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Filosofia Geral - Fábio Henrique Cardoso Leite - UNIGRAN

Aula
05

FILOSOFIA: UMA
ATITUDE CRÍTICA

Estamos iniciando mais uma aula, na qual estaremos estudando


e refletindo sobre a atitude crítica ou filosófica. É neste momento que
precisamos verificar se estamos mesmo tendo uma atitude perante o
conhecimento. Ou seja, estou assumindo o compromisso de analisar as
coisas com o olhar filosófico?
Tenho me dedicado na busca de entender o objeto de estudo?
Procuro conceituar a palavra, antes de pedir uma explicação para o outro?
Essas, dentre outras questões, nos levam a ter atitude diante do novo.
Nesta aula precisamos conhecer, para compreender e depois
explicar, e não fazer o inverso.

Objetivos de aprendizagem

Ao término desta aula, vocês serão capazes de:

• exercer sua profissão de forma articulada ao contexto social,


entendendo-a como uma forma de participação e contribuição social;
• respeitar os princípios éticos inerentes ao exercício profissional;
• atuar inter e multiprofissionalmente, sempre que a compreensão
dos processos e fenômenos envolvidos assim o recomendar.

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Seções de estudo

 SEÇÃO 1 - Filosofia: Uma Atitude Crítica


1.1 A Atitude Crítica
 SEÇÃO 2 - Reflexão Filosófica
2.1 Inútil? Útil?
 SEÇÃO 3 - Onde Está a Necessidade da Filosofia?

SEÇÃO 1 - Filosofia: uma atitude crítica

Vamos relembrar de um modo filosófico:


O que é filosofia...
Nesta aula, vamos fazer um
“memorandum”, pois é essencial para
podermos entender o como e o porquê
de todas as coisas na Administração. A
Filosofia é a base para construir através
da visão, estratégia e objetivo os pontos Imagem extraída em: http://www.maoimpossivel.
com/2011/12/banda-mais-atitude-forro-em-sao-luis-
concretos de um bom administrador. ma.html
Não precisamos buscar na
infinidade de conceitos de “Filosofia 22” — talvez um para cada autor de certa
expressão, e que à vagueza das formulações acrescentam às vezes até posições
contraditórias — não precisamos procurar aí a incerteza e a imprecisão que reinam
e, sobretudo em nossos dias, no que concerne o objeto da especulação filosófica.
Muito mais ilustrativa é a consulta aos textos filosóficos ou qualquer
exposição ou análise do desenvolvimento histórico do assunto. De tudo se trata, pode-
se dizer, ou se tem tratado na “Filosofia”; até os mesmos assuntos, ou aparentemente
os mesmos, são considerados em perspectivas de tal modo apartadas uma das outras
que não se combinam e entrosam entre si, tornando-se impossível contrastá-las. Para
alguns, essa situação é não apenas normal, mas plenamente justificável.
A Filosofia seria isso mesmo: uma especulação infinita e desregrada
em torno de qualquer assunto ou questão, ao sabor de cada autor, de suas
preferências e mesmo de seus humores. Há mesmo quem afirme não caber à
Filosofia “resolver”, e sim unicamente sugerir questões e propor problemas, fazer
perguntas cujas respostas não têm maior interesse, e com o fim unicamente de
estimular a reflexão, aguçar a curiosidade. E já se afirmou até que a Filosofia
não passava de uma “ginástica” do pensamento, entendendo por isso o simples
exercício e adestramento de uma função — no caso, o pensamento em vez dos
músculos — sem outra finalidade que essa.

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Que a Filosofia é Conhecimento, e que de certa forma se ocupa dos mesmos


objetos que as ciências em geral, não há dúvida. Mas tudo está nessa restrição “de
certa forma”. Isso porque a Filosofia não é e não pode ser (logo veremos por que)
uma “superciência” que a ela se sobrepõe e que a completa. Não há lugar para esse
simples prolongamento. Ou melhor, qualquer legítimo prolongamento da Ciência é
e sempre será, tudo indica, Ciência e não outra coisa. Isso se pode concluir do fato de
que o desenvolvimento da Ciência, quando se excluem indevidas extrapolações, se
faz sempre num sentido único que é o da crescente generalização. E não há nenhum
ponto fixado no passado, ou previsível no futuro, nem mesmo fronteira difusa
naquele processo além do qual não caberia mais falar em Ciência propriamente.
A história da Ciência nos mostra que sua marcha e progresso vão
uniformemente no sentido da elaboração de conceitos, ou melhor, “conceituação”,
cada vez mais abstrata e geral. Isto é, de sistemas conceptuais mais inclusivos,
que por isso mesmo cobrem e representam conjuntos mais amplos da realidade
universal — não no sentido de mais extensos simplesmente, quantitativamente
maiores, e sim mais complexos e abrangentes, de feições mais diferenciadas.
Comparam-se a esse propósito os dois setores do Conhecimento que se encontram
contemporaneamente nos extremos da linha ascendente do progresso científico:
de um lado as Ciências sociais, de outro as Físicas.
No primeiro desses setores encontramo-nos em face de um conhecimento
empírico ainda solidário, diretamente, com dados imediatos da observação e
experimentação. A conceituação representativa desses dados que refletem os fatos
sociais é de insignificante generalidade; os conceitos que a constituem se entrosam
mal e frouxamente entre si, e não se englobam em sistemas amplos capazes de formar,
por sua vez, outros tantos conceitos de mais elevado nível de abstração e generalidade.
E assim, pelo seu objeto, e somente por ele, que a Filosofia se há de
distinguir da Ciência, e com isso se legitimar como disciplina à parte. Mas se à
Ciência cabe, como objeto, a realidade universal, isto é, o universo e seu conjunto
de ocorrências, feições, circunstâncias que envolvem e também compreendem
o homem, o que ficará de fora para eventualmente constituir objeto próprio da
Filosofia? Note-se que estamos aqui empregando a expressão “ciência” onde
deveríamos com mais propriedade dizer “conhecimento”. Isso porque Ciência
não é senão conhecimento sistematizado, advertida e intencionalmente elaborado,
não se distinguindo senão por essa sistematização em nível elevado e elaboração
intencional do conhecimento comum ou vulgar, aquele de que todo ser humano é
titular, por mais rudimentar que seja seu nível de cultura.
O conhecimento é essencialmente de uma só natureza, e por mais
elementar e grosseiro que seja, tem fundamentalmente o mesmo caráter do mais
complexo e refinado conhecimento científico. Não há, aliás, nenhuma fronteira

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marcada, ou possível de marcar, nessa complexidade, nem mesmo separação


possível, pois o conhecimento científico de hoje será o vulgar de amanhã.
Realmente é o que se verifica no desenvolvimento histórico do pensamento
humano logo que o progresso do conhecimento atinge certo nível. Isto é, um retorno
reflexivo da elaboração cognitiva sobre si mesma, passando o próprio conhecimento
a se fazer objeto do conhecer. Fato esse suficientemente marcado para dar lugar a
uma ordem de cogitações bem caracterizadas e distintas do conhecimento ordinário.
E se bem que pensadores e elaboradores do conhecimento não se tenham desde
logo dado plenamente conta da diferenciação e partição interior dos objetos de
que se ocupavam (do que, aliás, resultariam mal-entendidos e confusões de largas
consequências) a sua obra não deixará de refletir a duplicidade do assunto tratado e
o novo rumo que tomava o pensamento e a elaboração do conhecimento; isto é, a par
do conhecimento, e a do conhecimento do conhecimento. O que cronologicamente
coincide no Mundo Antigo (e não terá sido por certo uma simples coincidência)
com a eclosão daquilo que teria sido “filosofia”.

Em outras palavras, é pelo pensamento e conhecimento que o consƟtui e inspira (pois


não há pensamento “puro” e vazio de conhecimento. Pensamento e conhecimento
no final se confundem), é assim que o ser racional que é o homem, livremente se
determina e delibera sua ação. Mas esse pensamento e conhecimento determinantes
se forjam nas circunstâncias da vida e do meio İsico e humano em que o homem,
social por excelência, age, desenrola sua ação, e se torna com isso o ser racional
que é. A ação dele se faz pensamento e conhecimento, porque estes se esƟmulam
e formam essa ação; tal como pensamento e conhecimento se fizeram ação porque
são eles que a promovem e impulsionam. E o processo conƟnua assim, ininterrupto,
entrosando-se nele homem pensante, conhecedor e homem agente.

O homem pensante e conhecedor transformando-se em homem agente;


e inversamente este naquele. E trata-se aí, note-se bem, não de uma alternância
monótona e que se repete sempre igual. Longe disso, e muito pelo contrário, o
processo (que é tanto da história do indivíduo, o desenrolar de sua existência
individual, como da coletividade em que os indivíduos se comunicam, e da espécie
em que eles se sucedem e continuam uns aos outros) se renova permanentemente,
em cada cicio que é sempre diverso do anterior, mas rico de ação, de experiência
realizada, de pensamento desenvolvido, de conhecimento acrescido, graças à
Acumulação essa, cuja possibilidade constitui no Universo privilégio
do Homem e o fator que precisamente faz dele o Ser racional que é. E graças
a essa faculdade de se valer do seu passado a fim de utilizá-lo no presente e
projetá-lo no futuro com o acréscimo das novas aquisições do presente, graças
a esse privilégio, que o Homem ocupa a posição ímpar que é a sua no Universo.
Que logra marchar para frente, progredir, se transformar e renovar em ritmo
quantitativo e qualitativo, sem paralelo em outras feições da Natureza.

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Essa é a perspectiva dialética do Homem que permite considerá-lo no


ângulo adequado e devidamente conceituar em termos científicos esse aspecto ou
feição do universo que é a humanidade, o fato humano. — ou a razão, que vem
a dar no mesmo, para empregar a terminologia consagrada da Filosofia. — E
elaborar com isso o “Conhecimento do Homem”.
Nisso precisamente consiste a especificidade e singularidade do homem:
a sua potencialidade racional que, da indistinção e confusão originárias no seio
do universo, o faz emergir e progressivamente destacar como ser racional em que
se torna não somente conhecedor, mas, sobretudo, plenamente consciente de seu
conhecimento, o que lhe permite utilizá-lo intencionalmente e não apenas como
simples reflexo nervoso; e isso em nível e extensão cada vez mais elevados e amplos.
E na mesma medida e progressão, o faz imprimir sua marca na Natureza, inclusive
a humana — sua última conquista, em plena eclosão, nos dias de hoje, em moldes
científicos modernos —, transformando-a e se fazendo com isso senhor dela e de
seu destino próprio. “Senhor e possuidor do universo”, na predição de Descartes.
É nesse devir racional que consiste a dialética do homem e de sua “história”.
E é na consideração dessa dialética que se esclarece o problema filosófico. Nela se
configura o verdadeiro Homem, o seu Ser real e integral que não é o homem situado,
com uma razão “absoluta”, à parte do universo que, como de fora e sobranceiro, ele
contempla, interpreta e assim domina — à feição do racionalismo clássico. Não é
tampouco o homem confundido no conjunto da natureza e com ela nivelado; dominado
por contingências a que passivamente se submete, sem mesmo a consciência disso,
arrastado por rígido determinismo geral e igual para todas as coisas. Do que se trata
Todas as ciências
é do homem simultaneamente nessas duas situações, passando permanentemente de que hoje conhecemos
brotaram da filosofia,
uma para outra, tornando-se uma e outra em eterno devir. sendo a mesma um
marco no pensamento
Ao mesmo tempo parte e parcela do todo universal, mas também nele ocidental. Podemos
mesmo dizer que
progressivamente se discriminando e destacando; fazendo-se pelo pensamento aprender filosofia
corresponde a
e conhecimento no ser racional que, consciente e intencionalmente, modifica e aprender a pensar
de forma crítica e a
transforma com a sua ação e para seus fins, o meio físico e o humano das relações questionar a realidade
tal qual se apresenta.
sociais de que participa; e, consequentemente, se transformando, também ele Num mundo
conturbado como o
próprio com as transformações que determina, e que passam a determiná-lo. nosso, cada vez se
faz mais presente
Esse é o tema central da Filosofia. O desenvolvimento dessa dialética do a necessidade de
refletimos sobre
nossa realidade a
ser humano, que a partir de sua indiferenciação no seio da Natureza em que se partir da filosofia,
daí o no. Reflexões
emparelha com as demais feições e ocorrências, com as quais nela coabita, como sobre a filosofia, se
propõe justamente
simples parcela envolvida no conjunto universal em pé de igualdade, e nele (no a instigar a todos a
pensar criticamente,
homem) arrastado passivamente na mesma determinação geral que é do todo e destinando um
pequeno momento
transcende as suas partes. A partir daí vai (o ser humano) progressivamente e de sua existência
a reflexões sobre
de forma cada vez mais acentuada e generalizada, fazendo-se ele próprio, em a própria vida e aio
estar vivo em um
si e por si, poderoso fator determinante e consciente dessa sua determinação do contexto social.

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todo universal de que participa. Fator determinante em particular naquele setor


que mais proximamente o atinge e envolve, e que vem a ser o da convivência
humana, das relações sociais. Setor esse em que ensaia apenas, em nossos dias,
seus primeiros, ainda tímidos, hesitantes e incertos passos.
É essa dialética que cabe essencialmente à Filosofia considerar e
compreender, pois é dessa compreensão que resultará coroamento da tarefa
de verdadeiro conhecimento integral do ser humano em suas possibilidades e
limitações. E ter-se-á o que afinal mais importa para a projeção futura do processo
dialético em que o homem se acha engajado.
Essa matéria não é nem pode ser objeto do conhecimento ordinário, da Ciência
propriamente, uma vez que esta tem por objetivo específico a simples representação
mental da realidade; como essa realidade, com suas feições e ocorrências, se há de
representar no pensamento e se tornar com isso conhecida pelo indivíduo pensante.
Isso, inclusive, no que respeita o terreno do “Conhecimento do Homem”.

O trabalho filosófico é essencial para a disposição do entendimento e reflexão


racional e radical... Veremos a seguir esse objeƟvo...

Essa é matéria que vai além daquela que cabe à Ciência propriamente. Nem
é acessível simplesmente aos procedimentos ordinários da elaboração científica.
Pertence assim, necessariamente, a outra ordem de conhecimentos que, a respeitar
nomenclatura consagrada, não pode ser senão aquilo que se tem entendido por
“Filosofia”, sob cuja designação se reúne de ordinário, embora de maneira, no geral,
informe e dispersa, particularizada e confusa, boa parte das questões que precisamente,
direta ou indiretamente, dizem respeito à matéria que estamos considerando.
Mas esse último ponto é de segunda importância. Mais uma questão
de nomenclatura. O que importa é a delimitação com um mínimo de precisão e
a sistematização naquilo que é aproveitável deste variegado material que se tem
entendido por “Filosofia”. É que de fato corresponde nos seus traços gerais, embora
no mais das vezes vagamente apenas, com a fundamental dialética humana. Uma
tal sistematização se fará, assim penso, sobre a base e em torno da consideração
metódica do processo em que se centraliza a atividade racional do homem, e que vem
a ser o fato do conhecimento como circunstância específica da dialética humana.
É no conhecimento e por ele que se gera a potencialidade humana como
motor da dialética do homem. O objeto da Filosofia seria, assim, o conhecimento
considerado em toda sua amplitude, a partir do processo da elaboração cognitiva, que
é propriamente o pensamento e a comunicação dessa atividade pensante. Em especial
pela sua expressão verbal, a linguagem discursiva que torna o pensamento plenamente
consciente e o faz amplamente comunicável e registrável, e, pois socializa o processo
de elaboração cognitiva e concede permanência ao conhecimento elaborado. E temos
aí o que ordinariamente se entende por Teoria do Conhecimento.

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Daí, a consideração e o exame do fato do conhecimento se estenderiam para


a função dele, seu objetivo e papel que desempenha na existência humana, e que vem
a ser a sua utilização, ou seja, a determinação e orientação da ação. Determinação e
orientação que se realizam pela mediação do conhecimento reduzido a diretivas da
ação, normas de comportamento: hábitos, costumes, normas de civilidade, princípios
éticos, instituições jurídicas, técnicas... O conjunto, enfim, de diretivas que regulam
a ação e conduta humana. Ação e comportamento que relacionam o Homem com o
meio que o envolve e com isso o situam no universo de que participa.
Esse exame do conhecimento, do fato cognitivo em sua generalidade, se reduz,
como se vê, à consideração sistemática do essencial dos sucessivos fatos ou momentos
em que se compõe e desdobra a dialética humana: da prática ao conhecimento e desse
conhecimento de retorno à prática. O que representaria, esquematicamente, a linha de
desenvolvimento teórico do que haveria de ser a Filosofia.

1.1 - A Atitude Crítica 23


A primeira característica da atitude filosófica é negativa, isto é, um dizer
não ao senso comum, aos “pré-conceitos”, aos “pré-juízos”, aos fatos e às ideias
da experiência cotidiana, ao que “todo mundo diz e pensa”, ao estabelecido.
A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma
interrogação sobre o que são as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os
comportamentos, os valores, nós mesmos. É também uma interrogação sobre o
porquê disso tudo e de nós, e uma interrogação sobre como tudo isso é assim
e não de outra maneira. O que é? Por que é? Como é? Essas são as indagações
fundamentais da atitude filosófica.
De acordo com Chauí (2000), a face negativa e a face positiva da atitude
filosófica constituem o que chamamos de atitude crítica e pensamento crítico.
A Filosofia começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do senso
comum. Começa, portanto, dizendo que não sabemos o que imaginávamos saber.
Por isso, o patrono da Filosofia, o grego Sócrates, afirmava que a primeira e
fundamental verdade filosófica é dizer: “Sei que nada sei”. Para o discípulo de
Sócrates, o filósofo grego Platão, a Filosofia começa com a admiração; já o discípulo
de Platão, o filósofo Aristóteles, acreditava que a Filosofia começa com o espanto.
Admiração e espanto significam: tomamos distância do nosso mundo
costumeiro, através de nosso pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos
visto antes, como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e
outros meios de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como
se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e
precisássemos perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos
perguntar também o que somos, por que somos e como somos.

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Se, portanto, deixarmos de lado, por enquanto, os objetos com os


quais a Filosofia se ocupa, veremos que a atitude filosófica possui algumas
características que são as mesmas, independentemente do conteúdo investigado.
Essas características são:

- perguntar o que a coisa, ou o valor, ou a ideia, é. A Filosofia pergunta qual


é a realidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa, não importa qual;
- perguntar como a coisa, a ideia ou o valor, é. A Filosofia indaga qual é a
estrutura e quais são as relações que constituem uma coisa, uma ideia ou um valor;
- perguntar por que a coisa, a ideia ou o valor, existe e é como é. A Filosofia
pergunta pela origem ou pela causa de uma coisa, de uma ideia, de um valor.

A atitude filosófica inicia-se dirigindo essas indagações ao mundo que nos


rodeia e às relações que mantemos com ele. Pouco a pouco, porém, descobre que essas
questões se referem, afinal, à nossa capacidade de conhecer, à nossa capacidade de pensar.
Por isso, pouco a pouco, as perguntas da Filosofia se dirigem ao próprio
pensamento: o que é pensar, como é pensar, por que há o pensar? A Filosofia
torna-se, então, o pensamento interrogando-se a si mesmo. Por ser uma volta que
o pensamento realiza sobre si mesmo, a Filosofia se realiza como reflexão.

SEÇÃO 2 – Reflexão Filosófica

Imagem extraída
em: http://www.
institutorecriando.org.br/
refletir.asp

Em nossa vida coƟdiana, afirmamos, negamos, aceitamos ou recusamos coisas,


pessoas ou situações. Fazemos perguntas como “que horas são ou que dia é hoje?”

Esta pergunta sustenta uma crença: a crença que o tempo existe e pode ser medido.
Assim como afirmações do Ɵpo “A professora foi injusta” traz em si a crença em nossa
ideia de jusƟça. No entanto, nunca paramos para indagar o que entendemos por
“tempo” ou “jusƟça”. Acostumados com o coƟdiano, deixamos nossas ideias e crenças
sem fundamentação e vamos aceitando o mundo como se ele fosse óbvio em si mesmo.

ARANHA, M. L. A.

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Reflexão significa movimento de volta sobre si mesmo ou movimento


de retorno a si mesmo. A reflexão é o movimento pelo qual o pensamento volta-se
para si mesmo, interrogando a si mesmo.
A reflexão filosófica é radical porque é um movimento de volta do
pensamento sobre si mesmo para conhecer-se a si mesmo, para indagar como
é possível o próprio pensamento.
Não somos, porém, somente seres pensantes. Somos também seres que
agem no mundo, que se relacionam com os outros seres humanos, com os animais,
as plantas, as coisas, os fatos e acontecimentos, e exprimimos essas relações tanto
por meio da linguagem quanto por meio de gestos e ações.
A reflexão filosófica também se volta para essas relações que mantemos com a
realidade circundante, para o que dizemos e para as ações que realizamos nessas relações.
A reflexão filosófica organiza-se em torno de três grandes conjuntos de
perguntas ou questões:

1. Por que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos e fazemos


o que fazemos? Isto é, quais os motivos, as razões e as causas para pensarmos o
que pensamos, dizermos o que dizemos, fazermos o que fazemos?
2. O que queremos pensar quando pensamos, o que queremos dizer
quando falamos, o que queremos fazer quando agimos? Isto é, qual é o conteúdo
ou o sentido do que pensamos, dizemos ou fazemos?
3. Para que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos,
fazemos o que fazemos? Isto é, qual é a intenção ou a finalidade do que
pensamos, dizemos e fazemos?

Essas três questões podem ser resumidas em: O que é pensar, falar e
agir? E elas pressupõem a seguinte pergunta: Nossas crenças cotidianas são ou
não um saber verdadeiro, um conhecimento?
Como vimos, a atitude filosófica inicia-se indagando: O que é? Como é?
Por que é? Dirigindo-se ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele
vivem e com ele se relacionam. São perguntas sobre a essência, a significação ou
a estrutura e a origem de todas as coisas.
Já a reflexão filosófica indaga: Por quê? O quê? Para quê? Dirigindo-
se ao pensamento, aos seres humanos no ato da reflexão. São perguntas sobre a
capacidade e a finalidade humanas para conhecer e agir.

2.1 - Inútil? Útil?


O primeiro ensinamento filosófico é perguntar: O que é o útil? Para que
e para quem algo é útil? O que é o inútil? Por que e para quem algo é inútil?

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O senso comum de nossa sociedade considera útil o que dá prestígio,


poder, fama e riqueza. Julga o útil pelos resultados visíveis das coisas e das ações,
identificando utilidade e a famosa expressão “levar vantagem em tudo”. Desse
ponto de vista, a Filosofia é inteiramente inútil e defende o direito de ser inútil.
Não poderíamos, porém, definir o útil de outra maneira?
Platão definia a Filosofia como um saber verdadeiro que deve ser usado
em benefício dos seres humanos.
Descartes dizia que a Filosofia é o estudo da sabedoria, conhecimento
perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, a
conservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes.
Kant afirmou que a Filosofia é o conhecimento que a razão adquire de si
mesma para saber o que pode conhecer e o que pode fazer, tendo como finalidade
a felicidade humana.
Marx declarou que a Filosofia havia passado muito tempo apenas
contemplando o mundo e que se tratava, agora, de conhecê-lo para transformá-lo,
transformação que traria justiça, abundância e felicidade para todos.
Merleau-Ponty escreveu que a Filosofia é um despertar para ver e
mudar nosso mundo.
Espinosa afirmou que a Filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que
pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade.
Qual seria, então, a utilidade da Filosofia?
Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for
útil; se não se deixar guiar pela submissão às ideias dominantes e aos poderes
estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura,
da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas
ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os
meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a
liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é
o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.

SEÇÃO 3 - Onde Está a Necessidade da Filosofia?

Está no fato de que, por meio da reflexão (aquele desdobrar-se, lembra-


se?), a filosofia permite ao homem ter mais de uma dimensão, além da que é dada
pelo agir imediato no qual o "homem prático" se encontra mergulhado.

CONCEITO
De acordo com Aranha 24 (1993), é a filosofia que dá o distanciamento
para a avaliação dos fundamentos dos atos humanos e dos fins a que eles se

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destinam; reúne o pensamento fragmentado da ciência e o reconstrói na sua


unidade; retoma a ação pulverizada no tempo e procura compreendê-la.
Portanto, a filosofia é a possibilidade da transcendência humana, ou
seja, a capacidade que só o homem tem de superar a situação dada e não
escolhida. Pela transcendência, o homem surge como ser de projeto, capaz de
liberdade e de construir o seu destino.
O distanciamento é justamente o que provoca a aproximação maior do
homem com a vida. Whitehead, lógico e matemático britânico contemporâneo,
disse que "a função da razão é promover a arte da vida". A filosofia recupera o
processo perdido no imobilismo das coisas feitas (mortas porque já ultrapassadas).
A filosofia impede a estagnação.
Por isso, o filosofar sempre se confronta com o poder, e sua investigação
não fica alheia à ética e à política.
É o que afirma o historiador da filosofia François Châtelet: "Desde que
há Estado - da cidade grega às burocracias contemporâneas -, a ideia de verdade
sempre se voltou, finalmente, para o lado dos poderes (ou foi recuperada por eles,
como testemunha, por exemplo, a evolução do pensamento francês do século
XVIII ao século XIX). Por conseguinte, a contribuição específica da filosofia
que se coloca a serviço da liberdade, de todas as liberdades, é a de minar, pelas
análises que ela opera e pelas ações que desencadeia as instituições repressivas e
simplificadoras: quer se trate da ciência, do ensino, da tradução, da pesquisa, da
medicina, da família, da polícia, do fato carcerário, dos sistemas burocráticos, o
que importa é fazer aparecer a máscara, deslocá-la, arrancá-la... "
A filosofia é, portanto, a crítica da ideologia, enquanto forma ilusória de
conhecimento que visa à manutenção de privilégios (ver Capítulo 5 - Ideologia).
Atentando para a etimologia do vocábulo grego correspondente à verdade
(a-létheia, a-lethetiein, 'desnudar"), vemos que a verdade é pôr a nu aquilo que
estava escondido, e aí reside a vocação do filósofo: o desvelamento do que está
encoberto pelo costume, pelo convencional, pelo poder.
Finalmente, a filosofia exige coragem. Filosofar não é um exercício
puramente intelectual. Descobrir a verdade é ter a coragem de enfrentar as
formas estagnadas do poder que tentam manter o status quo. É aceitar o desafio
da mudança. Saber para transformar.

Retomando a Conversa Inicial

Vamos relembrar o conteúdo desta aula???

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 SEÇÃO 1 - Filosofia: Uma Atitude Crítica


Nesta seção, verificamos a importância da atitude crítica. Atitude é perseverança
e exercício constante sobre o objeto que estou estudando ou buscando compreensão.
Crítica vem a ser uma análise de conhecimento e reflexão sobre o que você pode
construir ou argumentar, mas para isso devemos conhecer muito bem o objeto.
 SEÇÃO 2 - Reflexão Filosófica
A reflexão filosófica é um reflexo daquilo que conhecemos. Para
chegarmos a isso devemos primeiramente passar pela atitude crítica, pois sem
esse conhecimento não podemos construir uma reflexão que seja autêntica.
Refletir sobre algo é buscar a essência do objeto, e com a filosofia encontramos a
verdade, através da busca constante do saber.
 SEÇÃO 3 - Onde Está A Necessidade da Filosofia?
Quando chegamos a essa pergunta, é porque estamos preparados para
as indagações constantes... Ou seja, do por quê? Pergunta, onde! Conteúdo
(conhecimento) e o para quê? Resposta e busca da verdade. Devemos antes de
responder algo, sobre algo, devemos nos preparar para as perguntas...

Glossário

 Etimologia: é a parte da gramática que trata da história ou origem


das palavras e da explicação do significado de palavras através da análise dos
elementos que as constituem.
 Atitude: a disposição ligada ao juízo de determinados objetos da
percepção ou da imaginação - ou seja, a tendência de uma pessoa de julgar tais
objetos como bons ou ruins, desejáveis ou indesejáveis.
 Crítica: descreve e opina sobre a maneira como uma atividade foi
desenvolvida, a fim de dar a conhecer.

Sugestões de Filmes

Os Últimos Rebeldes. 1992 – EUA – Filme que apresenta a ascensão


do nazismo e a ideologia da consciência da juventude alemã. Um grupo de jovens
amigos se encontra, devido ao momento histórico, exposto à ideologia nazista que,
entre outras coisas, reprime toda forma de expressão cultural que possa significar
uma ameaça a seus valores.
Mississipi em chamas. 1988 – EUA – Filme clássico sobre o racismo
nos Estados Unidos dos anos de 1960 que denuncia o problema da intolerância.

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O destino. 1997 – Egito/França – No século XII, em Córdoba, os


escritos do filósofo Averróis chocam os islâmicos. Para apaziguar a situação, o
califa Al Mansour ordena que todas as suas obras sejam queimadas. É quando
os discípulos do filósofo decidem fazer cópias manuscritas de suas obras, para
levá-las para além das fronteiras do Islã.

OBS: Não esqueçam! Em caso de dúvidas, acessem as ferramentas “fórum” ou


“quadro de avisos”.

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