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FUNDAMENIOS

_ ANTROPOLOGICOS
DA PSICOTERAPIA
Título originalz
Anthropologische Grundlagen der Psychoterapie

Traduzido da edição publicada em 1975 por


HANS HUBER VERLAG.
de Berna, Suíça

Copyrighl © 1975 by Hans Huber Verlag

Direítos reservados. Proibida a reprodução (Lei n°. S.988).


Para ALEXANDER

Traduçãb de
Renato Bittencourt

Revisáb Técnica do
Professor Jorge Alberto Costa e Silva
Profcssor Titular dc Psicologia Mddica o Psiquictria
da Faculdada da Ciôncías Módicas dc Univcnidada do Río dc Janairo

Capa de
Jane

1978

Direitos para a língua portuguesa adquiridos por


ZAHAR EDITORES
Caí›.a Postal 207. ZC-00, Río
que se reservam a propriedade desta versão

Impresso no Brasil
_
_r

ÍNDICE

Prefácio

Introducão
O Homem em Busca do Senlido
Os Descaminhos do Pensamento Psicoterapêutico
Na Fronteira enlre a Psicoterapia e a Filosoña ...............
Monantropismo
Para uma Antropología do Esporle
Amor e Sexo ......................................................

O Homem lncondicionado (Lições Metaclínicas)


Prefúcio à Primeira Edição ......................................
Prefácio à Segunda Edicão
lntrodução
l. O Problema Corpo-Alma
ll. O Problema do Espirilo ....................................
I. A Essência do Espírilo ..................................
2. O Vir-a-Ser do Espírilo
m

Patologia Ccrebral e Filogênese do Espírilo


Onlogênese do Espírito e Heredopatologia
Nota paru a 2* Edição
lIl. O Problema da Morlalidade ...............................
IV. O Problema do Livre Arbílrio .............................
Nola pura a 2~' Edição ...........................................

"Hom0 Patiens“ (Projelo dc uma Palodicéia) .................


Prefácio à Primeira Edição ......................................
FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSlCOTERAPlA

A. Do Aulomatismo à Existênciaz Crítica do Niilismo


l. Psícologismo ...............................................
l. Psicologismo e Psicoterapia
2. Psicolerapia e Logoterapia
Nota para a 2'~ Edição ....................................
3. Logoterapia c Análíse Existencial
4. Análise Exislencial c Psicanálise ......................
a) Prazer e Valor
b) Impulso e Sentido
5. Psícanálíse c Psicologia Individual
PREFÁCIO
Il. Sociologismo ..............................................
Patología do Espírito da Época .........................
B. Da Negação à lnterprelação do Sentido
lnterprelação Metaclínica do Sentido do Sofrimento
Suplemento à 2'› Edíçãoz Que É o Homem? Este volume consíste, em sua maior parte. de duas obras já esgotadas
C. Da Aulonomia à Transcendênciaz A Crise do Humanismo 257 - Der unbedingte Mensch (Melaklim'sche Vorlesungen) e Homo Pa-
Observação Preliminar para a 2-' Edíção ................... 257 Iiens (Versuch einer Pathodizée), textos de conferências que pronun-
l. Antropocentrismo ciei na Faculdade de Medicina da Universidade de Viena. cm 1949 e
ll. Antropomorñsmo 1950, com o objetivo de expor os fundamentos ñlosóñcos da Logote-
rapia. Embora tenham lranscorrido nada mcnos dc 25 anos. decidi,
Bibliograña Latino-Americana sobre Logoterapia incentivado pela edítora Hans Hubcr. correr o risco de reimprimi-los
sem quaisquer alterações, levando em conta que mesmo a partc dc
seu conteúdo já superada ainda pode apresentar valor históric0.
Por outro lado, a ñm de ilustrar o desenvolvimento da Logote-
rapia e atualizar alguns conceitos, incluí os artigos e preleções abaixo
relacionados:
à guisa de lntrodução, a palcstra que pronunciei. em 1968. a convite
do Congresso lnternacional de Filosoña;
o Artígo “Os Descaminhos do Pensamento Psicoterapéutico" publi-
cado na revista Nervenarzl (l960);
o Ensuio “Na Fronteira entre a Psicoterapia e a Filosoña“. enco-
mendado em 1961 pelas Academias de Ciências de Berlim, Gottin-
gen, Heidclberg, Lcipzig, Munique e Viena, e inserído em Forschun-
gen und Forstschrinem
a Tradução da palestra rcalizada, cm l969, numa conferência lnter-
nacional sobre “O Papel da Universídade na Guerra e na Paz";
a Preleção “Para uma Antropologia do Esporte". lida num simpósio
cientíñco a convite do Comitê Olímpico. em l972;
a tradução alemã do ensaio “Amor e Sexo”, que consta da coleção
japonesa editada por Sadayo lshikawa (Scishin Shobo) e da colcção
dinamarquesa lançada por Knud Simon Christensen em 1973;
IO FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA

o rcsumo da conferência solicitada pelo Conselho Acadêmico para


comcmorar o scxto centcnário da Universidade dc Viena. em |9_65, c
quc serviu dc comentário ao volume Der unbedingle Mensrh;
a alocução feita. em 1949. a pedido da Socicdade Médica de Viena.
cvocando seus associados mortos no período l939-45 e que constitui,
dc ccna forma. um complemcnto do livro Homo Pau'ens.
VIKTOR E. FRANKL
San Diego. Califórnia
Novembro de 1974

lntroducão

O Homem em Busca do Sentido

Extraído das atas do XlV Congresso lnternacional de Filosoña -


(Herder, Viena, 197l_ pp l7-28).
Versão ampliada.

O lítulo não se limita a esboçar um tema; já contém uma deñnição.


ou pelo mcnos uma interpretação do homem visto como um ente em-
penhado na busca do sentido. O homem. de fato. está sempre orien-
tado para algo que o transcende. seja um sentido a realizar, seja uma
pessoa a encontrar. De uma maneira ou de outra, sua naturcza o lcva
a sc ultrapassaL A transcendência de si mesmo constitui. assím. a es-
sência da cxistência humana.
Não é verdade quc o homem se esforca untes dc tudo para ser fe-
liz? O próprio Kanl o admitiu, acrescentando apenas que ele deveria
igualmentc tentar ser digno dessa felicidade. Eu diria que, no ñnal
das contas, o que procura não é a felicidade em si, mas uma raz_ão
para ser feliz. Tão logo a descobre, têm lugar o prazer e a fel1'cidade.
Añrma Kant, em A Metaflsica dos Coslumes, que “a bem-
aventurança é a conseqüência do cumprimento do dever" e que “0
prazer. para ser encomrad0, deve ser precedido pela norma". A meu
ver, o que ali se diz sobre o cumprimenlo do dever e a obediência à
Leí tem um alcance mais geral e pode ser transposto do domínio dos
costumes para o da sensualidade. Nós neurologistas possuímos vasta
experiência disso. Com efeito. no dia-a-dia da clinica. vemos que é
precisamente por não contar com uma “razão para ser fcliz" que o
12 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA O HOMEM EM BUSCA DO SENTIDO l3

neurótico scxualmente perturbado, impotente ou frígido. encontra~se bos, o alcanceído sentido c o encontro. Ihe forneccm um motivo de
impossibilitado de obter a felicídade. Mas de que modo ocorre 0 ser feliz e obter prazer. No neurótico, esse esforço primário e'. no en-
abandono patogênico dessa molivação? Pela dedicação forçada à tant0. dcsviado para o objetivo dircto da felicidadc. em função da
conquista dircta do prazer e da felic1'dade. Kierkegaard tinha razão procura de prazer. O prazer. em vez de permanecer o que deveria ser
quando declarou que a porta da felicidade se abre para fora; quem a quando sc produzisse. ou seja. um efcito eventuaL vira objctivo de
força no semido inverso acaba por bloqueá-la. uma hiperinIencionalidade acompanhada dc uma hiper-re/Iexão: pus-
Como se poderá esclarecer a questão? Antes dc mais nada, dcs- sa a ser conteúdo exclusivo c objcto único da atenção. O neurótico.
taque-se o scguintc: o que de fato ímpulsíona o homem não é ncm a na medida em que dele se ocupa. perde dcvista a razão em que assen-
vontade de poder nem a vontade de prazcr, mas sim o que chamo de ta, 0 que o impede inclusivc de se manifestaL Quanto mais alguém sc
vontade de sentido. " concentra no prazen mais ele sc esquiva.
Se o indivíduo, condenado ao fracasso pela ânsia dc prazer, ten-
ta salvar o que ainda pode recorrcndo ao “am0r" como mera te'cni-
Razáo Eleno ca, a hiperimencionalidade e a hiper-reflexão se imensiñcum
com influência ainda mais perniciosa sobre a potência c o orgasmo.
Outrossim, a existência hoje em dia de uma verdadeíra indústria dc
informaçõcs acaba por nos privar do que ainda restava daquela can-
dura que é condição fundamental para o funcionamento normal da
Vonlade de sentldo Vontade de prazer
vida sexuaL Em conseqüência da pressão do consumo scxual em lar-
ga escala. as pessoas, sobretudo os jovens. são induzidas a um tal
grau de hiper-reflexão que não é de espantar a crescente proporção
de conflitos neuróticos sexuais que requerem tratamento.
0 homem de nossos dias tende para a hiper-reñexão. A profes-
sora Edith Joelsom da Universidade da Geórgia. foi capaz de-de-
Minhas teorias motivacionais, justamente no que concerne à no- monstrar que a auto-interpretacão e a auto~realizacão ñguram, aos
ção dc uma vontade de sentido, foram. añnaL conñrmadas através olhos dos universitários norte-americanos, entre os mais altos valo-
dc pesquisas realizadas no lnstituto dc Psicologia Experimental da rcs. É claro que se trata de um conhecimento de si mesmo impregna-
Universidade de Viena por Elísabeth Lukas, com base nos dcpoi- do de um psicologismo dinâmico e analítico que faz com que o ame-
mentos de 1.340 pessoas, tendo os milhares de dados sido submetidos ricano culto atribua a todo instante motivos inconscientes para o seu
ao processamento por computadores. 0 estudo da senhora Lukas ge- comportamento consciente. No que tange à auto-realização. não he~
rou como subproduto outro teste - o Logoteste - que visa dar uma sito em añrmar que somente é conseguida na medida em que o sentí-
interpretação mais exata da frustração da vontade de sentido, bem do é realizado. O imperativo de Pindaro, segundo o qual o homem
como explorar numerosas possibilidades terapéuticas e proñlálicas. tem de sc lornar aquilo que na verdadc é. precisa ser completado com
Em virtude de sua vontade de sentido. o homem não só tende a outra sentença. a de Jaspers, quando adverte que “a pessoa é caracte-
buscar um sentido, e realizá~lo, mas também a enconlrar outras exis- rizada pelo tipo de relacionamento que mantém com as coísas. sua
tências sob a forma de um tu a ñm de lhes dedicar o seu afelo. Am- capacidade, enñm, de se aproximar autenticamente delas.

Assim como o bumerangue só volta ao caçador que o lançou no


' Der Wille zum Sinn é propriamcnte imraduzlvcl em portugues'. Falar em uma “bus- caso de não alingir o alvo, da mesma forma o homem que anseia pela
ca" de sentido ê lomar o efeito pela causa e cair no óbvio c no lriviaL Ao cunhar a ex-
auto-rcalização é aquele que não consegue preencher o sentido, e
prcssão. Frankl pensou decerto no conccito dc Wille zum Mach1. de Nielzschc. Cui-
dando de preservar a lcrminologia do autor. oplamos assim por “vontade de scntido",
nem sequcr às vezes identiñcá-lo.
a cxcmplo, aliás. do que ñzeram Huberto Schcnfeldt e Konrad Kôrncr, cm A Psicote~ Com a procura de prazer se dá o mesmo quc com a procura de
rapia na Prálica (Editora Pedagógíca e Univcrsitária Ltda., São Paulo. p. 50). Tcmos poder. Todavia, se o prazer é um produto secundário da satisfação
outro preccdentc na fórmula pelo consagrado lradulor dc Heidcgger. Emmanucl Car- dos sentidos, o poder, pelo fato de ser um instrumento para atingir
neiro Leão. “vomade dc polência" (veja-se lnlroducão à Melajísica. Tempo Brasilciro.
p. 29l). (N. do T.)
um objetivo, se vê ligado, tal como a própria satisfação dos sentidOS,
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O HOMEM EM BUSCA DO SENTIDO 15
Ob1elnvo Eíeno
_____,
Seria errôneo supor que o vazio cxistencial se rcstringe ao mun-
do ocidentaL Assim, dois psiquiatras checos. Stanislas Kratochvil c
Osvald VymctaL salientaram. numa série de publicações. que “cssa
Melo
doença contemporânea - a perda do sentido da vida - enconlrada
particularmente no meio dos jovens. transcende as fronteíras das or-
ganizacões sociais capitalistas e socialistas". Osvald VymetaL na oca-
sião de um Congresso da Neurologia por ele prcsidido, cmbora ma-
nifestando sua adesão entusiáslica às teorias de Pavlov, admitiu que
uma psicoterapia de orientação pavloviana não é suñciente para pro-
porcionar ao terapeula os meios de curar o vazio exislenciaL Tan-
a determinadas condições c requisitos sociais e econômicos. Quando to os adeptos de Freud quanto os de Marx admitiram a prcsença do
o homcm se concentra exclusívamente no produto sccundário “pra- vazio existenciaL Os primeiros relataram num congresso interna-
zer” e quando se limita ao meio para conquistar um ñm denominado cional casos freqüentes de pacientes que se queixavam menos de sin-
°^p0der"? Bem, a resposta é que isso acontece quando a vontade de tomas clínicos puros do que da falta dc um sentido para a vida.
semido é frustrada; em outras palavras, o princípio de prazer, bem Quanto aos segundos, Christa Kohlcr da seção de Psicoterapia e ln-
como a ambição dc mando representam uma motívação neurótíca. vestigações sobre Neuroses da Clínica Psiquiátrica da Universidadc
Daí Frcud e Adler, que elaboraram suas teorias, inspirados nos neu- Karl Marx. de Leipzig, assinalou a ocorrência reiterada do sentimen-
róticos, terem errado na descrição das tendêncías do ser humano. to de vazio existencial em seus próprios pacicmes.
Não se vive maís, como na época de Freud, num ambientc de Finalmente, um professor americano convidado por universida-
frustação sexuaL mas de frustação existenciaL É especialmente entre des africanas, Klitzke, num relatório publicado no American Journal
os jovcns que se nota a frustração da vontade de sentido. "Que signi- of Humanistic Psychology (“Students in Emerging Africa - Logoteo
ñca para a geração dc hoje a líção de Freud ou de Adler?" - indaga raphy in Tanzania”) constatou'que o vazio existencial pode ser ob-
Becky Lect, redalora-chefe de um jornal editado pelos estudantes da servado no Terceiro Mundo, pelo menos entre os jovens de cultura
Universidade da Geórgia. “Possuímos a pílula, que nos lívra das 'universitária.
conseqüências da satisfação do instínto sexual do ponto de vista mé- Como anteviu Paul Pollak, numa conferência feita em 1947 na
dico, portamo não cxíste mais motivo para ínibições sexuais. E dete- Sociedade de Psicologia IndividuaL “a solução da questão social de-
mos uma parcela do poder - basta pensar nos polítícos amerícanos veria primeiramente liberar a problemática espirituaL mobilizá-Ia. O
tremendo diante da juventude, ou na Guarda Vermelha chinesa. Mas
Frank|_ diz que as pessoas vivem hoje num vazio cxistencial que se
manifesta através do tédio. O tédio é uma palavra que soa diferente,
um conceito mais inofensivo, não acham? Vocês todos dccerto co- oricmar as massas popularcs, cada dia maiorcs. a respeito da cscala objcliva dos valo-
res e dos na'o-valores. Veriñca-se que se vai espalhando pelo mundo uma cegueira
nhecem muítas pessoas que se queixam de tédio scm perceberem que
dianlc dos valorcs e alé um secrclo ceticismo quamo a sua cxistência. Por conscgu¡'nle,
bastaria estender a mão para terem tudo, inclusíve o sexo dc Frcud a humanidade ingressou numa fase caraclcrizada pclo dcclínio dos valorcs. A gcração
ou o poder de Adler." que vive ncsse crepúsculo de valores". prosscgue o tcxlo dc Pfãndcn “c' ccga para eles
De fato. aumenta cada dia o número de pacientes que vêm a nós c ncm desconña de sua 1'ncapacidade. A única teoria dc valorcs quc subsistc é o ulilita-
se lamentando de sentir um vazio ínterior, o “vazio cxistencial”, rismo, em que o intercssc gera| é lido não apenas como o mais allo 'inleresse', mas
lambém como o mais elevado *valor'. não se percebcndo que elc pressupõc outro va-
como o denomineL um profundo semimento de que a vida não tem lor. não uu'|ita'rio. O pensamemo ñca a meio caminho. fal(a-lhc fundamcnto. A deca-
sentid0. ' dência dos valores faz o mundo e a alividade dos homens parccerem insensatos e csté-
reis. A nalureza das coisas" - conclui - “não pcrmile. contudo. quc os valorcs scjam
criados arlITlcialmenle. 0 conceilo de 'va|or' não admilc a imcrferência da vontadc
l Sou gralo a Hcrbcn Spielberg por mc haver assinalado. nos Lextos póslumos de Ale- dos homens. E preciso que 0 indivíduo seja gradaüvamcnte cducado c criado num am-
xandcr Píãndcn a seguinte descrição do vazio existencialz "Vivemos numa época de biente impregnado do conhccimenlo dos valores. A cegueira nesse ponto propicia o
crescente descrcnça nos valores c, ponanlo, dc desespcro e de impressão de quc a vida surgimemo dos fantasmas do desespero e do scmimcmo de que a vida não tem scnti~
carccc de sentido. Nem a escola nem a cducação cm geral se mostram capazes de d04" (Obras póslumas sobrc Pcnomenologia c Eu'ca. organizadus por Herben Splcgel-
berg. volume l. Munique. Edilora Wilhelm Finp. l973. p. l27).
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homem deveria 1ornar-se antes dc tudo livre, abordar seus problcmas lão que sentido tem a vida?" Sejamos francosz na prática. o reducio-
inlcriores. reconheccr corretamente sua própria problemática exis- nismo se esconde por trás de um “oxidacionismo"...
lcncial." Ernest Bloch martelou na mesma tecla quando adverlíu que lmaginemos 0 que signiñca para um moço receber dos mestres o
“muitos hoje se inquietam com coisas que pertencem à hora da m0r- ensinamento cínico de que “os valorcs não constituem mais do que
te." mecanismos de defesa e formaçõcs reativas", como está escrito no
De minha parte. ao tentar identiñcar as causas do vazio cxisten- American Joumal ofPsycholherapy. Em face de tal teoria, argumento
ciaL reduzo-as a duas espéciesz carência instintiva e quebra dc tradí- 0 seguintez no que mc díz respeito, nunca será um mecanismo de de-
ção. Em contraste com os anímaís, nenhum ínstínto ensina ao ho- fesa que me dará a vontade dc viver. ncm mc inclinarei para a morlc
mem como é preciso agir; nenhuma tradição o ajuda a cncontrar o impulsionado por alguma formação reativa.
camínho do dever. Frequ“entemcnte, parecc até que ele nem sequcr Não mc interpretam mal. Em The Modes and Morals of Psy-
sabe o que deseja. Limila-se a desejar o que os outros fazem ou a fa- chotherapy, lemos a seguinte deñniçãoz “O homem não passa de um
zer o que os outros desejam. No primeíro caso, temos o conformis- mecanismo bioquímico movido por um sistema de combustão que
mo. lípico do hemísfério ocidenlaL onde se vem difundindo, no se- fornece energia aos computadores". Como neurologista. reconheço
gundo. o totalitarísmo, que prevalcce no hemisfério orientaL scr legítimo tomar o computador como modelo do sistema nervoso
Não são apenas estes os cfeitos do vazío exístenciaL Cabe citar centraL O erro consiste no “nothing but", ' na asserção de que o ho-
aínda 0 ncurolicismo. A par das neuroses de fundo psícológico, no mem não é senão um computador. Certamente é um computador,
sentido estrito, existcm as que chamci de noagên1'cas. ou seja, uma en- mas também é, ao mesmo tempo. muilo mais do que um compula-
fermidadc dc natureza menos mental do que espirituaL e não raro dor. A obra de um Goethc ou a de um Kant se compõe, no ñnal das
proveniente da convicção de que nada lem sentido. Num cenlro de contas, das mesmas 26 letras do alfabeto que compõcm um Iívro dc
pesquisas psiquiátricas nos Eslados Unidos c_riou-se um teste capaz Courth-Mahler ou Marlítt. Mas que importa? Seria ínadequado ver
dc estabelecer o diagnósüco diferencial da neurose noogênica. Jamcs em A Crítica da Razão Pura, ou mesmo em O Segredo da Anciã. um
C. Crumbaugh aplícou em l.200 casos o seu PIL-teste (PIL é a abre- mero amontoado de caracteres gráñcos, a menos que se adotasse o
viatura para a cxpressão ínglesa “purpoxe ín lfie”), e após ter submc- ponto de vista de um impressor, e não o de um cdilor.
tido os dados aos computadores concluiu estar díame de uma nova O reducionismo é válido nos limites do seu próprío campo de
conñguracão nosológica - justamente a neurose noogênica - que não ação, nada além. E 0 pensamcnto unidimcnsional lhe é fataL Antes
se enquadra nos ensinamentos da psiquiatría tradícíonaL seja no de mais nada. porque lhe tira a oportunidade de encontrar um senti-
campo do diagnóstico, seja no do tratamento. Investigações estatísti- do. O fato de que o séntido de uma estrutura transcenda a soma de
cas levadas a cabo em Londres, Massachusetts. Tubíngen e Víena elementos que 0 constituem signiñca que ele se situa num nível mais
conñrmaram símuhancamente que as ncuroses desse tipo surgem em alto do que aquelc cm que se localizam os elementos. Assim. pode
20 por cento dos resultados. acontecer que o sentido de uma série de acontccimcntos não se conñ-
Quando me interrogam sobre a dífusão do scntimento de vazio gurc na mesma dimensão em que eles ocorrem. Falta a tais aconteci-
existencial (e não somente da neurose noogênica), costumo cítar uma mentos uma conexão. Em virtude disso, veríamos nas mutações da
amostragem estatística que durante anos venho rcalízando nos meus Bíologia puras casualidades, e em toda a evolução um acidente. Na
cursos na Faculdade de Medicina da Uníversídade dc Viena, e se- geometria. a curva sinoidalçortada perpendicularmentc não deixa.
gundo a qual 40 por ocnto dos ouvintes já o experimentaram, cifra no plano de intcrscção, senão cinco pontos isolados, aos quais falta
que sobe para 80 por cento quando se trata de norte-americanos. um clo de ligação. Em outras palavras. 0 que se omite é a sinopse. a
Por quê? Talvez porque nos países anglo-saxônicos predomine. consideração do sentido, mais elevado ou mais profundo, conforme
na vida espirítual, o reducionismo, cuja caractcrística, como se sabe, o caso, do acontecimemo - na geometria. por exemplo, o plano dc in~
é o uso da cxpressão “nada mais do que". Naturalmente, não esta- terseção ascendente ou a parte da curva sinoidal que ñca embaixo. 1
mos diante dc um fcnômeno exclusivo do nosso tempo. Há uns 50
anos, meu profcssor de Hístória Natural cnsinavaz “A vida, em últi-
' Em ínglês no original (N. do T.).
ma instância, nada mais é do que um proccsso de combustão, um 2 Ondc houver diferenlcs dimensõcs podc haver projeçõcs. Posso projclar um fenôme-
caso de oxidacão". Ouvindo isso e sem sequer pedir permíssão para no da drm'ensa'o que Ihc é própria até oulra infcrion Um fcnômcno humano. por
falar. levantei-me e veementemcnte lhe atirei a perguntaz “Bem, cn- cxcmplo. é suscclível de scr transportado para um plano subumano. O processo é in-
0 HOMEM EM BUSCA DO SENTIDO 19
18 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA

fazer. e sim da sua influéncia relativamentc à realização do scntido.


posiliva no primciro caso, negativa no scgundo.
O sentido não podc ser dado, deve ser encontrado. Certamcnte,
é possível atribuir sentido a uma das manchas de Rorschach, mas aí
o semido lem uma origem na subjetívídade de quem sc submete a
sssa experiência projeliva e que, por esse mcio. se desvenda. Mas a
vida não é um teste de Rorschach. é um enigma. O que chamo dc
procura dc sentido equivale à apreensão dc determinadas caracterís-
ticas do reaL O próprio Werthemeier, ao se rcferír ao caráter objelivo
das exigências inerentes a cada uma das situações que se apresentam
na vida, pronunciou-se dentro da mesma orientação.
0 scmido há de ser encontrado. não pode ser criado. É. no en-
tamo. fácil de cntender que o indivíduo que não mais esleja em con-
dições de julgar que sua vida tenha sentido, e muito menos dc dcs-
Retornemos contudo ao semímento de que a vida carece de sen- cobri-lo, venha a criar um não-senso ou um sentido puramente subjc-
tido. O sentido não é algo que possa ser dado, isso seria moralismo. tivo, na tcntaliva de escapar desse sentimento de vazio. O primeiro
E moraL na acepção tradicionaL é um conceito fadado a ser breve~ caso se dá no palco (o teatro do absurdo); o segundo. no 1ranse.
mente superado. Mais cedo ou mais tarde deíxaremos, com efeito, de sobrctudo no produzido pelo LSD, quando o resullado é obtido sob
moralizar e daremos à moral um caráter ontológico. O bem e o mal pena dc ser deixado de lado o sentido verdadeiro das tarefas aulênti-
passarão a ser deñnidos não mais em função do que devemos ou não cas do mundo externo (em contraste com um sentido experimemado
na pura inlerioridade). Vêm-me à lembrança os animais cm cujo hí-
potálamo pesquisadores da Califórnia implantaram elétrodos, e que
obtinham prazer mcdiante a satisfação do instinto sexual ou da ali-
lciramcntc legítimo, e penence à essência da alividadc cicnlíñca o fato de quc. por m-
zõu heurísticas. ela faça abstração da pluridimcnsionalidadc dc um fenômeno e parta mentação tão logo a corrente clétrica fosse desligada. Ora, acabaram
da ñcção da unidimcnsionalidadc. Para citar meu caso. sou ao mcsmo tcmpo ncurolo- aprendendo a desligar sozinhos a eletricidade e posteriormente a
gista c psiquiatraz como neurologista. vejo no pacientc apenas os seus renexos c como prescindir do parceiro sexual e do alimento reais que lhes eram ofere~
psiquiuxra. suas reações. Mas. como sc cosluma dizen “somenle um bom homem é ca-
cidos.
paz de ser um bom médico“, ou. como prcñro cxprcssan dc maneira mais modesta, “o
mêdico dcve lambém ser um homem", c por isso o ncurologisla e o psiquiatra vêem o
O sentido não só deve ser achado. como pode ser achado. E nes-
quc cslá por lrás dos reflcxos e daS' rcaçoes'. isto c'. a pessoa, enxergam além du doença o sa busca o homem é orientado pela consciência. Em uma palavra. a
docnlc. pcrcebcm o quc eslá por dclrás do Homo IapÍPIIL o Homo palierm Na qualidadc consciência é o órgão do xenu'du. é a capacidade de descobrir o senti-
de ser humano. o médíco examina o pacícnle c o segue alé a dimensão do humano, do único e irreprodutível que se esconde em cada situação. Por outro
mame'm-se receplivo c alento diamc dcssa dimensão.
lado, eslamos, hojc em dia. tâo dcñcientes nesse domínio que atribuí-
No cmanto. também como cicntisla. há de ter consciência da ñctícia unidimen-
sionalidade em quc rccai, e conscrvar o espírito aberto à consideração de oulras e mais mos. em boa parte. o vazio existencial à perda da tradição. Tendo as
allas dimensõcs. Se agir assim. mereccrá o nomc de sábio. pois a sabcdoria podc deñ~ tradiçõcs perecido. não se foi com elas o sentido quc veiculavam? A
nir~sc como um conhecimenlo associado à consciência dos limitcs do campo que lhe é resposta é não, e pelo simples motivo de que o caso das tradições afe-
próprio.
ta apenas os valores, de modo algum o scntido. Este é poupado. na
E correme añrmar-se quc as Ciências naturais não consegucm descobrir ncnhuma
leleologia. mas essa cxprcssão vazia deveria ser reformu|ada da scguinle maneiraz é
sua condição de algo de único c irreprodutível.'- a ser descoberto
vcrdadc quc no plano de projcçõcs das ciéncias nalurais não se configura nenhuma tc-
lcologim mas isso não exclui o' fato dc que ela possa cxislir numa outra dimensão. su-
perioL Scria lícilo. ponanto. falar~sc de uma Ieleologfa negaliva cstribada na noção de 3 O senlido é na verdade lão singular quanlo cada uma das situaçõcs quc a vida aprc-
uma “leologia negau'va". que se recusa a dizcr o que Deus é. prcfcrindo h'mitar-se a d¡- senta, E nós próprios. quc nos deparamos com elas. somos singularcs c únicos. Disso
zer o quc Ele não é. não sc depreendc quc não haja um senlido da vida como um lodo, mas este só sc rcali~
Negar a possibilidade da existência da leleologia num nível superior ao das ciên- za dcpois quc sc realizaram os sucessivos semidos dc cada uma das situaçôcs isoladas
cias namrais ullrapassaria o domínio da expcriência. já que se siluaria no campo da f_1- (o “valor de situação". na exprcssão dc Max Schclcr). De qualquer forma. somcnte o
losoña. N_ão de uma ñlosoña crítica. refletida, mas sim antiquada. dilclanle c apriorís~ scntido parcial e' pcrceplível nesta vida. cnquanto 0 global não seria acessívcl scnão
uca.
20 FUNDAM ENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA O HOMEM EM BUSCA DO SENTIDO Zl

oportunamente, cnquanto o valor constitui uma situação típica, re- quc tem semido e o que não tcm sentido, o que se justiñca c o que
corrente. que caractcriza a condição humana. Em vez de algo de ab- não se justiñca.
solutamente singular, temos no valor um fenômeno dc índole univer-
Ouso prever que cedo ou tardc se apossará do homcm contem-
saL Em conclusão, a vida pcrmanccerá dotada de sentido. mesmo porâneo um novo sendo de responsabilidade. do qual a onda dc con-
quando todas as lradições desaparecerem e nenhum valor de aplica- testação que varre o mundo já é um prenu'ncio. Cumpre não esquc-
ção geral se mantiver. cer, lodavia, que muitos dos protestos. como as demonstraçoc's hos-
Não há dúvida de que a conscíência ê também capaz dc levar o tis às experiências atômicas, são meramente “contra", e não ofcrc-
homem por caminhos errados. Ainda mais: até o u'ltimo instante, até cem uma altcrnaliva construtiva. A liberdade que se exerce arbitra-
o último sopro, o homem não tem possibílídade de saber se realízou riamente provoca degenerescéncia e dcstruíção; dcve, portanto, scr
o sentido de sua existência ou se viveu na ilusãoz ignoramus c ignora- complemcntada pelo senso de responsabilidade.
bimus. O fato de que até no lcíto dc morte não lemos meios de nos Minhas senhoras e meus senhores! Eu falo não como ñlósofo,
certiñcar se a nossa consciência é um guia seguro ou um órgão enga- ou pelo menos não exclusivamente nessa qualidade, e sim como psi-
nador. signiñca. outrossim, que a consciência dos outros tem 0 dirci- quiatra. Nenhum psíquiatra, nenhum psicotcrapêuta - c, do mcsmo
to dc ser levada em consideração. Mas tolerância não quer dizer indi- modo. nenhum logoterapeuta - está habilitado a indicar ao doentc o
ferença. Rcspcitar a opinião dos outros não é o mesmo que identiñ-
que é o sentido. Pode, ísto sim, añrmar-lhe enfaticamenle que a vída
car-sc com elas. tem um sentido. Mais aindaz que esse semido, a vida o conserve cm
Vivemos numa época em que predomina um sentimento difuso quaisquer círcunstâncias. graças à possibilídade que a pessoa tcm dc
de que a vida carece de sentido. Cumprc, portanto, que a educação descobrir um sentido mesmo para o sofrimento e de transmudá-lo,
não se Iimite a transmítir conhecimentos, mas contribua para o apn'- no plano humano, em realizações. Dito dc maneira diferente: cabc-
moramento da consciência, de forma que o homem alcance uma sen- Ihe mostrar aquilo dc que é capaz o homem até na derrota. Na mçsc
sibilidade suñcientemente apurada para captar as exigências íncrcn- ma linha de pensamento se expressou Lou Von Salomé numa carta
les a cada situação. Numa época em que os Dez Mandamentos para- em resposta a Freud. o qual não conseguia se rcsignar ao caráter in-
_cem ter perdido o valor para muita gente. o homem dcve estar apto a curável da enfermidade que o atormentavaz “Compartilhar o sofn'-
aprender os Dez Míl Mandamentos que estão inscritos em código mento de outro e sua maneira própria de enfremar a situação é uma
nas dez mil situações que ele enfrenta. prova daquilo que está ao nosso alcancc."
Quando o indivíduo se toma atento às situações, a vida volta a
ter senu'do para ele. E ñca imunizado contra as duas sequelas do va- 0 logoterapeuta, na verdade, não obcdece a considerações mo-
zio existencial que são o conformismo e totalitarismo. Uma cons- ralistas, apenas fenomenolo'gicas. Não faz julgamentos de valor, lí-
ciência "a|erta” lhe dá a força de resistin e assim ele nem se resigna mita-se a registrar os valores vivenciados pclo homem comum, o
ao conformismo nem se curva diante do totalitan'smo. qual não perde de vista a relação com o sentido da vida, do trabalho.
De uma maneira ou de outra, trata-se. sobretudo, de educação. do amor, e. Iast but nol least, ' do valoroso sofrimento que resistc a
mas de uma educação voltada para o senso de resp'onsabilidade. Ser tudo. O homem comum vê sentido em fazer ou criar. ter experiências
responsável signiñca ser seletivo. escolher. Vivemos numa afjluent ou amar alguém. Mesmo a uma situação desesperada, que ele cnfren-
sociely ' saturados de estímulos recebidos dos meios de comunicação ta sem espcranças. atribui um sentido. O que importa é a sua atitude
de massa. Vívemos na época da pílula. Sc não quisermos soçobrar na diante de um destino inevitável e imutáveL E tudo que acabamos de
avalancha desses estímulos, numa total promiscuidadc, então terc- referir é do conhecimento do homem da rua, ainda que por vezes não
mos de aprender a decidir o que é essencial e o que não é essenciaL o o saiba expressar. Se é verdade, como añrma Paul Polak. que a logo~
terapia. em teoria. traduz para a linguagem cientíñca a autocom-
preensão do homem comum, vale acresccntar que. na prática, cabc-
posl morlem. ou seja. justamenle quando não cslañamos mais cm condições de vivê~lo lhe transpor de novo para a linguagcm do dia-a-dia seus conhccímen-
ou expcrimentá-lo. Mais aindaz elc só poderia ser descobcrto. achado, satisfeito ou
tos das possibilidades de ser encomrado um semido para a vida.
realizado sob a forma dc um scnlido de uma situação. assim como um ñlme que sc de~
senrola dianle do espectador é vislo a partir dos fotogramas que o compõcm. O enre~
Como foi dado a cntender, a análise fenomcnológica dos valorcs do
do, porém, só se torna inteiramentc compreensível no ñnal da exibição.
' Em inglês no on'ginal (N. do T.) ' Em inglês no originaL (N. do T.)
22 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA 0 HOMEM EM BUSCA DO SENTIDO 23

homcm da rua permitc identiñcar uma axiologia caractcrizada por Ou devo aínda relatar-lhes a históría de Aaron MitchelL que
uma tricotomia. Três são os tipos de valorz criativos, vivenciais c ati- aguardava a hora de sua execução na prisão dc San Quentin, pcrto
tudinais. Uma pesquisa fcita cm 1340 pessoas concluiu pela cxístên- de São Francisco, ondc os prcsos me haviam convidado pa'ra falaü
cía de uma hierarquia entre cles. vindo os atitudínais em primeiro lu- Tratava-sc dos piores crimínosos, alguns condenados à prisão perpé-
gar, seguidos pelos criatívos c os vivenciais. ^ tua, outros, à mortc pela câmara dc gás. A cxccução de Aaron Mit-
chetmdoz a fenomenologla' transpoe° para a linguagem cientíñca o chell estava marcada para alguns dias mais tardc. Em vista dísso, os
saber adquírido pcla observação do homem simplcs enquanto a logo- detentos me solicitaram que pronunciasse algumas palavras dirigidas
terapia, partindo do que foi assímilado, traduz a teoria novamcnte especialmente a clc. Depositaram conñança em mim. Dissc-lhcs que
para a linguagem do homem da rua, o que é perfeitamente possíveL eu tivera também, anos atrás, uma expen'ência pessoal com a câmara
Citemos o caso de Modcsto Canales, um trabalhador, “um homem da morte. mas que em ncnhum momento perdcra a esperança. Acrcs-
da rua“, que, em seguida a uma palestra que pronunciei em Nova centei que a vida tem um sentido iscnto de limitações. Quc seja brevc
Orleans, contou-me que tínha estado durantc onze anos num estabe- ou longa, não importa. Ou a vida tcm um scntído, c cla o conscrvará,
lecimento penal onde lhe haviam dado para ler meu livro Man's' independentemcnte do fato de que sua duração seja grande ou pe-
Search for Meaning (versão norte-americana), o qual fora a única quena; ou a vida carecc de sentido. e aí também não importa o quan-
coisa capaz de lhe servír de ajuda durantc todo aquele tempo. to dure. Disse-lhes ainda que mesmo uma vida arruinada pode read-
quirir riqueza de signiñcado desde que adotemos uma atitudc para
4. Augustíne Mcier. numa dissertação para a Univcrsidade de Ottawa. cm l973, intilu- conosco que nos pcrmita superar a nós mesmos. Narrci-|hcs A Morte
lada “Frankl's Will lo Meaning as Measured by thc Purpose in Life Test in Relatíon de lvan llitch, dc TolstóL E clcs entendcram o que eu quis dizcr, os
to Age and Sex Differenoes", informou. com base cm testes c cstatísticas. que o grupo pobres diabos!...
clário dc 13 a lS anos tem mclhor compreensão dos valorcs vivenciais; cntre 45 c 55. 0 Professor Farnsworth, numa conferéncia na Universidade
dos criativos; acima dc 50. dos atitudinais. Por outro lado. sua invcsligação Ievou à
Harvard, añrmouz “A medicina está diantc da tarefa de alargar seus
conclusão irrefutávcl de que o descobrimento do sentido podc ocorrer. indepcndenlc-
mcmc de idadc, grau dc instrução. scxo c crcnça rcligioszL horizontes e ampliar suas funções. Num período de crise como o que
O que foi dito concorda intciramcnte com o resultado das invcstigaçõcs dc Lgo- ora atravessamos, o médico há nccessariamente de incursionar na ñ~
nard Murphy em “Extem of Purpose-ín~Lifc and four FrankI-proposcd Life Objecti- losofia. O grandc mal dc nossos dias é a falta dc objctivo, o tédio. a
ves" (disserlação de 1967 para a Univcrsidadc dc Oltawa), igualmcntc baseadas cm
carência de sentído e de propósito." Assim scndo. vé-se o médíco às
tcsles e dados estalísticosz “As pessoas que escolheram Deus ou outra pcssoa como
voltas com questões de natureza ñlosóñca para as quais não está pre-
objeu'vo de suas vidas não diferem de mancira signiñcativa quanto ao dcscmpenho no
testc. Ambos os grupos encontraram ígualmcnte scntido para suas vidas.” A conclu- parado. Pacientes procuram 0 psiquiatra porquc duvidam do sentido
são dc Mcier. não no que respeita a difercnças cntre crcnlcs e ateus. mas no que se re- de suas vidas ou porque estão desesperados por não encontrarem um
fere aos crcdos aos quais os indivíduos interrogados añrmam pertcnccr. é formulada sentido'geral para a existéncia. Basta seguir o preceito kantiano, con-
da scguinte manciraz “0 fato dc que não podem ser detectadas difercnças nos testes de
propósito na vida entre adeptos dc seilas divcrsas conñrma a idéia dc Frankl de que
forme já citamos, para que a ñlosoña seja usada como uma forma dc
Deus. tal como é experimemado pelos mcmbros de vários cultos. é uma fonte de senti- medicina. Se ela recuar diante da tarefa, é porque receia ter dc de-
do para lodos eles.“ Segundo Meier, essas experiêncías cstatísticas “são compatíveis frontar-se com o vazio existencial
com a tcoria dc Frankl dc que todo mundo é capaz dc dcscobrir objctivos que dêcm É claro que também podemos ser médicos sem cuídarmos intí-
sentido à vida".
mamentc dc nossos semclhantes. Nesse caso - conformc comentou
Rcsultados equivalenlcs foram obtídos com um trabalho investigador de Thomas
D. Yarnell (“Purposc in Life Tcstz Further Correlates". Journal oflndividual nycho-
Paul Dubois, a propósito de uma situação análoga -, o médico só se
logy 27. 76, l972) c não somente com rclaçâo ao grau de instrução. sexo, crcnca rcli- distinguírá do veterinário pela clientela.
giosa. mas lambém no que concernc à idade c ao quociente intelectuaL Conformc rcla-
lou YarnelL ele pôde vcriñcar. com o auxílio do testc de propósito na vida. que ncm
cm 40 mcmbros da Força Aérea, nem em 40 esquizofrênicos internados se notou a me-
nor correlação enlrc o senlimemo de haver encontrado um senlido para a vida e a ida-
de ou o Ql.
Crumbaugh. na mesma línha. não achou rclação. no resultado do teste. com o
grau de inslruçãa Segundo lodas as probabilidades, os indivíduos, ponanto. estão ca-
pacitados a dcscobrir um scnlido para a vida. independemcmcme dc fatorcs como ida-
dc, QI. ou grau de instrução, como concluiu YarneIL
Os Descaminhos do Pensamento Psicoterapêutico

Extraído de Der Nervenarzt, ano 31, n° 9, 20 de setembro de l960, pp.


385-92.

Para a psicologia dinâmica, o homem é menos um ente movidb por


impulsos - conccpção que lhc tem sido atribuída com fíeqüência - do
que um ente que, no ñnal das contas, visa satisfazer seus impulsos.
Ou melhor, para usar uma fórmula de alcance geraL que visa satísfa-
zer suas necessidades. É nesse sentido que opina D. McGregor. [l]
“Todo comportamento humano é orientado para a satisfação das ne-
cessidades”. '
Fica patente, na verdade, que tal satisfação de minhas própñas
neccssidades é uma paciñcação, uma tranqüilização de mim mesmo.
“Ao longo da vida” - escreve 0. Murelius [2] - “esforçamo-nos por
satísfazer várias necessidades, ou seja, reduzir tensoe's.” 2 Trata-se,
assim, dc uma redução de tensoc's - possam elas ter sido produzidas
no âmbito interno ou por estímulos de fora para dentro - tal como
aparece na idéia de Freud [3] que idemiñcou no “aparelho psíquico"
o “propósilo" dc “dominar c liquidar a multidão de estímulos e exci-
tações provenienles de fora e de dentro".
Trata-se, numa palavra. do restabelecimento de um equlll"bn'o. oon-
forme esclarece l. Knickerbocker |:4]: “Pode-se considerar a exístên~
cia como uma luta contínua para satisfazer neccssidades, aliviar ten-
sões. manter o equilíbrio." 3 Em outros termos, estamos diame do
._. _.-
..›~

l Em inglês no originaL (N. do T.)


2 Em inglês _no originaL (N. do T.)
3 Em inglês no on'ginal. (N. do T.)
26 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA OS DESCAMINHOS DO PENSAMENTO PSICOTERAPEUTICO 27

pn°ncípio dc homeostasc dc B. W. Cannon [5], c com razão añrma mos psiquicos' revela a pobreza de sua concepção c sua natureza cs-
Charlottc Bühler [6]: “Dcsdc as primeíras formulaçõcs dc Frcud do sencialmente animista..“ °

tm~
princípio dc prazer até as mais rccentes versões do princípio de ho- Finalmente, junta-se outra dimcnsão onde se supõe havcr simili-
meostasc c rclaxamcnto dc tensôcs (como, por cxcmplo, represcnta- tudez o compromísso entre “o aparelho psíquico" e a rcalídadc. a
do no modclo dc Rappoport), o rcstabelecimento do equilíbrio indi- adaptacão do eu à realidadc. Charlotte Bühler [8] critica a conccp-
vidual tcm sido conoebido como o objetivo ñnal da vida ao longo dc ção freudiana do processo de adaptação, que “dá uma conotação ne-
toda a sua duração." ' gativa ao esforço visando o cquilíbrio do indivíduo adaptado”,
Mas as críticas a cssa teoría ou “vísâo" do homem não tardaram quando, em verdade, “o indivíduo criador coloca seu produto c scu
a surgir. Assim sc manifcsta G. W. Allport [7]: “A motívação é tida trabalho numa realídade que ele conccbe dentro de um enfoque posi-
oomo um estado de tcnsão, que nos lcva a procurar equilíbn'o, sosse- tivo". .lá A. H. Maslow [lO] havia comentado: “Homeostase,
go, adaptação. satisfação ou homeostase. Deste ponto de vista, a par- equilíbrio,› adaptação, autopreservação, defesa. ajuste são conceitos
sonalidadc scria apenas o nosso modo habítual de reduzir tensões." 5 meramente negatívos, e devem ser complementados por conceítos
E acrescentaz “Tal formulação mostra-se inadequada para captar a positivos.” 7
essência do esforço propriamcnte dito, cuja característica é a de se chundo a psicologia dinâmica, a realidade é apenas um instru-
opor ao equilíbrio. A tensão, em vez de sc reduzir, é mantida." Char- mento para a satisfação dos instintos ou, mais precisamenle, o ganho
lotte Bühler [8] aparcntemente scguc a mcsma Iinha quando observaz de prazer. O “princípio de realidade” está também a serviço do pra-
“As tendências fundamentaís da motivação são concebidas por zer, representando uma simples “modiñcação“ ou “a continuação,
Frcud em termos de homeostase. considerando todo comportamento por outros meios. do “princípio de prazer” (H. Hartmann, na revista
como servíndo à restauração de um equilíbrio alterado. No entanto, Psyche, l4,8|, l960. “A Psicologia do Ego e o problema da Adapta-
o crescimento e a reprodução evidentemente não admitem uma ínter- ção”). Por isso, dc acordo com.Freud[l lJ, “um prazer momentânco
pretação baseada apenas no princípio de homeostase. A hípótese de e de conseqüências incerlas só é abandonado com vistas a se alcançaf
Freud, inspirada na Física do seu tempo, e segundo a qual o relaxa-
outro mais garantido.”
mento das tensoe's constítuí a única tendência primária da vida, não No quadro dessa concepção do homem, os objctos que ele en-
corresponde à realidade."
contra no curso de seu “ser no mundo” - as coísas - ou as pessoas com
Não se trata de simples restauração do equilíbrio intrapsíquico as quais se depara quando de seu “ser com os outros" (M. Heideg-
em geraL mas de algo como uma igualação, um compromísso cntrc ger) - os parceiros - constituem meros instrumcntos para a satisfação
as diversas entidades psíquicas. a saber, de um lado o ego, de outro, o
de necessidades.
id ou o superego. Ora, isso equivale a fazer abstração do que há de A visão do homem acima exposta foí esquematizada de acordo
impróprio, do ponto de vista cientíñco, no fato de supor seriamente com o modelo inspirado na obscrvação dos animais. Ela sc harmoni-
que exístam essas “pseudopessoas", como eu as denomino. Diz J . H. za de fato com as idéias que podemos formar a partir das imprcssões
Masserman [9]: “A mitologia da psícologia dinâmíca não perde em deixadas pclo relato das ex eriências com animais feitas por Olds, P.
nada quando comparada, quanto ao teor fantástíco, com a mitologia Milner [12] J. V. Brady [13 . G. Werner 043 e outros, e nas quais fo-
dos índios. Tendo criado essas fascinantcs dramatis personae, os pri- ram empregados auto-estímulos elétn'cos. Os ratos de Olds. por excm-
meiros cscritos freudianos descreviam o íd, o ego e o supcrcgo às vol- plo, aprenderam a desligar a corrente que alimentava os elétrodos
tas com estranhas ilusões, alianças subversivas, defesas desesperadas
implamados no cérebro puxando uma alavanca e provocando. as-
e vitórias de Pirro - combates tão fantasiosos e vívidos como os que a sim, alívio e prazer. Esse estímulo acidental transformou-se num há-
mitologia índia, a legenda homérica ou as sagas nórdicas pintaram. bito fervoroso, em dctrimento da satisfação normal proporcionada
Hoje em dia, a maior parte da literatura analítica nesse campo mos- pelo alimento ou os objetos sexuais (R. Jung [15] ). Os objelos intra-
tra-sc mais sóbria (e. em conseqüência, lamentavelmente menos di- mundanos scrvem apenas como meios para restaurar cstados in-
vertida), mas uma análise serena de muítos dos chamados °dinamis-

4 Em ingles' no on'ginal. (N. do T.) 6 Em inglês no originaL (N. do T.)


S Em inglês no originaL (N. do T.) 7 Em inglês no originaL (N. do T.)
28 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA OS DESCAMINHOS DO PENSAMENTO PSICOT_›ERAPEUTICO 29

r'
"
trapsíquicos. R. Jung Dq salienta que os animaís das experiências ti- sentido e ao valor. Por isso, a Iogoterapia, a cssc respcito fala de uma
nham tido durante o dia um comportamento suscetível de scr inter- vontadc de sentido ' e a considera - cm contraste com a vontadc de

7"'.'2'-T
pretado nos tcrmos do “príncípio de prazer da primeira fase da psi- prazer. ou a vontadc do prazer, ou ainda a vontade do poder - como
canálise". Com efeito. eles se componaram, conforme podemos for-

._ T
algo de primário.

..,¡
mular, lal qual o homcm no conceito de uma psicomecânica que, por
A vontade de sentido é primária. Todavia. tão logo fenômcnos
cufemismo. quer ser chamada de psicologia dinâmica, isto é, sc inte-

._v ,
ressando pelas coisas tão-somente na mcdida em que elas represen- especiñcamente humanos, como scntido e valor, sejam projctados do
plano noológico para o psicológíco e inlerpretados à luz da psicolo-
lam um meio para um ñm, ou seja, a rcstauração de um estado que é

fmvfw
gia dinâmíca, adquirem a aparência de secundários. ou melhor, tudo
o de uma necessídade satísfeila. Acrcscente-se que o “estímulo eIétri~
que é normativo passa a dar a ímpressão de secundárío. para não di-
co normal” produz uma “excitação que não se pode Chamar propria-
zer deñciente. Como observou Charlotte Bühler °: “As teorias da sa-
mente de ñsíológica c que o ambiente de ísolamento do engradado
tisfação das necessídades, todas mais ou men'os sob a inñuência ava-
cm que ñca o animal contribuí para o surgimcnto de um comporta-
lassadora de Freud, reduzem o *deve ser', o aspeclo obrigacíonal da
mento mórbido” (R. Jung [16]).

V
vida, a um plano secundário." 9

sx -""',
Aproveitando uma expressão de L. Seif, pode-se dízer que hojc
Com tudo isso. não é destituída de ínteressc ou indiferente a ta-
em dia é mais fácil do que nunca qualiñcar a típica ínclinação neuró-
refa de construír uma imagem adequada do ser que se reñra, dora-
tica para uma situação absolutamente ísenta dc conflítos (homeosta-
vantc, não à “vísão”. à “teon'a”, mas à “prática”, à alividade clíníca.

"-" V“" .«.


se) como sendo justamente a meta da existêncía do neurótico. Afora
Com efeito'. é de valor duvidoso adotar uma visão teóríca que abri-
isso, uma marca da época em que vívemos é o fato de que o consu-

_
gue conceitos como responsabílidade e líberdade e, ao mesmo tempo,
mo, para não dizer o abuso, de tranqüilizantcs se lenha expandido
na prática. deíxa'-los de fora, inoperantes. Tal atitude equivale ao que
tanto, desmascarando as tendências neu›róticas increntes à busca da
poderíamos designar de neo-averroísmo. Como se sabe, a doutrina
ataraxia. O que, outrossim, lança luz sobre o rumo para o qual sc di-
de Avcrróís permitia a coexisténcia dc duas verdades divergemes: de
rigcm os interesses da neurose coletiva são os títulos decertos best-
um lado, a verdade da fé; de outro, a do conhecimenm Hoje, em lu-
sellers, como Peace of Mind ou Pursuil of Happiness. ' Este último
gar disso, temos, de uma partc, a verdade de uma antropologia unidi-
título é bem um sinal de que todo esforço neurótico é em si mesmo
mcnsional muito abrangente, e em contraposição, a verdade de um
destinado ao fracasso, pois a felicidade não vem quando a tratamos
psicologísmo dinâmico.
como um objetivo visado dirctamente; ela é um subproduto. Do mos-
mo modo, só em casos cxcepcionais o prazer pode representar um
-Mesmo deíxando de lado cssa neutralidade idcológico-
ñm do comportamento humano (Kant. Scheler). o qual lende origi-
cientíñca, a conccpção do homem adotada pela psícologiá dinâmica
nariamentc para 0 preenchimento do senlido e o desenvolvimento do
apresenta ainda outro aspecto funesto, qual seja, o de que ela faz o
valor. A caça à felicidade acaba por expulsá-la, bem como a procura
jogo da neurose. Com efeito, tão logo a autocompreensão do neuró-
do prazer tem por resultado afasta'-lo - pelo menos é o que nos mos-
tico é inñuencíada por uma interpretação unilateral e exlusívamente
tram os numerosos casos de conflitos neuróticos sexuaisz o prazer
dinâmica da vida humana, sua ínclinação ara focalizar a atenção
foge do homem .quando este o assedia, e só aparece sob a forma de
sobre si mesmo é nolens volens reforçada-. típico do neurótico - a
um “efeito”.
exemplo dos animais das cxperiências dc Olds, Brady, Milner e Wer-
ner - não mais sc oríentar no rumo das coisas. preferindo concentrar-
se em seus próprios estados mentais. Ao contrárío do homem nor-
mal, que se estrutura e orienta cm relação a pessoas e parceiros. obje- 8 Não se devc cnlendcr cstc conceito numa accpção volumaristaL 0 fato de que faca-
tos e coisas no mundo. ele se líga a situações internas, sejam elas tin- mos rcferência a uma “vomadc". c não a um “instinto". não signiñca adesão ao va-
gidas de “semimentos de carátcr geral - “sentimentos sítuacíonaís” luntarismo. É que se sc tratasse de instinto. o homem só realizaña o sentido com o ñm
dc sc liberlar do aguilhão do impulso c rccuperar o equilibrio. Emão. não estaria efeti-
(segundo M. Scheler) - ou, cspec1'ñcamente, sensaçõcs de prazer c vamcnte visando o senlido. apcnas eslaria procurando atcnuar a pressão do instinto; e
desprazer. No cntamo, se obcdeccsse a sua natureza origínaL o ho- toda a nossa tcoria sobrc a motivação da condula rccairia sob a influéncia do princí~
mem não daria maior atenção aos estados ínteriores, particularmente pio de homeoslasc.
às sensações de prazer c desprazcr; cle se dedicaria aos objetos, ao ' Em inglês. no originaL (N. do T.)
OS DESCAMINHOS DO PENSAMENTO PSICOTERAPEUTICO 31
30 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA

não colecionador de selos. 0 que cstá em causa, num dado momento,


Com rclação ao homem. em sua origem, a essência, o que conta é um sentido de vída concreto e pessoaL cuja realização se exigc c es-
é o precnchimento do sentido e a efetivação do valor - em síntese, a pera de cada indivíduo; só ísso tem dignidade enquanto terapia.

waxúvmwm
realização no plano exístencial (a nosso ver. “existencial" tem a vcr Em conexão com o termo “Logoterapia”, “Iogos" não dcve scr
não somente com existência, mas com o sentido dessa exístêncía). O entendido somcnte no signiñcado original de “sentido", mas no de

.¡-<_.
oposto da rcalização existencíal é o que, cm logoterapia, chamamos “espírito”. “Se respeitarmos a realidade que nos é 'dada', como ensi-
de vazio existenciaL na a fcnomenologia, então distinguire_mos três formas dc scr: corpo-
Bem. para comprcender quão pouco sc justiñca uma teoria do raL mental e espin'tual” (F. S. Rothsch1'|d[l7_'|). Analogamente, cabe-
homem baseada na salisfação das neccssidades, basta fazer a scguin- nos diferençar entre somato, psico e noogênese. Como um exemplo e
te renexãoz se o conjunto das necessidades expcrímentadas em dcter- paradigma do nagrante desprezo pcla difercnça dimcnsíonal entrc a
minado pcríodô fosse saüs'feito, dísso resultaria uma sensação de ple- somato e a noogênese, pode-se citar a interpretacão da depressão en-
nitude? Ou não se daria o contrário, ísto é, uma impressão de profun- dógena como uma docnça quc tcm por base literalmente a culpa exis-
do tédio, dc falta de chão ñrme onde pisar - em outros termos, o va- tenciaL “' Uma coisa é levar a sério o doente, e outra tomar a doença
zio existencial? ao pé da letra. Que o pacíentc atacado de deprcssão endógena acredi-
Nós, neurologístas, temos uma experiência diária, nas consultas, te ser culpado existencialmente ou de outra forma, isto é patognomô-
de confrontação com esse vazio. Uma pesquisa cstatística efetuada nico, mas não patogênico - é algo que pertcnce à sintomatologia da
pelos meus colaboradores entre pacíentes e pessoas normais. assim doença, e não à sua ctiologia. Outra coisaz se o médico não se conten-
como entre os próprios proñssionais encarregados do tratamento ta em atribuir à culpa existencial um papel patogénico, mas vai além
médico, demonstrou que 55/,,° dos ínterrogados admitiam haver sen- e não hesita cm condenar o deprimido apresentando-lhe diante dos
tido essa impressão de vazio. olhos a causa presumível da enfcrmidade, agravar-se-á de forma ab-
surda a auto-acusação tão típica nos casos de depressão endógena.
Depois da expulslão do homem - na condição autêntíca de ser
Pensemos um pouco num caso análogoz quando me ínstilam um mí-
humano - do Paraíso, a segurança e a certeza proporcionadas pelo
driático e, em conseqüência, a luz do dia passa a me ofuscar, o fato
instinto e próprias dos animais se extinguiram. E a cssa perda sc
deve ser imputado à midríasc, e não à luz; quando, como sequela de
ajuntou outra, a da tradíção. O homem se víu dimínuído não só no
uma paresia faciaL se manifesta uma hiperacusia e o barulho da rua
terreno vilal, como também no sociaL A reação a esse vácuo interior
me perturba em demasia, a hipcracusia não foi provocada pelo baru-
consíste no que a Logotcrapía desígna como ncurose “noogência”,
1ho. O mesmo se passa na depressão endógena, que faz aparecer uma
islo c', uma neurose que nâo provém de conñitos ou complexos men-
culpa que é inerente à existência e, de modo algum, a causa da enfer-
tais, mas dc problemas espirituais e existenciaís. Não se trata, por-
midade. É, sim, o efcito de uma “hiperacusia" da consciência, que se
tanto, daquele conñito de impulsos quc a psícologia dinâmica anali- traduz no absurdo das auto-acusações e na intensídade da “voz“ da
sa, mas, no fundo, de uma colisão de valores, de uma luta cm torno
consciência. “
do sentido da existência que deve decidir quais os valorcs mais altos -
em outras palavras a vontade de sentido. Esta noção implica a exis-
lO Quando L. Biswangcr (no seu trabalho “M artin Heidcgger e a Psíquialria". publí-
tência de uma lacuna, com base na cxperiéncía e apoio em amostra- cado no Neue Zur"cher Zeilung. de 26 de sclcmbro de l959. p. lO) indicou não tcr sido
gens cstatísticas scgundo as quais 90/°° ou mais das pessoas ínterroga- ^°possívcl atê hoje dcscobrir qualqucr anormalidade ccrebral ligada às doenças mcn-
das a respeito e'xpressaram a opinião de que o homem prccisa de algo tais mais difundidas. a sabcr. a csquizofrenia c a psicosc maníaco~dcpressiva“. cabe
“para o que" viver, algo ao qual 60/0° declaram estar dispostos a de- acrescentar quc não só não sc conscguiu esclareccr a ctiologia somatogênica das psico-
ses_ como também não se pôde ainda compreender a sua simomatologia psíquica. ou
dicar suas vidas. A vontade de sentido não é um simplcs conceito, é
scja. “não se alcança caplar como é que docnças mcmaís do tipo da paralisia gcral
um fator terapêutico. Seu despertar constituí o único recurso à dispo- progressiva" ou “as demências. em quc se vcriñcam claras altcraçoc's do córlcx ca-
sição do homem modcrno - e não apenas do enfermo - capaz de aju- rebraL em vez de limitarem a condição dc doenças cerebrais, rcpresentam lambém
da'-lo a superar o vazio existenciaL inalterudameme docnças mcntais, no sçnlido próprio da cxpressâo" (loc. cil),
ll Quando. no refluxo da maré. um rccifc sc lorna visích a ninguém ocorreria añrmar
Para cssa superação, a Logoterapia, na condição de terapia por que o recifc scja a cau'sa da marê. Por intermédio dela ele simplcsmemc aparece. 0ra.
meio do logos, ou seja, do senlido, pretende contribuir. É evidcntc alravés da depressão endógernm não scria o caso de dizcr que o abismo entrc o ser c o
que não basta receitarmos para nossos pacientes o tão falado hobby. devcr ser meramcnlc sc rcvcla. por meio dcssa ma¡é vilal?
Do ponto de vista existenciaL pouco importa saber se alguém é ou
32 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA OS DESCAMINHOS DO PENSAM ENTO PSICOTERAPEUTICO 33

K. Goldstein situa-se entrc os primeiros e mais enérgicos críticos se rcfcrir a °necessídades' c 'impulsos'.” " Deplorou espcciñcamcnte
da tesc que vê no homem uma criatura voltada para a satisfação dos o fato dc Goldstein chamar a auto-realização de “impulso" c de
impulsos ou, em geral, das necessidades; argumenta contra a teoria, Maslow citá-la como uma “necessidade”. De nossa parte. achamos.
muito difundida no campo da motivação. segundo a qual o motivo porém, que a polêmica de Bühler não foi corretamente equacionada,
fundamental sería a redução da tensâo e. por conseguinte. o restabe- já que cla própria reclama contra o fato de que a auto-rcalização não
Iecimento do equilíbrio, e levanta objcções à homcostase como teoria cstá claramente formulada e de que não se sabe como ela sc produz c
motivacional; contraría a idéía de que o objetivo dos impulsos seria a em que consíste a sua dinâmica (sic!). Dessa forma, a autora inverte
elíminação da tensão perturbadora que eles mcsmos produzem. Em os termos do problema, fazendo com que parcça que a dinâmica dos
suma. opõe-se ao príncípio de prazer de Freud e à lcoria da disten- impulsos e necessidades satisfaça nossa necessidade de autocom-
sãoz “para Goldstein, uma pessoa cuja principal meta é a manute'n- preensão. Não devemos contudo, esquecer, segundo W. Keller L22],
ção do nívcl dc adaptação já manifesta sinais de doença. No eslado que “a suposição baseada na teoria do conhecimento do período mo-
dc saúde. a expressão de si mesmo e a auto-realização constituem o derno de que toda a realídade e, por consegu1'nte, também a existên-
motivo essencia|." ” (Z. A. Piotrowski [l8]). cia humana, tenha de scr concebida de maneira metódica como de-
Charlotte Bühler [I9] também contrapõe a teoria da auto- pendendo exclusivamente de condições dadas, fatores atuantes e cau-
rcalização à teoria da satisfação das neccssidades ao resumir a situa~ sas dctcrminadas, já foi, quanto ao aspecto da 0brigatoriedade, am-
ção nestes termosz “Hoje em dia, distinguem-se, na verdade. duas plamente superada pela evolução dos acontecimentos históricos; no
concepções principais quanto às tendências básicas da vida, na medi- mesmo caso se sítua o modo de pensar que procura entender as vi-
da em que a qucstão é objeto de cstudo por parte da psicoterapia. A vências e o comportamento do homem, assim como seu desempenho
primeira pertence à teoria psicanalítica. que vé no reslabelecimento no plano espírituaL segundo o princípio de uma infra-estrutura de
do equilíbrío homcostático a única tendência primária da existência. processos mecânicos, dinâmicos e energéticos. modo de pensar que
Esse equilíbri0, segundo essa concepção, precisa ser restaurado por não é dígno de crédíto, como tem sido comprovado claramente.”
meio da dosagem balanceada de satisfação das necessidades, da apre- Não basta. como faz Charlotte Bühleríl9], limitar-se à evidên-
cíação correta da realidade e da observâncía dos deveres. A segunda cia de que “em num_erosas culturas, inclusive na nossa, existem pes-
concepção foi originariamente defendida por Nietzsche e depois ado- soas que não colocam em primeiro plano a auto-realização e perse-
tada. com variantcs. por Carl Jung. Karcn Horney - adepta da “no- guem outros objetivos". O que. pelo contrár¡o, ressalta é a circuns-
va psicanálisc" - Erich Fromm. Frieda Fromm-Reichmann. Kurt tância de que se trata de puro “psicologísmo" quando o indivíduo,
Goldstein, Abraham Maslow, Carl Rogers, o representante da psic0- mesmo no esforço de auto-realízaçâo, se subordina a um mecanismo
logia organísmíca. J. H. Schultz. segundo a idéia de um “Crescimen- de impulsos e parace empenhado em satisfazer o aparelho psíquico e
lo" mental e. enñm. pelos existencialista5. no contexto da noção do em se tranqu"ilizar, |ivrando~se das tensões. Além disso. cumpre notar
encontro de si mesmo." que a “monadologia”, como costumo dizer, ou. em outras palavras.
Se passarmos à crítíca dessa segunda tcoria motivacionaL vere- a-condição do homem privado do mundo, lal como o conccbe a psí-
mos logo, em particular no que concerne à nova psicanálíse. o aspec- cología dinâmica, não é superada, em defmitivo. apenas com o fato
to que H. Elkins [20] ressalta ao falar de Horney e Fromm: “Suas de o mundo deixar de ser vxsto como um meio para um ñm (assim
concepções revestiram-se de conotações místicas que lembram a no- como não foi superada pela teoria mais amiga do homem voltado
ção do si mesmo elaborada por Jung. a quaL por sua vez. faz pensar apenas a satisfação de suas necessidades). “0 mcio ambiente não é
nas conotações místicas das religiões orientais.“ ” mais do que um instrumento para a pessoa alcançar o ñm. que é a
Já Charlotte Bühler [6] havia feito a seguinte crítica: “Os adep- auto-realízação” (A Maslow [10], p. ll7). “
tos do princípio de auto-realização deixam-se. ¡'nfelizmente, seduzir Esqueçamos a questão do meio para um ñm e nos concentremos
pcla tendência em voga no pensamento atual a ponto de voltarem a no ñm em si. 0 homem realmente o visa ou ele só lhe interessa na

14 Em I'ngles“ no originaL
|2 Em ínglés no oríginuL
lS Em inglês no originaL
l3 Em inglês no originaL
34 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA
OS DESCAMINHOS DO PENSAMENTO PSICOTERAPEUTICO 35

mcdida cm que favorecc a auto-realização? Anteriormcnte, já sc disse


Digamos, em síntesez somente a cxisténcia que transccndc a si
que a tcsc da logotcrapia é bcm díferentc: para ela, o homem é na
verdade (ou se não maís o e'. o era pelo menos on'gínariamente) volta- mesma, somentc a vída humana que ultrapassa seus limites na dire-
ção do mundo é capaz de se realizar. Do contrário, ao visar direta-
do para a realízação do sentido e a efetivação do valor; a busca de
prazer (príncípio de prazer da psicanálise) e a vontade de poder (an- mente a auto-realízação, fracassa.
seio dc mando, da psícologia índíviduaD são modalidades °°cundá- Desta vez damos razão a Charlotte Bühler [6] . quando cscrcvez
rias c deñcientes da inclinação normal c primária do homcní para a “0 que eles (os representames do princípio de auto-rea|ização) na
rcalização do sentído c a efetivação do valor. verdade queriam dizer é que se trata de realizar o potencial indivi-
Veriñcamos, portanto, quc nesse contexto não é o caso de se fa- dual." "' E cita Fromm. para qucm “todos os organismos têm uma
lar cm satísfação ou alívio. mas em preenchimento, realízação, pois tcndência inerente a concretizar suas potencialidadcs especíñcas". ”
só sou capaz de satísfazer mcus própríos ímpulsos, minhas próprias Realmente, toda auto~realização objetiva basicamente'a efetivaçâo
neccssidades. ou, cm última análise, a mím mesmo. No que concerne das possibilidades de cada um. Seria esta, então, a ñnalídade?
ao scntido e ao valor, trata-se, pelo contrário, de algo que “vcm a Para simpliñcar, lcmbremo-nos do precedente histórico dc Só-
mim”, de algo que me é trazido pelo mundo. não de algo que seja a crates, pensador que indagou o que teria sido dele se houvesse desen-
simples exprcssão de mím mesmo ou a projeção de meus próprios volvido todas suas possibilidades adormecidas. Deu-se conta de que
no conjunto havia também nele o germe do malfeitor.
impulsos e neccssidades. É assim, no entanto, que o valor é conside-
Que quer isto dizer? Quer dizer que não devemos cogitar de de-
rado pelo monadologismo. e nisso o existencialismo não constitui ex-
ceção quando deixa o mundo dissolver-se num projeto. Do slogan senvolver um potencial qualquer, de dar expressão a tudo que em nós
venhamos a descobrir, mas somente o que é nosso dever cultivar.
existencialista “ser-no-mundo”. pouco maís resta que um ser solip-
Chegamos. com ísso, diante de um ponto capitalz é que o verdadeiro
sista. ao passo que o mundo oorrelato é visto como um mero esboço.
0 fato de que o sentido reside no mundo e não em nós mesmos problema é camuflado pelos que vivem a falar dc potencialidade (os
“potencialistas”, como os designo).
tem tal alcance que, na verdade, o homem não devería perguntar
E o verdadeiro problema nada mais é do que o defrontar-sc com
pelo sentido da exístência, mas, 1'nversamente, considerar a si mesmo
o valor, decidir qual das possibilidades merece ser dcsenvolvida, qual
como o interrogado, sua própria existência como o que deve ser in-
é necessária. A confrontação com essa problemática cquivale à con-
terpretado e questionado. A vida lhe faz uma pergunta, cabe-lhe res-
frontação com a nossa responsabil1'dadc. Não constitui novidade o
ponder e, assím fazendo, ser responsável.* Deve, por conseguínte,
fato de que o psicolog1'sm0, do qual aparenlemenle o potencialismo
buscar uma resposta para a vida. buscar o sentido da vida; este, toda-
ainda não foi capaz de se liberar, deixa de perceber a colisão de valo-
via, precisa ser achado, e não inventado. O homem não pode sim-
res. já que tanto o sentido quanto o valor só se manifestam no campo
plesmente “dar" um sentído à vida, tem de “experimentá-lo”.
humano-espíritual e não no plano psíquico, no qual se projcta justa-
x Como ñca, cntão, a auto-realização? Não existirá algo assim
mentc o psicologismo. Ele só conseguc distínguir o conflito de impul-
como a satisfação de si mesmo? Evidente que sím, mas somente na
so, ignorando quase por completo a oposição de valores. a exemplo.
mcdida cm que o homem realizar o sentido e efctivar o valor, o que é
aliás, do que faz o próprio neurótico.
uma maneira dc se realizar e de se concretizar como ser humano. A
Que intercsse há na origcm da investígação da problemálica do
auto-realização manifesta-se, portanto, como um efeíto da concreti-
valor, diante da qual mesmo o potencialismo se esquivou? Bem, de
zação do valor e da realízação do sentido, nunca como o objetivo
início, digamos que o escapismo faz adoecer. Charlotte Bühlerjá ob-
desscs dois processos.
servou que “tudo parece tão simples, como se fosse algo de evídente,
Pelo contrárío: se o homem quisesse fazer a sério da auto.
desde 0 momento em que se fala no objetivo de cada um tornar-sc o
rcalízação um 'objetivo imediato, fracassaria. Já havíamos visto algo
que na verdade é”. '° De nossa parte. diríamos que não só parece
de scmelhante no caso da intenção, ou melhor, da ímpossibílidade de
simples, como agradáveL Com cfeito, se me levam a crer que sou. e
“intencionar“ o prazer.

16 Em ingles' no originaL
' 0 aulor faz um jogo dc palavras com os signiñcados de antworlen, beanlworlen e ve- l7 Em inglés no originaL
mnlworlm (N. do T.) 18 Rollo May.
36 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA
OS DESCAMINHOS DO PENSAMENTO PSICOTERAPEUTICO 37

sempre fui, o que dcvo ser, então me livram do tormcnto da escolha, enquanto através dc binóculos é possível observar uma cena de tea-
poupam~me do trabalho de dccidir, em cada caso, qual das potencia- tro ou as cstrelas, conforme o caso. O calidoscopismo signiñca quc o
lidades devo rcjeitar. deixando-a no limbo, e qual dentre elas devo homem, ao lançar-se no mundo, só consegue projetar o seu próprio
imortalizar. cultivando-a.
mundo, só alcança expressar a si mesmo e por conseguime no mundo
Justamcnte as possibilidades são, por sua transitor1'edade, pre~ acaba encontrando só a si próprío, a ele. o “lançador”, o único a se
servadas no passado, tão logo se vêem realizadas. Não ñcam nele es-
tornar visíveL
quecidas, e sim aninhadas, protegidas. Pois o que aconteccu uma vez Precisamente como o “lançamento" de pedras colorídas. no
nunca mais pode ser desfeito, expulso do passado. Mas não se torna exemplo do calidoscópío, tem por efeito de um modo ou de outro
tudo mais importante precisamente pelo fato de cair no passado? E é uma ordenação, na opinião de L. B1'nswanger[24], ao lançar-se do
o que marca profundamente a responsabiiidade do homcm. Vemos, ser corresponde um projeto de mundo. poís, ainda segundo ele, “a
portanto, quc ao tormento da escolha se acrescenta a pressão do tem- existência, em seu projeto de mundo, não é livre”. à sua “não-
po. líberdade“ corresponde a “condição de ser lançado do ser-aí”. por
exemplo, “a melancolia é uma doença espiritual da existência como
0 tormento da escolha - ainda mais sob o efeito da pressão do
um tod0, íncluindo. portanto, o fator espiritual no homcm“.
tempo - é que induz os homens. nos moldcs do potencialismo, a atre-
De forma análoga se expressa J. Zutt [25]: “Uma alegria, uma
lar sempre a noção do que é devido à noção do que já é sabido, redu-
tristeza, um desgosto. um mau humor... taís estados de ânimo não
zindo destartc a tensão entre o ser e o devcr-ser. lsso, contudo, equi-
constitucm tendências isoladas dc uma vída anímica solípsista, mas
vale a submeter-se o homem ao princípío de ncutralização de Iensões
ígualmente meios de tornar evidcnte uma determinada realídade do
característicc da neurosc. como já assinalamos. O potencialismo -
mundo." A. Storch bate na mesma teclaz “Se o mundo oríginaria-
insuprimível e inalíenável na medida em que se radica no próprio ho-
mente aparece em outra pcrspectiva, abre-se, añnaL uma brecha pela
mem - tende a anular a tcnsão cntre ser e dcver-ser, enquanto o exis-
qual se divisa no horizonte uma ordenação possível, válida para cada
tencialismo procura superar a separação entre sujeito e objeto, mais
um, ou seja, o conhecimcnto de um mundo coletivo, na condição de
que isto, pretende já o ter conseguido. Que validade tem tal preten-
objcto discerníveL ñrme, identiñcávcl (E. Straus).“
são? Achamos que num tal projeto o resultado almejado só pode ser
A nosso ver, o lançar no mundo não é o projeto subjetívo de um
atingido com o sacriñcio ou do sujeito ou do objeto. M. Thiel a esse
mundo subjetivo. Pode ser corte subjetivo, mas um corte que o sujei-
respeito fala em “auto-engano” e añrmaz “0 existencialismo. na me-
to efetua numa rcalidade objetiva. Em outras palavras, este mundo é
dida em que pensa, permanece no domínio da separação sujeito- essencialmente mais do que mera expressão do meu próprio ser.
o.bjeto". Quem, por conseguinte, tencionar, nos termos do provérbio Retornando agora à comparação com o calidoscópio, diremos
popular, jogar fora ao mesmo tempo a criança (o objeto) e a água da que somente na medida em que eu desisto, em que renuncio ao meu
banheira (o cartesianismo), dcixando-se seduzir pelo palavreado em ser-assim, tudo que é mais do que eu pode tornar-se visíveL Esta re-
torno de uma possível scparação sujcit0-objeto, há de ser admoesta- núncia é o preço que devo pagar para conhecer o mundo, para co-
do de que tal coisa não é possíveL Nem possível nem necessária. As- nhcccr aquilo que é mais do que a simples expressão do meu próprio
sim como, no campo decisórío, as exigências da situação não consti- ser. Em síntesez devo transcender a mim mesmo. Se não puder fazê-
tuem uma expressão da pessoa (sua projeção no mundo) da mesma lo, então minha capacidade cognitiva ñca restríngida; eu mesmo e o
forma, no campo cognitivo, há uma transcendência, isto c', algo mais conhecimento de mim mesmo ñcamos no caminho, tornamo-nos
do que a simples expressão da interiorídade. Somentc na medida em obstáculos. Ad hoc, uma derradeira comparaçãoz quando é que os
que a existência humana se constitui como sujeito visando um obje- olhos (execctuando-se o caso do espelho) se podem ver'? Só nos casos
to. somente a esse preço, o conhecimento é possíveL Ele se baseia no de turvação do cristalino ou do corpo vítreo. quando a capacidade
campo tensional em que se encontram o sujeito e o objeto. Toda a visual já está afetada. Em outras palavras: a reflexão é um modo deñ-
“noodinâmica" tem aí, em suma, suas raízes. ciente e secundário de intenção do ser, do mcsmo modo que o é a
O desconhecimento da noodinâmica, a negligência do correlato auto-realização com relação à imenção de realização do scntído.
objetivo do conhecimento correspondcme não só a um subjetivismo
vago. mas a um típo especíñco que podemos denominar “calidosco-
pismo”. Através de um calidoscópio, só ele mesmo se torna visíveL
38 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGÍCOS DA PSICOTERAPIA OS DESCAMINHOS DO PENSAMENTO PSICOTERAPEUTICO 39

Resumo Bíbliograña

O normal e fundamcntaL mesmo para o neurótico, não é satisfazer ã McGrcgor. D.: .I. Social lssues. 4. S. 1948.
Murclius. 0.: .I. Psychother. 12. 64|, l958.
os instintos e as necessídadcs, a ñm de restaurar o esquilíbrio psíqui-
Freud. S.: Gesammelle Werke XL S. 370.
co; é. essencialmente, ou pelo menos, originaríamente, realizar um Knickcrbocker. l.: .I. Social lssues 4. 23. l948.
sentido. concrcnz'ar um valor, e só na mcdida em que assim age é que Cannon. B. W.: The Wisdom ofrhe Bady. Nova York. l932.
o homem consegue se realizar. O mundo não é nem um meio para Bühlcr, Charlottez “Basíc Tendencies of Human Lifc. Thcoretical and
um ñm da satisfação dos instintos e das necessidades. ncm de expres- Clinical Considerations". ln: Wisser. R. (org.): Sein und Sinn. Tübin-
são de si mesmo na acepção de um “projeto de mundo”. A humani- gen. l960.
dade se coloca absolutamentc c irremedíavelmente num campo polar m Allport. G. W.: Becoming, Basic Consideralionx far a Psychology of
Personalily. New Havcn, Yalc Univcrsity Prcss. l955.
de dupla tensão entre 0 ser e o dever~ser, entre o subjetivqe o objeti-
Bühler, Charlottez PsychoL Rdsch. 8, l956.
vo. Assim como o potencialismo ignora o primeiro, o calidoscopísmo
Masscrman. J. H.: “Science, Psychiatry and Religion". ln.' Progress in
ignorà o segundo. Em vcz do ser-no-mundo, aparece aqucle desvin- Psychatherapy, voL lV. org. por .I. H. Masserman e J. L. Moreno.
culamento com o mundo pelo qual o monadologismo tanto desvir- Nova York, Grune & Strauom 1959.
tuou a concepção do homem. Maslow, A. H.: Motivation and Personali1y. Harpcr & Brother. Nova
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ÍUD
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Á _
.
_

rííFronteira entre a Psicoterapia e a Filosoña

il
Eà4.

~;» " 543


«
-5_. _. . .

Publicado em Forschungen u'nd Forlschritle, tomo 35, cadernp 2, fe~


. ,_

vereiro de l962, pp. 36-38, encomendado pelas Academías de Ciên-


.4

cias de Berlim, Go"ttingen, Heidelberg. Leipzig, Munique e Víena (re-


daçãoz Academia de Ciências). Edit. Akadem1'e, Berlim.
0 respeito aos grandes homens consn'rui, sem dúvida, uma
das mais Iouváveis características da natureza humana. De-
ve, no entanlo, ceder diante do respeito aos falos. Não é
preciso se ler receio de expressar um julgamemo próprio
quandofundamemado no exame dosfatos, ainda que não se
Ienha o endosso dos meslres. (S. Freud, Wiener med.
Wschr. 39, I889.)

l. Fundnmentos Filosóñcos da Teoria Psicoterapêuticn

Uma das mais citadas añrmaçoe's de Freud é aquela em que elc se re-
fere às três ocasiões em que o narcisismo da humanidade recebeu um
grande abalo. A primeira foi em virtude dos ensinamentos de Copér-
níco, a segunda, em razão das teorias de Darwin. e a terceira por cau-
sa do próprio Freud.
O tercciro abalo é o que maís facilmente nos pareceria válido.
Quanto aos dois outros,já à primeira vista, custa entender por que o
“onde” e respectivamente o “de onde" da humanidadc seriam moti~
vo de abalo. O merecimento da humanidade não é, em ncnhum grau.
diminuído pela circunstância dc que ela habíta um planeta do síste-
ma solar e não o centro do universo. AñnaL isso não tem por que
afetar a dignidade do homem, assim como a obra de Freud não se
42 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA NA FRONTEIRA ENTRE A PSICOTERAPIA E A FILOSOFIA 43

dcsvaloríza nem um pouco pelo fato de cle ter passado a maior parte Bem, ns'so nem sequer foi negado por Konrad Lorcnz. que aludc
de sua vida. não no centro da cidade de Viena, mas na nona circuns- mesmo a uma fulguração. Segundo ele. há um fator especiñcameme
críção municipaL E evidente que o mérito de um homem, ou mesmo humano, com o que a questão que unícamcnte nos intcressa - a de
da humanidade, cncontra~se num outro plano que não o da localiza- uma diferenciação qualitativa enlre o humano c o subumano - tem o
ção no mundo materiaL Em síntese, trata~sc de uma contaminação dircito de obter uma resposta empírica. No emanto. prcñro falar de
dc diferentes dimensões do Ser, de uma negligência das diferenças uma diferença dimensionaL em vez de qualitativa. A vantagcm é que
omológicas. É de tal maneira justo, no sentido de uma quesn'ojurís. os resultados elevados a díversos níveis e contraditórios cnlre si não
contestar o ponto dc vísta dc que o valor e a dignidade dependem da se mantêm num relacionamcnto de exclusão. apesar das contradi~
categoria espacial, assim como, no sentido de uma questiofacm é du- ções. Pelo contra'rio, entre as várias dimensões. aquela que é mais ele-
vidoso que o darwinísmo tenha reduzido a consciência de sí mesmo vada abrange. encerra cm sí. a que lhe é inferíor.
da humanidade, cm vez de té-la aumentado. Qucr nos parecer que a Pcrante o modelo ontológico em camadas elaborado por Nico-
geração da época dc Darwin, crentc no progresso, embríagada de lai Hartmann - segundo o qual a camada mais alta do Ser sobrelcva
progresso, não dava de modo algum a impressão de desencorajamcn- a mais baixa - nossa concepção ontológico-dimensional aprcsenta a
to - pelo contrário, mostrava-se orgulhosa de quão esplendidamentc vantagem de que. apesar da especf11'a'dade de cada fenômcno na di-
longe ela tinha sído levada pclos seus antepassados símiescos, tão mensão que lhe é própria. é preservada a cominuidade de um fenômc-
longe, efet1'vamente, que um outro progrcsso evolutivo maior na di- no para outro.
reção do “super-h0mem” cstava em cogitação. O evolucionismo Voltemos agora ao tema do homemz apesar do seu lado especiñ-
dera aos homcns tal sensação de vcrtigcm que eles de fato se compor- camente humano, o homem não deixa de ser um animal. Ser homem
tavam como se fossem “nada mais do que" mamíferos aos quais o e ser animal não estão mais em conlradição. Não há exclusão dc um
andar ereto tívesse subido a cabeça. em detrímento do outro.
Finalmente, diga-se que ondc houver dimensõcs diversas havcrá
A questão de saber se o homem é um macaco tornou-se carrega-
projeções de uma para outra. Posso projetar um fenômeno da dimen-
da de emocionalismo em virtude da idéía de que, com isso. o relato
são que lhe é própria para uma mais abaixo. Por exemploz um fcnô-
bíblico da Criação ñcava desmoralizado. 0 que me faz recordar uma
meno humano projetado numa dimcnsão subumana. Tal procedi~
velha anedota. Um talmudista pergumou a outroz “Por que Moisés
mento é lícito e até mesmo constituí a cssência da atividade cientíñca.
se escreve com e?" Ao que o outro respondeuz “E Moisés se escreve
a qua1, por motivos heurísticos, faz abstração da plun'dimensiona|i-
com e." Pergunta de novo o primeiroz “E por que não se pode escre-
dade de um fenômeno c cría a ñcção de uma realidade unidimcnsio-
›ver Moisés com e?” lmpaciente e aborrecido, o segundo contesta: nal. Esse procedimento só se torna crilicável quando afetado pela
“Mas por que se deve escrever Moisés com e?" “É o que eu lhc par-
ideologia. Nesse caso, añrma-sc não apenas que exislem no homem
guntei no início", retruca o primeiro. mccanismos disparadores inatos, mas também que o homem nada
À pergunta se o homem é um macaco, cabe contestar: Por que o mais é do que um umacaco nu”. 0 reducíonismo não se limita a pro-
homem deve ser um macaco? E a resposta seria: Porque ísso contra- jetar, por motivos hcurísticos, o humano no subumano - ele ncga em
dlZ o relato bíblico. Daí provém a carga de emoção que a questão en- geral a cxistência de uma dimensão humana c, o que é pior, o faz a
cerra. pn'ori.
Em contrapartida, não teríamos nada a objetar se se provasse O que vem de ser dito é válido não só para a relação enlre ho-
que o homem é realmente um macaco. Muito menos nos oporíamos mem e animaL como para a que existe cntre os homens. Quanto à
à evidência de traços humanos nos símios e, em tal caso, não hesí- idéia de que, no domínio da natureza. não se pode veriñcar qualquer
taríamos em chamá-los de seres humanos. O que nos ímporta é me- teleologia, essa fórmula vazia há de ser expressa prefercntemente
nos a diferença entre o homem e o macaco do que o reconhecimento como segue: demro do plano de projeçoe's da biologia ou da etologia.
do fenômeno especzfz'camente humano como irredutíveL Não é ccrto di- não se vê, de fato, nada parecido com a teleologia. Daí a concluír
zer que a natureza não dá saltos. Ela dá saltos quânticos, saltos qua- que, de um modo geraL não existe teleologia. já seria abandonar o

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litativos ou - conforme añrmam os marxistas - a quantidade se empirico e cntrar no campo da ñlosoña, e uma ñlosoña, nole-se bem.
transforma em qualidade. E assim pode também existir uma diferen- apriorística. Só nos seria permitido añrmarz no plano de projeçõcs de
ça qualitativa entre o homem e o animal. Konrad Lorenz, não se constitui réalmente uma tcleologia. Poder-se-

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44 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSlOTERAPlA NA FRONTEIRA ENTRE A PSICOTERAPIA E A FILOSOFIA 45

ia contudo falar de uma leleologia negativa - análoga à chamada teo- mesmo. A partir daqucle dia, añrmou Rogcrs, ele passou a acredilar
logia negativa. que se recusa a dizer o que Deus é, limítando-se a di- dc novo na líberdade da vontadc humana.
zer o que Ele não é. E se Konrad Lorenz renunciasse à negação da A cssc rcspeito, rccordo-mc de um epísódio que se passou cntrc
possibilidadc de uma telcologia no sentido acima formulado, não só um emincnte psicanalista nortc-americano e um logoterapcuta curo-
faria jus ao Prêmio Nobel pela sua capacidade cientíñca, como se peu. Estc último convidou o primciro a acompanhá-lo na escalada dc
tornaria candidato a um Prêmio Nobel que ainda não cxíste, o da sa- uma montanha. diante do quc o psicanalista abanou a cabcça e fmal-
bedoria. Sabedoria, no ñnal das comas, pode-se deñnir como saber - mente pedíu quc comprcendesse o horror com que encarava todo
c simultaneameme a consciência dos Iimites de Ial saber. tipo de aventura alpinístíca. É que - explicou - na infâncía, o pai 0 lc-
Voltando a falar de Freud. foi ele próprio quem se referiu ao psi- vara a cxcursões entediantes e cansativas. 0 logoterapcuta retrucou -
e aí está o picantc da coisa - que a cle também o pai, na ínfância. car-
canalista como sendo um “íncorn'gível mecanicista e materialista". “
Só que nos dias de hoje daremos menos ênfase ao termo “materialis- regara para passeíos longuíssimos que o deixavam exausto e por isso
ta”, nesse contexto. 0 essencial é a negligência pela psicalálise de eram temidos e odiados. Daí, ao sair da infância, tcr-se tornado_alpi-
nista...
dois aspectos que, a par da espiritualidade. fundamentam o ser-
homcm: liberdade e responsabilidade. Em outros termos, o determi- Em face do grande nu'mero, abstraindo-se do cálculo das proba-
nismo é o que torna tão característica a imagem do homem elabora- bilidades estatísticas, uma previsão psicológica é um absurdo. A pes-
da pela psicanálíse (ver “Determinísmus und Humanismus“, no meu soa mais meñstofélica que jamais encontrei foi o Doutor J., meu co-
livro Der Wille zum Sinn). lega de Faculdade, conhecido como um matador em grande escala.
Certamente, Freud cultivava o determinismo só na teoria. Na Era elc com efeíto o encarregado da eutanásia no chamado Pavilhão
prática, não chegava a ser cego para a liberdade, tanto que queria al- de Tratamento dos Psicóticos de Viena. Orgulhava-se de que ne-
terá-la. Ao defmir a meta que a psicanálise se propunha, estabeleceu nhum doente lhe tinha cscapado. Ele próprio. depois da ll Guerra
que se tratava de “dar ao ego do indivíduo doente a liberdade de se Mundial, teve sua punição. Alguns anos após o término do conñito,
decidir por isso ou aquilo” (sublinhado no original de Freud). procurou-me em meu consultório um diplomata austríaco cm busca
O argumento de que a psícanálise é pansexualista caíu em desu- de um parecer sobre as conseqüências, no domínio psíquíco, dos
so. O que, agora como antes, nela pode ser criticado é sua tendéncia anos que passara em campos de concentração. “Não conheceu o Dr.
para o que eu chamo de pandeterm1'm'smo, embora já se note que as J.?” pcrguntou-me. Em virtude de meu aceno añrmativo, prosseguiuz
muralhas do pandeterminismo sofrem um processo de inñltração. “Partílhei com ele uma cela da conhecida prisão moscovita de L., an-
Queremos apenas cítar uma añrmação do psícólogo americano Ro- tes de minha libertação. E lá ele morreu de um câncer na vesícula.
gers 1 feita no decorrer de um símpósío de Psicologia Existencial e ainda relativamente moço. Uma pena, pois era o melhor dos co'mpa-
Psicoterapia, em Cincinatti, a 4 de setcmbro de l959, díante da Socie- nheiros, ajudava sempre que podia, consolava a todos que sofriam...
dade Americana de Psícología, no sentido dc que o mais chocante devo dizer que era como que um santo." Nesse caso, único em seu
para os psicólogos norte-americanos tradicionais é ouvir falar no ho- gênero, uma conclusão rcflexiva e antccipatória sobre a aparcnte en-
mem como se se tratasse de uma crialura livre e responsáveL Um dia, carnação de um princípío dcmoníaco ao longo de uma vida e até seu
porém, um dos alunos de Rogers fez uma dissertação que denotava ñm teria me induzido a um erro.
de forma evidente que uma análise exata dos fatores estatísticos não A atitude do médico, seja ela em conformídade com o pandeter-
conduzia aos resultados esperados, isto é, que o modo mais adcqua~ minismo, que nega a liberdade, ou favorável ao reconhecimento da
do dc ñxar as chances de reíncídêncía de um delínqüente scria o exa- liberdade, e até mesmo estimulando o paciente nesse rumo, redunda
me detalhado das suas condíçoc's socíaís e familíares; pelo contrário, scmpre em beneñcio da prímeira opção, ainda que não haja formula-
0 que ressaltava do trabalho era a importância da compreensão de sí ção expressa quamo a isso no decorrer do tratamento. A professora
mesmo do índivíduo ou, como dízemos, a capacidade de entrar em si Edith Weisskoff-Joelson, da Universídade de Purdue. no Simpósio
Unitarista n9 12, a 13 de novembro de l959, em CincinattL declarouz
“A maioria dos psicoterapeutas deste país está convencida de que o
I S. Frcud. 0bra:. Edição de Londrcs. vol. XVlL p. 29,
terapeuta não deve. em hipótese alguma, inñuenciar o paciente no
2 C. R. Rogers, “Discussion". Exislencial lnqu1'r¡es. l. l960. nV 2 pg. 9. que se reñra a um sistema de valores qualquer. Acata-sc a idéia dc
46 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA NA FRONTEIRA ENTRE A PSlCOTERAPlA E A HLOSOHA 47

quc o lerapcuta não dcvc dc modo algum guiar o pacíeme - pelo con- 2. Questoe's Filosóñcns no Limite da Prática Psicoterapêuticn
trárío, dcve límitar-se a ajudá-lo a desenvolver sua personalídade.
Tais lcrapcutas, naturalmentc, falam muito pouco durantc as ses- A intcrpretação do semido pressupõe que o homem scja cspirixuaL
sõcs; uma exprcssão, contudo, que usam com freqüência é 'hum. assim como a realização do sentido pressupõe que clc seja Iivrc e rcs~
hum'. Sc os scnhores invcstigarcm essc díálogo terapêutico, conclui- ponsáveL Estes três fatores da existência só nos são accssíveis quan-
rão que 'hum, hum' é uma exprcssão dc grande força e que, em deter- do os seguimos até a dimensão noológica. na qual o homcm. tendo sc
minadas circunstâncias, pode equivaler a uma Iavagem cerebraL Na soerguido desde a dímensão psicobl'ológica, se constilui como ho-
mem. Já no nível do biológico e do psico|o'gico. nola-se a lendéncia
Uníversidadc de lndiana fcz-se uma expcríência na qual se pediu a
um estudante de psicología que díssesse todas as palavras que lhe vi- primária do homem para sc orientar no rumo do scnlido. o quc. no
nham à mente; todas as vezes que usava um plural - “mesas', por aspecto negativo. representa propriamemc a sua frustrucão. É sabido
cxcmplo - o pesquisador comentava *hum. hum'. Depois de algum que a interrupção de excitação scnsorial - 1a| como ocorre nos expe-
lempo, o estudantc passou a empregar maior número de palavras no rimentos que antecedem as viagens espaciais - pode suscitar alucína-
plural do que o fazia no inícío da experiência. “Hum. hum' é, por ções. Pesquísas feitas em Yale e Harvard indicam. todavia, quc os
consegu1'nte, uma poderosa expressão." efeitos veriñcados não dccorrem da ausência de cstímulos, mas espe-
ciñcameme da ausência de estimulos signiñcutivos. do que os autores
A “transferência" inconscieme da visão, do homem e da imago dos trabalhos concluemz “Para funcionar, um cérebro precisa. nor-
mundi do médico para o pacícnte pode tornar-se cspecialmente dis- malmente. de um contato contínuo e signiñcativo com o mundo cxle-
cutível se o homem é visto implicitamcnte como uma criatura verda- rior." 5
dcira ou. pelo menos. originariamcnte voltada para a satisfação dos
ínstintos e orientada por um hípotétíco princípío de homeostasc que A ñnitude do espírito humano faz com que somcnlc Ihe seja
visa aquietar o “aparelho psíquic0" cxcitado pelas nccessidades acessíveL em cada caso, um 5cntido parliculat 0 scntido do lodo ex-
(Freud). 3 Se o ser humano foí reduzido pela primeira fase da psica- cede a capacidade perceptiva do homem. e à “procura de semido" só
nálise ao seu aspccto do “tem de ser”, a “nova psicanálise" - não me- pode corresponder um conceil0-limite. como 0 “supcrscntido". ”
nos unilateral - enfatizou apenas a auto-realizaçâo, o aspecto “poder Neste ponlo, o saber cede diante da fé. Pode ser demonstrado casuis~
ser". "A teoria da auto-rcalização considera que a meta da existência ticamentc que a fé no supersentido é o que há dc mais evidenlc e na-
é o desdobramento das melhores possibilidades a ñm de se conseguir turaL tão logo o caminho lhc seja previamente facilitado pelo exercí-
a completa satisfação do próprio indívíduo” (Charlotte Bu"hler),4 cio da reflexão, o “esforçar-se do conceito". Um diu, em uma sessão
com o que a problemátíca do valor, que averigua quais as “melho- de psícoterapia de grupo organizada pelo mcu assn'stente. Dr. K. Ko-
res" possibilidades a desenvolver, é reprimida. courek, cstava em pauta o caso de uma mulhcr que reccntcmenlc per-
Em contrapartida. achamos que as possibilídades de que se trata dera 0 ñlho de l l anos. em conseqüéncia de perfuração do upêndice.
são as que se refcrem ao cumprímento do sentído e da realização de restando-lhe um outro. de 20. que. padecendo dc Morbus little. só sc
valores. O fato de que essas possibilidades scjam transitórias. de que locomovia numa cadeira de rodas. A mãe, desesperada. eslava à bei-
elas. se não efetivadas. desaparecem deñn1'tl'vamentc. Ieva-nos a pro- ra do suícídío. Então. intervim e exortei uma jovem prescnte a im-
clamar que o homem não só é lívre, mas responsáveL Na verdade, ele provisar. imaginando~se no lugar de uma anciã de 80 anos. na imi-
é responsável pela concretização das possibilidades transitórias. pelo nência da mortc. e pcdi-lhe que contcmplasse relrospectivamente sua
vida, uma vida chcia de prestígio sociaL éxitos amorosos. porém
precnchimento do scntido de sua exislêncía pessoal, em especíal das
situaçoe's concretas que ela apresenta, e assim, mediante tal realiza- nada mais do que isso. Que diria ela a si mesma'? “Vivi uma hoa vida.
ção, ele as eterniza, uma vez que elas ñcam para sempre realízadas. fui rica. mimada. Ievei homens à Ioucura. e não mc privci de nada,
Realizar algo signiñca precisamente introduzir o elemento transilório Agora sou velha, não deixo ñlhos, c devo rcconhccer quc. cslrita-
no passado, de modo a obrigá-lo, anínhá-lo para sempre.

J S. Frcud, Obras ('omplela5. vol. Xl, p. 370. 5 J› M. Davis. W. F. McCourl e P. Solomon. “Thc Effcct of visual slimulalion on
4 C . Bühlcr - “Dic Wcrtproblemdik dcr Psychotherapic". Handbuth der Neurosemble hallucinatíons and olhcr mental expcrienccs during sensory dcprivalion". Amen J
und Ps_vcha(llemp¡e, organizado por V. E. FrankL V. E. Gcbsaucl e J. H. Schullz. vol. P.\'_l't'hlafrvl', I|6. 889. 1960.
VL Munique, Bcrlim. l960. 6 chu-se Ãrlzliche .S'eelwrge, l" edição. Vienu. l946.
48 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSlCOTERAPlA NA FRONTEIRA ENTRE A PSICOTERAPIA E A FILOSOFIA 49

mentc falando, minha vida foi um fracasso. pois da vida nada se leva. civilização foi sempre acompanhada por um coro de vozes. cm todos
Para que fui posta no mundo?" Dcpois, convidei a mãe do aleijado a os tons, manifestando ansiedade diante da possibilidadc dc que a
tomar 0 scu lugar e dízer o que ela pensariaz “Desejei ter ñlhos e meu vida viesse a ser abafada pelo gigantismo do intelecto. Hoje essas vo-
dcsejo foi satísfeito. 0 mais moço morreu, ñquei com o 0utro. Se eu zes adotaram um tom de agressiv1'dadc.“ 7
não estivesse presente, nada de valor se conseguiria dele; seria jogado Por isso dcveríamos cuidar para que a agressão conlra o espírito
no pavilhão de idiotas dc algum asilo. Coube-me fazcr dele um ser não venha a se descnvolver numa regressão ao obscurantismo.
humano. A minha vida não foi nenhum fracassa Por mais dura que
tenha sído. ela me ofereceu oportunidades de levar a cabo inúmeras
tarefas. o que a fez signiñcativa De agora em diamc.já posso morrer
tranqüíla." Somente soluçando pôdc cla pronunciar estas últimas pa-
lavras. Scus companhciros de grupo concluíram, com basc nesse ca-
so, que importa menos saber se a vida de um homem é prazerosa ou
pcnosa do que saber sc ela tem scntído. E sua duração maior ou me-
nor é um fator secundárío. no caso.
Não baslou. Sentindo que a questão do sentido do sofrimento
não fora discutida a fundo, acrescenteiz "lmaginem um macaco ao
qual se aplicam injeções dolorosas necessárias para a preparação de
um soro contra a poliomielite. Poderá ele chegar a compreender que
scu sofrimento é necessário e qual a sua causa? Na verdade, cle é in-
capaz de sair dc seu mundo e acompanhar o homem em seus raciocí~
nios. O mundo dos homens, u_m mundo de valores e de sentido. não
lhe é acessíveL Não consegue penetrar na dimensão do humano. Mas
será o mundo dos homens o ponto ñnal da víagem. de forma a não
haver nada a|ém? Não scria mais legítimo supor que, acima do nosso
mundo, há um outro que não conseguimos alcançar, cujo sentído,
cujo supersentido, podcria dar ao sofrimento do homem na terra um
sentído?"
O'me'dico dos nossos tempos deve ter a coragem de se envolver
nesses diálogos socráticos, de levar a sério sua missão de tratar não
só de enfermos, mas ae homens. A dúvida quanto ao semido da vida,
o desespero de um índivíduo diante da aparente ausência de sentído
não constitucm uma doença, mas uma das possibilidades da natureza
do homcm. Enquanlo anligamente 0 aturdido e o desesperado bus-
cavam auxíliojunto ao sacerdote, hoje eles se dirigem, para conselho
e orientação, ao médico. Essa situação não só permite, como de certo
modo obriga o médico a enfocar - para além da enfcrmídade corpo-
ral e psíquíca - a necessidade espiritual do paciente como uma carac-
terística inerente ao ser humano, e não como um traço mórbido.
Scría tão inaceitávcl acusar-nos de transposição de limites quan-
to de supervalorização do espirituaL Podcríamos opor a esses maus
agouros provenientes das ñleiras da psicanálise o que um eminente
psicanalista enunciou: a História não nos mostra nenhuma época
caracterizada por um excesso prejudicial de espírito. A evolução da 7 H. Hanmanm “lch-Psychologie und Anpassungproblcm". Psyrhe. l4. 81. l960.
Monantropismo

Palestra proferida durante a conferência internacional sobre “0 Pa-


pel da Universidade na Guerra e na Paz“.
(Viena, 25 a 29 de agosto de 1969)

A princípio, experimcntei certa resistência a aceitar o convite para fa-


lar nesta assembléia. Sou um tanto cético quanto aos resultados que
possam eventualmente ser alcançados em reuniões deste tipo. Muito
frequ“entemcnte, nelas nos deparamos com uma ingenuidadc que nos
faz lembrar a história daqueles soldados que de repente caem numa
emboscada e se tornam alvo de inimigos escondidos nas copas das
árvores. Fogem. mas um deles, que ñcou para trás. gríta na direção
dos franco-atiradorcs: “Parem de atirar! Não estão vendo que somos
homens."
De mais a mals, não sou como aqueles psiquiatras possuídos de
um sentimento de onisciéncia e onipotência que os leva a agir como
diletantes no campo de outras disciplinas. No's, psíquiatras. ignora-
mos a cura da esquizofrenia, para não dizer que desconhecemos sua
verdadeira natureza. E poderíamos añrmar que sabemos como aca-
bar com a guerra? Não acreditem mais n_a onisciência do psiquiatra -
é um míto. E não acreditem mais na onipotência do psiquiatra - é
uma superstição. Só a ubíqüidade do psiquiatra é uma realidade, a
julgar pelo que se vê nos congrcssos internacionais.
Não é, porém, de cxcluir que a psiquiatria tenha algo a oferecer
no âmbíto do tema que nos ocupa. Existem. decerto. paralelos entre
a patologia individual e a sociaL Há mecanismos ncuróticos. como 0
círculo vicioso da angústia de expectativaL Se o desejo é o pai do pen-
52 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSlCOTERAPlA MONA NTROPISMO 53

samento. o medo é a mãe do acontecimenta. Quanto mais um confe- a realizar. lsso não deve também ser válido para a humanidadc c sua
rencista receia enrubescer ou títubear, tão logo entra em ccna. mais sobrevivência?
clc enrubesoc ou títubcía. 0 mcdo produz, portanto, aquílo de que se Se devemos determinar valores c um sentido que tenham aplica-
tem medo. Este efeito conñrma e rcforça o medo inicial e é, por sua ção geraL então a human1'dade. dcpois de ter passado milénios sob a
vez. acentuado pclo medo suplementar. Não seria concebível que influência do monoteísmo. deverá dar um grande passo adiante. en-
também o medo da guerra provocasse a guerra? E que pudesse ser caminhando-se para o saber do homem. Aquilo de que mais prccisa-
desenvolvida uma técnica, assím como no tratamento da neurose. ca- mos hoje é de um monantropísma
paz de romper cssc círculo vicíoso?
Nesse contexto, vem-mc ao cspírito não só o mecanismo da neu-
rose. mas o da psicose. Existem pacientes acometidos do delírio de
perseguição para os quais foi cunhada a expressão “persecuteur per-
secute'“. Só posso constatar que tais pacicntcs, logo que param de ob-
servar os outros para ver se estão sendo seguidos, deixam de sentir-se
perseguídos. Em geraL a desconñança gera a desconfiança no inter-
locutor, e por esse mcio se conñrma e se reforça. Não havcria nos cri-
térios sociais um paralelo aplícável à prevenção da guerra?
A guerra. como se sabe. foí deñnída como a polítíca defendida
por outros meios. Isso, no entanto, só vale para um dos doís tipos de
política que costumo dístinguir. Para um lipo de política, osfms apa~
rentemenzejusuflcam os meios. 0 outro tipo, pelo contrârio, sabe mui-
to bem que existem meios capazes de estragar os fms mais puros.
É claro que tudo ísso, afmaL vai dar numa questão dc valores. O
que é o “ñm"? Quando se trata de um valor - há valores reconhecí-
dos por todo um grupo? E há denominadores comuns a respeito da-
quilo que, para esses grupos, constitui o valor da vida?
O que é possívcl vcriñcar é o seguinte: sobrevíver apenas não
pode ser o mais alto valor. 0 ser-homem sígniñca ser dirigído no
rumo de, e subordínado a, algo que é mais do que o índivíduo. A
_existência humana caracten'za-se pelo fato de transcender a si mes-
ma. Tão logo a exístêncía humana deixa de se transcender, o perma-
necer em vida se toma sem sentido e ímpossíveL Foí pelo me_nos a li-
ção que me coube aprender em três anos passados em Auschwitz e
Dachau, ' c os psiquiatras militares em todo o mundo puderam vcrí-
ficar que os prisioneiros mais aptos a suportar o cativeiro eram os
que tinham algo por que esperar, 2 um objetivo no futuro, um sentido

l No caso do conTnnamento, a oricntação para o scntido é uma condiçâo neccssárfa


da sobrcvívéncia. Milhões morrcram em Auschwitz. cmbora conhecessem o scntido
da vida. Sua fé não lhes pôdc salvar a vida. No entanto, graças a cssa fé. puderam ca-
minhar para a mortc dc cabcça erguida. conformc eu disse na palestra que profcri na
inauguração do lnstítuto de Logoterapia da Universidade lnternacional dc San Dicgo.
Calífórnia.
2 Lc Shan examinou 450 canccrosos e descobriu que o começo da docnça coincidia
com o momenlo em que cles haviam deíxado dc se orientar com rclação ao futuro.
Para uma Antropologia do Esporte

Rclatório complementar para um simpósio cientíñco internacional


promovido pelo comitê de organização dos Jogos Olímpicos de Mu-
m'quc, l972.

Foi-me assegurado que aqui eu poderia falar de esporte no scntído


mais amplo, ou scja, na qualidade de fenômeno humano, aquém da
degradação e do abuso. O acesso a esse fenômeno é a priori barrado
enqua_nto nossa análise se apoiar num modelo antropológico que vê
no homem uma criatura que tem necessidade e tende a satisfazê-las e
que sc concentra em atingir objetivos, aliviar tensões e restabelecer o
equilíbrio interior.l Em outras palavras: essa antiquada teoria da
motivação insiste no conceito da homeostase, plagiado da b1'ologia.c
que na biologia já perdeu seu valor. Dc há muito Ludwig von Berta-
lanffy pôde demonstrar que fenômenos biológicos importantes,
como o crescimento e a procriação, não podem ser explicados à iuz
da homeostase. Kurt Goldstein, eminente patologista cerebraL indi-
cou, por seu lado, que somentc o cérebro avariado procura a todo o
preço cvitar tensões. Quanto a mim. sou de opinião que o homem
não procura atingir certo estado interior, de homeostase ou outro
qualquer, mas sim procura voltar-se para as coisas e as pessoas no
mundo (a menos que seja neurótic0), sem tratá-las como meios para
.
'-*'-;
<›, ñz

l Claparêdc considerou que a neccssidadc é a expressão dc uma pcrturbaçào do


equilíbrio. cnquanto a satisfacão rcprcsenta o sinal da recupcraçào dessc equilíbrio (ci-
wvw

tado conformc Jean PiageL Theorie und Melhoden der Modemen Erziehung, Moldcm
Vicna. l972. p. 281).
M3mm:m
56 FUNDAMENTOS ANTROPOLÔGICOS DA PSICOTERAPIA
PARA UMA ANTROPOLOGIA DO ESPORTE 57

mem uma tarcfa ligada a clc, pessoalmentc, c. por isso, criadora dc


conscguir um ñm, o da satisfação das necessidades. As coisas e as
uma tcnsão adcquada. surge uma “neurosc noogênica" '
pessoas (parcciros) valem, para ele. cm si mesmas. Dilo de outro mo-
do: a cxisténcia humana é caraclerizada por sua “autotranscendén- 2. 0 homem, como eu disse, procura tcnsões. bs'pecia|mcntc. procura
cia". 2 que reprcscnta o único caminho para se conquistar a auto- tarefas signiñcativas que lhe proporcioncm uma “lcnsão sadia". Em
realização. outras palavras: exístc o que chamci de “vontade de scnlido". Este
O que entendo por autotranscendéncia nada tem a ver com o conceito já dc há algum tempo foi conñrmado pela experiéncia. Não
Além; siginiñca que 0 homem é tamo mais humana quamo mais é ele ê este o momento de rclatar as pesquisas fcitas a seu respcito. Limito-
mesmo. quamo mais ele se supera e se esquece a si próprio na dedica- me a citar uma estatística publicada pcla maior auloridndc cm ps¡-
ção a uma tarefa. a uma coisa ou a um companheiro. Eu não sei scjá quiatria nos Estados Unidos, o National lnstítutc of Mcnlal Health,
ocorrcu aos senhores que o olho humano também é autolranscen- por onde se vê que, entre 8.000 cstudamcs de 50 univcrs¡'dadcs, 16/,,°
dentez sua capacidadc dc perceber o mundo circundantc depende, ab- pretcndiam, no decorrcr da vida. "1o make a lot ofmoney” (“ganhar
solutamcnte de que ele não seja capaz dc se perceber a si mesmo. muito dinheiro"), enquanto a maior pcrccntagem. 78/°°, añrmou sc
Quando é que o olho se vê a si mesmo - cxceto no espelho? ocupar de “tofmd a meaning and purpose in their lives" - "cncontrar
Quando sofre de catarata, então enxerga uma névoa, que corres- um sentido e um propósito em suas vídas". '
ponde à turvação do próprio cristalino; quando padece de glaucoma, 3. Hoje acontece que o homem não se mostra capaz dc dotar sua vida
divisa cm torno da fome de luz um halo com as cores do arco~íris. Da de um sentido. Ele não está mais, como na época dc Freud. sexual-
mesma forma, o homem consegue auto-realização quando sc esquece mente frustrado, mas existencialmente frustrado. E sofre menos de
de si próprio, dedicando-se a uma pessoa ou sc entregando a uma um sentimento de ínferioridade, como no tempo de Alfrcd Adler. do
coisa. que de um semímento de carência de senlid0. de "vazio cxistencial" *,
Para retornar à hipótese dc que toda motivação é condicionada como o denominci. No século passado, Schopenhaucr ensinou que o
pelo princípio da homeostase, devo contrapor a ela as quatro tcses homem oscila entre doís extremos, a necessidade e o tc'di0. e hoje o
seguintesz pêndulo está na scgunda extremidade. Na sociedadc afluentc, há
l.O homem não tende a evitar tensões a qualquer preço, pelo contrá- muito dinheiro, não há um objctivo de vida. As pessoas lêm de que
rio, o homem precisa de tensões. viver, não para que viver. A disponibihdade de tempo, o lazcr. au-
2. Outrossim, 0 homem procura tcnsões. menta nas várias camadas de nossa socicdade, mas não se sabe em
3. Hoje, ele encontra pouca tensões. que empregar, dc maneira signiñcativa. o tempo adquirido. Na socie-
4. Por isso é que cria tcnsões. dade afluente existe muito pouca tensã0. Em relação aos períodos
Vejamos uma por uma. anteriores, o homem está em melhor situação no que tange a priva-
l. Êcvidente que não se trata de esmagar o homem com uma tensão çõcs e tensões. por isso é menos capaz de suportá-los. seu limite de
giganlesca. O de que ele precisa é de uma tensão sadia. dosada. Não é tolerância baixou. Nessa situação, comprova-se que Holderlin tinha
apenas a exigência excessiva da vida que pode tornar-se patogênica;
a ausência de exigências, de tensões, pode também vir a sê-lo. Werner
Schulte falou, nesse contexto. em “sinal” de doença neurovegetativa.
Hans Selye, que cunhou o conceito de “stress". qualiñcou-o de “0 sal 3 Viklor E. FrankL Logox und Exmenz. Amandus - Vcrlag. Vicnu. l951. p. 88.
da vida". De minha parte, acho que o homem necessita de uma ten- í. 4 0 mesmo sc obscrvou _nas_sondagcns realizadas emre adultos pelo Survey Research
são espeaf1'ca. como pode ocorrer num campo tensional polar entre Ccmer, da Univcrsídadc de Michigam quc intcrrogou l.533 Imbalhadorcs e veriñcou
iY que o salário sc siluava cm quinto lugar entrc suas cogitaçóes. A contraprova é dada
ele e um sentido, que espera dele, dele exclus¡'vamentc, uma atitude
pelo psiquíatra Robert Colcs. ao qual os lrabalhadores se qucixaram da "fnlta de scn-
que o realize. Uma prova disso é que quando a vida não exige do ho- \,

tido". Joseph Satz da Universidade dc Nova York prcviu que a nova safra dc pcswal
na indústria se mostrará interessada cm proñssões que façam scntido, e não em dinhci-
ro. O American Council on Educalion, analisando sob esse aspecto l71.509 cstudan-
tes, dcscobríu que 68,°,,/ dclcs dcñncm como objetivo na vida “seguir uma fllosoña que
2 Viklor E. FrankL “Grundriss dcn Existcnzana|yse und Logotherap¡'e“. in Handhudl
dê semido à vida". ou seja. adquirir a convicção de que a vida lem um semido. (Ro-
der Neurasenlehre und Psycholerapx'e, organizado por Viktor E. FrankL Victor E. von
ben .l. Jacobson. The Chronicle oj Higher Educan'on, 1972).
Gcbsattcl e J. H. SchullL Vol. ll|. Urban & Schwarzcnberg. Muniquc/Bcr|im. I959.
5 Viklor É. FrankL Palologie des Zeilgeistes, Dcuticke, Viena. l9$5. p. 84.
p. 690.
rrr
58 FUNDAM ENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPlA PARA UMA ANTROPOLOGIA DO ESPORTE 59

razâo ao dizcr: "Onde cstá o perigo. astá o reméd¡o“. Conforme ve- SherilÇ quando mencionou o caso dos jovens quc “csqucccram" sua
mos na minha tesc seguinte... agrcssividadc ao se unirem no esforço comum para cmpurrar um car-
4. O homem cria artiñcialmente as tcnsões que lhc faltam. No seio de ro atolado. É também minha convicção a de que a humanidade só tc-
uma socíedade de abundância, ele começa a se privar de coisas, en- rá uma chance de sobrcviver se cncontrar uma tarcfa quc todos pos-
gcndra situações dc necessidade. Fabrica, por assim dizcr, “ilhas de sam descmpenhar solidar1'amcnte, animados por uma mcsma vonta-
asccse" no seio da opulência. E aí vejo a função do esportez trata-se de de cncontrar um scntído. Quando sc mostram os homcns mais
de uma asccse secular, moderna. Numa época em que o homem não agressivos? Ouçamos o que ensina Robcrt Jay Lifton, o conhccido
anda - circula dc carro. não sobe cscadas - loma o elevador -. cle psiquiatra social: "Men are mosl apl to k¡ll when Iheyfeel overcome by
resolve escalar montanhas. Cria. porlanto, necessidades artiñciais. meam'ngless" (“Os homens eslão mais dispostos a malar quando sc
Ele. o “macaco nu”. como o designa o título dc um besI-seller, não sentcm esmagados pcla falta de sentido").
scnte mais nÀecessídade de trepar em árvores. então galga rochcdos.
É nesse sentido que um oentro de reabiütaçâo pma dclinqücntns juvo~
Neste momento, devo rcstringir. porém, o signíñcado que dou às as-
caladas, o que só é válido até o terceiro grau das diñculdades. Nc- nls na Califórnía pôde apresentar resultados supcriores à média rc-
nhum macaco realizou proesas nesse terreno. E estou convencido de gistrada em escala nacionaL conseguindo manter a taxa de reincidên-
que o famoso macaco que domina os rochedos de Gibraltar não seria cia no nível de l7/¡,°, em vcz de 40,°/°. O descmpcnho consisliu cm lc-
var os jovens a reenconlrar um sentido para suas vidas.
capaz de subir no Pão de Açúcar do Rio de Janeiro. como o fez, há
algumas semanas. uma dupla composta de um tirolês e um bávaro. Outrossim. a socióloga da Pennsylvania Statc Univcrsity. cm
Rccordemos a deñnição do sexto grau das diñculdadcs. “nos limites seu relatórío. afirmou ser falsa a ídéia popular de quc a compctição
esportiva é uma guerra artiñcial sem derramento de sangue. Três
das possibilídades humanas”. Assim. o alpinista mais desenvolvido
não cria apenas necessidades, explora possíbilídades. Elc gostaria de grupos de jovens isolados num campus, entregues a uma competição
chegar até onde vão os “limitcs“ das possibilidades humanas. E ve- esportíva, organizaram a agres_sividade dc uns contra os outros. em
lugar de atenuá-la. Segundo o professor Gluckman. de Manchastcr,
jam bem. assim como o horizonte se afasta à m'edida que dele nos
aproximamos. assim também ocorre neste caso. os jogos não reduzem e sim estimulam a agressividadc.
Somos gratos à professora Sher1'f, dos Estados Unidos, pela ati- Já destaquci que, na moderna socicdade aflucme. 0 esportc é
tude de distanciamento que tomou, em relatório anterior ao meu, uma forma de ascese leiga. Acrescenlei que o homem tem curiosida~
com relação ao conceito mecanícista, subumano do chamado poten- de de investigar os limitcs de suas potencialidades, os quais. conludo,
cíal agressivo. ° A visão do homem como um ser que reage agressiva- se dístanciam à medída que ele avança. o quc o lcva a transccnder
mente, fazendo da agressividade uma válvula de escapc de tensões ín- sempre a si mesmo. Na competição csportiva. compete consigo mes-
terioresx, um ser que toma os objetos e as pessoas como meíos para mo, é o seu próprio adversário. 7 Sc cfetivamente isto não acontece. é
atingir detcrminados ñns, essa visão pressupõc por base um sistema o que deveña pelo menos acomecer em beneñcio de melhores desem-
penhos. Dizendo ist0, não falo como moralista. mas como psiquia-
fechado. Ao contrário. vejo o homem como um ser caracterizado
pcla autotranscendêncía, aberto ao mundo, voltado para o sentido tra. Nessa condição, seí que uma dose excessiva de intenção ou um
da vida e tendido ao encontro com outros seres humnos (parcciros). excesso de atenção - o quc a logoterapia desígna respectivamenle por
Quanto à alternativa, a senhora Sherif nos advertiu contra a ilusão hiperintencionalidade c híper-reflexão - constituem uma desvanta~
da sublimação, a idéia de que a agressividade possa ser canalízada gem. Podem, por exemplo, prejudicar não somente o desempenho se-
para objetivos superiores, de forma inofensiva. Esse modelo mecani- xuaL mas a capacidade de gozo. Na proporção em que nossos pa-
cista, subumano do esporte não é correto. só prejudicaria a com- cicntes masculinos se concentram em demonstrar sua potência. já se
prcensão do mesmo. mostram impotentes. 0 mesmo sucede com as pacientes femininas
Não sou contra a exploração da agressã0, sou a favor de sua hu- que se tornam frias quando querem provar sua capacidade de atingir
manizacão. Um exemplo nos foi dado anteriormente pela senhora

6 Curolyn Wood Shcn'f. lnlergroup Conflivl and Compeliliom Social-Psychological 7 Em oulro tcrmos, nâo devc dízcr “l am 1hegrealesl" (eu sou o maior) como Cnssius
Analnixz (Congresso Cienlíñco. XX Jogos 0Iímpicos. Muníquc. 22 de agosto de Clay. e sim, como na pcça de Nestroy. Judire e Holofernes. a exemplo do scgundo per-
l972.) sonagem do título. “agora vamos ver quem é o mais forle. eu ou eu!"
60 FUNDAMENTÕS ANTROPOLÓGICOS DA PSlCOTERAPIA PARA UMA ANTROPOLOGIA DO ESPORTE 61

o orgasmo. De acordo com o que costumo ensinar aos mcus alunos. sado na atitude mcntal e seus cfeitos eventuais no dcscmpcnho das
o prazcr sc csquiva quanto mais concentramos nele nossa atenção. equipes. Acredito que a Logoterapia possa scr utilizada com relação
Da mesma forma, no esporte, o alvo é tanto mais diñcil de conquis- a situações que surgcm no atlctismo. como ansicdadc anles dos jo-
tar quanto mais nos ñxamos nele. gos. brigas por causa de derrotas. falta dc conñança. sacriñcio, dedi-
A melhor motivação na competição é a que leva alguém a se me- cação, e atletas causadores dc problemas. Olhando retrospecu'va-
dir com outro, embora não o queíra, dirctamente, vencer. Quanto mente para minhas experiências como treinador. percebo episódios
mais o competidor pcnsa na vitória, mais ñca tenso. envolvcndo comportamcnto tanto de grupos quanto dc indivíduos
llona Guscnbaucr. atual recordista mundial de salto em altura, que podcriam ter sido solucionados por meio da Logoterapia. lntc-
disse numa cntrevístaz “N ão devo mctcr na cabcça que tenho de ven- resso-me particularmente pelos resultados a sercm obtidos com o rc-
ocr“. Em ocasião anterion llona, no auge da disputa com a recordista curso ao conccito da intenção paradoxaL Parece que essa técnica
mundial Jordanka Blagojewa, na semiñnal da Copa da Europa em também é útil no caso de incidentes no campo em torno de resultados
Varsóvia, anunciaraz “Para mim, só o que conta é a vitória". E acon- contestados.” A Logoterapia. ao que tudo indica. portamo. não tem
teceu que ela, que no correr do ano fora a melhor do mundo. com a seu âmbíto restrito às perturbações sexuais ou proñssionais (tcatro),
marca de l,9l m, alcançou someme l,90 m na primeira tentativa, en- mas é suscetível dc ser empregada no esporte. '
quamo a então detentora do título mundiaL Jordanka. atingiu l,92 m,
colocando-se assim na líderança dos mclhores do ano.
Um outro casoz num jogo eliminatório entre Àustria e H ungria.
o score. no intervalo, era 2x0 a favor da segunda. Os jogadores
austríacos, conformc relatou a ímprensa, chegaram ao vestiário al-
quebrados. pessimistas e desanimados. Instantes depoís, saíram con-
ñantes. Que ñzera naquele meio tempo o treinador Leopold Stastny?
Ele disse aos jogadores que ainda havia possíbilidade de vitória, mas
que. em todo o caso, admitia a idéia da derrota, com uma condiçãoz 8 A esse rcspcito. o técnico dc natação Warrcn chfrcy Bycrs teslcmunhouz “Todo
a dc que fosse mostrada ao público até o apito fmal do juiz uma par- lreínador sabe que a tcnsão é o grande inimigo do bom dcscmpcnho. A cnusa funda-
mcntal da tensão é a prcocupacão cxcessiva com a vitória (ou scja. a hipcrintencionali-
tida ideaL não importando que o score fossc de 2xl ou 4xl. dadc relativa à vitória). No momcnto cm que isso ocorre. aperformance é prcjudicada.
Não quero dizer que seja prejudicial que o desportista acredite O atlcta conccnlra-se cm observar o oponcntc. De minhu panc, quando cslou às vol-
na sua vitória, Como psiquiatra, bem sei o que signiñca para um pa- tas com um caso dcsscs. enfalizo a importância dc que o nadador nadc para si. Tcnho
ciente a conñança em si mesmo. Se não soubéssemos disto, não have- recorrido lambêm à intcnção paradoxaL Nos excmplos cm que o nadador cslá ncrvo-
so. c não conscguc dormir. sugiro quc elc dcixe dc pensar na vitóría. O ntlcla nadará
ria hoje nem tcrapia sugestiva nem psicologia individuaL
mclhor sc lcntar rivalizar consigo mcsmo. Acho que a Logotcrapiu podc scr um inslru-
Eu também não disse que o dcsportista não deva gostar do memo eñcaz para o lrcinamcnlo. lnfclizmenlc. poucos técnicos eslão familiarizados
triunfo. 0 que eu disse é que, a cxemplo do que sucede no campo com o assunta Quando houvcr maior divulgacão. alravés dus publicaçõcs cspecializa-
das nesle csponc. cstou ccrlo dc que o uso da Logotcrapia na natação sc gcncrnliza-
amoroso, onde o prazer sexual foge quando o orgasmo é objeto de rá."
uma atcnção excessiva, no esporte, o competidor, em vez de pensar Até aqui. um lrcinador dc natação. Agora. dcmos a palavra a um compelidor. um
no adversárío, deve atcntar para o seu próprio desempenho. atlcta quc foi campcão curopcuz “Fiquei invicto durantc 7 anos“. E cntão passa a des-
crever uma siluacão como a que Bycrs obscrvara: "Mais tarde cntrci para a equipe nu-
A Logoterapia descnvolveu uma técnica para neutralizar os im-
cionaL Comecci a scmir a prcssão cxcrcida cm cima dc mim. Eu Iinha de vencen lodo
pedimentos resultantes da hiperintencionalidade e as inibições conse- um pals espcrava isso. O tcmpo que precedia cada compclição cra terrível". A hipcrin~
qüentes à hiper-reñexãoz a “desreflexão" ou “imenção paradoxal”. tencionalidadc inlcnsiñcou-se a tal ponlo que a camaradagcm desaparcccuz "Esscs su-
A Logoterapia tem tratado unicamcnte das perturbações scxuais ou jeitos são excclentes. excelo anlcs da compctição. quando se põcm a odiar uns aos ou-
tros."
proñssionais - o nervosismo que tem o ator de entrar cm cena -, Finalmente. ouçamos 0 que diz a pára~qucdísta Kim Adamsz "0 verdadeiro allem
mas parece que ela é aplicável igualmente ao espone. Robert L. Kor~ xó compere consígo mesmo." O campeão absoluto de pára-qucdismo esponivo. Clay
zep, treinador de um time de beísebol nos Estados Unidos, no qua- Schoelpplc, analisando por que os Estados Unidos, e não a Uniño Soviêlica, haviam
dro do lnstituto dc Logotcrapia da Universidade lmernacional de vencido a u'ltima compcu'ça'o. explicou com símplicidadcz “E porque a URSS vcio
San Diego. Califórnia, declarouz “Sou um treinador e muito interes- para ganhar. Clay só tcm por adversário clc mcsmo“. E assim foi elc qucm ganhou.
4 ›.,›
V 1 U1WRA

Amor e Sexo
°'~
4-"'
-4-=_.
~,

Casamento e amor pareccm estar em cstrcita relação. Estc é o caso


-

hoje em dia, quando há os chamados casamentos por amor. cuja rca-


lizaçâo (se não a duração) se baseia nesse sentimcnto. Ncsse senti-
do, porém, o casamento por amor é um dado relativamentc recente.
como acentuou o sociólogo Helmut Schelsky em seu trabalho Sozio-
Iogie der Sexualita"t. Pode-se dízer com razão que, em geraL o amor é
a condição e'o pressuposto de um casamcnto feliz. A questão não é
essa, o que importa é saber se com ele se pode construir um casamcn-
to duradouro. O am0r, de certo, é uma condição necessária para o
casamento feliz, mas isso não qucr dízer que scja suñciente.
E que é amor exatamente? Será que não passa de sexualidade
desvíada de seu ñm, como queria Freud? Pode ser rcduzido a uma
sublímação do instinto sexual? Assim crê o reducionismo, que pro-
cura, a qualquer preço, transformar esse fenômcno num epifenôme-
no. lsso não tem fundamento numa pcsquisa empíríca, mas numa vi-
são do homcm que não declara nada de parecido, mas o subentcnde.
Se não quisermos deitar um fenômeno como o amor no leito dc
Procusto, precisaremos de algo mais do que a psícanálise - teremos
de recorrer à análise fenomenológica. Nesse contexto, o amor surge
como um fenômeno antropológico no prímeiro plano. O amor cons-
tituí um dos dois aspectos do que desígnei como a autotranscendência
da existência humana. Com isso, abranjo o fato antropológico funda-
mental dc que o ser - homem sempre indica um transcender na dire-
ção de um sentido, que o homcm preenche, ou de um companhciro.
que ele encontra. E somente na medida em que o homem assim sc
transcende, ele se realiza - a serviço de uma causa. por amor a al-
guém. Dito de outra formaz o homcm só se torna completamcnlc ho-
64 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA AMOR E SEXO 65

mem quando sc diríge para uma causa ou para uma pessoa. E só che- como a de propiciar a fecundação”. “O fato dc que a scxualidade
ga a se rcalizar quando se esquece e se supera a si mcsmo. Como ê forje laços cntrc os parccios funciona como pressuposto dc um ma-
bonito o cspetáculo de uma criança absorvida nos seus foiguedos e cionamento na base da parceria, levando ao amor como uma ligação
quc não percebc que cstá sendo fotografada! individualizada". O amor é um relacíonamento individualizado com
Falamos anteríormente em encontro. Será que o amor pode ser um parceiro, e um constantc trocar de parcciros é a sua negação.
dcñnido como um encontro? Encontro é o rcconhecimento no outro
Neste sentido, o homem já nasce predisposto para um rclacionamen-
do que nelc há de humano. Daí decorre que outra pessoa não pode IO estáveL O autor adverte contra o perigo da dcspersonalização do
scr utílizada como mcío para se alcançar um determinado ñm, o que
amor, que constituiria a sua morte. Maís do que a “mortc do amor",
consta da segunda versão do ímperativo kantiano.
havería uma diminuição do próprio prazcr, scgundo cremos. Nós
O amor me parece dar um passo além do puro encontro, na me- psíquíatras sabemos que no momcnto em que o sexo não é mais a cx-
dída em que não sc trata somente dc reconhecer no companheiro o pressão do amor, mas simples meio para um ñm. a própria aquisição
clemento humano mas de ídentíñcar nele a singularidade, a originali-
de prazer é perturbada. Quanto mais o homem corrc em busca do
dade - em uma palavra, a “pessoa". 0 homem é pessoa, visto que
prazer. mais este se esquiva. As conseqüências, de acordo com a mi-
não se limita a ser um índívíduo entre muitos, mas é diferente dos ou-
nha experíência clínica, são a impoténcia c a frigideL Segundo pes-
tros. E consíderando que quem ama concebe o amado em sua síngu-
quisas da revista norte-americana Psychology Today junto a 20.000
laridade e originalidade, vê-se que o amado é, para quem o ama, um
assínantes, o fator que mais contribui para a potência c o orgasmo 6
"tu”.
o amor.
0 aspccto da autotransccndência unc-sc ao conceíto de “busca Seria, pois. no interesse da melhoria do prazcr sexual que a se-
dc semido". como costumo dízer. Tal conceito é conñrmado empírí-
xualidade não se isolasse e não se desintegrasse ao se apartar do
camente (Elisabeth Lukas, James Crumbaugh e outros). Kratochvil e
amor e com isso se desumanizar. É mister Iembrar que a scxualidadc
Planova acham que a busca de sentido é um conceito sui generis quc, não é de antemão algo de humano, mas algo quc tem dc ser humani-
como tal, não pode ser reduzido a outro qualqucr. A. Maslow chcga
zad0. A ñm dc aclarar esses pontos, pensemos na distinção que
ao ponto de qualíñcar a procura de sentido como um motivo “prí-
Freud fez entre a “meta” e o “objeto" da pulsão. Quando a scxuali-
mário” no homcm. dade se instala na puberdade - sexualídade no senlido estrito dc “mc-
Hoje, observamos que a busca de sentído está scndo frustrada; ta” - a descarga pode lcvar não ao ato scxuaL mas à masturbação.
nós, psiquiatras, observamos a expansão dessa diñculdade, inclusive Posteriormente, em outra fase do descnvolvímemo sexual e da matu-
já apontada cm paíscs comunistas ou em via de desenvolv¡'mento! ração, um objeto sexual é acrescentadm qualqucr que se_ja elc. um
Essa sensação de carência de sentido já suplantou mesmo o sentí- parceiro scxual é então visado e a prostituição servc para satisfazer a
mento dc ínferíoridade a que Adler deu tanta importâncía na orígem
essa necessidade.
da neurose. Nesse vazio exislenciaL como o chamei, pulula a Iibido se- Note-se que, nesse estáglo a que nos refcrimos. a sexualidade
xuaH Assim, e somente assim, se cxplica a inflação sexual de hoje. ainda não alcançou o plano autenticamente humano, porque nestc o
Como toda inñação, ela implica desvalorização. A sexualídade é parceiro é sempre sujeito, nunca objeto, nunca meio, sempre ñm. O
realmente desvalorizada na proporção em que se desumaniza. A se- que não exclui que o prazer cominue a vir, c ainda em maior escala,
xualidade humana, contudo, é mais do que simples sexualidade. E o
quando não é alvo de atenção exclusiva.
é na medída em que constitui um meio de expressão para um relacio- Que acontecc quando o indivíduo não avança para um grau
namento amoroso. mais elevado ou é vítima de uma regressão? Contenta-se com 0 ona-
Na vcrdade, a añrmação de que a sexualidade humana é mais do nísmo e a pornograña, se permanece na pnmelra fase; se se mantém
que simples sexualidade não díz tudo. A scxualidade animal está no na scgunda, com a promiscuídade (“ñxa-se" na prostiluição. por
mesmo caso, conforme mostrou Irinãus Eibl~Eíbesfeldt no seu livro exemplo).
Liebe und Hass. Em várías formas de cxistência animaL em particular Todos esses aspectos do comportamemo. portamo, são diagnos-
no caso dos prímatas, “o comportamcnto scxual está subordinado ao ticáveis como sintomas de um relardamenlo psicossexuaL No entan-
serviço do grupo." A copulação entre os babuínos, por exemplo, to, a indústria do prazer sexual procura gloriñcá-los. mostrando-os
atende a essa ñnalidade sociaL “Scm dúvida as relações sexuaís dos como “progressistas". Aprcsenta como luta contra a hipocrisia o que
homens tanto contribuem para a missão de um'-los uns aos outros é, em si mesmo, hipocrisía. Proclama liberdade da censura. quando o
66 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA

que pcnsa é em libcrdadc dc fazcr negócíos e ganhar dinheiro. Infeliz-


mcntc cspalha-sc no mundo de hojc uma prcssão para maior “consu-
mo" dc prazer scxual, o que prejudica a potência. Essc distúrbio
ocorrc quando o índívíduo considera a atividade sexual como um de-
sempcnho que dclc sc cxige, sobretudo se a cxigência parte da parcei~
ra amorosa. lsso ocnre também com diversos animais. Assim, Kon-
rad Lorcnz pôde levar as fêmeas de ccrtos peixes a se aproximarem
do macho não de mancira insuante, mas enérgica, e a tal ponto que o O Homem Incondicionado
aparelho reprodutor masculino ñcou bloqueado por via reflexa.
George L. Ginsberg, Wílliam A. Frosch c Theodore Shapiro, da Liçoe's Metaclinicas
Universidadc de Nova York, rclataram nos Archives ofGeneral Psy-
chiatry, que entrc os jovens a impotência é maís corrente do que se
supunha. Esses trés psiquiatras assinalaram que as mulhcres, em vir-
tude de sua recém-adquirída liberdade em matéría de sexo, exigem e Para minha leha Gaby
reivindicam um dcsempenho sexuaL conforme foí possívcl concluir
interrogando os pacientes.
Já falamos que a sexualídade é desumanizada quando transfor-
mada em meio para atingir um ñm. 0 mesmo ocorre quando é posta
a scrviço da procríação, em vez de ser a expressão do amor. Uma re-
ligião que apresenta e deñne Dcus como sendo o amor não deveria
defender ex cathedra a idéia de que o matrimônio e o amor só têm
sentido quando a serviço da fccundação. No entanto, isso foi procla-
mado numa época em que o casamento por amor constituía uma ex-
ceção e a mortalídade ínfantil era enorme. Hoje a situação mudou:
está em curso uma explosão demográñca e temos à nossa disposição
a pílula antíconcepcíonaL No entanto, ela só poderá contríbuir para
humanizar a sexualidade na medida em que esta se emancipar. Então
só de vcz em quando e livremcnte, a ativídade sexuaL isenta de pres-
sões, sería colocada a serviço da procríação, o que cquivalería à co-
roação do amor.
Prefácio à Primeira Ediçâo

O “homem incondicionado” é, cm primciro lugar. o homem quc é


homem em todas as condições, e que mesmo nas sítuações maís des-
favoráveís e indignas permanecc homem - o homem quc em condi-
ção alguma renega sua humanidade, mas pelo contrário. “está com
cla” de forma incondicionaL
Vemos que essa dcñnição do homem incondicíonado é de cará-
ter ético; correspondc a uma norma moral (não a uma média estatís-
tica), a um típo ídeaL A par desta deñníção normativa, conformc ao
dever, apresenta-se, todavia, outra, que é cxistcnciaL ontológica. e no
sentido desta concepção o homem é incondicionado na medida em
que “não se deixa absorvcr" na sua cond1'cionalidade, na medida cm
que nenhuma condícíonalidade é capaz de “fazer” plenamentc o ho-
mem, na mcdida em quc ela, na verdade, o condiciona, mas não o
constitui. Colocado nas condições do ser-homcm. o homem incondi-
cionado se mantém, não obstante, em seu ser~homem2 ele resiste às
condíções no mcio das quais se encontra colocado. Nessc senlido.
ontológico, só condicionado é que o homem é incondicionadoz ele
pode ser 1'ncondícionado. mas não tem de sê-lo. Em contraposição. a
fórmula ética análoga seríaz ele, na realidade, não tem de sê-lo. mas
deve sê-lo. '

I Vale consultar o lrabalho ankls Exislenzanalyse ín ihrer Bedeutungfu'rAnthropo/o-


gie und nycholerapie, cd. Tyrolía, lnnsbruck. l949. no qual o autor. Paul Polak. rcs-
saltou pela primcira vez a relação de quc estamos nos ocupando.
70 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA
O HOMEM lNCONDlCIONADO 7l

A ontologia do homem não considcra. portanto, o homem cxís-


tcntc, mas o ser-homem em s¡'. Ao contrário dela, a ciência ôntica en- mas é, ao mesmo tempo. leslemunha da sua liberdade. O conheccdor
foca o existente singular e, assím. o homem existente singular; como da impotência é aqui Citado como testcmunha daquilo quc chama~
taL cla o vê, de uma maneira ou de outra, condicionado, conformc o mos de forca de resislência do espírila
A problemálica da liberdade espiritual se apresenla aqui peranlc
caso, biológica. psicológica ou sociolog1'camente. A ontologia, con-
tudo. não dcixa também de conhecer o homem para além de toda a condicionalidadc física e psíquica sob a forma de dois grandcs
condicionah'dade; ela o conhece na sua qualidadc de incondicionado; problemas: o problema corpo-alma c o problema do livre arbitrio. E
afora o homem condicionado biológica. psicológica, sociologica~ por isso que as “lições de metaclínica” aqui cxpostas foram tiradas
mente, o Homo sapiens recens, o animal racionaL o zoon polilikom cla de um curso semcstral ministrado pclo autor na Universidadc dc Vic-
conhece ainda o homem incondicionado ~ este substamivo ao qual só na, no verão dc l949, sob o título precisamente de “O problcma cor-
depois são "adicionadas” todas as condicionalidadex expressas em m- po-alma e o problema do livre arbítrio à luz da investigação clínica“.
dos esses aqfetivos - substantivo de que essas condicionalidades preci-
sam como seu pressuposto. Numa palavra: a ontologia do homem,
ao lado da factícidade humana. conhcoe ainda a cxistencíalidade2 do
homem ou. se preferirmos, o homem existencial '°ames da queda" na
faclicidada O homem incondicionado não é nem o Homo sapiens re-
cenls condicionado pelo fator vitaL nem o animal racíonaL nem o
zoon politikon condicionado socíalmente; o homem incondicionado é
o homem como tal, 0 Homo humanus.
Neste livro. cumpre demonstrar em que medida o homem pode
exístir como incondicionado - exístír, a despeito de toda condiciona-
lidade. Dito de outro modo: cumpre demonstrar em que medida o
homem, em sua condicionalidade, está sempre além dela, ou pelo
menos pode astan c cm que medída consegue “existir", na incondi-
cionalidade. acima de sua condicionalídade factual e acima da condi-
cionalidade de sua “facticídade” 3
lsso deve scr demonstrado justamente no terreno daquela facti-
cidade, daqueles fatos que parecem límitar, da forma mais impressio-
nantc, o espaço livre em que atua o espírito humano. Não é menos
1'mpressionante, porém, poder~se mostrar em que medida o homem é
capaz, por força de sua Iíberdade. de afastar-se do tcrreno da factíci-
dade. Queremos referir-nos àqueles fatos biológicos e psicológicos
com que se dcparam o clínico e, em especiaL o neurologista e o psi-
quiatra.
À condicionalidade factual do homem se deve contrapor sua
incondicionalidade facultativa. O neuropsiquiatra é precísamente
um conhecedor da condicionalídade psicofísica da pessoa espírituaL

2 C§f. Jaspcrs. Ausser den psychologisch und saziologisch fassbaren Moliven Wirkl in der
Welt das Unbedingle der Exislenz und die GeisligkeiL
3 Comparosq a respeito, a formulaçâo expresswa de Leo Gabriel em Logik der Wel-
tanschauung (Pustet. Graz. l949. p. 162). “O homem sc comporta. no condicionado.
com rclação ao incondicionado. c no I'ncondiconado. com relacão ao condícionado“.
Prefácío à Segunda Edição Introduçâo

Minhas senhoras c meus senhores,


lndagar o que o homem verdadeiramentc é signiñca indagar pelo
sentido do ser-homem. A reflexão assim feita cquivale, todavia. a Não sei se é do conhecimento de todos que nesta sala dc conferências
uma reflcxão regressiva, à redescoberta de algo que tinha caído no da policlínica de Vlena os senhores se encontram em terreno acadêmi~
esquecimento e que agora é tirado de lá. Em uma passagem do Tal~ co, portanto, propriamente. no terrcno da Univcrsidade. mas é de-
mude está escrito que todo rece'm-nascido, no ínstante em que chega certo do seu conhecimento o que signiñca “univcrsidade": signiñca a
ao mund0. recebe de um anjo um tapa na boca, após o que esquece Universitas Iitterarum, a totalidade das Ciências. o cosmo do Logos.
tudo que viu e aprendeu antes de nascer. Essa lenda trata de um sa- Os que aqui me ouvem devem estar ainda f.1'miliarizados com
ber preexisleme e de uma verdade. ”a" verdade, mas pode ser inter- outra Universiras: pcnso, com isso. naquela Um'ver.s'ims, que cstá ex-
prctada igualmente no senlido de um emcndimcmo pré-reflexivo, pressa no título a que os senhores e as senhoras aspiram com scus es-
que inclui necessariamente um auta-entendimemo pre'-reflex¡vo. tudos, 0 título de "Doctor uníversae medicinae", e exalamentc esse
título indica que a medicina, a faculdade de mcdícína›-dentro da
Quando a questão do sentido do ser-homem é colocada. só se pode
csperar uma rcsposta em função do recurso ao auto-entendimento Universidade, também represema uma Um'vers¡tas; e poder-se-iu di-
pré~reflexivo que é. como taL ínerente ao homem, Basta que o ho~ zer. talvez, que a Universitas medicinae se comporta com relação à
mem tome conscíência daquilo que na verdade sempre soube, de uma Universitas Iitlerarum como um microcosmo em relação u um ma~
maneira qualquer. Este tornar-se consciente requer e exige, no entan- crocosmo.
to. uma sistemática e um método. No que tange ao método, o cons- A especialidade, a disciplina médica que eu tenho a honra e a
cientizar›se redunda na análise fenomenológica; e quanto à sistemáti- missão de rcpresentar. chama-sc Neurologia e Psiquialria. Enquan-
ca. vai ter numa antropologia explícita. Em contraposição às antro~ to, porém, a Neurologia se ocupa. como as dcmuis espccialidades
pologias explícitas, as implícitas servem de fundamento a muitos da ciéncia médica, do somático, a Psiquiatria ultrapassa esses limites.
transpõc as fromeiras do mero somático e invade outro domínio. o
enunciados aparentemcnte cíentíñcos que, a partir de investigaçõcs
do psíquíco. Com tudo isso, a Universitas medícinae não deixa de ser
empíricas, se ocupam da questão do que é, no fundo, o homem.
defendida. Mais aindaz sob a forma da Ncuropsiquialria. ou da Ma-
Como amropologias. não constituem algo de admitído. declarad0,
dicina Psícossomática, as duas especialidades constituem uma verda-
mas algo de contrabandeado, no que escapam à crítica e ao controle.
deira unidade, uma verdadeira unitas. Essa unidade. todavia. não é.
A falta que faz ao tornar-se consciente um daqueles métodos crítico-
em última análise, senão 0 termo corrclativo daquela unidadc que já
reñexivos traduz-se no perigo de que o aspecto especiñcamente hu-
encontramos como objeto da Medícina, quero dizcr. a unidadc cor-
mano vcnha a ser ignorado pelas antropologias implícitas.
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po-alma do “ser-homem". A unÍIas da Neuropsiquiatria é, por con-


scguinte. uma- imagem da unídade corpóreo-psíquica do próprio ho- Ora, tal Noologia. e com ela uma Psicoterapia nela baseada
mcm. (nâo praticada ou dirigida psícologisticamentc). nada mais tcm a
vcr, cm caso algum, com o físico, também não naquelc scntido amplo
No entanto, a unidadc corpo-alma não contitui ainda, nem de
de physis que contém o psíquico. Pelo contrário, tal Noologia ou Psi-
longc, o homcm integraL À totalidadc do homem pertence um tercci-
cotcrapia seria oricntada “mcta-ñsicamcntc“.
ro clemento - cssencialmente o espirituaL Mesmo nessa árca avança
Contudo, nâo se dcve, dc modo algum. imaginar quc o "mcta-
a Medícína, até ncla ousa penetrar e sob a forma do que se chama
físico“ que somos forçados a introduzir aqui nas nossas considcra-
Psicoterapia. Cumpre ressaltar, porém, que isso não se aplica à Psi- ções esteja “além" do ñsico. O metafísico não cstá além do ñsíco. só
coterapia psicologicísta, a qual não consegue idcntíñcar o espíritual
a metañsica cstava além do físíco, no tempo cm que Andrônícos de
como um domínio 1'ndcpendentc, essencialmcnte divcrso do psíquico;
Rodes editou as obras de Aristótelcs e à falta dc um título prcvisto
ela não alcança reconhecer essa indepcndência, essa especiñcídade, pclo autor as designou como “metafísica". domínio do que não pcr-
desliza no espín'tual e acaba semprc resvalando para o psíquico. A tencia à física.
exigência dc que em Medicina, se faça também justiça ao espírito só Quão pouco o metafisíco está mesmo “além" do físico. os se-
poderá ser atendida por uma Psicoterapía cxercida “a partir” do
nhores podem ver por imcrmédio de uma obscrvação fcita por Max
espírito - como eu deñni em outra ocasião a Logoterapia - ou por
Planck em seu livro Sinn und Grenzen der Exacten Wissenschafl
uma Psicotcrapía dirigida “para” o espíríto - como se pode deñnír a (Leipzig, l942. p. 20): “0 real metafísico não cstá cspecialmeme além
análise existenciaL dos dados da expcriência, mas se esconde no meio deles... O cssencial
Sobre o conceito de somático mencionado antes, os senhores de- é que o mundo das sensações não é o úníco conccbível que existc. há
vem levar cm conta que ele não pode ser equiparado ao “físíco", que ainda outro mundo que. sem du'vida. não nos é imediatamcnte
ora é maís, ora é menos do que o somático. O conceito de somático acessíveL mas ao qual somos constantcmente remetídos com clarcza
tem ao mesmo tempo, maior e menor âmbito do que ñsico. Assim, se indiscutíveL não só pela vida prática como também pelo trabalho
os senhores entenderam que o ñsico abrange o materiaL diremos que cicntíñco.” '
o somático ultrapassa o domínio do meramente materíal. Pensem na-
quelas relações que Haldane deñne com as scguintes palavras: “Se a Já se fala hoje de uma metabiologia (Rudolf Ehrcnberg, Erich
Heintel). E também já sc fala, de há muito. em mctapsicología (o que
Biologia é vista como uma ciéncia que busca apenas explicações físi-
co-químícas, não é então nem uma ciéncia exata nem, principalmen- habitualmente se entende por isso seria mais justamente denominado
“parapsicolog¡a"). Mas - para uma vez mais nos servirmos das pala-
tc, uma cíência real, apenas um tatear cego atrás de uma coisa que
não se pode encontrar.” vras de Planck - também a '*vida prática“ do clínico, também o “tra-
balho da ciência médica" nos remetem “constantemente, com clarc-
Por outro lado, o físico reprcsenta mais do que o somático, na
medida em que Physis pode ser interpretada como Natureza. A natu-
rcza, contudo, abrange não só o materíal e, para além, o somático l O falo dc que nada sc ajusta menos ao metafísico do que considcrá-lo como algo que
ñca além do ñsico torna-sc ainda mais evidcme se eu lhes rccordar que. segundo Kant.
(biológico, ñsiológico), mas ainda o psíquíco.
uma metañsica - a qual somcntc no scmido dc scus prolcgómcnos poderá ser tida
Neste sentido. a Psicologia - e com ela a Psiquiatria, considera- como cíência - diz esencialmente respeito a algo que, de certa forma. está mesmo “an-
da como a sua aplicação - pertence'inte1'ramente às ciências da natu- lcs" do flsico, anles dos “dados da cxpen'ência". na acepção de Planck. portanto “an-
tes” da experiência. como scu a prion'. como prcssuposto. como condição da possibili-
reza, enquanto a Psicoterapia, pelo contrário, ao tratar de outras coi-
dadc da cxpcriência. Em Metaphysischen Anfangsgrunden der Nalurwissenschafh Kam
sas além da psique, ao tratar também do espírito, ñca fora de tal clas- añrma que as mu'ln'p|as rcprcsemações emplricas podem vir a scr por isso “conheci-
siñcação.. Onde devc ela ser situada? - perguntarão os senhores. Su- memo empírico". islo é. “expen'encia“ submctida a uma conexão nos tennos da lei.
porã0, talvez, que ela se inclua nas cíências do espíríto, que se ocu- Leis. porém. scgundo Kant. são “pn'ncipios dc neccssidndc do que pertencc à cxislên-
cia de uma coisa". Dcixcmos. portanto. estabelecidoz segundo Kanl, toda cxpeñência
pam habitualmente do que os ñlósofos designaram por cspírito obje-
visa uma “nccessidadc". Por outro lado, a_seu ver. a metañsica uma das Ieis "que pos~
tivo ou objetivado. A Psicotcrapia, entretanto, tem em vista o espíri- sibílitam a idéia de uma natureza“. Reítcremosz de acordo com Kant. a mclañsica visa
to intcgraL no sentido dc "espírito subjetivo". Conseqüentemente, a questào da “possibilídadc da cxperiênc|"a". Rcsumindo. podemos ousar fazer a se-
cm relação àquela cíência problemática cuja aplicação a Psícoterapia guinte fonnulação: a vivência tem por objcto a realidade: a cxperiêncía lcm por objclo
representa. deveríamos falar de uma Noologia. a necessidade dessa realidade; e a metañsica tcm por objcto a possibllidade dcssa neces-
sidade de realidadc.
0 HOMEM lNCONDlCIONADO 77
76 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA

za indlscutível". para a metafísica - ou, como cu doravame prcferíria Voltemos uma vez mais à nossa citação de Planck. Ele difcrencia
chamar. “metaclíníca". _ o “mundo das sensaçõcs" de um “outro mundo... ao qual... somos
Heidcgger disse certa feitaz “Na medida em que o homem existe, constantemente remetídos com clareza indiscutível... pelo trabalho
aconlcce a metafísica". Com muito mas razão se poderia proclamarz cientíñco“. No entanto, o “mundo das sensaçõcs" ou “os dados da
na medida em que o médico pratica, acontece a metafísica. O que te~ experiência”, como Planck também o chama. é exatamcnte aquclc
mos cm vísta não c', de modo algum. uma metafísica imroduzida por que nós experimentamos; ncssa expcriência e com ela. chcgamos, ta-
nós na Medícina por essa ou aquela via, ou objeto de uma suposição davia, a “um outro mundo” - de tal modo que podemos dízcr que
nossa. Do que se trata aqui é da metafísica implícita cm toda Medici- por meio da nossa expeírência “atcrrissamos" ncsse outro mundo.
na, são as implicações metañsícas que todo comportamento médico Planck, porém. diz exprcssamente que somos “constantementc" rc-
permite presumiL Trata-se, por consegu1'nte. dos prcssupostos ma- metídos para essa região, o que signiñca que não podemos tê-la scm-
tañsicos da atividade médica. E mesmo que esses pressupostos fos- pre à vista. ela nunca é visível como um todo cocrente. em relação
scm em geral pouco perceptívcis, tanto mais teríamos de combater o “sistcmáu'ca". Numa palavraz essa rcgião nunca nos aparcce como
perigo de considerá-los como falsos. Sendo verdadeiros, nem por isso um “comineme”. Por consegu1'nte, em nossos esforços rclativos ao
seria supérnuo explícá-Ios, tirá-los da obscun'dade, liberar do escon- metafísico na Medicína, mais precisamentc ao mctaclínico, não dcve-
derijo em que se mantêm tanto a verdade metafísica em que se baseía mos procurar a priori o sistcmático, mas tão-somente o problemáti-
a Mcdicina quanto os seus pressupostos metafísicos, transladando-sc co. os problemas metafísicos que a Medicina nos aprcscnta. assím
para uma àxñôewz como os problemas metaclínicos que a rolina médíca nos revcla logo
E isso por quê? que tenhamos aprcndido a ver os fenômenos clínicos como que numa
F. Th. Vischcr proferiu a conhecida frase: “O moral comprcen- transparência sobre os problemas metaclínicos.
de-se por si mesmo.“ Talvez o que é melafísico também se compreen- Não esqueçamos, porémz mesmo na ñlosoña o lempo dos gran-
da por si mesmo e, num certo sentido, toda a metañsica pode, de fa- des sistemas parece já ter passado deñnitivamcnte. Na mcdida em
to. de algum modo, ser compreensívelz cada um de nós sabe, de um que a ñlosoña. dentro de seus próprios limíles, não é mais exercida
modo ou de outro, que o homem “tem” corpo e alma e “é" espírito. dc forma sistemática, e sim histórica, na medida cm quc. ponanto.
e, adcmaís. que é livre e responsáveL Nesse sentído, a metafísca ensi- ela é história da ñlosoña, é tambe'm. prcdom1'nantemente. hístória
na o que todos já sabemos, mas não é desnecessárío que ela o diga dos probiemas ñlosóñcos.
porque lhc compete dcfendcr-nos conlra 0 sarcasmo de uma ciência Quais são os problemas metafísicos fundamcntais da Mcdicína,
que não conhece as suasfromeiras e, por esla razão, as ullrapassa cons- os problemas. para sermos exatos, metaclínicos? Não são outros se-
Iamemoma não os problemas cternos de uma philosophia perenm's, 0u seja, cor-
Se. portant0. a metafísica implícita na Medicína é explicítada, sc po-alma e livre arbítrio. O problema corpo-alma, como os scnhores
se fala de “metaclínica", então ocorre que uma evidência é levada a Iogo compreenderão, não c'. scm mais nem menos, equivalcnte ao
comprcender-se a si mesma. Ao mesmo tempo, acontece com ísso problema psicofísíco; o que tcmos em vista é o problcma psicossomá-
que a evolução normal do jovem médico é contrariada (normal não tico. Depois, porém, do que aprcndcmos po início sobre o domínio
no semido de norma moraL mas de média estatística) - aquela cvolu- objetivo das disciplinas médícas, ñca claro que o problema psicosso-
ção que faz desaparecer a ingenuidade primária do médíco princi- mático constílui um problcma da Psiquiatria ou da Neuropsiquia-
piame por meio do exercícío da simples rotína de um tipo de médico tna.
Agora. no que concerne ao livre arbítrio, eu gostaria de dizer
destinado a não representar daí em diante nenhuma ciêncía de curar,
que ele é um pendam do problcma corpo-a|ma, na medida em que,
ncm mesmo uma arte de curar. mas apenas uma técnica de curar.
Para esse tipo de médico, tudo é evidente, qualquer coisa que faça, em última análisc. cle contém o problema alma-espírito. Sc se quiser,
ele o fará com a maior naturalidade. Enquanto essa evolução media- a formulacão seria: frente ao problema psicossomático está 0 problc-
ma noopsíquico. *'
na acarreta uma banalização da ativídade proñssíonaL o desdobra-
mcmo da “evidcncialidade" no rumo da comprecnsão pode, as'sim
esperamos. conduzir a uma caplacão do sentído mais profundo e um
enlendimemo mais prcciso da dignidade do ato médíco e, desta for- 2 Não confundir com o conceito cie noopanue - em oposição à limopsique - de Erwm
Stransky.
ma, a uma conccituacão mais elevada da proñssão.
O HOMEM lNCONDlClONA DO 79
78 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA

Façamos abstração do fato dc que o livrc arbítrio, sob a forma da Não é preciso quc cu coloquc à vista dos senhorcs a cxislência dc
imputabílidadc. já caiu do domínio da psiquiatria, ou scja, da psi- algo como a psicogênese; todas as nossas demonstracõcs psicotcra-
quiatria forcnse, e sc lorna claro que o problema alma-espírito tem péuticas tém-na sempre. naturalmen¡c, pressuposto como uma coisa
de ser. por exceléncia. o problcma da psicotcrapia (não psicologicis- evidente por si mcsma. *- Com isso, não sc deve ocultar que a Psicote-
ta). rapia é possíveL e necessária, em condições onde não haja propria-
mente psícogênese. Como também não deve ser omitido que ncm
tudo o que carece de base orgânica só por isso deva ser classiñcado
l. O Problema Corpo-Alma
como psicogénico = neurótico, pois de há muito sabcmos com ccr-
tcza que existem estados mórbidos que se cxp'rimcm scm qualquer |e-
De quc forma se apresenta ao clíníco o problema corpo-alma? Se ten~
são orgânica demonstrável e não devem sua origem à psiquc. São
tarmos esquematizar grossciramente as formas fundamentais em que
chamados de funcionais e podem ser exempliñcados por várias docn-
existem as docnças. chcgaremos à conclusão de que são quatro as cate-
gorias principais. Em primeiro lugar. situam-sc as doenças orgânicas ças endócrinas. bcm como neurovcgetativas. E aconselháveL por
conscguinte. acentuar que o diagnóstico de uma neurose não tcm dc
banais. São chamadas de orgânicas, já que se desenvolvem imeira-
meme no somálic0; elas têm no interior do somático tanto a sua on'- se Iimitar à docnça psícogênica. mas deve basear-sc numa possível
gem como o seu campo de expressãm elas derivam do somático e cx- ctiología psíquica demonslrâveL Este diagnóslico é sempre positivo.
primem-se somau'camen(c. Em outras palavras: sua etiologia, bem isto c', nunca deve ser fcito per exclusíonem. o que signiñcaria um
diagnóstico negativo.
como sua sintomatologia são igualmeute somáticas.
Tampouco é permitido diagnosticar psicogênese ex juvann'bus.
Em seguida. conheccmos as psicoses. Estas também são dc orí-
gem somática. mas, ao contrárío das doenças orgânicas banais, só a pois nem a ausência de uma lesão orgânica. ncm também. por outro
Iado. o efcito positivo da Psicoterapia, seu êxito. no caso concreto.
sua etiología, nunca a sua sintomalologia, é somática; elas se cxpri-
provam que estejamos em presença de uma doença psicogénica, uma
mem por meio de sintomas psíquicos.
neurose. Ainda reccntemente obtivcmos um sucesso espctacular num
Depoís conhecemos as neuroses, ou seja, enfermídades psicogê-
caso que dava a ímpressão de histeria - utilizando injeção dc soro ñ-
nicas reñnadas. Sua origem é psíquíca, assim como, em gcraL sua
siológico com grande aparato, acompanhada de sugestão verbal ~ e,
sintomatologia. 3
no enlanto. quando. no mesmo dia, por não cslarmos conñantes na
Finalmente, conhecemos aind_a, em especial, como simples sub-
prova do êxito do tratamento como argumcnto válid0, pedímos uma
grupo das neuroses, as ncuroses orgânicas. Sua etiologia é, como nas
investigação de conlrole radiológico. ñcou constalada a prcscnça dc
neuroses, indubitavelmcnte psíquicas, mas sua sintomatologia é so-
uma metástasc carcinomalosa.
máticaz seus sintomas desenvolvem-se no órgão eventualmentc atin-
0 fato de existirem distúrbios funcionais. e não psícogênicos,
gido.
nãn prejudica a justeza da nossa distíncão. Não são raras também as
Consequ"cntemente, em relação à etiologia como à sintomatolo-
doencas orgânicas banais que são descncadeadas através do psiquis-
gia. podemos distinguir. quer um grupo dc docnças somáticas, quer
mo - citem-se as cardiovasculares que se exarccbam ou se manifes-
um grupo de doenças psíquicas, ou dito de outra maneiraz uma vez o
tam reativamcnte diante da menor excitação afetiva ou da elevação
estado mórbido é “causado”, conforme o caso, somaticamente ou
concomitante da pressão arteriaL As repercussões das doenças fun~
psiquicamente; de outra vez, o “quadro sintomático" é somáticq ou
cionais sobre o psiquismo - bem como das doenças orgânicas banais
psíquico. No primeiro caso, dividem-se as doenças em somatogêní-
- explicam~se, todavia, pclo constante e semprc possível aparccimen-
cas e psicogênicas (princípio de divisão; gêncse), enquantq no segun-
to da angústía de expectatwa. Logo que entra em ação este mecanis-
do caso as doenças se dividem (princípio de divisão; fenomenologia)
mo funcsto, qualquer doença, e não apenas as funcionais. é “secun-
em fenossomáticas e fenopsíquicas. '
dariamente ncurotizada" °

3 Evitamos aqui. intencionalmente. usar o tcrmo “psiconeurosc". entre outms. sobre- 5 Consulte-se meu livro A Psicoterapla na Pnílica - E.P.U.
carrcnado e prejudicado pela Psicanálisc. c por isso ambíguo. 6 O caráler secundário em questão lambém cosluma ser designado por “supcreslrutu-
4 Ver meu trabalho Theoríe und Therapie der Neurosem Munique/Basilein. ra psíquica“ ou “sobrcposição psíquica“.
l970).
80 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA 0 HOMEM INCONDICIONADO 8l

Rctornemos ao tema da psncogênesez começando pela possíbili- Lembremo-nos. contudo. daquilo que nos propusemosz primeiro vcr
dade de sc produzirem empolas dc queimadura em virtude dc in- os problemas. Devcmos. por conseguinte. tralar de problcmas c não
fluência psíquica, ou scja, a hipnose, até a experiéncia involuntáría de teoremas. Em face destes. não nos devc restar mais que a
do médico que, tcndo assistido um doentc do qual foram extraídos é1wxñ . assim chamada pelos anligos gregos, isto é. abstcrmo-nos
dois lerços do estômago, tevc ele próprio de scr submetido, no día so- de toda atitude teórica.
guintc. a operação idêmíca, depois de uma hemorragia aguda no ór- Qucrcmos ver somente os problemas. dízíamos nós - e assim de-
gão. a psicogênese se faz valer de forma imprcssionante em todas as vcmos agora acrescentar. também. as aporias com as quais devcmos
ocasiões ( o caso do médico é relatado por Avancini em “Ein Beitrag contar em todas as tentativas para resolvê-los: as diñculdadcs a que
zur Neurogenese des Ulcus Pepticum". publicado em Wiener innishe todas as Xentativas típicas de solução, em conjunto, cstão sujeitas
Wochenschnf1', 61. lO4, l949). através da história da problemática.
H. Kleinsorge e G. Klumbies, da Policlínica da Universidade de A título de antecipaçãoz ñca de uma vcz estabelecido que o so-
Jcna, conseguiram, ñnalmcnte, a comprovação exata de que a forma- mático c o psíquico não se podem rcduzir um ao outro. ncm podcm
ção de estímulos, a contração das aurículas, a propagação da excita- derivar-se um do oulr0. O somático e o psíquico são, portanto, da-
ção nos vcntrículos, o refluxo da excitação, a nova síntcse do glicogê- dos irredutíveis ou indeduzíveis. 7 Não crciam que, em apoío disso
nio e o calibre das coronárias modiñcam-se sob o efeito do psíqu¡'s- tudo que venho dizcndo, eu só possa oferecer lestemunhos que, para
mo. Os citados autores “causaram vívências psíquicas de toda a espc'- além da ciência “exata" e “pura", perseguem espcculações estéreis;
cie pela hipnose mamendo um controle eletrocardiográñco e inter~ pelo contrári0. recorro a Heisenbcrg - um nome eminentc que esco-
prelando posteríormente os elctrocardiogramas". Em tais experi- lhi como exemplo cnlre outros de um ciemista indubitavelmeme exa-
mentos, “as preocupaçõcs, dcsgostos e saudades revelaram agir to - o qual assim exprimiu: “Não espcramos que haja qualquer via
como tóxicos causadores de espasmos nas coronárias. A alegria fun- direta do entendimento ligando os movimentos dos corpos c os pro-
cionou como antídoto e remédíoz mostrou-se tão dilatadora das co- ccssos psíquicos. já que. também na ciência exata, a realidade se dos-
ronárias quanto o nitrato." Contudo, a análise cletrocardiográñca pedaça cm camadas separadas."
permitiu que os aulores concluíssem que “nem todas as formas dc Não creiam. todavia. que assim a coisa ñca resolvida. com a se-
alegria exercem tal efeito. A alegria da expectativa não o faz, só a da paração cntre duas camadas do corpo e da alma. São _necesa'rias mais
rcalizaça'0." Tão cngraçada como comovcnte nos parcce a obscrva- scparações. Nicolai Hartman. em Der Reale Aujbau der Welt (Bcr-
ção dos investigadores dc que “essa alegría não depende em nada dc lim, l940, p. 429). añrmouc “Quem quer explicar a vida orgânica pc-
uma vida luxuriosa". No exemplo deles, os fatores determinantcs las forças mecânicas e pelas relações de causa e efeito, quem quer
são, pelo contrário, a visão do céu azul, flores de varíadas cores ou o apreender a consciência pelos processos físicos, ou o ethos do homcm
brilho do sol, coísas que cstão ainda hoje ao alcance de todos, con- pela lei psíquica do ato. choca-se contra a lei da propriedade das ca-
forme nos garante esse semanário (Deustche medizinische Wo- madas. Assim, o que perlence a uma camada é transfcrído para outra
chenschrflt', 74, 2, 4l, 1949). camada mais evo'luida." Tcríamos assim quatro camadas em que “se
No entauto, enquanto falamos continuameme de psicogêncsc, despedaça“ o serz as camadas do ñsico. do orgânico, do psíquico e do
não tomamos consciência de quanto essa palavra está carregada dc espirituaL '
problemática. verdadeira problemática metafísica! Não nos esqueça- Parccc-nos digno de nota que, a um exame mais atento. as sepa-
mos: o que se pressupõe é, nada mais nada menos, que existe cntre, rações entre as várias camadas citadas mostram-se divcrsamentc
de um lado, o psíquico, e de outro, o somátíco, algo como uma gênc- marcadas. Assim, por exemplo, não se pode conlestar que entre o
se. Gêncsc equivalc a “causa" e em contraposição a ela tcríamos um psíquico c o físico se evidencia um certo paralelismo; não é sem razão
efeito. Sígniñca que, ao accitarmos a psicogênese, cstaremos nos ñ- que se falou, e se fala, cm paralelismo psicoñsico. E quando cito o
xando numa determinada teoria da relação entre o psíquica e o so-
mático, ou seja, na chamada teoria da ação recíproca?
Sabem as senhoras e os senhores que, do ponto de vísta proble- 7 Vcr. de minha autoria. Der Wille zum Sinm Bcrna. Stutgart, Vicna. l972.
mático-hístórico, se nos deparam três teoremas fundamentaís no que 8 Jaspcrs ensinouz “Emrc os fcnômenos nãmorgànicos da nalureza c a vida. cntrc .
concerne ao problema corpo-alma: a par da teoria da ação recíproca. vida c a consciência. enlrc a consciência c o espirilo. abre-se um abismo inuanspom
vel."
a teoria da ídentidade, bcm como a do paralelismo 'psicofísico”.
.
. <ñ

82 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA


O HOMEM INCONDICIONADO 83

fato mais banal possível ilustrativo dessc paralclismo, ou scja, que o


indivíduo encolcrizado fica rubro, vê-sc como o psíquico está perto que rcduz tudo às camadas“inferjorcs" do scr - é um monismo que
do físico. Também no indivíduo mclancólico cstamos em prcsença dc espccula na baixa; o cspiritualismo. pclo contrário - na mcdida em
uma “inibíção psicomotora paralela” - portanto, também, dc igual que reduz tudo a uma camada “superior“ - é um monismq que espc-
modo, um rcsultado psíquico c físico. Enquamo, porém. o mclancó- cu1a na alta.
Iico toma uma atitude diantc de sua doença na qual de algum modo É prcciso salientar que falamos aqui dc cspiritualismo. c não de
nela “se consome” (na medida cm que ele se negligencia a si mesmo), espiritism0. Estc último mcrecc uma cxplicação à partc. Ele podc ca-
outro doente, perante a mesma doença, comporta-sc dc modo a pro- racterizar-se como uma formação ambígua. Do ponto de vista da tc-
curar dcfcnder-se dela e, assím, está “acíma de|a" - cspiritualmcnte mática, admite a qualiñcação de cspiritualista, mas, do ponto dc vis-
acima do somátíco. Aqui, como vêcm os senhores, trata-sc dc uma ta do método, cumprc classiñcá-lo como matcrialista. Com relaçâo
difercnça n'o que conceme à atitudc espirituaL a tomada de posíção ao scu enfoquc, é complctamentc cspin'tualista; com rclação à sua
diame de uma coisa, c essa tomada de posição cría um distanciamcn~ posição, é tipicamentc matcrialista.
to para com o acontccimento psicoñsico paralelo. Os senhores desejam, decerto, a prova da verdadc. Ei~laz cspiri-
Não se pode falar mais, bcm como ainda cm relação com o psi- tismo alude rcpelidamente a “corpos astrais", “vibrações. raios, on-
cossoma'tico. em paralclismo; pclo contrário, podc-sc dizerz cm ana- das cspirituais". e assim por diantc. É lícito añrmar. pois. que clc faz
logia com o paralelismo psicoñsíco, caberia tão-somente citar um an- do espm"tual um quasomatcnal'. Dito de outro modo: o cspm"¡.|sm'o ma-
tagonísmo “noopsíquico". terializa o cspírito considerado na perspcctiva histórico-espíritual c,
Ninguém melhor do que Ludwig Klages víu, talvez, esta rclação, por isso, se torna aquilo sobrc que justamentc tanto gosta de se fa~
quando, com propósíto programático. aprcscnta “o espírito como lar_. ou seja, um fenômeno de “matcriahz'ação"! '
comradítor da alma", no título que se tomou famoso de um de scus O espiritismo não é uma verdadcira mctaflsica, mas sim uma
livros. Klages viu muito bem cssa divísão profunda do ser. com uma pseudomctafísica. Isso torna-sc claro quando vcrificamos que para
ñssura peculiar, um híato entre o cspiritual e o psíquico, mas errou os espíritas o espirito não está ^°atrás do ñsico” como algo demetafi-
ao acentuar o antagonismo de modo a parecer que a alma tcnha dc sico. Pelo contrário, o espírita vê por detrás do espiritual algo (quase)
ser defendida. numa posição humana ou humanítária, contra a “e- físico. Os espíritas não sc csforçam somcntc, a cxcmplo dc muitos
rupção” do espírito na “vida”, na exístência. Por ísso, podemos, di- metañsicos, por dar uma cspiada atrás dos bastidorcs, a ñm de ver o
zerz Klages arriculou corretamente, mas acenluou maL que há por trás do físico, mas gostam aínda, como pseudometañsícos
›Se assím fosse. tcríamos de admitir, em vista das “camadas sepa- que são, dc dar uma olhada no que ñca atrás do segundo plano. Nào
se contentam com o que aparccc à luz da metañsica como rcalídade
radas" nas quais, segundo Heisenberg, “a realidade se dcspedaça".
que o mundo está esfacelado? Não é nada disso, e foi o próprio espiritual |'ndcpcndentc; pclo contrán'o, eles - esscs mclhores conhe-
Hartmann quem voltou a observar: “O mundo real tem unidadc, não cedores metañsicos, como podcmos chamá-los - tratnm esse cspírito
a de um princípio, mas a de uma ordem.“ Hâ, por consegu1'ntc, uni- como se fosse físico c distorcem cada proposição metafísica do co-
dade “sobre” o mundo e “no” mundo, uma unídade num plano mais nhecímcnto no scntido do matcrialismo vulgan
elevado, se me é pcrmitído dizer, do que aquele em que ela é geral~ 0 espírito é, como tal, naturalmente, invisívch o cspíritismo. na
mente procurada pela nccessidade metafísíca de unidade. sua pseudometañsica, quer todavia tor_ná-lo de alguma forma visíveL
Não se trata, portanto, da “unidade de princípio" a que se refere Não se podc ver o espírito, já que ele é invisíveL há de se acrcditar ne~
Hartmann. corrcspondente a um c_sforço de claboração de uma ima- le. Todavía, a metafísica cspírita - na mcdida em que transform_a o
gem unitáría do mundo, porque tal unídade sería uma unídadc à tout espírito em algo dc visíveL cm que dcscja, portanto, vê-lo - numa pa-
prix - seria un1'dade_ao preço da unilateralidadel lavra, a crença no espírito daquele que vê o espírito degencra exata-
Tal uniñcação unilatcralizante constitui precisamente o crro de meme, por isso, em superstição.
toda conccpção do mundo que sc pode desígnar como monista, em
oposição a uma pluralista. Entrc tais monismos, destacamos doís: o
materialismo e 0 espiritismo. Enquanto o primeiro reduz a realidade, 9 Fazendo-se abstração de todo o amropomorñsmo groueiro que gcralmenle cstá li-
o ser, o mundo, à matéria, o scgundo deduz o mundo do espirituaL gado às conccpções espíritas (basta pensar no dispnnte da hiernrquia emrc os espln'-
Se quíserem. podemos também dizer: o matcrialismo - na medida cm tos), trata~se, no cspin°tismo. aobretudo de um “ñsiomorñsmo". se nssim mc posso
exprim¡r.
84 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA O HOMEM INCONDICIONA DO 85

Rcstam ainda duas objeçõesz uma díríge-se contra a realidade


ções cruzadas e “re1açõcs” entre os fatos mais disparatados (desde as
do cspiritual por ser elc ínvísível. Baseia-se no argumento de que não
influências cósmicas no sentido astrológico até a mística maís pueril
não está certo acredítar-se em algo que não podc ser visto. Ora, deve-
e insensata dos nu'meros). Quando semelhantes rclações pscudomc-
se cnfau'zar. contra isso, que nem tudo o que é invisívcl é irreaL Eu tafísícas, são “vistas“ em profusão, justiñca-sc o diagnóstico dc
gostaria de lhes explicar cste ponto relatando o díálogo que tivc, ccr- “delírío de rclacão metañsica".
ta vcz, com um jovem que me pergumou que importâncía podia tcr a
No meu entender, e contrariamente a uma idéia largamentc di-
rcalidade da alma, considerando que ela é invisíveL Concordeí que
fundida, o que caracteriza o niilismo não é a referência ao “nada". c
cle nunca podcria ver algo parecido com uma alma por meio de uma
sim o uso da expressão “nada mais que”. Com efcito, por trás do
díssccação ou um exame microscópíco do cérebro, mas lhe perguntei,
conceito do “nada” utilizado pelos niilistas supostamcntc atcus (es-
ao mcsmo tempo, por que ele iria empreender tal díssecação ou tal
pecialmente muitos existencialistas) esconde-se um valor altamentc
exame microscópico. O jovcm respondeu-me o seguimcc por amor à
positivo. Heideggcr. na realidade, não se limita a empregar o subs-
verdade. pclo interesse ínvestígador-cienu'ñco de encontrar a verda-
tantivo "o nada" e o advérbio “nada", recorre ainda a um verbo da
de! Aí cheguei aonde eu qucria porque bastava indagar: o que é o
mesma família, “nadificar". Por trás do “nada” ele parcce conccbcr
amor à verdade, etc., se não algo de referentc à alma? E sobretudo se
o Ser. e só o chama de “nada" porque não se trata de um “entc"
ele pensava que coisas como “amor à verdade" pudessem ser vistas
(Seiena') emre outros entes. pelo conlrárío. trata-se do fundamento
ao microscópio. Então tudo lhe ñcou claro: o que se procura por
de todos os entes. Enquanto de um lado o suposto níílismo se rcvcla
meio do microscópio, e que por esse caminho nunca será achado,
como um positivismo, como a expressão agnóstica de um extremado
esse invisível, a alma propriamcnte díta, é o que csteve sempre pres-
posítivismo, ou se se preferir, de um realísmo radical (representando
suposto em todo examc microscópíco!
nisso uma determinada analogia com a “teología negau'va"), de ou-
Agora, a segunda objeção possívelz far-nos-ão, ao lado do espi-
tro lado 0 chamado positivismo demonstra ter añnidades com o nii-
ritismo, uma reserva na direção oposta. Não vão pôr em dúvida a
lismo, na medida em que para ele também o mundo nada mais é do
realidade do espírito por ser ele ínvisível, mas a realidade do físico,
que um complexo de sensações (Mach).
isto é, da matéria, na medída em que mesmo a ñsica moderna comc-
Aliás, de certa forma todo “ismo" é um niilismo. Que o biolo-
çou a eliminar, a superar e a lançar fora essc conceito. Contudo, tal gismo declare ser capaz de explicar tudo à luz da biologia, que o so-
apelo à ciência tem pouco fundamento. '° _ ciologismo pretenda o mesmo nome da sociologia. e o psícologismo

_4_
Não se alteraría no mínimo grau o fato de que uma imagem monista em função da psicologia, ou, enñm, o antropologismo a partir da
do mundo, ainda que revcstida da roupagem dos resultados das mo-
imanência humana, sempre estamos às voltas com a redução à fór-
dernas investigações cientíñcas, nos deíxaria insatísfeitos, pois uma
mula “nada mais que”. De direito. todavia. os fatorcs vital, sociaL
coisa deve ser dítaz chega a nos parecet indíferente que coisas como psíquico e humano não deveriam ser endcuzados dessa forma. nem
alegria, fé, amor, alma não sejam “maís do que” vibraçoe's molecula- m__ deveria cada uma dessas ciências ambicionar ter a sua própría “visão
res ou saltos quântícos.
do mundo”. Conlra isso, ergue-se a verdadeira metafísica ou, como
Para concluir nossa br6ve palestra sobre espín't¡'smo, gostaría ainda
já dissemos anteriormcnte. contra um saber que não conhece seus li-
de dizer uma palavra sobre suas causas psíquícas. Não há dúvídas de
mítes, e por conseguinte os ultrapassa, é oportuna a cxisténcia de uma
que a origem índivídual do que anteríormente chamamos de “o me-
metafísica dcfensiva.
lhor saber metafísico” deve ser procurada e também achada na estru-
As raízcs psicológicas colctivas da cresccnte difusão de tal pseu-
tura neurótica do homem em questão. Não se deve contudo, pcrder
dometafísico espírita não são dífíceis de localizar. Segundo Scheler, o
de vista que frequentemcntc taís quadros mórbídos dc fundo neuróti-
homem ou tem Deus ou tem ídolos. Basta-nos ampliar essc conceito
co assumem aspectos psícótico, e então esse homem começa a “fare-
para chegarmos à fórmulaz o homem tem uma crença ou tem uma su-
jar” “por trás” de todas as “signiñcações profundas”, e a supor liga- perstiçã0. ” Quamo menos se cogila do espírito, mais se fala de espíri-
los.

10 Jaspcrs cscreveuz “.›. o grandc pu'blico... faz uso dos resultados da ciência como, an-
tgamcmeI os povos primitivos fazíam com rclação aos chapéus coco. as sobtecasa- 12 Quem sc recorda, a essc respeito. do tempo da gucrra - na freme de batalha. n010-
cas c as missangas dos curopcus" (Der philosophische Glaube. Zurique. l948, p. 153). cal dos bombardeios. na rctaguarda. no campo dc prisionciros ou no campo de con-
O HOMEM lNCON DICIONA DO 87
86 FUNDAMENTOS ANTROPOLÔGICOS DA PSICOTERAPIA

Se eu resumir o que revclou a investigação do “Caso Mírin Da- mos fazcndo abstração de outro fator que. scgundo os parccercs dc
jo". comentado amplamcnte na imprensa, não há muito tcmpo, ma- observadores clínicos. poderiam cstar em jogo. isto é. a auto-sugestão
Que as hemorragias estancam sob a influência da sugestão. cu pró-
nifesta-se quão profundamente cstá cnraizada, coletiva e psicologica-
mente. a vtendência à superstíção e à crença em milagres, c que fontes prio pude constatar. quando espetei na pele de uma docnte em ancs~
lesia hipnótica sugcrida uma agulha que em seguida reu'rei, não apa-
de erro há nesse contcxlo. Como se sabe. Mírin Dajo añrmava ser in-
recendo hemorragia no lugar da picada senão no momcnto de dcs-
vulnerável e, para prová-lo. deixava-sc trespassar repetidas vezes por
pertar. Enquanto a mulher estcve sob hipnose. apresentou uma con~
um floretc. É Curioso que leigos prescntes à dcmonstração acreditas~
dicão de anemia apurente que não lhe havia sido sugerida.
sem que, naquela perfuracão. o coração fossc atingído, ainda que o
E a sensibilidade à dor. no caso Mirin Dajo? Foram notados ob-
florcte nunca fosse enñado no lado esqucrdo, mas sempre no lado di-
jetivamcnte. no momento das cxperiências. suores. palidez c taquí-
rcito do peíto (remeto-mc aqui, como adiante. às publícações respec-
card¡a. Além disso. deve-se. de antemão, ressaltar que os órgãos in-
n'vas dc Schlãpfer, da Cliníca Círúrgíca dc Zuríquc. c de Undritz, da
ternos não são, em geraL sensíveis à dor (como é impressionantcs
Sociedade Med'ica Basiléia, na Schweízer Medizinische Wo-
ver-se nas operações do lobo parietal do cérebro, sede cortícal da
chenschrf¡1', 1947 e 48). Até que ponto ia sua prctensa invulnerabili-
dadc? O florete não tinha gume. Quando penetrava no corpo, os tecí- scnsibilidade dolorosa, que ele é insensível à dor! Numa palavra: o
centro com que noé sentimos a dor é, ele próprío. insensivel à dor).
dos tinham. por consegu¡'nte, a possibilídade de sc separarcm sem se-
No que concerne à insensibilidadc da pelc, poderíamos, sem dúvida.
rem cortados; em virtude de sua clastícídadc, não se rasgavam e, ade-
mais, por efeito dessa mesma elastícidade, a parte atravessada pelo explicá-la em função dos momentos sugcstivos. Em pacientes angus-
tiados. tenho expcrimentado com sucesso sugestioná-los dizcndo que
Horetc em sua trajetória podía fechar-se depoís da demonstração. O
florcte, aliás. era introduzido lentamente e, em conseqüência, os tecí- lhes administro uma injeção de novocaína no local em que faço uma
punção lombar. Na realidade, introduzo apenas a agulha da punção
dos dispunham de bastante tempo para se fecharem (Schlãpfer, em
e eles nada sentem. Depois, não qucrem admitir que foram puncio-
suas experiéncias com animais, tentou mesmo espetar a aorta sem
nados sem anestesia local.
ferí-la, e o conseguiu). lsso explica por que um projétil rcdondo (com
uma superñcie lísa) deve ter um efeíto incomparavclmente piorz a ve- Não precisávamos, contudo. recorrer à sugcstão como fator ex-
locidade da pcnetração desempenha aí um papel essencíaL Fínalmcn- plicativo. lsso signiñcaria fazer abstração do fato de que Mirin Dajo.
te, nas cxperiências como Mirín Dajo, o florete ñcava tanto tempo na citada colheita de sangue do dedo, se comportou normalmcnte,
no corpo que ferimentos dos vasos ou hemorragias eram, por assim estremecendo no momento da espetada e por isso o simples auto-
dizer, tamponados. Como, além dísso, a espada era retirada lenta- domínio basta para explicar que elc chcgasse a suportar a estocada
mente, também se tinha o cuidado de evitar que eventual coagulo se do florete sem manifestação de dor. Mirin Dajo a suportava exata-
despreendesse. mente por motivos pacifístico-idea|istas. por amor dc suas ide'ias. cn-
À pergunta “por que não ocorríam grandes hemorragias" pode- quanto os docntcs de nossa clínica diária suportam-na por amor de
sua saúdc - e assim artistas que fazem pretcnsas experiências auto~
se lambém responder esclarecendo que Mirin, ou seus auxíliares,
oompnm'íam a fcrida ímedíatamente após a expen'ência, sem mencionar sugestivas coram publico toleram essas dores ou praticam tal auto-
domínio por apego ao dinhçiro. Um efeilo sugestivo desempenha
o fato de que ele costumava logo se vestír. Ainda assim, era possível
perceber uma hcmorragía de pcquenas proporções e. ocasionalmen- aqui um papel somente na medida em que é procurado pelo público.
le. na colheita de sangue com um flebotomo, que servía para pcsqui- Quando, como aconteceu uma vez, um artista, num espetáculo dc va-
sas no laborato'rio. manifestava-se também o escoamento normal de riedades, espeta uma agulha comprida de cabeça esférica (natural-
uma gota de sangue. A espada não saía ensagüentada porque a pele mente de material leve) através dc uma prcga da pele scm cstrcmecer.
elástica cerlamente limpava o sangue que podia ter aderído a ela no _a platéia ñca -emocionada e impressionada, e não pensa que nossa
momenlo em que era arrancadaL Argumentando desta forma, esta- agulha de punções é muito mais grossa...
Mirin Dajo acabgu morrendo. Engoliu. para “desmaterializar",
um instrumento pomcagudo mais grosso do que dc hábito e não pôdc
ser salvo. apcsar de logo operado. Os médicos tinham-no advertido
cemração - em toda parte aconlccia o mesmoz quamo menos notícias. mas havía boa-
do risco. Um diagnóstico psíquíátrico mostrara que estava possuído
los.
..
88 FUNDAMENTOS ANTROPOLÔGICOS DA PSÍCOTERAPIA 89

"*-à-.v
O HOMEM INCONDICIONADO

por uma idéía de sobrevalorizacão, prevendo que essa enfermidade nância com a ñlosoña moderna. Que idéia temos nós. porc'm, do pro-
menlal se rcvelaria mais cedo ou mais tarde como “uma doença para domínio do idealismo na teoria do conhecimento dos tempos passa-
a morte”. De morluis nil nisi bene - e gostaria, portanto, de ressaltar dos?
que o dito parecer psiquiátríco sobre Mirin Dajo o qualiñcava, do Como se sabe, añrmou-sc, outrora, com frequ"ência. que tudo é
ponto de vista de caráter. como uma pessoa honesta movida por mo-
representaça'o, aparência, ilusão. Ora era a “coisa em sí", ora, por as-
lívos elevados. sim dizer, o '°eu em si" irreconhccíveL ora era tudo somcnle cu. era o
ILO Pmblema do Fspírito eu, era o sí mcsmoz solus ipse. O idealismo conduzia ao solipsismo
através do agnosticismo.
Hoje, a u'ltíma crítica não apresenta mais qualquer diñculdade.
I. A Essência do Espírito
Essa crítica teria de fazer, a nosso entender, a prova de que ao se añr-
mar que tudo é realmente só representação ou ilusão há, por um la-
Depois da crítica do espiritismo, da pseudometafísica espírita, volte-
do, um nivelamento do ser, cujo aplanamento é realizado com o sa-
mo-nos agora para a do matcríalismo. Já o deñnimos como uma me-
crífício de toda a estrutura das camadas, enquanto por outro lado.
tañsíca monista, e a propósito díssemos que, ao contrário do espiri-
em conseqüência do solípsismo. há simultaneamentc uma duplicação
tualísmo igualmenle unílateralizante-uníñcantcV. ele representa uma
desnecessária do mundo. No que tange à primeira objeção, posso
especulação metañsica â baw'se. Antes de emrarmos na crítica pro-
tornar claro meu ponto de vista dizendo o seguintez não é possível
priamente díta, devemos precísar que o materialísmo mctafísico que
que °°tud0” seja apenas representação, porquc - para escolher um
temos em vista e ao qual nos opusemos não deve ser, de modo algum,
exemplo - a representação "vermelho" não é propriameme de cor ver-
confundído com o que hoje se chama de ma_terialísmo dialético.
melha. da mesma forma que a representaçâo "círculo" não é, como re-
Para conñrmá-lo, basta tão somente a citação de uma tese de
presentação, deforma redonda. Há, porém, algo como o vermelho cor
Lénin, “Materialismo e Crítica Empíríca”, onde sc lêz “A u'nica qua-
(não exatamente idêmico à representação dessa cor) e algo como o
lidade da matéria à qual o materialísmo ñlosóñco adere é a de ser
círculo; logo, ao lado das representação “de“... cumpre existír algu-
realidade objetiva e de existír fora do nosso conhecímento.”
ma coisa que é representada “por”. E deixamos dc lado o fato dc que
O que se nos depara, por consegu1'nte, não é nenhuma metafísí-
o representado deve, forçosameme, ser anterior àqui|o que o repre-
ca, mas uma teoria do conhecimento e, como taL um realísmo. Pode-
senta. De fato, originariamente, nunca nos são dadas “representa-
- mos. scm diñculdade, aderir a csse realísmo, e cle próprío está de
ções”, e sim as coisas mesmas (não a “coisa em si“).
acordo com quasc todas as orientações ñlosóñcas contemporâneas. No que concerne à duplicação do mundo. gostaria de ilustrar os
A aínda assim, havería_algo a dizer sobre isso.
pontos a serem objetados mediante o relato de uma pequena história.
Na crônica escandalosa em que parece consístír a história da ñ-
Vivia na Índia, outrora, no palácio dc um monajá, um sábio que vi-
losoña, o escândalo acomeceu duas vezes: uma delas foí quando
vía a dizer-lhe que tudo não passava de sonho, mera ilusão. Um dia.
Kant chamou de “escândalo da ñlosoña" o fato de ela não ter sido
impaciente, o scnhor atiçou_ os clefa_ntes mais selvagens dc seujardim
capaz, alé então, de trazer a prova da realidade do “mundo exte-
zoológíco contra o nosso ñlósofo, que fugiu o mais depressa que
rior”. “
pôde. 0 marajá pediu-lhe que explicasse seu modo de agir, anuncian-
A segunda foi quando Heidegger añrmou que tinha de conside-
do que o mandaria decapitar porque ele, o sábio, não tinha. ao que
rar como escândalo da ñlosoña o fato de ela ter julgado que “a reali›
parecia, levado a sério o que prcgava e, por consegu1'nte, o tinha enga-
dade” do mundo exterior precísasse de tal prova! " Nessa posíção de
nado. “Tu disseste - rcprecndeu-o o scnhor - que tudo é só ilusão,
realismo epistemológico, encontramo-nos, como foi díto, em conso-
então m_eus elefantes deveriam também ser apenas ilusões?”. Nosso
ñlósofo contestou rapidamente, pensando em salvar sua vidaz
“Desculpe, mas a minha fuga também foi só ilusa'o..." '5
13 Tcxtualmcntc. trata-sc da "cxíslêncía das coisas fora de nós”, no Prefácio da scgun-
da edíção da Crítica da Razãa Pura. nota. p. 39. 15 Tal como o problcma cpistcmológico da verdade. o problcma êlico da liberdade
l4 Na vcrdade. houve um lerceiro escãndalo. apontado por Dillhey na scguínte passa- também leva a uma dcmonstração ad absurdumí sc um assassinonão é livre em sua
gcm: “Eslc é 0 cscândalo da ñlosoña: que cada um dos sistcmas cxclua o outr0. cada vomade c. portanto, não é responsável por scus atos, o mcsmo sc podcria aplicar ao
um conlestc o outro. c ncnhum dclcs possa provar o quc diz". juiz que o condcnassc à morte.
O HOMEM lNCONDIClONA DO 9l
90 .' UNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA

Quando declaro quc tudo é ilusão, nada mudou no mundo em Embora com letamente “meu". o meu róP no ato obscrvado
virtude dessa minha declaração. E quando tanto uma coisa como ou- por mim mesmo não é mais eu, não é o eu autêntico. Ninguém expri-
tra são ílusões (o ser perseguido c o ter fugido), então é demais falar miu isso melhor do que E. Frciherr von Feuchlersleben em Lehrbuch
ainda em ilusãoz essa pregação scria supérflua no mais alto grau, e der a"rtzlichen Seelenkunde, 1845, p. lO: “Não podemos aprecndcr o
constituiria somente uma duplicação dcsnecessária da realidade, quc eu porque nós próprios o somos. assim como uma mão não sc pode
sería desdobrada assim numa realidade reconhecída, supostamente agarrar a si mesma.“ E válido dizcr, portantoz o quc cu (inlcncional)
aparcnte, e numa segunda rcalidade supostamente reaL mas absolu- “tenho" eu não o sou (não o sou existencialmente). lnvcrsamcnte, é
tamente desconhecida, podendo esta u'ltima, por hipólese, ser dispen~ válido quc o quc eu (existencialmente) sou. não posso cu (intcncio-
sada. nal) “ter“ ” Assim como o sujcito faz com rclação à existência, da
Mesmo quando o idealísmo epistemológico não se refcre à ilu- mesma forma o objeto tem e mantém a sua transccndência.
são (no sentido mais fortc do solipsismo) e sim à “aparência”, con- Apesar de tudo ls'so, o homem nâo p_recisa duvidar ainda da pas-
traposta à “coisa em si'"incognoscível, mesmo aí se põe em dúvida, menologia. " Esta sua “visão essencíal" não é outra coisa, portanto,
eo ipso, todo o conhecimento objetivo, ou seja. na medida em quc senão um rcalismo radícaL Uma observação mais atcnta revcla quc
também o sujeito do conhecimento nunca abrange completamente o se trata de “olhar" uma pura essência, um puro “ser-assim, do que
objeto do conhecimento. Assím como 0 homem não “pode sair dc resulta quc não sc pode falar dc conhecimento “absoluto"; pelo con-
sua pele", também nâo pode chegar à “coisa em si". Esta é a tese do trário, todo conhecimento essencial é. no máximo. e no melhor dos
idealismo epistemológico. As coisas em si. os objetos do conhecimen- casos, objetivo. Só o conhecimcnto existencial pode ser absolulo. De
lo. na sua maneira real de ser, escapam do conhecimento. ñcam-lhe resto. voltaremos a falar nísso.
subtraídos para todo o sempre. Em face do objeto do conhecimento, Devcmos, mesmo, considerar como legítima a pretcnsão à obje-
o sujeito do conhecimento comporta-se como um escafandristaz sua tividade do conhecimento essenciaL do conhecimento do ser-assim.
mão segura um 0bjeto, mas ela própria é envolvida pela Iuva. Quan- da visão da essên'01'a, da fenomenologia? Sobrc isso deveríamos dizer
do a mão procura "agarrar”, é sempre a própria luva - esse existeme o seguintez se bem comprcendo HusserL ele acha. de forma um tanto
de permcío - quc ela consegue tocar. Do ponto de vísta idealista, é o vaga, quc o fenômeno (igual à essência) “vermelho”, quando apreen-
quc acontece conosco: o que nós apreendemos, aprecndêmo-Io apc- dido no modo “absoluto", poderá ser contemplado de tal maneira
nas nós, mas o que nós simplesmente lemos não é 0 quc somos. Uma nem Deus poderia observar diferentementc. ou melhor. “Vermelho”
“luva” separa eternamente, na nossa percepção e compreensão, o é e permanece exatamente vermelho, não importa quem o esteja ven-
quc somos do quc temos. do, pois a “pura" essência chega à vista como um “dado" primário.
Toda nossa percepção. todo o conhecimento perceptível é so- Talvez me seja permitido tentar indicar. partindo do cstético,
mente essc “ter" - não o ter da cxisténcia, mas precisamente o do ser- essa possíbilidade de conhecimento objetívo. Benedetto Croce defen-
assim, da essência. deu. certa fcita, a opinião de quc “se encontra uma certeza sensorial
E tudo isso vale para os atos reñexivos, o conhecimento do meu primítiva na visão eslética, onde não há distinção emre sujeito e obje-
próprio eu, pois o eu, além de não poder “penetrar" no não-cu, tam- to” (Lebendiges und Totes in Hegels Philosophie, Heidelberg. 1909).
bém não o pode em si mesmo: fazcndo de mim o objeto. passo a scr. No entanto, nós temos dúvidas dc quc aqui, nesse caso indiscutívcl
cm relação a mim mcsm0, transcendente. O ente espiritual só “é” na de simples conhecimento essenciaL “a diferença emrc sujeito c obje-
medida em quc se realiza completamente a si mesmo. Já por isso ele to" esteja realmente superada. Eu poderia imaginar. e os senhores
nunca pode ser visado em si mesmo e por sí mesmo, ou só na medída
em que o seja como ser transcendente a si próprio. '°

"no" fotograma. mas não o movimcnlo progrcssivo "das" imagcns. "do" ñlme mas-
mo. A imcrmiténcia dcsse movimento pode fazcr com quc cada “instantâneo" no tem~
po corresponda ao caráter “pumiforme" dos alos espirituais a quc se refenu PalagyL
16 A auto~rea|ização cspiriluaL a rcalização complcta de atos espir1'tuais. nâo pode. l7~ Angelus Silesius. como se sabe. resumiuz “Eu não sci 0 quc sou. cu não sou o quc
tampouco. comprecnder-se a si mesma como “rcalídade dc realização". como. por scn."
cxemplo. o desenrolar dc um ñlmc podcrá ler sido vislo por um cspectador; tanlo no
18 Eugen Fink. “Die phãnomenologishe Phllosophie Husserls, Leipzing. l934. interpre-
fotograma como na projecão do ñlmc. o movimcnlo é ímperceptívch o que o obscrva- lação autenticada por HusserL
dor pode vcr é apcnas o automovimento dos objetos ñlmados. dos objetos "no" ñlme.
92 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA 0 HOMEM INCON DICIONADO 93

também, que alguém apreendesse a substância musical, por exemplo, analisável ou redutível a outras relações". Losskij. que a csse mcsmo
da Nana Sinfonia de Beethoven de uma maneira que nem Deus pu- respeito fala de “coordenação gnoseológica“, designa-a exprcssa-
dessc superar, o ñzesse, por conseguinte, dc uma mancira “absoluta e mente como uma “relação singular. não causaL entre sujcito e objc-
porque cle esse nosso ouvinte perfeito, não poderia afmal fazê-lo? O to” (“Dcr lntuitionismus". em Archív fur die gesamre Psychologie,
que um homem chamado Beethoven foi capaz de críar, certamente, 87, l933, p. 380).
pelo menos em princípio, podc também um outro ser humano apreen- lnsistindo: em toda teoria ideaiista do conhecimcnto. não só
dcr como no caso do nosso ouvintc musical perfeito? Mas isso é su'ñ- nesta, mas também na crítica transcendental do conhecimento, a es-
ciente quanto ao problcma da possibilídade do conhecimento objeti- pacialidade é transportada do domínio ôntico para o ontológico.
vo. E agora, falemos sobre o problema do conhecimento propria- Com isso, comete-se um erro que não é menor do que aquele em que

m
mente absoluto que, como já foi dito, dcve ser algo mais do'que co-

_
incorreram os p0vos primitivos.
nhecimento objet1'vo. Até que ponto? Como se sabe, os povos primitivos têm a idéia (naturalmeme
Toda teoría do conhecímento que indaga como o sujcito do co- primitíva) de que a “alma” do sonhador abandona seu corpo. va-
nhecímento podc chegar ao objeto do conhecimento parte do pressu- gucia pelo mundo e acaba por se ñxar em algum objeto do sonho. Se-
posto de uma nítída separação entre sujcito e objeto. Tal leoria ba- rá que isso é falso, pergunto eu. e se o e'. em que medida?
seia~se na concepção de que entrc sujeíto e objeto exíste uma ñssura Bem, não hesito em añrmar que essa idéia dos primitivos é falsa
inextinguíveL um abismo intransponíveL um precípicio inacessível. somente na medída em que eles imaginam em tcrmos espaciais esse
Essa posição epistemológíca signiñca cxatamente o “pecado origi- pairar da alma. csse ñxar-se “em” algo. Cometem um erro que não é
nal" ñlosóñco - o “fruto da árvore da teoria do conhecimento”. De menor em. por outro lado. mais grosseiro do que o de Kam. Em que
vez que a separação foi uma vez estabelecída, nunca mais vale a pena medida. indagarão os senhores, não é mais grosseiro?
passar por cima do “abismo", voltar atrás, poís não há rccuo possí- O meu espírito, cvidentemente. está “em“ tudo que cle cventual-

me_-_-r~_ _
vel! Na mcdida em que tencionamos afastar-nos dessa separação fu- mente pcnsa. em que “toca". Só que esse está “em" não pode ser
nesta entre sujeito c objeto ~ com a intenção de considerar a possibi- exatamente representado espac1'almente. e isso porque não se trata dc
lidade do conhccimento absoluto e, por consegu1'nte, de um realismo um estar ou ser “em” espaciaL mas “rea|". 0 sentido não é, no caso.
que seja o mais radical possível -, devemos retroceder até antes dessa ôntico, e sim ontodológico. Ou, se me posso exprimir de maneira
divisão da existência em sujeito e objeto. simpliñcada: penso, por exemplo, em minha irmã que reside na Aus-
Ouvimos que na teoria idealísta do conhecimento sc cogita da trália - estou espiritualmente, “em espírito“, nela, meu espírito "é“.
prova da realidade de um “mundo exterior”. E de Kant sabemos desse modo, “em" minha irmã.
que, apesar do seu agnosticismo da “coisa em s1'”, disse que as coisas O errado seria añrmar que meu espírito “e'" ou está “cm" minha
em si “afetaram” de algum modo a “sensorialídadc”, a percepção
irmã “na” Austrália. Em outras palavras: só minha irmã é que cstá
“interna“ ou “extema”. Com tudo isso, incluiu-sc, a nosso ver arbi- na Austrália, somente esse seu ser-lá comporta uma expressão cspa-
lrarl'amente, na metafísica do conhecimento, a espacialidade (“mun- cíal - o fato ontológico do meu "ser cm” espiritual não deve. contu-
do exterior"!) e a causalidade (“afetaram”) - e isso quer dizerz as ca- do. ser formulado em termos espaciais.
tegorias respectivas. ou seja, espaço e causah'dadc, que só são válídas
na ínterioridade do mundo, só dentro do mundo dos "fenômenos”, Se não pensarmos mais esse ser ou estar “em“ no sentido espa-
foram transportadas para fora desse mundo, portanto, para fora das cial, então nada impede a añrmação - uma aflrmação feita muito a
relaçõcs conhecidas, conhecíveis ou a conhecer, e postas na relação sérío - de que o ente espiritual “está" realmente "em" outro ente.
que conhece, na relação do conhecímento mesmo. Em outraé pala- como os primítivos pensavam - só que não em termos espaciais. ao
vras: transformou-se em ôntíca o que era uma relação ontológíca. contrásio do que pensavam os primitivos. porque o ente espiritual
A rclação epistemológica, entretanto, como relação ontológi- não é sujeito à categoría do espaço. Por esse motiv0, choca-nos a
ca, não admite ontízação, nem no sentído da espacialidade nem da imagem dos prímitivos que se refere a um “espírito" que “abandona
causa|1'dade. G. Jacoby a chama de “relação gnoseológica” e Egon 0 corpo" e que. conseqüentemente. esteve “nele" antcs. Ora, o espiri-
Brunswick (Wahmehmung und Gegenstandwe11x, Grundlegung einer lo, essencialmente alheio à dimensão espaciaL nunca está no espaco
Psychologíe vom'Gegenstandher, Viena, l934, p. 29 ou 32) a qualiñca, e. por conseguinte. nunca está “no corpo”. “No espaço ele nunca é”
cítando Jacoby. e também Brentano. como °°uma relacão que não é - esta añrmação nunca mais deve espama'-los, pois a "inespacialida-
94 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA
O HOMEM INCONDICIONADO 95

de" do conheccr c do ser espirítual já foi por nós suñcientementc res-


saltada. “Onde” deveria cstar o espírito, cm que lugar do cspaço? Em outras palavrasz não podcmos. dc modo algum. imroduzir
Na mcdida em que o cspírito não está no corpo e também em numa mctañsica do conhecímento. por ímitação. aqucla distância
partc alguma do espaço - c em toda a partc (pois que ambos estão, aberta, aquela scparação de sujeito e objcto que a teoria do conhcci-
por si mesmos, elimínados), ele está tanto demro como fora do cor- mento. cm virtude de sua espacialização incorrcta, permitc que sc as-
po; “fora", no extcrior, no am biente exterior. numa palavraz o espíri- tabcleça; só então conscguircmos formar os rudimcntos dc uma au-
to cstá (“é") nas coisas. téntica ontologia do conhecímcnto. só cntão é que não se abrirá o
abismo entre o entc espiritual que é sujcito do conhccimcmo c o cntc
O entc espíritual "é". em rcalidade. “em” outro ente espiritual -
espiritual que é objeto do conhccimento. Toda a distância cntre “fo-
eis a nossa xese; a rcalidadc a que nos referimos não é. todavia, ônti-
ra de" e “dentro de”, “fora" c “dcntro”. todo o longe c pcrto dcvc-sc
ca, e sim. ontológica. O ente espiritual não “é”. conscqüememente, exatamente à teoria ontizantc não-ontológica. do conhecimento. à
em outro ente em termos de espaço. Temos. portanto, o direito de
aceitação no sentido cspacial dessas maneiras de dizcr.
nos chocarmos díante das exprcssões comumentes usadas ncsse terre- Do ponto de vista ontológico, pode-se dizer que “na realidadc"
no. A mcnos que “fora", ^^exterior”, “em” sejam concebidos imagis- o ente espiritual “é“ no outro ente; este entc. por sua vcz. não é evi-
ticamente, alegor1'camcnte, e que tenhamos consciêncía desse uso. Aí dentcmente nem “fora" nem “dentro" do ente espiritual - nem "fo-
não cometeríamos o menor erro. Onticamente, o espírito não está ja- ra“ nem “dentro". Este ente é simplcsmente “aí”. “'
mais “fora"; contudo, ontologicamente, ele está. cm cada caso “qua- Nem um nem outro ente “c"' (cstá). portanto. fora ou dentro.
se fora”. Onticamente, nunca é espacial; ontolog1'camentc, sempre o Pelo menos não no sentido ôntico-espacial; só no ontológico é que
é. Sempre que somos obrigados a nos servir dc tais expressoe's, tanto ele é ambos, simultancamentc. lsso constitui aqucla rclação rccípro-
vale dízer que o espírito está no corpo (que é seu suportc) como dizer ca que foi observada, desde a Ant1'guidadc, emre o mundo e a cons-
que o espírito ou alma vagueía “longe" do corpo e se ñxa nas coisas. ciência: o mundo não “é" somcnte na consciência (h'tcralmente “den-
ch, não dcveríamos - no que concerne às nossas queixas acer- tro“. como “conteu'do" da consciéncia). mas a consciência “é" tam-
ca da tendência da línguagem para a representação espacial - lamcn- bém no mundo, “íncluída" no mundo; “há”. portanto, algo como a
tar em demasia o fato de que pensamos tudo em sentido ñgurado, consciência. Sujeito e objeto são. dcssa mancira particular, complcta~
pois - notem bem! - poder-se-ia, inversamente, dizer que o “estar mente entrelacados, para o que se nos ofercce. como ilustração, o
em" corporal (algo como o “ser junto” de duas pessoas) é um estar símbolo úníco do Yang-Yin chinês. Aqui se pode perfeitamente ima-
em no sentído restrito, isto é, num sentido restrito ao cspacial ou, se ginar que a parte prcta cinge a branca, e vice-vcrsa. Podcríamos falar
assim se prefere, restrito ao corporaL Com efeilo. o sentido relacio- também, em vez de entrelaçamento. em encadeamento, e cscolhcr
nado com 0 ser é o primordial: o sentido não-espacial, não~corporal, para mostrar esse encadeamento outra ñguraz o projeto e a planta dc
relacionado com o próprio corpo. dois anéis de uma cadcia, digamos um preto e um branco. de modo
que no plano do anel branco se adapta uma das duas seções do a-
A esta altura de nossa exposição, podemos assim resumir o re-
nel preto dentro do anel branco, enquanto no plano do anel preto sc
sultado a que chegamos: a questão que marca todas as teorias de co-
adapta uma das scções do anel branco dcntro do anel preto; confor-
nhecímento foi, desde o início, mal colocada! Perguntar como o su-
me se queira. o preto é então “conteúdo" do branco, c vicc-versa.
jeito pode chegar ao objeto (para tornar possível e constituir um co-
Já vai ñcando claro para nós como é errado querer “omizar" to-
nhecimento objetívo) não faz sentido, porque essa pergunta repre- talmente as relações do conhecimento, assim como fazer da relação
senta, desde logo, o rcsultado de uma espacialização inadmissível e, gnoseológíca uma relação ñsiológica, e interpretá-la a partir da ñsio-
por conseguinte, de uma ontízação do fato verdadeiro. E ocioso par- logia sensoriaL Para a ñsiologista, é muito fácilz basta añrmar que os
gumar como pode o sujeito sair “de si para fora” e alcançar seu obje- raíos luminosos produzem na retina do sujeito uma imagem inverti-
to, que está “no exten'or”, símplesmente porque esse objeto, no senti- da e menor, embora em outros aspectos absolutamente correspon-
do ontológico, metañsíco-gnoseológico, nunca esteve “no interior”. dcntc ao objeto. Tal “produto", tal “efeito”, pode parecer plausível
Sc. no entanto, a pergunta for pensada no sentido ontológico e pura-
mente metañsico, e “exterior“ for empregado ñgurativamente, “co-
mo se", nossa resposta, no caso, deveria ser: o chamado “sujcito” es-
teve sempre “fora”, no chamado “objeto”! 19 O “scr-a¡“ é, por assim dizer. mais antigo do que o “mundo exterior”.
96 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPlA O HOM líM INCONDICIONA DO 97

no domínío da ñsiologia. mas no domínio dc uma ontologia do co- entc. Somente cstc “que" podc ser atingido ontologicamcntc; não sc
nhccimcnto eu jamais poderia aludir a um “cfeito”. e não poderia di- podc atingir, porém. “o quê". a cssênciu do “cstar cm". É ccrlo quc o
zcr quc a árvorc “lá fora", quc estou vendo c quc é citada, na maioria ente espiritual deve “scr" (cstar) cm outro cntc pura podcr aprccndê~
das vczes, em taís excmplos. atua em mím desta ou daquela maneira. Io, mas também para podcr pcnsar nelc. c principalmcntc poder falar
Estc 0u aqucle cfeito. em gcraL valc somcntc no mundo interior, no ncle; o modo como ele “é" cm, a onlologia não sabc. “
“mundo da árvore e da vísta" da ñsiología dos sentídos, se me permi- A ontologia não podc fazcr oulra coisa scnão cxprcssar vaga-
tem exprimir dessa forma; no cntamo, não valc mais na referência mcntez o cntc espiritual é “dc qualqucr modo" “cm“ oulro cnlc. Esta
ontológica ao rclacionamento gnoseológico entre a “coisa em si" e o capacidadc primitiva. csta possibilidade primitiva do scr cspiritual é.
cu “em si“. portanto. a condição de outras possibilidadcs. islo e'. da pcrcepção.
A possibilidade de o ente espíritual “ser” (cstar) em outro cntc é do pensamento e da fala. O "estar em“ não é, notc-se bcm, o primci-
uma capacídade primitiva. é a essência do ser espirituaL da realídadc ro resultado. mas já uma condiçãb de ulgo como pcnsar c fular - c
cspirituaL e uma vcz rcconhecida livra-nos da velha problemátíca do isto se chama compreender outro c enlendcr-sc com outro -. mas
sujeito e do objeto, livra-nos do onus probandi do problema de como também de recordar e tornar prcscme - c islo sc chama "scr em“
um pode chegar ao outro. Esta liberação há de ser conquistada ao tcmporal e espacialmcntc longe.
preço da renúncia a outras perguntas - e, portanto, à pergunta “o Tal como o "scr cm" anlerior a lodo pensan fular, etc.. numbém
quc é que má 'por trás, dessa u'ltima' e extrema possibilidade de o uma ontologia do conhecimento deve preceder toda psicologia. o quc
espírito °ser' (estar) 'em' outro scr?" E muito menos devemos apelar é compreensíveL 0 grau em quc isso é neccssário rcve|a-sc no scguin-
para a ñsiologia dos scntidos, pois então cairíamos. sem salvação, tez em relação ao ente espiritual que conhecc. o cntc nunca está ”fo-
numa pelitio principii. Como poderíamos nós, também, apelar para a ra”, assim o dissemos, mas simplesmcme “aí". Agoraz só nuquclu
perccpção ñsiológica, sendo ela condicionada pela possibilidade fun- posição reflexiva quc sc presta à psicologia é quc sc rompc cste sim-
damemal da capacidade primordial de “ser (estar) em”? Ressaltc- ples “ser›aí” c se divíde em sujeito e objeto. Essa aliludc rcflexivu
mos. contudo, quc o “ser em" é condição de algo como a percep- não c'. como ta|, ontológica; pelo contrário, é ôntica - precn'san1enlc.
Çã0, m quc permancceria ínexplícada e inexplicável se a capacídade psicológica. Da “relação gnoscológica“ resulta uma psicológica: o
primitíva - que a antccede e fundamenta - de todo espiritual apreen- “scr em". um modus ontológíco é onlizado. psicologizado. é psicolo-
der, de qualquer modo, outro ente, não fosse pressuposta, tácita ou gicamente interpretado ao invcrso num fato ônlico; é coisiñcado.
insuspeitadamente. “ transformado numa relação entre coisas. Enlão. o cntc cspiritual tor-
Já falamos quc a aprecnsão se faz “de qualquer modo”. De fato, nou-se também uma coisa cntre as coisas “ e o seu “ser em". uma rc-
lação do mundo interipr. .
uma ontologia do conhecimento não podc mostrar ou añrmar mais
O quc é, añnaL este "ser em“ do enle espiritual? Não c' outru
que o seguintez o ente espiritual é “de qualquer modo" em outro
coisa senão a intencíonalidade deste cnte espirituaL O ente cspirilual
é intcncional somente no fundo de suu essência. c assim é permitido
dizerz o entc espiritual é emc espiriluaL é scr-consciente. é “cm si". na
medída em quc “c'“ (esta') em outro cnte. na mcdida cm quc “tem"
20 Se a perccpção não chcga a ser csclarecida scqucr por cstc meio. conscqücmcmente
podc-sc espcrar ainda menos quc a partir dcla vcnhamos a csclarecer oulros proccssos
consciência dc outro ente. Assim se realiza o ente cspiritual cm "scr-
espiriluaís mais complicados, mais complcxos - no scntido dc uma explicação partida em", c este “ser cm" do ente espiritual é a sua possibilidude inlrínse-
dc baixo. do elementar. Dc resto. a inexplicabilidadc íntima da pcrccpcãojá tinha sido Ca mais antíga, logo a sua capacidadc primiliva pro'pria.
conslalada por Driesch (Alltagra"txel des Seelelebens, Sluugart. l938. p. 32). cm cuja Sintctizemosz o ente cspiritual quc conhcce so “tem" - scgundo
opinião. a cxcmplo dc Losskij, a pcrcepção ótica é pelo mcnos tão enigmática quanlo
a possibilidade - o outro ente conhecido na medida em quc cstá nele.
a lclcpalia, só quc cla é “canalizada" através do aparelho perccptivo. Finalmcnle.
Dricsch acha que a interposição dc fcnômcnos ñsicos na percepção ótica é o quc torna
tão cnigmálico 0 ato normal da pcrccpção.
2I Observou Viktor V. Wcizsãckcrz “A comparacão dc uma supcrfícic scnsoriaL como
22 Em lugar da cxprcssão “sci quc nño sei nada". podcr-so-ia dizcr "nào sci como su
a retina. com a superfície de imagem na pcrccpção ímplica também. por sua vez. quc
alguma coisa" (comparc-sc com o pcnsamcmo dc Einsleinz “o mais incomprecnsivcl
possamos pcrccbcr o órgão “olho'... Sabemos. por cxperiência como a coisa ^pareoe' so-
mentc através dc como as coisas de uma maneira ou oulra ^parecem'.,." (Der Ges- cm rclação ao mundo é o fato dc quc ele scja compreensívc|“).
23 Veja Dcscancs c a rcs(!)cogítans.
lalrkre¡'s, Lcipzig, l940).
98 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA
O H'OMEM lNCONDlClONADO 99

“em elc". Ora, no caso dc tal conheccr cxistenciaL “tcr“ signiñca as-
scncialmentc algo diferente do que no caso do conhecímento essen- sença da absoluta superioridade c, conseqüentemente. de algo quali-
cíaL no caso da vísão fenomenológica da essência de HusserL pois tativamentc (e não apenas gradual e°quantitativamcntc) Outro. “
ncsle caso “ter" signíñca sempre. exatamcnte, o ter da essência, do Em hebraico, como é sabido, o termo "conhcccr" denota tam-
puro “scr-assím". O conhecímento existencial se caracteriza, contu- bém ter relações sexuais. Bem, isto está de acordo com nossa teoría
do, pelo fato dc ser mais do que o ter da simples essência do simples do conhecimento. pois achamos que o conhecimcnto prcssupõe, até
ter - mais do que a sua símples “presença": o conhecer existencial certo ponto, ígualdade de parccria - assim como a procriação só é
não signíñca a prescnça do que é conhecido, mas o “ser em” daquele possível entrc parceiros. Esta analogia mereceria exame cuídadoso.
que conhecc. De modo que podemos dízer: a diferença entre o conhe- Dissemos antesz entre parceiros desiguais, a relação de conheci-
címento essencial e o cxístencíal é a seguíntez essemia (conhecída as- mento não podería ser recíproca; só o ser espíritual humano poderia
sencialmente pelo ente cspirituaD "manífcsta" existemia; existentia entender o outro, ser-no-outro. Isso só é possível no integral dar-se-
(aquele que conhece existencíalmente outro ser) “é” (está) 'nele um-ao-outro que chamamos amor. Na medida em que. por conse-
(“em" ele). guínte. o ser-um-no-outro é o “ser" de uma pcssoa “em" outra,
Assim como o conhecer exístcncíal eslá além da divisâo sujeito- como taL c isso signiñca tanto quanto “em" essa outra pessoa em sua
objeto, ou, melhor dízendo, despreza essa divisão, elc é capaz de ser absoluta alteridade (alteridade perante todas as demais pessoas); e55a
não só objetivo (a exemplo do conhecer essenciaL da visão da essên- alteridade o ser-em alcança amorosamente - na medida em que o
cía). mas também absoluto. Quod eral demonslrandum processo se dcsenrola dessa forma, pode-se dizer que o amor repre-
Para conhecer de uma forma não apenas objetíva, mas absoluta. senta absolutamente a maneira de ser interexistenaaL Somente os
0 entc espíritual deve poder “ser cm” outro enle; isso lhe é possíveL que se amam uns aos outros podem realmente compreender-sc mu-
se não no sentído ôntico~espacial, pelo menos no ontológico. É, em tuamente, só os que são capazes de entrar em rclacionamento sexual
suma, 0 que resultou de nossos esforços para fundamentar um co- (copular) conseguem “se conhecer" uns aos outros.
nhecimento exístencial ou, mais precisamente, uma metafísica omo- O homem não está, contudo. perante Deus como um "n0ivo”.
lógico-cxistencial do conhecimento. A possíbilidade do ser-em espiri~ e sim como uma criança diante do pai, Propriameme falando, tam-
tual - por sua vcz, a condíção de todas as outras possibilidades do bém isso nâo sería certo, poís a criança será um adulto um dia, com-
cspín'to - revelou-se oomo rcalidade espín'tual, oomo uma ta'cticidade. parando-se com o pai e igualando~se a ele, enquanto o homcm em
Outrossím, o ente espírituaL além dessas possibilidades básícas, des- faoe dc Dcus nunca o iguala em qual¡'dadc, apenas se lhe assemelha na
sas possibílidades que fundamentam a possibilidade, ainda lem uma im'agem. O homem comporta-se, portanto, frente a Deus, como um
possíbilídade dístínta: além de “ser em" (estar) outro ente de modo animal com relação aa homemz assim como o “mundo" do homcm
absolut0, ele tem a possíbilidade de “ser” (eslar), em especiaL “em” abrangc o “meio“ do animaL assim o mundo do homem é abrangido
um ente da mesma qualidade, isto é, cspirítuaL e por isso semelhante. pelo ultramundo. 15
Este “ser em" do ente espiritual em outro ente espilrituaL este “ser O que ñcou demonstrado mais uma vez? Que o todo o conhecí~
em,” entre entes espírítuajs nós os chamamos dc “ser-um-no-outro”. mento humano é válido, por assim dizer, só para o reino intermédio
Vale ressaltar que só é possível um completo “ser em” num tal “ser-
um-no-outro", portanto, entre entes da mesma qualidade. Atente~
mos símplesmentc para o seguintez não podemos compreender a co¡-
24 Essa difercnça, mais do quc quant1'tau'va-gradual. é rcferida de maneim muilo cx~
sa, podemos apenas explicá-la; o humano, porém, somos capazes de pressiva numa passagcm da Bíblia (lsaías 55.9) que sc relaciona oom nosso tcmai “A5-
compreender - os homens podem compreender_-se uns aos outros. sim como sâo maís altos os céus do quc a lcrra. mnís altos são os mcus caminhos do
O ente não deve se limítar a ser de qualídade diferente só no que que os vossos. c os meus pensamcntos do que os vossos pcnsamcnlos" (c' o vcrsiculo
sc referc ao que ñca abaíxo; pode também ser de qualídade diferente, sobre o Etemo). Pois o oéu. em rclação à tenn. não é mais alto de uma mancira gra~
dual-quanti¡aliva. e sim qualitaliva - na medida cm quc signiñca um absolulo; uma-
a bem dízer. para címa. E o que de fato ocorrc, já que de Deus, que
se. com efeíto. da reprcsentação simbólica da altura cm si mcsma.
lhc é superion o homem não pode ter uma compreensão totaL Nunca 25 Que o homem é comprcendido por Deus - a quem o homcm jamais compreendc in-
“entendcmos” os caminhos de Deus; podemos, quando muito, pres- teiramentc - não só de forma completa. mas também numa proporção incomparavcl-
sentí~los. Como Deus não é um ente relativo, e sim absoluto - o Ab- mcntc maior do que o homem pode sc comprecndcr a si mcsmo, é o que sc conclui dn
soluto, o próprío ser -, estamos. neste caso de desigualdade, em pre- analogia feita acima. O homem. de fato. comprcendc o animal c sua vida inslimiva
mclhor que o animal tcrá algumn vez condiçõcs dc fazê-lo.
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100 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA O HOMEM INCONDICIONADO lOl

- para o humano e para o que lhc cstá um pouco abaixo e um pouco por amor à justiça, particularmente da justiça social e cconômicm
acima. Nosso entcndimcnto falha diante dos clétrons do mesmo Façamos abstração dc que o matcrialismo histórico cm si mcsmo não
modo quc falha cm face de Dcus. 0 homcm é precisamcntc um ser
quer ser senão um princípio heurístico de invcslígação cicnlíñca; pro-
médío. um scr que está no mcio entre potemia e aclus. ou é constituí- curemos, pelo comrário, ressaltar a sua máxima c'tica. Assim, vere-
do por ambos - enquanto os clétmns são simples potências (de resto,
mos que ela corresponde a uma variantc do primum vivere deinde... O
uma opinião adotada pcla ñsica moderna); Deus, pelo contrário, c'
“primeiro". no caso. passa a ser a vita sorialís. ao qual sc dá prima-
tradicíonalmcntc dcfmido como actus purus. zia. Ela - e dentro dela ajustiça - é vista como o que há dc mais ur-
O que são, na rcal¡'dade, todas essas coisas derradeíras, esscs ex-
gente, passando a cultura a ter um sígniñcado sccundário. Scria. con-
trcmos que sc situam profundamcnte abaixo do humano. ou muito tudo, incorreto imputar ao matcrialismo histórico. numa análíse em
acima dclc, bem como aquilo que sc ofcrecc a uma plcna compreen- profundidade. como aqui tentamos fazer, o propósito de degradar a
são - nós não o sabcmos, c como homens nunca poderemos sabcr. E cultura. Já assinalamos que o primado econômico-social origina-se
toda nossa sabedoria conseguc aqui pouco mais do que - na maís do amor. àjusliça. portanto a ênfase no sooial se faz por causa da cul-
aguda consci_êncía dc sua própria limilação - colocar aspas em “ma- tura. Preserva-se a signiñcação ñnal porque a signiñcação do culxu-
téria". “Dcus”... ral. que motiva e fundamenta a primazia do sociaL é absolutameme
Esta consciência da límitação parece ser semprc a u'ltima palavra reconhecida, na medida em que sempre é pressuposta. n
de toda a sabedoria ñlosóñca. Se, todavia, me for permitído ilustrar, Agora, ñnalmentc. podemos ocupar-nos do malerialismo pro-
por mcio de uma ímagem, o sentido profundo de tal conclusão - por pnamcnte dlto. Ele, c somente ele. seria na verdade uma metafísnca. c
conseguinte, o sentido profundo do ponto dc partída ñlosóñco - en- não. como o materialismo díalético, uma teoria do conhccimento e,
tão gostaria de pedir que os senhores imagínassem que estão agrupa- como taL um realismo, nem tampouco. como o materialismo histo'n'-
dos no centro de círculos concêntricos, cujo diâmetro aumcnta suces- co, um sistema de ética c. nessa qualídade, um idealismo. Doravante.
sivamente até que, por ñm, se atinge um raio inñnitamente grande. não nos ínteressa nem aquele matcrialismo que representa uma leo-
Então. o último, o “círculo” tornado inñnitamente grande. não apre- ria realista do conhecimemo (por conseguintc. não-¡dealista) nem
senlaria maís curvalura alguma! E agora explicitemos o que quere- aqucle materialismo que se baseia numa ética idealista (porque antie-
mos dizer com esta imagem: teoricamente. uma auto-reflexão gran~ picurista ou anti-hedonista), mas. pel_o contrário. o materialismo que
demcnte potencializada, uma consciência muíto elevada, da limita- signiñca mctañsica; como laL como metafísica, nada tcm a vcr com a
ção do conhecimento humano, poderia, de ceno modo, anular e su- antílese “idealismo-antiidealismo" porque a melafísica materialista,
perar todo o antropocentrismo dessc mesmo conhecimento, a sua rc- o materialismo metañs¡'co. teria como oposilor 0 espiritualismo mc-
latívidade e subjetividade globais - numa palavra. a sua ñnitude. tañsic0. A csse rcspeito, deve~se considerar que nos colocamos, pole-
No ínício deste capítulo, em relação estrita com a crítica que nos micamente, em especial contra aquelc matcrialismo metafísíco cm
propusemos fazer do monismo materíalista, partimos daquele mate- face do qual o materialismo histórico-dialético se distancia critíca-
rialismo que sc autodenomina “dialético". Ficou demonstrado que mcnte, isto e', contra o materialismo mecanic1'sta. como se uutodeno~
nele não se trata de nenhuma metañsica, mas, pelo contrário, dc uma mina.
posição epistemológica. Como teoria do conhecimento, dissemos, A essência desse materialismo, podcmos vê-la no fato dc que elc
aqucle maten'alísmo é um realismo. Em tal contexto, teria cle toda a qualiñca de simples epifenômeno da matéria os fcnômcnos anímico-
razão de se considerar como um_ antiidealismo. Já não ocorre o mes- cspíriluais. Em outras palavras: tudo que é cspiritual derivaria da
mo se o analisamos dc outro ponto de vístaz veriñcamos, então, que é matéria. Este spiritux ex materia é. e pcrmanece, juslamente. um Deus
um sistema ético. Nessa qualidade, não se pode aceitar que seja antíi-
dealista; pelo contrárío, como ética, é idealista. Analisemos sucinta-
mente csse aspecto.
26 A que ponlo a cxigência dc que o fator cullural (por causa de si mesmo) rcnuncie ao
Sob a forma do materialismo histórico, o materíalismo moderno primciro lugar corrcspondc. de falo. ao cspírilo do Velho Teslamento, a scguimc pas-
sagem o dcmonslra (Amós. 5-23/24): “Aparta dc mim o ruído dos lcus câmicosz nào
proclama o primado do social e do econômico. Observemos mais de ouvirci o som de tua Iira. Antcs quero que o direito scja como um regato c a jusliça
perto até chegarmos à íntímidadc da motívação, ao elhos em que se como uma torrcnle que jamais scca". Mas seria dcsejávcl que nessc regalo os bens cul-
baseia. Veriñcamos que o primado econômico-social é proclamado turais chegasscm à Xcrra como despojos. e nào como supcrestrulura.
O HOMEM INCONDICIONADO l03
102 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSlCOTERAPlA

ex machina, pois o espírito humano nunca se deixa converter em “ho- provas de que há no cão um centro que rcsumc todo o complexo
emlssor de sons - uma reglão no gyrus cemrali anterior - CUJa cxtir-
mem-máquina”.
pação bilateral interrompe por alguns mescs a capacidade de ladrar.
Kalisher chegou a provocar num papagaio uma fasia motora para as
2. 0 Vir a Ser do Espírilo
palavras humanas aprendidaa por mcio de cxtirpações bilatcrais em
Patologia cercbral e ñlogênese do espírito parte do lobo frontal e no mesoestriado v11inho. H. Munk pôde pro~
duzir num cão uma “cegueira psíquica" pela dcstruição bilateral dc
Antcs dc iniciarmos a tarefa de contcstação das propostas centrais do
uma rcgião no meio da convexidadc do lobo occipitah o animal cvi-
materialismo, acima cxpostas, dcvcmos examinar tudo o que aparcn-
tava os obstáculos prontamcme, mas não era capaz dc rcconheccr.
temcme lhcs é favorável c em que procura apoiar-se. Um dos pontos
como o fazia antes. 0 chicote. o prato com comida clc. Finalmcntc.
de sustcntação mais importantes são os resultados a que tcm chegado
depois de lesões parciaís bilaterais do córtex da esfcra auditiva, apa-
a invcstigação da patología. À primeira vista, cssa ciência está empe-
rece. algumas vezes, uma “surdez psíquica" na qual se pcrde o co-
nhada em evídcnciar a tcse da dependência totaL não só da alma,
nhecimento da signiñcação dos sinais, das chamadas. c assim por
como também do espín'to, e dc enfraquecer a validadc da tese, por
díanle. embora isso possa ser recuperado mediantc n0vo treinamento
exemplo. de Nicolai Hartmann, da “autonomia apesar da dcpendên-
do animaL
c¡a”. Note-sc bemz só “à primeira vista”. Como será demonstrado
Estamos familiarizados com tal rccuperacão também nas clíni-
adiame, apesar de tud0, “apesar da dependência”, existc também cas das doenças humanas: o afásico é capaz de rcaprendcr a falar,
muita autonomia. mesmo nos casos em que os centros correspondemes foram Icsados.
Na verdade, “à primcira vista”, as correspondências entre, dc Como conciliar esse fato com a pretensa intcgrução gcraL completa.
um lado, a ñsiologia e, de outro. a alma c o espiríto são, em geraL tão
de função e centro? Bem. essa integração não é unívoca ou decisiva.
numerosas e tão extcnsas que é fácil compreender que elas impre'ssio- Pelo contrário, podcmos provar repetidameme a cxperiência de que
nem e fascinem o 0bscrvador. O material de experiência acumulado para o cemro lesado surge logo uma outra partc do cércbro que assu-
pela ñsiopatologia cerebral parece favorecer a possíbilidadc de que
me e conserva a função da parte lesada. Em síntcsez conhecemos o fe-
“as funções” da alma e do espírito “sc localízem” nos chamados cen- nômeno da chamada v1'cariedadc. Não há possibilidade de uma |oca-
tros cerebrais. Desde que Broca, em 1860, pôde vcriñcar a relação da lização exata do centro psíquico-espiritual nem de uma completa in~
base da terccira circunvolução frontal esquerda (nos destros) com a tegração função-centro. Portanto, deve havcr uma força de reserva,
função da fala, viveu-se muíto tempo como se nada impedisse a idéia como células ccrebrais sem trabalho e que, cm caso de necess¡'dade.
de cquiparar 0 cérebro a um mapa geográñco e nelc inscrever cada podem ser cmpregadas na "vicariação". Aonde porém, vai o cérebro
I
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vez maior número de centros. Tinha-se a esperança de restringir as humano buscar essas células substitutas7 Devc-se lratar, certameme.
“manchas brancas” (a “terra desconhecida") ls'to é. as “zonas mu- de células glanglionares ou neurônios que até então estavam inazivos.
l l
I das”. Foi tão longe esse modo de ver que Meynert não hesitou em Pois bem: para respondermos a cssa questão. teremos de recuar um
propor a substituição do nome “psiquiatría” pelo de “ch'nica de pouco.
docnças do cérebro anterior”. Já dc há muito se provou que a frase "natura non facit sallus”
Scria um grande equívoco querer duvidar da exatldão cuentíñca nem sempre é válida. lsso se evidencia na Física desde que Planck
das observaçõcs empiricamente comprovadas: elas se basearam, real- aparcceu com a sua teoria dos quan1a. Fora do seu microdomínio,
mcnte. em experimentação. Uma série de experiêncías de cxcitação e para além do domínio que a físjca nuclcar estuda, a natureza também
extirpação fortaleceram a teoria da integração geral das “funções ele- dá “saltos quânticos", o que C. V. Economo dcsígnou como “ce-
vadas da alma” (inclusive as espirituaís), mas fortaleceram “aparcn- rebração progressiva" e oulros autores, como “cefalização”. E. Du-
lcmentc“, como havcremos de ver. Essas investigaçõcs referiam-se bois acha verossímil que. no decurso do desenvolvimento dos antro-
não só a oportunidades fornecidas pelo desenrolar de operacões ce-
póides - portanto, dos homens-macacos - através dos antropídcos -
rebrais realizadas em pacientes humanos, como também ao material
ou seja, dos macacos-homcns - até os homínídeos ultcriores, a cefali-
proporcionado pclo exame do comportamento animal em detcrmi- zação se fez aos saltos, na medida em que o cérebro aumentava dc ta-
nadas condições. Assim, Franz, Rothmann e outros puderam mas-
manho, passando, por exemplo. a relação do número de ce'lulas_gan-
trar que a extirpação de ambos os lobos frontais em cães c macacos glíonares do córtex cerebral de 3 1/2 para 7 c dcpois para l4. Dcu-se.
conduzia à perda dos atos aprendidos. Katzcnstein conseguiu obter
lO4 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA O HOMEM INCONDICIONADO 105

por consegu1'ntc. uma duplicação dos ncurônios. Deve tar-se tratado humanidade, no todo. hojc como omem - atualmente ou na êpoca
de mutaçõcs e. por conseguinte. de aumentos intermitentes das célu- do homem de Neandertal - tcm sempre uma oportunidade para pro-
las ganglionares, aumentos que não podem ser interpretados nem em gredir e se desenvolver mais.
termos de scleção ncm de adaptação. Bolk considera, entre outras A “human¡zação" está, portanto. inacabada. O último salto. um
coisas, também essc fenômeno como inerente ao tornar-se homem aumento sob a forma de mutação, das células ganglionarcs do córtcx
(compare-se com o que Versluys. Põtzl e Lorenz escreveram em cerebraL deu à espécie “homem" uma oportunídade inaudita: mas o
Hirngrõsses und hormonales Geschehen bei der Menschenwerdung, homem tem ainda de fazer muito para utilizar essa oportunidadc. O
Viena, Maudrích, l939). homem ainda não tirou de si o possíveL o máximo! Não se descobrc
Para nós, é importantc saber que os quase 14 bilhões de neurô- em parte alguma uma písta do profetizado super-homem (pelo ma-
nios do córtex cerebral dc que dispõe, segundo Economo, o homem nos não desde o tempo dos super~homens profctizadores, dos profe-
atual (Homo sapiens recensl já estivcram à disposição. não ainda dos tas), somos ainda homens intermediários.
antropídeos, isto e', de forma primária da espécíe “homem”, mas sem Com a mutação que proporcionou subitamcntc ao hominídeo
dúvida já dos neandertalídeos, portanto, da forma primitiva dos ho- l4 bilhões de neurônios. estamos habilitados a datar cssa humaniza-
minídeos e clarameme também de sua forma antiga (Homo sapiens cão incompleta. ou, se preferirem. a alvorada do sexto dia da Cria-
fossilis). Por mw's, no entanto, que o homem de Neandertal tenha es- ção. Quando, entretanto. se diz no Gênesis que 0 homem foi criado
tado de posse do mesmo número de neurônios de que dispomos, es- no sexto dia e que Deus descansou no sétimo, cabe o comelário: de lá
ses neurônios dcvem ter signiñcado para ele um luxo: com certeza, para cá compete ao homem fazcr-se a si mesmo. E Deus? Elc espcra e
não os utilizava. O homem de hoje também não os utiliza. Não se observa como o homem realiza as possibilidades criadas. Possibilida-
lrata de mera suposição de nossa partcz Põtzl conseguiu prová-lo. des que, conforme foi dito antes. não estão esgotadas. Deus dcscansa
Chamou, por cxemplo. a atenção para o caso dos paralíticos recupe- ainda, espera ainda, ainda é o Sabath. um Sabath permanenle.
rados pela malarioterapia c que rcadquiriram capacidade de ação, A essa luz, a humanização se revela não como criação, mas a ca~
muíto embora o cérebro revelassc histologicamcnte uma perda consi- pacitação do homem - quando muito, criação indirelamente. na mc-
derável de células (Strãussler e Koskinas). Os doentes praticamcnte dida em que essa capacitação no sentido biológico pode, por sua vez.
curados pcla malarioterapia (alguns morreram de outras causas) ti- ser compreendida como criação no sentido teolo'gico. Seja como for.
nham neurônios suñcientes, apesar das perdas. para satisfazer a suas a "capacitação" do homem aguarda a auto-realização. Como pro-
necessidades cotidíanas. Dito de outra maneira: desde então. sabe- cesso incompleto, o tornar-sc homem biológico não é menos, mas
mos que o homem comum - inclusive o de hoje - faz render pouco o também não é maís do que uma razão necessária, embora não suñ-
“dote" dc células ganglíonares, os “talentos” recebidos da “nature- ciente, do scr-homem. E csse motivo temático irá enredar-sc ao longo
za“. " de nossas investigações futuras, conforme veremos. como um ño ver-
Quais as conseqüências de tudo isso? A primeira refere-se à melho que nos servirá de guia. Oricntados por ele, divisaremos sem-
doença, individualmente considerada; depois do que dissemos sobrc pre, a cíntilar, uma verdade nas maís variadas facetas e reflexõesz que
a possibilidade da vícariedade estamos sabendo que, na ocorrência o bios jamais engendra o logos. assim como a physis jamaíx causa a
de certas lesões do aparelho cerebral, há ainda no homem um espaço psyche; ambos são apenm farores cond¡'cz'onames.
no qual as funções anímico-espirituais podem restabelecer-se. Esta- De tudo que aprcndemos até agora resulta que não sc pode falar
mos capacitados, outrossim, a responder agora à questão inicial de uma localízação rígida de diferentcs funções em diferenles ccn-
sobre aonde vai o cérebro arranjar as “forças de reserva” dos neurô- tros, pelo menos não no sentido de uma integração geral dc uns e ou-
nios com funçoc°s vicariantesz eles estavam, de fato, “sem trabalho", tros. Estamos, pois, autorizados a aderir ao juízo formulado por
inativos. Hans Hoff numa publicação comcmoratíva de Põtzl (lnnsbruck.
A segunda conseqüência não se aplica ao caso individuaL mas l949, p. 232): “Broca, Wernicke e outros tentaram decompor o cé-
ao geraL à espécie “homem". Resulta da nossa veriñcação de que a rebro em funções. numa representação cartográñca. Funções altera-
das nas lesões cerebrais foram atribuídas por eles a cenas regiõcs.
Esse método malogrou rapidamente." Como exemplo nagrante, cita
' O Autor ncste trecho usa imagens inspíradas na parábola dos taIentos do Evangelho Hoff: “Era difícil acreditar que exístisse um engrama da palavra “ca-
dc São Matcus (25-l4) (N. do T.) sa' no nosso cérebro depois dc ver que um doemc que não conseguia
O HOM EM INCONDICIONADO 107
106 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA

achar essa palavra levantava-sc e dizia “É inútiL preñro ir para ca- turbações das funçõcs em apreço. chamos Põtzlz “Nâo parccc que
on sejam localizáveis as funçõcs mas apcnas as penurbaçõcs da fun-
sa.
ção." (°'cherkungen zum Agnosic" - o caso de Clcmens Faust,
Os atos psíquicos nunca são localizávcis; pelo contrário, quando
publicado em Nervenarzt 29. 8. 354. l948). Não devemos dcixar dc
muito o são certas condiçõcs somáticas de seu decorrer. Menos ainda
do que o fluxo psíquico, a alma in tolo admítc uma localização. Ou r'essaltar quc o que é válido para o sistema ncrvoso. inclusivc o ncu-
falamos dc alma, e cntão não conscguircmos Iocalizá-Ia, ou falamos rovegetativo, também o é para as disfunçõcs do sistcma endócrino. ”
- Afmal de contas, comprecndcmos muíto bcm o motivo que lcvou
dc localização. e então. no melhor dos casos. podcremos añrmar que
a integrídadc dc algumas partcs do cérebro é, até oerto ponto, um Weizsãcker a assevcrar: “A investigação das ciéncias naturais sobre a
prcssuposto para as funçoe's psiquicas com que se coordenam, mas esséncia da vida esclarece. no sentído mais profundo, apenas a sua
que nelas não se localizam. patologia".
Conscqüentemcnte. só nos pode parccer um disparate aludir a Do mesmo modo como a enfermidade somática não ocasiona
uma °°sede da alma". Klagcs advcrte enérgica e exprcssamente, a esse senão uma perturbação psíquica funcíonaL assim também o trata-
memo somátíco (medicamentoso, cirúrgico, etc.)' não pode fazer
respeito, comra uma “obscrvacão supersticiosa do cérebro". e julga
mais do que restabelecer o funcionamento psíquico pcrturbado.
acertadamcntc que “a fmalídade da investigação cerebral não é a
Agora, como antes, será mantida nossa añrmaçào de que o psíquico
busca de uma sede da alma. mas sim das condiçõcs cercbrais de reali-
não é causado pelo ñsíco, mas é simplesmentc condícionado por c|e.
zação dos fcnômenos psíquicos e das disposíções". Com_o imagem
Numa palavra: o que a doença impossibilita o tratamemo volta a
adequa'da. diz o seguíntez a ninguém ocorrerá que o comutador é a
possibilitar. lsso, e nada mais, é o que signiñca a cxprcssão “restabe-
scde da luz com que a lâmpada elétrica ilumina a sala, Hoff argu-
lecimento dc uma função".
menta dc maneira idénticaz “Está claro para todos que um automó-
Mais uma vez havcmos. portanto. dc nos precavcr contra uma
vel cuja vela dc igníção deixou dc funcionar não pode andar. Nin-
confusão cntre condicionalismo e “constitucionalismo", tanto na
guém, contudo, vaí achar que a vela aciona o carro.”
abordagcm da docnça como na da tcrapéutica. Tomemos um exem-
Em vista dísso tudo, somos pouco receptivos às menções de
plo do día-a-dia: alguém é convidado “para comer”; o convilc rcal-
“certas partes celulares” ou “sistemas celulares” que, scndo “muito
mcnte é para comer? Os donos da casa estranhariam se o convidado.
numerosos c fortes”. provocam os processos nervosos de que resul-
tomando ao pé da Ietra o convite, se comportasse dentro desscs limi-
tam a ambição do dinheiro ou o impulso para o conhccimento ou
tes; ele tcria. no caso. cometido um grosseíro cquívoco e uma falta
para a representação artística”. No nosso entender, o somático não
grave contra os bons costumcs. porque não foi lá para saciar o apetí-
produz e não dá origem a nada - não realíza, apcnas condiciona. Na
tc, mas para conversar; a comida destina-sc a facilitar a conversação.
_medída em que, por motivos práticos, nos aproximamos da tcoria da
tornando-a livre de inñuências perturbadoras de cstômagos insatis-
interação psicoñsica. não aderimos inteiramente a ela, justamente
feitos. Mesmo o cafê que é scrvido após a refeição não atcnde ao pro-
porque não é lícito falar de um efeito real do ñsico sobre o psíquíco.
pósito de promover a convcrsação, mas sim dc condicioná-la, na mc-
De antemão, deve causar-nos uma impressão ridícula ouvir (al-
dida em que liberc os participantes de um evcntual cansaço.
guém) añrmar, ainda hoje, para além da interação ou do paralclis-
Esta referência a um eslimulante (o café) leva-nos à discussão da
mo, a identidade do físico e do psíquíco. Lemos nas chamadas Diret-
terapêutica por meío de medicamentos. Do mesmo modo como há
lrizes de uma Filosofm da Medicina, do norte-americano A. W.
uma patogênese psicossomática especíñca, também conhccemos uma
Kneucker (publicado na Áustria por Maudrich, em l949): “A alma
terapêutica medicamentosa especíñca. Assim como o processo somá-
não é scnão a mais alta rcpresentação da atividade geral do sistema
tico de evolução cíclica a que denominamos depressão endógcna
nervoso... conseqüentemente, função da matéria... dito mais resumí-
conduz a uma ansiedade especíñca, também o Tryptizol como sc sa-
damente - tudo é matéria ou função da matéria... o cérebro é a má-
be, tcm uma ação não menos específlca sobre cssa ansiedade. Quanto
quina da alma. De acordo com sua montagem, funciona a máquina."
0 autor fala, bem entendido, somente da “chamada alma” e, logica-
mente, da “chamada psicología” - em compensação de uma “psi-
qucctomia“ por elc assim denominada. 27 Comparc-se. por cxcmplo. mcu trabalho "chr cin psych-ndynam1'sches Syndrom
und scine Bczíehungcn zu Funktionstõrungen dcr Nebennieren-rindc", Schwmzer
As funções psíquicas são condicionadas, mas não causadas pelo Medizinische Wochenschnfl'. 79, 1057. l949).
somático. Onde se pode falar dc “causalidade” é no terreno das per-
108 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA O HOMEM lNCONDlClONADO 109

mais banaís são cssas conexões, mais impressionantes parecemz não é sempre uma entidadc biopsicológica; ora, a psicotcrapia tem por ob-
raro que as distimias menstruais, por exemplo, sejam favoravelmen- jcto o espirituaL a pessoa cspirituaL precisamcme na sua singularida~
te influcnciadas pela íngestão de sal de cozinha. o que talvez sc expli- de e originalidade. Por conseguinte, nesse sentido, nunca é demais in-
que pela influência da acidose ou da alcalose sobre a afetividadc. dividualizar, no que tange à psicoterapia. É o que indica muito apro-
É claro quc, sempre quc identiñcamos a etiologia especíñca de priadamente o título de uma obra programática de Paul Tournicr:
um sintoma psíquico somatógeno. também uma terapêutica igual- Médecine de Ia Personne.
mente especíñca é indicada. Sabemos, por cxemplo, que não raral Resta a “quimização” da psicoterapia. Temos em mentc a nar-
mcme uma agorafobia se rclaciona com o hipcrtircoidismo - relacio- coanálise. Ela surgiu, como se sabe. na ll Guerra MundiaL de forma
namcnto a que já me referi frcqüentememe em outras ocasiões -, o notáveL e em contraposição à “eletriñcação" da psicoterapia ocorri-
que fornece um ponto de partída para uma medicação especíñca. Por da na l Guerra, quando as neuroses eram tratadas com o cmprego de
outro Iado. quando ouvimos dizer, inversamente, que o síndrome de correntes elétricas mais ou menos intensas.
despersonalização se relaciona, especiñcamente, com a desoxicorti~ Na narcoanálise, não se trata dc nenhum processo analítico ver-
costerona, então é permitido. pelo menos em alguns casos, tirar con- dadeiro. porque o que uma psicanálise autênlica produz é a liberação
clusões sobre uma patogcnia igualmente especíñca. dos necalqucs e a tomada de consciência. Em relação a isso, o que se
Anteriormente, dissemos que a cura das perturbações psíquicas pede à narcoanálise?
de origem somática também se realiza por meios cirúrgicos. Existe, Das publicações respectivas. bcm como de nossas próprias cxpe-
de fato, para a tão apregoada medicina psícossomática, um correlato ríências. 23 narcoanálise reside. dc um lado. no dcsmascaramento de
no domínio terapêutico, no sentido dc uma terapia inversamente di- uma simulação ou dissimulacão e, por outro. no rompimento do es-
rigida. E esse correlato torna-se mais impressionante quando cstá cm tupor. Cumpre notar que, no tocante à simulação. não se trala. ao
causa o local que é díretamentc interessado no somático, o cérebro. contrário de uma psícanálise, de material recalcado, e sim oculto,
Já se discutc a “psicocirurgia", como se alguma vez se pudcsse efeti- não de inconsciente, mas de nâ0-dito. A verdade a que se chcga não é
vamente operar a psique, como se se pudesse atingír com o bisturi a a verdade intcira ou pura. 0_u o doente guarda para si alguma coisa,
realidade da alma ou do espíríto. Também se tem trazido à baila a ou diz o que lhe é sugerido - e na situação narcoanalítica o homem é
“psicoquímica” e, ainda que com isso sc aluda menos a um trata- reconhecidamente sugestionáveL
mento do que à “inñuenciabílidade” etiológica do psíquico pelo quí- Assim como na descoberta de uma simulação não se trata de re-
mico, a .expressão só é válida no sentido da condic1'onah'dade. nunca calcado, mas de ocultado, também no caso de rompimcnto do estu-
da causalídade. por não estamos diante de um fenômeno de liberação de um recal-
Sempre que as expressões “psicoquímica" ou ”psicocirurgia” que, mas de superação de uma inibição. Entrc recalque e inibição
são empregadas sem espírito crítico, e se cria, com isso, a ilusão de existe, porém, uma diferença essenciaL que se torna clara tão logo
que a psícoterapia pode vir a scr algum dia substituída por elas, deve- nos Iembramos de que o id é recalcado pelo ego, enquanto inversa-
mqos fazer uma advertência contra uma evolução que levaria à “quí- mente o ego é inibido pelo id.
mização”, à “cirurgização" e à coletivização daquilo que outrora A narcoanálise baseia-se fundamentalmeme numa variame do
para justiñcar o nome de psicoterapia, se apcgava ao conceito dc psi- princípio in vino veritas, isto é, in sero veritas, a saber, no "soro da
que, signiñcando, no caso, a pessoa humana, o fator espirítual no ho- vcrdade”. Na narcoanálise. porém, só a parte instintiva da realidade
mem. psíquica, e não toda a verdadc - à qual pertencem os recalques - é re-
' 0 que entendemos por coletivização da psicoterapía? Temos em _velada. Assim como. segundo Max Liebermann. a arte do desenho
meme a tão propalada psicoterapia de grupo. Esta, sem dúvida, tem vale pelo que omite, o ser do homem consiste em deixar dc lado aqui-
suas 1'ndicaç'ões. Não devemos, todavia. esquecer que só se admite em lo para o que é impulsionado e recalcar aquilo para o que é impelido.
determinados casos, porque lhe falta o objcto adequado - a “psique Do ponto de vista terapêutico, a instintividade, o id. é menos rele-
de grupo“ que não existe numa acepção rigorosa, ontológica. Na psi- vante do que aquilo que o ego começa a fazer com cla. Na narcoaná-
coterapia genuína. o valor rcside em que se aplica individualmente,
ao indivíduo como taL Não é por acaso que Jung vê no desenrolar da
psicoterapia um ^°processo de individuação”. Ao mencionarmos “in- 28 Vcr "Narkodíagnose". dc Frankl e Strolzka. Wiener klimsche Wochenschrfil 61.
divíduo“. cstamos,' contudo, dizendo muito pouco; o indivíduo é 569. |949.
llO FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA
O HOMEM INCONDICIONADO lll

lise, porém. o que comcçou já acabou. Nela é trazído “à fala” o id,


ratoriamente e destruir, por essc meio, associações que. no psicótico,
mas o cgo silencía. E sc a cxprcssão de Schiller tem algum valor, é
justamente no que tange à narcoanálisez “Fala a alma; ail a alma não deviam constituir o fundamento de idéias delirantcs. Essas idéias de-
lirantcs - como o grande Moniz imaginara - seriam topícamcntc vin-
fala mais!"
culadas a certas vias e poderíam ser desviadas pela intervenção. Mo-
Quanto à “cirurglz'ação" da psícoterapía. haveria a dizer o se-
niz, portanto, ensaiou resolver com o bisturi o problcma da psiquc
guintcz os pressupostos da psicocirurgia vêm de longe. Em primeiro
doente. da mesma maneira como Alexandre resolvera o problema do
plano, há dc ser lcmbrada a conhecida observação de que a chamada
nó górdio: queria literalmente golpear as idéias delirantes.
moria - uma ccrta euforia com pcndor para gracejos, vida desleixa-
Já com o aparecimemo do tratamento das psicoscs por meio dc
da, etc. - revela~se como sintomática de processos dos lobos frontais,
choques ou convulsões acontecera que os pressupostos teóricos de
enquanto processos mórbidos também ali localizados podem levar a
modo algum afmavam com a rcalidadc. o que não impedia que se re-
pcrturbações especíñcas do instinto. justamente a obliterações, tipí-
gistrassem resultados bem sucedídos na prática. Só que o investiga-
camente frontais, do instinto. De vcz que Po"tzl ("Psychische
dor não deveria deixar-se iludir com isso. Muítas vezes, porém, as
Enthemmungsreaktion nach Operation eincr Zyste im Schwcífkern”,
tentativas teóricas dos sucessores dos que fundam novos métodos te-
Medizinische Kl¡m'k, l, l925) pôde demonstrar que um toque no
rapêuticos resvalam para o que os psiquiatras chamam dc “delírio in-
cpêndimo ventricular conduz a um estado de excitação maníaca e,
terpretativo racionalizante secundário".
mais tardc. Fõrster c Gagel também puderam veriñcar o mesmo efeí-
O que se passa rcalmente com a acessibilidade da psique à cirur-
to nas intervcnções na vizinhança do terceiro ventrículo, parece não
gia? A pergunta é tanto mais importante quanto mais reitcradamen-
havcr mais qualquer contradição entre esta minus variante e csta plus
te, nos últimos tempos. se tem añrmado que a leucotomia destrói efe-
variantc do comportamento. isto é, entre perturbação do impulso e
tivamente a alma, termo com que, sem dúvida. se abrange a pessoa
excitação. No caso concreto. pode haver inclusive a transição dc um
espirituaL
comportamento para outro. Assim, recordo o caso de um ganglíoma
Acerca disso, haveria a dizer o seguinte2 Erwin Stengel (Die La"-
do lobo fromal diagnosticado no meu serviço de Neurologia. Locali-
sionen im Stirnhirn nach prãfromaler Leukotomie, publícação come-
zado, foi operado, veriñcando-se então a necessidade de abrir o
morativa de PõtzL p. 446) comunicou resultados que ilustram “a es-
vcntrículo lateral e lesar, por conscguinte, o epêndimo. Enquanto,
pantosa variabilidade dos achados patológicos ñnais alcançados por
antes da operação, o doente estava moroso e denotava perturbações meio da leucotomia” e fala dc “uma espantosa irregularídade das le-
instintivas. mostrava, agora, uma moria acentuada, caractcrística
sões operatórías nas técnicas usuaís de leucotornia". Quando e onde
exalamente de lesão do epêndimo. Assim. por exemplo, quando a en-
é encontrada a “alma"? Esta pergunta topográñca - errada a priori.
. fermeira lhe perguntou (há) “quanto” (tempo) estava na clínica, res-
como sabemos - não pode encontrar solução, é fundamentalmente
pondeu chistosamentez "l metro e 72!”. 29 "'
irresponsáveL Mais aindaz A. Meyer e E. Beck (Joumal of Mental
Depois que Burkhardt, já em 1890, emprcendeu a tentativa de
Science 89, 161, 1943 e 9l, 4l l) foram capazes de veriñcar, na autóp-
tratar de psicoses por mcios cirúrgicos, foram Hoff e Põtzl que. cm
sia, que num caso em que houvera melhoria psíquica. o ramo tála~
l932, tentaram interpretar terapeuticamente cfeitos psíquicos acíden- mo-frontal estava intacto. e no entanto era aquele ramo precisamen-
tais dc intervençoe's ciru'rgicas. Tais tentativas só foram cmpreendi-
te que deveria estar destruído.
das com aplitude por Moniz, em l935, quando apareceu com sua leu-
Apesar dc tudo, fala~se na destruição do ego e do superego,
cotomia frontaL ou lobotomia.
como se alguma vez estes pudessem ser localizados. Díz~se que “por
Fazendo~se abstração de todos os êxitos na prática, cumpre sa-
›' meio da destruição do lobo frontal o homem é excluído do domínio
lientar que os pressupostos teóricos de que Moniz partiu não são
da responsabilidade moral e da consciência", “ínterrompc-se um sis-
nada convincentes. Ele tinha a intenção de intcrceptar sinapses ope~
tema de comando orientado segundo pontos de vista axiológico-
espirituaís",' a leucotomia identiñca-se com “uma destruição do
substrato frontal correlacionado com a expcriência dos valores" c
29 Ver FrankL "M_anísch-depressive Phascn nach Schãdeltrauma”. Monallsschrfn leucomotomizar signiñca “pôr ñm ao ser-homem do doente" (S.
jumr Psychiatrie und Neurologze ll9. p. 307. 1950. Haddenbrock, “Radikaltherapie durch Defrontalísation?", Medizinis-
' Chistc intraduziveL 0 docnte imerpretou o “wie lange" tcmporal da cnfermeira no che Klinik 44, 3, l949, p. 69). Segundo F. Reitmann (J. menL Sci. 9l.
scnlído espacial dc estatura, comprimemo (“der Tisch ¡'slfunfMelerlong"). (N. do T.)
l945, 318). em tais o'perados, sobrevém. em lugar de uma concepção
|12 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA 0 HOMEM lNCONDlClONA DO 113

moral idcalista, uma concepção moral mais práticaz a mulher de um aludem tantos autorcs? “Sinto novamcntc um grandc intcressc pcla
docnte lobolomizado añrma quc “nele a alma foi destruída“ (comu- música." E os interesscs éticos? A docntc mostra uma viva compai~
nicado por S. L. Hutton, J. Men. Sci. 93, l947, p. 3l). Reitmann (loc. xão c exprime, devido à mesma, um desejo: quc os outros que sofrem
ciL ) acredita poder obscrvar “falta de compreensão para os fatos teó- como cla outrora sofria scjam ajudados como cla o foi! Depois, per-
ricos, estéticos, éticos e religiosos". guntamos se ela sc considerava mudada. Respondcuz “Vivo agora
Tod'avia, nota-se quc a intcligência pouco é afelada pela Ieuco- num outro mundo, não se podc de modo algum cxpressar por pala-
tomia. Quc outra coisa isso signiñca. scnão o fator gnóstico no ser- vras. Antígamente não era um mundo. cra um vegetar no mundo,
homem foi relativamente conservado após a operação? Que acontece não cra vida; estava tão martirizada. agora estou no mcu rumo; o
com o segundo fator que constitui o ser-homem - o ético? (esses dois pouco que ainda resta. posso rapidamente supcrar." (“Você conli-
fatores correspondem ao duplo aspccto da cxistência_como consciên- nuou a ser você mesma?") “Tornei-me outra." (“Em que mcdida?“)
cia e como responsabilidade). O homem Ieucotomizado tem de se “Agora vivo realmente." (“Quando se scntiu ou se tornou autênti~
tornar realmente outro, não mais “elc mcsmo”? ca?”) “Agora. depois da operação. E tudo muito mais natural do quc
Pois bem, no nosso entcnder isso não acontcce. Uma doente Ieu- antes. Antigamcme. tudo era obsessão para mim; agora, tudo é como
cotomizada (por nossa indicação, em virtude de um tumor talâmico, deve ser. Rcencontrei o caminho. Antes da operação. eu não era pro-
ínterrogada sobrc pcrturbaçõcs da personall'dade, declarou apenas priamentc um ser humano. apcnas um peso para a sociedade e para
que se tornara menos sensíveL menos ativa, menos chorosa. Essa do- mim mesma; agora. as outras pcssoas já dizem que eu sou outra." À
claração concorda exatamenle com a dc Stransky (“Leukotomie bei pergunta dircta sobre se perdeu o seu eu. ela responde: “Eu já o ha-
einer schwercn Zwangsneurose". em Wiener klinische Wochenschrf¡t', via perdido; depois da operação retornci a mim mesma, para a minha
61, l7, 263, l949), segündo a qual “cessa a impressão afetiva mórbi- pessoa (nole-se bem: a palavra “pessoa" havia sido proposiladamenle
da de determínadas rcprescntações" e indica, em geral, que o fator evitada no imerrogatório da enferma). Não estou nada zangada por
pático é o mais afetado, em primeiro lugar. pela Ieucotomia. Esta a ter adoccido, aprendi a convivcr com o sofrimento; lucrci muito espi-
razão por que o mcdo da mortc inevitávcl desapareceu. depois da ritualmente com isso; eu era ensimesmada, mas isáo não passou com
leucotomia, num enfermo portador de um cancro inoperável (Ha- a operação." -
denbrock, Iac. c¡t.). Não compreendemos, todavia, por que. por essc A pessoa tornou~sc humana através da operação - tornou-se cla
molivo, “o homem deve ser despojado do substrato do seu ser- mcsma, pois o que a tinha afastado da condição humana, da auto-
homem" (ib¡d.). Com isso. chegaríamos, dc novo, à questão da in- rcalização, era a doença, não a intervenção cirúrgica. Aliás. as consc~
fluencíabilidade da vida pessoal pcla leucotomia. Ocupcmo-nos ain- qüências psíquicas da operação constituem o menor dos prejuízos.
da de outra doente da nossa clíníca. - Tem razão Max Zchnder (“P_sychochirurgie in USA", Schweizer Me-
Ela havia sofrido de grave enfcrmídadc obsessiva, rcveland0-se dizinische Wochenschnft 79, 9l. l85, l949) ao d¡z'er que “convém consi-
ineñcazcs vários anos de tratamento por meio da psícanálise. psico› dcrar se o indivíduo modiñcado pela enfermidade é mais prejudicado
logia individuaL insulina, cardiazoL elctrochoqucs. m Conseqüente- pelos ímpetos obsessivos cndógcnos ou pela opcração”. No caso da
mente. e depois de frustradas tentativas psicoterapêuticas, indicamos nossa paciente, não denotou qualquer prcjuízo aprcciávcl ocasiona-
AMÁ_

a leucotomía, que obtevc êxito absolutamente notáveL Deixemos, do pela intcrvenção; pelo contrário, ñcou incomparavelmenle mais
porém, quc a própria doente nos conte: “Estou muito melhor. posso natural, mais sintonizada (a exemplo da doente de Stransky. loc.
trabalhar de novo, como no tempo em que gozava de saúdc; as repre- cit.). Apesar disso, queremos interrogar-nos sobre se as conseqüên-
sentações obscssivas não desapareceram, mas sou capaz dc me defen- cias operatórias cventuais são atribuíveis à pessoa espirituaL Poís
der delas. Antigamentc, cu não conseguia Ier, por causa das obses~ bem. pensamos que muitos defeitos gnósticos e éticos são atribuíveis
sõcs, tinha dc ler tudo dez vezes para entender, agora não preciso crradamente a um defeito do espírito ou da consciência, mas na ver~
mais repetir.” E sobre os intcresses estétícos. a cujo desaparccimento dadc se devem a não cstar presente o cspírito ou a não manifestar sua
presença a consciência. Essa suposição permitc comprcender os atos
de curto-circuito do pós-operatório. Contra a ausência da consciên-
cia. é possíveL entretanto, atuar por mcios psicotcrapêuticos.
30 “Dcpois do choque. eu esquecia até o endereço dc casa - menos a minha ansieda~ A priori, não devc ser possível que algo como 0 cu ou a pessoa
dc". espiritual seja atingido pelo bisturi. Admitir tal possibilidade csconde
H4 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA 0 HOMEM lNCONDlClONADO ll5

“.' ¡r,_;'?3'_
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Accntuemos, portantoz o que constitui o íd ñca mais longc do eu
uma grande dose de materialismo. A leucotomia, por consegu1'nte,
nâo afeta de modo algum a pessoa espirituaL Pelo contrário, só o or- pela leucotomia. DaL a indicação para a intervcnção; agora sabemos

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ganismo psícofísico é tocado - só a facticidade. mas não, como pcnsa quando ela é admissívelz só no caso de sofrimento na esfcra do id,
Haddenbrock (loc, ciL ), a exístenc1'ah'dade. Onde poderíamos identí- não na do ego. O sofrimemo do primeiro tipo. tal como o causado
ñcar o essencial da modiñcação da facticidade psicoñsica do leucoto- por dores originadas por carcínomas, é desneccssário; o sofrimento
mizado? do segundo tipo, entretanto, é nccessário. 0 sofrimcnto sob o jugo
Segundo nossa convicção. o “eu" está Iá como antes, portanto do destino - a tristeza provocada pelo falecimento de um cnte queri~
ínalterado depoís da operação; somente o id se tornou mais afastado do - é próprio do homem, jamais se deveria tentar suprimi~lo pela
do ego - o id é empurrado pela opcração para longe do ego. E, por is- leucotomia. Sofrimento desnecessário é sofrimento destituído de sen-
so, as partcs em conflito são separadas: o id daí em diante deixa o ego tido; sofrimento necessário é sofrimento dotado de sentido. Dcixar
cm paz e více-versa. sofrer um homem desnecessariamcnte é um erro médico; abandonar
Com toda razão, añrma Haddenbrock (Ioc. cit. ): “Não é a doen- um homem ao sofrimento necessário seria impiedoso. mas o homem
tem o direito de sofrer suas dores, tanto como, segundo Rilke, de
ça, mas sim a vivência da doença que determina a indicação para a
leucotomia.” De acordo com o nosso ponto dc vista, não é o que se morrer a sua morte, c como, segundo Scheler, o criminoso tem o di-
vive que é modiñcado por ela, mas sim a área circundante da vivên- reito de expiar a sua culpa. E mister, todavia, que nos asseguremos
cia, e este ganho dc distância se impõe como uma perda do eu, preci- de que a dor à qual deixamos conscientememe o homem entregue é a
samente porque o eujamais se manifesta “em si mesmo", mas na for~ “sua" dor - por consegu1'me, da esfera do eu. e não do id. Dores ori-
ginadas por um carcinoma pertenoem mais ao tálamo do que ao ego,
mação e no domínío do id, visto que, não nos csqueçamos, o eu “e'”
sobretudo em relação ao “não-eu”. somentc na medida em que se enquanto tristcza pela mortc de um cme querido pertcnce ao homem.
destaca do “não-eu" - qucr neste não-eu se trate do id (Freud), do e não ao tálamo. 0 que sc conseguiria, no último caso, mediante a
“se" (Adler) ou do “tu” (L. Bínswangcr). Aqui se dcixa ver que todo leucotomia seria não o distanciamento do ego, mas sua auto-aliena-
ção. Só então acabaria a leucotomia, por ser algo que se poderia de-
ser se constitui como um ser-outro, o que signíñca “em relação”. “
signar como uma eutanásia parciaL Quem, como nós, defende a ídéia
Quando Haddcnbrock (loc. cit.) escreve que, a exemplo da psi-
coterapía, a leucotomia “não atua sobre o organismo doente, mas dc que não compele ao médico conscguir a euforia a qualquer_preço
- e. portanto, também, ao prcço do sentido diminuído da vida - de-
sobre a personalídade doente” e persegue e atinge “f'ms que, em sen-
tido lato, são o alvo dos cuidados da alma, isto é. o modiñcar a atitu- sistirá de tirar do sofredor a sua dor, a sua dor signiñcativa e propi-
ciadora de sentído. Procurará, pclo contrário, dar-lhe o que cle preci-
de do doeme no que tengc à doença", ele não tem razão, na medida
em que nem a personalidadenem a atitude são modiñcadas pela leu- sa: capacidade de sofrer.
cotomia, mas a atitude é apenas aliviada por ela." O homem não é Não existc qualquer indicação especíñca para a leucotomia. Por
¡
1 atingido pela leucotomia como ser espiritual reativo”; ela possibilita esta razão, também não se pode dizer, simplesmente. que o domínio
muitas vezes ao ser espíritual ter uma reação dígna exatameme para da indicação seja limitados às psícoses, ou então deveríamos acres-
que, depois da operação, “as renresentacões obscssivas parecem me- cemarz e àquelas neuroses que são consideradas análogas das psico-
nos próximas da personalidade” do doente obsessivo grave, como, ses. Essa equiparação pode ser quoad gênese ou quoad prognose, quer
por cxemplo, se exprime Stransky (loc. cit.) e como se revelou no dizer, ou em relação a uma gênesc somática recente (pseudoneur0se)
caso da nossa própria paciente. ” ou em relação a um prognóstico infausto, na medida em que há um
perigo imineme de suicídio - no caso. a indicação é vital - ou falha~

31 Ver FrankL Ãrzrliche Seelsonge, Dcuu'ckc, Viena, l946. p. 3.


do. só é válido apomar em geralz o corporal como condicionanle da manifcstaçño do
32. tntrememcs veio o lume uma publicação de Haddcnbrock na qual formula tào
pslquico difcrenciado. e cm particular a inlcgridade funcional do Iobo fronlnl como
cuidadosameme os fatos em exame que ncnhum mal-entendido pode subsistir e só nos
condição corporal espccíñca do cspírito da pcssoa, ao nível das disposições individuais
resta concordar quando ele declara que seria “uma conclusáo precipitada localizar a
capacidade de rcflexâo a respcito da existéncia no Iobo frontal do cércbro. 0 fenóme- dadas em cada caso ( Úber den Beirrag der Leukoromie - Erfahrungen zur Fard"emng all-
gemeinmedizinischer Pmbleme, Verhandlungen der Deulschen Gexellschafl für innere
no pslquico não é IocalizáveL nem em seu aspccto mais simples. vegctativo-animal,
nem em suas manifestacócs de ordem upiritual mais elcvada. Ciemiñcamcmc falan- Medzin. 559 Congresso de Wiesbadem l949).
l|6 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA 0 HOMEM lNCONDlClONADO l|7

ram todas as tc_ntativas de tratamemo de outra espécie; eis por que cer completamente separadas umas das outras. Cumpre evítarmos
Stransky (loc. c'it.) tcm razão quando neste contexto fala da leucoto- com respeíto a essa separação METOWOLÇ elç õuw 7e'voç. A separação
mia como a “ulu'ma rau'o"'. exclui uma relação mútua?
Tentemos agora fazer um confronto entrç a leucotomia e a nar~ Achamos que nã0. A relação entre a pessoa espiritual e o orga-
coanálisc. Nesta, dissemos, o eu é silenciado; naquela, é posto em nismo somático é instrumentaL 0 espírito instrumenta o psicoñsico -
descanso. Na narcoanálise, o eu é desligado do id; na leucotomia, o a pessoa organiza o organismo psicoñsico - sim, ela o forma "para
eu é “aliviado” do id, a afetividadc c a impulsividade são embotadas, sí", na medida em que o faz utensílio, órgão. instrumemum
o vis a tergo é estrangulado - numa palavra, a situação interior-do A pessoa espiritual comporta-se. em relação ao scu organismo.
homem, na narcoanálise, correspondc a um vemo sem vela. e a do ho- de modo análogo ao músico em relação ao seu instrumento. Uma so-
mcm após a leucolomia, a uma vela sem vento. nata não pode ser tocada sem piano nem sem pianista. Como toda
Qucremos rciterar: não se deve, de modo algum, julgar o espiri- imagem, também esta claudica, porque o pianista é visíveL enquanto
tual com base no efeito terapêutico de uma íntervenção cirúrgica. O o espírito é essencialmente invisível (sem que seja irreal). O fato de
espiritual no homcm é tão pouco susceptível de exploração por uma que a imagem falhe neste ponto deve-se a que o pianista e o piano es-
operação como o seria por meio de uma autópsia. Sc quisermos em- tão num plano - literalmentez isto é. no mesmo podium; já o cspírito e
prcgar o jargão clínico, diremosz nunca podemos julgar o espíritual o corpo de modo algum se encontram num e no mesmo estrato do
ex juvann'bus. Só uma coisa sabemosz o psico-espiritual é influencia- ser.
do pelo corpóreo - de uma maneira ou de outra - favorável ou desfa- Apesar dessa deñciência. consideramos ainda frutífera a ima-
voravelmente. Seria, no entanto, inadmissível quercr ampliar a tese gem escolhida. Fixemo-nos nisto: mesmo o melhor pianista ” não
mediante a oonclusão de que o espiritual é simples cfeito, simplcs poderá tocar bcm num instrumento desañnado (¡magem para doen~
produto, simplcs resultado. simples epifenômeno, ou, como os auto- ça). Então chama~sc o añnador (o médíco). que añna o instrumento
res citados, algc “produzido", °°nada maís que função da matéria”, e (tratamento). Quem ousa agora añrmar que a añnação do piano faz
assim por diante. a arte do pianista? Sabemosz não se reparam os erros de um mau pia-
0 corpóreo é conditio, mas não causa do psico-espiritual. A nista.
doença ñsica limita as possibilidades de desenvolvimento da pessoa Como se passa quando não é um piano que está dcsañnado, mas
espiritual e o tratamcnto somátíco as rcstitui, d'á-lhe nova oportuni- um homem? Desañnado no sentido de um estado de desañnação en-
dade para sc desdobrar - é o que nos ensina a clínica, nem maís nem dógena, portanto, no sentido de uma psicose. Já sabemos que a psí-
menos. 0 que somos capazes de explicar através da clínica é apcnas a cose não é uma enfermidade da pessoa espirituaL é verdadeiramente
diminuição das possibilidadcs do espiritual; quanto à realidade espi- uma somatose. Por consegu1'ntc. não é de mancira alguma a pessoa
rituaL só poderemos compreende-^la a partir de uma metaclínica. espiritual que está doente “de” psicose. com o que não se comesla
Quão precipitada há de nos parecer a seguinte passagem encon- que ela sofra sob a influência de uma psicosc. Adoecer, na signiñca-
trada numa publicação amerícana! Ei-la: °°Substâncias tireoidais au- ÇãO geral de “ser doente", só se aplica ao organismo psicoñsico; ele,
mentam a inteligência nos cretinos. Tóxicos perturbam as funções es- por conscguinle. é que pode ser atíngído pela psicose. ReveIa-se aqui.
pirituais. Que nos ensínam esses fatos? Que o entendimento é uma maís uma vez, que é só o instrumento que está desañnado - toman-
substância que surgc naturalmente. Ou é ele uma espécic de radia- do-se “instrumento” e “desañnado" tanto literal quamo ñgurativa-
ção?" 0 hormônio da tireóide é aqui pura e simplesmeme equipara- mentc.
do ao espírito. numa identiñcação grosse1_'ra. Só falta que, em decor› Agora compreendemosz o médico com a aparelhagem de eletro-
rência dos eletrochoques, o espírito acabe sendo considerado o equí- choque correspondc complctamente ao añnador de piano. A missão
valente da eletricidadel Na verdade, a corrente elétrica nada tem a de um, bem como a função do outro, limita-se à restauração de um
ver com o espín'to - um não consegue criar nada com o outro. Per-
guntcmos, contudo, de uma maneira geralz quem, ou o quê, é atingi-
do, rcalmcnte, no tratamento por eletrochoque? Bem, não certamen-
33 Compare~se com Gregor von Nyssa. citado por Migncl em PatroIagia Gmeca.À44.
te a pessoa cspin'tual; resta o organísmo somático. Não seria talvez |6l A/B. 164 Dz “0 Nous se exterioriza. ou não - do mesmo modo como um cilansta
oponuno que indagássemosz como se comportam ambos entre si? domina scmpre sua arte. mas num determinndo insxrumento toca maL e scm inslru-
Temos ouvido repetidamente que as camadas do ser devem permanc- . memo algum não pode tocar".
1l8 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPlA
O HOMEM lNCONDlClONADO ll9

aparelho. Tanto a doença quanto o tratamemo atuam exclusivamen~


É esse psicoñsico, c não o espfrito, quc está doeme. Nunca scrá
te no aparelho, no ínstrumento; o tratamento restítui ao músico
dcmais sublínhar este aspecto. pois quem não atribui a psicose ao
aquele °°espaço de tocar“ que a doença díminuíu. Todavia, no quc
psicofísico, mas a refere á pessoa, caí facilmente no pcrigo dc ncgar a
concerne à pessoa em si, ela é tão pouco atingida pela psicose quamo
pelo tratamento; nem a enfermidade somática ncm a tcrapia somáti- humanidade do doente do “espírito" e entra em conflito com o ethos
médico. Sobretudo não verá mais nenhuma razão suñciente para a
ca afetam a pessoa espirituaL Ela não é alcançada pela psicose e a ela
prática do ato médico, pois este pressupõe alguma coisa em nome de
não se aplicam os eletrochoques.
Quando não se trata de psícoterapia na acepção de logoterapia que ele seja praticado, ou melhor, alguém, uma pessoa, hoje como
ou de análíse existenciaL isto é, de uma terapêutica “a partir” do es- ontem, pré ou pós-mórbida. Ninguém gostaría de ser médico “para"
um organismo e sim. pelo contrário, para a pessoa que “carrega” o
piritual (logos) e “para" o espiritual (pessoa existcncial), mas de tera-
respectivo organísmo doente. Alguém pode querer ser médico so-
pêutica psiquiátrica de processos psícóticos (quer dizer, terapia so-
mática para somatoses) o que é válido. hoje como ontem, e indepen- mente “por amor“ à pessoa cujo organísmo está doente, por amor à
poessoa que não “é" docte, mas “tem" uma doença. É certo que eu
dentemente de modismos, é o seguíntez tratamos, de fato. someme
das doenças. mas não dos doentes propriamente ditos. Se, no entan- trato “por causa” de uma doença, mas “por amor" a uma pessoa;
to. não tratamos de doenças, mas de homens doentcs, e nessa quali- não por amor ao organismo, mas à pessoa.
dade, pessoas espin'tuais, não é mais o caso de falarmos de doenças; A psicose é uma somatose, pois é uma doença fenotípica, aínda
deixam, então, de existir todas as categorias nosológicas e permane- que somatogêníca. Como tal, é uma doença do organismo psicoñsi-
cem disponíveis. no domínio do espírito pessoaL somente as catego- c0, mas não da pessoa espirituaL A pessoa espiritual é apenas “em-
paredada” por ela. Quem senão o psiquiatra consegue descobrir a
rias noológicas. Elas, entrctamo, dc há muíto não exprímem como
termos opostos “sadio”-“doente", mas “verdadeiro"-“falso". pessoa por trás do muro - a pessoa sofredora? Sim, a pessoa sofre,
Por meío do eletrochoque não é dada ao mclancólico nenhuma como sc dissc, sob o jugo da neurose, sem estar doente dela; a pessoa
sofre simplesmentc em virtude da ímpotência a que está condenada
nova alegria de viver, assim como tampouco o crctino adquire novas
pela psicose - a impotência para se manifestar, considerando que ne-
=nergias espirituais ao receber hormônio da tireóide. Pensar o con-
cessíta de um organismo para a automanifestação, um orgauísmo
trário constituiria grave equívoco de índole matcriàlista~energética.
A psicose como ta|, como somatose, nada tem a ver, já dissemos, sem perturbações, quer instrumentais, quer expressivas.
com a pessoa espirítual; o espírito pessoal (que se pode reañrmar da- Assim, o homem psicótico sofre duplamente, por impotência
instrumental e por invisibilidade expressiva de sua pessoa. Ou sofre
pois de um bem sucedido tratamcnto da doença psicoñsica-orgâníca)
nada tem a ver com a terapia somática. unicamentc pclo seguintez Ier-se tomado um objeto, possível aínda, da
biologia. deixando de ser um objelo de uma possível biografch Quem
A pessoa cspirítual permanece íntegra, mesmo na psicose;' o
for capaz de falar de um estado esquizofrênico avançado como de
espíñto pessoal não é afetado pela doença “do” espírito, embora a
pessoa csteja escondída e dísfarçada pelos acontecimentos mórbidos um caput morluum de usar, nesse contexto, da expressão “um cadá-
ver vivo", ou dizer que já não se trata aqui mais de um homem, me~
do primeiro plano - ela se encontra, num plano recuado, agora como
antes, se bem que impotente e invísívelz impoteme para o uso ade- lhor faria afastando-se do serviço e da proñssão da psiquiatria, já
que está a um passo da perfeita identíñcação com os esforços da eu-
quado do seu instrumcnto, o organismo psicofísico. invisível até che-
gar o instante em que, qual um raio, o espírito irrompe através das tanásia e o que se chamou de “exterminação das vidas sem valor".
O que sc dcve entender por “vida sem valor"? Vem à mente a
camadas psicofísicas que o isolam de nós. “
ídéia de ser inútiL Quem pensa assím, ignora, porém. a diferença en-
tre utilidade e dignidade. A utílídade pode ser medida pela atividade
34 Ao “impotcme" corresponde a relação instrumcntal do cspiritual com o oorporak
e pela capacídade vital de um indívíduo, sua utilidade vital e social. A
o que correspondcrl'a. porém, ao “invisível"? Bem. a relação da pessoa com o organis- dignidade de um homem - de um homem como pessoa - permanece
mo não é someme instrumcntaL mas também expressiva, c ondc a pessoa espiritual intacta depoís da perda da utilidade ocasionada pela desorganizaçâo
não pode mais se exprimir cm nenhum organismo, ou organismo funcionalmente sa- psícofísica da pessoa espirituaL Assim como a pessoa espirilual cstá
di0. torna-se invisívcl (compare-sc - no scnlido dc uma anlogia com csla diferenciaçãc “atrás” - atrás do acontecimento mórbido psicofísico - também a
enlre função expressiva e instrumemal - a minha conoepção de "neurosc como expres-
são e mcio“ publicada várias vezcs em outros lugarcs).
sua dignidade está “por cima” - por cima da perda de valor biosso-
ciaL pois essa perda refere-se “ao ipso" à simples utílidade. E exata.
Lu
120 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA O HOM EM lNCONDlClONADO 12l

mente isso o que Rudolf Allers tinha em mente quando disse que ho- Por que chamamos antcriormeme à conclusão da liberdade para
mens diferentes têm valor diferente, mas dignidade iguaL Eles têm a espiritualidade, cm jargão clínico, uma conclusão per exclusionem?
dignidade igual como pessoas espirituais que são, mas não como or- ch, nota-se que em condições psícoñsícas idênticas o quc vos para-
ganismos psicoñsicos nem como indivíduos vitais~sociais. cc condicionado, ísto é, espiñtuaL difere scgundo as circunstâncias.
Seria mais apropriado não nos tornarmos psiquiatras se não es- Portanto, há de se ver no espíritual um incondicíonado. A realidade
tivermos compenetrados da dígnidade absoluta de cada um, até do espiritual não podc ser completamente condicionada; pelo contrário.
psicótico. Enquanto não estivermos profundamente convencidos da é condiconante de si mesma. A realidade espiritual é cla mesma a eñ-
dígnidade intacta e ñrme do doeme mental (como pessoa espirituaL e cácia. Já se disse uma vcz que aquele acontccimento mórbido psicofí-
não como organismo psicoñsíco; no último caso, ele poderia ser não sico (ou melhor, somatogênico + fcnopsíquico) a que chamamos de
só impotente, como biossocialmcnte inútil) - enquanto não estiver- deprcssão endógena admite as mais variadas atitudes cspirituals, isto
mos profundamente convencidos dessa dignidade invunerável será é, da parte da pessoa espirituaL da portadora do organismo docntc.
apenaj uma questão de maior ou menor persistência se nos limitare- que tem um campo livrc. Nós iremos encontrar estc mesmo campo li-
mos a flertar com a eutanásia ou se a postularemos e executaremos. vre ao abordarmos a psiquiatria hercditárizL Ele ora é poupado pelo
A pessoa espiritual deixa-se perturbar, mas não dcstruir por cond1'cionante, ora é ocupado pclo íncondiconado. O homem se mas-
uma enfermidade psícofísica. O que uma doença pode destruir, o que tra - no quadro do cspaço livrc para as atitudes espirituais - como in-
ela é capaz de desorganizar, é apenas o organismo psicofísico. 0 or- condicionado, pelo menos segundo as possibilidades. O homem é
ganismo representa, todavia, tanto o campo de ação da pessoa, como condicionado fatualmente, incondicionado facultatívamcntc.
o seu campo de expressão. A desorganização do organismo não sig- O patologista oerebral e o hcredo-psiquiatra são conhecedorcs
niñca nem menos nem maís do que a obstrução do accsso à pessoa. das limitações que a liberdade espiritual sofre devido a uma docnça
Estc deveria ser o nosso credo psiquiátricoz crença absoluta no espíri- psicoñsica, mas justamentc csses conhecedores da condicionalidadc
to pessoaL crença “cega“ na pessoa espiritual “invisível", mas indes- psicofísica são, ao mesmo tempo, testemunhas da liberdadc espiri-
trutíveL E se eu não tivesse essa crença, meus senhores e minhas se- tual, tcstemunhas do campo lívre, que lhes permite concluir per ex-
nhoras, então preferiria não ser me'dico. clusionem pela existência de um poder em facc da condicionalídade
Já dissemos que não é permitido tirar conclusões sobre o cspiri- psicofisica, pela liberdade espirituaL O que se manifesta a tais teste-
munhas é a potência da pessoa espirituaL ainda e apesar de toda a
tual exjuvantibus a partir do corp0'reo. Tínhamos em mcnte a conclu-
sua “impotência” aparente - eu gostaria de dizer, se me permitem. o
são a posleriori do corpórc0, realmente condicionante, para o espiri-
tual como aparente condicionado. Em face disso, seria naturalmentc que se toma claro é a potência obstinada do espírito.
lícita uma conclusão per exclusionem 0 que nos está na idéia é a con- 0 añnador de pianos tem a oportunidade de admirar como o
clusão tirada do campo livre que a pessoa tem e conserva sempre em virtuose consegue tocar melhor. talvez, num piano desañnado do que
face dc todo o seu condicionamento psicoñsico. a liberdadc, a liber- um mau executante num piano añnado. Kant, nos últimos dias de vi-
dade dessa mesma pessoa. portanto, o ser-aí e 0 scr-assim, a realida- da, teve à sua disposíçâo um cérebro no chamado status cribrosus,
de e a eñcácia do espíríto da pessoa. O cspírito nos é revelado justa- quando se instalou uma grave perturbação amnésica-afásica. Scntia
mente como não completamente condicionado pelo corpóreo; o que diñculdades na evocacão das palavras; mas que palavras sabia elc
se manifesta não é a sua completa cond|'cionalidade. mas uma liber- ainda arrancar do seu “instrumcnto”! Os médicos tinham-no procu-
dade residuaL a indepcndência relativa, ou se o quisermos exprímir rado para realizar uma conferência e 0 convidado ñcou cm pé, por
com as palavras de Nicolai Hartmann. “autonomia apesar da dcpen- muito tempo, até que ñnalmente compreenderam que ele se recusava
déncia”. a sentar enquanto eles não o ñzcsscm. Logo que sc sentaram, Kant
arrancou ao seu cérebro arteríosclerosado as palavras comovcntes:
Devo dizer que vemos tanto dessa “relativa" autonomia, um ta- “Ainda não perdí o sentido da humanidade”. Ecce: um virtuoso toca
manho quamum satis. que sempre é possível descobri-la pela análise um instrumento defeituoso!
cxistenciaL para se poder chamar por ela, fazer-lhe um apelo Iogote- Recapitulemosz o corpórco é a simples possibilidadc. Como taL
rapêutico (em que nunca se deve perdcr de vista o aspecto posilivo está, de algum modo, abcrto a alguma coisa que scja capaz de realí-
dessa líberdadcz a responsabilidade - o para-quê da liberdade equiva- zar essa possibílidade, já que, em si, uma possibilidade corporal não
lentc do seu de-quê). é nem maís nem menos que uma forma vazía posta à dísposição pclo
122 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSlCOTERAPlA
0 HOMEM INCONDlClONADO |23

biológico - uma forma vazna que cspcra ser preenchida. Nesse senti- "composto" de corpo, alma e espírita Ele é ludo isto, pelo contrârio.
do, porém, não é só o somático abcrto ao psíquico. mas também o
unitan'amente, mas só o espiritual constítui e garante csta unidade.
psíquíco é, por sua vez, abcrto ao espirituaL
De onde provém a “varicdadc na unidade” do homcm? De onde vem
Para o invcstigador, importa guardar esse ser-abcrto. A ciência a estrutura humana cm camadas? A estrutura em degraus do ho-
do somático e do psíquico - do condicíonamento somático e psíquico mcm? Devemos resp'onder que não é pelo fato dc se compor de cor-
do homem - a biologia ou a psicologia têm de manter a porta abcrta, po. alma e espírito, mas pelo fato de que o cspirítual sc confronta
a porta que, para além do domínio desse duplo condicionamento, com o corporal e com o psíquico dc que o homcm, como espírito, se
conduz literalmente ao campo lívre, à rcgíão do espírito, à liberdade. coloca sempre frente a si próprio como corpo e alma. 0 que ele
A ciência tem de manter essa porta aberta, mas exatamente por ísso o "tem " perame si próprio é corpo e alma: o que ”esta"' perante o corpo e
investigador não sc deve afastar da porta, não pode. ele próprío, din'- a alma é espíríla Neste sentido, somente ncstc scntido, é que concor-
gir~se para aquela terra que não é a sua - por exemplo, para o rcino damos com 0 conceíto de que todas cssas separações e individualiza-
do sobrenaturaL Podcria facilmente acontecer que a pona sc fcchas- ções são meramcnte heurístícas.
sc abruptamente atrás dele. O homem “tem" corpo c alma, mas “é" espírito. Em certo scnu'-
<-| 'NJUv mnm

A ciência não pochazer mais do que fornecer o malerial sus- do, porém, pode-se também dizerz o corpo e a alma o têm, ao ho-
p-

cctível de ser utilizado, sem objeções, mesmo na elaboração de uma mem, uma vez que o homem é incondicionado somente na mcdida
. M

imagem do mundo tcísta; ocupar-se, porém, da elaboração não é sua


--t

em que ele é espírito; no entanto, como homem pura e simplcsmentc.


. _. _o.

Larefa. mas de outros construtores. é, e permanece, condicionado.


4

Voltemos, contudo, à nossa tese de que o corpóreo (como sim- O homem é em primeiro plano condicionado no scu “scr-assim"
ples possibilitação) precisa do psíquíco para sua realízação e, ñnal- ' corpóreo. Ele nunca é “aí" como que caído do céu; foi procriado.
mente, do espiritual para sua realização plena. Vemos que esta rela- isto e', foram seus pais e não ele que dctermínaram a sua exístência
ção dupla podc exprímír-sc como segue, num'a frasc condicional e corporaL Ele nunca é como poderia ser, se lhe coubesse escolhcr.
causal: se alguma coisa corporal é “possível“, é “realizada" pelo Nem como os pais possam ter descjado, porque eles só podcm dcter-
psíquico, porque é uma “necessidade” espirituaL mina'-lo para existir, mas não para um detcrminado “scr-assim". Os
Para tornar isto mais claro, precisamos servir-nos. oulra vez, de filhos não escolhem assim como os pais não podem escolhcr os ñ~
nossa imagem do pianoz toca píano? Não, apenas torna possívcl to- Ihos.
car. Toca, porém, o pianista, só porque sabe tocar? Não, mas porque Fulamos do “ser-ass¡m". e não do “ser-ai”. Ser ou não ser não e',
deve uma vez que tocando "realiza” as possibilidades” do instru- portumo, aqui a questa'o. porquanto o próprio “ser-aí” está sempre
mento. scmpre, conforme as “necessidades artísticas". O mesmo se nas nossas mãos - podcmos até cometer suicídio - e mcsmo o “ser-
veriñca cóm as relações ontológicas entre as camadas ôntícasz o cor- uí“ dos ñlhos está semprc em nosso poderz podçmos impedir a con-
poral torna possível a realização psíquica de uma exigência espiri- cepcão. O que eslá em causa é exclusivamente o “como-ser” dos ñ-
tual. Ihos. e essa é uma pergunta absolutamenle irrcspondível; o “ser-
assim“ de uma criança é completamente imprevisível e neste sentido
Ontogênese do espírito e heredopatologia lotalmente contingente. O “ser-assím" de uma criança é fruto do
acaso. fruto do jogo de dados do destino, uma vez que mesmo as leis
Concentramo-nos o tcmpo todo, como num leitmotiv, na fórmula de da hereditariedade eslabelecidas por Mendel são leis “do grande nú-
Nicolai Hanmanm “Autonomia apesar da dependéncia”. Ao mer-o" e corrcspondem, por conseguinte, a um simples cálculo de
problema da dependência do espirituaL associa-sc ímediatamente no probabilidadcs. Já se disse também que não são aplicáveis a um caso
homem, contudo. o problema da sua descendência - a pergunta isolado, e quê o “ser-assim" de uma críança é incalculáveL A conde-
sobre a origem do espírito, pergunta à qual já tentamos responder no nação de um homem à prisão perpétua é ilegal na medida em que
sentido ñlogcnético. mas não ainda no sentido ontogcnético. Para ocorre no desconhecimento ou no conhecimento incompleto das leis
obtcr essa resvosta. tcremos de rccuar um pouco. naturais que dominam a hereditariedade.
Como exporemos adiante novamentc, o homem e', apesar de tu- Um caso concreto pode ilustrar estas circunstâncias. Conhm
do, unidade e totalidade. E nunca é demaís enfatizar essa unídade e mos uma doeme que sofre de depressão endógena pcriódica e grave.
totalidade. porque não afmnamos, de modo algum, que o homem seja Os quatro avós da nossa pacíente eram psiquicamente saudávcís e
124 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSlCOTERAPlA
O HOMEM INCONDICIONADO 125

O que nos intercssa agora é outro problcma, precisamcnte o dc


por isso os país obtiveram, mcsmo com o estabelccimcnto de crité-
determinur se o dever, fundamenlalmenle reoonhecido por nós. da pro-
n'os rígorosos, uma auton'zação eugêníca de casamento, apesar de
venção da concepção. se concilia com o díreito humano. gcralmcntc
existirem inúmeros casos de depressão endógena na parentela afasta-
da, tanto do Iado paterno, como materno. O aspecto relevantc da rcconhecido, ao am0r. Julgamos que aqucle dever c estc dircito são
absolutamente compatívcis, e isto porquc o amor humano é semprc
qucstão é saber-se. por excmplo, se os avós paternos da doente dcve-
riam ter recebído uma autorização de casamento, já que tanto a mãc mais do que simples instinto de conscrvação da espécie, do mesmo
quanto o pai ainda não haviam atingido, naquela ocasião, a idadc de modo como o trabalho humano (pelo menos quando dcve ser um
trabalho digno do homem) é semprc mais do que o simplcs-instinto
manifestações de uma suposta disposição dcprcssiva hereditária e
ambos tinham uma H'ma", mais velha, sofrendo de depressão. Este de conscrvação. Em que medida o amor humano ultrapassa o sim-
fato deveria ter sido lançado forçosameme nos pratos da balança das ples impulso, o simples instinto, pode ser veriñcado pclo fato dc quc
o instinto de proteção à prole se manifcsta de modo mais intcnso exa-
considerações do prognóstico hercdítário, ou ter suscitado uma con-
tra-indicação absoluta do casamento. Em outras palavras, o caso do tamente ondc é mais desínibido, cm vez de se clevar ao plano próprio
pai da doente, que devcria tcr sido qualiñcado de prognóstico hcredi- do sentimento de amor humano (um amor verdadciro dc mãc para ñ-
lho) e de ser, portanto. existcncialmentc adequado.
tário infausto, tcve um dcsfecho tão favorável quanto foi desfavorá~
vel o caso da nossa doente. Tal como o amor, o casamento é, em sua cssêncía. mais do que o
_
Queremos nos deter agora para dxzer algumas palavras sobre o simples meio para o ñm da procriação. bcm como é sempre mais do
problema do controle da concepção, ao qual ja nos referimos. Em que o simples meio para o gozo do prazcr sexuaL Sc se quisessc das-
conhecer a essência do casamento, geralmente considerado como
oertas circunstâncias, especiñcamcnte no caso dc contra-indicações
coabítação sexuaL rcconhecer-se-ia nele apenas um propósito prag-
heredo~prognósticas, existe uma_obrigação de controlar a concepção.
mático de procriação ou só um propósito dc gozo dc prazer sexual
A obrigação contra a fecundação não é menor do que o dever restrito
da fecundação, dever que certamente existe e resulta da simples rcñe- (num caso. diríamos que se trata de uma íncompreensão de cunho
biologístico. no outro, de uma incompreensão de cunho psicológico).
xão de que ninguém deu a vida a sí mesmo, e, portanto ninguém devc
Somente o amor é que, pelo contrán'o, dá ao casamento e ao ser-cm-
u'rar a vida a sí mesmo, devendo, outrossim, prOpagá-la; a vida é, na
realidade, um feudo. outro sexual - entendido ontologicamente - valor humano.
Aqui termina nossa digressão pelo campo da eugenia. Queremos
Já é em si digno de nota que uma contra-índicação heredo~
prognóstica objetiva seja eñcaz subjetivamente tão logo é comunica- reiterar, mais além, que o ser-assim de uma criança é. em cada caso,
como já dito, ímprevisiveL Estamos cícntes de que toda a obra do ho-
do aos interessados, poís o que acontcce nesses casos é que duas pes-
mem é uma obra parcial; por vezes ñca incompleta para sempre. Pen-
soas, por compaixão para com um não-nascituro, opõem-se ao seu
semos nas relações respectivas quando se trata da “obra" dc um ho~
nascimento ou à sua procriação. O que motiva essas pessoas não é,
mem no sentído ñgurado. empregado habitualmentc para o trabalho
portanto, nada menos que o paradoxo de um amor por algo não-
literárioz neste caso, o autor, ainda que posleriormcnte, pode fazcr
exístente.
correço'es, vêm as primeiras pr0vas, depois as segundas, em seguida.
Não se deve de modo algum concluir do que foi dito que não
as fmais, a paginação, e só então, a impressão. Tudo é difcrente na
haja moralmente nada a objetar contra uma evcntual interrupção da
“obra” que é representada pelo próprio homcm, na vida de uma
gravidez - na condição de haver uma contra-indicação hercdo-
criança, que constituí a obra viva produzida pelos pais. Enquanio a
prognóstica - porquanto, como aínda será demonstrado, no momcn-
obra litcrária é determinada no seu ser-assim antes mesmo de ser. no
to da procriação, e conseqüentemcnte antes do parto, cstá prescntc
caso da criança, a determinação do existir, do ser-aí, precedc o ser-
uma pessoa, pelo menos facultativa, e a dcstruição da sua existêncía
assim. Não se espera por nenhum imprimatur; um fzat é expresso ao
equivaleria pura e simplesmente ao extermínio de uma pessoa. Não
acaso e o acaso pode signiñcar o risco de uma criança defcituosa. So-
qucremos aqui entrar em detalhes, e portanto não vam_os falar sobrc
mente Deus poderia prever que acharia bom o que criou. Ao homem,
o problema das difercnças cxistentes entre interrupçã0 da gravidez c
é negada tal garantia.
assassinato. Todavia, uma coisa tem de ser ditaz qucm argumentar
Agora objetar-se-á que o ser-assim de uma criança não é passi-
que o embrião, ao ser destruído, não sentea menor dor deixa de par-
vel de correção, do ponto de vista biológico, mas pode ser corrigido
ceber que isso cnseja um outro argumento, qual seja, o de que scria
por meios psicológicos. De fa›to, muiLa coisa pode ser com'gida atra~
permitido assassinar, desde que a vítima estivesse narcotizada.
O HOM EM lNCONDlClONADO l27
l26 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTER_í_/XPIA

tencialídade psicofísica. Ela realiza-sc em sí mesma; tentar realizar-sc


vés dc métodos pedagógicos. A exemplo da obra literária, cabe uma
nos ñlhos c nos netos é um crro; neles e com clcs podcm apenas no-
paginação. sob a forma de uma recducação da críança, que transfor-
vas potcncialidadcs scr criadas, podc apenas tornar-se possível para
ma um ser-assim num ser-outro. No cntamo, este tornar-se outro
elcs a auto-realização.
não sc rcgula. em u'ltima análise, pela vontade dos pais. mas por um Com ísso, não queremos dizer que a auto-rcalizacão sc processe
dever que é vivenciado pela criança. Em outras palavras: esta pós- no homcm isolado. Pclo contrárioz a auto-realízação existcncial não
educação é propriamente auto-educaçã0, autodeterminação. Na me-
acontece sem outra existéncia. Sempre sc lançam pontes de uma exis-
dida em que entendemos por vida a existência corpórea, portanto
têncía para outra. Na medida em que se realiza. a existêncía constan-
biolo'gica. a vida de uma criança é obra dos pais; todavia, na medida
temcnte se supera a si mcsma. Estamos aqui em prcsença daquele fe-
em que conccbemos a vida não como a existência do corpo, mas
nômeno primário a que Heideggcr chama “transcendência". Jaspers
como o ser-assim espiritual (essência), por conseguinte em semido
e Binswanger a communio do amor.
não-biológico e sim biogra'ñco. podemos dizer que a vida de um ho-
mem é a sua própria obra. Esta transcendência da exístência nunca é no tcmpo, vai além do
Falou-se anteriormente no jogo de dados por cuja mercê seria tempo. ao sobretemporaL Transccndendo-se no tempo - mesmo no
determinado o ser-assím da criança. Nesse jogo, os dados são lança~ tcmpo inñnito - a cxistência nunca seria capaz dc sc realiznr. Quem
dos no momento da concepção. Aos pontos dos dados correspondem vive somcnte para ñlhos e nctos não sc realiza no inñnito, mas so-
os cromossomas. O seu nu'mero, no caso do homem, é maíor do que mente adia a realízação para além do inñnito. Tal infmitude seria, pa-
no dado, ultrapassando 21. Segundo um cálculo. os pais podem criar rém, “má-inñnitude". Na verdadeira inñnitude. a existência não
numa única geração 281 bilhões de ñlhos diferentes. O que nos im- transccnde a sí no sentido horízontal, mas no vertical - não exata-
porta no contexto é o seguintez os pais, no momento da procriação mcnte no tempo ou no tempo inñnito, mas para além do tcmpo. no
dos ñlhos forneccmlhes os cromossomas; não lhes insuflam o espíri- sobretemporaL
to. Os cromossomas determinam unicamente o psicoñsico. Numa Analogamentc ao que se passa com a maturação da existência,
palavraz por meio dos cromossomas herdados dos pais, um homem apresentam-se as relações conccrnentes aos que nós. segundo Bins-
somente é determinado naquilo que cle ^°tem", mas não no que ele wanger, podemos chamar a sua espacíalidade. Já ouvimos dizer que,
u'n
e como ente espirituaL a existéncia “é" sempre já “em” outro ente,
_ Reflitamos simplesmente a rcspeito de uma circunstânciaz o pai, e como este outro cme. por sua vez, é também ente espirituaL o eme
pos!-coitum, pesa algumas gramas menos, a mãe, post-partum. al- espiritual “é" também sempre “em um outro"; porém, como assegu-
guns quilos menos; no enfanto, o espírito, no caso, revela-se impon- ramos. expressamente, um tal “ser em um outro" é sempre acima do
deráveL espaço e, portanto, revela-se que a existência. mesmo no sentido es-
Ou sc há de pensar que ñcam os pais um pouco maís pobrcs em pgaciaL só pode transcen'der quando cla - por cima do espaço, por
espírito quando nasce com seu fílho um novo espírito? Podem os cnma do “aí" - transcende para além do superespaciaL
pais, quando se forma um novo “tu” no seu ñlho - um novo ser ca- Retornemos à tesez cada homem é um novum absoluto. Sabe-
paz de dizcr “eu" para si mesmo - taIVez dizcr um pouco menos “eu" mos, no cmamo, que tanto os espermatozóides quanto os óvulos são
para consigo? adiconáveis; añnal a fusão das células germinativas é a ñnalidade
Tçmos Iogo: em cada ser humano que vem ao mundo, é posto derradeira. Por outro lado. sabemos também que as células germina-
um novum absoluto, trazído para a realidade, pois a existência espíri- livas, já amalgamadas entre si, são mmbém dívisíveis cm ccrtas con-
tual é intransmissíveL não é hepeditária. É possível transmitir somen- diçõesz foi Driesch quem fez esta cxperiência sensacionaL Assim. en~
te uma possíbilidade psicofísíca, uma potência psicofísica; o que é quanto aquela potência física, que constitui a condição prévia da
transmissível é apenas o espaço psicofísico de ação -nunca a liberda- existéncia espirituaL mostra-se tão divisivel quamo adicíonáveL o
dc espiritual dentro dele - o que é transmissível são as fronteiras psi- mesmo não se pode dizer da existência cspüituaL É ccrto que o “ser“
coñsicas. não o que ñca entre elas. São as pedras da construção, ja- espiritual é “ser” individualizado, a existêncía é pessoal; sim, a pas-
mais o m_estre-_de-obras. soa existencial é, em essência, unidade e tolalidade, e isto signiñca
A exnstêncna etermza-se na medlda em que produz, mas lSSO quc cla não é, essencíalmcnte, divísivel ou adicionáveL Mcsmo quan-
nunca se dá pela procriação. Ela produz a sí mesma, efetivando as do distinguimos entre ñsico. psíquico e espirítuaL nunca o fazemos
possibilidades .somato-psíquícas, atualizando espiritualmente a po-
128 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA 0 HOM EM INCONDICIONADO 129

como se o homem fossc assím “composto”, como se tais elemcntos Neste sentido, não existc também nenhuma “alma do povo"
fossem partes, já que o homem não é um “ser" admvo. mas mtegraL ínem sequer uma “psique das massas", e na medida em que a exprcs-
são “psicología das massas" (Le Bon) quer dízer isso, cssa psicologia
Dcsignamos antcriormente a pessoa como “essencialmcnte indi-
visívcl não-adicionávcl”. Dc fato, a sua unidade nos permitc tanto a seria sem objeto, no sentido mais verdadeiro da palavra. “Alma do
povo“, “psique das massas" não são entidades pessoais; rcprescn-
divisibilidadc como a sua totalidade permitiria algo como adiciona-
mento. Torna-se claro para todos que cada homem é não só um "no- tam, pelo contrário, pseudopessoas, entidades quase pessoais. Não
vum" absoluto, como também um "ín-dividuwn” e um "in- são sequer organismos, e muito menos pessoas, pois se fosscm orga-
nismos seriam órgãos humanos. Contradiz, todavia, completamenle
summabile" absolutos.
Para voltarmos mais uma vcz à sua unidadc c totalídadcr na es- a essência do homem, não só do ponto de vista ontológico. mas tam-
quizofrenia nunca se manifesta uma divisibilidade. uma “ñssura” da bém do ético. que ele sc tornasse alguma vez apcnas órgão. isto é,
simples utensílio para um ñm. Ncstc sentido, o homem não pode
pcssoa; pelo contrário, o “palavrcado” a respeito de “ñssura da per-
sonalidade ou da “consciêncía” (a chamada "doub1e conscience") é nem deve ser apenas “organizado”.
que induz a crro - e induz a erro porque a palavra “esquizofrenin” é Na medida em que o homem é espírito, existe como pessoa; po-
traduzida Iiteralmente de maneira errada por “demência de ñssura". rém, neste sentido, pode-se também dizer que a sua existêncía é una,
tolal e nova. Una, porque índivisível; totaL porque inadicionável; c
A esquizofrenia é uma psícose, ergo. uma somatose. Esta soma~
tose é provocada por uma causa ignorada; é incxplicável a partir do nova, porque a existência é inlransmissíveL Em rigorosa oposição a
somático; todavia, na medida em que pode ser compreendida a partir sua faticidade psicofísica, a pessoa espíritual-existencial do homem é
do psíquioo, só a podemos compreender se nela desooninarmos uma um in-dividuum, um in-summabile e um novum Eslas três existências,
tentativa da pessoa para conservar justamcnte a sua unidade; a com- juntas, constituem o haecceitas - para nos servirmos desta expressão
preensãao psicológica da esquizofrenia só começa quando vemos da teoria do principum individuanonis dos escoláticos. ” Em vírtudc
como a pessoa tcnta manter, por si própria, uma ordem ameaçada. dela. existe algo como propagação sexuaL pois na propagação asse~
xuada, resultam. de um indivíduo, dois iguais (a ele entre si), cnquan-
Esta ordem que intcressa à pessoa na esquizofrenia é aquela que
to na propagação scxual dc dois indivíduos deseiguais resultam adi-
constituí principalmentc o psíquico. aquela que estrutura o microcos-
mo que sc encontra cm todo o psíquico. O que ameaça esta ordcm é o cionalmeme, ao acaso. muilos indivíduos desíguais (a eles e cntre si)
perigo de uma “erupção do orgânico” (Paul Schílder) no psíquico, é - de tal modo que o resultado da propagação sexual em facc da assc~
xual é superior, tanto quantitativa como qualitativamente.
a destruição do psíquíco, a decomposição do microcosmo ou a sua
transformação num mícrocaos. 0 doente esquizofrênico tem mcdo Assim, chegamos, portanto, ao problema da origem do espírito
de ser lançado nesse microcaos esquizofrênico. humano e, daqui em díante. do tornar-se homem, não no sentido B-
I¡ logenético, mas ontogenético. Todavia, só sabemos cientiñcamente
l¡ Já dissemos o suñciente sobre a unidade da cxistência pessoal,
que. mesmo na esquizofrenia, é não só guardada mas também conñr- uma coisa: de onde vêm as condições ñsicas da existência cspiritual -
I mada; voltemos a abordar a totalidade da existéncia pessoal: “nada elas, isto é, os cromossomas, derivam dos pais; mas são somente o
do que existe tem a sua existência devido a ter sido composto”, disse minimum da existência. Esta existência cm scu mínímo é. certamente,
certa vez o grande teólogo judeu Leo Baeck. ” Portanto, não há ne- razão necessa'n'a, mas não suñcicnte para a exislência in~totum que o
nehuma combinação, nenhuma síntese da existéncia. A existência já espíritual contém. De onde vem então o espiritual?
é, pelo contrário, uma síntese, no sentido aproximado da “apercep- Segundo Aristóteles, _o espírito é üópaüev , isto é, ele vem
ção sintética" de Kant. A existência é sempre o sujeito de uma sínte- “pela porta adentro"; mas não sabemos de onde vem. Esta pergunta
se, nunca o seu objeto. não foi respondida com o circunlóquio apresentado acima sobrc o

37 A "haecceims". propriameme. é a "haecceilas" da pessoa espirituaL Todavia. n


35. Difercnçar não signiñca o mesmo que subdivídir. pessoa espirilual pode ser compreend|'da. em úllima análise. somcnle por aquele que
ama. Portamo. só. propr1'amemc. o que ama pode dístinguir 0 nmado do scu duplo
361ndiwd'mminefjabile. Eranos - Jahrbuch. tomo XV. Rhein-Verlag. Zun'que. l948. p.
386. psicofisico. pois - cetem' paríbuS (psicoñsico) - só a pessoa cspirilual diferc.
130 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA
O HOMEM lNCONDlCIONADO l3|

fato dc uma sobrevínda regular do espiritual (“para" o corpo-alma).


Tcremos ainda dc voltar a cstc ponto. cada ñlho é propriamente ñlho adotivo. Adotamo-lo no mundo,
O espiritual devc, portanto, entrar primeiro, dc algum modo, no dentro do ser.
corpo-alma mas, tão Iogo isto acontece, ele é envolvido pelo siléncio, Assim, pois, o pai nunca ê gerador. apenas é teslemunha. teste-
o espírito pessoal sc oculta no sílêncio, e assim permanece à espera munha daquela maravilha, scmpre nova, que é, cm última análisc, o
dop momento cm que possa manifestar-sc, romper o “invólucro“ do tornar-sc homem. Não geramos, na verdadc, nenhuma críatura. tcs-
psicofísico, as camadas de psicofísico que o cobrem. Espera, ainda, temunhamos apenas, espir1'tualmente, esta maravilha: a cxistêncía
até poder anunciar-sc, até poder mostrar-sc no organismo psicofísico pcssoaL como espiritual que ê, não se pode gerar. mas apenas possi-
como o órgão de tal manifestação. Espera ainda... até o dia cm que bilitar. Ela sc dcve auto-realízar para esse prooesso, c nós, os pais,
domina a tal ponto o organismo que pode fazcr dele o seu campo de podemos apenas contribuir na medida cm que colocamos à disposí-
expressão. ção da existência espiritual o mínimo ñsiológíco dc cxistência.
Quem, tendo passado pcla experiência de educar uma criança,
Jaspers rcferiu~se, certa feita, a algo de semelhante ao que esta-
não viu chegar o momento em que a pessoa espiritual se anuncia pela
mos mostrando quando dissc que “se devc dar uma oportunidade à
primeira vez? Quem, num caso desses, não se scntiu emocionado ao
Providência”. No ato físiológico da procriação é dada realmen-
contemplar o primeiro ;orriso da criança? O instantc em que algo re-
te à Providência uma oportunidade de completar “uma maravilha
lampadeja, algo que parecc ter esperado sempre por esse minuto ver-
sempre renovada em cada tornar-se homem. e de criar um homem
dadeirameme luminoso, no qual algo brilha, exatamente por um mo-
novo". Esta criação é sempre possibilitada pelo progenitor, tcstemu-
mento, talvez somentc por uma fração de scgundo para logo desapa-
nha desta maravilha. Na ontogênese, vingam-se os homcns de sua ñ-
recer, recuando para trás do organismo psicoñsico - de novo oculto,
logênese; já ouvimos dizer que. no momento de sua criação. deu-se à
aparentemente mcro autômato, que dá a impressão de ser apenas um
humanidade uma oportunidade, no momento exato em que recebeu
aparelho controlado por reflexos condicionados e incondicionados.
como doação l4 bilhões de neurônios.
“Algo“, como disscmos há pouco, se anuncia; não devcriamos
dizer “alguém'."7 Trata-se aquí exatamente de alguém e não de alguma Añrmou-se há pouco que podíamos proporcionar à existéncia
coisa; não é de nenhuma coisa, mas da pessoa espirituaL Foi a pessoa espiritual somente o mínimo ñsiológico de existência. 0 homem,
que esperou até podcr brilhar como um relâmpago - até poder sorrir como pessoa cspiriluaL não é, por conseguinte. criado por nós. As-
através do organismo, e neste primeiro sorriso, transformar, pela pri- sim rcza a formulação'ontológica do fato. A formulação tcológica
mcira vez, o organismo no “seu” campo dc exprcssão. deveria acentuar uma pcquena difercnça. do quc resultariaz o ho-
O organismo revcla-se, assim, como um matcrial à espcra de ser mcm, como _pessoa cspirituaL não é criado por nós.
modelado. Nessa qualidade, o psicoñsíco é perfeitamcnte plástico;
não o é somcnte no sentido de uma plastícidade exterior e sim no scn- Objetar-se-á que a hercditariedade demonstra que o espíritual
tambem' é suscetível de transmissão de pai para ñlho. Isto, porém,
u'do de uma imprcssionabilidade ínterior, de uma capacídade de ex-
prcssão. Surge, a par da plasticídade exterior, uma espécie de plasti- não está certo. de modo algum, pois o que é herdado é o ñsico e, com
cle, o psíquico. O espirituaL todavia, é intransmissíveL O psíquico,
cidade intcrior. No interior do fruto também se encontram impres-
além de herdado através da disposição genética, é ainda plasmado
sões do cdaroço.
pcla educação. Chegamos à seguinte formulaçãoz o ñsico é dado pela
Não sabemos dc onde vem o espirituaL a pcssoa espirituaL até
alcançar corpóreo-psíquico. Uma coisa é certa: não provém dos cro- hereditariedade - o psíquico é dirigido pela educação; o espirituaL
contudo, não pode scr educado, tcm de ser realizado - o espiritual
mossomas. lsso resulta per exclusionem, já que, segundo vimos, a
pessoa espiritual é essencialmente um in-dividiuum e um ¡n- “é" só na auto-realização, na “realidade da realização" da existên-
cna.
summabile. ela é esscncialmentc indivisível e inadicionável e nunca
pode, como tal, derivar do divisível e do adicionáveL
Os cromossomas e as disposições psicoñsicas neles ñxadas são.
Pode-se. añnaL añrmar com razão: o ñlho é bem “came da car- por conseguinte, simples dote, simples materíal de construção da pes-
ne” de seus pais. mas não “espírito de seu espírito". Ele é sempre e soa espirituaL O fato de eles serem apenas isto, e nada mais, rcssalta
somcnte um ñlho “ñsico“, e isto na maís vcrdadeira accpção do ter- da circunstâncía de que este material, em ccrtas condiçoe's, também
mo: no sentido ñsiológico. Pelo contrário, no sentido metañsico. pode ser indesejáveL Dissc-o Paul Haeberlin há tcmpos: “a alma da
l32 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA 0 HOM EM lNCONDlCIONADO 133

T'nu
cn'ança luta constantementc com os pais que estão dentro dcla". O ção e melo , condições de hereditariedade e meio ambiente”, como
que Hacberlin chamou de “alma” é o que chamamos de “espíríto". ” sc houvesse um terceiro termo; mas rertium datur. Ficou dcmonstra~
Exatamente como um construtor dependc do material de cons- do que a partir de uma mesma disposicão, um indivíduo constrói
trução ao seu dispor, sendo, no entanto, lívrc de emprcgá-Io dcste ou algo difercntc do que outro. No que tange ao ambiente. também sc
daqucle modo, assim acontece com a pessoa espiritual (ou seu com. mostrou que um ambiente idêntico possibilita atitudes diferentes
portamento Iivrc em relação às disposições psicofísicas hcrdadas). E para com cle. Dispomos de conhecimentos suñcientes a esse respeito
visívcl outra vez nosso ño vermelho, o Ieitmotiv dc “autonomia ape- - basta pensar-se no grande experimentum crucis dos campos de con-
sar de dependência”. Os resultados da investigação da hcredopatolo~ centração. Neles era possível ver o "podcr dc dccisão" do espiritualz
gia parecem-nos indicados para demonstrar a dependência do cons- cnquamo um se deixava transformar num “patífe". outro - ceteris
trutor espiritual e a sua autonomia simultânea no emprego dos mate- paribus - sc tornava um “santo". ”
riais psicofísicos de construção. Para voltar. entretanto. ao problema heredobiolo'gico, demos a
Johannes Langc publicou o caso de irmãs gêmeas univitclinas palavra àquele que é considerado um dos grandcs peritos em crimi-
em que ambas traziam traços de caráter de uma neurosc obsessíva. nologia de índole biológica, Friedrich Stumpflz “Depois de todo o
Uma, porém, era ensimesmada, indiferente ao mundo, sem vontade aparato de cunho natural-cienu'ñco da psicologia profunda, psíqu¡a-
de viver, inapta para a vida, enquanto a outra era expansiva, franca, tria. ciéncias da hereditariedade, pesquisas sobre a consituição e
disposta e apta para a vida.' Comuns a ambas eram hábitos obsessí- sobrc o meio ambiente, o resultado é verdadciramentc decepcionan-
vos absolutamente inofensivos, como, por exemplo, o de introduzir te. Acreditamos que poderíamos mostrar, através de nossas investi-
cartas na caixa do correio com um determinado rituaL gações. o homem - na sua |imitação. na sua _vinculação com os ins-
Num outro caso da literatura sobre investigação heredopsiquiá~ tintos, com o estado de espírito, com a hereditariedade, com a estru-
trica de gêmeos, um irmão univitelino era um delinqüentc sabido e o tura físíca e o meio ambiente - como um produto de disposições he-
outro, um astuto policial. redilárias e meio ambiente, enteléquia do caráter e educação, consti-
Vemos, pois, que no caso de gêmeos univitelinos, não obstantc tuicão física e doenca, mas o que se nos depara, depois de todos os
disposições idênticas, estabelece-se fenotipicamentc um carátcr dife~ esforços de longos anos, do pó e das cinzas da l|_ Guerra Mun-
rentez no primeiro caso citado, é diferente a vitalidade, no segundo, a diaL é 0 quadro da sua Iiberdade“ (Viena, Zeilxchrflt' PrakL Psych.,
sociabilídade. Não devemos subestimar o fato de que essa diversida- l. 25, l949).
dc - ceteris paribus - é caracterízada por diferenças dccísívas. Pouco Em face disso, também não nos deixaremos enganar por aquelc
signíñca que indivíduos coloquem na caixa do correío as cartas da fatalismo que encontramos, por exemplo, na “análise do destino" de
mesma maneira, ou possuam os mesmos atributos (sabído, astuto) - Szondi. Embora este cientista tenha também dado à sua teoria uma
tudo isso signiñca pouco em face dos traços distintivos, como ser ou interpretação tendente a reconhecer' uma certa margem de lívre ação,
não apto para a vida e ser ou não capaz dc sociabilídade. sua orientação é essencialmente voltada para a\ crenca no destino
Agora, de onde devem provir essas diferenças decisivas, se não (Szondi refere-se inclusive a "fatalismo dirigido“). A sua conclusão é
daquela única instância cuja essência a faz scr justamente decisiva - de que o destino nãp está escrito nos astros, mas nos genes.
do espiritual no homem? A hereditariedáüe não explica nada de autêntíco. na verdade,
Este espirituaL no contexto da heredopsiquiatria, é sempre as- não explica nada. Por meio dela não se consegue sobretudo respon-
quecido. FaIa-se constantemente de “cndo e cxogênese”, de “disposi- der à perguma fundamcntalz que faz a pessoa espiritual com a respec-
tiva disposição hereditária? O que faz ela com as condições sob as
quais - em cada caso determinantes dc si mcsma - cstá colocada?
A adocão da hereditariedade como princípio básico da explica-
ção é errada. lanto ontogenética quanto ñlogeneticamente. Vale isto
38 Dc igual modo ele se refere à pssoa apiñtual quando. em outro lrabalho (“Der Co-
genstand dcr Psychiatrie", em Schweizer Archivfür Neurologie und Psychialrie 60. l-2.
l44. l947), asscverou com toda a razãoz “0 que nós chamamos de doenças memais
não são. segundo o seu carátcr patológico. psicoses. mas “somaloses", c nas suas con- 39 A expcriência só seria rcalmentc dcmonstrativa. evidcntcmente. quando o psicoñsi-
seqnências - motívo por que rcoebcram o nome - não são docnças da alma (psicoses) coJosse incluído no ceteris paribus. isto c'. no caso dc gêmcos univilelinos em um cam-
mas impedimcntos da alma". po dc concemração.
FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA
0 HOMEM lNCONDlClONADO 135
l34

do esclarccimento de simples prcssuposto, iguala-sc aos porta-vozes


tanto numa relação de fato, como de princípio. No que tange ao fa-
tuaL gostaríamos de pedir aos senhores que reflctissem sobre o que da opinião popular que acham que as pulgas nascem do eslerco e os
piolhos do lixo.
segue. Segundo Darwin, a cvolução dos seres pode ser explicada pela
O que as ciências naturais estão em condições de explicar é apc~
seleção naturaL É o caso de indagar se o tempo, mesmo que tenha
nas sempre um ser natural; todavia. o que nunca se pode “esclarcccr"
. sido relativamente longo, chcgaria para cxplicar tudo o que evcntual-
sem que antes seja “entendido“, o que as ciências naturais não são
mente foi alcançado ao longo do desenvolvimento (por cxemplo, no
domínió dos instintos) ou para fazer compreendcr o que foi adquíri- capazes de “comprecndcr", é o scntido sobrenaturaL Tal comprccn-
do por meio do “tn'al and error” ". Atememos nas circunstâncias a são não está ao alcance de uma “ciência da natureza”, mas de uma
crença numa supernatureza, na acepção mais vasta do termo. Na
nosso ver análogas. do sabcr, de algum modo instintivo, sobre as
chamadas ervas medicínaís entre os povos primiüv_os. Um pouco de perspectiva dessa crença, não só a “humanízação" no plano ñlogcné-
tico, mas cada “tornar-se homem" isoladamente considerado consti-
rcflexão bastaria para nos levar a duvidar de que tal saber, em sua
plenitude, surgisse unicamcnte. por assim dizer, de forma empírica - luem um novo alo de criação.
Anteriormente estabelecemos que a maravilha da “encarnação"
portanto. hdo mesmo modo, pelos caminhos longos e penosos do
“trial and err0r". lem como pressuposto a natureza. No ñnal das contas, isto valc para
tudo o que é signiñcativo; cada sentido pressupõe um ser - nenhum
Meditemos sobre com_o seria inverossímel o encontro casual de
circunstâncias dc que resultaria, por exemplo. que um indívíduo do sentido pode ter cfeito sem que lhc sejam dadas condições pelo ser.
Todavia, em que medida é va'lido que mesmo a maravilha do
scxo femim'no,_pn'meiro com hemorragias uterinas. segundo. na b-
poca da colheita, tivesse a idéia de. presumivelmente entre outras tornar-se homcm tenha prcssupostos naturais? Não seria o oposto,
isto e', a maravilha não começaria exatamcnte onde a naturcza é, por
tentativas, experimentar uma cravagem (centeio espigado) - em si, já
uma presença rara e pouco espetacular - como medicamento; tcrcei- assim dizer, desprezada? De modo algum. A física moderna ensina
ro. que propagasse o resultado favorável; e quarto, ñnalmente, que que, em princípio, tudo é possívelz as leis da _causalidade valem, a
essa nova luz, apenas para o grande nu'mero. a massa. Compreenda-
esse saber empírico acerca do efeito curativo dessa erva não se par-
mos bemz possível é tudo; só que nem tudo é possível é também pro-
desse na consciêncía da comunidade.
váveL O improváveL porém, mostra-se também como algo “em que
Sobre o ponto fundamental há de ser dito o seguinte: a teoría da
sc passam coisas exatas", o que não está. por conseguinte, cm contra-
cvolução da Darwin baseia-se na opiníão de que são herdadas todas
dição com as leis da natureza. Cerwz não é provável que ao sair desta
as aquisições capazes de favorecer o indivíduo na sua luta pela sobre-
sala de conferências, no caminho para casa. me caia um tijolo na ca-
vivência. Ora, a herança de tais aquisíções e', por sua vez, uma das
beça - com essa improbabilidade se preocuparia apenas um neuróti-
aquisições favorávéis, ela também ajuda o indivíduo na sua luta. Não
co angustiado; entretanto. o caso não constituiria uma impossibilida-
seria. portanlo, lícito cxplicar a aquisição da própria hereditarieda-
de. Em princípio, é igualmente possíveL embora muito menos pro-
de, do mesmo' modo, pela seleção naturaL pois a exístência de algo
vável, que o tijolo, ao invés de caír para baixo, caísse, por assim di-
como a hereditariedade é então pressuposla. Nessa tentatíva, sería-
zer. para cima. Seria isso de tal modo improvável que nem mesmo
mos culpados de um petitio principii sc, na explicação de alguma coi-
um neurótico, cm sua ansiedadc, iria preocupar-se com a idéia; mas
sa, já pressupuséssemos aquilo que deve scr explibado primeiro.
os físicos modernos a admitem.
Foi dito que cada “tornar-se homem” é uma maravilha. A añr-
Em relação à possibilidadc fundamentaL mesmo do improváveL
mação valc igualmente do polnto de vísta ñlogenético, aplica-se à hu-
existem graus, mas não frOntciras. Parece, assim, jusliñcado falar do
manidade como um todo. A “maravilha“ de que se trata nunca pode
improvável como de uma “maravilha" ou, em virtude dessa identiñ-
ser apreendida pela ciência naturah pelo contrárío, a ciência natural
cação, deñnir simplcsmente a maravilha como o improváveL Daqui
por si só conségue, eventualmen'te, cntender as condições naturais da
resulta que a maravilha também não está em contrdição com as leis
maravilha, a naturcza pressuposta da maravilha. Quem acrcdítar que
da natureza, não as viola de modo algum, não parte os elos da causa-
pode explicar a criacão ou mesmo a essência do fenômeno por meio
lidade. A nosso ver. nâo há necessídade, com relação à maravilha, dc
falar em “|acunas" da lci da causalidade, supor quc, no caso. irrom-
pe na natureza uma lcgalidade mais alta. A maravilha, a sobrenatu-
Ú
reza, não cogita de brincar com as leis da natureza; a maravilha prc-
Em inglés no original (N. do T.).
136 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTE_íR/\PIA O HOMEM lNCONDIClONADO l37

cisa delas. a sobrenaturcza precisa delas, servindo-se da lci da causa-


l. d¡m'ensional: - 2. d1m'ensional : U
lídade; a sobrcnatureza não revoga a Iei da causalidade, mas, para
usar uma imagem. comporta-se com relação a ela como se estivessc Agora como antes, o nexo causal é sempre um conlinuum. Ana-
dcdilhando o tcclado de um piano. logamente ao espaço "curvo” de Eisteim esse continuum cspaço
Nada é indeterminado - tudo é determinado e, portanto, tam- tcmporal da lci da causalidade também 'é retiñcado pela legalidade
bém a maravilha; só que ela não é apenas determinada causalmentc, mais alta. ldentiñquemos as correlações causais com as “linhas do
naturalmente, não só de baixo para címa, mas do alto, sobrenatural- mundo“ quadridimensionais, no sentido de Minkowskiz elas se mas-
wm

mente determinada, ela é “superdcterminada”. Em outros termosz tram aqui e ali com depressões ou nichos.
Jxí

ela é determinada nãó só conforme o scr, mas igualmente conforme o Os respectivos lugarcs (nichos) são as oportunidades que a cau-
sentido. sulidade dá à ñnalidade. A natureza é, neste ponto, abcrta para a su-
pernatureza; nestas oportunidades. a supernatureza está metida na
As cadeias causaís permanccem completamente fechadas. Num
':; _-_.z_.2

plano mais elevado, são, entrelanto, simultaneamente abertas, aber- naturcza. obrigada nela. O acaso é o lugar onde a maravilha se abriga,
ou para ser mais preciso, onde se pode abrigar, pois sempre algo po-
tas a uma “causalidade” mais alta. Um círculo, fechado em si, ñca
_-,_- :-_x_-

fechado, enquanto elc - considerado como a projeção de uma meia de, porém nunca deve, ser mais do que um simples acaso. Disso, tudo
é suspeito. mas só suspeito. O ser natural pode sempre ser somcnte
-g

esfera oca (projeça'o do espaço tridimensional no bídimensiona1) é si-


portador de um sentido sobrenaturaL de um supersentido; mas o su-
multaneamente aberto. Assim, o ser da causalidade. no sentido res-
persentido é discreto, não importuna ninguém e pode passar desper-
lrito da palavra, signiñca abertura para o signiñcado. Está sempre
pronto para rcceber um sentido mais profundo. Está sempre disposto cebido.
Temos agora de fazer um diagnóstico diferencial ao qual dora-
a deixar emrar nele mais alta “causalídade”, a mais alta eflcácia da
vante nos apegaremos: o diagnóstico dfierencial “acaso ou mais do que
mais alta realidadc. Na abertura da camada inferior do ser insere-se
rs°so?”. Recordemos, de passagcm, a humanização ñlogenética e per~
em cada caso uma camada superior. No ser detcrminante introduz-se
guntemos se a mutação que outrora doou a nós, hominídeos, subita-
um sentido atuante - o que não qucr dizer que o ser não seja, por sua
mente, 14 bilhões de neurônios - um aconlecimemo da história natu-
vez, condicionado, isto é, que não seja possível atuar sobrc ele. O
ral - foi um acaso ou foi mais que isso. Esta pergunta redunda noutra
sentido humano é exclusivamente apreendido pelo sentido super-
que visa saber se no quadro de uma construção teórica puramente
humano, um supersentido.
natural-cientíñca, a explicação muito plausível de que o desencadea-
Este supersentido não tem, em primeiro 1ugar, nada a ver com o mento da mutação (do salto quânticos, no domínio da genética) é dc-
supersensoriaL signifíca apenas um sentído que ultrapassa essencial- vido à ação ionizante dos raios cósmicos. por um golpc do acaso. se
mente a capacidade humana de comprecnsão. O mesmo se dá com a uma tal cxplicação satisfaz nossa necessidade de causalidade (no sen-
supernatureza: não se trata de um conceíto religioso, e sím metafísí- tido lato do termo). Houve aqui, efctivamente. causalidade signiñca-
'C0. tiva ou absurda?
Queremos insistir no pontoz a supernatureza não abre nenhuma A nós, represcntantes das ciências naturais, foi-nos dado apenas
brecha na natureza, não pcrfura, não criva a.continuidade da relação o ser condicionante, mas não o scntido atuame, não o sentido de um
causal naturaL Pelo contrário, a natureza é, já foi dito, sempre aber- acontecimento como taL O nosso diagnóstico diferencial “acaso ou
ta, sempre proma para a recepção do sobrenaturaL sem que a rccep- mais do que isso?” na alternativaz ação ao acaso de radiação cósmica
ção implique uma “violação” de sua lei própria por uma Iei mais al- ou algo que se esconde por tra's" - nunca pode ser formulado pela
ta. ciência naturaL Este °°nunca" é absolutamente nccessário, pois a
ciência natural conduz sempre ao conhecer apenas; não é de sua
Para nos ocuparmos do caso mais s1m'ples de uma legalídade mais
competência perguntar pelo sentido. dar ao acontecimento natural
altaz a fmalidade também não abre brecha na causalidade. Não é preci-
um sentido. lsso não é da alçada de uma tomada de conhecimento,
so 1m'aginar a superposição ou supra-ordenação de uma lcgalida- mas dc uma lomada de posição. Dar sentido é tomar posição.
de por outra, como se fosscm rasgadas brechas; o que dá a impressão
Enñm, o diagnóstico diferencial - a pergunta radicalmente for-
dc uma lacuna, na observação unidímensional, aparece, na observa- mulada - soa bem diferente: o ser é um incomparável grande absurdo
ção bidimcnsionaL como um continuum. portanto, aberto. ou um único grande supersentido? A ciência natural não é capaz de res-
FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA
0 HOM EM INCONDICIONADO l39
l38

A característica da existência humana é a coexistência cntre a


ponder. A pergunta de modo geral não é respondích o problema não
unidude antropológica c as diferenças ontológicas. entre o modo de
é solúvel - mas uma decisão a respcito há dc scr tomada. Todo ser é

--_
ser unilário da realidade humana c as modalidades divcrsas em que
ambíguo; ambas as interpretaçoc's - absurdo ou supersentido - são
admissíveis. concebívcis. Estamos, contudo, às voltaâ com duas con- ela sc divide. Em síntese. a existência humana é unilas mulliplcx, para
ccpções, duas hipóteses, e não neccssidades teón'cas. A “decisão” usar uma expressão da ñlosoña de São Tomás de Aquino. A ela nâo
que é exigida de nós não sc submete à lógica; não estamos logicamcn- fuzem justiça nem o pluralismo “ nem o monismo. tal como o encon-
tramos em Spinoza, na elhica ordine geometrico demonstrata. Quc
te obrigados a adotar outra decisão. Ambas as interpretaçõcs - ab-
surdo ou supersentido - se justiñcam do ponto de vista da lógica. seja permitido esboçar uma imago hominis ordine geomelrico demons~

-4:~_- .r-_ .
Aqui não sc trata do que é lógico, racionaL mas do que é ontológico, 1rara. que funciona como uma analogia. Trata-se dc uma ontologia
emocionaL “' dimensionaL “ com duas leis, a primeira das quais podc ser formula-

xrsu.
A justíñcação de ambas as respostas - “absurdo absoluto" ou da como segue. (F¡gura l).
“supersentido absoluto" - é da responsabilidade de quem responde. Um objeto projetado em uma dímensão diferente da sua - a que
A pcssoa interrogada, ao invés de ser colocada diante de uma per- estiver mais pcrto - forma-se de tal maneira que as ñguras se contra-
gunta sc vê perante uma dccisão existencial, não intelectuaL 0 que dizem. Se eu p'rojeto, por exemplo, uma taça. geometricamentc um
ela tem de efetuar não é o intelíegere, não é uma apreciação objetiva,
cilindro. do cspaço lridimensional para o bidimcnsional do plano ho-
é uma tomada de posição pessoaL rizontal e do perñL num caso teremos um círculo. noutro um rctân-
A rgumentos e contm-argumentos equilibram a balança. mas quem
gulo. Outrossim. da projeção resulta tanto mais uma contradição
decide lanca nos pralos da balança o peso do seu ser. quanto cm cada caso se trata de uma ñgura fechada, enquanto a taça
Não é o saber que fundamenla a decisão, é a crença. A crença, po- é um vaso aberto.
rém, não é um saber díminuído da realidade do pensado, mas sim um
pensar acrescido da existencíalidade do pensador. A scgunda lci da ontologia dimensional rczac quando não um
objeto. mas vários são projetados em uma outra dimensão (não em
Nota para a 2| edição diferentes dimcnsões), a que está mais próxima da sua própria. for-
mam-se eles de tal maneira que as ñguras, embora não sc contradi-
(Extraída de Die Schshundertjahrfeeier der Universitãt Wien. 0fft-
zieller Festbericht im Selbstverlag der Universitãt Wien-. Viena, l965, zendo umas às outras, são ambíguas. Se eu projeto, por exemplo, um
cilindro, um cone e uma esfera no plano bidimcnsionaL em todos os
p. 160-l7l.)
casos se obtém um círculo. Se suponho que o cone e a esfcra se tra-

É sabido que a arte costuma ser deñnida como unidade na divcr-


sidade. ch. cu gostaria dc deñnir o homem como unidade apesar da
diversidade. Existe uma unidade antropológica apesar das difercnças
onlológicas, apesar das diferenças cntrc as várias maneiras dc ser. “
corpo-a|ma nem por um ño dc cabelo". No que concemc à espcrança dc que futuras
invesligações venham a possibililar a so|ução. Werner Heisenberg se mostra pessimis›
la quando añrmaz “Não cspcramos por ncnhum caminho direto do emcndimento
conduzindo dos movimemos do corpo aos processos psíquicos. pois mesmo nas ciên-
cias exatas a realidade se fragmenta em camadas separadas".
40 Emolividade não equiva|c, porém, a afetividade. não é considêrada no sentido psi~
42 Viklor FrankL “Der Pluralismus der Wissenschaften und die Einhcil des Mcns-
cológico de uma fact¡'cidade. mas no scntido ontológico. aproximadamcntc no sentido
chen“. palcstra pronunciada em l3 dc maio de l965. na ocasião do 600° aniversário dc
da raison du coeur de PascaL Nessc scntido, é o amor. por exemplo. accntuadameme
fundação da Univcrsidade dc Viena no Grandc Salão de Festas.
cogniu'vo. não somenle em relação a um valor ou a um scnlido. mas também em rela~
43 Viktor E. FrankL “Dimensionen dcs Menschseins“. Jahrbuch fur Psythalogie und
ção a um ser e. assim. portamo. Lambém ao mais allo valor c ao mais allo ser. cm rela-
nyrholherapie l. 186. l953.
ção a Deus (ver a minha “prova da existen“cia dc Deus" com base no amorI em Zeil
44 Viklor E. FrankL “Dcr Pluralismus der Wissenschaflcn und das Menschlichc im
und Veramwortung. Viena. ed. Deulicke, l947. p. 40. amo, ergo esl).
Menschen“. in Arthur Koestler c J. R. Smythies (org.). Das neue Memsthenbild Die
4| Konrad Lorenz diz que “a parcde divisória entre os doís grandés incomensuráveís,
Revolutionierung der Wissenschafun vom Lebm Ein ínltmationales Symposion (Mol-
o ñsiológico e o ps1'quico. é intransponível" e que ”a transferência dos rcsultados da
dc'n. Viena/Muniquchuriquez l970). pp. 374-85.
ciéncia nalural para o dominio psicoñsico não nos aprox'ima da solução do problema
l40 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA 17_0HOMEM INCONDlClONADO l4l

trala da projeção de um meschilindm Não pcrcamos. porém. dc


vista que a unidade do ser-assim do homem lança uma pontc sobre a
diversidade das modalídades de ser em que se divide; assim, a supcra-
ção de opostos como soma e psique (coincidenlia oppositorum, no
sentido de Nicolau Cusanus) não deve ser buscada no plano cm que
o homem é projetado. Pelo contrário, é exclusivamente numa dimen-
são superior que podc scr encomrada. na dimcnsão do cspcciñca~
Avñ

mente humano.
Não é, pois. o caso de que venhamos a resolvcr o problcma psi-
cofísico. É bem possível que a ontologia dimensional explique por
que o problema não é solúveL O mesmo se dá com o problema do li-
vre arbítrio. Assim como no caso da taça, um vaso aberto cuja proje-
ção deu como resultado ñguras fechadas. o homem se constitui no
plano biológico com um sislema fcchado de reflexos ñsiológicos, psi-
cológico como um sistema fechado de reações psicológicas. De novo,
da projeção resulta uma contradição, já que é inerentelà natureza do
2

homem que seja aberto, “aberto para o mundo“ (Scheler, Gehlen e


Portmann). O caráter fcchado do sistcma de reflexos fisiológicos e de
reações psicológicas não contradiz, porém de modo algum, à luz da
onlologia dimcnsionaL a humanidadc do homem. Ela o faz tão pou-
co quanto o caráter fechado das projeções no plano horizontal e late-
ral do cilindro contradiz a abertura deste.
Agora, está claro para nós que as noçoe's adquiridas na dimcn-
são mais próxima são válidas pelo menos para essa mesma dimensão.
0 que estamos dizendo se aplica às concepçoe's de investigações tão
unilaterais quanto a reflexologia dc Pavlov, o behaviourismo de
Watson. a psicanálisc de Freud e a psicologia individual de Adler. “
A ciência tem não só o direito, mas o dever, de deíxar de lado a
multidimensionalidade da realidade, atcnuar a realídade, selecionar
da realidade uma determinada frequ"ência. A projeção é. assim. mais
do que legítimaz é obrigatória. 0 ciemista devc adotar a ñcção de que
Figura 2“
lida com _uma realidade unidimensionaL Precisa, contudo. ter cons~
ciéncia do que faz. isto e', conhecer as fontes de erro. a ñm de manter'
tam de sombras lançadas pelo cilíndro, então as sombras são ambí- a investigação sob controle.
guas. na medida em que eu não consigo concluir, partindo de uma Com isso, chegamos à aplicabilidade da segunda lci da ontolo-
delas, sc foi o cilindro, o cone ou a esfera que a projetou. gia dimensional ao homemz sc projcto, não ñguras tridimensionais
Como podemos aplicar ao homem tais considerações? Bem, o num plano bidimensionaL mas ñguras como Fioder Dostoievski ou
homem que é reduzido em sua dimensão especíñca e projetado an
planos da biologia e da psicologia se conñgura de tal formas que as
ñguras se contradizem umas às outras. A projeção no plano biológi-
co produz fenômenos somáticos, enquanto a projeção no plano psi- 45 Frcud cra suñcientememe genial para perccbcr a vínculnção dc sua leoria ao ponto
cológico, fenômenos psíquicos. À luz da ontologia dimensional, a de vista dimensionaL Escrcveu. de fato, cm carta a Ludwig Binswangerz "Semprc vivi
contradição não diz respeito à unidade do homem. Tanto quanto a no andar lérreo e no subsolo do edificio" (Erinnemngen an Sigmund Freud. Berna.
l956. p. 15).
contradição entre o círculo e o retângulo abrange o fato de que se
F---!_-w_-'__*_r_.

l42 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA


í O HOMEM INCONDICIONADO l43

Bcrnadcttc Soubirous no plano psiquiátrico, então trato Dostoievski


A essa pergunta sobre o ser-onde nao sc podc rcsponder ca-
oomo se fose um epúép'uco' igual a tantos outros epüépucos,' Bana~
quanto não respondermos. na gcneralidadc. à perguntaz 0 que signi-
dctte uma hístéúca igual a tantas outras histéñcas com v15'ões alucina-
fica “ser aí"? 0 (Da-sein) de uma pessoa espiritual signiñca, cm prí-
tórias. O que ambos são, além dísso, não se manifesÍa no plano psi-
meiro lugar, que ela se exprime corporeameme e, assim, ocasiona-mc
quiátrico. E porqúe a produçâo artística dc um, a experiência religio- uma impressão sensoriaL Por meio da impressão sensoriaL do con-
sa da outra ñcam fora do plano da psíquiatn'a, demro do qual tudo é teúdo da consciência, é-me dado mais do que elaz viso. por mcio do
ambíguo. como as sombras que não sou capaz de identiñcar ou não conteu'do. um objeto. Trata~se, no caso concreto, desse objcto, da
posso detcrminar se pcrtencem ao cilindro, ao cone ou à esfera.
pessoa espiritual e. assim, dela me é dado mais do que o simples cor-
poraL o simples sensoriaL mesmo já durame a vida da pcssoa. Du-
IIL '0 Problema da Mortalidnde rante a vida do seu organismo, apreendo a pessoa (não a “sua" pes-
soa, como se ele ou ela "tivesse” uma pessoa, mas exatamente “a"
Ocupamo-nos até aqui. .no que dlz' rcspcito ao problema psicofisico,
pessoa que ele ou ela “são") e aprcendo através do dado corpóreo e
c'om o tornar-se homem, com a evolução do espíritual no homem, e
sensoriaL
isso sob um duplo aspecto: ñlogenético c ontogcnético. No que se m-
Pensemos agora simplesmenle no fato do amor. 0 amor, na me-
ferc ao segundo, tratamos, cm especiaL da questão da proveniéncia
dida em que é verdadeiro. é sempre amor de pessoa para pessoa, par-
da pessoa espirituaL a on°gem do espírito. Agora é o momento de
tanto. do mesmo modo, “de espírito para espírito”; não é o meu or-
perguntarmos sobre o futuro do cspírito. À pcrgunta de ondc ele veio
ganismo que ama outr0, mas o a“eu” que ama “tu". Por isso, e só
na hora da procríacão. segu&se a de para onde ele vai na hora da
por isso. o amor consegue sobreviver à idade - essencialmente à ida-
morte.
de de um organismo - e à morte do ser amado. Binswanger opôs ao
O surgimento do espírito,va sua entrada no ser, no mundo, já era
angustiado “ser no mundo” de Heidegger o amoroso “no mundo
considcrada, como vimos, uma “maravilha”, do puro ponto de vista
para além do mundo"; podcmos, de nossa parte, contrapor à sexuali-
da ciéncia naturaL algo de enigmático; assim, também a saída do
dade do homem, à sua sensualidade, no semido de um "ser na corpo-
espíñto no instante da morte dc um homem não é mcnos misteriosa.
reidadc", o amor como “ser na corporeidade para além da corporei-
Dc um modo ou de outro, a existência é, e pcrmanece, em última
dade". De fato, o amoroso “visa" o outro além de qualquer impres-
análise, um myslerium Esta qualidadc é expressa nas palavras mais
são sensoriaL ainda que através dela. Já que o amoroso ultrapassa a
simples possíveís e, por isso mesmo, mais ímpressionantes, no pri-
corporeidade do eme amado, ultrapassa igualmente a morte dessc
meiro cântico da Cancão da Terra de Gustav Mahlerz “Escura é a vi-
outro.
da, escura é a morte” (que os compassos musicais corrcspondentcs
Em outras palavras: no amor. como também nas formas mais
scjam dos mais emocionantes que se possa imagínar, já é outro as-
cotidianas da apreensão da outra existêncía, o homem sempre se
sunto).
agarrou ao “concreto” do ser no mundo. Que ninguém objete que
Vamos partir de um fato fenomenológicoz não podemos admi-
nos estamos distanciando da nossa tese “ser = ser outro", “ pois o
tir, ninguém que tenha conservado um espírito lúcido, apesar de toda
que foí dito não signíñca, em absoluto, que o ser no mundo do ho-
a pseudocultura, pode admítir que tudo tenha de desaparecer com a
morte dc um homem. Não podemos admitir que o homem deva ser mem possa ser outra coisa do que ser individualizado e. nessa me-
uma crialura que de um dia para outro csteja “aí” e setcnta c oito
anos mais tarde, do mesmo modo, de um dia para outro, vire cadá-
ver.
É fácil veriñcar quão natural à sensibilidade do homem é a recu- 46 Veja-se Ãrlzliche Seelsarge, p. 12. ou ainda 249-250: O que nós semprc captamos
no ente em sua plenitude é por isso já delímitado na medida cm que é discerníveL E so-
sa dessa idêia pelo fato seguintc: ocorre freqüentemcnte que o ho- mentc no relacionar-sc de um cnte com o scr outro que ambos são cm gcral conslituí~
mem - como o pregador à beira do túmulo - se inclina a tutear o dos. A relação com o entc em scu aspcclo de scr oulro é para ele. de oerto modo, uma
morto. Não diz “tu" evidentemcnte ao corpo do morto, para o corpo iniciação. Scr=ser outro como relação; na verdadc só a rclação "é“.
“sem alma“. o cadávcr; pelo contrán'o, diz de espírito para espírito. De acordo com o que sc podc sabcr. o fenômeno “vermelh0" nunca é dador o que
sc lcm sempre é a relacão “vcrmclho-vcrdc“. que seria. porlanto. o fenômeno originnL
Somente a uma pessoa espiritual posso din'gir-me usando “tu”; mas essenciaL ñnaL Uma constatação empírica desse argumemo é o fato de quc n cegucira
onde está o “tu", para onde foi ele, foi ela? para as corcs não surgc isolada e sim em combinação (vermelho-verde). Do que foi
íilü FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA 0 HOM EM INCONDICIONA DO 145

dida, scr concrcto. A concretítude não é captada no todo; o quc ocor- outro scm critério de escolha. mas do scr-outro absoluto, a concrcti-
re é que cu, cm meio aos dados corpóreos-scnsoriais, avanço para tude dc um concrelissimum e. nessa medida. de um realissimwn. Com
uma concretitudc mais alla. A aprcensão da concretitude do outro uma tal concretitude nósjá travamos conhecimcnto c a chamamos dc
abre para mim o caminho rumo a concretos mais elevados, ísto é, a haecce1'1as.
concretitude da pessoa espírituaL não de um outro qualquer, do scr- Ao positivista, escapa a circunstância de que o homem cstá scm-
pre para além da impressão sensorial e do conteúdo da consciência,
mesmo quando ele se mostra capaz de conceber a pessoa cspiriluaL
diw no parágrafo anlcrior a respcilo da relaçño emrc cntes. conclui-sc agora que na Já indicamos que o positivista é verdadeiramente um niilista. Agora
física ou na astronomia. como ciências dc objetos rclacionados, pressupõe-sc a mate~ se lornou claro que fatalmente ele eslá prcdestinado a não enconlrar
málica. como ciência das relações. Cumpre acresoentar que não entendemos pelo m-
nada, senão o “nada"; em vão ele procura algo. porque procura o
mo “relação" uma catcgoria; o conceilo é apresentado aqui ontologicamcme.
Oulras conñrmações quanto à validadc do que dissemos sobre a relação podcm
transcendente da consciência no chamado posilivo, no clemcnto
ser achadas no rclato dc determinadas cxpeñências com animais. Karl Bühler. por “positivo” dada. no que é imanente à consciência. O objeto transccn-
exemplo. em Dlt geixtige Enlwicklung dtx KÍMPLYOV cdição. Jena. Gustav Fischer. dcnte jamais poderá ser cncontrado no conteúdo da consciência.
|924. p. l80), fala do conhecimento que os animais lêm da “rclação". c cita. com refe- Essa tentativa parece com a de uma criança que procura o canlor no
rência a este pomo. W. Kõhlcr (Nachweiseinfacher Struklur funktionen beim Sch¡m-
gramofone ou o interlocutor no aparelho de telefone. Enquanto refli~
pansen undbeim Haushuhn, Abh. da Bcrl. Akad. d. Wiss.. l918. Phys. Math. KI. n9 2)
cujo estudo proporciona o cxemplo da uma experiência com uma galinha que se mas- to somente o alo intencionaL nunca posso concebcr o objeto trans-
lrou capaz de eslabcleccr dcpois de treinada rclaçõcs cmre impressõcs. mas não de ter cendente, só o consigo quando me dirijo para cle através do conteú~
impressões àbsolutas (Ioc. cir., p. l78). do imaneme da consciência; em síntcsez somente quando executo in-
Mais uma prova podemos ainda obtcr em certas pesquisas da flsica. Lcia-se A. teiramenle o ato inlencionaL Nunca posso julgar um par dc óculos
March (Neuxon'enn'emngder Physik. Der StandpunkL 9. 5. l952. p. 5): “Quando cxami-
namos a fundo as_.expen'ências ¡em quc sc fundamcma nossa crcnça na cxistência de eIé~
enquanto rcnilo “sobre" elc; é preciso que cu veja através dcle, quan-
trons como subslâncias. não resta senão um sistcma dc rclaçoc's constames. de forma do observo um objelo através dc¡e. Enquanto obscrvo um homem
que deveríamos considcrar como rcais essas relaçõcs e não as partículas em scu aspec- que vê o vermelho, presencio somente o seu ver - nesse ínterim, des-
lo dc substâncíam a esséncia das coisas é rcprcsenlada por uma estrutura... esta imer- conhcco 0 que seja vermelho; eu próprio tenho de ver o vermelho
pretação é hoje sustcmadas por nomes ilustrcs como Berlrand RussclL Eddingtom
para saber em que consiste (contanto que eu seja capaz. isto é. não
Schrõdin e muitos oulros. Nenhum dclcs considera o mundo objclivo como uma subs~
táncia." seja cego).
Anlen'ormente. falou~se na relação entre cmcs. enlrc o scr c o ser oulro. em parti- Ass¡m, a pessoa cspirituaL mesmo em vida, já se revela como
cular na rclação “vermelho-vcrdc“. Há, lambém. o amarelo e o violeta. o azul e o la- algo que é mais do que a corporeidade e a sensualidade. Nós a segui-
ranja. cada um dos membros desses parcs é “outro" para o que cstá no lado dc lá da' mos no “além", na mcdida em que ultrapassamos a massa de impres-
rclaçâo. Uma ñgura vermelha de pcquenas dimensõcs sobre um fundo vcrde é outra
sões sensoriais. Sempre, pela imprcssão sensoríaL “temos” a própria
com rclação a uma grandc. o mcsmo no que tange a um quadrado e um circulo ou
uma ñgura lridimensional com rcferêncía a uma plana. 0 ser não apenas se constituiz pcssoa. por conseqüência lemos sempre algo mais do que a simples
oomo ser ouuo. ele vai galgando dimcnsões cada vez mais elevadas do ser outro! O' impressão sensoriaL Através do ólico, do acústico etc., “marcamos a
mundo. por conseguintc. pode ser dcñnido como um sistcma dc relações cscalonadas. posição“ do espirituaL A própria pessoa espiritual nos é dada. Toda-
Do caráter dimcnsional dessà gradação resulta que a relação emre correlalos dc um
via. ela é dada. conformc o caso, de maneira mais ou menos imedia~
delerminado plano deve pertencer ao plano seguinte da cscala ascendeme. Assim. a re›
lação cnlrc dois pontos. a linha rcta que os une. pcrtencc à primcira dimcnsão, cn-
ta. Há graus no medialo e no imediato e as diferentes formas do que
quanto a rclacão cntrc duas linhas - unidimensíonais - ou seja, o plano que as liga. é dado distingucm-se precisamente por esses graus - as diferenças são
penence à segunda dimcnsão. apenas graduais. não principiais.
0 que Iança uma pome entrc os entes é o conhccimcnlo, que conscgue superar o
scr oulro no emc. estabelecendo uma relação. No enlanto. o própria conhecimento já Escolhamos um exemplo: falo com alguém sem intermediários;
é uma relação; é o relacionamento entre o ser espiritual c o outro ente. e que costuma
recebo dele diversas impressões óticas. acu'sticas. e assim por diante.
ser caracleñzado também sob a forma de um “ter". Do que já ñcou explicado. vbsc
que o conhecimcnto como relação não penence ao mesmo plano em que eslão os cor- Suponhamos que falo ao telefone, então ele mc é dado menos ime-
rclatos dcssa relnçño - de um lado o entc que conhccc, de oulro, o que é conhecido. diatamente, a intcrmediação aumentou. Continuemos na escala dc
Por isso. o conhccimcmo de um objeto não podc ser conhecido simultaneamente com comparaçãoz no caso de uma transmissão radiofônica. apenas o espa-
o conhecimcnlo do objcto do conhecimento. O objeto do conhecimento é alcançado ço foi vencíd0, enquanto no de uma reprodução em disco também o
ao cuslo do conhecimcmo do obje(o. alé que añnal 0 primeiro deixe dc ser o que pre-
tempo foi superado. Assim. é possível ouvir cantar o já falecido Ri-
lcnde ser_
0 HOM EM INCONDICIONADO 147
l46 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA

Tnhança, encontraremos, como sábia conclusão, na frase indiana lat


chard Tauber. Por meio da rcprodução fonográñca de sua voz, ele
twam asi. De acordo com a sabedoria que cssa frasc cnccrra. a idcnti-
próprio nos é de novo “dado", é-nos restituído, porque não é verda-
de que ouvimos apenas ondas sonoras, tanto no caso de um cantor dade da pessoa espiritual podc. em gcraL não lhes scr conhecida du-
rante toda a vida. Pelo contrário, podc apenas pcnctrar na consciên-
vivo que está num estúdío, como no de um cantor que já morreu.
Pclo contrário. em cada um desses casos, ouvimos o próprio cantor. cia depois que o “véu de Maia” scja rasgada A cxislência corpóreo-
psíquica é sempre no espaço e no lcmpo; mas as pontes cntre um
Através da voz de Richard Tauber - seja ela transmitida por esse ou
aquele meio - através de todas as diferentes impressões scnsoriais, cxistente espacial-tcmporal e outro não são dc modo algum lançadas
através do espaço e do tempo. Essas pontcs não sào, por sua vez. es-
através dos vários graus do mediato, estamos sempre para além do
que é impressão sensoríaL “temos” sempre a pessoa espiritual que paciais-temporais. Assím como um continuum cm tcrccira dimcnsão
“despcrta" a impressão sensorial e “se exprime". Ela mesma é dada, parcccrá descontínuo na segunda dimcnsão, o relacionamcmo contí-
nuo das pessoas cspirituais umas com as outras podc ficar oculto na
na sua singularidade e especiñdade. O “charme” de uma voz nos é
dimensão corpo-alma. O ser próprio, o ser para além do tcmpo c do
dado como um fator pessoal. Ainda que por cima do tum' ulo, chega a
espaço. poderia muito bcm reprcsentar, ncsse sentido, um conlinuum
nós o cantor. como personalidade.
espirituaL A sua continuidade espalhar~se-ia no que nós, cm oulro
Poder-se-ia considerar demonstrado, pelo que foi dito anterior-
lugar, denominamos “o ser-em". Visto assim, o “ser-cm" do ente sig-
mente. que a pessoa espiritual já em vida não se oferece de modo
niñcaria o mesmo que um ser-em-si do próprio ser. No que sve referc
imediato; também depois da morte, ela nos é dada por íntermedia-
especialmente ao “ser-em” (outro) amoroso do cmc (espiritual), sa-
ção. Disscmos antes que depois da morte ela "nos" pode ser restituí-
bemos, desde Binswanger, que se trata aqui de um modo duplo do
da. Esta “imortalídade“ - indcpendcntemcnte da eventualidade dc
ser, por conseguime não de um modo do entc - e já sabemos desdc
que um morto possa dela participar - é evidentemente apenas subje-
Spinoza que, em última análise. se ama ao próprio Deus no nosso
tiva. Seria, então, o momcnto de abordarmos a questão da existência
amor. no nosso amar um outro.
de uma imortalidade objetiva, o prolongamcnto da vida espiritual do
O que temos a objetar quanto à migração das almas situa-sc
homem após sua morte, do aparecimento do organismo psicofísico.
num plano diferente das objeções feitas até aqui. Diríamos, sobre
A priori, isto seria possíveL pois estamos familiarizados com
esse ponto. que a chamada migração das almas, como habitualmente
uma certa independência do espírito em relação ao corpo, na medida
é compreendida, não quer dizer migração de almas, nem tampouco
em que sabemos, por exemplo, que a vida corporal prossegue duran-
de pessoas cspirituais, mas sim migração de espíritos. “Os espíritos”,
te o sono ou em gstados de hipnose profunda sem que se notc, nesses
que o espiritismo, o ocultismo, a antroposoña e a teosoña “colocam
casos, vida psíquico-espiritual. Há, por conseguinte, um continuum
no corpo astral", não são de modo algum idênticos àquilo que nós
corporal sem um continuum psíquico-espiritual. Por que, inversamen-
dcsignamos por “o espiritual". Este espiritual não pode “migrar",
te, não seria possívcl haver um continuum espiritual que subsistisse
porquanto. no momento de sua morte, o homem não só perde a
para além das múltiplas existências corporais? Defrontamo-nos, a
consciência, a consciência do tempo, mas também o próprio tempo.
essa altura, com a questão da possibilidade fundamental de exístên-
Ele o perde na morte. exatamcnte como o ganha no momemo do'
cias corporais repetidas, em outros termos, da migração da alma.
nascimcnto. Só o “ser-no mundo” no espaço e no tempo e, cm conse-
Não é de admirar que a continuídade da pessoa espiritual, cuja
qu”ência, no corpo, só tal “ser-aí" “tem” o tempo, "tem" um passado
identidade, através das várias “encarnações”; desaparece, seja desco-
e um futuro. No entanto, o ser espirituaL como espirituaL não “é"
nhecida de si própria durante a vida, porque quando sonhamos e de-
“concreto", é, ao contrário do “ser-no mundo", um ser para além do
pois acordamos e voltamos a adormecer e sonhar quase não toma-
espaco e do tempo. Não haveria como que um pressentimento de que
mos conhecimento de que estivéssemos acordados entre doís sonhos.
o puro ser não está sujeilo ao tempo, a nenhum passado. a ncnhum
Por que não se'ria do mesmo modo possível que. por exemplo, no
fuluro na circunstância de que não podemos construir nem o perfek-
caso da reanimação de um afogado, logo que ele voltasse a si, tivesse
tum nem o futurum do ser sem recorrer à palavra auxiliar “essência"
a consciência de ter despertado já noutro ser talvcz “maís real” ainda
ou “devir"?"
que um_ ser noutro tempo, mas tempo incomensurável em relação ao
nosso? ' A idéia se aplica à gramálica alemã ondc o verbo werden (vir a ser) auxilia a constru-
Uma analogia com a ocultação da identidade da pessoa espirí- ção de tempos do paasado e do futuro (N. do T.).
tual, não no tempo, mas no espaço. não na sucessão, mas na vízi-
F__ÉÍ V

|48 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGlCOS DA PSlCOTERAPlA O HOMEM lNCONDlClONADO l49

Onde não há tcmpo, passado ou futuro, qualquer das cxpressões


te'm-se tão afastada da pseudometafísíca cspiritista qu_amo da psico-
“mais cedo" ou “mais tarde”, “a'ntes" ou' “depoís”, “pré“ ou “pós"
logia intclectualista. O espiritual não sc confundc com a consciêncía,
pcrdc seu sentído. 0 que é “pré" ou “pós” não é eo ipso “existência".
como se conclui das investigaçõcs que publicamos cm outra oportu_-
Com isto, ñca eliminado todo o palavreado sobre existências revivi-
nidade (A"rztliche Seelsorge; Derunbcuvussle Gott e outros trabalhos).
das Não conhecemos outra existêncía cspíritual que não scja coexis-
Tentamos demonstrar ali que, ao lado do inconscientc instíntivo, há
tênciabom o psicoñsico. Toda a añrmação sobre a existência espiri-
também um inconscicnte cspírituaL Este espiritual é inconscicntc na
tual para além desta exístência, para além do corpo, do espaçb c do
mcdida em que se “absorve" na cxecução irrenetida de atos espin'-
tempo. carece de sentido. Só podemos sabcr da exístência espiritual
tuais. É incorreto añrmar - como já foi fcito - nâo só scíl mas tamc
cnquanto estiver unida, enquanto cstiver “completada” pclo corpo e
bém se scire scil; pelo contrário, tudo indica que o ato cspiritual pode
pela alma na unidade e totalidade do ser “homem". 0 que está para
visar também um objeto, sem com isso visar a si próprio, fazcndo do
além disto, o que está para além do corpo, do espaço e do tempo, o
sujeito objeto, por consegu¡'nte, sem sobre isso rcfletin Ponamo, da-
que se desenrola na zona do puro ser, é ímpossível conhecermos.
vemos distinguir entre um sabcr (primário) e uma consciéncia (secun-
Já vimos que a migração da alma é impossível; também vimos
dária) deste mcsmo saber. 0 que sc chama cm geral consciência e',
por outro lado que é “impensável” a sobrevívência do espiritualz
comudo. o mesmo que esta consciência retrospectiva, rcflexiva sobre
não se pode pensar nem imaginar tal coisa. Entretanto, seria legítimo
si mcsma, esta consciência do próprio saber, cstc saber sobre si mcs-
supor - não só legítimo, como necessário, já que o contrário não sc-
mo - esta autoconsciência. A uma consciência=autoconsciência,
ria víável - que aquilo quc, cssencialmente, se situa para além do cs- teríamos, portanto, dc opor uma consciêncía íme'diata. Esla última
paço e do tempo deva sobrepor-se à morte. Proponho que falemos dc
corresponderia ao que se tem chamado de prima intenüo, enquanto
“sobrevida”, em vez de continuação da vida da pessoa; não todavia,
que o ato (secundário) da reflexão, “derivado" do ato (pn'márío) da
de modo a que se pense que a pessoa espiritual sobrevivc à morte do
intenção. coincidiria com o que se tem designado como secunda in-
corpo-alma, e sim na acepção a que já nos referimos, de um “super- tenlio.
sentido" - que tínhamos deñnido como “um sentido que ultrapassa
A consciência, no entanto, em contraste com consciência ime-
essencialmente a capacidade de comprcensão humana" - portanto,
diata (Gewusstsein) é, segundo todas as aparências. dirigida a um or-
no sentido de uma supervída, isto é, um modus da vida, de que não
fazemos mais idéia. que não seríamos capazes de conceber. ganismo psícofísico. a uma psycophysís intacta. Por outro lado, seria
De tudo isto resultam duas coisas: primeiro, vemos, ainda uma concebível - enfatizo: ncm mais nem menos, “concebívc1” - que uma
pura consciência imediata, o actus purus de uma prima intenlio, seja
vez, como toda a separação e isolamento do espiritual do corpo-alma
só pode ser heurísticaz o espiritual somente é conhecído por nós em independente de uma organização psicofísica desponíveL Assim. se-
ria portanto possível que, também para além do corpo e da alma, o
união pessoal com o psicofísica Segundo. demonstra-se que añrma-
ções sobre o puro espirituaL sobre o espírito em si, só são possíveis espiritual - em tais “atos puros" - fosse capaz de uma visão pura. da
como negativas. Neste contexto, podemos nos referír também a añr- visío beata.
mações “noonísticas” - para nos servirmos da expressão de Frítz Nada mais se pode deduzir do que esta conccpção. Contudo,
KünkeL Poderíamos, outrossim, fazer mcnção a uma noologia nega~ essa possibílidade, essa possíbilidade de pensar não contradiz o fató
tiva, em analogia com a “tcologia negativa". de que tal sobrevida do espintuaL tal sobrevida esp1'r¡tual, nunca nos
Esta noología negativa pode aflrmar apenas uma coisa sobre a seja consciente, pelo contrário, ñque sempre inconsciente, pois esta
existência da pessoa espiritual para além da sua coexístência com o nmortandade nos é eo ipso mconsciente durante o tempo da nossa vi-
psicofísicoz não é mortaL Esta añrmação negativa - de que a pessoa da. e na sobrevida 0 é também eo ipsoz na sobrevida nada podc che-
espirituaJ é i-mortal - não precisa, no entanto, causar~nos espanto. gar à "'consciéncia” mas somente à consciência imediata.
Represênta justamente a contrapartida daquela outra añrmação que Por conseguinte, aparentemente, só o pragmático c o prático po-
não se referia à mortc, mas à procriação ou ao nascímento, e que era dem estar lígados ao corpo, aderentcs à vida, mas não o gnósico, isto
a seguíntez a pessoa é ín-criável. ' _ 4 " é, o puro gnósico, o actus pums. Na morte, 0 h_omem mergulha da-
Devemos esclarecer, neste ponto, que o espirituaL como o con- certo numa:-apatia total e também numa “apraxia" total, mas somen-
ccituamos, não apenas nada tem a ver com os “espíritos”, como tam- te numa “agnose" parcial: a consciência é, daí em diante, impossível
bém não é idêntico à consciênciaz nossa concepção ontológíca man- - a consciência imediata seria todavia possíveL
150 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA
O HOMEM lNCONDlClONADO lSl

Em rclação a tais perspcctivas de “futuro" ou de etcrnidade, do-


vemos nos intcrrogar se estamos satisfeitos com clas. Podcria ser ob- ciais. salvamos sempre alguma coisa dentro do passado; no caso dos
jetado que, por esse meio. todo o indívidual é destruído. e. portanto, valores criadorcs, salvamos a nossa interíoridade na realidadc extc-
finalmente, também o pcssoaL Entretanto, não precisamos, de modo rior; no caso dos valores vívenciais, a realidadc exterior dentro da>
algum, ter esse rece¡o, pois o puro espíritual é, e pcrmanece, um espi- nossa inten'oridade. Não há dúvida dc que para cada possibilidade
ritual individualizado: ser pcssoa espiritual signiñca ser espírito indi- que salvamos dessa maneira. eliminamos milhares de outras possibi-
vidualizado, e, para além disso, individual1'zantc, na medida em que a lidades. “Commission is better than omission" ". como dízem os íngle-
pessoa espirítual indivídualiza o organismo psicofísico em termos de ses. Também nos quer parecer como se houvesse um un'ico perigo em
um organismm especíñcamcntc o seu organismo. nossa vída: o de não ter vivido.
É claro, por outro lado, que um “acesso" da pessoa espiritual "a 0 de que nós precisamos é respeito ao passado, não ao futuro; o
uma consciência mais alta" não chega a nos satísfazer. Essa perspec~ passado é inevitáveL o futuro. o nosso futuro está à frente da nossa
tiva idealista de eternidade opõe~se à materialista, igualmente insatis- decisão e da nossa responsabih'dade.
fatória, scgundo a qual deveríamos nos contentar com o fato de que Nesle ótica. ñca scm dúvída dcmonstrado que constitui um erro
'›
os átomos que constituem nosso corpo também não se perdem de- dizer que somos, perante o futuro, responsáveis pelo p'assado.
:1 Pelo contrário. somos precisamente responsáveis, perante o pas-
Hi pois da morte, mas representam adubo para as plantas e alimento
para os vermes. Quero dizerz preñro estar bem morto e deíxar que sado inevitáveL pelo futuro decísivo.
'

1
apenas a minha obra perdure, “minha” obra, o que tenho de mais Dentro do que nós chamamos rcspeito pelo passado, há tamo
pessoaL Não esqueçamos: cada alo é o seu próprio monumento. medo quanto consolo. 0 medo é porque se receia o que está escondi-
Façamos uma pausa e voltemos, nesse contexto, ao problema da do no futuro; mas o consolo é pelo que sc sabe que está escondido no
transitoriedadez o tempo passa, o tcmpo se escoa - é assim que se diz? passado.
J_á dissemos o suñcientc sobre o problema da ñnitude temporaL
'Também se fala substantivamente do “fluxo do tempo” e, nesse caso,
da transitoriedade da existênc¡a. Retornemos à questão da mortali-
imagina-sc que o' tempo corre do futuro. através do presente, para o
dade do homem: añrmamos que. no sentido de uma noologia negati~
passado. A maioria dos homens, no entanto, ilude~se aí duplamente.
va - somente negativa - se pode añrmar a i-mortah'dade da pessoa es-
Em primeiro lugar, observa-se constantemente que cssc “lfluxo”
piritual - nem mais nem menos do que tal imortalidade; pois sobre o
cava o seu leito e a nossa sepulturaz vê-se somente aqucle momento
modo da existência da pessoa cspirituaL para além da sua cocxistên-
no fluxo do tempo a que os geólogos chamam erosão. Com efeito,
cia psícofísica, para além do espaço e do tempo - numa palavra. a
fala-se na “Iima do tempo. Em tudo isto se esquece apenas que o nu-
respeito da sóbrevida - não se podem fazer quaisqucr declaraçõcs.
xo do tempo não só continua a limar como também acumula; o
Vamos nos detcr um pouco neste ponto para seguir, por meio dc
acontecido e o realízado juntam-se continuamcnte no passado; nele
uma sinopse biolo'gica, o acesso à imortalidadc do homem como pes-
sedimenta-se tudo o que passou, no seio do passado afunda-sc cons-
soa espiritualz é sabido que uma espécie de imortalidade também é
tantemente o que passou e lá ñca guardado. 0 tempoquí, mas o acon~
própria aos seres unicelulares. Mas esta imortalidade é apenas corpo-
tecimento se coagula em forma de histo'ria. Nada que aconteceu pode
ral. Em contraste com a simples imortalidade corporal dos unicclula-
ser desfeita Nada que foi criado pode ser extermínada No passado
rcs, os seres que representam organismos multicelulares. nos quais as
nada estâ irreparavelmenle perdido. No ser-passado eslá tudo absoluta-
células consituem, portanto. sistemas celulares. já são corporalmente
meme preservado. Reformulando tudo isto no jargão da gcologia; vi-
monais; em compensação. são imortais do ponto de vista psíquic0, e
vemos num cterno aluvião.
isto num detcrminado sentido de que mais adiante falaremos. 0 ho-
Em segundo lugar, falcmos daquela “ílusão ótica" à qual geral-
mem, porém. é mortal tanto do ponto de vista do corpo quanto da
mente nos sujcitamos, a saber: o tempo correria diante de nós, cs- psique - já dissemos expressamente que cle perde, na mortc, todo o
taríamos na margem dcste rio e íríamos ao encontro de um futuro.
seu psicofísico (não menos, mas também não mais). Entretanto, com
Entretanto, na realidade, nunca atuamos sobre o futuro, ao contrá- csta perda. com a sua mortalidade psicofísica, “adquire“ aparentc-
rio, atuamos sempre sobre o passado. Salvamos, dentro do passado,
as possibilidades. na medida em que as realízamos, na medida em
que realizamos valores. Quer realizemos o que chamamos de valores
cn'adores. quer realízemos o que designamos como valores viven- ° Em íngles no on'ginnl (N. do T.).
ñV

152 FUNDAMENTOS ANTROMLOG_r__ICOS


DA PSICOTERAPIA '_ o HOMEM INCONDICIONADO 153

mente o que falta ainda aos seres que lhe estão "abaixo” na escala do além dc coletivo. não-histórico. Cada indivíduo reagc a partir de ins-
desenvolvimcntoz a imortalidade cspírituaL Assim é a escala cresccn- tintos ídênticos de igual modo. em situaçõcs iguais, c cada geração
te na sucessão biogenética - uma escala na qual uma criatura, através faz o mesmo. Um formigueiro não conhece uma história - tampouco
do sacrifício. da renúncia à inñnitude (temporal) numa camada do conhcce o valor próprio dos indivíduos. Em compensação, o homcm
ser, obtém a infinitude (tcmporal), até mesmo a “imortalidadc", não só é um ser completamente individuaL como também um scr
numa camada imcdiatamente superior. completamentc histórico. Ele é sempre alguma coisa dc particular e
Em quc sentido e com que razão podíamos añrmar amcrior- alguma coisa de único, tal como também o é seu próprio mundo. Na
mentc que os seres não-humanos, tais como, por exemplo, os scres qualidade de ser histórico, o homem nunca “é". mas sempre "vem a
animais, seriam “imortais do pomo de vísta da psíque”? Pois bcm, ser". Ele só será um “todo” quando sua vida tiver terminado; só en-
em relação à sua vida psíquíca, os animais não são, se assim me é pcr- tão, seu “mundo” será completado. "
mitido expressar, complctamcnte individualízados: o que ncles se Assim. a vida do homem se rcvcla como emidade temporal inte-
pode descobrir no nuxo dos processos psíquicos pertencc, cm última gralz cada momento u'nico de uma tal existência é refcrido ao “scu"
análise, à psíque da espécie - que, sem dúvída, como tal, se subtrai, passado. ao “seu" futuro e à sua “mortc” (Rilke); mortal, o homem
em si e no todo, à obscrvação e ao domínio das ciências naturais e circunscrcve “sua" vida num todo fechado. Assim como um círculo
simplesmente porque ela não é, como añrmam os biólogos, de natu- rcpresenta uma ñgura fechada em si - sem princípio e sem ñm. e ape-
reza espacial e temporaL mas somente se manifesta espaço- sar de completamcnte ñnito, ainda assim ilimitado - também a vida
temporalmcnte nos scres que se apresemam espaço-tcmporalmcntc, do homem, e, com cla o “seu” m.undo, é fechada em s¡, logo que ele
nos quais, portanto, ela é também apreensível cicnt1'ñcamentc. A to- morre. Como uma linha circular se fecha sobre si mesma, assim a
talidade da vida psíquíca dos indivíduos anímais submete-se a csta vida o faz no momenlo da mortc. Entretanto, aquele “ponto de sol-
psíque da espécie - dela também vive o animal; dela são, em prímciro da” que fecha a vida num todo, que junta o ñm ao princípio - cstc
plano, produzidos e orientados os instintos - “dela" e para ela. De pomo dc solda é represcntado pelo inconsciente, do qual o homcm
fato, os instintos de um animal são sempre instintos que funcíonam, desperta para a vida e no qual cle adormece na morte.
em última análise, no intcrcssc da espécic e que, por este intercsse, sa- O caráter histórico da existência humana. a que Heidegger cha-
críñcam mesmo, eventualmente, o intcrcsse indivíduaL No entanto, mou “maturação" e Binswanger, recentemente, “historicidade”,
o falo de que a.psique da espécie é ímortal decorre necessariamcntc também tem a sua patologia especíñca. Ela foi detalhadamente trata~
do scu caráter não~cspaço-temporal. da além de Binswanger, por Erwin Slraus e Viktor E. v. GebsatteL
Se é verdade, como disse Hegel e, de acordo com ele, L. Bins- Gostaríamos dc dar uma comribuição modcsta à patologia da vivên-
wanger e G. Bally, que o individuum é o que o mundo de cada um é - cia temporal na medida em que vamos estabelccer uma relação entre
em outras palavrasz contanto que se possa realmente ler melhor a es- ' a vivência do “de'jà vu” “ e o fenômeno primitivo da maturação.
trutura do ser de um indívíduo na construção do “seu" mundo, po- Sobre isto, diríamos o seguintez na vivência do déjà vu, a uma obser-
demos justamente também esperar que o caráter coletivo não-, vação mais atenta veriñca-se que não se experimenta propriamentc o
individuaL pelo contrário, genéríco, da psíque dva espec'ie igualmente que “já se viu”. tratar-se-ia, então. de uma alucinação da memória.
corresponda um carátcr coletivo do “mundo” animal correlativo. Nc entanto, analísado mais cuidadosamente, encontra-se apenas
lsto é verdadeiroz os “mundos ambientes" dos anímais - como V. uma qualidade anormal de conhecimento, não veriñcável pelos fatos,
Uexküll os analisou - revelam-se como mundos ambientes de cada do já vivido alguma vez. Basicamente não é como se eu vivesse algu-
espécie; eles não são de modo algum “mundos" individuais, no semi- ma coisa que eu já tenha conhecido; pelo contrário, tenho apenas o
do em que cada homem tem o “seu próprio” mundo.
Mas não só o mundo ambicnte de um anímal ou de uma espécie
de animais é igual de indívíduo para índivíduo (pois ele não é próprio 48 Viktor E. FrankL Der Wille zum Sinn. Hubcr. Berna. Stuttgart. Viena. l972.
dc cada indivíduo, mas sim dc uma espcc'ie), como também é o mcs- 49 Compara-se com “Zur Metapsychologie des Déjà vu". Ouo PõlzL Imago. l2, 2/3.
mo de geração para geração de uma espécíe animal. Ele não se trans- l926 (nu'mero em homenagem a Freud) 239. ou ainda. dc Viklor E. Frankl c Otlo
forma. permanece rígído - permancce tão totalmente incapaz de PõtzL “Uber die seelischen Zuslãndc wãhren dcs Abslurzes. Eine physiologishe Stu-
die“ in Karaslrophenreaktionem organizado por Charles Zwingmanm Akademishc
transformação como a psíque da espécíe a que elc correspondc. 0
Verlagsanstalt. Frankfurl/Main l97l. pp. 153-168.
“mundo" correlativo dessa psíque da espécic é, por conseguinte.
ñ______

154 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSÍCOTERAPIA


O HOM EM INCONDICIONADO lSS

sentimcnto de conhecer tão bem esta alguma coisa “como se" cu já a


Vimos, em primeiro lugar. na discussão do problcma corpo-
tivesse conhecido alguma vez. Em resumo, este “como se” rcpresenta
uma racionalização secundária (ainda que tão evidente, e, por isso, alma, em que medida o homem não é acionado no dcvir, qua existen-
tia pelo psicofísico; na discussão do problema do livre arbítrio mos-
surgindo involuntaríamente). Não se pode, portanto, dízer - como o
traremos, em segundo lugar, em que medida ele não é dcterminado
tentou Havelock Ellis na sua ínterpretação do fcnômeno - que no
pelo psicoñsíco no modo de ser, na essência, quoad essentiam
“déjà vu" o agora é falsiñcado em um antes; mas a dístinção catego-
Ad. l. Na discussão do problema corpo-a|ma rcvelou-se que o
rial cntre agora e antes acaba aqui, agora e antes convergcm aqui em
homem é apenas condicionado, mas não constituído, apenas possibí-
um só - o tempo parece ler parado. Assim, a vivência do déjà vu reve-
litado, mas não criado pelo psicoñsico. A cxistência é “dada de pre-
la-se como uma parada transitória da “maturação” da existência,
sente” a alguém, como diz Jaspers. e isto a partir da transcendência.
como um “assalto" da existêncía não-histórica - por assim dizer, um
Ad. Il. Na discussão do problema do livre arbítrio, foi demos-
assalto da “existência em nunc slans”.
trado que o homem nao' é determinado pelo psicoñsico para um db
Como se sabe, a vivência da dcspersonalização está clinicamente terminado scr-assim, mas ele próprio tem o poder de se determínar.
muito próxima da vivência do déjà vu. Quer nos parecer notável no Essa autodeterminação. todavia. tem sempre presentc o mun'do sub-
entanto, que a despersonalização também represente, do ponto de jetivo do sentido e do valor, do Iogos e do ethos.
vista exixtencial - analítico, uma correlação com o déjà vu; pois en- Em suma: a pessoa espiritual é acionada pcla transcendência,
quanto o djéâ vu, como se dcmonstrou há pouco, é o mesmo que uma isto é, pelo “supersentido”, por um absoluto e, com ceneza. pelo
perturbação do vivcr do ser-agora, na despersonalização é perturba- mundo objetivo do sentido, isto e', por um mundo signíñcativo, obje-
da a vivência de ser-no mundo: na despersonalização eu vivo assim tivo.
como seu eu não estivesse “no mundo" ou como se não fosse o meu Em outras palavras. como disse Hegelc O “espírito subjetivo” é
eu que “é" no mundo. Aqui, no caso da despersonalização, não é, acionado pelo “espírito absoluto" e determinado pelo “espírito objez
portapto, perturbada a comp'recnsão categorial da estrutura do tcm- tivo".
po - de modo que as “estases” do tempo (Heídegger) são misturadas
- mas é perturbada a articulação espacial: a cstruturaçâo do mundo IV. O Problema do Livre Arbitrio
(não, porém, em um agora e um antes) em um aqui e em um aí - em
um eu e em um não-eu.
Nossa autocompreensão nos dizz somos livres. 5° Esta compreensão,
Resumindo: o bios pressupõe a physis, a psyche prcssupõe a a evidência deste fato primitivo da nossa liberdadc, pode, todavia, ser
soma e o espirituaL 0 mentaL O ser constítuído por camadas even- facilmente obscurecida. A psicologia, por exemplo, é capaz de ofus-
tualmente maís elevadas semprc pressupõe, portanto, um ser consti- cá-la:.a psicologia, pelo menos na sua expressão como cíência naturaL
tuído por camadas mais baixas. desconhec_c qualquer liberdade, não a podc conhecer - tampouco a
l. “Pressupor alguma coisa” não sígniñca, porém, “compor-sc ñsiología seria capaz de reconhecer ou ver algo como o Iivre arbítrio.
r de alguma coisa". Nesta ordem de ide'ias, pode dízer-se do homem, A psicoñsiologia termina aquém do lívre arbítrio - exatamente como
na medida em que ncle o espírito pressupõe uma alma e uma alma a teologia começa além do livre arbítrio, onde uma providência divi-
pressupõe um corpo, que, de modo algum ele, se compõe de corpo, na se coloca acima da liberdade humana. O fenômeno primitivo do
alma e espírito, mas, pelo contrário, representa uma unidade, uma livre arbítrio pertence portanto, completamente, ao domínio de uma
totalidade corpo-alma-espírito. metapsicoñsica. O investigador das ciências naturais só pode ser,
ll. “Pressupor alguma coisa", “ter alguma coisa por pressupos-
to“ signiñca o mesmo que “ser condícionado por alguma coisa".
“Ser condicionado” não signiñca. no entanto, nem “ser acionado"
ou "ser detcrminado".
Na medida em que o homem é condícionado como unidade c to-
talidade corpo-alma-espíríto, isto exprime, portanto, que elc é condi- 50 Essa autocompreensão existe antes de toda a autwobsewação retrospecu'va. e mas-
mo antes de toda a psicologia imrospectiva. A partir do momemo cm que me observo
cionado pelo psicofísico “de baixo para cima”; ele é acionado e de-
não posso ver mais liberdade alguma. deve-me pareccr tudo dcterminado em mun';
terminado pelo espírito “de cima para baixo”. mas o que cu. cntão. vejo já não corrcspondc a mim mesmo
156 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA 0 HOM EM INCONDICIONADO IS7

como taL sempre determinista. *' Mas quem é que pode ser qualiñca- mo. Não se pode ser um pouco determinista e indeterminista ao mes-
do apenas como um praticantc das ciências naturais? Mcsmo o inves- mo tcmpo. lsso seria assim como alguém que quisesse ser um pouco
tigador dessa árca c', além de toda a posição cientíñca, um homem, teísta e um pouco ateísta simultaneamente. Apesar dc tudo, procura~
um homem global e completo, a exemplo do objeto homem de que se sempre trazer o dcterminismo e o indeterminismo para um mcsmo
ele sc aproxima cientiñcamentee que é mais do que a ciência natural plano, numa aparente conc1'liaçãó. No entanto, a aparente reconci-
é capaz de ver nele. A ciência natural enxerga somente o organismo liação gratuita entre determinismo e indeterminismo não correspon-
psicofísico, mas não a pessoa espírituaL Por conseguinte, não conse- de a qualquer pensamento intcgral; é uma má integração - a isto cha-
guc também pôr a descoberto aquela autonomia espiritual -do ho- ma-se somar, mas não integran ”
mem que lhe é peculiar, não obstante a dependência psicofísica. Da Necessidade e liberdade não ñcam em um mesmo plano, ao con-
“autonomia apesar da dependência“ (N. Hartmann), a ciência natu- tra'rio, a liberdade ultrapassa e sobrepõe~se à necessidade. Já encon-
ral (e também a psicologia natual) vê apenas o aspecto da dependên- tramos este fato quando dissemos que o nexo causaL no ser domina-
cia. Vê apenas as necessidades. do pela lei da causal¡'dade, não e', de modo algum, rompido ou das-
Mas o homem, como tal, está semprc além das necessidades - truído pelo sentido que intervém “de cima“. O domínio da necessida-
posto que aquém das possibilidadcs. O homem é, essenc1'almente, um de é mesmo pressuposlo pelo domínio da liberdadc - Iiberta supponit
ser que transcende as necessidades; raramente alguma coisa transpõe necessilalem
as possibilidades de um homem, mas este transpoe~ scmpre as neccssi- No entanto, novamente resulta que pressupostos podem apenas
dades. Ele “é” com certeza somente em relação às necessídadcs, mas condicionar, mas não determinan Dissemos que o psicofísico só con-
num rclacionamento livre com clas. diciona o espírito humano. não o determinando nem o realizando.
Necessidade e liberdade não estão. de nenhum modo, em um N_unca añrmamos, contudo, que o homem seja apenas espírito, nem
mesmo plano. Na camada em que se encontra a dependêncía do ho- contestamos que ele tenha um psychophysicum Muito menos nos
mem nunca se observa a sua autonomia. Na mcdida em que conside- opomos a que ele tenha instíntos. 0 homem tem instintos - do ponto
rarmos o problema do Iivre arbítrío, não podemos, portanto, admitir de vista ôntico - e dcve também tê-los - do ponto de vista ético. Não
uma contaminação das camadas do ser. Onde, porém, não há qua|- ncgamos, dc ncnhum modo, os instimos do homem; o que negamos é
quer contaminação das camadas do ser, também não pode haver a instintividade do homem. O que negamos é que o homem seja mo-
qualquer compromisso na mancira de ver. Assím, também não é ad- vido pelos instintos. Ele os “tem” mas não é movido por eles. O ho-
missível qualquer compromisso entre determinismo e indetcrminis- mem tem instintos, mas estes não o têm. Ele faz alguma coisa por ins-
tinto, mas o instinto não o_plasma.
Não negamos, de modo algum, a vida instintiva, o mundo dos
instintos do homem. Assim como não negamos o mundo exterior.
5l 0 que sucede quando o dclerminismo. ligado complelamentc ao materialismo. se não negamos o mundo interior; não somos solipsistas nem em rela-
arrisca a cmitir opiniões sobre o homem. sobre o seu ser espiritual c sobre o seu ser li-
vrc. demonslra-o a passagem seguinte das Richllinien einer Philosophie der Medízin. dc
ção ao mundo circundante, ncm solipsistas, no sentido ñgurado, com
A. W. Kneucker (Viena. I949): “Se se pensar. por exemplo. o quanlo as glândulas se- rclação ao mundo interion O que, todavia, accmuamos é o fato de
xuais dominam a vontade do homcm. lorna~se claro que não sc pode falar de livre que o homem, como ser espirituaL não só se encontra colocado em
nrbílrio. Uma prova da justeza dessa idéía é fornecida pelo exame do rcsullado da cas- face do mundo - interior e exlerior - mas também toma posição em
lraçãoz os indivíduos aos quais se cxtirpam as glândulas sexuais lornam-se abúlicos,
relação a ele; podc, de qualquer modo, sempre, “tomar posicão”.
pelo mcnos no que langc às cmoções sexuais“ (p. 31). “Do ponto de vista médico não
pode hçver l_ivre arbítrio. pois ncnhum indivíduo é capaz de sc livrar da innuêncía dos
“comp_ortar-se” perante o mundo, e este comportar-se é propriamen-
hormôníos.“ 0 aulor chega a falar cm “dikmt" das glândulas sexuais (p. 89). Tal fata- le livre. O homem, em cada momento da sua existência, toma posí-
lismo lcva-o ñnalmente a declarar: “o conhecido aforismoz tcus hormônios - tcu destic Ção tanto perante o ambiente natural e social, pcrantc 0 meio exte-
no. c'. sem du'vida. pcrfeitamente jusu'ñcado" (p. 32). Que este fatalísmo, cm sua cssên~ ri0r, como perante o mundo interior vital psicoñsico, o meio interior.
cia, não loma em consideraçào o elhos não nos dcvc causar admiraçãoz “quanlo mais
ativas são as glândulas. majs passivas são. geralmentc. as idéias morais" (p. 84). Na
realidade. uma “idéia mora|" ou, para melhor dizer. um propósito só começa verda~
dciramcmc quando um homem é senhor da “ativ¡dade" das suas “glãndulas“, isto é,
quando Ihe opõc a atividade do seu espírito, qucr dizcr. quando reage como pessoa es- 52 A inlegracão dos fcnômcnos que estão em planos ômicos difercntes não pode cfe-
luar-se em planos ônticos. mas som'cnte no contexto dc uma omologia.
pirilual a um fakzum psicoñsico (que nunca representa um falum).
o
FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPÍA O HOMEM lNCONDlClONADO 159
158

Não negamos, portanto, os instintos em si, e isto é válido não só Na prátíca, o homcm freqüentcmentc não é livre; facultativa-
do ponto de vista ôntico como do ético: onde é oportuno. o homem mentc, ele é. e permanccc, livrc. Scmprc que parccc não scr livre. é
deve e pode añrmar os scus instintos; mas eu não posso, porém, añr- porque renunciou livremcntc à sua liberdade. Quando o homcm se
mar alguma coisa scm que tenha tido antes libcrdade, mesmo para comporta como se fossc conduzido, ê porquc sc dcixa conduzir. Podc
ncgar. E tudo depende desta liberdadc. Importa. para afirmar os ins- muito bem entregar-se aos seus instintos. mas mcsmo csta cntrega é
tintos. não negar a liberdade perante eles. Importa añrmar os instin- de sua rcsponsabilídade. O homcm tem, por conscguintc, a liberdadc
tos mas não añrmá-10s à custa da ll'berdade, mas semprc no cõntexto, cm qualquer caso; não a tcm só para scr livrc. mas também. no mas-
c em nome da liberdade. lmporta añrmar os instíntos sem nos entre- mo grau. para não ser livre. Tcm a libcrdade dc clcvar-se a um possí-
garmos a eles ou abandoná-los. vel ser Iivre ou, da mesma maneira. deixar-se cair num possívcl ser
A añrmação dos instintos não está em contradição à liberdade. conduzid0. A sua não-liberdade inclui-sc na sua libcrdadc. assím
mas tem a liberdadc como pressuposto de negação. Liberdade e', es- como a sua impotência na sua força. Sc existc “humor involuntário",
sencialmente, libcrdade perame alguma coisa: “liberdade de" algu- exíste também “sabedoria involuntária". conformc se dcprecnde da
ma coisa - e “liberdade para” alguma coisa (poís também, na medi- seguinte frase de uma de minhas pacicntcs: “Eu sou livrc quando
quero, e quando não quero. não sou livre”.
da em que eu não me deixo detcrminar por instimos, mas por va|o-
O homem tem liberdadc em todos os casos; só que na maioria
res. tenho a liberdade de dizer “não” às exigências éticas: eu apcnas
das vezes desiste dela, voluntariamente. É que nem scmprc tem cons-
me deixo determinar).
ciência da Iiberdade, mas pode tomar consciência dela. Este é o alvo
A realidade psicológica nos revela, portanto, que os “instintos
da análise cxistcnciaL como análise da cxistência n_o scntido da |iber-
em s¡" nunca aparecem no homem. Os instintos estão sempre já añr-
dade e da responsabilidade; e apelar para a liberdade, tornada cntão
mados ou ncgados. sempre. de qualquer modo, já formados; os ins-
consciente, é a missão do apcrfeiçoamento psiCoterapôutico da análi-
tintos irrompidos do psicoñsico cstão sempre já assimilados pela pes-
se existcncial que a logoterapia apresema.
soa, sempre integrados por ela. O id (instintividade) e_' sempre o id de
um “eu” e este “eu“ não é joguete dos instintos (também não é um Poderíamos ajnda dizer o seguintc sobre a liberdade do espiri-
joguete dos “instintos do eu"). 0 “eu" não é uma simples resultantc tualz já por dcñníça'o, espiritual é apenas a partc livrc do homcm.
dc componcntcs do “instinto" que tivésscmos imaginado como uma Chamamos de “pcssoa" a priori, geralmente, só ao que se comporta
espec'ie de um paralelograma dc forças. Pclo contrán'o, o “eu" tem, como ser livre. A pessoa espiritual é, no homcm, o que se pode opor
desde o princípio, e em todos os casos, o poder de decisão. Este po- sempre e em qualquer tempo a cada posição, não só exterior como
der do eu em relação ao id não pode ser, por outro lado, derivado de interior. “Posição interior" é, todavia, justamcnte a que se identiñca
l'nstinu'vidadc. Sobre isso já manifestamos nossa opinião várias vezes ' como “dis-posição” (com isso, designa-se, de passagem, algo de
I
em outras ocasiões. Certa vez, com referência a esse ponto, indica- cquivalente ao “carátcr”).
í
mos que o poder apriorístico do eu em relação às “forças” do id po- 0 espiritual nunca se absorvc numa situação; ao contrário, cstá
dia ser comprcendido como o poder de um juiz velho e alquebrado sempre apto para “desistir”, renunciar, ganhar distância, alheiar-sc
que condena um réu'atlélico. Quem puser em dúvida esse poder do da situação. Somente a partir dessa distância tem o espiritual liberda-
juiz confunde, a nosso ver, o poder judicial com o poder ñsico. Quem de. e somente a'partir dessa liberdade espiritual pode o homem deci-
se espanta de que o eu possua a capacidade incondicional de dizer dir-se a favor ou contra uma posição, a favor ou contra uma dispos¡-
não aos instintos confunde duas coisas que se encontram em planos ção. um traço de caráter ou uma tendéncia instintiva. Em poucas pa-
diferentes. ” lavrasz somente a partir dessa liberdade espirituaL pode o homcm
añrmar ou negar o instinto, conforme o caso.
53 Martin Buber viu isto com muita clarcza no seu livro Das Problem des Menschen Na medida em que o homem. graças à sua liberdade cspiritual,
(Hcidelberg. l948, p. |38). no qual adverte contra “um cquívoco entre poder e força". não precisa deixar-se absorver por qualquer situação. mas, pelo con-
e d1'su'ngue. exatamcnte, enlre "forças". por um lado. e “a capacidade de pôr forças trário. pode estar sempre “acima da situação", só sc de_ixará absorver
cm movimento". por outro : esta última capacidade. de “poder pôr em movimento". voluntariamente, com o ñm de coIocar-se, de empenhar-se - no caso
.

csses podcres dc forças. o esplrito tem. Buber fala também (p. l42) expressamentc de
um “domínio incondicionado" do cspírito. bem co'mo de um “pacto primitivo” que de uma “añrmação” da situação - eventualmente de ir ter com a si-
assegura a este último a predomináncia irrefutável e que os instimos cumprem, em al- tuação.
~..

guns casos com raiva. na maioria com serenidade.


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_..
160 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA
O HOM EM INCONDICIONADO |6|

À capacidade do homem de estar acima das coisas pertence tam-


bém a possibilidadc que ele tem de cstar acima de si próprio. Deve~ predisposicão hereditária. O que um homem reccbeu. no decorrer da
mos distinguir então entre o eu que está acima de alguma coisa c o vída, como herança psíquica, forma o seu caráter, reprcsentando,
“eu” acima do qual está o homem. O eu mencionado em pn'meiro lu- por ussim dizer. o genótipo psíquico; o que o homem faz das suas dis-
gar é idêntico, scm dúvida. à peszoa cspirituaL Entretanto, o “eu” posicõcs. o que ele. a partir delas. forma corrcsponderia portanto ao
mencionado em segundo Iugar não é mais eo ipso a própria pessoa; l'eno'tipo.. A entidade responsável por esta formação é a pessoa espiri-
csse “eu” não é mais alguma coisa que eu “sou", mas somente algo luuL Assim. podemos dízerz o caráter é cr.iado. a pessoa é criativa.
que eu “tenho” - tenho em freme de mim. Em palavras: esse “eu” Enquanto falamos da maneira de ser de um homem. e com isso
não se situa mais na rcalidade consumada da auto-realização espiri- pensumos somentc no seu caráter. isto é, nas suas predisposições hc-
tuaL csse “eu", como meu oposto, é transcendido por mim mcsmo, reditárius da alma para além de todas as formas já realizadas ou de
esse “eu” já é o id. lodus us futuras possíbilidades de forma, estamos no direilo dc falar
Talvcz o id não seja no fundo, inclusive no sentido da psicanáli- em deslinoz do mesmo modo. estamos no díreito de aceitar o que
se. mais do que um “eu" vencido no decorrer do tempo. Este pensa- Szondi pretende com a sua análise do destin_o. Logo que comecamos.
mento, singularmente válido, foi manifestado, tanto quanto sabe- cntrelunlo. u ver no homem não só essa maneira de ser mas também
mos, pela primeira vez, por Berzez o id seria, a seu ver, propriameme o seu poder ser outro, perde todo o díreito o palavreado acerca do
o “ant¡go eu". De fato, as decisões do eu tomam-se no decurso do dcslino. .
seu desenvolvimento atitudes permanentes do id. sedimentando~se Rohrucher disse: “Ta| como o químico pode predizer o que
portanto. Pode-se então dízer: a decisão de hoje é o instinto de ama- uconlece quando duas substâncias são postas em contato, também a
nhã. O id seria então o “eu" já dcsativado - uma tese que poderia c.1'r.1'cterologia. se liver em sua presenca um caso investigado com
conduzir a outra: o superego é o que ainda não foi realizado, é o eu cxatidão. poderi_a predizer o que aconteccria se este homcm caísse
ainda a sc realizar. Resumindoz o id é o quc não é mais “eu" - o su- numa determinada situação. “ Somente não se pode prever que ele...
perego é o que ainda não é eu. venha a cuír nessa situação".
Resulta daí que, momentaneamente, na medida em que só fala- No entanto, apresenta-se à meme do autor não só uma longa sé-
mos sobrc ele, deixamos que o cu se converta num id. Ele imediata- rie de situacões que todo homem pode esperar encontrar, mas tam-
mentc se ñxa e se torna objeto de uma hípótcse. A frase de Schillerz bém a invcstigação do caráter pode levar isso em conta e, dessa for-
“a alma fala, ai. a alma já não fala maís” pode portanto ser assim ma, transformar-se em uma investigação do destino. 55 Parece-nos,
modíñcadaz “falamos do eu e desde logo não estamos falando mais no cmunlo. quc. em todos esses cálculos. a coma foi feíta sem consi-
do verdadeiro eu". derar o dono da casa. Esse “dono da casa“ nada mais é senão a pes-
lsto é espccialmente signiñcativo em relação ao que chamamos soa cspiritual do homem. em estrita oposição ao seu caráter psíquico.
de fatalismo neurótico: sempre que o neurótico fala da sua pessoa. Essu pessoa espiritual é em sua cssência, incalculáveL Posso, even-
do scu modo de ser pessoaL tende para a hípótese e age como se a sua luulmente. no máximo, saber como um homem, a partir das suas dis-
posições de curáler, se comportaria numa determinada situaçã0. To-
maneira de ser não pudesse se diferente. Na medida em que ele veriñ-
davia. nuncu poderei prever ou predizer como depois se comportará
ca em si um traço de caráter qualquer, tal vcríñcação torna-se para
cle, automalicamente. uma ñxação. Ele não diz a si mcsmoz “até aqui dc fulo. porque, em última análise, o homem não se comporta. em
virtude do “seu caráter", mas pelo contrário, sua pessoa toma posi-
era assim, comportei~me assim“; pelo contrário, ele se ñxa na idéia,
cão freme a ludo e a cada um, e. dessa forma, portanto também ao
pensa quc, já que foi assim uma vcz, não pode, por isso, ser de outra
seu próprio caráter.
maneira. Esquece que não precisamos gostar de tudo o que somos.
O que dissemos se torna claríssimo se rccorrermos à fórmula
Há munto já foi pronunciada a epígrafc para aquilo que se en-
simples e. no entanto. tão exata, de Allersz “0 homem “tem" um ca-
conlra em face do homem. isto é, o cara'ter. Aquilo no homem com
ráter. mas ele “e'" uma pessoa". Podemos ainda acrescentarz como
que a pessoa espiritual é confrontada é o caráter psíquico. A pessoa é
livre, o caráter. no cntanto. não é livrc em si, pelo contra'río, é exata-
mente aquilo frente ao qual a pessoa é livre. Isto resulta da circuns~
tância de que a pessoa é espirituaL enquanto o caráter representa al- 54 Klvinc ('haraAIerAunde. Viena. l948.
guma coisa de psíquico, e, como sabemos, corresponde c provém da 55 Locul ciludo. p. 232.
162 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSlCOTERAPIA 0 HOMEM INCONDICIONA DO |63

pessoa que ele é, o homem tem caráter, c tem Iíberdade em face dessc homem sobre a sua liberdade e o que a Iogoterapia, também, em u'lti-
carátcr. ma análise; quer é esta aulodeterminação do homem baseado na sua
A disposição de caráter não é, por conseguinte, em caso algum, responsabilidade e em relacão ao segundo plano do mundo dos scnti-
decisiva; dccisiva, em último lugar, é, pelo contrário, sempre, a toma- dos _e dos valores. isto é. do “Iogos" e do “elhos". Com este duplo
da de posição da pcssoa. “Em última instância” decide, portamo, a ñm. toda a psicoterapia deve contrariar a tendência típica do neuró-
pessoa (cspiritual) sobre o caráter (psíquico) e, neste sentido, pode- lico. para estagnar. na forma que lhe é particular, o seu caráter. a sua
mos dizcr: em último lugar decide o homem sobre si mcsmo. (Que ele facticidade, o seu ser-assim. Ouvimos constantemente co_mo os nos-
não faça sempre ísso efetívamente, mas só facultat1'vamente, não mo- sos doentes sc referem ao seu caráler; mas o caráter a que eu me reñ-
diñca a validade de princípio desta asscrção). O homem'tem, portan- ro torna-se. no mcsmo momcnto, um bode expiatórioz no momento
to, liberdade não só em relação às inñuências do seu mundo ambien- em que falo dele. já estou a me dcsculpar dele.
le, como também em rclação ao seu próprio caráter. Em certo s'enti- Nãosó do caráterz a rígor não posso nunca falar da pessoa sem
do, tudo se passa de modo que a liberdade perante o ambiente se fun- me desculpar a ela própría. Mesmo à própria pessoa - logo que eu
dc com a liberdade perante o caráter, especiñcamente, na medida em falo dela como da “minha" pcssoa (como se eu “tivesse" uma e, pelo
que a menor inñzwncíabilidade do Iado do ambiente representa uma contrário. não “fosse" pessoa) retiro, exatamente por isso. o seu pró-
qualidade de carátcr, e o problema do homem em relação às influên- prio ser. islo é. a sua realidade de execução (só na qual cla pode “pro-
cias do ambientc, decorre. em u'ltima análise, do modo como ele se priameme" ser). Falar da pessoa faz dela imediatamente um id. Do
coloca em face da influenciabilidade. que se conclui que nós nunca podemos falar, de forma inteiramente
Assim, o próprio caráter depende de que o homem scja livrc válida, “dc" uma essência do modo pessoal do ser, mas, propríamen-
como pessoa, ou, pelo menos, p_ossa ser livrc. Assim, como cada “de le. só "para"'cle. ”
que" da Iiberdade exíge um “para que”, assim também, a “liberdadc De resto. o homem neuró1íc0, não só se desculpa do seu caráter
do” caráter. A Iiberdade da pessoa é, portanto, não só uma libcrdade individuaL do id. mas também de alguma coisa supra-individual. um
de caráter como também uma liberdade para a personalidade. Ela é coletivo existente nele mesmo - ao “sc” ("Man") ativo nele e atra-
liberdade da própria facticidadc c líberdade para a própria exístên- vés delc (para nos servimos desta expressão dc Heidegger). Por conse-
cia. Ela é liberdade do “ser assim" e líbcrdade para “se tomar ou- guinte. pode ser não somente necessário, do ponto dc vísta psícotcra-
pêutico, contrariar 0 fatalismo neurótico indivídual, cm cada caso,
tro". Esse tornar-se outro é sempre orientado para um mundo objeti-
vo de sentidos e de valorcs, como já disscmos em outra ocasião; essa mas também, não raras vezes. atuar do ponto de vista de uma psico-hi-
giene coletiva. Ncste sentido, vale notar quc, nos tempo atuais, por
orjentação para o sentido dc toda auto-estruturação faz que a verda-
toda parte, o homem tem tendência para se reportar ao ser-assim de
dcira personalidade não possa ser conccbida senão marcada pelos
qualquer grupo (classe ou raça) a que pertence. Esta aparente auto-
sentidos e pelos valores. 5°
A minha libcrdade de ser assim cu a aprcendo na auto-reflexão; justiñcação lhe é facílitada porquc lhe é constantcmente mostrado o
quanto elc é dcpendentc de qualquer coletividade e 0 quanto ele tam-
a minha Iiberdade de tornarome outro, eu a compreendo na autode-
bém, do ponto dc vista espirituaL cstá sujcito à sua influência.
terminação. A auto-refíexão rcsulta do ímperativo délñco “conhece-
Desejamos demonstrar com um exemplo os perigos que su_rgem
te a ti mesmo”; a auto determinação se dcsenvolve conforme a fór-
quundo sc mostra ao homem o seu ser-assim coletivo em vez de sç
mula de Píndaro: “Torna-te o que tu és!” moslrar a ele o seu “poder ser outro" individuaL Como é sabido, o
lntercalemos aqui uma curta nota psicoterapêuticaz o que a aná-
biólogo americano Kinsey publicou um relato estatístico no qual se
lise existencial pretende, em última instância, é csta auto-reflexão do ussinala como a moral sexual depende da eventual camada social a
quie o indivíduo pertence e como é diminuta a minoria que de fato se
mcntém ñel à moral sexual dominante. Entrc outras coisas, resultou
que a maioria dos maridos é inñel à esposa. O que é lamenlável é que
56 "Scr oricmado para..." e “ser marcado por" dcvem fazcr acentuar que lodas estas
aulo-cstru¡uras não rcprcscntam nenhum unívoco ser-dcterminado - nem mcsmo “de
cima para baixo“. pois assim como o espírito sc “deíxa" impulsionar pelos instintos.
assim também é válido añrmar que cle se deixa determinar pelos valores. A pessoa as-
piriluaL o espírito subjclivo. lem liberdade não só “do" organismo psicoñsico c “pa- 57 FrankL Zeil und Veramwonung, Deulicke. Vlem, l947. p. 42.
ra" o espírito objeu'vo, mas também pemnle o espírito objetivo. *
r
164 FUNDAMENTOS ANTROPOLÔGICOS DA PSICOTERAPIA O HOMEM lNCONDlCIONADO 165

o “Relatório Kinsey" tenha virado best seller, pois não é lícito risticumeme. Mas não o pode ser. cntão. por outra Jazão? ch. ela
que todas as verdadcs dcvam ser publicadas. Se" eu, como médico. deve ser uma simples parlicularidade hcurística, já que o espírito não
meço a pressão arterial de um doente e a encontro ligeiramente alta e ú .s'uh.vlância, mas puro movimento. Ouvimos antes que elc sc pode ca-
depois Ihe digo somente a verdade, concluo que eu não lhe devo dizer racterizur como o que se opõe. como o que se coloca "contra". Como
de modo algum a “vcrdade", porque, no mesmo momento, eleva-se a tuL o que é espírito não pode nunca ser substância no sentido tradi-
sua pressão arterial (efeilo da excitação). Se, todavia. faço crer ao pa- cionuL chresenta. pelo comrário. uma entidadc ontológica, e dc
ciente que a sua pressão arterial está normaL então não lhe digo uma uma enlidade ontológica nunca sc poderia falar como de uma reali-
não-verdade. já que esta comunicação tranquilizante realmente Ihe dade óntica, islo é. de subslância no senlido tradicionaL E também
normalizou a pressão arterial (l¡geiramcnte elevada pela “angústia da porque falamos do “espíritual“ scmprc, somente. nesta forma de ex-
expectaliva“). Se, añrmo, agora, aos homens que a maioria dos mari- pressão pseudo-substativa ou adjetiva substantivada e - aparente-
dos trai a mulher, a maioria destcs homens não dirá certamente a si mente por instimo - evitamos 0 substanlivo “espírito": com um
mcsmaz “exatamente por isso devo comportar-me bem c ap'oiar a m¡- substuntivo só se pode designar uma substância.
noria dos sérios”. mas. pelo contrári0, o homem médio dirá: “não E é assim que o traçado nítído de fronteiras cntre o espiritual e o
sou melhor do que a média". Resumindo: a comunicação da verdadc psicofísico se torna neccssário símplesmentc porque o espiritual e', em
estalística falseia eo ipso esta verdadc - assim como a observação de esséncia. o que se delimita a si mesmo, o queÀ se distingue a si mesmo -
um elétron. segundo Heisenberg. influêncía sempre sua posição. Ob- o que se distingue. como existência (da facticidade) e como pessoa
servar signiñca. scmpre, simultaneamente também influênciar, quer (do curátcr). a exemplo de uma ñgura que se dcstaca do fundo.
queiramos ou não, sobretudo a comunicação de um resultado de Ob-
servação é sempre alguma coisa que pesa no prato da balança da dc- É certo que não há no homem um sem o outro. No homem não
cisão. _ há por exemplo instinto sem libcrdade nem liberdade scm instinto.
Ouvimos contantemcnle um doente dizcrz “cu sou assim” e com Pelo contrário. como já nos foi demonstrado, toda a instintivídade
isto ele quer dizer - logo não poderia ser também, absolutamente, de tem passudo. sempre, como que através de um zona de líb_crdade an-
outra maneira. Na real1'dade. todavia, ísto também signiñca: cu pos- tes de se ler manifestado, e, por outro lado, a Iiberdade humana pre-
so ser scmpre também diferente - logo não sou de uma maneira qual- cisu du instintividade, por assim dizcr. como base sobre a qual deve
quer!" Eu sou - ou melhorz o eu nunca é factuaL mas facultativo. O assentar - evidcntemente, ao mesmo tempo - também uma base
ser aí não se esgota em um qualqucr ser-assim A existência “é em" sobre u qual possa erguer-sc. da qual sc possa lançar. lnslínto e libcr-
sha faclicidade, mas não se esgota na sua própria facticidade. Ela dude estão um para o outro numa relacao correlativa.
“ex-iste“ c isto quer dizer que ela está sempre tam_bém além - para Esta correlação e', no entanto, essencialmente díferente da que
fora -' da sua própria factic1'dadc. existe cmrc mvche e phy.w's. Em contraste com o paralelismo psicoñ-
Nisto reside ñnalmente também o cunho dialético particular do sico obrigalório há. na verdade, alguma coisa que podíamos designar
ser humanoz estes dois momcntos, com suas exígências mútuasz “e- como o anlagonismo facultativo psiconoético. Esze antagonismo
xistência-facticidade" e 0 ser dirigido um ao outro dcstes dois mo- corresponde. por inteiro. à capacidade do homem de se distanciar do
mentos. Estão os dois sempre entrclaçados um com o outro e, por is- psicofísico. Em vez de se identiñcar com os instintos, 0 homem dis-
so. separáveis só pela força. lanciu-se deles - embora possa, de tal distância, também. dizer-lhes
Mitscherlich fala da “pcrsonalídade u u que alguém simultanea- sim. Finulmente. isto forma o que há de humano no homemz que o
mente tem e é”, e Plesner diz do homem que ele tem existência e, ao lmmem pode distanciar-se dos instinlos e não se deve idenlfll'car com
mesmo lcmpo. é existência, e que o ser-no mundo representa para o vlos - o que o animal de modo nenhum pode fazer; o animal não po-
homem uma rclação “entre si e si (para dizer mais exatamentez cntre de. exutumente~ identiñcar-se com os seus instintos, porque ele já é,
ele e si)“. Quem exprcssou isto da foNrma mais bcla foi o poeta Dek- por assim dizer, idênlico a eles. O animal não “tem” instintos, ele

,- - e.+. .
mel ao escrever: “pairamos sobre a vida à qual estamos colados”. "é" os seus instíntos. O animal não conhece. por consegu1'nte, ne-
Em relação a estas unidade e totalidade dialéticas que estão Iiga- nhum unlugonismo. vivc semprc somente em paralelismo psicofísico
das à facticidade psicofísica e à existência espiritual do ser aí huma- - sempre somenle do psicoñsico unitário. O homem, porém, só co-
no, rcvela-se pela u'ltima vez o que já vimos rcpetidamentez que a se- meca justamentc a ser homem quando é capaz de se opor ao seu pró-
paração nítida entre o espiritual e o psicofísico só pode ser fcita heu- prio psicofísico.
l64 FUNDAM ENTOS ANTROPOLÓGÍCOS DA PSICOTERAPIA 0 HOMEM lNCONDlClONADO |65

o “Relatório Kinsey" tenha virado best seller, pois não é lícito rislicumenle. Mas não o pode ser, então, por outra .razão? Bem, ela
que lodas as verdades devam ser publicadas. Se" eu, como médico, deve ser uma simples particularidade heurística. já que o espírilo não
meço a pressão artcrial de um doentc e a encontro ligeiramente alta e é subslâncim mas puro movimemo. Ouvimos antes quc elc se pode ca-
depois lhe digo somente a vcrdade, concluo que eu não Ihe devo dizer ructerizar como o que se opõe, como o que se caloca "conlra". Como
de modo algum a “verdade", porque, no mesmo momento, eleva-sc a laL o que é espírito não pode nunca ser substâncía no sentido tradi~
sua pressão arterial (efcito da excitação). Se, tvodavia. faço crer ao pa- cionaL chresenta, pclo contrário. uma entídade ontológica. e de
ciemc que a sua pressão arterial está normal, cntão não lhe digo uma uma enlidade ontológica nunca sc poderia falar como de uma rcali-
não-verdade. já que csta comunicação tranquilizante realmente lhe dade óntica. isto é. de substância no sentído tradicíonaL E também
normalizou a pressão artcrial (ligeiramente elevada pela “angústia da porque falamos do “espiritual" scmprc, somente, nesta forma de ex-
expectativa“). Se. añrmo, agora. aos homens que a maioria dos mari- pressâo pseudo-substativa ou adjetiva substantívada e - aparentc-
dos trai a mulher, a maioria destes homens não dirá certamente a si mcnte por instinto - evitamos o substantivo “espírito": com um
mesmaz “exatamente por isso devo comportar-me bem e ap'oiar a mi~ subsluntivo só se pode designar uma substância.
noria dos sérios", mas. pelo contrário, o homem médio dirát “não E é assím que 0 traçado nítido de fronteiras cntre o espiritual e o
sou mclhor do que a média". Resumíndoz a comunicação da verdade psicofísico se torna neccssárío simplesmente porque o espiritual é, cm
estalística falseia eo ipso csta verdade - assim como a observacão de essência, o que se delimita a si mesmo, o que' se distingue a si mesmo -
um elétron, segundo H cisenberg. influência sempre sua posíção. Ob- o que se distingue, como existéncia (da facticídade) e como pessoa
servar signiñca. sempre, simultaneamente também influênciar, quer (da carátcr). a exemplo de uma ñgura que se destaca do fundo.
queiramos ou não, sobretudo a comunicação de um resultado de ob-
servação é semprc alguma coisa que pesa no prato da balança da de- É certo que não há no homem um sem 0 outro. No homem não
cisão. há por exemplo instinto sem liberdade nem libcrdade sem instinto.
Ouvimos contantemente um doente dizer: “eu 'sou assim" e com Pelo contrário, como já nos foí demonstrado, toda a instintivídade
isto ele quer dizer - logo não poderia ser também, absolutamente, dc tem passado, sempre, como que através de um zona de líberdade an-
outra mancira. Na realidade, todavia, isto também signiñcaz eu pos- tes de se ter manifestado. e, por outro lado, a liberdade humana prc-
so ser sempre também diferente - logo não sou de uma maneira qual- cisa da instintividade. por assim dizer. como base sobre a qual dcvc
quer!“ Eu sou - ou melhor: 0 eu nunca é factuaL mas facultativo. O ussentar - ev1'dentementc, ao mesmo tempo - também uma base
sobre a qual possa erguer-se. da qual sc possa lançar. lnstinto c liber-

ll
ser aí não se esgota em um qualquer ser-assim. A existência “é em”
sha facticidade, mas não se esgota na sua própria facticidade. Ela dade eslão um para o outro numa relaçao correlativa.
lx “ex-iste“ e isto quer dizer que ela está sempre tam_bém além - para Esta correlação é. no entanto, essencialmente diferente da que
5

l; fora -' da sua própria facticidade. exisle entre pxyche e ph_vsis. Em contrastc com o paralelismo psícofí-
Nisto reside ñnalmente também o cunho dialético particular do sico obrigatório há. na verdade, alguma coisa que podíamos designar
í
l ›' ser humanoz estes doís momentos, com suas cxigências mútuas: “e- como o antagonismo facultativo psiconoético. Este antagonismo
xistência-facticidade" e o ser dirigido um ao outro destes doís mo- corresponde. por inteiro, à capacidade do homem de se distanciar do

mcnlos. Estão os doís sempre entrelaçados um com o outro e, por is- psicofísico. Em vez de se idcntiñcar com os inslintos, o homem dis-
so. separáveis só pela força. lancia-se deles - embora possa, de tal distância, também. dizer-lhes
Mitscherlich fala da “personalidade” “quc alguém simultanea- sim. Finalmente, isto forma 0 que há de humano no homemz que o
mente tem e é“, e Plesner diz do homem que elc tem existência e. ao homem pode dislanciar-se dos instintos e não se deve I'denlfll'car com
mesmo lempo, é existência, c que o ser-no mundo representa para o cles - o que o animal de modo nenhum pode fazer; o animal não po-
homem uma relação "entre si e si (para dizer mais exatamentec entrc de. exalamenle. identiñcar-se com os seus instintos. porque ele já é,
ele e si)". Quem expressou isto da forma mais bela foi o poeta Dek- por assim dizer. idêntico a cles. O animal não “tem“ instintos, ele
mcl ao cscrever: “pairamos sobre a vida à qual cstamos colados". “é“ os seus instintos. O animal não conhece. por conseguinle, ne-
Em relação a cstas unidadc e lolalidade dialélicas que estão líga- nhum antagonismo. vive semprc someme em paralelismo psicoñsico
das à facticidade psicofísica e à existência espiritual do ser aí huma- - sempre somente do psicoñsico unitário. O homem. porém, só co-
no, reveIa-se pela última vez 0 que já vimos repetidamcntez que a se- mecu justumente a ser homem quando é capaz de se opor ao seu pró-
paração nítida entre o espiritual e o psicofísico só pode ser feita heu- prio psicoñsico.
|66 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA
O HOMEM lNCONDICIONADO 167

Em vez do paralelismo psicoñsico obrigatório, como sc observa


dor, medo. tristeza e desgosto. Tudo isto é suscetívcl de manífestar~se
no animaL encontramos. portanto, no homem, um antagonismo psi-
no psicofísico, e assim a pessoa espiritual do homem pode confrontar
conoético; em vez da unidade corpo-alma do animal encontramos,
tudo isto. Sabemos que o animal não é impelido pelos instintos, já
no homcm. a lotalidade corpo-alma-espírito. É agora claro que, se- que é idêntico a eles; impelido podc sê-Io - neste sentido - propn'a-,
gundo o ponto de vista do qual nós vemops o ser homem como único
mente. só o homem (e exclusivamentc quando sc deixa impe|ir). Tal
e totaL ora observamos mais a unidade-totalidade. ora mais a ligação
como o homem - e o homem - tem instíntos (sem ser idêntico a eles),
do espiritual e do seu vis-a'-vis - 0 psicofísico. Quer nos parecer, por-
também pode ter doresz ele as tem, mas ele não as “c"'. Sofrer signiñ-
tanto, que a orientação da análise existencial dc Binswanger acentua
ca, por conseguinte. tomar posição perante as dorcs, e ísto sígniñca
mais a unídade. enquanto a nossa maneira de ver analítico-
sempre também estar dc algum modo “acima" das dores. Que esse
existencial sublinha mais a diversidade. Binswanger vê o ser homem,
“estar acima", também. pode ter uma signiñcação mor.al, já foi dis~
o "ser-n0-mundo“ humano, como unitário - enquanto vemos, no
cutido por nós repetidamente noutro lugar. 59 A este respcito, remete-
primciro plano - como diversidade dentro desta unidade - corpo, mos para a palavra de Hõlderlim na qual se exprímc com muita bclc-
alma e espírito. .
za a qualidade moral dcste “estar-acima": “Sc piso na minha infelici-
Então essa dístância do espíritual em face do psicofísico de que
dade, me elevo".
se falou acima. essa distância que fundamenta o antagonismo psico-
Que o sofrimento humano implica uma to'mada de posição espi-
noélico nos parcce exlraordinariamente frutífera do ponto de vista
rituaL que é alguma coísa diferente da dor primitiva, do medo prími-
tcrupêutico; pelo menos pode tornar-se frutífcra. Justamente a logo-
tivo, da tristeza primitiva, do desgosto primitivo, concluí-se do fato
terapiu absleve-se sempre dc utilizar o antagonismo facultatívo emre
de que conhecemos da clínica algumas coisas como: desespero pela
exislência cspiritual e facticidade psicofísíca. A logoterapia conta
tristeza, medo do medo. desgosto por causa do desgosto ou, como rc-
com a pcssoa espirituaL com o poder do cspírito de se colocar contra
centemente Fenz assinalouz “Dor por causa da dor". Estamos aqui
0 psiçofísico. com esse "poder de oposição” do espírito; recorre a
em prescnça de uma tomada de posição secundária, de uma posição
cssc podcr, apela para esse poder.
secundária “em relação“ a qualquer estado. e, por conseguinte, tam-
O untagonismo noo-psíquico é, por conseqüência, de grandc rc-
bém de uma decisão espiritual “perante“ um fato psicofísico. Exata-
Ievánciu terapêulica. Em última análise, toda a psicotcrapia deve in-
mente assim como no homem toda a instintividade já é sempre mo-
serír-se nelc c, em especiaL a logoterapia; porque enquanto toda a
delada por uma tomada de posição espiritual - de tal modo que este
psique - conforme o paralelismo psociñsico - no ñm de comas, rcsul-
cunho espirilual é. sempre, Iigado à instintividade humana com a
la sempre, dc qualquer modo, do somátíco, qualquer tomada dc po-
priori espiritual ““ - assim a lomada de posição pcssoal é, sempre. o
sição pessoal-espiritual sempre acontece, de qualquer mod0, em fren-
quadro em que, no homem, pode geralmente haver algo como dor,
le do psicossomático (não é obrigatório que em tal “estar em frcnte
medo, etc.
de“ sc lrate de uma oposição). ” Somente, mercê desta possibilidade
Escolhamos o exemplo de um homem que é interrogado e tortu~
de se confrontar o espiritual do homem com o psicossomático, é per-
rad0. Quc ele. sob as dores que lhe são causadas pela tortura, grita e
mitido à logoterapia, como psicoterapia “a partir do espiritual”,
se encolhe, é um fenômcno que cstá completamente dc acordo com o
confrontar, por via e com os meios do espiritual (do logos), quaisquer
fenômeno da tortura - “de acordo”. para não dizer em paralelismo
estados psicossomáticos.
psicofísico ou, mesmo, em identidade psicofísica. É por assim dizer
A tais situações psicossomátícas não pcrtencem, de modo ne-
função do organismo psicofísico que ele se cncolha com as dorcs e
nhum, apenas os instintos. Além da instint1'vidade, seriam compreen~
grite - ele. o organismo. Mas será obra do espírito que este homem
didos em tais situações. pelo contrário, também fenômenos como
lorturado desañe a tortura na medida em que, apesar dela, não de-
nuncie nenhum nome mas ñque em silêncio. lsto é, o upoder de resis-
lência“ do cspírito, e elc se estcnde. exatamente, até quando o ho-
58 chu-sc Paihologie des Ger'sles. Viktor FrankL Deutickc. Vicna. I955. p. l382 “Fe-
lizmeme o homcm não precisa usar a todo o instamc essc poder de oposição. pois do
mcsmo modo c pelo mcnos na mcsma proporção cm que sc añrma contraríamcntc às 59Comp.. enlrc oulros. “...Apesar de tudo. dizer sim à vida"-. Vlcna. Deulicke. p.__25.
dlSpOSlCÕCS hcrdudas. ao ambicnle e aos instintos, cle o faz graças a esscs mcsmos fato- 60 A espiritualidadc é própria do homem. mesmo também nos planos biológico e
rcs. uma observucão que dcvo ao Dr. Gertrud Paukner". unulo'mico. Veju-sc Poerunn. Biologie und Ge¡s!. Zuriquc. l956.
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mem, martirizado, perde inteiramente a consciência. quando des- para, dcste modo, dislanciar-se deles. 63 Quarta posição, a passivida-
maia. Assím como o estremecimento c o grito do torturado são, pro~ de corretaz a educação dos nossos doentes neuróticos consiste cm quc
priamente, um estremecimento e um grito do organismo e não da aprendam, por assim dizer, a pensar c viver à margem do núcleo da
pessoa. assim também o desmaio é um desmaio do psicofísico, c não neurose ligado ao destino - como, po_r exemplo, da psicopatía anan-
do espírito, porq ue. em última análise, o poder de resistência do espí- cástica como fundamcnto constitucíonal de uma ncurose obsessiva -
rito revela-se através desse desmaio. porlanto ígnorá-lo, segundo as possibilidadcs. Só sc consegue scm
lmerroguemo-nos sobre as possibilidades concretas de utilizar, dúvida essa ignorância, em última ana'lise, quando o doenle também
terapeuticamente, aquela “deiscência" interior do homem. aquelc aprendeu, em vez de lutar sempre em vão contra o destino, a confor_-
híatus ou aquela ñssura que há cntre o psicoñsico e a pessoa. Come- mar-se com cle.
cemos pelas neuroses. Existe scmpre nelas um resíduo que a psicotc- Poderia surgir a objeção de que. a despcito de se mostrar tão
rapia em sentído restrito, isto é, oposta à logoterapía, não é capaz de exata em tudo. a logoterapia vem a ser uma simples lerapêutíca sin-
dissolver um núcleo inextinguích por fazer parte do destino. As neu- tomática ou paliativa, e não causal. Do ponto de vista puramente
roses que aparecem realmenle para além de todo o condicionalismo clínico. é verdade; no entanto. observado do ângulo metaclíníco. dá-
psicossomático não devem ser designadas como doenças neuróticas se exatamente o contrári0. Rcflítamos, simplesmente, no que já dis-
no sentido estrito Ja palavra: representam, pelo contrário, a luta do semos várias vezesz a disposicão psicojísica e. a par da disposição vilal,
indivíduo com um problema espiritual ou com um conflito moral a situacão social ronstituelm em conjunto, a pasicão nalural de um ho-
(pore'm esta luta pode muito bem evoluir, como costumamos dizer, mem, a qual, porém, não é decísiva. O que decide. por u'ltimo, é, a
“no quadro clínico" de uma ncurosc); não representam, por consc~ pessoa espiritual - a posicão pessoal em relação à posiçãó naturaL
guinle, em gcraL nada dc mórbido, mas o ápice da crise de maturida- Quando se trata, porém, de uma posição, é também sempre possível
de imerna de um homem. uma ínversão, uma mudança de posição. A logoterapia trabalha as-
Na medida em que uma neurose se baseia em um fato de algum sencialmente no sentido de obter cssa mudança. Entrelanto, ela não
modo ligado ao destino. importará - do ponto de vista logoterapêutí- se dirige às causas primeiras, mas sim às causas ñnais do sofrimento.
co - possibilitar ao doente tomar uma posição correta perante esse Não se preocupa com as causas aparentes, ísto é, com os condicio_na-
falo. Como possíveis posições, existem quatroz primeira, a passivida- lismos, as cond1'tiones, mas sim com a causa concreta. a verdadeira
de incorreta: aqui ter-se-ia de incluir a obediéncia cega perantc os im- “causa" de um sofrímenta Esta “causa" verdadeira é, todavia. - em
pulsos instintivos, comportamento que, _em casos de neurose, é no relação a todas as (internas e externas) condiliones - colocada na pas-
entamo muito mais raro do que a forma mitigada de auto-abandono soa do doente que toma posicão, e a Iogoterapia recorre e apela para
do homcm que anteriormente chamamos de fatalísmo neurótico. °' ela como que para a última instância. à qual compete a palavra deci-
Segunda. a atividade incorretaz aqui ter-se-ía de considerar não só síva. Assim, fica demonstrado, que a logoterapia represcnta, em cer-
tudo aquilo que é inútiL mas também a luta íntcnsa do doente contra lo scmido. isto é, no sentido metaclínico, absolutamente, “a" tera-
os sintomas neuróticos. especialmente a desgraçada tendência do pêutica causal - a saber aquela terapêutica que inclui no seu domínio
neurótico obsessivo de, por assim dizer, tomar de assalto as represen- de ação só a última e verdadeira “causa”.
Voltemo-nos agora para a pergunta sobre as possibilidades fun-
tações obsessivas. Já emitimos muitas vezcs nossa opinião sobrc ísso.
bem como sobrc as possibilidades terapêuticas concretas de vencer damenmis de uma psicoterapia cm geraL e em especial da logotera-
pia, nas psicoses. A esse respeito, dcve-se cogítar, cm primeiro lugar,
também esta tendência. °2 Terceira posicão, a atividade corretaz ela
pode ser conseguida por meios psicoterapêuticos de modo que se in- da deprcssão endógena. Como taL ela é somatogênica. Mas podería
também ser compreendida como enfermidade unitária de todo o psi-
dique ao docnte como ele se deve comportar perante os últimos resí-
duos. realmente ininfluenciàveis dos seus síntomasz deve objetivá-los,

63 Compare-se com Viktor E. Frankl “Grundriss der Existenzanalysc und Logothe-


rapie" ín Grundzuge der Neurosenlehre, otganizado por Viktor E. FrankL Viktor V.
6l Vejn-sc. entre 0ulros. d__e Viklor FrankL Die Psycholhlerapie ín der meiL Eine ka- Gebsauel c J. H. Schultz. vol. 2. Urban e Schawarzenberg. Mun¡'que, Berlim, Vicna.
xuixlixche Einfúhmng fur Arlze, Dciticke. Viena. l947. pp. |24 c 165. l972. pp. 725-726.
62 Lmn ril.. e ainda Ãrlzliche Seelsorge X.
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O HOM EM INCONDICIONADO I7l

cofísíco. Observa-se, contudo, que, no quadro mórbido da depres-


diável e sem possíbilidade de mudança? Podcríamos arrancá-lo do
são. também concorre alguma tomada de posição da pessoa doent'e.
scu estado, fazer que se afastasse da depressão e se opuscsse à doen-
Quasc cm lodos os casos se podc dcmonstrar que o simples psícosso-
ça?
mático ou o puro somatógeno, está, por assim dízcr, sccundariamcn-
Na vcrd_adc, as análises dc Bínswangcr aprofundaramp cnn'que-
te "neurolizado", na medida em que se enxertou, no cstado mórbido,
ccram, numa mcdida cxlraordinária, a nossa_ compreensão fcnomc-
um genc componente “psíqu¡co”, portanlo. por assim dizer, uma de-
nológíca da estrutura da imagem psicótíca do mund_o,“'do scr~no-

-_' v- ~r-
pressão reatíva. “ Aqui se mostra o que nós, anteriormente, d'esigna-
mundo psícótico. Uma coísa, porém, é querer comprcendcr uma

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mos como desespcro díante da tristeza ou como medo do medo.
doença, c outra pretender tratar um doemez para isto o doente_ deve,
Aqui se exprime também, já, uma tomada de posíção reativa. À
de algum modo, ser capaz de afastar-se intímamente da docnça, para
doença psícossomática opõe-se alguma coísa, com ela entra em com-
não dizer de sua loucura. Se consideroa príori a doenca como algu-
flito alguma coisa. Quem ou o que - é caso agora de perguntarmos -
ma coisa que domina e unitariamente fvorma todo o ser humano,' o
entra em conflito com o processo psicótíco? Quem ou o que tenta de-
ser-no-mundo do doente, e, portanto, por assim dizcr. ínñltra-se dc
fender-se da psícose? Esta entídade não pode ser, de modo algum, so-
forma difusa, então não posso nunca mais compreender e apreender o
mente psicoñsica, deve scr, pelo contrário, essencialmente. uma ou- doente “mesmo", a pessoa (espiritual) que está atrás de e acima de
lra coísa a que é próprío poder-sc opor ao psícbfísico doentc, - po- toda doença (inclusive psíquica). Tenho somente mais doença em
der-sc_opor num antagonismo que lhe é intrínseco. frente de mim, e, fora ísso, nada que possa lhe opor. nada que jogar
Trata-sc, na realidade, da pessoa espíritual do doente. A c0n- contra a força do destino de um ter~de-ser assim no mundo (manía-
frontacão dela com a docnça é que faz com que enquanlo um homem
co. esquizofrênico, etc,).
comete suicídio por causa da depressão, outro expulsa os pensamen- Poderia eu então ajudá-lo a criar aquele distanciamento quc, cm
tos de suicídio que o assaltam por causa dessa mesma doença. Não se virtude do antagonismo facultativo psi_conoétíco, permite-lhc tomar
pode lanÀçar na conta de um e do mesmo processo mórbido psícoñsi- posição, como pessoa espírituaL perante a doença psicofísica? (uma
co. idêntíco. ou paralelo, o fato de um deles ñcar absorvido na sua posição terapêutica de grande signíñcado). Essa tomada de posiçào
tristeza mórbida psicofísica, deixando-se caír, simplesmente, nessa sempre possíveL que nos interessa aqui, talvez, seja não só terapcuti-
lristeza, enquanlo o outro, como pessoa espirítuaL se mantém, por camente signiñcativa, mas também hum_anamente. Porque não é ver-
assim dizer, de fora e ao invés de agir “a partír” do psícofísico, reage dade que o homem doente, como pessoa espírituaL deva manter-se
à docnca. E. Stransky não assinalou o caso do oñcial atacado de de- simplesmente, o mais possível fora da doença psícofísica; dcve tam-
pressão endógcna que manteve sua palavra de honra dc que não co- bém, tanto quanto possíveL crescer, humanamente, nessc acontccí-
meteria suicídio? E. Menninger-Lerchental não demonstrou que mento, amadurecer nesse destíno que cmra na sua vida a partir do
“dentro de certos limites o doente consegue resistir à tentação do psicofísico. que irrompe na sua existência. Ele devc tirar da docnça
suicídio em virtude de sua crença religiosa?" algum proveito existencial como nós, anteriormentc, dissemos: cle
Se fosse realmente assim, como a análíse da cxistência levada a deve “sobrepor-se" à~sua “desgraça"_psícofísica para "estar" espiri-
cabo por Bínswangcr nos indicou tão expressivamente, isto é, que na tualmente “mais alto”.
psícosc também estaríamos cm prcsença de um unitário “ser-no- Minhas senhoras e meus senhorcsz já tíve a oportunidade uma
mundo" - ou, melhor ainda, se esta concepção unitáría domínante vez de declarar meu Credo psiquiátrico: se a pessoa espiritual não es-
fosse a única admissível - como seria então possível qualquer in- tiver preseme atras' da barricada da psícose. embora condenada à impo-
fluéncia logoterapêutica sobre o doente? Não deveríamos, pelo con- tência expressiva e instru'mental, se, portanto, não for verdade que a
trário, abandoná-10 ao seu destino, ao seu “ser-no-mundo” irreme- pessoa espirítual ainda que vulnerável a perlurbacões seja imune à des-
truicão pelo psícofísica emão não valerá a pena ser psiquiatra. Porquc
se a pessoa espiritual não for poupada de todo o mal e de todaa de-
cadência do psícofísico, se ela, pelo contrário, for afetada e afligida¡
64 Comparc-sc com Viktor E. FrankL “Psychagogischc Bctrcuung endogen Deprcs- v em nome de quem deveríamos nós então, ser médicos?_Ser psiquiatra
sion" in Handbuch der Neurosenlehre und Psychotherap¡'e, organizado por Viktor só podc valcr a pena enquanto o podemos ser, não “para” o organis-
FrankL Víktor E. V. Gebsattel eJ. H. Schullz. voL 4. Urban e Schawarzenbcrg. Muni- mo psícofísico, mas em função da pessoa espirituaL a qual, por assim
que. Berlim, l959v pp. 429-430. dizer, esperu ser libertada por nós do handicap psicofísico. Agora de-
172 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA O HOMEM INCONDICIONA DO 173

vo, porém, pronunciar ainda o meu segundo Credoz se não houver o do contcúdo. no seu sistema delirante. Não sou eu qucm “cai", mas é
antagonismo noopsíquico facultativo, se não houver, por conseguin- ele quem me “derruba" para fora do papcl de um auxiliar c cmpurra-
te, uma possibilidade de a pessoa espiritual poder se opor à psicose me para o de pretenso conspirador. Nolens volens, cstc papel me é im-
como doença psicoñsica, nunca estaremos em condições de procedcr posto ao tentar o tratamento. e só por isso fracasso.
a uma psicoterapia (ou mesmo uma logoterapia) nas psicoses; só en- E aqui estamos. portanto, cm presença de um círculo vícioso no
quanto pudermos contar com aqucle antagonismo facultativo, só en- qual o doente se enreda cada vez mais: o diagnóstico impossibilita a
tão, podemos também contar com o éxito. Em outras palavras: fun- lerapêulica - a lentaliva de desempenhar o papel de médico obriga-
damcntalmente, só se o primeiro Credo for verdadeiro, vale a pena me a representar o de “ inimígo". Em virtude dcste círculo diabóh'co.
ser psiquiatra. e só se 0 segundo Credo for verdadeiro, estou em con- a pcssoa espiritual do doente é cercada, fechada, murada. Apcsar dis-
dicões de ser psiquiatra. so, ela não deve ser incluída no acontccimcnto mórbido psícoñsico.
A pessoa espirítual situa-se, essencialmcnle, além de toda mor- Quod eral demonslrandum
bidcz e mortalidade psicoñsicas; se assim n'ão fossc, cu não descjaria Depois dessa digressão sobre a parafrenia, voltemos à deprcs-
ser psiquiatraz não tcria sentido. E a pcssoa espin'tual é, esencíalmcn- são. Como sc sabe. ela representa uma doença hereditária e rcsulta,
' tc, aquela que podc opor-se a toda morbidez psicoñsica, e se assim como taL de uma disposição especíñca psicoñsica. Somente essa dis-
não fosse, eu não poderia ser psíquíatra, por conscguintcz não tería posição é transmissíveL nada mais; não é transmissíveL portanto. a
utilidade. maneira de lidar com ela. °5 Tal maneira não é “d¡sposta" heredita-
Poder-se-ía pcrguntar, agora. por que então a psicotcrapía, in- riamente, nem é predominantemente psicofísica; baseia-se na liber-
clusive a logoterapia, é tão pouco eñcaz nas psicoses c costuma fa- dade, e, por conseguinte, na responsabilidade da pessoa espirítual à
lhar, especíalmente nos processos paranóicos, cmbora neles a integri- qual dcve ser atribuída. Na qualidadc de alguma coisa que corres-
dadc da pessoa espiritual tenha sido conservada; por que não consígo ponde à pessoa espiritual e tcm a sua origem nela, signiñca a maneira
atingi-los por meio de uma terapia dirigída ao cspin'tual, como a lo- concreta pessoal de “ lidar" com a disposição depressíva, e por isso.
goterapia? A inviabilidade da logotcrapia nos casos de parafrenia um mérito pessoaL Enquanto nunca posso ser culpado de mínha dis-
não signiñcaria um comprometimento da própria pessoa espiritual? posíção hereditária, a estrutura dessa disposição é capaz de me dar a
Não devemos esqueccr uma coisa: já explicamos que a pcssoa. oportunidade de realizar ou malograr uma obra pessoaL O mesmo se
na psicose, e', nem mais nem menosz l. “invísível"; 2. “impotente”. passa, ñnalmente, com as disposições não-mórbidas do homem:
Devemos, contudo, acrescentar çinda: a pessoa na psicose, não rara- pode um talento ser hcrdado; mas a decisão sobre se o torno útil ou o
mente. é também: 3. “cega” e 4 “ininfluenciável”. Cega ela é um desperdiço depende dc mim. Vamos, portanto. outra vez. como o
pouco na depressão - isto é, cega para alguma coisa como scntido e destino, o destino hcreditário, pouco signiñca em si: o que “o destíno
valores - e m'influenciávcl ela o é um pouco na parafrcnia - isto 6, pôs". o homem tem, primeiramente. que díspor. Ele tem que dispor
ininñucnciável por partc do médico que vigia o delírio. ainda das disposições.
E apesar disso, continua válido, e, portanto, tàmbém para a pa- É válido dizer, Lambe'm, de modo geral, para além do genético,
frenia, que não se trata de nenhuma “doença do cspírito”. Por que que o homem não é cerlamente responsável pcla psicose, mas certa-
não consigo penetrar, então, de mancira nenhuma, nesle espírito pes- mente por sua posição perantc a psicose. É, sobretudo, responsável
soal por meío da logoterapia? Por que não o alcanço? Por que não te- se agc em virtude da psicose ou de como "re-age“ à psicose.
nho nenhum acesso a elc? No caso de uma psicose tão avançada que mal se pode dwisar a
Porque existe aqui um encadeamemo trágico de circunstâncias: pessoa esp1'ritual,_torna-se praticamente impossível diferencíar tal ac~
quando tento me aproximar de maneira persuasiva, das idéias deli-
rantcs de um parafrênico, estou, por assim dizer, colocando lenha na
fogucira do scu sístema delirante. A tentaliva de influênciar produz
65 Examinando 2500 gêmcos. Kallmann eneonlrou ll mas nos quais um dos irmãos
somcnte a ininfluenciabilidadc, pois no momento em que eu. para as
havia comclido suicídio'(a média de idadc registrada foi de l7 anos). Em nenhum
corrigir, considero as idéias delirantes como mórbidas e errôneas - exemplo suicidaram-se ambos os membros do par. Com basc ncssc resultados, e no
condição da tcntativa de persuassão - no mesmo momento mc colo- matcrial fornccido pela Iitcralura cspecializada. concluiu o aulor que o suicídio de
co também na flleira dos “inimigos" do doente. No momento em que dois gêmeos não ocorre nem sequer quando cles foram cn'ados no mesmo ambienle e
trato. como tal, o doente delírante, cntro também, logo, como partc apresemam sintomas da mcsma psicose.
O HOMEM lNCONDIClONA DO 175
174 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA

Ninguém dísse inícialmentc sim, mas cada um o diz constante-


tio ou reactio. Isto, porém, scrá tanto mais possível e necessário nos
mente, o diz a cada momento da sua existência atuaL Ele drz° semprc
caos menos gravcs. Por conseguinte, teríamos com isso chcgado ao
sim à vida, a essa sua vida incompleta; “apesar de tudo" ele sempre
problema psíquiátríco da imputabilidade, um problcma que rcpre-
diz sim. apesar da sua imperfeição. “Apesar de tudo", ele diz sím.
senta somcntc o reflexo clínico do problema metaclínico do Iívre
Apesar de não ter sido interrogado e de nada ler dito, apesar de não
arbím'o. Gostaríamos de discutir o problema clínico com base num h
o
ter escolhido a vida, mas, pelo contrário. ter sido “lançado" na cxis-
caso concrctoz há anos, um psíc_opata esquizóide cometcu um atenta- I
tência. apcsar de não ter de estar de acordo com islo ou aquilo da sua
do contra um emínente acadêmíco, que veío a morrcr. O laudo do

\
disposição hereditária. e também nunca tivesse estado dc acordo
perito psiquíátrico, Prof. Dr. O. PõtzL parecc-nos tcr atingído a es-
caso o tivessem intcrrogado, apesar de tudo. continua. não obstante,
sência do problema ao assinalar que mcsmo na ocorrência de uma
a viver. De qualquer modo. clc diz sim para tudo e assim elc é tam-
agressividade muíto forte ou a ídéias delírantes íntcnsas, não se pode
bém. de qualquer modo, rcsponsável por tudoz pois essa responsabi-
falar em revogar a imputabilídadc. Não ímporta se as idéias em rcla-
lidadc também inclui sempre uma liberdadc, tem a sua líbcrdade
ção às quais é cometido um assassinato são ídéías no scntido de
ulrús dc siz u liherdude de dizer não - a hbcrdade de dizer não para a
idéias delírantes de origem mórbida e totalmente erradas, ou no sen-
vída concreta. para a vida na sua faticidade e hereditaricdade. Não
tído de “ídéias supervalorízadas” de orígem também doentía, porém
sou obrigado a continuar a minha vida - posso jogá-Ia fora.
válida em_ sí, ou mcsmo se não são de orígem patológica, mas corres-
Assim sou. em u'ltima análise, responsável por tudo - pela mi-
pondem talvez a um símples fanatísmo - tudo isso é, em últíma análi-
nha existência. rza totalidadc. bem como pclo meu ser-assim. em par-
se, do ponto de vísta moral, completamcnte írrelevante. Com basc na
ticular. Poís o homem está sempre de acordo, o seu “eu" está sempre
psícopatia, um tipo belícoso é somente belícoso, mas não tem de se
de acordo com o seu id - mesmo quando se deixa conduzir pelos im-
tornar assassíno. Não é a agressívidade que mata, é a pessoa quem
pulsos instintivos - mas também com “elcs“. os pais. os antcpassados
decíde cometer um assassínato. Um homem não se toma crimínoso nele. Só que esse acordo é habitualmente silencioso; nem por isso é
em conseqüêncía de uma degcnercscência psicosomátíca, mas de
menos reaL
uma resolução moral-espiritual, que consiste no caso em achar que sc Por u'ltimo. há t'ambém, portamo, algo parecido com uma res-
pode matar o inímígo. Todavia, no que concerne a essa resolução, é ponsabilidade heredita'ria. Ela é responsabílídade sobrc o pano dc
completamente irrelevante se o ínímígo é suposto ou real, se a suspci-
fundo de uma liberdade última, radícaL °° um “não" radical: o suicí-
ta é mórbido-delirante ou baseada na realidade e se ela sc refere a um dio. Vamos discutir isto com um exemplo, o mais absurdo possível:
inimigo pessoal ou a um adversárío político. Se isto tudo não fosse certamente não sou responsável por tcr o cabelo um tamo cscuro c
índiferente, então lodo indivíduo politicamente fanatizado e revolta- não louro; mas não screi responsável por não procurar um cabeleirei-
do po.deria proceder assim e abater o seu adversário, com o mesmo
ro para pintar o cabelo? Se eu fosse tão ingênuo a ponto de ver um
direilo moral com que o faz um indivíduo psícopático. inconvcniente no fato dc meu cabelo ser escuro. então teria de fato dc
responder por não ter desembaraçado o mundo desse mal nem pelo
Falamos antcriormente da responsabilidade do homem e disse-
suicídio nem pela pintura do cabelo. mas, pelo contrário, deixá-lo
mos que ela não abrenge, oertamente aquílo que alguém recebc here-
subsistir e tomá-lo a meu cargo.
ditar1'amente, mas, com certeza, o que ele organíza c constróí com
No mesmo sentido, devo aceítar 0 meu destino, adaptá-lo a
fundamento em sua disposíção. Interroguem-nos agora se não sería
mim, apropriar-me dcle, torna'-lo exatamente o “meu" destino. Só o
possível estender ainda mais, conceber de forma mais radical a res-
ponsabílidade do homem, e com o propósíto de respondet, em con-
formidade com a libcrdade ñnal do homem, partamos do seguínte: o
ñlho de um bébado, que traz talvez consigo uma disposição neurop-
sicopática do tipo epileptóide, tem de suportar, manífestamente, as 66 Em prescnça dcssa libcrdadc radicaL é fácil compreender com que razão a teologia

r r~
conseqüências dos "pccados do pai”. Todavía, dcve ele também aceí- fala de um myslerium iniquilaIís. Visto quc, cm última análisc. nossas dccisõcs são |i-
tar a responsabiüdade? Ninguém escolhe os scus pais; ninguém com- vrcs. scria impossível delcrminá-las complelamente ou esclarecê-las pelo pandctcrmi-

amr
bina os próprios cromossomas. Ninguém foi, portanto, ínterrogado nismo scm que permaneocsse um resíduo de mislén'o. E sc não howesse misléño d-
gum. cnlão não scríamos nem livres nem responsávcís c não havcria igualmeme culpa.
“se", ou menos “como", quería vir ao mundo, nínguém foi ínterr0- pois não enconlraria juslifícativa.
gado e nínguém respondeu, disse sim ou não.
176 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA 0 HOMEM lNCONDlClONADO l77

faço na medida em que o plasmo. Todavia cu não poderia fazê-lo de ver no homem o que, de uma maneira ou de outra. é condicíonado,
modo algum se o rejeitasse. se o negasse, se dcstruísse mínha vida. não distinguiremos senão uma espécie de homúnculo, não percebcrc-
Assim, pois. toda existência humana. como tal, sempre cstá co- mos o homo humanus, o homem autêntico. Do biologismo. do soc'io-
Iocada no domínio da responsabilidade (“sempre” signiñca não só logismo e do psicologismo não saem caminhos na díreção do huma-
desde scmpre. mas também “para” sempre). A responsabilidade ja- nismo, apenas do homunculisma
mais cessa; a consciência pode-sc interromper por algum tempo (no Vimos, por outro lado, que o homem é mais do que o simplcs
sono profundo) ou dcñnitivamente (na mortc). A responsabilidade, corpo, e alma; vimos que clc rcpresen1a, no ñm das contas. o espiri-
porém, terminaria só porque a consciência desapareceu ou porque tuaL O homem é mais do que o organismo psícofísicoz ê pcssoa cspi-
cla deixou a consciência? Onde exíste culpa só pode existir eternida- rituaL Nessa qualidade, é livre e responsáveL livre “do" psícofísico e
de. Seria concebível que o portador da responsabilidade. ou seja, o “para" a rcalização de valores e o preenchimento do sentido dc sua
próprio homem, não sobrevivesse dc alguma maneira, embora a existência. Ê um ser que luta para realizar valores e preencher o senti-
consciência se estingüisse? do. °" Não identiñcamos no homem apenas a luta pela vida. mas lam-
Consideramos o homem radicalmente responsáveL Isto, contu- bém a luta pelo sentido da vida. E auxíliá-Io nessa luta é talvez a mis-
d0, no contexto de um fundo de liberdade u'ltima. Isto no segundo são mais notável da ação psíquiátrica. Não só é valida a velha fórmu-
plano de uma visão do homem na qual lhe atribuímos plena liberda- Ia “luta pela existência e solidariedade", mas a nova: “luta pelo scnti-
de. O homem se nos revelou livre porquanto ser espirituaL e quando do da vída e auxílío mu'tuo na descoberla do sentido".
não é efetivameme livre. o é pelo menos facultativamcntc, ou pode Não añrmamos que o homem seja dominado pela busca do pra-
vir a sê-lo. Nesse sentido, e só nesse. é o homem um “homem incon- zer ou a ambição de mando; pelo contrário, mamemos a opinião de
dicionado": ele é condicionalmente incondicionado; não tem de scr o que ele é animado no mais profundo de sí, para dizer não “espiritua-
que é. mas pode sê-lo. ” lizado" pela “von1ade" de sentido. A vontade de podcr vê e procura
Essa imagem do homem, livre porque espirituaL foi frequ"ente- exclusivamente o útiL ou seja, “um valor para mim”; a vontade de
mente adulterada pela investígação clíníca. Tudo nos leva a colabo- sentido, no entanto, vê, outrossím, a dignidade c dela cuída, c isto
rar num trabalho de revisão, de correção da imagem do homem. Sc a signiñca “um valor em si". Assím, a vonlade de poder é uma vomade
investigação clínica carrcga a culpa de ter fcíto uma caricatura do ho- de sentido que degenerou.
mem. hoje ela está justamentc encarrcgada de recolocar as coisas no Minhas senhoras e meus senhores: estou plenamente consciente
seu devido lugar. dc que não aceitarão todos os traços que esbocci ncsse rctrato do ho-
Durante muito tempo. a psiquiatria, a psicoterapia têm apresen- mem. Não renciono. de qualquerforma, oferecer-lhes soluçõesjâ pron-
tado o homem como um ser reñexo ou um feixe de instintos. como tas› Pelo contrário, o que principalmcnte me imeressou foi mostrar-
condicionado, acionado ou determinado pelo complexo de Édipo ou lhes os problemas e, com eles, as possibilidades e impossibilidades de
oulros, pelo sentimento de 1'nferíoridade, ou quejandos, têm~no apre- cada solução - ou, para dizer melhor, a possibilidade, a necessidade
sentado como uma marionete que estrebucha movida por ños visí- dc uma decisão. Não pensem que eu seja tão simplório a ponto de
vcis ou escondidos, em todo o caso ridículos. prctcnder dar uma resposta às questões etemas da humanidade ou

me.
Sempre o homem foi mais do que o nada; sempre, porém, foí um elaborar novos teoremas. Minha intenção era bem diferente: queria
“nada mais que" algo que se pode explícar pela biología, a socíologia estimulá-los a questionar em termos metaclínicos, a pensar de manei-
ou a psicología. E sempre o biologismo, o socíologísmo e o psícolo- ra metaclínica.
gismo pecaram contra o espiritual no homem. Não digam que é pouco, pois é duvidoso que outra coisa. ou
Todas essas imagens do homem ameaçam ele próprio: colocam- mais do que isso. lhcs pudesse ser oferecido. No seu extraordinário li-
no em perigo, porque com base em tais concepç'oe's, ele nunca ñca em
condiçõcs de alcançar o humanismo. Enquanto só formos capazes de

68 Comp. com Joseph MeinerlL Moderne Seinsprobleme in ihrer Bede_u1ungfu"r_ die P.r.r-
rnolagie Ein Beilmg zur Grundlegung der Tiefenpsychologia SchneldeL Heldcrberg.
67 É talvcz a isso que os tcólogos chamam de graça. ou scja, a liberdadc de poder fazer |948. p. 99: “diñcilmemc alguém podcrá duvidar que 'signiñcau'vidade' . alribuição
uso de sua Iiberdade. dc semido e rcalizacão do sentido consliluam a essência do 'eu' "

_'mnf
vñvwirlbn .. ~q

|78 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSÍCOTERAPIA


0 HOM EM INCONDICIONADO |79

vro Melaphysische Probleme der Medizin, °° escreveu Paul Matussekz


nifestavam A fome fazia vir à tona a qualidade de cada um. A fomc
“O que caracteriza os problemas mctafísicos é que, de um lado, são
insolúveis, de outro, ir'recusáveis”. Portanto, não lhes deve pareccr era semprc a mesma, em ambos os casos, os homcns é que cram dífe-

~.._ 4
rentes. Como era mesmo o título daquelc best~seller Calories Do Not

4
muito restríto o que eu procurei sítuar no seu campo de observação.
Não esq ueçam o que certa feita disse Ernst Freiherr von Feuchtersle- Count (Calorias Não Engordam).
benz “O verdadeiro pensador ñca satisfeito de tcr localizado e apon- Em última ana'|ise, o comportamento dos homens não é dilado
tado as fronteiras do pensamento... e é uma sábía prcvísão a de ter pelas condições, mas pela posicão que toma diante elas. Qucr clc sai-
mostrado essas fronteiras, porque o homem, onde termína seu pensa- ba ou nã0, cabc-lhe a decísão se vai ou não se deixar subj ugar cm ou-
mento. deve começar a sc ocupar com a questão de “para que" ele cs- tras palavras, sc aceita ou não aceíta ser completamente condicíona-
tá propriamente ali." 7° do.
Minhas senhoras e meus senhores: tentei, como clínico, dar-lhes Na verdade. o detcrminismo não nega a liberdade humana.
o lestemunho de uma imagem verdadeira do homem. Dar-lhes teste- Qucm o faz é o “pan-determinismo". A alternativa não é “indetcrmi-
munho do homem não só como um ser condícionado, como um ser nismo ou determinismo" mas “dctcrminismo ou pandeterminismo”.
Puru falar muis uma vez em Frcud. observe-se que cle só aderiu ao
incondicionado - do homem como um ser maís do que físico e, em
todo o caso, como também ainda psíquico, do homem como um ser pandeterminismo na teoria. Na prática não era cego para a liberda-
cspirituaL livre e responsáveL ' de, tanto assim que desejou alterá-la. Ao estabelecer a ñnalidadc da
psicanálise, esclareceu que esta pretende dar “ao eu do doente a liber-
É sobre isto que nós, clínícos, testemunhamos.
Assim sejam os nossos doentes ajudados. dade de escolher isso ou aquilo” (sublinhado no original). 72
A liberdade do homem contém a possibilidade dc uma tomada

I Nota para a 2ê edição


de posição em relacão a si mesmo, de um distanciamento relacionado
a si mesmo. llustrarei o que estou dizcndo com o relato de um episó-
dio ocorrido na l Guerra MundiaL Um médico milítarjudeu esta-
Çí Tirada' de Der Wille zum Sinn de Viktor E. Frankl - conf_erêncías se-
Ietas sobre Iogoterapia - Huber, Bcrna/Stuttgart/Viena, 1972, pp.
va sentado. ao lado de um amigo, coroncL de linhagem aristocrá-
tica. num abrigo subterrâneo durantc um bombardcio. Comenta o
156-ló4. coroncl: “Agora você cstá coxm medo. n¡a'oe'"? Percebc a superioridadc
da raça ariana sobrcr a judaica?" O mcd'ico rctrucaz “Admito que estou
Sim. u Iiberdude é um dos fenômenos humanos! Ela é, no entanto. com medo, mas por que falar da superioridade de uma raça com rela-
também um fenômeno demasiado humano. A liberdade do homem é ção a outra? Se estivesse com tanto medo quanto eu. meu caro com-
finita. O homem não é lívre do condicionamento, é apenas livre para nel. com certeza já tcria saído correndo”. 0 que importa, pois. não é
tomar uma posição em rclação a esse condicionamento, que não o medo ou qualquer outro senlimento que tenhamos, é a nossa atitu-
atua, aliás, de maneira inequívoca, pois, em última análise, depende de em face deles.v Essa atitude é sempre baseada na libcrdade. que,
do homem decidir se vai ou não se submeter. Há, por conseguinte, por sua vez não dcixa de existir mesmo nos casos patológicos. Nós
uma margem de manobra dentro da qual lhe é facultado elevar-se psiquiatras eslamos sempre deparando com pacientes cuja atitude
por sobre si mesm0. na dimensão humana. Embora Frcud tenha diante do que possa ser neles patológico e'. por sua vez, não menos
dito “a experíência demonstra que díante da fome as diferenças indí- doentia.
viduais se apagam. Com o aumento da imperiosa necessidade de ali- Conheço paranóicos que impulsionados por suas idéias de delí-
melntação as diferenças desaparecem e em seu lugar manifestam-sc rio pcrsecutório mataram os supostos perseguidores e inimigos. E co-
uniformes exigências do instinto insatisfeito” na rcalidade é 0 contrá- nheço também paranóicos que se limitavam a fazer carelas. É que se
rio que ocorre¡ Nos campos de concentração os homens se diferen~ podc agir a partir dc uma psicose. assim como reagir a partir dela e se
uuvum Os sulafrários deixavam cair as máscaras. E os santos se ma-
apoiando no elemento humano. Há pacientes que por causa de uma

69 Springcn Bcr|im. Heidelberg. l948. 7l Ohras (”omplelas. voL V. p. 209.


70 Lehrburh der arzllichen Seelenkunde, Viena. l845. pg. ll-12.› 72 Pavrchoanalvxe und Iibida Iheorie. 0bm.c ('omplelas. volumc Xlll. l923. p. 284_0.
180 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA 0 HOM EM lNCONDlClONA DO |8|

dcprcssão sc suicidam, enquanto outros, por amor a uma coisa ou constituem o logos. em cuja direção a psique se Iança. transc'cndcn-
umu pcsso.1'. Iogram superar os ímpetos para a autodestruicão. do-se a si mesma. Se a psicologia quiser fazer jus à sua dcnominação.
Estou, não obstante, convencido dc que uma psicosc como a pa- tem dc reconhecer ambas as mctades que a constitucm, logox e psy-
ranóia ou a depressão são pelo menos basícamente somatogênicas e ('he.
podem scr explicadas pela bioquímica. Nem por isso precísamos
adotar uma orientação fatalísta a respeit0. Em determinados casos
nem scqucr se justiñcaría atribuir o substrato bioquímico à hercdita-
riedade.
Menos ainda do que o fator hercditário, podc a infância scr
upontadu como uma influência delerminante unívoca no curso da
vida. Uma leitora de Alabama mc escreveu oerta vez: “Tenho sofrído
mais com a idéia de que devo tcr complexos do que em virtude de um
algum complexo verdadeiro. Tudo de horrível que cxperimentei
quando criança por nada no mundo o devolven'a, pois sei que dc
tudo aquilo saiu muito de positivo”.
Que aconteceria se jogássemos o determínismo c o pan-
detcrminismo um comra o outro. Para isso, teríamos de começar
perguntandoz
A que se deve o pandetermínismo? A sua origcm podc scr busca-
da numa noção imperfeita do que dístingue causa de razão (motívo).
Quando alguém corta cebola ñca com os olhos cheios d'água. Suas
lágrimas têm uma causa. Mas este alguém não tem motivo para cho-
rar. Quando um alpinista se aproxima do cumc de uma montanha de

FFR
4 mil metros, podem sobrevír a ansiedade ou um sentimento de
opressão. Esses sentimentos tém ou uma causa ou um motívo. A cau-
sa pode ser a falta de oxigênío. Se o alpinista no entanto, sabe que
não está suñcíentemente equipado ou treinado, então sua ansiedade
não se deve a uma causa, mas a um motivo.
Na medida em que ser-homem signíñca “ser-no-mundo”. o
mundo contém uma enormídadc de valores e de sentido. O scntído e
os valores são “motivos" que acionam o homem. Quando íntcrpreta-
mos o homem como um sístema fechado, banimos do campo visual
juslamentc o mundo aberto do sentido c dos valores que constituem
possíveis "motivos de ação” para o homem. Afastados os motivos e
as razões, restam as causas e os efeitos. Estes, conforme o caso, são
representados como reações a estímulos ou reñexos condicíonados,
cnquanto as causas, conformc o caso, são rcpresentadas como pre-
cessos condicionanlu instintos ou “mecanismos disparadores auto-
máticos“. Os instintos são algo que me empúrra, ao passo que o scn-
tido e os valores algo que me puxa, me atraí.
Tão logo aderimos à um modelo antropológico fechado, pcrde-
mos de vista. quanto à motivação. tudo o que de fora chama o ho-
mem, e nos concentramos naquilo que de dentro o impulsiona, a for-
ça motriz do instinto e os estímulos instintivos. O sentido e os valores
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Prefácio à primeira edição

Este volume resulta dos cursos ministrados pelo autor na Univcrsi-


dade de Vicna no semcstre de inverno l949/50 e no verão dc l950, in-
titulados respectivamentc “0ntologia do Homem quc Sofre” e “Sis-
tcmas e Problemas da Psicotcrapia" e que deram prosseguímento aos
meus “Cursos Metaclínicos" rcalizados no mesmo local com o nome
de “0 Problema do Corpo e Alma c o Problema da Liberdadc da
Vontadc à luz da lnvcstigação Clínica". quc foram publicados em
forma dc livro com o título de 0 Homem lncondicionado.
I88 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSlCOTERAPlA "HOMO PATIENS" l89

gum. A existência. des_sa forma, é privada dc scntido. Ao mesmo Para o sociologismo, enñm, o homcm também se torna um
tempo sc torna claro porque estas três modalidades de niilismo - fi- mero jogucte. é verdadc que não da energia vital, mas das forças so-
siologismo. psicologismo c socíologismo - não conscgucm captar o ciais.
sentidoz em sua conccpção do mundo, cada uma sc rcstrínge a uma Em cada um dos três aspectos, a cxistência humana carccc for-
camada da existência - física, psíquica ou social - deíxando dc lado çosamcnte de sentido. O homem parcce como uma marioncte movi-
precisamcnte o típo de existêncía em que pode aparecer algo como mentada ora por ños íntcrnos, ora extcrnos. Em lugar de uma autên-
intencionalidade. ou seja, a cxistêncía espin'tual. Somente qua'ndo ela tica pintura do homem, tcmos uma carícatura; em lugar do homem
é lcvada em conta na sua aspiração essencial ao sentido e ao valor. é autentico. um homúnculo. É cvidente que uma tcoria tão inñel à rca-
que se estabelecem condíçoe's para que vcnha a sc manifcstar o senti- lidade há dc fracassar também na pra'u'ca. Jamais o niilismo poderá
do da realídade e se tornar evidentc o sentído da vida. levar ao humanismo, sempre dcscmbocará numa espécie de “homun-
culismo".
As três modalidades mencíonadas dc niilísmo não devcm ser
Nos °°Cursos Metaclínicos". publicados com o título de 0 Ho-.
confundidas com a ñsiologia a psícologia e a socíologia. Ao contrá-
mem lncondicionado, 3 já nos esforçamos cm fazer primeiramente
r¡o, o “ismo” começa justamentc quando o ângulo de visão de uma
uma crítica do ñsiologismo; gostaríamos agora de propor uma crítica
camada se amplia até chcgar a constituir uma visão do mundo, ou se-
do psicologismo e do sociologismo. Somcntc dcpois de supcrados cs-
ja, quando tem início a generalização. * A psicologia, a ñsiología e a
ses dois niilismos, ñcará desimpedido o acesso a uma intcrpretação
sociologia erram ao gcneralizar. Rcduzindo tudo acabam tomando
do sentido do sofrimento.
tudo relativo, com uma exceçãoz absolutizam a si mesmas.
Examinando particularmente o ñsíologismo. vemos que só ad-
mite mecanismos e quimismos. Mcsmo sc csta concepção mccânica é l. Psicologismo

›.
abandonada em favor dc um vitalismo, o ser vívo e, portanto, o ser
humano, contínua a ser considerado um aparelho ou autômato do-

<-.›-
1. Psicologismo'e Psicoterapia
minado por rcflexos condicionados ou não. A antropologia se degc-
nera, então, num apêndice da biología, e o conhecimento cspccíñco 0 perigo do psicologismo contínua sendo, ontem como hoje, agudo;
de verdadeiros homens sc convcrte no estudo de detcrminados mamí- superá-lo pela crítica é, portanto, uma necessidade sempre atual. Em
fcros aos quais a capacídade de caminhar cretos subíu â cabeça. nenhum outro campo isto se manífesta tão claramente quanto na psi-
O psicologismo também conccbe o homem como um aparelho c coterapia. Vamos demonstrá-lo com o auxílio de um caso concreto
sc referc a “mecanismos psíquicos". Atcntar porém cxclusivamentc tirado dc nossa experiência num serviço dc ncurologia.
ao automatismo do aparclho psíquico, signiñca deíxar de perceber a Veio consultar~nos um jovem aprendiz de alfaiate dízendo que
autonomia da existência cspirituaL A vída psíquica dará a impressão o fazia “por causa da eternidade." lnterrogado, explica no's seguintes

\-w.-.
dc ser um jogo de forças impulsoras de funcíonamento automático, e 1ermos o que tem em mente “não se pode conformar com que tudo
o homcm, um fcixe de impulsos. No contcxto do psícologismo, faz-se seja tão transitório, sem um pisco de etern1'dade." Fíca particular-
menção a “¡mpulsos parciais" e “componentes dc ímpulsos” como mcnte intrig_ado com o fato de o homem ser mortal e se recorda dc
se. com tais componentcs. fossc possível obtcr uma resultante, a que já na infância se entristecia com a idéia de que ele também mor-
cxemplo do que ocorre com o paralelogramo de forças. reria um dia.
O que esses pensamentos denotam é nada menos que a transfb
rência do campo lógico para o existenciaL A lógica límita-sc a ensi-

,,
nar: Sócrates é um homem; todos os homens são mortais; logo. Só-

.._
crates é mortaL Diante disto, o abandono da lógica pura e a passa-

n
gcm para a esfcra existencial são ilustrados por sua aplicação à mi-
2 0 pcrigo não é que o pesquisador se especialim c sím o que o especialisla generalize nha própria exístência concreta e pessoaL em sua síngulañdade e uni-
Todos nós conhecemos os chamados Ierribles Jimplfhcareurx aos quais fazem compa-
nhia os Ierribles génimlisateurs como costumo chamá-los. Os primciros simpliñ-

. mwasaña
cam tudo. e tudo medem pela mesma escala; os scgundos atribuem um alcanoe dema-
siado cx_lcnso ao resultado de suas expen°éncias. 3 Dcutickc. Vicna, l949.
I90 FUNDAM ENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA
WHOMO PATIENS" l9l

cidade. Não somente existe a idéia da monc, em geraL há também o


a idéia de que entrc as tarefas do médico ñgura a dc tratar preventi-
fato de que quem pensa na morte deverá um dia por sua vez morrer.
vamentc dos doentes.
A ídéía da mortc é pensada reflexivamente com relação ao próprío
Será dcccrto objetado que estamos diantc de uma terapia muito
ego. O sujeito não é excluído mas, ao contrário, íncluído na validade
peculiar c de um estranho procedimento por partc de um médico;
de um estado de coisas objetivo.
islo é. avivar propositadamente a dolorosa inquietação de um homem
O que foí dito é suñciente no que rcspeita à transição efetuada
que já Iograra espontaneamcntc superá-la.
pelo pensamento do 'nosso paciente. lndagamos por que ele não tí-

-
Quem fala assim, esquecc, no entanto, que essa inquietação - a
nha procurado um sacerdote, sem dúvida mais competente em assun-
inquiela cordis de que falava Santo Agostinho - não constítui pro~
tos como “eternidade”. O paciente contesta que há anos deíxou de
priamente uma doença, nem mcsmo psíquica, mas, como já indica-
ser relígíoso. Em contrapartída, informa que havía conversado com
mos, uma diñculdade espiritual quc. em si mesma, não é patogêníca.
seu paí sobre o assunto e ele conñrmara que ludo é transitórío c que
e sim algo de humano, e até se poderia dizer, o'que existe de mais hu-
a alma não sobrevívc à morte.
mano.
Perguntamos qual a proñssão do paí e soubemos que é conta-
dor. Deixamos de lado a questão dc determinar sc um contador é a Sem du'vida, até hoje a psicologia médica não soube o que fazer
pcssoa ideal para dar esclarecímentos sobre o sentído e o valor da com a descoberta de que há diñculdades que são dc ordem cspirituaL
existência. Em presença de tal inquietação dolorosa, mantinha-se perplexa.
Pegamos um receítuário e ímcdíatamente o paciente expressou Como tcria podido, com efeito, classiñcar essa condição senão na ca-
seu desagrado exclamando: “Por favor, nada de remédios!” Não tegoria dos sofrimcntos psiquicos, das doenças mentais? lsto sc deve
_, _ _. -›-f

havíamos, contudo, pensado em tal coísa e, porlanto, sem nos deí- . unicamente ao fato de que até o presente a psicologia médica só foi
xarmos deter pelas suas palavras, escrevemos no papel o título de um capaz de distinguir entrc psicoses e neuroses. com rcsultado parado-
_
4

folheto, redigido de maneira compreensíveL que trata do sentido da xaL para não dizer cquívoco, de que ex defmitione as psicoses sc orí-
vida e examina se o caráter transitório inerente á vídá a priva de sem- ginam no plano corporaL quer dizer, são enfermidadcs somatogêni-
tido. ' Recomendamos ao paciente que tornasse a nos procurar após cas (em vista do que, Haeberlin añrmou com razão que deveriam
ter lido o referido folheto. chamar-sc “somatoses", e Henry Ey 5 se referiu a “somatoses com
Poucos días mais tarde, ele rctornou ao ambulatório e extcrnou sintomatología psíquica"), enquamo as neuroses, ao contrário do
sua insatísfação com a publicação, mas ao mesmo tempo declarou que seu nome levaria a crer, não constituem distúrbios do sistema
sentir~sc melhor, pois nesse meio tempo tivera muíto trabalho e, as- nervoso, e sim estados mórbidos.provocados por reñnados motivos
sim. menos tempo para dedicar às suas císmas. › psíquicos. a saber, enfermidades psicogênicas. É certo que as psico_-
Não cedcmos, todavia. Não podíamos permítir de modo algum ses, consideradas do ponto de vista do tratamento e não da orígem, n1

que a problemática daquele homem, uma vez agítada, passasse des- costumam requerer uma somatoterapia, ao passo que as neuroses
percebída. Muito pelo contra'rio, queríamos discutir as objeçoe's quc precisam de uma psicoterapia.
o paciente fazia á brochura otímísta. Queríamos guiá-lo por entre os No entanto, se bem pesado, as psicoses não se deixam catalogar
seus recifes espirituais vindos à tona, pois elc sofria não de uma ver- como enfcrmidadcs psíquicas. menos ainda podem ser qualiñcadas
dadcira enfermídade mentaL mas de diñculdades de ordem espiri- de enfermídades espirituais. Pois precisamente a exislência de “doen-
tuaL Para ajudá~lo, porém, era preciso levá-lo a se adentrar em sua ças do espírito" é algo de inconcebíveL algo que se deve rejeitar. Por-
crise existencíaL que, sempre que entra em jogo o fator cspirituc.l, eo ipsis não se trata
Poderia acontecer muito facilmente que um dia estejovem tives- de algo dc patogênico. Adoecer é próprio do organismo psicoñsico,
se menos trabalho ou ñcasse desempregado, e então se sentisse de- jamais da pessoa espirituaL Quando está em causa a pessoa espin'-
samparado sc não contasse com ajuda espírituaL Temos, em nossa luaL não são mais aplicáveis as categorias nosológicas, substituídas
condição de médico, de evitar uma tal situação - desde que aceitemos pelas categorias noológicas. 0 par de opostos, no caso da noologia,
não é “enfermo-sadio”, c sim “falso-verdadeiro.“

4 Compare-se com Kamz "A Fílosoña deve funcionar como medicamento."


5 Éludex Psythialriques, Pan's, l948.
"HOM0 PATIENS" 193
l92 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA

O perigo de tais equívocos categoriais cxistc sempre que se igno- Destas considerações sobre o diagnóstíco resultam algumas de
ra a independêncía do fator espiritual com relação ao psíquico. Esta valor terapêutico. Já indicamos que não cstávamos dispostos a ccder
incompreensão do cspirituaL no que ele tem de peculiar, é caracterís~ ao nosso pacicnte. De fato, não o deixamos em paz, a paz ilusória da
tica do psicologismo. Dentro da psicologia médica o psicologismo é ligeireza metañsica. Não podcríamos parar de qucstioná-lo cnquanto
rcforçado todas as vezcs em que se fala de soma e psique. E o perigo elc não tivesse encontrado o scntido de sua cxistência c. com isso. a si
psicologista cresce mais ainda quando se introduz a idéia da unidade mcsmo, considerando que o lema dc todo psicoterapeuta é “Não o
e lolaiidade psicossomática do homem. Aí. a csse perigo, se junta ou- abandono até que você tcnha chegado a ser você mesmo!”
tro. o do biologismo. Naturalmcntc, assim vai pelos arcs o tratamento tradicional da
Na verdade. ainda que o psncossomáuco constitua realmente doença. Não se trata mais de liberar o homem de sua doença, e sim
uma unida_de, nem por isso representa a totalidade do homem. Para de guiá-lo até a sua verdade.
fonnar a totalidade, é imprescindível incluir a parte espin'tual; o espi- Até a “sua" verdade - dissemos - pois ímporta menos ao tcra-
rituaL a pcssoa espirituaL é o fator que cria a unidade no indivíduo. peuta afcrir o grau de verdade de um conhecimcnto. do que dctcrmi-
Não basta mencionar o corporal e o mentalz tertium dalun nar a sinceridade das dedaraçõcs do pacicme. Na qualidade de médi-
Para o psicologísmo, porém. não há um teroeiro fator, não existe co. deve, nesse sentido permaneccr neutro. Tem a obrígação de ser
o espirítuaL pclo menos não como modo de ser indcpendente. Ou- tolerante, o que não só é nccessário como possíveL em rclação à vcr-
trossim, o terapeuta impregnado dc psicologismo ignorará o espiri- dade do paciente. Esta, mais cedo ou mais tardc, mostrar-se-á intolc-
tual. O caso do nosso pacíente ilustra as sérias conseqüências a que rante, inexorách até que 0 paciente a reconheça como sua c diante
conduz obtusidade. Acontece que a “inquielação“ dclc corresponde da qual sinta obrigações
absolutamente a uma "necessidade mclafísica", mas esta, no prisma Não compete ao médico impor ao paciente a sua própria vcrda-
do psicologismo, é considerada como sintoma de uma neurose. e o de, procedimento inadmissívcl segundo a ética proñssional c desa-
médico inñuenciado por essa tendência, procurará tratá-lo por méto- conselhável do ponto 'de vista te'cnico. A verdade para a qual o pa-
dos psicoterapêuticos. Desnecessário dizer a que levará um tal proce- ciente há de ser levado se faz reconhecer automaticamente desdc que
dimcntoz a uma “repressão” da “necessidade metafísica" ou, em ou- seja a verdade dele. 7
tros lermos, a uma educação voltada para o que Scheler chamou de Por amor a esta verdade, devemos despertar o doente de sua li-
“ligeireza metafísica". Acertadamente refcríu-se Caruso, em circuns- geireza metafísica, mesmo com risco de que haja, pelo menos transi-
tâncias ana'logas, a um “aborto espir1'tual". toriamcnte. um aumenlo de tensão. Tal sofrimento tem de ser supor-
Devemos opor-nos a isto, o que só será possível se cstivermos tado e conscientemente assumido. Há muito tempo abandonamos a
compenetrados, de antemão, de que por trás de uma doença aparen- posição da psicotcrapia clássica; já não achamos, portanto, que a
temente mentaL o que existc é uma díñculdade de ordem espirituaL missão da terapia seja unicamente a dc tornar a pcssoa apta ao traba-
Em outras palavras: pode ser que a crise de maturidade de um indiví- lho e ao prazer. É preciso capacitá-la a suportar o sofrimento.
duo se dcsenrolc no quadro clínico de uma ncurosc; ° não surpreende Evidentementc nos estamos referindo a um sofrimemo fatal-
que uma pessoa que sofra a pressão de problemas espirituais c a ten- mente necessário, ligado à crise exístencial da matun'dade. Um trata-
são provocada pelo sentimenlo de falta de sentido se comporte dc mento que o encobrisse. estabelecendo uma repressão aínda mais se-
maneira semelhanle a um neurótico. no sentido estrito do tcrmo. Por vera da necessidade metafísica, podería ser, é claro, menos pcnoso.
que admirar-se que alguém às vollas com uma diñculdadc espirítuaL Mas a vida de uma pessoa submetida a essc tratamento seria menos
e não um distúrbio memaL tenha insônia, sudorese. tremores, assim rica de sentido.
como o neurólico7 Apcsar da etiologia diferente de sofrímento de
ambos. a sintomatologia pode ser idêntica; não devemos, contudo,
permitir que a igualdade da sintomatologia nos induza a erro no 7 “Sua" vcrdade. no emanto. jamais é “uma" verdade, mas sempre “a vetdade” - ma-
diagnóstico difercnciaL na distinção entre o espíritual e o humano, luralmente encarada scgundo a pcrspectiva do indivíduo. Por oulro lndo. mínha pcrn-
de um lado. o psíquico e o cnfermo, de outro.
l ã

pccliva, se Ihe fossc imposta. apenas deformaría a verdade. Assim, o un'íco absolulo que
a verdade do homem permire alcancar resíde na unicidade absoluta da perspccllva em
1

que a verdade se revela a cada indivíduo. Dessa forma. o pcrspectivismo nâo dmmboca
forcosamcnte no relalivismo.
6 Para cilar Georg Trakk “Como parece doeme tudo que evolui!“.
"HOMO PATIENS" l95
194 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGÍCOS DA PSICOTERAPlA

ritual; jamais conseguirá distinguír nela algo de simplcsmcntc huma-


A ausência de dor à rout prix ' não pode ñgurar como norma da
no, parece-lhe, pelo contrário, estar diantc de uma docnça mcntaL
medicina. 0 princípio de prazer. no sentido da psicanálise, é um
Não leva a sério o homem no plano cspirituaL prefcrindo qualiñcá-lo
princípio psicológíco, e não terapêutico; e se é insustentável no cam-
de mórbido. Sua luta em tomo do conteúdo espirítuaL seu combate
po psícológico, “ deve ser rclegado. com mais razão, da categoria de
em torno de substância do scmído da vida nunca são para a psícote-
máxima terapêutica. Dc modo algum, cabe ao médico procurar a cu-
rapia psicologista o que realmente são. ou seja, o mais humano que
foria a qualquer preço, o que equivalería a uma eutanásia parciaL
exislc e o que é capaz de caracterízar o homem como tal; para cla,
Cerlamente a eliminaéão da dor está entre os deveres do médico.
Mas não temos o direito de fazê-lo se isto ímplica o paciente renun- pelo con'trário, trata-se scmpre de algo dcmasiado humano, produto
do complexo de Édipo. do sentimento de inferioridade ou dc outra
ciar a si mesmo. Afastar por príncípío qualquer desprazer, combater
íncondicionalmente as dores, inclusive os aborrecímentos e males coisa do género, conforme o caso.
Scja como for. a psicolerapia psicologista haverá de fracassar
por trás dos quais se esconde um sofrimento cxistencial signiñcativq
lcva ao abandono de si mesmo. Poderia, então, acontecer que ao per- sempre diame da problcmática espirituaL que só é abordável por
der a sua dor, o homem cstivcsse ao mesmo tempo se perdendo. uma terapia na'o-psicologista - uma terapia acima dc conce'¡'tos como
complexo de Édípo ou sentímento dc inferioridade; que recusará
Em contraposicão ao egafamaL o si mesmo (das Selbst) éfaculta~
conSiderar uma diñculdade de ordem espiritual como algo de enfer-
u'vo. Representa a quimessência das possibilidades do ego. Essas possí-
miço, pois não extrairá dessa diñculdade um complexo nem a rcduzi-
bilidades se referem à realização do sentido e à concretização dos va-
rá a e|e. Igualmente se negará a alimemar um paciente imerso numa
lores. e nessa qualidade são possibílídades que se apresentam no con-
problemática espiritual com rcceitas - dizemos litcralmentc “alimcn-
fronto do homem com as necessídades ina'dia'veis. Dexpojar alguém .
tá-lo”, enchendo-o de medicamentos. Quão admirávcl se revelou o
dessas possíbilidades sigmfl'ca privâ-Io do “si mesmo", que é o espaço
“instinto" do nosso citado paciente ao rejeitar qualquer espécic de
em que resplra o ego.
remédio! No fundo, ele sabia que só uma psicologia ccntrada no fa~
Contrariameme a uma teoria críminológica dc caráter naturalis- tor e.spiritual poderia ajuda'-lo.
la, Scheler opínou que o delinqüente tem díreito a expíar a sua culpa. Devemos, entretanto, analisar mais de perto a psicoterapia psí-
E Rilke proclamou o direito do homem de morrer “sua própría mor- cologista, que não se orienta para o espirituaL preferindo ignorá-lo.
te". Acreditamos, de nossa parte, que tem ele também o dircito de
O espírito do homem é espíríto personiñcado. O psicologismo.
sofrer sua própria dor. desde que se trate realmente de “sua” dor, do
sofrimento significatívamente existencial das dores que compõem a pore'm. é cego no que concerne ao espírito. Daí ele dcixar também dc
lado a pessoa cspirítuaL O psicologismo trata a pessoa como se ela
fatalidade. Deixcmos para depois a qucstão de saber quais as condi-
fosse o seu oposto ou, para utílizar uma antítese de Willian Stern,
ções em que o sofrimento tem sentido, e adiemos nossa resposta para
como se fosse uma coisa. “Tratada” como uma coisa, literalmente
quando rctomarmos 0 assunto.
falando, signiñca a pessoa atendida por um terapeuta que não supe-
rou a influência psicologistaL
2. Psicolerapia e Logoterapia A pessoa é, pois, coísiñcada, objetivada pelo psicologismo. Mas
se referc à pessoa espiritual como se fossc uma coisa. demonstra nada
Partimos da idéia de que o homem é um ser espirituaL de que ele
saber sobre ela, pois uma pessoa justamente não se deixa reiñcar. A
é em essência cspirituaL No entanto, cstc fator é precísamente o que
existência pessoal não é suscetível de objetivação íntegraL Jamais a
o psicologismo ígnora. Daí, a insuñciência de toda psicoterapia no
existência se apresema dianle dos meus olhos como objeto; sempre es-
semido estrito, que permanece, até hoje, psicologista: não vê o espiri-
tâ, pelo contrário, por lrâs de meus pensamen'tos, atras' de mim, como
tuaL Esta insuñciência se converte em incompetência tão logo a psí-
sujeito. Por isso, a existência, em última anâlise, constitui um miste'rio.
coterapia psicologista se encontra a braços com a problemática espi-
A existência não é objetiváveL pode ser elucidáveL c isso na me-
dida em que é compreensível para si mesma, tem autocompreensão. °

' Em francês no original (N. do T.)


8 0 pn'ncípio dc rcalidade não se contrapõc ao pn'ncípio dc prazcr. pelo comrário. sc 9 Que é um fcnômeno primáño irredutích Capaz de compreendcr-se a si mesma. a
coloca a seu serviço c o amp|ia. buscando também alcançar o prazcr (S. Freud, Obras cxisténcia não é capaz de compreendcr sua própria comprecnsâo. Essa autooompreen-
Complela:, voI. XI. p. 379).
196 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA “HOM0 PATIENS" l97

A autocomprcensão implícita na existência pode scr cxplícada, e na Nota para a 29 edição


medida em que a explicação é possíveL também é possível a elucida-
ção da exislência, a qual, porém, não sc faz mediante uma análise Na medída em que o homem é essencialmente um ser cspiritual
meramente psíquíca, e sím por meio de uma análise existencial (não (transcendcndo_ portanto, a physis e a psyche), Iogos (sentido) repre-
confundir com análise da exístência). A análise exislcncial constituL senta o aspecto objetivo, enquanto exislência (o espcciñcameme hu-
por consegu1'nte, uma caso-limite, já que deixa ao seu objeto o cará- mano) representa o aspecto subjetivo dcssa espiritualidade. No en-
ter de sujeiro. tanto, ambps os aspectos estão, por assim dizer, ultrapassados e liga-
Em contraposição, o psicologismo transforma a pessoa espiri- dos um ao outro pela cssencial aulotranscendéncía do ser homcm. o
tual em objeto. Não só a pessoa. aliás: Iambém os alos espirituais pas- que eu deñno como um |ançar-sc por cima de si mesmo na dircção dc
sam a ser objetos. Os atos espirituais, no cmanto, são, por naturcza. alguma coisa ou de alguém. a saber, de um semido a ser realizado ou
scmpre imencionais, o que signiñca que eles têm, por sua vez. objetos de um parceiro a ser encontrado; cm qualquer caso, o ser do homem
para os quais são intencionamenle dirigid0s. No momenlo em que os é autemicamente humano na proporção em que se coloca a serviço
próprios atos são considerados como objetos, os objetos que Ihes são de uma coisa ou do amor por outre4m. Sim, pode-se dizer que o ho-
próprios desaparecem de nossa visla. Já que se trata, com rclação a cs- mem é vcrdadeiramente ele mesmo (e. com isso. se realiza) na mcdí-
ses objelos, de valorcs objetivos, o psicologismo se revela. añnaL tão da em que na dcdicação a uma tarefa ou na afeição a um parccíro, es-
cego para os valores quanto já sabíamos que o é para o espírito. quecc-se dc sí.
Tanto quanlo a existêncxa', também a intencionalidade se opõe à Esta autotranscedência da existência humana se reñete no cam-
análise exclusivamente psicológica. E assim como somente a análisc po cognitivo sob a forma daquilo que desde Brentano e Husserl é
existencial preserva a característica de sujeito da pessoa espirituaL chamado de “intencionalidade" do ato espirituaL Essa capacidade
somente a an'lise fenomenológica aos valores scu caráter objetivo, dá- do espírito humano dc transpassar o “conteúdo" consciente e ima-
nos condições de “co-efetuar" os atos e, cm vez dc prescindir os va|0- neme, até um “objeto" transcedente à consciência, const1'tui. ao mes-
rcs, vé-los simultaneamente. mo tempo, um indício de que o espírito humano como tal. isto é. na
'

Não admitindo os valores como objetivos. o pskologismo acaba sua qualidade espeuñ°cammtc humana. se dcstaca quah'tau'vamentc,
por subjetivá-los; convertcndo a pessoa em coisa, objetiva algo de na sua maneira de funcionar. do psiquismo dos outros seres vívos.
lsto foi conñrmado não só pelo antropólogo Max Scheler, como
subjetivo. Desta objetivacão do sujeito, a Jubjetivaçãa do objelivo for-
também por Arnold Gehlen e o biólogo Adolf Portman. Finalmente,
ma, assim, a contrapartida.
Konrad Lorenz declarou-se partidário da tese de que o fenômeno hu-
O psicologismo peca contra o espiritual em dois aspectosz pri- mano introduziu, e não gradualmente. uma difcrcnça qualítativa no
meiramente, ao deixar de lado a existência da pessoa espirituaL peca reino dos seres vivos. Quando mc qucrem provar que um chipanzé,
contra o “espírito subjetivo"; em segundo lugar, ao não levar em num dcterminado conjunto dc circunstâncias. agiu de um modo que
conta a imencionalidade dos atos espirituais, peca contra o “espírito coslumamos defínir como "humano", não vejo nisso mais que o fato
objetivo”. de que o chipanzé, pelo menos no decorrcr daquele instante pode ser
Este duplo erro requer dupla corrcçã0. No caso da negligência qualiñcado de humano.
da existência do sujcito cspiritual cabc uma auto-reflexão sobrc a
exislência; no do descaso pela intencíonalidade dirigida para o plano 3. Logoterapia e Anâlise Existencial
objeu'vo-espiritual, impõe-se uma renexão regressiva sobre o mundo A finalidade do que chamamos de logoterapia é incluir o logas na
dos valores, sobre o cosmo dos valores - uma reflexão regressiva psicoterapia; a ñnalidade do que denominamos análise cxistencial é
sobre o logos. incluír a existência na psicoterapia.

A reflexão rcgressiva psicoterapêutica sobrc o logas signiñca o


são em potencial leria de ocorrer em um nível mais allo do que o da autocompreensão
mesmo que reflexão regressiva sobre o senlido e os valores. A auto-
primordiaL “Aquele que percebe deve possuir. a ñm de podcr percebcr. uma dimen-
são n mais do que o objclo que é pcrcebido" - (Y. KV Suominem em ”Acta psychiatri- reflexão regressiva psicoterapêutica sobrc a cxistêncía é igual à
ca ct neurologica". 60. |7. l950). auto-reflexão sobre a liberdade e a responsabilidade.
l98 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSlCOTERAPIA
“HOMO PATIENS" 199

Reflexão regressiva sobre o sentido e os valores equivale a refle-


xão regressiva sobre um dever-ser, e reflexão regressiva sobre a liber- coterapia, no sentído cstrito do tcrmo. E impossívcl colocar a logole-
dade e a responsabilidade corrcspondc à reñexão regressiva sobre um rapia no lugar da psicoterapia; é necessário, apenas, complementara
poder-ser. psicoterapia com a Iogoterapia (do mcsmo modo quc a chamada “cu-
Na medida em que ambos - logoterapía e análise existencial - ra médica da alma" não devc ser um substituto para a cura da alma
represemam uma psicoterapia orientada para o espírito, essa psicote- propn'ameme dita. de caráter religioso).
rapia se divide em logoterapia, como terapia partindo “d0” espiri~ O último equívoco possível se relaciona com nossa formulação
tuaL c em análise exístenciaL como análise voltada “para” o espirituaL sobre uma psicoterapia “a partir” do cspirituaL que parecc sinônimo
de “de cima para baixo”. Podcr-se-ía objetar que uma tal tcrapia
Enquamo a 'logoterapia vem “do” espirituaL a análise existen-
cial se dirige “para“ o espirituaL A logoterapia não somente pressu- lembra o caso do homcm que queria começar a construir Dclo tclha-
põe o espiritual e o mundo objetivo do sentido e dos valores, como do. Mas não é assim 0 que lmporta é não dar por terminada a cons-
também se serve dcles para fms terapêuticos. A análise existenciaL trução quando se chega ao u'ltimo andar. é 'não terminar scmpre por
por sua vez, não se limita a apontar o Iogos, entcndido como aquilo onde sc começou, a saber, na infra-eslrutur.a. para a qual a psicologia
que “se deve" em cada caso; vai mais longe: o que lhe importa é ev0- profunda diríge exclusivamcnte a sua atenção._ _
car a existéncia, defmida como aquilo que sempre “se pode”. Restam ainda alguns esclarccimcntos a ser feit_os. A análisc exis~
Em relação à logoterapia e à análise existenciaL cumpre afastar tenciaL por exemplo, é uma direção da corrcnte ínvestigadora, não
dois equívocos. O primeiro deles seria o de pensar que a logolcrapia uma doutrina. Como díreção em que se move a investigação. está
consiste cm que 0 médico, utilizando a lógica, procurasse dissuadir 0 aberta a duas possíbilidadesz cooperar com outras direçoc's ou evo-
pacicnte de alguma noção que estc mentalizou. lsso seria confundir luir.
Como qualquer outro rumo da investigação. a análise cxisten-

'
logos com a lógica, e ver erroneamente na logoterapia semelhança
cial é unilateral; é necessariamente unilateraL e a necessidade não só
com aquele tratamento que Duboís denominou “método de persua-
lhe é imposta, como se impõe p'or si mesma. Estve ponto necessita dc
são”.
uma explicaçãoz disse P. R. Hofstãtterz “ “Cada uma das tres“ cnlida-
O segundo equívoco possível não sc refere ao conceito dc Iogos
des psíquicas encomrou seu advogado entre os terapeutas - o id em
na logoterapia, mas ao de “análise” na “ana'lisc exístencíal". Análise
Freud, o ego em Adler, o superego em C. G. Jung, R. Allers e V.
existencial não signiñca, conforme antês explicado, análise "da”
Frankl”. Fazendo-se abstração do jargão psicanalítico. a cilação é
existêncía, isto seria uma contraliclio in ajd'ecto. “' Nunca deñni a
válida. Não esqueçamos, porém, de uma coisaz um advogado não só
análise existêncial como uma análíse “da” existência, e sim como
tcm o direito como também o dever dc tomar o partido do seu clien-
uma análise orientada “para” a exislência. A existência não é nem
te.
-ana|isável ncm sintetízáveL No segundo caso, seria isto impossíveL já Recordemos nossa tarefa de encontrar um corretivo para a psi-
que a existência é uma síntese (basta lembrar a “apercepção sintéti- coterapia psicologista c reiteremos nossa obrigação de sermos unila-
ca”, no sentido kantiano). A existên_cia é o sujeito de qualquer síntese terais - conforme já foi dito h,á pouco - e veremos que temos de se-
e, por isso, nunca poderia ser objeto de uma síntese. A análise “da” guir o que preceituou Kícrkegaardz “Aquele a quem cabe fazer uma
existência representa uma contradicgio in adjecto, enquanto “síntese correção tem de conhccer com exatidão os pomos fracos do que
da exístência“ ou expressõcs do tipo psicossíntese ” constituem plco- exíste e opor-lhc o seu contrário de maneira unílateraL fortementê
nasmos. unilateraL Justameme nisso resíde o corretívo e. por outro lado, rc-
Em terceiro lugar, a logoterapía se situa, no que concerne à in- signação daquele a quem cabe agir assim".
vestigação, em uma oposição heurística, e no que concernc à doutri- Não é só a alma que representa um “vasto país", segundo a ex-
na, em uma oposição didática à psicoterapia, tal como esta tem sido pressão de Arthur Schnitzler, também a psicologia, a psicoterapia.
pratícada até hoje. Não pretende, contudo. ser um substituto da psi- Ocorrc que nesse vasto país pode alguém dirigir seus passos nas maís
variadas direções, e, aliás, é assim que tem de agir quem desejar ex-
plorá-lo. A conclusão é que apenas a colaboração das díferentes “di-
IO Vej..'-se Die Exislenzanalyse und die Probleme der Zeit. Viena, I947. pp. 34/35. e
Der unbewusste Gon. Viena. l948, p. 32.
II Ver Macder. De la psyrhunalyse à Ia psychosynthese, I'encéphale. l926. p. 584. 12 Einlírhrung ín die Tiefenpsychologie, Viena. 1948. pg. 183-184.
200 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA “HOMO PATIENS" 201

reçõcs” surgidas na psicoterapia permitc obter os melhores efeitos no Nada disso seria possível sem uma dose de ccletismo. Tome-se
tratamcnto c os melhorcs rcsultados na pesquisa. muíto cuidado. porém, para que o ecletismo não degcnere em sincrc-

zrj
Nunca se deverá esqueccr que justamcnte nessa colaboração a tismo, dizendoz a psicanálise, a psicologia individual, idem; logo. psi-
unilateralidade tcm um papel a representar, uma missão a cumprir. canálise somada à psicologia individual deve dar um resultado es-
Acontcce aquí o mcsmo que numa orquestra, cuja execução se baseia plêndido! Menos admirável ainda seria a ver na ausência de direção
na coordenação dos vários instrumentos; cada um dos músícos toca uma nova direção, nem scquer quando esta “nova” direção for bali-
o scu instrumento - notc-se bem, o seu próprio instrumcnto, nada zado de “universalismo”. Constituiria um paradoxo cquivalente a
mais! fundar um clube de anticlubistas.
lsto, no cmanto, é válido apenas para o membro dc uma orques-
tra, não para o músico cm scu lazcr. Aqucle que tocar insistentemen- Talvez seja convcniente perguntar se. e em que scntido. a logote-
tc seu instrumento nas horas dc folga acabará perdendo a simpatia rapia e/ou a análise exístencial - ambas não constitucm senão duas
dos vizinhos. facetas da mesma doutrina - têm alguma relação íntrínseca com a é~
0 cxemplo citado no campo da artc também vale na ciência, poca de hoje. Perguntamo-nos, pois: até que ponto se expressa nossa
época por meio de uma tal doutrina? Até que ponto se refere essa
mostrando que a verdade da_teoría pode não servir na Brática As-
doutrina a nossos dias? Em que sentído tem algo a dizer sobre o
sim, quem estiver na frente de batalha da investigação cxemíñca dc-
período conlemporâneo, ou algo a dar-lhe e, nesse caso. o quê?
verá cuidar somente do seu setor, não Ihe res'tando, pois, outro remé-
Em outras palavrasz queremos saber até que ponto existe um
dio senão o de ser “unilateral”. Isto é certo apenas no plano da ativi-
dade. não no que concerne à teoría cientíñca. Talvez seja o caso de condicíonamento da doutrina pela época atuaL e por outro lado, até
que ponto ela convém à época. Ou expressando de outro jeiloz até
evocar a n'validade das duas primeiras escolas do Talmude, a de
que ponto a doutrina é por um lado sintoma, e até que ponto é. por
Híllel e a de Schammai. Elas viviam-se digladiando até que um día
outro, remédío para os dias de hoje?
uma voz ccleste sc fez ouvir ordcnando que dali em diante todas as
decisões fossem tomadas de acordo com a escola de HilleL Ê que ela Em rclação à primeira pergunta, não é difícil compreender em
humíldemcnte ensínava não somente suas próprias opíníões, como as que sentido nossa doutrina expressa o espírito da época. Já mencio-
da Schammai. namos antes que não objetivamos restabclccer a capacidade dc traba-
0 que, dentro da teoria, vale para a doutrína, prevalece também lho e de prazer do homem, e que consideramos, pelo contrário, como
na pra'tica, onde nos vemos igualmentç obrigados a proceder ecleti- uma das tarefas a nosso cargo, e não das menos 1mpor1antes, a de
camente. Em nosso curso universitário “Psychotherapeutisches rcstabelecer a faculdade de sofrer do homem. A determinação desse
Praktikum" e no nosso lívro Die nycholherapie in der Praxis" ” ad- objetivo já em si renete as provações às quais esta geração foi subme-
vogamos a causa do eclctismo conscíente. tida.
Seria inconcebível não atuar ecleticamente na psicoterapia par-
Basta no que tange ao sintomatológico. Vejamos agora o
que ela é, em certo sentido, uma equação com duas incógnitasz v = x
problema terapêutico. Já dissemos que a psícoterapia dcve ser modi-
+ y. Com efeito, toda psicoterapia tcm de lidar com dois momemos
ñcada conforme a pessoa e de acordo com a situação. E isto não vale
variáveis, °°desconhecidos", íncalculáveís, duas “incógnitas”: de um
também em sentido mais amplo, em que, em Iugar de situações e pes-
lado, a individualidade do paciente, de outro, a personalidade do mé-
soas, fosse falado de nações e gerações? A psicoterapia não deve tam-
dico. Ademais, todo método psicoterapêutico deverá ser alterado k bém ser ajustada segundo o espírito da e'poca? E até que ponto cons-
não apenas conforme a a índividualidade do paciente, mas tambcm'
tituem a logoterapía e a análise existencial a terapia apropriada? Até
em função da pérsonalidade do médico. A psicoterapia, no que se re-
que ponto são adequadas à época e correspondem ao espírito do mo-
fcre ao pacientc, há de ser adaptada não apenas segundo a pessoa,
mento atual?
mas alterada de acordo com cada uma das sítuações sucessivas do
pacicnte. Nunca se deve esquemat1'zar, o essencial é improvisar e ín-
A análise existenciaL segundo ouvimos, focaliza a luta do ho-
dividualizar.
mem em torno de um scntido - não apenas o sentido do sofrimento,
mas também simplesmente no sentído da vida. Para a análisc existen-
cial, não há apenas “Iuta pela vida". expressão que deu o tílulo a
13 A Psicolerapia na Prática - Ed. Pedagógica e Universitária Ltda. São Paulo.
204 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA "HOMO PATlENS" 205

do espiritual até o “plano“ do psíquico. Com isso. todo ato espirítual mental está em curso. Não importa o diagnóstico que o psiquiatra es-
perdc sua referéncia intencional a objetos transcendcntais. a objetos tabelecaz paranóia ou esquizofrcnia incipientc são sintomas paranói-
quc transcendem o nivel do psíquico. Suprimidas as referências. ñca des". Sua constituição inata foi cxtremadamentc csquízóide-
somcntc. no lugar do espirituaL um estado psíquico. Ondc antes ha- psicopática. O mcncionado invcstigador conccdc pclo menos a Jesus
via intcncionalidadc espirituaL não resta senão facticidade psíquica. “uma predisposição primária dc talento algo superior à média”
No momento, contudo, cm quc se efctua essa projcção, o huma- “Precisamente o clcmento paranóíco despertou nos discípulos o sen-
no passa a ser ambíguo. Penscmos no que sucede se projctarmos ñ- timento numinoso. Nossa ética atual se encontra num nívcl tão supc-
guras tridimensionais - por exemplo. cone, csfera, cilindro - num rior à do Nazareno que o contraste emre elas é impressionantc. cm-
plano bidimensionalz essas ñguras, vistas unicamente em projeção bora a nossa continue a ser chamada de cristã". Lange-Eischbaum

-_.
honz'ontal, perdem imedialamente seu caráter unívoco. pois todos os tcve. contudo de cngolir o comemário de Muralt. quando este
três causam a impressão de um círculo, são como um e scmpre o mes- lembrou que a frase que acabamos de citar foi ímprcssa em l942. isto
J
w mo círculo. O mesmo acontece com o psicologismo, que projeta no e', no momento em que doentes mentais cstavam scndo submctidos à
¡'›

:
plano psíquico o que há de espiritual no homem: nesse caso, as visões eutanásia...
de uma Bernadette mal se distínguem das alucinações de uma histérí- a) Prazer e valor ›
ca qualquer, e tanto Maomé como Dostoiewsky passam a formar na Na vísão psicologísta, tudo adquire um caráter não só ambíguo,
mesma ñleira dos demais epilépticos. como uniforme. Uma vez que se sacriñca o objeto transcendenlc do
Entendemos agora por que o psicologismo na psicoterapia sem- ato intencional (o objeto espiritual) o que pcrmanece, por exemplo,
pre esteve acompanhado de um patologismo, sempre demonstrou de um valor objetivo nada mais é que o prazer subjetivo (notc-sc
preferência pelas patograñas; ele não só deixa de perceber o espiri- bcm, um prazer uniforme) ". *
lual, como também, no interior do psíquico, _só vê o patológico.
Esse prazer residual, que é sempre idêntico, seja qual for a oca-
Um exemploz segundo Küntzli, “ “Kierkcgaard foi mimado cm
excesso pelos país e no caso especíñco do pai, que era um pietista or- sião ou a circunstãncia, acarreta um nivelamcntoz o mundo perde sua
todoxo, foi por ele educado de forma absurda. Sua grave neurose de dimensão de profundidade e a realidade. o seu relevo de valores. Em
angúslia se baseou no ódio ao pai, como reação reprimida ao método resumo: o prazer é o resíduo que ñca pra trás após uma intervcnçâo
psicologicisla; é o que re_sta tão logo o ato intencíonal se vê despoja~
pedagógico por aquele utilizado, ódio que o discípulo de Hcgcl trans-
feriu para todos seus mestres e chefes, para Deus e as autoridades em do dc sua intencionalidade, tão logo é esvaziado de sentido.
geraL manífestando~o através de uma crítica desmedida. Na sua ñlo- Com isto, ñca dcmonstrado que o princípío de prazer, “ além de
não poder ser uma norma de tratamento. como já foi dito, não é ca-
soña. o cscritor c poeta antecipou de quase um século noções da psi-
paz de constituir um princípio válído de explicação; ao se caracteri-
canálise, sem conseguir, todavia, libertar-se da enfermidade nervosa
zarem os "mecam'smos psíquic0s”, o “aparelho psíquico", como
de que padecia".
algo regulado pelo princípio de prazer, não se está favorecendo a nc-
Abandonemos Küntzli e vejamos outro "caso” examinado por
cessidade de explicação.
diversos aulores citados por MuralL '° Binet cstabeleceu o aeguinte
diagnóstico relativamente a Jesus Cristoz "Paranóia com crise juvenil
hebcfrênica"; Loosten e Hirsch também ñzeram o diagnóstico de
paranóia (devido a um delírio dc grandeza. já que “acreditava ser um
18 Comparc~se com Viclor E. V. GclsaueL Chrislenrum und HumanismuL Slutlgam
Deus"). Segundo Lange-Eischbaum, ” o denomínador comum em l947, p. 34: “No lusco-fusco do cnfoque apcnas psicológíco, todos os gatos sâo par-
Jcsus Cristo é o patolo'gico. “Pode um homem razoável duvidar da dos“.
existência de uma psicose? A idéía dc que Jesus Cn'sto foí um docnte 19 No âmbilo_ dcsla nossa crítica do conccito psicanalítico de um princípio de prazer.
o chamado princípio dc rcalidadc pode ser deixado dc lado. pois cle represema de cu-
to modo uma modiñcação do primeiro e lambém visa alcançar o prazer (S. Freud.
Obras Complelas. volume Xl. p. 370). ou ainda signiñca “num dclerminado senlido a
lSDíe Angsl als abenlãndische KrankenheiL l948. referido por Kielholz em Schweize- complcmemação do princíplo do prazer alravés de outros meios" (H. Hnrlmann.
risrhe Medizimltrhe Wochenschnfl' 79. II5. l949. “Ich-Psycho|ogie und Anpassungsproblem". Psyche l4. 81. l960). "Um prazer mo-
mentâneo c inccrlo em suas conscqüências ê abandonado mas para ser substituído
Ió Wahruinniger oder PmpheL Zurique, l946. PP. 249~250.
: por um outro postcrior e mais garantido" (Freud. O. Comp. Vol. V. p. 4|5).
l7 Gen¡e, lrrsinn und Ruhm, l928. cilado por MuralL
206 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA "HOMO PATIENS" 207

O príncípio do prazer não é um princípio psicológico, e sim pa- ção para o sentido e o esforço vísando o valor. ambos fatorcs origi-
--.

tológico; se alguma vez tiver validade, não será com referência a fa- nários. Em outras p'alavras: vê a intencionalidade dc tudo que é cspi~
rituaL Não vê somente a intencionalidade, vê igualmentc a existen-

,. Á<
tos psíquicos normais, já que originariamentc o homcm normal não
se satisfaz com o simples prazer, anseia pelo sentido. O prazer é algo cialidade.
que se apresenta, em cada caso, por si mesmo, ao ser atingido 0 obje› Para a análise existenciaL há, antcs do querer, um dever tornado
. . _ ._ .4

.- a
tivo. 0 prazer é conseqüência, nunca meta. É o resultado de um efei- conscicnte; para a psw'ana'líse. ha'. por trás do querer conscientc, um
.,

to. não de uma intenção; é suscetível de ser “efetuado", mas não “in- “tem de ser" inconscientc. Para a análise exístcnciaL o homem tcm à
tencionado". Justamente quando a intenção o coloca na mira, se es- sua frente os valores; para a psicanálíse, ele tem em suas costas os im-
vanece. pulSOS, o id. A psicanálise considera toda cnergia como impulsíva,
Kierkegaard añrmou que a porta que dá acesso à felicidade se força impelentc, para ela tudo é vis, vis a tergo.
abre de demro para fora; forçá-la a se_ abrir em sentido oposto acaba- Na verdade, o homem não é impelido pelo impulso (pulsã0) e
rá por bloqueá-la. Coisa parecída ocorre quando alguém tema inutil- sim puxado pclos valores. Constituíria uma violação da língua dizcr-
mente obrigar o sono a virz ele foge precisamente de quem o deseja sc, no segundo caso. “ser impelido“. Os valores me atraem. não mc
muito fortemcnte. Por isso, já o compararam à pomba, que pousa na empurram. Para que eles se concretizem, tomo decisões livrcs e res-
mão imóveL mas voa quando percebe que a querem aprisionar. ponsávcis, entrego-me ao mundo dos valores. Não se trata, de modo
O problema pode ser vísto com mais clareza justamente onde o algum de ser em função dc uma pulsão.
prazer é o objctivo essencialz na vida sexual. É inerente à natureza É certo que não só o psíqu1'co,também o espiritual tem a sua di-
das neuroses sexuais que o indívíduo, ao se esforçar para conquistar nâmica. que não sc baseia, contudo, nas pulsões, mas no anscio pclos
como meta o prazer que o instinto sexual lhe proporciona automati- valores Ncstc anseio espiritual entra a pulsão psíquica. cntram os
camente, fracassa, quando satisfeito, na razão mesma desse esforço. impulsos como cnergia “alímentadora”.
\ Logo que, em vÀez dc nos entregarmos imencíonalmente ao obje- Procurcmos esclarecer. com a ajuda de uma parábola. o tipo de
to de uma aspíraçã0. ñxamos nosso interesse na própria aspiração, engano que a psicanálise comete em relação à energia alimentadora
deixamos evidcntcmente de perceber o objeto, nos afastamos dele e da vida espirituaL Que vê um trabalhador dos servíços urbanos, da
só nos damos conta de um estad0. O lugar da íntencionalidade é to- perspectiva de seu trabalho? Vê apenas canos de água e de gás, cabos
mado pela facticidade; em outras palavras, a íntenção como valor de eletn'cidade. É tudo o que vê enquanto estiver afundado no mun-
impregnado de prazer é subslituída pelo fato °°prazer”, carente de do dos tubos. Se não conhecesse as universidades, as igrejas, os tca-
sentido. Renunciamos a algo capaz de causar prazer e nos concentra- tros c os museus da cidade, nada saberia da sua vida culturaL Mas
mos no próprio prazer, mas este some tão logo falta aquilo que o isto ele só pode conhecer nas horas de folga, quando vai até a cidade;
ocasiona. enquamo permanecer nos fossos, na infra~estrutura, se moverá tão-
lntentar o prazer leva ao mesmo resultado que ñxar-se na execu- somente no ambiente das encrgias que alimentam a vida cuItural ci-
ção prazerosa do ato. Todo intencionar do gozo o destro'i. Outros- tadina. A vida cu|tural, porém, não se compõe de ga's, água ou eletri-
sim, buscar o divertímcnto acaba por afastá-lo de nós. cidadc.
O que acontece num comportamento de tal ordem é uma con- O mesmo ocorre com o psicanalista, que não enxerga alem' da
versão do prazer qua conseqüência em prazer qua intenção. Não es- infra-estrutura psíquica da vida espirituaL Não consegue divísar se-
queçamos. pore'm, que ísto corresponde a uma apreciação típica do não a dinâmica efctiva e a encrgética dos impulsos. Ora, a vida espiri-
neurótico. Compreendemos agora por que a psicanálise t1'nha'forço- tual não se constitui de prazer e impulso. Nenhum dos dois fatores
samente de chegar à concepção do princípio de prazer: é que partin- represema 0 essenciaL nenhum dos dois importa realmente.
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do de um resultado neurótico, ela o generalízou injustíflcadamente. No emanto, a psicanálise pressupõe tacitamente o essenciaL já
1
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que no caso de um tratamento bem sucedido haverá sempre uma


b) lmpulso e sentido reorienlação existcnciaL O resultado então não se deve à doutrina
propriamente dita, mas ao psicanalista como ser humano. Pois o psi-

'. _«,_
Se a psicoterapia psícologista ígnora o espirituaL a psióoterapía
Nça_.›

canalísta jamais é apenas psicanalista; é ao mesmo tempo homcm.


orientada para o espiritual não constata, por sua vez, a existência de

._ ._
Sem dúvida quando o cfeito dc sua ação terapêutica passa a decorrer
qualquer anseio primário de prazer. O que ela reconhece é a oríenta-
208 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA
“HOMO PATIENS" 209

de sua qualidade como pessoa. o psicanalistajá saiu de seu papeL Na gar a existência do anseio pclos valores e depois se dar ao trabalho de
medida em que atua graças á sua personalidade, o faz em carátcr pri- trazer de volta o que escamoleara, os valorcs.

NL
vado, não como proñssionaL A exemplo do trabalhador das vias ur- Basta. no que concemc à pergunta “por que devo sublímar?”
banas, que só nas horas de folga loma conhecimento da vida cultural Abordemos agora outra questão que temos na ponta da línguaz “Co-
da cidade, o psicanalista consegue conhccer a vida espiritual do pró- mo posso sublimar?" Sabemos de sobra que a psicanálise vê somente

4-. _ 4-x
ximo somenle quanto a vê do prisma de um leigo. a pulsão, sem levar em conta o anseio pclos valores. Com isso, torna-

. .-
Dissemos anteriormente que, na concepção da psicanálise, exis- se impossível comprecnder fatorcs como a sublimação ou.a rcprcs-
te por trás de todo querer consciente um “tem de ser” 1'nconsciente. são, e a qucstão de como justíñcar a sublimação ñca sem rcsposta, já

._,
Assim, os objetivos a que o ego se prop0e' são apenas meios para al- quc, em úllima análise, conduziría a uma questão de carátcr mais se-
cançar um ñm imposto pelo id; este o consegue passando por cima ralz “Quem rcprime quem? Os impulsos do ego aos impulsos do id?"
do ego. Vistos desse ângulo, todos os motivos do homcm parccerão Não constituiria uma resposta adequada; chegaríamos com ela ao
impróprios, mesmo o homem como entidade parecerá impróprio. ponto onde chegou a psicanálise. a saber, a uma conccpção do cgo
Todas as tendências culturais, sejam de natureza teórica ou prática, derivado gene'tícamente do íd e se construindo a si mcsmo pelo uso
estética, ética ou religiosa, em síntese, toda aspiração espiritual dará dos “impulsos do ego". A concepção, no entanto, é absurda e con-
a impressão de ser mera sublimação. traditória. No plano genético, como no dinâmico, é uma contradição
Se assim fosse. o espiritual não seria mais que uma mcntira da imerna. Jamais algo de pulsional será capaz de obrigar outro algo
vida. um auto-engano. Para a psicanálise, pouco importa. Se eu acre- pulsional a se transformar e ñxar outros objctivos. O instinto é inca-
ditar nela, não posso ímaginar-me como um cirurgião dedicado ou paz de sc transformar no valioso c dominar o instintivo. Ou alguémjâ
um amante entusiasmado da verdade, o psicanalista procurará con- ouviu dizer que um rio tenha conxtruído uma cenlral hidrelétrica7
vcncer-me de que, na realidade, sou apcnas um voyeur ou um sadista E impossíveL por conseguinte, conceber o ego como fundamen-
sublimado. Em outros tcrmosz na verdade, sou um escravo dos mcus tado nos impulsos. 0 que, entretamo, não exclui que em todo csforço
impulsos, e quando me mostro interessado por ccrtos valores ou ten- pelos valores se encaíxa algo de pulsionaL já que, como dissemos, os
ciono efetivá-los estou simplesmente ñngindo para mim mesmo. impulsos atuam como energia alimentadora. A energia, todavia, é
Segundo a psicanálisc, existe sempre algo detrás, algo por lrás mobilizada pelo ego, que pode e deve dela díspor. A energia pulsio-
de cada coisa e de cada um; por isso cla está scmpre dísposta a dcs- nal que entra na dinâmica do anseío pelos valores terá sido mobiliza-
mascarar a realidade. É essencialmcnte uma psicoterapia desmasca- da por uma instância não-pulsional, cuja realidade é comprovada
radora. z° justamentc através dessa mobilízação.
Supondo-se que as coísas se passassem realmente assim, isto é, Qualquer polêmica contra a psicanálise é diñcultada pelo fato
que todo anseio de valores fosse mero fruto de minha imaginação e de que a psicanálise se entrincheira por trás de seu próprio psicolo-
que eu me encontrasse sempre dominado por impulsos, não teria eu gismo, como quando proclama que aquclcs que não se deixam con-
o direito dc perguntarz para que devo conscrvar este auto-engano, vencer por ela, que não a entendem, deixam transparecer, na verda-
por ue devo sublímar? de, “resistências" que não foram submetidas à análise. Nâo deveria,
fácil prevcr qual seria a rcsposta da psicanáliscz que devo comudo, a psicanálise facilitar para sí mesma as coisas a tal ponto,
sublimar por causa da cultura. Então existe um “por causa dc”... Aí sobretudo porque, ao qualiñcar dessa forma as objeções de seus ad-
teríamos colocado a psicanálise na obrigação de admítir que cxistcm versários, renuncía ao direito de ser tratada como ciência.
valores, quod erat demonstrandum Por mais árdua que seja a polêmica contra a psicanálisc, c con-
tra o psicologismo em geraL a tarefa ñca facilitada. e até se torna dís-
Com certeza isso poderia ler sido obtido de modo muíto mais
pensáveL pelo espetáculo dos “ismos“ a se entredevorarcm
cômodo. Não havia necessidade de a psicanálise prlmelrameme ne-
Veriñcamos como as diferentes psicologias desmascaradoras
procuram desmascarar-se mutuameme. Assim, por exemplo, a psico-
logia individual acusa a psicanálise (e não sem razão) de revelar uma
20 Julgo muito oporluna e concisa a pilhéria cilada por Joscph Wildcr no American
tendência para desvalorizar tudo que não seja sexual, tudo que scja
Journal of nycholherapy (26. 447, l972) e extraida do abundamc ancdolário corrente
nos Estados Unidos. “- O scnhor é psicanalista?" “- Quc cslá tentando csconder por
sublimado, o que favorece o libídinoso; aos olhos da psicologia indí-
lrás dcssa sua pergunla?" “- É. vejo que o scnhor é mesmo psicanalisla...” viduaL o psicanalista caiu na armadilha dos neuróticos relativamente
210 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA
“HOMO PATlENS" 2|l

ao poder do id. Em compensação, do pomo de vista da psicanálise,


cumpre intcrpretar a psicologia indivídual, como, de certa maneíra, não é mais que basu'dorcs. Finalmente, restam apcnas os bastidorcs
um meio de reprímir com maior força as pulsões. De uma maneíra graduados cm profundidades qada vez maiorcs e, cm u'ltima análisc.
ou dc outra. estamos sempre pcramc um meio para alcançar detcrmi- tudo é ilusão, omnia vana. Conforme já disscmos. por trás de todos os
nado ñm, ou o seu oposto. “ismos" está sempre o mesmo niilismo (m'hiI-ismus). *
Agora surgem os outros ismos: um coloca o' fenômeno vital no Todo relativismo, todo ceticismo acabam, entretanto. por sc anu-
centro do seu campo visual, é o biologísmo; outro coloca o social no lar, e é o que sucede igualmente com os “is'mos“. Na luta que man~
lugar do vitaL é o sociologismo; existe ainda aquele que escolhe um têm uns com os outros trocam. sem se darem conta, acusações quc
produto híbrido de ambos, reuníndo num unílateralismo maíor os derrubam esses ídolos de barro.

-h-w_ _
critérios unilaterais dos dois pontos de vista: o racismo. Pode aconte- Temos a obrigação dc ousar desmascarar a psicotcrapia “dcs-
cer, então. o que de fato já aconteceu: a psicologia individual ser acu- mascaradora” e vencê-Ia, a este feudo do psicologismo. usando as
sada de não passar de “um instrumento a scrviço da ambíção judía próprias armas psicologistas. Com tal fmalidade. podemos tomar
de dominar o mundo”. como pomo de partida a equação segundo a- qual saber cquivale a
Todos esses “ismos" estão constantemente empenhados em de- podcr. lnvertend0-a. teremos: não saber algo. ser inconscíentc dc al-

-m_. «-
monstrar a inautenticidade das motivações humanas. Por ñm, se che- go, corresponde a impotência. Disso resulta que saber algo a respcito
do inconsciente de alguém me dá poder sobre esse alguém. A psicolo-

m-
ga a uma espécie de escalonamento, nos bastidorcs, dessa inautcntíci-
dade. Pr1'mciramentc, a consciéncia é “psicologizada” pela psicanáli- gia profunda me possibilita aparentemente conhecer o inconscicntc
se transformando-sc no superego; “ depois é “sociologizada", pois, a de outrem até em seu aspecto mais recôndito. Posso chegar a saber
crermos numa declaração de psiquiatras franceses. o “superego não é mais sobrc ele do que elc próprio sabe. do que elc próprio é capaz de
outra coisa senão a superestrutura ideológica da classe domínante”, saber. Tendo adquirido por meio da psícologia abissal a visão pro-
já que a “psicana'lise ignora o fato essencial de que os mecanismos funda de sua alma, não somente possuo a chavc dela, mas, no ñnal
psíquicos por ela descrítos não são maís que os fatores indiretos por de contas, tcnho a ele próprio em minhas mãos. Doravantc posso
cima dos quaís a realidade social chega ao índivíduo". A própría psí- dispof livremente dele, quer dizer, de sua dinâmica afen'va e'de sua
canálise é uma “ideologia reacionária” n que só servc para “desviar a energética impulsiva, de seus complexos e mecanismos; estou, pois.
atenção da luta política". Nesta luta. os “ismos” se combatem mu- diante dc sua alma como um técnico díante de um painel de coman-
tuamente. do.
O que procuramos acima caractcrizar foi o tipo do médecin lech-
Cada um dos “ismos” vê, no seu modo de observação unilateraL
uma só camada da existência, em cujo plano projeta a totalidade da nicien, a correlação moderna, ainda que anacrônica, do homme mu-
chine * de triste memória. Se formos ao fundo dessa atilude médico-
realidade, indifcrente à sua plenitude cxistenciaL Este plano passa a
psicologista. veremos que se origina do ressentimento, do anseio de
ser a verdadeíra existência, todo o resto ñca ambíguo, vira ilusão,
mando. assim como - para conservar uma expressão da psicologia
individual - de uma tendência desvalorizada. Trala-se de não admitir
o outro como homem, em seu ser-homem, de privá-lo de sua dignída-
21 ldentiñcar a consciência com o superego equivale a um flagrantc reducionismo (es-
de humana. O que vemos aqui é a degradação do “tu" no id. A alma
Ka idcnúñcação. aliás. não ê mantida na psicanálisc moderna). Mais do q_ue sim_ples- é despojada do eu. vira uma terceira pessoa.
mente reducionismo. é sub-humanismo. 0 pomó é assim abordado por Joscph Wil- Essa tendência à despersonalização e à objetivação, essa tendén-
der. “Se ao construnrmos o snpcrego das cnanças proíbimos-lhes um praur momcntá~ cia tecnológica nascida de um ressentimento, não constituí apcnas o
neo ou as obrigamos a fazer coisas desagradávcis. justiñcamomos diante delas argu-
fundamento da psicologia psicologista, em particular da psicanálise.
menlando que o objclo dessas medidas é evitar futuros sofrimentos ou aumentar fulu-
ros prazcrcs. Esle tipo de procedimento não é especiñcamcnlc humano,' o condic1'ona- mas atua também na psiquiatria em geraL numa psiquiatria que não
menlo dos animais segue idênlico princípio. Se condiciono um animal a não tocar na respeita a pessoa cspiritual do doente mentaL A fmalídade desses
comida quando sc aoende uma luz vermelha. a ñm de que se livre da descarga elétrica motivos subjetivos de atitude e orientação impessoais no tocante ao
subseqüente. en_sinei-lhe a saériñcar o prazer do momento (comida) em beneficio dc
uma ausência de dor no futuro (choque elélrico)" (“Values and thc Psychology of thc
Supcrego". American Jounal of Psycholherapy, 27, 187. 203. l973).
22 0 manifesto francês foi estampado na Nouvelle Critique. junho dc l949.
' Em francês no original (N. do Trad.)
r
212 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA
"HOMO PATIENS" 2|3

enfcrmo residc em poder classiñcá~lo como um “caso", de degradá-


creto existe. Esta qualidade é perccbida por qucm a ama através de
lo até converte-'lo em um exemplo de “EQZ” (esquizofrenia), seus atributos concretos; mas não são esses atributos - cssc caráter
“P.G.P.“ (paralisia gcral progressiva), e assim por diante. Se para a psicoñsíco - que constituem o objcto do amor, já quc todo atn'buto,
psicoterapia psícologísta. o homem desaparecc por trás dos complc- todo traço de caráter, é mais ou menos ubíquo, e só a pessoa espirí~
xos, dos quais aparenta ser um mero joguete, para a psiquíatria psi- tuaL pelo contrárío, é, em cada caso, amada, única, c somcmc ao ser
cologista desaparece por trás dos sintomas, dos quais dá a impressão percebida em sua unic¡'dadc. Enquanto se considcrcm apenas as ca-
de ser um simplcs portador. O homem é degradado pelo psicotera- racterísticas corporais ou as parlicularidades psíquicas, não sc trata
peuta à condição de um ente calculáveL añm de ser tutelado pelo psi- de amor, mas de “enamoramento”.
quiatra. em face de eventual imprevisibilidadc que venha a sc mani- A atitude amorosa se defmc pelo fato de quc, através dc sua
festar. Em ambos os casos, a tendência do tratamemo é dominar o imagem externa e interna, é enfocada a pessoa espiritual que a ima-
docnte. gem revela. Somente com relação à pessoa posso dizer “tu", mas não
Um de meus colegas ao responder à perg'unta de por que se tor- o posso dizer com relação a um valor como tal, ou seja, “algo” (em
nara psiquiatra, cxplicouz “Sabe de uma coisa, preferi ter a chave do contraposiç_ão a “alguém") ou ainda a um atributo “cm" alguém, a
manicômio em minhas mãos, a deixá-la nas mãos dos outros". Ter a saber, a cor do cabclo, dos olhos, a forma do nariz, o modo de falar,
chave à sua disposição, eis o âmago do problema! Ter poder sobrc os de sorrir e assim por díante, por mais que isso me excitc ou cntusias-
homens subjugando-lhes a alma. Daí o nimbo mágíco que envolve o me.
mais antigo método de psicotcrapiaz o tratamen_to hipnótico. O amor pressupõe a rcfcrência a um “tu”, uma referência que
Não será difícíl entender que essa ambição de mando e essa ten- tanto a psicanálise quamo a psicologia índividual relegam ao plano
dência desvalorizada tenham provocado um movimento de reação, secundário. enquanto privilcgiam duas outras possíveis referências: o
que algo em nós se revolte contra o rebaixamento da pcssoa cm coisa id e o “ele". ' Com isso, teremos conñgurado as três dimensões dcn-
e do eu no id. O psicologismo não conseguiu pepetrar na psicoterapia tro das quais o eu se relaciona com o não-cu: tu - id - ele.
sem encontrar resistências. Enquanto a relação entre o “eu” e o id - tal como entrc o “cu"
e 0 “ele" - constitui uma relação anônima, a relação entre o “cu” c o
5) Psicanâlise e Psicologia lndividual “tu" é pessoaL Sc meu “amor" se originou apenas do id, de minha
própria impulsívidade. enlão não amo verdadeíramente. Se procuro
Em comrastc com a psicanálise, que analisa a impulsividade, a análi-
apenas um tipo impessoaL relacionando-me como id, na realidadc
se existencial analisa aquílo que é dotado de sentido. O que cstá cm
não amo. O amor ou é amor entre o “eu” e o “tu" ou não é nada.
causa na análise existencíal é prccisamente a faculdade de a vida sig-
Geralmente o “amor" originado no id, assim como o "amor"
niñcar algo. Mas constitui ponto pacíñco que o homem se oríenta
voltado para o “ele" se condicionam mutuamente: o id jamais achará
sempre para um sentido. A existência do homem é considerada pela
outra coisa scnão o “ele", e é justamente o que busca; enquanto o
análise existencial como cssencialmentc governada pela vontade de
“eu" busca sempre o “tu”, e o encontra.
sentido.
Essa añnidade entre o id e o “ele“ se explica, além dísso, por ou-
A ñm de avançar em nossas ínvestigações, seria convenientc tra causa: tão logo a relação pcssoal eu-tu decai até chegar à relação
adotar heun'stico-hipoteticamente a tese de Hans Urs von Balthasar anônima id-“ele", o eu deixa de investír algo de gcnuíno, cessa dc co-
segundo a qual “o sentido da existência consíste no amor”. " locar algo que lhe scja incrente no seu relacionamento com o tu; si-
Aceitando-se tal hipótcse, cumpre acentuar que amor é semprc multaneamente, não sente mais imeresse pelo tu como fator pessoal,
amor dirígido para um “tu”. Só podcmos amar algo de concreto, ja- só como anônimo. Em síntcse, o 1_'d_a partir do qual o indivíduo ama
mais algo de abstrato. um valor qualquer. O valor só pode ser amado não é um eu amame, e o “ele” que é amado não é mais o tu amado.
quando personiñcado em alguém (não necessariamente uma pessoa Que acontece quando o ambfse vé aprisionado na rcde catego-
humana. poderá também ser uma pessoa sobre~humana. uma super- rial, no sistcma de coordenadas da psicanálise e da psicologia indiví~
pessoa, Deus, por exemplo). A pessoa é concreta, o que de mais con-

' A relação que forma o nós é a relacão “EU", “TU". A relação “EU“, “ELE" nño
23 Walmil der WeIL Zurique. l947. p. 118. constilui a relação amorosa existencial a que se refere o autor (N. do R.T.).
2l4 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA "HOMO¡ PATIENS" 2|5

dual? Ambas escolhcrão o que lhcs convier em cada caso: o que p^os- ção brigam com o sono. Quem persegue um alvo vê-se scmpre em-'
sa ser projetado na abcissa psicologista da psicanálise ou sobre a purrado para a frente, de um desempenho a outro, numa cscala as-

-«-_¡m_
ordenada sociologista da psicologia individual. Não se darão, to- cendentc. No que tange a essa progressão, queremos apcnas obscr-
davia, ao trabalho dc considerar o amor em seu fenomcnalismo, não var, entre parênteses, que o homem não dcveria competir com os ou-
preservarão sua existência. o que só podcña ser alcançado por uma tros, mas consigo mesmo. E a rigor nem isto deveria fazer. já que o
análise fenomenológica ou existenciaL A psicologia psicologista pro- esscncial não é dar o rendimemo máximo, em termos absolutos. e
funda, pclo contrário, renuncia à cxistência pcssoal do amor, voltan- sim o melhor possível em cada caso. “o melhor dc si mesmo", o me-

_. . : _~
do-sc cxclusívamentc para sua facticidade vital ou sociaL 0 que rcsta é Ihor em relação à pessoa e às circunstâncias peculiares. Mcu rival
apenas uma modalidade deñciente do amor. não é outrem, nem propriamcnte eu mesmo numa época já passada:
Nós conhecemos essas modalidades dcñcientes do amorz a libi- meu rival sou eu mesmo, hoje. com as possibilidades que tenho à mí-
do, e o sentimento de comunidade. Eis o que resta do amor nas mãos nha disposição no momemo atuaL '
das psicologias abismais psicologistas: de um lado, mera sexualidade, lsso não impede que eu deva sempre ter em mira o melhor. em
a un'pulsividade scxual do homcm; de outro, mera socicdade, o semido absolulo, se quiser alcançar 0 relativamento melhor. “
vínculo social que prende os homens. Talvez se argumente que é impossível saber isso ludo e não sc
Que acontcce. ncssc processo de decadência, com a vontade dc sentir perturbado, já que a vonlade que tende para o melhor absoluto

w. _ . _.-.
scntido? Transforma-sc em vomade dc prazcr, no caso do abandono é estorvada pelo conhecimento do relativamcnte melhor. Pcrgunte~
da existencialidade pessoal (em beneñcio da faticidadc) vital, quer di- mos seriamentez esse conhecimento há de, forçosamente, prejudicar a

. .,
zer, da sexualidade do homem; e em vontade de poder, no caso de procura? Não será possível querer que de minhas ações resulte o ab-
primazia da faticidade social, portanto, da sociabilidade do homcm. solutameme mclhor e, ao mesmo tempo, saber que o resullado será
Veriñca~se, pois. que a decadência do amor sc acompanha ne- scmprc o relatívamente melh0r? A resposta é añrmatíva, com a con-

. - . _,
ccssariamente de uma degencração da vomade dc sentido, que é sub- dição de que cu saiba que o efcito só será o relatívamemqmelhor se a
jetivada. intenção for de obter o absolutameme melhor. Com isso. a consciên-
Neste aspecto, a vontadc de poder se sítua em posição diteta~ cia do efeito, em cada caso insuñciente. será corretamente enlendida
mentc antagônica à vontade dc amor (de amor como sentido da vi- e não equivalerá a uma perturbação necessáría; pelo contrário, pode-
da). rá servir de estímulo a uma busca de perfeição. O homem necessita
O poder conhece exclusivamente um sentido e um valor subjcti- de um precursor, e justamente porque dele precisa. lhe é igualmentc
vos e relativos, um valor “para mim"; o amor, todavia, vê também o necessária a distância inalcançável que o separa do precursor. O pre-
sentido e o valor objetivos e absolutos,_ o valor “em si". cursor perdcria sua razão de ser no momento em que fosse alcança- Ég
O poder busca a utilidade de uma coisa; o amor, por sua vcz, do.
rcspeita também a dignidade dc uma pessoa. A vida consiste na tensão indispensável cntrc 0 que é e o que de-
0 podcr faz do indivíduo um egoísta; o amor, em compcnsação, veria ser. Pois o homem não se destina a serr mas vir a ser...
o torna sensívcl aos valores.
Para aqueles que se inclinam a ser partidários do podcr, a sc- Nota para a 29 edicão
guime frase de John Ruskín pode ajudar a ver claro: “Só há um po- Extraída de Viktor E. Frankl, “Logotherapie und Religion” in Psy-
der, o de salvar; só existe uma honra, a de ajudar". Com efeito, exíste chotherapie und religiose Erfahrung, organizado por Wilhelm Bitter,
uma relação análoga entre o poder e o senlido, de uma parte, o da-
sempenho e a honra de outra. Mas constituiria grave erro pensar que i Klelt. Stultgart. l965. pp. l35-136.

a busca de desempenho substitui a aspiração à honra, no semido de


A doutora Hcrzog-Dürck tem razão de assinalar que. embora consi-
uma sublimação. Ocorre exatamemc o contrárioz não é a ambição derado por Freud como um epifenômeno, o amor, na realidadc. é um
que representa o fator primário, e sim a ânsia de realizar. Maís a_inda:
toda ambição é, no fundo, uma busca de desempenho, uma busca
que degenerou.
24 Conformc aconselhou Goethcz “Dcvcmos visar sempre o centro do alvo, mesmo
Comparada com a ambição, o anseio de realizar é incômodo, que nem semprc se consiga au'ngi-lo".
pois se é possível “dormir" sobre os louros, o desempenho, a produ-
216 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSlCOTERAPIA
"HOM0 PATIENS" 2l7

fcnômeno pn'mán'o da cxístência humana. Não pode scr tido como


0 biologismo tem em mira a condicionalidadc vital do homem.
epífenômcno nem sequer no sentido dc tendêncía inibida quanto ao
alvo (“zielgehemmter") ou dc uma sublimação. Fcnomenologica- a exemplo do psicologismo, cnquanto o sociologismo considcra a
mcntc, é até possível demonstrar que o amor é uma pré-condição da condicíonalidade sociaL ” Tudo, porém, é mais ou menos socialmcn-
te condicíonado, e por conseguinte toda investigação sobre o condi-
possibilidade de surgimento da sublimação; por conseguinte, a capa-
cidade de amar - pré-condição de toda sublimação - não pode ser o cionamento social - scja de que fcnômeno - tem sentído. Não quer
resullado de um processo de sublímação. Em outras palavras, somen- dizer, é claro, que qualquer formulação sirva.
Seria válido pesquisar, por exemplo, as condiçõcs sociais relati-
te em segundo plano, com relação a uma capacidade de amar prímá-
vas ao estudo da medicina, mas não o seria quanto à sociologia da ci-
ria e cxistenciaL dc uma ínclinação origínal do homem para o amor,
rurgia do cstômago; não tcria, outrossim, cabimcnto fazer um juízo
torna-se compreensívcl a sublímação, isto é, a integração da sexuali-
político-crítico dos métodos dc operação scgundo Billroth I, II c II¡,
dade na pessoa como um todo. Em síntesc, apenas o ego dírigído
ou responder à questão de quais métodos cirúrgicos devcriam scr em-
para o zu é capaz de íntegrar o seu id.
pregados. O que desdc logo sc torna perfcitamentc cabívcl é dctermi-
Já disscmos o suñciente no que se refere à crítica das conccpçõcs
nar, isto sim, as condições econômicas nas quais o indívíduo, com so-
freudianas. Contentemo-nos, numa atítude generosa, em defendcr
guro dc saúde ou sem elc, tem possibilidadc dc enfrentar uma cirur-
Freud de seus próprios equívocos. Quc signiñca rcalmente a psícaná-
gia estomacaL
lise se ñzermos abstração de todos os fatorcs condiconantcs do sécu-
lnsistimosz tudo na vida humana é condicionado socialmcntc. 0
Io XIX, de todo o verniz, daquele período? ch, o ediñcio da psi-
sociologismo nada vê além destc fato; vê o humano ocrcado pelo
canálise repousa em dois conceitos essenciaisz o recalque e a transfe- condicionamento e nele conñnado a tal ponto que acaba perdcndo
rência ( Verdrangung e Ubertragung). O primeiro é contrariado, no de vista o fator genuínamente humano. ~
contexto da psicanálise, pelo tornar-se conscíente. Todos conhecc- Novamente devemos ampliar nosso cstudo - tamo no que tangc
mos a comparação feíla por Freud com o desaguamento do Zuidcr- ao psicologismo quanto ao sociologismo - de modo a abrangcr tudo
sce, assim como sua frase orgulhosa c dígna de um Prometeuz “Onde que lhes possa servir de base, na forma dc uma psicogênese. 0 que in-
houvcr id, passará a haver ego”. No que tange à transferência, penso teressa a quem se detém exclusivamente na questão do condiciona-
que se trata de um veículo para o enconlro existenciaL Portanto, a mento social? Vejamos mais de pertoz o conhecimcnto, a comprecn-
quintessência da psicanálise, aceitável ontem como hoje, pode ser são não poderiam deíxar dc estar também condicionados socíalmen-
formulada da seguinte maneira que abrange ambos os princípios do te. Uma análise minuciosa mostra que só cstão condícionados o su-
tornar-sc conscicnte e da transferêncíaz “Onde houver id, passará a jcito que comprcende c o processo da compreensão, mas o objeto que
haver ego", desde que sc acrescentez “0 ego se torna ego ao Iado do é compreendido ou se quer comprecnder escapa de qualquer condi-
lll. cionamento sociaL O que se propõe a fazzr o sociologismo. no entan-
í i Í to, é provocar o desaparecimento - por trás da sempre recalcada ple-
IL Sociologismo nitude de condicionamento do sujeito - 0 conhecimento do objeto!
Ê

Todo o humano é condícíonado. Por outro lado, o que distingue ver- Añnal de contas, o que importa é levar o sujeito condicionado a ab~
dadciramente o humano é o elevar-$e acima de sua própria condicio- sorver o objeto. O objcto se vê incorporado ao sujeito, é cntregue à
nalidade, quer dizcr, “transcendendo-a”. O homem só é autcntíca- possibilidade de condicíonamento do sujcito, no que esse extremo
condionamento signiñca nos seus aspectos de dcterminação c de deñ-
mente homem na medida em que se situa - na qualídade de ser cspiri-
nição. 0 objeto aparece, então, do ponto de vista sociaL determínado
tual - além de seu ñsico e psíquico. Em outras palavrasz o homem só
é existencial na proporção em que se afasta tanto do vital quanto do
sociaL Certamentc ele é também um ser vital e socíal (e veja-se o que
foi dito, antes, sobre a psicanálise e a psicologia indívidual), mas a 25 Veja-sc Viktor FrankL Der Wille zum Smn', pp. l37-138.' “0 perigo não residc na m-
possibilidade de transcender as necessidades vitais e socíais faz parte ta de univcralidade. mas principalmente, pclo contrário. na aparéncia de uma totalida-
de sua natureza. A sujeição do homem não é, portanto, apenas um de do saber. na rcivindicação feila por tantos ciemistas no scntido de um 'saber glo-
bal" (Jaspcrs). Assim que isto ocorre. descamba a ciêncía para a ideologia. No que dnz'
elemento factuaL é uma realidade que clama, por assim dlz'er, para ser
respeito especiñcamcnte ao conhccimento cientíñco do homcm. a biologia dcgenera
ultrapassada. cm biologismo. a sociologia cm sociologismo c a psicologia em psicologismo."
rw
218 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA "HOM0 PATIENS" 2l9

quanto ao futuro. qua existentia, e deñnido também no modo de scr, ído mundo um pedaço. o mundo circundante), capaz de criar um
qua essenu'a. Com isso, porém, se renuncia à objetividade do objeto - mundo de valores,-ainda que subjetivos e relau'vos.
o sociologismo se torna um subjetivismo. Que pretendem exatamente os sociologistas? Eliminar a objctivi-
O erro cometido no sociologismo é confundir a coisa com o scu dade dos objelos, c dcssa forma, onde houver valores objetivos, dçs-
conteu'do. O conteúdo de um conhecimento é imanente à consciêncía valorizá-los.
e está subordinado à possibilidade de condicionamento do sujcito; Esta nossa añrmacão, contudo, precisa scr comprovada. o que
por sua vcz, o objeto de um conhecímento transcende a consciência c há de ser feito com exemplos, mostrando que por trás do sociologis-
não se submcte de nenhuma forma ao condicionamento do sujeito. mo (assim como do psicologismo) e por -.°ra's do seu relativismo há
Sabemos igualmente o motivo por que toda comprecnsão é con- uma tendência à desvalorização.
dicionada subjetívamente no mais alto grau: é que todo conteúdo Como exemplo. servc-nos um livro de Theodor Hartwig intítu-
corresponde, em príncípio, a um setor apenas do campo objetivo. Os lado Der Exislendalismus. Eine politisch-reakIionãre ldeologie (Vie-
órgãos do semido desempenham uma função dc ñltro; além disso. na, l948). chroduzimos inicialmeme um trecho quc aborda a ñlo-
cada órgão, num caso determinado, está sintonizado para uma ccrta soña em geralz “A ñlosoña é ensinada pelo Estado nas univcrsidadcs
frequ"ência. Mesmo o organismo total não consegue captar senão um a ñm de meter na cabeça da juventudc cstudantil cerlo cstado de ina-
setor do mundo, que passa a scr o seu mundo circundante cspecíñco. daptacão à realidade"(2). chos que o autor se ocupa pnn'cipalmente
Todo mundo circundante representa, portanto, um aspecto do mun- do condicionamento da ñlosoña. o que é caractcrístico do ponto de
do, e todo aspecto, por sua vez, uma seleção do espcctro do mundo. vista sociológico, embora não se possa dizer que seja típico do proce-
O que nos interessa mostrar aqui é que todo condicíonamcnto, dimento da sociologia. Quc a direção seguida pelo autor sc revelc
toda subjetividade do conhecimento afetam tão-somente o quc é sele- unilateral é um pomo que interessa, não a nós. mas aos sociólogos.
cionado no ato de conhecer, e não a totalidade em que se operou a Continuemosz “A preocupação metafísica da ñlosoña alcmã a partir
seleção. Em outros termosz o conhecimento é seletivo, mas não produ- de Kant deveu-se ao fato de que na repartição colonial do mundo a
tiva Jamais produz o mundo, nem sequer o mundo circundante; 11m'i- Alemanha ñcou para trás". (l39) Também este julgamento sobre a
ta-se a fazer nele uma seleção. metafísica seria da competência exclusiva dos sociólogos, se o autor
Algo parecido ocorreno organísmo social, que também condi- não se pusesse a gencralizar ao sentenciar. por exemplo, que a inquie-
ciona a cognição e o conhecedor, mas não produz nada, nem condi- tação metafísica é (e poder-se-ia acrescentar “nada mais quc”) “o
ciona o conhecido e o que cstá por conhecer. O sociologismo, porém, medo do comunismo"(8). Em outra passagem ana'loga, e da mmma
age como se também o objeto dependesse, em sua essência e sua exis- forma globalizante. identiñca liberdade com a liberdade do capital
téncia, do fator sociológico. Daí, sucede que sempre vê apenas a rela- dos monopólios de avançar a cotovcladas". Enñm, o conceito de
"nada", tal como se cncomra cm Heidegger, é equiparado ao "declí-
lividade sociaL À semclhança de qualquer relativismo, realitíviza tu-
nio da burguesia" (83). Parece cstranho ver o autor citar uma frase
do, com uma exceçãoz absolutaliza-se a si mesmo. Por isso é que os
sociologistas se recusam a aplicar seus sociologismos a si mesmo. de Jaspersz “Afora os p'alpávcis molivos e situações de caráler psico-
lógico e sociológico. atuam no mundo o absoluto da existência e a es-
Eles bem sabem por quê...
piritualidade das idéias". Todavia, logo a crítica como sendo “derro-
'

O biologismo e o psicologismo - que ignoram o organismo so-


tismo político“. capaz de prejudicar qualquer iniciativa (l74). Poder-
ciaL e consideram isoladamente o organismo vital, psícofísico - enfo-
sc-ia esperar que ele dissesse o contrário; mas o autor não discute, |i-
cam com exclusividade o biológico ou o psicológico, e não conse-
mita-sc a pontiñcan
guem enxergar a pessoa espiritual por trás do organismo psicoñsic'o;
deixam de reconhecer a existência do subjctivo-espiritual, enquanto Prosscguindo, H artwig analisa e comesta o existencíalismo tam-
o sociologismo esquece o objctivo-espiritual - o logos - já que relati- bém do ponto de vísta exclusivo e unilateral do sociologismoz "a
viza c subjetiva tudo, referindo-o ao síciológico. crença na Iiberdade cxistencial da vontade deriva da ilusão surgida
numa época cm que a liberdade de ação política era durameme repri-
Para o sociologismo, o sociológico é tudo, é todo-poderoso; o mida por medidas dilatoriais" (159). A vonlade livre é para o autor
objeu'vo-espiritual não é nada, nada mais que um produto. O soc¡o- mera ñcção_ já que “a psicologia profunda moderna acabou com o
logismo impõe a noção de que o sociológíco é produlivo, cm vez de conceito de liberdade da vontade de maneira radical; os impulsos que
seletivo, e inclusive capaz dc criar um mundo (e não apenas de extrair
220 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA '^HOMO PATIENS" 221

atuam em nosso inconsciente é que cfetivamentc dirigem nossa von~ íreproduzir sem comentário três frasesz “ Prosscguc-se interminavcl-
tade“ (76). Pensamos que isto - muito mais do que a tese de Jaspers - mcnle neste tom, e seria de morrer de rir se não fosse tão trístc" (69);
é que é “dcrrotísmo". Quem se pode espantar, portanto, com que “o que hoje sai a lume não vale a tima c o papel gastos na imprcssão“
nosso autor coloque o existencialismo entre “os absurdos", no mcs- (20); “contra tamanhas tolíocs não adiama qucrcr argumemar" (I90).
mo grupo em que situa “a magia, o ocultismo e o cubismo“? (153) Nisso estamos de acordo com Hartwig e aquí oessamos qualquer dlscus-'
Adicionando ao sociologismo o psicologismo, Hartwig añrma sa_'o.
que 0 ñlósofo sofre dc “aberracões psíquicas” (65) c que, na verdadc De que se trata na realidade? O psicologismo e o sociologísmo. a
“tanto o homem religioso quanto o ñlósofo são os maiorcs cgoístas" exemplo dc todo niilismo. tencionam sempre, em última análise. al-
(IS-ló). Aparentemente “a psicologia abismal nos revelou o caráter cançar um objetivoz jogar conlra a metafísíca ontológica a ciência
neurótico, não apenas da religião, mas de toda a metafísica" (46). O ôntica. Para isso, Iançam mão das ciências naturais, exatas, empíri-
autor não se dá ao trabalho de fazcr o seu diagnóstico com precisão e cas, “puras". Mas esquecem que toda ciêncía (inclusivc as ciências
sericdade; de outro modo, não sc compreendc que ora se rçñra a sin- naturaís) e'. por sua vez, de algum modo, mctafísica. o que ímplica a
tomas neuróticos, ora psicóticos. Por exemplo, na págína ll, declara adoção dc hipóteses metafísicas. Mas porquc essa mctafísica é
que “no caso do existencialísmo e da fé cristã no Além predominam "implícita“, como já observamos antes, ela frequentemenle é falsa.
as idéias delirantes", enquanto, na página 70, proclama que “a reli- Não esqueçamosz as deduções metafísicas de uma ciência ôntica são
gião constitui uma espécie de neurose obsessiva”. E não nos vamos possíveis; as pressuposiçõcs metafísicas, no entanto, são necessárías.
deter a discutir formulaçõesjornalísticas do tipo “a religião é o apên- A Ciência é forçada a empobrecer a existência. não pode senão re-
dice psíquico do homem".(68) cortar em cada caso, do espectro da realidade, um aspecto particular
No mais, a religião representa para Hartwig um narcótico cqui- do mundo. Somemc quando faço abstração dc tudo que o homem ul-
valente ao esporte, ao cincma e ao jazz. “Toda religião provém do trapassa, somente quando ajo como se o homcm se limítasse apcnas
pensamento infantil dos homcns primitivos; Dcus é um substituto do ao ser ñsico, somente então posso dedicar-me, por exemplo. à neuro-
pai para crianças pequenas ou grandes" (86). Por quê? Porque as logia. Para mim. como neurologista - ou melhor, quando me dedico.
críanças pequcnas imaginam Deus como um ancião de barbas bran- na qualidade de neurologista. a um homcm, um doentc - apcnas ncssc
cas e modos distíntos, correspondentc ao condicionamemo psicológi- espaço de tcmpo é válido o que añrmou Hartwigz as qualidadc
co da imaginação humana, e as “crianças grandes" - os pais dos pe- psíquicas são funções do sistema nervoso.
quenos - imaginam Deus como um “absoluto" nebuloso, em confor- Cumpre que ninguém esqueça íssoz muito antes de ter visto cm
midade com 0 condicionamemo sociológico de suas imaginações (¡ma- minha vida um cérebro, eu já conhecia o espiritual - sempre live
ginações condicionadas pelo falo dc que esses indivíduos, por sua si~ consciência da espiritualídade como realidade imediata e indubilá-
tuação sociaL puderam desfrutar da cducação que lhes ofereceu a es- veI. Posso colocá-la entre parénteses, devo inclusive fazê-lo, na medi-
cola secundária). da cm que não deseje apenas saber algo do homcm. mas praticar a
Scrá que é por isso, por serem estas imagens de Deus altamentc ciência do homcm, a ciência natural do homem. Ao mesmo tempo,
subjctivas e relativas - na qualidade de imagens - que Deus não exis- convém Iembrar que esse colocar cntre parênteses (em benefício) da
te? Eis uma dedução típica do sociologismo e do psicologismo! Está- realidadc somálica cria uma ñccã0. Não arbitrariamente, mas real-
vamos desde o começo preparados para um tal contaminação do que mentc ñnge o ncurologisla que o homem “é" um sistema nervoso,
não é condicionado, ou não deve sê-lo, pelo que é condicionado ou ñnge que somente existc o corporaL “como se" o homem não existis-
tem de sê-lo. O psicologismo de um Hartwig não é capaz de outra se espiritualmentc e só adquirisse realidade no plano somático.
coisa senão de qualiñcar Deus de “produto da famasia de cerlos neu- Já dissemos: a Ciência natural deve forçosameme agir “como se"
róticos obsessivos“ (l78). Assim, Deus devc tolerar que o coloquem, o homcm fossc' exclusivamente um “sistema ncrvoso" c, como tal,
bem como ao livre arbítrio. entre as ñcções, destino que há de ser carente de liberdade. Vemos. pois, que a carência de Iiberdade é que
compartilhado pela alma (68). Como era de cspcrar, para o autor as constitui uma flcça'o. E assim chegamos a um resultado diametral-
qualidades mentais são funções do corpo (sistema nervoso) (68). Sig- mcme oposto ao de Hartwig.
niñcativamente, ele indaga “que hormônios desempenham um papel Os deterministas não deixarão. contudo, que oonquístcmos a vi-
na origem e propagação do existencialismo" (52). Que nos seja per- tória com lanta facilidade. A certeza quanto à própria liberdade -
mitido não entrar cm polémica sobre esse tipo de questão. Basta-nos noção em que nos fundamentamos - é por eles rotulada de auto-
222 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSlCOTERAPlA
“HOM0 PATIENS" 223
engano. Não ncgam que o homem experimente a sensação de libcr-
dadc. mas observam que isto não signiñca que ela cxistaz trala-se, ímata Em outros termosz é mais verossímil que a droga mencionada

.~_r
pensam, de uma ilusã0. Só o que é lícito añrmar, a seu ver, é que 0 cause, e não anule, o auto-enga_no sobre o livre arbítrio.
homem vive como se fosse livre. Finalizemos a disçussão do tema da origem psíquica das iniciati-
Aparentementc, temos uma añrmação contra outra añrmação. vas sociológicas com outra citação do livro dc Hartwig, a frase ñnal
Para prosseguir, precísamos fazer uma digressão. Os ñlósofos deter- do texto, se não contarmos o epílogoz “Dcvemos ainda vencer a
ministas não são os únicos a pregar que o homem não é livre, tam- sombra metafísica da religião reavivada na roupagem do existencia-
lismo” (l85). Contrariamente a N1'etzschc. Hartwig acha que Deus
bém os esquizofrênicos paranóides añançam o mesmo, só que par-
tem da expcriência de si mesmos como não-livres, c limitam sua tese ainda não está “morto”. 0 condicionamcnto psicológíco que está na
à própria vontadc. Assim, por exemplo, dcclaram que a vontadenão base das constantes revelações sociológicas de condicionamentos so-
é realmente deles, mas de outrem, que sua volição é comandada e in- ciológicos salta aos olhos: os desmascaradores sociológicos foram
fluenciada por tcrceiros. e assim por diante. psicologicamcnte desmascarados.
Alentcmos para que o ñlósofo determinista pode do mesmo Retornemos ao ponto de onde partimos. Para o sociologismo,
rrzlodo se colocar na situação de experimcntar sua vomade como não- di55emos, o sociológico é tudo, é todo-poderoso. 0 sociológico
lirc ou, como ele preferiria expressar, a experimentá-la Iambém abrange o sociaL o cconômico, o político ou. em outras palavras, a
cbmo não-livre. Para consegui-lo, basta tomar 0,000030 gramas de á- sociedade. a cconomia. 0 Estado. ”
cido lisérgico. quamum sat est. 1° A intoxicação resultante se manifes- Devemos, contudo, reguardar-nos de um mal-entendído
ta sobretudo psiquicamente através de estados de despersonalízação que seria confundir sociedade como comunidade. A comunidade se
(e desrealizacão). transtornos da faculdadc pcrceptiva etc. Um sujei- baseia no “nós". na relação entre o “eu" e o “tu”, enquanto a socic-
to da experiência tem a imprcssão dc que lhe falta a pele, de que está dade se baseia no “ele", ou melhor, é constituída por esta catcgoria.
dc alguma maneira fora da pele, dentro de outra pessoa; outro acha A diferença se torna mais evidente ainda se, em lugar de sociedade,
que suas pernas inñnitamente compridas, que seu pé esquerdo se en~ pensarmos em “massa". A sociedade precisa de personalidades sin-
contra muito quilômtros abaixo e, ñnalmente que o estômago se di- gulares, assim como cada pcrsonalidadc precisa da sociedade para se
vide ao meio (rostos e ñguras sofrem deformações estranhas. carica- desenvolver.
turais, e são chamados, como num certo caso, dc “rostos e ñguras de
Se chamarmos de “coletivo” tudo que se opõe ao verdadeiro
Picasso); enñm, outro sujeito ainda, sente uma “separação mpacial
sentido de “comunidade", torna-se evidente que todo sociologismo
do ego em duas partcs" c explicaz “O que me rodcia e cu mesmo pa-
se baseia. no fundo. num pensamento coletivista. Digamos, de passa-
reccmos marionetes". Como marionetes se semem também outros
gem, que nos casos em que o pensamento coletivista leva a uma valo-
sujeitos de experimentação. “|:'n'quanto dura 0 efeito do LSD não se
ração colctivista, o padrão de medida passa a ser a utilidade socíal,
vive, se 'transcorre' ” - para citaf uma expressão espontânea de um ñcando de fora a dignidade pessoaL
dos pacientes.
Seria preciso. emão, tomar ácido lísérgico para sentir em si mes- O pensamcnto colelivista é o sintoma de uma enfermidade pade-
mo a verdade do determinismo e do surrealismo? E essa verdadc se- cnda pelo homem médlo do nosso tempo. Em suma: 0 coletivismo é
ria de tal ordem que só com o auxílio de tóxicos poderia ser experi- apenas um dos aspectos da palologia do espírito da e'poca.
mentada? Que verdade seria essa?
Enñm, que um dos sujeitos de cxperimentação tenha doís eus c o

›..
outro, pernas de vários quilômetros, scrá provavelmente tão verda-
deiro quanto supor que a vontade do homem não seja livre, ou, para 27 No mcu livro Der Wille zum Sinn (Hans H uber, Berna. l972) cscrcviz "Não querc-
usar ojargão dos sujeitos da experiência, que o homem seja um autó- mos añrmar que o marxismo tenha ensinado que as condições econômicas e sociais
dos homens sejam delerminanles de mancira exclusiva c unilateraL O marxismo. com
cfeilo. admile que a relação de dependência cnlre o scr social e a consciência não se

mh
processu num sentido u'nico. havendo uma influência reativa da consciência sobre o
fator social". Ass¡m. o homem não é apcnas marcado pelas condições socioeconômi-
26 A respeito deste ponto c do que segue. veja-se W. A. StolL Schweiz Arch. Neur. 60, cas e polílicas. mostra-se capaz de plasmá-las. De nenhum modo. portanlo. deve ser
|947. e ain_da A. M. Becker. W. Z. Nervenhk 2. 402. 1949. uma vílima dclas e assim permanecet Pclo comrário, podc criá~las.
224 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA “HOMO PATIENS" 225

Patología do espírilo da época mrassa dos psicopatas que possibílitam a chcgada ao podcr de um

$
O patologista alemão Virchow nos legou a seguinte máximaz “A l lídcr político.
política nada mais é que a medicina praticada em larga escala”. Se Se desejarmos expor os principais achados proporcionados pelo
contemplarmos ao nosso redor a vida política, ñcaremos tentados a exame da patologia do espírito da época, enumeraremos quatro da-
mudar a fórmula para “A política é a psíquiatria por atacado”. Ies.
Se forjusta a frase de Virchow, o médico tem o direito de se ocu- l. A atilude provisória diante da vida - Sua origem sc deve às circuns-
par dc polít¡ca; se for justa a nossa, então ele tem, além disso, a obri~ tâncias peculiares em que viveu o homem no tempo da guerra, quan-
gacão. do cle não sabía se estaria ainda vivo no dia seguinte. Mergulhado
Fala-se hoje de “psicopolítica“ (Johannes Neumann) e até da nesse clima de transitoriedade evidente. o homem se abandona ao
conveniência de submeter os líderes políticos a exames psiquiátricos quxo dos acontecimentos e quando quer caplar algo de verdadeiro,
periódicos. A patologia do espírito da época,_ todavia. não signiñca percebe que já passou. Não nos libcramos ainda dessa atitude provi-
que exista também uma doença mental da época. Está comprovado, sória que devemos à guerra; ontcm como hoje, o homem contempo-
pelo contrár¡o, que continuam a se manífestar perturbações autêntí- rânco é por ela dominado. Apoderou-sc dele uma fobia da bomba
cas da mente. inclusive suicídios, independentemente das condições atômica; adota como slogan o aprês moi Ie deluge, ou seja, “depois dc
do momento que vivemos (sua incidência, por exemplo, não aumenta mim, a bomba atômica“...
durante as crises mais agudas, ou durante as guerras). O homem que se mantém numa atítude provisória não julga ne-
Outra coisa que nos compete comprovar é que em todas as épo~ cessário tomar n deslino em suas mãos, enquanto o homem afctado
cas existe uma añnidadc entre certas psicopatias, de um lado, e deter~ pelo segundo aspecto da patologia do espírito da época, o fatalismo,
minadas orientações políticas, de outro. Os psicopatas têm sempre nãojulga isso possíveL 0 homem da atitudc provisória diz “não vale
uma tendência ao extremismo, ao radicalismo político. 19 a pena", o fatalista diz “não depende de mim". O primeiro vê na vida
No Vlll Congresso de Psiquiatras Escandm'avos (Copenhaguc, uma transitoricdade, 0 segundo. uma fatalidade.
l946) foi divulgado o rcsultado das investigações de uma comissão
de psiquiatras que, por ordem do Ministério da Justiça da Noruega, 2. A orientacão fatalisla perante a vida - O homem adquiriu essa
estudara o dossiê de 60 mil antígos partidários do Quisling, tendo orientação não só em virtude das experiências da guerra em geral
sido encontrados paranóicos, paralíticos. psicopatas paranóides mas, particularmente, das que teve no cativeiro. Um dos meus pa-
numa proporção duas vezes e meia maior do que a média registrada cientes assim se expressou a respeito: mEstavam sempre nos empur-
para a população em geraL Descobriu-se que cerca de metade dos rando". Foi sobretudo o fascismo, com seu princípio autoritário, que
membros do Partido Nacional-Socíalista cra formada de psicopatas. educou o indivíduo na fuga e no medo da responsabilidade pessoal,
Nas ñleiras dos combatentes noruegueses solidários com os alemães, treinando-o para uma obediência cega ou fazendo dele, para usar o
só em 49,61/o° dos casos o quociente de imelígência se situou entre 90 jargão da época, “um sequaz obstínado” dos líderes militares e polí-
a 100. ticos.
Como se vê, qualquer exame psiquiátrico do dirigente político O homem médio de nossos dias é possuído por uma superticiosa
chega tarde demais. Seria preciso submeter à investigação médica a crença nos mais variados poderes do destino e o niilísmo que hoje
impera favorece uma tal inclinação. O homem é imbuído dos três
principais “homunculismos”: biologísmo, psicologismo e sociologis-
mo, o que corresponde, respectivamcnte, a fazer dele um autômato
movido por reflexos; um aparelho psíquico; ou um produto do san-
28 Compare~se oom a formulação rcspectiva cm Anzliche Seelsorge: “O scntido da in-
gue e da terra, da hereditariedade e do meio ambiente; em qualquer
dividualidadc se efeliva cxclusivamente na sociedade" (88). "Mas sc a sociedade mes-
ma dcvc tcr um scmido. ela não pode prcscindir da individualidade. enquamo na mas- dos casos. uma criatura irresponsável e sem ll'bcrdade. Ou ele culpa a
sa o semido se anula na medida em que a singularidade represenla um fator dc pertur- situação social em que se encontra, ou então as predisposiçoe's psi-
bação em seu scio“. “Uma verdadeira sociedade é essencialmcnte uyma sociedade de cossomáticas dc que é dotado. A atitude fatalista toma como pretcx-
pcssoas responsáveis - a simples massa é. pelo contrán'o. a soma de serca despersonali- tos os impulsos, o id e o inconsc1'ente, e deforma a psicanálíse. colo-
zados" (p. 90).
cando-a a seu serviço.
29 Ornulo Odcgard. bem como Frõschaug, Acla PsydL 47. 556. l947.
226 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSlCOTERAPlA “HOM0 PATIENS" 227

Tampouco está isenta de fatalismo a psicologia de Jung, que vê

-.s_.
no “arquétipo". no “¡nc0nscicnte arcaico e cole_tivo”, uma fatalida- que Hitler pronuncíou essas palavras até hoje, importa cada vcz
de. Náo nos surprecndc, pois foí prccisamcntc Jung qucm, na sua menos saber que objctivos perscgue uma política do que os meios dc
crença no ínconsciente coletivo, atribuiu uma culpa colctiva aos ale- que ela se serve para alcançá-los. Em outras palavrasz o que importa
mães - até mcsmo aos antifascistas que cstavam nos campos dc con- não é a fmalidade. é o estílo da política. Existem dois estilos em polí-
tica e dois tipos de políticos. Para uns. o ñm santiñca os meios. en-
centração, qualiñcados, no seu entender. de nacional-socialislas in-
quanto outros têm plena consciência de que certos meios são capazes
consciemes. Com isto, em presença do “inconsciente coletivo“. csta-
dc profanar os ñns mais puros. De qualquer maneira. não é verdade

. -.-
mos _|á mgrcssando na área do tercciro diagno'stico.
que o ñm justiñquc o meio; não pode ser verdade, nem que seja pelo
fato de que para o homem ao qual todos os mcios pareçam bons,
3. 0 pensamento coletivista - O nacional-socialísmo, com seus crité- tampouco o ñm será sagrado.
rios unicamente colctivos e globais, foi o principal educador do ho- Há em particular uma coisa qu_e deve ser preservada de se trans-
mem no rumo do pcnsamemo coletivista. Bastava ser alemão, quer formar num meio: é o homem. do qual disse Kam, em sua scgunda
dizer, pertencer à “nação alemã” para merecer um ponto positivo; formulação do imperativo categórico, que jamais, e cm nenhuma cir-
em compensação, bastava ser judcu para encher-se dc culpa. lnfeliz- cunstância, poderá ser degradado à situação de simples meio para
mente, mesmo aqueles que deveríam curar cssa enfermidade dc mas- um ñm.
sa também se deixaram contagiar - do contrário não se compreende- Enquanto a ñxação da atenção num ñm politiza o homem (das
n'am as alusões à “culpa coletiva”. Bastava ser alcmão para incorrer Bezwecken). a contemplação do sentído derradeiro humanizaria a
em culpa, ou ser alvo de zombarias na condição de “prussiano” ou política (die Besinnung). É preciso não ter a política na conta de uma
“burgués". Ora, quem se refere globalmeme aos “pequenos-burgue- panacéia, tanto mais que ela constitui um indício dc distúrbio patoló-
ses” pode ser considerado igual aos que aludiam aos “_iudeus” num gíco. Ê claro que o que é simoma não podc ser tratamento.
enfoque também globalizante. Na arte, a tendência politica é capaz dc envenenar uma obra.
Emitir juízes coletívistas servc. añnaL para fugir à responsabili- Não se dcve contudo confundir a tendência política da obra com a
dade de uma opínião pcssoaL Ocorre assim, que a maioria das pes- conseqüência política da ação do artista. “A arte não tolera nenhum
soas hoje em dia não tem opíniões, as opiniões é que as “têm”. programa político, nenhum itinerário rígido. Mas de si mesma a arte
O ponto de cristalização da opinião coletivista são os slogans. Se é sempre tendencíosa, porque tende para a humam'dade. Se o artista,
cles não exístissem, poderia surgir em Iugar das generalizaçõestota1i- por sua tendência política, é inñel à essência da arte pcla conseqüên-
tárias aquílo que lamo faz faltaz a complememação imegral dos pon- cia política de sua atuação ele permanece ñel à sua condição de ho-
tos de vista. mem.
Para os quatro achados relacionados com a patologia do espíri-
to da e'poca, existem analogias clínicas - note-se bem, nada além de
4. 0 fanatismo - 0 homem que pensa nos moldes coletivistas d..°sco-
analogías. Como tais. se apresemam duas formas de cada um dos
nhcce a própria pcrsonah'dadc, já que é absorvido pela massa, ou
grupos conhecidos pela psiquiatria clínica, a saber, a psícose manía-
dito com maior precisão, dissolve-se nela. Com o fanático não ocor-
co-depressiva c a esquizofrenia.
re o mesmo; ém compensação, desconhece a personalidadc do outro,
O indivíduo em atitude provisória diante da existência corres-
daquele que não pensa igual a cle. m
pondeña ao doente atacado de mania, já que deste sabemos que víve o
O totalitarismo converteu o homem cm fanático. O que é o tota-
dia-a-dia (Ludwig Biswangcr, Erwin Strauss), ñxa-se na consideração
litarismo ñca bem claro na seguinte frase dc Hitlerz “A política é um
do momento presemc.
jogo que são permitidos todos os truques". Bem, desde o tempo em

3l 0 que acontece porérn. quando a vocação artística nào se añna com a vocação de
homem c alé mesmo chcga a lraí-|a? O que suoedc quando o homcm e a obra divcrgem7
30 Somente num caso o fanáuco deíxa de ignorar a personalidade do outroz é quandc A culpa é do doutor; ao público pore'm. cabc a culpa dc não sabcr Uislinguir emre o
odcia. odcía pessoalmente. Melhor seria que o homcm nunca odiassc “alguém". apc- homcm e a obra. Que alguém não viva como escrevc. é tristcz mas por isso sc torna mo-
nns “algo" nesse alguém nos verdadciro o que foi cscrith
228 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA
"HOMO PATIENS" 229

O correspondente ao homem com on'entação fatalista pcrame a


vida scria o melancólico quc, na sua inibição psicomotriL sua expe- ídeuma ou outra cstão dentro do ser human0; cabe-lhe decidir, cm
ríência de paralisação da vontadc c impotência em face do destino, cada caso. qual delas se tornará uma realidade. O homem é um ser
cruza os braços, inativo (inclusive no scntido literal). que decide a todo o instante, decide sobre o que fará no instante se-
O pensamento coletivista, ou melhor, a scnsação coletivista da guinte.
vida, tem seu equivalente na esquizofrenia catatônica, na qual sc es~ Há somente duas “raças": a raça dos homcns dcccntes e a raça
gotam todas as iniciativas e todos os interesses. Também o coletivis- dos que não prestam. Juntamente porque sabemos que a primeira
constituí uma minoria. compete-nos aumentá-la e fortalecê-la.
mo obriga a pessoa a renunciar a qualquer iniciativa, qualquer intc-
A humanidade chegou a um máximo de ciência, de consciência.
resse e a se nivelar aos demais. O Estado se tornà um Moloch e faz do
de saber. E a um máximo de responsabilidade - mas. ao mesmo tcm-
homem um Golcm.
po, a um mínimo da consciência da responsabilidade. O homem de

.
O equivalente ao fanatismo é a paranóia. 0 fanático não apenas
hoje sabe muito - mais do que nunca - e é responsável por muito -
lcmbra o paranóico - com suas idéias maníacas de grandeza, de per-
por muito mais do que outrora; mas do que mcnos tem noção. mcnos
seguição e de conspiração - mas às vezes é rcalmcnte um paranóico,
na medida em que padece de idéias de supervalorização. do que nunca dantcs, é desse seu ser responsáveL

'
Basta, quanto ao diagnóstico. Que poderíamos dizer agora A ñnalidade da terapia na neurose coletiva é a mesma que na in-
sobre a terapia? Ou scrá que se aplica a nós o que Bergson dísse quan~ divídual: culmina no apelo à consciência da responsabilidade. O ca-
do comparou os ñlósofos a médicos que diagnosticam enfermidades minho que conduz a csse objetivo passa sempre pelo indivíduo. pcla
que são íncapazcs de curar? Não existiria um tratamento para o espí- consciência da responsabilídade e a añrmação da responsabilidade
rito da época? do índivíduo (cxíste uma reação em cadeia de exemplo).

zv TVATBTFT
Se admitíssemos que não, seríamos fatalistas. Mas não somos Nesse cakmínho. o que mais importa é opor-se ao fatalismo. A
fatalistas. Somos, isto sim, pessimistas. Fomos levados a sê-lo. Aos condição prévna é que o homem deixe de ser considerado um autôma-
olhos de muitos. a história do mundo vem sendo uma série dc catás- t0. Na vida humana não há automatismm nem em pcquena nem em
trofes. nas quais o homem se precipita. O homem. todavia, dá mais a grandc escala. Não existe progrcsso automático nem decadência au-
infpressão de alguém _que cai do que de uma criatura “caída”. A todo tomática do mundo, do Ocidente, etc.
instante uma partc do organísmo da humanidade se infccciona e tão A supcração do fatalísmo baseía-se no conhecimento de que
logo começa a sarar, outro ponto é afetado. ninguém é anônimo e que toda situação é histórica. nem que seja no
Esse sentimento pessimista da vida impregna também a arte. A semido da autobiograña, da história não eêcrita da própria vida.
artc nem se deixa “dirjgír” nem se deixa “desviar"; nâo permitc ser Se quisermos levar nossos pacientes à consciência de sua respon-
afastada daquilo que percebe. Se a arte há de ser verdadeira não cabe sabilidade, teremos que tornar presente o caráter histórico da ex¡s-
exigir que seja ao mesmo tempo sempre be1a. lsto seria confundir es- lência e, com isso. a responsabílidade do homem para com a vida.
tética com cosmética e fazer do artista o membro de alguma associa- Ao paciente sentado diante de nós na hora da consulta recomcnda-
ção de embelezamemo da sociedade. Assim como o homem não é um mos que aja como se estivesse, no ñnal da vida. folheando sua bio-
turista solto no mundo, tampouco a arte é uma associação destinada graña e se detendo exatameme no capítulo referente ao momento
a enfeitar o reaL Fôssemos levar a sério uma tal concepção de arte, a atual e que, por milagre, Ihe fosse pcrmitido decidir o conteúdo do
Sinfonia Patélica só poderia ser cxecutada ílcgalmcnte. capítulo seguinte e corrigir o que lhe parecesse passível de aiteraça'o.
Somos pessimistas e por isso mesmo. e não apesar disso, somos O imperativo calegórico poderia ser reformulado da seguinte manei-
ativistas e nunca fatalistas. Antigameme o ativismo acompanhava o ra: “Vívc como se cstivesses vivendo pela segunda vez. e como se da
otimismo com a fé no progresso e com a felicídade que essa crença primeira tivesses agido de modo tão falso como estás pretendendo fa-
proporcionava. Hoje estamos dcsíludidos e é justamente do pessimis- zer agora”. Por meio dessa fantasia, adquire-se consciência da res-
mo que o ativismo recebe os seus impulsos. ponsabilidade que pesa sobre cada um ao decidir o que será o próxi-
Conhecemos o homem. Chegamos a conhecê-lo como lalvez ne- mo momento.
nhuma geração anterior o tenha conhecido. Sabemos do que é capaz. Cada homem é único e onginaL e na consciência disso não nos
Sabemos que inventou a câmara de gás, mas também que nela cntrou devemos deixar desconcertar nem pelos resultados da investigação
oom uma pmoc nos lábios ou mmando a Marselhesa. As possibilidades das ciências naturais nem pela visão naturalista do mundo. Não nos
FH
230 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA

devcmos perturbar quando John Dewey diz: “A cspécie humana se


compõe de uma pcquena quantidade de sercs vívos que, por um bre-
vc período, se diferenciam um pouco mais dos demais seres de um
planeta mediano de um sistema solar insigniñcante” ou se lamentaz
“Comparado com a espécie humana, o cosmo é imensamentc gran-
de". Quem se impressionará com o fato de que a Terra, em compara-
ção com o Universo, scja pequena e nem sequer se situe no centro?
Quem desse importância a isso sc pareceria com alguém que não se
conformasse com o fato de Goethc não tcr nascido no centro da Ter-
ra e Kant não ter vivído em um dos seus pólos magnéticos...
O fanatismo não é menos imponante do que o fatalismo nem
encerra menor perigo, já que constitui uma epidemia psíquica. À se-
melhança de outras epidemias, também esta, de ordem psíquica. é
B. Da negação à interpretação do sentido
uma conseqüência necessária da guerra; ao contrário, porém, de ou-
tras epidemias, representa também uma causa possívcl da guerra.
Além do mais, é muito contagiante. Seus agentcs patogênicos são os
slogans, que uma vcz lançados no seio das massas provocam uma
reação em cadeia psicológica, mais perigosa do que a reação em ca- Não ínteressa à análíse existencial ou à logoterapia uma psicoterapia
deia física que servc de basc à bomba atômica. Esta não teria existido que se distancia tanto do sociologismo quanto do psicologismo - o
sem aquela. que o homem “pode fazer", o que lhe é “permítido fazer“ ou o que
'

“tem de fzer", e sim essencialmente o que “deve fazer”. Para intro-


duzir essa categoria de “dever”, de valor, de semido. na psicoterapia.
cumpre superar antes o niilismo latente em todo ñsíologismo, psico-
logísmo e sociologismo. Em vez da negação niilista do sentido, deve-
se buscar a interpretação do sentido. No entanto, "interprctar" não
signíñca “dar” um sentido qualquer, arbitrariamcnte, à existência. O
que importa é encontrar “o” sentido.
_Diante do problema de como é possível tal descoberta, partimos
de uma resposta que costuma ser dada à questão do scntido da vidaz o
sentido da vída é a própria vída! No primeiro momento, parcce que
isto é uma tautologia e uma solução ñctícia. Mas se examinarmos de
perto o assunto, veremos que se trata não propriamcnte de uma for-
mulação tautológica, e sim paradoxaL Quando digo que o sentido da
vída é a própria vida, a palavra “vida” é usada duas vezes c em cada
uma delas, com uma acepção distinta. Na primeira, entendo por “vi-
da" a vída factuak n_a segunda, a vida facultativa. Uma vez tal qual ela
nos é dada; outra, a vída como missão a cumprir. Em outra palavras:
despojada de seu caráter paradoxal, a fórmula quer dizer que o facul-
tativo é o sentido do fatuaL
Nisso se manifesta um caráter dialético. uma estrutura polar que
na vída humana é ubíqua. O homem jamais “é". “sempre chegará a
ser". Nunca alguém podeljà dlzer de sn mesmo “sou aquele que sou”,
apenas “sou aquele que chegareí a ser”, ou “serei o que sou" - “serei
232 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSlCOTERAPlA “HOM0 PATIENS” 233

actu, segundo a reah'dadc, o que sou potentia, segundo a possibilida-


rposta para a busca do sentido absoluto está fora do alcancc do ho~
da.
mem.
Somentc Deus pode añrmar de si mesmo “sou o que sou“. Pode
Além de incapaz de comprcender o sentido absoluto, o homem,
fazê-lo porque é actus purus, potência aluada, possíbilidade realiza-
sob nenhum aspecto, consegue reconhecê-Io. Existe também para cle
da. Deus é uma congruência de ser e ser-assim, de exislentia c essen-
um conhecimento absoluto, mas não existe um conhecimento do Ab-
n'a. No homem, porém, há sempre uma discrepância entre, de uma
soluto. ' Ele pode chegar a um conhecimento objetivo, 1 mas não a
parte, o ser e, de outra, o poder e o dever. Esta discrepância, esta dis-
um conhecimento objetivo de si mesmo, pelo comrário, o sujeíto é.
tância entre existêncía e essência são inerentcs à vida humana como
em relação a si mesmo, transcendente. Se é certo que todo ñlosofar
taL
começa por um “assombar-se”, um °°espantar-se”. conforme ensina-
Na medida em que o sentido da existência humana reside na di-
va a ñlosoña da Antiguidade. o verdadeiro milagre com que se depa-
minuição desta discrepância, no encurtamemo dessa distância, em
ra o pensador é mistério, o fenômeno originário de sua própria cxis-
suma, na aproximação de existência e essêncía, não se há de negligen- tência. Como ñlósofo, me espanto de que sou - de que eu sou eu.
ciar o seguintez nunca se trata dc considerar “a" essência, mas a es~ Diante dessa íntima realidadc ou, para ser mais exato. diantc
sência “do" homem, que cabe ao homem realízar e representar, a
dessa verdade extrema, o ñlósofo deve dctcr-sc, pois ela não se deíxa
“sua” essência. Trata-sc da realização da possibilídadc de valor que deñnir em conceitos ou expressar em palavras. 3E Karl Jaspers obser-
incumbe a cada indivíduo particularmcnte. “Chega a ser o que és" vouz “Uma totalidade sem nada fora de si não aprcsentaría mais o
não signiñca somente “chcga a ser o que podcs e deves ser”, mas caráter de uma verdade, da mesma maneira que a totalidade da ma-
Lambém “chega a ser o que só tu podes e deves ser". Não se trata ape- téria não teria peso.” Pode acrescentar-se na mesma linha: o Absolu-
nas de que eu seja um homem - mas de que cu seja eu mcsmo. to já não apresenta o caráter de algo que tem semido.
Como se sabe, o problema do principium individualionis desem- A procura do sentido fracassa tão logo visa a totalidade, pois
boca na pergunta de por que a toda essência está agregada uma mul- csta ipso não pode ser abarcada com a vista. Dito de outro modo, o
e
tidão de existências, de realizações da idéia. O homem aparentemen- sentido do todo ultrapassa nossa capacidade perceptiva. Não se con-
te supera esse princípio, tanto que a toda vida humana corresponde segue dizer nada sobre o scntido do todo, exceto como conceito-
uma única cssência, sua essência individual; toda existência humana limite, no seguinte caso: “O todo” não tem scntido, tem um “super-
é acentuadamente exclusiva no que tange à sua essência. Sim, o ho- semído". o qual, todavia, nada tem a ver com a “metafísica". Signiñ-
mcm_ conscguc até certo ponto supcrar o principium individuationis, e ca somente “repleto de sentido".
inclusive chega a invertê-lo. Ao dizer isto. estamos pensando no ator E impossível conccber o supersentido; por isso, é nccessário
que, com sua existência única, “representa“ (dá vida e corpo) uma acreditar nele. Como é necessário acreditar no supra-signiñcativo,
grande variedade de “caracteres" e '“pessoas”. assim como no “fora dos sentidos”, tudo que não é sensorial mas
Se, como tudo ísso indica, o sentido da vida é que o homem rea- aínda nos é dado 1'medíatamcnte.
lize sua cssência na existência, é evidentc que o sentido da vida há de É impossívcl provar o supersentido, a não ser que nos contente-
ser sempre concreto; vale em cada caso somente adpersonam e ad si- mos com uma demonstração de probabilidade, ou seja, a maioria das
tuationem (ja' que a cada indivíduo, e cada situação pessoaL corres- coisas tem sentido, tem, em cada caso, um sentido concreto; portan-
ponde a respectiva realização do sentido). A questão do sentido da to, a crença de que tudo tem sentido não é provavelmente destituída
vida pode apresentar-sc, pois, exclusivamente de uma forma concrcta de sentido.
e ser respondida unicamente de uma forma atíva. Responder às per- Bem, a descrença no sentido do “todo”, no supersentido, alêm
guntas da vida signiñca sempre se respo_nsabilizar por elas - “efe- de não ter ela mesmo sentido, demonstra falta de amor. Com efeito.
tuar” as rcspostas. a suposição de que tudo seja desprovido dc sentido implica a outra:
Tanto quanto é possível indagar qual o sentido da vida, deve-se
perguntar pclo sentido de uma pessoa concreta e de uma situação
concreta. Tão logo a invcstigação se refcrir ao todo, torna-sc-à ab- l Ver “0 Homem lncondicionado".
surda. Perguntar de um modo concreto pelo sentido é pérguntar ad 2 ldem.
hoc, isto é, visar um sentido meramente relativo, embora não na 3 Segundo Arthur Kmtler, “considcrações lógicas perdem sua função de bússola no
momcnto em que nos aproximamos do pólo magnêtico da verdade c do absoluto".
accpção do relativismo, mas na de um sentido particular. Achar res-

vt
ñ
e +-T..
234 FUNDAM ENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA “HOMO PATIENS" 235

que a existéncia individual é a úníca instância que confere sentido às


- seu fundamento também é desprovído de sentido. Na verda-
coisas (mesmo que fracasse praticamente nessa tarefa), a única porta~ ímento
de, ele “e"' sentido.
dora de sentido. 0ra, isto é orgulho. A humildade faria ver que à to-
Podemos pois declarart “no total”, este mundo, esta realidadc,
talidade cabe uma parcela maior de sentido - mesmo que este não
carece de sentido; “no fundo”. tampouco nossa existência, nosso scr,
seja demonstráveL
tem sentido, pode ter scntido, porque já “é” sentido.
O supersentido não precísa, aliás, de comprovação. Provar que
A distinção entre sentido c superscntido é importante na tco-
ele existe decerto é impossível; é também, por outro lado, dcsnecessá~
ria como na prática. Sc os confundo, haverá uma interferência entre
rio. Se nada tívesse sentido, de uma maneira ou dc outra eu viria a
cles, o que representa uma desvantagem. já que se tornaria impossí-
percebê-lo; no entanto, se tudo tiver sentido, se houver um supersen~
vel agir; não haveria possibilídade de decisão, resolução, responsabi-
tido, não preciso compreendê-lo, porquanto é impossível abarcar o
lidade. Eu ñcaria paralisado, impedido em minha atuação. Porquc se
todo com a vista. Em outros termosz a falta de sentido da totalidadc é
acredito que - não importa o que eu faça e que resultados alcance - o
que deveria ser provada, enquanto a impossibilidadc de demonstrar
supersentido sobrevirá, minha atitude será prcjudícada. Devo, pelo
a plcnitude de sentído não pode constituir uma refutação de sua exis-
contrário, comportar-me como se tudo vá depender do que eu faça
lência. A plenitude de sentido do todo constiui um conceito-limite,
ou deixe de fazer. Dito de outro modo: no que concerne ao supersen-
ou seja, 0 conceito do “supersentído”. Cabe ao cético o onus proban- tido, tenho de agir como se não soubesse de nada ou não acreditasse
di. Pelo contrârio, quem acreditar no supersemido haverá de arcar tão~ em nada. Ainda mais que sobre o supersentido não é mesmo possível
somenle com o peso de não poder comprovâ-Io. Não é, pois, verdade,
saber-se nada. O supersentido aparece no “efeito”, não na intenção.
como se díz com frequ“ência, que o sentido da vida é suportar a sua
falía de sentído, enfrentar o “absurdo” da existência. Pelo contrário. No momento em que estou agindo, devo restringir minha crença
faz parte da vida não conscgui_r abarcar o todo, não compreender o no supersentido a ñm de ser capaz de agir. Devo ater-me tão-
sentido da totalidade nem demonstrá-lo. Não basta dizer que a cren- somente ao sentido que cm cada caso percebo, em vez de visar o su-
pcrsentido, que se impõe. Posso conñar que, de uma maneira ou ou-
ça num supersentido “tem sentído”, ela é semida
Vimos, assim, que indagar o sentido do todo leva ao fracasso; tra, ele acabará por se impor. Posso contar com ele, mas não devo in-
cluí-lo em meus cálculos.
idêntico resultado é obtido quando se deseja investígar a razão da in~
Atenuar a crença no supersentido não quer dizer excluir essa
dagação, o fundamento em que ela se apóia.
crença. A realização de um sentido do qual tenho uma vaga noção
A exístência é o único ser que levanta a questão do sentido. Não
depende do que eu faça ou deixe de fazer; de acordo com isso, acon-
só da faticidade, mas também de sua própria existencialidade. Não
tecerá algo. ou não. O supersentido, porém, impor-se-á independen-
indaga só a respeito de fatos concretos, mas também de seu próprio
temente do que eu venha a fazer ou deixe de fazer, com minha ajuda
sentido, o sentido de seu scr, o qual justamente clabora a pergunta Ê
ou sem ela, com minha cooperação ou sem me levar cm considcra-
sobre o sentído. Nesse ponto, contudo, a indagação abandona a for-
ção. Em suma: a história em que se consuma o supersentído ocorre
ma concreta para se tornar reflexiva. E cntão fracassa, dcve fracas- seja alravés de minhas iniciativas, seja passando por cima de minhas
sar. Pois não é possível indagar com sentido o sentido da indagação omlssoes.
do sentido. Equívaleria a indagar o sentido do sentído. Não se pode_
ir além da exístência do sentido em nossas pergumas. lnterpretação metaclinica do sentido
Teremos, por consegu1'ntc, dc dcsistir de cncontrar o sentido do do sofrímento
que seja a busca do sentido. Busca do sentido equivale a existência.
Portanto, não é possível que a existência venha a encontrar o sentido Sempre que realizamos valores, estamos cumprindo o sentido da
e a razão de seu próprio ser, não é possível que chegue ao fundamen- existência, estamos impregnando-a de sentido. Os valores podem ser
to de si mesma. realizados de três modos distintos: criando algo, o mundo, por exem-
No instante em que a indagação do sentido se referc ao tod0, plo; experimentando algo, como seja, abrindo-nos para o mundo.
como já dissemos, fracassa, porque o todo não tem sentído, tem su- para a beleza c a verdade da vida; ñnalmente, sofrendo, sofrendo a
persentido. exístência, o destino.
No instante em que a indagação do sentido se refere ao funda- Aos valores que se realizam pelo sofrimento do mundo e do des-
mento, fracassa porque - agora podemos completar nosso pcnsa- tino. o próprio fato de haver na pessoa um retraimento díante da rea-
236 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA
“HOM0 PATIENS" 237

lização dos valores criadores c vivcnciais dá uma oportunidade de


íxmido de que a hereditariedadc e o meio ambicnte o tomaram o que
desdobramento pela adoção de uma atitude adequada. O retraimen-
é, mas - tertium datur - no sentido inversoz se a hereditariedade e o
lo necessáño e a limitação das possibilidades de valor acabam signiñ-
mcio ambicnte formam o indivíduo, este, por sua vcz, atua sobre si
cando um avanço no rumo do mais alto semido e das mais elevadas
possibilidades de valor que o sofrimento contém em si. mesmo. sobre o caráter. formando o “homem", a pessoa. Comple-
Quem seria capaz de interpretar a gestaçâo de scntido que o so- tando a defmição dc Allers, poderíamos dizerz o homem "Iem" um ca-
ráter. mas “e"' uma pessoa e "chega a ser" uma personalidade. Ao cn-
frimento comporta? As possibilidades dos valores. tanto criadores
trar em combinação com o caráter que o homem tcm, a pessôa que o
quanto vivenciais, podem ser limitadas e, portanto, se esgotarcm; já a
homem é acaba por reformá-lo, chegando assim a ser uma personali-
capacidade de preenchimento de semido do sofrimento são ilimita-
dade. Isso signiñca que ajo de acordo com o que sou, mas também
das, e por isso, os valores atítudinais se situam mais alto que os cria-
chcgo a ser conforme o que cu venha a fazcr.
dores e vivenciais no que respeita à hierarquia moraL “ Também por
outros motivos. O homem nunca decide somente sobre algo. mas ao mcsmo tem-
Para realizar valores criadores, necessito de alguns talentos; mas po sobrc si mesmo. Toda decisão é autodecisiva. E toda autodccisão
não preciso busca'-Ios, basta utilizá-los, se os tenho. Para realizar va- é, simultaneamente, autocriação. Enquanto forjo o destino, a pcssoa
lorcs vivenciais, também necessito de algo de que já disponho, quer que sou plasma o caráter que tenho - assim “se” cria a pcrsonalidade
dizer, os órgãos respectivos - ouvidos para escutar uma sinfonia, que chego a ser.
olhos para contemplar uma a'rvore, e assim por diante. A realização de todos os valores, todo esforço ncssc sentido
Mas para realizar valores atitudinais não basta ter uma faculda- também pressupõem uma decisão. Geralmente se imagina que tal de-
de criadora ou uma simples faculdade vivenciaL é preciso, além dís~ cisão é não só voluntaria como consciente. Parcce~nos, contudo, que
so, ter capacidade de sofrer, o que não se recebe de presentc, requer existem também decísões inconscientes, pelo menos no sentido de
ser conquistado através do próprio sofrimento. que em sua execüção são despidas de reflexão.
Se cu tivesse em mim a capacidade de sofrer. se a tivesse recebi- Recorramos a um exemplo para explicar melhor nossa idéia.
do no berço, isto seria um atributo do cara'ter, algo inato e não “con- Um homem se atira dc uma ponte e outro faz o mesmo para tentar
quistado”, o que equivaleria à apatía, ou seja, algo que prccisamente salvá-lo. Depois do sucesso da operação de rcsgate, perguntamos ao
não permitiria o surgimento do sofrimentoÍ Apatía seria incapacida- salvador como chegara a tomar a decisão de mergulhar. Responde
de dc sofrer, excluindo, assim, a realização dc valores atitudínais que não sc deve falar propriamente de decisão porque o propósito de
através “do” sofrimento e “no” sofrimento. salvar a vida do outro Ihe parecera um gcsto perfeitamente naturaL
Quem no sentido de uma realização criadora de valores sc mos- A resposta. portanto, levanta o seguinte ponto de discussão: uma
ação, em virtude de parecer ao que a executa perfeitameme naturaL
trar incapaz de forjar o destino, poderá, no entanto, superá~lo noutro
não constituirá, assim mesmo, o resultado de um esforço moral? No
plano, e dc outro modo, recorrendo a valores atitudinais corretos em
mcsmo instante, não passavam pela ponte outros indivíduos que tes-
facc da fatalidade e através de um sofrimento altivo. 0 que pressupõc
a aquisição da capacidade de sofrer. Essa superação imerior, que temunharam o incidente sem que lhes parecesse natural jogar-se na
água para procurar resgatar o desesperado?
abriu mão da criação extcrior, e', em última análise, e apesar de tudo,
Vemos, pois, que a iniciativa salvadora, por espontânea e óbvia
uma críação, ou mais exatamente, uma aotocriação.
que pareça, é um “desempcnho”. Não é “natural” que isso pareça
Numa formulação judícíosa, Jaspers deñniu a existêncía huma-
natural a algue'm. Nisso rcside precisamente o esforço moraL o de-
na como “decisiva": nunca “é”, mas decide, em cada caso, o que é.
sempcnhoz o fato de que alguém cheguc a julgar natural uma tal
De igual modo, a pessoa espiritual é “decisiva”. Por conseguinte, o
ação. Nada é n'atural, tudo vem a ser naturaL Ou, para retornar a
carâter é um ser que chegou a scr (gewordenes Sein). Chegou a ser no
nosso exemplo: pelo menos uma vez na vida, aquele indivíduo tevc
de tomar uma decisão.
Compreendemos agora que toda decísão naturaL irreflexiva. e
4 E interessantc vcriñcar que a rclação de hierarquia que existe entre as três catcgorias neste sentido inconsciente, constituiu o _derradeiro elo de uma cadeia
de valorcs e em conseqüéncia da qual os valorcs alitudinais sc siluam em nível superior de decisões, a primeira das quais - a protodecisão - foi mais ou me-
nos cn'adorcs e vivcnciais é conñrmada pela pesquisa feita com l.340 pcssoas. confor-
me E. S. Lukas (L0golherapíe als Persolichkeits Iheorie. Disscnação. Viene I97 I ). nos consciente. A partir dela, foram sendo tomadas as outras, cada
238 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPlA “HOMO PATIENS" 239

vez menos conscientes. Enquanto se mantiveram conscientes, elas fo~ Nosso inva'|ido, porém, comportava-se de modo diverso: nunca
ram voluntárias. rsedeixou abater, jamais se resignou a vcgetalx Em visla da impossibí-
O que dissemos a respeito dc toda decisão, que scmpre é uma lidade de realizar a tríade de valores ensinados pela psicologia indivi-
autodecisão, vale com mais razão para a protodecisão, a decisão dual - trabalho, comunidade, amor - buscou outros caminhos; o cm-
prévia. Fazer continuamente o bem acaba por transformar o autor pecilho acabou sendo para ele um incentivo. A exemplo das árvores
dos atos em um homem bom. Pv
que, numa ñoresta densa, não se podendo espalhar horizontalmentc,
1
crescem verticalmente, também cle, por causa de suas limitaçõcs. lan-
Uma ação é, em últíma análise, a passagem de uma possíbilida- ç0u-se para o alto. Hojc é um ativo funcionário de uma organização
de à realidade, de uma “potência” ao “ato”. No que se referc espe- de inválidos e deñcientes. É importante notar como cnfrentou o han-
cialmente à ação moraL quem age não se contenta em agir uma só dicap da cnfermidade; como carregou a cruz; que atitude tomou e
,._-.v4

vez; prossegue, e o acms sc transforma num habi:us. O que ames era que valores atitudinais adotou; enñm, que desempcnho levou a
ação moral vira atitude moraL O desempenho, com isso, não ñcou termo!
menor. c sim maior. Toda sua v1da consxstlu numa renúnc1a? Poxs bem, "reallzou“
essa renúncia, realizou-a com esforço. mas com dignidade, e inclus¡-
O homem simples intui o possível sentido do sofrimento, da fa-
l ve com graça. Realizou-a num nível humano de comportamento de
I culdade de sofrer. e o valor desta. Uma demonstração de como essa
noção está profundamcntc arraigada nele nos é dada pelo caso da
tal ordem que ao apresentá-lo, na prcleção, aos nossos ouvintcs. ex-
|Í melancholia anaesthelica, onde aparece uma “ancstesia", ou melhor,
clamamos impulsivamcntez Ecce vila homim's!
O psicoterapeuta que haja presenciado semelhante descmpenho
uma “apatia”. Os pacientes se queixam de não sentirem realmente
no terreno da renúncia devc ser grato ao que viu. Através desse teste-
dor, de não chegarem a alcançar o verdadeiro semímento de alegria
munho lhe foi dado algo - coragem e consolo - que lhe cabe transmi-
ou de sofrimento, nem sequer scndo capazes de chorar. Por estranho
tir a outros homens, aos seus enfermos. Mesmo em se tratando de
que soe, esses pacientes sofrem dc não poderem sofrer. Num caso de
um caso isolado, a verdade é que viu de perto que 0 esforço moral da
nossa experiência clínica, o enfcrmo lamcntou não sentir dor de dcn-
ren'uncia não só é necessário. mas possíveL O psicoterapeuta se con-
tes nem ter díto reação diante da extração do dente estragado. 0 ho-
verte num espelho que rcflcte a imagem de homens que sofrcm de
mem não se quer ver privado de comunicação “pát¡ca" com o mun-
maneira exemplar. que realizam o "esforço“ da rcnúncia. Ao olhar o
do, não quer prescindir dcsse liame, ainda que ao preço do desprazer.
espelho, os outros doentes compreendem que aquilo que é exigido
Reiteremosz um sofrimento dignamente assumido, de cabeça er- deles é viáveL No que concerne ao próprio médico, passará estc a se
guida, repíesenta um esforço moraL lsto ñcou demonstrado. sem comportar com maior convicção se tiver consciência da exeqüibilida-
qualquer intervenção de nossa parte, durante uma preleção nossa em de de tal procedimento e, destarte. causará uma impressão diferente
que foi apresentado um caso de um pacientc atacado de morbus liltle no doente de que cstiver tratando no momento. Não tcnhamos ilu-
(paralisia cerebral infantil), com athetose double de (movimemos ob- sõesz só aquele que estiver convcncido conseguirá convencer os ou-
sessivos acompanhados dc agudas contorsões dos membros). O jo- tros! Unicamente aquele que tiver certeza de que mesmo um porta-
vem não pudera freqüentar a escola, mas apesar disso tinha estudado dor de morbus Iitlle é capaz de encontrar sentido para sua existência
particularmcnte e lido bastante. Sc recorrermos ao esquema das “três (e que foi testemunha de que esse sentido se “realizou“ ainda que
tarefas" enumeradas na doutrina da psicologia individuaL concluire- uma só vez) poderá conseguir que o paciente seguinte acreditc na
mos que a vida pouco lhe dera c muito lhe devia. “Trabalho?” Ele possibilidade de tal realização. Ele, e mais ninguém. terá condições
não era capacitado a fazer nenhum. “Comunidade?" 0 paciente con- de discernir no sofrimcnto do próximo enfermo a possibilidade de
tou à assistência da preleção que as pessoas o apontavam na rua com um scntido, e dc despertar nestc a vontade de encontrar tal scntido.
indiferença, simplesmente como um “para1ítico”... “Amor”? De iní- Coragem e consolo lhe foram dados. e é 0 que terá d'e transmitir
cio. qualquer satisfação amorosa era dc excluir. Tratava-se de um in- aos outros, e o que lhe será devolvido em moeda diferente. Quem não
válid0. No entanto, enfrentou a situação de maneira diferente da de tevc a cxperiência de que convencer a alguém reforça a própria con-
outros inválídos. Como referência, cito a resposta dc uma jovem dos- vicção? Quem não sentiu que consolar alguém serve de consolo a si
sa categoria à qual havíamos perguntado, num hospitaL como passa- mesmo? De modo que podemos mudar o docendo discimus para con-
solando consolamur.
va a maior pane do tempo: “À noite. durmo; de dia, estou doente.”
240 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSlCOTERAPIA “HOM0 PATIENS" 24l

0 sofrimento, por conseguinte, pode ser em princípio um dg ípara a matur1'dade. Sim, o verdadeiro produto do sofrimento é, añ-
sempenho. Mas sofrímento quer dizer sofrimento reto, erguido, nã( nal de contas, um proccsso de maturl'dade. A maturidade prcssupõc.
signiñca apcnas o produto dc um csforço moral, mas também um todavia que o indivíduo tenha alcançado uma libcrdadc interíor.
crcscimento. Se suporto um sofrimemo, se o absorvo, então crcsço, malgrado sua dependência exterior. Pensemos numa situação cxtre-
adquiro mais força moral; ocorre um processo metabólico, c metabo- ma, o cativeíro ou o campo de concentração, onde o homem se cn-
lismo consíste na transformação de matéria-prima em força. O mas- contra numa situação de enorme dependência de círcunstâncías que
mo se veriñca no nível humano, com a transferência da matéria- lhc foram impostas ou ditadas. Vemos, entretanto, que a dcpendên-
prima que o destino nos impõe. O indivíduo que sofre não é capaz dc cia se manifesta no tocantc ao que faz e ao que experimcnta (com
plasmar seu destino exteriormcnte, mas justamente o sofrimento lhe cfeito, que fazer no campo senão trabalhar com a pá; que cxpcrimen-
oferece a oporlunidade dc superar interiormente o destino. transpon- tar, senão fome, frío. maus tratos?). Ele é lívre, em compensação.
do-o do campo fatual para o existenciaL No caso do nosso pacientc, quamo à atitude a adotar. Em outros termos. o homcm é depcndente
qual era o fato? Eraz tenho morbus Iiule, enfermidade que me foi da- em matéria de valores criadores e vivenciais, e Iivre no que se refere
da. A situação, contudo, não ñcou nesse ponto. Elaborado existen- aos valores atitudinais. Livre “de" todas as condições c círcunstân-
cíalmente, o fato passou a ser formulado: tenho morbus Imle e esta cias e Iivre “para" a supcração interna de seu destino, “para” o sofn'-
doença me foi dada para que eu a resolva; estou diante do problema mento reto e erguido. Esta liberdade desconhcce condições. é uma Ii-
de o que fazer com ela. berdade “em quaisquer circunstâncias” e até o último alento.
Situaçõcs extremas levam o homem a alcançar tanto a líberdadc
Logo que transporto o fato a nível mais alto, coloco-me, coloco
interior, quanto a maturidade. Elas constituem uma prova de matu-
minha própria vída num nível mais alto. O que qucr dizcr “crescer".
ridade, um experimentum crucis. Não nos deve espantar que haja ha-
Podcr-se-ia supor que, com tudo isso, cstaríamos sendo Ievados
mens que nunca sonharam com a reprovação nos exames - sonho dc
a moralizan a introduzir a ñlosoña na psícoterapia (no sentido mais
ansiedade tão freqüente - mas que. repetidamente, sonharam com o
amplo do termo). Não é assim. Os próprios pa'cientes é que nos tra-
campo de concentração. Aparentemente o campo de concentração sc
zem a “ñlosoña", ou seja, problemas ñlosóñcos. Ao fazê-lo, contri-
encarregou de acelerar o processo de maturidade.
bucm com suas respostas, de forma que nós, psicoterapeutas, não ñ~
Examinemos a carta de uma pacieme afctada de tuberculosc
camos limitados ao papel de instrutor, mas freqüentemente temos a
pulmonar e que, conhccc'ndo a gravidade de seu estado. tem motivos
ocasião de aprender.
plausíveis para pensar na mortc. “Quando é que minha vída foi mais
Daremos um exemplo tirado da práticaz uma doente, de 22 anos, rica?" - escreve. “Quando eu era tão formidavelmente útil (trabalha-
à qual se ñzera uma colostomia (com um orifício anal artiñcial no
va como guarda-1ivros) e, assoberbada pelas obrigações, não me po-
ventre) escreveu-nos: “A sentença de Hôlderlin “quem písa no seu
dia ocupar de mim mesma? Ou nestes u'ltimos anos. quando tive de
sofrimento se eleva” " me faz companhia há muito tempo. A morte me ver face a face com múltíplos problcmas espirituais? Inclusive a
de meu marido me causou uma serenidade nunca antes conhecida.
luta para vencer o medo da morte que tanto me atormentou c perse-
Embora. de certa forma, minha vída careça de sentído, só a lembran- guiu dc modo inimagináveL inclusivc isto mc parece mais valíoso do
ça de que tal homem cxistiu justiñcaria minha própria existência.
que uma dezena de balanços bem elaborados.”
Não se deve procurar o homem só em seu ambiente imediato - basta-
rá talvez uma obra que ele deíxou, não é necessário que ele esteja ví- Sua vída era “mais rica3'. Esta é uma deixa para nós. Sofrer, cn-
vo. Não trocaria minha vída com ninguém, quero continuar sendo eu tão, não signiflca apenas esforçar-se, crescer e amadurecer, mas
mcsma, apesar de doente!“ 0 sofrimento a encostou na parcdc; mas igualmente enn'quecer-se. O homem que. como já dissemos, amadu-
pisando no sofrimento ela se elcvou por sobre si mesma. rece por meio do sofrimento. amadurece para a verdade. O sofrimen~
Sofrer signiñca agir e sígniñca crescer. Signiñca ígualmcnte t0, além de dignidade éüca, tem rclevância metafísíca.
amadurccer. O indivíduo que se eleva acima de si mesmo avança O sofrimento convertc o homem em visionário e torna o mundo
transparenle. A cxistência, por assim dizer, transparece numa dimcn-
sionalidade metafísica. É o que expressa um poema de Dehmelz
' O pensamcnto dc Hõlderlin ê formulado pclo pacieme dc maneira ligciramcnte di- “Há um poço que se chama sofrimento;
versa da citação feita por Frank|. (N. do T.) Dele emana a pura-avemurança;

Ntvr
242 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA "HOMO PATIENS" 243

Quem dele apenas vê o fundo, %mir o imperatwo “sapere aude" por "pau' aude” - “atreve-te a so-
Fica espantado.
frer!"
Vê no mais fundo do poço O que importa é a audácia, a coragem de sofrer. Trata-se dc
Sua imagem luminosa rodeada de noite.
aceitar o sofrimento. dizer “sim" ao destino, enfrcmá-lo. Somcntc
0h.' bcbel E a ímagem se esvanece. por esse caminho nos aproximarcmos da vcrdade, e não pelos cami-
Brota a luz.”
nhos da fuga e do medo ao sofrimento.
“Oh! bebe!" - absorve o sofrimento - “brota a luz” - a cxistên- Agora podemos cntender o que quería dízer Rílkc na carla que
cia se faz transparentc, o homem olha através dela, ao ser que sofrc endereçou à condessa Sizzoz “Aquele que num momcnto qualquer
se abrem perspectivas que vão até o fundo. Frente a frente com o não aceitar, numa decisão deñnitiva, todo o horror que a vida cncer-
abismo. comempla o homem o fundo e o que lhe é dado ver é a cstru- ra_ aquele que não o ace1'tar_iub1'losamente. não disporá das forças in-
tura trágica da vida. O que lhc é revelado é que a existência humana, comparáveis da nossa existência, ñcará à margem, e no dia da deci.
no que tem de mais profundo. é a paíxão, a essência do homem é ser SãO ñnaL não tcrá pertencido nem ao reino dos vivos ncm ao dos
um sofredor - Homo patiens. mortos."
Esta descoberta o homem a faz para além do bem e do mal, do Três séculos foram marcados pela fuga ao sofrimento e a tentati~
feio e do belo, a experimenta de forma não-sentímcntal, sem senti- va de escamotear a realidade. Ocultou-se a verdade. tentou-se evitá-
me'ntos nem ressentimentos. E-1he imposta por uma contemplação Ia rccorrendo a dois ídolosz a atividade e a racíonalidade. Não se le~
simples e pura da verdade. Está junto dela, em seuinter1'or,sem ran- vou em conta o sofrimento. a possíbilidade de sofrer. o valor do so-
cor ou pesar. Tudo isso já está de há muito superado, ele está muito à frimento. Os homens se cnganaram c enganaram aos outros. tentan-
frente. do acreditar que com o auxílio da actio e da ratio conseguiriam aca-
E a verdade o líberta. Porque já não é mais a “sua” vcrdade,, bar com a d0r, a miséria e a morte. A actio impediu que se visse a
mas a verdade comum, a vcrdade de todos. passio: esqueceu~se de que a vida é paixão. A ratio, a razão, a ciêncía,
supostamente o conseguiriam Não foi. pois, sem motivo que sc pro-
“Não deves encerrar teu sofrimento em ti próprio.
curou gloriñca'-las c fazer a apoteose do homem racíonal, do Homo
Podes submergi-lo no sofrimento de todos.”
sap¡'ens, ao qual caberia ensinar como se esquivar da reaüdade, da
Assim dissc Rückert no primeiro dos seus cânticos funerários in- necessidade do sofrimento e da possibilidade de lhe dar um sentido.
fantis musicados por Mahler. Trata-se, como dissemos, de aceitar o sofrimento. Para poder
Como poderia bastar para uma tal sabedoria a imagem do ho- aceitá-lo, devo tê-lo em mira, já que só então “emana dele a pura
mem esculpida pelo niilismo? Conhecemos a imagem elaborada com bem-aventurança"; só “brota a luz" se “bebo", ingiro 0 sofrimento,
bases nas caricaturas do biologismo, do psicologismo e do sociolo- se minha alma o absorve. Somente o sentimento que é objeto de uma
gísmo; conheoemos o Zoon polilikon. o Homo faber, o Homo sapiem intenção deixa de ser sofrimento. Estamos, pois, diante da contrapar-
O Homo faber. o homem meramente criador; a absolun2a'ção, a tida do prazer o quaL conforme vimos antes, cessa tão logo é visado.
idolatria dos valores criadores! Viu-se apenas o homem criador. E O prazer é exclusivamente “efeito” (o “prêmio do prazer_”), jamaís
onde ñcou o homem que sofre? Deu-se à existéncia humana a apa- intenção; pode “efetuar-se”, quando não intcncíonado. Se, como su-
rência de um atívo, sem passivo. O homem foí reduzído a um ser vi- cede nos conñitos neuróticos sexuais, ele é alvo de uma inlenção_, se o
vo, sem a dimensão do sofrímento. 0 balancete da vida foi retocado caso é de prazcr e não de amor, então a intenção ñcará a meio cami-
de modo a conter apcnas um ativo desacompanhado do passivo. nho, não alcançando o parceiro, e matando, assim, o próprio prazer.
Ncle não constam nem culpa, nem dívida, nem sofrimento. Ora, para poder fazer do sofrimento o objeto de uma intenção,
Qual o retrato do homem no quadro biologísta? O mais desen- lcnho previamentc de transcendê-lo. Em outras palavrasz a ñm dc
volvido dos mamíferos? 0 mamífero ao qual o fato de andar ercto dar um sentido ao sofrimemo. devo sofrer por alguém, por amor a
Ihe subiu à cabeça? Sapere aude foi o seu ímperativo - “Atreve-te a alguém. O sofrimento, para ter finalídade, não pode bastar-sc a sí
raciocínar!" Pois bem, ele se atreveu. Atreveu-se a absolutizar a ra- mesmo. Do contrário. tornar-se-á masoquism0. Sofrímento signíñ-
zão, a quaL no Iluminismo, foi transformada em deusa. cativo equivale a “amor por”. Aceilando-o, não só o fazemos alvo de
Opomos à imagem biológica uma outra, de caráter noológíco. uma intenção, mas visamos através dele algo que não é idênlíco a ele.
Ao Homo sapte'ns contrapomos o Homo pauem',' pretcndemos substi- Trausc.c-ndemos. assim, o sofrimcnw.
244 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA “HOMO PATIENS" 245

0 sofrimcnto pleno de sentido vai além de si mesmo, reporta-sc íotempo, mas o que aconteceu se coagula em Hístória. Erwin Strauss
a algo "pclo qual sofremos". Em síntese, sofrimento dotado de scnti- declarou que “a História é o passado que, na qualidade de coisa rca-
do é pura e simplesmente sacrifício. _
lizada, resiste ao dcsaparecimento.“ ° Assím, no caso de nosso pa-
Na medida cm que é terapia, a análíse existencial se vê às voltas ciente. o scntido de sua vida resistia à extinção, do mesmo modo
com a tarefa de analisar existencialmente o sentido, com vistas à pos. como o amor à esposa sc opunha à mortc dela.
sibilidade de que tenha um sentido. Trata-se sempre - para usarmos
uma expressão fcliz de Paul Polak 5 - de “dotar o sofrimento de um No entanto, o verdadeiro problema que levou a nos procurar é
sentido". O que. como ñcou demonstrado, levará. cmultima análise, outro. Não sofre “de" melancolia, nem "por causa” de seu pesar, seu
à consagracão do sofrimento como sacrifício. Iuto. O motivo pelo qual sofre é, conforme admitiu, que a ninguém
Com a ajuda dc um exemplo, um caso concret0. pode esse as- beneñcia esse seu sofrimento. Como sofreria de bom grado se hou-
pecto ser bem esclarecido. Vem procurar-nos para consulta um se- vesse alguém por quem ele pudesse sofrer. alguém a quem pudessc
nhor de certa idade, médico. Sofre de depressão. que logo ven'ñca- consagrar seu sofrimento como um sacrifíciol
mos não ser endógena, mas exógena, psicogênica, reativa; a depres-
são data da época da mone da esposa, com a qual vivera feliL Agora Uma simples reflexão lhe ensina que tampouco seu sofrimento
a vida lhe parece privada de qualquer sentido. Julga que scu estado carece desse sentido. Para que comprecnda, necessitamos apenas lc~
não é realmente patológico. e somos obrigados a lhe dar razão. E cer- vá-lo a pensar no que teria sucedido se ele tivcsse morrido no lugar
to que scu luto se prolonga por um prazo anormalmeme longo, mas da esposa; preferiria que sua mulhcr tívcsse sido colocada na situa-
por outro lado, a felicidade de scu casamento ultrapassou as normas ção dc pranteá-lo? Imedíatamente sc lhe torna claro que ela foi pou-
habituais e nesse sentido poderia ser tida como “anormal”. Apesar pada _do desgosto de ter de sofrer o luto por ele, mas isto, há de ser
de sua persistência desusada, o seu pesar constitui, pois, um afeto pago por ele com o preço do próprio sofrímento.
adequado ao caso.
Nosso pacieme (seria exagero chamá-lo de “enfermo") índaga o No mesmo instante, sua vida recobrou o sentido, o luto “por"
que deve fazer e añrmaz “Não quero remédios, para isso não seria alguém se transformou em sacrifício “por amor a alguém”. Foi um
necessário incomodá-lo, já que eu poderia, sendo médíco, receitá-los diálogo de apenas alguns mínutos, durame o qual, porém, o pacíente
para mim.” Está raciocinando corretamente, um tratamento medica- efeluou uma reviravolta copernicana. Não foi possívcl modiñcar
mentoso equivalcria a narcotízá-lo: “Os remédios não me ajudariam; fundamentalmcntc seu sofrimento. mas não representou algo o falo
minha vida não ganharia senlido. eu no máximo conseguiria esque- de que pelo mcnos sc lhe deu um sentido? 7
cer que ela não tem sentido.” A influência do sacrifício na dotação de sentido pode abarcar
De início, é preciso explicar ao paciente que nada nem ninguém
toda uma vida. O sacrifícío é capaz de dotar de sentido até a morte,
pode privá-lo daquilo que ele expcrimentou: um casamento feliz.
enquanto o instinto de conservação. por exemplo. não conseguc so-
Ainda que somente esse acontecimento houvesse enchido de sentido
quer dar um sentido à vida. Vivemos numa época de pulmão de aço,
sua existência, o sentido não desapareceria. Em outros.termos, colo-
corações artiñciais e cérebros eletrônicos. Já se previu, conformc lí-
camos dianle dos seus olhos o que em outras oportunidades temos
vro dc um pastor servindo numa Casa de Saúde, que um dia as cabe-
repetidoz é um erro ver apenas o restolho do lransitório, mquecendo
ças dos doentes cujo organismo restamc não esteja em condições de
os ccleíros replclos do passado: é um erro falar na “lima corrosiva do
sobrcviver serão conservadas, “em vida”, nas clínicas do futuro, cm
tempo" como se apcnas uma espécíe de erosão fosse eñcaL quando, locais especiaís, cheias de tubos e alimemadas por uma circulação ar-
na vcrdade. para oontinuarmos usando o jargão da geología, vivcmos tiñciaL São projetos de antecipação. mas já constituem pesadelos.
num contínuo aluvião. Nada está irremediavelmente perdido no Não é desejável a conservação da vida a qualquer preço, isto é, com
passado, tudo está salvo, não deve recear-se que se perca. Transcorre

6 Von Sinne der Sinne - Bcrlim, l935. p. 244


5 ankls ExmenzanaLvse in ihrer Bedeutung fur' Anrhropologie und nycholhempíe, Ty- 7 A maioria dos estudames dc Harvard imcrrogada por Edwin Shncidman preferiu a
rolic Verlag. lnnsbruck. l949. p. 22 idéia dc morrer depois da csposa para poupá~la da dor do lulo.
246 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA PSICOTERAPIA “HOM0 PATIENS" 247

risco de que não scja maís uma vida, no verdadeiro sentido do lermo. Não o conseguiu; o livro extraviou~se c nâo havia esperancas de que
Pelo contrário, tudo em nós se rebela contra a idéia de que sejamos jamaís viessc a ser publícado. Nesta situaçâo intcrior e exteríor. o ho-
reduzidos a uma existência puramente animaL nos termos da teoria mem sentiu no fundo dc si mcsmo que mais importame do que cdítar
de uma psicotcrapia biologist_a, ou na prática da conservação da vida o volume era viver, sofrer e morrer segundo o que prcscrevia o tcx-
à lout prix *. Ludwig Bíswa_nger denominou de “horror nu" uma to. ”
existência mcramente ñsiológica, como a que teríamos no caso. Aprendemos a distinguir emrc 0 sofrimcnto signiñcativo e o que
Por que é que tudo em nós se rebela diante dessa idéia? Porque carece de sentido. Esta difercnciação nos leva a outra, a que existc
não é certo que o homcm tenha imeresse em vegetar; o que lhe im- entrc 0 sofrimento necessário e o dcsnecessárí0. Aquele sofrimento
porta, no fundo. é existir signiñcativamente. O essencial não é a du- reto e altivo que possibílita a realização de valores atítudinaís cxístc
ração da vida, e sim a plenitude de sentido. Uma vida curta pode ser exclusivamente como sofrimento. A realização de valores dc atitude
bastante signíñcativa, c uma longa, permanecer destituída de sentí- consiste na consumação do scntido possível de um sofrimento neccs-
do. Mais aindaz se não houvesse morte, a vida ínñndável não teria sário.
sentido. Pois emão o homcm estaría sempre adiando tudo. não seria Quem souber que pode elimínar através de uma intervenção ci-
necessário fazer hoje o que se poderia deixar para amanhã. Não ha- rúrgica o sofrimento oríginado por uma doença e não o ñzer, ou bem
veria nenhuma obrígação, nem a menor responsab1'lídadc. Nada o padece por medo, ou quer bancar o herói e o mártir. O medo à ope-
impulsionaria a aproveitar o momento para realizar valores e preen- ração equivaleria ao cscapismo; o segundo comportamento mencio-
cher o sentido da vida. nado corresponderia ao masoquísmo. O escapista foge do sofrimento
Os homems que chegaram perto da morte perceberam que o sa- necessário; o masoquisla visa um sofrimenlo desnecessário. Se o es-
crifício é capaz de dar sentido até a ela. Os moribundos Iutam inte- capismo signiñca queixumes, o masoquismo representa deleite na
riormente para consagrar seu sofrimento e sua morte como sacriñ- d0r.
cio. Por isso, não é motivo de espanto que, entre homens que se en- Nunca vimos_ caracterizada tão nitidamente a díferença entrc o
contram no cativeiro ou nos campos de concentração, se díscutam sofrimento como necessidade fataL por uma parte, e como luxo su-
questões ñlosóñcas ou sc argumente sobre a concepção do mundo. É pérfluo, de outra, do que num anúncio aparecido num diário norte-
a autoconservação cspiritual que leva a esse comportamcnto. Não se americano editado em língua alemãc “O que o céu te envia, suporta
devc desprezar a fome espiritual que se manifesta nessas ocasiõcs ex- pac1'entemente; mas se são os percevejos que te incomodam, então
tremas c que não é de menor relevância que a outra, que anseia pelo chama Rosenstein (664 W. rua 161)”. “O que o céu te envia” isto
não-materíal. Añnal não causa surpresa a ninguém o fato de que os sim, é necessidade fataL sofrimento necessário, cheio de scntido, so-
internados nos campos de concentração continuem a ter fome, mal- frimento que possíbílita a rcalização de valores atitudinais e que deve
-l._

grado o que vee^m; o instinto de conservação, no sentido estrito da ser suportado com paciêncía.
palavra. sobrepõe-se a todos os horrores. O mesmo ocorre no campo Que é que constitui. para retornar ao tema, a essência do maso-
-

espiritual: a todo ser inteligente não intercssa - o que é possível cam- quismo? Falsiñcar o prazer, fazendo dele um desprazer. Ambos. po-
l

provar - o imperatívo primum vivere deinde philosophari, mas sim prí- rém. tanto o prazer como o desprazer, são sentimcntos condícíonais
mum philosophari, deinde mon'. Díante da ameaça da morte, trata-se e não-intencionais, para utilizarmos um confronto apontado por
de, lular pelo sentido da morte... a camínhar para ela de cabeça er- Scheler. 0 contrário do masoquista é o indivíduo que transmuda so-
guida. frimento em desempenh0. Equidislante da lamúría e do gozo no so-
A pn'mazia da ñlosoña, que se expressa no pnm'um philosophan', frimento. ele aspira ao sofrimento, em contraste com o queixoso,
não se |egitima a partir do fator íntelectuaL e sím do exístencíal, de mas não o considera, ao contrário do masoquista. como ñnalidade
um pensamemo existenciaL de um pensamento ardoroso. Conhece- em si mesma; transccnde-o visando, através do sofrim_ento. aquele
mos um prisioneiro de um campo de conccntração que conseguiu ali
introduzir clandestinamente o manuscrito de um livro, a obra de sua
vida. pronto para ímprimir, a ñm de salvá-lo para tempos melhorcs. 8 Em matéria dc escrever lívros. eis como se aprcsemam as coisas. Bcrevcr não signí›
ñca muito; mais imporlante é viver a vida; e muito mais ainda seria cscrever um livro
scgundo o qual sc pudesse viver. O máximo. porém. scria |cvar uma vida sobrc a qual
' Em francês no on'ginal. (N. do T.). sc pudesse escrever um livro.
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outro por amor do qual ele sofre, em uma palavra, õferecendo-lhe


íçje vista da “economia do prazer" (Freud), sai caro. A expiação tenta
em sacrifício o sofrimemo. Ao dar ao sofrímento o sentido de um sa-
criñcio, o indivíduo o eleva do nível fatual ao existencial e, ao mesmo fechar a porta ao perigo do retorno do erro.
tempo. transcende a sí mesmo “pisando no sofriment0”, andando Pensemos de novo no duplo impcrativo; o médico deverá aju-
para cima e para frente. Nisso não há rcgrcssão, no signiñcado psica- dar, se possível; aliviar, quando nccessário. O médico que não rcme-
nalítico; ao contrário podcr-se-ia falar em progressão, pclo menos no diasse o mal, eliminando, assim, o sofn°mento, agiria contra a ética
scntido analítico existenciaL proñssionak o que não aliviassc a dor, agiria dc modo inumano.
O sofrimemo é intencionaL se se refere ao sentido e aos valores. No cntanto, já dissemos que não temos direito de extirpàr a dor
Esta referência pode ser desviada também para o sujeito que sofre. a todo preço. e o acento recai na palavra “todo”, pois, de uma forma
lntroduz-se. cntã0, no lugar do masoquismo, um autismo. A referên- ou de 0utra, sempre há de se pagar um preço, por menor que scja. A
cia ao sentido e aos valores passa a ser reflexiva. auto-relativa. questão é detcrminar se o preço do alivio é excessivo. Num caso con-
crcto. há de se estudar as círcunstâncias, ponderando o mal maior e o
Recordemos a esse respeito a analogia que pode ser estabelecida
menor. Um paciente meu, egipto'logo, decifrador de hieroglifos, cola-
com o fenômeno do esteticismo. O estcta vê tudo como uma moldu-
borador de uma enciclopédia, queria se livrar de uma neurose obses-
ra, como se fosse tema de um quadro, de uma novelaz degrada o ser a
Siva mediante uma leucotomia. Em virtude da incertcza dos resulta-
nível de mera aparência.' Foge da vida em direção à “experiência“. O
dos, em relação sobretudo a saber sc ele poderia continuar seus tra-
mesmo sucedc com o autistaz foge do sofrimento para se rcfugiar na balhos cientíñcos após a operação, decidi contra. Já no caso de uma
autocompensação. Se .o fariseu d¡z': “Vejam como sou bom", 0 que
camponesa atacada do mesmo maL fui a favor, em face das vantajo-
sofre autisticamente diz: “Vejam como sou miserável". O autismo se sas mod¡'ñcaçoe's emocionais que adviriam e da ausência de inconve-
assemetha freqüentemente ao exibicionismo. quando não à prostitui- nientes correspondemes no plano proñssionaL o que tornava o preço
ção. 0 que sofre retamente e de cabeça erguida jamais exibe o seu so- “razoável”.
fr1'mento. Ao que sofre não ñca bem a publíc1'dade, convém-lhe o si- Ninguém pode fugir dcssa ponderação. Na prática médica, to-
lêncio. O sofrimento reto e altívo é sempre silencioso. dos os dias, por exemplo, no terreno dos medicamentos, é preciso so-
No contexto de nossa diferencíação entre sofrimento necessário pesar os efeitos ulteriores e secundáríos em comparação com os be-
e sofrimento desnecessário, vale lembrar que o sofrimento necessário neñcios terapêuticos. Todo remédio tem um efeito tóxico e o fato de
também podc ser voluntário. O sofrimento pode scr necessário cm que seja mínímo não altera o princípio. A diferença entre dose “tera-
função de considerações morais elevadas, por cujo amor elc é aceito pêutica" e dose “tóxica” é graduaL e cabe ao médico tomar uma da-
voluntar1'amente. Um exemplo é o martírio. 0 masoquista sofrc pro- cisão.
positadameme; o mártir sofre voluntariamente. O martírio nada tem
Sc atendermos ao duplo mandamento médico “sc possíveL aju-
a ver com o masoquismo.
dar; quando necessár1'o,' aliviar" c claro que a segunda parte dcverá
Nem mesmo o penitente pode ser cquiparado ao masoquista. ser cumprida com risco, às vezes, de encurtar a vida do doente de al-
Que difercnça existe cntre o mártir e o penitente7 O primeiro aceita o gumas horas. Temos de contar sempre com esse risco, enfrentá-lo,
sofrimento, o segundo o aplica em si mesmo. E, no entanto, próprio justiñcá-lo em nossa conscíência. Subentende-sc que esses encurta-
de ambos o momento dc livre arbítrio. A penilência não é outra coisa mentos sc darão nos casos cxtremos dc paciemes in ultimis. 0 único
senão expiação voluntária, em conlraposição ao castig0, expiação ín- ponto é determinar quando chegou a hora de tomar essa providên-
voluntária. cia. Quando é o momento de passar do primeiro para o segundo
A diferença emre o masoquista e o penitente se baseia no fato de mandamento. Geralmentc a possibilidade de ajudar diminui na pro-
que 0 sofrimento do penitente está orientado |'ntencionalmente. E porção em que_ aumenta a necessidade de aliviar. O momento em
precisamente o arrcpendimento c' a intenção, o motívo de toda peni- questão se situa, pois, na interseção da curva descendcnte com a as-
tência, Somente 0 homem arrependido tem interesse em punir-se vo- cendentc. Foi o que ocorreu nun caso dramático que presenciamos
luntaríamente. A quem se deve o não só se arrepender, mas também durante a guerra. Não era possível encontrar prostigmina para uma
o se castígar? ch, enquanto só mc arrepender, permanece o risco da doente atacada de “myasthenia gravis" ejá aprcsentando sintomas dc
rcincidência. O risco pode ser considerado afastado até certo ponto paralísação do diafragma. Demos instruções que lhe fossem aplica-
se acrescento o desprazer da penitência, voluntariamente. Do ponto das as últimas ampolas disponíveis. e na ocorrência dc crise de disp-
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néia, morñna à vontade. Cabe a perguntaz em que difere este proce- ísem tcr de prestar contas à sua conscíência. enquanto dc outro o
dimento da eutanásia? doente nunca saberia quando o médico se aproximava dcle na qua|i-
Já expusemos repetidamente nossa rejeição da eutanásia ”. No dade de médico e quando na dc carrasco. Já houve tempo cm quc o
caso em apreço, a coisa é diversaz trata-se de aliviar o sofrimento; na doente não tinha mcsmo mcios dc sabé-lo. O médico efetuava então
eutanásia, tira-se a vida com o propósito de evitar o sofrimento a uma missão tríplicez advogado a serviço da utilidade social; juiz en-
qualquer prcço. Não há dúvida dc que os limites entre as duas situa~ carregado de decidir quanto ao valor ou inutilidade dc uma vida; en-
ções são Hutuantes, imprecisos, mas seria incorreto valer-se de casos fim. executor da scntença. Se quisermos evitar que tal época retorne.
extremos para justiñcar uma cxtensão de uma tese ad absurdum. Na deveremos alentar para a segumte passagem do Talmudez “Aquclc
vida, na prática médíca, o fator moral é por si mesmo ev1'dente. que destruir uma alma. não mais que uma, devcrá ser lido como al-
O ponto de íntersecção das duas curvas - possibilidade de aju- guém que deslruiu 0 universo; aquele que salvar uma alma, basta
uma, será tido como alguém que salvou o mundo inteiro."
dar e necessidade de aliviar - só o médico o pode advinhar. Não há
nem lei nem rcgra que o oriente nessa tarefa. Deve entregar-sc com-
pletamente à improvisação e à individuaçâo. Ncnhuma lei o auxiliará
nísso. Há de decidir segundo sua consciência c 0 melhor de seus co-
nhecimentos.
Dissemos anteriormente que ele terá de “adivinhar" o momento
certo. Mas só é possível adivinhar tomando como ponto de partida a
faculdade dívinatória que é a consciêncía. Esta deve adivinhar; sua
tarefa essencial é a sincronização da lei eterna universal com um caso
singular q_ue não se deixa subordinar a ncnhuma regularidade. O sa-
ber, o intelecto não são capazes de executar tal tarefa, que compete à
intuição, à divinação da consciência. “'
De que serviriam leis e decretos? Na mesma proporção em que a
consciência - o que exíste dc menos burocrático - se subtrai a tudo is-
so, sua exatídão e severidade se tornam mais ñdedignas. Nenhum tri-
bunal do mundo consegue inquirir tão minucíosamente e scntenciar
tão duramente. Mas ela o faz na intim1'dade, no silêncío, não em
público. Divulgada, discutida em aberto, a decisão da consciência de
cada um, de cada médico, sería mal ínterpretada. Por conseguinte, a
questão aquí abordada é um caso de consciência para o médico e
uma questâo de conñança para o enfermo c sua família. É necessário
que a conñança do enfermo seja “cega” para que a consciéncia do
médico seja “vidente”.
Como vimos, essa consciência médica vê-se obrigada, de acordo
com o segundo mandamento, a alíviar o sofrímento do enfermo (nã0
a qualquer custo, mas eventualmenle), o que suscita certo risco que
tcm de scr enfrentado conscíentemente. Uma regulamemação Icgal
ncssc setor tão delicado e sutil levaria ou ao abuso do dever médico,
ou a uma má interprctação desse dever por parte do docnte. Porque
de um lado o médico, apoiado na lei, podería decidir com presteza,

9 No volumc Ârrzlivhe Seelsorge, pp. 63-65 c 52-62.


I0 Ver meu trabalho Der unbewusste Gau, cd. KõscL Munique. 1974.
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“HOM0 PATIENS" 255

favoráveis que se possa imaginar. E para tanto. não precisávamos ir


Mencionei poucos nomes, e não de acordo com a hierarquia
até à ñoresta virgem da África. Fízemos, então. a promessa de, Iogo
Êcimüñm Falo de índivíduos lso'lados, mas penso em todos. Os poucos
no dia seguintc, forçarmos um meio dc sermos também deportados.
reprcsentarão os muitos, pois não está no poder dos homens fazer a
E não demorou o momento. Só que à minha jovem colega não foi
crônica de todos. Mas eles não precisam de cro'm'ca. nem dc monu-
deixado tcmpo bastante para que pudesse aproveitar a oportunidade
mento; cada ato constitui o seu próprio marco, indestrutích como
que sua visão ética da medicina descortinava na deportação. Logo
tudo que é obra de nossas mãos. 0 ato de um homem não se deixa
depois de ser internada no campo, contraiu tifo, morrendo semanas
nunca desfazer; o que foi feito jamaís poderá ser anulado. E não é
mais tarde. Chamava-se Dra. Gisa GerbeL Lembramo-nos dela.
verdade que tenha ñcado perdido no passado; pelo contrário. no pas-
Havia lá também um médico de pobres do 169 Distrito, conheci-
sado cle está inextinguivelmente ao abrigo.
do em Viena pelo nome de “o anjo de Ottakring", tipicamente vie- E certo que naqueles anos a proñssão médica foi profanada.
nense, que mesmo no campo de conccntração não falava de nada Não é menos certo que no mesmo tempo ela foi exallada. Alguns mé-
com mais ardor do que das fcstas de dcspedída numa taberna da ci~ dicos no campo faziam experiências em moribundos; outros, contu-
dade e entoava com piscadelas e lágrimas Irechos de algumas canções do, faziam a experiência da morte em si mesmos. Recordo-me de um
do gênero Era o anjo de Ottakring mas que anjo da guarda o tc- neurologista berlinense, doutor Wolf, com o qual live longas pales-
rá a elc mesmo protegido, quando naquele dia em Auschwitz, diante tras, à noite. na barraca, sobre os problemas atuais da psícoterapia;
dos meus olhos. na estação dc trem, se dirigiu para a via da esquerda pois bem. quando ele sentíu a morte se aproximar anotou num cader-
- ou se'ja, díretameme para a câmara de gás? Era o anjo de Ottakring. no suas rcaçoe's dos derradeiros momentos.
Seu nomcz Dr. Plautus. Lembramo~nos delc. Geralmente a experíência do campo de concentração tinha ca-
E lá havia o Dr. Lamberg, ñlho do médico-chcfe da clínica da racterísticas de grande magnitude, consistia num verdadeiro experi-
mundialmente famosa Associação Vienense de Salvamento formada memum crucis. Nossos colegas que sucumbiram ñzeram boa ñgura.
por voluntários, e conhecido de todos os alunos como autor de um Deram-nos a prova de que o homem, mcsmo nas circunstâncias mais
manual de primeiros socorros med'icos. O Dr. Lamberg era um ho~ desfavoráveis, mais indignas, permanece um homem - um verdadei-
mem mundano, tanto na aparêncía quamo nas atitudes. Sabcm-no ro homem e um verdadeiro médic0. O que eles_conseguiram deve ser-
todos que o viram ainda que uma só vez. Bem, eu também o ví mori- vir de exemplo do que o homcm é e do que pode ser.
bundo, numa barraca meio soterrada, no meío de dúzias dc vultos fa- Que é então o homem? Nós aprendemos a conhecê-lo como tal-
mintos amontoados uns sobre os outros. E o derradeiro pedido que vcz nenhuma outra geração anterior o tenha feito; nós o conhecemos
me fez foi para que eu afastasse o cadáver que jazia ao seu lado, en- no campo de concentração, onde tudo que não lhe era essencial foí
costado nele. Esse era o homem do mundo Dr. Lamberg, um dos jogado fora; onde lhe faltou tudo que havia possuídoz dinheíro, fa-
poucos camaradas do campo com o qual era possível mamer~se uma ma, poder, fclicídadc, rcstando apenas o que o deñne como ser hu-
conversação ñlosóñca durante os mais árduos trabalhos em meio a mano. Sobrou o que ele não pode “ter”, mas o que deve “ser”. 0 que
uma tempestade de neve. Lembramovnos de1e. ñcou foi o próprio homem, em sua essência. queimado pela dor, dis-
Lá estava ainda a doutora Martha Rappaport, minha antiga a5~ solvido pelo sofrimcnto - o elemento humano em sua quintessência.
sistente no asilo Rothschild de Viena, outrora médica-assistemc de Que e', então, o homem? indagamos de novo. É um ser que sem-
Wagner-Jaureg. Uma mulher dotada de um coração que não a deixa- pre decide o que é. Um ser que, cm proporções ídênticas. traz consi-
va ver ninguém chorar sem que também prorrompesse em lágrimas. go as possibílidades dc descer ao nivel do aním_al ou se elevar à vida
E quem chorou por ela quando foi deportada? - Essa era a doutora do santo. O homem é a críatura que inventou a câmara de gás; mas,
Martha Rappaport. Lembramo-nos dela. ao mesmo tempo. é a criatura que foi para a câmara de gás dc cabcça
E citemos. do mesmo asilo, um jovem cirurgião, Dr. Paul Fu"rst, erguida rezando o Padre-Nosso ou com a prece fúnebre dos judcus
e outro médico. Dr. Ernst Rosemberg. Com ambos pude conversar nos 1a'bios.
antes de morrcrem. E não havia ódio no que diziam. Aos seus lábios Também isso é o homem. E agora sabemos a resposta à pcrgunta
assomavam apenas palavras de saudade e de perdão. Pois o que eles Êue no início ñzemos, rque é o homem. para que nos Icmbremos delc?
odiavam e nós odiamos não sâo os homens - é o sistema. Aos ho- um junco, mas um junco pensante, ensinou PascaL E esse pensa-
mcns. pode-se perdoar. 0 sistema que odiamos traz para uns, culpa, mento, essa conscíêncía, essa responsabilidade é que formam a digni-
e para outros, morte. dade do homem. Cabe a cada um de nós decidir se os destruímos ou
256 FUNDAMENTOS ANTROPOLOGICOS DA PSICOTERAPIA

se os preservamos. 0 mérito ou a culpa dos individuos dependem de


qual das duas atitudes é adotada. A culpa só pode se vinculada a uma
pessoa, nunca se deve falar de "culpa coleu'va". É certo que alguém
que '°nada fez" também pode ler culpa, precisameme pelo que “dei-
xou de fazer”. omissão originada do medo de si mesmo ou de seus se-
melhantes. Aquelc, porém. que fzcar tentado a Iançar sobre ral pessoa
a acusacão de covardia deverâ antes refletir se em situação ídêntica es-
laria disposro a bancar o herói.
Não seria melhor abandonar de vez o propósito de julgar o pró-
ximo? Paul Valéry declarou certa feita: “Si nous jugeons el accusons,
lefonds n'est pas aneim“ ". Enquanto continuarmos julgando e acu~
sando o próximo, nunca chegaremos ao fundo da questão. Portamo, C. Da autonomia à transcendência:
de nossa parte, não desejamos apenas evocar os mortos. mas também A crise do humanismo
perdoar aos vivos. E assim como por cima de todos os túmulos csten-
J demos a mão aos que morrcram. assim, por cima de todos os ódios,
'!
queremos igualmente estendê-la aos que vivem. E quando proclama-
mos “honra aos mortos", logo acrescentamosz “e paz para todos os
vivos de boa-vontade!"
ObServaçio Preliminar para a 2*| Ediçâo

É possivel que muítas das exposições que se seguem transcendam “os


fundamentos antropológícos da psicoterapia” c aflorem questões de
teología. Ainda assim. transcorrído mais de um quarto dc século,
nada tenho a desdizer. Cumpre, todavia, não esquecer que as consi-
derações e reflexões que vão ser lidas adiante não constítucm elcmen-
to integrante da logoterapia, que é um método c uma técnica de psí-
coterapia capaz de ser praticado mesmo por quem não subscreve ne-
nhuma das declarações aforísticas contidas neste trabalho.
No que conccrne à problemática dos limites entre “Psicoterapia
e Religião” (subtítulo de um de meus lívros, Der unbewusste Gom já
me manifesteí bastante, seja na obra citada, seja em outras. Restrin-
jo-me a alg'umas citaçõesz “Para a logoterapia, a relígião não é um
ponto de vista, apenas um objeto". pois a logoterapía “tem de scrvir
, v a todos os tipos dc enfermos, crentes ou descrentes, e ser utilizada
por quálquer médico independentemente do que ele, pessoalmente,
.v_

pense do mundo". Em compensação, é fácil de erhender que se a lo-


goterapia é precisamente um tratamento orientado no rumo do senu'-
mww<

do “há de se ocupar do fenômeno da fé. Ela julga. como Alberl Eins-


tein, que a indagação do semido da vída é uma atitude de índole reli-
giosa". No seu diário do período l914-16. Ludwíg Wittgenstein es-
crevcuz “Acreditar em Deus equivale a perceber que a vída tem um
sentido.“ Numa passagem do seu diário do dia 3 de agosto de l944,
“O Último Ano". anotou J. Güntherz “Certamcnte Deus pode scr
_-›.?-_w -~

concebido como o sentído.” “Em todo o caso" - lê-sc cm um dos


' Em francês no original (N. do T.)
-w.~u

meus escn'tos - “a logoterapia encontra sua legmmldade no fato de


v<q~v
p-7
258 FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGK OS L A PSlCOTERAPlA
"HOM0 PATIENS“ 259

que ela não se ocupa apenas da vontade de sentido; mas também da


dá a imagem de um homu'nculo, um artefato, produto artiñcial
busca de um sentido ñnaL um meta-sen1ido. E a fé religiosa e'. em u'l- ínos
de uma pcrspectiva exclusivista.
tima análise. a crença no meta-sentido”.

Também no que diz respeito a uma crítica do movimento reli- Já são. alia's, de nosso conhecimento os homúnculos dos diferem
v

gioso contemporâneo, já me manifesteí com toda franqueza tanto cm tes “ismos”: o Homo sapiens, o Zoon politikon. o "homem” como au-
Der wzbewusste Gott como em Der Mensch auf der Suche nach Sinn. tômato de reñexos, feixe de impulsos. e assim por diante. O que falta
vwwv

Embora não aderindo a crcdo ou conñssão. tenho-me inclinado de ao quadro niilista é o Homo patiens, a ímagem do homem que sofrc,
signiñcat1'vamente, realizando o seu sofrimento. Em suma, o
,-w¡

novo nos u'ltimos anos. para a tese que por muito tempo defendi e sofre
tive a oportunidade de expressar, em l946, em Ãrtzliche Seelsorge, própdrio sofrimento considerado como uma consumação revestida dc
dc que talvez a melhor maneíra de deñnir Deus seja como o interlocu- senti o.
tor de nosso diálogo interior mais ímimo. Na prática. isto quer dizer Sob muitos aspectos, o sofrimento é simplesmente um teste. Na
que quando alguém, na sua mais complcla solidão e com o máximo prática, a vída de um homem tem nele, com efeito, o experimemum
de honestidade para consigo mesmo, pensa e fala no plano da ime- crucis, a pedra de toque, a prova de autenticidade; na teoria, a dou-
rioridade, está se dirigindo verdadeiramente a Deus (1¡bi cor meum trina sobre o homem se valida pela maneira como é capaz de inter-
quuitur). Pode ser crente ou ateu, pouco importa, porque “operacio- prctá-lo.
nalmente” Deus se defme como aquele com quem, de uma maneira Ao tentar interpretar o sentido, e não só o sentido do sofrimen-
ou de outra, nós falamos. O crente se diferencia, portanto, do ateu to, partindo do niilismo, ou seja, da negação do semido, Iogo se per-
apenas por não admitir a hipótese de que está falando consigo mes- cebe que a categoria do semido não basta, é preciso recorrer à noção
mo; acha, pelo contrário, que suas palavras alcançam alguém que dc um supersentido. Na medida em que não se cogita do ser em geraL
não é idêntico a ele. No espíríto de uma deñnição purameme opera- e sim do ser humano, ou do que se chama de cxistência, do modo dc
cíonal, o ponto é irrelevante, pois temos 0 direito de, em cada caso, ser inerente ao homem, e só a ele, vê-se igualmente não ser possível
designar simplesmente aquele com quem falamos, no âmago de nós prescindir da idéia da transcendência. Uma antropologia - a teoria
mcsmos, Deus. da existência humana - não deverá, pois, deter-se na existência, no
que é imanente ao homem.
Nos primeiros capítulos, ao fazermos a crítica do niilismo, vcri-
Procur0u-se, nesla primeira parte, apresentar uma crítica do nií-
ñcamos que, nessa ótica, o homem na verdade não é nada. já que ele
lismo, ou melhor, dos niílísmos. a saber. daquelcs três “ismos” que “nada mais é do quc" o produto de condíções biológicas, psicológi-
isolam e absolutizam. cada um por si, uma determinada camada da cas e sociológicas.
existência, especiñcamente da existência humana, e se limitam às res~ Nossa crítica do níilismo consistiu em comprovar que, segundo
pectivas perspectivas. Conforme a camada cm causa - biológico-
essa concepção, o homem se tornou u