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Vivendo do mar

JÁ SE fora a parte quente do dia. Uma brisa agita os ramos de palmeira e


começa a atividade numa pequena colônia de pesca no litoral de Togo. Um rijo e
velho pescador, vestido apenas dum calção surrado, empenha-se em procurar
buracos numa grande rede que foi estendida para secar. Homens inspecionam seus
barcos. As mulheres preparam peixe e sopa de semente de palmeira para o jantar.
Sim, o peixe tirado do mar é o “pão de cada dia” dos togolêses, ao longo da costa
ocidental da África. Quase toda refeição, da manhã à noite, contém peixe. Mas,
embora os peixes pareçam abundantes, não são obtidos sem trabalho árduo e
coragem da parte dos homens que enfrentam a rebentação das ondas a fim de tirar
seu sustento do mar.
Organização e Equipamento
Sem cooperação, este tipo de pesca não seria possível, de modo que são
organizadas pequenas companhias. A companhia consiste em um encarregado, um
secretário e um tesoureiro, alguns pescadores e auxiliares; ao todo, cerca de quinze
pessoas. Certo homem ou um grupo familiar talvez possua o barco e a rede. A
equipe de pesca inclui um patrão e dois ou mais remadores de cada lado do barco.
Todos têm de ser bons nadadores.
No fim da estação, todas as despesas de alimento, de conserto da rede e de
equipamentos são pagas, e o dinheiro restante é dividido em cinco partes: duas
partes para o barco e o proprietário e três partes para os trabalhadores. Seu lucro
varia de estação em estação, dependendo da quantidade de peixes apanhados e
quanto estes rendem no mercado.
Em vista do amplo oceano e da rebentação perigosa, os barcos parecem
penosamente pequenos. São simples canoas, escavadas em troncos de árvores,
apenas são maiores, mais fortes e mais largas do que aquilo que em geral vem à
mente quando as pessoas pensam em canoas. Têm de seis a nove metros de
comprimento e de um metro e vinte a um metro e cinqüenta de largura. A maioria
dos barcos são comprados de vizinhos artífices ganenses, peritos em escavar estas
canoas de um único tronco da árvore Wawa.
Embora sejam estritamente barcos de trabalho, tais canoas são belamente
pintadas de cores vivas verdes e amarelas, e, de modo usual, têm letras vermelhas
ou azuis juntos à parte alta em eue, ga ou inglês. A escrita talvez seja uma citação
da Bíblia ou um ditado na língua nativa. De modo que talvez se leia em inglês: “Ama
ao próximo como a ti mesmo”, ou, em eue: “Mawu’ lolo”, que significa “Deus é
grande”.
Enfrentando a Rebentação
Fixando os olhos experientes no céu, os homens mais idosos declaram favorável
o dia. Ao ajuntarem seu equipamento, fazem-se predições quanto ao tipo de peixe
que apanharão. A rede, uma vela, um fogareiro de carvão e todos os outros
equipamentos têm de ficar seguramente presos ao barco para que, caso vire, o que
acontece ocasionalmente, tais coisas não sejam perdidas no mar. As ondas
rebentam na praia em sucessão rítmica. São verdadeiramente belas, mas suas
cristas atingem cerca de dois metros e setenta! Têm de ser atravessadas.
Tudo pronto, a tripulação lança o barco na água. Vadeiam até que a água lhes
bata na cintura, segurando os remos por cima da cabeça. Daí, dado o sinal, pulam
dentro do barco e em uníssono remam o mais que podem. Uma onda vem em cima
deles, e o barco fica quase que em posição vertical. Os pescadores seguram a
canoa com toda a força. A onda passa; o barco bate contra a água e se aquieta. A
tripulação abaixa instantaneamente seus remos. O patrão lhes dá instruções com
um apito. A segunda onda chega, e o barco de novo sobe em cima dela. Mais
remadas rápidas, e outra onda. Seis ou mais vezes as ondas são vencidas até que,
por fim, o barco se acha em mar calmo.
Mas, nem sempre as coisas correm tão suavemente. O barco talvez seja
submerso ou vire, e, então, os homens têm de nadar. Às vezes, três ou quatro
tentativas são feitas antes de se cruzar a rebentação. Olhar a perícia e o vigor
destes rijos pescadores enche a pessoa de admiração.
Pescando em Alto Mar
Aqueles que permanecem em alto mar a noite inteira vão bem longe, usualmente
em companhia de diversos outros barcos. A rede é geralmente uma rede de emalhar
e é lançada num semicírculo bem amplo. Uma vez realizado isto, volta-se a atenção
para o fogareiro a carvão, para cozinhar algum alimento e para se aquecerem. Ao
mesmo tempo se mantêm olhos atentos sobre a rede.
Nas noites afortunadas, são apanhados tantos peixes que a canoa não pode
conter todos eles. Neste caso, toca-se uma trombeta de bambu para atrair a atenção
dos co-pescadores da área. Erguem-se bandeirolas ou remos, um se um barco for
necessário, dois se dois forem necessários, e assim por diante. Outros pescadores
chegam e ajudam por colocarem alguns peixes em seu barco.
Isso faz lembrar a cena em que Jesus Cristo disse ao pescador Pedro e a seus
companheiros: “Abaixai as vossas redes para uma pesca.” A Bíblia diz: “Pois bem,
quando fizeram isso, cercaram uma grande multidão de peixes. De fato, suas redes
começaram a romper-se. Acenaram então para os seus associados no outro barco,
para que viessem e os auxiliassem; e eles vieram, e encheram ambos os barcos,
de modo que estes começaram a afundar.” — Luc. 5:4-7.
Um pescador sobrevivente conta a estória de certa noite em que sua tripulação
apanhou uma quantidade extraordinariamente grande de peixes. Não havia outros
barcos pela vizinhança, de modo que os homens decidiram correr o risco e
encheram com eles todos a sua canoa. Mas, ora vejam só, o barco afundou,
deixando os homens exaustos com frio, fome e temerosos de tubarões, tendo
apenas os remos quais balsas. A tripulação sucumbiu, um por um. Quando não
voltaram à colônia na hora esperada, organizou-se uma equipe de busca. O único
sobrevivente os viu aproximar-se e, com as forças que lhe restava, gritou e agitou
os braços até que captou a atenção deles, e foi salvo.
Pesca Mais Próxima da Praia
Uma rede de arrasto é usada para se pescar mais perto da praia. O meio dessa
rede forma um longo saco. Ligadas a qualquer um dos lados do saco há painéis
para guiar os peixes para dentro dele. Cordas compridas são ligadas aos painéis
para formar as linhas de arrasto.
A rede é levada num barco além das ondas de rebentação. Daí, um homem é
enviado à praia, puxando uma das cordas, que ele amarra com firmeza a uma
pequena estaca enterrada na areia ou a uma palmeira na vizinhança. O barco então
percorre um grande semicírculo, conduzindo a outra extremidade da corda. Na
praia, os homens então formam dois grupos, cada um puxando uma corda e assim
atraindo a rede para a terra. Esta operação é acompanhada de muitos movimentos,
cada homem sendo o seu próprio conselheiro.
Além da conversa e da algazarra gerais, pode-se ouvir o cantar que marca o
ritmo do arrasto. De início, as linhas estão bem distantes, mas, à medida que se
puxa a rede para a praia, gradualmente são ajuntadas para fechar a boca da rede.
Diversos homens são então enviados à água para verificar que os peixes
permaneçam lá dentro, e para abaixar os painéis laterais, a fim de só permitir uma
saída para os peixes dentro do saco. Todo o mundo brada instruções. As crianças
pequenas se penduram na corda, imaginando que estão realmente ajudando.
Gaivotas que voam à frente participam do coro estridente e mergulham
ocasionalmente para furtar uma refeição.
Então, a inteira colônia, exceto os doentes e os muito velhos, parecem estar
presentes. As mulheres e as crianças, com grandes panelas metálicas ou cestas,
correm pela praia, todas em direção aos peixes. À medida que a rede é arrastada
para a praia, a barulhada atinge seu crescendo. “O que a rede nos trouxe hoje?” —
todo o mundo quer saber. Na massa agitada de criaturas desengonçadas, sinuosas
e estridentes, talvez tenha sido apanhada uma variedade de arenques, solhas,
lúcios, peixes-luas, cações, arraias ou um tubarão-martelo. Os peixes são
colocados em panelas que as mulheres carregam na cabeça para um depósito,
usualmente velha canoa num lugar que tenha sombra.
Aqui são selecionados segundo o tamanho e o tipo. Todos são comidos, até o
menorzinho, de cinco centímetros; todos, isto é, exceto os que são tabu, que toda
colônia parece ter. Naturalmente, as estrelas-do-mar e as águas-vivas não são
usadas. O preço varia segundo o dia, o tipo de peixe e a disponibilidade de dinheiro.
Por fim, todos são vendidos, e as mulheres retornam para casa ou se dirigem a um
mercado próximo carregando suas cargas na cabeça. Cada pescador e os que
ajudaram a levar o peixe receberá o que precisa para o jantar.
Superstições e Modernização
Se nada cair na rede, consultam-se os adivinhadores da sorte. O adivinho,
usando seu oráculo, pergunta à rede: “Como é que não apanhou nenhum peixe?”
A resposta talvez seja que a rede está com fome, ou alguém transgrediu seus
regulamentos. Pergunta-se então a ela o que deseja comer. Diz-se que a rede
responde que quer salmão, ou talvez carpas vermelhas. Se se diz que a rede está
com fome, os humanos comerão junto com ela, mas, se seus regulamentos
sofreram transgressão, não se permite que ninguém coma com ela. Cozinha-se
salmão fresco ou seco com farinha e óleo de coco, corta-se em fatias e coloca-se
diante da rede. Ou, uma libação misturada com óleo de coco é derramada sobre a
rede.
Nos anos recentes, foi introduzido equipamento moderno na pesca comercial ao
longo da costa ocidental da África, inclusive modernas traineiras, motores de pôpa,
redes de nylon e bóias de plástico. Da Alemanha Ocidental, uma companhia
pesqueira chegou a Lomé, a capital do Togo, para aprimorar os métodos de pesca.
Não obstante, muitos habitantes das colônias togolesas não sofreram nenhuma
influência de tais mudanças. Continuam no mesmo padrão, dependendo
diariamente do peixe retirado do mar pelos pescadores que enfrentam a rebentação.