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No início do século XIX, Portugal era, ainda, um país onde permaneciam vivas as estruturas de

Antigo Regime. Características: uma sociedade de ordens, fortemente hierarquizada, em que Ferreira Borges desempenhou, igualmente, um papel importante na liquidação do Antigo
prevaleciam os privilégios da nobreza e do clero; uma economia agrícola, de fraco rendimento, Regime em Portugal, ao elaborar o Código Comercial de 1833, onde se aplicava o princípio
em que os camponeses viviam na dependência dos senhores das terras; um sistema político fundamental do liberalismo económico: o livre-câmbio, ou seja, a livre circulação de produtos,
absolutista, submetido à regência do príncipe D. João e à repressão ditada pela inquisição, pela através da abolição de monopólios e de privilégios, bem como da eliminação do pagamento de
Real Mesa Censória e pela Intendência-Geral da Polícia. Contudo, simultaneamente, criava-se portagens Joaquim António de Aguiar, ministro da Justiça: aboliu o clero regular, através do
um clima propÍcio à mudança. Decreto de Extinção das Ordens Religiosas que acabava com todos os conventos e mosteiros; os
bens das ordens religiosas foram confiscados e nacionalizados, esses bens, juntamente com
As invasões francesas podem ser consideradas como uma causa indireta da Revolução Liberal bens da Coroa, foram vendidos em hasta pública.
portuguesa de 1820, na medida em que criaram uma conjuntura propícia à mudança, a vários
níveis: D. Maria ll começou a reinar, efetivamente, em 1834, sob a vigência da Carta Constitucional
Política: a) A família real embarcou para o Brasil (1807). A mudança da Corte para o Brasil, redigida pelo seu pai, D. Pedro (1834-1836: etapa designada por Cartismo). Porém, em
apesar de justificada, então, pela necessidade de preservar a independência de Portugal, foi setembro de 1836, uma revolução de carácter civil obrigou a rainha a revogar a Carta e a jurar a
entendida, pelos súbditos comuns, como uma verdadeira fuga. b) Na ausência de D. João Vl, Constituição de 1822. O Setembrismo foi um projeto político das pequena e média burguesias,
Portugal ficou sob o domínio do marechal inglês William Beresford, tornado presidente da com o apoio das camadas populares. Os mentores do Setembrismo, que integravam o novo
Junta Governativa. Beresford organizou a defesa contra os Franceses, controlou a economia e governo, eram Sá da Bandeira e Passos Manuel. A política setembrista, apoiada na nova
exerceu a repressão contra o Liberalismo nascente. Conquistou o ódio dos militares, que Constituição de 1838, caracterizou-se, essencialmente, pelas seguintes medidas: D. Maria II
perdiam os postos de comando para os ingleses, e da generalidade dos Portugueses que o viam perdeu o poder moderador; a soberania da Nação foi reforçada; adotou-se o protecionismo
como prepotente. A Revolução de 1820 viria a ser desencadeada aproveitando a ausência de económico, sobrecarregando com impostos as importações, de modo a tornar mais
Beresford, que se havia deslocado ao Brasil no intuito de solicitar ao rei poderes acrescidos. c)A competitivos os produtos industriais nacionais; investiram-se capitais em Africa, como
permanência dos Franceses no território português, bem como o exemplo da revolução liberal alternativa à perda do mercado brasileiro; reformou-se o ensino, com destaque para a criação
espanhola de 1820, contribuíram para disseminar as ideias liberais entre os Portugueses. dos liceus, por Passos Manuel; as taxas fiscais aplicadas aos pequenos agricultores não foram
abolidas, o que contribuiu para o fracasso económico do Setembrismo.
Económica: a) O regente, durante a sua estadia, tomou medidas favoráveis à economia
brasileira, porém, muito contestadas pela burguesia da metrópole, destacando-se: em 1808, a Entre 1842 e 1851, vigorou a ditadura de Costa Cabral. Enquanto o Setembrismo se inspirava
abertura dos portos do Brasil, obrigando a burguesia portuguesa a competir com os na Constituição de 1822, o Cabralismo repôs em vigor a Carta Constitucional de 1826,
estrangeiros pelo mercado brasileiro; em 1810, o tratado de comércio com a Inglaterra, que identificando-se, assim, com o período do Cartismo. E, tal como aconteceu com o Cartismo, as
favorecia a entrada de manufaturas inglesas no Brasil. medidas tomadas durante o período do Cabralismo favoreceram, em primeiro lugar, a alta
Social: a )A burguesia, sendo o grupo mais afetado pela crise no comércio e na indústria burguesia. Destacam-se, nomeadamente: o fomento industrial; o desenvolvimento de obras
decorrente das invasões francesas, era também o mais descontente, logo, mais inclinado à públicas; a reforma fiscal e administrativa. No entanto, as Leis da Saúde Pública, em especial a
preparação da revolta. A tomada de consciência política traduziu-se na constituição do Sinédrio proibição do enterramento dentro das igrejas, a par do descontentamento com o acréscimo de
(Manuel Fernandes Tomás) que planificou a rebelião. burocracia e com o autoritarismo de Costa Cabral, despoletaram duas movimentações de cariz
popular - a revolta da "Maria da Fonte" e a "Patuleia" - que se transformaram em guerra civil e
A 24 de Agosto de 1820, no Porto, saiu vitoriosa a Revolução Liberal portuguesa. Os objetivos acabaram por conduzir à queda de Costa Cabral, em 1847. Este regressaria ao poder em 1849,
da revolução, presentes no "Manifesto aos Portugueses", de Manuel Fernandes Tomás, eram, sendo afastado definitivamente em 1851, pelo golpe do marechal-duque de Saldanha. Depois
essencialmente, três: a convocação de Cortes, a elaboração de uma Constituição e uma de uma primeira metade de século extremamente agitada, nos últimos 50 anos de Oitocentos,
governação justa, que recuperasse o país da crise em que se encontrava. Formou-se, então, a Portugal iria gozar a paz e o progresso material do período da Regeneração.
Junta Provisional do Supremo Governo do Reino, que governou o país durante quatro meses e
organizou eleições para as Cortes Constituintes. Da reunião das Cortes resultou a Constituição
de 1822, elaborada de acordo com a vontade da ala mais radical dos deputados. O Vintismo é,
assim, identificado com um Liberalismo de tipo radicalista, que vigorou em Portugal através da
Constituição, entre 1822 e 1826. A Acão do Vintismo caracterizou-se, no essencial, pelas
seguintes medidas: elaboração da Constituição de 1822 e instituição do parlamentarismo;
instituição da liberdade de expressão: a inquisição acabou, a censura foi abolida; eliminação
de privilégios do clero e da nobreza: foram abolidos o pagamento da dízima à igreja e os
privilégios de julgamento; a reforma dos forais libertou os camponeses da prestação de um
grande número de direitos senhoriais; a "Lei dos Forais" reduziu as rendas e pensões que os
camponeses tinham de pagar aos senhores das terras.

O Vintismo fracassou: pela oposição constante das ordens privilegiadas, que não queriam
perder os seus direitos; pelo descontentamento das classes populares, que pretendiam uma
reforma socioeconómica mais profunda, que anulasse as estruturas de Antigo Regime; pela
atuação antibrasileira das Cortes; apesar de o Brasil ter o estatuto de reino desde 1815, toda a
atuação das Cortes se orientou no sentido de lhe retirar autonomia. Esta tentativa, por parte
das Cortes, de retirar direitos que os colonos sentiam como adquiridos resultou, em 1822, na
independência do Brasil proclamada pelo próprio D. Pedro, coroado imperador do Brasil. A
perda da colónia americana foi um dos fatores de fracasso do Vintismo, pois retirou
importantes fontes de rendimento a Portugal, o que provocou o descontentamento social. A
independência do Brasil só viria a ser reconhecida pela metrópole portuguesa em 1825.

A Constituição de 1822 é um diploma arrojado para o seu tempo. Principais deliberações: Os


direitos dos cidadãos foram assegurados. Porém, a ausência de representação das classes
populares nas Cortes refletiu-se na afirmação do sufrágio não-universal; O poder real foi
limitado: o rei, a quem cabia o poder executivo, tinha direito de veto suspensivo sobre as
Cortes, mas teria de acatar o resultado dessa segunda votação. Assim, o absolutismo foi
abolido, pois a soberania residia nas Cortes e não no rei; A sociedade de ordens foi abolida, pois
não se reconheciam quaisquer privilégios à nobreza e ao clero; A responsabilidade de
elaboração das leis foi entregue ás Cortes Legislativas; A religião católica era aceite como
religião oficial dos Portugueses.

A Carta Constitucional de 1826, ao contrário da Constituição de 1822, é um documento de tipo


moderado. A Carta foi outorgada por D. Pedro, após a morte do pai, D. João Vl, em .1826.
Procurava conciliar o Antigo Regime e o liberalismo, através das seguintes medidas: O poder
real foi ampliado: graças ao poder moderador de que passava a usufruir, o monarca podia
nomear os Pares, convocar as Cortes e dissolver a Câmara dos Deputados, nomear e demitir o
governo, vetar a título definitivo as resoluções das Cortes e suspender os magistrados; Os
privilégios da nobreza foram recuperados; As Cortes Legislativas passaram a ser compostas por
duas Câmaras: a Câmara dos Deputados, eleita por sufrágio indireto e censitário, e a Câmara
dos Pares, reservada a elementos das ordens superiores nomeados a título vitalício e
hereditário; A liberdade religiosa não era admitida; Os direitos do indivíduo só aparecem no fim
do documento e o sufrágio era censitário e indireto.

O Liberalismo português sofreu várias ameaças: As primeiras reações absolutistas lideradas


pelo infante D. Miguel foram apoiadas pela sua mãe, a rainha D. Carlota Joaquina, pela nobreza
e pelo clero. Beneficiando de uma conjuntura externa favorável ao retorno das monarquias
absolutas, D. Miguel pôs em prática dois movimentos militares: a Vila-Francada, em 1823 e a
Abrilada, em 1824. Apesar de fracassados puseram termo ao projeto progressista do Vintismo.
D. João Vl remodelou o governo, que passou a integrar liberais moderados, e muitos dos
liberais fugiram do país; Em 1828, Portugal tornou-se, de novo, um país absolutista. Perante o
problema da sucessão ao trono após a morte de D. João Vl, D. Pedro, então imperador do
Brasil, confirmou a regência de Portugal e abdicou dos seus direitos à Coroa em favor da filha D.
Maria da Glória. Porem, como a sua filha tinha apenas sete anos, ficaria como regente D.
Miguel, o qual casaria com a sobrinha e juraria a Carta Constitucional. O casamento não se
chegaria a realizar pois D. Miguel, após ter regressado do exílio, convocou Cortes onde se
aclamar rei absoluto; entre 1832 e 1834 desenrolou-se a guerra civil entre os liberais e os
absolutistas. A implantação definitiva do Liberalismo revelou-se muito difícil, pois D. Pedro
apenas dispunha de um pequeno exército (de cerca de 7500 homens). Foi a partir da ilha
Terceira dos Açores que D. Pedro organizou a resistência. Em 1832 desembarcou no Mindelo,
dirigindo-se para a cidade do Porto, onde foi cercado, durante dois anos, pelas forças
absolutistas (Cerco do Porto). A vitoria liberal só aconteceu em 1834, e foi selada pela
Convenção de Évora-Monte.

Mouzinho da Silveira, ministro da Fazenda (finanças) e da Justiça durante a regência de D.


Pedro, promulgou decretos fundamentais para a consolidação do Liberalismo, atacando as
estruturas de Antigo Regime: na agricultura, aboliu os dízimos, os morgadios e os forais; no
comércio, extinguiu as portagens internas; na indústria, acabou com os monopólios,
nomeadamente o da Companhia das Vinhas do Alto Douro; na administração, dividiu o país em
províncias, comarcas e concelhos; também instituiu o Registo Civil para todos os recém-
nascidos, retirando a questão do nascimento da alçada da igreja; na justiça, organizou o país
segundo uma hierarquia de circunscrições (divisões territoriais), submetendo todos os cidadãos
à mesma lei; nas finanças, criou um sistema de tributação nacional, eliminando a tributação
local que revertia a favor do clero e da nobreza; substituiu o Erário Régio (criado pelo Marquês
de Pombal) pelo Tribunal do Tesouro Público para controlar a arrecadação de impostos; na
cultura, mandou abrir aulas e instituiu a Biblioteca Pública do Porto.

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