RS para de divulgar nas redes sociais imagens de presos, colocando cartela anunciando a prisão — Foto: Reprodução

Peritos temem punição


Com temor de que algumas condutas que são necessárias no dia a dia passem a ser consideradas "abuso", o
Sindicato dos Peritos Criminais do Estado de São Paulo (Sinpcresp) pedirá à Secretaria de Segurança Pública do
Estado que "regulamente" as condutas dos agentes, para que estejam respaldados no trabalho.

"Vislumbramos várias situações que podem colocar o perito em uma situação em


que ele, ao cumprir a função, lhe seja imputado como abuso. A lei diz que você não
pode coagir o suspeito a fazer prova contra si mesmo. Mas o perito precisa colher
digitais, saliva, fazer exames, coletas em cena de crime. E se o local é a casa de
alguém? Ele não vai poder entrar? Isso precisa ser normatizado para que os
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profissionais estejam amparados e protegidos, com respaldo de que agiram


conforme determinado", diz o presidente do Sinpcresp, o perito Eduardo Becker
Tagliarini.

"A lei tipifica condutas muito abertas e estamos orientando nossos peritos a, na dúvida, não fazerem algo sem
autorização judicial, como, por exemplo, perícia em telefones apreendidos, o que até hoje não foi regulamentado",
complementa Tagliariani.

Defesa da intimidade
Enquanto alguns agentes públicos acreditem que a lei pode vir a atrapalhar o serviço, a advogada criminalista
Jacqueline Valles, professora e mestre em Direito Penal pela PUC de São Paulo, tem uma posição contrária. Para ela,
a nova lei define condutas que preservam a privacidade e a intimidade dos suspeitos e também a imagem deles,
impedindo que sejam "julgados" publicamente enquanto o fato ainda não foi analisado pela Justiça.

"Eu vejo que, em muitas ocasiões, ao divulgar a foto de um preso, a polícia acaba focando a investigação naquele
suspeito, bloqueando oportunidades, o que pode levar a encerrar uma investigação errônea", diz Jacqueline.

"A Constituição resguarda o direito da imagem e diz que ninguém será considerado culpado antes do trânsito em
julgado. [A lei] não é um benefício ao preso, é um resguardo de um direito de que ele não seja linchado
publicamente por algo que pode vir a ser inocentado. Ao ter sua imagem exposta, a pessoa não tem que se explicar
por aquele ato só na Justiça, mas também é alvo de um julgamento público", pondera a advogada.

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Eles estimulam através das redes sociais, de um jeito leve e divertido.

8 de jan de 2020 às 11:05

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