Você está na página 1de 90

EDLA TROCOLI

SABRINA BONFATTI

Educação inclusiva

1ª Edição

Brasília/DF - 2018
Autores
Edla Trocoli
Sabrina Bonfatti

Produção
Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e
Editoração
Sumário
Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa...................................................................................................... 4

Introdução.............................................................................................................................................................................. 6

Aula 1
Marcos políticos, sociais e legais da educação especial sob a ótica da educação inclusiva.............. 7

Aula 2
A Escola Inclusiva........................................................................................................................................................16

Aula 3
O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva............................. 29

Aula 4
Direitos humanos: cidadania, família, escola.....................................................................................................46

Aula 5
Tecnologia assistiva e informática educativa....................................................................................................60

Aula 6
Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional........................................... 73

Referências .........................................................................................................................................................................89
Organização do Caderno de
Estudos e Pesquisa
Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos,
de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com
questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável.
Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras
e pesquisas complementares.

A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de
Estudos e Pesquisa.

Atenção

Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a


síntese/conclusão do assunto abordado.

Cuidado

Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o
aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado.

Importante

Indicado para ressaltar trechos importantes do texto.

Observe a Lei

Conjunto de normas que dispõem sobre determinada matéria, ou seja, ela é origem,
a fonte primária sobre um determinado assunto.

4
Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa

Para refletir

Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa
e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio.
É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus
sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas
conclusões.

Provocação

Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor
conteudista.

Saiba mais

Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões


sobre o assunto abordado.

Sintetizando

Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o


entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.

Sugestão de estudo complementar

Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo,


discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.

Posicionamento do autor

Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o
aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado.

5
Introdução
Nosso principal objetivo neste Caderno é demonstrar que, em um sistema escolar voltado
para a construção de uma comunidade escolar inclusiva, são necessários o planejamento e o
desenvolvimento do currículo que conduza aos resultados esperados pela sociedade e pelos
setores educacionais. É estar preparada para modificar os sistemas de apoio para os alunos à
medida que as suas necessidades mudem.

Objetivos

»» Promover o aprendizado objetivando práticas mais cooperativas e menos competitivas


nas salas de aula e na escola.

»» Reconhecer a importância da rotina na sala de aula e na escola para que todos recebam
apoio necessário para participarem de forma igual e plena.

»» Compreender que todas as atividades da sala de aula necessitam de acomodações e


a participação de todos ativamente, inclusive daqueles que apresentam necessidades
educacionais especiais.

»» Infundir valores positivos no sistema escolar de respeito, solidariedade, cooperação.

»» Reconhecer a importância de desenvolver rede de apoio, com todos, para resolverem


problemas, com a finalidade de ajudar não somente os alunos, mas também os professores,
para que possam ser bem-sucedidos em seus papéis.

6
AULA
MARCOS POLÍTICOS, SOCIAIS E
LEGAIS DA EDUCAÇÃO ESPECIAL SOB
A ÓTICA DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA 1
Introdução

Abordaremos, nesta primeira unidade, o percurso histórico do processo de inclusão social e


educacional, analisando o caminho percorrido em direção à inclusão de alunos com necessidades
educacionais especiais. Refletiremos sobre o tratamento dado às pessoas com deficiência, desde a
Antiguidade Clássica até o contexto contemporâneo de implementação de políticas educacionais
voltadas para a inclusão desses alunos.

Objetivos

»» Promover reflexão crítica sobre as políticas da Educação Inclusiva no Brasil e no mundo.

»» Discutir e analisar a política brasileira para a Educação Inclusiva.

»» Compreender o processo de criação do movimento de inclusão, entendendo a quebra


de paradigma na área de Educação Especial.

7
AULA 1 • Marcos políticos, sociais e legais da educação especial sob a ótica da educação inclusiva

A criação do Movimento da Educação Inclusiva

Por Educação Inclusiva entende-se o atendimento educacional de pessoas com deficiência, isto
é, daqueles que apresentam impedimentos de longo prazo, de natureza mental, física, sensorial,
múltiplas deficiências, distúrbios de conduta e os superdotados. É preciso esclarecer que ter
uma deficiência não quer dizer que o sujeito precise de atendimento educacional especializado.
Isto só é necessário quando os impedimentos mencionados restringem a participação plena e
efetiva na escola e na sociedade. O desenvolvimento harmonioso do educando sob os aspectos
individual, individual-social e predominantemente social é o que se pretende atingir no processo
educativo. A autorrealização, a qualificação para o trabalho, o exercício consciente da cidadania
são decorrências de uma ação educativa eficaz e eficiente, seja ela dirigida a indivíduos com
deficiência ou não.

A Educação Especial passa atualmente por um momento de revisão epistemológica, que se


caracteriza pelo movimento da Educação Inclusiva. Esse movimento é consequência de mudanças
ocorridas nas atitudes sociais que foram se estabelecendo ao longo da história, com relação ao
tratamento dado às pessoas com deficiência. Para entendermos o ponto que chegamos aos dias
atuais, é necessário fazermos uma análise histórica de como a pessoa com deficiência foi vista
ao longo dos tempos.

Não há muitas informações disponíveis sobre como era o tratamento dado às pessoas com
deficiência nas sociedades ocidentais, nos tempos mais antigos. Há um grande silêncio na história
oficial quando se trata de abordar a trajetória de sujeitos excluídos da vida política, econômica
e social, como ocorria com as pessoas com deficiência.

O que sabemos é que, na Antiguidade Clássica, a segregação e o abandono das pessoas com
deficiência eram institucionalizados. Na Grécia, as pessoas com deficiência eram mortas,
abandonadas à sua sorte e expostas publicamente; em Roma, havia uma lei que dava o direito
ao pai de eliminar a criança logo após o parto.

Na civilização greco-romana o Estado tinha o direito de não permitir que cidadãos “disformes ou
monstruosos” vivessem, ordenando ao pai que matasse o filho que nascesse nessas condições.
Isso indica que era legal (no sentindo jurídico da palavra) a marginalização de pessoas com
deficiências, consideradas verdadeiras aberrações e, por isso, não tinham o direito à vida.

Na Idade Média, a visão cristã correlacionava a deficiência à culpa, ao pecado ou a qualquer


transgressão moral e/ou social. A deficiência era vista como um castigo, marcando filhos de
pecadores física, sensorial ou mentalmente. Essas marcas impediam a família do contato com
a divindade.

8
Marcos políticos, sociais e legais da educação especial sob a ótica da educação inclusiva • AULA 1

A primeira tentativa científica de estudo das pessoas com deficiência surgiu no século XVI, com
Paracelso e Cardano, médicos alquimistas que defendiam a possibilidade de tratamento da
pessoa com deficiência.

Foi apenas no século XIX que alguns cientistas, como Phillip Pinel, começaram a dar um caráter
científico para as deficiências. Além de Pinel, Down, Itard, Esquirol, dentre outros, passaram a
descrever, cientificamente, a etiologia de cada deficiência, em uma perspectiva clínica. Contudo,
observamos um retrocesso no começo do século XX, quando os governos nazistas exterminaram
milhares de pessoas com deficiência.

Apesar de, atualmente, observarmos progressos na concepção científica das deficiências, muitas
atitudes e concepções se assemelham às concepções da antiguidade. Em relação à Educação
Especial, três atitudes sociais marcam a história no tratamento à pessoa com deficiência:
marginalização, assistencialismo e reabilitação.

A marginalização caracteriza-se por atitudes de descrença nas possibilidades e potencialidades


da pessoa com deficiência. Consequentemente, há uma completa omissão da sociedade em
relação à organização de serviços para essa população.

O assistencialismo é marcado por atitudes paternalistas na medida em que se acredita na


incapacidade da pessoa com deficiência. A partir de princípios cristãos de solidariedade,
busca-se, apenas, a proteção dessas pessoas.

Já na educação focada na reabilitação, há a crença na capacidade de mudança do indivíduo e


as ações resultantes são voltadas para a organização de serviços educacionais. Aqui, o foco da
aprendizagem não é o crescimento do sujeito, e, sim, “adestrá-lo” para que se adeque melhor às
exigências da sociedade.

Entendemos que tais atitudes sociais são frutos das representações que carregamos desde a
antiguidade. Associando a trajetória da Educação Especial com as representações simbólicas
da deficiência, é possível afirmar que até o começo do século XX a educação da pessoa com
deficiência era excludente, visto que a pessoa era considerada indigna e incapaz de receber uma
educação escolar como os outros, chamados, hoje em dia, de “típicos”. Mesmo com os estudos
científicos da época que demostravam as possibilidades de tratamento clínico e adequação à
vida em sociedade, predominavam as concepções filosóficas de marginalização e segregação
dessas pessoas.

Foi a partir da década de 1950 que começaram as surgir as primeiras escolas especializadas e as
turmas especiais. A Educação Especial se consolidava como um subsistema da Educação Comum.
Nessa época, a atitude social assistencialista, presente na Idade Média, era predominante nas
instituições, de maioria filantrópica, de atendimento aos alunos com deficiência.

9
AULA 1 • Marcos políticos, sociais e legais da educação especial sob a ótica da educação inclusiva

Foi a partir da década de 1970, com o surgimento da proposta de integração, que alunos com
deficiência passaram a frequentar as classes comuns das escolas. Os avanços nos estudos da
Psicologia e Pedagogia demonstravam as possibilidades educacionais desses alunos. Contudo,
ainda predominava a atitude social da educação como reabilitação, considerado o novo paradigma
educacional. Os alunos com deficiência ainda vivenciavam a marginalização no sistema
educacional, uma vez que as escolas não ofereciam as condições necessárias para que o aluno
com deficiência alcançasse sucesso na escola regular. A dita integração caracterizava-se, apenas,
pela inserção física desses alunos na rede comum de ensino.

Os alunos só eram considerados integrados quando conseguiam se adaptar à classe comum


da forma como ela se apresentava, sem que houvesse adequação no sistema educacional já
estabelecido. Ou seja, era a pessoa com deficiência que precisava “se encaixar” naquela classe,
dita comum, e não a escola se adequar às necessidades daquela pessoa. Verifica-se outra vez, a
coexistência das atitudes de educação/reabilitação e de marginalização no contexto educacional.

Foi nessa época que surgiu o conceito “necessidades educacionais especiais”, no então chamado
Relatório Warnock (1978), apresentado ao Parlamento do Reino Unido. Esse relatório, organizado
pelo primeiro Comitê do Reino Unido, presidido por Mary Warnock, foi constituído para rever
o atendimento aos deficientes. Os resultados evidenciaram que uma em cada cinco crianças
apresentava necessidades educacionais especiais em algum período do seu percurso escolar, no
entanto, não existe essa proporção de deficientes. Daí o surgimento no relatório da proposta de
adotar o conceito de necessidades educacionais especiais. (BRASIL, MEC, 2010). Essa terminologia
tem o intuito de deslocar o foco de atenção do aluno com necessidades educacionais especiais
para as respostas educativas da escola, com o firme propósito de promover uma educação de
qualidade para todos.

Na década de 1990, o conceito de necessidade educacional especial foi ampliado, abrangendo não
só as crianças e jovens com deficiência, mas, também, as com altas habilidades/superdotadas,
crianças em situação de rua, de populações remotas ou nômades, de minorias étnicas ou culturais
e crianças de áreas ou grupos desfavorecidos ou marginalizados. A Declaração de Salamanca, um
dos documentos mais importantes da história sobre os direitos à Educação, e que estudaremos
mais à frente, traz um novo conceito, o de “educação para todos”.

Foi entre as décadas de 1980 e 1990 que teve início a proposta de inclusão dos alunos com
necessidades educacionais especiais em uma perspectiva inovadora em relação à proposta
de integração da década anterior. Nessa nova proposta, os sistemas educacionais passam a
ser responsáveis por criar condições para promover uma educação de qualidade para todos,
adequando sua estrutura física e curricular para atender às necessidades de cada aluno. Ou seja,
há uma quebra de paradigma, uma vez que não é mais o aluno que tem que se adequar à escola
comum, e, sim, a escola deve atender às necessidades educacionais de cada aluno.

10
Marcos políticos, sociais e legais da educação especial sob a ótica da educação inclusiva • AULA 1

No Movimento de Educação Inclusiva, os alunos são respeitados em suas diversidades. Aqui,


a deficiência é entendida como diferença, que faz parte da diversidade humana e não pode
ser negada, porque é essa diferença que caracteriza cada pessoa, sua forma de agir, sentir e
ser. Segundo a Declaração de Salamanca, para promover uma Educação Inclusiva, os sistemas
educacionais devem assumir que

“as diferenças humanas são normais e que a aprendizagem deve se adaptar


às necessidades das crianças ao invés de se adaptar a criança a assunções
preconcebidas a respeito do ritmo e da natureza do processo de aprendizagem”
(BRASIL, 1994, p. 4).

A Educação Inclusiva tem como objetivo reduzir as pressões que levem à exclusão e a todas as
desvalorizações, sejam elas relacionadas à capacidade, ao desempenho cognitivo, à raça, ao gênero,
à classe social, à estrutura familiar, ao estilo de vida ou à sexualidade. Então, não podemos falar
em Educação Inclusiva sem pensar na realidade social de exclusão a que a maioria dos povos
está condenada. As estatísticas de desemprego, fome, analfabetismo e violência revelam um
cenário internacional dominado pelas diferentes formas de exclusão social. Realidades como
essas, lamentavelmente, não são exceção e, sim, mais uma regra de um mundo caracterizado
pela globalização neoliberal em que falar de diversidade é quase um paradoxo.

Acreditamos que a Educação Inclusiva seja um caminho possível para que países marcados
por desigualdades sociais enfrentem problemas de exclusão social e educacional, por meio das
mudanças sugeridas a partir da inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais no
sistema regular de ensino. O respeito à diversidade é um dos pilares básicos da Educação Inclusiva
que se converte em alternativa para que os sistemas educacionais rompam, definitivamente,
com as diferentes formas de exclusão educacional.

Observamos, ao longo da nossa exposição, que na trajetória que vai da falta de atendimento
aos alunos com necessidades educacionais especiais associadas à deficiência e passa pela
consolidação da Educação Especial enquanto subsistema até chegar à proposta de Educação
Inclusiva, verifica-se que muitas barreiras foram derrubadas.

Porém, ainda existem muitas outras barreiras a serem enfrentadas. A segregação, marginalização e
assistencialismo ainda perpassam nosso imaginário sociocultural. Uma maneira de observarmos
essas atitudes sociais é a terminologia que ainda ouvimos em nossas escolas e na própria
sociedade de maneira geral. Expressões como: inválidos, anormais, excepcionais, incapacitados,
subnormais, deficientes, portador de deficiência e portadores de necessidades educacionais especiais
ainda são comuns dentro das escolas brasileiras. O primeiro passo, e, talvez, o mais simples de
ser executado, é aprendermos e utilizarmos o termo correto: pessoa com deficiência.

11
AULA 1 • Marcos políticos, sociais e legais da educação especial sob a ótica da educação inclusiva

Avanços na legislação e políticas públicas rumo à Educação


Inclusiva

No capítulo anterior, conhecemos o percurso histórico da deficiência. Alinhado a esse processo,


o Brasil foi construindo suas leis na tentativa de possibilitar direitos iguais a todos os cidadãos
brasileiros com deficiência, possibilitando o acesso de alunos com deficiência ao sistema regular
de ensino, embora saibamos que a inclusão ainda é uma meta a ser alcançada.

A pessoa com deficiência como ser humano, tem os mesmos direitos que as demais. O art.
5o, caput, da Constituição Federal (BRASIL, 1988), estabelece que:

Art. 5o Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade
do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à  segurança e à propriedade, nos
termos seguintes: (...).

A Convenção Internacional sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência é equivalente a emenda


constitucional e, consequentemente, deve sempre servir de base para interpretação das normas
do ordenamento jurídico brasileiro, referentes às pessoas com deficiência. Para a Convenção
Internacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (2007)

as pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo
de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, com interação com
diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade
em igualdades de condições com as demais pessoas.

Como podemos observar, o princípio da igualdade é a maior de todas as regras e deve ser invocado
para garantir o direito à integração social e educacional da pessoa com deficiência.

Até meados do século XX, as pessoas com deficiência eram vistas como sujeitos incapazes, portanto,
sem direitos e deveres de participação na sociedade. A primeira diretriz política norteadora foi
a Declaração Universal dos Direitos Humanos quando preconizou que “Todo ser humano tem
direito à educação”.

Na década de 1960, pais e parentes de pessoas com deficiência organizam-se. Surgem as primeiras
críticas à segregação. Teóricos defendem a normalização, ou seja, a adequação dos “deficientes”
à sociedade para permitir a sua integração. A Educação Especial no Brasil aparece pela primeira
vez na LDB – Lei no 4.024, de 1961. A lei aponta que a educação dos “excepcionais” deve, no que
for possível, enquadrar-se no sistema geral de educação.

Na década de 1970, os Estados Unidos avançam nas pesquisas e teorias de inclusão para
proporcionar condições melhores de vida aos mutilados da Guerra do Vietnã. A Educação Inclusiva
tem início naquele país via Lei no 94.142, de 1975, que estabelece a modificação dos currículos

12
Marcos políticos, sociais e legais da educação especial sob a ótica da educação inclusiva • AULA 1

e a criação de uma rede de informação entre escolas, bibliotecas, hospitais e clínicas. No Brasil,
no ano de 1978, pela primeira vez, uma emenda à Constituição brasileira, em seu art. 1o, trata
do direito da pessoa deficiente: “É assegurada aos deficientes a melhoria de condição social e
econômica especialmente mediante Educação Especial e gratuita”.

Em 1985, a Assembleia Geral das Nações Unidas lança o Programa de Ação Mundial para as
Pessoas com Deficiência e recomenda: “Quando for pedagogicamente factível, o ensino das
pessoas deficientes deve acontecer dentro do sistema escolar normal”.

No Brasil, o interesse pelo assunto é provocado pelo debate antes e depois da Constituinte. A
nova Constituição, promulgada em 1988, garante atendimento educacional especializado aos
“com deficiência”, preferencialmente na rede regular de ensino.

A Lei Federal no 7.853, de 1989, no item da Educação, prevê a oferta obrigatória e gratuita da
Educação Especial em estabelecimentos públicos de ensino e prevê crime punível com reclusão
de um a quatro anos e multa para os dirigentes do ensino público ou particular que recusar ou
suspender, sem justa causa, a matrícula de um aluno.

A Conferência Mundial sobre Educação para Todos, realizada em março de 1990, na cidade
de Jomtien, Tailândia, prevê que as necessidades educacionais básicas sejam oferecidas para
todos (mulheres, camponeses, refugiados, negros, índios, presos e pessoas com deficiência) pela
universalização do acesso, promoção da igualdade, ampliação dos meios e conteúdos da Educação
Básica e melhoria do ambiente de estudo. Ainda em 1990, o Brasil aprova o Estatuto da Criança
e do Adolescente, que reitera os direitos garantidos na Constituição: atendimento educacional
especializado para alunos com deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino.

Em junho de 1994, dirigentes de mais de 80 países se reúnem na Espanha e assinam a Declaração


de Salamanca, um dos mais importantes documentos de compromisso de garantia de direitos
educacionais. Ela proclama as escolas regulares inclusivas como meio mais eficaz de combate
à discriminação. E determina que as escolas devam acolher as crianças, independentemente de
suas condições físicas, intelectuais, emocionais ou linguísticas.

Uma consequência imediatamente visível à Educação Especial reside na ampliação da clientela


potencialmente nomeada como possuindo necessidades educacionais especiais. Outra se verifica
na necessidade de inclusão da própria Educação Especial dentro dessa estrutura de “educação
para todos”, oficializada em Jomtiem. Entre outras coisas, o aspecto inovador da Declaração
de Salamanca consiste justamente na retomada de discussões sobre essas decorrências e no
encaminhamento de diretrizes básicas para a formulação e reforma de políticas e sistemas
educacionais. Assim, segundo o seu próprio documento afirma (UNESCO, 1994), a Conferência
de Salamanca:

13
AULA 1 • Marcos políticos, sociais e legais da educação especial sob a ótica da educação inclusiva

(...) proporcionou uma oportunidade única de colocação da Educação Especial


dentro da estrutura de “educação para todos” firmada em 1990 (...) Ela promoveu
uma plataforma que afirma o princípio e a discussão da prática de garantia da
inclusão das crianças com necessidades educacionais especiais nestas iniciativas
e a tomada de seus lugares de direito numa sociedade de aprendizagem.

No que diz respeito ao conceito de necessidades educacionais especiais, a Declaração assegura


que:

...durante os últimos 15 ou 20 anos, tem se tornado claro que o conceito de


necessidades educacionais especiais teve que ser ampliado para incluir todas
as crianças que não estejam conseguindo se beneficiar com a escola, seja por
que motivo que for.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional no 9.394, publicada em 1996, ajusta-se à legislação
federal e aponta que a educação dos alunos com necessidades educacionais especiais, deve se
dar preferencialmente na rede regular de ensino.

Seguindo diretrizes da Educação Inclusiva, o Brasil, em agosto de 2009, sancionou a Convenção


Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2006). Essa Convenção
foi acolhida por nosso ordenamento jurídico, pelo Decreto no 6.949, de 25 de agosto de 2009.
Estabelece a convenção a  plena e efetiva participação e inclusão na sociedade; igualdade de
oportunidades. Destacando no Artigo 24,

Da Educação – a garantia de sistema educacional inclusivo em todos os níveis,


bem como o aprendizado ao longo de toda a vida, com vistas à garantia de
matrícula, permanência, participação, com pertencimento, ou seja, visando ao
pleno desenvolvimento, garantindo, se necessário, adaptações curriculares, e
que medidas de apoio individualizadas e efetivas sejam adotadas em ambientes
que maximizem o desenvolvimento acadêmico e social, de acordo com a meta
de inclusão plena.

Recentemente, o País aprovou a lei mais importante para a pessoa com deficiência, a Lei Brasileira
de Inclusão (LBI) no 13.146/2015, conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência. Tal lei é
destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das
liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania.

Em relação à educação, em seu art. 27, a LBI diz que a educação constitui direito da pessoa com
deficiência, assegurado sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao
longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos
e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e
necessidades de aprendizagem.

14
Marcos políticos, sociais e legais da educação especial sob a ótica da educação inclusiva • AULA 1

Cabem às escolas públicas e privadas as seguintes medidas para promover a Educação Inclusiva
da pessoa com deficiência, em todos os níveis e modalidades ao longo de toda a vida da pessoa:

»» garantir condições de acesso, permanência, participação e aprendizagem;

»» implementar projeto pedagógico que institucionalize o atendimento educacional


especializado;

»» garantir o seu pleno acesso ao currículo em condições de igualdade;

»» permitir a participação dos estudantes com deficiência e de suas famílias nas diversas
instâncias de atuação da comunidade escolar;

»» garantir o pleno acesso do aluno com deficiência ao currículo em condições de igualdade;

»» implementar programas de formação inicial e continuada de professores;

»» assegurar o acesso à educação profissional e tecnológica em igualdade de oportunidades


e condições com as demais pessoas.

Cabe ressaltar que a lei também diz que é vedada a cobrança de valores adicionais de qualquer
natureza em suas mensalidades, anuidades e matrículas, inclusive no fornecimento de atendimento
educacional especializado e profissionais de apoio.

A legislação tem avançado, prevendo normas para a adaptação dos prédios públicos e condições
de acesso aos serviços públicos, de modo a ofertar-lhes ensino de qualidade e em conformidade
com as necessidades de cada um.

Entretanto, infelizmente, ainda estamos longe de cumprir a LBI, levando à judicialização do


tema. Assim, para garantir o direito da pessoa com deficiência é preciso implementar políticas
públicas que confiram efetividade à inclusão com qualidade e, enquanto tal não ocorrer, caberá ao
cidadão que estiver com direito ameaçado ou violado ingressar com ação judicial para compelir
o Poder Executivo a disponibilizar o atendimento a que ele tem direito.

15
A ESCOLA INCLUSIVA
AULA
2
Introdução

Analisaremos, nesta segunda aula, a relação entre Educação Regular e Educação Especial. Em
seguida, analisaremos as concepções atuais sobre a educação e suas implicações na sociedade.
Discutiremos as dimensões da integração após a Declaração de Salamanca. Debateremos a
inclusão no âmbito da prática do professor e da gestão escolar.

Objetivos

»» Diferenciar uma escola que integra alunos com deficiência e a escola que inclui todos
os seus alunos.

»» Refletir sobre prós e contras das Escolas Especiais.

»» Estudar as concepções atuais sobre a educação, a inclusão escolar e suas possibilidades


educativas.

16
A Escola Inclusiva • AULA 2

Políticas públicas e educação especial

A diferença entre a Educação Especial e a educação “regular” não se encontra nos aspectos
filosóficos, mas, sim, nas estratégias de ação que lhe são próprias e múltiplas, porque numerosa
e variada é a sua clientela.

O discurso acerca da inclusão de pessoas com deficiência na escola, no trabalho e nos espaços
sociais, em geral, tem-se propagado rapidamente entre educadores, familiares, líderes e dirigentes
políticos, nas entidades, nos meios de comunicação etc. Isso não quer dizer que a inserção de
todos nos diversos setores da sociedade seja prática corrente ou uma realidade já oferecida.

As políticas públicas de atenção a esse segmento, geralmente, estão circunscritas ao tripé educação,
saúde e assistência social, costumando os demais aspectos ser negligenciados.

A educação dessas pessoas tem sido objeto de inquietações. Muito se discute sobre o que,
de fato, é incluir um aluno com deficiência. Ainda encontramos debates sobre se a melhor
alternativa é ter espaços de “Educação Especial”, ou seja, um sistema paralelo de instituições e
serviços especializados e funcionando só para os deficientes ou se tais alunos se beneficiarão
de frequentarem a escola “regular”.

A crise que vivemos em todo o âmbito da saúde, com falta de profissionais, materiais, remédios,
filas de espera enormes, dentre outros, dificulta ainda mais o acesso do deficiente a toda sua rede.
O que observamos, atualmente é que na saúde perpetua-se a atitude social de reabilitação. Ou
seja, ela se limita a medicar e diagnosticar a pessoa com deficiência. A reabilitação compreendida
basicamente como concessão de órteses e próteses, distante da ótica do movimento de inclusão.

Já na assistência social, a atitude social preponderante é do assistencialismo paternal, em que o


sujeito é considerado incapaz e, por isso, sua ação traduz-se na distribuição de benefícios e de
escassos recursos, em um contexto de adversidade e de carência.

Em cada um desses setores, o foco do atendimento privilegia certa dimensão do sujeito. Raramente
ele é visto como uma pessoa biopsicossocial. Seu contexto familiar, comunitário e social é levado
em consideração separadamente, dependendo do serviço que se está buscando.

O que se observa, nesses setores, são ações isoladas e simbólicas ao lado de um conjunto de leis,
projetos e iniciativas insipientes e desarticuladas entre as diversas instâncias do Poder Público.
Em todos os casos, percebemos uma concepção de um sujeito fragmentado, incompleto sem a
necessária incorporação das múltiplas dimensões da vida humana.

A despeito de figurar na política educacional brasileira desde o final da década de 1950 até os dias
atuais, a Educação Especial tem sido, com grande frequência, interpretada como um apêndice
indesejável da política de educação. O sentido a ela atribuído é, ainda hoje, muitas vezes, o de

17
AULA 2 • A Escola Inclusiva

assistência à pessoa com deficiência, e não o de educação de alunos que apresentam necessidades
educacionais especiais.

Educação especial x educação regular

A Educação Especial é definida como a modalidade de ensino que se caracteriza por um conjunto
de recursos e serviços educacionais especiais organizados para apoiar, suplementar e, em alguns
casos, substituir os serviços comuns, de modo a garantir a educação formal dos educandos que
apresentam necessidades educacionais diferentes das da maioria das crianças e jovens.

A defesa da cidadania e do direito à educação das pessoas com deficiência é atitude muito
recente em nossa sociedade. Manifestando-se por meio de medidas isoladas, de indivíduos ou
grupos, a conquista e o reconhecimento de alguns direitos das pessoas com deficiências podem
ser identificados como elementos integrantes de políticas sociais, a partir de meados do século
XX, como vimos na primeira aula. Ignorando sua longa construção sociocultural, muitos têm
sido os que entendem a situação atual como resultado exclusivo de suas próprias ações ou de
contemporâneos seus. Em razão disso, é extremamente valioso clarificar alguns momentos
da evolução das atitudes sociais e sua materialização, particularmente aquelas voltadas para
a educação da pessoa com deficiência. Nesse sentido, cabe alertar que, tanto na literatura
educacional quanto em documentos técnicos, é frequente a referência a situações de atendimento
a pessoas com deficiência (crianças e/ou adultos) como sendo educacionais, quando uma análise
mais cuidadosa revela tratar-se de situações organizadas com outros propósitos, em sua maioria
voltados para reabilitação, e não para a educação.

Podemos dizer que convivemos com dois tipos de educação ou, no mínimo, de modos diferentes
da educação. Quando falamos em Educação Especial, propomos integração, cursos específicos
ou em nível de pós-graduação que tratam especificamente do assunto. A Educação Especial
assume, no momento, papel de fundamental importância, tendo em vista as crescentes exigências
de uma sociedade brasileira em expansão e os desequilíbrios do atendimento educacional aos
alunos com deficiência, apesar do expressivo interesse que desperta e dos esforços realizados
por instituições públicas e particulares.

A problemática da Educação Especial vem sendo abordada de forma mais abrangente pelos
educadores contemporâneos, que fazem uso do pensamento crítico, colocando as questões
educacionais especiais vinculadas ao contexto escolar mais amplo, ou seja, pertencente à
complexidade social.

A abordagem da Educação Especial no Brasil sempre esteve calcada em duas vertentes: a


médico-pedagógica (ciências médicas e biológicas) e a psicopedagógica (com a introdução dos
testes de inteligência e da adequação de procedimentos para a educação dos deficientes mentais).

18
A Escola Inclusiva • AULA 2

As crianças são consideradas educacionalmente “especiais” somente quando suas necessidades


exigem a alteração do programa, ou seja, quando os desvios de seu desenvolvimento atingem um
tipo e um grau que requerem providências pedagógicas desnecessárias para as crianças típicas.

Atenção

O termo utilizado para nos referirmos às crianças que não são deficientes é típica. Por exemplo, quando comparamos uma
criança no espectro autista com a sua colega de turma dizemos: ela é uma criança neurotípica (austista) e uma criança típica.

Para fins didáticos, e para facilitar a comunicação entre os profissionais da Psicologia, Sociologia,
Fisiologia, Medicina e Educação, as crianças são agrupadas na seguinte classificação:

»» Deficiências mentais, incluindo crianças que são:

›› intelectualmente superiores;

›› lentas quanto à capacidade de aprendizado.

»» Deficiências sensoriais, incluindo as crianças com:

›› deficiências auditivas;

›› deficiências visuais.

»» Desordens de comunicação, incluindo as crianças com:

›› distúrbios de aprendizagem;

›› deficiências de fala e linguagem.

»» Desordens de comportamento, incluindo:

›› distúrbio emocional;

›› desajustamento social.

»» Deficiências múltiplas e graves, incluindo várias combinações: paralisia cerebral e


retardamento mental, surdez e cegueira, deficiências físicas e intelectuais graves.

A visão social fragmentada, muitas vezes percebida como estática, incorpora e acredita nas
concepções acerca da impossibilidade de mudança e de desenvolvimento dos alunos. Apesar
da percepção do progresso do aluno, há a certeza do limite, estagnação, próximo.

O Brasil, como vimos, tem mostrado avanços em termos de uma educação voltada para todos e
para a inclusão social plena e efetiva de pessoas com deficiência. Uma das principais mudanças
ocorridas diz respeito à ampliação da forma de abordar a deficiência, que passa a ser encarada

19
AULA 2 • A Escola Inclusiva

também sob uma expectativa social. Nesse sentido, procura-se mostrar que a sociedade, em suas
diferentes organizações, em muitos casos, cria empecilhos à participação dos indivíduos, por
não estar estruturada para atender às necessidades das pessoas com deficiências.

A política de inclusão dos alunos com deficiência na rede regular de ensino não consiste somente
na permanência física desses alunos, como observávamos na época da integração escolar. O
propósito de rever concepções e paradigmas, respeitando e valorizando a diversidade desses
alunos, exigiu que a escola se responsabilizasse por seus alunos com deficiência, criando um
espaço, de fato, inclusivo. Dessa forma, a inclusão significa que não é o aluno que se molda ou
se adapta à escola, mas a escola, consciente de sua função, coloca-se à disposição do aluno.

Cabe ressaltar que, nos dias atuais, aceitar a inclusão escolar e respeitar a diversidade não é
mais uma opção. Desde 2016, qualquer escola, pública ou privada, que recuse matrícula de
estudante com deficiência comete um crime punível com multa e prisão de dois a cinco anos.
A determinação está na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência e busca atender ao
desafio da inclusão trazido pela meta 4 do Plano Nacional de Educação (PNE). De acordo com
o PNE, crianças de quatro a 17 anos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e
altas habilidades ou superdotação devem frequentar preferencialmente instituições de ensino
e classes comuns.

Atender à diversidade, possibilitar a cada aluno desenvolver suas potencialidades para aprender
implica conhecer quem é o sujeito a quem se destina o fazer profissional do educador. Vygotsky,
em seus estudos e pesquisas ligados a alunos com dificuldades de aprendizagem, afirma que
desde os primeiros anos de vida a criança que apresenta uma deficiência ocupa uma posição
social especial e as suas relações com o mundo transcorrem de maneira diferente daquelas que
envolvem as crianças normais.

Para esse teórico, a deficiência tem uma dupla função: se, por um lado, é uma limitação que
cria obstáculos e dificuldades, por outro, serve de estímulo para o desenvolvimento das vias de
adaptação, transformando-se em canais de compensação que podem levar do equilíbrio alterado
a uma nova ordem na constituição da diferença. Ainda que as funções mentais superiores como
a percepção, a atenção e a memória estejam comprometidas em seus aspectos funcionais, o
desenvolvimento encontra vias de realização nas relações sociais.

Portanto, para se realizar um trabalho pedagógico de qualidade, é necessário conhecer as


possibilidades e os limites dos alunos: como se desenvolvem e aprendem; qual a sua história
de vida, que concepções têm de si mesmos, como interagem com o mundo e internalizam os
papéis vividos, como organizam seus sistemas de compensações e quais as mediações que
auxiliam na sua aprendizagem, priorizando as descrições qualitativas da organização de seus
comportamentos.

20
A Escola Inclusiva • AULA 2

Na concepção inclusiva, avaliamos a aprendizagem pela trajetória do aluno no decorrer do tempo


de um ciclo de formação e de desenvolvimento. Levamos em conta o que ele é capaz de fazer
para extrapolar suas dificuldades, construir conhecimentos, tratar informações, organizar seu
trabalho e participar ativamente da vida escolar. Consideramos o sucesso do aluno a partir dos
seus avanços em todos os aspectos do seu desenvolvimento. Esse progresso é registrado em um
relatório, que constitui a vida escolar desse aluno.

Os alunos com necessidades educativas especiais demandam


Atenção
um trabalho pedagógico que atenda às suas particularidades
e possibilite a cada um deles uma aprendizagem significativa, Uma Educação Inclusiva não implica
independente do espaço educacional onde vai se realizar, seja excluir a modalidade especial da
educação.
em uma escola regular ou numa escola especial. Para que isso
aconteça, são necessárias transformações tanto nas escolas
regulares quanto nas escolas especiais.

As primeiras, aprendendo a lidar com as diferenças e promovendo as ações educativas necessárias


às mudanças. Já as segundas, transformando-se em centros de recursos, interagindo com os
professores das escolas regulares na troca de experiências, voltando o seu trabalho de sala de
aula apenas para os alunos que ainda não podem se beneficiar da oferta que pode lhes oferecer
uma escola regular.

Uma escola que se propõe a ser inclusiva é uma instituição disposta a oferecer uma educação de
qualidade para todos. Além dos benefícios trazidos aos alunos com algum tipo de necessidade
especial, oferece aos outros alunos experiências de vida solidária, de aceitação das diferenças, de
mudanças de valores, melhorando, em sentido amplo, a educação e a qualidade da vida humana.

Outro aspecto importante a considerar diz respeito às dificuldades encontradas pelas crianças.
Necessariamente elas não estão relacionadas às suas limitações pessoais, mas podem ser de
natureza curricular, de metodologias e estratégias de ensino inadequadas, que criam barreiras ao
seu aprendizado. Assumir uma posição frente à Educação Inclusiva é uma mudança que envolve
currículos, organização escolar e concepções, exigindo uma formação inicial e continuada de
professores, que lhes permita abandonar a visão funcional do ensino, que tem caracterizado a
escola nas últimas décadas, tornando-os capazes de administrar uma educação democrática e
inclusiva, aperfeiçoando seus conhecimentos pedagógicos.

A escola inclusiva é aquela que acomoda todos os alunos independentemente de suas condições
físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras, sendo o principal desafio
desenvolver uma pedagogia centrada no aluno, uma pedagogia capaz de educar e incluir além
dos alunos que apresentem necessidades educacionais especiais, aquelas que apresentam
dificuldades temporárias ou permanentes na escola, as que estejam repetindo anos escolares,
as que sejam forçadas a trabalhar, as que vivem nas ruas, as que vivem em extrema pobreza, as

21
AULA 2 • A Escola Inclusiva

que são vítimas de abusos, as que estão fora da escola, as que apresentam altas habilidades/
superdotação, pois a inclusão não se aplica, apenas, aos alunos com deficiência.

O desenvolvimento das escolas inclusivas, capazes de sustentar recursos educativos com sucesso
para todos os alunos, passa necessariamente pela definição de uma ação educativa diferenciada
dos mais variados contextos. E para que uma gestão seja diferenciada, com ações pedagógicas
inclusivas, é preciso que a escola estabeleça uma filosofia baseada nos princípios democráticos
e igualitários de inclusão, de inserção e a provisão de uma educação de qualidade para todos
os alunos.

Ser uma escola inclusiva significa, primeiramente, acreditar no princípio de que todas as crianças
podem aprender e o diretor deverá proporcionar a todas as crianças acesso igualitário a um
currículo básico, rico e uma instrução de qualidade, independente de ser uma escola regular
ou especial.

A seguir, mostraremos algumas estratégias para inclusão no cotidiano escolar:

»» Promover práticas mais cooperativas e menos competitivas nas salas de aulas e na escola.

»» Estabelecer rotinas na sala de aula e na escola em que todos recebam apoio necessário
para participarem de forma igual e plena.

»» Garantir que todas as atividades da sala de aula tenham acomodações e a participação


de todos ativamente, inclusive daqueles que apresentam necessidades educacionais
especiais.

»» Infundir valores positivos no sistema escolar de respeito, solidariedade, cooperação etc.

»» É preciso desenvolver rede de apoio, sendo um grupo de pessoas que se reúne para
debater, podendo ser constituída por alunos, diretores, pais, professores, psicólogos,
terapeutas e supervisores para resolverem problemas, trocarem ideias, métodos, técnicas
e atividades, com a finalidade de ajudar não somente aos alunos, mas aos professores
para que possam ser bem-sucedidos em seus papéis.

»» Desenvolver uma assistência técnica organizada e contínua que deve incluir:

›› funcionários especializados para atuarem como consultores e facilitadores;

›› uma biblioteca prontamente acessível com materiais atualizados, recursos em vídeo


e áudio que enfoquem a reforma da escola e as práticas educativas inclusivas;

›› um plano abrangente, condizente e contínuo de formação em serviço;

›› oportunidades para educadores que apoiam os alunos a reunirem-se para tratarem


de questões comuns e, assim, ajudarem-se mutuamente no desenvolvimento criativo
de novas formas de aprendizagens;

22
A Escola Inclusiva • AULA 2

›› oportunidades para os professores aumentarem e aperfeiçoarem suas habilidades,


observando, conversando e moldando suas práticas com colegas com mais experiência
no apoio aos alunos no regular;

›› oportunidades para educadores novos em práticas inclusivas de visitarem outras


escolas e distritos, que tenham experiências e implementação novas na Educação
Inclusiva em conjunto com esforços de reformas da escola.

»» Os educadores devem desenvolver a dimensão da flexibilidade para responderem


aos desafios de apoiarem os alunos com dificuldades para aprender na participação
das atividades da escola, com o compromisso de fazer o ensino inclusivo acontecer,
com espontaneidade e a coragem de assumirem os riscos, trabalhando em equipes,
desenvolvendo novas habilidades e promovendo uma educação de qualidade a todos
os alunos.

»» Examinar e adotar várias abordagens de ensino, para trabalhar com alunos com diferentes
níveis de desempenho, reavaliando as práticas e determinando as melhores maneiras
possíveis de promover a aprendizagem ativa para os resultados educacionais desejáveis.

»» Comemorar os sucessos e aprender com os desafios, sendo importante que os sistemas


escolares cultivem a capacidade dos membros do seu pessoal de pensar criativamente,
pois assim respondem aos desafios que inevitavelmente surgem quando as novas
oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento apresentam-se.

»» Os educadores estarem dispostos a romperem paradigmas e manterem-se em constantes


mudanças educacionais progressivas, criando escolas inclusivas e com qualidades.

A equipe da escola

No sistema escolar, para construir uma comunidade escolar inclusiva, é preciso o planejamento e
o desenvolvimento do currículo que conduza aos resultados esperados pelo Estado e pelos setores
educacionais. Preparar equipe para trabalhar de maneira cooperativa e compartilhar conhecimentos
das melhorias para um progresso contínuo. Investimento em tecnologia para dar apoio, servindo
como um importante dispositivo da comunicação para conectar a escola à comunidade e o ensino
dos resultados esperados, além de grupos de professores atuando como planejadores, instrutores
e avaliadores de programas que conduzam a uma ação pedagógica inclusiva.

A realização das ações pedagógicas inclusivas requer uma percepção do sistema escolar como
um todo unificado, em vez de estruturas paralelas, separadas como uma para alunos regulares
e outra para alunos com deficiência ou necessidades especiais.

23
AULA 2 • A Escola Inclusiva

O comportamento inclusivo dentro da escola requer comprometimento e ações inclusivas, por


isso faremos uma breve reflexão sobre essas práticas:

»» a escola parte da premissa de que cada aluno tem o direito a frequentar a sala de aula
independente de sua deficiência;

»» está plenamente comprometida em desenvolver uma comunidade que se preocupe em


fomentar o respeito mútuo e o apoio em equipe escolar, os pais e os alunos;

»» a direção cria um ambiente de trabalho no qual os professores são apoiados;

»» os alunos com necessidades educacionais especiais são estimulados a participarem


plenamente da escola, inclusive das atividades extracurriculares;

»» está preparada para modificar os sistemas de apoio para os alunos à medida que as suas
necessidades mudem;

»» considera os pais uma parte plena da comunidade escolar, aceitando sugestões e a sua
participação;

»» proporciona aos alunos com necessidades educacionais especiais um currículo escolar


pleno e flexível sujeito a mudanças caso seja necessário.

É necessário se investir na capacitação e sensibilização de profissionais da educação para que


ocorra a diminuição gradativa da exclusão escolar. Delegar ao professor toda a responsabilidade
de promover a inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais é um erro, pois a
adoção dessa postura deveria ser de toda a estrutura da escola.

A formação do professor para o trabalho em equipe, o conhecimento sobre currículo e as possíveis


adaptações curriculares cabíveis às necessidades individuais dos alunos, o conhecimento sobre
o conteúdo, a metodologia de ensino e as possibilidades de reflexão sobre as ações realizadas
na sala de aula são questões a serem trabalhadas por toda a equipe da instituição escolar, e não
somente pelo professor que recebe a criança com alguma dificuldade ou necessidade especial.

Além disso, segundo Mendes (2002), para atender os alunos com necessidades educacionais
com qualidade, a escola deve modificar-se. Segundo a autora, as ações de uma política inclusiva
deveriam se pautar em três componentes básicos:

»» Político (construção de uma rede de suportes capaz de formar pessoal e promover


serviços na escola, na comunidade, na região).

»» Educacional (capacidade de planejar, implementar e avaliar programas para diferentes


alunos em ambientes da escola regular).

»» Pedagógico (o uso de estratégias de ensino que favoreçam a inclusão e descentralizem


a figura do professor, o incentivo às tutorias por colegas, a prática flexível, a efetivação

24
A Escola Inclusiva • AULA 2

de currículos adaptados). Portanto, a autora recomenda que cada município deve


identificar o perfil do seu alunado e desenvolver projetos pedagógicos de acordo com
os resultados dessa avaliação.

Consideramos que essas questões são fundamentais e deveriam estar presentes em várias
dimensões das áreas de saúde e educação: nas reuniões entre pais, coordenadores e professores
nas escolas, em cursos de capacitação, em reuniões de estudos de caso nas instituições que
atendem alunos com necessidades educacionais especiais etc.

Oferecer um sistema de ensino de qualidade a todos os alunos, respeitando suas diferenças, deveria
ser o ponto de partida para a melhora do acesso dos alunos com necessidades educacionais
especiais no ensino regular. Perceber que qualquer indivíduo possui limitações, o que não
significa que não possa ser participativo e capaz de aprender, seria um bom ponto de partida
para a reflexão sobre como trabalhar as diferenças em sala de aula.

O professor na escola inclusiva

Como estamos falando de uma escola inclusiva, as particularidades e individualidade dos


professores também não podem ser ignoradas. Contudo, se por um lado o professor tem sua
individualidade, por outro lado, todo o professor tem a ética e os compromissos da sua profissão.
Oferecer uma educação para todos é obrigação dos educadores, independente das suas crenças
e percepções.

É comum observarmos no cotidiano escolar mitos e distorções em relação ao processo educacional


dos alunos com necessidades educacionais especiais. Para mudar essa realidade, é preciso que o
professor amplie o seu olhar. Ele não pode olhar, apenas com seus olhos, nem somente com os
olhos do outro. Para que, de fato, o educador enxergue e compreenda o movimento de inclusão,
é fundamental aprender a desenvolver uma visão mais ampla que comporte o ponto de vista
individual e coletivo.

Tanto a escola como o professor precisam promover transformações no que se refere à Educação
Inclusiva. E, se quisermos promover transformações, precisamos reexaminar o jeito de fazer em
sala de aula. Ele precisa entender a individualidade de cada um de seus alunos, se capacitando
constantemente, buscando estimular suas potencialidades em um contexto coletivo. Todos
juntos, mas cada um em seu tempo.

Para pensar no aluno, precisamos pensar na escola em que ele está inserido, precisamos pensar,
também, em seu contexto social, o qual a escola está inserida, bem como a família, igreja, os
Poderes locais, dentre outros. Ou seja, é preciso entender o sujeito em seu contexto biopsicossocial.
A ausência da reflexão faz com que passemos a reproduzir determinados valores, sem perceber,
sem ao menos nos questionarmos a respeito.

25
AULA 2 • A Escola Inclusiva

Quando refletimos sobre esse processo de absorção e de reprodução de valores e de práticas


sociais é importante que os professores se voltem para a análise das estratégias que alimentam
esse processo, com o qual, consciente ou inconscientemente, a escola vem contribuindo.

Por exemplo, um professor que oferece ao aluno questionários padronizados, com perguntas
e respostas prontas, esperando que todos os seus alunos respondam de uma maneira, em
determinado tempo, ou dá ordens para que se siga certo modelo, ou que exige cópia de textos,
pode não estar sequer imaginando que essas práticas estão preparando o aluno para a submissão
cognitiva, para a subserviência, em vez de prepará-lo para um exercício consciente e responsável
de cidadania. Além disso, desestimulará seus alunos com necessidades educacionais especial,
perpetuado a atitude social de que a pessoa com deficiência é incapaz.

As escolas atuais valorizavam a passividade do aluno, refletida principalmente na exigência do


silêncio na sala de aula e na exigência da fidelidade às palavras do professor e do livro didático nas
provas. Ou seja, os alunos não passam de “alunos-objetos”. O que o professor inclusivo defende
é que o seu aluno seja sujeito do processo de construção do seu conhecimento.

É preciso estabelecer uma nova relação professor/aluno. E para que isso aconteça, é necessário
repensarmos ambos os papéis, refletindo bidirecionalidade e a interdependência que constituem
as relações pessoais para que nos fiquem claras as suas consequências.

Para formar um aluno cidadão, capaz de usufruir dos seus direitos e deveres individuais e
coletivos, é preciso um professor capaz de estimular a consciência crítica e o domínio efetivo
do saber. Ele compreende que é de sua responsabilidade e competência construir e socializar o
conhecimento na escola!

Cabe ainda a esse professor contribuir para a construção de uma escola de qualidade para
todos, cooperando com o aprimoramento do sistema escolar no sentido de melhorar o acesso
à educação das pessoas com necessidades educacionais especiais.

A gestão escolar

Além das sugestões, referentes ao ensino nas escolas, a educação de qualidade para todos e
a inclusão implicam mudanças de outras condições relativas à administração e aos papéis
desempenhados pelos membros da organização escolar. Nesse sentido, é primordial que sejam
revistos:

»» Papéis desempenhados pelos diretores e coordenadores, no sentido de que ultrapassem


o teor controlador, fiscalizador e burocrático de suas funções pelo trabalho de apoio,
orientação do professor e de toda a comunidade escolar.

26
A Escola Inclusiva • AULA 2

»» A descentralização da gestão administrativa, por sua vez, promove uma maior autonomia
pedagógica, administrativa e financeira de recursos materiais e humanos das escolas, por
meio dos conselhos, colegiados, assembleias de pais e de alunos. Mudam-se os rumos
da administração escolar e, com isso, o aspecto pedagógico das funções do diretor e dos
coordenadores e supervisores emerge. Deixam de existir os motivos pelos quais esses
profissionais ficam confinados aos gabinetes, às questões burocráticas, sem tempo para
conhecer e participar do que acontece nas salas de aula.

A inclusão se legitima porque a escola, para muitos alunos, é o único espaço de acesso aos
conhecimentos. É o lugar que vai lhes proporcionar condições de se desenvolver e de se tornar
um cidadão, alguém com identidade social e cultural que lhes confere oportunidades de ser e
de viver dignamente.

Incluir é necessário, primordialmente, para melhorar as condições da escola de modo que nela
se possa formar gerações mais preparadas para viver a vida na sua plenitude, livremente, sem
preconceitos, sem barreiras. Não podemos contemporizar soluções, mesmo que o preço que
tenhamos de pagar seja bem alto, pois nunca será tão alto quanto o resgate de uma vida escolar
marginalizada, uma evasão, uma criança estigmatizada, sem motivos.

Confirma-se, ainda, mais uma razão de ser da inclusão – um motivo para que a educação se
atualize e para que os professores aperfeiçoem as suas práticas e para que escolas públicas e
particulares se obriguem a um esforço de modernização e de reestruturação de suas condições
atuais, a fim de responderem às necessidades de cada um de seus alunos, em suas especificidades,
sem cair nas malhas da Educação Especial E Suas modalidades de exclusão.

Toda escola, em respeito ao direito à educação, deve atender aos princípios constitucionais,
não excluindo nenhum aluno, em razão de sua origem, raça, sexo, cor, idade ou deficiência. A
Constituição brasileira de 1988 é clara ao eleger como fundamentos da República a cidadania e a
dignidade da pessoa humana (art. 1o, incisos II e III), e como um dos seus objetivos fundamentais
a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer
outras formas de discriminação (art. 3o, inciso IV). Ela ainda garante o direito à igualdade (art.
5o), e trata, no art. 205 e seguintes, do direito de todos à educação. Esse direito deve visar ao pleno
desenvolvimento da pessoa, seu preparo para a cidadania e sua qualificação para o trabalho.

A escola inclusiva

Diante dessas novidades, a escola brasileira não pode continuar ignorando o que acontece ao
seu redor, anulando e marginalizando as diferenças nos processos de aprendizagem. Também
não deve desconhecer que o processo ensino-aprendizagem implica saber expressar, dos mais

27
AULA 2 • A Escola Inclusiva

variados modos, o que sabemos, representando o mundo, a partir de nossas origens, valores,
sentimentos.

Precisamos reverter essa situação crítica, marcada pelo fracasso e pela evasão de uma parte
significativa dos seus alunos, os quais são marginalizados pelo insucesso, pelas privações
constantes e pela baixa autoestima resultante da exclusão escolar e da sociedade.

É certo que os alunos com deficiência constituem uma grande preocupação para os educadores
inclusivos, mas todos sabem que a maioria dos alunos que fracassam nas escolas são crianças
que não vêm do Ensino Especial, mas que possivelmente acabarão nele.

Se o que pretendemos é que a escola seja inclusiva, é urgente que seus planos se redefinam para
uma educação voltada à cidadania global, plena, livre de preconceitos e disposta a reconhecer
as diferenças entre as pessoas e a emancipação intelectual. Porque não basta uma educação na/
para a cidadania. É preciso que se eduque para a liberdade e, nesse sentido, nenhuma forma de
subordinação intelectual pode ser admitida.

Certamente não existe uma regra geral para se construir essa escola que queremos – uma escola
para todos. Mas podemos nos aproximar cada vez mais dela se encararmos a transformação das
escolas que hoje temos da forma mais realística possível, abolindo-se tudo o que nos faz pensá-las
e organizá-las a partir de modelos que as “idealizam”, como temos feito até então. Já se impõe,
mesmo timidamente, uma tendência de reorientação das escolas, segundo uma lógica educacional
regida por princípios sociais, democráticos, de justiça, de igualdade, contrapondo-se àquela
que é sustentada por valores econômicos e empresariais de produtividade, competitividade,
eficiência, modelos ideais que tantas exclusões têm provocado na educação, em todos os seus
níveis. Temos de acreditar e dar uma grande virada na educação escolar.

Se, do ponto de vista legal, temos de conciliar os impasses entre nossa Constituição e as leis
infraconstitucionais referentes à educação, do ponto de vista educacional, é urgente estimular as
mudanças, buscando e divulgando novas práticas pedagógicas, experiências de sucesso, saberes
adquiridos em estudos desenvolvidos no cotidiano das nossas escolas.

O essencial é que todos os investimentos atuais e futuros da educação brasileira não repitam o
passado e reconheçam e valorizam as diferenças na escola. Temos de ter sempre presente que
o nosso problema se concentra em tudo o que torna nossas escolas injustas, discriminadoras e
excludentes, e que, sem solucioná-lo, não conseguiremos o nível de qualidade de ensino escolar,
que é exigido para se ter uma escola mais que especial, onde os alunos tenham o direito de ser
(alunos), sendo diferentes.

28
AULA
O PROCESSO DE
ENSINO - APRENDIZAGEM EM UMA
PERSPECTIVA DE EDUCAÇÃO
INCLUSIVA 3
Introdução

Nesta aula, abrangeremos a compreensão dos processos cognitivos e dos problemas de


aprendizagem, estabelecendo relações entre eles. Esclareceremos como se dá o desenvolvimento
dos alunos com demandas educativas específicas, assim como as mudanças que devem ser
realizadas nas escolas para favorecer sua educação.

Objetivos

»» Compreender o processo de construção do conhecimento no indivíduo inserido em


seu contexto social e cultural.

»» Viabilizar a Educação Inclusiva de pessoas com necessidades especiais.

»» Planejar e avaliar programas e práticas para atender alunos com deficiência.

»» Viabilizar a construção de métodos, técnicas e recursos com atenção à diversidade no


apoio ao processo de inclusão.

29
AULA 3 • O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva

Quebra de paradigma

A inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais nas escolas regulares públicas e
privadas tem provocado incontáveis discussões e resistências entre os educadores da atualidade.
É consenso, no entanto, que a capacitação dos docentes para o trabalho com a diversidade na
sala de aula seja oportunizada desde a formação universitária do futuro professor, adquirindo
caráter continuado durante todo o exercício do magistério. Os profissionais da área educacional
envolvidos no processo de ensino-aprendizagem vêm constantemente se deparando com uma
imensidade de desafios em sala de aula e, entre eles está um dos mais complexos, a adequada
gestão da diversidade de conhecimentos.

Com o foco, usualmente, na transmissão de conhecimentos já construídos, voltados para um


“tipo ideal” de aluno, mesmo que a população escolar seja heterogênea quanto às origens sociais,
geográficas, étnicas, com deficiência, entre outras, a distância entre as propostas apresentadas
pelas instituições educacionais e o tipo, nível de saberes e interesses dos alunos divergem
demasiadamente.

A educação das crianças com deficiências está sendo rediscutida diante desse novo conceito de
escolas inclusivas, abertas às diferenças. Diante das mudanças necessárias, entendemos que a
formação em serviço da equipe escolar é fundamental para a garantia de transformação de que
a escola necessita.

A liderança firme por parte do diretor escolar tem sido identificada como um fator importante na
construção de uma escola cada vez mais inclusiva. O papel do diretor requer novos conhecimentos,
atitudes e habilidades para lidar com as condições atuais e as tendências emergentes na Educação
Especial e geral e para conduzir a continuidade da melhoria educacional para todos os estudantes.

A relação ensino e aprendizagem

A relação ensino-aprendizagem deve ser de superação entre o opressor e o oprimido, em que


educador e educandos estão em um processo de constante aprendizagem e construção do
conhecimento recíproco. Paulo Freire discorre sobre o fato de que o educador não deve ser um
transmissor de conhecimento, mas alguém que cria as possibilidades para sua construção ou
produção. Diante disso, o diálogo entre as partes é fundamental e o educador deve saber também
escutar para que, assim, o conhecimento entre as duas partes possa ser desenvolvido.

Seguindo esse raciocínio, o diálogo aparece como peça fundamental para a metodologia criada
por Paulo Freire, pois, por intermédio dele, de uma conversa em grupo, os homens são capazes
de debater uma situação e construir então seu senso crítico. Em grupo, o homem é capaz de
indagar sobre a realidade desenvolvendo uma interação construtivista.

30
O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva • AULA 3

Educação problematizadora

Por ser um processo contínuo, a educação problematizadora, a princípio, na alfabetização, aparece


no sentido de descoberta do mundo, conscientização, modificação de si mesmo e do mundo. Mais
adiante, esse procedimento deve ser continuado e as implicações serão ainda mais profundas.

Nesse processo de construção do conhecimento, a avaliação baseada nos moldes tradicionais, como
provas e notas, deixa de fazer sentido. A abordagem que aqui se discute propõe a autoavaliação
entre professores e alunos. A autoavaliação permite que as duas partes consigam ver em que se
desenvolveram e em que precisam melhorar.

Segundo Paulo Freire (1996), o homem é o sujeito da educação, portanto, a educação deve
promover o indivíduo e não procurar meios de adaptá-lo à sociedade. A educação deve buscar
na cultura popular valores que são inerentes a essas camadas da população. O indivíduo deve
participar de maneira ativa na construção da cultura

O homem como sujeito deve interagir com seu meio, e, a partir dessa interação, ele chega ao
conhecimento. O homem deve sentir que participa do seu contexto social. Ao conscientizar-se,
ele pode tanto alterar seu meio quanto a si próprio.

O processo de conscientização é contínuo e progressivo, vai do nível mais primitivo ao mais


crítico; para isso, passa por etapas que devem ser superadas. Quando se consegue isso, atinge-se
a consciência epistemológica.

Segundo Paulo Freire, a natureza da consciência compreende diferentes níveis que correspondem
à ação humana no mundo:

»» Consciência intransitiva: analisa a realidade a partir de explicações mágicas.

»» Consciência transitiva ingênua: o indivíduo está insatisfeito com a realidade, mas resiste
em alterá-la, ainda usa explicações mágicas. É a típica opinião de massa.

»» Consciência crítica: forma crítica de pensar. O indivíduo vê a si próprio em função do


mundo e em termos de sua dependência histórica e social.

Os elementos mediadores

A argumentação vygotskyana baseia-se, fundamentalmente, no conceito de mediação simbólica.


Para Vygotsky, a cognição superior do homem surge (ou é potencializada) apenas por meio da
interposição de um elemento intermediário (mediador) entre estímulos e respostas que são
captadas e produzidas por uma pessoa.

31
AULA 3 • O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva

Esses elementos mediadores pertencem a duas categorias: instrumentos e signos. Instrumentos


são os artefatos construídos exclusivamente pelo ser humano, e utilizados principalmente para
auxiliá-lo em alguma tarefa ou trabalho. Signos são os instrumentos psicológicos orientados para
o próprio indivíduo (marcas, desenhos, gráficos). Posto que esses mediadores sejam construídos
em sociedade, e que esses são fundamentais para o desenvolvimento dos processos cognitivos
superiores, deduz-se que, na ausência desses instrumentos, não ocorrerá desenvolvimento de
capacidades cognitivas tipicamente humanas.

Os elementos centrais da obra de Vygotsky, do ponto de vista pedagógico, são:

»» A comunidade onde o estudante está inserido tem papel central na construção do


entendimento, e influencia fortemente a forma como este vê o mundo.

»» A natureza das “ferramentas” cognitivas (jogos, brinquedos, família, cultura, símbolos


e linguagem) com as quais o estudante interage determinam o padrão e o ritmo de
desenvolvimento do aprendizado.

»» As habilidades necessárias à solução de problemas com os quais o estudante se depara


se situam em três categorias:

›› as que já são dominadas – internalizadas – pelo estudante;

›› as que não são dominadas – internalizadas – pelo estudante, e que não podem ser
empreendidas mesmo com o auxílio de adultos;

›› as que são intermediárias, entre esses dois extremos, e podem ser empreendidas
apenas com o auxílio ou acompanhamento de outras pessoas. Zona de Percepção
Proximal é definida como o intervalo que agrega as habilidades da categoria C.

»» Vygotsky chama de aprendizado o exercício das habilidades situadas na Zona de


Percepção Proximal, e de desenvolvimento a internalização de tais habilidades. Como
a Zona de Percepção Proximal só pode ser explorada pelo estudante com o auxílio de
outras pessoas, o processo é necessariamente social.

»» Os elementos enunciados acima são implementados por princípios a serem aplicados


à sala de aula.

»» Aprendizado e desenvolvimento é uma atividade colaborativa e social que não pode ser
“ensinada”. O próprio estudante tem que construir o seu entendimento da atividade, e
o professor atua como facilitador desse processo.

»» As situações-problema nas quais o estudante precisa de auxílio para fornecer uma


solução são as que permitem a maior (talvez única) oportunidade de aprendizado e
desenvolvimento e, consequentemente, devem ser adequadamente inseridas e exploradas
pelo educador.

32
O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva • AULA 3

»» Quando inserindo tais situações, é importante considerar que o aprendizado deve


ocorrer dentro do contexto (social, econômico) no qual o estudante se encontra, já que
as “ferramentas” cognitivas das quais o estudante dispõe são originadas desse contexto.

»» Experiências de fora de sala de aula devem ser relacionadas com as experiências na


escola. Imagens, notícias e estórias pessoais devem ser incorporadas às atividades de
sala de aula: simulações, imitações, brincadeiras, jogos.

A importância da autoestima na inclusão do aluno na vida


social da escola

Quando se trabalha com alunos que têm uma trajetória escolar de insucessos, é preciso
ajudá-los a trabalhar o autoconceito desenvolvendo a confiança na própria capacidade de
aprender. O professor é uma referência importante na formação da autoestima do aluno e no
relacionamento com eles, é fundamental para ajudá-los a construir uma imagem positiva de
si mesmos, aumentando sua motivação para aprender. Outra referência é a família, por isso,
colaborar com ela na construção da identidade é também importante.

São partes importantes da Educação Inclusiva os relacionamentos e as interações sociais. Assim


como os demais alunos, aqueles com deficiência também precisam participar da vida social
da escola como, por exemplo, conduzindo visitantes pela escola, ajudando no gerenciamento
de equipes e trabalhando no escritório da escola. Quanto mais presentes estiverem esses
componentes, maiores serão as chances de que a escola incluirá crianças e jovens com deficiência.

Ao organizar as atividades, lembrar que os alunos têm ritmos e formas diferentes de aprendizagem,
portanto aquelas referentes a um mesmo assunto devem ser bem variadas. Elas devem ser
planejadas de forma a possibilitar momentos de participação coletiva, momentos de trabalho
em grupo e de trabalho individual.

Embora não seja possível estabelecer fórmulas para uma boa atividade pedagógica, análises de
trabalhos bem-sucedidos podem nos indicar alguns aspectos importantes:

»» Deixar clara para os alunos a finalidade da atividade: Por que fazer isso? O que vamos
aprender?

»» Deixar clara a tarefa a ser realizada, discutindo com os alunos como fazer e analisando
com eles as instruções para o trabalho.

»» Relacionar o conteúdo a ser aprendido com o que o aluno já sabe, retomando fatos e
conceitos já aprendidos, que sejam importantes para a aprendizagem que se pretende
desenvolver.

»» Relacionar o conteúdo a situações vivenciadas pelo aluno.

33
AULA 3 • O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva

»» Oferecer diferentes fontes de informação e formas de investigar o assunto: livros, jornais,


experiências, vídeos, passeios e visitas, estudo dirigidos.

»» Adotar rotinas e normas de trabalho favorece a organização das atividades, dando maior
segurança aos alunos e favorecendo a sua autonomia no desenvolvimento do próprio
trabalho.

É importante lembrar que esse processo se torna mais rico quando os alunos participam do
planejamento e organização das atividades diárias e semanais. Esse roteiro de trabalho deve
ficar exposto na sala de aula em local visível. Veremos com maiores detalhes esse assunto em
outra aula.

Da mesma maneira, é importante que os alunos participem da organização do espaço da sala,


ajudando a arrumar e a guardar o material escolar, os cantinhos de trabalho, a sala de leitura.

A importância dos profissionais em uma escola inclusiva

As escolas devem dispor de profissionais para lidar com pessoas com deficiência. Uma escola
possui um aluno deficiente auditivo, por exemplo. Cabe a ela contratar um intérprete, promovendo,
assim, as adaptações necessárias. Os custos devem ser creditados da instituição de ensino, pois
ela está obrigada a oferecer a estrutura adequada a todos os seus alunos. Além disso, a escola
deve dispor ao aluno deficiente auditivo a Língua de Sinais, assim como os professores devem
ser orientados no sentido de flexibilizar os currículos ao modo de comunicação dos surdos.

Com relação ao acesso do deficiente físico, toda escola deve eliminar as barreiras arquitetônicas,
tendo ou não alunos matriculados; esse ponto é importante frisarmos, de acordo com a
Constituição Federal, Leis nos 7.853/1989, 10.048/2000 e 10.098/2000.

No que diz respeito ao deficiente visual, após sua matrícula, deve pedir à escola material didático,
bem como sala de recursos, para aprendizado de “Braille”. Deve-se observar que a sala de recursos
jamais substitui o professor regular, tendo a tarefa de ser um complemento do ensino regular.

Quanto ao aluno com deficiência mental, parece ser esse o aspecto mais delicado da inclusão, mas
as escolas deviam lembrar-se de que a construção do conhecimento se faz a partir da realidade de
cada aluno, levando-se em conta as especificidades de cada um. Se cada aluno tem seu próprio
ritmo de aprendizagem, por que então ministrar a elas o mesmo padrão de aprendizagem? O aluno
com deficiência mental vai aprender dentro de suas limitações e estimulado até ir, se possível,
além delas. A escola, os professores devem estar cientes do ritmo de cada aluno e adequar a esses
ritmos seus currículos e programas pedagógicos.

Não devemos nos esquecer dos cursos profissionalizantes, os destinados aos jovens e adultos e
voltados para a preparação de vestibulares.

34
O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva • AULA 3

Organização curricular e a inclusão

A ideia fundamental é disponibilizar uma organização escolar que, tendo como foco a Educação
Inclusiva, se caracterize pela existência e articulação das seguintes características:

»» flexibilização de uso do material pedagógico;

»» adaptação de equipamentos;

»» adaptação da estrutura curricular;

»» capacitação adequada de recursos humanos;

»» eliminação de barreiras de qualquer natureza;

»» processos diferenciados de avaliação;

»» mecanismos de inserção no mundo do trabalho;

»» instrumentos e procedimentos sistematizados de acompanhamentos e egressos.

As Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (Parecer CEB/CNE


no 11/2000) indicam a necessidade de a educação profissional do aluno com necessidades
educacionais especiais ser realizada por meio de cursos oferecidos pelas redes regulares de
ensino, públicas ou privadas, por meio de adequações e apoios, tanto em relação a programas
específicos de educação profissional, como em relação a atividades vinculadas à preparação
para o trabalho.

Na educação dos alunos com deficiência, é importante lembrar, algumas modificações têm os
mesmos objetivos da educação de qualquer cidadão, são, às vezes, requeridas na organização
e no funcionamento da educação escolar para que tais alunos usufruam dos recursos escolares
de que necessitam para o alcance daqueles objetivos. Em razão disso, são organizados auxílios e
serviços educacionais especiais para apoiar, suplementar e, em alguns casos, substituir o ensino
comum ou regular como forma de assegurar o ensino para esse alunado.

Tais auxílios e serviços educacionais são planejados e desenvolvidos para assegurar respostas
competentes por parte do sistema e da unidade escolar, ainda que especiais, as necessidades
educacionais especiais ou diferenciadas apresentadas por determinados alunos no contexto
escolar em que se encontram. As necessidades educacionais especiais são definidas e identificadas
na relação concreta entre o educando e a educação escolar, conforme já enunciado. Assim, os
recursos educacionais especiais requeridos em tal situação de ensino-aprendizagem se configuram
como Educação Especial e não devem ser reduzidos a uma ou outra modalidade administrativa
pedagógica como classe especial ou escola especial.

35
AULA 3 • O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva

Respeitar as necessidades educacionais de cada aluno

Outro aspecto relevante diz respeito à identificação das necessidades educacionais e as


consequentes decisões e orientações sobre o atendimento dos alunos que as apresentem. Tais
atividades requerem a avaliação criteriosa por parte dos profissionais envolvidos, bem como da
família, de cada aluno. Embora se saiba, não é demais lembrar que grande parte das necessidades
educacionais, mesmo dos alunos com deficiência, poderá ser atendida apropriadamente, sem o
agrupamento de ações e recursos especiais, na própria escola comum com os recursos regulares.

Todavia, a presença de necessidades educacionais especiais, cujo atendimento esteja além das
condições e possibilidades dos professores e dos demais recursos escolares comuns, demandará
a provisão de auxílios e serviços educacionais propiciados por professores especialmente
preparados para atendê-las. Por outro lado, as necessidades educacionais especiais são, às vezes,
acompanhadas de necessidades especiais de outras ordens e que requerem também a intervenção
da escola no sentido de encaminhar, orientar ou viabilizar o atendimento necessário, ainda que
do âmbito social, médico ou outro, de forma indireta, cooperativa e integrada à educação escolar.

Nesse movimento que, com ênfase crescente, objetiva descartar os serviços educacionais
segregados e procura, para além da integração, garantir a inclusão de todas as crianças e jovens
numa escola comum de qualidade “especial”, é fundamental que atitudes de respeito ao outro
como cidadão sejam concretizadas em ações de reestruturação da escola atual com vistas a tal
propósito.

Sabemos que não são poucos os educandos que têm suas necessidades educacionais interpretadas
como especiais ou muito diferentes por parte de professores mal preparados ou mal apoiados
pelo sistema de ensino. Essa é outra conjuntura que está a merecer atenção cuidadosa das
autoridades educacionais.

O que pode dificultar ou facilitar a inclusão

Para além das conveniências administrativo-pedagógicas, é imperioso que sejam eliminados


os mecanismos e procedimentos dificultadores da integração e da inclusão de todos na escola
pública e gratuita com a qualidade esperada pela sociedade, o que não implica a diminuição
sucinta de serviços e auxílios especiais.

É preciso que se tenha em mente, também, que, em tal perspectiva, as diferenças entre as
necessidades educacionais especiais e as necessidades educacionais comuns se tornem cada
vez menores até o ponto em que as necessidades singulares de cada educando possam ser
percebidas e atendidas pela escola comum de “especial” qualidade. Nas situações em que tal
circunstância não esteja ocorrendo, será importante, ainda, propiciar aos alunos com necessidades

36
O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva • AULA 3

educacionais especiais os recursos educacionais também especiais que venham a demandar


para que sua escolarização ocorra satisfatoriamente e sejam evitados tantos outros mecanismos
de discriminação negativa e exclusão demasiadamente conhecida pelos educadores brasileiros.

E aqui é oportuno lembrar que, interpretada sob a ótica do movimento de pais iniciado na
Europa com vistas a pressionar ou convencer a sociedade e as autoridades públicas a incluírem
as pessoas com deficiência nas escolas comuns, em situações comuns de ensino (certamente
alteradas para fazer face à nova demanda), a inclusão escolar tem sido concebida como um
processo peculiar, configurando-se, então, como ideia nova. Por essa razão, tem se tornado alvo
de debates, controvérsias e confusão.

Temos observado que a luta pela educação de qualidade para todos tem sido diluída na discussão
da inclusão escolar como algo inusitado (movimento, teoria, filosofia ou política) que requer
informação e explicação a cada cidadão, profissional da educação ou não, acadêmico ou não. E,
mais que isso, tal esclarecimento tem sido proposto como tarefa de alguns poucos especialistas que
finalmente descobriram a importância da inclusão de todos e até mesmo uma nova denominação
para a educação que tem sido chamada inclusiva.

Educação de qualidade para todos

De qualquer modo, se nos propomos a discutir as perspectivas da inclusão de pessoas com


deficiências ou que apresentam necessidades educacionais diferenciadas, é fundamental que
nossa análise contemple dois planos distintos e interdependentes: o real ou a realidade tal como
se apresenta e o ideal ou a esperança de realização do desejado.

Enquanto cidadãos de uma sociedade que se pretende democrática, temos que lutar por uma
educação de qualidade para todos. E essa busca não comporta qualquer exclusão, sob qualquer
pretexto. No entanto, é preciso também que, para além dos ideais proclamados e das garantias
legais, procuremos conhecer o mais profundamente possível as condições reais de nossa
educação escolar, especialmente a pública e a obrigatória. A partir daí, poderemos identificar e
dimensionar os principais pontos da mudança necessária para o alcance da qualidade que se
espera da educação escolar.

Acredito que construir uma educação que abranja todos os segmentos da população e cada um
dos cidadãos implica uma ação baseada no princípio da não segregação ou, em outras palavras,
da inclusão de todos, quaisquer que sejam suas limitações e possibilidades individuais e sociais.
Todavia, para a conquista da educação escolar que não exclua qualquer educando, particularmente
os com deficiência, é preciso que se entenda que a inclusão e a integração não se concretizam
pela simples extinção ou retirada de serviços ou auxílios especiais de educação. Para alguns
alunos, tais recursos continuam a ser requeridos no próprio processo de inclusão e integração,

37
AULA 3 • O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva

enquanto para outros eles se tornam dispensáveis. O ponto fundamental é a compreensão de


que o sentido de integração pressupõe a ampliação da participação nas situações comuns para
indivíduos e grupos que se encontravam segregados.

Portanto, é para os alunos que estão em serviços de Educação Especial ou outras situações
segregadas que, prioritariamente, se justifica a busca da integração. Para os demais com deficiência,
deve-se pleitear a educação escolar baseada no princípio da não segregação ou da inclusão.

Por que não devemos segregar

O que é preciso evitar, sempre que possível, é a segregação dos educandos pela simples má
vontade ou pelo desentendimento dos responsáveis pelo ensino comum. Como se vê, é na relação
concreta entre o educando e a educação escolar que se localizam os elementos que possibilitam
decisões educacionais mais acertadas, e não somente no aluno ou na escola. O sentido especial da
educação consiste no amor e no respeito ao outro, que são as atitudes mediadoras da competência
ou de sua busca para melhor favorecer o crescimento e o desenvolvimento do outro.

Em razão disso, é oportuno destacar que, para se viabilizar efetivas mudanças de atitudes no
contexto escolar com vistas à inclusão do deficiente, é preciso que se deixe de apenas inferir ou
assinalar a existência de preconceito e discriminação negativa na escola e se procure conhecer
os principais obstáculos e suas justificativas.

Além dos valores e crenças das pessoas envolvidas na educação escolar, outros fatores internos,
tais como a organização (administrativa e disciplinar), o currículo, os métodos e recursos humanos
e materiais da escola comum são os principais determinantes das condições para a inclusão ou
não segregação, para a integração ou, até mesmo, para a segregação de alunos com deficiência.

Entretanto, é importante observar que a escola é apenas uma entre as instituições sociais. Ela
pode até desencadear internamente mudanças para a obtenção de resultados mais imediatos,
mas, isoladamente, pouco poderá fazer ou mesmo mudar de fato, enquanto as atitudes do
meio circundante permanecerem não problematizadas e continuarem se exercendo como já
instaladas. O que não significa ignorar a “potencialidade dinâmica da educação escolar como
impulsionadora das mudanças estruturais”.

Atitudes favoráveis à inclusão

O conhecimento da atuação da escola com relação à inclusão exige uma abordagem holística da
pessoa com deficiência que revele seu contexto de vida (da família, da escola e da sociedade).
Apenas a título de ilustração desse enfoque, serão apontados, a seguir, alguns aspectos importantes
para o desenvolvimento de atitudes favoráveis à inclusão escolar.

38
O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva • AULA 3

No âmbito da sociedade, ainda encontramos aquelas antigas atitudes educacionais citadas no


primeiro capítulo: marginalização, assistencialismo e reabilitação. Ainda hoje, muitas veem a
deficiência como uma doença. Por isso, evitamos o contato, ou queremos ajudar aquele “coitado
sofredor”. Enquanto a população, incluindo aqui os cidadãos e gestores, não tolerarem as diferenças,
entendendo que todos têm potencialidades e habilidades dentro de suas particularidades, e,
mais importante, têm os mesmos direitos que todos e mais outros para lhes permitir viver de
maneira igualitária ao resto da população, perpetuaremos a segregação de milhares de pessoas
com deficiência.

Quanto à escola, duas dimensões devem ser focalizadas: o sistema de ensino e a unidade escolar.
Assim, é oportuno ressaltar que

um conjunto de indicações, de instruções coerentes e precisas se faz necessário


para permitir que as ações educativas, sejam em situações comuns ou especiais,
se desenvolvam de modo a preservar a organicidade e coerência que caracterizam
um sistema escolar e ao mesmo tempo assegurar ao professor as condições
necessárias ao desenvolvimento de seu trabalho, de tal modo que o seu papel
de educador não seja diminuído (FIGUEIRA,1995, pp. 31-33).

Ao educador não cabe o papel de mero executor de currículos e programas predeterminados,


mas, sim, de alguém que tem condições de escolher atividades, conteúdos ou experiências que
sejam mais adequadas para o desenvolvimento das capacidades fundamentais do grupo de
alunos, tendo em conta seu nível e suas necessidades. O sistema de ensino deve definir diretrizes
para uma organização abrangente (autonomia financeira, administrativa e didática), de modo
a incluir o atendimento de alunos com deficiência nos serviços comuns e, se necessário, com
recursos especiais, orientar as escolas sobre procedimentos didáticos e administrativos para
favorecer a integração de alunos com deficiência nas classes comuns; reconhecer a validade dos
serviços e auxílios de Educação Especial como recursos que apoiam e suplementam a educação
escolar regular.

A unidade escolar ou a escola deve ser estruturada de modo a compor um conjunto de recursos
que garantam a atividade-meio coerente com a atividade-fim. Atualmente, o pensamento
educacional tem apontado para a direção da elaboração de um currículo diferenciado para
cada escola, no sentido de que cada uma configura uma realidade específica, determinada pela
combinação dos fatores internos e externos que atuam na sua organização e funcionamento.
Tal currículo deve ser elaborado para atender às necessidades únicas de cada escola do sistema
de ensino, em função das reais necessidades de seus alunos, e não para atender categorias ou
tipos idealizados de alunos.

À medida que essa ideia for, de fato, concretizada, é possível que as diferenças entre educação
regular e Educação Especial também diminuam. E, nessa tendência, poder-se-á chegar ao
ponto em que o que há de especial na “Educação Especial” e, consequentemente, no “currículo

39
AULA 3 • O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva

especial” se converta em um dos elementos de uma ação socioeducacional global, que assegure,
na medida necessária, o interesse de cada membro da comunidade, seja qual for sua condição
e o tipo de auxílio que necessite.

As organizações administrativas, didática e a disciplinar devem ter a maior amplitude possível a


fim de contemplar a maior diversidade possível das condições dos alunos a atender. Para tanto,
é importante:

»» Observar e criar condições físicas favoráveis no prédio escolar.

»» Definir a gestão democrática da escola, contemplando o interesse por alunos com


necessidades educacionais especiais.

»» Propiciar dignas condições de trabalho aos professores comuns e especializados.

»» Entender que nem todos os professores têm condições psíquicas e profissionais adequadas
ao trabalho com o aluno com deficiência, requerendo orientação, preparo e apoio.

»» Elaborar um currículo suficientemente amplo para atender às necessidades dos alunos


e da sociedade, incluindo as adaptações que forem necessárias.

»» Rever critérios de agrupamento dos alunos, bem como critérios de avaliação e promoção.

»» Garantir a infraestrutura de recursos materiais necessários.

»» Envolver os pais e a comunidade no trabalho escolar.

»» Identificar e corrigir atitudes de desvalorização e/ou discriminação de alunos e professores


por quaisquer razões (raça, cor, classe social, idade, sexo, deficiência).

»» Entender que as escolas, como a sociedade, são espaços de choques de interesses e que
o avanço da participação de um grupo implica a reavaliação do outro.

»» Valorizar a integração do professor especializado no corpo docente da escola, como


elemento precedente e essencial à integração do aluno deficiente que esteja apresentando
necessidades educacionais especiais.

»» Desenvolver ações práticas de respeito aos membros da comunidade escolar (alunos,


pais, funcionários, professores, direção).

Ressaltamos que é na convivência com outros e com o meio ambiente que as necessidades
de qualquer ser humano se apresentam. Em razão disso, é importante questionar os critérios
que têm sido utilizados para distinguir as necessidades especiais das necessidades comuns e
vice-versa, em particular no contexto escolar.

40
O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva • AULA 3

A seguir, uma tabela didática com as principais características das escolas inclusivas:

1. Um senso de pertencer Filosofia e visão de que todas as crianças pertencem à escola e à


comunidade e de que podem aprender juntos.

2. Liderança O diretor envolve-se ativamente com a escola toda no provimento de


estratégias.

3. Padrão de excelência Os altos resultados educacionais refletem as necessidades individuais dos


alunos.

4. Colaboração e cooperação Envolvimento de alunos em estratégias de apoio mútuo (ensino de iguais,


sistema de companheiro, aprendizado cooperativo, ensino em equipe,
co-ensino, equipe de assistência aluno-professor).

5. Novos papéis e responsabilidades Os professores falam menos e assessoram mais, psicólogos atuam mais
junto aos professores nas salas de aula, todo o pessoal da escola faz parte
do processo de aprendizagem.

6. Parceria com os pais Os pais são parceiros igualmente essenciais na educação de seus filhos.

7. Acessibilidade Todos os ambientes físicos são tornados acessíveis e, quando necessário, é


oferecida tecnologia assistiva.

8. Ambientes flexíveis de aprendizagem Espera-se que os alunos se promovam de acordo com o estilo e ritmo
individual de aprendizagem e não de uma única maneira para todos.

9. Estratégias baseadas em pesquisas Aprendizado cooperativo, adaptação curricular, ensino de iguais, instrução
direta, ensino recíproco, treinamento em habilidades sociais, instrução
assistida por computador, treinamento em habilidades de estudar.

10. Novas formas de avaliação escolar Dependendo cada vez menos de testes padronizados, a escola usa novas
formas para avaliar o progresso de cada aluno rumo aos respectivos
objetivos.

11. Desenvolvimento profissional continuado Aos professores são oferecidos cursos de aperfeiçoamento contínuo visando
à melhoria de seus conhecimentos e habilidades para melhor educar seus
alunos.

Fonte: próprio autor

Como já foi colocado, a inclusão educacional é um processo histórico viável e pertinente,


pois coaduna com a ideia de educação de qualidade para todos. Entretanto, precisa de muito
investimento da sociedade em geral.

Como viabilizar a inclusão

Para a viabilização da inclusão educacional, a escola brasileira precisa ser reescrita. Muitas adaptações
e mudanças devem acontecer marcando uma revolução que se concretiza na reestruturação do
espaço, do tempo e da prática pedagógica vivenciada na escola. Assim, a escola inclusiva avançará,
de modo que a homogeneização dê lugar à individualização do ensino, na qual os objetivos, a
sequência e ordenação de conteúdos, o processo de avaliação e a organização do trabalho escolar
em tempos e espaços diversificados contemplem os diferentes ritmos e habilidades dos alunos,
favorecendo seu desenvolvimento e sua aprendizagem (RIBEIRO 2003, p. 49).

41
AULA 3 • O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva

Inicialmente, exige-se a mudança de mentalidade e a construção de um novo paradigma


educacional. Deve-se avançar de uma sociedade preconceituosa para uma sociedade humana
e solidária com todos; de uma escola tradicional e fechada a uma escola aberta e inovadora;
de uma prática pedagógica homogeneizadora a ações voltadas para atender, com qualidade, a
toda a diversidade de alunos presentes no sistema educacional. É preciso entender que existem
ritmos e tempos diferentes para aprender, como, também, diversas maneiras de ensinar buscando
atender às diferenças. E, desse modo, a Educação Especial amplia seu campo de atuação quando
visa trabalhar com todos, na intenção de analisar, sugerir, adaptar e compor a utilização dos
recursos favoráveis do meio escolar na promoção do desenvolvimento e aprendizagem de todos.

Nesse sentido, as barreiras atitudinais devem ser superadas com um eficiente trabalho de
sensibilização e esclarecimento a toda a sociedade, sobre o respeito e a atenção às diferenças. O
preconceito, o rótulo e a estigmatização em relação às pessoas com alguma deficiência devem
ser transformados em aceitação, solidariedade, fraternidade e justiça.

Outra barreira que precisa ser vencida é a do espaço físico. As barreiras arquitetônicas precisam
ser eliminadas com a construção de rampas e de banheiros adaptados, em todas as escolas. Os
novos prédios devem ser construídos com as adaptações necessárias.

A falta de materiais didático-pedagógicos especializados também precisa ser resolvida, pois tais
recursos são essenciais para o trabalho pedagógico com os alunos com necessidades educacionais
especiais.

A importância dos educadores na educação inclusiva

A formação dos professores deve merecer atenção especial, pois, muitas vezes, a rejeição dos
professores quanto à ideia de inclusão se dá justamente por não se sentirem preparados para
enfrentar o grande desafio. Por isso, os professores precisam ser subsidiados com os conhecimentos
de como lidar com os alunos com deficiência e os demais. Para ensinar a todos com qualidade,
é imprescindível que se esteja aberto a aprender e a inovar todos os dias. O investimento na
formação permanente dos professores é fundamental para o processo de inclusão.

É preciso ter uma equipe multidisciplinar eficiente, formada por pedagogos, psicopedagogos,
fonoaudiólogos, psicólogos, médico neurologista e psiquiatra, assistente social, para avaliar,
orientar e intervir no processo de ensino dos alunos, prestando apoio e assessoramento ao
trabalho da escola. Mas tal equipe precisa dar conta de atender, com qualidade, todas as escolas
inclusivas.

Para enfrentar tal desafio, os professores necessitam também de um salário que lhes possibilitem
viver com dignidade. Os professores precisam ganhar o suficiente para se manterem e, ainda,
cursar especialização e pós-graduação, comprar livros, adquirir computador, ter acesso à internet,

42
O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva • AULA 3

trabalhar menos e com mais qualidade. Sabe-se que há muitos professores que trabalham em
três ou quatro escolas e dão até setenta aulas semanais. Dessa forma, é impossível garantir
qualidade na prática da docência.

Em vez da prática solitária do professor, a escola deve ter um “Projeto Político-Pedagógico que
realmente seja construído da discussão, do debate, da crítica, mas nega também uma práxis de
libertação...” (DUSSEL 2002, p. 335).

Cortella, (2005, p. 43) relembra Paulo Freire dizendo “que é preciso ter esperança, mas esperança
do verbo esperançar (...) que significa unir e ir atrás, não desistir”. Em conclusão, acredita-se que
a responsabilidade de construir uma sociedade e uma escola inclusiva é de todos nós. Cada um
pode e deve fazer a sua parte. Parafraseando o poeta: sonho que se sonha só é apenas um sonho;
mas, sonho que se sonha junto torna-se realidade.

Como incluir verdadeiramente

A luta em se ter uma escola inclusiva de verdade é grande. De nada adianta colocar a criança
com deficiência dentro de uma classe regular, se a deixarem segregada, exclusa ou vegetando em
sala de aula. A pessoa com deficiência tem que se sentir valorizada, importante, capaz, igual aos
demais estudantes. Cada um possui limites, até os “ditos normais” também os possuem, o que
o professor não pode é enfatizar a limitação das pessoas e, sim, lhes mostrar que são capazes de
evoluir sempre, que cada conquista não é o ponto final, é apenas o estímulo para buscar cada
vez mais.

O professor que enfatiza o fracasso da outra pessoa, que é indiferente, não pode ser chamado
de educador. Não se deseja, de forma alguma, dizer que ser professor é fácil ou que ter crianças
totalmente diversas e com deficiência em sala é tranquilo, fácil de trabalhar, que todos sabem
lidar perfeitamente, não é isso.

Mas o que não se pode aceitar é o docente que se deixa abater diante das dificuldades, que não
busca ajuda, esse, sim, é um fracassado, pois prefere o erro (e, muitas vezes, estreitar e acabar
com a vida de uma criança) do que ter a humildade de pedir ajuda.

A construção de uma escola inclusiva de sucesso só pode ocorrer se anteriormente existir


educação, sociedade, família, mentes inclusivas; caso contrário, o que se aprende e constrói na
escola pode ser perdido com facilidade nos demais ambientes de convívio social, porque “O que
nos faz semelhantes ou mais humanos são as diferenças” (GOMES, 2002, p. 24-33).

O sucesso de toda escola só acontece quando há a participação e a integração de todos os envolvidos


no processo educacional: docentes, direção, orientação, pais, alunos, políticos empenhados, e
toda a comunidade em geral. Para nortear esses trabalhos, faz-se necessário ter objetivos bem

43
AULA 3 • O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva

claros, políticas públicas definidas e acessíveis, projeto político-pedagógico que condiz com
a realidade, fundamentação teórica relacionada com a prática (materialismo dialético), pois
“Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de rejeição”.

O processo de avaliação deverá ser todo reformulado, também, ao se lidar com crianças com
deficiência, não se pode julgar todos iguais, cada qual tem seus talentos, suas habilidades e
capacidades próprias; e trabalhá-las, desenvolvê-las é mais importante do que um simples
número que restringe, bitola e constrange uma pessoa.

A legislação é bem clara quando relata que se deve oferecer estudo gratuito a todas as crianças
de 0 a 14 anos. Contudo, muitos pais, sobretudo com filhos com deficiência, desconhecem a lei,
ou, se conhecem, não sabem como garantir seus direitos. Soma-se a isso o fato de as escolas
recusarem a matrícula de alunos, muitas vezes, por não se sentirem aptos a receberem tais alunos.

Que pedagogia adotar

A pedagogia adotada na escola inclusiva deve ser a voltada à criança como um todo. A escola
deve buscar refletir sobre sua prática, questionar seu projeto pedagógico e verificar se ele está
voltado para a diversidade.

Percebe-se que aqui não se está falando em tratar as crianças como diferentes, melhores ou
piores umas que as outras, mas, sim, da necessidade de a escola conhecer a diversidade com
que trabalha para que realmente possa desenvolver um bom trabalho, que atinja a todos, sem
ser excludente. Também não se deseja a uniformização das crianças, ou seja, que sejam todas
consideradas iguais, pois cada ser é uno, e merece ser tratado como ser especial, realmente único,
como é. Nesse processo objetiva-se apenas a inclusão de todos, e esta deve ocorrer não só na
escola, mas em toda a vida social da pessoa.

As escolas inclusivas devem reconhecer e responder às diversas dificuldades de seus alunos,


acomodando os diferentes estilos e ritmos de aprendizagem e assegurando uma educação de
qualidade para todos mediante currículos apropriados, modificações organizacionais, estratégias
de ensino, recursos e parcerias com suas comunidades. A inclusão, na perspectiva de um ensino
de qualidade para todos, exige da escola brasileira novos posicionamentos que implicam um
esforço de atualização e reestruturação das condições atuais, para que o ensino se modernize
e para que os professores se aperfeiçoem, adequando as ações pedagógicas à diversidade dos
aprendizes.

Essas estratégias para a ação pedagógica no cotidiano escolar inclusivo são necessárias para que
a escola responda não somente aos alunos que nela buscam saberes, mas aos desafios que são
atribuídos no cumprimento da função formativa e de inclusão, tudo num processo democrático,
reconhecendo e valorizando a diversidade, como um elemento enriquecedor do processo de

44
O processo de ensino-aprendizagem em uma perspectiva de educação inclusiva • AULA 3

ensino e de aprendizagem. Portanto, incluir e garantir uma educação de qualidade para todos
os alunos é uma questão de justiça e de equidade social. A inclusão implica a reformulação de
políticas educacionais e de implementação de projetos educacionais inclusivos, sendo o maior
desafio estender a inclusão a um maior número de escolas, facilitando incluir todos os indivíduos
em uma sociedade na qual a diversidade está se tornando mais norma do que exceção.

Conclusão

Percebe-se que não é tarefa fácil construir e colocar em prática uma escola inclusiva. Muitas
unidades escolares apenas integram os alunos com deficiência, mas isso não é ser uma escola
inclusiva. A inclusão requer muito mais. A verdadeira inclusão só ocorre quando se consegue
remover todas as barreiras existentes: preconceitos, medo, comodismo.

A escola inclusiva quer acabar com os rótulos de que a criança com deficiência necessita de uma
escola paternalista, assistencial, que a trate como incapaz ou limitada.

Por isso, é preciso refletir sobre a formação dos educadores, pois essa formação não é para preparar
alguém para a diversidade, mas para a inclusão, porque a inclusão não traz respostas prontas,
não é uma multi-habilitação para atender a todas as dificuldades possíveis na sala de aula, mas
uma formação em que o educador irá olhar seu aluno de outra dimensão, tendo, assim, acesso
às peculiaridades desse aluno, entendendo e buscando o apoio necessário.

Finalizando, cabe refletirmos sobre que é ser igual ou diferente? Pois, se olharmos a nossa volta,
perceberemos que não existe ninguém igual na natureza, no pensamento, nos comportamentos,
nas ações, e as diferenças não são sinônimos de incapacidade ou doença, mas de equidade
humana.

45
AULA
DIREITOS HUMANOS: CIDADANIA,
FAMÍLIA, ESCOLA 4
Introdução

Apresentaremos, nesta aula, como a Educação Inclusiva é importante para o processo de inserção
no mercado e a garantia de cidadania para as pessoas portadoras de deficiência. Enfatizaremos
como a família é importante para que esse processo se dê em sua plenitude. Ainda, falaremos
sobre a importância do papel do professor e das adaptações curriculares para uma escola para
todos.

Objetivos

»» Identificar o processo de exclusão educacional do aluno com necessidades educacionais


especiais no contexto da diversidade social.

»» Instrumentalizar alunos, professores, e outras pessoas da comunidade interessadas nos


recursos disponíveis, facilitadores das relações com as pessoas com deficiência.

»» Congregar a família como impulsionadora da produtividade escolar e do aproveitamento


acadêmico.

46
Direitos humanos: cidadania, família, escola • AULA 4

Já sonhamos juntos semeando as canções no vento, quero ver crescer nossa


voz no que falta sonhar. Já choramos muito, muitos se perderam no caminho,
mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer SOL
DE PRIMAVERA.
(GUEDES, 1980)

Hoje, no Brasil, milhares de pessoas com algum tipo de deficiência estão sendo discriminadas
nas comunidades em que vivem ou sendo excluídas do convívio escolar e social. O processo de
exclusão social de pessoas com deficiência ou alguma necessidade especial é tão antigo quanto
a socialização do homem.

A estrutura das sociedades, desde os seus primórdios, sempre incapacitou os deficientes,


marginalizando-os e privando-os de liberdade. Essas pessoas, sem respeito, sem atendimento,
sem direitos, sempre foram alvo de preconceitos e ações insensíveis.

Nos últimos anos, educadores e pais empoderados têm promovido e implementado a inclusão, nas
escolas, de pessoas com algum tipo de deficiência ou necessidade educacional especial, visando
resgatar o respeito humano e a dignidade, no sentido de possibilitar o pleno desenvolvimento
e o acesso a todos os recursos da sociedade por parte desse segmento.

O entendimento, já exposto, de que nem todo deficiente necessita de atendimentos educacionais


especializados, devendo, nesse caso, estar na escola regular, desde o início de sua escolarização,
reflete a aplicação do princípio da inclusão ou da não segregação.

Nessa abordagem propõe-se que somente quando estiverem esgotadas todas as possibilidades
de ensino no sistema regular é que se deverá dispor ou lançar mão de serviços e auxílios
especiais. Por isso mesmo, é importante que não se entenda a Educação Especial como um mal
a ser evitado. Pelo contrário, acreditamos que para um significativo segmento da população
escolar ela constitui o único recurso que lhe possibilita a educação em organizações escolares,
embora esse não seja o ideal. A escola para todos, inclusiva, pressupões que todo aluno pode e
deve frequentar, de maneira ativa, a escola regular. Há uma excelente alternativa para suprir a
carência de uma escola, de fato, inclusiva que, além das aulas regulares, ofereça a assistência e
reforço pedagógico que o aluno com deficiência tem direito. Essa alternativa seria estar inserida
na escola regular e, no contraturno escolar, frequentar as atividades das escolas especializadas.

O papel da sociedade

A prática da inclusão das pessoas com deficiência deve ser parte integrante de planos nacionais
de educação que objetivem atingir educação para todos. A inclusão social traz no seu bojo a
equiparação de oportunidades, a mútua interação de pessoas com e sem deficiência e o pleno
acesso aos recursos da sociedade.

47
AULA 4 • Direitos humanos: cidadania, família, escola

Cabe lembrar que uma sociedade inclusiva tem o compromisso com as minorias e não apenas
com as pessoas com deficiência. A inclusão social também é uma medida de ordem econômica
favorável, uma vez que a pessoa com deficiência e outras minorias tornam-se cidadãos produtivos,
participantes, conscientes de seus direitos e deveres, diminuindo, assim, as despesas sociais.
Lutar a favor da inclusão social deve ser responsabilidade de cada um e de todos coletivamente,
na medida em que traz benefícios a toda a população, em nível econômico, social e individual.

A inclusão escolar, fortalecida pela Declaração de Salamanca e pela Lei Brasileira de Inclusão,
no entanto, não resolve todos os problemas de marginalização dessas pessoas, pois o processo
de exclusão é anterior ao período de escolarização, iniciando-se no nascimento ou exatamente
no momento em aparece algum tipo de deficiência física ou mental, adquirida ou hereditária,
em algum membro da família. Isso ocorre em qualquer tipo de organismo familiar, sejam as
tradicionalmente estruturadas, sejam as produções independentes e congêneres e em todas as
classes sociais, com um agravante para as menos favorecidas.

A falta de conhecimento da sociedade, em geral, faz com que a deficiência seja considerada uma
doença crônica, um peso e um problema. O estigma da deficiência transforma as pessoas cegas,
surdas e com deficiências mentais ou físicas em seres incapazes, indefesos, sem direitos, sempre
deixados para o segundo lugar na ordem das coisas.

Essa circunstância se intensifica junto aos mais carentes, pois a falta de recursos, econômicos e
culturais, diminui as chances de um atendimento de qualidade. Consequentemente, o potencial
e as habilidades dessas pessoas são pouco valorizados e estimulados nas suas comunidades de
origem, que, obviamente, possuem pouco esclarecimento a respeito das deficiências. Onde estão
as causas da exclusão dessas pessoas no Brasil?

Em se tratando da gestão pública, o que observamos são bons programas, propostas, projetos, leis
e decretos, mas que ficam, na maioria das vezes, só no papel. Programas idênticos e simultâneos
são lançados em duas ou três pastas, sem que haja integração de objetivos e metas entre eles.

O combate ao preconceito às pessoas com deficiência deve ser parte integrante de planos nacionais
de educação que objetivem atingir educação para todos. A inclusão escolar está intimamente
ligada à inclusão social, uma vez que traz no seu bojo a equiparação de oportunidades, a mútua
interação de pessoas com e sem deficiência e o pleno acesso aos recursos da sociedade.

Cabe lembrar que uma sociedade inclusiva tem o compromisso com as minorias e não apenas
com as pessoas com deficiência. A inclusão escolar é, na verdade, uma medida de ordem
econômica, uma vez que o portador de deficiência e outras minorias tornam-se cidadãos
produtivos, participantes, conscientes de seus direitos e deveres, diminuindo, assim, os custos
sociais. Dessa forma, lutar a favor da inclusão escolar deve ser responsabilidade de cada um e
de todos coletivamente.

48
Direitos humanos: cidadania, família, escola • AULA 4

No âmbito da saúde, o que observamos é que os locais de atendimentos são pequenos, superlotados
e sem infraestrutura. As políticas de prevenção, às vezes, ficam restritas a algumas campanhas
de vacinação e os programas de diagnóstico precoce são insuficientes. Os testes com aparelhos
de última geração são destinados a poucos. As sessões de terapias e fisioterapia oferecem poucas
vagas em relação à demanda; a obtenção de próteses e órteses são difíceis e as filas de espera
são enormes para quem não tem poder aquisitivo.

Em relação aos programas ligados à assistência social para as pessoas com alguma deficiência são,
em geral, os que possuem as menores verbas. Não existe trabalho efetivo junto às comunidades
mais carentes e os grupos de orientação e atendimento estão sempre superlotados.

Quando pensamos na inserção no mercado de trabalho, poucos são os empregadores que se


dispõem a absorver a pessoa com deficiência, apesar da legislação existente. Ela é a última a ser
contratada e a primeira a ser demitida, sendo que sua faixa salarial é, em média, menor que a
de seus colegas de profissão.

Talvez, a área mais deficitária seja a de cultura e lazer. Não existem projetos abrangentes
que atendam a todos os tipos de deficiência e, nas áreas de comércio, indústria e serviços, a
acessibilidade é inexiste ou é inconsistente.

Outro passo importante para a inclusão social de pessoas com deficiência é a criação de
mecanismos fortalecedores de seus direitos, tais como destinação de maiores verbas públicas para
os projetos que atendam a esse segmento e participação de entidades de defesa de deficientes e
para deficientes nos processos decisórios de todas as áreas diretamente envolvidas no atendimento
dessa população.

A mídia não pode ser esquecida, pois possui um papel essencial na promoção de atitudes
positivas no sentido da inclusão de pessoas com deficiência na sociedade. A criação de equipes
de intercessão de sistemas junto aos conselhos de defesa da pessoa com deficiência, que mostrem
ao governo, à sociedade e à mídia os acertos e desacertos da inclusão social e escolar e seus
prognósticos para curto, médio e longo prazo, devem ser considerados.

Nas grandes cidades, já conseguimos ver algumas escolas buscando a inclusão de seus alunos,
embora ainda estejamos longe de termos escolas, de fato, inclusivas, como já ressaltamos. Mas,
quando saímos das grandes metrópoles, a realidade nos mostra que a falta de formação de
professores, de recursos técnico-pedagógicos, de estímulo suplementar, de acompanhamento da
equipe multidisciplinar (fonoaudiólogos, assistentes sociais, psicólogos, terapeutas ocupacionais,
de salas e de professores de apoio) deixam a questão da inclusão escolar sem estrutura eficiente,
bonita apenas na teoria.

Deve-se lembrar, sempre, que o princípio fundamental da sociedade inclusiva é o de que todas
as pessoas com deficiência devem ter suas necessidades especiais atendidas. É no atendimento

49
AULA 4 • Direitos humanos: cidadania, família, escola

das diversidades que se encontra a democracia. O que fazer diante desse quadro? O primeiro
passo é conseguir a alteração da visão social e do atendimento escolar por meio:

»» de um trabalho de sensibilização contínuo e permanente por parte de grupos e instituições


que já atingiram um grau efetivo de compromisso com a inclusão de pessoas com
deficiência junto à sociedade;

»» da capacitação de profissionais de todas as áreas para o atendimento das pessoas com


deficiência;

»» da elaboração de projetos que ampliem e inovem o atendimento dessa clientela;

»» da divulgação da Lei Brasileira de Inclusão, Declaração de Salamanca e outros documentos


congêneres, da legislação, de informações e necessidades das pessoas com deficiência
e da importância de sua participação em todos os setores da sociedade;

»» da realização de reuniões pedagógicas de estudo e planejamento com os professores;

»» da organização e planejamento dos planos de estudos e reformulações de acordo com


o projeto político-pedagógico;

»» da articulação com diversos projetos pedagógicos;

»» do estudo, redação e organização do material para construção do regimento escolar.

A reestruturação das instituições não deve ser apenas uma tarefa técnica, pois depende, acima
de tudo, de mudanças de atitudes, de compromisso e disposição dos indivíduos. O primeiro
passo no processo de inclusão social é o da inclusão escolar.

O papel da escola

Ao entrarem para a escola, as crianças com deficiência terão que se integrar e participar
obrigatoriamente de três estruturas distintas da dinâmica escolar: o ambiente de aprendizagem;
a integração professor-aluno e a interação aluno-aluno.

A partir da análise e adequação dessas estruturas e do levantamento de alternativas que favoreçam


o desenvolvimento dos alunos, em geral, e dos alunos com necessidades educacionais especiais,
em particular, é que a inclusão escolar deve ter início.

Assim, é necessário analisar se o ambiente de aprendizagem é favorecedor, se existe oferta de


recursos audiovisuais, se ocorreu a eliminação de barreiras arquitetônicas, sonoras e visuais de
todo o prédio escolar, se existem salas de apoio pedagógico para estimulação e acompanhamento
suplementar, se os currículos e estratégias de ensino estão adequados à realidade dos alunos e

50
Direitos humanos: cidadania, família, escola • AULA 4

se todos os que compõem a comunidade escolar estão sensibilizados para atender o aluno com
deficiência com respeito e apreço.

Para que haja a adequada integração professor-aluno é necessário que o professor da sala regular
e os especialistas de educação das escolas tenham conhecimento sobre o que é deficiência, quais
são seus principais tipos, causas, características e as necessidades educativas de cada deficiência.
O professor precisa, antes de tudo, ter vasta visão dessa área, que deve ser procedente à sua
formação acadêmica.

Hoje, poucas escolas e universidades, que formam professores, abordam adequadamente a questão
da deficiência em seus currículos. Necessitamos mudar essa realidade. A atualização periódica
também é imperativa, devendo ocorrer por meio de cursos, seminários e formação em serviço.

A relação professor/aluno

É importante que os professores tomem ciência do diagnóstico e do prognóstico do aluno


com necessidades educativas especiais. Os professores devem entrevistar pais ou responsáveis
para conhecer todo o histórico de vida desse aluno, a fim de delinear estratégias conjuntas de
estimulação família-escola. Também é importante que solicitem orientações e encaminhem para
profissionais como psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos que estejam atendendo ou que já
atenderam esses alunos, solicitando relatórios e avaliações. Pesquisar várias técnicas, métodos e
estratégias de ensino, em que variáveis como o desenvolvimento da linguagem, o desenvolvimento
físico e, sobretudo, as experiências sociais estejam presentes é de suma importância.

A integração professor-aluno só ocorre quando há uma visão despida de preconceito, cabendo


ao professor favorecer o contínuo desenvolvimento dos alunos com necessidades educativas
especiais. Não é trabalho fácil, mas é possível. Quando ocorre, torna-se uma experiência
memorável para ambos.

A relação aluno/aluno

A interação aluno-aluno traz à tona as diferenças interpessoais, as realidades e experiências


distintas que estes trazem do espaço familiar, a forma como eles lidam com o diferente, os
preconceitos e a falta de paciência em aceitar o outro como ele é. Todos os alunos das classes
regulares devem receber orientações sobre a questão da deficiência e as formas de convivência
que respeitem as diferenças, o que não é tarefa fácil, mas possível de ser realizada. Levar os alunos
de classes regulares a aceitarem e respeitarem os alunos com deficiência é um ato de cidadania.

Cabe a todos os profissionais de escolas especiais, de classes especiais, de salas de apoio, aos teóricos
da Educação Inclusiva, aos profissionais das escolas regulares e às equipes multidisciplinares e de
saúde o papel primordial da integração de ações, da otimização dos recursos e dos atendimentos,

51
AULA 4 • Direitos humanos: cidadania, família, escola

da criação de caminhos de comunicação que considerem a questão da inclusão social como


prioritária e posterior à inclusão escolar.

Adaptações curriculares

As adaptações curriculares, propriamente ditas, são modificações do planejamento, objetivos,


atividades e formas de avaliação, no currículo como um todo, ou em aspectos dele, para acomodar
os alunos com necessidades educacionais especiais.

A realização de adaptações curriculares é o caminho para o atendimento às necessidades


específicas de aprendizagem dos alunos. No entanto, identificar essas “necessidades” requer
que os sistemas educacionais modifiquem não apenas as suas atitudes e expectativas em relação
a esses alunos, mas que se organizem para construir uma real escola para todos, que dê conta
dessas especificidades.

A inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais na classe regular implica o


desenvolvimento de ações adaptativas, visando à flexibilização do currículo, para que ele possa
ser desenvolvido de maneira efetiva em sala de aula, e atender às necessidades individuais
de todos os alunos. De acordo com o MEC/SEESP/SEB (1998), essas adaptações curriculares
realizam-se em três níveis:

»» Adaptações no âmbito do projeto pedagógico (currículo escolar) que devem focalizar,


principalmente, a organização escolar e os serviços de apoio, propiciando condições
estruturais que possam ocorrer na sala de aula e no individual.

»» Adaptações relativas ao currículo da classe, que se referem, principalmente, à programação


das atividades elaboradas para sala de aula.

»» Adaptações individualizadas do currículo, que focalizam a atuação do professor na


avaliação e no atendimento a cada aluno.

Quando falamos em ações adaptativas não podemos deixar de ressaltar a importância da


tecnologia para a estimulação da pessoa com deficiência. A velocidade da renovação do saber e
as formas interativas da cibercultura trazem uma nova esperança de educação para essa clientela.
É necessário, portanto, criar serviços e propostas educativas abertas e flexíveis que atendam às
necessidades de transformação. Em uma próxima aula, nos dedicaremos à Tecnologia Educacional.

A estrutura arquitetônica é primordial para a garantia do direito de todos à Educação. As escolas


passaram a receber um contingente de alunos que apresentam diferentes formas para caminhar,
deslocar-se, escrever, brincar. E se espera das instituições que seus professores, seu espaço, seu
mobiliário estejam adequados a recebê-los. No entanto, não é essa a realidade que encontram,
por exemplo, crianças que apresentam algum comprometimento motor ou que chegam ao seu
primeiro dia de aula em cadeiras de rodas.

52
Direitos humanos: cidadania, família, escola • AULA 4

Ao se receber os alunos com barreiras, que impedem alguns do simples acesso à sala de aula,
ao computador ou à ida ao banheiro com autonomia, está instaurado um poderoso fator de
exclusão social e não haverá inclusão de fato, baseada unicamente na dedicação e boa vontade
dos professores e funcionários, que se desdobram para que ela aconteça. É preciso que a
infraestrutura da escola seja coerente com os princípios de inclusão, e espelhe o respeito a estes
alunos, por meio do cuidado com instalações aptas a recebê-los sem restrições, em um meio
ambiente atento às suas diferenças.

É grande o desafio que se coloca à escola de encontrar formas de cumprir os direitos educacionais,
ou melhor, de garantir os direitos humanos básicos, de uma população escolar cada vez mais
heterogênea; de construir uma escola inclusiva, que aceite todos e os trate de forma diferenciada. 

Assim, segundo Correia (1997), para que o processo de inclusão se verifique levanta-se uma
série de questões:

»» Que tipo de mudança será necessária efetuar na classe regular quanto à sua organização,
gestão e apropriação curricular?

»» Que formação (inicial, especializada, contínua) para o professor (do ensino regular, da
Educação Especial)?

»» Que tipo de recursos humanos e materiais têm que ser considerados (técnicos
especializados – psicólogos, terapeutas, técnicos dos serviços sociais – dentro da classe
regular quando necessário; financiamento apropriado)?

»» Que tipo de legislação deve ser criada?

»» Que tipo de atitudes e expectativas devem mudar?”

Sabe-se que essa mudança há muito vem sendo tentada, reconhece-se que essas grandes
mudanças não se fazem de um dia para o outro. Mas uma análise sistemática permite apontar
para três níveis de investimento:

»» GESTÃO POLÍTICA

›› flexibilidade/rigidez do sistema educativo;

›› legislação e medidas alternativas previstas;

›› recursos materiais e humanos, apoios complementares;

›› formação de professores;

›› critérios de transição e retenção (avaliação).

53
AULA 4 • Direitos humanos: cidadania, família, escola

»» GESTÃO ESCOLAR

›› gestão e administração escolar, defesa de uma política de inclusão;

›› organização social escolar;

›› recursos educativos e apoios complementares;

›› relação escola/família/comunidade.

»» GESTÃO DE SALA DE AULA

›› atitudes e sensibilidade do professor;

›› diversificação de estratégias, atividades, materiais;

›› aprendizagem cooperativa e ensino cooperativo;

›› os colegas como suporte social.

É de responsabilidade das escolas:

»» planejamento adequado e que permita uma comunicação saudável entre aluno,


professor, pais, especialistas e a comunidade (não mudar o aluno para a classe regular
sem qualquer apoio coordenado);

»» sensibilização e ajuda aos pais e à comunidade que permita o seu envolvimento com
vista ao desenvolvimento global do aluno;

»» flexibilidade para perceber o fato de que nem todos os alunos atingem os objetivos
curriculares ao mesmo tempo, considerando uma multiplicidade curricular que se
adapte às características individuais de cada aluno;

»» formação do professor, do diretor, de outros técnicos que poderá ser por meio de
instituição de ensino superior ou em nível de formação contínua.

São necessárias mudanças tanto no âmbito conceitual como no estrutural, para que todos
os alunos completem com sucesso uma educação “básica” por meio de um acesso similar ao
currículo comum. Alguns alunos necessitam de mais tempo e de um nível elevado de apoio
para conseguirem dominar o currículo comum e outros precisam de menos tempo e de menos
ensino direto.

Como diz Porter (1997), nessa nova abordagem da educação de todos os alunos com necessidades
especiais, é fundamental que o professor acredite e seja capaz de aceitar a responsabilidade do
progresso de todos os alunos. A averiguação demonstra claramente que as atitudes e as expectativas
dos professores têm um impulso significativo no autoconceito e no sucesso dos alunos.

54
Direitos humanos: cidadania, família, escola • AULA 4

Como deve ser um programa inclusivo

Um programa inclusivo implica serviços organizados com base numa abordagem de apoio
colaborativo que substituam o modelo tradicional baseado na avaliação do aluno, na prescrição,
no ensino especializado. Isso implica também que o professor do ensino regular deve acreditar
e aceitar que os alunos com necessidades educativas especiais pertencem à educação regular,
e deve confiar que eles serão capazes de aprender nessa situação.

Segundo Wang (1997),

os programas para os alunos com necessidades específicas são muitas vezes


baseados num currículo e num método educativo simplificado que minimiza
os problemas (SCARDAMALIA; BERÉITER, 1989). Muitas vezes, parece ser
suficiente ter conseguido manter ordem na classe, reduzir o currículo ao ensino
de competências simples e diminuir o envio dos alunos ao gabinete do diretor.
Há uma tendência para negligenciar as matérias fundamentais e a experiência
demonstra que os alunos que foram encaminhados para programas destinados
a responder às suas necessidades particulares de aprendizagem recebem menor
quantidade de instrução.

Segundo a mesma autora, muitas vezes as estratégias convencionais utilizadas para apoiar a
diversidade das crianças contribuem para agravar os seus problemas de aprendizagem. Assim, ao
tentar-se a igualdade de oportunidades educativas, sem assegurar um igual acesso ao currículo
normal, só estará a contribuir-se para a desigualdade. Não basta, pois, compensar as diferenças
na aprendizagem por meio de uma facilitação do sucesso escolar para grupos selecionados de
alunos. É importante que os alunos aprendam mais e mais, desenvolvendo o seu processo de
aprendizagem.

A Educação Inclusiva, entendida sob a dimensão curricular, significa que o aluno com necessidades
especiais deve fazer parte da classe regular, aprendendo as mesmas coisas que os outros – mesmo
que de modos diferentes – tocando ao professor fazer as necessárias adaptações (UNESCO, s/d).

Um currículo que leve em conta a diversidade deve ser, antes de tudo, flexível, e passível de
adaptações, sem perda de conteúdo. Deve ser desenhado tendo como objetivo geral a “redução
de barreiras atitudinais e conceituais”, e se pautar em uma reestruturação do processo de
aprendizagem na sua relação com o desenvolvimento humano.

Não se trata apenas de pequenas modificações pontuais que o professor venha a fazer em
termos de métodos e conteúdos. Pelo contrário, implica, sobretudo na “reorganização do projeto
político-pedagógico” de cada escola e do sistema escolar com um todo, levando em consideração
as adaptações necessárias para a inclusão e participação efetiva de alunos com necessidades
especiais em todas as atividades escolares.

55
AULA 4 • Direitos humanos: cidadania, família, escola

Como ensinar o aluno com deficiência junto com os demais é o grande nó e desafio da Educação
Inclusiva, pois é nesse aspecto que a inclusão deixa de ser uma filosofia, uma ideologia ou uma
política, e se torna ação concreta em situações reais, envolvendo indivíduos com dificuldades e
necessidades específicas. Pois, pelo menos em nosso país, a inclusão que se ambiciona ocorrerá
em um contexto de uma escola deficitária (as estatísticas de repetência, fracasso e evasão escolar
mostram que o problema não atinge apenas os chamados alunos com necessidades especiais).
Nas palavras de um integrante do grupo “a escola brasileira, seja ela pública ou privada, não está
preparada para lidar com nenhum aluno do século XXI!”, um professor que não foi formado para
lidar com a diferença, e alunos com grandes dificuldades de aprendizagem devido a deficiências
reais sensoriais, intelectuais, psicológicas e/ou motoras, sem contar as socioeconômicas e culturais.

Apresentamos aspectos importantes a serem repensados para que a inclusão possa se realizar,
com sucesso, no nosso sistema educacional:

»» falta de investimento na formação continuada dos professores;

»» o número pequeno de instituições com Educação de Jovens e Adultos (EJA);

»» o grande número de alunos em sala de aula;

»» a existência de pouco tempo para que os professores preparem suas atividades com
qualidade;

»» o projeto de Educação Inclusiva visto pelo sistema educacional como um “mal necessário”;

»» a dependência da “boa vontade” dos professores;

»» falta de diálogo entre professores, especialistas, mediadores, professores da sala de


recurso, pais e os próprios alunos com deficiência.

A avaliação e a inclusão

A educação traz para a avaliação, segundo o nosso ponto de vista, a visão de homem e de sociedade
que a inspira. Se esta visão é rígida, classificatória e calcada em padrões “normalizantes” – como
a da maior parcela da nossa sociedade – a avaliação dela decorrente é a que vivenciamos na
realidade escolar: meritocrática e discriminatória. Neles, ainda, prevalece o culto aos padrões
estabelecidos de beleza, de aptidão e de intelectualidade.

Uma avaliação que leva em conta as diversidades, da mesma forma que o currículo, precisa
sofrer adaptações. Trata-se de desenvolver uma perspectiva crítica quanto à avaliação, incluindo
questões como:

»» Quais os objetivos iniciais do processo ensino-aprendizagem?

»» O que estamos realmente avaliando? Para quê?

56
Direitos humanos: cidadania, família, escola • AULA 4

»» Quais os aspectos que podem ser modificados (em que âmbito e com qual prioridade)?

»» Quais as estratégias de mudança decorrente da avaliação realizada?

»» Qual a participação do aluno nesse processo avaliativo (será ele apenas o objeto da
avaliação?), entre outros?

O aluno com necessidades educacionais especiais é um indivíduo que se desenvolve de forma


qualitativamente diferente, mas não pode ser considerado inferior ou incapaz de aprender.

Deve ser mudada a tendência vigente de avaliar apenas o que o aluno realiza sozinho, e se passar
a avaliar, também, o que ele é capaz de realizar em grupo ou com o auxílio do professor.

A avaliação deve ser realizada consecutivamente, evitando-se o uso apenas de “cortes avaliativos”
transversais. Esses podem sofrer a influência de variáveis que intervêm no processo só naquele
momento, mascarando, assim, o desempenho dos alunos. É fundamental que o professor utilize
registros, para que a longitudinalidade, citada anteriormente, ocorra. Principalmente na realidade
educacional do nosso país, em que predominam as turmas numerosas, os registros permitem
que o professor não perca os dados da avaliação.

É preciso assinalar que a Educação Inclusiva não pode ser uma forma de negar as necessidades
educativas especiais específicas de cada aluno. Sugerimos que não se fale em inclusão para todos
e, sim, para cada um. A individualização do processo ensino-aprendizagem é a base em que se
constitui um currículo inclusivo. E isso implica reconhecer as características e as dificuldades
individuais para, então, determinar que tipos de adaptações são necessárias, ou não, para que
o aluno aprenda.

O papel da família

Os pais ou responsáveis das crianças com deficiência também se tornam pessoas com necessidades
especiais: eles precisam de orientação e principalmente do acesso a grupos de apoio. Na verdade,
são eles que intermediarão a inclusão de seus filhos junto à comunidade.

Famílias empoderadas, conhecedoras de seus direitos, e dos direitos de seus filhos, podem
mudar uma escola, uma sociedade. São elas que, normalmente, abrirão o diálogo com as escolas.
Mostrarão que seus filhos não são incapazes ou doentes. São, apenas, alunos que têm seu ritmo
próprio de aprendizagem.

É muito dolorosa e desgastante a hora de introduzir uma criança com deficiência na escolarização.
Muitos pais peregrinam por escolas, públicas e particulares, à procura da escola que aceite e que
não segregue seus filhos.

57
AULA 4 • Direitos humanos: cidadania, família, escola

São famílias constantemente chamadas na escola para ouvirem que o filho não consegue se
adequar ao restante da turma. Muitas vezes, ouvem que a culpa do fracasso escolar é da família,
que não sabe educar suas crianças. Quando a criança tem algum tipo de deficiência mental,
é comum a escola desacreditar do diagnóstico, sem, ao menos, consultar o especialista que
acompanha tal criança.

A vida social dessas crianças é extremamente restrita ao ambiente escolar, já que, na maioria das
vezes, o aluno com deficiência é excluído dos eventos sociais extraclasse.

Isso aumenta o estresse familiar e o desejo de tirar seu filho do sistema regular de ensino, optando
pela Educação Especial, começa a surgir. As motivações familiares de retirar a criança com
deficiência da escola regular resultam, normalmente, dos seguintes fatores

»» Confronto diário com a diferença entre os seus filhos e as crianças chamadas típicas.

»» Sentimento de não serem aceitos pelos outros pais, docentes e serviços, ou seja, do
quadro geral de expectativas que constroem a partir das atitudes dos outros (reação
social negativa).

»» Dificuldades de adaptação social e escolar de seus filhos.

»» Receio de a integração acarretar a perda de outros serviços prestados à criança e à família.

»» Receio de colocarem os seus filhos em um ambiente que consideram “não preparado”


para recebê-los e onde, portanto, estarão “menos protegidos”.

»» Aumento do estresse familiar parece ser o fator majoritariamente responsável pela


institucionalização.

Se for difícil mudar a escola, tornando-a mais receptiva à diferença (escola como fator de
integração), é também imperioso que se reconheça que, sem essa mudança, sem a capacidade
de se ajustar às expectativas e necessidades das famílias e dos alunos, sem se tornar inclusiva,
será um fator e uma fonte considerável de estresse e violência para o aluno e para a família.

O processo de individualização e diferenciação curricular, entendido em termos de uma escola


inclusiva, não pode, portanto ignorar que o aumento do estresse familiar parece ser exatamente
o fator que, mais significativamente, leva os pais a decidirem-se pela institucionalização dos
seus filhos.

Conclusão

No desenvolvimento da dinâmica cotidiana, devemos considerar importante que as aulas incluam


diferentes alternativas para abordar o assunto do dia, de forma que os vários “estilos” e interesses
de aprendizagem tenham vazão.

58
Direitos humanos: cidadania, família, escola • AULA 4

O professor deve aprender a planejar as suas aulas de maneira diversificada, para que cada aluno
tenha oportunidade e possibilidade de participação e, ao final, contribua para a aprendizagem
geral do grupo. Independente da composição da turma, o professor deve ser capaz de preparar e
coordenar as atividades de sala de aula, imprimindo a elas uma dinâmica mais compatível com a
realidade social e menos enfadonha para os alunos. Além disso, em uma aula inclusiva, atividades
de caráter comparativo e competitivo devem ser substituídas por aquelas que incentivem a
cooperação entre os alunos.

É na convivência com outros e com o meio ambiente que as necessidades de qualquer ser
humano se apresentam. Em razão disso, é importante questionar os critérios que têm sido
utilizados para distinguir as necessidades especiais das necessidades comuns e vice-versa, em
particular no contexto escolar. Sabemos que o homem se distingue de tudo o mais no mundo
pela palavra e pela ação.

É fundamental, pois, a compreensão de que a inclusão de qualquer cidadão, com deficiência


ou não, é condicionada pelo seu contexto de vida, ou seja, dependem das condições sociais,
econômicas e culturais da família, da escola e da sociedade. Dependem, pois, da ação de cada
um e de todos nós.

59
AULA
TECNOLOGIA ASSISTIVA E
INFORMÁTICA EDUCATIVA 5
Introdução

O foco desta aula é a questão da acessibilidade e o papel da tecnologia assistiva na Educação


Inclusiva. Definiremos acessibilidade como categoria indispensável na configuração de uma
escola inclusiva. Vamos analisar, ainda, o papel da tecnologia na inclusão, assim como as
diferentes categorias de tecnologia assistiva. Finalizando a aula, serão apresentados exemplos
de acessibilidade para diferentes necessidades especiais.

Objetivos

»» Oferecer suporte técnico e pedagógico aos educadores para o uso eficaz no sistema de
ensino.

»» Utilizar os recursos tecnológicos como auxílio pedagógico, oportunizando ao portador


de deficiência a construção do conhecimento.

A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) é uma pesquisa de base domiciliar, de âmbito nacional,
realizada em 81.767 domicílios em 1.600 municípios. A pesquisa é fruto de uma parceria com o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e com o Ministério da Educação e faz parte
do Sistema Integrado de Pesquisas Domiciliares (SIPD) do IBGE e deverá ter uma periodicidade
quinquenal. A pesquisa foi representativa para Brasil, áreas urbanas e rurais, Grandes Regiões,
Unidades Federativas e Capitais. O PNS considerou quatro tipos de deficiências: auditiva, visual,
física e intelectual. O levantamento foi divulgado pelo IBGE e feito em parceria com o Ministério
da Saúde.

Dentre os tipos de deficiência pesquisados, o visual é o mais representativo e atinge 3,6% dos
brasileiros, sendo mais comum entre as pessoas com mais de 60 anos (11,5%). O grau intenso
ou muito intenso da limitação impossibilita 16% dos deficientes visuais de realizar atividades
habituais como ir à escola, trabalhar e brincar.

O Sul é a região do País com maior proporção de pessoas com deficiência visual (5,4%). A pesquisa
mostra que 0,4% são deficientes visuais desde o nascimento, e 6,6% usam algum recurso para

60
Tecnologia assistiva e informática educativa • AULA 5

auxiliar a locomoção, como bengala articulada ou cão-guia. Menos de 5% do grupo frequentam


serviços de reabilitação.

O estudo mostra também que 1,3% da população tem algum tipo de deficiência física e quase
a metade desse total (46,8%) tem grau intenso ou muito intenso de limitações. Somente 18,4%
desse grupo frequentam serviços de reabilitação.

Ainda segundo o IBGE, 0,8% da população brasileira tem algum tipo de deficiência intelectual, e a
maioria (0,5%) já nasceu com as limitações. Do total de pessoas com deficiência intelectual, mais
da metade (54,8%) tem grau intenso ou muito intenso de limitação e cerca de 30% frequentam
algum serviço de reabilitação em saúde.

As pessoas com deficiência auditiva representam 1,1% da população brasileira, e esse tipo de
deficiência foi o único que apresentou resultados estatisticamente diferenciados por cor ou raça,
sendo mais comum em pessoas brancas (1,4%), do que em negros (0,9%). Cerca de 0,9% dos
brasileiros ficaram surdos em decorrência de alguma doença ou acidente e 0,2% nasceu surdo.
Do total de deficientes auditivos, 21% têm grau intenso ou muito intenso de limitações, o que
compromete atividades habituais.

Os percentuais mais elevados de deficiência intelectual, física e auditiva foram encontrados em


pessoas sem instrução e em pessoas com o ensino fundamental incompleto. Ou seja, grande
parte dessa população vive realidades de graves carências sociais, como baixa renda e baixo
nível de escolaridade, o que só reforça as dificuldades dessas pessoas, em função das barreiras,
preconceitos, desigualdades e desinformação, conforme vem sendo detectado e alertado por
diferentes organizações de defesa dos direitos da pessoa com deficiência.

Além da carência socioeconômica, outra dificuldade encontrada pelas pessoas com deficiência
é o preconceito aos quais essas pessoas estão sujeitas, conforme dito ao longo de nosso estudo.
Desenvolver recursos de acessibilidade também pode significar condenar esses preconceitos, pois,
no momento em que lhe são dadas as condições para interagir e aprender, especificando o seu
pensamento, o indivíduo com deficiência mais facilmente será tratado como cidadão de direito.

Suas diferenças serão vistas, mas eles poderão interagir, relacionar-se e competir em seu meio com
recursos mais intensos, proporcionados pelas adequações de acessibilidade de que dispõe. Esse
indivíduo poderá, então, dar caminhadas maiores em direção ao cancelamento das discriminações,
como consequência da consideração conquistada com a convivência, aumentando sua autoestima,
porque passa a poder explicitar melhor seu potencial e pensamentos.

A estrutura das sociedades, desde o seu início, sempre incapacitou as pessoas com deficiência,
marginalizando-as e tirando-lhes o livre-arbítrio. Essas pessoas, sem respeito, sem atendimento,
sem direitos, sempre foram mira de atitudes preconceituosas e ações indiferentes.

61
AULA 5 • Tecnologia assistiva e informática educativa

Nos últimos anos, ações isoladas de educadores e de pais têm promovido e praticado a inclusão,
nas escolas, de pessoas com algum tipo de deficiência, visando resgatar o respeito humano e a
dignidade, no sentido de permitir o pleno desenvolvimento e o ingresso a todos os recursos da
sociedade por parte desse segmento.

A educação como instituição de gestão de conhecimento abrange quatro processos fundamentais:


planejamento, administração de recursos (físicos, financeiros, de informação), avaliação
e atualização periódica (de conteúdos, metodologias, formas organizativas) em função de
modificações sociais, tecnológicas e econômicas, articulação de processos educativos desenvolvidos
durante a vida das pessoas.

Hoje, a qualidade da educação extrapola os critérios ligados com assimilação de conhecimento,


utilização de códigos elaborados na comunicação, desenvolvimento da capacidade fértil em
termos econômicos ou transmissão de informação.

Uma educação de qualidade nos termos descritos é a base da formação de uma personalidade
harmoniosa de um ser humano e das coletividades humanas como conjunto.

Fundamentado nessas ideias, não são os indivíduos que deveriam ser exigidos de se adaptarem
às condições materiais, pedagógicas, administrativas de uma educação delineada em função
das necessidades de boa parte da sociedade, mas, sim, é a organização social e material da
educação que deve se adequar às necessidades características próprias de todas as ordens que
existem nos indivíduos. Essa adequabilidade da educação é justamente uma das características
de qualidade, do mesmo jeito que uma sociedade bem organizada deve ser capaz de atender
às necessidades e às aspirações de todos os seus elementos. Esse seria o fator por excelência de
uma sociedade inclusiva.

Mas a inclusão social, em geral e na educação em particular, não se refere só ao acesso aos serviços
educativos. Ela é muito mais do que isso. Inclusão tem implicações nos processos comunicativos,
pedagógicos, administrativos dentro das instituições e programas educativos, mas, também, entre
eles e os contextos sociais, culturais e naturais em que tais processos são desenvolvidos. Ainda
mais, a educação como processo social será ou inclusiva ou excludente, dependendo também de
fatores extraescolares, tais como serviços básicos de saúde, nutrição, informação, comunicação e
da acessibilidade que tais serviços apresentam para os sujeitos atuais e potenciais da educação.

Acessibilidade e sua importância na informática

Acessibilidade significa não apenas permitir que pessoas com deficiência participem de atividades
que incluem o uso de produtos, serviços e informação, mas a inclusão e a extensão do uso destes
por todas as parcelas presentes em determinada população, com restrições as mínimas possíveis.

62
Tecnologia assistiva e informática educativa • AULA 5

Em informática, programas que provêm acessibilidade são ferramentas ou conjuntos de


ferramentas que permitem que pessoas com deficiências (as mais variadas) se utilizem dos recursos
que o computador oferece. Essas ferramentas podem constituir leitores de tela para deficientes
visuais, teclados virtuais para com deficiência motora ou com dificuldades de coordenação
motora e sintetizadores de voz para pessoas com problemas de fala.

Para a estimulação da pessoa com deficiência, a tecnologia da informação é fundamental, pois a


presteza da renovação do saber e as formas interativas da informática educativa trazem uma nova
perspectiva de educação para essa população. É necessário, portanto, criar serviços e propostas
educativas abertas e flexíveis que atendam às necessidades de mudanças.

A informática educativa não só demonstra que a maior parte dos conhecimentos adquiridos por
uma pessoa no início de sua vida educacional estará ultrapassada ao final de certo tempo, como,
também, aponta novas formas de habilitação e reabilitação de pessoas com deficiência. Esse
fenômeno de apreensão de transformações constantes deve ser posto ao alcance das pessoas
com deficiência.

A importância da tecnologia na inclusão

Ao refletirmos sobre utilização de computadores na educação, devemos considerar a colaboração


que a educação dá às melhoras sociais e que a tecnologia é importante como meio para alcançar
esses fins, não indicando finalidades e valores norteadores para seus usuários. São eles que se
utilizarão dela para conduzir finalidades e valores adequados à sua realidade. Dessa forma, as
crianças com deficiência não podem mais continuar privadas do uso da informática no processo
ensino-aprendizagem.

Hoje, o homem está cercado pelos computadores, portanto, cabe à educação de alunos com
deficiência congregar esse instrumento ao seu cotidiano, para que, dessa forma, possa contribuir
para facilitar a vida do indivíduo em seu meio social. Nesse sentido, o processo de desenvolvimento
da criança com deficiência, não mais que as outras, necessita acionar as novas tecnologias,
sobretudo a da informática. A introdução de um trabalho pedagógico apoiado no computador
pode despertar na criança, seja ela com deficiência ou não, o interesse e a motivação pela
descoberta do conhecimento, a partir do mecanismo do aprender-fazendo.

A utilização do computador por uma clientela com deficiência cria um ambiente de aprendizagem
no qual não há riscos de bloqueios cognitivos em função de problemas emotivos ou de faltas na
capacidade de relacionamento, por exemplo. O computador se apresenta como uma máquina
que repete obedientemente o trabalho, responde a perguntas, cala-se ao simples apertar de
teclas e não provoca constrangimentos afetivos durante as situações de aprendizagem propostas.

A palavra tecnologia encontra-se hoje com a mesma propagação de outrora das palavras
democracia e liberdade. O homem chamado moderno não pode se desprender desses significados

63
AULA 5 • Tecnologia assistiva e informática educativa

e significantes tão próximos, embora ainda com certa dose de fantasia na sua realização. As novas
tecnologias já ultrapassam o campo do visível e das ferramentas, são também meios e métodos
de intervenção na vida de todos nós.

Embora a informática seja mais desenvolvida ou disseminada na área da deficiência visual,


entrevemos outras possibilidades de aplicação no caso de deficiência física, sensorial e/ou
mental, incapacidade motora, disfunções na área da linguagem etc. Nesse sentido, identificamos
a experiência de projetos e iniciativas que apresentam recursos, de baixo custo e de simples
construção, com a finalidade de responder às necessidades sólidas de cada aluno e possibilitar
sua interação com o computador.

O custo referente à produção e obtenção de ferramentas, equipamentos, aparelhos e materiais


auxiliares é sempre difícil no que se refere à realidade brasileira, pois não existe atribuição
obrigatória de ajudas técnicas. O que se observa é a concessão de órteses e próteses, em
pequena escala, de forma ocasional e insuficiente para atender à questão de uma população
economicamente desamparada.

A expressão acessibilidade, presente em diferentes áreas de atividade, tem também na informática


um importante significado. Representa para o nosso usuário não só o direito de acessar a rede de
informações, mas, também, o direito de eliminação de barreiras arquitetônicas, de disponibilidade
de comunicação, de acesso físico, de equipamentos e programas adaptados, de conteúdo e
apresentação da informação em formatos alternados.

As tecnologias são, no campo da educação, de uso muito remoto, muito embora não estejamos
reconhecendo um quadro-negro como uma ferramenta tecnológica, ou mesmo um pedaço de giz,
mas podemos dizer que os homens vêm idealizando e recriando aparelhos, ferramentas, técnicas e
tecnologias instrumentais, mas, também, vêm aperfeiçoando as chamadas tecnologias simbólicas
como a linguagem, a escrita, as representações simbólicas. Assim fazendo uso destas tecnologias
nos processos de organização do trabalho, das relações humanas e, mais modernamente, das
técnicas de mercado.

Tecnologia assistiva

Tecnologia assistiva é um termo ainda novo, utilizado para identificar todo o conjunto de recursos
e aparelhos que contribuem para proporcionar ou aumentar habilidades funcionais de pessoas
com deficiência e, consequentemente, gerar uma vida mais independente e, consequentemente,
a inclusão.

Os recursos utilizados por pessoas com deficiência podem variar de uma simples bengala a
um complexo sistema computadorizado. Estão incluídos brinquedos e roupas adaptadas,
computadores, softwares e hardwares especiais, que contemplam questões de acessibilidade,

64
Tecnologia assistiva e informática educativa • AULA 5

dispositivos para adequação da postura sentada, recursos para mobilidade manual e elétrica,
equipamentos de comunicação alternativa, chaves e acionadores especiais, aparelhos de escuta
assistida, auxílios visuais, materiais protéticos e milhares de outros itens confeccionados ou
disponíveis comercialmente.

Já os serviços são aqueles prestados profissionalmente à pessoa com deficiência visando selecionar,
obter ou usar um instrumento de tecnologia assistiva. Como exemplo, podemos citar avaliações,
experimentação e treinamento de novos equipamentos.

Os serviços de tecnologia assistiva são, normalmente, transdisciplinares envolvendo profissionais


de diversas áreas, tais como:

»» Fisioterapia;

»» Terapia Ocupacional;

»» Fonoaudiologia;

»» Educação;

»» Psicologia;

»» Enfermagem;

»» Medicina;

»» Engenharia;

»» Arquitetura;

»» Design;

»» Técnicos de muitas outras especialidades.

Num sentido mais extenso, entendemos que a evolução tecnológica caminha na direção de tornar
a vida mais fácil. Sem nos apercebermos, utilizamos constantemente ferramentas que foram
especialmente desenvolvidas para favorecer e simplificar as atividades do cotidiano como os
talheres, as canetas, os computadores, o controle remoto, os automóveis, os telefones celulares,
o relógio, enfim, uma interminável lista de recursos, que já está assimilada a nossa rotina e, num
senso geral, “são instrumentos que facilitam nosso desempenho em funções pretendidas”.

Resumindo, podemos dizer que o objetivo maior da tecnologia assistiva é proporcionar à pessoa
com deficiência maior independência, qualidade de vida e inclusão social, pela ampliação de
sua comunicação, mobilidade, desenvoltura de seu aprendizado e trabalho.

65
AULA 5 • Tecnologia assistiva e informática educativa

Categorias de tecnologia assistiva


»» Auxílio para a vida diária e a vida prática: materiais e produtos que favorecem
desempenho autônomo e independente em tarefas rotineiras ou facilitam o cuidado
de pessoas em situação de dependência de auxílio, nas atividades como se alimentar,
cozinhar, vestir-se, tomar banho e executar necessidades pessoais. São exemplos os
talheres modificados, suportes para utensílios domésticos, roupas desenhadas para
facilitar o vestir e despir, abotoadores, velcro, recursos para transferência, barras de apoio.

»» Comunicação aumentativa e alternativa: destinada a atender pessoas sem fala ou escrita


funcional ou em defasagem entre sua necessidade comunicativa e sua habilidade em falar
e/ou escrever. Recursos como as pranchas de comunicação, construídas com simbologia
gráfica, letras ou palavras escritas, são utilizados pelo usuário para expressarem suas
questões, desejos, sentimentos, entendimentos. A alta tecnologia dos vocalizadores
(pranchas com produção de voz) ou o computador com softwares específicos garante
grande eficiência à função comunicativa.

»» Recursos de acessibilidade ao computador: conjunto de hardware e software


especialmente idealizado para tornar o computador acessível, no sentido de que
possa ser utilizado por pessoas com privações sensoriais e motoras. São exemplos de
equipamentos de entrada os teclados modificados, os teclados virtuais com varredura,
mouses especiais e acionadores diversos, softwares de reconhecimento de voz, escâner,
ponteiras de cabeça por luz, entre outros. Como equipamentos de saída, podemos citar
a síntese de voz, monitores especiais, os softwares leitores de texto, impressoras braile.

»» Sistema de controle de ambiente: por meio de um controle remoto, as pessoas com


limitações motoras podem ligar, desligar e ajustar aparelhos eletroeletrônicos como a
luz, o som, televisores, ventiladores, executar abertura e fechamento de portas e janelas,
receber e fazer chamadas telefônicas, acionar sistemas de segurança, entre outros,
localizados em seu quarto, sala, escritório, casa e arredores. O controle remoto pode ser
ativado de forma direta ou indireta e, nesse caso, um sistema de varredura é disparado
e a seleção do aparelho, bem como a determinação de que seja ativado, se dará por
acionadores (localizados em qualquer parte do corpo) que podem ser de pressão, de
sopro, de piscar de olhos, por comando de voz etc.

»» Projeto arquitetônico de acessibilidade: adaptações estruturais e reformas na casa e/


ou ambiente de trabalho, por meio de rampas, elevadores, adaptações em banheiros
entre outras, que retiram ou reduzem as barreiras físicas, facilitando a locomoção da
pessoa com deficiência.

»» Órtese e prótese: próteses são peças artificiais que substituem partes ausentes do
corpo. Órteses são colocadas junto a um segmento do corpo, garantindo-lhe melhor

66
Tecnologia assistiva e informática educativa • AULA 5

posicionamento, estabilização e/ou função. São normalmente confeccionadas sob medida


e servem no auxílio de mobilidade, de funções manuais (escrita, digitação, utilização
de talheres, manejo de objetos para higiene pessoal), correção postural, entre outros.

»» Auxílio de mobilidade: a mobilidade pode ser auxiliada por bengalas, muletas, andadores,
carrinhos, cadeiras de rodas manuais ou elétricas e qualquer outro veículo ou equipamento
ou estratégia utilizada na melhoria da mobilidade pessoal. Um exemplo de tática seria a
colocação de pistas sensoriais facilitando a identificação do lugar, dentro de um espaço
controlado como a casa, a escola ou o trabalho.

»» Auxílio para cegos ou pessoas com visão subnormal: equipamentos que visam à
independência das pessoas com deficiência visual na realização de tarefas como consultar
o relógio, usar calculadora, verificar a temperatura do corpo, identificar se as luzes estão
acesas ou apagadas, cozinhar, identificar cores e peças do vestuário, verificar pressão
arterial, identificar chamadas telefônicas, escrever, ter mobilidade independente. Inclui,
também, auxílios óticos, lentes, lupas; os softwares leitores de tela, leitores de texto,
ampliadores de tela; os hardwares como as impressoras braile, lupas eletrônicas, linha
braile – dispositivo de saída de computador com agulhas táteis, agendas eletrônicas.

»» Adaptação de veículos: acessórios e adaptações que possibilitam a uma pessoa com


deficiência física dirigir um automóvel, facilitadores de embarque e desembarque, como
elevadores para cadeiras de rodas (utilizados nos carros particulares ou de transporte
coletivo), rampas para cadeiras de rodas, serviços de autoescola para pessoas com
deficiência.

Tecnologia assistiva nas escolas

O entendimento do conceito da tecnologia assistiva elucida a sua distinção daquilo que chamamos
de tecnologia médica ou tecnologia da reabilitação. Essas são destinadas a favorecer averiguação
diagnóstica e tratamento de saúde e de reabilitação física, propriamente dita, sendo instrumento
de trabalho dos profissionais dessa área de atuação.

A tecnologia assistiva, no entanto, é entendida como o recurso do usuário, da pessoa com


deficiência e atende a sua necessidade pessoal de exercer funções do cotidiano de forma mais
independente. Todo projeto para determinação e utilização de um recurso de tecnologia assistiva
implica o envolvimento direto de seu usuário, do conhecimento de seu contexto e deve, portanto,
estimar suas intenções funcionais, bem como suas capacidades atuais, que serão “dilatadas” pela
utilização do recurso proposto. Também o contexto, meio em que a pessoa com deficiência está
ou deseja estar inserida, pode necessitar de adaptações no sentido de promover acessibilidade
e possibilidades de seu desempenho independente em tarefas por ele estabelecidas.

67
AULA 5 • Tecnologia assistiva e informática educativa

Ao pensarmos na utilização de computadores na educação, devemos avaliar a colaboração que a


educação dá às reformas sociais e que a tecnologia é importante como meio para alcançar esses
fins, não indicando finalidades e valores norteadores para seus usuários. São esses usuários que
se utilizarão dela para conduzir finalidades e valores adaptados à sua realidade. Dessa forma, as
crianças com deficiência não podem mais continuar privadas do uso da informática no processo
ensino-aprendizagem.

Os professores devem organizar suas metas partindo da realidade, das necessidades e dos
interesses de sua clientela, tentando despertar o prazer pela descoberta, provocando a mudança
de comportamento tão desejada por aqueles que pretendem a reestruturação da educação.
Aqueles que acreditam que esses novos tempos exigem novas condutas de ajuda recíproca, de
muita flexibilidade e de criatividade para responder a questões que a sofisticação da sociedade
da era da informação exige dos cidadãos, e, entre eles, dos portadores de necessidades educativas
especiais. Principalmente, se entendermos como Vygotsky, ao afirmar que a deficiência não é só
impossibilidade, mas, também, é força.

O professor como mediador pedagógico deve apresentar as seguintes características:

»» tem de estar voltado para a aprendizagem do aluno, assumindo que o aprendiz é o


centro do universo do ensino;

»» professor e aluno constituem a célula básica do desenvolvimento da aprendizagem, por


meio de ações e relações conjuntas;

»» deve haver corresponsabilidade e parcerias nesse processo;

»» criação de um clima de mútuo respeito entre professor e aluno;

»» domínio profundo de sua área de conhecimento, demonstrando competência;

»» criatividade como elemento de busca e motivação para o surgimento de situações


inesperadas;

»» disponibilidade para o diálogo;

»» subjetividade e individualidade: professor e alunos são seres humanos, com subjetividades


e com identidades individuais, comunicação e expressão em função da aprendizagem.

A utilização do computador, por pessoas com deficiência, cria um ambiente de aprendizagem


na qual não há riscos de bloqueios cognitivos em função de problemas emotivos ou de faltas
na capacidade de relacionamento. O computador, diferentemente dos seres humanos, não se
lamenta, não grita e não pune em caso de erro. O computador se apresenta como uma máquina
que repete docilmente o trabalho, responde a perguntas, cala-se ao simples apertar de teclas e
não provoca constrangimentos afetivos durante as situações de aprendizagem propostas.

68
Tecnologia assistiva e informática educativa • AULA 5

Vivemos em um mundo dominado pela informação e por processos que ocorrem de maneira
muito rápida e, às vezes, imperceptível. Os fatos e alguns processos específicos que a escola ensina
rapidamente se tornam antiquados e inúteis. Nesse cenário, o arquivamento de informações dá
lugar ao desenvolvimento da capacidade de procurar, selecionar e utilizar a informação.

Dessa maneira, a realidade da informática educativa é o uso do computador não como “máquina
de ensinar”, mas como um meio de comunicação educacional. Isto é, o computador deve ser
utilizado como um instrumento educacional, um instrumento de complementação, de refinamento
e de possível mudança na qualidade da educação. Essas mudanças podem ser introduzidas
com a presença do computador e da internet que devem cooperar para criação das condições
de proporcionar aos estudantes o exercício da capacidade de procurar e selecionar informação,
resolver problemas e instruir-se independentemente.

A escola ajuda a irradiar conhecimentos que entusiasmam a formação de novos hábitos e atitudes
em casa, ela amplia o espaço de geração de informação. Irradia informações que ajudam as
pessoas a aprenderem. É reconhecida como responsável por uma função social importante: a
geração do conhecimento para todos.

Proposta curricular

A realização da proposta curricular situa-se nesse contexto de mudança, em que mais do que
abandonar a concepção sequencial dos conteúdos dos currículos tradicionais, busca inserir a
escola no mundo de oportunidades que fluem pelos novos meios de comunicação. A utilização
didática das novas tecnologias da informação e da comunicação favorece o processo pedagógico
da proposta curricular no mundo novo. É, pois, obrigação ética de uma política pública de
educação desenvolver as possibilidades de utilização desse importante meio didático.

Daí o esforço pela inclusão digital nas escolas e pelo enriquecimento e ampliação dos centros
das novas tecnologias educacionais. Ou seja, não é o currículo que muda, entendido apenas
como uma sequência de disciplinas. O que é possível modificar e enriquecer é o conteúdo da
aprendizagem em um processo interativo de comunicação que tenha infraestrutura atualizada
de tecnologias educacionais. Também é possível estender os espaços para que o processo de
ensino-aprendizagem se dê de um estilo aberto, em que professor e alunos interajam com
contentamento na geração contínua do novo conhecimento.

Benefícios da tecnologia nas escolas

As novas tecnologias têm transformado todas as organizações modernas, inclusive a escola.


Tornam necessário construir uma escola diferente, administrada de forma diferente e com um

69
AULA 5 • Tecnologia assistiva e informática educativa

processo diferente de ensino-aprendizagem. O diferencial é sair do padrão autocrático, pautado


pela relação autoritária de direção e obediência, pela qual um manda e o outro obedece, um
ensina e o outro aprende, para um processo público de gestão e de educação em que as pessoas
interagem e se comprometem de forma coletiva com os objetivos educacionais e com a direção
de futuro desejada.

É esta a escola aberta e integrada. Aberta, porque desfaz os limites da sala de aula e dos muros
da escola e se abre para enriquecer o processo de interação dos professores e alunos com as
famílias, com a comunidade e com os demais agentes sociais, em atividades de aprendizagem que
incluem, por exemplo, o lazer, a cultura, a arte nas suas diversas expressões, o esporte, a refeição
em comum, as atividades cívicas. Os conteúdos curriculares são enriquecidos nesse processo em
que todos contribuem para afluir informações e compartilhá-las. Daí a escola integrada: mais
do que o tempo global de convívio com as práticas tradicionais, integra-se na direção de novos
conteúdos, de novas vivências e de novas relações com a comunidade.

A ideia do aprendizado por meio de projetos, a chamada pedagogia de projetos, é um exemplo


de uma forma de criar ambientes de aprendizagem informatizados abertos, com a finalidade de
ir aprofundando conceitos e construindo os conhecimentos.

Manejando, preferencialmente, softwares e sistemas abertos, ou seja, aqueles que permitam ao


aluno o desenvolvimento de projetos em diferentes áreas do conhecimento, recorrendo, para
isso, a sua criatividade e mecanismos internos de construção desse conhecimento e resolução
de problemas, estaremos, com mais facilidade, trabalhando segundo esse modelo proposto.

Para explicar, se pensarmos em atividades que objetivem o desenvolvimento da leitura e da


escrita, ou mesmo de outros conteúdos e conceitos, os alunos podem trabalhar, por exemplo,
com projetos de criação, redação e leitura de histórias, utilizando, entre várias opções:

»» editores de texto;

»» software específico de edição de histórias;

»» programação livre com a Linguagem Logo, combinando projetos gráficos com frases e
textos, descritivos ou narrativos;

»» a interação, por correio eletrônico, de suas produções, projetos e ideias, entre os próprios
alunos participantes das atividades ou também com outros alunos de diferentes
localidades;

»» a construção coletiva de histórias via rede (internet e/ou intranet);

»» pesquisa de histórias na web.

70
Tecnologia assistiva e informática educativa • AULA 5

As formas de acesso ao computador podem ser divididas em quatro grupos:

»» Pessoas que não precisam de recursos especiais: são os usuários que apresentam alguma
dificuldade de acesso, mas não o suficiente para necessitar de adaptações.

»» Pessoas que necessitam de adaptações em seu próprio corpo: são os usuários que
se beneficiam de órteses colocadas nas mãos ou dedos que facilitam o teclar. Alguns
necessitam de pulseira de peso para diminuir a carência de coordenação e outros de faixas
para restringir o movimento dos braços. A indicação desses recursos deve ser feita por
um terapeuta ocupacional. Essas pessoas vão utilizar o computador sem modificações.

»» Pessoas que necessitam de adaptações do próprio computador: são os usuários para os


quais a introdução de recursos no próprio corpo não são suficientes ou não são eficazes.

»» Pessoas que necessitam de programas especiais: os usuários que necessitam de


programas especiais são aqueles que vão interagir com o computador com o auxílio de
acionadores externos, por não serem capazes de utilizar o teclado e o mouse, mesmo
adaptados.

Conclusão

O conceito de inclusão é recente em nossa cultura. Estamos começando a usar essa palavra,
a incorporar esse movimento. Como qualquer situação nova, a inclusão incomoda, desperta
curiosidade, insensibilidade ou negação, encontra simpatizantes e também críticos; envolve
praticamente todo campo do social, apontando para a necessidade de repensar, de alterar hábitos,
posturas, atitudes, começando pelo plano individual, tirando-nos de nosso clássico conforto:
temos que abrir espaço em nosso planeta interno para que mais pessoas pertençam a ele.

Além de recente, esse conceito é abrangente: envolve entrada aos bens sociais, culturais e
econômicos, à educação, à saúde, ao trabalho, à tecnologia... e assim por diante. Ora, para que
as pessoas com deficiência sejam incluídas nas escolas, igrejas, cinemas, empresas. é preciso que
eles sejam acessíveis. Se não, elas nem conseguem entrar e como vão estar incluídas se ficarem
do lado de fora? Olhando para o passado e o futuro?

A sociedade aberta garante qualidade de vida para todos; portanto, é um pacto que deve ser
assumido por todos nós, em nossas respectivas esferas de ação e influência.

O sucesso do processo de inclusão está diretamente ligado à possibilidade de reconhecer as


diferenças e aceitá-las. Isso não significa ignorá-las, isso não significa colocar crianças com
deficiência na sala de aula regular e esperar que elas aprendam pela proximidade com seus
colegas da mesma idade. Respeitar as diferenças é oportunizar os recursos necessários para que

71
AULA 5 • Tecnologia assistiva e informática educativa

a criança aprenda. Muitas vezes esses recursos serão simples como letras soltas ou textos escritos
em letras maiúsculas e, outras vezes, poderá ser o uso de um computador adaptado.

Dados do Censo Escolar indicam crescimento expressivo em relação às matrículas de alunos com
deficiência na educação básica regular. Dados do MEC1 indicam que no ano de 2014, 698.768
estudantes com deficiência estavam matriculados em classes comuns.

Em 1998, cerca de 200 mil pessoas com deficiência estavam matriculadas na educação básica,
sendo apenas 13% em classes comuns. Em 2014, eram quase 900 mil matrículas e 79% delas em
turmas comuns.

“Se considerarmos somente as escolas públicas, o percentual de inclusão sobe para 93% em
classes comuns”, explicou a diretora de Políticas de Educação Especial da Secretaria de Educação
Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação, Martinha Clarete
dos Santos.

Ao longo da história, a tecnologia vem sendo utilizada para facilitar a vida dos homens. Para as
pessoas com deficiência, a tecnologia é a diferença entre o “poder” e o “não poder” realizar ações.

1 http://www.brasil.gov.br/educacao/2015/03/dados-do-censo-escolar-indicam-aumento-de-matriculas-de-alunos-com-deficiencia,
acessado em 3/9/2017.

72
AULA
ORGANIZAÇÃO DA PRÁTICA
EDUCATIVA: PLANEJAMENTO E
AVALIAÇÃO EDUCACIONAL 6
Introdução

Esta aula dedica-se à questão do currículo e da avaliação na Educação Inclusiva. Serão apresentadas
discussões acerca das adaptações de acesso necessárias à implementação de um currículo inclusivo,
assim como as adaptações metodológicas e didáticas fundamentais para este. Serão, ainda,
discutidas questões relacionadas à prática da avaliação e da promoção no contexto da Educação
Inclusiva. Compreendendo currículo e avaliação como aspectos centrais do processo educativo,
encerramos com esses assuntos nosso estudo sobre a Educação Inclusiva e seu planejamento.

Objetivos

»» Discutir sobre a importância da avaliação pedagógica na escola e de sua intervenção


no processo de aprendizagem.

»» Discutir o planejamento e a organização da prática educativa, visando à atenção à


diversidade na sala de aula e as adaptações do currículo.

»» Aprofundar o conhecimento das características de aprendizagem de indivíduos com


necessidades especiais.

73
AULA 6 • Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional

A escola é um dos meios mais ativos para transformar a realidade da exclusão social, e para se
construir uma sociedade mais justa e igualitária, na qual todos, sem exceção, possam usufruir
os mesmos direitos e oportunidades.

A LBI de 2015 propõe que todas as pessoas com deficiência sejam matriculadas na escola regular,
baseando-se no princípio da educação para todos. Nesse panorama, a escola deve ser um ambiente
favorável às mudanças, aberta a lidar com as diferenças, sejam elas de ordens raciais, de classe
econômica, do deficiente, entre outras, uma vez que fazem parte da sociedade, e estão presentes
em diferentes ambientes, sendo, um desses, o escolar.

A sociedade que dá valor à beleza física choca-se com esses empenhos e, geralmente, associa
a deficiência a um déficit cognitivo que, muitas vezes, inexiste. Nota-se, modernamente, que a
deficiência é a tradução de um modelo social no qual o indivíduo acaba sofrendo muito mais
com as amostras secundárias de sua deficiência do que propriamente com as suas manifestações
primárias.

Deficiência x dificuldade de aprendizagem

A diversidade existente na comunidade escolar contempla uma ampla dimensão de características.


Deficiências podem ser identificadas em diversas situações representativas de dificuldades de
aprendizagem como decorrência de condições individuais, econômicas ou socioculturais dos
alunos:

»» crianças com condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais e sensoriais diferenciadas;

»» crianças com deficiência ou superdotadas;

»» crianças trabalhadoras ou que vivem nas ruas;

»» crianças de populações distantes ou nômades;

»» crianças de minorias linguísticas, étnicas ou culturais;

»» crianças de grupos desfavorecidos ou marginalizados.

Por um lado, a fala da equipe responsável pela efetivação do processo de colocação das pessoas
com deficiência na rede municipal de ensino afirma que o mesmo está ocorrendo de forma
progressiva e a qualidade de atendimento garantida. Por outro lado, resultados realizados na
nossa universidade mostram que 60% dos professores declaram não receberem apoio e 68%
não conseguem trabalhar com seus alunos com deficiência.

Verifica-se na literatura científica que muito tem sido pesquisado a respeito da inclusão. Há grande
foco nos estudos dessa temática quanto ao papel que o professor exerce nesse contexto. Contudo,

74
Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional • AULA 6

há poucas investigações quanto às práticas educativas nas escolas, ou seja, os procedimentos


que são utilizados pelo educador para promover a aprendizagem de seus alunos.

De acordo com Garcia (2002), as práticas educativas escolares inclusivas em geral são sistemas
de ações que deveriam evoluir conjuntamente, dado o seu caráter de complementaridade.
Muitas são as razões que explicam essa impermeabilidade. Uma delas, sem dúvida, é a rigidez
dos sistemas de ensino escolar, que se mantêm fechados além do necessário. O ensino inclusivo
sugere mudanças nos métodos e nas técnicas do ensino tradicional, que se baseiam na transmissão
de conhecimentos e na individualização das tarefas de aprendizagem.

Nessa concepção pedagógica, é impossível criar situações a partir das quais cada aluno possa
trabalhar, aprender e se perceber como sujeito ativo na conquista do conhecimento.

Quando a sociedade opta por atender todos os seus membros, permitindo que usufruam dos
bens sociais, essa opção reflete-se também no modelo de escola que irá desenvolver, com o
reconhecimento da grande capacidade de transformação social da instituição escolar. Embora a
escola não seja a única instituição capaz de realizar grandes transformações sociais e seja incapaz
de fazê-lo isoladamente, é um dos instrumentos mais importantes no processo de construção
da sociedade inclusiva para todos.

Um ensino de qualidade para todos deve ser traduzido em propostas vinculadas ao meio físico,
social e cultural no qual a escola se insere; no conjunto dos significados e representações que
toda a comunidade escolar, pais e alunos incluídos têm do processo de transformação que a
educação pode operar (GARCIA, 2002).

Currículo escolar

A aprendizagem escolar está diretamente vinculada ao currículo, organizado para orientar, entre
outros, os diversos níveis de ensino e as ações docentes.

É central para a escola e associa-se à própria identidade da instituição escolar, à sua organização e
funcionamento e ao papel que exerce – ou deveria exercer – a partir das aspirações e expectativas
da sociedade e da cultura em que se insere.

Contém as experiências, bem como a sua planificação no âmbito da escola, colocada à disposição
dos alunos visando potencializar o seu desenvolvimento integral, a sua aprendizagem e a
capacidade de conviver de forma produtiva e construtiva na sociedade.

A concepção de currículo inclui, portanto, desde os aspectos básicos que envolvem os fundamentos
filosóficos e sociopolíticos da educação até os marcos teóricos e referenciais técnicos e tecnológicos

75
AULA 6 • Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional

que a concretizam na sala de aula. Relacionam princípios e operacionalização, teoria e prática,


planejamento e ação.

A escola para todos requer uma dinamicidade curricular que permita ajustar o fazer pedagógico
às necessidades dos alunos. Ver as necessidades dos alunos atendidos no âmbito da escola regular
determina que os sistemas educacionais modifiquem, não apenas as suas atitudes e expectativas
em relação a esses alunos, mas, também, que se organizem para constituir uma real escola para
todos, que dê conta dessas especificidades.

O projeto pedagógico da escola, como ponto de referência para definir a prática escolar, deve
orientar a operacionalização do currículo, como um recurso para promover o desenvolvimento
e a aprendizagem dos alunos, considerando-se os seguintes aspectos:

»» maneira favorável da escola para diversificar e flexibilizar o processo de


ensino-aprendizagem, de modo a atender às diferenças individuais dos alunos;

»» identificação das necessidades educacionais especiais para justificar a priorização de


recursos e meios favoráveis à sua educação;

»» adoção de currículos abertos e propostas curriculares diversificadas, em lugar de uma


concepção monótona e homogeneizadora de currículo;

»» flexibilidade quanto à organização e ao funcionamento da escola, para atender à ação


diversificada dos educandos;

»» probabilidade de abranger professores especializados, serviços de apoio e outros, não


convencionais, para beneficiar o processo educacional.

Ajustamento curricular

Essa visão coloca em destaque o ajustamento curricular como um elemento operacional da


educação para todos e a sua viabilização para os alunos com deficiências: não se ater no que de
especial possa ter a educação dos alunos, mas flexibilizar o método educacional para atender
todos e propiciar seu progresso em função de suas possibilidades e diferenças individuais.

As adaptações de acesso ao currículo correspondem ao conjunto de alterações nos elementos


físicos e objetivos do ensino, bem como aos recursos individuais do professor quanto ao seu
preparo para trabalhar com os educandos. São definidas como alterações ou soluções espaciais,
materiais ou de comunicação que venham a promover os alunos com deficiência a desenvolver
o currículo escolar.

As seguintes medidas estabelecem adaptações de acesso ao currículo:

»» criar condições físicas, ambientais e materiais para o aluno na sua unidade escolar de
atendimento;

76
Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional • AULA 6

»» propiciar os melhores níveis de comunicação e interação com as pessoas com as quais


convive na comunidade escolar;

»» favorecer a informação nas atividades escolares;

»» propiciar o mobiliário característico necessário;

»» fornecer ou atuar para a aquisição dos equipamentos e recursos materiais específicos


necessários;

»» adaptar materiais de uso comum em sala de aula;

»» adotar sistemas de comunicação alternativos para os alunos impedidos de comunicação


oral (no processo de ensino e aprendizagem e na avaliação).

Algumas sugestões que favorecem o acesso ao currículo:

»» congregar os alunos de maneira que promova a realização de atividades em grupo e


incentive a comunicação e as relações interpessoais;

»» propiciar ambientes com adequada luminosidade, sonoridade e movimentação;

»» encorajar, estimular e reforçar a comunicação, a participação, o sucesso, a iniciativa e


o desempenho do aluno;

»» adequar materiais escritos de uso comum: enfatizar alguns aspectos que necessitam
ser apreendidos com cores, desenhos, traços; cobrir partes que podem afastar a
atenção do aluno; adicionar desenhos, gráficos que ajudem na apreensão; destacar
imagens; transformar conteúdos de material escrito de modo a torná-lo mais acessível
à compreensão;

»» fornecer adaptação de instrumentos de avaliação e de ensino-aprendizagem;

»» defender o processo comunicativo entre aluno-professor, aluno-aluno, aluno-adulto;

»» ministrar softwares educativos específicos;

»» despertar a motivação, a atenção e o interesse do aluno;

»» sustentar o uso dos materiais de ensino-aprendizagem de uso comum;

»» operar para eliminar sentimentos de inferioridade, menos-valia e fracasso.

As adaptações nos elementos curriculares enfocam as formas de ensinar e avaliar, bem como
os conteúdos a serem fornecidos, considerando a temporalidade. São determinadas como
alterações realizadas nos objetivos, conteúdos, critérios e procedimentos de avaliação, atividades
e metodologias para atender às diferenças individuais dos alunos.

77
AULA 6 • Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional

Toda adaptação individualizada do currículo supõe, sempre, ênfase em algum aspecto, de


acordo com as características pessoais e competências dos alunos. Assim, pois, uma adaptação
individualizada do currículo pode significar:

»» A priorização de áreas curriculares ou de adequados conteúdos da área em relação aos


sugeridos no currículo escolar geral para todos os alunos. Isso pode se traduzir em dar
mais tempo aos objetivos, áreas ou conteúdos que se priorizou, ou dar mais valor a algum
desses elementos, sem deixar de trabalhar o resto, nem considerá-los como critério de
promoção. Um exemplo desse tipo de adaptação consiste em priorizar, para um aluno
da educação infantil, os conteúdos relativos à comunicação, por se analisar que o nível
de desenvolvimento das capacidades relativas ao processo de comunicação é inferior
ao necessário para começar a aprendizagem de outros conteúdos do mesmo nível.

»» A mudança do tempo previsto para alcançar determinados objetivos e conteúdos. Nesse


nível de adaptação, podemos distinguir duas variáveis:

›› adaptação temporal, pouco significativa, em que o aluno consegue alguns dos objetivos
mais tarde que os seus companheiros, mas do mesmo nível;

›› adaptação significativa, em que o aluno consegue os objetivos propostos, mas no nível


seguinte. Isso significa adaptar a sequência de ensino e aprendizagem, tornando-a
mais extensa e detalhada para o grupo de alunos. Um exemplo desse tipo de adaptação
seria a decisão de planejar a aquisição da leitura e escrita, para um aluno ou grupo
de alunos, como um objetivo que se alcançará mais adiante, no nível seguinte, pela
necessidade de trabalhar previamente outros conteúdos não desenvolvidos.

»» A inclusão de conteúdos e objetivos complementares e com referência a aspectos


específicos. Por exemplo, é possível introduzir conteúdos e objetivos para um aluno,
relativo ao desenvolvimento motor (mobilidade, motricidade fina, conhecimento do
próprio corpo), hábitos fundamentais (cuidado pessoal, normas sociais), entre outros.

A introdução de objetivos e conteúdos não significa abdicar do trabalho de outros


objetivos e conteúdos que façam parte do currículo oficial da fase em que o aluno se
encontra. Esse processo de adaptação curricular individual deve ser uma estratégia
integral, muito flexível e dinâmica que considera alguns princípios fundamentais:

›› partir sempre de uma extensa avaliação do aluno e do contexto em que se realiza o


processo de ensino e aprendizagem. O caráter interativo das necessidades educativas
especiais exige que se conheça o aluno em profundidade, mesmo que não seja
suficiente para a decisão dos ajustes e alterações necessárias para compensar suas
carências ou dificuldades;

78
Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional • AULA 6

›› partir sempre do currículo escolar. Desse jeito, assegurará o empenho em manter,


no que for possível, um processo educativo normalizado, apesar do processo de
adaptação curricular, em alguns casos, realizar mudanças significativas, diferindo
bastante do grupo de referência;

›› entender que toda e qualquer adequação é para incluir o aluno ao planejamento


do grupo, e nunca para o segregar. Para isso, terá que se ajustar certa ordem e
encadeamento no processo de adequação que, sem serem rigorosas, assegurem uma
educação mais integradora;

›› acertar os critérios de realidade e êxito. É importante começar por aquelas adaptações


que sejam mais apropriadas às possibilidades e condições de ensino e aprendizagem
e que assegurem certo nível de sucesso. Para alguns alunos, pode ser mais realista
extinguir uma área curricular que tentar manter alguns objetivos com adequações
significativas. Além disso, essa adequação pode garantir uma maior possibilidade
de êxito do aluno, ao centrar o trabalho em outros aspectos do currículo, mais
importantes ou necessários para esse aluno. Por outro lado, pode ser pouco realista
adaptar o currículo de um aluno surdo agrupando a utilização da língua de sinais
na escola, quando nenhum professor reconhece essa língua. Isso significa que é
aconselhável priorizar aquelas adaptações que tenham mais domínio para obter
resultados positivos que vão reforçando o procedimento;

›› anotar as decisões por escrito. Registrar as adequações é uma forma de garantir que se
realizem, inclusive quando ocorre mudança na equipe docente. Além disso, garantirá
uma maior lógica de todo o processo, pois as adaptações não são decisões isoladas
ou conjunturais e, sim, fruto de um rigoroso conhecimento das necessidades do
aluno no contexto de aprendizagem. E, por último, permitirá orientar a avaliação e o
acompanhamento contínuo sobre o desempenho do aluno, permitindo modificações
e ajustes que sejam precisos.

Adaptações metodológicas e didáticas

Realizam-se por meio de procedimentos técnicos e metodológicos, estratégias de ensino e


aprendizagem, procedimentos avaliativos e atividades programadas para os alunos.

São exemplos de adaptações metodológicas e didáticas:

»» situar o aluno nos grupos com os quais melhor possa trabalhar;

»» abranger métodos e técnicas de ensino e aprendizagem específicas para o aluno, na


operacionalização dos conteúdos curriculares, sem prejuízo para as atividades docentes;

79
AULA 6 • Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional

»» empregar técnicas, procedimentos e instrumentos de avaliação distintos da classe,


quando necessário, sem alterar os objetivos da avaliação e seu conteúdo;

»» propiciar apoio físico, visual, verbal e outros ao aluno impedido em suas aptidões,
temporária ou permanentemente, de modo que admita a realização das atividades
escolares e do processo avaliativo. O apoio pode ser oferecido pelo professor regente,
professor especializado ou pelos próprios colegas;

»» inserir atividades individuais complementares para o aluno alcançar os objetivos comuns


aos demais colegas. Essas atividades podem realizar-se na própria sala de aula ou em
atendimentos de apoio;

»» inserir atividades complementares específicas para o aluno, individualmente ou em grupo;

»» abolir atividades que não beneficiem o aluno ou lhe restrinjam uma participação ativa
e real ou, ainda, que esteja impossibilitado de executar;

»» eliminar objetivos e conteúdos curriculares que não possam ser alcançados pelo aluno
em razão de sua(s) deficiência(s); substituí-los por objetivos e conteúdos acessíveis,
significativos e básicos, para o aluno.

Adaptações dos conteúdos curriculares e o processo avaliativo

Consistem em adaptações individuais dentro do programa regular, considerando-se os objetivos,


os conteúdos e os critérios de avaliação para responder às necessidades de cada aluno. São
exemplos dessas estratégias adaptativas:

»» adaptar os objetivos, conteúdos e critérios de avaliação, o que implica modificar os


objetivos, considerando as condições do aluno em relação aos demais colegas da turma;

»» priorizar determinados objetivos, conteúdos e critérios de avaliação, para dar destaque


aos objetivos que considerem as deficiências do aluno, suas condutas típicas ou altas
habilidades. Essa priorização não gera abandonar os objetivos definidos para o seu
grupo, mas adicionar outros, referentes às suas necessidades educacionais especiais;

»» transformar a temporalidade dos objetivos, conteúdos e critérios de avaliação, isto é,


considerar que o aluno com necessidades especiais pode alcançar os objetivos comuns
ao grupo, mesmo que possa requerer um período mais longo de tempo. De igual modo,
poderá precisar de período alterável para o processo de ensino-aprendizagem e o
desenvolvimento de suas habilidades;

»» modificar a temporalidade das disciplinas do curso, série ou ciclo, ou seja, cursar menos
disciplinas durante o ano letivo e, desse modo, estender o período de duração do curso,
série ou ciclo que frequenta;

80
Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional • AULA 6

»» inserir conteúdos, objetivos e critérios de avaliação, o que implica considerar a


possibilidade de acréscimo desses elementos na ação educativa, caso necessário à
educação do aluno com necessidades especiais. É o caso do acréscimo dos elementos
curriculares específicos reservados aos com deficiências e de condutas típicas, e dos
programas de aprofundamento/enriquecimento curricular indicados para os alunos
com superdotação. O aumento de objetivos, conteúdos e critérios de avaliação não
implica a eliminação ou diminuição dos elementos constantes do currículo regular
desenvolvido pelo aluno;

»» eliminar conteúdos, objetivos e critérios de avaliação, definidos para o grupo de


referência do aluno, em razão de suas deficiências ou limitações pessoais. A eliminação
desses conteúdos e objetivos da programação educacional regular não deve ocasionar
dano para a sua escolarização e promoção acadêmica. Deve avaliar, rigorosamente,
o sentido dos conteúdos, ou seja, se são básicos, fundamentais e pré-requisitos para
aprendizagens futuras.

As medidas de adaptações curriculares devem ponderar os seguintes aspectos, entre outros:

»» ser antecedida de uma ponderada avaliação do aluno, considerando a sua competência


acadêmica;

»» basear-se na apreciação do contexto escolar e familiar, que favoreça a assimilação dos


elementos adaptativos indispensáveis que possibilitem as alterações indicadas;

»» computar com a participação do conjunto docente e técnico da escola e com o apoio de


uma equipe multidisciplinar (integrada por psicólogo, fonoaudiólogo, médico, pedagogo
e outros) quando possível e necessário;

»» solicitar o registro documental das medidas adaptativas adotadas, para integrar o acervo
documental do aluno;

»» impedir que as programações individuais sejam definidas, organizadas e realizadas com


perda para o aluno, ou seja, para o seu desempenho, promoção escolar e socialização;

»» seguir critérios para evitar adaptações curriculares muito expressivas, que impliquem
eliminações de conteúdos expressivos (quantitativa e qualitativamente), bem como a
supressão de disciplinas ou de áreas curriculares completas.

Diversificação curricular

Alguns alunos com necessidades educacionais especiais revelam não conseguir atingir os
objetivos, conteúdos e componentes propostos no currículo regular, ou alcançar os níveis mais
elementares de escolarização. Essa situação pode decorrer de dificuldades orgânicas associadas

81
AULA 6 • Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional

a déficits permanentes e, muitas vezes, degenerativos que comprometem o funcionamento


cognitivo, psíquico e sensorial, vindo a constituir deficiências múltiplas graves.

Nessas circunstâncias, verifica-se a necessidade de realizar adaptações significativas no currículo


para o atendimento dos alunos e indicar conteúdos curriculares de caráter mais funcional e
prático, levando em conta as suas características individuais.

Alguns programas, devido à expressividade das adaptações curriculares realizadas, podem ser
encarados como currículos especiais. Frequentemente, envolvem atividades relacionadas ao
desenvolvimento de habilidades fundamentais, à consciência de si, aos cuidados pessoais e de
vida diária, ao treinamento multissensorial, ao exercício da independência e ao relacionamento
interpessoal, entre outras capacidades adaptativas.

Esses currículos são conhecidos como funcionais e ecológicos e sua organização não leva em
conta as aprendizagens acadêmicas que o aluno mostrar impossibilidade de obter, mesmo diante
dos esforços constantes explorados pela escola.

A preparação e o cumprimento de um programa dessa natureza devem contar com o apoio e a


participação da família e especialistas que acompanham a criança, e serem acompanhados de
um criterioso e sistemático processo de avaliação pedagógica e psicopedagógica do aluno, bem
como da eficácia dos procedimentos pedagógicos aplicados na sua educação.

As disposições sobre adaptações curriculares podem incluir as modalidades de apoio que


beneficiam ou viabilizam a sua eficácia na educação dos alunos com deficiência.

Pode-se determinar apoio como recursos e estratégias que geram o interesse e as capacidades da
pessoa, bem como ensejos de acesso a bens e serviços, conhecimentos e relações no ambiente em
que vive. O apoio tende a beneficiar a autonomia, a produtividade, a integração e a funcionalidade
no ambiente escolar e comunitário. São elementos de apoio, entre outros:

»» Familiares, amigos, profissionais, colegas, monitores, orientadores, professores


(itinerantes, de sala de recursos, de apoio).

»» Recursos físicos, materiais e ambientais.

»» Atitudes, valores, crenças e princípios.

»» Deliberações e decisões políticas, legais, administrativas.

»» Recursos técnicos e tecnológicos.

»» Programas e serviços de atendimento genéricos e especializados. As decisões sobre


apoio devem considerar:

›› áreas prioritárias a serem apoiadas;

82
Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional • AULA 6

›› identificação dos tipos mais eficientes de apoio em função das áreas e aspectos
definidos;

›› circunstâncias em que o apoio deve ser prestado: dentro ou fora da sala de aula,
em grupo ou individualmente, prévia ou posteriormente às atividades de ensino-
aprendizagem regulares;

›› funções e tarefas dos diferentes profissionais envolvidos na prestação do apoio, bem


como os papéis de cada um nas situações de aprendizagem do aluno.

Dito isso, os seguintes pressupostos devem ser considerados:

»» há diversas modalidades de apoio, sendo algumas mais válidas e adequadas para certos
alunos e determinados contextos de ensino e aprendizagem (dependem do tipo de
necessidades especiais do aluno, das áreas curriculares focalizadas, das metodologias
adotadas, da organização do processo de ensino-aprendizagem, das atitudes prevalecentes
com relação ao aluno);

»» decisões sobre modalidades de apoio devem ser compartilhadas pelas pessoas envolvidas
no processo de ensino-aprendizagem (consenso entre os educadores e profissionais
que atendem o aluno, adoção de critérios comuns para o trabalho pedagógico e ação
conjunta);

»» modalidades de apoio devem estar circunscritas ao projeto pedagógico da escola (atender


aos critérios gerais adotados pela comunidade escolar, definição das funções do apoio,
número de alunos a serem contemplados, tomadas de providências etc.);

»» modalidades de apoio devem estar associadas ao número e às características dos alunos,


ao local e ao momento onde será ministrado, bem como à sua duração e frequência
(individual ou grupal, grupos homogêneos ou mistos, dentro ou fora da sala de aula,
temporário ou permanente).

Pode-se considerar, ainda, a intensidade do apoio a ser oferecido:

»» intermitente: episódico, nem sempre necessário, transitório e de pouca duração (exemplo:


apoio em momentos de crise, em situações específicas de aprendizagem);

»» restrito: por tempo determinado e com fim definido (exemplo: reforço pedagógico
para algum conteúdo durante um semestre, desenvolvimento de um programa de
psicomotricidade);

»» extensivo: regular, em ambientes definidos, sem tempo limitado (exemplo: atendimento


na sala de recursos ou de apoio psicopedagógico, atendimento itinerante);

83
AULA 6 • Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional

»» permanente: constante, com alta intensidade e longa duração (ou ao longo de toda a
vida), envolvendo equipes e muitos ambientes de atendimento. Indicado para alunos
com deficiências mais agravantes ou múltiplas deficiências.

Avaliação e promoção

O processo avaliativo é de extraordinária importância em todos os âmbitos do processo educacional


para orientar as decisões pedagógicas e retroalimentá-las, exercendo um papel fundamental nas
adaptações curriculares.

Quando pertinente ao aluno, em face de suas necessidades especiais, o processo avaliativo deve
enfocar:

»» aspectos do desenvolvimento (biológico, intelectual, motor, emocional, social,


comunicação e linguagem);

»» condição de competência curricular (capacidades do aluno em relação aos conteúdos


curriculares antecedentes e a serem ampliados);

»» modo de aprendizagem (motivação, capacidade de atenção, interesses acadêmicos,


estratégias próprias de aprendizagem, tipos preferenciais de agrupamentos que facilitam
a aprendizagem e condições físico-ambientais mais favoráveis para aprender).

Quando direcionado ao conjunto educacional, o processo avaliativo deve enfocar:

»» conjunto da aula (metodologias, organização, procedimentos didáticos, atuação do


professor, relações interpessoais, individualização do ensino, condições físico-ambientais,
flexibilidade curricular);

»» contexto escolar (projeto pedagógico, funcionamento da equipe docente e técnica,


currículo, clima organizacional, gestão).

Quando direcionado ao contexto familiar, o processo avaliativo deve focalizar, entre outros
aspectos:

»» atitudes e expectativas com relação ao aluno;

»» participação na escola;

»» apoio propiciado ao aluno e à sua família;

»» condições socioeconômicas;

»» possibilidades e pautas educacionais;

»» dinâmica familiar.

84
Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional • AULA 6

Quanto à promoção dos alunos que apresentam necessidades educacionais especiais, o processo
avaliativo deve seguir os critérios adotados para todos os demais ou adotar adaptações, quando
necessário. Alguns aspectos precisam ser considerados para orientar a promoção ou a retenção
do aluno na série, etapa, ciclo (ou outros níveis):

»» possibilidade de o aluno ter acesso às situações escolares regulares e com menor


necessidade de apoio especial;

»» valorização de sua permanência com os colegas e grupos que favoreçam o seu


desenvolvimento, comunicação, autonomia e aprendizagem;

»» competência curricular, no que se refere à possibilidade de atingir os objetivos e atender


aos critérios de avaliação previstos no currículo adaptado;

»» efeito emocional da promoção ou da retenção para o aluno e sua família.

A decisão sobre a promoção deve envolver o mesmo grupo responsável pela elaboração das
adaptações curriculares do aluno.

Projeto inclusivo x estrutura curricular

A manutenção de um projeto inclusivo está na sua estrutura curricular e servirá de apoio a todas
as inovações que esse ensino pretende das escolas e de seus elementos. Não são propostas simples
de serem efetivadas, pois atuam segundo novos padrões e traduzem suas novidades. Trata-se de
um desafio que pode ser aprimorado com generalidade e flexibilidade, de modo a permitir que
a escola estabeleça seu próprio projeto curricular.

É claro que divergências sobre a implantação, a operacionalização e as oportunidades de


sucesso da inclusão permeiam todos os níveis educacionais. É mais evidente ainda que as lutas
maiores aconteçam no espaço da sala de aula, no qual professor e aluno se relacionam muito
proximamente, sendo nesse local, de fato, que a legislação e a filosofia sobre inclusão deveriam
se efetivar (GARCIA, 2002).

Ao analisar o desempenho e o produto escolar do indivíduo, conclui-se que ele simplesmente é


colocado no curso regular da classe, ou seja, não há, por parte da escola e dos professores, uma
reorganização curricular que favoreça sua aprendizagem.

Por não ter um projeto específico para incluir, faltam à escola e sua equipe informações relevantes
sobre as necessidades educacionais do aluno. Dessa forma, não existem adaptações ou ajustes
dentro da escola significativos para favorecer o aluno. Ele realiza as atividades propostas a todos
da classe, quando as tarefas esbarram em seus limites, simplesmente ele deixa de executá-las,
ou reduz as tarefas para lhe facilitar.

85
AULA 6 • Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional

O conselho de classe, formado para decidir os resumos da vida escolar dos alunos com dificuldades
de aprendizagem, não demonstra eficiência no caso do aluno com deficiência.

Informação sobre o aluno x Avaliação

Em geral, para a maior parte dos alunos, uma boa avaliação da competência curricular proporciona
a informação indispensável para planejar o processo de ensino e aprendizagem. Contudo, para
alguns alunos com deficiência, a avaliação aprimorada no currículo não nos leva aos dados
necessários para ajustar a resposta educativa.

Determinados dados sobre o desenvolvimento dos alunos compreendem um grupo de aspectos


especialmente proeminentes e ajudarão a conhecê-los em maior profundidade e ajustar melhor
a resposta educativa de que necessitam.

O segundo grupo de informações sobre o aluno refere-se ao nível de competência curricular, o


que sugere determinar o que é capaz de fazer o aluno em relação aos objetivos e conteúdos das
diferentes áreas do currículo escolar. Para tanto, se toma como referência o nível que o aluno irá
começar (esteja ou não escolarizado), avaliar seu grau de competência a respeito dos objetivos
e conteúdos estabelecidos nas distintas áreas curriculares do nível anterior. Nessa avaliação, os
critérios serão os mesmos instituídos para os distintos níveis em cada uma das áreas curriculares
e esclarecem o tipo e grau das aprendizagens que se espera que os alunos tenham desenvolvido
para o nível de referência.

Essa avaliação pode servir a três finalidades básicas:

»» escolarizar o aluno com necessidades educativas especiais;

»» colocar o aluno em relação à proposta curricular da escola;

»» adotar decisões sobre medidas de adequações curriculares.

Sendo essa avaliação criteriosa e individualizada, nos permite estabelecer as metas que o aluno
deve alcançar, a partir de critérios derivados de sua situação inicial.

É necessário saber não só O QUE o aluno é capaz de fazer, mas, também COMO o faz, isto é,
as características individuais com que o aluno responde às tarefas escolares. Isso porque a
aprendizagem tem um elemento tanto cognitivo como emocional e, por isso, é preciso saber sua
própria expectativa diante da aprendizagem, o sentido que dá ao que se ensina, sua maneira de
encarar e responder aos conteúdos e tarefas escolares, suas prioridades e motivações, seu ritmo
de aprendizagem.

86
Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional • AULA 6

Informação sobre o contexto

Outras informações que constituem a avaliação referem-se ao contexto no qual o aluno está
inserido. São vários os contextos que condicionam seu desenvolvimento, mas é necessário
delimitar o campo de atuação docente e não esquecer que o Contexto Escolar, diferente dos outros,
promove, de forma intencional e planejada, esse desenvolvimento. Logo, é nesse contexto em
que os fatores que podem favorecer ou dificultar a aprendizagem de determinado aluno, podem
submeter-se à análise e ser ou não modificado.

No contexto escolar, podem diferenciar-se dois níveis, o contexto próximo (a aula) e o contexto
amplo (a escola). A avaliação do contexto configura o que se poderia chamar de jeito de ensinar
de cada professor, isto é, a forma típica de organizar o programa, a prática docente, a organização
da turma e o relacionamento com os alunos. Alguns dos identificadores mais relevantes para
realizar essa avaliação referem-se a:

»» ajustamento da programação às características do aluno;

»» aspectos interativos com o aluno.

Entretanto, o desempenho educativo em sala de aula não depende unicamente do professor, mas,
também, em grande parte das diretrizes da escola como um todo. As grandezas fundamentais para
apreciação são semelhantes às do contexto de sala de aula: a adaptação do projeto educacional e
curricular ao aluno, seu desenvolvimento na prática e compreensão do professorado a respeito
do processo de ensino e aprendizagem e, em especial, para os alunos com deficiência.

Esse é um processo de reflexão e consequência do auxílio de todos os administradores educativos,


dos professores de todas as áreas e de apoio, do orientador da escola e dos membros da equipe
interdisciplinar. Para ampliar essa tarefa, é indispensável um ambiente de colaboração profissional
e confiança mútua, onde se aspire não à crítica ou desqualificação, mas à melhoria dos processos
de ensino e aprendizagem.

Também são importantes, no processo de aprendizagem do aluno, os elementos de sua família,


pois são figuras que também condicionam seu desenvolvimento. Isso justifica a necessidade de
se conhecer informações sobre aspectos relevantes do conjunto familiar e também do contexto
social que abraça o aluno e que podem influir em seu processo e proporcionar informação
favorável para a tomada de determinação curricular.

A tarefa mais admirável depois de conhecer essas informações é determinar o que está beneficiando
ou impedindo o processo de aprendizagem do aluno e, em seguida, tentar, em cooperação com
a família, acertar ou alterar o que seja imprescindível e possível, para oferecer-lhe as condições
mais apropriadas.

87
AULA 6 • Organização da prática educativa: planejamento e avaliação educacional

Conclusão

As adaptações curriculares são medidas pedagógicas adotadas em diversos setores: no nível do


projeto pedagógico da escola, da sala de aula, das atividades e, somente quando absolutamente
necessário, aplicam-se ao aluno individualmente. Tendem ao atendimento das dificuldades de
aprendizagem e das necessidades especiais dos educandos e ao favorecimento de sua escolarização.
Analisam os critérios de aptidão acadêmica dos alunos, tendo como identificador o currículo
regular e buscam elevar ao máximo as suas potencialidades, sem desconhecer ou se insurgir às
limitações que apresentam e suas necessidades especiais.

Essas apreciações adaptativas enfocam a heterogeneidade da população escolar e pressupõem


o que o tratamento diferenciado pode expressar para os alunos que necessitam igualdade de
oportunidades educacionais. Desse modo, buscam promover maior eficácia educativa, na
perspectiva da escola para todos. A atual situação em que se encontram os sistemas educacionais
revela dificuldades para atender às necessidades especiais dos alunos na escola regular,
principalmente dos que apresentam superdotação, deficiências ou condutas típicas de síndromes,
que podem vir a precisar de apoio para a sua instrução. A flexibilidade e a dinamicidade do
currículo regular podem não ser satisfatórias para ultrapassar as restrições do sistema educacional
ou equilibrar as limitações reais desses alunos. Desse modo e nas atuais situações, entende-se
que as adaptações curriculares fazem-se, ainda, necessárias.

88
Referências
ALMEIDA, Fernando José de; FONSECA JÚNIOR, Fernando. Aprendendo com projetos. Brasília, PROINFO/MEC, 2000.

ALVES, Rubem. A escola com que sempre sonhei sem pensar que pudesse existir. 3ª ed. Campinas: Papirus, 2001.

AMARAL, D. P. Paradigmas da inclusão: uma introdução. In: SOBRINHO, F. P. N. (Org.). Inclusão educacional: pesquisa
e interfaces. Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2003. pp.11-20.

AMORIM, K. S.; YAZLLE, C.; ROSSETTI-FERREIRA, M. C. Binômios saúde-doença e cuidado-educação em ambientes


coletivos de educação da criança pequena. Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano, São Paulo,
v. 10, n. 2, pp. 3-18, 2000.

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. Campinas,
Cortez, 1995.

ARANHA, M. S. F. O processo de mobilização social na construção de um contexto comunitário inclusivo. In: Oliveira,
M. L. W. de (org.). Inclusão e Cidadania. Niterói: Nota Bene, 2000, pp. 32-38.

BAETHGE, Martin. Novas tecnologias, perspectivas profissionais e autocompreensão cultural: desafios e formação.
Revista Educação & Sociedade, 1989, pp. 7-26.

BERALDO, P. B. As percepções dos professores de escola pública sobre a inserção do aluno tido como deficiente mental
em classes regulares de ensino. 1999. 145 f. Tese (Mestrado em Educação Especial) – Universidade Federal de São
Carlos, São Carlos.

BEYER, H. O. Integração e inclusão escolar: reflexões em torno da experiência alemã. Revista Brasileira de Educação
Especial, v. 8, no 2, jul/dez 2002, pp. 157-168.

BIANCHETTI, Lucídio; FREIRE, Ida Mara (orgs.). Um olhar sobre a diferença: interação, trabalho e cidadania. 11. ed.
Campinas, SP: Papirus, 1998.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 5/10/1988. Brasília: Senado Federal, 1988.

______ . Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional de Saúde, 2013. Disponível em: https://
biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv94522.pdf . Acessado em 28/9/2017.

______ . Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN no 9.394/1996. Brasília: MEC/SEF, 1997.

______ . Lei Brasileira de Inclusão – LBI no 13.146/2015.

______ . Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial – Secretaria de Educação Básica. Parâmetros
curriculares nacionais: adaptações curriculares, 1998.

______ . Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial – A inclusão escolar de alunos com necessidades
educacionais especiais: Deficiência Física, 2010.

______ . Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais:
Adaptações Curriculares – estratégias para a educação de alunos com necessidades educacionais especiais. Brasília:
MEC/SEF/SEESP, 1999.

______ . Ministério da Educação e do Desporto. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, no 9.394, de 20 de
dezembro de 1996.

______ . Ministério da Educação e do Desporto. O processo de integração escolar dos alunos portadores de necessidades
educativas especiais no sistema educacional brasileiro. Séries Diretrizes no 11. Brasília: Secretaria de Educação Especial
(SEESP), 1995.

______ . Ministério da Educação e do Desporto. Secretária de Educação Especial. Política Nacional de Educação
Especial. Brasília: MEC/SEESP, 1994.

89
Referências

______ . Marcos Político-Legais da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, 2010.

______ . Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Especial. O que é educação especial. Brasília,
1999. Disponível em: http://www.mec.gov.br/seesp/oquee.shtm. Acesso em: 26 setembro 2017. Subsídios para
credenciamento e funcionamento de instituições de educação infantil,1. Brasília, 1998.

BUENO, J. G. S. Crianças com necessidades educativas especiais, política educacional e a formação de professores:
generalistas ou especialistas? Revista Brasileira de Educação Especial, Marília, v. 3, n. 5, pp. 7-25, set. 1999.

BUENO, J. G. S.; FERREIRA, J. R. (Coord.). Políticas regionais de educação especial no Brasil. Disponível em: http://
www.anped.org.br/26/outrostextos/tegt15.doc. Acesso em: 26 setembro de 2017.

CORREIA, L. M. Alunos com necessidades educativas especiais nas classes regulares. 1. ed. Porto: Porto Editora, 1997.

CORTELLA, M. S. Não espere pelo epitáfio. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2005.

_______________. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. 14. ed. São Paulo: Cortez, 2011. 

DUSSEL, E. Ética da libertação: na idade da globalização e da exclusão. Petrópolis: Vozes, 2002.

FACION, José Raimundo. Inclusão escolar e suas implicações. Curitiba: InterSaberes, 2012.

FIGUEIRA, E. A imagem do portador de deficiência mental na sociedade e nos meios de comunicação - Ministério da
Educação - Secretaria de Educação Especial.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GALERY, Augusto. (org). A escola para todos e para cada um. São Paulo: Summus, 2017.

GARCIA, C. A. A. Um estudo das práticas educativas no processo de inclusão da criança portadora de dismotria cerebral
ontogenética 2002. 134f. Dissertação (Mestrado em Educação Escolar)- Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara.
Universidade Estadual Paulista, Araraquara.  

GOMES, N. L. Corpo e cabelo como ícones de construção da beleza e da identidade negra nos salões étnicos de
Belo Horizonte. Tese de doutorado em Antropologia Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo, 2002.

GUEBERT, Mirian Célia Castellain. Inclusão: uma realidade em discussão. Curitiba: InterSaberes, 2012.

LEAL, Daniela. História, memória e práticas em educação inclusiva. Curitiba: InterSaberes, 2017.

MENDES, E. G. Perspectivas para a construção da escola inclusiva no Brasil. In: PALHARES, M. S.; MARINS, S. C. Escola
inclusiva. São Carlos: EdUFSCar, 2002, pp. 61-85.

MIRETTO, Maria de Fátima. Currículo na educação inclusiva: entendendo este desafio. 1. ed. Curitiba: InterSaberes,
2012.

MOSQUERA, Juan José Mouriño; STOBÄUS, Claus Dieter. Educação e inclusão: perspectivas desafiadoras. Porto Alegre:
EDIPUCRS, 2013.

RIBEIRO, M.L.S.; Baumel, R.C.R.C. Educação Especial: do querer ao fazer. São Paulo: Avercamp, 2003

TESSARO, Nilza Sanches. Inclusão escolar: concepção de professores e alunos da educação regular especial. São Paulo:
Casa do Psicólogo, 2011.

UNESCO. Ministry of Education and Science – Spain, 1994, p. 15.

VITTA, F. C. F.; SILVA, K. P. L; MORAES, M. C. A. F. Conceito sobre a educação da criança deficiente, de acordo com
professores de educação infantil da cidade de Bauru. Revista Brasileira de Educação Especial, Marília, v. 10, n. 1, pp.
43-58, jan./abr.2004.

WANG, M. Caminhos para as escolas inclusivas. Lisboa: Instituto de Inovação Educacional, 1997.

90