Você está na página 1de 14

Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes- UNIGRAN

Aula
05

A LEITURA E A
CONSTRUÇÃO DO SENTIDO
“Ler não é decifrar, como num jogo de adivinhações, o
sentido de um texto. É, a partir de um texto, ser capaz de
atribuir-lhe significação, conseguir relacioná-lo a todos os
outros textos significativos para cada um, reconhecer nele
o tipo de leitura que seu autor pretendia e, dono da própria
vontade, entregar-se a esta leitura, ou rebelar-se contra ela,
propondo outra não prevista.” (Marisa Lajolo, 2002)

A compreensão e a interpretação de textos são habilidades


exigidas em toda nossa trajetória estudantil e, posteriormente,
profissional. Diante dessa afirmação, fica claro que a interpretação
de textos não se resume a um simples conhecimento que utilizamos em
uma determinada ocasião e, depois, descartamos como algo inútil. Pelo
contrário, o seu aprendizado é progressivo e permanente, fortalece-se
com o uso e é fundamental, principalmente, para que você obtenha um
bom desempenho na universidade e no exercício profissional.
Nesse sentido, é natural que toda universidade ou faculdade
espere um maior preparo intelectual de seus acadêmicos em relação ao
ato de fazer uma boa leitura.
Por isso, nesta aula, pretendemos que você amplie os seus
conhecimentos sobre como obter um bom resultado da leitura de um texto.
Está curioso? Supõe que seja difícil? Nada disso!

Objetivos de aprendizagem

 Conhecer os aspectos envolvidos na leitura e compreensão de textos.


 Apreender a funcionalidade dos mecanismos de produção de
sentido de textos diversos.
 Incentivar o interesse à leitura, à pesquisa e à busca de informações.
 Desenvolver a habilidade de ler textos, considerando as

87
Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes- UNIGRAN

estratégias discursivas, as estruturas textuais, as diferentes condições de produção


do discurso e os instrumentos linguísticos adequados às situações de comunicação.

Seções de estudo

 SEÇÃO 1 – Aspectos envolvidos na leitura e compreensão de textos;


 SEÇÃO 2 - Leitor perspicaz é aquele que consegue ler nas entrelinhas;
 SEÇÃO 3 - Construindo o sentido de um texto.

SEÇÃO 1 - Aspectos envolvidos na leitura e


compreensão de textos

1.1 Como ler um texto?


Todos se interessam em saber como obter um bom resultado da leitura de
um texto. Em princípio, é importante destacar que não existe uma fórmula mágica
para o aprendizado da leitura, porém, o conhecimento dos aspectos envolvidos na
leitura e compreensão de textos torna-se essencial aos que pretendem aperfeiçoar
a sua capacidade de leitura. Sendo assim, é extremamente importante que você
saiba que as habilidades de leitura (compreensão e interpretação de textos)
englobam várias capacidades, tais como as destacadas abaixo:

• Estabelecimento de relações entre cada texto e aspectos históricos, sociais, polí cos,
econômicos e culturais da época em que ele foi produzido e da atualidade.
• Reflexão sobre diferentes fatos linguís cos flagrados em textos verbais.
• Reconhecimento e análise da variação linguís ca - em suas diferentes dimensões
sócio-históricas - como um fenômeno inerente ao uso da língua e determinado pelos
fatores que definem as condições de produção de um texto.
• Iden ficação das relações entre as partes do texto, indica vas de sua organização
global, e as estratégias linguís cas que funcionam para a sua organização local.
• Reconhecimento da natureza dominante de um texto (por exemplo: se se trata de
um texto disserta vo, narra vo, poé co, religioso, jornalís co, regional, popular etc.).
• Iden ficação, nesses textos, das marcas linguís cas de sua especificidade. Apenas para
exemplificar: com relação a um texto disserta vo, você deverá ser capaz de iden ficar
e entender a sua linha argumenta va (a que conclusão chega, quais os argumentos
u lizados, quais as objeções levadas em conta e como são tratadas).
(ANEXO IV, 2012).

Além das capacidades acima elencadas, genericamente, pode-se


afirmar que uma leitura proveitosa pressupõe vários níveis de conhecimento,
os quais veremos a seguir.

1.2 O conhecimento prévio na leitura


De acordo com Ângela Kleiman (2002, p. 13), a compreensão de um texto

88
Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes - UNIGRAN

é um processo que se caracteriza pela utilização de um conhecimento prévio: o


leitor utiliza na leitura o que ele já sabe, o conhecimento adquirido ao longo de sua
vida. Para ela, é mediante a interação de diversos níveis de conhecimento, como
o conhecimento linguístico, o textual e o conhecimento de mundo, que o leitor
consegue construir o sentido do texto. A autora afirma que sem o engajamento do
conhecimento prévio do leitor não haverá compreensão.

1.2.1 Níveis de conhecimento que entram em jogo durante a leitura


Vejamos a explicação de cada um desses níveis de conhecimentos, os
quais compõem o conhecimento prévio, de acordo com Kleiman (2002). Todos
eles desempenham um papel importante na compreensão de textos.
Conhecimento linguístico: abrange o conhecimento da pronúncia do
português, do vocabulário e regras da língua e do uso da língua. Compreende o
conhecimento gramatical e o lexical.
Conhecimento textual: diz respeito ao conjunto de noções e conceitos sobre
o texto: conhecimento das estruturas textuais (estrutura narrativa, descritiva, expositiva,
argumentativa), das formas de discurso. Quanto mais conhecimento textual o leitor tiver,
quanto maior a sua exposição a todo tipo de texto, mais fácil será a sua compreensão.
Conhecimento de mundo ou conhecimento enciclopédico:
encontra-se armazenado na memória de cada indivíduo. São os
conhecimentos sobre os fatos do mundo, sobre os conceitos, sobre os
assuntos diversos. Esse repertório de informações exteriores ao texto
pode ser adquirido tanto formalmente (leituras, estudos, pesquisas)
como informalmente (adquirido através de nossas experiências e
convívio numa sociedade. Por exemplo: conhecimento que temos
sobre o que está envolvido sobre ir ao médico, comer num restaurante, tirar um
documento, assistir a uma aula).
Para que você perceba o quanto é relevante a ativação de seu conhecimento
prévio para facilitar a compreensão de um texto, leia o texto abaixo até entendê-lo
e depois escreva o que lembra dele:

“Como gemas para financiá-lo, nosso herói desafiou valentemente todos os risos
desdenhosos que tentaram dissuadi-lo de seu plano. “Os olhos enganam” disse ele,
“um ovo e não uma mesa pificam corretamente esse planeta inexplorado”. Então as
três irmãs fortes e resolutas saíram à procura de provas, abrindo caminho, às vezes
através de imensidões tranquilas, mas amiúde através de picos e vales turbulentos. Os
dias se tornaram semanas, enquanto os indecisos espalhavam rumores apavorantes
a respeito da beira. Finalmente, sem saber de onde, criaturas aladas e bem vindas
apareceram anunciando um sucesso prodigioso.” (KLEIMAN, 2002, p. 13).

Em experiência realizada por Kleiman (2002), a maioria das pessoas a

89
Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes- UNIGRAN

quem foi solicitada a leitura desse texto considerou-o muito vago e, mesmo após a
releitura do texto, essas pessoas não conseguiram obter a significação contida nele.

?
Será que com você aconteceu o mesmo? Certamente sim, não é?
? Isso porque inúmeras perguntas que você deve ter feito ficaram sem
resposta, tais como: Quem é o herói? Qual é o seu plano? De que
planeta se trata? Quem são as irmãs e por onde elas estão abrindo
caminho? Quem eram os indecisos e quais os rumores espalhavam?
Quem eram as criaturas aladas e de onde vieram?

No entanto, se, antes de ler o texto, você soubesse que o seu título era
“A descoberta da América por Colombo”, todas essas perguntas teriam sido
respondidas. Em outras palavras, você teria identificado os referentes e, assim,
o texto passaria a ter um significado preciso.
Vamos responder, agora, às perguntas acima formuladas.
O herói é Colombo, o seu plano é viajar para o Oeste tentando achar
um caminho para as Índias, o planeta é Terra, as irmãs são as três caravelas de
Colombo, e os caminhos são os da travessia marítima, os indecisos eram os
marujos com medo da beira do abismo que encontrariam no fim da viagem, as
criaturas aladas eram os pássaros vindos da costa.
Observe que esses referentes não se encontram no texto, eles são
extralinguísticos e, conforme a autora, a sua recuperação se deve ao conhecimento
de caráter enciclopédico que o leitor tem sobre a descoberta da América.
Percebeu que sem a ativação desse conhecimento prévio você não teria
realizado a compreensão do texto? Que sem ele você não teria feito as inferências
necessárias para tornar o texto coerente?
Vejamos mais um exemplo.

“Às vezes, quando um texto é ambíguo, é o conhecimento de mundo que o


leitor tem dos fatos que lhe permite fazer uma interpretação adequada do
que lê. Uma boa ilustração é o texto que segue:
“As videolocadoras de São Carlos estão escondendo suas fitas de sexo
explícito. A decisão atende a uma portaria de dezembro de 1991, do
Juizado de Menores, que proíbe que as casas de vídeo aluguem, exponham
e vendam fitas pornográficas a menores de 18 anos. A portaria proíbe
ainda os menores de 18 anos de irem a motéis e rodeios sem a companhia
ou autorização dos pais. (Folha Sudeste, 6/6/92)”
É o conhecimento linguístico que nos permite reconhecer a ambiguidade
do texto em questão (pela posição em que se situa, a expressão sem a
companhia ou autorização dos pais permite a interpretação de que com
a companhia ou autorização dos pais os menores podem ir a rodeios ou
motéis). Mas o nosso conhecimento de mundo nos adverte de que essa
interpretação é estranha e só pode ter sido produzida por engano do
redator. É muito provável que ele tenha tido a intenção de dizer que os

90
Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes - UNIGRAN

menores estão proibidos de ir a rodeios sem a companhia ou autorização


dos pais e de frequentarem motéis.
Como se vê, na tarefa de compreensão do texto precisamos ativar, também,
o nosso conhecimento de mundo. Isso significa que o aprendizado da leitura
não se realiza apenas nas aulas de Português, mas também em todas as
outras disciplinas, sem exceção.”
(MUNDO VESTIBULAR, 2012)

Vamos ver mais um caso? Após ler o texto abaixo, perceba a importância
do conhecimento linguístico para a sua compreensão.

“Quando era ministro da Educação, Passarinho recebeu correspondência de


um reitor de uma universidade, solicitando verbas ao “iminente ministro”,
que não pestanejou. Colocou-a de volta no correio, dizendo ao solicitante
que já havia sido nomeado [...]”
Com base no que você acaba de ler, tente responder:
a) Qual foi o motivo pelo qual Jarbas Passarinho, ministro da Educação em
1986, devolveu a carta ao reitor?
b) Por que o erro linguístico, sobretudo certo tipo como esse, funciona como
contra-argumento?
(PLATÃO e FIORIN, 2001, p. 300)

Conseguiu responder às questões? Suas respostas


deveriam se aproximar das seguintes:

a) A devolução da carta foi provocada basicamente


por um motivo: repreensão do erro de grafia cometido pelo
reitor (ou seu secretário), que escreveu IMINENTE (que está
por acontecer, prestes a ocorrer) em vez de EMINENTE (ilustre, destacado, notável).
b) Porque afeta a credibilidade do enunciador, já que funciona como denúncia
de que, por trás do texto, está um mau conhecedor da variante culta da língua ou,
quando menos, uma pessoa descuidada. Esse fato deprecia a imagem do reitor.
(PLATÃO e FIORIN, 2001, p. 427)

Continuemos o nosso estudo com mais uma atividade de leitura e interpretação


de texto. Leia o texto seguinte e responda às questões propostas para ele.

CHAMA O “AURÉLIO”
Certos casos de polí ca, de tão inacreditáveis, acabam virando
parte do anedotário. Ou vice-versa: algumas piadas traduzem tão
bem determinadas caracterís cas da cultura polí ca que assumem
ares de verdade.
Em uma das hipóteses se encaixa a correspondência trocada, cerca
de 20 anos atrás, entre o prefeito de Bom Sucesso (MG) e o então
secretário estadual do Interior, Ovídeo de Abreu.

91
Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes- UNIGRAN

Conta o deputado Elias Murad (PSDB-MG) que Abreu sempre gostou de falar di cil.
Numa certa ocasião, o secretário recebeu a informação de que Bom Sucesso (MG)
sofreria um tremor de terra capaz de quebrar copos e trincar pratos. Preocupado,
expediu rapidamente um telegrama ao prefeito: “Movimento sísmico previsto
essa região. Provável epicentro movimento telúrico sua cidade. Obséquio tomar
providências logís cas cabíveis”.
O secretário esperou ansioso pela resposta. Quatro dias depois chegava o telegrama
do prefeito:“Movimento sísmico debelado. Epicentro preso, incomunicável, cadeia
local. Desculpe demora. Houve terremoto na cidade”.
(Folha de S. Paulo, 24 nov. 1992, p. 1-4)

Explorando o texto
1. Para achar graça no texto acima, é fundamental conhecer o significado
de certas palavras. Qual o significado de sísmico, telúrico e epicentro?
2. Em que pessoa é narrado o texto?
3. Há quanto tempo ocorreu o fato relatado?
4. O narrador conta a história baseado no relato de quem?
5. Baseando-se exclusivamente no texto, responda: o fato narrado
realmente ocorreu, ou trata-se de uma anedota?
6. Falar difícil não significa falar bem. Que fato narrado no texto
comprova essa afirmação?
7. Por que o fato narrado pode ser considerado uma anedota?
8. Pode-se afirmar que houve comunicação entre o secretário e o prefeito?
9. Por que razão o telegrama do secretário não foi entendido pelo prefeito?
(PROFESSOR É O SAL DA TERRA E A LUZ DO MUNDO! Adequação
vocabular, 2012)

Depois de ter respondido às perguntas apresentadas acima, “somente


depois”, compare as suas respostas às que seguem:
1) sísmico: relativo a terremoto - sujeito aos terremotos ou vibrações
artificiais do solo; telúrico: relativo a terra - teluri: lat tellure – exprime a ideia
de terra, solo; epicentro: ponto da superfície da terra mais próximo do centro de
abalo de um terremoto; atingido primeiro e com maior intensidade pelas ondas
sísmicas (epi: pref. que exprime a ideia de sobre e depois).
2) Terceira pessoa.
3) Há 20 anos.
4) Do deputado Elias Murad.
5) Pelo texto não se pode afirmar se o fato realmente ocorreu, ou se trata
de simples anedota, já que no início se afirma que “Certos casos de política, de
tão inacreditáveis, acabam virando parte do anedotário. Ou vice-versa: algumas
piadas traduzem tão bem determinadas características da cultura política que

92
Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes - UNIGRAN

assumem ares de verdade. Em uma das hipóteses se encaixa a correspondência


trocada, cerca de 20 anos atrás, entre o prefeito de Bom Sucesso (MG) e o então
secretário estadual do Interior, Ovídeo de Abreu.”
6) O fato de o prefeito não ter entendido o telegrama que recebeu.
7) Pelo fato de seu desfecho ser cômico: o prefeito, não tendo entendido o
conteúdo do telegrama, acaba relatando ao secretário fatos absurdos (por exemplo, debelar
– que significa dominar, combater, vencer, destruir - o movimento sísmico, prender o
epicentro) e justifica a demora exatamente porque “houve um terremoto na cidade”.
8) Não, porque o prefeito não conseguiu decodificar a mensagem que recebeu.
9) Porque o prefeito utilizou no seu telegrama um vocabulário desconhecido.
Do texto lido na página anterior, podemos, ainda, refletir sobre o ato de escrever
e tirar uma lição. A de que escrever bem não é expressar-se com palavras difíceis
e desconhecidas, para tentar impressionar os outros. Embora algumas pessoas
assim procedam, isso deve ser evitado, pois revela um defeito grave de redação: o
pedantismo. Escrever bem é escrever com clareza, concisão, correção e elegância.

E então, acertou as respostas das questões? Espero que você esteja


aperfeiçoando a sua capacidade para interpretar textos!

SEÇÃO 2 - Leitor perspicaz é aquele que consegue ler


nas entrelinhas

Todos os textos transmitem explicitamente certas informações, enquanto


deixam outras implícitas. Para que você entenda melhor essa afirmativa,
convidamo-lo a ler as explicações seguintes, de Platão e Fiorin (2001, 2002),
as quais se mostram bastante didáticas para esse fim. Os autores, na obra Para
entender o texto: leitura e redação (2002, p. 241) iniciam a explicação dizendo
que “para realizar uma leitura eficiente, o leitor deve captar tanto os dados
explícitos quanto os implícitos.” Continuemos a explicação.

2.1 As informações implícitas


Os pressupostos são as ideias não apresentadas de maneira explícita
no texto, “mas que o leitor pode perceber a partir de certas palavras ou
expressões na frase.” O pressuposto é um dado posto como indiscutível para
o falante e para o ouvinte, não é para ser contestado. “Na frase ‘Pedro deixou
de fumar’ diz-se explicitamente que, no momento da fala, Pedro não fuma. O
verbo ‘deixar’, todavia, transmite a informação implícita de que Pedro fumava
antes” (PLATÃO; FIORIN, 2002, p. 241).
Os subentendidos são as insinuações escondidas por trás de uma

93
Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes- UNIGRAN

afirmação. O falante, ao subentender-se, esconde-se por trás do sentido literal das


palavras e pode dizer que não estava querendo dizer o que o ouvinte entendeu.
O subentendido, muitas vezes, serve para o falante proteger-se diante de uma
informação que quer transmitir para o ouvinte sem se comprometer com ela
(PLATÃO; FIORIN, 2002, p. 244).
Na obra Lições de texto: leitura e redação (2001, p. 310), os autores
nos apresentam o seguinte exemplo:
Suponhamos que uma pessoa es vesse em visita à casa de outra num dia de
frio e que uma janela, por onde entravam rajadas de vento, es vesse aberta.
Se o visitante dissesse “Que frio terrível!”, poderia estar insinuando que a
janela deveria ser fechada. No entanto, se o dono da casa dissesse que é muito
pouco higiênico fechar todas as janelas, o visitante poderia dizer que também
concorda com esse ponto de vista e que apenas constatou a intensidade do frio.

Veja a diferença entre o pressuposto e o subentendido que nos é dada


pelos autores:

O pressuposto é uma informação estabelecida como indiscu vel tanto para


o emissor quanto para o receptor, uma vez que decorre necessariamente do
sen do de algum elemento linguís co colocado na frase. Já o subentendido é
de responsabilidade do receptor, pois o emissor pode negar o que o receptor
depreendeu de suas palavras (PLATÃO; FIORIN, 2001, p. 310).

Conforme observamos, os pressupostos são marcados, nas frases, por


meio de vários indicadores linguísticos. Nas frases seguintes, os elementos
linguísticos destacados nos levam a detectar os pressupostos.
a) Os resultados da pesquisa ainda não chegaram até nós.
Pressuposto: Os resultados já deviam ter chegado.
ou
Os resultados vão chegar mais tarde.
b) O caso do contrabando tornou-se público.
Pressuposto: O caso não era público antes.
c) O tempo continua chuvoso.
Pressuposto: Antes do momento da fala, o tempo já estava chuvoso.
d) Destruíram a outra igreja do povoado.
Pressuposto: Há mais de uma igreja no povoado.
(PLATÃO E FIORIN, 2002, p. 241-243)

SEÇÃO 3 - Construindo o sentido de um texto

Para encerrar nossas considerações a respeito da leitura e construção do


sen do do texto, convém explicitarmos algumas considerações sobre a
decomposição ou fragmentação do texto em suas partes fundamentais. Leia,
então, as informações seguintes.

94
Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes - UNIGRAN

3.1 Três questões básicas devem nortear a sua leitura


I - Qual é a questão de que o texto está tratando? Ao tentar responder
a essa pergunta, o leitor será obrigado a distinguir as questões secundárias da
principal, isto é, aquela em torno da qual gira o texto inteiro. Quando o leitor
não sabe dizer do que o texto está tratando, ou sabe apenas de maneira genérica
e confusa, é sinal de que ele precisa ser lido com mais atenção ou de que o leitor
não tem repertório suficiente para compreender o que está diante de seus olhos.
II - Qual é a opinião do autor sobre a questão posta em discussão?
Disseminados pelo texto, aparecem vários indicadores da opinião de quem escreve.
Por isso, uma leitura competente não terá dificuldade em identificá-la. Não saber
dar resposta a essa questão é um sintoma de leitura desatenta e dispersiva.
III - Quais são os argumentos utilizados pelo autor para
fundamentar a opinião dada? Saber reconhecer os argumentos do autor
é também um sintoma de leitura bem feita, um sinal claro de que o leitor
acompanhou o desenvolvimento das ideias. Na verdade, entender um texto
significa acompanhar com atenção o seu percurso argumentativo.
(MUNDO VESTIBULAR, 2012)

A seguir, aprecie mais algumas orientações úteis para a prá ca de interpretação de textos.

3.2 Interpretando o texto


O primeiro passo para interpretar um texto consiste em decompô-lo, após
uma primeira leitura, em suas "ideias básicas ou ideias-núcleo", ou seja, um trabalho
analítico buscando os conceitos definidores da opinião explicitada pelo autor. Esta
operação fará com que o significado do texto "salte aos olhos" do leitor.
Exemplifiquemos:

"Incalculável é a contribuição do famoso neurologista austríaco no tocante aos estudos


sobre a formação da personalidade humana. Sigmund Freud (1859 - 1939) conseguiu
acender luzes nas camadas mais profundas da psique humana: o inconsciente e
subconsciente. Começou estudando casos clínicos de comportamentos anômalos ou
patológicos, com a ajuda da hipnose e em colaboração com os colegas Joseph Breuer
e Mar n Charcot (Estudos sobre a histeria, 1895). Insa sfeito com os resultados
ob dos pelo hipno smo, inventou o método que até hoje é usado pela psicanálise:
o das 'livres associações' de idéias e de sen mentos, es muladas pelo terapeuta
por palavras dirigidas ao paciente com o fim de descobrir a fonte das perturbações
mentais. Para este caminho de regresso às origens de um trauma, Freud se u lizou
especialmente da linguagem onírica dos pacientes, considerando os sonhos como
compensação dos desejos insa sfeitos na fase de vigília.
Mas a grande novidade de Freud, que escandalizou o mundo cultural da época, foi a
apresentação da tese de que toda neurose é de origem sexual” (Salvatore D'Onofrio)
(VESTIBULAR1, 2012).

95
Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes- UNIGRAN

PAUSA: já vimos, anteriormente, que a qualidade


da leitura depende do conhecimento que se tem do
vocabulário – conhecimento linguístico. Assim, antes
de destacarmos as ideias-núcleo que o texto acima
apresenta, é preciso verificar o significado de palavras
desconhecidas, visto que o texto, por ser da área da
Psicologia, pode causar dificuldade de compreensão
para leitores não acostumados a esse tipo de informação.

Dessa forma, alguns conselhos para decodificar o significado de uma


palavra desconhecida no texto sempre são úteis:

Em princípio, experimente descobrir o sen do da “palavra desconhecida dentro


do contexto. Às vezes, o próprio contexto oferece o significado, através de uma
definição. Às vezes, o texto não define o vocabulário imediatamente; o leitor, então,
pode valer-se de pistas do texto, que aparecem em expressões como isto é, ou seja,
ou, aposto, ou expressões que aparecem entre parênteses. Se o contexto e a análise
das palavras não explicam o significado, corre-se ao dicionário, lembrando-se de que
é preciso ler o verbete até o final dele e escolher uma acepção que se encaixa no
contexto em que a palavra aparece. Recuse-se, pois, o comportamento da consulta
mecânica e da u lização inadver da da primeira palavra do verbete pesquisado.”
(MANUAL DE METODOLOGIA CIENTÍFICA 2005(1), 2012).

Para que você possa atribuir sentido ao texto lido acima, pode ser
necessário esclarecer o significado de algumas palavras. Vamos a elas!

Neurologista (médico especializado em curar doenças do sistema nervoso);


psique (mente, espírito, alma); inconsciente (o conjunto dos processos e fatos
psíquicos que atuam sobre o comportamento do indivíduo, mas que escapam
ao âmbito da racionalidade e esta não pode ser trazida pela vontade ou
pela memória, aflorando nos sonhos, atos falhos e nos estados neuró cos);
subconsciente (processos e fatos psíquicos latentes no indivíduo, influenciando
sua conduta e, por vezes, aflorando à consciência); anômalo (anormal);
patológico (doen o); hipnoƟsmo (processos sicos ou psíquicos des nados
a gerar um estado mental semelhante ao sono, no qual o indivíduo con nua
capaz de obedecer às ordens do hipno zador); terapeuta (médico); trauma
(choque violento capaz de desencadear perturbações sicas ou psíquicas);
onírico (rela vo aos sonhos); vigília (estar acordado, desperto).
(VESTIBULAR1, 2012)

Cumprida essa etapa, pode-se passar à etapa de decomposição do texto


em suas ideias-núcleo. Veja:

3.3 Ideias-núcleo que o texto apresenta


1ª) "Incalculável é a contribuição do famoso neurologista austríaco no
tocante aos estudos sobre a formação da personalidade humana . Sigmund Freud
(1859 - 1939) conseguiu acender luzes nas camadas mais profundas da psique

96
Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes - UNIGRAN

humana: o inconsciente e subconsciente". O autor do texto afirma, inicialmente,


que Sigmund Freud ajudou a ciência a compreender os níveis mais profundos
da personalidade humana, o inconsciente e subconsciente.
2ª) “Começou estudando casos clínicos de comportamentos anômalos ou
patológicos, com a ajuda da hipnose e em colaboração com os colegas Joseph Breuer e
Martin Charcot (Estudos sobre a histeria, 1895). Insatisfeito com os resultados obtidos
pelo hipnotismo, inventou o método que até hoje é usado pela psicanálise: o das 'livres
associações' de idéias e de sentimentos, estimuladas pelo terapeuta por palavras dirigidas
ao paciente com o fim de descobrir a fonte das perturbações mentais”. A segunda ideia
- núcleo mostra que Freud deu início à sua pesquisa estudando os comportamentos
humanos anormais ou doentios por meio da hipnose. Insatisfeito com esse método,
criou o das 'livres associações' de idéias e de sentimentos.’
3ª) “Para este caminho de regresso às origens de um trauma, Freud se
utilizou especialmente da linguagem onírica dos pacientes, considerando os
sonhos como compensação dos desejos insatisfeitos na fase de vigília”. Aqui,
está explicitado que a descoberta das raízes de um trauma se faz por meio da
compreensão dos sonhos, que seriam uma linguagem metafórica dos desejos
não realizados ao longo da vida do dia a dia.
4ª) Mas a grande novidade de Freud, que escandalizou o mundo cultural
da época, foi a apresentação da tese de que toda neurose é de origem sexual”.
Por fim, o texto afirma que Freud escandalizou a sociedade de seu tempo,
afirmando a novidade de que todo o trauma psicológico é de origem sexual.
Agora, responda:

• Qual foi a contribuição de Freud para a Psicologia?


• Explique o primeiro método usado por Freud.
• Qual foi o seu segundo método de análise?
• Em que Freud é original quanto à explicação da neurose?
(VESTIBULAR1, 2012).

A metodologia de interpretação e compreensão de textos apresentada

?
VOCÊ
SABIA nesta aula pode auxiliá-lo no processamento da leitura. No entanto,
somente a prá ca da leitura poderá consolidar essas informações
em sua mente, tornando-o, de fato, um leitor cada vez melhor. Você
sempre será hoje um leitor melhor do que o de ontem, e amanhã um
leitor melhor do que o de hoje.

Viu? É fácil, ou não é? Faça da prática diária da leitura o seu guia, e tudo irá bem.

97
Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes- UNIGRAN

Retomando a Conversa Inicial

Vamos relembrar alguns tópicos desta aula?

 SEÇÃO 1 – Aspectos envolvidos na leitura e compreensão de textos


Na seção 1, pudemos refletir sobre a importância de termos habilidades de
leitura (compreensão e interpretação de textos) e que, para tanto, várias capacidades
são exigidas do leitor. Vimos que é extremamente necessário ativar o nosso
conhecimento prévio, como o conhecimento linguístico, o textual e o conhecimento
de mundo, para facilitar a compreensão de um texto e que o aprendizado da leitura
realiza-se em todas as disciplinas, não apenas nas aulas de Português.
 SEÇÃO 2 - Leitor perspicaz é aquele que consegue ler nas entrelinhas
Dando continuidade, na seção 2, reconhecemos que, para realizar uma
leitura eficiente, o leitor deve captar tanto os dados explícitos quanto os implícitos.
Os pressupostos são as ideias não apresentadas de maneira explícita no texto,
eles decorrem do sentido de algum elemento linguístico colocado na frase; já os
subentendidos são as insinuações escondidas por trás de uma afirmação.
 SEÇÃO 3 - Construindo o sentido de um texto
Por fim, aprendemos a decompor ou fragmentar o texto em suas partes
fundamentais, ressaltamos a necessidade de o leitor distinguir as ideias secundárias
da principal, de detectar a opinião do autor do texto e de acompanhar com atenção
o seu percurso argumentativo. Além disso, ressaltamos que somente com a prática
diária da leitura é que nos tornamos bons leitores.

Sugestões de leituras, sites e vídeos

Leituras

KLEIMAN, A. Texto e Leitor: aspectos cognitivos da leitura. 8. ed. São Paulo:


Pontes, 2002.
KOCH, I. G. V. Ler e compreender os sentidos do texto. 2. ed. São Paulo:
Contexto, 2006.
LAJOLO, M. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6. ed. São Paulo: Ática, 2002.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e
compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

98
Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes - UNIGRAN

MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. São Paulo: Brasiliense, 2003.


PLATÃO, S. F. & FIORIN, J. L. Lições de texto: leitura e redação. 4 ed. São
Paulo: Ática, 2001.
PLATÃO, S. F. & FIORIN, J. L. Para entender o texto: leitura e redação. 16. ed.
São Paulo: Ática, 2002.
SOLÉ, Isabel . Estratégias de leituras. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.

Sites

ANEXO IV - Programa da Prova de Língua Portuguesa para todos os cargos.


Disponível em: <http://www.betim.mg.gov.br/ARQUIVOS_ANEXO/Anexo_
IV;071621;20080220.pdf> Acesso em: 15 maio 2012.
MUNDO VESTIBULAR. O Aprendizado da Leitura - Compreensão e
Interpretação de Textos Disponível em: <http://www.mundovestibular.com.br/
articles/411/1/O-Aprendizado-da-Leitura---Compreensao-e-Interpretacao-de-
Textos/Paacutegina1.html> Acesso em: 15 maio 2012.
INTERPRETAÇÃO DE TEXTO. Disponível em: <http://www.vestibular1.com.
br/redacao/ inter3.htm> Acesso em: 15 maio 2012.
Professor é o sal da Terra e a luz do Mundo! Adequação vocabular. Disponível em:
<http://vivendo-interagindo-aprendendo.blogspot.com.br/2009/04/adequacao-
vocabular.html> Acesso em: 25 abr. 2012.
Manual de Metodologia Científica 2005(1) Disponível em: <http://pt.scribd.
com/doc/6935909/MANUAL-DE-METODOLOGIA-CIENTIFICA-2005(1)>
Acesso em: 27 abr. 2012.

Vídeos

YOU TUBE. Vídeo Aula 1 - Interpretação Texto- Ato de ler Disponível em:
<http://www.youtube.com/watch?v=Ed-K3JOmV-k&feature=related> Acesso
em: 28 de maio 2012

OBS: Não esqueçam! Em caso de dúvidas, acessem as ferramentas “fórum” ou


“quadro de avisos”.

99
Leitura e Produção de Texto - Nohad Mouhanna Fernandes / Maria Alice de Mello Fernandes- UNIGRAN

100

Você também pode gostar