Você está na página 1de 41

-

Michel de Certeau

A Escrita da História
*** Yedição

Tradllçâo de:
.......
--~-- Maria de Lourdes Menezes
o GEN I Grupo Editorial Nacional reúne as editoras Guanabara Koogan, Sant os, Roca,
AC Farmacêutica, Forense, Método, UC, E.P.U. e Forense Universitária, que publicam nas
áreas científica, t4!cnica e profissional. Rcvisâo TêclliCll:
Amo Vogcl
Essas empresas, respeitadas no mercado editorial, construíram catálogos inigua!â"cis,
com obras qu e têm sido decisi\'ils na formação acadêmica e no ape rfeiçoamento de
várias gerações de profissiona is e de: estudantes de Administração, Direito, Enfe rma-
ge m, Engenha ria. Fislolempia, Medidna, Odontologia, Educação Física e muitas outras
ciências. tendo se tornado si nôni mo de scriooadc c respeito.

Nossa missão é pro"er o melhor co metido cie ntifi co c distribuí-lo de maneira ncxí\'cl c
convenien te, a preços justos. gcrnndo beneficios c servindo a autores docentes livrei -
ros, funcionários, colabOr;J,dorcs c acionistas. "

Nosso comportament o ético incondicional l' nossa rcsponsabilidad __ . I


'

C S ..... La C:lm Icnta
I '0.""
&*** b-
\~" UNIVERSllÁRI.o\
são reforçados pela naturel.a edu.;acional de nossa atividade, sem comprOmete r o cres _ I
cimento continuo e li rentabilidade do grupo.
Hio deJanciro
,\ EDITORA FORENSE se responsabiliza pclm vicios do produto no que' cOllcerne:l Sua
e'dição. aí compreendidas a impressão e a apre'sentação. a fim de possibilitar ao consumi·
dor bem mmmsd-Io e 10'·10, Os vicios rdacionados 11 atualização da obra. aos conceitos
doutriniÍ rios. as concepçõ{'s idc'Ológicas e' rcicréncias inde"idas são de responsabilidade
do autor c/ou atuali7.ador.
As reclamações devem ser feitas até noventa dias a partir da compra c "enda com nota
fiscal (interpretação do art. 26 da l.ei n. 8.078. de 11.09.1990).
Traduzido de:
L'1~ail1lre de /'Hi5toire Índice Sistemático
Copyriglll C I:ditions Gallimard, 1975
Ali rights rewrwd.
A ESCRITA DA HI STÓR IA
ISBN 978·85-309-3573-3 Prefácio li 2" ediçno ... .. .............. . XI
Direitos exclusivos para o Brasil na língua portuguesa Escritas e Histórias. ............... . XV
Copyriglll C 2013 by
FORENSE UNIVERSITÁRIA um selo da EDITO RA FORE NSE nOA.
Uma editora integrante do GEN I Grupo Editorial Nacional Primeira Parte
Tran:s~ do Ouvidor. II - 6° andar - 20040·040 - Rio de Janeiro - Rj
Tcls.: (OXX21) 35<13-0770 - Fax: (OXX21 ) 35ü-0896 AS PRODUÇÕES DO LUGAR
bil3cpinto@grupogen,com.br I www.grupogen.com.br
O ti tular cuja obra seja fraudulentamente reproduzida. divulgada ou de qualquer forma Capitulo 1. FAZER H[STÓRIA ... 3
utilizada poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensão da di - 3
vulgação. scm prejui1.O da indenização cabÍ\'c1 (art. 102 da Lei 11. 9.610. de 19.02.1998). PROBLEMAS DE M~TODO E PROBLEMAS DE SENTIDO,
Quem ,·ender. expuser à venda, ocul1ar. adquirir. distribuir, ti"er em depósito ou utilizar A história. uma prática e um discurso ....... 3
obra ou fonograma reproduzidos com fraude, com a finalidade de vender, obt{'r ganho. I. Ulll indício: O tratamento da ideologia religiosa em história .. 6
vantagem, proveito, lucro direto ou indireto, para si ou para outrem. será solidariame nt e O modelo Ulllistiço" e o modelo ufokló rico": uma essência escondida .. 8
respons:i",;>I com O contrafator. nos termos dos artigos precedentes. respondendo como \O
contrafatores o importador e o distribuidor em caso de reprodução 110 exterior (art. 104 O lllodelo sociológico: a prática e o saber. ......
n
Um modelo c ultural: das '·ideias ao '"incon scien te cole tivo" 14
da Lei 11. 9.610/98).
lI. Práticas históricas e práxis social... ............... ... 18
3' ~-dição brasileira - 2011
Dos "preconceitos" históricos 3S situaçôes que eles rl"velalll 20
3' ~-di,ão brasileiral2' reimpressão - 2013
A mutação dos ~preconceitos" em obje tos de estudo .. 23
Tradução de: Maria Ik l.ou rdC5 Mcue:::c,
Revisão T~cnica: Arnol'ogd [11. A história, discursa c realidade.. .. ............. .. 26
Duas posiçôes do real 26
CI P - Brasil. Catalogação·na -fonte. O intermédio. situação da história e problema do real.. .. ............ ..
,-
-;
Sindicato Nacional dos Edi tores de Livros. Rj. 29
A relação com o outTO .. ,
Gl1le O discurso da história ..... 33
3. ed,
Iv' A história como mito ... ..................... .. ............ .. 38
Certeau. Michel de. 1925· 1986 Ide n tidade por diferenciação ..... ........... , ................ . 40
A escrita da história//l.liche1 de Certeau; tradução de Maria de I.ourdes A origem da linguagl"m: o morto e o vivo .. 40
Menezes; revisão técnica Arno Vogd. - ), ed. _ Rio de janeiro: Forense, 2013. 42
O dizer e afazer .....
Tradução de: l.&riture de I'his!oire
Inclui bibliografia 45
ISBN 978-85·309-3573-3 Capítulo [I. A OPERAÇAO H[STORIOGRÁFlCA .....
L Um lugar social .. 47
L Hi storiografia. 1. Titulo,
O não-dito ........ .................... .. ............ ,.. 47
1l ·4773. CDD: 90;.2
CDU: 82·94 A instituição histórica.. . ............. .. 51
VI A Escrita da Ilistória • "'Iichel de Certeau Indice Sistemático V II

Os historiadores na sociedade ....... ............................................... . 57 A divisão e a incerteza ............................................................. . IS'I


O que permite e o que proíbe: o lugar ...................... . 63 "Ateís m o~.fe itiçaria. mística ..................................................... 1S8
il. Uma pdtica........................................... ............................. .. 64 A raz;io de Estado ......................................................................................... . [60
A articulaçiio natureza·cultura ............ .......................... . 67 11. Urna no\";I formalidade das pdticas: a politização dos comportamentos.. . [63
O estabelecimento das fon tes ou a r<.'distribuição do espaço ..... A formalidad<.' das pr.\ticas ........................................... . [63
69
Reempregos ................................................................................................. [65
Fazer surgir diferenças: do modelo ao desvio ......................................... . 75
O trabalho sobre o limite .......................................................... . 111. A lógica do «praticante": uma alternaliva entre o dever de Estado e o
79
Profetismo.................... ............................................... ................ . 170
Crítica e história ........................................................ . 85
Entre a lei do agir e o lugar da enunciação .................... .. 170
i ll. Uma escrita ............................................................................. . 89 As wmarcas" ....................................................................... ............... . 172
A irl\'ersãoescrituraria ............................................................... . 'O Janscnistas e Jesuítas ...................................................................................... 173
A cronologia, ou a lei mascarada ................................................. 93 O dever de Eslado ............................................................................. 176
A construção desdobrada ........................................................................... . 99 Do profetismo ao radicalismo: a prática do corte ........ . l i9
O lugar do morto e o lugar do leitor .............................. . [08 IV. A ética filosófica: ~Iegalidade" e "utilidade" no século XVII [ . 183
Uma raz;io instauradora de seu folclore ............... . 185
Segunda Part<.' Ambivalência da "utilidade" ......................................... . 188
Formalidades crislãs das praticas filosóficas? .... .......... 192
1\ PI~ODUÇÃO DO TEMPO: UMA ARQUEOLOGIA RELIGIOSA V. As leis próprias do gr upo rcligioso: redução aO silêncio e
administração cultural ..................................... . lO'
INTRODUçAO: QUESTOES DE MtTODO ................................ . 11 5 Duas práticas da linguagem ........................................... . 200
Aquilo que torna pens:\\'<.'I ........................................................................ . 11 5 Escrita e oralidade ............................................................ 204
Formalidades em historiografia ....................................................................... 11 8 Um intermédio: os padres ............................................... 207
A hermellêutica derical .................................................................. . 209
Capítulo [11. A INVERSÃO DO PENSAVEI. ................................................... 125 Uma política da linguagem e do culto ........................................ .. 212
A HISTÓRiA RE LIGIOSA DO StCULO XVi i ............................... . 125
1. A religião durante a idade dássica .... .......................................................... 126 Terceira Parte
A. Equilíbrios e tensões internas (dinâmica da sociedade religiosa)...... 126
A heresia........................................... ........................... 126 OS S[STEMAS DE SENTIDO: O ESCRITO E O ORAL
Consciência religiosa coletiva e represent;lções doutrinais............... 130
Ideologia religiosa e realidade social................ 13'1 Capitulo V. ETNO-GRAF IA........................... ......................... 221
B. A vida rdigiosa na sociedad<.' do século XV ii................ ...................... 139 A ORALIDADE OU O ESPAÇO DO OUTRO: L~RY.......... .. ..................... 22 1
O oculto................................................................................ 139 A escrita e a oralidade elnológica...................... .............................. 221
Deslocamentos de uma estrutura bipolar..................... 141 Uma imagem da modernidade .................................... ............................... 223
A rdaçãocom o passado.................................... 142 A "lição de escrita" em Jean de Lér)' ( 1578)............. ................................. 22S
11. A interprclaç:io histórica ....... ................................. 144 A reprodução escri turaria ............................................................................ 23 1
A. História Msocial ~ e história religiosas.............. 144 Uma hermenêutica do outro.................................. ....................... 23S
B. Fato religioso. determinaçiio religiosa, s<.'ntido religioso... 146 A palavra erOlizada.......... ............................................................................. 246
O fato religioso.............................................................. 146 Visto elou escutado: o olho e o ou\'ido......................... ............................. 2S1
Determimlção religiosa e determinação social..... 147
Cnpílulo VI. A L1NGUAGE1'l"1 ALTERADA ........... . 261
Capitulo IV. A FORMALIDADE DAS PRÁTICAS .................. . ISO A PALAVRA DA POSSUIDA ........ . 261
DO SISTEMA RELIGIOSO A i:TICA DAS LUZES (XV II -XVIII ) .. ISO Um discurso do oUlro? .................................... ......................................... .. 263
Da religião à élica. Um deslocamento nos quadros de referência .. 151 Transgressão e inlerdiç:io ..................................... . 266
I. Da divisão das Igrejas à "Ra7.ão de Estado~ (seculo XVII) ..................... . [54 Documentos alterados: os teXIOS das possuídas ..................................... . 270
V III A Escrita da História . l\lichel de Certeau

n
"Eu é um mltro : a perversão da linguage m ........................ . 274
COIIstruç50 e de1ll0liç50 de um lugar ................... .
n
278 1
O quadro dos nomes próprios: uma toponimia "rnexida •••• 281
A mentim da interpretação ....................................................... 286
1
f
Capitulo VIL UMA VAR IANTE: A ED IFICAÇAO HAGIO·G RÁFICA .. 289 •
I. História e sociologia ..................... ...................... 200
Indicações para uma história..... ...................................... 290
Um documento sociológico... ................. . 292
Um a função dr ~vacãncian .......... . 29<1
Uma lilemtum popular? ................. .. 295
t• i
[I. A estru tum do discurso ............................................................... 2%
O herói ................................................................................... 2% ,~
,~
Um discurso de ~\'irtudes~ ................. ............................. 298
.~ .g
Tópica hagiogrâfica.............................. .................................. . 300 ·" -
, o
1[1. Uma geografia do sagrad o ............. . 301 "
A circularidadr de um tempo fechado ....................................... . 301
~~
a-
Uma co mposição de lu gares ................... . 302
Indicações bi bliogroificas............................... 303

Quarta parte
'.
!~
.,
.
~
';;
'"
d
~ .2
AS ESCRITA FREUDIANAS
]::ê
u
~~
Capitulo VIII. O QUE FREUD FEZ DA HISTÓRIA ...... . 307 .J!-'
.,,-<
A PRopósrro DE UMA NEUROSE DEMONIACA NO S ~CULO XVII 307
n ~t-:
O histÓrico, produção da KAufklarung freudiana ......................................... 309 "l<""'""
~.!! ~
Para uma história do século XV iI ................................................................. .. 313
Do passado legível ao presente oculto. 316 :!. S
:; õl :,
ª'
~ .. 6'
Ocultar, trabalho da histó ria .......................................................................... . 320
~
As substitui ções do pai ........................ . 323
, '.
~ .-
8 .:...
:; c-J\"~
Oatoea lci ................................................ 326 <i.!!12::
....:-
e",ªª '" .~

Capítul o IX. A FICÇAO DA HI ST ÓRIA ...................................................... . u.a E ';:


33 1
:;~t.t
'" _ ... o:
A ESCRITA DE KMO ISts EO ;"·IO NOTE ls;..mn ................. .. .. .. .. . ... . .. .. ...... 33 1 0 ·::1" ~
O di sc urso de fmgmentos ou o co rpo do texto ........................................ 333
Esc re\'e r na língua do outro, ou a ficção .............................................. .
.~ ~.- .ª"" '-,
3'12 1i;1i;,;;
Pede·se fechar os olhos .............................................................................. . 349 ;:) 'C ".3
o;. .)C '"
A tmdição da morte, ou a esc rita ............ . 35 1 z . .õ<
n
8$ ·':: "
O quiproquó, ou a comédia do "próprio ................. .. .. . . . 360 "< "
~..g2~
O roman ce da históri a ..................................................................... 378
~::;
"li" .. !!:
DO MESMO AUTOR ....................................................................... . 385 ...:00::

,<
'"
u
-o
~
~ I
,

<
,< ,.

<

><
44 A E.scril ~1 da HistÔria. Michel de Certeau
-
o parêntese de uma verdade. Sem nada retirar das funções previa -
mente sublinhadas, é necessário não negligenciar aquela que liga
o dizer hi stórico ao fazer social, sem identificar o primeiro com o
segundo: ela lembra ao trabalho sua relação com a morte e com o
sentido; ela situa a verdadeira historiografia ao lado das questões Capítulo II
indi sc retas a serem abertas no imenso movimento da práxis.
A OPERAÇÃO HISTORIOGRÃFICA'

o que fabrica o historiador quando "faz história"? Para quem


trabalha? Que produz? Interrompendo sua deambulação erudi ta
pelas salas dos arquivos, por um instante ele se desprende do estu-
do monumental que o classificará entre seus pares, c, saindo para a
rua , ele se pergunta: O que é esta profissão? Eu me interrogo sobre
a enigmática relação que mantenho com a sociedade presente e
com a morte, através da mediação de at ividades técnicas.
Ce rtamente não existem considerações, por mais gerais que
sejam, nem leituras, tanto quanto se possa estendê-las, capazes de
suprimir a ptl rliCIIlaridade do lugar de onde falo e do domínio em
que realizo uma investigação. Essa marca é indelével. No diSCllrso
em que enceno aS questões globais, ela terá a forma do idiotismo:
meu patoá representa minha relação com um lugar.
Mas o gesto que liga as "ideias" aos lugares é, precisamen-
te, um gesto de historiador. Compreender, para ele, é analisar
em termos de produções localizáveis o material que cada méto-
do instaurou inicialmente segundo seus métodos de pcrtinéncia. 1

Uma parte deste estud o foi publicada em LE GO H , j.; NORA, P. raire de


/'lristoirc. Paris: Gallima rd, 1974. t. I, p. 3-41, sob o titulo MÜ)per:lt ion histo-
rique': Ele foi, aqui, re\'isto e corrigido.
2 Se o trabalho histórico se cara cteri za pela determinaçilo de lugares de per-
linências, quer di ze r, por uma tópica (como demonst rou VEYNE, Pau l.
Co mmelll 011 écril /'Mstoin', Seuil, 197 1. p. 258-273), ele não renuncia tam-
H
)
pouco a inscre\'i.'r as unidades de sentido (ou Wfa tos assim di.'tcrminados,
em rda ção de produílio. Ele se aplica, pois, em mostrar as relações entre os
produtos e os lugarrs de produção.
46 A Escrita da Histori3 • :' Iichcl dI.' Certl.'au Capitulo 11 • A Operaç:io IlistOrLog:,ifica 47

Quando a história} se lorna, para o prático, o próprio objeto de Sua "enquanto prâtica':s Nessa perspec tiva, gostaria de mostrar que a
reflexão, pode ele inverter o processo de compreensão que refere operação histórica se refere à combinação de um II/gar social, de
um produto a um lugar? Ele seria, nesse caso, um fuj.io; cederia próliras "científi cas"6 e de uma escrita , Essa amí[ ise das premissas,
a um áli bi ideológico se, para estabelecer o estatuto do seu traba- das quais o discurso não fala, permitirá dar COlHornos precisos às
lho, recorresse a um alhllres filosófico, a uma I'Crdade formada e leis silenciosas que organizam o espaço produzido como texto. A
recebida fora dos ca minhos pelos quais, em história , todo sistema esc rita histórica se constrói em função de lima instituição cuja or-
de pensamento está referido a "lugares" socia is, económicos, cul- ganização parece inverter: COtn efeito, obedece a regras próprias
turais etc. Semelhante dicotomia entre o que faz e o que diria do que exigem ser examinadas por elas mesmas,
que faz serviria, a[hís, à ideologia reinante, protegendo-a da prática
efet iva. Ela também destinaria as experiências do historiador a um I. UM LUGAR SOCIAL
sonambul ismo teórico. Mas que isso, em história como em qual-
Toda pesquisa historiogrâfica se art icula com um lugar de
quer outra coisa, uma prática se m teoria desemboca necessaria -
produção socioeconómico, pol ítico e cultural. Implica um meio
mente, mai s dia menos dia, no dogmatismo de "valores eternos"
de elaboração circunsc rito por determinações próprias: um:l pro-
ou na apologia de um "i ntemporaJ': A suspei ta mio poderia, pois,
fissão liberal, um posto de observação ou de ensino, uma categoria
estender-se a toda análise teórica.
de letrados etc. Ela está, pois, submetida a imposiçóes, ligada a
Nesse setor, Serge Nloscovici, Michel Foucau lt , !l'lUl Ve}'lle, e privilégios, enraizada em uma particularidade, É em função desse
ainda outros, atestam um despertar epislemológico,4 Este manifes-
lugar que se instauram os métodos, que se delineia lima topogra-
ta na França uma urgência nova. Mas receptível é apenas a teoria fia dc interesses, que os documentos e as questões, que lhes serão
que articula uma prática, a saber, a teoria que por um lado abre as propost:lS, se organizam,
práticas para o espaço de uma sociedade c, que, por outro lado,
organiza os procedimentos próprios de uma disciplina. Encarar o não-dito
a história como uma operação sení tenta r, de maneira necessa-
r iamente lim itada, compreendê-Ia como a relação entre um lllgal' H,í quarenta anos, lima primeira crítica do "cientificismo"
(um recrutamento, um meio, ullla profissão etc. ), proccdimclltos desvendou na história "objetiva" a sua relação com um lugar, o do
de an:ílise (uma disci plina) e a construção de um texto (uma litera - sujeito. Analisando uma "dissolução do objeto" (R. Aron), tirou
tura). ~ admitir que ela faz parte da "realidade" da qual trata, e que da história o privilégio do qual se vangloriava, quando pretend ia
essa realidade pode ser apropriada "enquanto atividade humana': reconst ituir a "vcrdade" daquilo que havia acontecido. A história
"objetiva", aliás, perpetlL.wa com essa idcia de uma "verdade" um

J Urna \'C1; por to(tas, quero prccisar quc emprego a palavra hislóriu no sen- 5 l\IARX, Karl. 'lIl1\$('S sI/r PCI4crbacl!. tese I.
tido dc Irisloriogmjill. Quer dizer, entendo por história uma prátic3 (uma 6 O te rmo ciClltifiC/l, bast3nt e suspeito no conjunto das "ciencias hum anas~
disci plina), seu rl.' sultado (u m discurso ) e sua rc1a ção, Cf. "Fazer histó ri a': (onde': subst ituido pelo ter mo IImilisc), não o é men os no campo das "ci·
$IIpm, p. 21 ·54. endas e;l:a t as~ na mcd ida em qu c remeteria a teis, I'ode-se, entretanto, dc -
4 Cf. MOSCOV IS, Serge, ES$/Ii SI/ r /'hisloirc 11I1II1II;l1e til' l/ll1/1ture, Hammarion, tinir com esse termo a IlOssibilidade de cstabclrccr um conj unt o de regras
1968; FOUCAUl.T, Michel. I:Ardlliologie tlu s/lI'oir. G(lllilJJ;1rd, t969; que pcrmit am "contro1ar~ opcrt/(àcs destinadas ir protluçrio de objetos de -
VEY N E, I'au l. CO/llIII('I!/ 011 r'cril /'hisloirc. ${'uil, 197 1, tcrminados.
48 A Esuil:l da I listÓria . ,\ljehel do: Ccrtcau Cnpilulllll • A Opcrn~.1o llrstori0tr;rjlka 49

modelo tirado da filosofia de ontem ou da teologia de anteontem; um quadro em que, sobre O fundo de ullla totalidade da hi stória ,
contentava -se com traduzi -la em termos de "fatos" históricos... Os se destaca lima multiplicidade de filosofia s individuais, as dos pen-
bons tempos desse positivismo estão definit ivamente acabados. sadores que se vestem de historiadores.
Desde en táo vcio o tempo da desconfiança. Mostrou -se que O retorno às "decisões" pessoais se efet uava com base em
toda interpretação histórica depende de um sistema de referência; dois postulados. Por um lado, isolando um elemento fil osófico do
que esse sistema permanece uma "filosofia" implícita particu lar; texto hi storiográfico sup"nha-se lima autonomia para a ideologia:
que, infilt rando-se no trabalho de análise, organ izando -o à sua era a cond ição de sua ex traçii.o. Uma ordem das ideias era posta à
revelia, remete à "subjetividade" do autor. Vulgarizando os temas parte da prática histórica. Por outro lado (mas as duas operações
do "h istoricismo" alemão, Raymond ArOIl ensino u a toda lima ca minham jUll tas), sublinhando as divergências entre os "filóso -
gcmção a arte de apontar as "decisões filosófi c,lS" em fun ção das fos': descobertos sob suas vestes de historiadores, referindo-se ao
quais se organizam os recortes de um material, os códigos do seu insondável de Slt:1 S ricas intuições, fa zia·se desses pensadores um
deciframento e a ordem da exposiç:io! Essa "critica" representava grupo isoláve/ de sI/a sociedatle, a pretexto de sua relação direta
um esforço teórico. l" larcava uma etapa importante COIII relação a com o pensamento. O recurso às opções pessoais provocava cur-
uma situação fra ncesa, na qual prevalec iam as pesquisas positivas lo -circuito no papel exe rcido, sobre as ide ias, pelas localizações
e reinava o ceticismo acerca das "tipologias" alemãs. Exumava a sociai s .~ O plural dessas subjetividades filo sóficas tinha, desde en-
premissa e o inconfessável filosóficos da historiografia do século tão, como erei to discreto, conservar uma posição singular para os
XIX. Já remetia a uma circu lação de conceitos, quer dizer. aos des- intelectua is. Sendo as questões de sentido tratadas enlre eles, a ex-
locamentos q ue no co rrer deste séc ulo tinham Iransportado as ca- plicit<lção de suas diferenças de pensamellto equiva lia a gratificar
tegorias fi losóficas para o subsolo da história, como também para o grupo inteiro com uma relação privilegiada com as ideias. N<lda
o da exegese ou da sociologia . dos ruídos de lima fabri caçii.o, de técn icas, de imposições sociais,
Agora, sabemos a lição na ponta da língua. Os "fa los histó- de posições profi ssionais ou polít icas perturbava a paz dessa rela-
ricos" já são conslitu ídos pela introdução de um sentido na "ob- ção: um silêncio era o postulado dessa epistemologia.
jetividade': Eles enunciam, na linguagem da ,múli se, "escolhas que R. Aron estabeleceu um estatuto rcserl'{ldo tanto para o reina -
lhes são anteriores, que não resultam, pois, da observação - e que do das ide ias quanto pa ra o rei no dos in telec tuais. A "relatividade"
não são nem mesmo "verificáveis': mas apenas "falsificáveis" gra- não funcionava senão no interior de um campo fechado. Longe de
ças a um exame critico.' A "relatividade histórica" compõe. assim , colocá-lo em questii.o, de fato, ela o defend ia. Apoiadas na distin-
ção entre o sábio e o politico, lll11 dos elos mais discutívei s da teo-
ria de Weber,U,l essas teses demoliam uma pretensão do saber, mas
7 Imrodllc/ioll li //1 plrilosophir (Ie /'his/oire. Esmi sur fes limi/es de fobja/iI,jjé
!tis/ofif/ul? Vriu, 1938; Ln Plrilasophie critique de /'Iristoire. Vriu, J 938 (rced.
1969). Sobrç as teses de R. Aron, cf. a critica de VILAR, Piern:~.l\·larx i s me 9 Cf. GRAl\ISCI, Antonio. G/i in/d/eclrm/i e lorgwri::iollc dd/a wllrml. Tu·
et histoire dans le dé"doppement des sciences humainnes. Studi Storiei, I, rim: Einaudi, 19-19. p. 6·38.
nO5, p. [.008·1.0'13, 1960. Cf. principalmente p. 1.01 I· J .019. 10 Retorn ando à tese weberiana, segundo a qual "a elabora ção científica co·
8 Sobre o "principio de fal sificação'; cf. POPPER , KarL l.ogik der Porsclrrmg. meça por uma escolha que não adm ite out ra justificativa 5en:10:l s\lbjeti\'a~,
Viena, 1934 (lrad. inglesa revista e muito aumentada: '/lre Logic of scielllific R. Aron sublinhou. ullla vez mais, em l..es C/tl{l<'$ de /a J'C'I Sée soci%giqul'
Discal·er)'. Londres: Hu tchinson, 1959), a obra de base do ~ ra( iol1a1i smo (Gallimard, 196i, p. 510), o cru zamento, em Weber, entre a "'e scolha sub·
M
c ritico~ jetiva" e o sistema racional de explicação Kcausal (ibid., p. 500·522). Por aí
50 A Escrila da História - t. tichel de Certcau Capítulo 11 . i\ Oper.lção Historiogr.ífica 51

reforçavam o poder "isento" dos sábios. Um lugar foi posto fora práticas e pelas leis deste grupo. por sua intervenção no jogo das
de alcance no momento em que se mostrou a fragilidade daqui lo forças públicas etc.
que se produzia nele. O privilégio negado às obras cont roláveis foi
transferido para um grupo incontrolável. A instituição histórica
Os trabalhos mais notáveis parecem, ainda hoje, deslizar-se Esse lugar deixado em bran co ou escondido pela análi se que
dificilmente da posição vigorosa que R. Aron tomou, subst ituin - exorbitou a relação de um sujeito individual com seu objeto é uma
do o privilégio silencioso de um lugar por aquele outro, triunfan- illslit/liçâo do saber.
te e discutível, de um produto. Ainda que Michel Foucault negue
Ela marca a origem das "ciências" modernas. como demos-
toda referência à subjetividade ou ao "pensamento" de um autor,
tram no século XVII as "assembleias" de eruditos (em Sai nt-Ger-
supunha ainda, nos seus primeiros livros, 11 a autonomia do lugar
main des Pres, por exemplo) , aS redes de correspondência e de
teórico onde se desenvolvem, no seu "relato", as leis segundo as
viagem formada s, então, por um meio de "curiosos':u ou, mais cla-
quais discursos científicos se formam e se combinam em sistemas
ramente, no sécu lo XVIII, os círCll los sábios e as Academias com
globais. A Arqueologia do saber ( 1969 ), sob esse ponto de vista,
as qua is Leibniz tanto se preocupava. 14 Os nascimentos de "disci -
marca uma ruptura, introduzindo ao mesmo tempo as técnicas de
plinas" estão ligados à criação de grupos.
uma disciplina e os confli tos sociais no exame de uma estrutura
Dessa relação entre uma instituição socia l e a definição de
epistemológica, a da história (e isso não é por acaso). Da mesma
um saber, o contorno aparece, desde Bacon ou Descartes, com
forma , quando Paul Vcyne termina de destru ir na história o que
a passagem de R. Aron ainda lhe havia deLxado de "ciência Cau -
sal~ quando nele a fragmentação dos sistemas interpretativos em
13 AR It:.S, Philippe (Le Temps de /'Iristoric, r.lónaco. 1951, p. 224), C HAUNU.
uma poeira de percepções e de decisões pessoais não deixa mais I'ierre (Lil CivilisfII;o/1 de /'fllfope rlllSsique, Arthaud, 1966, p. 404·409. SO'
substituir, como fato de coerência, senão as regras de um gênero bre 1\ constituição atra\'cs da Europa de um pequeno mundo da pesqui s:l~)
literário, e como fato de referência, senão o prazer do historiador, 12 e muitos outros também notaram o fato. Mas apenas o detalhe mostra a
bem parece permanecer intacto o pressuposto de que, desde as te- que ponto esla "constituição" social marca um corte epistemológico. Por
ses de 1938, negava implicitamente toda pertinência epistemoló - exemplo, existe uma relação estreit:l elltre a dclimitaçtio dos cor respond(,lI'
tes (ou das viagens) e a im/tl1lrrlçllo clllrc des de uma lillguagell! erudila
gica ao exame da função social exercida pela história, pelo grupo (sobre essas correspondéncias, cf. GAlt=F1ER, B:ludouin de. In: _ _ Re· o

dos historiadores (e, mais genericamente, pelos intelectuais), pelas ligioll, érruJition 1'1 critique ri 111 fi/I dll XVII sifkle. P.U.F.. 1968, p. 2.9) ou
entre as ~assembleias" de quarta· feira na biblioteca Colbertina, de 1675 a
175 1, e a elaboração de uma pcsqlliSfI hiSlórica (sobre essas reuniões, cf.
ele oblilerou o efeilo. sobre o intelCClual, de se u lugar na sociedade e põde, DELlSLE, Lt-opold. Le Cllbinel des maJlUscfils de 111 Bibliollréqlle Nm ioml/e.
uma \'e1: mais, man ter Weber como o anti·""tar x. Paris. 1868, t. L, p. 476· 477).
14 D;lllicl Rache demostra a estreita conexão entre o encic/opi'dislllo (um
11 Em I.cs mots cl Ics choses (Gallimard. 1966). principalmente. cujo propósito "complexo" de ideias), e estas i/lstil(liçócs que são as :lcademias parisienses
foi depois especificado e situ:ldo. em particular n:l not;i.\"el Ulntroduction" ou provinciais (Encydopcdisles et académicicns. In: Livre 1'1 société dlllrs la
de I:Arclu!ologie dll s(II'oir (op. cit" p. 9·28). Cf. CERTEAU, M. de. Ü\bscm Prllllcc du XVTII siecle. jI,'louton, 1970, li, p. 73·92), como Sergio Mor:\\'i~
H
I/e I'IliSfOire, 1973. p. 115-132, uLe noir solei! du langll:lge: r.t Foucault• liga o nascimento da elnologi:l à constituição do grupo dos "Observal eurs
H
12 Cf. CERTEAU, M. de. Une cpistemologie de transilion: P. Veyne. Almales de l'homme (ta Seiell:!" del/'I/OI/Io nei scltcceJllo. Bari: Lat('rza, 1970. p.
E.S,C.. 1972. t.XXVII,p.131 7·1327. 15 1· 172). Poder· se· iam multiplicar os exemplos.
52 1\ Escrit:l da História. 1'I'lichel de Ccrlt:au Capítulo rr . A Opcnlçiio 1l;~toriogr;Ílica 53

aquilo que se chamou de "despolitização" dos sábios. É necessá rio uma linguagem científica (a revista ou o Boletim, continuação c
não entender isso como um exílio fora da sociedade 's, mas como a equivalente das correspondências de ant igamente). Desde os "Ou-
fundação de "corpos", O dos "engenheiros': dos intelectuais pobres serl'ateurs de /'homme" do século XV 11I , até a criação da VIe sec-
aposentados etc. no momento em que as un iversidades se esele- tioll de l'fcole pratique des hautes éllldes, pela tcole des Alt/wles
rosavam ao se fecharem. Instituições "políticas': eruditas e "ecle- ( 1947), passando pelas facu ldades do seculo XIX, cada "disciplin;l"
siásticas" se especializam reciprocamente. Não se trata, pois, de mantém sua ambivalência de ser a lei de um grupo e a lei de lima
uma ausência, mas de um lugar particular numa redistribuição do pesqu isa científica.
espaço social. A ma neira de ullla retirada relativa dos "assuntos A in stillliç,io não dâ apenas lima estabilidade social a uma
públicos" e dos "assuntos religiosos" (que se organizam também "doutrina". Ela a torna possível e, sub-repticiamente, a determina.
em corpos particulares), constitui -se um lugar "cien tifico': A rup- Não que uma seja a causa da outra. Não seria su ficiente conten -
tura que torna possível a unidade social, chamada a se transformar tar-se com a inversão dos termos (a infraestrutu ra tornando-se a
na "ciência': indica uma reclassificação global em curso. Esse corle "causa" das ideias), supondo entre elas o tipo de relação que esta-
mostra , pois, através da sua face externa em um lugar articu lado beleceu o pensamento liberal quando encarregou as doutrinas de
sobre outros num conjunto novo, e, através da sua face interna, a co nduzirem a história pela m;io. É, antes, necessário rec usar o iso-
instauração de um saber ind issociável de uma instituição socia l. lamento desses lermos e, portanto, a possibilidade de transformar
A partir daí, esse modelo originârio se encontra por toda uma correlação numa relação de causa e efeito.
parte. Ete também se demultiptica sob a forma de subgrupos ou É um mesmo mov imento qlte organiza a sociedade e as
escolas. Daí a persistência do gesto que circunscreve uma "dou- "ideias" que nela circulam. Ele se distribui em regimes de mani -
trina" graças a um "assento institucional': '6 A instituiç;io social festações (econômica, social, científica etc.) que constituem, entre
(uma sociedade de estudos de...) permanece como a condiç;io de eles, funções imbricadas, porem, diferenciadas, das quais nenhu -
ma é a realidade ou a causa das outras. Dessa maneira, os sistemas
socioeconômicos e os sistemas de si mbolizaç;io se combinam sem
15 Apesar de G. Bachclard, que escrcvia: ~A comunidade científica é estabe- se identificar nem se hier;lfquizar. Uma mudança social e, desse
lecida a llIargem d:l sociedade social" (Le Rllliol1l/lisllle Ilppliqué. P. U.E,
ponto de vista, comparâvel a uma modificação biolôgica do corpo
1966. p. 23; cf. La [orlllllliol1 fie üspri/ 5dclltifrqllC. 1965. p. 32·34). A. Koyré
retomou a mesma tesE'. mas para defender "uma vida própria. uma his· humano: constitui , como ela, uma linguagem, mas adequada a ou-
tória im:lnente" d;1 cicndn, que "não pode ser compreendida, ~en;'io el11 tros tipos de linguagem (verbal, por exemplo). O isolamento "me-
função de se us próprios problemas. de sua própria história" (Persl:fCcti- dico" do corpo resulta de um corte interpretativo que não dá conta
\"es sur l'histoire des sdences. in l/m/cs fl'his/oirf de la pcmée scielltifrqu/!. das passagens da somatização à si mbolização. Inversamente, um
G:lllim:lrd . 1973, p. 399). Parece quc e.liste aqui. em seguimento:l Weber:
discurso ideológicO se aju sta a uma ordem social, da mesma forma
I") uma co nfusão entre diferen ciação e isolamento. como se:l instaura·
ção de um lugar "próprio" não estivesse ligada a uma redistribuição ge ra l
como cada enunciado individual se produz em função das silen -
G ciosas o rganizações do corpo. Que o d iscu rso como tal obedeça a
)
e. pOrlamo, a redefinições reciprocas: 2 um a co ncepção da ~ história das
ideias" que nega toda pertinência às divisões sociais. (IUando os r.:cortes regras próprias, isso não o impede de articu lar-se com aquilo que
epistemológicos são indissociav('lmente soci:lis e intelectuais. não diz - com o corpo, que fala à sua maneira."
16 GL!::N1SSON. Jean. t'histori ographie française co ntemporaine. In: Ving/.
âll'lIllIS (I.· r«lrache Iris/orif/II/! em france. C.N. R.S.. 1965. p. xxiv. n° 3. a
propósito dos I1wl(I"'s. 17 O psicanalista did mesmo que a p"lavra ocuh:l e que o corpo (;lla.
S4 A Escrita da História . l\líçhcl de Cnl('au
r <::Ijllllllo 1[ • A Op<'Ta.;jo Iliswriografica 55

Em história, é abstraia toda "doutrina" que rccollca sua rela- latina (o mundo mediterr.1nico, a Espanha, a Itália ou a América
ção com a sociedade. Ela nega aqui lo em função de que se elabora. Lat ina), limitada, além disso, nos seus meios financeiros ele.
Sofre, então, os efei tos de distorção devidos ;i eliminação daquilo Enlre muitos outros, esses traços remetem o "estalulo de
que a si lu;l de fato, sem que ela o diga ou o saiba: o poder que tem uma ciência" a uma situação social que é o seu Iulo-dito. t, pois,
sua lógica; o lugar que sustenta e "mantém" uma disciplina no seu impossível analisar o discurso histórico independentemente da
desdobramento em obras sucessivas etc. O discurso "científico" instituição em runção da qllal ele se organiza silenciosamente; ou
que mio fala de sua relação com o corpo social é, precisam ente. son har com uma renovação da disciplina, assegurada pela ún ica e
o objeto da história. Não se poderia tratar dela sem questionar o excl usiva modificação de seus conceitos, sem que intervenha uma
próprio discurso historiográfico. tran sformação das situações assentadas. Sob esse aspecto, como
Em seu Rapport général de 1965 sobre a historiografia fra n- indicam as pesquisas de Jlirgen Haberm'ls, uma "repolitização"
cesa, J. Glénisson evocou algumas das articulações disc retas entre das ciências humanas se impõe: não se poderia dar conta dela ali
um saber c um lugar: o enquadramento das pesqui sas por alguns permitir-l he o progresso sem uma "teoria crítica" de sua situação
doutores que alcançaram os postos superiores do professorado e atual na sociedadeY
que "decidem carreiras universitárias"; '8 a imposiç,io exercida pelo A questão que a sociologia critica de Habermas aponta j<i está,
tabu social da tese monumental;''I o laço entre a frágil influência aliás, deline'lda no discurso hi stórico. Sem esperar as denúncias do
da teoria marxista e o recrutamento social do "pessoal erudi to, teórico o texto aSsume, ele próprio, sua relação com a instituição.
possuidor de cáted ras e de presidências";:ro os efeitos de lima ins- Por exemplo, o "ós do autor rem ete a uma cOllvellção (dir-se-ia, em
tituição fortemente hierarquizada e centralizada sobre a evolução semiólica, que ele remete a um "verossím il enunciati vo"). No texto
científica da hislóri,l, que é de uma notável "tranquilidade" há três ele é a encenação de um conlrato social "entre nós': t um sujeito
quartos de século.!' t também necessário sublinhar os interesses, plural que "sustenta" o discurso. Um "nós" se apropria da lingua-
exclusivamente nacionais, de uma h istoriografia voltada para as gem pelo fato de ali ser posto como 10culor. H Por ai se verifica
querelas internas (luta -se contra Seignobos ou a favor de Febvre),
circunscrit a pelo chauvi nismo linguistico da cultura francesa, pri-
vilegiando as expedições às regiões mais próximas da referência
22 /. I-Iaberrnas criti ca em particular. nas teorias sociológicas (e pr~'Ciso acres-
centar: ou históricas) dI.' tipo puramenle tecni co e Mgnoseológi co~ o MSU_
n
bentendido de uma nrutmlidadr anlr os valores poslulados pelo ponto
18 GL~N[SSON, J. Op. cit. p. xxvi. de partida epistemológico de SU:lS pesquisas (A Il~l)'tische WiSSCllschaft -
t9 lbid., p. xxiv. Sobro: I.'SSI.'S dois pOntos, cf. CLARK. Terry N.; CLAJU';, thcorie und Dialcktik. in Zl'uS'lissc. 'Dlcodor IV. Adomo zum seclt:igslcll
Prisci1la P. LI.' palron o: son cl.' rde: elcf de UnÍ\ws il~ française (in ReVI//.' Gcbllrtstag. Fr:lnkfurl ·sobrc·o·i\lcno, 1963, p. 500-50 1). Cf., do mesmo
Fmll(/liS<! lle Sod%gic. XII , 197 1,11.19-39). eSludo pe rspicaz que apenas autor, as obras de base que são Zur I.ogik da So:i/llwissc/lSduifl, Túbingcn:
Mobser\'adores eXlernos~ poderiam eS(ro:\'er. Os autores dl.'finl.'l11 o ~siste ­ ,\ tohr, t967, I.' Tt,c1mik uml Wissctlsdlllft /lls MI'%gi/.'. Frankfurl-sobre-o-
l11a" por quatro ell.'l11l.'nlos essenci:lis: a centmlizaç;io do controle. o caráter ,\Ieno: Suhrkamp, 1968 (trad. fr. I.lI rulmiqllc I'I/lI scil'Jlce cO llmw ~idéolo ­
monopolista do sislcm:l, o número reslrilO dos postos illlponantl's, a mul - gic". Gallimard . 1973).
tiplicação das funçõl.'s do p:ltrono. 23 Sobre o papel I.' o se ntido do .'11 ou do IIÓS, lugar feito na linguagem para
20 GL~N I SSON, /. Op. Cil., p. xxij.:~_~iii. aqul.'lc que se Mapropria~ dda como locutor, cf. BENVENISTE. I:mile. Pro-
21 Ibid.,p.li. bft\ml's de /iJlguisliquc gélllfm/e. Gallimard, 1966, p. 258-266.
------------ ----------
- - -----

<
58 1\ EScrita da l listória • ~Iichd di.' Certcau Capitulo 11 • " O peraç.lo HistoriogrMic;, 59

difere ncia e se manifesta o poder de Ulll corpo de mestres e de enquanto o especialista se exil;! dos circuitos de consu mo. A pro-
letrados). Esses "métodos" esboçam um comportamento institu- dução histórica se encontra partilhada entre a obra /iteraria de
cional e as leis de um meio. Nem por isso deixam de ser cientí- quem "constitui autoridade" e o esoterismo cientíjico de quem "faz
ficos. Supor uma antinomia ent re uma análise social da ciência e pesquisa ..."
sua interpretação em termos de história das ideias é a falsidade Uma situação social muda ao mesmo tempo o modo de tra-
daqueles que acreditam que a ciência é "autônoma" e que, a título balhar e o tipo de discurso. Isso é um "bem" ou um "mal"? Antes
dessa dicotomia, consideram como não pertinente a análise de de- de mais nada, é um fato que se detecta por toda parte, mesmo
terminações sociai s, e como estranhas ou acessórias :IS imposiçôes onde é silenciado. Co rrespondências ocultas se reconhecem em
q ue ela desvenda. coisas que começam a se mexer ou a se imobilizar juntas, em seto-
Essas oposições não são acidentais. Elas fazem parte da pes- res inicialmente tidos como estranhos. É por acaso que se passa da
quisa. Longe de representar a inconfessável intromissão de um "história social" à "história econôm ica" durante o entreguerras,27
estranho no Santo dos santos da vida intelectual, co nstituem a tex - por volta da grande crise econômica de 1929, ou que a hiSlória cul-
tura dos procedimentos científicos. Cada vez mais o trabalho se tura l lev<l vantagem no momento em que se impõe por toda parte,
articula com base em equipes, líderes, meios financeiros e, portan- com os lazeres e os mnss media, a importância social , econôm ica
to, também pela mediação de créditos, fundamentados nos privi- e política da "cultura"? É um acaso que o "atomismo histórico" de
légios que proximidades sociais Oll politicas proporcionam a tal ou Langlois e Se ignobos, associado explicitam ente à soc iologia base-
qual estudo. E, igualmente, o rganizado por uma profissão que tem ada na figura do "iniciador" (Tarde) e a uma "ciência dos fatos
suas próprias hierarquias, suas normas centralizadoras, seu tipo de psíquicos" (decompondo O psiquismo em "motivos': "impulsões"
recrutamento psicossocial. 26 Apesar das tentati vas feita s para rom - e "represcntações"),28 tenha se combinado com o liberali smo da
per as fronteiras, esta instalado no círculo da escrita: nessa história burguesia reinante em fins do século XIX ? I! um acaso que os es-
que se escreve, abriga prioritariamente aqueles que escreveram, de paços mortos da erudição - aqueles que não são nem os objetos,
maneira tal que a obra de história reforçasse uma tautologia 50· nem os lugares da pesquisa - venham a ser do Lozere ao Zambese,
ciocultural entre seus autores (letrados), seus objetos (livros, ma - regiões subdesenvolvidas, de maneira que o enriquecimento eco-
nuscritos etc.) e seu público (cultivado). Esse trabalho está ligado nômico cria hoje triagens historiográficas sem que a origem destas
a um ensil1o, logo, às flutuações de uma clientela; às pressões que seja confessada, nem a sua pertinência assegurada?
esta exerce ao se expandir; aos reflexos de defesa, de autoridade
ou de recuo que a evolllção e os movimentos dos estudantes pro-
vocam entre os mestres; à introdução da cultura de massa numa
universidade massificada que deixa de ser um pequeno lugar de 27 Aqui,;1 data essencial é a da tese de lEFEBVRE, Gi.'orgl'. PIIJ'5Im, dll llOrd
trocas ent re pesq uisa e pedagogia. O professor é empurrado para IIr la Fmllce Pt'lIdllllllll Rél'()/ulioll. 192-1.l\la5 toda uma p]l-iadi.' de histo-
riadores marca esta viragem: Hauscr. Séc. Simi3nd i.' outros.
a vu lgarização, dest inada ao "gra nde público" (estudan te ou não),
28 nu/ror/,lcfio/l /lIIX é/udes !tis/oril/'H'S ( 1898) pl'rmancce o grande tivro de
uma historigrafia, mesmo quc não seja mais, h~ muito tempo, aquilo qUi."
foi par.! toda uma época: a estatua do Comand3nti.'. Surprt'rndi.'nternente,
26 Ainda não existl', infrli zml'n tl', para o rl'crUlaml'nto dos historiado res U111 o lemos com imeresse; ele é admirâ\'C1 em clareza. I! principalmrnte no
l'quivall'ntc do t'studo publicado por SA1NT-MAIUIN, r-,·toniqut' dt'o I.t·s capitulo \'ii do livro J1e nos capítulos i-iv do livro J11, todos dr\"idos a Srig-
Fe1l1elioll5 soâa/cs til' lemd gllt'weul Sdt'lIliJiqlli'. Mouton, 197 1. nobos, qur sr explicitam as rderencias científicas dos autores.
60 1\ Escri ta da I-listúri;, • i\lichel dl' Cl'rleau Capitulo J t • A Operação IlislOriogr;ífica 61

Da reun ião dos documentos à redação do livro. a prática his- diversos, quando se formam "reu ni ões" ou "frentes" com un s e a
tórica é inteiramente relativa à estrutura da sociedade. Na França economia organiza a li nguagem da vida francesa, tOTl/a-se possível
de ontem, a existência de pequenas un idades sociais, solidamente considerar Rabelais como cristão - quer dizer. testemu nha de um
constitu ídas, defin iu diversos níveis da pesq uisa: arquivos circ uns- tempo pass(/do -, libertar-se de divisões que não mais se inscrevem
critos aos aconteci mentos do grupo e ainda próximos dos docu- no vivido de uma sociedade e, portanto. de não mais privilegiar os
mentos de família ; uma categoria de mecenas ou de autoridades Reformados, ou os Democratas cristãos na historiografia un iver-
que se propõe a "proteção" de um patrimôn io. de clientes ou de sit ária politica ou rel igiosa. O que isso indica não são concepções
ideias; um recrutamento de erudi tos-letrados devotados a uma mel ho res ou mais objet ivas. Uma muda nça da sociedade perm ite
causa e adotando com relação à sua grande ou pequena pát ria a di- ao historiador um afastamento com relação àquilo q ue se torna,
visa dos Monumenta Gemulllie: Sallct/ls amor patrie dat al1imuII/; globalmente, um passado.
obras "consagradas" a assuntos de interesse local, fornece ndo lima Desse ponto de vista, L Febvre procede da mesma manei-
linguagem própria para leitores limitados, porém fieis etc. ra que os seus predecessores. Estes adotavam co mo postulados de
Os estudos feitos a respeito de assu ntos mais vastos tampou- sua compreensão a estrutura e as "evidências" socia is de seu grupo,
co escapam a eSSa regra, mas n unid ade socinl da qual dependem com o risco de fazê-los sofrerem um desvio crítico. O fundador
não é mn is do mesmo tipo: não é mais uma loca lidade, mas a ill- dos Al1l1a/cs não faz ele a mesma coisa quando promove a Busca
tclligelltsia acadêmica. depois universitária, que se "dist ingue" ao c uma RecollqllistaJ{J histórica do "I-Iomem': imagem "sobera na"
mesmo tempo da "pequena história': do provincianismo e da ar- no centro do universo de seu meio burguês;J! quando chama de
raia millda antes que, tendo aumentado seu poder com a crescente "h istória global" o panorama que se abre aos olhos de uma ma -
expansão centralizadora da Universidade, imponha as normas e gist ratura universitária; quando, com a "mentalidade': a psicologia
os códigos do evangelismo leigo, li beral e patriótico elaborado no coletiva" e todo o instrumental do ZlIsall/l/lel1hallg, ele situa lima
séc ulo XIX pelos "burgueses co nqlli stadores~ est ru tura ainda "idealista,)! que funciona como antídoto da análise
marxista, e esconde sob a homogeneidade "cultura l" os conOitos de
Tanto mais que, quando Lucien Febvre, durante o entreguer-
ras, declara querer retirar da história do século XV I "o hábito" das classe nos q uais ele mesmo se encont ra implicado?Jl Nem por ser
querelas de antanho e libertá -la. por exemplo, das categorias im -
postas pelas guerras entre católicos e protestantes,29 ele demonstra 30 NT - Rewnquisla. no o riginal.
inicialmente o esmaecimento das lutas ideológicas e sociais que, 31 ~Tu do aquilo qur, srndo do homem, dependr do homrm, ser\'(' ao homcm.
durante o século XIX, reaproveitam as bandeiras dos "partidos" re- exprime o homrm, significa a presença. a atil'idade, os gOSlos e as lllaneir:lS
de se r do ho mem': decl:lr:l ele nos Com/JIIISpor /'hl5toirc. A. Colin, t 953. p.
ligiosos a serviço de campanhas homólogas. Na verdade, as dispu-
-128. Desdc en tão a im:lgern criada por csse otimismo conq ui stado r perdeu
tas religiosas prosseguiram durante muito tempo. ainda que em a sua credibilidade,
terrenos não religiosos: entre republica nos e tradicionalistas, ou 32 Henri Berr assinalou, já em 1910, o caroter "idealiSla" da histó ri a segundo
entre a escola pública e a escola "livre': Mas quando essas lutas per- FEBVRE. L (ReI'lIC de Sy"lhcse Historiquc. XXX. 1920, p. 15).
delll sua importància sociopolítica após a guerra de 19 14, quando 33 Sobrc a "teoria do ZIISIIIIIIllCl1lulI1g" flutuante e ri ca em sua obra, cf. II'IANN,
Han$ Dietcr., l.lIde ll Peb!'rc. 1.11 PC ' lSfr I'iww/e d'rm, historiel/. A. Colin,
as forças que elas opu nham se fragme ntam em compartimen tos
197 1, p. 93· 1 t9. L. Febl're se refere à "cl3sse" para rx plic3 r o século XV t (cf.,
por excm plo, POlir unI' Ms/oire li pllrt emicrc, I'aris. 1963, p. 350-360. sobre
29 FEBVRE, L. Ali roua rdigic llx dll XVe siec/c. SC\'pcn, 1957, p. 146. 3 burguesia), mesmo que seja com muila reti cê ncia (ib id., p. 185- J99). mas
62 A Escrita da História . h licl1l'l de Cerleau Capítulo 11 • A O pCr3ç-.ío Ilísloriográlica 63

tão genial e nova sua história está menos marcada, socialmente, do naram pretextos. a exterioridade daquilo que se faz com relação
que aquelas que rejeita, mas se ele pode supeni-Ias é porque elas àquilo que se diz, e a eliminação de um lugar aLi de uma força que
correspondem a situações passadas, e porque um outro "hábito" se articula numa linguagem . Não seria isso, aliás, o que "trai" a re-
lhe foi imposto, de confecção, pelo lugar que ocupa nos conflitos fe rência de lima historiografia "conservadora" a um " inconscien-
do seu presente. te': dotado de uma estabilidade mágica, e transformado em fetiche
Com ou sem o fogo que crepita nas obras de L. Febvre, a mes- pela necessidade que se tem, "apesar de tudo': de afirmar um poder
ma coisa ocorre por toda parte hoje (mesmo deixa ndo de lado o próprio do qual j:.i se "sabe bem" que desapareceu?JS
papel das d ivagens sociais e políticas até nas publicações e nomi-
nações, onde funcionam os interditos tácitos). Sem dúvida não se o que permite e o que proíbe: o lugar
trata mais de uma guerra ent re os partidos, ou entre os grandes Antes de saber o que a história diz de uma sociedade. é neces-
corpos de antigamente (o Exército, a Universidade, a Igreja etc.); sário saber como funciona dentro dela. Estsa instituição se inscreve
é que a hemorragia de suas forças provoca a folclorização de seus num complexo que lhe permite apenas um tipo de produção e lhe
programas).! e as verdadeiras batalhas não se resolvem mais aí. A proíbe outros. Tal é a dupla função do lugar. Ele tOnla possíveis cer-
Kneutralidade" remete à metamorfose das convicções em ideolo- tas pesqui sas em função de conjunturas e problemáticas comuns.
gias, numa sociedade tecnoc rát ica e produtivisla, anônima, que MaS torna outras impossíveis; exclui do discurso aquilo que é sua
não sabe mais designar suas escolhas nem indicar seus poderes cond ição num momento dado; representa o papel de lima censura
(para ratificá-los ou confessá- los). Assim, na Universidade coloni- com relação aos postulados presentes (sociais. econômicos, poli -
zada, corpo privado de autonomia na medida que se tornou enor- ticos) na análise. Sem dúvida, essa combinação entre permissão e
me, entregue agora às instruções e às pressões vindas de outras par- illterdição é o ponto cego da pesquisa histórica e a razão pela qual
tes, o expansionismo cientificista ou as "c ruzadas" humanistas de ela não é compativel com qualquer coisa. ~ igualmente sobre essa
ontem são substituídas por retiradas. No que concerne :is opções, combinação que age o trabalho dest inado a modificá-la.
o silêncio substitui a afirmação. O discurso assume uma cor de pa- De toda maneira, a pesquisa está circunscrita pelo lugar que
rede: " neutra'~ Transforma -se mesmo numa maneira de defender
define uma conexão do possivel e do impossível. Encara ndo-a ape-
lugares em vez de ser o enunciado de "causas" capazes de articular naS como um "d izer': acaba r-se-ia por reintroduzir na história a
um desejo. Ele não pode ma is falar daquilo que o determina: um
lenda, quer dizer, a substituição de um não-l ugar ou de um lugar
labirinto de posições a respeitar e de influências a solicitar. Aqui,
imaginário pela art iculação do discu rso com um lugar social. Pelo
o não-dito é ao mesmo tempo o inconfessado de textos que se tor- contrário, a história se define inteira por uma relação da fi/lguagem
com o corpo (soc ial) e, portanto, também pela sua relação com os
de não faz intervir o problema de sua própria localização social quando limites que o corpo impõe, seja à manei ra do lugar particular de
analisa sua prática e seus conceitos históricos. Quanto ao antimarxisrno, onde se rala, seja à maneira do objeto outro (passado, morto) cio
ele se manifesta. por exemplo, no resumo de Daniel Guc rin (Combllls pour qual se fala.
/"IJistoire, op. cit .. p. 109- (13 ), no qual, aliás. a aproximação de Michdct
com ]\-tarx é. para L. Fcbvrc, um Minccsto':

34 Cf. CERTEAU. r-,.1. de.l.1I cu/lure/IU p/urie/ 10118, 1974. p. 11 -3 4: " l.es rcvo- 35 MANNONI. O. Jc s:lis bicn, mais quand Illcrne. 11\:_ _ . C/f/s pour
lutions du cro)'abl ...·: /'imagillllire ouli\utre Sctlle. Seuil. 1969, p. 9-33.
64 A Es(rila 11" Ili'16ria • ,\lichel de Co:rleau CapItulo 1I • A OI'l'r'I<;'\O 11i~IMi()gr,\!;c'a 65

De parte a parte, a história perma nece configurada pelo siste- tigios de um trabalho. Na verdade, exi ste ai uma opção decisiva. O
ma no qual se elabora. Hoje como ontem, é determinada por uma lugar que se dá à técnica coloca a história do lado da literatura ou
fabricação localizada em tal ou qual ponto desse sistema. Também da ciência.
a consideração desse lugar, no qual se produz, é a única que permite Se é verdade q ue a organização da história é relativa a um
ao saber historiogrâfico escapar da inconsciência de uma classe que lugar e a um tempo, isso ocorre, inicialmente, por causa de suas
se desconheceria a si própria, como classe, nas relações de produ- técnicas de produção. Falando em geral, cada sociedade se pensa
ção, e que, por isso, desconheceria a sociedade onde estâ inserida. "historicamente" com os instrumentos que lhe s50 próprios. Mas
A articulação da história com um lugar é a condição de uma aná- o termo instrumento é equívoco. Não se trata apenas de meios.
lise da sociedade. Sabe-se, aliás, que tanto no marxismo quanto no Como Serge Moscovici demonstrou magistralmente,17 ainda que
freudismo não existe análise que não seja integralmente dependen- numa perspectiva diferente, a história é mediatizada pela técni ca.
te da si tuação criada por uma relação, social ou analít ica. Dessa maneira se relativiza o privilégio que a história social teve
Levar a sério o seu lugar não é ainda explicar a história. Mas durante todo O século XIX ~ e, frequentemente, ainda em nos-
é a condição p;1ra que alguma coisa possa ser dita sem ser nem sos dias. Com a relação de uma sociedade consigo mesma, com
legendâria (ou "edificante"), nem atópica (sem pertinência). Sendo o "tomar-se outro" do grupo segundo llI11a dialética IlIImal/a, se
a denegação da particu laridade do lugar o próprio princípio do combina, central na atividade científica presente, o futllro da IU/lu -
discurso ideológico, ela exclui toda teoria. Bem do que isso, ins- reza que é "simultaneamente um dado e uma obra". 18
talando o discurso em um não-lugar, proíbe a história de falar da É nessa fronteira mutável, entre o dado e o criado, e finalmen-
sociedade e da morte, quer dizer, proíbe-a de ser a história. te entre a natureza e a cultura, que ocorre a pesquisa. A biologia
descobre na "vida" uma linguagem falada antes que apareça um
11. UMA PRÁTICA locutor. A psicanálise revela no discurso a articulação de um de-
"Fazer história" é uma prâtica. Sob esse ângulo podemos pas- sejo constituído diferentemente do que o diz a consciência. Num
sar para uma perspecti va mais pragmâtica, considerando os cam i- campo distinto, a ciência do meio ambiente não mais permite iso-
nhos que se abrem sem se prender mais à situação epistemológica lar das eslmtums naturais, que transforma, a ex tensão indeflllida
que, até aqui, foi desvendada pela sociologia da historiografia. das construções soc iais.
Na medida em que a Universidade permanece estranha à prâ- Esse imenso canteiro de obras opera uma "renovação" Ida
tica e à tecnicidade,J6 nela se classifica como "ciênc ia auxiliar" tudo natureza) , provocada pela nossa intcrvenção':J9 Ele "liga diferen-
o que coloca a história em relaç;io com técnicas: ontem a epigrafia, temente a humanidade e a maléria':40 De tal maneira que a ordem
a papirologia, a paleografia, a diplomâtica, a codicologia etc.; hoje social se inscreve como forma da ordem natural, e não como en-
a musicologia, o "foldorismo': a inform.itica etc. A história não tidade oposta a ela".41 Existe ai com que modificar profundamente
começaria senão com a "nobre palavra" da interpretaçiío. Ela seria,
finalmente, uma ;nte de discorrer que apagaria, pudicamente, ves-
37 E>Slli sur /'histoire de la !lature. Flammarion, 1968.
38 OI'. (il., p. 20.
36 Cf. BON, Frédérk; BURN1ER, r.L A. Les Norl\·eurl.'l: II1/dlc(l uies. Scuil. 39 lbid.
1971. p. ISO; CERTEf\U, ~-1. de. 1.11 CulturulIIl'ir4rid, ap. dt., p. 111 - 137; '10 Op.dl.,p.7cll.
uLes Uni\'crsités devant 13 cuhurc dc rnasse': 4[ Op. d t" p. 590.
66 ,\ Escri ta da llistoria . ,\lichd de Ce rt cau Capitulo 1I • 1\ Opc raç:io Historiogdfic;1 67

uma história que teve como "setor cent ral" "a história social, quer Mas esses campos abertos à hi stória não podem ser apenas
dizer, a história dos grupos sociais e de suas relações':4! Esta jd está objetos novos forn ecidos a uma inst ituição imutável. A própria
se voltando pouco a pouco par,l o eeonõmico, depois para as "men- história entra nessa relação do disCltrso com as técnicas que o pro-
tal idades'; osei!;lIldo assim entre os dois termos da relação que a duzem . npreciso encarar como ela trata os elementos "natu rais"
pesquisa privilegia cada vez mais. Os sinais se multiplicam. Uma para transformd -Ios em um ambiente cultural , como faz aceder à
orientação que esboçava, no entreguerras, o interesse pela geogra - simboli zação lit erári a as transforma ções que efetuam na relação
fia e por uma "histó ri a dos homens em suas relações estreitas com de uma sociedade com a sua natureza. De resíduos, de papéis, de
a terra"41 se acentua com os estudos sobre a construção e as com- legumes, até mesmo das geleiras e das "neves eternas';-I8 o hi sto-
binações dos espaços urballos,~1 sobre a transumâneia de plantas riador faz Of/l ra coisa: faz deles a história. Artifieializa a natureza.
e seus efeitos socioeeonô mieos,~5 sobre a história das tecnieas,-16 Participa do trabalho que transforma a natureza em ambiente e,
sobre as mut ações da sexualidade, sobre a doença, a medicina e a assim , modifica a natureza do homem. Suas téc nicas o situam , pre-
história do eorp047 etc. cisa mente, nessa articulação. Colocando-se no nível dessa prática,
não mais se encontra a dicotomi a que opõe o /latt/ral ao social, mas
a conexão entre uma socia lizaçii.o da natureza e uma "naturaliza-
42 o
LAIIROUSSE, Ernesl. "lntroJuctiml': In: _ _ C /-/istoirc socialc. P. U. E, ção" (ou materialização) das relações sociais.
1967. p. 2.
H A expressão é Je' BRAUDEl.., Fernand. Leço/! immgurale au Col/ege de A artiwfação /tatureza-wltf/ra
I'rallCt', 1950. Em La Cala/ogl/e dans /'Espllg/!e mot/erne (Sel'pen, 1962, I. I,
p. 12), Pierre Vilar lembra que entre as duas guerras "as grandes questões Sem dúvida , é demasiado afi rmar que o historiador tem "o
das quai s adivinhál'amos, mais ou menos confusamente, que viriam a do - tempo" como "material de análise" o u como "objeto específico':
minar o nosso séc ulo não nos eram propostas senão atral'és das lições de Trabalha, de acordo com os seus métodos, os objetos físicos (pa-
nossos mestro:s go:6grafos'": péis, pedras, imagens, sons etc.) que dislinguem , no CO llt ;1It1ll1ll do
44 Cf., particularmente, CHOAY, François. L'hisloi re et la méthode em urba -
percebido, a organização de uma sociedade e o sistema de per-
nisme. A/males 1:'.5.C., XXV, 1970 (número espccial sob re '"Histoirc et urba-
nisation"), p. 1.143- 1.154, e também THERNSTRO""I, Stephan. Retlections
tinências próprias de uma "ciência': Traba lha sobre um material
on the Nel\' Urhan HislOr)'. Dacdallls, p. 359· 376, Spring, 1971. L'Enqllêle para transform á-lo em história. Em preende uma manipulação
s/lr Ic britimelll (1I10uton, 1971 ), dirigida por Pio:rre Chaunu, é tambem um que, como as outras, obedece a regras. Ma nipu lação semelhante
ótimo exemplo do nOl"o in teresse dirigido 3S organizaçõcs espaciais. é aquela feila com o mineral já refinado. Transformando inicial-
45 Assim como o capitulo sobre ~a cil'ilização I'esetal ~ ('111 I.AD UR IE, F.mma-
mente matérias-primas (uma in formação primá ria) em produtos
nucl I.e Ror. Lcs PI/)'$alls d/I Lallgllrdo, Sel'l>en, 1966, p. 53-76. Este estudo
M stallrla rrl (in formações secundárias), ele os transporta de uma
muito nOI'O sobre os ufundaml'"n tos biológicos da I'ida rlll"3l mostra que os
M

,
I'egelais são "obj('tos da história pdo próprio fato de sua plasticidade, das região da wltura (as "wriosidades", os arquivos, as coleções etc.)
modificaçõcs incessantes que os homens lhes impõcn{. Infelizmente l'"le
desap~reccu da edição de bolso, Flanu1l3rion. 1969.
46 Cf. a grande I-listoirc gbréralc des Icc/miques, sob :I direção de DU1I1AS, I" CIi'lique. 1>. U. E, 1963; PETE I~. jcan- I)krrc. Le Corps du délit. NOII\'e1lc
Mauri ce. Paris: P.V.E, 1963-1968.4 t., OU os trabalhos dc Gll..LE, Bertrand Rel'/lc de /'sYc//lUwlist'. nO 3, p. 7 J - 108, 197 1 etc.
(I.cs I/!gé/!iellrs de la RClJaisslll/ce, 196·1 etc.).
'17 Cf. o numero especial dos A/lIIales E. S. c., XXIV, nOl'embro-dezembro 48 LADUR1E, Emmanuell..e Ro)'. Hist();re {/11 dill1l11 (fepl/;s fim mil. FIam ·
1969, "Histoirc biologique et soci~té"; FOUC AU I.T, Michel. Mli5JlII/Ct' (k marion, 1967.
Capitulo 11 • t\ Operação Hisloriográfica 69
68 A Esc rita da História · l\lichd de Ü'rlcau

pa ra outra (a história). Uma obra "histórica" participa do movi - Em história, como alhures, é científica a operação que trans-
mento através do qual uma sociedade mod ificou sua relação com forma o "meio" - ou que faz de uma organizaçào (social, literária
a natureza, transformando o natural em utilitário (por exemplo, a etc.) a condição e o lugar de uma trallsformação. Dentro de uma
floresta em exploração), ou em estético (por exemplo, a montan ha sociedade ela se move, pois, num dos scus pontos est ratégicos, a
em paisage m), ou fazendo uma in stituição social passar de um es- articulação da cultura com a natureza . Em história, ela instaura
tatuto para outro (por exem plo, a igreja convertida em museu). um "governo d,l mlhtreza': de uma forma que concerne à relação
Mas o hi storiador não se content a em traduzir de uma lin- do presente com o passado - não se ndo este um "dado", mas um
guagem cultura l para outra, quer dizer. em transformar produções produto.
sociais em objetos de história. Desse traço comum a toda pesquisa científica, precisamente
Ele pode tra.nsforma r em cultura os elementos que extrai de onde ela é uma técnica, é possível realçar as marcas. Não pretcndo
campos naturais. Desde a sua docu ment ação (na qual ete introduz retornar aos métodos da história. Através de algumas sondagens
ped ras, sons etc.) até o seu livro (em que plantas, micróbios, gelei- trata-se apenas de evocar o tipo de problema teórico que suscita,
ras adquirem o estatuto de objetos simbólicos), ele procede a um em história, o exame de seu "aparelho" e de seus procedimentos
deslocamento da articul ação natu reza/c ultura. Modifica o espaço, técnicos.
da mesma for ma que o urbanista, quando integra o campo no sis-
tema de comun icação da cidade, o arquiteto quando transforma O o estabelecimento das fontes 011 a redistribuição do espaço
"-
lago em barragem , Pierre Henry quando tran sforma o rangido de ./ Em história, tudo começa com o gesto de separar, de reunir, de
uma poria em tema musical, e o poeta que altera as relações entre . / transformar em "documentos" certos objetos distribuídos de o utra
'"'ruído" e "mensagem ..." Modi fi ca o meio ambiente através de uma maneira . Essa nova distribuição cultural é o primeiro trabalho. Na
série de transformações que deslocam as fronteiras e a topografia realidade, ela consiste em produzir tais documentos, pelo simples
interna da cult ura. Ele "civiliza" a natureza - o q ue sempre signifi- fa to de recopiar, transcrever ou fotog rafar esses objetos mudando
cou que a "colon iza" e altera. ao mesmo tempo o seu lugar e o seu estatuto. Esse gesto consiste
Constat a-se hoje, é verdade, que um volume crescente de li - em "isolar" um corpo, como se faz em fí sica, e em "desfigurar" as
vros históricos se torna romanesco Oll legend ário, e não mais pro- coisas para constituí-las como peças que preencham lacun as de
duz essas tra nsformações nos campos da cultura. Enquanto, pelo um conjunto proposto a priori. Ele fo rma a "coleção". Constitui as
contrário, a "literatura" visa a um trabalho sobre a linguagem , e o coisas em um "sistema marginal", como diz Jean Baudrillard;50 ele
tex to põe em cena "um movimento de reorgallização, uma circula- as exi la da prática para estabelecê- Ias como objetos "abst ratos" de
ção mortuária que produz d est ru indo". ~9 Isso q uer dizer que, assim, um saber. Longe de aceitar os "dados': ele os constitu i. O material
a história deixa de ser "cie ntífi ca~ enquanto a literatura se torna tal. é criado por ações combinadas, quc o recortam no unive rso do
Quando o historiador supõe que um passado já dado se desvenda uso, que vão procurá-lo também fora das fronteiras do uso, e que
no seu tex to, ele se alinha com o comportamento do consumidor. o destinam a um recmprego coerente. E o vestígio dos atos que
Recebe, passivamente, os objetos di stribuídos pelos produtores.

49 ROUSSEL, Ra)'n1ond. Imprwioll5 d'Afri(jllc. Gnllimnrd, 1963. p. 209. Cf.


50 o
Ut\UDRILI.ARD, Jean. I.a collcction. In: _ _ tc S)'5/CI1!C dC$ ol!jcc/s.
KR ISTE VA, Julia. Sêmeiôlikê. Rcchcrchcs pOlir !/Uc srlllatllll)'se. Scuil, 1969.
p. 208·245: Kl.a productivilé dite lexlc': GaUilllard, 1968. p. 120- \ 50.
70 A Escrita da História . i\'lichel de Crrte;1u Capitulo 11. A Operação Historiográfica 71

modificam uma ordem recebida e uma visão socia!.'l Instauradora dece;\ lei da multiplicação. A partir de 1470, ele se alia à imprensa:;]
de signos, expostos a tratamentos especificos, essa ruptura não é, a "coleção" se torna "biblioteca'~ Colecionar, durante muito tempo,
pois, nem apenas nem primordi almente, o efeito de um "olhar". É é fabricar objetos: copiar ou imprimir, reunir, classificar... E, com
necessária aí uma operação técnica . os produtos que multiplica, o colecionador se lorna um ator na
As origens de nossos Arquivos modernos já implicam, com cadeia de uma história por fazer (ou por refazer), de acordo com
efeito, a combinação de um grupo (os "eruditos"), de lugares (as as novas pertinências intelectuais e soc iais. Dessa maneira, a cole-
"bibliotecas") e de práticas (de cópia, de impressão, de comunica- ção, produzindo uma transformação dos instrumentos de traba-
ção, de classificação etc.). É, em pontilhados, a indicação de um lho, redistribui as coisas, redefine unidades de saber, instaura um
complexo técnico, inaugu rado no Ocidente com as "coleções': reu- lugar de recomeço, construindo uma "máquina gigantesca" (Pierre
nidas na Itália e, depois, na França, a partir do século XVI, e fi nan- Chaunu) que tornará possível uma outra história.
ciadas pelos grandes Mecenas para se apropriarem da história (os O erudito quer totalizar as inumeráveis "raridades" que as
Médicis, os duques de Milão, Carlos de Orleães e Luís XII etc.). trajetóri as indefinidas de sua curiosidade lhe trazem e, portanto,
Nelas se conjugam a criação de um novo trabalho ("colecionar"), a inventar linguagens que assegurem a compreensão delas. A julgá-
satisfação de novas necessidades (a justificação d e grupos familia- lo pela evolução de seu trabalho (passando por Peiresc e Kircher,
res e políticos recentes, graças à instauração de tradições, de cartas até Leibniz), o erudito se orienta, desde o final do século XVI, para
e de "d ireitos de propriedade" especificos), e a produção de no- a il1venção metódica de novos sistemas de signos, graças a proce-
vos objetos (os documentos que se isolam, conservam e recopiam) dimentos analíticos (decomposição, recomposição),S4 Ele está pos-
cujo sentido, de agora em diante, é definido pela sua relação com suído pelo sonho de uma taxonom ia totalizante e pela vontade de
o lodo (a coleção). Um a ciência que nasce ("a erudição" do século criar instrumentos universais adequados a essa paixão pelo exaus-
XVII) recebe com esses "estabelecimentos de fontes" - instituições tivo. Por intermédio da cifra, central nessa "arte do deciframento",
técnicas - sua base e suas regras. existem homologias entre a erudição e as matemáticas. Na verdade,
Inicialmente ligado à at ividade jurídica dos homens da pena à cifra, código destinado a construir uma "ordem': se opõe, então,
e da toga, advogados, funcionários, conservadores de arquivos,52 o símbolo: este ligado a um texto recebido, que remete a um sentido
o empreendimento se faz expansionista e conquistador depois de owlto na imagem (alegoria, brasão, emblema etc.), implica a neces-
passar pelas mãos dos especialistas. É produtor e reprodutor. Obe- sidade de um comentário autorizado da parte de quem é suficiente-

53 OU'\', Gilbt"rl. Les bibliothêques. In: L'Histoire et 51'S IIZctlJOdcs. Enc. Pléia-
51 Sob rssr ãngulo, os "documentos" históricos podrm ser assimilados aos de, 1961, p. 1066, sobre o acordo çoncluído entre Guillaume Fichrt r tr~s
"signos icónicos" de que Umberto Eco analisa a organização: des "repro- impressorrs alemães com a finalidade dI' fundar a oficina tipográfica da
duzem'; diz de. "algumas condições da prrcepção comum com basr nos Sorbonnr e substi tuir a cópia de documentos que G. Fichet assrgUfava, em
códigos percrptivos normais" (Sémiologir drs messages visuds. COIIIIIIII- parte ele mesmo, para a biblioteca do colégio da Sorbonne.
niwtiolls, nO 15, p. 11 -5 1. 1970). Digamos, nesta perspectiva, que existe 54 Para o erudito, srndo a sua "biblioteca» aquilo que t"le C01 IStill/; (e niio aqui-
trabalho cientifico onde existe mudança nos "códigos de reconhecimento" lo que reçebc, como será o caso, mais ta rdr, dos "conservadorrs" das Bi-
e nos "sistemas de rxpectação': bliotrcas criadas antes deles), ele parece ter continuidade nela, no terreno
52 Cf. ARI~S, Philippr. LI' temps de J'/ristoirr. Mónaco: t:d. du Rocher, 1954. da escritrl, entre a produção da colrção de textos e a produção de c/rlll'cs
p. 214 -2 18. destinadas a decodificá-las.

J
72 t\ Escrita li,l t-lbtóri,l • /l.lichc1 til- CC"rl c:!u Capitl1lo 11 • A Opaaçào Ili'loriogrMi<.:a 73

mente "sábiO" ou profundo para reconhecer esse scn tido. S5 Mas, do "estabelecimento das fontes" - quer dizer, por uma açflo instaura-
ponto de vista da cifra, desde as séries de "raridades" até as lingua- dora e por técnicas transformadoras.
gens artificiais ou un iversais - digamos de Peiresc a Leibniz -, se os Os procedimentos dessa instiluição suscitam hoje problemas
limiares c os desvios sào numerosos, inscrevem -se, entretanto, na mais fundamen tais do que os apontados por esses primeiros indí -
linha do desenvolvimento que instaura a cOlIstmçlio tle uma lingua- cios. Poi s cada práti ca histórica 5S n.io estabelece seu lugar senào
gem r, portanlo, a produção de técnicas c de objetos próprios. graças ao aparelho que C, ao mesmo tempo, a condição, o meio
O estabelecimento das fontes solicita, também, hoje, um ges- e o resultado de um deslocamento. Semelhantes às fábricas do
to fundador, representado. como ontem, pela combinação de um paleolítico, os Arquivos nacionais ou municipais constituem um
lugar, de um aparelho e de técnicas. Primeiro indício desse des- segmento do "aparelho" que, ontem, determinava as operações
locamento: não há trabalho que não tenha que utilizar de outra adequadas a um sistema de pesqu isa. Mas não se pode tentar mll -
mal/eira os recursos conhecidos e, por exemplo, mudar o funcio- dar a ulilização dos Arquivos sem que sua forma mude. A mesma
namento de arquivos definidos, até agora, por um uso religioso ou instituição técnica impede que sejam fornecida s respostas novas a
"familiar':S6 Da mesma forma, a título de novas pertinências, cons- questões diferentes. Na verdade, a situaçiio é inversa: outros "apa-
titu i como documentos utensílios, composições cu liná rias, cantos, relhos" permitem agora, .1 pesquisa, questões e respostas nov'1 5.
imagens populares, uma disposição dos terrenos, uma topografia Certamente, uma ideologia do "fato" histórico "real" ou "verda -
urbana etc. Não se trata apenas de fazer falar esses "imensos seto- deiro" pai ra ainda na atmosfe ra da época; prolifera mesmo numa
res adormecidos da documentação"5~ e d ar voz a um sile ncio, ou literatura sobre a hi stória. Mas é a folc\orização de prát icas anl igas:
efetividade a um possível. Significa transformar alguma coisa, que esta palawa congelada sobrevive a bata lhas finda s: ela apenas mos-
tinha sua posição e seu papel, em alguma Ol/tra coisa q ue funciona tra o atraso das "ideias" recebidas com relação às práticas que cedo
diferentemente. Da mesma forma não se pode chamar "pesquisa" ou tarde vão modificá-la s.
ao estudo que adota pura e sim plesmente as classificações do on - A transformação do "arqu ivístico" é o ponto de partida e a
tem que, por exemplo, "se atêm" aos li m ites propostos pela sé rie H condição de uma hislória nova. Está destinada a represen tar o
dos Arquivos e q ue, portanto, niio define um campo objetivo pró- mesmo papel que;l "máquina" erudita dos seculos XVII e XVII!.
prio. Um trabalho é "cientifico" quando opera lima retlislribuição Eu não usaria senão um exemplo: a intervenção do cOl1lp/ltatlor.
do espaço e consiste, primordialmente, em se dar um lugar, pelo François FureI demonstrou algu ns dos efeitos produzidos pela
"const it uição de novos arquivos, conservados em fitas perfuradas":
não h;í significante senão em função de uma serie, e mio com rela -
55 Cf. V. DAVID. Madeleine. 1.c Déb,,' mr Ics êerilurt'S cl /'Iliáogl)'plu: ,,!IX ção a uma "realidade"; não e objeto de pesquisa senão aqu ilo que
X.VI/c 1'1 X.Vl/le siecles. Se\·pcn. 1965. p. 19·30.
é formalmente construído, antes da programação elc. ~ Isso não é
56 Assim. no seu Guidl' d('$ iIr('hi\'Cs diQeé$llilJcs frolJ(lIiSCS (Centre d' Histoire
du Catholidsnll'. l)'on. 1971), jacques Gadil1e sublirna MO valor drstes ar-
ainda senão um elemento particular e quase um sintoma de uma
quivos para a pesquisa hist6rica- notando que des permitcm a constituição
de novas wsêries- prrdosas para uma história econÔmica ou uma história
das mcnt;llidades (op. ci!.. p. 7· 14). 58 f:. neccssário entrndtCr po r isso não os rnétodos p:Jrticulares a tal Oll qual
5i FURET, François. I~h i stoirc quantitative t't la construction du fait histo· histori ador. lllas como, nas ciências exatas. o (Olllple.I(Q tlc procedimentos
rique. In: lE GOI:!=, I.; NORA. I': FI/i/'C l/e flrisloin'. Galli mard, 1974. t. I. p. quc caracteri za um periodo ou um setor da pesquisa.
49. 59 FURET. E "L'historie quantitative."M Op. clt. p. 47 ..18.
74 A Escrita da História . " tichel de Cl'rl eau Capítulo 11 . ,\ Opcraç;io Hisloriogdfica 75

institu ição científica mais ampla. A análi se contemporânea altera pelo aparelho, e é lançada para a outra ext remidade, para o tempo
os procedimentos ligados â "análise simbólica" que prevaleceu a de ex ploração que os resultados obtidos expõem. Ela se cJabora em
partir do roma ntismo e que buscou recollllecer mil seI/tido dado função dos interditos que a máqu ina fixa, por objetos de pesqu isa a
e OCIII/o: ela reencon tra a confiança na abst ração que é hoje um co nstruir e, em fu nção daquilo que permite essa máqui na, por um
conjunto formal de relações a li "estrutura':6(l Sua prática consiste modo de tratar os produtos stalldard da informática. Mas essas
em COllstruir "modelos" propostos decisoriamenle, em "substituir duas ope rações se articulam necessariamcnte na instituição técn i-
o estudo do fenôme no concreto pelo estudo de um objeto consti- ca que insc revc cada pesquisa num "sistcma generaIi7.ado".
tuído por sua definição", em julgar O valor científico desse objeto As bibliotecas de ontem exerciam, também , a fu nção de "co-
segundo o "ca mpo de questões" a que permite responder e segu n- locar" a erudição dentro de um sistema de pesqu isa. Mas tratava -se
do as respostas que fornec e, em "fixar os limites da significabilida- de um sistema regionaL Também os "mome ntos" cpistemológicos
de deste modelo".61 (conceituação, documentação, tratamento ou interpretação), hoje
Esse último ponto é capital em história. Pois, se é verdade distintos no interior de um sistema gene ra lizado, pod iam estar ex-
que de um modo geral a aná lise cie ntífica contemporânea preten - tremamente misturados no sistema regional da erudição antiga. O
de recol/s/ruir o objeto a partir de "s imu lacros" ou de "cená rios': estabelecimento das fontes (pela mediaç;io de seu ap,uelho atual)
quer dizer, adquirir, com os modelos relacionais e as linguagens não provoca apenas uma nova repa rtiç;io das relações razãolreal
(ou metalinguagen s) que ela produz, o meio de mult iplicar ou de Oll cultura/ natu reza; ele é o pri ncípio de uma redistribuição epis-

transformar sistemas con stituídos (físicos, literários ali biológi - temológica dos momentos da pesquisa científica.
cos) , a h istória tende a evidencia r os "limites da significabil idade" No séc ulo XV II, a biblioteca Colbertina - ou suas homólo-
desses modelos ou dessas linguagens: reencontra, sob essa forma gas - era o po nto de encont ro onde se elaboravam, em comum, as
de limi/e relativo a modelos, aquilo que ontem aparecia como um regras próprias da erudição. Uma ciência se desenvolvia em tor-
passado relativo a uma epistemologia da origem ou do fim. Sob no desse aparelho, que permanece o lugar onde circu lam, ao qual
esse aspecto ela parece fiel ao seu propósito fundamen tal, que sem remetem e se submetem os pesquisadores. "Ir aos Arquivos" é o
dltvida conti nua por defini r, mas do q ual se pode dizer, desde já, enunciado de uma lei tác ita da história. Nesse lugar centra l uma
que se liga simultaneamente ao real e à morte. outra institu ição está sendo substi tu ída. Ela também impôe uma lei
A especificação de seu papel não é determ inada pelo próprio à prática , mas uma lei diferente. Devemos, igualmente, considerar
aparelho (o computador, por exemplo) q ue coloca a história no primeiro a instituição técnica que, como um momento, o rganiza o
conjunto das imposições e das possibilidades nascidas da institui - lugar onde ci rcula de agora em diante a pesquisa cient ífica , antes
ção científica presente. A elucidação do que é próprio da história de analisar mais de perto as trajetórias operacionais que a h istória
está descentrada com relação a esse aparelho: ela refl ui para o tem - esboça nesse espaço novo.
po preparatório de programação, que torna necessária a passagem
Fazer surgir difere/lças: do modelo ao desvio
A ut ilização das técnicas atuais de informação leva o historia-
60 Cf., a esse res peito, as rcncxões agudas de i\'liçhc1 Serres, Hermes ol/lil COI/I -
dor a separar aqu ilo que, em seu traba lho, até hoje esteve li gado:
I/Ilmjwlioll.l!d. de Minuil, 1968. p. 26·35.
61 Ri:GN IER, ,\ndré. Malhémalise rl es sciences de 1'I'lomme? In: RICHARD,
a cOl/s/rllção de objetos de pesquisa e, portanto, das unidades de
p,; JAU Ll N, R. Alllhropologie ct caleul, co1l. 10/18, 19i I, p. 13-3i. compreensão; a acumulação dos "dados" (informação secu ndária,
76 A Escrita da História . I\ lichd de Certeau
Capítulo 11 • A Operação Historiográiic;J 77
ou material refinado) e sua arrumação em lugares onde possam
ser classificados e deslocados;62 a exploração é viabilizada através emprego sistemático faz aparecer e, por outro lado, a capacidade
das diversas operações de que esse material é suscetível. de transformar esses limites em problemas tec nicamente tratáveis.
Nessa linha o trabalho teórico se desempenha, propriamente Esses dois aspectos são, aliás, coordenados, pois, se a diferença é
fa lando, na relação entre os polos ex tremos da operação inteira: mallifestada graças à extensão rigorosa dos modelos constfll ídos,
po r um lado, a construção dos modelos; por outro lado, a atri- ela é significaI/te graças à relação que mantém com eles a título
buição de uma significabilid ade aos resultados obtidos ao fina l de desvio - e é assim que leva a um retorno aos modelos para
das combi nações informáticas. A forma ma is visível dessa relação corrigi -los. Poder-se-ia dizer q ue a formalização da pesquisa tem,
consiste, fi nalmente, em tornar pertinentes diferenças adequadas precisamente, por objetivo produzir "erros" - insuficiênc ias, fal has
às unidades formais precedentemente construídas; em descobrir o - cientificamente utilizáveis.
heterogellco que seja tecnicamen te utilizável. A " interpretação" an - Esse procedimento parece inverter a história tal como se pra-
tiga se torna, em função do material produzido pela constituição ticava no passado. Part ia-se de vestígios (manuscritos, peças raras
de séries e de suas combinações, a evidenciação dos desvios relati- etc.) em número limitado e tratava-se de apagar toda a sua diver-
vos quanlo aos modelos. sidade, de unificá-la em uma compreensão coerente.&! Porém, o
Sem dúvida, esse esquema permanece abstrato. Muitos estu- valor dessa total iz.."lção indutiva dependia, então, da quantidade de
dos atuais tornam mais passíveis de apreensão o seu movimento e informações acumuladas. Vacilava quando sua base documental era
o seu sentido. Por exemplo, a anáJise histórica não tem como resul - comprometida pelas colheitas relatadas por novas investigações. A
tado essencial uma relação quantitativa da altura e da alfabetiza- pesqu isa - e seu protótipo, a tese - tendia a prolongar indefinida -
Ç;IO entre os recrutas de 18 19 a 1826, nem mesmo a demonstração mente o tempo da informação, com o fim de retardar o momento
de uma sobrevivência do Antigo Regime na França pós- revolu- fata!, quando elementos desconhecidos viriam minar suas bases.
cionária, mas as coincidências imprevistas, as incoerências ou as Frequentemente monstruoso, desenvolvimento quantitativo da
°
ignorâncias qu e essa investigação fez aparecer. 6J O importante n;1O caça aos documentos terminou por introduzir no próprio trabalho,
é a combinação de séries, obtida graças a um isolamento prévio de tornado intermi nável, a lei que destinava à caducidade assim que
°
traços significantes, de acordo com modelos pré-concebidos, mas, terminado. Um limiar foi ultrapassado, além do qual essa situação se
por um lado, a relação entre esses modelos e os limites que seu inverte, passa-se a mudanças incessantes de modelos.
Com efeito, o estudo se estabelece hoje de imediato sobre
unidades definidas por ele mesmo, na medida em que se torna
62 Na medida em que está ligada ao uso do compllllldor, a informática oro e deve tornar-se capaz de fixar a priori objetos, níveis e taxono-
ganiza, enlre ~en1radasw e "saídas': a arrumação dr símbolos cm lugares mias de análise. A coerênc ia é iniciaL A quantidade de informação
reservados n:! memória. e sua transfer~ncia para endereços convenientes,
tratável em fun ção dessas normas tornou-se, com o computador,
segundo as instruções progralllâ\"eis. Ela regula as colocações e os desloca.
mentos num espaço dr informação que n:io deixa de ler analogia com as indefinida. A pesqu isa muda defrollt. Apoiando-se nas totalidades
bibliotecas de ontem.
K
63 LADURIE. E. Lc Ro)'; DUi\'IÜ NT, P. Quantitatil'e and C:!rlographical Ex. 64 Na vrrdade. a Msintese não rra lerminal, ela se elaborava 110 decurso da
ploitation of French Militar)' i\rchil'es, 1819- 1826. Dllrd(Ilrl$. p. 397.441, manipulação dos documentos. Ela t:!lllbém. finalmente, já se referia a um
prima\·era 1971; cf. LADURIE. E. te Ro)'-le Terriloire (Ie Cliisloirrtl. Galli. desvio com relação às ideias preconcebidas que a prática dos lextos rc-
ma rd, 1973. p. 38.87. \"elava C desloc3\'a 30 longo de operações e que é nelas fixadas por uma
disciplina instilllcional.
78 A Escrita da História . r-.lichcl de Certeau Capitulo I[ • A Operação Historiogr:ífica 79
I fo rmais, propostas decisoriamente, ela se volta para os desvios que esquecido dos camponeses,69 a Ocitãn ia7o etc., todas elas zonas
as combinações lógicas das séries revelam. Joga com os limites. silenc iosas.
Para retornar um vocabulârio antigo, que não mais cor responde Esses novos objetos de estudo atestam um movimento que
à sua nova trajetória, poder-se-ia dizer que ela não mai s parte de se esboça, já há vários anos, nas estratégias da história. Assim,
"raridades" (restos do passado) para chegar a uma síntese (com- Fernand Braudel mostrou como os estudos das "áreas culturais"
preensão presente), mas que parte de uma formalização (um sis- têm como vantagem situar-se, de agora em diante, nos lugares de
tema presente) para dar lugar aos "restos" (ind ícios de limites e, trânsito, onde são detectávei s os fenômenos de "fronteira", de "em-
portanto, de um passado que é produto do trabalho). préstimo" ou de "recusa".71 O interesse científico desses trabalhos
Esse movimento é, sem dúvida, precipitado pelo emprego se prende à relação que eles mantêm com as totalidades propostas
dos computadores. Ele o precedeu - da mesma forma que uma ou supostas - "u ma coerência no espaço", "uma permanência no
organização técnica precedeu o computador, que é um sintoma tempo" -, e com as correções que permitem lhes aduzir. Sem dú-
;\ mais dela. Com efeito, é preciso constata r um fe nômeno estra- vida, é necessário encarar dessa perspectiva muitas das pesquisas
nho na hi storiografia co ntemporánea. O historiador não é mais o atuais. A própria biografia assume o papel de uma distáncia e de
homem capaz de constituir um império. Não visa mais ao paraí- uma margem proporcionadas às construçôes globais. A pesquisa
so de uma h istória global . Ci rcula em torno das racionalizações se dá objetos que têm a forma de sua prática: eles lhe fornecem o
adq uiridas. Trabalha nas margens. Deste ponto de vista, se trans- meio de fazer aparecer diferenças relativas às continuidades ou às
fo rm a num vagabundo. Numa soc iedade devotada à genera li za- unidades das quais parte a análise.
ção, dotada de poderosos meios centralizados. ele se dirige pa ra
as Marcas das grandes regiões exploradas. "Faz um desvio" para o trabalho sobre o limite
a feitiçaria ,6s a 10ucura,66 a festa,67 a literatura popular,68 o mundo Essa estratégia da prática histórica prepara-a para uma teo-
rização mais de acordo com as possibilidades oferecidas pelas
ciências da informaçào. Parece que ela especifica, cada vez. mais,
65 Cf. MANDROU, Robert. Magislrals 1'1 sorciers 1'111 "ral1ce 1111 XVIII' sitcll',
Plon, 1968, e a abundan te liter:ltum histórica sobre o assun to.
não apenas os métodos, mas a função da história no conjunto das
66 Sobretudo a partir de FOUCAU LT, r-,·Iichel. HiSloiu de I" Folie ti liigl' c/as- ciências atuais. Com efeito. seus métodos não mais consistem em
siq w~. Plon, 1961, rced. Gallimard, 1972. buscar objetos "autênticos" para o conhecimento; seu papel soc ial
67 Cf. em particular OZOUF, r-,·[ona. OI' Thermidor à Ilrumaire: les discours
de la Ré\"olution sur ele·rnême, in; A/I sii!çlc I/es Llllllii:rt.'S. Sevpen, 1970, p.
157-187, e LeCortege et 1:1 villc. Les itinéraires parisiens dl's fêtes rcvolu- 69 Sobre os camponeses, cf.. antes de tudo, todas as publicações de E. LI' Ro)'
tionaires, in AIII/all's E. S. C , XXVI, p. 889-916, 197 1. Ladurie, 01'. dI. Sobre os pobres, os trabalhos M jacqllrs 1.1' Goff 1', há de z
68 Cf. OHARUE, Paul, 1.1' Cou/e populairc frmlfuis, 1957; MANORO U, Ro- anos, as Recherches su r les paul'rrs etla pau\"rcté au "'Ioyrn Ãge, dirigidas
bert, OI' [;1 culture populairl' en Francl' aux XVlle et XVIIII' si~cles, Stock, por Michel Molla!.
1964; BOLL~ME, Gene\'iew, Lcs Alnllmacl,s popl/laius //lU: XVlleel XVl/Ie 70 Cf. I.AFON·I: Robert, RClla issullcel/rl SI/d. Gallimard, 1970etc., c também
sicc/es, r-.loUlon. 1969; :-'·Iaril'-I.ouise TEN~ZE, Introduction ;\ I~tlldc dr [a LA RZAC, André, Oécolonise r I'histoire occitane. I.cs TClllps 1II0t!erncs, p.
littératureorale: 11' contr, in: Amlales E. S. C, XXIV, 1969, p. 1.104 - ].120, 676·696, novembro 197 1.
para não falar dos trabalhos mais ~li t rr:iriosM de Mare Soria/lo (Les COII/es 71 L'histoirr des civilisations: le passê ex plique le présen t, um dos estudos me-
de Pemmlt, Gallima rd, 1968) ou dr Mikhail I\akhlinc (wwvre de r: R(lbe- todológicos mais importantl's de Fl'rnand Ikaudel, retomado em I:crils SI/r
lais ct 11/ Cltlt/lft popl/lllire... Gallimard, 1970) etc. /"Ir/stviu, Flammarion, 1969, p. 255-3 14 (ver prindp.. lmente p. 292-296).
80 A Escrita da História . l\1ichel de Certeau Capitulo II • A Operação IlistoriogrMica 81

não é mais (exceto na literatura especu lar, dita de vulgariz.'ção) lhe excepciollal. Dito de outra maneira, esse retorno aos fatos não
o de prover a sociedade de representações globa is de sua gênese. pode ser arrolado numa c;l mpanha contra o monstro do "estrutu-
A história não mais ocupa, como no sécu lo XIX, esse lugar CCII - ral ismo': nem pode ser posto a serviço de uma regressão às ideo -
tml, organizado por lima epistemologia que, perdendo a realidade logias ou às práticas anteriores. Pelo contrário, ele se inscreve na
como substância ontológica, buscou reencontrá- Ia como força his- linha de análise estrutura!, mas como um desenvolvimento. Pois o
tórica, Zeitgcist, e escondendo-se na interioridade do corpo social. fato de que se trata, de agora em diante, não é aquele que oferece
Ela não tem mais a fu nção totalizante que consistia em substituir a ao saber observador a emergência de uma realidade. Combinado
filosofia no seu papel de expressar o sentido. com um modelo construido, ele tem a for ma de uma diferença. O
Intervém à maneira de uma experimentação crítica dos mode- historiador não está, pois, colocado diante da alternat iva de a bolsa
los sociológicos, econômicos, psicológicos ou culturais. Diz-se que ou a vida - a lei ou o fato (dois conceitos que, aliás, desaparecem
utiliza um "instrumental emprestado" (P. Vilar). ê ve rdade. Mais da epistemologia contemporânea7J ) . De seus próprios modelos ele
precisamente, testa esse instrumental através de sua transferência obtém a capacidade de fazer aparecer os desvios. Se, durante algum
para terrenos di fe rentes, da mesma forma que se testa um carro tem po, ele esperou lima "totalização",74 e acreditou poder reconci-
esporte, fazendo -o funcionar em pistas de corrid a, em velocida - liar diversos sistemas de interpretação, de modo a cobrir toda a sua
des e condições que excedam suas normas. A história se torna UI11 informação, agora ele se interessa prioritariamente pelas man ifes -
lugar de "controle" onde se exerce uma "função de falsificação". 7l tações complexas dessas diferenças. Desse ponto de vista, o lugar
Nela podem ser evidenciados os limites de significabilidade relati - onde ele se estabelece pode ainda, po r analogia, trazer o venerável
vos aos "modelos" que são "experimen tados': um de cada vez, pela nome de "fa to": o fato é a d iferença.
história, em campos estranhos ao de sua elaboração. Da mesma forma, a relação com o real se torna uma relação
A título de exemplo, esse funcionamento pode ser assinalado entre os termos de uma operação; Fcrnand Braudel já dava uma
em dois dos seus momentos essenciais: um visa ;\ relação com o
real através do fato histórico; o outro, o uso dos "mode/os" recebi-
dos e, portanto, a relação da história com uma razão contempo- 73 AdOlando uma concepção prescrita das ciências e ~atas r a física é um cor-
po de lei s~ escreve ele), P. Ve yne lhe opõe uma história qu e seria "um corpo
rânea. Dizem respeito, além disso, um à organ ização interna dos n
de (atos (Commellf 011 rcrit /'Iris/oire.• op. d I. p. 21 -22).
procedimentos h istóricos; o outro à sua articulação com campos 7'1 Depois que Henri Serr combinou, na sua concepção de história, o método
cientificos diferentes. comparativo, o primado do "social" eo "gosto permanente d as idcias gerais':
I. Os fatos encontraram seu campeão, Paul Veyne, maravi- essa "totalização" representou mais UIll ret orno ao espírito de silltese e uma
lhoso decapitador de abstrações. Como é normal, ele carrega a reação contra a dispersão erudita da "história atomista" do que a pretensão
de instaurar Ulll discurso histórico universal. Após ~huss, Durkheim, Vi-
bandeira de um movimento que o precedeu. Não apenas porque
dai de La Blache, ela tende a faze r prevalecer a idcia de org{wizaç{io sobre
cada verdadeiro historiador permanece um poeta do detalhe e <I ideia de fato ou de a CO llleÔmí'II/O. Cf. t.'iANN. H. D.; FEBVRE, Lucien.
brinca sem cessar, C0l110 o esteta , com as mil harmon ias que uma op. cit., p. 73·92. Em 'rhéorie el pratique de I'histoire (i n: RCVllf Historiljlle,
peça rara desperta nllma rede de conhecimentos, mas sobretudo LXXXIX, p. 139- 170, (965), Hcn ri-Irénée Marrou retoma a ideia de uma
porque os formalismos dão, hoje, uma pertinência nova ao deta- "histó ria gerar que resiste à espedaIi1..a ç;io dos métodos e li dÍ\'ersitic<lç;io
das cron ologias segundo os níveis: ele deseja uma "história total. que se es-
(orçaria por apreender, na sua complexidade. a meada embaraçada destas
72 Cf. srlpra , p. 57, n. 8. histó rias particulari.'s" (oI'. cil. , p. (69).
82 A Escri ta da História . J\Iichd de Certeau Capitulo I1 • A Operação Hisloriografica 83

significação bem funcional à análise dos fenômenos de frontei- citar esse pri ncípio. A propósito dos trabalhos de J. Marczewski e
ra. Os objetos que propunha à pesquisa eram determinados em de J. C. Toutain, ele mostrou os erros aos quais conduziria a "apli -
função de uma operação a em preender (e não de uma realidade a cação" sistemática de nossos conceitos e de nossos modelos eco-
obter) e com relação a modelos existcntes.'s Resultado desse em- nômicos contemporâneos ao Anti go Regime. Porém O problema
preendimento, o "fato" é a designação de uma relação. O aCOlHe- era mais amplo. Para Marczewski, o cconom ista se caracteriza pela
cimento também pode reencontrar, desse modo, sua definição de "construção de um sistema de referências", e o historiador é aquele
ser um corte. Na verdade, ele não corla mais a espessura de uma que "se serve da teoria econômica". Isso é colocar uma problemática
realidade cujo solo será visível através de uma transparência da que faz de uma ciência o instrumento de outra e que pode se inver-
linguagem Oll chegará por fragmentos à superfície do nosso sa- ter cont inuamente: afinal, quem "utiliza" quem? P. Vilar destruiu
ber. t inteiramente relativo a uma combinatória de séries racio- tal concepção. Do seu ponto de vista, a história tinha como tarefa
nalmente isoladas, passo a passo, cujos cruzamentos, condições e analisar as "condições" nas quais esses modelos são válidos e, po r
limites de validade serve para marcar?' exemplo, tornar precisos os "limites exatos das possibilidades" de
2. Isso já implica lima manei ra "histórica" de reempregar os lima "econometria retrospectiva". Manifesta um heterogêneo relati-
modelos tirados de outras ciências e de sit uar, com relação a elas, vo aos co njuntos Iwmogcneos co nstituídos por cada disciplina. Ela
uma fun ção da história. Um estudo de Pierre Vilar permite cxpli - também poderá relacionar uns com os outros os limites próprios
de cada sistema ou "n ível" de análise (econômica, social etc.).n As-
sim , a história se torna lima "auxiliar': segundo uma palavra de
75 O objeto de estudo tem, em Fernand Brnudel, o significado de ser uma Pierre ChaU I1lI .78 Não que esteja "a serviço" da economia, mas a
Mpedrn de toque~, uma operação tática relativa a uma situação da pesquisa e
relação que ela mantém com diversas ciências lhe permite exercer,
proporcionada a uma ~definição~ (da Civilização) colocada, ela mesma, não
como li majs vi.'rdadeira, mas como ~a mais fácil de mmrejnr para prosseguir com referência a cada uma delas, uma função crítica necessária , e
H
da melhor maneira nosso trabalho (laits sur /,hjsloirc, op. cit., p. 288-294; lhe sugere também o propósito de articular em conjunto os limites
o grifo é meu). evidenciados dessa maneira.
76 Parece· me que, a propósito de Paul Bois (Les PII)'smrs de /'Ouesl, MoulOI1, A mesma complementa ridade se encontra em outros setores.
1960; ed. de bolso, Flammarion, 1971), E. Le Ror Ladude coloca um pro·
Em urbanismo a história poderia "fazer, através da diferença, :Ipre-
blema bem próximo daquilo que ele chama a história "factual-estruturnl"·
( ~vénement et longue durée dans l'histoire socia1e: Ihemplc chouan, in: Le
ender a especificidade do espaço que temos o direito de exigi r dos
Territoire d..' /'1J;Slor;el!, Gallimard, 1973, p. 169- 186). I\las aqui o aconteci· administradores atuais"; permitir "uma crítica radical dos concei-
mento me parece, ao Illesmo tempo, co mo a queslllo COIOClldl1 pclll relafllo tos operatórios do urbanismo"; e, inversamente, com relação aos
entre dua s séries mais rigorosamente isoladas (a infraeslrutu ra econômica modelos de uma nova organização espacial, dar conta de resis-
da Sarthe e a estrutura mental que dl\'ide o pais em doi s campos poHlicos),
tências sociais pela análise de "estruturas profundas de evolução
e como o meio de responder IIrl;(IIllIIlIlo ·/I$ (para que entre elas a relação
mude, deve ler acontecido alguma coisa). Sob a forma do Mmomento~ 1790-
1799, ele serve para dcs;S'lIIr uma diferença na sua relação. O recorte mais
SiSteflll\lico das duas séries tem, em Ilois, um duplo efei to. Por um lado, o 7i VIlAR, Pierre. Pour une meilleure com prchcnsion entre rconolllistes et
de "faur aparecer" (como questão) uma diferença de relação, e, por outro historicns. Rfvue Histor;que, CCXXX III. p. 293-3 12,1965.
lado, O de fixar, para este cruzamento, o lugar daquele que, no discurso, tem 7S CHAUNU, Pierre. Histoi re quantitati\'e el histoire séricllc. Cahicrs Vilfmlo
a figura histórica do acontecimento. PaU/O, Genebra, Droz, 3, p. 165-175, \964, ou H;stoire sâeuce SOcilll~, Se·
• NT - "el'éllemr"';lIlo·struc/uflllf~. des, 197'1, p.6 1.
84 A Escrita da História. ;'I'lichel de CerteJu Ca pitulo II • A Operação Histor~ográfic;\ 85

lenta':w Uma tática do desvio especificaria a intervenção da histó- Criou , assim, laboratórios de experimentação epistemológica. l !
ria. Por sua vez, a epistemologia das ciências parte de uma teoria Na verdade, não pode dar uma forma objetiva a esses exa mes, a
presente (na biologia, por exemplo) e reencontra a história sob não ser combinando os modelos com out ros setores da sua docu-
forma daquilo que lIão era esclarecido, ou pensado, ou articulado mentação sobre uma sociedade. Dai o seu paradoxo: ele aciona as
outrora. 1IO O passado surgiu ali, inicialmente, como o "ausente': O formalizações científicas que adota para experimentá-las, com os
entendimento da história está ligado à capacidade de organizar as objetos Jl(io ciel1tíficos com os qua is prat ica essa experiênci;l. A his-
diferenças ou as ausências pertillellles e hierarquizáveis porque re- tória não deixou de manter a função que exerceu durante sécu los
lativas às formalizações científicas atuais. por "razões" bem diferentes e que convém a cada uma das ciências
Uma observação de Georges Canguilhem sobre a hi stória das constituidas: a de ser uma critica.
ciências' l pode ser general izada e dar a essa posição de '"'auxiliar"
todo o se u alcance. Efetivamente, a história parece ter um objeto Crítica e história
flutuante cuja determinação se prende menos a uma decisão au - Esse trabalho sobre o lim ite poderia ser observado alhures,
tônoma do que ao seu ill/eresse e à sua imporlância para as outras e não apenas onde recorre aos "fatos" históricos ou tratamento
ciências. Um interesse científico "exterior" à história define os ob- de "modelos" teóricos. Desde já, entretanto, aceitas, essaS poucas
jetos que ela se dá e os objetos para onde se desloca sucessivamen - indicações nos orientam para uma definição da pesquisa inteira.
te, segundo os campos mais decisivos (sociológico, econômico, A cstratégia da prática histórica implica um estatuto da história.
demográfico, cultural, psicanalítico etc) e conforme as problemá- Ninguém se espanlará com o fato de que a natureza de uma ciência
ticas que os organizam. Mas O historiador assume esse interesse seja o postulado a exumar dos seus proced imcntos efetivos, e que
como uma tarefa própria no conjunto mais amplo da Pesquisa. este seja o único meio de torná-los precisos. Na falia do que, cada
disciplina seria identificável com uma essência, do que se presu -
miria que ela se coloca em seus avatares técnicos sucessivos, que
ela sobrevive (não se sabe onde) a cada um deles, e que tem com a
79 C HOAY, F. LHistoireet la méthodl.'em urbanisme. Op. cit., p. 1.15 1-1. 153
(os grifos são meus). Como sugere, por sua vez, ALEXANDElt Christo-
prática apenas uma relação acidenlal.
pher (De la syllllJese lte la forme, OUllod, 197 1, p. 6-9), é, precisa mente, gra· O breve exame da sua prática parece permitir um;l particula -
ças a uma explicitação lógica, ã conslr!ll;ão atual de ~cstruturas de conjun. rização de Irês aspectos conexos da história: a mutação do "senli -
H
tos~, c, portanto. a uma ~pcrda de Sua inocência intuitiva, qu e o urbaniSl3 do" ou do "real" na produção de desvios significmivos; a posição do
de scobre urna pertinência nas diferenças históricas - seja para se distinguir
de concelH;ôes pass.adas, seja pJra relath'izar as SU3S, seja para articulá-las
em situações com plexas que resistem ao rigor de um modelo teórico. 82 ~ A fie/d oftpiSlcmological fllquiryH, escrevi' LEFT, Gordon (Nis/ory Ilnd So-
80 Assim, r.,·lichel Foucau1t: ~Até o final do século XVI II, a vid3 não cxist\!, ciai "flreory, University of Alabama Press, 1969, p. t ). Um exemplo típico,
existem apenas seres Vil'OSH (Les mo/s c/les choses, Gal1imard, t 966, p. 173), e, se m duvida, excessivamente metodológico, é o estudo origin31 de l\k
ou François Jacob sobre ~A inexisténcia da ideia de vi da~ alé o inicio do LEISH, John (Evange/iml Rcligioll fl/ull'opular Edu(iltioll, Londres: :.ole-
século XIX (Ln logiqJle du l'il'lll1/, Gal1imard, 1970, p. 103): um exemplo thuen, 1969), que ~expe rimentaH, s ucessiv~mente, diversas leo ri3s (l'.·larx,
entre mil. Malínowski, Freud, Parsons): ele f3z do problema histórico (as camp3nhas
81 CANGUI LI-I EM. G. l/mies d'his/oire rI ele philosoplJie eles sôrnces. Vrin, escolares de Griffi th Jon es e de I-I an nah More no século XVI II) a CIlsc-swdy
t968, p. 18. Cf. as obscr\'3ções de FIC HANT, Michel. Sur i'hiSloire des melhod (op. Cil., p. 165), o meio de verificar a validade dos limites próprios
sdences. Maspero, 1969. p. 55. a c3da uma dessas teorias.
86 A Escrita da História . l\lichel de Cl"r!eau Capitulo 11 . A O)X'ração Historiogr.ifica 87

particular como limite do pellsfÍvel; a composição de um lugar que dos. O conhec imento hi stórico fez su rgir não um sentido, mas as
inslaura no presente a jigumçiío alllbivalellfe do passado e do futuro. exceções que a aplicação de modelos econômicos, demográficos ou
I. O primeiro aspeclo supõe uma mudança completa do sociológicos faz aparecer em diversas regiões da documentação. O
conhecimento hislórico desde há um século. Há cem anos esse trabalho consiste em produzir algo de lIegativo que seja, ao mesmo
conhecimento representava uma sociedade à maneira de uma tempo, significa/iVO. Ele é especializ'ldo na fabricaç~\O das tliferclI-
meditação-compilação de todo o seu devir. ~ verdade que a his- ças per/i1lentes que permitem "criar" um rigor maior nas progra-
tória era fragmentada numa pluralidade de histórias (biológicas, mações e na sua exploração sistemát ica.
cconômicas.linguíslicas etc.).u Mas, entre essas positividades des- Próximo desse primeiro aspecto. o segundo refere-se ao ele-
pedaçadas, como entre os ciclos diferenciados que a caracleriza- mento do qual se fez, com r:lzão, a especi:llidade da história: o par-
vam, a cada uma, o conhecimento histórico restabelecia o Meslllo tiCldar (que G. R. Elton distingue, com justeza, do "individual"). Se
pela sua relação comum com uma evoluçiío. Esta recosturava, pois, é verdade que o particular espec ific a ao mesmo tempo a atenção
descontinuidades. percorrendo-as como as figura s sucessivas ou c a pesquisa históricas, isso não ocorre por se tratar de um objeto
coexistentes de um mesmo seI/tido (quer dizer, de uma orientação) pensado, mas, pelo cont rário, por estar no /imite do pensáve/. Não
e manifestando num texto mais ou menos teleológico a unicidade é possível ser pensado se não for universal.
interior de uma direção ou de um devir. S4 2. O historiador se instala na fronteira onde a lei de uma
Atualmente, o conhecimento histórico é julgado mais por sua inteligibilidade encontra seu limite como aquilo que deve inces-
capacidade de medir exatamente os desvios - não apenas quanti- santemente ultrapassar, deslocando-se, e aquilo que não deixa de
tativos (curvas de população. de salários ou de publicações) , mas encontrar sob outras formas. Se a "compreensão" histórica não se
quali tativos (diferenças estruturais) - com relação às construções fecha na tautologia da lenda ou se refugia no ideológico, terá como
forma is presentcs. Em outros termos, conclui com aquilo que era característica, não primordialmente, tornar pensáveis sêrics de da-
a forma do i/lcipit nos relatos h istóricos antigos: "Outrora não era dos triados (ainda que isso seja a sua "base"), mas lliío renl/nciar
como hoje". Cultivada metodicamente. essa distância ("não era ...") mmca à relaçfio que essas "regularidades" IIIm/têlll com ''partiCli/a -
tornou -se o resultado da pesquisa, em lugar de ser seu postulado e ridades" que lhe escapam. O detalhe biográfico, uma toponímia
sua questão. Da mesma forma por hipótese, o "sentido" é elimina - aberrante, uma baixa local de salários etc,. todas essas forma s de
do dos campos científicos ao mesmo tempo que eles são constituí- exceção simbolizadas pela importância do nomc próprio em his-
tória renovam a tensão entre os sistemas explicativos e o "isso"
ainda inexpl icado. E designar isso como um "falo" não é senão um
83 Cf. as reOexõcs análogas de FOUCAU I.T, Michel, ML Hi stoire~ (in: f..es mOf$ modo de nomear o incompreendido; é um Meillcn c não um Vcrs-
el /l"S clroses, op. cit., p. 378·385) sobre o laço entre a dellluhiplicação da tel,CII. Mas é lambém manter como necessário aquilo que é ainda
História em histórias positivas particulares (da natureza, da riqueza ou impensado.Bs
da linguagem) l" sua condição comum de possibilidadl" - a historicidade ou
a finitude do homem). Sem dúvida é preciso ligar a essa experiência o pragmatismo
84 Há muito tempo, historiadores e teóricos americanos manifestam suas re· que vela em cada historiador, e que o leva tão nipido a expor a te-
ticências diantl" do uso " perigoso~ das noções de Merllliug ou Significrmce
em história. Cf. GARDINER, Patrkk. 711cories oi Nistor)'. New York: 'Ihe
Frl"l" I'ress (1959), 1967, p. 7-8; DANTO, Anhur C. AIZII/)'/;((/I Philosoph)' oi 85 Cf. CERTEAU, M. de. üllIsenl fie /'Ms/o;ri'. Mame, co1. MScie nces humaincs,
Nistor)'. Cambridge Universit)' I)ress, 1965, p. 7·9 etc. idéologil"S~ 1973, principalmente p. 171 55., MA ltér.ltions':
88 A Escrita da Histó ri a . ,\ lic hcl de Ccrteau Capilulo 11 • t\ Ope ração Historiográfica 89
=

aria ao ridículo. Mas seria ilusório acreditar que a si mples menção Mas, por outro lado, a imagem do passado man tém o seu va-
"é um fato" ou que o "aconteceu" equivale a uma compreensão. A lor primeiro de representar aquilo quc falta. Com um material que,
crônica ou a erudição que se contenta com adicionar partkll l ari~ para se r objetivo, está necessariamente aí, mas é conotativo de um
dades apenas ignora a lei que a orga niza. Esse discurso, lal como passado na medida em que, inicialmente, remete a uma ausência
o da hagiografia ou das "c rônicas~86 não faz senão ilustrar com mil e introduz também a falta de um futuro. Um grupo, sabe- se. não
variantes as antinomias gerais próprias a uma retórica do excep- pode ex primir o que tem diante de si - o que ainda falta - se não
cionaL Cai na sensaboria da repetição. Na verdade. a particulari- por uma redistribuição do seu passado. Também a hi stória é sem -
dade tem por atribu ição desempenhar sobre o fu ndo de uma for- pre ambivalente: o lugar que ela desti na ao passado é igualmente
malização explícita; por função, introduzir al i lima interrogação; um modo de dar lllgar a 11111 futllro. Da mesma maneira que vacila
por significação, remeter aos atos, pessoas e a tudo que perma nece entre o exotismo e a crítica, a título de uma encenação do outro,
ainda exterior ao saber assim como ao discurso. osci la entre o conservadorismo e o utopi smo. por sua função de
3. O lugar que a história criou, combinando o modelo com os significar uma falta. Sob essas formas ex tremas, torna-se. no pri -
seus desvios, ou agindo na fron teira da regularidade, representa um meiro caso, legendária ou polêmica; no segundo. reacionária ou
terceiro aspecto de sua definição. Mais importante que a referência revolucionária . Mas esses excessos não poderiam fazer esquecer
ao passado é a sua in trodução sob a forma de uma distância toma - aquilo que est;i inscrito na sua prática mai s rigorosa, a de simbo-
da. Uma falha se insinua na coerência científica de um prcsente, e lizar o limite e através disso tomar possível IIlIIa ultrapassagem. O
como poderia ela sê-lo, efetivamente, senão por alguma coisa de velho slogan das "lições da história" reto ma algum significado, des-
objetivável, o passado, que tem por função significar a alteridade? sa perspectiva , se, deixando de lado uma ideologia de herdeiros,
Mesmo se a etnologia substitui , parcialmente, a história nessa tarefa identificarmos a "moral da hi stória" com esse interstício criado na
de instaurar uma encenação do Olltro, no presente - razão pela qual atualidade pela representação de d iferenças.
essas duas d isciplinas mantêm relações tão estreitas -, o passado é,
inicialmente, o meio de represwtar IIl11a diferença. A operação h is- 111. UMA ESCR ITA
tórica consiste em recortar o dado segundo uma lei presente, que
A representação - mise-cn-scClle literária - não é "histórica"
se distingue do seu "outro" (passado), distanciando-se com relação
senão quando articulada com u m lugar social da operação cient i-
a uma situação adquirida e marcando, assim, por um discurso, a
mudança efetiva que permitiu esse distanciamento. fica c quando institucional e tecnicamente ligada a lima prática tio
tlesvio, com relação aos modelos culturais ou teóricos contemporâ -
Assi m, a operação histórica tem um efeito duplo. Por um
ncos. Não existe relato histórico no qual nào esteja ex plicitada a re-
lado, h istoriciza o atual. Falando mais propriamente, ela presen-
lação com um corpo social e com uma institu ição de saber. Ainda
ti fica u ma situação vivida. Obriga a explicitar a relação da razão
reinante com um lllgar próprio que, por oposição a um "passado':
é necessário que exista aí "representação". O espaço de uma figura -
ção deve ser composto. Mesmo se deixa rmos de lado tudo aquilo
se torna o presente. Uma relação de reci procidade entre lei e seu
que se refere a um a análise estrutural do d iscurso histórico," resta
limite engendra, simul taneamente, a diferenciação de um presente
enca rar a opção que faz passar da prática investigadora à escrita .
e de um passado.

86 Cf. BARTHES, Roland. SlrUClU re dI! fail diversoEssai$ critiques. Seuil, 1964, 87 A esse respeito. cf. BARTH ES. Roland Uarlhes. Le di scours de l'hisloire. in
M

ou inf Til , ",\ edificação hagiográfica p. 248 sS. Scfel/cf Informmiol/. VI. 4. p. 65-75, 1967; G OTTGE~·t ANS. Erhardt. Tex te
90 A Escrita da História . l\lichel de Ccrtea u
Capitulo 1i • A Oper.tçâo HistoriogrMica 91

A illwrstio escriturária
de figura s de relatos e de nomes próprios, torna presente aquilo que
o writillg,1!ll ou a co/lstrllção de lima escrita (no sentido amplo a prática percebe como seu lim ite. como exceção ou como diferen-
de uma orga ni zação de significantes), é uma passagem, sob muitos ça, como passa. Por esses poucos traços - a inversão da ordem. o
aspectos, estranha. Conduz da prática ao texto. Uma transforma- encerramento do texto, a substituição de um Irabalho de lacuna
ção assegura o trânsito, desde o indefinido da "pesqu isa" até aquilo por uma presença de sentido - pode-se medir a "servidão" que o
que H. I. Marrou chama a "servidão" da esc rita. 89 "Servidão'; com discurso impõe à pesquisa.
efeito. pois a fu ndação de um espaço textual provoca uma série de A escrita seria, então, a imagem invertida da prática? Teria .
distorções com relação aos procedimentos da análise. Com o dis- como nas criptografias, nos jogos de crianças ou nas imitações de
curso parece se impor uma lei contrária às regras da prática. moedas pelos falsár ios, o valor da escrita em espelho,90 ficção fabri -
A primeira imposição do discurso cons iste em presc rever cadora de enganos e de segredos, traçando a cifra de um silêncio
como início aquilo que na realidade é um ponto de chegada. ou pela inversão de uma prática normativa e de sua cond ição social.
mesmo um ponto de fuga da pesquisa . Enquanto esta dá os seus Assim acontece no caso dos Miroirs de /'Histoire. Certamente eles
primeiros passos na atualidade do lugar soci al, e do aparelho insti- escondem sua relação com práticas que não são mais históricas,
tucional ou conceitual, determinados ambos. a exposiçâo seguem mas políticas e comerciais, porém , servindo-se de um passado
uma ordem crollológica . Toma o mais anterior como ponto de par- para negar o presente que repetem, segregam algo estranho às re-
tida. Tornando-se um texto, a história obedece a uma segunda im- lações sociais atuais, produzem o segredo na linguagem; seus jogos
posição. A prioridade que a prática dá a uma tática de desvio, com designam um reti ro que se pode contar em lendas, invertendo as
relação à base fornecida pelos modelos, parece contradita pelo le- condutas do trabalho e tomando seu lugar. A escrita em espelho
clwmC/lto do livro ou do artigo. Enquanto a pesquisa é interminá- é séria por causa do que faz - dizer outra coisa pela reversão do
vel. o texto deve ter um fim, e esta estrutura de parada chega até a código das práticas -i ela é ilu sória apenas na medida em que, por
introdução, já o rganizada pelo dever de terminar. Também o con- não se saber o que faz, tender-se-ia a identi fi car o seu segredo ao
junto se apresenta como uma arquitetura estável de elementos. de que põe na linguagem e não ao que dela subtrai.
regras e de conceitos históricos que constituem sistema ent re si e De fato. a escrita histórica - ou historiadora - permanece con-
cuja coerência vem de uma unidade designada pelo próprio no me trolada pelas práticas das quais resulta; bem mais do que isso, ela
do autor. Finalment e, para ater-se a alguns exemplos, a represen- própria é uma prática social que confere ao seu leitor um lugar bem
tação escriturá ria é "plena"; preenche ou oblitera as lacunas que determinado, redistribuindo o espaço das referências simbólicas e
constituem, ao cont rário, o próprio princípio da pesquisa, se mpre impondo, assim, uma "lição"; ela é didática e magisterial. Mas ao
aguçada pela falta. Dito de o utra maneira , através de um conju nto mesmo tempo funciona como imagem invertida; dá lugar à falta e a
esconde; cri a esses relatos do passado que são o equivalente dos ce-
mitérios nas cidades; exorciza e reconhece uma presença da morte
et histoirc, catcgorics fondamcntalo.'S d 'une I'oetique gcnerative. Lillguislicll
Biblica. Bonn, n. 11. 1972, c infra, n. 106.
90 Cf. L~VY. j. M. l: Í:criture em miroir dês petits écoliers. loumnl dc p$)'c/lQ.
88 Em Ihc l'raC1ticc o!Hisfory (Nrw York: T. Y. Crowell Co .• 1970. p. 88- 141),
logic No rmnlc ef Pat}lQlogique, 1935. I. XXX II. p. 443·454. e. princi palmen.
G. It Elton consagra a par te ce ntral de sua análise á esc rita _ IVriting.
te, A)UR1AGUERRA. j. de; OIATK1NE, R.; GOBlNEAU, li . de. 1;Í;criture
89 MARROU, Henri- Irénée. De la COmWiSSallCC Irisforiqlle. Seui!, 1954. p. 279.
em miroir, in I,n $eml/inc des Hópitnux de Paris, n. 2, p. 80·86, 1956.
A Escrita da História • ~[ichcl clt' C<:r tc;w Capítulo 11 • t\ OllCração Historiográfica 93
92

mente sOdal , mas simbólica, escritu rária , que substitui a autori-


no meio dos vivos. Representando nas duas cenas, ao mesmo tempo
contratual e legendária, escrita pcrformativa 91 e escrita em espelho, dade de um saber pelo trabalho de uma pesquisa, O que c que o
ele tem o estatuto ambivalente de "fazer a história': como mostrou historiador fabrica quando se torna escritor? Seu próprio discurso
deve revelá-lo,
Jean· Pierre Fayc,92e, não obstante, de "contar hi stó rias': quer dizer,
de impor as violências de um poder e de fornecer escapatórias. Ela
A crollologia, ou a lei mascarada
"i nst fui " di verti ndo, costumava-se di zer. Tornando precisos alguns
aspectos da construção historiográfica, as relações de diferença c Os resultados da pesqui sa se expõe m de acordo com uma
de continuidade, que a escrita mantém com uma disciplina de tra- ordem cronológi ca. Certamente, a constituição de scries, o isola-
balho, podem aparecer melhor,'l mas também sua função social mento de "conjunturas" globais, tanto q uanto as tcc nicas do ro-
como prática se evidenciará com ma ior dareza. mance ou do dnema, to rnaram fl exível a rigide1. dessa ordem,
Efetivamente, destacando-se do trabalho cotidiano, das perm itiram a instauração de quadros sincrônicos e renovaram os
eventual idades, dos con flito s, das combin ações de microdecisões meios tradicionais de fazer interagir momentOS diferentes. Não é
q ue caracterizam a pesquisa concreta, o discurso se situa fora da menos verdade q ue toda historiografia coloca um tempo das coisas
experiência que lhe confere creditoi ele se dissocia do tempo que como um contraponto e a condição de um tempo diSCl/rsivo (dis-
passa, esquece o escoamen to dos trabalhos e dos dias para forn e- curso "avança" mais ou menos rápido, conforme ele se retarde ou
cer "modelos" no quadro "fictíci o" do tempo passado. Mostrou -se se preci pite). Mediando esse tempo referencial , ele pode conden -
o que essa construção tinha de arbitrária. Problema geral. Assim , sar ou estender seu próprio tempo,9S produzi r efeitos de sentido,
o "Cahier rouge" de Claude Bernard (1850- 1860) representa uma rediSlribui r e codi fi car a uniformidade do tempo que corre. Essa
crônica já distante da experiência efetiva em laboratório, e a teo- diferença já tem a forma de um d esdobramento. Criou o jogo e
ria , a llltrodllctioll à letllde de la medécille expérimelltale (1865), fo rneceu a um saber a possibilidade de se produzir num "tem po
é, por sua vez, deca lada, simplificadora e redutora com relação ao discursivo" (tempo "d iegético': diz Genette), situado a distância do
"Cahier':9~ Entre milhares de outros, esse exemplo mostra a passa- tempo "rea l': O serviço que a remissão a esse tempo referencial
gem da prática à crônica e da crônica à didática . Só uma distorção presta à historiografia pode se r encarado sob diversos aspectos.
permite a introdução da "experiência" numa outra prática, igual- O primeiro (que se há de encontrar sob outras medidas) é
o de tornar compatíveis os COl1trários. Exemplo simples: pode-se
91 Sobre a performatividade. d. illfra, p. 100 e 106. 108. dizer "o tem po está bo m" ou "o tempo não está bom~ Essas duas
92 FAYE, Jean· Pierre. Lmrgages lo/aNlaires e 71rtiories riu réci/. Hermann,
[972.
93 95 Desse ponto dI.' lIista, a historiografia pode obter maior eficácia dos meios
Cf. /o.H NGUELEZ, Roberto. Le reelt historique: légali té et signification.
tecn icos ac ionados pelo ci nema. Cf., exemplo intl.'rl.'ssan tl.', ROUGET, Gil·
Semiolica, t. 111 , n. I, p. 20·36, 1971, c, do mes mo au tor, Suje/ el/risloire,
Ottnwa: Ed. de I'Uni\'ersi té, 1973. bert, UnI.' I.'xperil.'nce dI.' ciné ma sy nchron e au ralenti (in: L'/-loII/me, I. Xl,
94 n. 2, p. 11 3·117, 1971). a propósi to do Zei/reg/cr o u Mex lensor de tempo"
Cf. GRMEJ<, M. D. Raisomrellu'/ll cxpt'rilllt'nlal el recllcrclré /oxic%giqucs
(Strecher ). que pe rm ite dilatar ou cont rair O tempo so noro se m ddor mâ·
clrez C/Ilude BCflUlrd. Genebra: Drol, 1973. Este estudo minucioso, cujo
10, c, portant o, retardar ou precipitar a imagem. cr. também SCHAEt=FER,
interesse ult ra passa ampla menh' o caso particular de Claude Bernard, per-
Picrre , Trailr de5 objels IIIr/5iCIIIIX, Seuil, 1966, p. 425·'126, sobre as acele-
rnit e a aprop riação, ao vi\'o, das decalagens qu e fazem passa r da cxperibrcill
rações ou rt'lard amenlOS que falem parte de um procedimento tradi cional
(aqu i cOl11 rolada ) 11 ~crônica~ t' da crônica ao discurso t/idtllico _ teoria ou
~história': em história.
A Escrita da His tóri;l • ~!i chd de Ccrlcólu Capitulo 11 . t\ Operação HistoriogrMica 95
94 •

proposições não podem ser enun ciadas ao mesmo tempo, mas na\. De fa to, se forem adotadas as distinções de Benvéniste entre
apenas uma ou outra. Por outro lado, se introduz a d iferença de "discurso" e "relat077 ela é um relato que funciona, na realidade,
tempo, de maneira a transform ar as d uas proposições em "ontem como diswrso organizado pelo lugar dos " interlocutores" e fun da-
O tempo eSlava bom" e "hoje não eS lâ~ torna -se legítimo manter mentado no lugar que se dá o "autor" com relação aos scus leitores.
lim a e OI/Ira. Logo, os cont rários são compat íveis, no mesmo texto, O reCllrso ;\ cronologia reconhece que é o lugar da produção que
sob a cond ição de que ele seja narrativo. A temporalização cria a autoriza o texto, antes de qualquer o utro signo.
possi bilidade de tornar coerentes uma "ordem" e o seu "hcterócli - A cronologia ind ica um segundo aspecto do serviço que o
to", Com relação ao "espaço plano" de um sistema , a narrativização tcmpo presta à história. Ela é a condição de possibilidade do recor-
cria uma "espessu ra" que permite colocar, ao fado do sistema, o seu te em períodos. Mas ( no sentido geométrico) rebate, sobre o texto,
contrário ou o seu resto. Uma colocação em perspectiva histórica a imagem invertida do tempo que. na pesquisa, vai do presente
autoriza, pois, a operação que, no mesmo lugar e no mesmo texto, ao passado. Segue seu rastro pelo reverso. A exposição histórica
substitui a d isj unção pela conjunção, reúne enunciados co ntrários supõe a escolha de um novo "espaço vetorial" que transforma o
e, mais amplamente, supera a diferença entre uma ordem c aquilo sentido do percurso do vetor tempo e inverte sua o rientação. So-
que ela exclui. É também o instrumcnto por cxcelência dc todo mente esta inversão parece tornar possível a articulação da prática
d iscurso que pretenda "comprcender" posiçõcs antinômicas (basta com a escrita. Ao indicar uma ambivalência do tempo,98 coloca-se
que um dos termos em confl ito seja classificado como passado), inicialmente o problema de um rc-começo: onde começa a escrita?
"rcduzir" o elcmen to aberrante (cste se torna um caso "particular" Ondc se estabelece para quc haja h istoriografia?
que se inscreve como detalhe pos itivo nu m relato) ou a considerar À pri meira vista. ela remete o tempo ao momcnto do desti -
como "ausente" (num outro período) aquilo que foge a um sistema natário. Constrói, assim, o lugar do leitor em 1975. Do fundo dos
do presente e nele assumc aspecto dc cstra nheza. tempos vcm até ele. Quer participe (ou não) dc uma temática do
Mas essa temporalização, que se esquiva dos limites impostos progresso. faça drenagem das longas duraçõcs ou conte lima se-
a qualquer rigor e compõc uma cena, na q ual os incompatíveis po- quência de "cpisteme", enfim, qualquer que seja o seu conteúdo, a
dem funcionar juntos, tem como paga a sua recíproca: o relato não historiografia trabalha para encont rar um presente que é o término
pode guardar do silogis mo senão a aparência; lá o nde elc explica, é de Utn percurso, mais ou menos longo, na tmjetória cronológica (a
entimemático.96 "finge" arrazoar. Na verdade. assim, preserva. nas história de um século, de um período Oll de lima série de cidos).
suas margens, mantendo a relação dc uma razão com aquilo que se O presente, postulado do discurso. torna-se a rCflda da opcração
passa fora dela, a possibilidade de uma ciência ou dc um a filosofia
(ele é hcurístico ), mas como tal ocupa o lugar e oculta a ausencia
delas. Pode-se também perguntar o que autoriza a historiografia a
IIENVJ:NISTE, Íinlile. probMmes de liuguisliljlu: gbrémle. Gallimard. 1966.
se constituir como síntcse dos contrários a não ser um rigor racio- 97
p. 253-254: no diswrso, "a instãncia está no Iric el UUII' dos interlocutores...
no seu ato da pala\T.l~ (di7.-se: o prefeito partiu Olllem); no rellllo. a instãn-
96 Roland narthes o notou em Le discol/rs de /'Irisloire, op. dt.. p. 7 t -72. Cf. cia está constituida pelos termos... que se referem ... aos objetos ' reais: .. aos
principalmente HEMPEL, C. G .• The Function ofGelleral Laws in History. tempos c aos lugares ·históricos: .."
in fOl/mll1oi PlrilO$oplr)', I. XXXIX. 19·12: sobre os esboços de explicação Cf.. por exemplo. as obse rvações de André Viel. Du chronique au chrono-
98
(expla/llllion skt'lcll) que a historiografia fornece é o estudo qu e ainda serw logique, in: Histoirede lIo/re imllge, Mont-Blanc, 1965, p. 109- HI, sobre o
de referencia. tempo não orientado e a ambivalência.
96 A Escrit<l da l-listóri:1 • "lichcl de ü'rtcau
Capitulo II • ,\ 01li.·T;IÇjO Hi ~torjowática 97

escriturária: o lugar de produção do texto se transforma em lugar nifestada pelo fato de que a escrita desnatura e inverte o tempo
produzido pelo texto.
da prática. Mas apenas urna passagem silenciosa para o limite
Port anto, o relato tem sua duplicidade. A cronologia da obra apresenta, efetivamente, sua diferença. Um zero do tempo articula
de história não é senão um segmento limitado (por exemplo, des- uma com a outra. E o limiar que conduz da fabricação do objeto a
creve-se a evolução do Languedoc do século xv ao XVIII), colh i- construção do signo.
do num eixo mais amplo, que o ultrapassa, de um lado e de outro. Esse nada inicial esboça o retorno disfarçado de llm passado
estranho. Poder-se-ia dizer que é o m ito, transformado em pos-
(O) I• I • (1975) tulado da cronologia - ao mesmo tempo suprimido do relalo e
XV< XV« XVII' XVIII' sempre considerado ineliminável. Uma relação necess;iria com
O o utro, com esse "zero" mítico, permanece inscrita no conteúdo
Por um lado, a cronologia visa ao momento presente através com todas as transformações da genealogia, com lodas as modula -
de uma distãncia - a sem irreta deixada em branco, definida ape- ções das histórias dinásticas ou familiares de uma política, de uma
nas, na sua origem (do século XVIII aos nossos dias) . Por ou tro economia Oll dc uma mcntalidade. Para que o relato "desça" alé o
lado, supõe lima série finita cujos termos permanecem incertos; presente. é preciso que ele se "poie. anteriormente, em um nada
postula em última instância o recurso ao conceito vazio e neces- do qual a Odissein já dava a fórmula: "ni nguem sabe por si mesmo
sá rio de um po nto zero, origem (do tempo) indispens.íveJ a uma quem é seu pai". 'oo Banido do saber, um fantasma se insinua na
orienlação.9\I O relato inscreve, pois, em toda a superfície da sua historiografia e determina-lhe a o rganização: é aquilo que mio se
organização, essa referência in ic ia l e imperceptível, que é a con- sabe, aquilo que não tem nome próprio. Sob a forma de lllll passa -
dição de sua historicização. Permitindo à atualidade "exist ir" no do que não tem lugar designável, mas que não pode ser elimin ado.
tempo c, fina lmente, simbol izar-se a si mesma, ele a estabelece é a lei do outro. 101
numa relação necessária com um "começo" que não é nada, Oll "A lei sempre tira partido daqUilo que se esc reve': U>l Se a his-
que não tem outro papel senão o de ser um limite. A Colocação loriografia resulta de uma operação alual e localizada, enquanto
do relato veicula, por toda parte, lima relação tática com algo que
n.io pode ler lugar na história - um não lugar fundador _, sem o
100 Od)'ssée, trad. Leconte de Lisle, I~apsodie, I, p. i.
qual, entretanto, não haveria historiografia. A eScrita dispersa, na 101 Cf. a esse respeito Jean Laplanche e j. I~. I'ontalis, Fantasm" originaire,
encenação cronológica, a referência de todo o relato a um não dito fantasrne des origines. origine du fantasrne, in Les rcmps mMerm:s, XIX,
que co seu postulado. 196-1. p. 1.832- 1.868. Esse ('studo sobre a "encenação do desejoHna S<."<Iuên-
Este não lugar determina o interstício entre a prática e a es- cia de imagens esclarece, também. os probtemas expostos pelo discurso
histó rico. üO sujeito pode existir sob uma forma subjetivada. quer dizer, na
crita. A cesura qualitativa entre lima e Oulra c, sem dúvida, ma-
própria sintaxe da sequencia ('111 questão': "O desejo Sé' articub na frase do
fantasma, que é, esc re\"Cln os (lulores, o lugar de eleição para as operaçõcs
99 defensivas mais primiti\<as, tais como a autoagressão, a formaçjo de reação,
DesSé.' ponto de \'ista, existe, na episteme grega, uma ligação entre :1 au - H
a projeção, a dencgação (op. cit., p. 1.868). O relato histórico apresenta.
scncin do zero na mn1cmatica e a ausência de urna história que pense o
tambem, como encenação, esses C(lracteres do fantasma.
passado como di(rrença. Sobre o ~conceit o~ dé' zero. d. as obse rvações d"
102 BLANCI 10'1', /"I·laurice. L'Emrcrien inflni, Gallilllard, 1969, p. 625. Cf. MO-
Frege in Lt's FomlclllclIIs (Ic I' arilhmetiq/lc, trad. CI. Imbert. Seuil, 1969. § 8
e principalmente ;4. SCHONN IC, I-Icnri. l\laurict' manchot ou l' écriture hors !angage. in Les
Clllrias dI! C/lmlin, n. 20. p. ;9-116. 15 de janeiro de 19;4.
CJpitulo 1I • r\ Operaç:io HislOrlogrMica 99
98 t\ Escri ta da Ilislória • ,\lichd de Ccrtcau

um estudo particu lar, cuja organização assegura a relação entre os


escrita, repete um outro início. impossível de datar ou de repre-
termos (a origem, o presente) que permanecerá fora do campo.
sentar, postulado pelo desdobramento, à primeira vista simples, da
cronologia. 10) Dobra o tempo gratificante - O tempo que vem a vo-
A CO/lstruçeio desdobrada
cês, leitores, e valoriza o lugar de vocês - com a sobra de llm tempo
proibido. A ausência, pela qual começa toda literatura , inverte (c Ent re os problemas que o rclato, encarado como discursi-
permite ) a maneira pela qual a narrativa se preenche de sentido c " idade, propõe,l06 alguns dizem respeito, mais especificamente, à
o discu rso estabelece um lugar para o destinatário. Os dois se com - const rução da historiografia. Estes provêm de um qllerer ao qual
binam e vcr-se-á que a historiografia tira sua força da transforma - a temporalização fornece um quadro, permitindo manter juntas
ção da genealogia em mensagem e do fato de se situar "acima" do as contradições sem ter que resolvê-Ias. Esse propósito "global i-
leitor, por estar mais próxima daquilo que confere poder. O texto zante" opera em lodn parte. Remete, fmalmenle, a uma vontnde
rClme os contraditórios desse tempo instável. Restaura, discreta- polít ica de gerar conflitos e regulamentá-los a parti r de um só
mente, a sua ambivalência. Revela, na surdina, o contrario do "sen - lugar. Literalmente produz textos que, de vàrias maneiras, têm a
tido" através do qual o presente pretende compreender o passado. característica dupla de combinar uma scma"tização (a edificação
Na verdade, ao contrario daquilo que ela faz quando se torna a si de um sistema de sentidos) com uma se/cçâo (essa triagem tem seu
mesma como objeto, essa escrita não se reconhece como "t rabalho início no lugar em que um presente se separa de um passado), e
da negação". Entretanto, ela o testemunha. A construção do sen- de ordenar uma "inteiigibilidade" por meio de uma /lormatil'idade.
tido se articula com o seu contrario. Mesmo aqui a li nguagem do Alguns traços, que se referem, inicialmente, ao seu estatuto numa
escritor "não apresenta tornando presente aquilo que mostra, mas tipologia dos discursos, e depois à organização do seu conteúdo,
mostrando-o por trás de tudo, como o sentido e a ausenc ia deste vão particularizar o funcionamento da hisloriografia como mista.
todo': 'O-I Em vista de uma tipologia geral dos discursos, uma primeira
Quando o relato é histórico, entretanto, resiste a sedução do aproximação se refere ao modo pelo qual se organiza, em cada dis-
começo; não cede ao Eros da origem. Não tem por meta, como o curso, a relação entre seu "conteúdo" e sua "expansão". Na /larra ção,
mito, encenar a autoridade necessúia e perdida sob o aspecto do um e outro remetem a uma ordem de sucess50; o tempo referencial
evento que não ocorreu,u)5 Ele não diz o que supõe, pois tem por (uma série A, 13, C. D, E etc. de momentos) pode ser, no exposto, o
objetivo dar lugar ;\ um traimlllO. A lei transita somente através de objeto de omissões e de inversões suscetíveis de produzir efeitos de
sentido (por exemplo, o relato literário ou cinematográfico apre-
senta a série: E, C, A, B etc.). No discurso "lógico", o conteúdo, de-
103 Philip Rieffill5istiu, particularmente. no recomeço e na repetição que carae· finido pelo estatuto de verdade (elou de verificabilidade) atribuível
teri7.am o "morlrl o/Iim(''' freudiano: cf. The :Illlhorit)' of the pasto in Fremi: a enunciados, implica relações silogística s (ou "legais") entre eles,
lhe mil1ll 0/111,> lhe mornliSI, Ncw Yor!;: Viking Pre5s, 1959; The mcaning of que determinam a maneira da exposição (indução e dedução). Ele,
hislor)' :md religion in Frcuclthoughl. in ;\'IAZLlSCH, Bruce (ed.), Psyclw.
11II111)'5iS lU/ri HiSlor)', Englel\'ood Cliffs (N.J.). 1963. p. 23-44 ete.
104 BI.ANCHOT, [I.·laurice. Le rcgine animal de I' esprit, in Critiqlle, 11.18, p.
387-405,1947, c La lilcralure clle droit fi la Illort, in CritilJllc, n. 20, p.
106 Cf. a esse respeito WE INRICH, Harald, Narrati\'e SlruklUren in Geschich·
30-47,1948.
tschreinhung, in KOSELLECK,!t; STE~-ll'EL, W. D. (cds). Gcsdlichtc.
105 Sobre cssa concep{ão do mito, cf. Rt\BANT, Claude, LI' mythe 3 l';lI'enir
Ereignis 1/1/(1 Erziihlllllg. ;\Iuniquc: W. Fink. 1973, p. 5 19-523.
(re)comlllellce, in Espril, p. 631-643, abril 1971.
100 A Esçrita da Ilistória • 1\liche! de Cerleau Capítulo I!. A Operaç:io Historíográfica 101

o discurso histórico, pretende dar um conteúdo verdadeiro (q ue dá O poder de dizer o que a outra significa sem o saber. Pelas "ci-
vem da veriflcabilidade), mas sob a forma de uma narração. tações': pelas referências, pelas notas e por todo o aparelho de re-
metimentos permanentes a uma linguagem primeira (que Michelet
cont ... üdo
chamou "crôn ica"),I07 ele se estabelece como saber do Olltro. Ele se
upans;io
constrói segundo uma problemática de processo, ou de citação. ao
narração s~rie
temporal s uc~il'idad ...
mesmo tempo capaz de "fazer surgir" uma linguagem referencial
A,H,C,D... 1emporal (E,C,A ... ) que aparece como realidade, e julgá-la a título de um sabcr. A con-
vocação do material, aliás, obedece à jurisdição que, na encenação
di scurso histórico -\"c rdade~ Sucess h'idade temporal historiográfica, se pron uncia sobre ele. Também a estratificação do
discurso lógico discurso não tem a fo rma do "diálogo" ou da "colagem': Ela combi -
\·... rdad ... das prepasiçoo silogismo (indução, dNuç:lQ)
na no singular do saber, citando o plural dos documentos citados.
Nesse jogo, a decomposiçii.o do material (pela anál ise, ou divisão)
Combinando sistemas heterócl itos, esse discu rso misto (fei- tem sempre como condição e limite a unicidade de lima recompo-
to de dois, situado entre dois) va i se construir segu indo dois mo- sição textual. Assim, a linguagem citada tcm por função comprovar
vimentos contra rios: uma lIarrativização faz passar do conteúdo o discurso: como referencial, introduz nele um efeito de real; e por
à sua expa nsão, de modelos acrõnicos a uma cronologização, de seu esgotamento remete, discretamente, a um lugar de autoridade.
uma dout ri na a uma manifestação de tipo narrativo; inversamente, Sob esse aspecto, a est rutu ra desdobrada do discurso funciona à
uma semalltização do material faz passar dos elementos descritivos maneira de lima maquinaria que extrai da citação uma verossimi-
a um encadeamen to sintagmatico dos enunciados e à constituição lhança do relato e uma validade do saber. Ela produz credibilidade.
de sequências hi stóri cas programadas. Mas esses procedimentos Impli ca também um funciona mento part icu lar, epistemoló-
geradores do tex to não poderiam ocultar o deslizamento metafóri- gico e literário desses textos clivados. Por um lado. com referência
co que, segu ndo a definição aristotélica, opera a "passagem de um às categorias de Ka rl Popper, trata-se antes de "interpretação" do
gênero para o outro': Indicio desse misto, a metáfora esta presente que de "explicação': Na medida em que o discurso recebe de uma
em toda parte. Ela disfarça a explicação histórica com um caráter relação interna crônica o estatuto de ser o seu saber, ele se constrói
entimematico. Deporta a causa li dade para a sucessividade (post sobre um certo número de postulados epistemológicos: a necessi-
hoc, ergo propter hoc). Representa relações de coexistência como dade de uma semantização referencial, que lhe vem da cultura; a
relações de coerência etc. A plausibilidade dos enunciados se subs- transcrit ibilidade das li nguagens já codificadas, das quais se faz o
titui constantemente à sua verificabilidade. Dai a autoridade que intérprete; a possibilidade de constituir uma meta li nguagem da pró -
esse discurso necessita para se sustentar: aquilo que perde em ri-
gor deve ser compensado por um acréscimo de credibilidade. 107 Esse discurso - montagem de outros discursos - se produz graças a dispos i-
A essa exigência pode-se acrescen tar uma outra forma de th'os muito varidos: o estilo indireto (a historiografia diz que um outro dissc
desdobramento. Coloca-se como historiográfico o discurso que que ... ), as aspas, a ilustração etc. Podc-se dizcr que o ~passadoM representado
"compreende" seu outro - a crônica, O arquivo, o docu mento _, é o cfeito da maneim pela qual o discurso administra sua relação com a
~c r6nica': Dcsse ponto dc vista, a crónica pode ser mais 011 menos trit umda.
quer dizer, aquilo que se o rganiza em texto folheado do qual uma Existem muitas maneiras de tmtá-la, desde o MresumoKquc a reduzi u a uma
M
metade, conti nua, se apoia sobre a outra, dissem inada, e assim se súic de "fatos até a extraç:io d ... dados utillzá\'cis por uma história real.
l02 A Escri ta da História . I\lichcl de Certeall Capitulo II • r\ Operação HistoriogrMica 103

pria língua dos documentos ut ilizados. Sob essas formas diversas, a os conceitos que o organizam. Ela se conta lia linguagem do seu
citação introduz no texto um extratexto necessário. Reciprocamen- outro. Brinca com ela. O estatuto da meta linguagem é, pois, o pos-
te, a citação e o meio de articu lar o texto com a sua exterioridade tulado de um "querer compreender". ~ antes um a priori do que um
semântica, de permitir-lhe fazer de conta que assume uma parte da produto. A interpretação tem como ca racterística reproduzir, no
cultura e de lhe assegurar, assim, uma credibilidade referencial. Sob interior do seu discurso desdobrado. a relação entre um lugar do
esse aspecto a citação não e senão um caso particular da regra que saber e sua exterioridade.
torna necessária, â produção da "ilusão realista", a multiplicação Citando, o discu rso transforma o citado em font e de credibi-
dos nomes próprios, das descrições e do dêitico. I08 Também, para lidade e léxico de um saber. Mas, por isso mesmo, coloca o leitor
não tomar senão um exemplo, os nomes próprios já têm valor de na posição do que é citado; ele o introduz na relação entre um
citação. São imediatamente afiançáveis. Enquanto O romance deve, saber e um não saber. Dito de outra maneira, o discurso produz
pouco a pouco, preencher os predicados do nome próprio que ele um contrato enunciativo entre o remetente e o destinatário. Fun-
coloca no seu in ício (como Julien Sorel), a historiografia já o recebe ciona C01110 discurso didático, e O faz tanto melhor na medida em
preenchido (como Robespierre) e se contenta em operar um traba- que dissimule o lugar de onde fa la (ele suprim e o eu do autor), ou
lho com uma lingu<lgem referencial. lOII Mas essa condição externa se apresente sob a forma de uma linguagem referencial (é o "real"
de um saber do outro, ou de uma heterologia, IIO tem como corolá- que lhes fala), ou conte mais do que raciocine (não se discute um
rio a possibilidade para o discu rso de ser ele mesmo um equivalen- relato) e na medida em que tom e os seus leitores lá onde estào
te de um a semiótica, uma mctalinguagem de línguas naturais, logo, (ele fa la sua língua, ainda que de out ra maneira e melhor do que
um texto que supõe c manifesta a transcritibilidade de codificações eles). Semanticamente saturado (não tem mais falhas da inteligi-
diferentes. De fato, essa metalinguagem se desenvolve no próprio bilidade), "comprimido" (graças a "uma diminuição máxima do
léxico dos documentos que ele decodificai não se distingue, formal - trajeto e da distância entre os focos funcionais da narrativa"), 11I e
mente (ao contrário do que ocorre em toda ciência), da língua que fechado (u ma rede de catMoras e de anáforas assegura incessantes
interpreta. Logo. não pode controlar a distãncia do nível da análise remelimentos do texto a si mesmo, enquanto total idade orienta-
que pretende fazer, nem constituir como campo próprio e unívoco da), esse discurso não deixa escapatória. A estrutura interna do
discurso trapaceia. Produz um tipo de leitor: um destinatário cita-
108 Cf.. por exemplo, as notas de BACHElIER. J. L.. ~Su r-Nomft. in Coml/IU- do, identificado e dout rinado pelo próprio fato de estar colocado
lIicnliollS, n. 419,1972; HAMON, I'hillippe. Um discours co ntraim. in na situaçào da crônica diante de um saber. Organizando o espaço
Poeriqlll', n. 16. p. 426-427, 1973. Im·ersa mente. o eu. marca essencial do textual , estabelece um cont rato e organiza também o espaço social.
discurso fantastico (cf. TODOROV. T.llllrodllcliotl à la Litcm/llrt/ml/as·
Desse ponto de vista, O discurso faz o que diz. É performativo. Os
/il/lle). deve se r evi tado; ele su primiria a nominação. logo. ~a aU$l'ncia de
nom e ( ...) provoca U[}la defla ção capital da ilusão realista" (B/\ RTHES, Ro-
artifícios da historiografia consistem em criar um diSCllrso per-
land.. S/Z. Seuil, 1970. p.t02). formativo fa lsificado, no qual o constativo aparente não é senão O
109 O nome pró prio permite um efeito duplo. Por um lado. significa: ~ Robes­ sign ificante do ala de palavra como ato de autoridade':m
pierre. I'OCC sabe o que é is to': t ajiulI(lh·el. Por Olllro lado, é o objeto de
11m3 decalagem didática: kRobespierre, é outra coisa além daquilo quI' I'ocê
sabe, c cu \'ou lhe ensinar". t a baliza do acréscimo de saber a que ${" credita
III/UI compe/ência. II1 Hr\r-,'ION, Ph., op. ci t.. p. 440·441.
110 Cf. CERTEAU, M. de. ülbsem de/'lri5toirc. Mame, 1973. p. 173 SS. 112 IIARTHES. It Le discoUfS/lc /'lristoirc. Op. cit.. p. 74.
104 A Escrita da História . Michel de Ce rt eall CllpÍl ulo 11 . A O p craç~o I Hstoriogni.fi ca 105

Um terceiro aspecto do desdobramento não se refere mais mesmo tempo o preenchimento do sentido e sua condição; ele os
nem ao caráter misto, nem à estratificação do discurso, mas à pro - liga e nivela na expansão do discurso. Por isso é global , mas apenas
blemática de sua manifestação, a saber, a relação entre o aconte- ao preço de uma cam uflagem dessa diferença, e graças ao sistema
cimento e o fato. A respeito de um assunto tão debatido, eu me que estabelece previamente, a título de um lugar adquirido, uma
contento com uma indicação relativa à const rução da escrita. Des- autoridade capaz de "compree nder" a relação entre uma organiza-
se ponto de vista, o acontecimento é aquele que recorta, para que I ção de sent ido ("fatos") e o seu limite ("o acontecimento)':
haja inteligibilidade; o fato histórico é aquele que preenche para Colocando o est ranho num lugar ti til ao discurso da inteligi -
que haja enunciados de sentido. O primeiro condiciona a organi- bilidade, exorcizando o incompreendido para dele fazer o meio de
zação do discurso; o segundo fornece os significantes, destinados uma compreensão, a historiografia, entretanto, não evita o retorno
a formar, de maneira narrat iva, uma série de elementos signi ficati - que ela apaga da manifestação. Sem dúvida, pode-se reconhecer
vos. Em suma, o primeiro art icu la, e o segundo soletra. esse retorno no trabalho de erosão que não cessa de minar os con -
Efetivamente, o que é um acontecimento senão aquilo que é ceitos construídos por esse discurso. Na verdade, é um movimento
preciso supor para que a organização dos documentos seja possí- l secreto no texto. Nem por isso é menos constante, tal como uma
vel? Ele é o meio pelo qual se passa da desordem à ordem . Ele não lenta hemorragia do saber. Percebe-se isso, por exemplo, a propó -
explica, permite uma inteligibilidade. É o postulado e o po nto de sito da ordem que se apresenta em uma organização de unidades
partida - mas também o ponto cego - da compreensão. " Deve ter históricas. A encenação escriturária está assegurada por um certo
acontecido alguma coisa': aí, diante das constatações que possibili- número de recortes semâ nticos. A essas unidades François Châlet
tam construir séri es de fatos ou transitar de uma regularidade para dá o nome de "conceitos': mas conceitos "que se poderiam chamar,
outra. Bem longe de ser o alicerce ou a marca substancial na q ual por analogia com a epistemologia das ciências da natureza, catego-
se apoiaria uma informação, ele é o suporte h ipotético de uma or- r;as Itist6ricas".1Il Elas são de tipos bem diferentes, como o período,
denação sobre o eixo do tempo, a condição de uma classificação. o século etc., mas também a mentalidade, a classe social. a COltjtlll-
Algumas vezes ele não é mais do que uma simples localização da tura econô mica, ou a família, a cidade, a região, o povo, a Ilação,
desordem: então, chama-se acontecimento o que não se compre- a civilização, ou ainda a guerra, a heresia, afesta, a doença, o livro
ende. Atravcs desse procedimento, que permite ordenar o desco - etc., sem falar em noções tais como a Alltiguidade, o Antigo Regi-
nhecido num compartimento vazio, disposto antecipadamente lIIe, as Luzes etc. Frequentemente essas unidades provocam com-
para isso e denomi nado "acontecimento': torna -se pens:ivel ltma binações estereot ipadas. Uma montagem sem surpresas resulta na
"razão" da história. Uma semantização plena e satu ranle C, então, série: a vida - a obra - a doutrina, Oll seu equiva lente colet ivo: vida
possível: os "fatos" a enunc iam, fornecendo-lhe uma li nguagem re- econômica - vida social - vida intelectual. Empilham -se "níveis".
ferencial; o acontecimento lhe oculta as falhas através de uma pa- Encaixotam-se conceitos. Cada código tem sua lógica.
lavra própria , que se acrescenta ao relato cont ínuo e lhe mascara os
recortes. Dito de outra maneira, a arquitetura serial joga com a sua
contraditória évéllemelltielfe como com um limite que ela nomeia,
também, para se const ruir co mo di scu rso did:itico, sem interrup -
ção e sem lapsos de autoridade erudita. Esses dois elementos são 1t 3 CI-I ATELET. François. NIl;SS(l/Ice de I'Iristoire. 1962. p. 11 5. CC., a esse re$·
necessários um ao outro: uma estranha reciprocidade coloca cada peito, PEREL1-.·IAN, Chai m, in t es Catégories em MSlo;re, Ed. de Llnstitut
um dos dOis em relação com O seu olltro. Mas o texto propõe ao de Sociologie, Uninrsité Libre de Bruxelles. 1969. p. 11 - 16.
106 A Escrita da História . /I.'I;;,~h~"~d;,~C;,~·,~,,~,;"_ __ _ _ _ _ _ _~_ Capi tul o 11 • A Operação Hisloriogr:ifica 107

Não se trata aqui de retornar às imposições sociais"4 ou às constituem o estabelecimento do sistema tex tual. Da mesma for-
necess idades teó ricas e práticas de programação llS que intervêm ma, o discurso não é mais "enunciado" se a orga nização estrutural
na determinação dessas unidades, mas antes de apreender o fu n- se desmorona, mas ele é histórico na medida em que um lraba lho
cionamento escrit urário. Diz-se, às vezes, que a organização desses movimenta e corrói o aparelho conceitual, entretanto, necessário à
"conceitos" é desencadeada, quase automaticamente, pelo próprio for mação do espaço que se abre a esse movimento.
título do texto e que ela não é senão um quadro, mais ou menos Conslrução e erosão das unidades: toda escrita histórica com-
artificial (enfim, pouco importa!) , no qual se podem acumular os bina essas duas operações. t: necessârio propor uma arquitetura
tesouros da informação. Nessa concepção, as unidades for mam o econômica ou demográfica para que apareçam as dependências
tabuleiro de uma exposição onde cada compartimento deve se r que a enfraquecem, deslocam e finalm ente remetem a um outro
preenchido. Em últim a instância, são indiferentes às riquezas das conjunto (social ou cultural). t: necessário recortar uma unidade
quais são portadores: no armazém da história, apenas o conteúdo geográfica (regional ou nacional) para que se manifeste aquilo que,
conta, e não a apresentação (desde que ela seja clara e clássica). de todo lado, lh e escapa. A constituição de "corpos" conceituais
Mas isso equivale a tornar inerte (ou acreditá- Ia assim) a compo- por um recorte é, ao mesmo tempo, a causa e o meio de uma len-
sição historiográfica , como se ela simplesmente parasse a pesquisa ta hemorragia. A estrutura de uma composição não mais retém
para substituí-Ia pelo momento da adição e proceder à soma do aquilo que representa, mas deve também "enunciar" o bastante,
capital adquirido. A escrita consistiria em "elaborar um fim". Na para que com essa fuga sejam verdadeiramente encenados - "pro -
verdade, ela não é nada disso desde que haja discurso histórico. Ela duzidos" - o passado, o real ou a morte de qu e fa la o texto. Assim
impõe regras que, evidentemente, não são iguais às da prâtica, mas se encontra si mbolizada a relação do discurso com aquilo que ele
diferentes e complementares, as regras de um texto que organiza designa perdendo, quer dizer, com o passado que ele não é, mas
lugares em vista de uma produção. que não seria pensável sem a escrita que articula "composições de
Com efeito, a escrita hi stórica compõe, com um conjunto co- lugar" com uma erosão desses lugares.
erente de grandes unidades, uma estrutura anâloga à arquitetura A combinação de recortes (as macrou nidades) e de usuras (o
de lugares e de personagens numa tragédia. Mas o sistema dessa deslocame nto dos conceitos) não é, na verdade, senão um esque-
encenação é o espaço onde o movimento da documentação, quer ma abstrato. Ela não se refere, alias, aestrutura do próprio discur-
dizer, das pequenas unidades, semeia a desordem nessa ordem, so, e não descreve senão um movimento de escrita, destinado a
escapa às divisões estabelecidas e opera uma lenta erosão dos con- produzir o sentido autorizado pelo saber. Mas pode-se reconhecê-
ceitos organizadores. Em termos aproximat ivos, poder-se- ia dizer lo até nos textos mais importantes da historiografia francesa con-
que o texto é o lugar onde se efetua um trabalho do "conteúdo" temporãnea.
sobre a "forma". Para retomar a palavra mais exata de Roussel, ele Para explicar o aparecimento de uma consciência nacional da
"produz destruindo". Através da massa móvel e complexa que ela Catalunh a - problema que faz "surgir" um estudo scioeconômico
joga no recorte historiográfico e que aí se move, a informação pare- da região -, Pierre Vilar apresenta a conexão do mercantilismo
ce provocar lima lisura das divisões classificatórias que, ent reta nto, (ao qual está ligada a formação de uma classe dirigente) e do na-
cionalismo (i nst rumento utilizado por esta classe para estabele-
114 Cf. 5l1prtl, ~U rn lugar social~, p. 56·70.
cer uma dominação política). Um "lugar" econômico é a base de
1\5 Cf. $uprn, uUrna pr:itica': p. 70-89. uma anal ise muito rica. Mas ali se produziram infilt rações: como
108 A Escri ta da História . I\lichel de Certeau Capitulo 11 • i\ Operação J-1istoriográfica I09

a constatação de que o nacionalismo cresce com a consciência in - Mu itos indícios atesta m, na história , essa est rutura de "ga-
fel iz de lima nação ameaçada. ll6 Essa intervenção de um elemen- leria': Por exemplo, a multiplicação dos nomes próprios (persona-
to heterogêneo não instaura um outro recorte conceitual, e muito gens, localidades, moedas etc.) e sua reduplicação no " Index dos
menos uma história "global': Ela desloca a encenação in icial do nomes próprios": aquilo que dessa maneira prol ifera no d iscu rso
texto. Exemplo entre mil do trabalho de erosão que se opera numa histórico são esses elementos "com os quais não se faz nada além
composição bastante argumentada , exatamente porque ela não é de mostrar" 120 e através dos quais o dizer está no seu limite, o mais
uma moldura inerte. próxi mo do mostrar. O sistema sign ifica nte, com esses nomes pró-
Erosão, ainda, o movimento que mexe a unidade beauvaisia- prios, cresceu desmesuradamente, em sua margem dêitica extre -
na firmemente delineada pelo "estudo regional" de Pierre Goubert ma, como se a própria ausência, da qual trata, o fizesse extravasar
e que a deixa escapa r, o ra para a Beauce o ra para a Picardia. ll7 O para o lado em que o "most rar" tende a se substituir ao "significar':
trabalho que desloca o lugar e q ue o associa àquilo de que estava Mas ex.istem muitos outros indícios: o papel do mapa da imagem
separado esboça, no texto, um desaparecimento (nunca total) dos ou do grâfico; a importância das vistas panorâmicas e das "conclu -
conceitos, como se ele conduzisse a representação (se mpre manti- sões" recapituladoras, paisagens que bal izam o livro etc., e que são
da enquan to exista texto) até a beira d:l ausência que ela designa. elementos estranhos ao tratado de sociologia ou de fisica.
Será novamente necessário reconhecer nesses traços um a
o lugar do mor/o C o lugar do leitor inversão literária d e procedimentos próprios de pesquisa? Com
Tercei ro paradoxo da história: a escrita põe em cena uma po- efeito, a prática encontra o passado sob a forma de um desvio re-
pu l:lção de mo rtos - personagens, mentalidades ou p reços. Sob lativo a modelos presentes. Na verdade, a fun ção específica da es-
forma s e conteúdos diferentes, ela permanece ligada à sua arqueo- crita não é contrária, mas diferente e complementar com relação â
logia de inícios do século XV II ("um dos pontos zero da História função da prática. Ela pode ser particularizada sob dois aspectos.
da França': di z P. Aries) 118 à "galeria de história" tal como se vê Por um lado, no sentido et nológico e quase religioso do termo, a
ainda no castelo de Beauregard: 119 uma série de retratos, efígies escrita representa o papel de um rito de sepultamento; ela exorciza
ou emblemas pintados nas pa redes antes de serem descritos pelo a morte introduzindo -a no di scu rso. Por outro lado, tem uma fun -
tex to org:ln iza a relação (o muse u) e Ulll percurso (a vi sita). A his- ção simbolizadom; permite a uma sociedade situar-se, dan do-lh e,
toriografia tem essa mesma estrutura de quadros que se :lrticulam na linguagem, um passado, e abrindo assim um espaço próprio
com uma trajetória. Ela re-presenta mortos no decorrer de um iti- para o presente: "marcar" um passado é dar um lugar à morte,
nerário narrativo. mas também redistribuir o espaço das possibilidades, determinar
negat ivamente aquilo que está por fazer e, consequentemente, uti-
lizar a narratividade, que enterra os mortos, como um meio de
estabelecer um lugar para os vivos. A arrumação dos ausentes é o
116 VrLAR. Pierre. La Catalogllcdal1s /'fj paglJC mor/em e. Op. dI. I. I, p. 29-38. inverso de lima normatividade que visa ao leitor vivo, e que instau -
11 7 GOUBER'C Piem:. Hemwais cf Ic BCJWl'llisis (/e 1600 a 1i30. Scvpcn. 1960, ra uma relação didâtica entre o remetente e o destinatário.
p. 123- 138,413 ..119cIC.
118 ARJES. Philippc. Legemps dc J'Hisloirc. Op. cil. p. 255.
119 Cf. ARtES, 1'. Op. clt .. p. 195-214. sobre eSSaS "galt:rias de história" ou cole-
120 L1~V I -STRAUSS. CI:ludc. La pcusée smll·age. Plon, 1962, p. 285.:l propósito
ções de retratos históricos.
dos nomes próprios.
110 A Escrita da História . " tichcl de Certeau Capilulo Ii • ,\ Operação Historiognifica 111

No texto, o passado oc upa o lugar do assunto- rei. Uma con- efei to, ele mesmo é uma prática. A historiografia se serve da morte
versão escriturária se operou. Lá, onde a pesquisa efetuou uma para articular uma lei (do presente). Ela não desc reve as práticas
crítica dos modelos presentes, a esc rita construiu um "túmulo"I!1 silenciosas que a constroem , mas efetua uma nova distribuição de
para O morto. O lugar feito para o passado joga, pois, aqui e hí, com práticas já semantizadas. Operação de uma outra ordem que a da
dois tipos de operação, ullla técn ica e outra escriturária. É apenas pesqu isa. Pela sua lIarratividade, ela fornece à morte uma repre-
através dessa diferença de funcionamento que pode ser reencon- sentação que, instalando a faha na linguagem, fo ra da existência,
trada uma analogia entre as duas posições do passado _ na técnica tem valor de exorcismo contra a angústia. Mas, por sua performa-
de pesquisa e na representação do texto. tividade, preenche a lacuna que ela representa, utiliza esse lugar
A escrita não fala do passado senão para enterrá-lo. Ela é um para impor um querer, um saber e uma lição ao destinatário. Em
túmulo no duplo sentido de que, at ravés do mesmo texto, ela hon - suma, a narratividade, metáfora de um performativo, encontra
ra e elimina. Aq ui a linguagem tem como função introduzir no apoio, precisa mente, naquilo que oculta: os mortos, dos quais fala,
dizer aq uilo que não se Jáz mais. Ela exorciza a morte e a coloca se tornam o vocabulário de uma tarefa a empreender. Ambivalên -
no relato, que substitu i pedagogicamente alguma coisa que o leitor cia da historiografia: ela é a condição de um fazer e a denegação
deve crer e fazer. Esse processo se repete em muitas outras for- de uma ausência; age ora como discurso de lima lei (o dizer his-
mas não científicas, desde o elogio fúnebre, na rua, até o enterro. tórico abre um presente a faze r), ora como âlibi, ilusão realista (o
Porém, diferentemente de outros "túmulos" art ísticos ou sociais, efeito de real cria ficção de uma outra história). OScila entre "fazer
a recondução do "morto" ou do passado, num lugar simbólico, a história" e "contar histórias", sem ser redutível ne m a uma nem a
articula-se, aqui, com o trabalho que visa a criar, no presente, um outra. Sem rlllvida pode-se reconhecer o mesmo desdobramento,
lugar (passado ou futuro) a preencher, um "dever-fazer': A escrita sob outra forma, que leva a efeito a operação bistôrica, ao mesmo
acumula O produto desse trabalho. Através dele, li bera o presente tempo, crítica e construtora: a escrita caminha entre a blasfêmia c
sem ter que nomeá-lo. Assim, pode-se dizer que ela faz mortos a curiosidade, entre aquilo que el imina, constitu indo-o como pas-
para que os vivos existam. Mais exatamente, ela recebe os mortos, sado, e aquilo que organi za do presente, entre a privação ou a de-
fe itos por uma mudança social, a fim de que seja marcado o espaço sapropriação postulada pela normatividade social que ela impõe
aberto por esse passado e para que, no entanto, permaneça pos- ao leitor, oi sua revelia. Por todos esses aspectos, combinados na
sível articular o q ue surge com o que desaparece. Nomear os au- encenação literária, ela simboliza o desejo que constitui a relação
sentes da casa e introduzi -los na linguagem escritu rária é liberar o com o outro. Ela é a marca dessa lei.
apartamento para os vivos, através de um ato de comu nicação, que N;io é surpreendente que esteja em jogo, aqui, algo diferente
combina a ausência dos vivos na linguagem com a ausência dos do destino ou das possibi lidades de uma "ciência objetiva': Na me-
mortos na casa. Dessa manei ra, uma sOciedade se dâ um presente dida em que nossa relação com a linguagem é sempre uma relação
graças a uma escrita histórica. A instauração literária desse espaço com a morte, o discu rso histórico é a representação privilegiada
relme, então, o trabalho que a prâtica histórica efetuou. de uma "ciência do sujeito", e do sujeito "tomado numa divisão
Substituto do ser ausente, prisão do gênio mau da morte, o constituinte" I!! - mas com a representação das relações que um
texto histórico tem um papel performati vo. A linguagem permite corpo social mantém com a sua lillguagem.
a uma prática situar-se com relação ao seu olltro, o passado. Com
122 LACAN. J:lcques. J:crits. Seuil. 1966. p. 85;. Cf. op. dI" p. 859: MNâoexiste
121 M
Desde o século XVI[. o ütombeau é um genêro literário ou lIlusical. 11 cit'ncia do hOl11~lIl. porque o homelll da ciência não exist~, mas apenas seu
também a t ssc genêro qtH.' pertence o relato historiográfico. sujeito".