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Direito

 Penal  e  Processual  Penal     Armando  Ramos  


    IPBeja  2013-­‐14  

           LICENCIATURA  EM  SOLICITADORIA    -­‐  3.º  ANO  


 
 
 
Aula  7    
DIREITO  PROCESSO  PENAL    

 
 
Resumo  do  Conteúdo  Programático  

1. Competência Territorial
2. Desenvolvimento do Processo Penal
3. Processos Especiais

 
 
 
 
 
 
Conteúdo  programático  desenvolvido  

1. Competência Territorial
A competência territorial do Tribunal é, por regra, o de 1.ª instância, aplicando-se as regras do Direito
Penal sobre a ocorrência dos factos decorrentes do Direito Penal (matéria já estudada).
Exceção para o caso em que os arguidos sejam magistrados que é competente o Tribunal da Instância
superior em relação aquele em que o magistrado desempenha funções. Ex. Se for um magistrado do
Tribunal da Relação será competente o STJ. (Cfr. art.º 11.º, n.º 4.º, a); art. 12.º, n.º 3, a) CPP)

Na hierarquia dos Tribunais temos:


1.º - O Supremo Tribunal de Justiça
2.º - Os Tribunais das Relações
a) Porto
b) Guimarães
c) Coimbra
d) Lisboa

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e) Évora
3.º - Os Tribunais Judiciais de 1.ª instância, também chamados Tribunais de Comarca.

2. DESENVOLVIMENTO DO PROCESSO PENAL E SUAS FASES

O processo penal nasce com a aquisição da notícia do crime, art. 241.º CPP. Consoante o tipo de crime o
Ministério Público (MP) deverá proceder à investigação. Assim temos:
Crimes Públicos – Aqueles que não necessitam de uma queixa formal, basta que chegue ao
conhecimento do MP para que este seja obrigado a proceder à investigação. Ex. Crime de
Homicídio.

Crimes Semi-públicos – Todos aqueles onde o legislador refere que o procedimento criminal
depende de queixa. Ex. Burla Informática (art. 221.º, n.º 4 CP). Se não existir queixa, até 6 meses
após o conhecimento do facto o procedimento criminal extingue-se e o MP nunca poderá dar início
à investigação, por falta de legitimidade.

Crimes Particulares – Todos os crimes onde se refere que o procedimento criminal depende de
queixa e de acusação particular. (ex. art. 188.º do CP). Nestes casos é obrigatório que o
queixoso/lesado se constituía assistente (art. 68.º do CPP). Caso não exista esta constituição o MP
não poderá proceder à investigação, por falta de legitimidade e terá que arquivar o processo
obrigatoriamente (art. 277.º, n.º 1 in fine).

Assim o processo inicia-se na FASE DE INQUÉRITO. É a fase em que o MP procede por si mesmo, ou
delegando nos Órgãos de Polícia Criminal (OPC) a competência para a investigação. O INQUÉRITO é a
fase do processo penal destinada à investigação da existência de um crime, ao apuramento dos seus
agentes e respetivas responsabilidades, bem como à descoberta e recolha de provas relevantes que
sustentem a decisão sobre a acusação (art. 262.º, n.º 1 CPP).
A falta de INQUÉRITO constitui nulidade insanável, nos termos do art. 119.º, als. b), 1.ª parte e d) CPP.
Terminado o INQUÉRITO o MP pode arquivar o mesmo (art. 277.º e 280.º CPP), deduzir acusação (art.
283.º ) ou suspender provisoriamente o processo (art. 281.º).

SUSPENSÃO PROVISÓRIA DO PROCESSO


Se o crime não for punível com pena de prisão superior a 5 anos ou com sanção diferente da prisão o MP

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(oficiosamente ou a requerimento do arguido ou do assistente) determina, em concordância com o Juiz de
Instrução Criminal (JIC), a suspensão provisória do processo, mediante a imposição ao arguido de
injunções e regras de conduta, se se verificarem cumulativamente os seguintes pressupostos:
a) - concordância do arguido e do assistente;
b) - ausência de condenação anterior por crime da mesma natureza;
c) - ausência de aplicação anterior de suspensão provisória do processo por crime da mesma natureza;
d) - não haver lugar a medida de segurança ou internamento;
e) - ausência de um grau de culpa elevado;
f) - ser de prever que o cumprimento das injunções e regras de conduta responda suficientemente às
exigências de prevenção que no caso se façam sentir.

Segue-se a fase facultativa denominada INSTRUÇÃO. Esta fase é presidida pelo JIC que poderá praticar
todos os atos tendentes à descoberta da verdade material, incluindo diligências de prova. Tem o seu
regime jurídico regulado nos art. 286.º a 310.º. Após a acusação ou arquivamento ou o arguido ou o
assistente se conformam com a decisão do MP e o processo segue para a fase de JULGAMENTO ou não
se conformando podem requer a abertura da INSTRUÇÃO. O requerimento deverá ter lugar nos 20 dias
após a data da notificação do despacho de arquivamento ou da acusação. Se o processo se revelar de
excecional complexidade este prazo pode ser alargado até 30 dias ( art. 107.º, n.º 6 e 215.º, n.º 3, parte
final).
Terminada esta fase o JIC decide por despacho de não pronúncia (semelhante ao arquivamento do MP) ou
por despacho de pronúncia do arguido (semelhante à acusação do MP) e o processo segue para a fase de
julgamento.

Na fase de JULGAMENTO, uma das fases nucleares do processo penal, tem por objeto a decisão da causa
final. Vigoram aqui os princípios já estudados (rever – juiz natural, da vinculação temática, da
investigação ou da verdade material, do contraditório, da livre apreciação da prova, oralidade, imediação,
etc...).

Consoante o limite máximo da pena assim será composto o Tribunal:


TRIBUNAL SINGULAR (art. 16.º CPP): Crimes com pena abstrata até 5 anos de prisão ou em que o MP
requeira pena até 5 anos de prisão, nos termos do art. 16.º, n.º 3 CPP. ! Este Tribunal decide por
Sentença.

TRIBUNAL COLETIVO (art. 15.º): constituído por 3 juízes. Julga todos os processo que não sejam da
competência do Tribunal Singular. ! Este Tribunal decide por Acórdão.

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Segue-se a FASE DE RECURSO (que não iremos estudar).

3 . PROCESSOS ESPECIAIS

Quando não se enquadra em nenhuma forma especial (sumário, abreviado ou sumaríssimo) é aplicável a
forma de processo comum.
Não há lugar à fase de instrução nas formas de processos especiais (antes da reforma de 2007, existia a
possibilidade, na forma abreviada, de o arguido requerer a realização de um debate instrutório).

PROCESSO SUMÁRIO:

Forma de processo vocacionado para a média criminalidade e onde está subjacente o principio da
celeridade processual, designadamente porque o detido deve ser julgado no prazo máximo de 48h após a
detenção, sendo os atos e termos do julgamento reduzidos ao mínimo indispensável ao conhecimento e
boa decisão da causa (cfr. art.s 386.º, n.º 2, 387.º, n.º 1 CPP).

Requisitos:
• Os detidos em flagrante delito, nos termos do art. 255.º e 256.º (primeira parte do n.º 1, do art.
381.º)
o Tratando-se de crime particular não há lugar à detenção em flagrante delito, mas apenas à
identificação do infrator (art. 255.º, n.º 4)
o Nos crimes semi-públicos a detenção é possível, mas só se mantém se, em ato seguido a
ela, o titular respetivo exercer o direito de queixa (art. 255.º, n.º 3). Se a queixa não for
apresentada após a detenção, o detido deve ser libertado.
o Nos crimes públicos a detenção é possível e o julgamento realiza-se sob a forma sumária
se forem observados os restantes requisitos previstos no art. 381.º.
• Se o crime não admitir pena de prisão não poderá haver detenção em flagrante delito (art. 255.º, n.º
1, a contrario).
• Quando à detenção tiver procedido qualquer autoridade judiciária ou entidade policial (al. a), do n.º
1, do art. 381.º).

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• E o início da audiência de julgamento ter lugar no prazo máximo de 48 horas após a detenção.

O tribunal só remete os autos ao MP para tramitação sob outra forma quando:


- se verificar a inadmissibilidade, no caso, do processo sumário (art. 390.º, a) )
- não tenham podido, por razões devidamente fundamentadas, realizar-se, no prazo máximo previsto
no art. 387.º, as diligências de prova necessárias à descoberta da verdade (art. 390.º, b) )
- o procedimento se revelar de excecional complexidade, devido, nomeadamente, ao número de
arguidos ou de ofendidos ou ao carácter altamente organizado do crime (art. 390, c) ).

OBS: O Tribunal da Relação de Coimbra, por acórdão de 30-10-2013, veio considerar que “I - O
artigo 381.º do CPP, na redacção introduzida pela Lei n.º 20/2013, de 21 de Fevereiro, dirigido a
crimes cuja pena máxima abstractamente aplicável é superior a cinco anos de prisão e,
fundamentalmente, a crimes dolosos ou agravados pelo resultado, quando for elemento do tipo a
morte de uma pessoa, viola os artigos 20.º, n.º 4, e 32.º, n.º 1, da Constituição da República
Portuguesa.
II- Efectivamente, restringe intoleravelmente os direitos de defesa do arguido e, quiçá de forma
mais intensa, o direito a um processo justo, no sentido da nossa matriz cultural e jurídica, assente
na dignidade de procedimento como meio de prosseguir a justiça material e efectiva.
III - No caso versado nos autos, traduzida no julgamento do arguido em processo sumário, sob
acusação da prática de um crime de homicídio qualificado, desaplicado o artigo 381.º, n.º 1, do
CPP (alterado pela Lei 20/2013), por motivo de inconstitucionalidade, o tribunal deve aplicar as
normas julgadas constitucionais, ou seja, os preceitos legais que antes submetiam o referido caso
ao processo comum com intervenção do tribunal colectivo, retroagindo o processo à data da
acusação, tudo se devendo harmonizar, a partir daí, com o disposto no artigo 283.º e ss. do
CPP.”

Vide Ac. do TRC em


http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/c3fb530030ea1c61802568d9005cd5bb/480f76f8beb647a180257c
16004f8464?OpenDocument

PROCESSO ABREVIADO

São julgados em processo abreviado os crime de média gravidade (públicos, semi-públicos e particulares).

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Não obstante verificar-se uma substancial aceleração da tramitação nas fases preliminares, o julgamento
obedece às mesmas formalidades do processo comum

Requisitos:
• O crime for punível com pena de multa ou de prisão não superior a 5 anos;
• Existirem provas simples e evidentes de que resultem indícios suficientes de se ter verificado o
crime e de quem foi o seu agente. Com a reforma de 2007, entende-se que há provas simples e
evidentes, nomeadamente quando:
o O agente tenha sido detido em flagrante delito e o julgamento não possa efetuar-se sob
a forma de processo sumário (art. 391.º-A, n.º 3, al. a) )
o A prova for essencialmente documental e possa ser recolhida no prazo previsto para a
dedução da acusação (art. 391.º-A, n.º 3, al. b) )
o A prova assentar em testemunhas presenciais com versão uniforme dos factos (art.
391.º-A, n.º 3, al. c) )
• A audiência de julgamento deve ter início no prazo de 90 dias a contar da dedução da acusação.

PROCESSO SUMARÍSSIMO
Vigoram com especial intensidade os princípios da simplicidade, consensualidade e economia processual,
não havendo lugar a uma audiência formal e solene no sentido pleno do termo, já que a decisão do
tribunal é um despacho baseado no requerimento do MP e no acordo do arguido.
Trata-se de um processo facultativo para o MP (porque apenas promoverá se entender que ao caso deve
ser concretamente aplicada pena ou medida de segurança não privativas da liberdade) e para o arguido,
visto que poderá recusar-se a aceitar as sanções propostas pelo MP ou pelo Juiz (cfr. arts 396.º, n.º 1, b) e
398.º.
É possível a constituição de assistente, mas não a intervenção das partes civis, sem prejuízo da
possibilidade de aplicação do disposto no art. 82.º-A, relativo à reparação da vítima em casos especiais.

Requisitos:
• O arguido assim o solicitar, ou
• Depois de o ter ouvido e entender que ao caso deva ser concretamente aplicada pena ou medida de
segurança não privativas da liberdade.

Se o procedimento depender de acusação particular, o referido requerimento do MP depende da


concordância do assistente (art. 392.º, n.º 1 e 2).

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