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1.2.

BERNARDO SOARES – LIVRO DO DESASSOSSEGO

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICO-LITERÁRIA
1. Quem é Bernardo Soares?
• Semi-heterónimo de Fernando Pessoa;
• Autor do Livro do Desassossego, no qual escreve, em prosa, as reflexões mais internas do seu criador
(Pessoa).
• Assume a personalidade de um ajudante de guarda-livros (empregado de escritório), que vive
modestamente em Lisboa.

Apresentação de Bernardo Soares por Fernando Pessoa

“Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando
sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida
e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de
sofrimento esse ar indicava — parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da
indiferença que provém de ter sofrido muito.
Jantava sempre pouco, e acabava fumando tabaco de onça. Reparava extraordinariamente para as
pessoas que estavam, não suspeitosamente, mas com um interesse especial; mas não as observava como que
perscrutando-as, mas como que interessando-se por elas sem querer fixar-lhes as feições ou detalhar-lhes as
manifestações de feitio. Foi esse traço curioso que primeiro me deu interesse por ele. […]
Fui o único que, de alguma maneira, estive na intimidade dele. Mas — apesar de ter vivido sempre com
uma falsa personalidade sua, e de suspeitar que nunca ele me teve realmente por amigo — percebi sempre
que ele alguém havia de chamar a si para lhe deixar o livro que deixou. Agrada-me pensar que, ainda que ao
princípio isto me doesse, quando o notei, por fim vendo tudo através do único critério digno de um psicólogo,
fiquei’ do mesmo modo amigo dele e dedicado ao fim para que ele me aproximou de si — a publicação deste
seu livro.”

2. Por que razão Bernardo Soares é considerado um semi-heterónimo?


Bernardo Soares é considerado um semi-heterónimo, porque…

• é uma representação, ou uma versão dramatizada, um semi-eu-outro.


• "não sendo a personalidade a minha, é não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou
eu menos o raciocínio e afetividade.", como explica Fernando Pessoa.
Pela similitude do nome e do apelido, com o mesmo número de letras, apresenta uma relação íntima
com Fernando Pessoa. (criatura em relação íntima com o criador).

3. Como se pode definir o Livro do Desassossego?


Há alguma dificuldade em definir esta obra. Trata-se, paradoxalmente, de um “não-livro” ou um “livro às
avessas”, que não tem uma ordem lógica, princípio, meio e fim.
 O Livro do Desassossego demorou vinte anos a ser escrito. Pessoa escreve este livro desde o início da
sua carreira literária.
 É um conjunto de projetos de livro, iniciados em diferentes momentos da vida de Pessoa. Esta obra é,
então, composta por fragmentos.
 O Livro, apesar de se afigurar uma narrativa incompleta, cortada, com “espaços de ausência”, e de
apresentar uma estrutura aparentemente desorganizada, surge, paradoxalmente, aos olhos do leitor
como um todo completo, consistente e coerente.
 Alguns autores consideram esta obra um diário íntimo e lírico escrito em prosa, de forma fragmentada,
em que um guarda-livros solitário, discreto, que anda num vaivém constante entre o real e o sonho,
apresenta visões subjetivas do seu quotidiano.
 O Livro corresponde ao lado confessional e autobiográfico de Pessoa.

Esta obra…

 Manifesta as várias e distintas influências/características da obra de Fernando Pessoa.


 Apresenta a diversidade e unidade do texto pessoano: estas características são expostas num “texto
natural”, “sem artifício visível”, composto por todos os textos, simultaneamente “autónomos” e
“unificados”, representativos dos heterónimos e do ortónimo, distintos mas interligados por um
elemento comum e constante: Fernando Pessoa.
 Expõe uma visão do mundo, dos outros e de si próprio, onde todos dialogam.
 Manifesta a busca incessante pelo infinito.

Perceção e transfiguração poética do real

Fragmento associado:
 “Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida”. (Página 52)

Aspetos Gerais sobre o tema “Perceção e transfiguração poética do real”


A supremacia do ato de sonhar: “Eu nunca fiz senão sonhar”.
A captação do real processa-se através dos vários sentidos integrados no ato de ver: ponto de partida para a
transposição do real.
A focalização em pormenores banais do quotidiano e o seu desdobramento em novas imagens no seu interior
criam a ilusão de um “novo mundo”, distinto do mundo exterior.

O “sonho” surge como a única verdade na vida do sujeito de enunciação e também como a sua
orientação, o seu propósito (“Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida”).

O investimento afetivo nessa realidade ficcional, na sua “vida interior”, por ser o que o separa do real,
permite a atenuação do sofrimento e das angústias (“As maiores dores esbatem-se-me”).
 O sujeito entrega-se ao devaneio e esquece-se de si, participando completamente naquilo que
contempla. A “janela”, por exemplo, é um lugar privilegiado do olhar, leva o sujeito do exterior para o
interior de si, “abrindo” um mundo de perceções e sensações, originadas pela memória.

“Sigo o curso dos meus sonhos, fazendo das imagens degraus para outras imagens; desdobrando, como um
leque, as metáforas casuais em grandes quadros de visão interna; desato de mim a vida, e ponho-a de banda
como a um traje que aperta.”

Bernardo Soares, op. cit., p 435.

 Que cidade irrompe no Livro do Desassossego?

No Livro do Desassossego transparece um fascínio pela cidade de Lisboa, mas a cidade adquire as
características do observador e confunde-se com ele.

 Que característica assume o observador acidental que deambula pela cidade de Lisboa e regista em
prosa o que vê e o que sonha?

O observador que deambula pela cidade, embora partindo de um fragmento de realidade que lhe prende
a atenção, foge constantemente à realidade e transfigura-a.

O imaginário urbano

Fragmento associado:
 “Tudo é absurdo. Este empenha a vida em ganhar dinheiro que guarda, e nem tem filhos a quem o
deixe nem esperança que um céu lhe reserve uma transcendência desse dinheiro. Aquele empenha o
esforço em ganhar fama, para depois de morto, e não crê naquela sobrevivência que lhe dê o
conhecimento da fama. Esse outro gasta-se na procura de coisas de que realmente não gosta. Mais
adiante, há um que(...)”. (Página 61)

Aspetos Gerais sobre o tema “O imaginário urbano”


O sonho: a única verdade na vida do sujeito da enunciação.
Um mundo de perceções e de sensações originadas pela memória.
Um mundo (re)criado (“outra cidade”): disposição distinta da paisagem inicial, composto por elementos
provenientes de espaços distintos do urbano e do sonho.
A modernidade: “fábricas”, “máquinas”, “operários”, “ruas”, ”automóveis”, …

A transfiguração do real e a criação de um “imaginário urbano” advêm de fatores externos (a


observação das pessoas que circundam o sujeito de enunciação) e de fatores internos (a tendência em
focalizar-se em pormenores).
O sujeito cria novas imagens que despertam, em si mesmo, outras sensações.

Esta forma de estar conduz a uma nova (re)criação, a qual apresenta uma disposição diferente da
paisagem inicial, e na qual insere elementos provenientes de espaços distintos do urbano e provenientes do
sonho.

Cria-se, assim, “outra cidade”, dimensionada pelo sujeito de enunciação.

Deambulação física Deambulação onírica

EXTERIOR INTERIOR
CONCRETO ABSTRATO

O carácter infindo do sonho: o poder encerrar “tudo”.

A deambulação e a observação da cidade conduzem o sujeito a um estado de exaustão, de


entorpecimento: a sensação de ter vivido “a vida inteira” em breves momentos.

Olhar

Sonhar
Ver: Metamorfose do real
(ver é metamorfosear o real)

Eu (espectador)

Distância: Bernardo Soares afasta-se


dos outros, olhando para a
humanidade como um deus
omnisciente.
Os outros

 Quem assume a pessoa da escrita no Livro do Desassossego?

No Livro do Desassossego, surge um eu-narrador-transeunte que escreve, que embarca na imaginação,


e que se aproxima muito mais do sujeito lírico de um poema do que de um narrador de 1ª pessoa.
 Em que medida se pode considerar que o imaginário urbano e o quotidiano estão presentes no Livro do
Desassossego?

O Livro do Desassossego constitui um retrato vivo da cidade de Lisboa, onde a evocação do real banal e
quotidiano é feita através de imagens e não tanto de factos. Os aspetos mencionados nestes textos
fragmentários sugerem mais do que descrevem.

O quotidiano

Fragmento associado:
“Quando outra virtude não haja em mim, há pelo menos a da perpétua novidade da sensação liberta.
Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante
de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de
transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de
andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita.” (Página 64)

Aspetos Gerais sobre o tema “O quotidiano”


Lisboa, a cidade do quotidiano: a massa humana, a azáfama das ruas em atividade.
A vida quotidiana do sujeito, transeunte incógnito.
A comparação do eu com as ruas da cidade, que surgem como a materialização daquilo que sente:
prolongamento do interior para o exterior.

Lisboa representa para B. Soares uma fonte inesgotável de “imagens, sons e ritmos para o sonho”.

Deambulação e sonho: o observador acidental

Fragmento associado:
“Quando outra virtude não haja em mim, há pelo menos a da perpétua novidade da sensação liberta.
Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante
de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de
transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de
andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita.” (Página 64)

Aspetos Gerais sobre o tema “Deambulação e sonho: o observador acidental”

• Facilidade de entrega ao devaneio;


• Focalização nos pormenores da realidade circundante: a observação acidental de algo banal conduz
à reflexão e ao sonho.
• Passagem da deambulação física para a deambulação onírica: metamorfose do exterior e projeção das
imagens interior no exterior.
• Capacidade de percecionar, livre e aleatoriamente, a realidade.
O “eu”, ao adotar a posição de espetador, afasta-se dos “outros”, não se incluindo nessa massa
humana caracterizada pela inconsciência. Assume-se, em primeiro lugar, como único ser consciente, olhando
para a humanidade como “um deus”, omnisciente, sentindo compaixão pelos “outros” e, também, uma
ternura infinita, ao olhar para “os outros” e ver neles somente a ingenuidade e a inocência das crianças.

A observação conduz o sujeito a uma deambulação interior, suscitada pela súbita “ternura” que sente
pela banalidade quotidiana, pela “comum vulgaridade humana”.
(“Contento-me, afinal, com muito pouco: o ter cessado a chuva, o haver um sol bom neste Sul feliz, bananas mais amarelas
por terem nódoas negras, a gente que as vende porque fala, os passeios da Rua da Prata, o Tejo ao fundo, azul esverdeado a ouro,
todo este recanto doméstico do sistema do Universo”.)

 Em que medida é que o eu-narrador adota uma postura de observador acidental?

Ao caminhar pelas ruas da cidade de Lisboa, o narrador-transeunte observa o real, mas apresenta-o moldado
pelo sonho, sobrepondo paisagens interiores à paisagem exterior.

 Que outro autor que estudado assumia uma postura idêntica?


Cesário Verde, nos seus poemas, no final do século XIX, assumia também uma atitude de deambulação,
descrevendo múltiplos aspetos da cidade de Lisboa, mas transmitindo sempre a sua impressão de real. O
sujeito poético adotava a postura de observador acidental, ora descrevendo o real ora transfigurando-o.

Linguagem, estilo e estrutura

Natureza fragmentária da obra Linguagem e estilo


- Composta por cerca de 500 fragmentos, - Prosa cuidada que, quando se aproxima da
infinitamente combináveis; escrita diarística, se afasta da expressão banal,
procurando-se originalidade, típica da escrita
- Fragmentos = unidade autónomas, não modernista que domina o livro;
havendo uma retoma da anterior, incompletas, com
hiatos ou inacabadas. - Sintaxe completa: incumprimento
intencional dos mecanismos de coesão frásica;

- Predomínio da dêixis pessoal (1ª pessoa),


que comprova a manifestação da interioridade do
sujeito da enunciação.

- Recursos expressivos utilizados literalmente


(sinédoque) ou de modo intrincado, com rigor
gramatical, através de paradoxos, oxímoros,
encadeamento de metáforas.
 Como podemos caraterizar a linguagem do Livro do Desassossego?

As frases do Livro do Desassossego transmitem múltiplas sensações numa prosa ritmada e com
cadência muito próxima da poesia.

 Que característica formal apresenta o Livro do Desassossego que revela a sua natureza fragmentária?

Formalmente, o Livro do Desassossego está dividido em textos datados que o aproximam do texto diarístico.

Carácter lírico-narrativo.
Discurso dominantemente reflexivo.
Espécie de prosa poética.
Vocabulário simbólico – conotativo.
Frases longas.

• Prosa poética
• Escrita diarística
• Caráter fragmentário

Obra fundadora da ficção portuguesa do século XX


SÍNTESE

• Retrato da cidade (espaço artificial, criado pelo Homem, que roubou espaço natural) de Lisboa:
 Perceção e transfiguração poética do real: Significação metafórica, subjetiva e correlação entre
o real e o imaginário.
 O imaginário urbano: Referências paisagísticas e humanas da cidade de Lisboa.
 O quotidiano: Motivo de devaneio, tal como em Cesário Verde.
 Deambulação e sonho: o observador acidental – Meditação de carácter existencial.

• Evocação do real através de imagens e não de factos.


• Fixação de imagens sugestivas.
• Visão fragmentária do real.
• Fusão vida/sonho.

- O sonho;
O O observador Perceção Tranfiguração -O
Deambulação
quotidiano acidental do real poética do real imaginário
urbano

Bernardo Soares faz da deambulação, física e interior (isto é, onírica) a matéria principal da
sua prosa, assumindo-se como um observador acidental da realidade exterior. A essência da existência de
Soares é marcada pela centralidade dos atos de sonhar e de olhar. Para além disso, foca a vida citadina,
evidenciando a modernidade do imaginário urbano e enternecendo-se com o quotidiano. A observação
da realidade exterior e a focalização do pormenor são, na prosa de Bernardo Soares, o ponto de partida
para a transfiguração poética do real e para uma introspeção intensa, que culmina numa vida interior
vivida de forma ímpar.