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Privatizações, os Prós e os Contras (I) - Lazarino Poulson

agosto 29, 2019

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Luanda - “A verdadeira dificuldade não está em aceitar ideias novas, mas livrar-se das antigas” - John
Maynard Keynes.
Fonte: Club-k.net
Comentário Jurídico da Semana n. 24

Vamos, numa série de artigos, abordar o


processo de Privatizações em curso no
nosso país (PROPRIV). Neste primeiro
artigo, faremos a introdução teórica, a proto-
história das privatizações de forma
telegráfica e os aspectos gerais do
PROPRIV. Nos artigos subsequentes,
faremos análises mais específicas, dos
vários aspectos atinentes ao PROPRIV.

Sigmund Freud, pai da psicanálise, disse


uma vez que “ de erro, em erro, vai -se
descobrindo toda a verdade”.

O Executivo angolano lançou recentemente,


o PROPRIV - Programa de Privatizações
que, contempla até 2022, a privatização de
cerca de 195 empresas da esfera jurídica do
Estado. Este vasto programa, inclui
empresas públicas de grande e média
dimensão e empresas comerciais de
capitais púbicos (onde o Estado vai alienar
a sua participação). Este ambicioso
programa, sem precedentes na história de
Angola, merece a nossa melhor atenção.

No fundo, tal como Freud fazia com os seus


pacientes, vamos colocar as “privatizações
num divã” e faremos a devida análise, até
porque no dizer de Milton Friedman, “ um
dos maiores erros que existem, é julgar os
programas e as políticas pelas intenções e
não pelos resultados”.

As privatizações ou desestatização, entendida como um processo de venda de empresa pública, de capitais


público ou de participação do Estado em sociedades comerciais, é um fenómeno que não é novo. O termo
“privatização”, foi introduzido pela revista “The Economist”, durante a década de 1930, numa reportagem de
cobertura sobre a política adoptada pela Alemanha Nazi.

Mas foi nos EUA, que as privatizações ganharam grande destaque, na década de 1980, na liderança de
Ronald Reagan que, em paralelo, com Margaret Tatcher, ficaram conhecidos como os rostos políticos do
neoliberalismo. Contudo, se no plano político, estes dois líderes mundiais, mostram convicção para
privatizar, no plano científico, eram apoiados pelos pensadores da Escola de Chicago, que advogavam
políticas de liberalização económicas extensivas, como as privatizações, austeridade fiscal, desregulação,
livre comércio, e o corte de despesas governamentais, com intuito de reforçar o papel do sector privado na
economia.

Este pensamento neoliberal, foi adoptado no Chile, ainda na década de 1980 e, mais tarde, com a queda do
muro de Berlim, propagou-se na Europa do Leste, América Latina e um pouco por todo mundo. O fenómeno
das privatizações, tornou-se presente nas políticas públicas em todos os continentes, variando, somente, no
modo e na sua intensidade, incluindo países que conservavam sistemas de feição socialistas, como a China
de Deing Xaoping, dos anos 80 e 90.

No início da década de 1990, as privatizações eram vistas, em muitos países, como um elixir que
rejuvenesceria as infra-estruturas letárgicas, ineficientes e revitalizaria as economias estagnadas.

Houve casos de muitos sucessos em alguns países, todavia não em todos os sectores. Mais agravante,
foram os casos de muitos países em que as privatizações não trouxeram benefícios para a economia, nem
para o bem-estar das respectivas populações.

Por causa destes insucessos, na década passada, ocorreu uma certa “recessão” do neoliberalismo.

Passado o entusiasmo dos tempos áureos da década de 1980/90, as privatizações, em certos países,
sobretudo da América Latina, passaram a ser vistas, na entrada no novo milénio, com um certo ceticismo.

Este desencanto, teve influência no campo académico, fazendo ressurgir as teorias intervencionistas.
Todavia, o mundo tinha mudado, e permitiu um certo equilíbrio, tanto na esfera ideológica, Direita-Esquerda,
como no campo científico, liberalismo-intervencionismo.

Em Angola, também sentimos os ventos das mudanças mundiais, que produziram a alteração da via
socialista para a economia de mercado, ocorrida na década de 1990. Embora iniciado com o SEF (Programa
de Saneamento Económico e Financeiro) em 1988, a grande alteração ocorreu em 1991/92, com as revisões
constitucionais e a realização das primeiras eleições democráticas multipartidárias. Com a abertura a
economia de mercado registada naquele período, o Governo angolano, ensaiou o primeiro processo de
privatizações (ou reprivatização), designado na altura de “programa de redimensionamento empresarial”. O
referido programa, mais modesto do que o PROPRIV, não obteve os resultados esperados. Todavia, não
conhecemos o diagnóstico completo deste programa que, de resto, é prática frequente entre nós, não se
fazer balanços dos programas aplicados pelos sucessivos governos.

Contudo, houve casos bem visíveis de empresas que foram entregues ao desbarato, mas que não tiveram
êxito no domínio privado. Houve muitas falências, redução de actividade, e até casos de abandono, tanto de
meios como da actividade transferida para o sector privado.

Como se vê, a experiência angolana não é muito animadora para ser tomada como exemplo. Daí os receios,
quanto aos resultados da empreitada gigantesca que se avizinha.

Em macroeconomia, há duas correntes principais, que disputam a primazia quanto à privatização: a corrente
neoliberal e a corrente keynesiana ou intervencionista. A primeira, que tem Milton Friedman como principal
rosto, consiste em exaltar as virtudes de um sistema económico de livre mercado, com intervenção mínima
do Estado, onde impera a desregulação, tributação e uma taxa de câmbio flutuante. A segunda corrente,
capitaneada por John Menard Keynes, defende que a intervenção do Estado na economia é necessária
porque essa união não ocorre por vias naturais, graças a problemas do livre mercado.

No fundo, temos de um lado, a tese das privatizações, de cariz neoliberal, e, noutra banda, diametralmente
oposta, se encontra a tese da intervenção do Estado, que defende a permanência de empresas na esfera
pública.
Todavia, esta discussão académica, nos anos mais recentes, deu saltos de tal sorte que, já não há correntes
puras: na actualidade, ninguém mais acirra punhos para defender, de fio a pavio, a teoria do prémio Nobel de
economia de 1976, nem há mais seguidores espartanos do fundador da macroeconomia moderna. Hoje há
correntes mistas, ou ecléticas, que buscam equilíbrio, entre estes dois polos opostos da macroeconomia.

As ideias mistas ou ecléticas e, por isso, mais moderadas, são as que fazem escola e foram adoptadas pelos
países mais desenvolvidos do mundo, que conservam importantes empresas no domínio do Estado,
independentemente do sistema económico, esbatendo também aqui, a fronteira entre o capitalismo e o
socialismo, que no passado pretendia-se que estivessem em compartimentos estanques. Encontramos
números significativos de empresas no domínio do Estado nos EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Espanha
e Portugal, entre outros países de feição capitalistas, todavia, e por maioria de razão, encontramos imensas
empresas detidas pelo Estado, nos países de cariz socialista, como a China e a Rússia (abandonou
formosamente o socialismo, no início da década de 1990) , sem prejuízo do crescimento contínuo do sector
privado nestes países.

Em alguns países, as privatizações são polémicas, pois certos sectores da sociedade, apoiados por certos
“novos-keynesianos”, como o Joseph E. Stiglitz acreditam que essas privatizações podem se transformar
numa simples “ apropriação “ das riquezas do Estado, por alguns grupos privados privilegiados - que
objectivam apenas obter lucros para si, nem sempre com isso, aumentando “ o bem estar” da população ou
a riqueza do país. O debate entre os defensores das privatizações e os seus opositores, transcende em
muito, os limites da teoria económica pura, enveredando, frequentemente, por discursos politico-ideológicos
ou partidários. O teorema de Sappington-Stiglitz, por exemplo, “demonstra que um governo “ideial”, poderia
atingir um nível de eficiência, administrando directamente uma empresa estatal do que privatizando-a”.

Posto isto, é a altura de entramos no sub-consciente das privatizações.

Há dois ângulos essenciais, para encarar o fenómeno da privatização quanto aos seus objectivos: objectivos
políticos e objectivos económicos: no prisma prolífico, defendido por Feigenbaum e Henig (1994), a
privatização tem objectivos políticos e não é um fenómeno económico, administrativo ou fiscal; no ângulo
económico, onde se destaca Milton Friedman, os objectivos da privatização, são essencialmente
económicos, tais como obter maior eficiência, reduzir despesas e gerar recursos.
Para nós, as privatizações tem motivações políticas, mas com um substrato económico.

Quanto às formas de privatização, a doutrina elencou cinco métodos principais de privatização:

i) Emissões de acções de privatização - venda de acções no mercado de acções


ii) Venda de activos de participação - a venda de toda a empresa (ou parte dela) para um investidor
estratégico, geralmente por leilão ou usando o modelo Treuhand
Iii) Vale-privatização - a distribuição de acções de propriedade de todos os cidadãos, geralmente de graça ou
a um preço muito baixo.
iv) Privatização por baixo - Startup de novas empresas privadas em países outrora socialista
v) Privatização por concessão - Quando se vende uma quota de exploração de algum recurso do país.
Geralmente trata-se de licença de licença de radiodifusão ou exploração de recursos naturais.

Depois desta narrativa teórica e histórica sobre as privatizações, é o momento de colocarmos o PROPRIV no
nosso divã e submetê-lo aos métodos usado na psicanálise:

a) teste Rorschach (regime jurídico)

O primeiro traço do regime jurídico das privatizações, encontramos na Constituição da República de Angola
(adiante CRA), nos artigos 92º, nº1 (sectores económicos), artigo 97º(Irreversibilidade das nacionalizações e
confiscos e nacionalizações), artigo 165º, 1, k) e l) (Reserva relativa de competências da Assembleia
Nacional). Pelo afloramento constitucional, indica que o legislador constituinte, adoptou a corrente mista,
onde se permite a coexistência dos sectores empresariais público, com igual proteção dada ao sector
empresarial privado.
Esta visão ecléctica, foi densificada nas leis infra-constitucionais, que conformam o regime jurídico das
privatizações, designadamente a Lei n. 10/19, de 14 de Maio, Lei de Bases das Privatizações, a Lei da
Delimitação de Sectores da Actividade Económica, o Plano Nacional de Desenvolvimento e Decreto
Presidencial n. 250/19, de 5 de Agosto, que aprova o PROPRIV.

b) Deslizamento Freuiano ( motivações)

A questão mais discutida, é a de saber qual é a real motivação que está na base do PROPRIV?
A resposta pode ser encontrada dentre as três hipóteses que se seguem:

i) motivação de natureza política

A motivação de natureza política, traduz-se na corrente neoliberal de Milton Friedman e da Escola de


Chicago acima exposta e nas ideologias de centro-direita, que o país tem vindo a tomar.

ii ) Motivação de natureza económica

A motivação de natureza económica, tem a ver com os propósitos da teoria neoliberal, que visa a diminuição
da despesa pública e obtenção de receitas, com a venda dos activos empresariais do Estado. No fundo, as
privatizações derivam da racionalidade económica, assente na teoria neoliberal de Milton Friedman.

iii) motivação de natureza oligarca ou de grupo

Na senda do pensamento de Joseph E. Stiglitz, um grupo de privilegiados no poder e na sua cercania, vai
apoderar-se dos bens alienados do Estado e, por via disso, formar ou consolidar uma oligarquia. Nesta
perspectiva, o resultado das privatizações não trás ganhos significativos à economia, nem melhora o bem-
estar das populações. O caso mais conhecido ocorreu na Federação Russa, com o processo de
privatizações, na década de 1990.

Qual será a verdadeira motivação do PROPRIV, cabe ao leitor avaliar e, no futuro, certamente, teremos a
resposta final.

c) Associação Livre
( Vantagens)

Cada uma das correntes (neoliberalismo ou intervencionismo), propala as suas vantagens. Vamos aqui
sucintamente revelar as frequentemente atribuídas as privatizações ( corrente neoliberal):
i) Efeito multiplicador - a diminuição da pobreza advém da produção de bens e serviços. Produzir mais,
significa gerar mais renda (salários, lucros, etc) empregos. Além disso, a produção em larga escala,
possibilita um maior acesso da população aos bens e serviços, pela diminuição dos preços dos produtos.

Isso posto, quando uma empresa visa o lucro, ela precisa aumentar a sua capacidade produtiva, isto
significa que, quando a companhia busca atender aos interesses dos seus acionistas, ela acaba
beneficiando toda a população, na medida em que a empresa produz mais, consequentemente gerando
empregos, rendas e preços de produtos mais acessíveis.

Portanto a pergunta a ser feita é: quem tem mais capacidade produtiva, uma empresa privada ou uma
empresa estatal ? A UNITEL ou a MOVICEL? O Hipermercados Kero (ou Candando) ou o Nosso Super ?

Exemplos não faltam, para mostrar que a capacidade produtiva do sector privado é muito maior do que a do
sector público. Em outras palavras, gera muito mais benefícios (preços menores, qualidade, empregos,
renda, salários etc), para uma sociedade do que as companhias estatais;

ii ) Aumento das receitas fiscais - a busca do lucro dos acionistas do sector privado, gera consequências
positivas para a receita fiscal do Estado. Em regra, as receitas arrecadadas pelo Estado, através de
impostos e taxas, é maior nas empresas privadas, comparativamente às empresas públicas.

Por outro lado, numa empresa privada, o espectro de corrupção, tende a ser menor do que numa empresa
pública, porque a companhia privada, precisa ser eficiente para sobreviver frente aos seus concorrentes. E
se, eventualmente, ocorrer corrupção, a própria empresa, acaba por arcar com as consequências. Já no
caso da corrupção a nível do sector empresarial público, o dano causado atinge toda a sociedade;

iii) eficiência nos sectores estratégicos - talvez seja a vantagem mais difícil de explicar e realmente exige um
certo cuidado.
Primeiro, o que será estratégico hoje ?

Muitos diriam que o petróleo é estratégico por ser uma fonte importante de energia e matéria prima, e,
portanto, a Sonangol não deve ser privatizada.
Mas, e a Google, também não é estratégica por controlar boa parte do fluxo de informação mundial ? Ela
deveria ser estatal ? Mas é privada. Mas, então, porquê tanta resistência com a privatização das empresas
ligadas à produção de energia, por exemplo?

Em parte, essa resistência é explicada pela existência ainda de uma visão nacional desenvolvimentista, que
associa a riqueza natural com desenvolvimento económico.

Além disso, parte da população, tem um certo orgulho de Angola ter riquezas naturais, mesmo que elas não
sejam convertidas em emprego e bem-estar da sociedade. A frase “o petróleo é nosso”, capta bem o
espírito. A pessoa orgulha-se de Angola ter petróleo, mesmo que ela seja pouco beneficiada pelas políticas e
actividade da Sonangol. É um orgulho da riqueza natural pela riqueza natural.

No entanto, esse tipo de “nacionalismo” é irracional, pois caso a Sonangol seja privatizada, o petróleo
continua pertencendo a Angola - a “Sonangol privatizada”, apenas tem o direito de explorar o petróleo, de
acordo com as leis vigentes regulada e fiscalizada pela Agência Nacional de Petróleo e Gás. Portando, não
há perda de soberania.
É claro que, se pode levantar a questão do perigo que corre a soberania nacional, no caso da empresa do
sector estratégico, cair nas mão de um governo com pretensões geopolíticas, como a China, por exemplo.

Neste caso, além do aparato legal (Agência reguladora e leis), pode-se fazer uma privatização com acções
do tipo “ golden share “, na qual o Estado angolano fica com poderes extraordinários para intervir
eficazmente, caso a empresa tente ferir interesses soberanos do país.

Todavia, em regra, quando empresas do sectores estratégicos são entregues a privados, tornam-se mais
eficientes, mais lucrativas e contribuem mais, para o bem-estar da sociedade.

d) Análise dos Sonhos ( Desvantagens)

As privatizações não têm só, benefícios ou vantagens, é usual a doutrina dominante apontar as seguintes
desvantagens:

i) Fuga de recursos do país

Um dos grandes perigos que correm no fenómeno das privatizações é, sem dúvida, a fuga de capitais do
país. Numa economia pouco robusta, como a angolana, as privatizações das grandes empresas públicas,
correm o risco de caírem na mão do capital estrangeiro. Se assim for, tal como vai acontecer no investimento
privado, ocorrerá uma “sangria” nas divisas do país,no âmbito do repatriamento dos lucros dos
investimentos. Este ponto é incontornável. A economia e a sociedade, a longo prazo, podem mitigar este
“vazamento “, criando mais valias internas, onde poderão ser reinvestidos parte destes lucros.

ii) Dependência do exterior

Na sequência do que foi dito, se porventura, parte das empresas de grande e média dimensão ficarem com
os expatriados, então a nossa economia aumentará a sua dependência do exterior. Esta dependência, será
do tipo técnico, material, financeiro e, em certa media, da gestão dos principais activos da economia. Não é
nada que já não aconteça em grande medida, mas a entrega da Sonangol, Endiama, Taag e importantes
bancos do sistema financeiro, podem alargar a níveis verdadeiramente preocupantes.

iii) Censura popular

O fenómeno das privatizações produzem reações díspares das populações, de acordo com os seus
resultados. Se correm bem, o partido que implementa a política neoliberal, ganha eleições, se elas redundam
em fracasso, são punidos nas nas urnas. E mais: as sondagens em muitos países, mostram o nível de
rejeição ou aceitação de tais medidas económicas.

Em Angola, as privatizações estão a ser feitas, sem o sufrágio do povo. Não consta do programa do MPLA, o
Executivo não fez nenhuma consulta pública democrática (referendo), nem se quer auscultou os parceiros
sociais, para levar a cabo tão arrojado programa de privatizações. Por isso, se o PROPRIV for um sucesso,
o partido no poder tirará dividendos nas próximas eleições gerais, se fracassar, os eleitores, não vão perdoar
o atrevimento e a ilegitimidade de terem levado a cabo um processo tão importante para o país, sem a sua
autorização.
Por fim, vale a pena recordar Adam Smith, quando de forma lapidar disse que, “ a riqueza das nações,
mede-se pela riqueza do povo e não pela riqueza dos seus príncipes”, com as devidas adaptações, eu
subscrevo e mais não digo .

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