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Quebrando
PARADlliMA!i
Ed René Kivitz

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Ahnã
Rua Manuel Alonso Medina, 298- São Paulo - SP - CEP 04650-031
Tels./Fax (11) 5686-5058 • 5686-7046 • 5523-9441
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Quebrando Paradigma
Ed René Kivitz
© Abba Press Editora Ltda

Categoria: Liderança
Cód.: 01.106.0995.6

7ª Edição no Brasil
Dezembro de 2008

Revisão de texto por


Lourenço Stélio Rega

Coordenação Editorial
Oswaldo Paião Jr.

Impressão e Acabamento
Imprensa da Fé

ISBN 978 - 85-85931-01-9

Arte da Capa
Durante anos, os suíços dominaram, absolutos, o conceito de narcar a hora. O relógio suíço tinha a máquina e a
mais avançada tecnologia. Até que um novo paradigma revolucionou o mercado. Surgiu o relógio digital, à bateria
de quartzo, produzido com alta tecnofogía pelos asiáticos, principalmente japoneses em parceria com os
americanos. A ironia é que foram os suíços que inventaram os relógios a quartzo, mas ficaram presos no seu
paradigma de relógios mecânicos.
A concepção artística da capa deste livro, procura inovar e ilustrar a quebra dos paradigmas. Por isso, causa certa
estranheza em alguns observadores. Essa experiência demonstra o quanto é difícil para nós, especialmente
evangélicos, aceitarmos novas maneiras de fazer as coisas e ver o mundo.

É permitida a reprodução de partes


desse livro, desde que citada a fonte
e com a devida autorização dos editores.

"
Ahnã
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Conteúdo

Prefácio .......................................................................................................... 05

Introdução ..................................................................................................... 07

1. O Conceito de Paradigmas ................................................................ 11

II. Bases Bíblicas e Teológicas Para a Igreja ................................. 15


1. A Razão de Ser da Igreja
2. A Missão da Igreja
3. A Filosofia da Igreja

III. A Igreja e Seus Paradigmas .......................................................... 37


1. A Igreja e o Templo
2. A Igreja e o Domingo
3. A Igreja e o Clero
4. A Igreja e o Culto
Síntese e Quadro Sinóptico dos Paradigmas

IV. A Igreja e Seus Novos Paradigmas ............................................ 57


1. Pequenos Grupos e Discipulado
2. Pequenos Grupos e Cuidado do Rebanho
3. Pequenos Grupos e Ministérios Pessoais
4. Pequenos Grupos e Liderança na Igreja
Quadro Sinóptico a Respeito dos Pequenos Grupos

V. Radicalizando na Visão ..................................................................... 75

VI. Conclusão .............................................................................................. 97

Bibliografia Sugerida .............................................................................. 100


Dedicatória

Ao Douglas Spurlock,
meu inesquecível discipulador

À Igreja Batista de Água Branca,


minha grande família

À minha esposa Silvia Regina,


e meus filhos Fernanda e Vitor,
pedacinho de céu na minha vida

Agradecimentos

Almir Cordeiro Jr.,


que me iniciou nas ciências
do Planejamento Estratégico

Lourenço Stélio Rega,


que revisou e lapidou o texto

Comissão de Planejamento Estratégico


da Igreja Batista de Água Branca:
Nelson Beck Machado, Eliseu Jorge,
Marcos Flávio de Cabral Moraes Jr.,
João Alexandre Fabossi, Alberto Sanches Borgufío,
Walter Gomes Jr., Claudio Lemos Pinheiro,
Roberto Nobuyuki Handa, Jaime Augusto Cisterna,
que discutiu teologia com piedade e amor ao corpo de Cristo
Prefácio

O Pastor Ed René Kivitz é um dos mais proeminentes


pensadores da nossa geração de pastores que o Espírito
Santo tem levantado na Igreja Evangélica do Brasil.
O presente trabalho revela o modo objetivo, claro e
profundo de seu pensamento. Isto porque o Ed é sobre-
tudo, pastor. Ele pensa com acuidade intelectual, mas
dirige o fluxo de seu trabalho para o estímulo pastoral
que a igreja precisa receber.
Neste livro você vai encontrar um dos temas mais
desafiantes que está posto para a Igreja nessa virada de
milênio: a quebra de paradigmas que foram sacralizados,
mas nada tem a ver com a revelação de Deus em Sua
palavra.
Identificar que paradigmas são esses, como e por-
que eles devem ser quebrados é a tarefa a que o pastor
Ed se propõe neste livro. E consegue.
O que você vai sentir enquanto ler, é que o texto é
provocativo, porém sério e reverente. Não há nele ne-
nhum desejo de "mudança por mudança". Ao contrário,
as razões para mudar são teológicas estrategicamente
justificadas e elas fazem total sentido.
Eu, pessoalmente, me sinto extremamente compro-
metido com o tema deste livro. Afinal, faz alguns anos
que venho insistindo na necessidade da quebra de al-
guns paradigmas que atrapalham a realização plena da
missão da igreja. Por esta razão, o livro do pastor Ed
René Kivitz me dá um profundo senso de gratificação
ministerial, pois não apenas visa minhas convicções aqui
apresentadas, mas feitas de maneira muito melhor do
que eu jamais fiz.

Rev. Caio Fábio D'Araújo Filho


Introdução

Saio em busca de um jeito de ser Igreja capaz de


equilibrar fidelidade às Escrituras e relevância mi-
nisterial na sociedade urbana contemporânea. Arrisco-
me nesta aventura com o coração apoiado em três
pilares. Primeiro, o temor de quem sabe que a Igreja
não é uma instituição humana nem o resultado do
esforço de alguns poucos amigos em desenvolverem
um projeto de convivência. Sei que a Igreja é o povo de
Deus, um povo que o Senhor Jesus comprou com seu
próprio sangue (At 20.28). Sei que por trás das formas
institucionais e por trás de estatutos, regimentos, cons-
tituições, costumes e culturas, há um povo que é pro-
priedade peculiar de Deus (1 Pe 2.9). Sei que devo medir
minhas palavras, tomar cuidado quando o ardor dos
meus poucos anos me impulsionar a criticar, apontar
novos caminhos ou sugerir mudanças, e falar muito
cautelosamente, com um olho no leitor e outro no
semblante do Senhbr da Igreja.
Em segundo lugar, move-me um fortíssimo senso
de respeito e gratidão aos irmãos que de boa vontade
se gastaram e deixaram-se gastar por este empreen-
dimento eterno chamqdo Igreja (2 Co 12.15). Olho para
a Igreja hoje sabendo que a estrutura eclesiástica que
temos é fruto de "sangue, suor e lágrimas" de tantos
que, assim como nós, amaram a Igreja e se deram por
ela.
Finalmente, há no meu coração um senso de
obrigação. A fidelidade a Deus e ao seu povo não nos
deixa outra alternativa do que não encararmos de
frente, tendo em vista uma reflexão séria e piedosa, os
diversos jeitos de ser igreja hoje. A ambição do meu
8 Quebrando Paradigmas

coração é repetir a caminhada de Davi, que "serviu a


sua própria geração segundo a vontade de Deus" (At
13.36).
Lembro-me do dia quando um irmão mais idoso,
diácono da Igreja onde eu servia como pastor, bateu
no meu ombro e me disse em tom solene: "Não se fazem
mais pastores como antigamente". Numa fração de
segundos os grandes expoentes de minha denominação
passaram pela minha mente. Pensamentos como "a
dignidade do púlpito" ou "a postura de um ministro de
Deus" ecoaram em minha consciência trombando-se
com meu auto-retrato.
A observação sobre "pastores como antigamente"
me atormentou por muito tempo e ocupou muito de
minhas reflexões e orações, até que um dia Deus me
respondeu trazendo-me um desafio ainda maior do que
a reprodução dos modelos do passado. Compreendi
que é certo que não se fazem mais pastores como anti-
gamente, justamente pelo jato de que já não se fazem
mais pastores para antigamente.
Dewey Mulholland disse que "a reforma Protes-
tante do Século XVI foi essencialmente teológica, mas
ainda precisamos urgentemente de uma reforma
eclesiológica". Estas palavras deram o tom do meu pre-
paro acadêmico para o exercício do ministério pastoral.
Desde então, sou movido pela convicção de que a Igreja
está o que não é, e que o mote presbiteriano é um
desafio renovado para cada geração de cristãos: "uma
Igreja reformada, sempre se reformando". Eclesiologia
é meu tema predileto ejá nem me lembro mais quanto
tempo faz que por ele me apaixonei.
Assim pois, ainda que respeitosa e cautelosa-
mente, caminho pelos bastidores de estruturas e men-
talidades vigentes na eclesiologia evangélica brasileira,
Introdução 9

em busca de coerência entre a fidelidade às Escrituras


e a relevância ministerial na sociedade urbana
contemporânea.
Este texto que você tem em mãos é resultado de
mais de 10 anos de pesquisa e experimentos concomi-
tantes ao serviço pastoral. Sigo à risca o ditado que
ensina que "copiar de um é plágio; copiar de mil é
pesquisa". Talvez, e muito provavelmente, as idéias,
opiniões e conclusões que você mesmo nutre acerca
da Igreja estejam esboçadas nestas páginas. Não du-
vido. Muitas delas cresceram em mim após conversas
com pastores, participações em congressos, escuta de
preletores diversos, trânsito entre o rebanho, conselhos
de homens fiéis, muita leitura e, principalmente,
periodos longos e intensos de recolhimento na presença
de Deus. Tudo isso, experiência muito próxima da sua.
Aqui está o norte provisório de meu serviço como
pastor de uma igreja local num grande centro urbano
como São Paulo, que espero servir de referencial para
sua busca não menos intensa de servir a Deus, servin-
do à igreja de forma atual, relevante, bíblica e cheia
da imprescindível unção do Espírito Santo.
1
O Conceito de
Paradigmas

~que é um paradigma? O dicionário indica


ser uma palavra de origem grega (gr. paradeigma) que
significa "modelo" ou "padrão". A melhor fonte para
nossa conceituação é Joel Arthur Barker, que desde
1974 vem trabalhando com pesquisas e consultoria
para grandes empresas, principalmente nas áreas de
inovação e antecipação ao futuro. Barker (1992, p.32),
após citar vários autores e pesquisadores, tais como
Thomas Khun, autor de A estrutura das revoluções
científicas, amplamente usado no mundo das ciências,
Wills Harmon, homem chave do Standford Research
Institute, e Marilyn Ferguson, editora e produtora do
New Sense Bulletin, apresenta sua definição de "para-
digma":

Conjunto de regras e regulamentos (explícitos e não


explícitos) que fazem duas coisas: (1) estabelecem li-
mites ou fronteiras; (2) nos dizem como devemos nos
comportar dentro destes limites de forma a sermos bem
sucedidos.

Além desta definição, Barker (1992, p.35) nos


apresenta uma lista de palavras que se associam ao
conceito de paradigma. São elas:
12 Quebrando Paradigmas

Teorias Medidas
Modelos Hábitos
Métodos Senso comum
Princípios Janelas convencionais
Padrões Valores
Estruturas Preconceitos
Rotinas Tradições
Costumes Doutrinas
Convenções Ideologias
Dogmas Regras

Paradigmas são, portanto, as fronteiras dentro


das quais o sucesso deve ser construído e as soluções
para os problemas devem ser encontradas. Paradigmas
são limites de possibilidades. Paradigmas são "verda-
des" que se fixaram na mente e que indicam um jeito
de ser, viver ou fazer as coisas. Novos paradigmas sur-
gem quando alguém descobre um jeito diferente de
encarar ou fazer alguma coisa. Após repetidas expe-
riências bem sucedidas à luz dos novos paradigmas,
eles acabam por se instalar como regras que possuem
um ar de definitivas, até que alguém as quebre, gerando
outros e novos paradigmas. Veja uma breve lista de
situações resultantes da quebra de paradigmas nos
últimos anos:
@! O desrespeito à autoridade, na família e na
sociedade em geral.
@! A valorização da informação como maior ri-
queza.
!@Abordagem pública da sexualidade; linguagem
obscena no rádio e 1V.
!@ Aceitação gradativa do homossexualismo.
!@ Descoberta de que nem sempre o maior é o
melhor: "small is beautiful".
O Conceito de Paradigmas 13

[@ O "mundo digital".
l@ A participação da mulher na política e nos
negócios.
l@ O Japão como paradigma de qualidade.

Agora, observe algumas coisas que tempos atrás


foram tidas como improváveis, ou mesmo impossíveis.
Veja o que disseram alguns dos mais ilustres homens
do passado (Barker, 1992, p. 89).

l@"Voar através de máquinas mais pesadas que


o ar é impraticável e insignificante, senão completa-
mente impossível" (Simon Newcomb, astrônomo, em
1902)

[@ Mulheres sensíveis e responsáveis não querem


votar" (Grover Cleveland, em 1905)

[@"Quem será o louco que vai querer ouvir atores


falando?" (Harry Warner, Warner Brothres Pictures,
em 1927)

Eu penso que existe um mercado mundial para


[@
apenas cinco computadores" (Thomas Watson, chair-
man da IBM, em 1943)

[@"Não existe qualquer razão para que uma pes-


soa tenha um computador em casa" (Ken Olsen, Pre-
sidente da Digital Equipment Corporation, em 1977)

Os paradigmas, portanto, ao mesmo tempo em


que estabelecem os limites e referenciais de segurança
pessoal e institucional, podem se transformar em blo-
queios para projetos que beneficiariam milhares de
14 Quebrando Paradigmas

pessoas. Quebrar urna regra de trânsito, pode custar


a vida de alguém, e nesse caso, o paradigma é um
instrumento para a segurança e a ordem nos grandes
centros urbanos. Por outro lado, deixar de repensar
os paradigmas ou obstacular seus aprimoramentos ou
mutações pode causar grandes prejuízos.
A esta altura de nossa argumentação duas res-
salvas são necessárias. A primeira diz respeito ao fato
de que ninguém vive sem paradigmas. É impossível
viver sem regras e padrões de raciocínio. Nesse caso,
devemos verificar constantemente se nossos paradig-
mas estão compatíveis com a realidade.
A segunda ressalva brota do ditado popular que
adverte para o fato de que ao jogarmos fora a água da
bacia, devemos cuidar para não jogarmos também o
bebê que foi banhado. Evidentemente, há critérios que
devem ser observados quando falamos em "quebrar
paradigmas". O equilíbrio nessa questão talvez se
enquadre nas mais dificeis artes.
Nesse caso, a quebra de paradigmas deve ser
norteada pelos mais elevados valores morais de urna
sociedade, e em nosso caso, enquanto cristãos, pelas
Sagradas Escrituras que apresentam princípios imu-
táveis e universais. Em outras palavras, há paradig-
mas irrevogáveis. Encontrá-los é urna das mais subli-
mes tarefa dos que pretendem mudar o mundo.
II
Bases Bíblicas
e Teológicas
Para a Igreja

:Í-ormulação Estratégica, Planejamento Es-


tratégico, Downsizing, Qualidade Total, Reengenharia,
dentre outros, são termos identificados com a exce-
lência em produtos e serviços na administração mo-
derna. São termos técnicos, não raras vezes entrelaça-
dos e controvertidos, capazes de afirmar o óbvio com
tamanha precisão que as organizações que negligen-
ciam estes processos estão fadadas ao fracasso. São
ferramentas tão válidas para as organizações, quanto
as fórmulas da física são válidas para a construção de
aviões e as leis espirituais para a saúde existencial.
Karl Lachler, meu professor na Faculdade Teo-
lógica Batista de São Paulo, sempre dizia em suas aulas
que "tudo que está na Bíblia é verdade, mas nem tudo
que é verdade está na Bíblia". Certamente a área de
estruturas e processos organizacionais enquadra-se
nesta afirmação. Isto é, quando focalizamos a comu-
nidade cristã local como grupo de cristãos unidos em
função de objetivos comuns, obviamente a sabedoria
chamada secular tem muito a nos ensinar, sem que
isso desmereça quaisquer conteúdos bíblicos e teoló-
gicos.
Nesse caso, o uso das mais modernas e eficazes
concepções gerenciais e administrativas é perfeita-
16 Quebrando Paradigmas

mente plausível no contexto da comunidade cristã.


Assim como um pastor se vale dos ensinamentos da
psicologia para sua prática de conselheiro, dos insights
da sociologia e antropologia para a interpretação de
sua cultura, e dos recursos da medicina para cuidar
do filho com febre, também deve valer-se dos princípios
para gerenciamento de pessoas ou grupos, tendo em
vista não somente viabilizar que cada cristão cumpra
seu ministério pessoal, como também mobilizar a Igreja
como um todo para que cumpra sua missão no mundo.
Com isto em mente, com a mesma seriedade com
que dou ouvidos aos teólogos mais credenciados, tam-
bém presto atenção àquilo que os administradores e
consultores têm a dizer, mesmo porque muitos deles
são cristãos apaixonados pelo Rei e pelo reino. Foi com
homens assim que aprendi a distinguir alguns concei-
tos interessantes, capazes de nos conceder uma melhor
visualização de nossas instituições.

CONCEITO DEFINIÇÃO

Razão Necessidade do mercado que justifica a


de Ser existência de uma instituição

Resposta de uma instituição à uma neces-


sidade específica do mercado; o que a insti-
Missão
tuição pretende fazer para suprir a neces-
sidade do mercado
Fator de distinção entre instituições afins; o
que caracteriza e cria a singularidade de uma
Filosofia instituição (os manuais usam ainda outros
termos tais como crenças, valores, cultura ou
filosofia)
Bases Bíblicas e Teológicas Para a Igreja 17

1. A Razão de Ser da Igreja

Que razões teria Deus para estabelecer a Igreja


no mundo e trabalhar para sua manutenção e expan-
são? Qual é a razão de ser da Igreja? Qual é o propósito
principal da Igreja?
Escolhi a carta do apóstolo Paulo aos Efésios
para basear minhas respostas. Ali, estão expostos os
propósitos eternos de Deus, coisas que Deus planejou
e fez antes da fundação do mundo e que foram se
concretizando na história. Efésios é uma síntese de
toda a Bíblia, e um texto tão abrangente que pode tratar
com profundidade tanto dos conflitos do Oriente Médio
quanto das brigas de um casal na segunda-feira.
Sendo fato que, como diz Efésios, as coisas come-
çam a acontecer desde antes da fundação do mundo,
então o melhor que podemos fazer é "começar do início
por uma questão de princípios": Génesis é nosso ponto
de partida.
O texto de Génesis narra a criação do ser huma-
no, nas pessoas de Adão e Eva. A narrativa nos dá
conta de que Deus delegou a Adão e Eva poder e autori-
dade sobre a criação, e eles tornaram-se responsáveis
pela administração do universo (Gn 1.26-28). Valeres-
saltar que Deus não .deu autonomia ao ser humano,
apenas compartilhou com ele a administração da cria-
ção. Nada no universo pode ser autônomo em relação
a Deus, senão teríamos dois deuses.
Houve, porém, um momento em que o ser huma-
no resolveu assumir o controle do universo para gover-
ná-lo por si mesmo, deixando Deus de lado. Deus era
11
o paradigma através do qual o ser humano derivava
sua concepção de certo e errado, bem e mal. Mas, o
ser humano acreditou que, tendo acesso à árvore do
18 Quebrando Paradigmas

conhecimento do bem e do mal, poderia assumir o


papel de normatizador do universo, poderia chamar
para si o direito de ser a fonte de autoridade acerca do
bem e do mal, do certo e do errado. Deus, que era o
centro de todas as coisas, foi posto de lado.
Evidentemente, Deus fez valer o contrato. Dizia
a cláusula de segurança que no dia em que o ser
humano partisse para "carreira solo", morreria (Gn
2.1 7). De fato, o advento do pecado trouxe a morte,
em pelo menos cinco dimensões:

(1) Morte fISica, porque agora o homem, criado


para viver eternamente, experimenta a fragilização do
seu corpo até às últimas conseqüências (Gn 3.22).

(2) Morte social, porque o homem, criado para


uma vida de comunhão e companheirismo com seus
semelhantes, agora experimenta uma sucessão inter-
minável de guerras e conflitos, transferindo sempre, à
semelhança de Adão e Eva (Gn 3.12, 13), suas culpas
interiores para terceiros.

(3) Morte existencial, porque o homem, criado


com completo autodomínio, experimenta a realidade
do medo, da culpa e a fragmentação de si mesmo,
chegando a ponto de afirmar ser capaz apenas de fazer
o mal que aborrece e incapaz de concretizar o bem
que deseja (Gn 3. 10; Rm 7.15).

(4) Morte cósmica, porque o homem, criado para


dominar a criação, tornou-se hóspede e prisioneiro do
universo, sofrendo o flagelo de maremotos e terremo-
tos, padecendo o câncer e a AIDS, e vivendo menos.
Tudo isso resultado de um universo administrado pela
Bases Bíblicas e Teológicas Para a Igreja 19

criatura, que é incapaz de administrar a si mesma.

(5) Morte espiritual, a mais básica e determinante


de todas as outras. Separação de Deus, quebra do rela-
cionamento básico e expulsão do paraíso, ou expul-
são da presença de Deus (Gn 3.23,24).

Cedendo à tentação da serpente, o ser humano


criado para dominar sob a ação e bênção de Deus,
tornou-se um hóspede prisioneiro do universo, sob a
ira e o juízo de Deus. O universo se desconjuntou e
tudo ficou fora do lugar. A terra, que Deus dera aos
filhos dos homens (Sl 115.16), os filhos dos homens a
entregaram ao inimigo, e por isso a Bíblia chama o
Diabo de "deus deste século (presente ordem)" (2 Co
4.4), e diz o que "o mundo (universo criado) jaz no
maligno" (1 Jo 5.19). Diz também que o ser humano
não está mais sob a influência de Deus, mas sim sob a
tirania do "príncipe das potestades do ar, o espírito
que opera nos filhos da desobediência", e agora não
faz mais a vontade de Deus, mas "a vontade da carne
e dos pensamentos", vive seguindo seus instintos des-
controlados e seus desejos desenfreados (Ef2. l-3). Não
é de admirar que o mundo esteja todo desarranjado.
Efésios, entretanto, vai mais além. Descreve que
Deus jamais desistiu de sua criação e projetou um
plano de resgate. Estabeleceu um propósito bem defi-
nido e tomou todas providências para que ele se consu-
masse. Diz o apóstolo Paulo que o propósito eterno de
Deus é "fazer convergir em Cristo todas as coisas, tanto
as que estão nos céus como as que estão na terra" (Ef
1.1 O). Isto é, Deus pretende trazer de volta para debaixo
do seu controle o universo usurpado pelo diabo.
As providências foram tomadas: o Senhor Jesus
20 Quebrando Paradigmas

veio como enviado do Pai para "buscar e salvar o que


se havia perdido" {Lc 19.10). Na cruz, o Senhor Jesus
"arrancou as armas dos principados e potestades e
triunfou sobre eles" (Cl 2.15). Em outras palavras, com
sua morte, o Senhor Jesus estava reconciliando o mun-
do com Deus, isto é, satisfazendo a justiça ultrajada
de Deus (2 Co 5.19-21), e readquirindo os direitos sobre
todo o universo. Por isso a teologia diz que o universo
pertence a Deus duas vezes: por direito de criação e
por direito de redenção.
Deus Pai honrou o sacrifício do Senhor Jesus, e
deixou isso bem claro ressuscitando-o de entre os mor-
tos e "fazendo-o sentar-se à sua direita nos céus, muito
acima de todo principado, e autoridade, e poder, e do-
mínio, e de todo nome que se nomeia, não somente
neste século mas também no vindouro" (Ef 1.20,21).
Foi por isso que o Senhor Jesus, ressurreto, reu-
niu seus discípulos e declarou solenemente que "toda
a autoridade me foi dada no céu e na terra" (Mt 28.19).
Em síntese, a boa notícia do evangelho é que o universo
tem um novo chefe: Jesus Cristo, o Senhor.

Podemos concordar com Ariovaldo Ramos


quando diz que o status do Senhor Jesus é tríplice:

(1) OSenhor Jesus é o centro de todo o imiverso:


"fazer convergir em Cristo todas as coisas" (Ef 1.10).
Isto quer dizer que tudo no universo deve acontecer
segundo os interesses e de acordo com o jeito do Senhor
Jesus.

(2) O Senhor Jesus é o cabeça de todo o universo:


"sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés( ... ) para
ser cabeça sobre todas as coisas" (Ef 1.22). Isto implica
Bases Bíblicas e Teológicas Para a Igreja 21

dizer que o Senhor Jesus é a única autoridade sobre


tudo e todos, e que todas as realidades devem se curvar
à sua vontade.

(3) O Senhor Jesus é a plenitude do universo:


"cumpre tudo em todas as coisas" (Ef 1.23). O que
significa que todas as realidades devem expressar o
Senhor Jesus, uma vez que somente em coerência com
ele o universo faz sentido, adquire seu potencial má-
ximo e realiza em si mesmo o propósito para o qual foi
criado.

A comparação entre esta percepção teológica e


a realidade do mundo nos conduzem à constatação de
que todo o universo pertence ao Senhor Jesus de direito
de criação e redenção, mas ainda está em rebeldia, o
que nos introduz na seqüência de Efésios, quando o
apóstolo Paulo nos ensina que "para que o Senhor
Jesus exerça domínio, seja o cabeça, sobre todo o uni-
verso, Deus o constituiu cabeça da Igreja" (Ef 1.22,23).
Isto é, o projeto inicial de Deus ainda está valendo: os
céus ainda são os céus do Senhor e a terra continua
entregue aos filhos dos homens. Deus ainda pretende
agir no mundo e dominar sua criação através daqueles
que se submetem a Ele.
Conclui-se, portanto, que a Igreja ocupa lugar
central no processo de retomada do reino de Deus. A
estratégia de Deus para redimir o universo inclui a
criação de uma nova humanidade em Cristo Jesus.
Paulo, apóstolo, ensina que:

"... a criação aguarda com ardente expectativa a


revelação dos filhos de Deus. Porquanto a criação ficou
sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa
22 Quebrando Paradigmas

daquele que a sujeitou, na esperança de que também


a própria criação há de ser liberta do cativeiro da
corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de
Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjunta-
mente, geme e está com dores de parto até agora; e
não só ela, mas até nós, que temos as primícias do
Espírito, também gememos em nós mesmos, aguar-
dando a nossa adoção, a saber, a redenção do nosso
corpo" (Rm 8.18-23).

"Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo,


não imputando aos homens as suas transgressões; e
nos encarregou da palavra da reconciliação" (2Co
5.19).

Em outras palavras, a plena redenção do uni-


verso se consumará quando a nova humanidade em
Cristo estiver construída. O ato redentor de Deus reco-
locando o homem em seu status original trás impli-
cações para a harmonia plena do universo. O raciocínio
teológico segue a lógica de que assim como todo o
universo foi afeta do pelo pecado do homem, assim
também todo o universo será resgatado com a redenção
do homem.
Falando em termos de causa e efeito, podemos
afirmar que o pecado do homem é a causa, e a desar-
monia cósmica é a conseqüência. Logo, a redenção do
homem teria como conseqüência o resgate de todo o
universo. Este é o sentido do pensamento do apóstolo
Paulo: (1) a criação geme e aguarda a redenção dos
filhos de Deus, que a libertará do cativeiro; (2) Deus
estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, dei-
xando de levar em conta as transgressões dos homens.
Isto nos leva a crer que a razão de ser da Igreja
Bases Bíblicas e Teológicas Para a Igreja 23

é a reconciliação da criação com o Criador. Isto é,


"a necessidade do mercado que justifica a existência
da Igreja" é que Cristo quer ser Senhor de fato sobre
todo o universo criado, devolvendo-o à harmonia
original, através da reconciliação do homem com Deus.
O diagrama elaborado por Karl Bosma resume
bem toda esta argumentação de Efésios e a razão de
ser da Igreja:

2. A Missão da Igreja

Como, então, a Igreja responde à sua razão de


ser? Isto é, o que a Igreja deve fazer no mundo para
que todas as coisas sejam submetidas, de direito e de
fato, ao controle do Senhor Jesus? A resposta a estas
perguntas define a missão da Igreja.
A chamada Grande Comissão, em suas múltiplas
formas deve ser o nosso referencial:

"Foi me dada toda autoridade no céu e na terra. Portanto


ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os
em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos
tenho mandado, e eis que estou convosco todos os dias
24 Quebrando Paradigmas

até a consumação dos séculos" (Mateus 28.18-20).

"Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda


criatura" (Marcos 16.15).

"Assim está escrito que o Cristo padecesse, e ao


terceiro dia ressurgisse dentre os mortos; e que em
seu nome se pregasse o arrependimento para
remissão dos pecados, a todas as nações, começando
por Jerusalém" (Lucas 24.46,47)

"Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito


Santo, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém,
como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da
terra" (Atos 1.8).

Estes textos propõem, como afirmou o Rev. John


Stott (1975, p. 27), uma "ênfase cumulativa" que pode
conduzir à falsa interpretação de que a missão da Igreja
se resume em pregar; converter e ensinar. Entretanto,
há alguns pilares básicos no comissionamento da Igreja
que, sendo negligenciados, reduzem em muito o con-
ceito de missão:

(1) A abrangência da missão da Igreja é quase


ilimitada. O texto de Mateus fala a respeito de toda
autoridade, toda a divindade, todas as nações, todas
as ordens do novo Rei, todos os dias. A abrangência
deste comissionamento indica que a missão da Igreja
extrapola a conversão do indivíduo, sendo, na verdade,
um projeto global de redenção.

{2) O conteúdo da proclamação da Igreja envolve


"todas as coisas que Jesus mandou", e isto abrange
Bases Bíblicas e Teológicas Para a Igreja 25

muito mais do que o plano da salvação. O evangelho


todo, ou "todo o conselho de Deus", como disse o após-
tolo Paulo (At 20.27), inclui a totalidade do propósito
de Deus para a sua criação.

(3) O comissionamento está alicerçado no fato de


que toda a autoridade está de volta nas mãos do Senhor
Jesus. A Igreja é responsável por proclamar que o uni-
verso tem um novo soberano, que o tempo da rebeldia
cessou e que o reino de Deus foi inaugurado. Esta, na
verdade, é a boa nova: haverá uma "consumação dos
séculos", um fim bom para a criação e a instalação do
reino eterno de Deus, e dele farão parte todos aqueles
que a partir de agora se submeterem ao novo Rei, todos
aqueles que se "arrependerem, e forem redimidos de
seus pecados" (Me 1.14).

O fim último da missão da Igreja não é a conver-


são em massa de pecadores, mas a instalação definitiva
do reino de Deus: "Santificado seja o teu nome, venha
o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra
como no céu" (Mt 6.9, 10). Como bem disse John Stott
(1989, p. 43):

"não devemos separar a salvação do reino de Deus.


Na Bíblia, estes dois são virtualmente sinônimos,
modelos alternativos que descrevem a mesma obra
de Deus. Quando Jesus disse aos seus discípulos:
'quão difícil é entrar no reino de Deus', parece ter sido
natural que eles respondessem com a pergunta:
'Então, quem pode ser salvo?' (Me 10.24-26). É
evidente que, para eles, entrar no reino de Deus era o
mesmo que ser salvo".
26 Quebrando Paradigmas

Em síntese, Deus não está resgatando apenas


pessoas, está resgatando o universo e restaurando a
plena ordem e harmonia cósmica sob os pés do Senhor
Jesus. À luz desta compreensão, devemos concordar
com Lausanne quando afirma que a missão da Igreja
é levar o evangelho todo para o homem todo, promo-
vendo a manifestação histórica do reino de Deus como
um sinal do que será a terra nova. Fazer discípulos é
apenas uma dimensão desta ação integral de estar no
mundo como o Senhor Jesus no mundo esteve: "Assim
como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós" (Jo
20.21).
Mais uma vez lanço mão de argumentos de
Ariovaldo Ramos (1995, p. 43):

''..4s vezes penso que a Igreja se comporta como um


bizarro grupo guerrilheiro: imagine um grupo guerri-
lheiro cujo objetivo seja o de agregar às suas fileiras o
maior número de cidadãos do país; imagine que o
grupo, depois de muito esforço, consiga isto, ou seja,
mais de 50% da população do país tomou-se membro
do tal grupo; entretanto, como esse era todo o objetivo
do grupo, este, mesmo constituindo a maioria da nação,
não está no poder, isto é, tem a maioria das pessoas
mas não afetou em nada a realidade à sua volta. A
Igreja, muitas vezes, parece comportar-se assim
também. Todo o seu objetivo é arrebanhar a maioria
das pessoas da cidade para si, sem, contudo, ter um
projeto para a cidade. É por isso que, muitas vezes, a
Igreja, apesar de crescer muito numa cidade, não muda
nada a vida da mesma. Não queremos apenas
aumentar o número de convertidos numa cidade,
queremos nos apossar dela. Queremos que mesmo
os que não se converterem sejam afetados pela
Bases Bíblicas e Teológicas Para a Igreja 27

presença de Deus na cidade, e que, por causa da


palpabilidade desta presença, pensem muito bem
antes de levantarem-se contra a vontade de Deus.
Nosso modus operandi, nessa conquista, não é a
busca pelo poder político ou econômico; é o interceder,
o salgar, o profetizar e o servir até que, pelo efeito do
fermento, a cidade toda fique levedada (Lc 20.21 )".

Na década de 80, o movimento que no Brasil foi


batizado de Evangelical, enfatizou a "missão integral,
ou holística, da Igreja". A proposta para as dimensões
da ação da Igreja no mundo era dupla: resgatar o in-
divíduo e atacar os centros nervosos da sociedade. O
conceito de pecado era abrangente: "individual" e
"estrutural", devendo a igreja enfrentar tanto as hostes
espirituais que oprimem indivíduos, quanto as hostes
espirituais que geram estruturas sociais que conspiram
contra os interesses do reino de Deus, e igualmente
aprisionam indivíduos. A máxima "corpo sem alma é
defunto, e alma sem corpo é fantasma", trouxe extraor-
dinária implicação missiológica: resgatar pessoas
inteiras, propiciando-lhes o acesso ao pão de trigo e
dando-lhes, pela graça, o pão da vida.
O possível conflito entre evangelizar e servir
gerou intensa discussão. O relatório final da Consulta
sobre a relação entre a Evangelização e a Responsa-
bilidade Social, realizada em Grand Rapids em junho
de 1982 (Série Lausanne - Vol 2, 1983, p. 20), apazi-
guou os ânimos ao concluir que:

(1)A ação social é conseqüência da evangeli-


zação, pois através da pregação do evangelho Deus
produz nas pessoas o novo nascimento, e esta nova
vida se manifesta no serviço prestado aos outros. A
28 Quebrando Paradigmas

solidariedade, enquanto marca do caráter cristão à luz


do modelo de Jesus que "veio para servir" (Me 10.45) e
"andou por toda parte fazendo o bem" (At 10.38), é
caracteristica da Igreja em missão. A Bíblia ensina que
o Senhor Jesus deu-se a si mesmo por nós, não apenas
para "remir-nos de toda iniqüidade", mas também com
o fim de "purificar para si mesmo um povo exclusiva-
mente seu, zeloso de boas obras" (Tt 2.14), de modo
que "somos criados em Cristo Jesus para as boas
obras, as quais Deus de antemão preparou, a fim de
que andássemos nelas"(Ef 2.10).

(2) A ação social é ponte para a evangelização,


pois abre portas para a proclamação do evangelho. O
próprio Jesus algumas vezes manifestou obras de mise-
ricórdia antes de proclamar o reino de Deus.

(3) A ação social é parceira da evangelização, uma


vez que até mesmo no ministério de Jesus a proclama-
ção e o serviço andavam de mãos dadas. Ele alimentou
os famintos, curou os enfermos, instruiu os ignorantes
e proclamou as boas novas do reino de Deus.

Muito se falou também acerca dos níveis de


tratamento que a Igreja deveria dar à questão social.
A maioria acreditava que a Igreja deveria "dar o peixe
e ensinar a pescar". Mas um grupo considerável estava
convencido que, além destas duas dimensões, a Igreja
deveria somar forças para a transformação das estru-
turas sociais, à luz do conceito de co-beligerância,
desenvolvido por Francis Schaeffer. Isto é, unir-se à
sociedade civil organizada em razão de valores comuns
na promoção da justiça e da paz. A Consulta sobre a
relação entre a Evangelização e a Responsabilidade
Bases Bíblicas e Teológicas Para a Igreja 29

Social também se pronunciou dizendo que a responsa-


bilidade social dos cristãos deveria contemplar a (1)
filantropia, (2) os projetos comunitários de desenvol-
vimento, e (3) a ação política (1983, p.38).
Evidentemente, toda esta discussão gerou exces-
sos, e alguns polarizaram na carona da teologia da
Libertação que absolutizou o social e estrutural. Ou-
tros, escaparam pela via da ingênua convicção de que
"mudando o indivíduo, muda-se a estrutura", e foca-
lizaram apenas a evangelização.
Vale ressaltar que não devemos confundir o reino
de Deus com a sociedade cristianizada, como fizeram
os teólogos do "evangelho social", que acreditavam que
poderiam estabelecer o reino de Deus na terra. Con-
fesso que, por vezes acredito que alguns discursos ufa-
nistas de lideranças evangélicas no Brasil caminham
nesta direção, ou do anseio constantiniano de casar
Estado e Igreja, numa união que a história jâ provou
infrutífera e danosa para ambos. Todos sabemos que
o reino de Deus está inaugurado, mas não está con-
sumado; será consumado quando o Senhor Jesus tiver
posto todos os inimigos debaixo dos seus pés e, tendo
destruído todo poder, e domínio, e autoridade, inclusive
a morte, entregar o reino a Deus, o Pai (1Co15.24-26).
Por outro lado, é indiscutível que, como disse
Charles Finney (Stott, 1989, p. 20), "o evangelho libera
um poderoso impulso rumo a reforma social", e que
esse impulso já se manifestou historicamente, como
no caso do avivamento wesleyano na Inglaterra do sé-
culo XIX, resultando por exemplo na reforma do sis-
tema penitenciário, na abolição do tráfico de escravos,
no surgimento dos primeiros sindicatos e na melhoria
das condições de trabalho nas minas e fábricas. Assim,
pois, quando falamos acerca da missão da Igreja,
30 Quebrando Paradigmas

devemos encarar a ação integral da Igreja no mundo,


e não apenas a dimensão do resgate ao indivíduo.
Este é o embasamento bíblico-teológico para a
ação da Igreja tanto em sua dimensão universal, como
corpo de Cristo, quanto para sua dimensão local, en-
quanto comunidade cristã. Evidentemente, uma comu-
nidade cristã local jamais conseguirá conquistar o
mundo para Cristo. Mas no sentido teológico, que
orienta a igreja a agir "tanto em Jerusalém, como em
toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra" (At
1.8), devemos crer que o âmbito de atuação de uma
igreja não pode se restringir a um bairro, uma cidade
ou um país. A ação de uma igreja deve ser simultânea
no distante e no imediato a partir de seu próprio con-
texto.
c. s. Lewis, resume bem tudo isso quando diz
que o mundo é um território ocupado pelo inimigo e "o
Cristianismo é a história de como o rei justo desem-
barcou (poderíamos dizer, desembarcou disfarçado) e
nos chama para uma grande campanha de sabotagem".

3. A Filosofia da Igreja

Até agora vimos que a missão da Igreja é levar o


evangelho todo para o homem todo. Mas, cada igreja
desenvolverá sua própria maneira de cumprir esta mis-
são, que chamamos defilosofiade ministério. Afilosofia
diz respeito às ênfases e valores peculiares de cada
igreja local. Diz respeito a um jeito de ser, ao como
cumprir sua missão deixada pelo Senhor da Igreja.
Mais ainda do que os conceitos de razão de ser e mis-
são, a filosofia tem tudo a ver com paradigmas, uma
vez que é na filosofia que as comunidades deixam
transparecer seu jeito de pensar, seus limites de pos-
Bases Bíblicas e Teológicas Para a Igreja 31

sibilidades e seus padrões de comportamento.


Nesse caso, não podemos encontrar uma decla-
ração de.filosofia que seja comum a todas as comu-
nidades locais. Podemos e devemos crer que os con-
ceitos de negócio, missão e estratégia possuem defi-
nições bíblicas que não podemos alterar. O conceito
de filosofia, entretanto, varia de igreja para igreja, de
contexto para contexto. Cada comunidade cristã, por-
tanto, é responsável por elaborar sua declaração de
filosofia à luz de bases bíblicas e teológicas, mas deve-
mos compreender que a Bíblia oferece razoável margem
de liberdade que favorece visões diferentes entre si.
Há uns 12 anos atrás tive meu primeiro contato
com estes conceitos através de Peter Wagner, quando
insistiu: "Escreva Sua Filosofia de Ministério" (1984,
pg 1 75). O texto contava a experiência de quatro dife-
rentes igrejas na área de Los Angeles. A primeira, a
Catedral de Cristal, liderada por Robert Schuller, foi
chamada por Wagner de "igreja da vida real", uma vez
que o ministério era direcionado para pessoas avessas
à religião. Schuller dizia que não gostava de pregar,
pois o povo de sua região não dava crédito às Escri-
turas. O púlpito era usado para testemunhar o que
Jesus podia fazer "na vida real das pessoas". Seus ser-
mões eram, e ainda são, discursos filosóficos recheados
de teologia.
O segundo modelo foi a Grace Community Chur-
ch, chamada de "igreja-escola", e pastoreada por John
MacArthur, que dedicava-se quase que exclusivamente
a expor as Escrituras para um povo que levava cader-
nos para anotações dos sermões.
O terceiro exemplo foi a Vineyard Christian
Fellowship, chamada de "igreja da geração jovem",
cujos cultos aconteciam num ginásio e onde as pessoas
32 Quebrando Paradigmas

entre 18 e 30 anos iam como se estivessem vestidas


para um show de rock. John Wimber era o pastor à
época. Vineyard hoje está bem diferente. A filosofia
mudou.
Finalmente, Wagner apresentou a Paradise Bap-
tist Church, que denominou de "igreja do empurrão
espiritual", que pela ênfase no poder do Espírito Santo
tornara-se uma das mais destacadas igrejas dos negros
de Los Angeles.
Alex Periscinoto, em sua coluna CRIAÇÃO &
CONSUMO, no jornal "Folha de São Paulo", apresentou
e elogiou a filosofia de ministério da Metro Baptist
Church, de Nova York. Sua fonte foi um anúncio da
Igreja com o seguinte título: "Desabrigados no fim do
quarteirão. Prostitutas na esquina. Traficantes de crack
no outro lado da rua. Que ótimo lugar para uma Igreja".
Abaixo, seguia o texto que singulariza a "Metro
Baptist Church":

"Jesus não freqüentava clubes de campo, teatros ou


restaurantes caros, ele sempre ia onde havia carências. As
mesmas que correm soltas na cidade de Nova York hoje
em dia. Carências como seres humanos famintos e com frio
dormindo nas grades dos exaustores do metrô por causa
do ar quente. Carências como pessoas capturadas na teia
do abuso e do uso de drogas. Ou carências como homens,
mulheres e crianças vendendo seus preciosos corpos por
uma migalha de comida, um abrigo ou simplesmente um
lugar qualquer para passar a noite. Conhecemos estas
carências tão bem porque as vemos todos os dias. Nossa
Igreja fica bem no meio da Clin.ton South, lugar mais
conhecido como A Cozinha do Inferno. Bem, agora Deus
está na Cozinha do Inferno. Nossos ministros oferecem
comida e roupas, enquanto nossa congregação oferece
Bases Bíblicas e Teológicas Para a Igreja 33

amor e apoio. Gostamos de pensar que isso é o que Jesus


faria. Visualizamos o dia em que nossa vizinhança mudará
de estar cheia de luta para estar cheia de amor. Só nesse
dia nós nos mudaremos".

Outro exemplo bastante salutar é a Lake Avenue


Community Church, em Pasadena, Califórnia, com sua
estrutura montada em três pilares: célula, que reúne
12 a 15 pessoas; congregação, cada uma com seu pas-
tor, reunindo aproximadamente 150 pessoas; e cele-
bração, que reúne a igreja toda. Ray Ortlund, em seu
livro Senhor, faça da minha um milagre, narra como
em 1968, deu o pontapé inicial nesta filosofia, colo-
cando a Igreja diante de três compromissos básicos:
(1) onde quer que você esteja espiritualmente, entregue
de novo seu coração a Jesus; (2) comprometa-se com
o corpo de Cristo; e (3) comprometa-se com o mundo -
com seu trabalho neste mundo e seu testemunho a
ele.
A Willow Creek Community Church, em Chicago,
EUA, é outro exemplo inovador e inspirador baseado
em quatro princípios básicos, que englobam: (1) ares-
ponsabilidade pessoal do cristão em testemunhar; (2)
a diferença entre as necessidades dos cristãos e não
cristãos; (3) o processo distinto da jornada espiritual
de cada pessoa; e (4) o fato de cada cristão é capacita-
do por Deus para ministrar no corpo de Cristo.
Bill Hybels, 45, principal pastor da Willow Creek,
em entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo,
em 25 de dezembro de 1991, salienta que a intenção
da Igreja é proporcionar a oportunidade de que as
pessoas se relacionem com Deus à distância dos rituais
chatos da religião. Com uma abordagem atual, sem a
velha distinção entre social e espiritual, Bill Hybels
34 Quebrando Paradigmas

pretende fugir da coação e manipulação, enfatizando


a instrução e o esclarecimento do povo a respeito de
temas relevantes. A Willow Creek, em função de sua
filosofia, é um dos mais discutidos modelos eclesiás-
ticos atualmente nos Estados Unidos.
Também no Brasil, esta diversidade de filosofias
de ministérios tem segmentado o povo evangélico a
partir de diferentes propostas de vivência da fé. Consi-
derando que a filosofia de ministério indica claramente
o que cada pessoa pode esperar ou até mesmo procurar
em uma comunidade cristã, cada comunidade traz
para si um certo tipo de pessoas.
Usando a linguagem do marketing, ainda que
ressaltando-se o perigo das generalizações, podemos
afirmar que cada segmento cristão possui um apelo
distinto para o mercado. A Igreja Universal do Reino
de Deus, por exemplo, concentra sua ênfase na solução
para problemas. Todo o apelo da Igreja do Bispo Edir
Macedo está voltado para a tríade cura-exorcismo-pros-
peridade como veículo para satisfação de necessidades
imediatas.
As igrejas pentecostais históricas enfatizam o
poder do Espírito Santo, notadamente na manifestação
de dons espirituais de êxtase verbal - daí a ênfase no
dom de línguas estranhas, revelações e profecias, e do
confronto com os poderes das trevas. As igrejas chama-
das neo-pentecostais enfatizamfenômenos espirituais,
o que explica os dentes de ouro, sopros e quedas, arre-
batamentos, visões, bem como uma boa dose de pros-
peridade financeira como resultado da intervenção
milagrosa de Deus.
As igrejas reformadas enfatizam o saber teológico,
o que nos leva considerar que os pentecostais vão ao
templo para falar com Deus e os reformados vão ao
Bases Bíblicas e Teológicas Para a Igreja 35

templo para falar a respeito de Deus.


Em síntese, está claro que as igrejas, enquanto
comunidades cristãs locais, são diferentes entre si. Vale
ressaltar, entretanto, que, respeitados os limites bíbli-
cos, não há qualquer razão para que se busque a uni-
formidade entre as filosofias de ministério, ou que se
afirme um modelo eclesiástico como único e universal.
Na verdade, a diversidade de visões ministeriais é um
reflexo da multiforme sabedoria de Deus expressa em
sua Igreja, como também um resultado concreto da
diversidade do corpo de Cristo. Devemos, portanto, va-
lorizar e respeitar as formas que as igrejas vão assu-
mindo cultural e historicamente.
III
A Igreja e Seus
Paradigmas

9'eter Wagner, no artigo já citado, comenta que


todas as filosofias de ministério são válidas e alcançam
pessoas diferentes. Veja o que ele diz: "Nenhuma igreja
pode fazer todo o trabalho; nenhuma igreja consegue
ministrar a todas as necessidades humanas. Portanto,
a excelência no ministério envolve fazer algumas esco-
lhas. Ninguém pode dizer: Temos alguma coisa para
cada tipo de pessoa'. Cada Igreja deve decidir sua iden-
tidade peculiar e potencializar sua personalidade úni-
ca". É esta "personalidade única" que chamamos de
filosofia.
George Barna (1991, p. 52) caminha na mesma
direção, quando afirma que "igrejas podem atrair mais
pessoas para si mesmas empreendendo um pequeno
número de ministérios chave com excelência, do que
realizando muitas coisas apenas adequadamente". Em
outras palavras, é mais eficaz fazer poucas coisas real-
mente bem feitas, do que muitas coisas com quali-
dade apenas razoável.
Este conceito de filosofia ministerial traz consigo
duas questões básicas que merecem considerações.
Em primeiro lugar, é evidente que há distâncias diferen-
tes entre as filosofias ministeriais e os princípios da
palavra de Deus. É perfeitamente possível que uma
38 Quebrando Paradigmas

comunidade cristã esteja assentada em areia movediça,


uma vez que não é raro encontrarmos igrejas funcio-
nando à luz de princípios nitidamente conflitantes com
os modelos bíblicos. É fato que alguns modelos ecle-
siásticos são mais compatíveis com os modelos bíblicos
do que outros, e cabe a cada liderança cristã o exercício
do discernimento tendo o Espírito Santo como fonte
de luz e a Bíblia como bússola para a jornada.
Em segundo lugar, é importante registrar que
todas as comunidades cristãs, sem exceção, funcionam
a partir de uma filosofia. Nem sempre seus membros
ou líderes têm consciência dos valores e princípios que
norteiam sua vivência religiosa, mas certamente res-
pondem a um tipo de raciocínio lógico, e nem sempre
verdadeiro. Isto é, cada líder possui seu "jeito próprio
de pensar a Igreja", sua natureza e missão, que acaba
por influenciar a prática ministerial, a estrutura ecle-
siástica, as ênfases e ações cotidianas do ministério
pastoral e comunitário.
Em se tratando de diversidade na filosofia, o pro-
blema é que parece haver cada vez menos diversidade.
A maioria dos líderes tem a tendência de reproduzir os
modelos e responder aos paradigmas de seu tempo.
Enxergam a Igreja sob lentes herdadas e nem sempre
param para avaliar a compatibilidade do modelo ado-
tado com os referenciais das Escrituras. São guiados
por paradigmas definidos de antemão, e na maioria
das vezes, não se dão conta de que respondem a uma
"inteligência" raras vezes tão inteligente assim.
Nesse caso, considerando que a igreja pode ser
também avaliada como uma organização sujeita aos
limites impostos pelos paradigmas, temos a obrigação
de avaliar como as igrejas funcionam hoje, verificar se
sempre funcionaram assim ou se há outro jeito de ser
A Igreja e Seus Paradigmas 39

igreja, mais eficaz e mais compatível com a palavra de


Deus.
Conquanto não seja possível enquadrar todas
as comunidades cristãs num único jeito de ser, acredito
que hã uma mentalidade vigente, uma certa maneira
de pensar a igreja, que se torna representativa da gran-
de maioria das comunidades cristãs. Creio que pode-
mos identificar esta mentalidade eclesiástica à luz de
quatro grandes conceitos, ou paradigmas, a saber: cul-
to, clero, domingo e templo.
Certo semanário denominacional publicou re-
portagem onde o articulista elogiava o vigor de uma
comunidade cristã. Dizia o artigo que a Igreja batizava
mais de 300 novos cristãos por ano e que atendia mais
de 400 crianças a cada domingo em sua escola domi-
nical. Comentava acerca do culto jovem no sábado à
noite, que reunia mais de 1000 jovens semanalmente,
e dos quatro cultos dominicais, todos com casa cheia.
Arrematava dizendo que o grande desafio para aquela
igreja, como também para todas as demais igrejas, era
ampliar aquele imenso santuário, abrindo-o em forma
de leque, construindo dezenas e dezenas de galerias
(tal qual aquela mega-igreja de Seul) e enchê-lo de
almas salvas por Cristo Jesus.
Obviamente, uma Igreja com estes números exer-
ce influência significativa na sociedade, principalmente
em se tratando do contexto do nordeste brasileiro, mas
o articulista foi incapaz de vê-la. Por que? Por causa
dos paradigmas "culto, clero, domingo e templo". Que
fatores impediram o articulista de valorizar a influência
dos profissionais cristãos na sociedade, a extensão das
obras sociais desenvolvidas pela Igreja, ou quem sabe
o arrojo missionário daqueles irmãos? Os paradigmas
viciaram a mente do cristão a compreender a Igreja como
40 Quebrando Paradigmas

um acontecimento semanal. Daí o conceito de que uma


igreja viva é aquela que possui um imenso santuário
que por sua vez está sempre cheio de "almas salvas
por Cristo".
Lembro-me também de um grande painel que
encontrei na entrada de uma instituição cristã. Mostra-
va um sujeito seguido por sua casinha à caminho do
templo, com os seguintes dizeres: "Eu e minha casa
serviremos ao Senhor". Novamente um flagrante dos
paradigmas "culto, clero, templo e domingo". Eles são
responsáveis pela representação de serviço a Deus co-
mo freqüência ao templo. Creio que o painel seria mais
fiel ao espírito da Escritura se mostrasse o cristão sain-
do do templo e afirmando seu compromisso de serviço.
Um outro, e último exemplo, é a propaganda de
um seminário teológico cuja campanha dizia: "Invista
em você e prepare-se para ser um servo que reflita
neste mundo a vida de Jesus Cristo". Na capa, havia
um desenho estilizado de um pastor no púlpito. Erro:
associar o "refletir a vida de Jesus Cristo no mundo"
com algo que é desenvolvido pelo clero, o pregador, no
templo, no domingo e no culto. A filosofia está correta,
mas os paradigmas impedem-na de concretizar-se.
Nas próximas páginas tentaremos avaliar estes
paradigmas à luz da Bíblia, buscando compreender
não apenas como limitam o potencial da igreja, mas
principalmente quais são algumas alternativas possí-
veis para que a igreja redescubra a liberdade estrutural
característica do cristianismo primitivo. O ensinamento
bíblico é que a Igreja do Senhor Jesus está desafiada
a viver além dos limites do culto-clero-domingo-
templo.
A Igreja e Seus Paradigmas 41

1. A Igreja e o Templo

A Bíblia possui várias avenidas principais. Marti-


nho Lutero dizia que a Bíblia é cristocêntrica; os teó-
logos da libertação já preferem transitar pela teologia
do reino de Deus; outros irmãos seguem adiante pelas
tortuosas e sinuantes estradas escatológicas; e tantas
outras possibilidades podem ser alistadas. Creio que
uma das avenidas principais da Bíblia é a narrativa
do processo de Deus em busca de compartilhar sua
vida e presença com as pessoas, criadas à sua imagem
e semelhança. Se estou bem certo, encontro seis fases
deste processo de Deus.

( 1J Face à Face no Paraíso

No início, o ser humano e Deus conversavam


face à face na virada do dia (Gn 2. 7). Até que o pecado
tomou lugar e o ser humano foi expulso da presença
de Deus. A partir de então, Deus não estava mais pre-
sente entre os homens, devendo ser buscado através
de ofertas e sacrifícios. A decadência humana foi
acelerada: os exemplos de Abel (Gn 4.4) e Enoque (Gn
5.24) são isolados e o quadro mais próximo de um mun-
do administrado pela criatura, sem que o Criador tenha
vez e voz, é a geração que precede o dilúvio (Gn 6.1-
12). Mas Deus iniciou um longo projeto de redenção e
entrou numa nova fase do processo de repartir sua
vida com as pessoas.

(2) No Meio do Povo, no Tabernáculo

Deus chamou um homem de nome Abrão e lhe


fez a promessa de abençoar todas as famílias da terra,
42 Quebrando Paradigmas

fazendo dele, Abrão, o pai desta nação abençoada (Gn


12.1-3). Seguem-se narrativas de cultos com os Patriar-
cas edificando altares onde Deus a eles se manifestava,
e isso pode ser interpretado na perspectiva de Deus
em busca do homem, e não do homem em busca de
Deus, visto que o culto era sempre um ato segundo:
Deus se manifestava e o homem respondia com sacrifi-
cios e ofertas.
Enquanto isso, Deus esperou quatrocentos anos
para que a nação prometida começasse a aparecer: a
semente de Abraão se multiplica e torna-se numerosa
sob o domínio tirânico do Egito e, somente então, Deus
dá continuidade ao seu plano redentor.
A proposta de Deus é a libertação de Israel, para
guiá-lo pelo deserto através de Moisés (SI 77.20). Este
povo que percorreria o deserto seria identificado como
povo de Deus, um reino sacerdotal, uma ponte entre
Deus e as nações (Êx 19.1-6). Deus providenciou, en-
tão, uma forma de sinalizar sua bênção e repartir sua
presença com o povo no deserto. E exatamente aí come-
çou a segunda fase do processo de Deus em repartir
sua vida e presença com as pessoas: o Tabernáculo, o
templo móvel que estava sempre no meio do povo,
acompanhando-o em suas andanças pelo deserto ime-
diatamente após a libertação da escravidão no Egito
(Êx 25.8; 29.45,46; 33. 7).
O Tabernáculo foi uma experiência que perdurou
por mais de quatrocentos anos, até o início do periodo
do reino unido, quando o rei Davi desejou "construir
uma casa para Deus" (2 Sm 7).

(3) Com Endereço, no Templo

A terceira fase do processo de Deus em repartir


A Igreja e Seus Paradigmas 43

sua vida e presença com as pessoas interrompeu o


projeto original que ganhava corpo com a figura do
Tabernáculo. Deus queria sinalizar sua presença no
meio do povo, mas não queria um endereço fixo. Davi,
entretanto, projeta o Templo argumentando que a casa
de Deus não poderia ser uma tenda que alguém monta
e desmonta enquanto que a casa do rei era feita de
cedro e cheia de todas as riquezas.
A reação de Deus à proposta de Davi foi seme-
lhante ao incidente do estabelecimento da monarquia:
a princípio desaconselha, mas acaba abençoando. Deus
deixou claro que não desejava um endereço, e
aproveitou a ocasião para fazer a Davi a promessa de
que um dos seus descendentes construiria uma casa
eterna onde, ali sim, Deus habitaria (1 Sm 8.4-22; 2
Sm 7; 1Cr17.4-15; 2 Cr7.12-18). Em termos imedia-
tos, este descendente era Salomão, mas ficou muito
claro que na verdade era uma referência ao Senhor
Jesus, pois a promessa apontava para "um reino esta-
belecido para sempre" (2 Sm 7.13, 16).

(4) Em toda a sua glória, em Jesus de Nazaré

Jesus de Nazaré é a expressão máxima da pre-


sença de Deus no mundo. É Deus encarnado. Aspa-
lavras do próprio Senhor Jesus deixam claro sua cons-
ciência a este respeito: "Eu e o Pai somos um, de modo
que quem me vê a mim, vê o Pai" (Jo 10.30; 14.9).

(5) Nas Pessoas, na Igreja

Quase mil anos depois de Salomão, o Senhor


Jesus está diante do templo de Jerusalém, que já não
era mais aquele construído por Salomão, mas o re-
44 Quebrando Paradigmas

constrnído por Zorobabel, fazendo a seguinte decla-


ração: "Derribai este santuário, e em três dias o levanta-
rei". João, o evangelista, explica que Jesus se referia
ao seu corpo, numa alusão claríssima à ressurreição
(Jo 2.19-21).
É neste contexto que devemos entender a pro-
messa de Jesus: "Na casa do meu Pai há muitas mora-
das; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito; vou prepa-
rar-vos lugar. E, se eu for e vos preparar lugar, virei
outra vez, e vos tomarei para mim mesmo, para que
onde eu estiver estejais vós também" (Jo 14.2,3). Jesus
cumpre sua promessa: morre, e após três dias ressus-
cita com a casa do Pai pronta e com lugar suficiente
para todos os que pela fé se unissem a Ele. A glória de
Deus, antigamente localizada no Tabernáculo e depois
no Templo, agora estava em Cristo e seria comparti-
lhada com todos os que, pela fé, têm comunhão com
Ele.
As palavras de Jesus "eu vou e volto" devem ser
entendidas como referentes à sua morte e ressurreição,
e não como indicativas de sua segunda vinda, pelo
menos por 4 razões:

1. A preocupação dos apóstolos dizia respeito ao


presente, e não ao feturo: o que aconteceria com eles
após a morte de Jesus e não após a sua própria morte;

2. Qualquer judeu em Jerusalém que ouvisse a expres-


são "casa do Pai" enxergaria o Templo, e não o céu;

3. O contexto da afirmação de Jesus é Jo 2.19-21,


quando a casa do Pai é identificada com o Templo de
Jerusalém e o corpo de Cristo, e não com o céu;
A Igreja e Seus Paradigmas 45

4. A promessa de "estar onde Jesus estiver" tem pre-


visão de três dias para o seu cumprimento; não se trata
de "morrer e ir para o céu", mas de experimentar his-
toricamente a presença de Jesus.

A casa do Pai é, portanto, a Igreja, o corpo de


Cristo, onde temos perfeita comunhão com o Senhor
Jesus. Nosso reencontro com o Senhor Jesus não é
uma promessa escatológica, mas uma realidade vigente
através do Espírito Santo. Afinal, o Senhor Jesus
prometeu que estaria conosco todos os dias até a
consumação dos séculos {Mt 28.20), e que, juntamente
com seu Pai viveria e faria morada naqueles que
guardassem sua palavra {Jo 14.23).
Os apóstolos compreenderam nitidamente a
mensagem, pois que chamaram a igreja de "templo
santo para morada de Deus em Espírito" (Ef 2.21,22),
"pedras vivas, edificadas como casa espiritual" ( 1 Pe
2.5) e ensinaram que o Espírito Santo habita na igreja,
o corpo de Cristo (1Co3.19; 6.19).
Estevão afirmou que "o Altíssimo não habita em
templos feitos por mãos de homens" (At 7.48), de modo
que quem tem um lugar sagrado para a adoração é o
povo pagão, que procura templos e colinas. O Templo
exerceu sua função tipológica no Antigo Testamento,
mas agora os cristãos sabem que Deus é Espírito, e é
necessário que os que o adoram o adorem em Espírito
e em verdade" (Jo 4.24). Este é o ensinamento à mulher
que desejava saber "onde adorar a Deus": "No coração",
disse Jesus.
A glória de Deus está nas pessoas e, nesse caso,
o Novo Testamento derruba o primeiro paradigma. Cris-
tãos podem sobreviver sem templos. Aliás, já demons-
traram isso nos primeiros três séculos da era cristã,
46 Quebrando Paradigmas

pois o primeiro templo surgiu após a conversão de


Constantino e o conseqüente estabelecimento do cris-
tianismo como religião oficial do Império. A chamada
Santa Helena, mãe de Constantino, fez esse "favor"
para os cristãos. Igreja é sinônimo de pessoas, e não
de templos.
Evidentemente, as Igrejas continuarão tendo
seus templos. O desafio é no sentido de que consigam
enxergá-los como instrumentos facilitadores da execu-
ção de sua agenda ministerial. Os templos não são um
fim, são um meio, uma ferramenta. E, nesse caso, toda
vez que a agenda ministerial da igreja colidir com o
templo, enquanto espaço físico, a igreja deve encon-
trar outro ambiente onde responder à sua vocação
peregrina.

(6) Face à Face, no Céu

A sexta e última fase do processo de Deus em


compartilhar sua vida e presença com o homem será a
plenitude da experiência espiritual, quando, no céu,
nós conheceremos a Deus como também somos conhe-
cidos e o veremos tal qual ele é (1 Co 13.12; 1 Jo 3.2}.
Até lá, quem deseja encontrar-se com Deus não precisa
procurar um templo, basta embrenhar-se no meio do
povo de Deus.

2. A Igreja e o Domingo

Paulo, apóstolo, evidentemente conhecia o


arcabouço da Lei de Moisés, que prescrevia dias e horas
para o culto a Deus. A Lei indicava sacrifícios diários,
mensais, anuais, e estabelecia o sábado como dia san-
to, dedicado ao Senhor (Êx 20.8}.
A Igreja e Seus Paradigmas 47

Muitas interpretações são possíveis a respeito


das razões para a guarda do sábado. Pessoalmente,
creio que o sábado, enquanto interrupção de trabalho,
presta-se como instrumento disciplinador e facilitador
para que nos lembremos sempre de que a realidade
última da vida não está restrita ao espaço fisico, natural
e visível. O sábado é a obrigação de parar de trabalhar,
parar de produzir, parar de pensar em coisas, riquezas
e conquistas. O sábado é um dia especial para a refle-
xão sobre o significado dos outros seis dias. Uma opor-
tunidade para colocar a alma no compasso de Deus,
como que desintoxicando-a da tirania do fazer e produ-
zir como fonte de valorização do ser diante de Deus.
Esse é o entendimento de Paul Stevens, em seu
livro Disciplinas para um coração faminto. Diz ele que
"em um sentido mais profundo, não guardamos o sá-
bado; o sábado é quem nos guarda. A finalidade do
sábado era ser o período de lazer intencional em que
refletíssemos sobre a origem e os alvos de nossa vida
na terra. Logo, o sábado nos mantém voltados para
Deus, como quem está viajando com destino ao céu"
(1993, p. 205). Isso está em perfeito acordo com a
compreensão de Jesus, que ensinava que a guarda do
sábado não era uma obrigação a ser cumprida com
fins meritórios, mas sim um instrumento facilitador
da espiritualidade humana: "O sábadofoifeito por cau-
sa do homem, e não o homem por causa do sábado"
(Me 2.27).
O sábado judaico, portanto, era um instrumento
para ensinar o povo a buscar a Deus e entrar no gozo
de sua presença. Justamente por isso é que o autor de
Hebreus compara o descanso sabático com o céu: estar
plena, eterna e conscientemente na presença de Deus
(Hb 4.9-11).
48 Quebrando Paradigmas

Paulo, apóstolo, interpreta este ensinamento


dizendo aos cristãos que ninguém poderia julgá-los
"por causa de dias de festa, ou de lua nova ou de sába-
dos" (Cl 2.16) e que aqueles que 'julgam iguais todos
os dias" devem ser respeitados porque o fazem igual-
mente para o Senhor (Rm 14.5). Paulo está dizendo
que não precisamos encarar o sábado como um dia
específico da semana a ser reservado para Deus, mesmo
porque os cristãos do primeiro século, em função da
ressurreição do Senhor Jesus, optaram pelo domingo
como dia de suas reuniões (Lc 24.1; At 20. 7; 1 Co 16.2;
Ap 1. 1O). O que precisamos guardar é o propósito do
mandamento da guarda do sábado, independentemente
de dia e hora. O princípio bíblico a respeito do sábado,
portanto, tem mais a ver com práticas devocionais do
que com um dia da semana a ser dedicado às atividades
eclesiásticas. Diz respeito ao processo de cultivar a
intimidade com Deus independentemente do kronos.
E, nesse caso, o segundo paradigma também já
foi quebrado.

3. A Igreja e o Clero

A estrutura religiosa do Antigo Testamento esta-


va baseada numa hierarquia que incluía o sumo sacer-
dote, os demais sacerdotes e os levitas. Eles eram res-
ponsáveis por representar o povo diante de Deus e
oficiar todo o processo de ofertas e sacrificios, tanto
no Tabernáculo como no Templo.
O apóstolo Paulo ensinou que a estrutura religio-
sa do Velho Testamento era como "sombras do que
haveria de vir" (Cl 2.17), e o autor de Hebreus, seguindo
o mesmo raciocínio, apontou para Jesus como o mais
perfeito sacerdote, que apresentou o mais perfeito
A Igreja e Seus Paradigmas 49

sacrificio, no mais perfeito Tabernáculo (Hb 9.1-15),


abrindo um "novo e vivo caminho" que permite a cada
cristão entrar com ousadia no Santo Lugar, prerro-
gativa que outrora era somente do Sumo-Sacerdote (Hb
10.19-21). A obra de Cristo acabou de vez com a es-
trutura vetero-testamentária e fez da igreja um reino
de sacerdotes (1 Pe 2.5,9).
Assim como o acesso a Deus está aberto a todas
as pessoas por meio de Jesus Cristo (1 Tm 2.5), a
responsabilidade de fazer a ponte entre Deus e os
homens repousa sobre todos os cristãos (1 Pe 2.9, 10).
A Bíblia ensina que "a cada um é dada a manifestação
do Espírito Santo para proveito comum" (1Co12.7, 11),
de modo que nenhum cristão está excluído do processo
de abençoar pessoas e exercer a autoridade do Senhor
Jesus no mundo.
A distinção entre evangelistas, profetas, apósto-
los e pastores-mestres (Ef 4.11) é apenas e tão somente
funcional, uma vez que o corpo de Cristo é edificado e
cresce mediante o "~uxílio de todas as juntas, segundo
ajusta operação de cada parte" (4.16). Isso, na verdade,
sempre ocorreu com o povo de Deus, que era um reino
sacerdotal onde todos tinham a responsabilidade de
intermediar o propósito de Deus de abençoar todas as
famílias da terra (Gn ·12.1-3; Êx 19.1-6).
A esta altura, julgo necessário um esclarecimento
dobre a distinção entre o ministério dos pastores da
igreja e o ministério pastoral da igreja. Não há como
negar que "Deus concedeu uns para apóstolos, evan-
gelistas, profetas e pastores-mestres" (Ef 4.11). O Novo
Testamento apresenta claramente o conceito de equipe:
um grupo de anciãos responsável pelo cuidado do
rebanho, o ensino da palavra e a presidência geral dos
ministérios (At 20.28; 1 Ts 5.12, 13; 1 Tm 5.17, 18).
50 Quebrando Paradigmas

Entretanto, está claro também que os pastores foram


entregues à igreja "para o aperfeiçoamento dos santos
para a obra do ministério" (Ef 4.12), em outras pala-
vras: pastores existem para colocar os santos em circu-
lação. E quando os santos estão em circulação, há
mutualidade e o ministério pastoral da igreja é viabi-
lizado.
Veja que Paulo esclarece que na igreja há "os
presidem sobre vós", e este é o ministério dos pastores
da igreja. Mas em seguida ele ensina que admoestar
os insubordinados, consolar os desanimados e ampa-
rar os fracos é tarefa de todos os cristãos, e este é o
ministério pastoral da igreja (1 Ts 5.12-14).
A idéia de que pastores existem para realizar a
obra do ministério, quer porque "têm mais tempo", ou
"são pagos para isso", ou porque "detém o saber reli-
gioso", não encontra respaldo no Novo Testamento, de
modo que o terceiro paradigma também deve ser que-
brado.

4. A Igreja e o Culto

Se levarmos a sério as implicações das mudan-


ças dos três primeiros paradigmas, então deveremos
redimensionar nosso conceito de culto. Cristãos não
têm mais templo, nem sacerdotes que oferecem sacrifi-
cios a um Deus ultrajado em sua justiça, e muito me-
nos precisam guardar o sábado ou qualquer outro ri-
tual. Em Cristo, todas estas coisas foram abolidas,
pois que apontavam para Ele e, sendo assim, já cum-
priram seu papel (Cl 2.16, 1 7).
A morte de Cristo decretou o fim dos sacrifícios
de animais, por duas razões. Os sacrifícios prestavam-
se a um papel duplo: aplacar a ira de Deus e conquistar
A Igreja e Seus Paradigmas 51

sua boa vontade abençoadora. A cruz fez as duas


coisas: satisfez plenrunente a justiça de Deus e aplacou
sua ira (2 Co 5.19-21), e nos abriu a porta para todas
as bênção espirituais (Ef 1.4), pois o Deus que não
poupou nem mesmo seu próprio Filho não deixará de
nos dar, com Ele, todas as coisas (Rm 8.32).
O apóstolo Pedro é porta voz da doutrina neo-
testrunentário do culto ao ensinar que aqueles que
estão em Cristo são semelhantes a pedras vivas, edifi-
cados como casa espiritual, para sacerdócio santo, a
fim de que ofereçrun sacrificios espirituais agradáveis
a Deus por Jesus Cristo (1 Pe 2.5). O único sacrificio
espiritual agradável a Deus que um cristão pode ofe-
recer é a sua própria vida: "Rogo-vos pois irmãos, pela
compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos
como um sacrificio vivo, santo e agradável a Deus, que
é o vosso culto racional" (gr. logiken, genuíno, legítimo).
Em outras palavras, se a igreja é ao mesmo tempo tem-
plo, sacerdote e sacrificio, o culto ganha outra dimen-
são.
Este novo conceito de culto traz duas implica-
ções. A primeira é que "a vida é um culto" e, nesse
caso, "quer comais, quer bebais, ou façais qualquer
outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (1 Co
10.31). O que costumrunos chamar de louvor, com pes-
soas reunidas para cãnticos, é um momento no todo
da adoração, e não a totalidade de nossa devoção a
Deus.
A segunda implicação é que apresentar a vida
como um sacrificio vivo a Deus, necessarirunente de-
semboca no serviço. Russell Shedd, comentando
Romanos 12, diz que "o corpo e a mente não são sacri-
ficados num altar, segundo o modo da Antiga Aliança,
mas incorporados no serviço ativo dentro do corpo de
52 Quebrando Paradigmas

Cristo, a Igreja. Os dons distribuídos pelo Espírito são


um sinal claro da aprovação de Deus em relação aos
sacrificios vivos que lhe foram oferecidos".
Isso nos faz entender o uso da palavra liturgia
no Novo Testamento. Willian Barclay (1985, p. 126)
esclarece os três sentidos diferentes da palavra:

1. O serviço de uma pessoa para com outra, como por


exemplo, a oferta para os cristãos de Jerusalém que
estão em necessidade (Rrn 15.27; 2 Co 9.12), assim
como a ajuda que os filipenses e Epafrodito prestaram
a Paulo (Fp 2.17,30);

2. O serviço chamado religioso, como por exemplo a


ação dos líderes de Antioquia (At 13.2), o ministério de
Paulo aos gentios (Rrn 15.16) e o próprio ministério do
Senhor Jesus (Hb 8.2,6);

3. O serviço público de um homem, como por exemplo


o ato de governar e julgar (Rrn 13.6).

À luz do exposto, liturgia não era apenas algo


realizado dentro do templo, como um culto a Deus,
mas sim a totalidade dos serviços de uns para com os
outros, inclusive as coisas realizadas nas reuniões cris-
tãs, o que na verdade era serviço a Deus.
A liturgia enquanto ordem de atividades de uma
reunião cristã, devem ser avaliadas à luz das reuniões
dos cristãos. As reuniões cristãs nos primeiros séculos
são um exemplo de culto redimensionado. Em primeiro
lugar porque a Igreja sobreviveu e se expandiu sem
templo até meados do século IV, após a conversão de
Constantino, conforme já consideramos.
Em segundo lugar, porque as reuniões eram
A Igreja e Seus Paradigmas 53

voltadas para a edificação da Igreja. O pouco que se


pode conhecer das ordens de culto dos primeiros cris-
tãos denuncia este fato. Veja por exemplo que Paulo
diz que quando os cristãos se reúnem, um tem salmo,
outro doutrina, outro línguas e outro interpretação (1
Co 12.26). Mas acontece que todas as coisas deveriam
ser feitas para que a igreja fosse edificada, todos apren-
dessem e fossem encorajados (12.26,31). O alvo da
reunião não era "prestar culto", pois a vida é um culto.
O alvo da reunião era a maturidade do corpo que serve
na trama do dia-a-dia.
Note também que os cânticos indicam uma ati-
tude interiorizada - "no vosso coração" - fazendo com
que a adoração seja muito mais um estilo de vida do
que um momento de culto (At 2.47). Eram também
instrumentos para o ensino e a admoestação o que
explica o "falai entre vós com salmos e hinos e cânticos
espirituais" (Ef 5.19; Cl 3.16).
Os cânticos, nas celebrações cristãs, servem para
duas coisas. Primeiro como expressão do coração diante
de Deus, como por exemplo nos casos de Moisés e Miriã
(Êx 15), Ana (1 Sm 2.1-11), Maria (Lc 1.46-55) e Za-
carias (Lc 1.67-69). Também, e fundamentalmente para
a edificação da igreja, uma vez que são instrumento
didático para a comunidade reunida. Daí a importância
da profundidade teológica dos hinos cristãos primitivos
(como por exemplo: Rm 11.33-36; Fp 2.6-11; 1 Tm
3.16).
Reuniões para louvor e cânticos, muito embora
justificadas pelo Novo Testamento, eram, entretanto,
um parêntesis na vida de serviço sacerdotal da igreja
no mundo, e não a totalidade de sua dedicação a Deus.
Veja que o texto que nos encoraja a "oferecer a Deus
sacrifício de louvor, como fruto dos lábios'', aparece no
54 Quebrando Paradigmas

repartir com os necessitados, sendo estes sacrifícios


dos quais Deus igualmente se agrada (Hb 13.13-16).
Como bem disse o Pastor Caio Fábio, "se não há culto
na vida, não há vida no culto" (1995, p.17).
Os cristãos não prescindem dos grandes ajunta-
mentos para louvor e edificação. Muito ao contrário,
um povo que não celebra não adquire compreensão e
ou percepção de suas vitórias, e ao fim das contas
começará duvidar se Deus de fato intervém na história.
O que se diz, é que a celebração não encerra a totali-
dade da vivência da fé, é apenas uma de suas partes.
Assim pois, o quarto paradigma também não en-
contra bases sólidas na Escritura, visto que o conceito
atual de culto (reunir pessoas para louvar a Deus atra-
vés de uma liturgia} não encontra eco nas páginas do
Novo Testamento, uma vez que é demasiadamente
reducionista do amplo sentido de "servir a Deus".

SÍNTESE E QUADRO SINÓPTICO


DOS PARADIGMAS

A igreja de Jesus é, portanto, desafiada pelo Novo


Testamento a viver além dos limites do templo, do
domingo, do culto e do clero. Muito provavelmente nada
disso seja novidade. O problema é que nossa prática
eclesiástica não acompanha nossa lucidez teológica.
Os cristãos continuam chamando o templo de "casa
do Senhor", o culto de "trabalho do Senhor", o domingo
éle "dia do Senhor", e o pastor de "anjo do Senhor". A
maioria dos cristãos compreende que dons espirituais
são capacidades que são exercitadas nas reuniões
cristãs, e servir a Deus acontece, geralmente, no domin-
A Igreja e Seus Paradigmas 55

go, no templo e, principalmente no culto. Os cristãos


inventaram até um "assistir ao culto", como se houves-
se alguém - o clero - que prestasse o culto em seu
lugar. Por vezes, penso que os cristãos substituíram o
sacrifício de animais pelo louvor: assim como o judeu
ofertava um novilho, o cristão contemporâneo oferta
um-hine-,m-flag1ante desvnrâó ensino do Novo
Testamento.
A igreja contemporânea, ao invés de fixar-se no
modelo do Tabernáculo e de Cristo (mobilidade), fixou-
se no modelo do Templo (fixidez). E pior do que a
perspectiva do Templo estabelecida pelo Antigo Testa-
mento, foi a noção imprimida pelo Catolicismo Romano.
Aquele era instrumento litúrgico, este um aparelho
político. Os sacerdotes em Israel eram responsáveis
pela questão religiosa, deixando a administração do
Estado nas mãos do Rei. O clero romano, por sua vez,
era necessário para a manutenção do poder da Igreja
Institucional e portanto concentrava o saber em suas
mãos. Com o agravante de monopolizar a representa-
tividade divina, o clero oprimia ainda mais os que, de-
sejosos de chegar a Deus, deviam passar por ele. Assim
nasceu a distinção entre clero e laicato, e a depen-
dência de uma casta religiosa que atuava enquanto
outros assistiam.
O resultado desta distorção é que a igreja não
se vê mais como um instrumento nas mãos de Deus
para "fazer convergir em Cristo todas as coisas, tanto
as que estão nos céus como as que estão na terra" (Ef
1.10). Isto é, a igreja perde o sentido de missão, pois
se o Senhor Jesus quer exercer sua autoridade no uni-
verso criado através da igreja, ela, igreja, não pode
permanecer intra-muros.
56 Quebrando Paradigmas

Talvez pior do que perder o sentido de missão, é


perder o sentido de identidade. Igreja não é o lugar
onde os cristãos vão, Igreja é o que os cristãos são, e
isso já não está tão claro para muitos. Richard Halver-
son (Shelley & Marshall, 1992, p. 109), capelão do
senado norte americano, observou que "no início, a igre-
ja era uma comunhão de homens_emu.Jh~re~_ çgntrgdos _
no Cristo vivo. Então a igreja chegou à Grécia e tornou-
se umafilosofia. Depois, chegou a té Roma e tornou-se
uma instituição. Em seguida, àEuropa, e tornou-se uma
cultura. E, finalmente, chegou à América e tornou-se
um empreendimento (business)". Podemos também
afirmar que, ao chegar no Brasil, a igreja tornou-se
um evento. A maioria dos modelos eclesiásticos contem-
porâneos tende a resumir a ekklesia a uma sucessão
de eventos religiosos nos finais de semana, negli-
genciando a dinâmica comunitária do povo de Deus.

VELHO HOJE NOVO


ESTRUTURA
TESTAMENTO TESTAMENTO

Atividade Culto (Dt 12. 11, 12) Culto Todas (1 Co 10.31)

Dia Sábado (Ex 20.8) Domingo Todos (CI 2.16, 17)

Local Templo (2Cr 7.12) Templo Todos (At 7.47-50)

Pessoas Sacerdotes (Dt 18. 1-8) Pastores Todas (1 Pe 2.9, 10)


IV
A Igreja e Seus
Novos Paradigmas

a '
luz de tudo quanto já consideramos, acredito
que o maior desafio pastoral contemporâneo é pegar
os cristãos reunidos no templo, no domingo, para o
culto onde o clero desempenha sua performance, e
despejá-los na segunda-feira para a vivência da fé onde
quer que se encontrem. Deixar que a igreja se compre-
enda como "comunidade reunida para culto" é uma
distorção completa dos propósitos de Deus.
Tudo isso me faz crer que uma boa declaração
de filosofia para a igreja é a seguinte: levar o evangelho
todo para o homem todo, priorizando relaciona-
mentos, envolvendo todos os seus membros, além
dos limites do culto-clero-domingo-templo. O alvo
ministerial da igreja deve ser o de pegar todos os cris-
tãos reunidos no domingo, no templo ao redor do clero
para assistir o culto, e despejá-los na segunda-feira,
tendo em vista a ação cristã responsável no mundo.
A dificuldade está em mobilizar todo um rebanho
para que seja eficaz não apenas no espaço da religio-
sidade tradicional, mas principalmente na trama da
vida. Uma das maiores responsabilidades de um pastor
local diz respeito aos mecanismos que uma comuni-
dade cristã possui para que funcione fora dos paradig-
mas da religiosidade tradicional. Isto é, como uma co-
munidade cristã pode "acontecer" independentemente
58 Quebrando Paradigmas

do templo, do domingo, do clero e do culto. São estas


as questões para as quais alisto algumas sugestões.
Esta é a hora de falarmos a respeito dos Peque-
nos Grupos, Células, Koinonias, Grupos Familiares,
ou seja lá como você queira se referir ao rebanho fracio-
nado na comunhão da mesa, nas casas, e no serviço
de todos os dias. Pequenos Grupos não nasceram
ontem, existem desde a eternidade, passaram por Jetro
e Moisés, perduraram durante todo o período apostólico
e chegaram à atualidade sem perder seu vigor. Elmer
Towns escreveu Ten Innovative churches, um guia so-
bre o crescimento de dez igrejas inovadoras nos Es-
tados Unidos. Surpreendentemente, oito, das dez igre-
jas, apresentam os Pequenos Grupos como carro-chefe
de sua experiência de comunidade. É largamente
difundida a noção de que um dos maiores segredos
das mega-igrejas na Coréia é a estrutura de células. E
em muitos outros lugares, é esta a explicação para
igrejas cujo crescimento é extraordinário.
As razões para que os Pequenos Grupos atraves-
sem as culturas e o tempo e se firmem como instrumen-
tos necessários à saúde da comunidade cristã são inú-
meras, mas chamo sua atenção para apenas uma: O
Novo Testamento mostra que a vida cristã é uma vida
de relacionamentos e os Pequenos Grupos são a única
estrutura eclesiástica capaz de possibilitar mutualidade
e mobilização. Veja que as principais instâncias de
atuação do corpo de Cristo devem funcionar à base de
relacionamentos pessoais: discipulado, cuidado do
rebanho, ministérios pessoais e liderança.

1. Pequenos Grupos e Discipulado

O discipulado se faz através de relacionamentos,


A Igreja e Seus Novos Paradigmas 59

pois discipular é "ensinar a guardar todas as coisas


que o Senhor Jesus mandou" (Mt 28.19), e não apenas
ensinar o que o Senhor Jesus mandou.
Para ensinar o que Jesus mandou, precisamos
de bons mestres, bons métodos didáticos, bons currí-
culos e instalações adequadas. Talvez, um bom curso
no Seminário ou um ciclo de estudos através de vídeo
cassete. Mas, "ensinar a guardar" carece de relaciona-
mentos, de exemplos concretos, de pessoas que possam
ser observadas de perto.
O Senhor Jesus, obviamente, é o melhor exemplo
deste conceito. Diz a Escritura que o processo de disci-
pulado dos apóstolos foi a dinâmica dos relacionamen-
tos pessoais: "Então designou doze para que estivessem
com ele" (Me 3.14). Sublinhe este "estivessem com ele".
Paulo, apóstolo, seguiu a mesma trilha e escan-
carou os bastidores de sua vida para Timóteo, seu dis-
cípulo mais notável: ensinou doutrina, mostrou com-
portamento, compartilhou fraquezas e lutas e levou o
discípulo junto para algumas santas aventuras missio-
nárias (2 Tm 3.10-12). Por esta razão o apóstolo podia
exortar os filipenses a que observassem tudo quanto,
não apenas ouviram de sua boca, mas também viram
em seu estilo de vida (Fp 4. 9), e despedir-se dos
presbíteros de Éfeso salientando que seu ensino acon-
teceu na praça pública - púlpito, e de casa em casa -
pequeno grupo (At 20.20).
Mas, devemos nos curvar às evidências e aos
fatos. Qualquer observador despido de preconceitos
será capaz de enxergar que boa parte das comunidades
cristãs contemporâneas substituiu os relacionamentos
de discipulado por séries de conferências evangelís-
ticas, aulas dominicais, fitas cassete, apostilas e insti-
tuições teológicas. Evidentemente, todas estas coisas
60 Quebrando Paradigmas

têm sua função no processo educativo, mas nada subs-


titui o relacionamento pessoal onde o conteúdo do
evangelho pode ser visualizado, e não apenas ouvido.
O discipulado, portanto, é um processo, e não um
programa. Discipular não consiste em fazer com que
alguém se envolva com atividades religiosas, como cul-
tos, classes para estudos bíblicos, e eventos diversos.
Discipular é compartilhar a vida, é envolver-se num
relacionamento pessoal, à luz da palavra de Deus, para
que o Espírito Santo encontre espaço e recursos para
transformar o estilo de vida completo dos discípulos.
Cristãos maduros, satisfeitos na alma em função
de seu relacionamento com Jesus é a proposta do Novo
Testamento a respeito da vida cristã. Veja que o apósto-
lo Paulo salienta que "todas as coisas contribuem para
o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são
chamados segundo o seu propósito". Mas qual é este
propósito? A resposta está no versículo seguinte: "se-
rem conformes a imagem de seu Filho" (Rm 8.28,29).
Há pelo menos mais quatro textos da lavra de
Paulo que apontam nesta mesma direção. O primeiro
texto (Gl 4.19) registra o sofrimento do pastor para ver
Cristo formado em seu rebanho; isto é, a ação pastoral
no sentido de que os cristãos sejam de fato um reflexo
histórico do Cristo vivo. O segundo, (Ef 4.11-13) salien-
ta que os dons espirituais são um meio para que os
cristãos ministrem uns aos outros, na intenção de que
todos cheguem à plena maturidade, ou "estatura de
varão perfeito".
O terceiro texto (Cl 1.21-28) compara o ministério
pastoral ao ministério de Cristo. Paulo argumenta que
o Senhor Jesus morreu a fim apresentar todo cristão
santo, sem defeito e irrepreensível diante de Deus. Mas
também relata que ele mesmo, Paulo, também sofre
A Igreja e Seus Novos Paradigmas 61

para que possa "apresentar todo homem perfeito em


Cristo". A palavra "perfeito" é uma tradução da palavra
grega "teleiós", que significa completo, sem faltar em
coisa alguma, ou adulto, plenamente desenvolvido e
na plena posse de capacidades e potencialidades.
Finalmente, podemos encontrar Paulo recomen-
dando a Timóteo que permaneça firme na observância
e ensino das Escrituras que são inspiradas por Deus e
têm como fim a plena maturidade do cristão: "perfeito
e perfeitamente habilitado para toda boa obra" (2 Tm
3.17).
O cristão deve, portanto, buscar aquela qualida-
de de vida que somente Deus pode dar. Uma qualidade
de vida integral, que o Senhor Jesus chamou de
abundante ou completa (Jo 10.10). Experiências com
o poder do Espírito Santo de Deus, interação com a
palavra de Deus e eventuais fenômenos carismáticos
não são um fim em si mesmo. O alvo é "ser como Cris-
to", é aquela satisfação da alma que, sendo encontra-
da por Deus, encontrou sua identidade mais profun-
da e foi harmonizada consigo mesma, com o próximo,
com o universo criado. O processo de discipulado na
teia dos relacionamentos de mutualidade no corpo de
Cristo é o caminho bíblico para este encontro e esta
plena satisfação.

2. Pequenos Grupos e Cuidado do Rebanho

Devemos considerar que não somente o discipu-


lado, mas também o cuidado do rebanho se faz através
de relacionamentos. A expressão "uns aos outros" apa-
rece 59 vezes no Novo Testamento. Os chamados "man-
damentos recíprocos" envolvem exortação, aconselha-
mento, advertência, instrução, apoio na fraqueza, enco-
62 Quebrando Paradigmas

rajamento, aceitação, intercessão, dentre outros. O


Novo Testamento, portanto, é claro quando aponta para
o fato de que é na dinâmica dos relacionamentos pes-
soais que as carências completas dos irmãos é supri-
da e onde os cristãos são aliviados de qualquer sorte
de cargas pesadas demais para um ombro só.
Em tempo, podemos fazer duas ressalvas. A pri-
meira é que há momentos na vida cristã em que o
cuidado pastoral necessário extrapola os limites da
mutualidade, e justamente por isso Deus concedeu
pessoas cujos dons espirituais são direcionados para
o apoio interpessoal imediato (Ef 4.11: pastores). Este
cuidado pastoral específico é uma questão de dom
espiritual, e não apenas de proximidade relacional.
A segunda ressalva diz respeito à possibilidade
de um acompanhamento profissional efetuado por um
terapeuta, psicólogo ou psiquiatra. Há ocasiões em que
a mutualidade no corpo de Cristo fornece a atmosfera
de amor, aceitação e sustentação espiritual para que
o socorro profissional seja instrumento para o soergui-
mento do cristão. Procurar ajuda profissional não é
pecado nem falta de fé, mas sim prudência de quem
recebe como benção os recursos da ciência.
A advertência em favor da mutualidade cristã e
dos frutíferos relacionamentos interpessoais é uma
reação à infantilidade de muitos cristãos. É impressio-
nante a mentalidade evangélica mais comum de que a
mutualidade cristã somente é aceita quando o pastor
está envolvido no processo. Mais uma vez, lembramos
que o cuidado do rebanho é desenvolvido por todos os
membros da igreja. Inclusive pelo pastor, mas não
somente por ele. O mais comum, entretanto é que um
irmão enfermo, sendo visitado por um grupo da igreja,
ao final ainda pergunte: "E o pastor, quando vem?".
A Igreja e Seus Novos Paradigmas 63

Parece que a ministração do corpo de Cristo é incomple-


ta ou insuficiente quando não acompanhada pelo
"representante do clero". Podemos até considerar que
psicologicamente se explique esta dependência, mas
isto não reverte a necessidade de que se aceite o cui-
dado pastoral dos irmãos.
Somente os Pequenos Grupos, que se reúnem
regularmente para desenvolver a mutualidade, geram
o espaço onde os relacionamentos profundos podem
acontecer. A Igreja não conseguirá outro meio de ser
Igreja a menos que fracione seu rebanho em pequenas
células (que chamamos de Pequenos Grupos) reprodu-
toras de relacionamentos.
A salvação em Cristo é individual, mas a vida
cristã é comunitária. A Bíblia diz que a cada cristão foi
dado o privilégio de comungar com o Espírito Santo,
mas que esta comunhão necessariamente vincula o
cristão com o corpo de Cristo (1 Co 12.31), de modo
que cristãos são partes uns dos outros (Rm 12.5), o
que explica o fato de que as coisas boas e ruins que
acontecem com um cristão repercutem na vida de todos
os cristãos (1 Co 12.26). A saúde espiritual de um
cristão está na proporção direta da profundidade e
qualidade de seus relacionamentos interpessoais no
corpo de Cristo.
No meu tempo de criança, além de muito futebol
na rua e pipas ao vento, uma das brincadeiras predi-
letas da meninada era com bolas de gude. Nossa bola
de gude mais valiosa era o "bolão", que usávamos para
acertar as outras bolinhas, geralmente apostadas num
triângulo ou num círculo desenhados no chão.
Mas a brincadeira mais gostosa era o "mata-
mata", quando cada garoto tentava acertar o bolão do
outro, cada um à sua vez. O máximo do jogo era quando
64 Quebrando Paradigmas

conseguíamos quebrar o bolão do adversário com um


teco bem forte. Era a evidência de uma grande vitória.
Brincadeira perversa, aquela.
Lembro-me que minha maior fornecedora de
bolões era uma fábrica de latas próxima de casa. Nos
fundos da fábrica havia uns bandejões cheios de bolas
de gude que serviam para lixar as chapas de alumínio
onde as estampas das latas seriam impressas antes
do corte. O movimento das bandejas provocava o atrito
entre as bolas de gude, umas nas outras, e de todas,
na superficie inferior da chapa colocada sobre elas. O
resultado era que, além de deixarem a chapa bem
lisinha, algumas bolinhas ficavam bem cascudas e
quase que perfeitamente redondas. Isto é, ótimas para
a mira e dificílimas de se quebrar. Eram os balões mais
preciosos.
Imagino que esta é uma boa alegoria para a vida
na comunidade cristã: é no roçar de vidas que surgem
a consistência e a perfeição. É na troca de inputs e no
intercâmbio de experiências que pessoas crescem rumo
à maturidade. Quando cada pessoa tem a oportunidade
de compartilhar suas riquezas todos saem ganhando,
sejam elas riquezas emocionais, intelectuais, espiri-
tuais e até mesmo materiais. A saúde de uma comu-
nidade cristã está na proporção direta da qualidade
de seus relacionamentos interpessoais.
Nesse sentido, as comunidades restritas aos
eventos centrados nos paradigmas "culto-clero-domin-
go-templo" perdem a riqueza da diversidade dos mem-
bros do corpo de Cristo, pois que giram ao redor de
alguns poucos, que muitas vezes nem são tão ricos
assim. Estas são razões suficientes para que os líderes
cristãos esvaziem o palco e encham as salas das casas,
e motivo pelo qual a filosofia da igreja deve enfatizar a
A Igreja e Seus Novos Paradigmas 65

mobilização e engajamento de todos os seus membros


na obra do ministério.

3. Pequenos Grupos e Ministérios Pessoais

As duas primeiras justificativas para a necessi-


dade de Pequenos Grupos apontavam para o cuidado
do rebanho e o discipulado, o que responde ao anseio
de uma "igreja viva". As próximas duas, respondem
ao anseio de uma "igreja ativa", e se preocupam com a
estrutura de organização das igrejas do Novo Testa-
mento. Primeiro, olharemos a dinâmica dos ministérios
pessoais.
Paulo, apóstolo, esclarece que há diversidade de
dons, ministérios e operações (1 Co 12.4-6). Veja as
definições no quadro:

DONS
MINISTÉRIOS OPERAÇÕES
ESPIRITUAIS

Resultados
Habilidades, Contexto
do exercício
capacidades ou âmbito
dos dons
e poderes onde os
espirituais
concedidos dons espirituais
em cada contexto
por Deus são exercidos
(trabalho pronto)

Os dons espirituais são dados aos cristãos em


função da igreja. Os dons são distribuídos no contexto
dos ministérios e não para atuações tipo "free lancer".
Cada ministério precisa de pessoas com as mais
66 Quebrando Paradigmas

vartadas.habilidades e que estejam comprometidas com


o todo da ação e da filosofia da igreja. Os cristãos,
portanto, devem buscar seu lugar nos vartados minis-
térios da igreja e não apenas descobrir seus dons
pessoais.
Um dos modelos mais apropriados desta filosofia
é a Igreja Batista em Bear Valley, cujo testemunho
está registrado em Unleashing the church, escrito por
Frank Tillapaugh, seu pastor à época.
A Igreja de Bear Valley dividia a cidade em gru-
pos, observando as pessoas e montando ministérios
tendo seus estilos de vida em mente. Os ministérios
eram os mais diversos: grupos étnicos, mendigos, estu-
dantes, idosos, solteiros, casados, crianças, atletas,
artistas e tantos outros. Cada membro da Igreja era
encorajado a pensar: "Deus pode me usar para dirigir
uma nova área de ministério".
Todos estão atentos às necessidades e quando
identificadas e verificados os recursos disponíveis,
surge a pergunta: "Deus está levantando alguém para
este ministério?". Se a resposta é sim, então todos os
membros são avisados que se abriu uma nova frente
de trabalho. A medida que as pessoas vão se envolven-
do, nascem as equipes de ministérios. A Igreja fornece
a supervisão para a liderança daquele novo ministério
e mobiliza recursos para que ele aconteça. O restante
é responsabilidade dos irmãos envolvidos, pois que
receberam de Deus não somente o ministério, como
também a capacitação para executá-lo.
Nisso tudo há uma nota importantíssima. Bear
Valley não possuía ministérios para os quais não
encontrava líderes que por eles se reponsabilizassem.
Se a necessidade aparece e ninguém se manifesta,
então, não há como supri-la. Das duas uma: ou Deus
A Igreja e Seus Novos Paradigmas 67

quer a comunidade envolvida em outras áreas de


atuação, ou alguém está "enterrando talentos".
Não sei se Bear Valley continua agindo desta ma-
neira, mas o testemunho de Frank Tillapaugh é vibran-
te e apontou bons caminhos para que as comunidades
cristãs viabilizem hoje o que o Novo Testamento vem
dizendo há dois mil anos.
A Igreja Batista de Água Branca, onde exerço a
função pastoral desde 1989, caminha nesta direção
de ministérios criativos e alternativos. Um dos pastores
da Equipe Ministerial, Roberto Nobuyuki Handa, Nobú,
tem uma vocação especial de Deus em encaixar, asses-
sorar e encorajar pessoas em novas frentes ministe-
riais. Assim nasceram, dentre outros, o ministério de
Thriatlon, o grupo teatral, alfabetização de adultos, e
o Telecurso funcionando todas as noites na sede da
igreja. Uma escolinha de esportes com reforço escolar
está a caminho e certamente muitas outras frentes
criativas de serviço serão colocadas à disposição do
rebanho para que as pessoas sirvam a Deus e ao próxi-
mo à luz de seus dons, interesses e vocações.
No Encontro de Pastores e Líderes organizado
pela SEPAL em 1992, Paul Landrey contou sobre a
época de Oliver Cromwell, na Grã-Bretanha, quando
o estoque de prata para cunhar moedas caiu. Em busca
de mais prata, chegou a noticia de que a maior concen-
tração do metal estava nas Catedrais, nos ídolos e
santos. Cromwell não teve dúvidas e decretou: "Derre-
tam os santos e coloquem-nos em circulação".
Colocar os santos em circulação é o grande desa-
fio ministerial. E, se de fato a igreja deve funcionar
fora dos paradigmas "culto-clero-domingo-templo", os
santos devem circular na sociedade e no mundo, e
não apenas à serviço da estrutura eclesiástica.
68 Quebrando Paradigmas

Estes conceitos sobre a dinâmica ministerial da


Igreja de Cristo nos levam a considerar que trabalhar
para, ou na igreja local, não é o único caminho para
se trabalhar para Deus ou pelo reino de Deus. Conside-
rando esta diversidade dons e ministérios pessoais e
que o alvo da comunidade é agir no mundo para que
todas as coisas voltem ao controle do Senhor Jesus,
as igrejas deveriam atentar muito mais para o que os
seus membros fazem fora do "culto-clero-domingo-tem-
plo" do que na estrutura formal da comunidade cristã.
Dois médicos da Igreja Batista de Água Branca
me ensinaram isso. Um deles, sendo transferido de
sua função de diretor num posto de saúde, foi recon-
duzido mediante veemente apelo da população local.
O outro, trabalhou duro para a prefeitura, montando
e dirigindo dois postos de saúde em regiões da periferia
da cidade de São Paulo. Surpreendi-me certa vez,
chamando-lhes a atenção pelo fato de que eu quase
não podia contar com eles na estrutura formal da
Igreja. Flagrante incoerência na "filosofia de ministério".
O serviço daqueles irmãos à população carente era
também um serviço a Deus e um ministério cristão.
Aqueles homens de Deus não estavam tão envolvidos
na estrutura formal da instituição que presido, mas
isso não significava que não estivessem trabalhando
pelo reino de Deus. Fui fisgado pelo paradigma "culto-
clero-domingo-templo". Quase imperdoável.
A igreja local deve viabilizar que seus membros
sirvam a Deus no mundo, e, sempre que possível, gerar
estruturas móveis e flexíveis para que trabalhem jun-
tos. Mas isso não eqüivale dizer que somente os ser-
viços prestados através das estruturas eclesiásticas
formais devam ser considerados ministérios.
A Igreja e Seus Novos Paradigmas 69

4. Pequenos Grupos e Liderança na Igreja

As igrejas neo-testamentárias possuíam uma


liderança plural, isto é, funcionavam e eram presididas
por um conselho de anciãos (At 11.30; 13.1; 14.23;
15.2,4,6,22; 16.4; 20.17; 21.18; Tt 1.5 e, principal-
mente, 1 Ts 5.12, 13; 1 Tm 5.17).
Watchman Nee (1964, ps. 50,54), comenta que:

"Não é necessário que os presbíteros renunciem a


suas profzssões comuns e se devotem exclusivamente
aos seus deveres relacionados com a igreja. São sim-
plesmente homens locais que desempenham suas
funções costumeiras e ao mesmo tempo são revestidos
de responsabilidades especiais na igreja. No caso de
aumentarem os negócios locais, eles podem dedicar-se
inteiramente à obra espiritual".
"Os presbíteros são também chamados bispos",
continua Nee. "O termo bispo significa supervisor, e um
supervisor não é aquele que trabalha em lugar de outros,
mas aquele que supervisiona outros enquanto traba-
lham. Deus tencionava que cada cristão fosse um obreiro
cristão, e Ele designou alguns para a supervisão da obra
de sorte que ela pudesse ser levada avante eficien-
temente. Jamais estava na mente de Deus que a maioria
dos cristãos se dedicasse exclusivamente aos negócios
seculares e deixasse os negócios da igreja a um grupo
de especialistas. Não há como exagerar isso. Presbíteros
não constituem um grupo de homens contratados para
fazer o trabalho da igrrja em lugar de seus membros".

O grande entrave para que este modelo neo-


testamentário se concretize é a mentalidade clerical
que estamos discutindo desde a apresentação dos
70 Quebrando Paradigmas

paradigmas. Todos os cristãos, sem exceção, além de


uma ocupação, têm também uma vocação. Paulo, após-
tolo, por exemplo, era fazedor de tendas, e esta era
sua ocupação. Entretanto, era também apóstolo aos
gentios, e esta era sua vocação. Ocupação, portanto,
diz respeito à profissão, enquanto que vocação, fala
sobre dons espirituais e ministérios pessoais de cada
cristão.
O que Watchman Nee estava dizendo é que nada
impede que um cristão chegue à conclusão de que seus
dons espirituais, seu temperamento ou personalidade,
sua capacitação ou experiência ministerial, e o estimulo
da parte do Espírito Santo seja para o exercíêlo da
função pastoral na comunidade cristã. Esta descoberta
da vocação não implica necessariamente na anulação
ou abandono da ocupação, como ilustrado no caso do
apóstolo Paulo. Não significa necessariamente que o
irmão com esta vocação deva se matricular num Semi-
nário e abandonar seu "trabalho secular". Significa sim
que deve buscar o máximo de aperfeiçoamento para
que exerça sua função pastoral no corpo de Cristo,
notadamente em sua comunidade cristã local. Veja
também o exemplo de Áquila e Priscila, que pastorea-
vam igrejas em sua casa e seguiam, à semelhança de
Paulo, no oficio de fazedores de tendas (At 18.1-3; Rrn
16.3-5; 1 Co 16.19).
Observe também que o fato de que o Novo Testa-
mento trata os presbíteros sempre no plural (At 20.
17; Fp 1.1; 1 Ts 5.12,13; 1 Tm 5.17,18) justifica-se
pelo menos pelos seguintes fatores. Primeiro porque
"na multidão dos conselheiros há sabedoria" (Pv 11.14),
de modo que uma equipe pastoral previne heresias e
diminui a possibilidade de erros que poderiam conduzir
o rebanho a caminhos tortuosos.
A Igreja e Seus Novos Paradigmas 71

Em segundo lugar, a equipe ministerial se justi-


fica porque impede a atrofia da igreja em função dos
personalismos. Há quem diga que uma igreja não
cresce mais do que a visão do seu pastor, e todos sabe-
mos que um pastor pode ter a visão correta, mas jamais
terá a visão completa.
Em terceiro e último lugar, a equipe ministerial
gera a multiplicidade de ministérios, pois que vários
ministros, com dons e ministérios diferentes imprimem
este ritmo na comunidade inteira. A comunidade por
sua vez, deixa de girar ao redor da visão e força de
trabalho de um homem só.
Acredito que este retorno ao padrão bíblico é a
solução para a qualidade do ministério em muitas igre-
jas evangélicas no contexto brasileiro. Creio também
que as comunidades pequenas que não podem susten-
tar o "pastor de tempo integral", deveriam atentar para
a possibilidade de equipes ministeriais formadas por
irmãos que reúnam em si mesmos as capacitações do
Espírito Santo, a integridade no caráter, a experiência
e maturidade na vida cristã, e o respaldo do rebanho.
Estes irmãos poderiam e deveriam continuar "fazendo
tendas" tendo em vista o sustento da família, sem que
isso os impedisse de exercer a função pastoral na co-
munidade. Na verdade, este é um dos grandes segre-
dos do crescimento das igrejas pentecostais: o comis-
sionamento dos chamados pastores leigos.
Mas infelizmente, a mentalidade de muitas igre-
jas, principalmente as de tradição reformada, implica
na outorga da função pastoral a "um homem vocacio-
nado formado no seminário denominacional". E não
somente as igrejas, mas principalmente os seminários
e os próprios vocacionados para a função pastoral têm
a mentalidade de "pastor titular, ou único, de tempo
72 Quebrando Paradigmas

integral". Este modelo tem trazido alguns males à Igreja


de Cristo. Primeiro, alimenta a mentalidade clericalista
dos rebanhos, que atribuem aos tais vocacionados e
estudados, a responsabilidade do ministério que deve-
ria ser de todos.
Em segundo lugar, gera um grande efetivo de
pastores incompetentes e ineficazes, justamente porque
na idade em que deveriam se empenhar para uma
formação profissional, deixaram tudo, e em nome de
uma possível vocação, foram para o seminário para
que "se formassem pastores". Mais tarde, mesmo com
um ministério infrutífero, estes tais permanecem
liderando igrejas, justamente porque só "estudaram
para ser pastor". O resultado é que, ou carregam du-
rante anos a fio igrejas debilitadas e sem qualquer pos-
sibilidade de expansão, ou mudam de igreja num curto
espaço de tempo, o suficiente para que se desincompa-
tibilizem com o rebanho e seus líderes locais.
Finalmente, esta estrutura clerical que privilegia
um homem só como vocacionado para o ministério,
tem gerado igrejas fracas, à mingua, consumindo
recursos, tempo, reuniões e outras coisas mais em suas
respectivas denominações.
Não há qualquer dúvida, portanto, de que a
proposta do Novo testamento é que as igrejas funcio-
nem à base do ministério de todos os seus membros,
mobilizados por um grupo de cristãos fiéis e idôneos,
que por sua vez dedicam, preferencialmente tempo
integral, mas podem e devem dedicar tempo parcial,
quando a situação exigir.
A Igreja e Seus Novos Paradigmas 73

QUADRO SINÓPTICO A RESPEITO


DOS PEQUENOS GRUPOS

PEQUENO GRUPO PEQUENO GRUPO


DE DISCIPULADO DE SERVIÇO

Manter a igreja viva Manter a igreja ativa

Ênfase no SER Ênfase no FAZER

Maturidade Ministério

Oportunidade para com- Oportunidade para instru-


partilhar, orar, estudar a Bí- ção, treinamento, planeja-
biia, buscar suporte para menta e engajamento para
que cada pessoa possa que cada pessoas possa
seguir em frente em sua exercer seus dons espiri-
jornada espiritual e apro- tuais em ministérios que
fundar seu relacionamento expressem a ação do Se-
com o Senhor Jesus. nhor Jesus no mundo.

Líderes capacitados para Líderes capacitados para a


o cuidado do rebanho supervisão e viabilização
dos ministérios
V
Radicalizando
na Visão

e hegamos agora ao coração de toda esta dis-


cussão. Este é o momento para imaginarmos o dia-a-
dia e a dinâmica de funcionamento de uma igreja li-
berta dos paradigmas culto-clero-domingo-templo.
Alisto, portanto, algumas sugestões que refletem um
exemplo de como estes princípios podem ser concre-
tizados.

1. A igreja liberta dos paradigmas culto-clero-


domingo-templo utiliza espaços físicos sem se
deixar enclausurar por eles.

O conceito "sede própria" é também um para-


digma que deve ser quebrado. Implica num complexo
que envolve, no mínimo: auditório, salas de apoio, esta-
cionamento e estrutura administrativa. Na verdade,
se é que uma igreja deve ter sua sede, por que deve
necessariamente ser "sede própria"?
Há alguns anos atrás fui procurado por um gru-
po de irmãos que estava iniciando uma comunidade
cristã. A intenção do grupo era ouvir alguns insights
acerca de filosofia de ministério, tendo em vista a
necessidade de encontrar um norte para a igreja que
nascia. Lá pelas tantas, em nossa conversa, chegamos
76 Quebrando Paradigmas

ao item "sede", quando todos falaram a respeito dos


custos não apenas de terrenos, mas também de cons-
trução.Perguntei-lhes a respeito do que os levavam a
considerar que a Igreja deveria ter a tal "sede própria".
Na época não me responderam, mas os passos que
decidiram seguir indicaram que não julgaram impor-
tante tal questionamento.
Evidentemente, muitas igrejas já estão instala-
das em sedes próprias que lhes servem adequada-
mente. Têm uma preocupação a menos. Mas há tam-
bém um sem número de comunidades cujas sedes já
se tornaram pequenas e-ou envelhecidas. Quando a
igreja chega nesta esquina, na maioria das vezes decide
partir para a famosa "construção do templo". Estas
comunidades, via de regra, repetem a seguinte história:

(1) Investem anos de sua história na construção de


um, dois ou mais prédios;

(2) Destinam quase a totalidade de seus recursos


financeiros para a compra de ferro, tijolo, cimento e
cal, e quando chega a hora do acabamento, é um literal
"Deus nos acuda";

(3) "Queimam" seus melhores líderes, utilizando-os em


atividades burocráticas e administrativas;

(4) Desviam o foco de seus pastores, que deveriam de-


dicar-se à palavra e oração, mas acabam adquirindo
uma úlcera em função de notas promissórias por ven-
cer;

(5) Dilapidam o patrimônio pessoal de seu rebanho


em inúmeras "ofertas de amor";
Radicalizando na Visão 77

(6) Abrem as portas de um templo que já está pequeno


no dia da inauguração; e

(7) Descobrem atônitas (as que descobrem) que todo o


investimento feito (esforço, tempo, dinheiro) não am-
pliou em nada a influência ministerial da igreja em
seu contexto social.

Uma igreja que ainda não possui sua sede


própria, ou cuja sede já não lhe é adequada, tem pelo
menos quatro alternativas, que já são amplamente uti-
lizadas, como segue:

(1) Alugar uma propriedade estratégica para utilizá-la


como sede permanente (um supermercado, uma
fábrica desativada, um cinema ou anfiteatro);

(2) Alugar uma casa que servirá para a estrutura


administrativa e utilizar outros espaços da cidade para
as demais atividades, como por exemplo: auditório,
para as celebrações coletivas semanais; clubes por um
dia, para lazer e convivência; propriedades menores
para projetos sociais;

(3) Trocar suas propriedades particulares por prédios


prontos que necessitem apenas de adaptação;

(4) Deflagrar um processo de construção com projetos


de baixo custo, rápidos e funcionais. A estruturas pré-
fabricadas parecem ser uma boa sugestão para projetos
a serem iniciados.

As igrejas não devem se preocupar tanto em


construir templos, como em encontrar espaços onde
78 Quebrando Paradigmas

possam viabilizar sua agenda ministerial. Os casos de


exceção devem ser tratados cuidadosamente, visando
uma reflexão consciente capaz de verificar se a cons-
trução de um templo dentro dos parâmetros usuais é
a única e mais viável das alternativas, ou apenas reflete
o enquadramento aos paradigmas.

2. Uma igreja liberta dos paradigmas culto-


clero-domingo-templo não acontece eventualmen-
te, acontece permanentemente.

Cresci numa estrutura eclesiástica assentada


nos paradigmas culto-clero-domingo-templo. O domin-
go de alguém que desejasse estar perfeitamente inte-
grado na Igreja era extremamente cansativo. Começava
às 9 hs, com a Escola Bíblica Dominical. Em seguida
vinha o culto da manhã, geralmente às 10.30hs. À
tarde, três atividades se sucediam: distribuição de
folhetos pelo bairro e culto na Congregação, às 15 hs;
ensaio do coro às 16.30hs; e, reuniões para treina-
mento de líderes às 18hs. Durante alguns anos, me
lembro bem, participei em todas estas atividades, além
de pregar no culto ao ar livre, na Praça, convidando
pessoas para o culto da noite que começava às 20hs.
Não me admiro de que muitas vezes ouvi meus pastores
reclalllando que os comprometidos eram bem poucos.
Somente mais tarde compreendi que a expressão
"comprometidos" dizia respeito à estrutura eclesiástica,
e não à vida cristã em si.
Evidentemente, os frutos desta estrutura de
funcionamento estão vigentes: cristãos sérios com Deus
e muitas novas igrejas. Acredito, inclusive, que muitos
cristãos foram e são felizes servindo a Deus desta
maneira. Mas também é certo que esta forma de ser
Radicalizando na Visão 79

igreja gerou patologias incalculáveis nos cristãos e suas


comunidades. A maior delas, foi o estabelecimento de
uma dicotomia entre o serviço a Deus e a luta pela
sobrevivência, a vida religiosa e a vida particular, o
mundo sagrado e o mundo secular. Lembro-me do
testemunho do Dr. Paulo Oliveira (texto não publicado),
um irmão lúcido, quando questiona consigo mesmo:
"Qualquer pessoa que entre em uma igreja evan-
gélica e se assente para ouvir o sermão dominical, cer-
tamente irá ouvir um apelo a que se empenhe em
executar a "obra do Senhor", a ser fiel e zeloso de tal
sorte que esta obra maravilhosa não seja prejudicada
pela sua negligência ou omissão. Também, com certeza,
o ministro deixará bem claro o que quer dizer por "obra
do Senhor", de modo que lhe recordará a sua obrigação
de pregar, de contribuir, de orar, de ser assíduo aos cultos
e demais serviços da igreja, de se engajar nas
atividades dos diversos departamentos da igrejci. ·
Mas, nestes momentos uma pergunta me toma
de assalto, furiosa .. e constrangedora: Será esta
realmente a "obra do Senhor"? Para isto fomos criados
e colocados neste mundo pleno de possibilidades pre- e.
nhe de dificuldades? Será que é realmente para rea-
lizarmos este tipo de obra que devemos com o suor do
nosso rosto comer o nosso pão, para depois de vencer
espinhos e cardos retornar ao pó de onde fomos tirados?
Deve haver também uma outra "obra do Senhor",
sim por certo. E nela não faltarão os filhos, a mulher, o
comer e beber bem, a alegria da vida e a paz do lar, os
deleites e prazeres da alma, ou o desabrochar seguro,
gradual e incessante dos.fluxos de amor, de criatividade,
de energia realizadora que nascem dentro de nós, e
que como feras enjauladas lutam por abrir caminhos
em meio aos desânimos, às decepções, à indiferença,
80 Quebrando Paradigmas

aos ódios e ciúmes, e que apesar de tudo e contra tudo


isso, se concretizam nas "boas obras que Deus já antes
tinha preparado para que nelas andássemos".
Estas inquietações deveriam ser suficientes para
que as igrejas enxugassem sua agenda eclesiástica for-
mal e super-valorizassem informal. Isto é, menos ativi-
dades comuns e "obrigatórias", e grande incentivo aos
ministérios (diaconias) e relacionamentos pessoais des-
centralizados do "culto, clero, domingo e templo".
Por exemplo, imagino a agenda de uma comuni-
dade cristã com as seguintes atividades:

(1) Celebração coletiva, no domingo, pela manhã ou à


tarde, tendo em vista o louvor e adoração comunitária,
a unidade doutrinária, e a coesão ministerial (objetivos
ministeriais comuns);

(2) Grupos de Discipulado em dias, locais e horários


diversos, tendo em vista o cuidado do rebanho, o disci-
pulado, inclusive de novos cristãos. Os grupos de disci-
pulado devem funcionar também como o ambiente da
devoção, onde a participação de todos, com salmo, dou-
trina, profecia, revelação (1Co14.26-33) é muito mais
própria do que nas celebrações coletivas;

(3) Grupos de Ministérios, com a agenda de execução


flexível, aglutinando cristãos ao redor de projetos co-
muns, como projetos sociais, teatro, música, evange-
lização de grupos específicos, engajamento missionário,
intercessão, e outros. Neste aspecto podemos enqua-
drar a utilização da sede da Igreja para múltiplas ativi-
dades, de modo a não cometer o pecado de abrir as
portas somente aos domingos, deixando o ambiente
ocioso durante a semana.
Radicalizando na Visão 81

(4) Eventos especiais para evangelização, integração e


comunhão, instrução e treinamento, à luz da compre-
ensão de que "obra do Senhor" envolve o vôlei da "mo-
çada", o estudo bíblico, a pizza com os amigos, a vigília
de oração, o bate-bola entre casados e solteiros, o pro-
jeto social, a educação infantil e tudo quanto for feito
"por palavras e por obras", sabendo-se que a prior,
todo ajuntamento cristão é expressão simultãnea de
koínonía, kerígma e dídaché (comunhão, proclamação
e instrução);

(5) Estrutura de educação, competindo com o mercado.


Isto é, assim como pessoas priorizam seu tempo para
estudar inglês, piano ou pára-quedismo, devem ter a
oportunidade de buscar em sua comunidade cristã os
subsídios para aprofundamento na fé e qualificação
para o serviço cristão no mundo. Estudar e buscar
profundidade teológica é compulsório, e não obriga-
tório, muito embora seja dificil imaginar um cristão
displicente quanto à palavra de Deus.
As igrejas devem possuir uma agenda solta, com
forte ênfase nos relacionamentos pessoais, no disci-
pulado e no serviço solidário. A agenda da igreja local
deve ser flexível e variada e os Pequenos Grupos, tanto
de Díscipulado quanto de Serviço podem suprir esta
necessidade. As variáveis de aglutinação de pessoas,
quer por afinidades pessoais, quer projetos comuns,
são infindáveis quando a igreja se propõe a funcionar
todos os dias em todos os lugares através de todos os
seus membros, e não apenas no culto-clero-domingo-
templo.
Esta estrutura responde à realidade urbana con-
temporãnea. Hoje em dia as pessoas querem opções
variadas, produtos e serviços personalizados. Bill
82 Quebrando Paradigmas

Hybels (Folha de S. Paulo, 1991) disse que "é cada vez


mais difícil manter uma igreja pequena, 'presevar o
armazém de secos e molhados'. O espaço é ocupado
por supermercados que oferecem muitos produtos. O
mesmo ocorre na religião". O problema, portanto, não
é ser grande, mas conseguir fracionar o rebanho em
Pequenos Grupos afins, de modo que a vivência da fé
seja incorporada no estilo de vida de cada pessoa, e
não se restrinja ao ativismo dominical.
A igreja há que acontecer sempre, e para isso
deve raciocinar a partir do pequeno, ágil, flexível, capaz
de respeitar as peculiaridades de cada segmento do
seu rebanho, ao invés de enterrar-se no ativismo de
num único dia da semana, para um único programa
massificado. A Igreja grande deve ser fracionada. A
pequena, deve crescer a partir da multiplicação de célu-
las afins.

3. Uma igreja liberta dos paradigmas culto-


clero-domingo-templo mobiliza todos os seus mem-
bros a partir dos dons espirituais e ministérios
pessoais

Um fenômeno característico do evangelicalismo


no Brasil é a figura dos "grandes homens de Deus".
homens, ou mulheres que representam a "versão gospel
do guru". Alguns, por opção própria, outros, pela pres-
são popular. Os primeiros, adoecidos na alma, colocam-
se a si mesmos no pedestal do egocentrismo e não têm
grandes dificuldades para encontrar admiradores.
Estes, não possuem ovelhas ou discípulos, possuem
fãs. Há também aqueles que lutam para fugir desta
condição, mas acabam vitimados pela cultura da Amé-
rica Católica que "sempre precisará de seus ridículos
Radicalizando na Visão 83

tiranos": o povo os eleva à dimensão da trindade.


Vale ressaltar que a palavra de Deus apresenta
biografias extraordinárias e aponta na direção de
homens e mulheres usados por Deus para ministérios
específicos, mas que a ênfase do Novo Testamento está
no funcionamento do corpo de Cristo através do
"auxílio de todas as juntas, segundo ajusta operação
de cada parte" (Ef 4.16). Não se discute que a palavra
de Deus faz distinção entre os "uns" e os "santos" (Ef
4.11, 12), de modo que o exercício da liderança é insti-
tuição divina. O grande segredo operacional da Igreja
é o equilíbrio entre a ação de uma liderança visionária
e carismática e o engajamento de todos os cristãos.
Nesse sentido, o ministério em equipes deve prevalecer
como instrumento de mobilização do rebanho e fator
atenuante dos personalismos, o que nos leva à seguinte
estrutura eclesiástica:

3.1. Uma Equipe Ministerial capaz de "utilizar"


seus integrantes em ministérios compatíveis com seus
dons espirituais.

O objetivo seria o de repartir atribuições de acordo


com as potencialidades, personalidade, experiência e
formação específica dos chamados Pastores. A comunidade
deveria visualizar claramente seu pastores, que poderiam
dedicar tempo integral ou parcial, inclusive oficializando a
participação dos chamados leigos cujos dons e ministérios
fossem compatíveis com as funções ministeriais.

3.2. Conselhos Ministeriais responsáveis pela


coordenação das áreas de atuação da igreja, agluti-
nando ministérios afins e engajando cristãos com inte-
resses, dons, experiências e vocações especificas.
84 Quebrando Paradigmas

Esta estruturação da Igreja está alicerçada em


três princípios básicos, a saber:

(1) Os dons espirituais e as vocações específicas impli-


cam em que nenhum membro da igreja estará envol-
vido em todos os ministérios;

(2) A equipe ministerial, além de suas responsabilida-


des inerentes de dedicar-se à oração e à palavra de
Deus, passa a ter as seguintes atribuições:

* Encaixar as pessoas em áreas ministeriais com-


patíveis com seus dons, personalidades, interesses e
capacitações.

*Aperfeiçoar as pessoas para que executem bem


seus ministérios, isto é, providenciar para que tenham
treinamento adequado.

* Subsidiar as pessoas em seus respectivos mi-


nistérios, isto é, providenciar que tenham recursos ne-
cessários para o bom desempenho de suas funções.

* Administrar os ministérios da comunidade co-


mo um todo, o que eqüivale não somente a manter
todos eles debaixo do mesmo guarda-chuva (a filosofia
da igreja), como também planejar, delegar e supervi-
sionar cada área ministerial juntamente com suas res-
pectivas equipes de trabalho.

(3) Os Conselhos Ministertais, subdivididos em múltiplos


ministérios são a igreja em suas respectivas áreas de
atuação. Isto é, quando um grupo de ministérto age, a igreja
age através dele. Sendo assim, quando um membro da igreja
Radicalizando na VIBão 85

alcança o mundo, a igreja alcança o mundo.

MINISTROS Cristãos com a vocação e a preparação


DE TEMPO suficientes para a dedicação exclusiva
INTEGRAL aos ministérios da comunidades cristã

Os chamados leigos cujos dons espiri-


tuais, ministérios e competência profis-
MINISTROS
sional são compatíveis com as funções
FAZEDORES
pastorais e façam parte da equipe mi-
DETENDAS
nisterial reconhecida pela comunidade
cristã

Ministros convidados para a execução


MINISTROS de projetos de médio prazo na comuni-
TEMPORÁRIOS dade cristã

Cristãos cujos dons e ministérios apon-


tam para futuro aproveitamento no mi-
ESTAGIÁRIOS nistério pastoral e ou missionário e já
estejam envolvidos em programas para
formação teológica

4. Uma igreja liberta dos paradigmas culto-


clero-domingo-templo articula sua estrutura ope-
racional de modo a valorizar e priorizar relacio-
namentos pessoais

O acelerado processo de desenvolvimento tecno-


lógico e de urbanização da sociedade vem cozinhando
as igrejas em fogo brando. As cidades vão se tornando
locais de trabalho e a tecnologia vai isolando pessoas
86 Quebrando Paradigmas

que passam a interagir com máquinas que dão acesso


a produtos e serviços necessários à sobrevivência. Com-
putadores conectados em rede, caixas eletrônicos, dri-
ve-thru, delivery e telemarketing, são instrumentos ca-
da vez mais utilizados e as pessoas já podem traba-
lhar, fazer compras e encontrar diversão sem deixar
os poucos metros quadrados de seus apartamentos. A
violência das ruas e o trãnsito insuportável das grandes
cidades serão cada vez mais capazes de persuadir o
cidadão a fazer de sua casa o lugar mais agradável de
se estar.
Haverá, entretanto, urna brecha em todo este
mecanismo social que se instala com ares de definitivo.
O fato de que Deus criou pessoas para viverem em
profunda comunhão é irrevogável. Não é sem razão
que o Senhor Jesus determinou o amor como marca
característica e distintiva da comunidade cristã. Pes-
soas precisam de Deus, e pessoas precisam de pessoas.
Nada supera a relação pessoa-pessoa. A experiência
de amar e ser amado é insubstituível. O ser humano
é, decididamente, gregário. A vida humana é pontilhada
de momentos quando nada preenche a necessidade
que somente pode ser suprida por um abraço caloroso
e acolhedor.
Sabemos que a satisfação humana não depende
apenas da posse do objeto desejado. É necessáiio que
o processo de conquista do objeto seja pleno e coerente
de modo a gerar o "sentimento de posse" e a "sensação
de suprido". Pois é fato que se a realidade virtual poderá
gerar a sensação de estar abraçado, jamais poderá ge-
rar a sensação de ser amado. Talvez até possa abraçar,
mas a sensação de que o abraço nunca aconteceu
acompanhará o carente noite à dentro.
As comunidades cristãs locais que farão dife-
Radicalizando na Visão 87

rença no futuro serão aquelas cuja ênfase maior estiver


nos relacionamentos interpessoais. Estruturas, progra-
mas e métodos serão, como sempre foram, secundá-
rios, em uma comunidade de amor. A comunidade que
não estiver fracionada e não possuir mecanismos capa-
zes de aproximar pessoas umas das outras será apenas
mais um item na agenda de tantos que preenchem
seus vazios com atividades e programas.
Carl George (1992, p. 15) comenta uma lista de
clamores ou necessidades das pessoas neste final de
século. Dentre outras coisas, as pessoas estão dizendo
mais ou menos o seguinte:

(1) Eu preciso de calor humano

John Naisbitt, em seu best-seller Megatrends,


afirma que em resposta ao fenômeno "high-tech" as
pessoas estão carentes de "high-touch". O acelerado
processo de avanço tecnológico e a crescente convivên-
cia com a máquina tem gerado a necessidade de relacio-
namentos humanos significativos.

(2) Capacite-me a conviver com a instabilidade

Hoje em dia as pessoas somente estão dispostas


a participar das atividades eclesiásticas se suas neces-
sidades são satisfeitas. As pessoas que se envolvem
com uma comunidade cristã estão em busca de algo
que possa funcionar em seus relacionamentos, desem-
penho profissional e saúde familiar.

(3) Eu preciso de motivação

Todos os líderes devem se perguntar acerca de


88 Quebrando Paradigmas

quais as necessidades de seus membros, de modo a


supri-los e liberá-los para o trabalho voluntário.

{4) Mostre-me uma organização onde as pessoas


realmente são importantes

As estruturas organizacionais devem ser huma-


nizadas. Afinal, estamos trabalhando para transformar
pessoas ou para perpetuar instituições e programas?

(5) Mostre-me pessoas que realmente se impor-


tam comigo

Em outras palavras: "Esta igreja está interessada


em mim, ou na minha mão de obra e meu dinheiro?".
A comunidade cristã é por excelência ambiente
de encontro: pessoas com Deus, umas com as outras
e consigo mesmas, num processo cujas riquezas são
insondáveis e imensuráveis. O ativismo religioso, a
multiplicação de líderes tipo "show man" e atividades
"xerocadas" dos mega-eventos hollywoodianos são e
serão sempre insuficientes para preencher os anseios
mais profundos da pessoa humana, principalmente
num contexto social e cultural cheio de competitivi-
dade, que leva ao extremo a sugestão de "cada um por
si e o diabo que leve o último".
A Igreja há que voltar às origens e reafirmar-se
como ambiente de encontros, relacionamentos, acon-
chego, ambiente família, vida comunitária, sob pena
de tornar-se mais um item a disputar a agenda do
cidadão urbano ou distração barata para o pobre da
periferia. Para que se estabeleça como igreja em sentido
pleno, a comunidade cristã deverá resgatar a realidade
profunda da comunhão bíblica: a unidade espiritual
Radicalizando na Visão 89

que faz com que todos sejam um, um em Cristo. Menos


atividades, reuniões, programas, eventos, e mais comu-
nhão, trocas interpessoais, conversas francas, peito
aberto, mãos dadas e abraços fraternos. O lugar central
da Igreja na virada do século, não deve ser nem o palco
nem o púlpito, mas sim a mesa.

5. A igreja liberta dos paradigmas culto-clero-


domingo-templo considera o discipulado uma rea-
lidade imprescindível

A relação pessoa-pessoa inclui prioritariamente


processos de discipulado, uma vez que a dinâmica dos
relacionamentos não se esgotam na mera convivência
social. Cristãos se multiplicam através do "contato-
contágio", repartindo a vida que recebem de Cristo com
outras pessoas.
Em termos práticos, e observando a preocupação
didática, podemos considerar os processos de disci-
pulado na igreja lo~al a partir de quatro fases distin-
tas, como segue:
Esta visão das "fases do discipulado" merece algu-
mas considerações. Em primeiro lugar, o quadro é
apenas uma forma de facilitar a compreensão, uma
vez que relacionamentos pessoais não podem ser
emoldurados. Discipulado não é programa (horas aula,
textos didáticos, projetos, eventos, etc}, é processo, e
por isso mesmo varia de pessoa para pessoa, de relacio-
namento para relacionamento.
Em segundo lugar, vale ressaltar a centralidade
dos pequenos grupos como facilitador do discipulado.
Muito embora tenhamos as dimensões do relaciona-
mento pessoal, dos eventos selecionados, das celebra-
ções coletivas, engajamento ministerial, é no pequeno
90 Quebrando Paradigmas

grupo que o processo de enriquecimento mútuo ganha


sua maior densidade.
Uma igreja preocupada em ser mais do que uma
"agência de promoção de eventos gospel" deve priorizar
recursos e ambientes para que seus membros possam
crescer na maturidade cristã, servir através de seus
dons espirituais em ministérios a partir do corpo de
Cristo multiplicar-se através do "contato-contágio" com
não cristãos. Este processo todo: testemunho, inte-
gração, maturidade e reprodução é o discipulado.

O PROCESSO DE DISCIPULADO

FASE ESTRATÉGIA OBJETIVO


1. Amizade
2. Exemplo A Conversão
Testemunho
3. Serviço do Discípulo
4. Testemunho Verbal

1. Eventos especiais
Integração 2. Pequenos Grupos O Batismo
de Discipulado do Discípulo

1. Eventos especiais
A Qualidade
2. Pequenos Grupos
Maturidade de Vida
de Discipulado
do Discípulo
3. Celebrações coletivas

1. Programa de
Treinamento O Ministério
Reprodução
2. Pequenos Grupos do Discípulo
de Serviço
Radicalizando na Visão 91

6. A igreja liberta dos paradigmas culto-clero-


domingo-templo é uma agência de serviço profé-
tico

Praticamente todos os segmentos evangélicos em


nosso país estão sensibilizados para a questão social.
Raríssimas são as lideranças evangélicas que ainda
não se conscientizaram que uma igreja que não é
solidária está destituída de sua voz profética, quer por
seu descrédito ante a sociedade, sua insensibilidade
intrínseca ou pelo fato de estar traindo sua vocação
histórica, uma vez que negligencia a mais elevada ex-
pressão prática de sua essência de amor: a solidarie-
dade. As lideranças evangélicas, portanto, são moti-
vadas pelo sonho de impactar o Brasil e contribuir
significativamente para o surgimento de uma nova e
mais justa ordem social.
Diferem, entretanto, estas lideranças, nas ques-
tões estratégicas. Concordam no "o que fazer", mas
divergem no "como fazer". Há quem acredite que o
caminho da relevância histórica passa pela conquista
das instâncias de poder político e assentam sua estra-
tégia em três pilares: cetro, coroa e trono, que sinte-
tizam e simbolizam o poder temporal. A máxima anar-
quista que ensina que "nenhum homem conquista o
poder, o poder é que conquista o homem" tem sido
comprovada na experiência de muitos evangélicos que
se aventuraram por este caminho. Para os tais, o
processo de chegar lá no topo tem sido permeado por
acordos e maracutaias que deixariam Maquiavél orgu-
lhoso de seus "discípulos cristãos".
Evidentemente, a escalada de cristãos às instân-
cias do poder público será sempre uma bem aventu-
rança, na medida em que o poder for instrumento de
92 Quebrando Paradigmas

serviço e não de domínio. É nessa perspectiva que o


apóstolo Paulo chama as autoridades constituídas de
ministros de Deus para a promoção da justiça e bem
comum (Rm 13.1-7). Nesse caso, o poder e a autoridade
constituem-se em "meio" e não em "fim".
O caminho proposto pelo Senhor Jesus ainda
permanece: a toalha no lugar do cetro, os espinhos no
lugar da coroa, e a cruz no lugar do trono. A Igreja
exerce o seu impacto na sociedade e concretiza seu
ideal de relevância histórica pela via do serviço, e não
do poder. É através da expressão da solidariedade que
a Igreja deve estender as fronteiras do reino de amor
eterno do Senhor que venceu como Cordeiro e não
como Leão.
Mesmo porque, se é fato que o processo de urba-
nidade e tecnologia há de gerar um status de conforto
para alguns setores da população, certamente também
há de multiplicar as carências nos centros de maior
densidade populacional. O serviço será a resposta cris-
tã capaz de justificar a existência e permanência da
igreja na sociedade. Chegará o tempo em que a ocio-
sidade dos templos evangélicos será imperdoável. O
pecado que as comunidades cristãs cometem hoje, ao
mobilizarem seus recursos para servir apenas seu pú-
blico interno, será o algoz de amanhã.
A previsão de que os grandes centros urbanos
serão bolsões de pobreza e delinqüência, a exemplo do
que já acontece em outras partes do mundo, indica
que as comunidades cristãs devem se aparelhar para
a prestação de serviços, abrindo suas portas e dispo-
nibilizando suas riquezas, de tal maneira que sejam
de fato comunidades alternativas, proclamadoras e
promotoras da justiça integral que sinaliza o reino
eterno e atrai o coração do homem ao Deus que, em
Radicalizando na Visão 93

Cristo, redime, liberta e transforma. Nesse sentido, o


serviço cristão é profético: aponta necessariamente
para a eternidade e para a dimensão da espiritualidade
do reino de Deus, para o Cristo e sua tão grande salva-
ção. A Igreja não está no mundo para benemerência,
mas para submetê-lo ao Senhor Jesus. A ação solidária
deve se fazer acompanhar da palavra profética, e toda
palavra profética despida da solidariedade é barulho
de lata.
A velha tensão entre evangelização e responsabi-
lidade social há que ficar na poeira da história. Cristãos
devem redescobrir que o serviço a Deus é necessaria-
mente um serviço ao próximo. Quem quer ofertar a
Jesus não deve se apressar na direção do templo para
o serviço religioso, deve passar antes pelo leito do
hospital, a cadeia e a esquina, deve vestir o nu, visitar
o enfermo e dar de comer e beber ao moribundo, pois
quem serve a um dos pequeninos, na verdade serve a
Jesus (Mt 25.31-46).

7. Uma igreja liberta dos paradigmas culto-


clero-domingo-templo amplia seus horizontes
ministeriais através de múltiplas parcerias com
igrejas e instituições cristãs

Toda comunidade cristã carece de um fórum


cristão de fraternidade. Definitivamente, a visão do
reino de Deus deve levar a visão da comunidade para
além de suas fronteiras locais e denominacionais. O
corpo de Cristo é maior do que suas formas históricas
e culturais de expressão. As fronteiras denomina-
cionais e diferenciações teológicas devem distinguir,
mas nunca separar. Esse é um tempo de parcerias,
onde comunidades afins devem se aglutinar ao redor
94 Quebrando Paradigmas

de projetos comuns capazes de impactar seu contexto.


Há pelo menos três benefícios de um fórum
cristão de fraternidade:

(1) Balizamento teológico

A Bíblia, ao ensinar que "na multidão de conse-


lheiros há sabedoria", indica que o labor teológico é
uma tarefa comunitária. O Rev. John Stott, ensina que
a negligência ao consenso teológico da Igreja é uma
blasfêmia contra o Espírito Santo de Deus que há dois
mil anos ilumina cristãos para que entendam as Escri-
turas.
As chamadas igrejas independentes, isoladas da
comunhão com outras comunidades são um solo fértil
para heresias, uma vez que passam a girar em torno
de alguns poucos homens e mulheres que negligen-
ciam uma dimensão imprescindível do exercício da
liderança cristã: a prestação de contas.

(2) Intercâmbio ministerial

O Pastor Lourenço Stelio Rega foi o primeiro de


quem ouvi a expressão "comunidade cristã virtual",
onde os recursos mais diversos são intercambiados e
multiplicados entre igrejas. Num mundo em que a
maior riqueza é a informação, a maior contribuição
entre comunidades cristãs é a transferência de know
how. E viva a Internet. E o BBS (Bulletin Board Service).

(3) Soma de riquezas

Comunidades cristãs isoladas não têm poder de


fogo para impactar a cidade e o mundo. As redes mis-
Radicalizando na Visão 95

sionárias denominacionais, os aglomerados eclesiás-


ticos com caixa único, a contribuição interdenomi-
nacional que sustenta as chamadas paraeclesiásticas
e os movimentos esporádicos internacionais são teste-
munhos de que "uma igreja só não faz verão". A pre-
sença cristã institucional na mídia, por exemplo, so-
mente é possível mediante a conjugação de esforços,
como bem demonstram as experiências atuais.

8. A igreja liberta dos paradigmas culto-clero-


domingo-templo está mais preocupada em salgar
a terra e iluminar o mundo do que em preservar
seu pequeno rebanho

Charles Swindoll afirmou que "a tradição é a fé


viva dos que já morreram, enquanto que o tradicio-
nalismo é a fé morta dos que ainda vivem". Infelizmente,
os defensores e mantenedores do status quo ainda são
em grande número dentro das comunidades evangé-
licas, notadamente nas reformadas históricas, geral-
mente alicerçadas nos feudos das famílias fundadoras.
Não são poucos os pastores que gastam seus dias ten-
tando permanecer de pé face às exigências de l1de- .
ranças tradicionalistas, ao invés de investirem suas ·
potencialidades na criação e desenvolvimento de meca-
nismos de testemunho cristão na sociedade.
Definitivamente, sob pena de obsolescência, as
igrejas estão desafiadas a romper os paradigmas culto-
clero-domingo-templo. Este é um tempo quando os líde-
res covardes e as comunidades reacionárias serão atro-
pelados pelas mudanças que a cada dia se multiplicam
e ocorrem mais rapidamente. Manter a tradição, e não o
tradicionalismo. Eis o desafio para quem deseja "servir a
sua própria geração, segundo a vontade de Deus".
Conclusão

1. Síntese

A Igreja, o corpo vivo de Cristo, deve existir fora


dos paradigmas "culto-clero-domingo-templo". Isto, evi-
dentemente, não significa que estas dimensões da re-
ligiosidade são prescindíveis; significa sim que não são
suficientes nem prioritárias.
Não há dúvidas quanto ao fato de que milhares
de cristãos são semanalmente abençoados por Deus
mediante sua freqüência nas celebrações coletivas,
quando no templo são tocados por Deus, seja por oca-
sião do louvor, de um testemunho ou oração, e mesmo
na proclamação da palavra de Deus. Se é verdade que
cristãos sobrevivem sem templos, também é verdade
que aqueles que negligenciam a freqüência às cele-
brações coletivas de sua comunidade cristã deixam de
lado uma dimensão significativa e até mesmo impres-
cindível da experiência religiosa.
Entretanto, somente a igreja fracionada em Pe-
quenos Grupos pode experimentar a plenitude do que
o Novo Testamento chama de ekklesia. Enquanto não
há mutualidade entre os cristãos, não há igreja, há
evento. Enquanto não há multiplicidade de ministéri-
os e serviços a partir da comunidade cristã, não há
igreja em missão, há igreja em reunião.
Os Pequenos Grupos, portanto, devem ser a teia
de sustentação do dia-a-dia da comunidade cristã, bem
como os instrumentos viabilizadores do serviço pres-
98 Quebrando Paradigmas

tado pelos cristãos no mundo. Dons espirituais devem


ser vistos na perspectiva de ministérios coletivos
(diaconias) e não na dimensão individualizada (experi-
ências com Deus à portas fechadas). Cristãos devem
ser encorajados a se envolver em ministérios e não
apenas a descobrir seus dons. Mais do que isso, cris-
tãos devem ser encorajados e subsidiados para que
exerçam em plenitude sua vocação de sal da terra e
luz do mundo, e a vivência comunitária não é apenas
o ambiente onde cristãos qualificam sua vida a fim de
servir a Cristo nos respectivos contextos onde se en-
contram, como também o fórum para a ministração
comum ao mundo.
As grandes reuniões da comunidade são reu-
niões de celebração, gratidão, profecia e encorajamento
ao corpo que está ministrando no cotidiano e expan-
dindo as fronteiras do domínio de fato do Senhor Je-
sus. As pequenas reuniões da comunidade, são espa-
ço para a expressão de todos diante de Deus e para o
exercício da mutualidade, construindo os relaciona-
mentos que solidificarão o corpo em missão.

2. Uma Visão Para a Igreja Local

RAZÃO A reconciliação da criação com o Criador


DE SER

MISSÃO Levar o evangelho todo para o homem todo

Priorizar relacionamentos envolvendo


FILOSOFIA todos os membros além dos límites
do "culto-clero-domingo-templo"
Conclusão 99

3. Um Segredo de Domínio Público

Nada substitui o mover do Espírito Santo na Igre-


ja. O Espírito Santo é como o vento que sopra onde,
quando e como quer. O Espírito Santo é livre e misterio-
so, não sabemos de onde vem nem para onde vai, só
sabemos que Ele está presente, porque é impossível
deixar de perceber o vento.
Registre-se, portanto, que não há filosofia de mi-
nistério, planejamento, organizações, métodos, cam-
panhas de marketing ou quaisquer outras realidades
que substituam a ação do Espírito Santo. Sabemos
que todas estas coisas podem ajudar e até mesmo se
encaixam na nossa parte tipo remover a pedra, mas
ressuscitar o morto é obra absoluta do Senhor Jesus,
e não há nada que lhe roube a glória ou simule sua
intervenção. O Espírito Santo de Deus não é manipu-
lável: Ele é como o vento, e não como um ventilador.
Uma igreja, portanto, que quer fazer diferença
no mundo, deve ser uma igreja carismática. Deve se
entregar à prática das disciplinas espirituais: oração,
jejum, devoção pessoal e coletiva à luz da palavra viva
de Deus, adoração livre que exalta a Deus Pai, Filho e
Espírito Santo. Deve estar aberta aos carismas, na
perspectiva de "buscar com zelo os melhores dons" (ICo
12.31). de tal maneira que seu ministério seja explica-
do apenas à luz do transcendente, da intervenção di-
reta do Espírito Santo, e não pelo seus recursos diver-
sos e potenciais humanos.
Bibliografia Sugerida

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GETZ, Gene. Building up one another. Wheaton: Victor Books, 1981.

GLENN, Hinson & SIEPIERSKI, Paulo. Vozes do Cristianismo Primitivo. São


Paulo: Temática, 1991.

LEWIS, C.5., A Essência do Cristianismo Autêntico, São Paulo: ABU Editora,

LINTHICUM, Robert. Cidade de Deus, cidade de satanás. Brasília: Missão, 1993.

MACARTHUR, John. The master's plan for the church. Chicago: Moody Press, 1991.

NEE, Watchman, La iglesia normal, Cuernavaca: Tipográfica Indígena, 1964

ORTLUND, Ray. Senhor, faça da minha vida um milagre. SP: Mundo Cristão, 1980.
PADILLA, René. Missão integral. São Paulo: Temática Publicações, 1992.

RAMOS, Ariovaldo. Veja sua cidade com outros olhos. São Paulo: Sepal, 1995.

RICHARDS, Larry. Teologia da educação cristã. S P: Vida Nova, 1980.


RICHARDS, Larry. Teologia do ministério pessoal. SP: Vida Nova, 1984.

SHAEFFER, Francis. A igreja no final do século XXI. Brasília: Editora Sião,1982.

SHELLEV, Bruce & Marshall. The consumer church. lnterVarsity Press, 1992.

SNYDER, Howard. The problem ofwineskins. Downers Grove: lnterVarsity Press, 1976.

STEDMAN, Ray. Igreja: corpo vivo de Cristo. SP: Mundo Cristão, 1974.

STEVENS, Paul, Disciplinas para um coração faminto, SP: Abba Press, 1993

STOTT, John. O cristão numa sociedade não cristã. Niterói: Vinde, 1989.
STOTT, John. Evangelização e responsabilidade social: série Lausanne, volume 2,
São Paulo: ABU Editora, 1983
STOTT, John. La mission cristiana hoy, Buenos Aires: Certeza, 1975.

STREINBRON, Melvin. Can the pastor do it atone. Ventura:Regal Books, 1987.

TILLAPAUGH, Frank. Unleashing the church. Ventura: Regai Books, 1982.

TOWNS, Elmer. Ten innovative churches. Downers Grove: lnterVarsity Press.

WAGNER, Peter. Leading Your Church to Growth, Ventura: Regai Books, 1984.
Parabéns!
Você terminou a leitura de mais um bom livro. Esperamos que você esteja
se sentindo encorajado, fortalecido e melhor informado. Gostaríamos de
saber sua opinião sobre este livro, para que possamos aprimorar a
qualidade do nosso trabalho. Nossa missão é publicar livros que contribu-
am para sua felicidade (Jo 10.10). Por isso, gostaríamos de recomendar
a você mais alguns importantes títulos:

A História de Um Ovo?
Jáder Borges Filho
É um livro juvenil que todo adulto dever ler. Quem de nós nunca agasalhou
um mau hábito ou criou um pecado de estimação? Em A História de Um
Ovo ?somos criativamente exortados a nos desvencilharmos de tudo o que
se pareça com pecado, mesmo o aparentemente mais inofensivo e
engraçadinho.
Formato: 14,0 x 21,0 cm, com 96 págs.

Profecias da Bíblia
Dr. John F. Walvoord
Centenas de profecias já se cumpriram. Conheça todas as revelações da
Bíblia para o presente e o futuro iminente. Edição concisa e atualizada.
Formato: 14,0 x 21,0 cm, com 408 págs.

Catolicismo - o que todos devem saber sobre o


TonyArmani
Uma análise franca e bíblica sobre o dogmas e ensinos católicos à luz da
Bíblia. Todos devem saberas fatos históricos, as instituições que fizeram
o Catolicismo conhecido e os lamentáveis erros cometidos por seus
líderes.
Formato: 14,0 x 21,0 cm, 80 págs.

Maturidade Espiritual
Oveláckell
O autor coloca os princípios primordiais para uma maturidade espiritual na
vida do cristão autêntico e que quer servir ao Senhor. O Dr. Russell Shedd,
quem prefaciou o livro lembra: "que este livro alimenta a alma daqueles que
têm fome e sede de justiça".
Formato: 14,0 x 21,0 cm, 136 páginas.
Koinonia - Manual P/Líderes de Pequenos Grupos
Ed René Kivitz
Em Koinonia- Manual Para Líderes de Pequenos Grupos, você descobrirá
que Deus se fez humano em Jesus Cristo e através do Espírito Santo vive
nas almas das pessoas que, sinceramente, amam a Deus e desejam fazer
sua vontade. Ed René Kivitz é um catalizador de relacionamentos. Sua
meta é oferecer, ao homem e a mulher de hoje, princípios bíblicos para uma
vida plena de significado, paz e alegria.
Formato: 14,0 x 21,0 cm, com 126 páginas.

Orar com Deus


James Houston
Orar é muito mais do que conseguir da divindade aquilo que desejamos;
é exercer um relacionamento de amizade com Deus.
Formato: 14,0 x 21,0 cm, com 320 páginas.

O Evangelho Segundo João


Nova Tradução King James Atualizada
A fidelidade aos melhores originais da Bíblia, disponíveis em hebraico,
grego e aramaico, e o reverente e majestoso estilo da mais apreciada Bíblia
do mundo: a King James Atualizada, agora estão à sua disposição em
português. Você encontrará nesse livro: a edição completa do Evangelho
Segundo João com notas explicativas em cada capítulo. Estudo indutivo
com 62 questões, recurso indispensável para evangelização. Artigos e
comentários; esboços, mapas e curiosidades bíblicas ilustradas.
Formato: 14,0 x 21,0 cm, com 144 páginas.

A Promessa
Dr. Tony Evans
Um livro que estuda através da Palavra de Deus a profunda experiência
bíblica do Espírito Santo, sua influência, poder e plenitude a fim de
proporcionar ao cristão uma vida autêntica e abundante.
Formato: 14,0 x 21,0 cm, com 360 páginas.

O Poder da Visão
George Sarna
Mais de meio milhão de livros vendidos nos Estados Unidos. O pastor e
autor especialista em pesquisas sobre crescimento da igreja, coloca neste
trabalho toda a sua experiência para mostrar como você pode captar e usar
o poder da visão de Deus. Formato: 14,0 x 21,0 cm, 200 págs.
A Medida de Um Homem Espiritual
Gene A. Getz
O grande clássico dos livros sobre liderança cristã dos anos 80 no Brasil,
está de volta. Totalmente revisado, ampliado e atualizado pelo próprio
autor. Um livro capaz de transcender culturas. Raramente se vê um livro
que realiza, nas vidas de seus leitores, muito mais do que promete!
Formato: 14,0 x 21,0 cm, com 88 páginas.

Igrejas Amigáveis e Acolhedoras


George Barna
O que todo cristão precisa saber sobre as igrejas que amam a Deus,
pregam o evangelho e atraem milhares de pessoas para um convívio
fraterno e saudável. Formato: 14,0 x 21,0 cm, com 206 páginas.

Perdido no Deserto
Dr. Mike Wells
No Reino de Deus o fracasso precede o sucesso. Esse é o primeiro livro
da série sobre encorajamento e psicologia evangélica, onde você descobrirá
como transformar recalques, decepções, fraquezas e inseguranças em
diamante bruto para a lapidação divina.
Formato: 14,0 x 21,0 cm, com 208 páginas.

O Marketing a Serviço da Igreja


George Barna
Este livro o ajudará a compreender o que é o marketing e como usá-lo em
seu ministério, aprender a pensar mais estratégica e proativamente e
compreender como a Bíblia e o marketing podem coexistir pacificamente.
Formato: 14,0 x 21,0 cm, com 272 páginas.

Dia a dia com Cristo


Neil e Joanne Andersen
Você caminha com Deus? Você está cansado de tentar viver a vida cristã
com suas próprias forças? Você quer experimentar a realidade de Cristo
em você ? Os autores estão casados a mais de 40 anos e desejam ver
cristãos do mundo inteiro crescendo espiritualmente.
Formato: 14,0 x 21,0 cm, com 368 páginas.

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Ed René Kivltz, é casado com SIMa Re-
gina e possuem dois filhos, Fernanda e
..____ , Vitor. Atualmente é pastor da Igreja Ba-
tista de Água Branca, em São Paulo, on-
c~- de desenvolve um ministério, dinâmico
e criativo, de evangelização urbana. É
um dos diretores da Sociedade Bíblica
Internacional, professor na Faculdade
Teológica Batista em São Paulo, confe-
rencista e autor de verve bíblica e moder-
na. Suas obras, Nasce Uma Igreja e
Koinonia - Manual Para Líderes de Pe-
quenos Grupos, são bons exemplos des-
te talento.

aradigmas são modelos, padrões .comportamentais, hábi-


tos, costumes e idéias cristalizadas que vão se sedi-
mentando em nossas mentes e definem nosso jeito de ser e
ver o mundo.
A igreja é o povo de Deus, evangelizando e melhorando a
sociedade, enquanto canúnha para o céu.
A mensagem do Senhor é eterna, mas os paradigmas ecle-
siásticos estão sujeitos à ação corrosiva do tempo.
Novos e criativos conceitos eclesiológicos precisam flores-
cer. A Igreja tem o dever de ser relevante no seu tempo e para
s ua gente. Essa é a proposta ousada e amorosa deste livro.
Boa Leitura!
Oswaldo Paião Jr.

ISBN 978-85-85931-01-9

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