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CAO – Crim

Boletim Criminal Comentado – 09/2019


(semana nº 04)

Subprocuradoria-Geral de Justiça de Políticas Criminais e Institucionais


Mário Luiz Sarrubbo

Coordenador do CAO Criminal


Arthur Pinto Lemos Junior

Assessores
Fernanda Narezi Pimentel Rosa
Marcelo Sorrentino Neira
Paulo José de Palma
Ricardo José Gasques de Almeida Silvares
Rogério Sanches Cunha

Analista Jurídica
Ana Karenina Saura Rodrigues
Boletim Criminal Comentado Setembro-
2019- (semana nº 04)

SUMÁRIO

SUMÁRIO --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 2
ESTUDOS DO CAOCRIM -------------------------------------------------------------------------------------------------- 3
1-Tema: Lei 13.654/18 e a alteração da pena pelo Juízo de Execução....................................................3

STF/STJ: decisões de interesse institucional COMENTADAS PELO CAOCRIM------------------------------ 5


DIREITO PROCESSUAL PENAL: ------------------------------------------------------------------------------------------ 5
1- Tema: Medida protetiva. Art. 9º, § 2º, II, da Lei n. 11.340/2016 (Lei Maria da Penha). Manutenção
do vínculo trabalhista. Afastamento do local de trabalho. Vara especializada em violência doméstica
e familiar. Competência........................................................................................................................5

2- Tema: Medida cautelar de suspensão de atividade econômica pode atingir pessoa jurídica.............8

DIREITO PENAL:----------------------------------------------------------------------------------------------------------- 11
1-Tema: Art. 240 do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA. Crime formal. Crime Comum. Crime
de subjetividade passiva própria. Tipo misto alternativo....................................................................11

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ESTUDOS DO CAOCRIM

1-Tema: Lei 13.654/18 e a alteração da pena pelo Juízo de Execução

O inciso I do art. 157 do CP (emprego de arma) foi revogado pela Lei 13.654/18, que acrescentou
ao mesmo artigo 157 o §2º.-A, majorando a pena somente quando o crime for executado com
arma de fogo.

A restrição promovida pela Lei 13.654/18 é benéfica, ou seja, deve retroagir para retirar a
majorante relativa a todos os roubos cometidos com objetos outros que não armas de fogo.

Neste sentido já decidiu o STJ em recurso especial no qual se buscava, originalmente, o reajuste
da pena aplicada em primeira instância, que havia erroneamente desconsiderado a consumação
da subtração cometida com emprego de uma faca:

“A atual previsão contida no art. 157, § 2º-A, inciso I, do Código Penal, incluído pela Lei n.
13.654/2018, limita a possibilidade de aumento de pena à hipótese de a violência ser cometida
mediante emprego de arma de fogo, assim considerado o instrumento que "(...) arremessa
projéteis empregando a força expansiva dos gases gerados pela combustão de um propelente
confinado em uma câmara que, normalmente, está solidária a um cano que tem a função de
propiciar continuidade à combustão do propelente, além de direção e estabilidade ao projétil",
de acordo com o art. 3º, XIII, do Decreto n. 3.665/2000”.

Sabendo que a lei nova que de qualquer modo favorece o agente retroage mesmo depois do
trânsito em julgado, cabe ao juiz da execução aplicar seus termos (Súmula 611 do STF).

Vejamos como vem se comportando a jurisprudência na situação tratada no presente estudo.

STJ- AgRg no HC 509.701/DF, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em
06/08/2019, DJe 15/08/2019

AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. EXCESSO E REFORMATIO IN


PEJUS. INOCORRÊNCIA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.

1. Com a revogação do inciso I pela Lei n. 13.654/18, o Juízo da Execução Penal pode considerar
o emprego de arma branca na primeira fase da dosimetria da pena e deslocar o concurso de
pessoas para a terceira, desde que não seja agravada a situação do sentenciado.

2. Agravo regimental desprovido.

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TJ-SC - Agravo de Execução Penal EP 00061373720198240018 Chapecó 0006137-


37.2019.8.24.0018 (TJ-SC)

Data de publicação: 06/08/2019

EMENTA

RECURSO DE AGRAVO DE EXECUÇÃO PENAL. DECISÃO QUE AFASTA A CAUSA DE AUMENTO DO


EMPREGO DE ARMA (CP, ART. 157, § 2º, I, II e IV, ANTERIOR À LEI 13.654/18) E REFAZ
DOSIMETRIA. RECURSO DO APENADO. 1. ROUBO. EMPREGO DE ARMA BRANCA (CP, ART. 157, §
2º, I). ALTERAÇÃO LEGISLATIVA (LEI 13.654/18). LEI POSTERIOR MAIS BENÉFICA. APLICAÇÃO
RETROATIVA (CF, ART. 5º, XL, E CP, ART. 2º). 2. PENA-BASE (CP, ART. 59, CAPUT). FACA.
CIRCUNSTÂNCIAS DO CRIME. MIGRAÇÃO. JUÍZO DA EXECUÇÃO. COISA JULGADA.

1. É inviável a incidência de causa especial de aumento de pena, referente à arma empregada


na prática do delito, se esta consiste em arma branca.

2. Diante do afastamento da causa de aumento de pena decorrente do emprego de arma branca


para a perpetração do delito (por opção legislativa), torna-se viável a migração dessa
circunstância para elevar a reprimenda na primeira fase dosimétrica, desde que assegurada a
non reformatio in pejus, não havendo óbice que a operação seja realizada pelo Juízo da Execução
Penal com relação à condenação transitada em julgado. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO

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STF/STJ: decisões de interesse institucional COMENTADAS PELO CAOCRIM


DIREITO PROCESSUAL PENAL:

1- Tema: Medida protetiva. Art. 9º, § 2º, II, da Lei n. 11.340/2016 (Lei Maria da Penha).
Manutenção do vínculo trabalhista. Afastamento do local de trabalho. Vara especializada em
violência doméstica e familiar. Competência.

INFORMATIVO 655 STJ- SEXTA TURMA

Compete ao juízo da vara especializada em violência doméstica e familiar a apreciação do pedido


de imposição de medida protetiva de manutenção de vínculo trabalhista, por até seis meses, em
razão de afastamento do trabalho de ofendida decorrente de violência doméstica e familiar.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR:

A amplitude da competência conferida pela Lei n. 11.340/2006 à Vara Especializada tem por
propósito permitir ao mesmo magistrado o conhecimento da situação de violência doméstica e
familiar contra a mulher, permitindo-lhe bem sopesar as repercussões jurídicas nas diversas
ações civis e criminais advindas direta e indiretamente desse fato. Providência que, a um só
tempo, facilita o acesso da mulher, vítima de violência doméstica, ao Poder Judiciário, e confere-
lhe real proteção (RHC n. 100.446, Rel. Ministro Marco Aurélio Belizze, DJe 27/11/2018). Em
relação à Justiça do Trabalho, o art. 114, I, da Constituição Federal prevê sua competência para
processar e julgar as ações oriundas da relação de trabalho. No entanto, no caso, o pedido sobre
o reconhecimento do afastamento do trabalho advém de ameaças de morte sofridas,
reconhecidas pelo juiz criminal, que fixou as medidas protetivas de urgência de proibição de
aproximação da ofendida e de estabelecimento de contato com ela por qualquer meio de
comunicação, conforme previsto no art. 22 da Lei Maria da Penha, circunstâncias alheias ao
contrato de trabalho. O inciso II do § 2º do art. 9º da Lei n. 11.340/2006 prevê que o juiz
assegurará à mulher em situação de violência doméstica e familiar, para preservar sua
integridade física e psicológica, a manutenção do vínculo trabalhista, quando necessário o
afastamento do local de trabalho, por até seis meses. A referida lei prevê, em seu art. 14, a
competência da vara especializada para execução das causas decorrentes de violência
doméstica. Logo, no que concerne à competência para apreciação do pedido de imposição da
medida de afastamento do local de trabalho, cabe ao juiz que reconheceu a necessidade anterior
de imposição de medidas protetivas apreciar o pleito.

PROCESSO: REsp 1.757.775-SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, por unanimidade,
julgado em 20/08/2019, DJe 02/09/2019

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COMENTÁRIOS DO CAO-CRIM

Os mecanismos de assistência à mulher, de acordo com o art 9º. da Lei 11.340/06, tripartem-se
em: (a) “assistência social” (Lei 8.742/1993), incluindo a ofendida no cadastro de programas
assistenciais do governo federal, estadual e municipal;

(b) “à saúde” (Lei 8.080/90), compreendendo o acesso aos benefícios decorrentes do


desenvolvimento científico e tecnológico, incluindo os serviços de contracepção de emergência,
a profilaxia das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e da Síndrome da Imunodeficiência
Adquirida (AIDS) e outros procedimentos médicos necessários e cabíveis nos casos de violência
sexual;

(c) “à segurança pública”, garantindo à vítima proteção policial, bem como abrigo ou local
seguro, quando houver risco de vida e, se necessário, acompanhamento da ofendida para
assegurar a retirada de seus pertences do local da ocorrência ou do domicílio familiar (ver art.
11).

O inciso II do § 2º do art. 9º da Lei n. 11.340/2006 prevê que o juiz assegurará à mulher em


situação de violência doméstica e familiar, para preservar sua integridade física e psicológica, a
manutenção do vínculo trabalhista, quando necessário o afastamento do local de trabalho, por
até seis meses.

Ao juiz é dado, nesse caso, garantir à mulher a manutenção dessa relação jurídico-laboral, a
exemplo do que se verifica no art. 471 da CLT, que trata da suspensão e da interrupção do
contrato de trabalho, in verbis: “Ao empregado, afastado do emprego, são asseguradas, por
ocasião de sua volta, todas as vantagens que, em sua ausência, tenham sido atribuídas à
categoria a que pertencia na empresa”.

Feita essa observação, cumpre pesquisar se a competência para a decretação da assistência é da


Vara da Violência Doméstica ou da Vara do Trabalho.

Uma primeira corrente defende a competência da Vara do Trabalho. Para tanto, lembra a
redação do art. 114 da CF/1988:

“Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar: I – as ações oriundas da relação de trabalho,


abrangidos os entes de direito público externo e da administração pública direta e indireta da
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios”.

Se o que se discute no art. 9º. é a manutenção de um vínculo trabalhista, então matéria acha-se
na competência da Justiça do Trabalho. Sobretudo após o advento da EC 45/2004, que deu nova

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redação ao art. 114 da Constituição, atribuindo à justiça especializada competência para


processar e julgar não somente ações em que se discute vínculo empregatício, mas também toda
e qualquer ação onde se vislumbre uma relação de trabalho, com ou sem vínculo empregatício.

A conveniência em se atribuir à Justiça especializada toda e qualquer causa que envolva relação
de trabalho vem bem apanhada pela jurisprudência do STF, merecendo que se confira: “Órgãos
que se debruçam cotidianamente sobre os fatos atinentes à relação de emprego (muitas vezes
quanto à própria experiência dela) e que por isso mesmo detêm melhores condições para
apreciar toda a trama dos delicados aspetos objetivos e subjetivos que permeiam a relação de
emprego” (CComp 7.204-1/MG, j. 29.06.2005, rel. Min. Ayres Britto).

Ou ainda: “É que a revisão do tema me convenceu de que tanto as ações acidentárias,


evidentemente oriundas de relação de trabalho, como, sem exceção, todas as demais ações
resultantes de relação de trabalho, devam, em nome do mesmo princípio (unidade de
convicção), ser atribuídas à Justiça do Trabalho. A especialização e a universalidade desta já
recomendariam, quando menos em teoria, tal solução” (CComp 7.204-1/MG, j. 29.06.2005, rel.
Min. Cezar Peluso).

Daí, para muitos, o equívoco do legislador em atribuir à Justiça comum (da Vara da Violência
contra a Mulher) a competência para conhecer de matéria que, obviamente, tem cunho
trabalhista e, por consequência, da competência daquela justiça especial. Por tratar-se de
competência firmada no texto maior, não se permite que lei infraconstitucional o afronte, pelo
que o dispositivo em estudo, nesse ponto, pode ser mesmo taxado de inconstitucional. Em
sentido contrário, admitindo a competência do Juizado da Violência Doméstica para conhecer
da matéria, Maria do Perpétuo Socorro Wanderley de Castro.1

Uma segunda corrente discorda, lecionando ser da Vara da Mulher, pois as circunstâncias são
alheias ao contrato de trabalho.

O STJ, no julgado em comento, concordou com esta posição e decidiu ser a competência da vara
especializada para execução das causas decorrentes de violência doméstica, nos termos do art.
14 da Lei.

1 . Idem, ibidem.

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2- Tema: Medida cautelar de suspensão de atividade econômica pode atingir pessoa jurídica

COMENTÁRIOS DO CAO-CRIM

No âmbito das medidas cautelares de natureza pessoal no processo penal, a prisão preventiva é
considerada ultima ratio. É o que se extrai do § 6º do art. 282 do CPP: “A prisão preventiva será
determinada quando não for cabível a sua substituição por outra medida cautelar (art. 319)”.

Este dispositivo reforça o caráter residual da prisão preventiva, a ser imposta, em caráter
excepcional, apenas quando inexistente outra opção. Em atendimento, pois, ao princípio da
presunção de inocência, a regra é a liberdade. Em um estágio intermediário, privilegia-se a
adoção de medidas cautelares. E, apenas em último caso, quando inviável quaisquer das
alternativas anteriores, decreta-se a prisão preventiva. A possibilidade de adoção da medida
cautelar rompe, assim, com a anterior bipolaridade, que se restringia a duas possibilidades: a
prisão ou a liberdade provisória (com ou sem fiança).

O Código de Processo Penal elenca no art. 319 as medidas que podem servir de alternativa à
prisão, dentre as quais se encontra a suspensão do exercício de função pública ou de atividade
de natureza econômica ou financeira quando houver justo receio de sua utilização para a prática
de infrações penais.

Tratando-se de crimes de caráter econômico ou financeiro, é comum que a atividade


desempenhada pelo agente sirva como meio para alcançar a finalidade delitiva. Alguém pode
utilizar uma revendedora de veículos para lavar dinheiro proveniente de corrupção, por
exemplo. Em situações como esta, pode o juiz decretar a suspensão da atividade para evitar a
perpetuação da prática delituosa. Como destaca Jorge Luis Le Cocq D’Oliveira “o alvo foram os
autores de crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, ou seja, dos chamados crimes do
colarinho branco. Além do natural prejuízo à colheita de provas, seria um escárnio que, tanto
em um como em outro caso, o agente continuasse a exercer suas funções e a enriquecer
ilicitamente, enquanto sua conduta estivesse sendo apurada” (O Novo Regime das Medidas
Cautelares no Processo Penal, in “O Novo Regime Jurídico das Medidas Cautelares no Processo
Penal”, Rio de Janeiro: Emerj, 2002, p. 195).

Outro exemplo que pode ser citado – e que foi objeto de julgamento pelo STJ no RMS 60.818/SP
(j. 20/08/2019) – é o de quem utiliza postos para vender combustíveis furtados, roubados ou
adulterados.

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No caso julgado, o agente, dono de um posto de combustíveis, era apontado como membro de
uma organização criminosa responsável pelo roubo de 291.000 litros de etanol e de 1.000 litros
de óleo diesel, parte dos quais era revendida no posto de propriedade do investigado.

Mas o julgamento teve uma peculiaridade: o que se discutia era a suspensão da atividade
econômica do posto de combustíveis, não do proprietário, que já estava preso preventivamente.
A empresa havia ajuizado mandado de segurança alegando que a cautelar fundamentada no inc.
VI do art. 319 do CPP não poderia ser decretada contra pessoa jurídica que não era investigada
e nem denunciada, dada a natureza dos crimes apurados, que não permitem a responsabilização
criminal do ente fictício. Alegava-se ainda ser indevida a cumulação da prisão preventiva do dono
do posto com a cautelar de suspensão da atividade econômica do mesmo estabelecimento.

O mandado de segurança ajuizado perante o Tribunal de Justiça de São Paulo foi denegado, razão
pela qual houve recurso ao STJ, que manteve a decisão sob o argumento de que a jurisprudência
do tribunal se firmou no sentido de ser possível à cautelar atingir pessoas jurídicas utilizadas
como instrumentos da prática de crimes financeiros:

“Com efeito, não há necessidade de que a pessoa jurídica tenha sido denunciada por crime para
que lhe sejam impostas medidas cautelares tendentes a recuperar o proveito do crime, a
ressarcir o dano por ele causado ou mesmo a prevenir a continuação do cometimento de delitos,
quando houver fortes evidências, como no caso dos autos, de que a pessoa jurídica é utilizada
como instrumento do crime de lavagem de dinheiro.

Desnecessário, também, que haja prévia sentença condenatória transitada em julgado para a
imposição da suspensão de atividade comercial de empresa, já que a medida cautelar somente
demanda fortes indícios da existência de crime.

Com efeito, a jurisprudência desta Corte vem entendendo que a suspensão do exercício de
atividade econômica ou financeira de pessoa jurídica tem amparo legal no art. 319, VI, do CPP e
está intimamente ligada à possibilidade de reiteração delitiva e à existência de indícios de crimes
de natureza financeira.

(…)

No caso concreto, a autoridade apontada como coatora indicou a existência de fortes indícios
de que a empresa recorrente era utilizada para comercializar o combustível roubado pela
organização criminosa, suspeita essa fortalecida pelo fato de que alguns dos integrantes da
organização constavam na folha de pagamento da empresa.

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(…)

Também não socorre a recorrente a tese de que seria ilegal a cumulação de prisão preventiva
com outras medidas cautelares. A permissão para que isso ocorra está expressa no art. 282, §
1º, do CPP e se justifica, na hipótese em exame, na medida em que a restrição da liberdade é
dirigida ao denunciado e a medida cautelar objeto da controvérsia atinge pessoa jurídica
utilizada como instrumento do crime. Como bem ponderou a autoridade apontada como
coatora, “a prisão se destina à restrição da liberdade do denunciado, para evitar que a prática
criminosa seja reiterada por ele e a suspensão das atividades é para impedir que a própria
atividade econômica seja utilizada para a prática de crimes por outros agentes” (e-STJ fl. 37).
Essa suspeita é reforçada pela afirmação da empresa recorrente de que a administração do posto
“se dá (como sempre se deu) pela gerente da empresa” (e-STJ fl. 542).

Muito embora o art. 282, § 6º, do CPP recomende que a prisão preventiva somente seja imposta
em ultima ratio, quando não for cabível a sua substituição por outra medida cautelar prevista no
art. 319 do CPP, a recomendação não constitui impedimento de imposição concomitante de
outras medidas cautelares. Isso não é raro, por exemplo, quando se determina a prisão
preventiva de investigados ou denunciados e o sequestro de valores ou bens de sua propriedade,
ou até mesmo de propriedade de terceiros, que se acredita constituírem produto ou
instrumento de crime.”

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DIREITO PENAL:

1-Tema: Art. 240 do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA. Crime formal. Crime
Comum. Crime de subjetividade passiva própria. Tipo misto alternativo.

INFORMATIVO 655 STJ- QUINTA TURMA

O delito do art. 240 do ECA é classificado como crime formal, comum, de subjetividade passiva
própria, consistente em tipo misto alternativo.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR:

O crime do art. 240 do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA se insere no contexto de


proibição da produção e registro visual, por qualquer meio, de cenas de sexo explícito, no sentido
da interpretação autêntica do art. 241-F do ECA, envolvendo crianças e adolescentes, o que
caracteriza violência sexual, nos termos do art. 4º da Lei n. 13.431/2017. No caso, o paciente,
mediante aparelho celular, registrou imagens e filmou cenas de sexo explícito entre os corréus
e duas adolescentes, o que, segundo o Tribunal a quo, com uma única conduta teria cometido
dois crimes, incidindo em concurso formal de crimes. Primeiramente, o fato de ter fotografado
e filmado as cenas de sexo indica a execução de dois verbos, com dupla conduta, todavia,
representando subordinação típica única, tendo em vista sua realização no mesmo contexto
fático. Por conseguinte, da execução de mais de um verbo típico representa único crime, dada a
natureza de crime de ação múltipla ou conduta variada do tipo em comento. O concurso formal
próprio ou perfeito (CP, art. 70, primeira parte), cuja regra para a aplicação da pena é a da
exasperação, foi criado com intuito de favorecer o réu nas hipóteses de unicidade de conduta,
com pluralidade de resultados, não derivados de desígnios autônomos, afastando-se, pois, os
rigores do concurso material (CP, art. 69). No caso, as instâncias ordinárias entenderam que a
conduta do réu realizou dois resultados típicos, haja vista a existência de duas adolescentes
filmadas e fotografadas em sexo explícito. Verifica-se, entretanto, que inexistem dois resultados
típicos, porquanto o crime em questão é formal ou de consumação antecipada, consumando-se,
pois unicamente pela prática da conduta de filmar ou fotografar cenas de sexo explícito, da qual
participe criança ou adolescente. O efetivo abalo psíquico e moral por elas sofrido ou a
disponibilidade das filmagens ou fotos é mero exaurimento do crime, irrelevantes para sua
consumação, motivo pelo qual a quantidade de vítimas menores filmadas ou fotografadas é
elemento meramente circunstancial, apto a ser valorado na pena-base, sem, contudo, indicar
qualquer subsunção típica adicional. Por conseguinte, como as condutas de filmar e fotografar
foram executadas durante o mesmo contexto fático, relativo ao ato sexual conjunto de dois

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corréus com duas adolescentes, há duas condutas de subsunção típica única, motivo pelo qual
se conclui pela existência de crime único.

PROCESSO: PExt no HC 438.080-MG, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Quinta Turma, por unanimidade,
julgado em 27/8/2019, DJe 2/9/2019

COMENTÁRIOS DO CAO-CRIM

No caput do art. 240 do ECA são seis as condutas típicas previstas, todas ligadas, direta ou
indiretamente, à criação de material pornográfico envolvendo criança e adolescente: produzir
(pôr em prática, levar a efeito, realizar), reproduzir (apresentar novamente, imitar fielmente),
dirigir (dar orientação, comandar), fotografar (imprimir a imagem de alguém por meio da
fotografia), filmar (registrar a imagem de alguém por meio de vídeo) e registrar (alocar em bases
de dados) cena de sexo explícito ou pornográfica, assim entendida qualquer situação que
envolva criança ou adolescente em atividades sexuais explícitas, reais ou simuladas, ou exibição
dos órgãos genitais de uma criança ou adolescente para fins primordialmente sexuais (art. 241-
E).

Trata-se de tipo misto alternativo, ou seja, se o agente, no mesmo contexto fático, incorrer em
mais de uma ação nuclear típica (dirigir e filmar, por exemplo), responderá por apenas um crime,
embora isso possa se refletir na aplicação da pena.

O § 1.º equipara ao caput, impondo a mesma pena, a conduta de quem:

a) agencia (trata com terceiros, diligencia), facilita (propicia sem a exigência de esforço), recruta
(alicia, angaria), coage (constrange, força), ou, de qualquer modo, intermedeia (põe-se entre
duas ou mais pessoas com a finalidade de tratar sobre determinado assunto) a participação de
criança ou adolescente nas cenas referidas no caput;

b) com eles contracena (participa efetivamente da cena de sexo explícito ou pornográfica criada).
Como já atentado nas considerações iniciais, esta última conduta, principalmente, pode também
configurar crime mais grave, como no caso de o agente praticar cena de sexo explícito com uma
criança de dez anos de idade, por exemplo, caracterizando estupro de vulnerável.

A exemplo do que exposto no caput, se o agente, no mesmo contexto fático, praticar mais de
uma conduta, não desnatura a unidade do crime, devendo a multiplicidade de ações ser
considerada na aplicação da reprimenda.

O § 2.º do dispositivo em estudo estabelece três majorantes, determinando a elevação da pena


em um terço se o agente comete o crime:

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I – no exercício de cargo ou função pública ou a pretexto de exercê-la: cargo público é a reunião


de atribuições conferidas ao servidor, criadas por lei, em número determinado e com
denominação própria; função pública é aquela que pode ser exercida sem o revestimento de
cargo público, pois nem sempre é criada por lei, em número certo. Nas hipóteses em que a
função é exercida com fundamento em um contrato regido pela CLT, denomina-se emprego
público. Incide a causa de aumento tanto nas hipóteses em que o agente exerce o cargo ou a
função quando pratica o crime como também se se vale disso para a prática;

II – prevalecendo-se de relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade: relações


domésticas são aquelas estabelecidas entre pessoas que compartilham do mesmo núcleo
familiar, ainda que não haja relação direta de parentesco, embora seja mais comum sua
existência. Com efeito, é possível que pessoas reunidas em um mesmo núcleo, sejam parentes
ou não, estabeleçam relações domésticas caracterizadas pela rotina própria de uma família. As
relações de coabitação são aquelas estabelecidas entre indivíduos que compartilham o mesmo
teto, ainda que não nutram qualquer espécie de amizade ou intimidade, como os habitantes de
uma pensão, por exemplo. Por fim, as relações de hospitalidade são aquelas caracterizadas pela
temporariedade, como as visitas. Justifica-se a majoração da pena porque, nessas hipóteses, o
agente se aproveita da proximidade que mantém com a vítima;

III – prevalecendo-se de relações de parentesco consanguíneo ou afim até o terceiro grau, ou


por adoção, de tutor, curador, preceptor, empregador da vítima ou de quem, a qualquer outro
título, tenha autoridade sobre ela, ou com seu consentimento: a última causa de aumento
prevista para o delito complementa o inciso anterior. Neste caso, a conduta é punida de forma
mais severa quando praticada com aproveitamento dos laços de parentesco, consanguíneo ou
não, bem como de qualquer relação de subordinação entre a vítima e o agente. Bem assim,
contempla o dispositivo, expressamente, o tutor, o curador, o preceptor e o empregador da
vítima. O fundamento desta causa de aumento é idêntico ao da anterior, ou seja, a maior
proximidade estabelecida entre o sujeito ativo e a criança ou adolescente submetido às cenas
de sexo explícito ou de pornografia.

O crime é punido a título de dolo, consubstanciado na vontade consciente de praticar uma das
ações nucleares típicas preconizadas no caput e no § 1.º, sem a exigência de qualquer finalidade
específica.

O momento consumativo do delito é atingido pela prática de qualquer das ações nucleares
típicas. Trata-se de crime formal, na linha do que decidido no julgado em comento.

Tratando-se de crime plurissubsistente, admite-se a tentativa.

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Em regra, a competência para o processo e julgamento é da Justiça Estadual, salvo se presente


alguma das hipóteses do art. 109 do CP, quando, então, a competência será da Justiça Federal.

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