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METAMORFOSES,

GLÓRIAS E
INCOMPLETUDES
DO AUTOR

Pedro Demo

W Edições Hipótese
EDIÇÕES HIPÓTESE é nome fictício da coleção de livros editados pelo Núcleo de
Estudos Transdisciplinares: Ensino, Ciência, Cultura e Ambiente, o Nutecca.

http://nutecca.webnode.com.br

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Salamanca), Prof. Dr. Fernando Santiago dos Santos (IFSP), Prof. Dr. Viktor Shigunov
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Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor

Sumário

APRESENTAÇÃO. UM LIVRO SOBRE AUTORIA – Ivan Fortunato ........... 4

INTRODUÇÃO .......................................................................................... 5

PRIMEIRA PARTE: DEBATES DA AUTORIA .......................................... 7


1.1 Criatura contra criador ....................................................................... 7
1.2 Autor, mas nem tanto ......................................................................... 10
1.3 O transcendental e o impessoal .......................................................... 16
1.4 Situando o sujeito ............................................................................... 23
1.5 Autorias camaleônicas ........................................................................ 28
1.6 Controvérsia do século XX .................................................................. 37
1.7 Feminismo autoral .............................................................................. 48
1.8 Ideologias e autoria ............................................................................. 59
1.9 Lei e assinatura .................................................................................. 73
1.10 Self do autor ..................................................................................... 88

SEGUNDA PARTE: AUTORIA E APRENDIZAGEM ................................... 92


2.1 Autoria e emancipação ........................................................................ 93
2.2 Educação e conhecimento ................................................................... 99
2.3 Autorias de segunda categoria ............................................................ 104
2.4 Do it yourself ...................................................................................... 111
2.5 AVAs e tecnologias digitais .................................................................. 114
2.6 Politicidade da autoria ........................................................................ 118
2.7 Ambiguidades da autoria .................................................................... 125

CONCLUSÃO: APRENDIZAGEM COMO AUTORIA ................................... 135

REFERÊNCIAS ........................................................................................ 137

0 AUTOR ................................................................................................. 156


Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

APRESENTAÇÃO. UM LIVRO SOBRE AUTORIA

Perto das festividades de fim de ano, o Nutecca presenteia a comunidade Página | 4


acadêmica com uma obra autoral, sobre autoria, de um dos mais renomados
pensadores de nosso tempo de nosso país.

Com bastante orgulho que trazemos este livro, inédito, cujo tema central
é a autoria – de conhecimento, de saberes, de vida – em ampla discussão
teórica, conceitual, histórica, alcançando o tempo presente das tecnologias
virtuais. Pedro Demo coloca em evidência várias ideias profundas a respeito do
tema, levando-nos a refletir sobre o que vem a ser “produzir ciência” do ponto de
vista da autoria.

O livro tem duas partes, que podem ser lidas em um só fôlego ou, como
se pode recomendar, em dois momentos, dando tempo para o amadurecimento
da reflexão provocada pelas palavras do autor.

Espero uma excelente leitura e, como deseja o próprio Pedro Demo,


novas e instigantes aprendizagens.

São Paulo/Itapetininga/Sorocaba, dezembro de 2016.

Ivan Fortunato
Nutecca
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

INTRODUÇÃO

Discuto a questão da “autoria”, tomando como referência mais imediata


uma obra de Seán Burke (1995), um “reader” (compêndio de leitura) que vai de
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Platão ao Pós-moderno, incluindo excertos breves de muitos autores sobre como
entender autoria, em particular de livro, poesia, obra de arte, software, texto em
geral, bem como alguns aportes de Burke, de estilo introdutório. Esta obra já é
“antiga”, para padrões digitais, tendo várias reimpressões (a última é de 2006),
mas seu significado continua atualíssimo, por mais que não abrigue conotação
à discussão na nova mídia que retomou a questão em grande estilo, seja pela
porta da web 2.0 que preconiza “geração de conteúdo próprio” (Web 1.0..., 2013.
Harris, 2008. Shelly & Frydenberg, 2010. Kidd & Chen, 2009. Jones, 2008. Ito,
2009. Ito et alii, 2007. Demo, 2009), ou pela noção de remix (Lessig), plágio
(Blum, 2009) e “internetês” (Crystal, 2009. Davidson, 2011), etc. Esta pegada
reacendeu o debate sobre aprendizagem direcionando-o para o desafio da
autoria, sinalização que aparece em toda teoria importante de aprendizagem,
mas que ficou, na prática, ofuscada pela aula instrucionista e táticas reprodutivas
de conteúdo curricular na escola/universidade. Barthes açulou a controvérsia
com sua provocação conhecida da “morte do autor”, menos original do que
parece (teorias da imitação ou da inspiração sempre o mantiveram sumido), mas
que arrumou imenso estardalhaço na academia. É inegável que o termo “autor”
acarreta interesse e desafio, porque mexe com sensibilidades políticas, criativas
e artísticas, bem como induz a prepotências de autonomia excessiva, sem falar
na invasão do mercado capitalista que busca apropriar-se da criação alheia pela
via da “propriedade intelectual”, sempre muito repelida pelos hackers, que
persistem em definir código como discurso (livre) (Coleman, 2012). Atrás de um
texto sempre há um autor, mesmo que ele se imagine mero porta-voz, como na
Bíblia (Bennett, 2005). Por que o autor ora quase some, ora se apresenta em
excesso, é uma questão sempre muito debatida, em particular na academia onde
“originalidade” vale como critério fundamental da cientificidade, ao lado de
outros. Resultados científicos são feitos de originalidades intersubjetivamente
reconhecidas, ainda que, ao preço da neutralidade/objetividade a subjetividade
seja reprimida (Latour, 2013).
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Busco neste texto reconstruir algumas argumentações em torno da


autoria como referência fundamental para a aprendizagem voltada para a
construção da cidadania e do conhecimento. Faço em duas partes. Na primeira,
discuto autoria com acento literário ou similar, debulhando um rol de debates que
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vão desde a antiguidade grega até ao pós-moderno, realçando suas
metamorfoses infindáveis e inconclusas. Na segunda, construo um cenário da
ligação entre autoria e aprendizagem, rumando para o uso possível do termo
para revivificar ambientes de aprendizagem, em particular com novas
tecnologias (Gallop, 2011. Irwin, 2002. Vaidhyanathan, 2003. Bolter, 2001).
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

PRIMEIRA PARTE: DEBATES DA AUTORIA

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1.1. CRIATURA CONTRA CRIADOR

É sintomático que a Bíblia, em seu primeiro livro (Gênesis)


(https://www.bibliaonline.com.br/acf/gn/2) comece com a alegoria do pecado de
Adão e Eva, um pecado do conhecimento. Consta que Deus plantou um jardim
no Éden onde colocou o homem dizendo que podia comer de toda árvore aí
plantada, menos da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn2:17). A
serpente, porém, incitou a mulher (Eva) a comer, alegando que a ordem divina
não deveria ser obedecida: “Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que
no dia em que do fruto comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como
Deus, sabendo o bem e o mal” (Gn3:4-5). Adão e Eva acabaram comendo do
fruto proibido do conhecimento: “Então foram abertos os olhos de ambos”
(Gn3:7), percebendo aí que estavam nus – uma alegoria para a perda da
inocência. Deus então reconhece que “o homem é como um de nós, sabendo o
bem e o mal” (Gn3:22) e para que não se aproprie também da árvore da vida, o
expulsou do paraíso, tendo agora que “comer do suor do seu rosto” (Gn3:19).
Encena-se aí uma disputa atávica da criatura contra seu criador, tendo como
arma específica conhecimento. Insinua-se que conhecimento do bem e do mal
é exclusividade divina, mas o ser humano também quer esta “autoria”, passando
a disputá-la, usando a arma apropriada que é a faculdade mental de conhecer.
O “pecado original”, ao contrário do imaginário popular que se fixa em
contravenção de luxúria (alegoria da nudez percebida após a queda), refere-se
a uma disputa por autoria do bem e do mal desdobrada entre criatura e criador.
Saindo do contexto bíblico, autoria como pecado encarna a condição de massa
de manobra do oprimido – para falar na linguagem de Paulo Freire (1997; 2006)
– que é proibido de sublevar-se (emancipar-se), porque só pode ser criatura do
opressor. Emancipação é “conhecimento proibido” (Shattuck, 1996. Rescher,
1987) e isto leva o oprimido a esperar do opressor sua libertação, um projeto
impossível. Desse contexto Freire extraiu seu conceito de “conscientização”:
tomar conhecimento crítico da condição de oprimido, não como sina, imposição
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

divina, mau jeito, mas processo histórico imposto. Daí também vem a noção de
“ler a realidade” – ler para desvelar, desmascarar. Enquanto na Bíblia a alegoria
foi montada para caracterizar um pecado de afronta da criatura, na teoria/prática
da emancipação trata-se de abrir os olhos do oprimido para que possa desfazer-
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se da opressão, sendo ele mesmo a peça chave do processo libertário.
Conhecimento que emancipa é aquele que se rebela, confronta, tornando o
oprimido autor de proposta própria ou projeto alternativo. Assim, a alegoria do
pecado original tornou-se a contraluz da emancipação, tendo de admitir, para
que a dinâmica política seja completa, também o lado sinistro sempre possível:
o liberto pode ser o novo opressor; basta que chegue ao poder! Assim como
católico novo pode ser mais católico que o Papa, também o liberto novo pode
ser mais opressor que seu prévio opressor.
Autoria é, então, disputada no palco da vida em plena ambiguidade
existencial. Não sendo possível nunca ser autor total, completo, final, toda
autoria é feita de outras autorias também, conquistadas, seduzidas, assaltadas,
não havendo sossego final para quem não consegue entender autonomia como
convivência indispensável com outras autonomias. Toda autoria é tão grande em
pretensões quanto é pequena em sua incompletude e é por isso que todo
poderoso morre de medo de perder poder. Todos à volta são potenciais inimigos,
vivendo de sobressalto diário. Adão e Eva, segundo a alegoria bíblica, quiseram
uma autoria indevida, pois não cabe na criatura tamanha potência, enquanto a
grande maioria quer a autoria mínima que lhe é devida: conduzir sua vida com
mão própria, ainda que sempre incompletamente. O pobre mais pobre que se
pode imaginar não é o que não tem nada ou quase nada, mas quem tem seu
destino na mão dos outros (chamo a isso de pobreza política) (Demo, 2007),
porque é destituído do mínimo direito de ser. Não sendo sujeito (autor) de sua
própria história, esta é feita à sombra ou na sobra dos outros. Esta perspectiva,
porém, não pode elidir a face sombria da politicidade: a divisão igual das autorias
em sociedade não é viável, tanto porque é dinâmica não linear, complexa, quanto
porque a dialética da disputa não produz estabilidade garantida. Produzir um
autor com desconfiômetro é o mesmo que produzir conhecimento com
desconfiômetro: um intento tão fundamental quanto complicadíssimo e sempre
inconcluso.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Ao introduzir a questão do feminismo e do sujeito autoral, Burke afirma:


“Seria dificilmente um exagero dizer que as lutas do feminismo têm sido
primordialmente luta por autoria – entendida no sentido mais vasto como a arena
na qual a cultura tenta se definir. Ideias feministas sobre autoria serão
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inevitavelmente políticas, já que autoria envolve a apropriação do espaço cultural
e serve para sustentar o princípio do cânone literário que – no pensamento
feminista – tem sido definido em termos de preconceito patriarcal. A própria ideia
de cânone faculta ao patriarcado policiar a fronteira entre autoria e escrita em
termos hierárquicos que tradicionalmente alocaram mulheres ‘escritoras’ na
categoria secundária e desvalorizada” (Burke, 1995:145). A diferença neste caso
do feminismo é que, com as lutas do século passado mormente, ganhou
“conscientização” notável, o que lhe permite “ler a realidade” com particular verve
crítica. Leve-se em conta que, apesar da opressão patriarcal sobre as mulheres,
elas avançaram em muitas áreas estratégicas da emancipação, também na
academia, o que lhes faculta elaborar sua própria proposta emancipatória, sem
pedir tutela de “intelectuais orgânicos” masculinos! Marcantemente, o movimento
feminista, mesmo muito heterogêneo, chegou forte exigindo “igualdade”, para,
logo mais, entender que “diferença” é o mesmo direito, apenas na outra face. A
autoria feminina ainda é tolhida em muitos espaços, entre eles, por exemplo,
está difícil para a mulher ocupar em religiões a hierarquia, bem como na alta
ciência: até 2011, só 43 mulheres conseguiram Prêmio Nobel, enquanto 783
homens aí figuram, junto com mais 20 organizações laureadas
(http://www.curiosowiki.com/2013/03/6-curiosidades-sobre-os-premios-
nobel.html). Mesmo assim, reconhecemos que a autoria feminina avança
visivelmente, diminuindo espaços antes considerados masculinos (nas áreas de
ciências exatas e naturais, por exemplo) (Ramirez, 2013).
No torvelinho das ambiguidades autorais, a tese da morte do autor é
típica: Barthes, grande autor, propõe sua própria morte! Só isso bastaria para
indicar que a expressão não pode ser tomada ao pé da letra. Na prática, sua tese
provocativa o tornou autor tanto mais renomado, ou seja, ainda “mais” autor!
Teve o mérito de apontar para as limitações da autoria e sobretudo de superar o
autor sobranceiro e perfeito. Qualquer texto é feito de outros textos, assim como
toda mente é tecida de outras mentes pela via da linguagem, cultura, vivências
comuns que formam o repositório do qual alimentamos qualquer discurso.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Somos mais coautores do que autores propriamente, pois não há como postar-
se sozinho sobre todos os autores. Atacar a posição de autor é, em geral, manha
de autor – para, pela via da modéstia tática, angariar tanto mais respeito. Mas, a
condição de autor é claramente limitada porque é produto de mente limitada.
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Como toda tese de doutorado, ela só termina quando ninguém mais aguenta,
não porque possa realmente terminar. É interminável, se assim quisermos. A
tese que vai para a defesa pode ser atacada e até mesmo rejeitada, bem como
pode ocorrer que tese em si muito precária acabe aprovada por conluio útil.
Autoria não é necessariamente coisa limpa – que digam os plágios!

1.2 AUTOR, MAS NEM TANTO

Na introdução ao livro, Burke (1995a) faz uma “reconstrução do autor”,


desvelando suas metamorfoses mais marcantes e recorrentes. Faz citação
oriental de Zhang (1992:150): “Uma vez Zhuang Zhou sonhou que era uma
borboleta; era realmente uma borboleta revoando à volta, feliz e confortável, não
sabendo que era Zhou. Depois de um tempo, acordou e surpreendentemente viu
que era Zhou em pessoa. Não estava claro se era Zhou que havia sonhado ser
a borboleta ou era a borboleta que havia sonhado ser Zhou. No entanto, deve
existir diferenciação entre Zhou e a borboleta, e isto se chama transformação
das coisas”. Para Burke esta é uma das questões que perpassam a história
ocidental, e toda tentativa de decidir não vai além de reinventar a pergunta.
Autoria, como cosmogonia, permanece fonte de fascinação para crentes e não
crentes, já que as perplexidades levantadas refletem o senso de toda sociedade
de estar no mundo e a construção do de si mesma em relação ao discurso,
conhecimento e tradição. Aparecem sempre traços misteriosos do estar no
mundo e em transformação constante, apesar das identidades culturais e
pessoais. Noções de self, criatividade, psique, origem, fonte, teologia, onto-
teologia, iniciativa, vontade livre, determinismo, consciência, causalidade,
gênero, identidade cultural, objetividade, subjetividade, propriedade,
autoridade... são implicados não apenas pela questão da autoria, mas também
por teorias da ausência, morte ou desaparecimento do autor. Gostaríamos de
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

saber de onde viemos, para aonde vamos, o que afinal somos, por que somos
os mesmos mudando todo dia, até que ponto podemos conduzir o destino ou
somos conduzidos... Um dos ataques mais ostensivos ao autor foi endereçado
por Barthes (A morte do autor) (1977) em 1968, acirrando a disputa pela
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quantidade e qualidade da autoria possível. O resultado maior foi a ironia da
abordagem, já que, para assassinar o autor, é preciso um autor, assim como o
iconoclasta chama atenção para os ícones que destrói e a teologia negativa
realça a divindade. “As quimeras antigas da origem e autoria reafirmam-se nos
próprios gestos que buscam acabar com origem e autoria” (Burke, 1995:XVI).
Como vimos no relato do Gênesis, a disputa por autoria move o mundo e os
deuses, mas autor há de todos os tipos e graus. Os humanos que escreveram
os livros da Bíblia o fizeram sob inspiração divina, segundo os cristãos – eram
autores ou não? Em geral artistas e poetas dizem que só conseguem criar
quando sobrevém a inspiração, uma espécie de rapto da mente, sobre o qual
não se tem controle – são autores, ou ecos da musa?
Dizia Bloom que significado agarra-se ainda mais às origens, quanto mais
intensamente nos esforçamos para nos distanciar delas, sendo que o
esvaziamento postulado do sujeito autoral se enredou num ciclo interminável de
resistência às pressuposições transcendentais que queria extinguir (1975:62). A
despersonalização radical do discurso tem precedentes na tradição mimética
que, em suas versões idealistas e no naturalismo quase-científico de Zola e
outros, implica a ausência total da subjetividade autoral para favorecer a uma
representação não mediada da realidade objetiva. Barthes picha esta posição
como “objetividade castradora do romancista realista” e redefine a
despersonalização moderna em termos anti-miméticos como “aquele ponto onde
apenas a linguagem age, atua, não ‘eu’” (1977:143). É a linguagem que fala, não
o autor que não a inventa – assim, é nítido que o autor não pode ser instância
suprema e única, porque nele infindas dimensões são encontradas já
produzidas, sem falar que houve autores antes, dos quais se nutre. Uma origem
absoluta é impensável, o que torna a proposta do Big Bang uma cosmologia
superficial e crédula, apelando para “auto-causalidade” contraditoriamente:
estando dentro do espaço e do tempo, não vemos onde começam e acabam,
mesmo que pesquisas infiram que o mundo teria “começado” há mais de 14
bilhões de anos. Este mundo tem “auto-autoria” (selfauthorship), sendo esta
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

proposta evolucionária, não precisando de outra causa que não seja


estritamente natural. Os cristãos contestam, porque está na Bíblia que o mundo
teria sido criado há menos de 10 mil anos, o que mantém a disputa entre
evolucionistas e criacionistas. Deixando de lado a querela, a evolução é dotada
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de propriedades autorais, tendo em sua história bilionária “criado” a
biodiversidade estupenda. Não é uma autoria perfeita, porque nunca se cria do
nada, mas do que preexiste. Mas apresenta criatividade fantástica, ao montar a
vida, o ser humano, o universo em expansão etc.
A posição de Barthes evita a objetividade platônica e naturalista, mas
diferencia-se muito pouco da tradição da inspiração da teoria clássica, patrística
e medieval. Na percepção medieval do livro, autor (auctor) era um escritor
através do qual o script divino era composto, como consta em Nicholas de Lyre
(1270-134): “No ato de profetizar, Deus (tocando ou elevando a mente do profeta
para o conhecimento sobrenatural) e a mente do profeta (tocada ou iluminada
desse modo) seguia. É necessário que a ação movente e a coisa movida
coincidissem... Deus comparecia como o gente principal, e a mente do profeta
como o agente instrumental” (apud Minnis, 1984:91). Autores humanos das
Escrituras não têm poder de originar, estando submetidos à autoridade de Deus
(auctoritas). Na teologia cristã esta posição é coerente, porque a Bíblia é a
“palavra de Deus” – os livros foram escritos por escribas humanos, mas sob
estrita condução divina. São, pois, tão somente agentes instrumentais. Mas esta
condição pode surgir, de maneira aproximada, em circunstâncias nas quais um
“compilador” procura retratar na maior fidelidade possível o pensamento do
mestre e tem seu ponto mais baixo no plágio – este, agora em particular com as
novas tecnologias, é mais comum do que se pensa (Posner, 2007).
Foucault descreve o autor de Mallarmé como “executante numa pura
cerimônia do Livro no qual o discurso se comporia a si mesmo” – a distinção
entre este papel e do escriba bíblico reside apenas na designação da alteridade
pela qual o recipiente é tomado (1970:306). De modo similar, o escriba impessoal
com quem Barthes substitui o autor apenas difere do auctor pelo fato de que a
linguagem é sacralizada na esteira da auctoritas divina: “O escritor moderno...
não é o sujeito e o livro o predicado; não há outro tempo que não este da
enunciação e todo texto está eternamente escrito aqui e agora... Para ele, ao
contrário, a mão, amputada de toda voz, nascida de um gesto puro de inscrição
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

(e não de expressão), traça um campo sem origem – ou que, pelo menos, não
tem outra origem que a própria linguagem, linguagem que incessantemente
problematiza todas as origens” (1977:145-146). O autor, assim, inscreve o texto,
não o expressa propriamente, porque toda expressão é processo/produto da
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linguagem que existe antes de qualquer autor. Não há como chegar primeiro,
sozinho, em vantagem, porque a autoria é uma colcha infinita de retalhos, na
qual não se pode indigitar um autor. O que se escreve, já estava escrito sob
outras formas, porque se usam os mesmos artefatos disponíveis (linguagem,
gramática, vocabulário, significados, semântica...). Quem quiser definir autoria,
terá de procurá-la nesse contexto e certamente não vai achar, segundo Barthes.
Burke comenta que bastaria substituir Deus por linguagem para replicar o
contexto medieval de auctor marcado pela inscrição, não pela expressão, campo
sem origem, ou sem outra origem que não seja Deus – que questiona toda
origem. Também a visão da psique autoral dividida, marcada pela inabilidade de
as intenções do sujeito escritor se tornarem plenamente presentes a si mesmo
no texto, foi antecipada nas tradições clássicas e medievais. Platão e Longino
enfatizaram que poesia se originaria na visitação frenética inacessível à
consciência – uma ironia em Platão, mas convicção em Longino. A exegese
bíblica, vendo a Escritura emanando da mais radical das alteridades, a Vontade
Divina, inteiramente aceitou que a intenção autoral (intentio auctoris) podia no
máximo ser co-causa nos textos em formação. Questionava-se, desde a
antiguidade o autor plenamente consciente, em especial nos arcanos da arte –
artistas são arrebatados para fora de si, quando criam sua melhores obras de
arte. Daí vem o modelo “da inspiração”, algo comum entre, por exemplo, em
compositores de música – esta flui sob inspiração e não a toda hora. No entanto,
exegetas cristãos desenvolveram aparatos sofisticados e intrincados críticos
para permitir um inter-jogo complexo de determinantes múltiplos, incluindo o
papel do auctor na constituição do texto bíblico. Embora a origem divina nunca
fosse questionada, sendo ela a autoria em primeira e última instância, havia
espaço significativo para distinguir, por exemplo, estilos diversificados de
escritura na Bíblia: crônicas, relatos, alegorias, salmos, cânticos, profecias etc.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

As muitas nuances da “alteridade” desenvolvida na teoria – inconsciente,


linguagem, forças culturais ou políticas, écriture, différance1 etc. – distingue-se
da tradição medieval mormente através do não reconhecimento da sobre-
determinação de uma cena textual amarrada a alteridades e o papel participante Página | 14
do autor. Autor é mistura de alteridades e individualidades, por sua condição
cultural, biológica e genealógica, não sendo viável falar de um pedestal sozinho
– toda fala pressupõe fala anterior da qual somos também eco, não só autor. Em
termos psicológicos ou psicanalíticos, apanha-se a condição humana
amplamente inconsciente, impedindo consciência plena de uma autoria que a
tudo determinasse e controlasse. Mesmo quando queremos algo
intencionalmente, de caso pensado, voluntariamente, este ato não pode ser visto
como puro, desencarnado, neutro, mas contextualizado por infindas dimensões
da realidade interna e externa. O próprio termo auctor demorou para incorporar
conotações de originalidade que hoje reconhecemos melhor (Said, 1975:83). Na
etimologia proposta para “autor”, entre quatro termos, os três latinos não
implicam senso de maestria textual: agere (agir) – aproxima-se das ideias
medievais e de Barthes – um texto que precede à sua performance; augere
(crescer) – com ressonâncias organicistas, não sugere originar-se o texto com
seu autor; auieo (amarrar), derivado do léxico poético e referido a tecido
conectivo (métrica, pés etc.) pelo qual poetas como Virgílio estruturavam seus
versos – prefigurando mais noções estruturalistas de bricolagem e de autores
como montadores de códigos do que o conceito de autor como potência criativa.
Só a quarta raiz, do grego autentim, “autoridade” sugere autoria como
hegemônica, mas também aí a ideia de autoridade está inteiramente longe da
de autonomia, já que autores antigos recebiam sua autoridade (auctoritas) de
Deus, no cânone da inspiração e bíblico.

1 Écriture (escrita em francês); nos teóricos modernos franceses, tem significado técnico: i)
escrita como estilo, a exemplo do livro de Barthes “Writing Degree Zero” (1953/2102), que ataca
a ilusão de escrita neutra ou pura porque todo escrito tem algum estilo ou discurso que molda
nossa visão de mundo; ii) escrita como atividade intransitiva, também proposta por Barthes em
ensaio posterior (Writers and Authors) (1960) (http://www.ae-
lib.org.ua/texts/barthes__essais_critiques__fr.htm#21) sobre “ecrivains et écrivants”,
contrastando écrivants que escreviam para propósito ulterior com écrivains para quem escrever
é algo autodirecionado, sobre si mesmo como linguagem; iii) escrita como différance, oposta à
autenticidade ilusória do discurso, conforme a filosofia de Derrida da desconstrução; iv) écriture
fémine, ou especificamente escrita de gênero feminino, concebida por Cixous, cujos trabalhos
dos 1970 discutem o senso no qual a escrita da mulher transborda das oposições binárias da
lógica patriarcal (http://www.answers.com/topic/criture).
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Contrastando esta condição de autoria “fraca” com a autoria “forte” do


Gênesis, na qual a criatura se confronta com o criador usando como arma
conhecimento questionador, pode surpreender que a antiguidade tenha visto
autoria como atividade tão limitada. Ocorre que o relato do Gênesis na verdade
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busca encaixar a noção de pecado que vai por conta de Adão e Eva, não da
emancipação que seria, de todos os modos, espúria num relato divino. A
insubordinação de subordinados já vinha prenunciada, mas era “pecado”. Era
comum que escritores apusessem no texto o nome do tutor ou patrocinador, ou
ficava anônimo, como na Bíblia, para assegurar que o texto é de Deus. A visão
medieval do livro já contém pretensões de desatrelar a autoria da tutela
teológica, mas mantém-se tolhida numa alocação tipicamente estrutural(ista) do
autor. Muitos autores sacaram que o repúdio contemporâneo ao autor ecoava
visão antiga – Barthes chega a falar de “escritor moderno” – mas tendem a
apropriar-se da visão mais velha de autoria para celebrar o vazio do autor
humanista abolido, mais do que considerar como nossas noções de autoria
poderiam ser revistas produtivamente. O que distingue concepções pré-
modernas de autoria é sua assunção de que discurso é primordialmente uma
interação pública, não procedimento privado. A apropriação privada da autoria
viria depois, com o capitalismo e suas leis de propriedade intelectual, onde,
porém, o dono é o capitalista, não o autor propriamente. Mesmo autores
extremamente criativos e produtivos, como Newton, sempre reconheceram que
aí chegaram porque estavam postados sobre os ombros de gigantes
predecessores. Aparece aí a ambiguidade que perpassa as vísceras da autoria:
de um lado, a individualidade de Newton, inegável; de outro, a obra pública, por
haurir de repositórios que vão muito além da individualidade.
Os vários modelos imitativos – miméticos, didáticos e técnicos – afirmam
todos a conexão da literatura com os domínios públicos, quer se refiram à
realidade objetiva expressa na linguagem, ou à visão compartilhada de como o
social deveria estruturar-se, ou em termos de convenções públicas e tradições
para a produção e recepção do discurso. A mimética aparece mais claramente
na repetição dos códigos da escrita que são os mesmos para todos, ainda que
usados contextualmente. Quando um músico monta uma partitura, não precisa
inventar a anotação codificada musical, muito menos a estrutura das notas (tons
e semitons, escalas...); usa-a em boa parte repetitivamente. O modelo
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

inspiracional assume ainda mais incisivamente que discurso não se origina, nem
culmina com o individual, já que o autor funciona como um avatar da escrita
divina dirigida a toda a humanidade. Daí a ênfase evangélica em disseminação
ampla, escrita ou declamada. Não se valoriza uma interioridade que se alimenta
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de si mesma para si mesma, pois a tradição inspiracional afirma que o discurso
não é intuição privada, mas revelação pública. Alegou Barthes que o nascimento
do leitor deve ser à custa da morte do autor, valendo o leitor como sinédoque
para “público” e “autor” para “interioridade”. De fato, a consideração do leitor
complica bem mais esta ambiguidade, porque não se pode garantir nada em
termos de como vai interpretar o texto, muitas vezes bem longe do que suporia
o autor. Para Burke, portanto, a morte do autor não é algo novo, pois nutre-se de
eflúvios antigos e medievais, sendo novo apenas sua referência estruturalista à
linguagem e cultura.

1.3 O TRANSCENDENTAL E O IMPESSOAL

A história da autoria, contudo, é ainda mais complexa e ambígua.


Dinâmicas evolucionárias por vezes inventam rupturas drásticas, mas seu modo
mais comum é a mudança gradual e não menos profunda, já que mudança de
verdade só é mudança se algo muda em sua profundidade (Demo, 2011). Como
ocorre com tecnologias, elas rompem sempre, mas herdam pedaços importantes
de momentos anteriores, o que não só permite a convivência de velhas e novas,
mas principalmente a mudança profunda com continuidade. O impulso mimético
declina no romantismo, ao mesmo tempo que a originalidade autoral aflora no
interior da consciência incisivamente no fim do século XVIII. A noção de um
escritor desafiando ou transcendendo a tradição – evidente na celebração
renascentista do gênio (Vasari, 1550) – foi claramente prefigurada no trabalho
de Edward Young, William Duff e outros, que valorizaram produções originais
sobre a imitação neoclássica. De modo semelhante, os esforços subjetivistas de
Montaigne em nome da auto-representação, junto com a exploração da
consciência interior em Descartes e os pensadores do Iluminismo, desafiam a
redução a recorrências periódicas confortáveis. A descontinuidade epistêmica
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

que aí aparece refere-se ao poder novamente assinalado pelos românticos à


consciência individual na criação de um mundo que é, daí para frente, assumido
para ser espelhado ou representado. Por mais que se queira, forçando muito a
barra, apagar o sujeito autor, existe em qualquer texto uma individualidade
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subjetiva em jogo que não pode ser suprimida. A criatividade solta era, porém,
muito ingênua, “romântica”.
Diriam alguns que o trabalho de Young, Duff e outros parecerá “pré-
romântico”, já que seu modelo de originalidade é definido reativamente via
tradição, mais do que em termos de uma teoria da consciência interior como
constitutiva da realidade que busca representar. Este reconhecimento só viria
com Kant, quando ocorreu a reestruturação mais radical da relação entre
consciência e seus objetos, uma “revolução copernicana”: garantia que o único
mundo que conhecemos é o mundo que construímos através das categorias
mentais inatas... Emergia forte a noção hoje comum na neurociência de que
seres vivos são autopoiéticos, autorreferentes, funcionam de dentro para fora,
com relativa autonomia e autoria (Maturana, 2001. Koch, 2012. Chabris &
Simons, 2010). Certamente, a realidade externa não depende, para existir, de
ser mentalmente construída, mas a realidade que pisamos é aquela que a mente
projeta, sob todos os riscos. Para Kant, o mundo que percebemos é só possível
através de operações de um ego transcendental que impõe categorias a priori
de espaço, tempo e causalidade sobre objetos em última instância inacessíveis
da experiência. O idealismo transcendental, em termos estritamente
epistemológicos, não impedia que o conceito de subjetividade que dá origem ao
mundo que lhe é dado na consciência promovesse analogias dinâmicas, ainda
que nem sempre precisas, com criatividade artística. Abandonando,
naturalmente, pretensões “transcendentais”, a neurobiologia acata que a ciência
trabalha com um objeto construído que, como alega Latour (2005), são os mais
bens construídos por conta do método. Embora também se evite falar de
estruturas inatas mentais, aceita-se a noção de “natureza humana” dada
evolucionariamente, de sorte que a mente não é tabula rasa (Pinker, 2002). Não
somos, de novo, autores plenos nunca, pois não somos inteiramente originais,
mas a autopoiese nos indica posição de autor, ainda assim.
Como primeiro toque de idealismo romântico, Fichte e Schelling buscaram
tornar substantivo ética e metafisicamente o que em Kant era postulado
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

epistemológico. A demonstração kantiana de que o mundo da experiência não é


em si dado para a consciência serviu para problematizar a subordinação
mimética do autor à natureza; a função construtiva do ego transcendental foi
estendida para a estética via um modelo de imaginação moldando e (re)criando
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o mundo na linguagem poética. Shelley iria fazer os reclamos mais vívidos para
esta função da imaginação: “Ela cria de novo o universo depois de o ter
aniquilado em nossas mentes, pela recorrência de impressões embotadas pela
repetição” (1909-14:790). Nesta cosmogonia poética, na qual a mente se torna
a causa em parte do que representa, velhas categorias da imitação e inspiração
não somem, mas, ao invés, se redistribuem dentro de nova economia da
subjetividade. O papel mimético da poesia persiste forte em Wordsworth, por
exemplo, mas agora junto com a ênfase sobre a fecundidade recíproca da
imaginação no que ele chama de “intercâmbio enobrecedor/ De ação de dentro
e de fora” (1926:375-76. Taylor, 1989). A natureza não é algo apenas dado, mas
em necessidade de complementação estética. Declarava: “É ajustada: E quão
requintadamente também.../ O mundo externo é ajustado à Mente;/ E a criação
(por nenhum nome mais baixo/ Pode ser chamada) que eles com potência
mesclada/ Realizam...” (Wordsworth, 1949:63-71).
A natureza agora parece depender do poder de epifania da imaginação
criativa para sua reprodução poética – imaginação é exigida para suplementar a
natureza, revelar a verdade da natureza que não pode preceder à sua
representação imaginativa. Esta exploração dos recessos interiores da mente
revelaria intuições alheias à consciência do controle artístico, do que resultava
que questões de inspiração e alteridade se reafirmavam dentro da estética
romântica. Convocavam-se energias íntimas poderosas, mas incontroladas – a
autoria tornava-se mais subjetiva e também mais temerária. O poeta inspirado
estava fora de si, conduzido por interiores avassaladores, tão criativos, quanto
indomáveis. O interesse renovado na inspiração não se apresentava, todavia,
como separado da categoria emergente da imaginação. A própria ideia de um
“criador inspirado” ressoava bem menos no romantismo tensões paradoxais que
hoje discernimos em tal conceito: inspiração era vista junto, não contra, a
imaginação criativa e originadora. O poema Kubla Khan (de Coleridge) tem forte
peso no inconsciente (http://shadowstosoul.blogspot.com.br/2012/11/traducao-
kubla-khan-de-samuel-taylor.html), mas fecha aspirando por um estado de
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

inspiração dominada e pela reconciliação produtiva do sujeito e alteridade. Em


Wordsworth, inspiração é “voz interna”, em Shelley é broto da imaginação
criativa; em ambos, porém, sempre pensados em termos de sujeito individual e
nunca como a alteridade radical das tradições patrísticas e medievais. Eis a
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fórmula de Coleridge para a reconciliação: “A IMAGINAÇÃO, então, considero
ou como primordial, ou secundária. A IMAGINAÇÃO primordial penso ser o
Poder vívido e Agente primordial de toda Percepção humana, e como repetição
na mente finita do ato eterno de criação no infinito Eu Sou” (1983:304).
Mantém-se a antiga associação entre criatividade humana e divina, mas
sujeita agora a uma reversão sem precedentes. O autor não é mais leitor
privilegiado do script divino na natureza, nem um eleito que, na inspiração, ecoa
o discurso divino, mas é visto imitando o próprio ato de criação. Esta reversão
aparece crua demais em Herder, quando dizia que “o autor se tornou um Deus-
Criador” (Todorov, 1977:175), e emerge com grande influência na celebração de
Schiller do elenco objetivo da autoria (ingênua) clássica: “Sem intimidade, o
poeta ingênuo foge do coração que o procura, foge do desejo que o iria abraçar...
O objeto o possui inteiramente, seu coração não fica como fusão espalhafatosa
imediatamente sob a superfície, mas como ouro espera ser achado nas
profundezes. Como a divindade atrás da estrutura do mundo, fica atrás de seu
trabalho; ele é o trabalho e o trabalho é ele; perguntar apenas por ele é ser
indigno dele, inadequado a ele ou subordinado a ele” (Schiller, 1988:156). Assim,
a transcendência do autor carrega uma despersonalização concomitante – este
acento combina com o sujeito kantiano que é transcendente ao mundo e
ontologicamente vazio. Pode também ser rastreado – como Abrams (1953)
sugere – na tradição teológica que pinta Deus como transcendente de e
onipresente na criação. Em termos literários, o autor pode identificar-se com a
inteireza do trabalho, enquanto está invisível dentro do trabalho. A pretensão de
despersonalizar a criação literária, embora muitas vezes depreciada em
construções apressadas do período romântico, aparece também na ideia de
Keat da capacidade negativa – um ato empático que requer o esvaziamento de
todas as preocupações pessoais na composição poética, bem como na
insistência de Coleridge de que “ter um gênio é viver no universal, conhecer
nenhum self...” (1949:179). Tem-se a impressão de que o gênio é um alienígena
na mente e que a possui nos arroubos da criação poética.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Esta visão é própria também de alemães mais tardios como Solger, para
quem criação artística é taxativamente objetiva, irônica e impessoal (Simpson,
1988. Wellek, 1955). Esta mistura contraditória pode estranhar (subjetividade vs
despersonalização), logo no aparecimento da era da subjetividade. Entretanto,
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primeiro, há que se levar em conta que o autor não pode ser visto como figura
linear, mas emaranhado complexo de dinâmicas também disparatadas e que não
domina; segundo, se contradição fere a lógica, faz parte da vida criativa. Burke
tenta uma explicação: “Uma explanação possível, sugeriria, é que a
impessoalidade funcionava como guarda contra implicações potencialmente
niilistas do idealismo subjetivo de Kant, como tentativa de preservar algo da
noção do Iluminismo da razão desengajada numa era que não podia mais ver
verdade como mimeticamente fundada e divinamente sancionada” (1995:XXII).
Faz sentido, porque entrando no modernismo científico, caía o argumento de
autoridade em favor da autoridade do argumento, respondendo o pesquisador
por sua obra, referência fundamental da intersubjetividade científica. A ciência
se garante com base em argumento, de modo lógico-experimental. Esta
vigilância informa a Crítica do Julgamento de Kant, que procede a partir do
reconhecimento de que determinar o chão do julgamento só pode ser algo
subjetivo até a injunção de que tais julgamentos envolvem “desapego de todo
interesse” e por isso põe a exigência da “universalidade subjetiva” (Kant,
1952:50-51). É assim que despersonalização, tanto quanto desinteresse,
pareceriam surgir como reflexo ou defesa, simultaneamente reconhecendo a
ascendência da subjetividade, enquanto se postando contra suas ramificações
mais desestabilizadoras. No âmbito científico viraria neutralidade/objetividade,
de certa forma “apagando” o sujeito pesquisador, cercado de formalismos
metódicos por todos os lados em nome de validades universais. Mas
subjetividade domesticada sempre recalcitra, a começar pela intersubjetividade
que assoma como critério pragmático maior da cientificidade (científico é o que
os cientistas assim definem) (Demo, 2011a), até o reconhecimento mais claro
que a realidade carece do “ponto de vista do observador” como parte da
realidade observada (Maturana, 2001. Demo, 2002).
A necessidade de defesa contra o subjetivismo – ainda que feita
subjetivamente também – anima reações modernistas contra a personalidade,
retomando literatura como revelação no fim do século XIX e, agitada pela
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

emergência da psicologia popular, viria justificar um discurso mesclado e


arrebatado que não via contradição em realçar a vida pessoal do autor,
enquanto, ao mesmo tempo, se louvava o gênio transcendente dele. Se a história
de vida do autor importa para sua autoria – como hoje diriam alguns sem titubear
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– sua subjetividade é central, ainda que tenhamos de nos precaver contra o
subjetivismo. No espírito lógico-experimental, busca-se uma solução, que a
própria complexidade interminável não permite. A encenação de Schiller do
Deus-Autor impessoal reaparece com pouca modificação nas reflexões proto-
modernas de Flaubert, para quem o autor em seu trabalho deveria ser como
Deus no universo, presente em toda parte e em nenhum lugar visível, o que daria
suporte para o escritor modernista como artífice desinteressado (Flaubert,
1900:155). Dizia Eliot que poesia não é expressão da personalidade, mas
escape da personalidade (1920:58), revelando afinidade com Schiller – quanto
mais perfeito o artista, mais completamente separados nele o homem que sofre
e a mente que cria... (Ib.). Ecoa também a capacidade negativa de Keat,
lembrando também o louvor de Coleridge a Shakespeare em termos de “total
indiferença dos sentimentos próprios do poeta, dos quais é o pintor e analista”
(1949:22). Ironicamente, porém, também no romantismo, a reação contra a
subjetividade é monitorada pela era da subjetividade...
Esta estrutura de continuidade na resistência aflora no desenvolvimento
da Nova Crítica da teoria despersonalizada – a autonomia do sujeito é engolida
no próprio texto. Na estética romântica e modernista, a impessoalidade
desvelava um modo ou humor no qual um autor atingia transfiguração estética.
Conforme a recepção dominante (ainda que muitas vezes problemática) da Nova
Crítica – cuja linhagem combina impessoalidade modernista com a restrição
kantiana do desinteresse estético – a recusa de confinar a crítica dentro de um
modelo da literatura como autoexpressão transpõe-se de um problema de escrita
para de leitura. Objetividade torna-se não tanto questão de como o texto é
constituído, mas das respostas que deveria propriamente provocar. Autonomia
poética, pois, preserva a autonomia do autor no mesmo gesto pelo qual evacua
o autor. O reflexo impessoal chega a dominar a cena da leitura, bem como da
escrita, e, de novo, surge a inversão reativa da dinâmica transcendental na qual
se constitui (Burke, 1995:XXIV). Ao fundo, podemos ver que a
despersonalização do autor é tributo a conceitos essencialistas de verdade:
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

como um sujeito não pode exarar verdade absoluta (no máximo a pode ecoar
como porta-voz), é preciso achá-la em formalismos que não estariam submetidos
a espaço e tempo. Um sujeito “desinteressado” é outra aberração modernista,
como se fosse possível separar emoção e razão – nada é mais subjetivista que
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um pesquisador neutro!
A Morte do Autor aparece como instância mais recente da tendência
despersonalizante na modernidade, através da qual “escrita”, ao invés de texto
isolado do formalismo anglo-americano, agora se torna a categoria privilegiada
que serve para distanciar o texto de seu autor. O texto de Barthes oscila entre o
performativo e descritivo, entre ver-se como o momento da morte do autor e seu
impulso contrário para estabelecer precedentes, atestando senso ansioso de
continuidade. A impessoalidade aí não é a do cânone realista da mimese
objetiva, mas não se separa das impessoalidades de Flaubert, Mallarmé ou
Valéry e daí da concepção do alto romantismo da subjetividade desinteressada.
Foucault declarava na primeira hora: “écriture meramente transpôs as
características empíricas de um autor para um anonimato transcendental”
(1977:119-120). O ensaio de Barthes não foge do impasse
transcendental/impessoal da modernidade ao apostar tudo no apagamento do
autor – é produto da modernidade alta e visualiza uma crise dentro da tradição
da despersonalização, no ponto onde a impessoalidade ultrapassa a marca na
direção da reductio ad absurdum para forçar sua própria ruptura e acenar para
algo além de si. Quando um autor prega a morte do autor, ressuscita-o como
cadáver recomposto, o que empresta à expressão “morte do autor” um charme
gaulês inconfundível do crítico perspicaz, mas em grande parte irreal. O autor
sempre aponta para algo além de si, porque nunca há autor sozinho – ele vem
acompanhado de mil referências que o compõem ambiguamente, mas este além
de si não pode ser a impessoalidade ou a transcendência; é o natural contexto
evolucionário e cultural do desenvolvimento das autorias. Emergem, então,
outros modelos como do positivismo biográfico (biografia como determinante da
autoria) e modernistas não reflexivos (representacionismo ingênuo da realidade).
“Sugeriria, contudo, que o mal-estar profundo da modernidade tardia sobre o
sujeito só pode ser abordado através do sujeito e em termos que respeitam
muitas das objeções feitas ao autor humanista. Sugeriria ainda que o único jeito
de preencher as demandas implícitas da Morte do Autor consiste em retornar à
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

questão do autor. Tal retorno implica ademais que ontologias do autor e do


sujeito possam propiciar um espaço positivo para aquelas crises gerais no
pensamento que anunciam-se como pós-modernas. Certamente, é apenas
através da pesquisa recíproca que os dilemas do pós-modernismo e
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subjetividade podem chegar a sentidos mais plenos de si mesmos; menos clara
é a questão de qual desses espaços espera com necessidade maior que outros”
(Burke: 1995:XXV).

1.4. SITUANDO O SUJEITO

Esta noção é a resposta de Burke: o autor é figura naturalmente situada,


está entre um passado do qual é herdeiro, um presente onde se move fazendo
e sofrendo influência, e um futuro que auxilia a construir/desconstruir, ambíguo
e aberto. A primeira reação à noção kantiana do sujeito transcendental foi de
Nietzsche, ao defender o retorno ao corpo contra a consciência impessoal e
desincorporada. Tornou-se precursor do pós-modernismo e da crítica teórica da
modernidade iluminista. Desconstruiu a subjetividade transcendental como
ponto de partida para o pensamento contemporâneo, embora nem sempre se
preste atenção ao procedimento que tornou possível a crítica. Longe de
asseverar um anonimato do discurso contra sujeitos cartesianos e kantianos,
Nietzsche questionou o modelo de transcendência através de sua proposição de
que discurso é inalienavelmente pessoal, que autoria opera no modo do auto-
apagamento via estratégias retóricas e conceituais que distraem autor e leitor do
fato de que conhecimento e textualidade se enraízam juntos na singularidade
das preocupações subjetivas. Para além dos ecos epistemológicos, a
interrogação marcante de Nietzsche (“Quem está falando? E por que falando
isso?”) também abre espaço para crítica veemente ética, ao retraçar o texto
primeiro para seu autor e, logo, para os impulsos éticos que motivaram este texto
ou sistema. Apenas abrindo o texto para seu autor desse modo Nietzsche foi
capaz de desvelar a fundamental vontade-de-poder por trás da fachada da
pretensamente desinteressada vontade-de-conhecer.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Na esteira de Nietzsche, as alternativas mais radicais para a subjetividade


transcendental buscaram mais situar do que desapegar o sujeito de seu trabalho
e do mundo. Situando o autor, vê-se que não cabe todo em si, porque traz de
antes, deixa para depois e faz parte de uma rede de influências que, em grande
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parte, sequer controla, mas é protagonista de sua casa até certo ponto. Para
Freud, despersonalização é defesa contra a condição situada inescapável e
quase insuportável em termos de desejo, memória e biografia pessoal. Toda
tentativa de desinteresse ou transcendência está fadada ao colapso, já que o
inconsciente ressitua e retorna o autor ao texto, o sujeito ao discurso e o pessoal
traumaticamente à defensiva vontade-de-personalização. O inconsciente não só
o distancia (da consciência), como o ressitua, porque é contexto natural da
consciência. A oposição de Marx ao sujeito como “meros vapores do idealismo”
também buscou converter a ausência implícita para explícita, mas para
desmistificar o discurso via o autor: Engels deixou claro que só podemos “nos
entusiasmar sobre a operação milagrosa da pena”, divorciando o texto do “sujeito
vivente, histórico humano” por quem foi produzido (Marx, 1970:84-85. Marx &
Engels, 1973). Em sua montagem epistêmica, na qual a ação humana é parte
da superestrutura, a história é feita por dinâmicas econômicas infraestruturais,
que se impõem em última instância.
Em Heidegger recepções atuais têm visto apoio à desconstrução da
“visão de fora” com sua substituição decorrente por um sujeito situado, um “Eu”
historicamente pleno na contra-distinção para com o “Eu” vazio ontologicamente
da analítica de Kant. Ajudou o retorno do sujeito ao mundo, autor ao texto,
também se distanciando do supervisor da ciência, o sujeito onisciente da
representação ou o artífice impessoal da estética modernista, bem como do
discurso sem autor para cuja crítica seu nome é sempre citado. Derrida,
apreciando aportes de Nietzsche e Heidegger para decompor metafísicas
substancialistas ou subjetivistas, avança no questionamento para desconstruir
também o “Quem?” (1991:101). O autor é esse “Quem”, mas não é autônomo,
autossuficiente, completo, não se sabendo bem se fala ou é falado! Burke,
porém, considera que Nietzsche e Heidegger não subtraíram o “Quem” da
desconstrução do sujeito, prolongando sua desconstrução precisamente nesta
base. O questionamento de quem está escrevendo ou lendo destina-se a
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

desafiar a subjetividade genérica via perspectivismo do sujeito situado, de sorte


a desmascarar impulsos impessoais por trás do sistema abstrato.
Muito da confusão que empesteia o debate do autor vem da falha em
perceber que a noção de autor foi falsamente posta em analogia com um sujeito
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transcendente/impessoal, sempre recuperado em movimentos posteriores até
hoje pela linguagem, différance, anonimato, écriture féminine etc., enquanto a
tentativa de reposicionar autoria como atividade situada assoma não tanto para
si mesma, quanto para cultura, ideologia, linguagem, différence, influência,
biografia. Desconstruções atuais do sujeito implicam e recuam desta iniciativa –
o desmantelamento desconstrutivo do sujeito estável da ironia romântica
propicia a abertura para o reposicionamento da autoria, mesmo se declara que
o conceito de autor deve ser superado pela indeterminação textual. Todo texto
está envolto em indeterminação hermenêutica ou ambiguidade interpretativa,
permitindo que leitores destrocem o autor facilmente. Isto, porém, não acaba
com a autoria, apenas a situa tanto mais. A desconstrução não foi única em
sugerir e prevenir aberturas para reconsiderar a subjetividade autoral. A noção
de Foucault da abordagem arqueológica para genealógica impôs-se em parte
pelo reconhecimento de que despersonalizações teóricas reinvocam as
pressuposições transcendentais da modernidade: tal reorientação implicava
voltar-se para um modelo de subjetividade autoral situada, embora seu discurso
nunca assuma explicitamente. A volta incisiva ao contexto que observamos
recentemente nos discursos do Novo Historicismo, Materialismo Cultural e Pós-
Colonialismo sugere a restauração de um conceito operacional de autoria, pelo
menos para propiciar um ponto de acesso aos contextos históricos, culturais e
coloniais. Tais discursos quase sempre escondem o autor, ou o desqualificam
como embaraço que parece provir do investimento pesado demais na
caracterização da modernidade da autoria como agenciamento autônomo. A
contextualização atual da crítica política pareceria em si resgatar a iniciativa
situada, para não ficar indefinidamente contornando a autoria, até porque
resistência e iniciativa tão frequentemente se anunciam na forma de textos
escritos. Discursos que apequenam a autoria e a iniciativa têm sido um problema
dentro do marxismo e da crítica feminista, algo mui irônico porque feminismo em
especial oferece apelos formidáveis para redefinir a subjetividade para fora e
contra o modelo da autonomia, como se vê na citação de Nancy K. Miller:
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

“Porque mulheres não tiveram a mesma relação histórica de identidade para com
origem, instituição, produção, que homens tiveram, não se sentiram, assim
penso, (coletivamente) premidas demais por self, ego e cogito etc. Porque o
sujeito feminino tem sido juridicamente excluído da polis, daí descentrado,
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‘desoriginado’, desinstitucionalizado etc., sua relação com integridade e
textualidade, desejo e autoridade mostra estruturalmente diferenças importantes
dessa posição universal” (1988:106).
Aplica-se isso igualmente ao desafio pós-colonial da “posição universal”
que reificou suas próprias preocupações eurocêntricas como modelo global de
subjetividade. Isto tem sido desconstruído pelo pós-colonialismo (em especial
feminista) (Harding, 2011), retomando a especificidade do sujeito e o
embasamento do texto nas experiências irredutíveis pessoais e culturais dos
autores, em grande parte para disputar espaços autorais a partir da perspectiva
das autorias marginalizadas. A rejeição exaltada e severa desse sujeito universal
implica a reafirmação do sujeito em sua particularidade (Spivak, 1993). Ressituar
a subjetividade acabou tornando-se pretensão primordial para enfrentar teorias
políticas colonialistas, bem como o bloco de discursos ditos pós-modernos.
Recusar histórias totalizantes de registros da natureza humana deveria implicar
a consciência despersonalizante que intencionalmente leva a recontar tais
estórias. Desafiar a verdade ou seus efeitos precisa de igual modo ser desafio à
subjetividade desengajada que gera tal efeito discursivo, quer surja este efeito
através da neutralidade da observação científica, da consciência panorâmica do
realismo ou das grandes narrativas filosóficas da história e pensamento. No outro
lado, a ênfase pós-moderna em “ilhas do discurso”, em narrativas limitadas,
jogos de linguagem, localização do discurso, deveriam reconhecer o autor
situado como princípio da localização por excelência. Considerando-se que a
guerra contra totalidades deve ser guerra voltada para o sujeito
transcendental/impessoal através de cuja construção presumida as totalidades
emergem, fica claro que as grandes crises do pós-modernismo são de autoria,
em especial quando se recusam a reconhecer isso.
Morreu o autor total (totalizante), sobranceiro, autocrático, intocável e
impecável, porque não humano. Se não há dificuldade para apontar grandes
autorias, como, por exemplo, grandes pintores, poetas, pesquisadores, também
não é difícil apontar para seus limites que pululam de toda parte. Recobrando
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

visão socrática ajuizada, assim como ciência pertinente é aquela com


desconfiômetro epistemológico (crítica autocrítica), podemos sugerir que autoria
pertinente é aquela que, buscando aparecer, também desaparece na multidão.
Ao mesmo tempo, quando apreciamos a individualidade do autor, em especial
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situando-o contextualmente, não cabe olvidar inserções estruturais que o diluem
em dinâmicas anteriores e superiores, das quais tem pouca consciência e que
não domina, ao final. Toda autoria é, num sentido, coletiva, porque toda
autonomia também é: autonomia não é viver contra tudo e contra todos, mas
com todos sem perder-se no todo, com e contra todos. Neste cenário, autoria,
por também ser expressão do poder – bastaria lembrar o texto de Foucault sobre
“arqueologia do saber” (1971) – ostenta face camaleônica produtiva e manhosa
– ora aparece, ora desaparece, mas sempre para mostrar-se ainda mais,
entendendo que o importante é aparecer e isto acontece por vezes ficando ao
fundo, desapercebido eventualmente. Porquanto, poder inteligente não afronta;
coopta. Assim, postar-se como porta-voz de entidade transcendental pode
também ser truque de quem se investe com autoridade incontestável, por mais
que, no contexto sócio-histórico, seja contraditório ou impossível deter
autoridade incontestável, a menos que todos sejam imbecis. Situar o autor
implica pois dialética de infindas contradições, seus lados individuais únicos,
suas pretensões universais impossíveis, suas virtudes e limitações, sua inserção
formal na linguagem e cultura que o antecedem, seus golpes históricos como a
autoria apropriada patriarcalmente, ou a autoria científica forjada como
neutra/objetiva, e assim por diante. Por isso também dizemos que toda teoria é
tão importante, quanto incompleta – quando um autor monta sua teoria, busca
fazê-la “completa”, mas é impraticável, porque sendo todo autor incompleto, seu
produto também o será, como vemos sobejamente na história científica. O que
mais importa é que, na esteira das teorias, outras surjam, sobretudo rivais, para
que a história continue se autorrenovando... Para colocar uma provocação
picante: pagar o dízimo é de autoria divina, ou trambique de um escriba que
queria ser sustentado pelos outros? Deus não precisa disso, nem Cristo alguma
vez pediu alguma paga por seu ofício de evangelizador. Viveu sem nada,
frontalmente. As Igrejas, como regra, são, porém, o avesso disso: instituições
que gerem com muito maior sagacidade as finanças do que a religiosidade! Sem
ressuscitar o determinismo marxista, aplica-se às Igrejas, bem mais do que se
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

pensa, a regra da infraestrutura que “determina” a superestrutura – se


retirássemos a referência econômica das Igrejas, grande parte não
permaneceria.

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1.5. AUTORIAS CAMALEÔNICAS

Autoria é questão atávica, assoma no primeiro livro da Bíblia com verve


inaudita e foi motivo de amplo debate na Grécia antiga. Àquela época, girava em
torno da noção do discurso imitativo ou inspiracional. A tradição inspiracional
pode ser rastreada pelo menos desde práticas dos xamãs sul-americanos, cujas
viagens psíquicas mediavam entre os mundos espiritual e material, fazendo
parte da religiosidade humana desde sempre (Bellah, 2011) – sempre existiu a
figura do mediador entre o além e o aquém, o chefe de cerimônias da tribo que
se encarregava de lidar com os deuses e forças ocultas que conduziam o grupo,
ao final das contas. Para atingir a condição de “médium” (até hoje ponto alto do
espiritismo e denominações similares), lançava-se mão de artifícios como
beberagens, alucinógenos, danças, rituais que facilitam o contato com o além.
Quando um médium – segundo alega – faz uma cirurgia em alguém, ainda mais
com êxito comprovável, pode-se sempre perguntar por quem teria sido ao
“autor”? Feita em transe como regra, a autoria mediúnica é no mínimo
subalterna, ainda que as leis “mundanas” não aceitem isso. Se o “paciente”
morre, será de pouca utilidade apelar para forças do além em algum processo
judicial ou confronto com a polícia. Esta condição ilustra, ainda, que a vida
humana não é exclusiva ou completamente conduzida pelos sujeitos existenciais
– sentindo-se pequeno perante a infinitude aparente e violência apavorante da
natureza (desastres naturais, por exemplo), o ser humano apela para outras
forças, concedendo aí que possíveis autorias suas seriam subalternas. Ao final,
todos morrem, deixando tudo pela metade, se tanto. Na cultura helênica as
origens da poesia eram atribuídas à Musa, de quem o poeta era apenas
mensageiro, avatar ou porta-voz. Musas eram entidades mitológicas a quem se
atribuía, na Grécia Antiga, a capacidade de inspirar a criação artística ou
científica (http://pt.wikipedia.org/wiki/Musa). A Odisseia de Homero,
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

marcantemente, começa com a invocação da musa: “Canta, ó Musa, o varão...”


(http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/odisseiap.pdf). Quem “canta” é a
Musa, não Homero, que figura como porta-voz.
Esta fonte da literatura perdurou arraigadamente no pensamento em parte
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porque se encaixava na experiência verificada de escritores que se sentiam
movidos por poder remoto ou extraterreno para compor discursos do quais não
tinham concepção prévia. Embora este procedimento secundarize o autor, o
torna figura eleita – posta à parte do resto da humanidade através do dom da
insuflação divina ou mediúnica (mediunidade é atributo raro). Esta condição,
contudo, precisa ser distinguida das artimanhas de poderosos que se dizem
representantes de Deus ou dos deuses na terra, apenas para tornar sua
dominação inquestionável (será pecado ou traição contestá-la). Assim, muitas
famílias reais – todas nascem de um fantástico trambique histórico, quando, por
circunstâncias manhosas, alguém de faz rei e impõe a crença de que sua família
é real, diferente das outras, em especial por mandato divino intocável –
conseguem elevar-se não só ao trono real, mas ao trono divino, conclamando
uma autoria que não lhes cabe, já que “família real” não existe, por mais que até
hoje se inventem e mantenham. Artistas comumente se referem à condição de
inspiração como situação na qual se sentem elevados e motivados a produzir
arte, o que não se faz a qualquer hora e de qualquer modo. Isto apontaria para
uma alteridade que teria papel ainda maior que o próprio artista na gestação da
arte. O romantismo sempre tentou preservar esta visão hierática das origens
poéticas, enquanto a teoria do século XX realocou a fonte na alteridade do
inconsciente ou na própria linguagem. Foi um movimento “natural” dentro do
modernismo que, à sombra da cientificidade dos procedimentos de pesquisa,
expeliu argumentos de autoridade: não seria tolerável que a ciência nascesse
em transe, por inspiração de terceiro, monitorada por agente estranho; o método
científico se basta com a autoridade do argumento. Mas a alteridade não sumiu:
voltou em formalismos próprios da lide científica (estrutura da linguagem e da
cultura; infraestrutura determinante) ou no reconhecimento da personalidade
como sendo movida em grande parte pelo inconsciente (Koch, 2012).
O modelo imitativo, por sua vez, considera o artista como copiador da
realidade, mas pode referir-se também ao lugar do autor dentro da tradição
literária. Como copiador, o artista dá voz a estruturas que o precedem ou
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

constituem: como não é “dono” destas, também não é dono (pelo menos único)
da obra. Esta noção é mais comum do que se imagina, também no mundo
científico. Por exemplo, enquanto muitos veem a evolução como uma forja
exuberante resultando na biodiversidade avassaladora, outros preferem
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visualizar como formalismo repetitivo, o que facilmente aparece na concepção
de “reprodução humana” – a prole pode ser vista como repetição constante do
mesmo esquema de geração, gestação e nascimento, ficando marcas da
individualidade e subjetividade submersas. A noção do DNA como código da
vida também exsuda esta visão: ao fundo das variações da vida há um algoritmo
inamovível que se reproduz, não se reinventa. Como herdeiro da tradição
literária, o artista reconhece sua dependência de antecedentes que não
monitora, recebendo como alinhamento inevitável. Esta percepção também é
poderosa, pois é ela que nos permite remeter as origens humanas aos grandes
macacos e, ao final, à natureza como tal, indicando uma identidade genealógica
persistente. No que muda sempre fica um rastro do que não muda, já que na
natureza nada se cria, tudo se recria... Por isso, até hoje não é claro se a
natureza é perfeita ou se é incompleta (Deacon, 2012): podemos acentuar o que
sempre não muda na mudança, ou só o que muda...
Platão e Aristóteles nos arrumaram teorias da mimese: o primeiro, em
termos negativos do artista copiando o mundo natural que era, em si, já uma
cópia de um reino mais alto das ideias; o último positivamente como uma
representação de uma ação significativa. Em qualquer caso, o cenário mimético
atribui muito pouca significação à inventividade autoral. O autor transmite a
realidade objetivamente como sujeito inteiramente receptivo através do qual a
verdade impessoal é registrada. Etos similar se afirmou na crítica marxista
tradicional da versão de Lukács, na qual não é responsabilidade do autor
representar seus sentimentos internos, mas permitir que a verdade do momento
histórico se desvele dentro do texto. Outro modo em que imitação é registrada
se relacionava com sistemas, regras ou convenções pré-estabelecidos do tipo
que a Poética de Aristóteles estabeleceu para poetas e dramaturgos. No âmbito
de uma descrição técnica do trabalho literário, o autor se torna um patrício dentro
da tradição, ao invés de eleito de um chamado inspiracional. Visões medievais
do artista como copiador trabalhando dentro de convenções há muito
estabelecidas também refletem esta designação do papel autoral, como fazem
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

noções formalistas russas do autor como artesão e o cenário estruturalista do


escritor como montador impessoal e arranjador de códigos literários. Pode-se
aventar que tais posicionamentos são tributários de noções fixas e formalistas
de verdade, seja pela via platônica das formas eternas, das quais a realidade
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histórica e física é apenas reflexo, seja pela via aristotélica racionalista que
perdura até hoje também no ambiente científico: a realidade acaba sendo uma
expressão formal (uma fórmula matemática, por exemplo, expressão de alguma
lei ou axioma), o que empurra a pesquisa para o estudo de estruturas,
invariantes, algoritmos, códigos, leis; os cientistas são mortais, mas suas teorias
não seriam, desde que sejam elaborações de tais formalidades perenes. Embora
em ciência autoria seja proeminente, em especial em seus acentos
individualistas geniais (prêmio Nobel não para a teoria, mas para o “autor”), o
cientista apenas “descobre”, como sugeria Popper (1959), não “cria” uma lei,
regularidade, característica da realidade. De fato, Einstein não “criou” a
relatividade, a descobriu, mais propriamente, assim como ocorreu com Newton
em relação à gravidade. Mas o fato de que Einstein superou Newton, que a teoria
quântica superou Einstein, que Gödel apontou para a incompletude de sistemas
formais (outra versão é dos números não computáveis de Turing) (Gleick, 2011)
ou que, segundo Ananthaswamy (2010), conhecemos apenas 4% do universo
até ao momento, sugere que ciência não se reduz a ecos formais impessoais,
mas abriga disputas homéricas em torno de autoria, como em parte analisou
ironicamente Bourdieu em seu “Homo academicus” (1990). Desde logo,
sobressai o lado limitado dos autores, um dependendo do outro, sobretudo de
antecessores, de sua formação, de seus recursos disponíveis para pesquisa,
dos momentos e circunstâncias históricos, da intersubjetividade dominante etc.,
mas, em meio a isso, emerge a importância crucial da autoria criativa.
A tensão entre o imitativo e o inspiracional pode ver-se no posicionamento
aparentemente antitético de Platão: no A República assume o modelo imitativo,
para banir os poetas da cidade-estado ideal, pois via literatura como algo moral
e epistemologicamente defectivo em sua tentativa de representar o mundo dado
pelos sentidos que é, em si, apenas reflexo de sombra das formas eternas. Esta
exclusão sempre deu o que falar, já que o estro poético tem sido decantado
constantemente na história eurocêntrica; hoje poesia não concorre com ciência
– esta avassalou o espaço do conhecimento com tendência ditatorial de único
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

aceitável – mas sempre foi expressão literária valorizada. Para Platão, esta
expressão, seguindo dinâmicas dos sentidos, afasta-se do reino das formas
impessoais onde está a verdade, uma das razões para achar que poetas não
podem ser ombreados com filósofos. A cidade ideal republicana só pode ser
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estritamente racional. Já no Ion, Platão parece outorgar ao discurso poético um
status semidivino, aludindo a que um poder divino retira do poeta qualquer
faculdade consciente ou racional, de sorte a declamar o seu próprio script
através da passividade do indivíduo eleito. Alguns consideram que diálogos
socráticos devem ser lidos “ironicamente”, mas, mesmo se isto fizéssemos de
Ion, ajudaria pouco a contornar a depreciação do poeta, também porque a
interpretação literária sempre predominou: Sidney (1965) e Shelley (1909-14)
parecem tomar a alusão socrática literalmente, enquanto as celebrações da
irracionalidade poética da Renascença para frente invocaram Ion como
precedente literal. Esta leitura também foi auxiliada por um escritor do século II
a.C., de nome Longino: cria ele que um frenesi quase divino poético abria a alma
do poeta para o sublime (Burke, 1995:7). O que move Platão é certamente que
a verdade das formas só é atingível pela pesquisa racional desinteressada – este
reino da verdade seria autônomo, independente da iniciativa humana e bem
distinto dos frenesis da inspiração poética que privilegiam o prazer estético
temporário à custa da construção árdua do conhecimento filosófico. Daí sua
distinção frontal entre autoria filosófica e literária, banindo a esta, ficando com
aquela.
Na cultura cristã emergente, contudo, a noção de inspiração seria
reconciliada com a verdade autônoma via noção de auctoritas derivada de Deus.
Conotações do transe e da irracionalidade foram, então, acolhidas como
revelação direta da verdade das Escrituras a partir de Deus para os evangelistas
através dos Padres da Igreja que montaram o cânone bíblico. Auctores (autores)
bíblicos possuíam o carisma da verdade divinamente revelada, o que também
impedia a originalidade individual. Por certo, que a Bíblia tenha como autor Deus
que inspira escribas humanos que o ecoam subsidiariamente é questão de fé.
No reino do poeta mundano, porém, esta visão se adequa à tradição da autoria
impessoal – quando a épica invoca a Musa, garante que o texto é dela, sendo o
poeta seu porta-voz. Longe de denegrir o autor, à época este subterfúgio atribuía
respeitabilidade ainda mais elevada ao produto. Minnis (1984) em seu “Medieval
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Theory of Authorship” analisa a influência da teologia inicial da Igreja sobre a


teoria textual de acadêmicos da Idade Média tardia onde o autor designava
menos um self empírico do que o selo da autoridade religiosa. Realça a tensão
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entre o crescimento do interesse nos auctores humanos e o princípio teológico
que, sendo Deus o autor da vida, a personalidade do autor humano das
Escrituras seria relegada à indiferença. Minnis oferece evidência forte contra a
assunção de que o autor é categoria relativamente moderna de pensamento e
aloca sua emergência na passagem do século XIII de uma interpretação
alegórica para literal da Bíblia. Onde a visão alegórica (i.e., de autoria divina) não
admitia descrição literária ou teórica, a passagem para uma exegese literária
(i.e., de autoria humana) focava a atenção ao status moral e literário do autor
individual. Intrigantemente, onde o pensamento contemporâneo viu o autor como
obstáculo teórico, Minnis demonstra que apenas através da questão do autor a
Idade Média desenvolveu teoria sofisticada do texto 2. A origem divina do texto
bíblico não impedia que se discutissem propriedades contextuais dos vários
livros, já que diferem ostensivamente em termos de estilo, gênero, relato,
cronologia etc., sem falar que a interpretação também aparecia com grande
variedade (visível, por exemplo, na multiplicidade de “igrejas” que se dizem
evangélicas ou cristãs; com a Reforma, a interpretação passou a ser
individualizada, acabando com uma autoridade única que define a
interpretação). A exegese – mesmo tendo de ser “oficial” na versão católica, por
exemplo – já apontava para níveis diversificados de autoria, tendo sido decisiva

2 “O estudo da teoria literária medieval tardia ainda está em sua infância. É um infortúnio que a
pesquisa sobre ela tenha sido obstaculizada pelo que vejo como noção anacrônica e altamente
equivocada, a saber, a distinção entre ‘humanismo’ do século XII e ‘escolasticismo’ do século
XIII. Conforme relatos vulgares, pelo fim do século XII, a gramática tinha perdido a batalha das
setes artes liberais e a Dama Lógica tomou o espaço. Retórica e poética deram lugar à lógica e
dialética; humanismo se retraiu ante o escolasticismo. Orléans, onde os cantos das musas foram
guardados zelosamente, tornou-se uma escola de direito. O Fasti pagão (de Ovídio) foi
substituído por outro cristão ruidoso, o Ecclesiale de Alexander de Villa Dei (teria sido refutado
este clichê por Lind (1958:3); o estudo da gramática – e portanto da ‘literatura’ – foi em geral
precarizado. Em tais condições desfavoráveis, a teoria literária morreu ou pelo menos foi para o
subterrâneo. Esta visão é insustentável (Minnis tenta mostrar isso mais adiante em seu texto). É
impossível conciliar, por exemplo, com as análises sofisticadas dos textos – particularmente
textos bíblicos – produzidas por comentaristas dos séculos XII a XIV. Ao tempo em que o estudo
da gramática passara por longa rota da explicação dos auctores clássicos para análise
especulativa das estruturas teóricas da linguagem, teólogos e acadêmicos bíblicos estavam
elaborando um modelo compreensivo e flexível interpretativo dos diversos estilos literários e
estruturas supostamente presentes na Bíblia e para os diversos papeis ou funções – literárias e
morais – que se criam estarem sendo realizados pelos auctores humanos da Bíblia” (Burke,
1995:25).
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

para a seleção dos livros que foram definidos no Concílio de Niceia em 325 como
canônicos (Botelho, 2008). Daí resultaram algumas diferenças entre as
denominações (judaísmo, catolicismo, protestantismo, ortodoxia grega, eslava,
apostólica armênia e siríaca)
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(http://pt.wikipedia.org/wiki/Livros_da_B%C3%ADblia), o que sempre abre o
espaço para discutir o que realmente se queria dizer com isso ou aquilo, já que
não haveria como perguntar a seu autor divino. Ao mesmo tempo, contendas
famosas bíblicas também indicam este desafio, em especial, a disputa acirrada
entre criacionistas e evolucionistas americanos, tentando decidir o que se
deveria ensinar na escola: que o mundo tem mais de 14 bilhões de anos e o ser
humano existe há vários milhões de anos, ou, como consta no Gênesis, que a
criação se deu há menos de 10 mil anos... Por trás disso, está a exegese bíblica
que interpreta o relato como literal ou alegórico...
Sidney, em seu “An Apology for Poetry” (1965), insistia em que “falava de
arte e não de artífice” (Burke, 1995:8); seu ensaio claramente reflete a influência
do humanismo renascentista e a emergência do autor humano que Minnis
rastreia desde o século XIII. Para Sidney, os Salmos de Davi são poesia –
fazendo do autor um poeta em certo sentido – o que marca ideias renascentistas
de autoria não como quebra com, mas desenvolvimento da humanização no fim
da Idade Média dos papeis autorais. Compõe o texto como diálogo com seus
contemporâneos puritanos e em especial com o escritor e clérigo Gosson; o
antagonismo primordial do trabalho, porém, é com o banimento de Platão dos
poetas. Atribuindo valor maior didático à poesia sobre a filosofia, invoca
Aristóteles para contornar as objeções centrais de Platão à literatura. Lê o
panegírico de Sócrates da poesia em contradição literal com o gesto excludente
de A República. Procura distinguir sua versão de poesia do modelo inspiracional,
enquanto faz as mais veementes exigências em favor da poesia em termos
morais, supra-miméticos e didáticos. Na prática, chegou tarde demais para um
registro estritamente teológico das origens poéticas e cedo demais para a
abertura da imaginação criativa – seu texto é inteligentemente silencioso sobre
as origens da autoridade poética sublime... A ciência modernista não teria como
engolir a noção de cientista inspirado, já que é parte de sua empreitada
aposentar o argumento de autoridade, mas, ainda assim, por conta de
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

pretensões metódicas de neutralidade/objetividade, incorporou algo da verdade


impessoal em suas formalizações dotadas de validade universal.
A monografia de Young, “Conjectures on Original Composition” (1992), é
vista frequentemente como aberração dentro da estética dos meados do século
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XVIII, representando a culminância da ênfase de Longino sobre o gênio poético
que correu quase subterraneamente através da era neoclássica. É reação aberta
à ênfase neoclássica sobre a imitação entendida em termos miméticos e
técnicos. Procurando preservar o primeiro, enquanto completamente evacuando
o segundo, Young pretendeu que a obra clássica contemporânea só pode ser
efetivada através da negação ou transcendência dos modelos técnicos; seu
trabalho prefigura poderosamente a vontade insistente e muitas vezes ansiosa
romântica de precedência poética. Elabora uma série de metáforas
impressionantes e escorregadias, mais do que argumento estrito, tentando dar
conta do gênio poético. Este funciona abaixo do nível de consciência e deriva-
se do “estranho de dentro”, um tipo de “Deus de dentro” que dita à imaginação a
partir de uma região sombria do self poético. Começa, então, o movimento para
alocar o impulso inspiracional numa construção do self mais subjetivo do que
teológico. Prefigura, ademais, as interioridades tenebrosas de Freud e Jung,
quer iriam, respectivamente, explicar a criatividade como emanação do
inconsciente libidinal e do self como sombra (Freud, 1959).
Em seu clássico, “A Defense of Poetry” (1909-14), Shelley reconcilia a
explanação inspiracional da gênese poética com a categoria novamente
emergente da imaginação criativa. Inspiração não entraria em conflito com
originalidade da obra, afirmando um modelo de self poético generoso o suficiente
para ligar não só o que está dado na consciência, mas também aquelas intuições
que emergem soltas do inconsciente. Respondendo em primeira instância ao
ataque espirituoso de Peacock (Lake of Poets) em seu “Four Ages of Poetry”
(1921), Shelley lembra Ion de Platão e ecoa a defesa feita por Sidney
reiteradamente. Atribui valor mais elevado à poesia, divergindo, porém, de
Sidney, radicalmente ao afirmar que seu valor é independente de qualquer
autoridade externa, provindo da própria imaginação criativa. Estende o domínio
da imaginação a ponto de subsumir até mesmo o cognitivo sob o signo poético,
contraditando incisivamente o privilégio de Platão do filósofo sobre o poeta.
“Poeta”, na defesa de Shelley, deve ler-se em termos não convencionais, mas
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

denotando uma classe privilegiada de autores aos quais pertencem artistas


visuais, profetas e legisladores, cuja visão imaginativa paira acima dos confins
da episteme. Para ele, o poeta, longe de ser penduricalho de um monarca
patrocinador, é louvado como força construtiva no reino político, bem como
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estético. Esta querela platônica iria aquietar-se com o advento da ciência que
destronou a ambos, poesia e filosofia, em nome do método científico lógico-
experimental, não porque se tenha resolvido, mas porque temos agora outra
deidade na praça: conhecimento científico (Demo, 2012).
Em “Crise em Verso”, o simbolista poeta e crítico francês Mallarmé (1980)
afirma a visão sagrada e idealista da alteridade poética, enquanto aponta para
sua teorização do século XX. Retoma a separação do autor e seu trabalho,
recusando-se a alocar as origens poéticas na imaginação ou inconsciente e
atribuindo a beleza austera do trabalho ideal à própria palavra entendida como
logos puro e vazio. Afirma um logocentrismo negativo igualando a palavra com
a ausência ou o nada misteriosos e excitantes. Por tal razão, sua influência foi
divergente e potente no século XX; de um lado, foi admirado pelos esteticistas
idealistas preocupados em distanciar poesia do referente material; de outro, as
prefigurações da intertextualidade, o desaparecimento do autor e o poder
generativo da própria linguagem fizeram dele o precursor eleito das teorias
francesas da écriture. Esta pretensão formalista, porém, é traço comum no
eurocentrismo, desde Platão pelo menos, e reaparece no método científico que,
mesmo totalmente avesso ao argumento de autoridade, curva-se às
formalizações como indicador maior de cientificidade, em especial na versão
positivista (Demo, 2011b). Autoria aí é tão valorizada quanto neutralizada por
disciplinamentos metódicos. Teorias psicanalíticas de Freud (1959) trouxeram
modo próprio de detergir pretensões teológicas, inspiracionais e todas as vozes
internas geradoras, cavando no inconsciente todos esses atos falhos. Seguindo
o mote “onde é id, deve virar ego”, também ajudou a recuperar certa autoria
limitada, cujas fronteiras estão soterradas em profundezas também
indevassáveis. Acentua o lado da biografia do autor (é parte do método da
psicanálise escavar a biografia como referência explicativa), embora anti-
intencionalista (as intenções declaradas estão longe de serem as reais, pois
estas rugem no inconsciente).
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

1.6. CONTROVÉRSIA DO SÉCULO XX

No século XX, autoria tem sido debatida intensamente, mas em tom


técnico e conceitual, não humanista. Mesmo quando se quer defender a
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personalidade, faz-se amplamente de modo impessoal da análise teórica,
focando princípios, mais que práticas pelas quais a relação do autor e texto
pudesse ser apreciada. Isto reflete o cientifismo dominante já, em suas cores
positivistas preponderantes, em termos de objetividade/neutralidade do discurso
científico; é a invenção de um “sujeito objetivo, neutro”, ao contrário da visão da
neurobiologia do “ponto de vista do observador” (Maturana, 2001. Demo, 2002).
O espírito formalista do método científico que considera matemática a linguagem
impessoal da natureza, penetra a discussão da autoria profundamente.
Deixando de lado, agora, questões da politicidade da autoria (mais adiante),
apontam-se quatro interseções chave que aparecem e desaparecem no debate:
“i) a relação do escritor com a tradição entendida como história literária,
linguagem literária, convenções, gêneros, sistemas textuais etc.; ii) a suspeita de
noções expressivistas da literatura combinada com a rejeição geral da crítica
biografista; iii) preocupação com a relevância ou irrelevância da intenção para
avaliação e/ou interpretação; iv) a subordinação da questão da autoria àquela da
leitura de tal sorte que a primeira é refratada na última” (Burke, 1995:65). Um
dos pressupostos é que a determinação dos papeis autorais reside mais no
crítico do que no autor. Eliot falou mais da perspectiva autoral do que da crítica,
e suas reflexões queriam propiciar o momento inicial desta passagem estética
para a teoria crítica. No “Tradition and the individual Talent” (1920) estabeleceu
a afirmação clássica da impessoalidade modernista através da combinação de
argumentos ostensivamente antirromânticos. Poesia implicaria o esvaziamento
do sentimento pessoal, contra a formulação de Wordsworth do “sublime egoísta”,
para questionar a virada expressivista e formas decadentes da crítica no século
XIX; aparecem afinidades com o argumento do desinteresse artístico proposta
na estética mais austera de Schiller, Coleridge e outros (Ellmann, 1987. Erlich,
1980. Fish, 1980. Huyssen, 1990. Lyotard, 1985. Man, 1983. Waugh, 1992).
A expectativa consequente de que o trabalho do autor deriva sua
identidade exclusivamente em termos de sua relação com a tradição é mais
compelente em sua rejeição antirromântica da originalidade. Argui Eliot que
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

autores são pelo menos originais onde assim podem ser: a elaboração do
trabalho pode ser mais claramente capturada naqueles lugares onde as vozes
dos precursores clássicos se fazem ouvir como precedentes. O autor individual
é constituído, em alguma extensão, dentro de uma rede de relações textuais na
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qual os mais talentosos escritores modernos acabarão se realinhando
retrospectivamente. Aponta aí a teoria revisionista de Bloom, bem como a da
intertextualidade que se move do paradigma subjetivo da influência para o
modelo das constelações discursivas sincrônicas. A poética de Eliot, em especial
como consta em “The Waste Land” (1922/2013), também curte a relação com o
sentido sincrônico da tradição. Há um esforço para domar o autor movediço,
irrequieto, imprevisível, amarrando a estruturações que lhe são superiores e não
manipuláveis facilmente. Tais formalizações, porém, não seguem o lado
possivelmente positivo da ciência modernista, ou seja, como modo próprio do
método científico de propor autoria, não de a apagar. Einstein é autor
exuberante, um superautor, mas usa linguagem formalizada para conferir a suas
descobertas condições de validade universal. O problema dessa impessoalidade
é o que encobre, a saber, que o método científico (dito positivista) não é só
método a serviço de uma realidade que quer captar, mas filtro do que
entendemos por realidade, a ponto de se ter por real apenas o que nele cabe. O
autor volta a ser truncado, um pouco castrado, mas a autoria retoma sua verve
contra o argumento de autoridade. Eliot não traduz tradição como extinção da
originalidade, mas como “senso do passado”, já que “nenhum poeta, nenhum
artista de qualquer arte, tem seu significado completo sozinho” (1995:74). Somos
julgados por padrões do passado, embora isso não deva significar “amputação”
(Id.:75), em especial porque não é o caso tornar-se subalterno do passado;
acabaria com o lado inovador da arte (não seria mais arte) (Ib.). “O progresso de
um artista é autossacrifício contínuo, extinção contínua da personalidade... É
nesta despersonalização que arte se diz aproximar-se da condição de ciência”
(Id.:76).
Tomasevskij (1971; 1995) igualmente busca distanciar a vida do autor e
seu trabalho, mas seguindo metodologia crítica, mais do que da realização
artística. Sua proposta foi gestada nos momentos últimos do formalismo russo –
um círculo de jovens escritores pioneiros de uma abordagem mais rigorosa dos
estudos literários contra a especulação psicologista, biográfica e historicista da
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

crítica do século XIX tardio e início do século XX. Posicionamentos iniciais


formalistas tendiam a negar toda relevância do autor para a leitura do seu texto,
de sorte a focar exclusivamente na qualidade literária (literariness) da literatura:
seus equipamentos, gêneros e regras gerais de formação. Entre a ênfase radical
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formalista da autonomia do objeto literário e o impulso biografista não parece
haver acordo possível, mas Tomasevskij procura meio termo, permitindo captar
a relevância da informação biográfica, por conta dos temas literários do autor.
Defendeu uso limitado e judicioso dos fatos biográficos, incorporando “lendas”
biográficas concebidas esteticamente: o biográfico está confinado por critérios
literários, mais que positivistas, enquanto a conexão da vida e trabalho é
mantida, mas revertida em termos de prioridade. Segundo ele “houve eras
durante as quais a personalidade do artista não tinha qualquer interesse para a
audiência. Pinturas eram assinadas com o nome do patrocinador, não do artista;
trabalhos literários levavam o nome do cliente ou do impressor. Havia grande
tendência para o anonimato, deixando assim campo aberto de investigação para
os arqueólogos e textualistas de hoje. O nome do mestre tinha tanto significado
quanto a marca de uma empresa hoje. Assim, Rembrandt não tinha pejo de
assinar as pinturas de seu pupilo, Maas. Contudo, durante a individualização da
criatividade – uma época que cultivou o subjetivismo no processo artístico – o
nome e personalidade do autor passaram à frente. O interesse do leitor atingiu
para além do trabalho do criador. Esta nova relação para como criatividade
começou com os grandes escritores do século XVIII” (1995:82). Até certo ponto,
a biografia pessoal não faz a obra – tomemos o caso escandaloso de Turing na
Inglaterra: por ter sido homossexual agressivo, foi condenado e submetido a
tratamentos invasivos e destrutivos; recentemente o Parlamento inglês formulou
um pedido de desculpa (Gleick, 2011). Os óculos ou a língua de fora de Einstein
não implicam nada em sua teorização. Mas, “do ponto de vista do observador”,
a pessoa do observador também contribui para o bem ou para o mal da obra.
Wimsatt e Beardsley (1954; 1995) foram influenciados por teorias
modernistas da impessoalidade, mas transferiram expectativas de objetividade
do autor para o crítico. No “The intentional Fallacy” (1954), argumentam que as
intenções do autor ao escrever não são recuperáveis, nem pertinentes para o
julgamento do trabalho. A irrelevância da intenção não se refere à composição
do trabalho, mas à sua recepção. Intenção pode conduzir a cena da escrita, em
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

grande parte porque em geral tem um projeto intencional por trás, mas não da
leitura, já que, saindo o trabalho da esfera privada para a pública, o
posicionamento do autor sobre o que queria dizer pode no máximo tomar seu
lugar não privilegiado junto com outro julgamento estético. Isto reflete a
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profissionalização crescente dos estudos literários, podendo ser tomada como
defesa ética do autor contra a atribuição de intenções espúrias ou caluniosas.
Trata-se de impedir que intenção seja feita padrão de avaliação, sem
comprometer necessariamente a interpretação do trabalho. Ironicamente,
porém, foi esta última exigência “não intencionada” que se mostrou mais
influente e serviu para justificar uma liberdade interpretativa bem à revelia das
expectativas de “The Intentional Fallacy” e seu correlato “The Affective Fallacy”
(http://www.rlwclarke.net/courses/lits2306/2010-
2011/07CWimsattandBeardsley,TheAffectiveFallacy.pdf). “Temos argumentado
que o design da intenção do autor não está nem disponível, nem é desejável
como padrão para julgar o sucesso de uma obra literária de arte e parece-nos
que isto é um princípio que vai fundo nas diferenças na história dos estudos
críticos” (1995:90). A falácia intencional é tipicamente romântica, como a
redundância de Longino, para quem “sublimidade é o eco da alma grande”, ou,
quando reconta que “Homero entra nas ações sublimes de seus heróis e
compartilha a inspiração plena do combate” (Id.:92). Este tipo de idealização
intencional já não se sustenta, porque, se sempre lidamos com uma realidade
construída, não cabe inventá-la... (Wimsatt, 1973).
Poulet (1972; 1995) associa-se à escola de Genebra da crítica alinhada à
fenomenologia de Husserl nos 1950, para argumentar que o ato crítico consiste
de receptividade abrangente para com a condição autoral, enquanto disseca a
estrutura do trabalho. No “Criticism and the Experience of Interiority” (1972)
defende intersubjetividade ideal que implica a negação do “Eu” da leitura para
que a consciência crítica seja preenchida inteiramente pelo cogito autoral. A obra
é vista como expressão quase perfeita das estruturas da mente do autor, de sorte
que a responsabilidade da crítica se torna não só de pensar através da obra,
como permitir ao autor pensar através da crítica. Evita-se o debate intencional,
identificando o espectro dos efeitos linguísticos com a consciência do autor.
Aparece, porém, a dificuldade de distinguir o autor e seu trabalho: se o autor é
identificado com a inteireza do texto, como a visão fenomenológica difere de sua
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

ostensiva antítese, ou seja, a remoção do autor na apreensão do trabalho puro?


Poulet remete-se a Mallarmé: “No início da estória inacabada, Igitur, há a
descrição de um quarto vazio, no meio do qual, sobre uma mesa, aparece um
livro aberto. Isto parece-me ser a situação de todo livro, até que alguém venha e
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comece a ler. Livros são objetos. Sobre uma mesa, em prateleiras, em vitrines
de lojas, esperam por alguém que venha e os retire de sua materialidade, de sua
imobilidade” (1995:101). Esta visão da crítica, porém, é suspeita, porque, sendo
“autoria derivada”, não pode concorrer com a do próprio autor, tal qual ocorre
frequentemente com “críticos do cinema” que se acham mais decisivos que os
cineastas. Enquanto a crítica é retorno fundamental para a qualificação das
obras, não pode estar acima dos autores.
Hirsch (1967; 1995) também se inspira na fenomenologia de Husserl, mas
vê a questão da consciência autoral especificamente em termos da intenção.
Defende o autor contra a impessoalidade modernista e o anti-intencionalismo da
Nova Crítica (Lentricchia, 1980. Siebers, 1988), que analisa como dois lados de
uma vontade comum de despersonalizar a literatura. Reconhece ganhos
limitados das constrições da autonomia textual, mas resiste ao crescimento do
relativismo e pluralismo interpretativo que abandonam qualquer padrão
determinante de validação da crítica. Argumentando em favor da intenção
autoral como tal padrão, Hirsch distingue entre significado (meaning) (as
intenções originais e fixas do autor) e significação (significance) (as
interpretações relativas e historicamente variáveis que dados empíricos impõem
sobre a obra), de sorte a estabelecer o primeiro como válido e objetivo, e a
segunda como relativa e subjetiva. Esta noção baseia-se na perspectiva de
Husserl de que um texto pode apenas significar o que o escritor tinha em mente
no ato da composição, embora não apresente argumentos suficientes através
dos quais a crítica poderia verificar o estado mental do escritor. Mesmo que o
autor declare o que intenciona, levando-se em conta que a mente age em grande
parte de modo inconsciente (Koch, 2012), não podemos saber qual, afinal, foi
mesmo a intenção, também porque o próprio autor pode estar se equivocando
(Kurzban, 2010). Ainda, o princípio de validação não pode sustentar-se contra a
possiblidade das imposições subjetivas da parte do crítico que poderia bem
acertar como “meaning” o que Hirsch reduz a “significance”... Existe circularidade
potencial na posição de Hirsch, já que a intenção autoral garante o significado
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

de determinado texto e vice-versa. Acaba esta fenomenologia aproximando-se


do formalismo que quer criticar: não se estabelece a relação entre autor e
significado textual colapsando um no outro mais do que dissociando
radicalmente os dois termos (Burke, 1995:68).
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“É tarefa do historiador da cultura explicar por que houve nas quatro
décadas passadas um assalto contundente e amplamente vitorioso contra a
crença sensível de que o texto significa o que o autor quer dizer. Na onda mais
inicial e decisiva do ataque (lançado por Eliot, Pound e outros associados) o chão
da batalha foi literário: a proposição que significado textual é independente do
controle do autor associava-se com a doutrina literária de que a melhor poesia é
impessoal, objetiva e autônoma; o que leva a uma pós-vida de si mesma,
totalmente cortada da vida de seu autor” (Hirsch, 1995:109). Esta pretensão de
autonomia semântica apareceu em Heidegger e seguidores, apanhada também
por Jung no sentido de que a expressão individual pode, sem querer, expressar
significados arquétipos e comuns. Em alguns ramos da linguística, em especial
na assim dita teoria da informação, a autonomia semântica da linguagem tem
sido hipótese recorrente (Gleick, 2011). Questionando esta propensão teórica,
Hirsch adianta que o entusiasmo mais antigo em correr atrás do “que o texto diz”
foi que o texto tinha de representar o sentido de alguém – se não do autor, então
do crítico. Reconhece excessos de teorias que propalam frouxidão total perante
o significado do texto, num vale-tudo típico, mas evita o outro extremo. Não se
pode ignorar que significado é dinâmica das consciências, não das palavras.
Quase toda sequência de palavras, sob convenções da linguagem,
legitimamente representa multiplicidade de significados. Uma sequência de
palavras não significa nada em particular até que alguém ou queira dizer algo
por ela ou entenda algo a partir dela. “Não há terra mágica de significados fora
da consciência humana” (Hirsch, 1995:110). Sempre que significado se conecta
com palavras, uma pessoa está fazendo a conexão e os significados particulares
que empresta a elas nunca são os únicos legítimos sob as normas e convenções
de sua linguagem. Quando críticos deliberadamente banem o autor original,
usurpam o lugar dele, aumentando a bagunça. Onde, antes, havia um autor,
agora temos uma multiplicidade, todos com alguma pretensão de autoridade.
“Banir o autor original como determinador dos significados foi rejeitar o único
princípio normativo compelente que poderia emprestar validade a uma
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

interpretação” (Id.:111). Alerta Hirsch, porém, que possivelmente não existe ideal
viável normativo que governe a interpretação dos textos. “Pois, se o significado
de um texto não for o do autor, então nenhuma interpretação pode possivelmente
corresponder a “o” significado do texto, já que o texto não pode ter significado
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determinado ou determinável” (Ib.). Significado é sempre algo impreciso e
ambíguo (Beardsley, 1982. Cadava, 1991. Coomaraswamy, 1944. Paterson,
1990. Said, 1975), o que infirma a aposta na intenção do autor como parâmetro
decisivo: qualquer psicologia mostra que intenções expressas podem servir
apenas para mascarar as que não queremos expressar inconscientemente.
A posição de Hirsch manifesta lucidez ao apontar para a ambiguidade
intrínseca do significado e que fundamenta a necessidade de interpretação:
reduzindo a ambiguidade, também se mantém ambígua. Mas adota ainda visão
essencialista, em especial quando aposta todas as fichas no autor e seu
significado como “único princípio normativo compelente” que evitaria o
relativismo interpretativo. Sendo significado expressão de ambiguidade
intrínseca, ontológica e epistemológica, não cabem extremos de uma
determinação final, nem o vale-tudo de qualquer interpretação. As mentes
interpretam em parte a seu modo, em parte de maneira padronizada, como efeito
da socialização natural em sociedade. Sempre existem interpretações
dominantes, que são dos dominantes, do que segue que não existe o risco de
qualquer interpretação valer. O autor não serve como referência única, porque é
falível naturalmente. Precisamos nos arranjar com outras saídas, de preferência
coletivas, como é a intersubjetividade em ciência (ciência é o que os cientistas
assim definem como tal), com base na autoridade do argumento, não do
argumento de autoridade, procedimentos que não curam a falibilidade, mas a
contextualizam no espaço de validades relativas das interpretações. Olhando
para a Bíblia, onde interpretações conflitantes sempre existem, mas
fundamentalistas gostariam de as extinguir, não existe qualquer possibilidade,
havendo liberdade de expressão, de uma única interpretação, mesmo que se
diga ser divino o texto. Hirsch tem sua razão ao reagir à morte do autor, porque
este mão morre, apenas é substituído por outra figura ou alteridade. Toda autoria
também é usurpação...
Derrida (1995), caracteristicamente por conta da desconstrução, resiste a
polarizações do debate. Intenção é marca crucial da escrita e leitura, mas não
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

abarca o espectro inteiro da significação textual. O que se quer dizer com um


texto é, pois, um subconjunto do que está escrito num texto: intenção vai gerar
sua própria significação, mas irá também confrontar-se com momentos de
contradição, pelos quais o texto vai abrir-se à leitura que legitimamente elide ou
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se evade dos propósitos conscientes do autor. É constituinte da dialética do
significado esta ambivalência: o que não se diz pode ser precisamente o que se
queria dizer e vice-versa. Silêncios podem ser mais eloquentes que qualquer
palavra. O interjogo do design e desconstrução surge da própria constituição da
escrita que não pode ser composta de padrões unilaterais de significado. Assim
como não existe controle total da mente, da consciência e muito menos da
inconsciência, sem falar nas influências externas que nos bombardeiam sem
cessar, não se pode, a rigor, garantir absolutamente qualquer significado, pois
nenhum é absoluto. Não segue o relativismo, porque significados valem, sim,
mas de modo localizado e datado, contextualmente. A dinâmica dos significados
é também campo minado, onde rivalidades se cruzam entre as ambiguidades
insuperáveis. Significado é uma crise significativa. O próprio autor que uma vez
disse certa coisa, depois já não diz mais, porque, entrementes, continuou
aprendendo, sobretudo dos desafetos.
Barthes (1995) em “A morte do autor” contorna o debate da intenção,
posicionando a escrita na origem dos efeitos de significado e o leitor como
princípio suficiente da unidade do texto. Montou o “zero grau” da tradição
despersonalizante (1953/2012) na analogia do autor e divindade, para
argumentar que a morte da última implica a remoção do primeiro. Faz outras
analogias com o individualismo burguês e com argumentos sacados da
linguística, de sorte a fazer confluir a gramática e a ontologia do “Eu” – a função
vazia linguística necessita do vazio do sujeito que escreve. A posição vazia do
sujeito é preenchida pelo leitor, embora não se esclareça que o leitor seja alguém
menos mistificador que o autor a ser substituído. Barthes não chega ao político,
porque o leitor não é apresentado em termos de ocupação de espaços coletivos
ou situados, mas como função vazia do sujeito. Seu ensaio encontrou eco
enorme, servindo, na prática, como referência para a montanha de contradições,
ambiguidades, batalhas e sensibilidades no campo da autoria. “Escrita é a
destruição de toda voz, de todo ponto de origem” (1995:125). Alega que autor é
figura moderna, produto de nossa sociedade, porquanto, emergindo da Idade
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Média com o empirismo inglês, racionalismo francês e a fé pessoal da Reforma,


descobriu o prestígio do individual ou da pessoa humana. É alegação apressada,
porque ignora inúmeros momentos fundamentais da história da autoria,
começando pelo levante autoral de Adão e Eva, passando pelos desfiladeiros
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sempre complicados, sensíveis e temerários dos exegetas, com destaque maior
para a autoria científica (que Barthes não cita, estranhamente) desde a
modernidade, até reclamos crescentes pós-medievais de apreço pelo autor, sua
personalidade, biografia, história de vida, capacidade criativa etc. Chega a citar
a ideologia capitalista de agarramento à importância da “pessoa” do autor
(manifesta nas leis de propriedade intelectual). A explicação da obra é buscada
no ser humano que produz, sem levar em conta que nenhum self é unitário e
nenhum significado é único.
Barthes, porém, que nunca reviu sua proposta apesar das críticas, aponta
para autores anteriores que já preconizavam sua direção da impessoalidade da
autoria. Na França, destacou-se Mallarmé que já substituíra a pessoa pela
linguagem. É a linguagem que fala, não o autor; escrever é, através da
impessoalidade postulada (sem confundi-la com a objetividade castradora do
romancista realista), atingir este ponto onde só a linguagem atua, não “eu”
(1995:126). Acentua que agora sabemos ser um texto não uma linha de palavras
exalando um significado único “teológico” (a “mensagem” do autor-Deus), mas
um espaço multidimensional no qual a variedade de escritas, nenhuma delas
original, se mesclam e chocam. “O texto é um tecido de citações extraídas dos
inumeráveis centros da cultura” (Id.:128). Este modo de expressar-se tem seu
lugar, mas a proposta da “morte do autor” guarda clamor excessivo, provocando
para além do que é possível sustentar em sua argumentação. Sem autor não
haveria texto, ainda que possivelmente haja linguagem sem texto (Burke, 1992,
Caughic, 1981).
Bloom (1975; 1995) notabilizou-se pela teorização da influência literária
de teor humanista, desenhando o relacionamento do poeta com seus
antecessores também como um campo de batalha de contornos freudianos. De
um lado, todo artista tem precedentes, afinidades, filiações; de outro, precisa
distanciar-se deles para adquirir lugar próprio na história. Em sua crítica retórica,
Bloom afirma o autor acima da linguagem, descrevendo seu amadurecimento
como conquista em face dos mestres de quem não deve ser discípulo: o efebo
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

precisa aparecer com autonomia. O cúmulo do processo revisionista consiste de


o efebo revisar o trabalho do precursor com tal intensidade que a prioridade é
aparentemente revertida. Influência poética ou estória das relações intrapoéticas
representam teorização corretiva que desidealiza nossos registros aceitos de
Página | 46
como um poeta ajuda/atrapalha a formar outro e propicia poética que irá
fomentar uma crítica prática mais adequada. Refere-se a “poetas fortes”
(1995:131) que fazem história através da leitura distorcida entre si, abrindo
espaço próprio. Poetas fortes brigam com seus precursores, até a morte mesmo.
Talentos fracos idealizam; figuras com capacidade de imaginação se tornam
autônomas. Dinâmicas da influência são também tenebrosas; uma coisa é
influência que pais exercem sobre os filhos, em geral pedagógica; outra é a
influência de traficantes sobre “menores” que entram para a vida do crime.
Sendo, porém, autonomia rede de dependências instigantes, não existe a
chance de não ser influenciado ou de não influir. O poeta que apenas copia seu
mestre não será poeta. Lembra Bloom de Stevens, poeta particularmente
arrogante: “Enquanto, claro, venho do passado, o passado é meu e não algo
com a marca de Coleridge, Wordsworth etc. Não sei de ninguém que tenha sido
particularmente importante para mim. Meu complexo de imaginação e realidade
é inteiramente meu, mesmo que o veja nos outros” (Bloom, 1995:132). Seu
narcisismo aparece em carta enviada ao poeta Eberhart: “Simpatizo com sua
recusa de qualquer influência de minha parte. Este tipo de coisa sempre me agita
pois, em meu próprio caso, não estou cônscio de ter sido influenciado e tenho
propositadamente evitado ler pessoas altamente amaneiradas como Eliot e
Pound, de sorte a não absorver nada, mesmo inconscientemente. Mas há um
tipo de crítico que gasta seu tempo dissecando o que lê em termos de ecos,
imitações, influências, como se ninguém nunca tivesse sido ele mesmo, mas
sempre composto de um monte de outras pessoas. Quanto a B. Blake, penso
que quer dizer Wilhelm Blake” (Ib.).
Bloom interpreta esta posição sobranceira que só aceita influência em
pedantes como ingênua e ilustra como a influência poética é variedade de
melancolia ou do princípio da ansiedade. Stevens estava obcecado por sua
individualidade e originalidade, mas influência não precisa acabar com o autor
original, nem fazê-lo melhor ou pior. As profundezas da influência poética não
podem reduzir-se ao estudo da fonte, à história das ideias, à padronização das
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

imagens. Bloom chama influência poética de “poetic misprison” (prisão


equivocada poética) e define como necessariamente o estudo do ciclo de vida
do poeta como poeta. Neste ciclo há que ver as relações entre poetas, a exemplo
do que Freud chama de romance em família
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(http://www.arch.mcgill.ca/prof/bressani/arch653/winter2010/Freud_FamilyRom
ance.pdf), um tipo de teorização para aclarar o processo de autonomização dos
filhos. Bloom reconhece que sua noção de influência foi marcada em especial
por Nietzsche e Freud – “Poetas como poetas não podem aceitar substituições
e lutar até ao fim para terem sozinhos sua chance inicial...” (1995:133).
“Porquanto, todo poeta começa (embora ‘inconscientemente’) por rebelar-se
mais fortemente contra a consciência da necessidade da morte do que outros
homens/mulheres fazem. O jovem cidadão da poesia, ou efebo, como
atenienses o chamariam, já é o homem antinatural e antitético e desde este início
como poeta corre atrás de um objeto impossível, como seu precursor correu
antes dele” (Id.:134).
Sugere seis razões revisionistas: i) clinamen – leitura poética equivocada
ou prisão equivocada poética; termo de Lucrécio que via no turbilhão de átomos
a chance da mudança sempre possível no universo; ii) tessera – completude e
antítese: termo tomado da feitura de mosaico e dos cultos antigos do mistério,
símbolo do reconhecimento, um fragmento de pote pequeno que, junto a outros,
pode reconstituir o vazo; iii) kenosis – equipamento para quebrar, similar aos
mecanismos de defesa na psique contra repetição compulsiva; indica movimento
para a descontinuidade; termo retirado do Apóstolo São Paulo, designando
esvaziar-se de tudo; iv) daemonization – movimento para um contra-sublime
personalizado, em reação ao sublime do precursor; termo do neoplatonismo,
onde um ser intermediário, nem divino, nem humano, entra em cena para
ajudar/atrapalhar...; v) askesis – movimento de auto-purgação, visando a um
estado de solidão; termo da prática pré-socrática dos xamãs, como Empédocles;
não é movimento revisionista de esvaziamento, mas de cerceamento – mantém
parte de sua dotação humana ou imaginativa para separar-se dos outros; v)
apophrades – retorno aos mortos; termos dos dias tenebrosos atenienses,
quando os mortos voltavam para as casas – indica o poeta em seus últimos dias,
sozinho, abrindo seus poemas (Bloom, 1995:138). Esta montagem repercute o
forte pano de fundo freudiano de Bloom, em especial a luta do poeta novo contra
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

a influência dos antigos, até emergir com a mesma capacidade de influenciar os


próximos novos.

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1.7. FEMINISMO AUTORAL

Autoria feminina transformou-se em debate candente com o feminismo do


século passado, principalmente. Sob avanços ostensivos na cidadania feminina,
na ocupação do mercado de trabalho (em especial sofisticado), na ocupação de
espaços políticos em geral e também econômicos, com destaque para o
desenvolvimento de propostas acadêmicas próprias (Harding, 1998; 2011), o
debate se aquietou um pouco, mas ainda estamos longe de fazer justiça contra
os milênios de patriarcado tenebroso. Um dos movimentos da “educação
transformadora”, puxado por Mezirow (1975; 1990. Mezirow & Associates, 2000.
Taylor, Cranton & Associates, 2012), começou com uma pesquisa sobre
mulheres que voltavam a estudar na faculdade, após terem superado algum
trauma familiar (em geral separação), abrindo-se os olhos: descobriam que
podiam tomar o destino em suas mãos, pelo menos até certo ponto (Demo,
2005). Submetidas ao jugo patriarcal, consideravam-se antes dependentes dos
outros (marido principalmente), não se lhe abrindo oportunidades de autoria
nenhuma, muito menos literária. Na prática, as lutas feministas foram por autoria,
entendida como a arena na qual a cultura tenta se definir, estabelecendo quem
decide e quem segue. Esta autoria é de propensão clara política, já que envolve
a apropriação do espaço cultural e serve para sustentar o princípio do cânone
literário que o movimento feminista define como preconceito patriarcal. A própria
ideia de cânone propicia ao patriarcado policiar a fronteira entre autoria e escrita
em termos hierárquicos que tradicionalmente alocou as mulheres “escritoras” na
condição secundária e desvalorizada (o sexo feminino não é outro/oposto, mas
o segundo!).
Podem-se distinguir três fases do movimento feminista: tutelar,
revisionista e teórica, no que concerne à questão do autor: i) a asserção da
autora feminina do direito de pertencer à condição de autoria; ii) a tentativa de
redefinir a autoria além e contra o modelo patriarcal e promover cânone contrário
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

próprio das autoras femininas; iii) o reconhecimento de que autoria e


canonicidade são inerente e inalienavelmente instituições patriarcais que o
pensamento feminista deveria superar. O registro de Austen, eminente escritora
inglesa do século XVIII/XIX (1775-1817)
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(http://pt.wikipedia.org/wiki/Jane_Austen) conhecida pelo uso fino da ironia em
seus personagens, dizia que gostaria de ser vista não como mulher, mas como
autora, o que caracteriza a fase mais inicial da exigência de um lugar das
mulheres dentro do reino canônico, sem desafiá-lo, porém. Era comum o uso de
pseudônimos masculinos por romancistas mulheres do século XIX, o que ilustra
dramaticamente a força da exclusão e estratégias desesperadas das mulheres
na tentativa de contornar o preconceito patriarcal. Quando, por acaso, se
descobria por trás do pseudônimo o nome própria de uma mulher, o texto era
degradado, trivializado e proibido seu acesso ao cânone, mesmo tendo sido
antes aceito como meritório. Ademais, ficou claro para feministas do século XX
que o cânone era ativamente excludente em termos conceituais e constitutivos:
o próprio código no qual a ideia de autoria fora concebido repousava no cenário
falocêntrico do criador autônomo consolidado à sua vez por critérios de mérito
estético que eram inadequados para as diversidades da experiência feminina.
Note-se que a linguagem de fundo freudiano passou a ser amplamente usada
para sustentar pretensões emancipatórias feministas, buscando desconstruir a
“supremacia” masculina.
Chegou-se a uma reconstrução da natureza da autoria e dos critérios
objetivos masculinos da formação canônica em termos apropriados à
criatividade da mulher. Com o desenvolvimento do feminismo teórico nos 1980,
a noção de um reino de experiência feminina autêntica foi descartado como
essencialista e mistificador, enquanto a tentativa de estabelecer um cânone
autoral feminino – assim se analisou – não fez mais que recuperar a escrita da
mulher para uma estética humanista moribunda. De fato, corre-se facilmente o
risco, em especial no calor da contenda, de trocar um essencialismo (machista)
por outro (feminista), perdendo de vista que tais dicotomias são inventadas. A
princípio dominou o sentimento compreensível de luta pela igualdade de
condições, mas logo se percebeu que esta igualdade implicava a diferença: ser
igual não é perder-se na vala comum, mas reencontrar-se na diferença. Nenhum
lado é completo, pois ambos se constituem reciprocamente, numa dialética
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

infindável de ambiguidades, complementaridades, afastamentos, identidades


em luta. Como decorrência, autoria não pode ser atributo masculino fálico,
exclusivo, porque é qualidade humana de ambos os gêneros, na qual a
diversidade precisa ser vista como riqueza natural.
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A fase revisionista ou “ginocrítica” da crítica feminista floresceu na Grã-
Bretanha e nos Estados Unidos durante os 1970 e buscou redescobrir o que
Showalter (1977; 1985) chamou de “continente perdido da escrita das mulheres”
(Burke, 1995:146). Tomando o século XIX como o continente a ser explorado,
“The Madwoman in the Attic” de Gilbert e Gubar (1979) aparece como uma das
tentativas mais incisivas de estabelecer o cânone da autoria feminina. Menos
que patrocinar os feitos da tradição feminista na contraposição com a
contrapartida masculina, as Autoras redefinem a autoria feminina em si sobre e
contra as teologias masculinas da criatividade. Diga-se que Gilbert e Gubar são
uma dupla entre uma plêiade de feministas acadêmicas que resolveram contra-
teorizar ombro a ombro, lançando mão de todo arsenal de pesquisa, discursos,
teorias, achados científicos disponíveis. O modelo edipiano de Bloom da tradição
literária é para elas a diagnose aguda da dinâmica ansiosa e agressiva da
influência pela qual o cânone patriarcal é formado. As ansiedades da autoria
feminina estendem-se para além daquelas geradas pela influência do precursor
para formar uma ansiedade geral. Enquanto o noviço masculino está
ansiosamente lutando por originalidade, de sorte a exigir seu lugar canônico, a
autora feminina percebe que a própria tradição está sendo construída
precisamente em termos de sua exclusão. São duplos os efeitos dessa exclusão.
Negativamente, produz sentimentos de subalternidade nas escritoras mulheres
que são inconscientemente projetadas na forma de “duplo louco” textual via o
que Gilbert e Gubar chamam de “esquizofrenia feminina da autoria”; torna-se,
então, tarefa da crítica feminista reconstruir a psique autoral a partir dessa
imagem especular da raiva feminista e aprisionamento dentro de uma tradição
hostil. Positivamente, enquanto o escritor masculino é acabrunhado pelo já
escrito, a autora feminina tem precursores de menos e está, portanto, envolvida
na criação mais do que na leitura equivocada dos precedentes: daí provém a
maior satisfação da escrita feminina contemporânea à medida que busca
construir, mais que que transfigurar, uma tradição. Na visão de Bloom, de
inspiração forte freudiana, o escritor novo se estabelece desvinculando-se das
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

amarras do passado, o que encena o palco das lutas contra os precursores,


lendo-os mal, contralendo, sempre procurando lugar ao sol; ao fundo, está o
esquema freudiano da relação conflituosa e libidinosa de filhos contra os pais,
como processo de desenvolvimento da personalidade autônoma. Como
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praticamente só homens escritores possuem precursores, a mulher tem aí um
tolhimento, mas que pode também ser chance, pois podem começar do começo,
em certo sentido, montando um cânone honesto da autoria.
A obra de Gilbert e Gubar aponta para a psicodinâmica decisiva e
diferenças modais entre autoria masculina e feminina, sem essencialismos e
dicotomias, mas tem recebido o reparo de que a inscrição autobiográfica do autor
permanece categoria fundamentalmente não examinada. Na teoria literária mais
formalista, o passado do autor não é referência relevante, como é para uma
postura inspirada em paradigmas freudianos. Autobiografias são, em geral,
obras de mau gosto, até porque não soa bem autoavaliar-se publicamente.
Ademais, por mais que sua leitura seja teoricamente sofisticada, muitas vezes
cometem o erro ingênuo de mover-se com segurança não qualificada do
personagem para a escritora – do “duplo louco” para a psique autoral – como
também promovendo a política feminista sobre uma estética não menos
patriarcal por estar reversamente fincada no gênero... (Burke, 1995:147). A teoria
francesa centrada na linguagem nos 1980 problematizou as noções de
subjetividade de gênero e autoria feminina. O sujeito que representa (a autora)
e o sujeito da representação (o sujeito feminino) foram questionados pelo
feminismo psicanalítico que passou a atenção do sexo do escritor para o sexo
da escrita. A distinção de Lacan entre as ordens imaginária e simbólica da
linguagem serviu para distinguir entre o modo “feminino” de significação,
caracterizado pelo uso de palavras pelo som, pulsão e música, e o uso
“masculino” da linguagem acentuando o racional, linear e lógico. A maneira pela
qual a criança se desenvolve no mundo da linguagem – sua inclinação para uma
ou outra dessas ordens – é vista como determinante de gênero para sua escrita
sobre e acima do sexo do escritor. Não existe escrita assexuada, mas não é o
sexo propriamente que garante, assim como, não existindo discurso neutro, não
é a boca propriamente que o constitui. Mais forte que isso são a natureza
humana evolucionária dada e a cultura vigente que acabam dando o colorido
reconhecível.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

As Autoras não se furtam de escavar na história da autoria maluquices


masculinas, para reforçar seus argumentos freudianos contra o patriarcado
preconceituoso. Houve autores que viam na pena um pênis metafórico..., como
Hopkins; numa carta a seu amigo Dixon em 1886, confidenciou um traço crucial
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de sua teoria da poesia. A qualidade mais essencial do artista seria o
desempenho magistral, um tipo de dom masculino superior. Acrescentou que
“numa consideração melhor, me surpreende que a maestria de que falo não está
tanto na mente, quanto na puberdade da vida desta superioridade. A qualidade
masculina é o dom criativo” (Abbott, 1935:133. Gilbert & Gubar, 1995:151). A
sexualidade masculina, em outras palavras, não é só analógica, mas
concretamente a essência do poder literário. “A pena do poeta em algum sentido
(até mesmo mais que figurativamente) é um pênis” (Gilbert & Gubar, 1995:151).
As Autoras vislumbram por trás disso a noção patriarcal de que o escritor “é pai”
de seus textos, assim como Deus é pai do mundo, um estereótipo onipresente
na civilização literária ocidental, como Said mostrou estar a metáfora construída
na própria palavra autor, com a qual o escritor, deidade e pater familias são
identificados. Citam, então, um texto de Said sobre a palavra autoria:
“‘Autoridade sugere a mim uma constelação de significados vinculados: não só,
como o Oxford English Dictionary nos conta, ‘um poder de impor obediência’, ou
‘um poder derivado ou delegado’, ou ‘um poder de influir a ação’, ou ‘um poder
de inspirar crença’, ou ‘uma pessoa cuja opinião é aceita’; não só essas, mas
uma conexão também com auctor – isto é, uma pessoa que origina ou dá
existência a algo, um produtor, iniciador, pai ou ancestral, uma pessoa também
que avança posicionamentos escritos. Há ainda outro bloco de significados:
autor está amarrado ao particípio passado de auctus do verbo augere; portanto,
auctor, conforme Cartridge, é literalmente um aumentador e assim um fundador.
Auctoritas é produção, invenção, causa, em adição a significar um direito de
possessão. Finalmente, significa continuidade, ou causa para continuar.
Tomados juntos esses significados todos, estão fundados nas seguintes noções:
i) a do poder de um indivíduo para iniciar, instituir, estabelecer – em suma,
começar; ii) a de que este poder e seu produto são um aumento sobre o que
tinha havido lá antes; iii) que o indivíduo ostentando este poder controla sua
questão e o que dela se deriva; iv) que autoridade mantém a continuidade de
seu curso” (Said, 1975:83. Gilbert & Gubar, 1995:152). Para Said, uma
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

convenção da maioria dos textos literários é que “a unidade ou integridade dele


se mantém por uma série de conexões genealógicas: autor-texto, começo-meio-
fim, significado do exto, interpretação do leitor etc. Sob tudo isso está o
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imaginário da sucessão, paternidade ou hierarquia” (Said, 1975:162)3.
Segundo as Autoras, pode-se traçar uma genealogia da poesia como
espelho da natureza, no contexto da estética mimética, começando com
Aristóteles: o poeta, como deus menor, faz ou engendra um espelho alternativo
no qual delimita a realidade. O conceito romântico de Coleridge da “imaginação
ou poder aglutinador” humano é de uma força viril, generativa, que ecoa “o ato
eterno de criação no infinito EU SOU”, enquanto a “Imaginação Penetrante” com
ressonância fálica de Ruskin é a “faculdade de tomar possessão” e “língua
pontiaguda da mente” que doma, corta e vai à raiz da experiência para “exibir
quais novos rebentos quer” (Coleridge, 1983, cap. 13. Ruskin, 1903:250-251).
Em todas essas estéticas, o poeta, como Deus o Pai, é um regulador paternalista
do mundo ficcional que criou. Shelley chamava-se de “legislador”. Keats anotou,
falando de escritores, que “os antigos eram Imperadores de vastas Províncias”,
enquanto “cada um dos modernos” é meramente um “Eleitor de Hannover”. Na
filosofia medieval, a rede de conexões entre metáforas sexuais, literárias e
teológicas é igualmente complexa: Deus o Pai engendra o cosmos e, como
Curtius anota, escreve o Livro da Natureza: ambos os tropos descrevem um
único ato de criação (1963:305; 306)4. Bloom apontou que, “a partir dos filhos de

3 As Autoras aproveitam para ridicularizar esta noção exacerbada de paternidade que,


acompanhando Joyce (1934:205), chamam de “ficção legal”, porque o macho nunca tem certeza
disso – que o filho seja do pai, é um conto que ele se arranja, para evitar fofoca. Esta ansiedade
provoca relatos de superioridade para tapar o sol com a peneira, que Joyce qualifica como
“estado místico” da paternidade. “Paternidade, no sentido de produção consciente, é
desconhecida para o homem”, diz Joyce. “É um estado místico, uma sucessão, uma sucessão
apostólica, apenas do produtor para o produzido. Sobre este mistério e não sobre a madona é
que o intelecto italiano astucioso atirou-se para a turba da Europa, a Igreja, a igreja é fundada e
fundada irremovivelmente porque fundada, como o mundo, macro e microcosmo, sobre um
vazio. Sobre a incerteza, sobre a improbabilidade. Amor matris, genitivo subjetivo e objetivo,
pode ser a única coisa verdadeira na vida. Paternidade pode ser ficção legal” (Gilbert & Gubar,
1995:160). Paternidade é discurso compensatório.
4 Citam que Conde de Rochester no século XVII e Auguste Renoir no século XIX definiram a

estética baseada no deleite sexual masculino. “Eu ... nunca rimei, a não ser por conta de meu
pinto (pênis)”, declara Timon espirituoso de Rochester (Sola Pinto, 1953:99), e (conforme a
pintora Bridget Riley) Renoir “presume-se ter dito que pintava seus quadros com sua pica” (Riley,
1973:82). Comentam as Autoras que claramente os dois artistas criam, com Brown, que “o pênis
é a cabeça do corpo” e ambos podem concordar também com a sugestão de Irwin de que a
relação ‘do self masculino com o trabalho masculino-feminino é igualmente auto-erótico..., um
tipo de onanismo criativo no qual através do uso da pena fálica sobre o ‘espaço puro’ da página
virgem... o self é continuamente gasto e usado...’” (Brown, 1969:134. Irwin, 1975:163).
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Homero até os filhos de Ben Jonson, a influência poética tem sido descrita como
relação filial”, uma relação de “filiação”. A luta feroz no coração da história
literária é uma “batalha entre iguais fortes”, pai e filho como opostos poderosos,
Laio e Édipo nas encruzilhadas da vida (Bloom, 1973:11; 26). Na cultura
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ocidental patriarcal, o autor do texto é um pai, progenitor, procriador, patriarca
estético cuja pena é instrumento de poder generativo igual a seu pênis (Gilbert
& Gubar, 1995:154).
Cixous (teórica francesa e autora), sublinha que a écriture féminine é
acessível a homens e mulheres, já que na escrita de vanguarda é a mulher que
fala independentemente de se o texto está assinado no nome de “mulher” ou
“homem”. Contrariando os princípios do feminismo anglo-americano, o cânone
que Cixous estabelece é realmente dominado pelos vanguardistas masculinos
como Joyce, Kafka, Kleist e outros através de quem o feminino mais vitalmente
inscreve a si mesmo. “Castração e Decapitação” (1981) – escrito em estilo
antiautoritário, lúdico e elíptico reflexivo do desejo de Cixous de atuar como
écriture fémine o que seu texto descreve – inventivamente derruba assunções
de gênero do senso comum através de sua asserção da feminilidade libidinosa
que atravessa a identidade biológica. O binarismo “macho/fêmea” é a oposição
engendradora da metafísica patriarcal e promover a mulher por sobre o homem
numa reversão contra-hegemônica é simplesmente perpetuar as próprias
assunções logocêntricas das quais a crítica feminista deveria libertar-se. Não é
viável superar o patriarcalismo pela via patriarcalista, ou seja, empurrando um
lado a ponto de se encontrar e perder-se no outro, do qual imaginava se
distanciar. Levantaram-se dificuldades para a teoria de Cixous: assinalando
poder generativo a um princípio feminino “não localizável”, o argumento trai
parentesco com a metafísica que se precisa desconstruir; nem a especificidade,
nem o status ético da autoria das mulheres pareceriam ser o caso dentro da
escrita feminina generalizada (Burke, 1995:148).
Para contextualizar mais de perto a verve de Cixous, acrescento alguns
comentários sobre excertos de sua obra “Castração ou Decapitação” (1981),
começando por uma estória psicanalítica dos deuses gregos sobre a diferença
sexual que, ironicamente, alcunha de “pequenos pontos” (1995:162). Zeus e
Hera, o casal último, discutem – dentro de suas escaramuças intermináveis de
casal – sobre prazer sexual: quem sente o maior prazer, o homem ou a mulher?
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Chamam Tiresias para arbitrar, já que este vedor cego havia passado sete anos
como mulher e sete anos como homem, tendo sido dotado de uma “segunda
visão”, ou seja, de ter experimentado os dois lados. Quem não havia
experimentado os dois lados não poderia arbitrar – caso de Zeus e Hera. E
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Tiresias respondeu sem mais: “Se prazer sexual pudesse ser dividido em dez
partes, nove delas seriam da mulher” (Ib.). Em seguida, Cixous retrabalha outra
estória, desta vez chinesa: um rei mandou Sun Tse, mestre da guerra,
transformar suas 180 esposas em soldados. O mestre alinhou-as em duas
fileiras, com as duas preferidas na ponta e ensinou a batida do tambor: duas =
direita; três = esquerda; quatro = voltar ou marchar de ré. Mas não conseguiam
aprender o código, rindo-se toda hora. Constava, porém, que, se as mulheres
persistissem em ficar rindo, seriam tidas como amotinadas e condenadas à
morte. O rei não gostou da ideia de matar a todas; assim, foram escolhidas duas
para começar, servindo à lei absoluta, maior que a do rei. Sun Tse começou de
novo e, então, deu certo – as mulheres tornaram-se soldados mais que
exemplares. Cixous releva aí o choque de duas economias: masculina e
feminina, sendo que a masculina é governada por uma regra que mantém o
tempo com duas batidas, três, quatro, com trombeta e tambor, exatamente como
devia ser. É uma ordem que funciona por inculcação, por educação: “é sempre
questão de educação” (Id.:163). Uma educação que busca fazer à força da
mulher um soldado, a força que a história mantém reservada para a mulher:
decapitar, literal ou figurativamente, fazendo delas silenciadas ou autômatos.
Trata-se, assim, de controlar a desordem feminina, sua risada, sua inabilidade
de tomar a sério as batidas do tambor, ameaçando de decapitação. O homem –
diz a teoria freudiana – opera pelo complexo de castração, e a mulher de
decapitação – ela perde a cabeça. No La Jeune Née (Cixous & Clément, 1975),
Cixous fez uso de uma estória expressiva do lugar da mulher: da Bela
Adormecida – a Mulher, se estivermos à procura dela, há grande chance de ser
achada numa posição: na cama. Na cama e dormindo – a Bela Adormecida é
acordada por um cavalheiro, porque precisa de intervenção masculina para
acordar... Sua trajetória é de cama para cama, sonhando à toa... (Cixous,
1995:164). Com fina ironia, Cixous busca desconstruir estereótipos masculinos
contra a mulher, indicando que supremacias são doentias e profundamente
injustas. É difícil, numa desconstrução tão sistemática, não perder a mão,
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

retomando essencialismos que se buscam superar – o palco da história precisa


ser dividido, ainda que dialeticamente, ou seja, numa relação polarizada,
ambígua, conflitiva (Woolf, 1975).
Em “Feminist Tracks”, Jardine (1985; 1995) demarca nitidamente a
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influência desestabilizadora do pensamento francês sobre o feminismo
anglófono. Seu termo mais marcante – gínese (gynesis) – que indica o alçar da
mulher ao discurso, marca a inscrição do feminino radical dentro do espaço
ginocrítico mapeado por Gilbert e Gubar, Showalter e outros. Acompanhando
Cixous, Jardine recomenda que a mulher seja daí para frente reconcebida como
“mulher-em-efeito que nunca é estável e não tem identidade”. Ginocrítica é vista
como exaltação de um “sujeito” feminino ilusório gerado por assunções
metafísicas; gínese, por outra, propõe uma écriture féminine como chão de todo
discurso e – como seu prospecto – uma heterotopia sexual e textualmente plural
na qual homem, mulher e metafísica irão finalmente desaparecer. Mulher como
escritora é substituída por escritora como mulher, tanto quanto mulher como
sujeito é substituída por mulher como signo. Embora reconheça as tensões entre
a fragmentação pós-moderna da subjetividade e os imperativos éticos e
canônicos da política feminista mais tradicional, as interseções que ela propõe
são mais claramente sopesadas em favor da exploração vertiginosa do
textualismo francês. Por isso, Jardine talvez ateste menos a pressão por
demarcar lugar entre o pensamento francês e o anglo-americano do que para o
intercâmbio continuamente carregado entre textualismo radical e política radical.
Como seria de esperar, a remoção da mulher-como-mulher e da mulher-como-
autora causou considerável consternação entre as feministas comprometidas
com questões subjetivas, éticas e políticas do feminismo como é articulado na
tradição anglo-americana. Diferença de gênero não tenderá a desaparecer, até
porque uns poucos textos assim postulam e mesmo se a oposição
homem/mulher seja em si ilusão metafísica, permanece uma ilusão como clamor
considerável sobre a realidade das vidas das mulheres e sua escrita. O diálogo
fraturado entre radicalismo textual e reação ética repete a polarização sem futuro
comum aos debates sobre o autor nos estudos contemporâneos literários.
Críticos comprometidos com a centralidade da experiência da mulher têm muitas
vezes repelido o desafio revisionista oferecido pelo teóricos franceses, enquanto
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

tenderam a acantonar o feminismo autoral a uma selvageria pré-teórica (Burke,


1995:149).
Elaborações francesas, conhecidas por vezes por seu contorcionismo
teórico, que se imagina tanto mais respeitável, quanto mais indecifrável, foram
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um balde de água fria para movimentos históricos feministas cuja práxis precisa
alimentar-se de teorizações, por certo, mas não nelas naufragar. No extremo,
pode-se sempre arguir que humanismo, natureza humana, homem/mulher são
construtos fabricados na perspectiva eurocêntrica, visivelmente patriarcalista,
escondendo ideologias escusas de toda estirpe e que, a longo prazo, no bojo da
evolução aleatória aberta, podem ser referências perecíveis (Bauman, 2007).
Assim como hoje nos espanta ver tanta gente “saindo do armário”, pode ser que,
em breve, os “dois” sexos se diluam cada vez mais, restando uma metamorfose
surpreendente e muito mais diversificada. No entanto, na prática da vida,
homem/mulher são uma dupla ainda vigente, com passados muito distintos em
cada lado, eivados de injustiças e prepotências que a sociedade precisa encarar
e, até onde possível, sanar. A autoria feminina não precisa (não deve) erigir-se
contra a masculina, embora na relação o conflito seja endêmico, produtivo e
destrutivo. Diluir a causa feminina em formalismos textuais parece ajudar muito
pouco (Laurentis, 1984. Kristeva, 1980. Livibond, 1990. Moi, 1985. Nicholson,
1990. Pateman & Grosz, 1986. Warhol & Herndl, 1991).
Miller (1988; 1995) sinaliza para além desse beco sem saída, buscando
preservar a força política do feminismo, enquanto reconhece os recursos
linguísticos da teoria francesa. A autoria feminina deve ser repensada para fora
das alternativas do humanismo patriarcal e anti-subjetivismo teórico, levando em
conta as arqueologias e genealogias existenciais. Afirmando o modelo da
subjetividade feminista situada, no “Changing the Subject” (1988) Miller é capaz
de contraditar os monólitos gêmeos da subjetividade universal e da textualidade
anônima, via concepção de autoria como aberta à diferença e à mudança. Alerta
para a ironia do feminismo que, ao escavar o espaço da autoria da mulher,
deparou-se, em certas teorizações, com autoria nenhuma. Argumenta que o
desafio mais efetivo ao patriarcado consiste em desenvolver a diferença
estrutural na subjetividade feminina contra a noção de sujeito unificado. Esta
“rematerialização” da autoria feminina e subjetividade em oposição ao sujeito
transcendente da estética patriarcal poderia também ser estendida aos outros
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

grupos de sujeitos marginalizados, cuja diferença para com a “oposição


universal” está marcada – questões de etnia e pós-colonialismo como temas de
urgência aqui. Miller mostra magistralmente como o retorno do outro é
necessário se a política e a teoria feminista quiserem evitar postar-se como
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hostilidade recíproca apenas. Esta remodelagem do sujeito existe como
prospecto e processo não menos compelente para a ambivalência movediça de
sua relação, ou seu status de vir a ser (Irigaray, 1985. Jones, 1981).
A ironia comum em feministas que discutem o patriarcado é, na prática,
uma resposta sofrida a uma história injusta, na qual, sendo a mulher parte
substancial e mesmo destacada da geração da prole, foi empurrada para o
segundo plano, encerrada em casa, alocada na cama, estereotipada como
brinquedo masculino. Como Hrdy (1999) coloca no seu “Mother Nature”, a
referência materna é a marca maior da natureza que nela se reinventa pelos
milênios, eclodindo na biodiversidade imparável. A reação masculina acaba
revelando seu lado compensatório, porque, ao fundo, teme a mulher (não só em
termos freudianos), mas na prática da vida, porque sempre lhe foi páreo duro.
Primeiro, não podendo jamais garantir que o filho é seu, recorre à truculência
para fechar a mulher em casa, impedindo contatos externos. Segundo,
aproveitando-se da condição natural de que a mulher tem compromisso
extremamente mais radical na prole (gravidez, alimentação do filho com seu
próprio leite, cuidado constante na infância etc.), o homem se livrou do ônus da
criação dos filhos e do trabalho doméstico. Terceiro, tratando o outro sexo como
“segundo” (Beauvoir, 1948; 1972), montou-se a ideologia do patriarcado para
garantir a supremacia masculina, em especial, a vinculação subalterna ao macho
– este traço persiste até hoje, seja na estruturação familiar do homem com
várias/muitas esposas, ou na constituição de religiões plantadas no princípio
masculino, porque, mui ironicamente, Deus é “homem”, ou, na contramão, na
“profissão” da prostituição sempre “tolerada” legalmente... Quarto, acresce que
a mulher autora desvela tranquilamente os limites da autoria: dando à luz a um
filho, este é “outro”, pelo qual tem compromisso também biológico (a mãe é
capaz de dar a vida pelo filho, o homem não), transformando seu cuidado em
estratégica educacional da autonomia: o filho precisa amadurecer e sair para o
mundo, criando família própria. Quinto, hoje temos maior clareza sobre esta briga
atávica, ao vermos que a mulher vai ocupando todos os espaços sociais e
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

culturais, sem dificuldade intrínseca e insuperável (Friedman, 1987. Nye, 1988.


Wollstonecraft, 1967).

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1.8. IDEOLOGIAS E AUTORIA

Seja qual for sua estirpe, a crítica política em geral se alinha na oposição
à ideia do autor como criador autônomo que transcende a história e as
ideologias. Em parte isto se deve à diferença (não dicotomia) entre teoria e
prática. Na teoria, alçamos voos abstratos formalizados que corresponderiam a
formas da validade universal, em geral na linguagem da lógica e da matemática,
mas na prática, caímos na real, como se diz. O plano da existência é
naturalmente contingente, incompleto, passageiro, onde cabem apenas
validades relativas (sem serem relativistas). Toda prática revolucionária é uma
das possíveis, seguindo rumos também imprevisíveis e irreversíveis. Tudo
sempre poderia ser diferente, mas foi o que foi, sem nunca ter esgotado o que
poderia ter sido. Para muitos verdade é eterna, mas ideologia é contingente,
exarando aí dicotomia imprópria, pois toda verdade existencial é ideológica, no
sentido de se alinhar a posicionamentos politicamente carregados eventuais e
estruturais, enquanto verdades formais, podendo talvez ser válidas
universalmente, não definem as existências. Contudo, pretensões
grandiloquentes de autoria são feitas na práxis histórica, quando alguns textos
são feitos para mover o mundo e deslanchar transformações radicais, mas são
facilmente desqualificados como algo específico, localizado, datado, pequeno.
Burke não se demora em definir ideologia, mas seria o caso, para evitar que um
fantasma ronde os fundos da casa, tendencialmente tomado como algo
abominável. Enquanto não faltam ideologias certamente abomináveis na história
humana, como patriarcado, nazismo, racismo, fundamentalismos e tantos outros
“ismos”, há outras sublimes como de cidadãos que correm atrás de uma
sociedade mais igualitária. Ideologia é a exsudação do poder, seu discurso
legitimador, o modo como tentamos “normalizar” contextos de autoridade (e
mesmo de autoritarismo) como devidos/meritórios, não questionáveis. Como,
porém, poder também é dinâmica ambígua, há poder do bem, como pode ser o
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

paterno/materno, do líder participativo, do professor educador, e seu discurso


justificador também é ideologia, tal qual aquela que o marginalizado precisa forjar
para mobilizar sua emancipação. Se ele não consegue elaborar a proposta de
mudança, um “intelectual orgânico” pode fazer, ainda que a relação entre
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marginalizado e intelectual orgânico seja sempre altamente suspeita, como é
entre político e eleitor (Thompson, 1995). O compromisso político, assim, pode
estar maculado eticamente com causas abjetas, como pode também acolher
virtudes cívicas heroicas.
Ocorre que o discurso científico busca afastar-se – em geral como o diabo
da cruz – do discurso ideológico, por imaginar-se objetivo/neutro, formal, arauto
de validades universais (Shapin, 1998). Em seu método lógico-experimental
propõe-se proferir apenas aquilo para o que tem evidência empírica, mantendo
a teoria sempre aberta à falsificação/questionamento intersubjetivo, como
iniciativa guardiã da cientificidade. Admitindo-se que a condição humana é
“política” (Demo, 2002), com o corretivo de que não cabe apenas aos humanos
esta politicidade (Waal, 2000. Cerulo, 2011. Demo, 2012), não seria o caso ver
autoria fora deste contexto. Claramente, autoria não se reduz à ideologia, mas
ambas moram na mesma casa ou na mesma arqueologia do saber (Foucault,
1971), embora sempre com infindas variações e sensibilidades. A politicidade da
matemática é menos ostensiva do que da pedagogia, mas está em ambas, na
matemática mais em seu uso histórico-social, na pedagogia nos próprios ossos.
Nos cenários formais é possível distanciamento maior, num vaivém de
imbricações e afastamentos (a matemática usada para fazer a bomba atômica
não a macula intrinsecamente, mas externamente, enquanto que no matemático
a mácula fica porque entrou na engenharia social e será sempre objeto de
polêmicas éticas acirradas e inconclusas). Alguém vai dizer que a bomba
atômica foi importante para acabar com a guerra; outro vai dizer que teve como
resultado mais importante emplacar a prepotência de um país que despontava
como líder militar mundial (e até hoje, ter bomba atômica qualifica o país para o
direito de veto na ONU). Enquanto alguns creem que possa existir comunicação
não estratégica (Habermas, 1989), outros apontam nisso um ocultamento de
ideologias ingênuas ou malandras (Sfez, 1994. Mészáros, 2004. Bourdieu,
1996), porque toda presença humana (ou da vida em geral) prefigura dinâmicas
da politicidade. Autoria, neste sentido, é referência maior de tais dinâmicas,
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

ainda que na vida nem tudo seja apenas poder ou possa limpar-se de poder.
Esta já seria razão suficiente para impugnar qualquer pretensão de autoria
dotada de validade universal, porque nenhuma ideologia é capaz disso. Uma das
artimanhas da ideologia é transformar efemeridades localizadas e datadas em
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expectativas eternas, válidas absolutamente para todos. Outra é não apresentar-
se ostensivamente, escondendo-se nas gretas do discurso, manhosamente:
quem prega em público tem reação em público. Por isso Engels foi instado a não
fazer afirmações didáticas da visão marxista, mas Benjamin e Brecht enfatizaram
que o escritor deveria declarar solidariedade com o proletariado, implicando
remodelagem radical dos modos de produção artística.
Como a arte, no status quo, tende a abraçá-lo, ecoando consciente ou
inconscientemente o discurso dominante, comprometer-se com os
marginalizados é apenas o outro lado da mesma moeda, muitas vezes visto
como algo estranho porque não nos damos conta de que em sociedade só
aparentemente não estamos em nenhum lado. Diz-se que jornalismo a favor não
existe – não seria jornalismo, o que declara uma preferência ideológica “mais
ética”, porque vinculada ao igualitarismo. Mas, em sociedades fundamentalistas
liberais como a norte-americana, grandes fortunas não se podem taxar, porque
isto feriria o mérito histórico de quem as amealhou. Mérito? Outros vão dizer que
esta condição de acumulação de riqueza é em si aética, em especial porque a
grande maioria se esfalfa para manter o privilégio de alguns. Que um “privilégio”
seja “mérito” parece ideologia inominável. Segue daí que nada é mais ideológico
do que apresentar-se sem ideologia, assim como nada é mais interesseiro do
que neutralidade. A discussão do autor, então, não foge da raia: autoria é disputa
sem fim ideológica, também entre os paladinos da neutralidade/objetividade
científica, como já observara Bourdieu (1990) em seu “Homo Academicus”. Veja-
se a análise de Fitzpatrick (2011) sobre as peripécias sujas da disputa
acadêmica para publicar nas melhores revistas do mundo ou sobressair na
academia, seus ranços medievais, jogatinas de bastidores, conchavos
politiqueiros. No marxismo ortodoxo, porém, ideologia é tão importante quanto
apenas efeito superestrutural, valendo, ao final, a determinação econômica. Em
sua versão determinista, esta visão não cabe, mas tem seu lugar quando
constata que o revolucionário de hoje pode ser o reacionário de amanhã: basta
que chegue ao poder! De pouco vale lançar ideologia contra ideologia: tornam-
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

se ainda mais fundamentalistas. Ideologia não faz mal quando consegue manter-
se aberta e tenta preferir a autoridade do argumento, ainda que o argumento que
lhe é próprio seja o argumento de autoridade.
Tomar a sério a ideologia do autor implica questionar extremos de
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posicionamentos estruturalistas, formalistas, objetivistas, próprios da “morte do
autor” e similares. Tomar a sério implica também não “ideologizar” tudo, como
se no autor só houvesse autointeresse ideológico. Sendo figura tão complexa e
fragmentada, como o pós-modernismo tem mostrado, abriga um feixe infindável
de dinâmicas, contradições e lógicas, o que permite também afirmar, até certo
ponto, que o autor não fala por si sobranceiramente, mas apanhado na rede da
linguagem. A estas alturas, supor um autor plenamente consciente é ignorar os
avanços da psicologia, psicanálise, neurobiológica, estudos da consciência
(Koch, 2012) que, embora reconhecendo que consciência seja uma dos ápices
evolucionários até ao momento, a vida consciente é quase residual. Muitos
autores são paladinos de causas tidas por nobres, como teria sido o caso de
Sartre (um socialista declarado e independente) ou de Gramsci (que morreu na
cadeia abandonado); mas há outros que sequer reconhecem o Holocausto!
Ideologia ilumina e ofusca, dependendo da circunstância. Para alguns cristãos
as “evidências” de que o mundo teria mais de 14 bilhões de anos não contam,
em face da fé na Bíblia que alegoriza um início recente (há menos de dez mil
anos). Outros consideram evolução “fato” sem mais, enquanto outros ainda
como a hipótese mais badalada até ao momento, com boas chances de se
aperfeiçoar, mas, como toda teoria, tão útil quando incompleta. Usar a Bíblia, por
outra, para resolver questões de pesquisa arqueológica parece bisonho, pois
nunca foi este seu propósito primordial. Esta briga de autores, que logo desanda
em fundamentalismos recíprocos, desvela que o autor é importante como
arquiteto de ideologias mobilizadoras, para lá e para cá, quando possibilita
iniciativa histórica situada. Apelando para o chão histórico tão desafiante, Sartre,
no “Writing of One’s Age” (1995), elabora a noção instigante da literatura mais
reflexiva banhada na práxis contraditória das desigualdades sociais gritantes.
Este apelo o definiu como “autor engajado”, situado contextualmente, entre
compromisso e mortalidade. Reagia à crença remanescente cristã da
imortalidade, já que o livro pode ter alguma eficácia no tempo em que ainda tinha
reconhecimento; depois vai para a prateleira e vira volume ou clássico. Um livro
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

vale em sua época; escrevemos para nossa época (Burke, 1995:227). Tinha,
pois, noção lúcida da efemeridade das ideologias, a começar pela própria.
Macherey (1995) substitui a prática do autor comprometido politicamente
pela prática da crítica ideológica, o que lhe permitia distanciamento maior da
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fervura da práxis, embora correndo o risco do parasitismo crítico. A importância
do texto não repousa apenas (ou principalmente) no que está dito ou significado
por uma obra, mas no que não se disse, o que desvaloriza a intenção do autor,
claramente: “a obra de literatura é constituída por condições determinadas das
quais o autor não é mais que um produto” (Burke, 1995:216), ecoando uma
ortodoxia infraestrutural. Opõe-se à noção romântica de um gênio criativo do
escritor em favor de uma visão artesanal de autoria como análoga a qualquer ato
de produção socioeconômica. Mas não adere ao anti-humanismo althusseriano,
preferindo analisar o autor emaranhado em relações ideológicas, ainda que
como eco infraestrutural (Althusser, 1969). Mas rebate a noção de um escritor
como artista criador por ser parte da ideologia humanista, que ora vê o ser
humano acima das condições econômicas e históricas, ora como razão de ser
da natureza. Humanismo imagina criar pela palavra, como Deus “verbo”. O
discurso humanista é tautológico porque, feito pelo ser humano, o reforça
implicitamente, fechando-o numa redoma completamente artificial. Na prática, o
ser humano não cria nada, porque reconstrói a partir do que existe – isto pode
ser criatividade monumental, mas não está fora da dimensão dada. Ao final, a
ideologia humanista é reacionária porque postula um privilégio usurpado
(Adorno, 1977. Benjamin, 1973. Hamacher, 1989)
Foucault (1995), reagindo a Barthes no seu “What is an Author?”, sem
declarar-se estruturalista ou marxista, introduz a noção de “função do autor”
própria do discurso do conhecimento. Mantém, porém, um laivo estruturalista
quando, no “The Order of Things” (1970) aceita a morte do homem no bojo de
uma revolução linguística que fecha a modernidade antropológica. Esta ideia
reaparece no “Ordem do Discurso” (1990), para indicar a marca da teorização
científica em torno do ordenamento discursivo da realidade e que assoma na
expressão comum e contraditória “caos estruturado”. A ordem é do discurso, não
da realidade, mas o discurso científico pressupõe, no próprio método lógico-
experimental, que o inteligível da realidade se alinha à estruturação ordenada
mental, implicando aí autoria. Por isso, recusa-se a celebrar o desaparecimento
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

do sujeito, por conta da função-autor, que observa como variável histórica e


estruturalmente acomodada às assunções culturais de sistemas específicos do
arranjo discursivo. Assim, interpreta o sentido expandido da autoria a partir do
século XVIII tardio para frente em termos de propriedade discursiva: discursos
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potencialmente transgressivos se tornaram submetidos a policiamento via
procedimentos quase-jurídicos de atribuição e responsabilização. Limitando-se
aos livros e textos com autores, aponta quatro traços: i) são objeto de
apropriação – atribuem-se a discursos e livros autores reais, também puníveis
pela lei...; ii) a “função-autor” não é universal e constante em todo discurso; os
mesmos tipos de texto nem sempre requerem autores – uma vez textos teatrais
circulavam sem preocupação com seu autor; textos ditos “científicos” requerem
autor, também para discriminar méritos; iii) não se formam espontaneamente
através da simples atribuição de um discurso para um indivíduo; resulta de
operação complexa cujo propósito é construir a entidade racional que chamamos
autor; embora localizado e datado, carrega constantes trans-históricas; iv) é
fonte particular de expressão (Foucault, 1995:238).
Pease (1995) reafirma a relevância cultural contínua da autoria,
contrapondo autores a “auctores”: estes representam a tradição medieval/antiga
da autoria inspirada externa; aqueles são emergência histórica a partir do Novo
Mundo. Com a descoberta de novos continentes, povos, animais e plantas,
percebeu-se que os “auctores” não tinham um repositório divino para verdades
perenes, não conseguindo dar conta de realidades novas. Autores, por sua vez,
eram tanto necessários quanto limitados circunstancialmente. Por parte da
ciência emergente, a autoridade do argumento se sobrepunha ao argumento de
autoridade, indicando que autoria precisa ser construída e merecida, pelo menos
no mundo científico (Shapin, 1998). Autor admite espectro vasto de atividades:
alguém que monta um jogo, inventa uma máquina, afirma a liberdade política,
pensa uma fórmula ou escreve um livro. Dependendo da atividade e aplicação,
o termo pode conotar iniciativa, autonomia, inventividade, criatividade,
autoridade ou originalidade. Sinaliza a dinâmica pela qual um agente anônimo
se torna um indivíduo destacado: torna alguém em geral em alguém em
particular. O debate, porém, sempre existiu: É um indivíduo autodeterminado ou
determinado por circunstâncias materiais e históricas? É o self humano infinito
ou finito? Existe realmente originalidade? Qual a margem de inventividade
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

humana? “A variedade das respostas é o próprio sentido do termo” (Pease,


1995:263), abrigando também contradições. Pease retoma a etimologia do autor
(já analisada acima) (Minnis, 1984:1-73), marcando a diferença entre o “auctor”
e o “autor”. Discorda de Barthes, porque a ideia da autoria tem genealogia longa,
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embora sempre problemática, a começar pela dificuldade de o autor ser fonte ou
efeito da autoridade. A descoberta, porém, do Novo Mundo abalou a “auctoritas”,
os léxicos foram ganhando logo termos inusitados, a noção de ser humano
eurocêntrico ruía, a terra plana era mito, o geocentrismo falira. Agora os autores,
perfeitamente mortais, embora com prestígio crescente até à metade do século
XX, ganhavam conotações libertárias, a começar por questionar os “auctores” e
sua “auctoritas”. Como a autoridade se vinculava a instituições pregressas
(monarquia, papado, Bíblia), no espírito da Reforma pediam-se autores
iconoclastas, capazes de abrir rotas inovadoras e úteis para todos. Assomava
um dos tópicos fundamentais da autoria: capacidade de autodeterminação,
tomar o destino em suas mãos, embora mui relativamente.
No entanto, com o surgimento do gênio, voltou o “auctor”. “Para entender
como o auctor voltou, precisamos lembrar como o auctor foi destronado. O auctor
tinha antes sido suplantado quando os europeus, confrontando-se com humanos
que criam ser de outra natureza diferente da deles, reconheceram sua própria
capacidade de ser o outro. A base para uma transformação exitosa na natureza
do europeu foi a descoberta no Novo Mundo de fenômenos naturais muito
inexplicáveis em termos dos auctores. Esses fenômenos verdadeiramente
alienígenas produziram uma ‘outra natureza’ dentro dos homens renascentistas
que os descobriram. Este ‘outro’ de dentro, em última instância, se tornou a base
para o sujeito autônomo. Mas quando fez seu primeiro aparecimento, esta ‘outra
natureza’ foi posta a serviço dos novos homens de comércio, que foram capazes
de gratificar seus apetites com materiais alimentícios, especiarias e bens trazidos
do Novo Mundo. As qualidades nesta natureza outra não postas para uso
comercial levaram a uma forma diferente de governo na Europa. Usando o Novo
Mundo como pano de fundo para seus argumentos, teóricos políticos como
Hobbes e Locke argumentaram que o homem na natureza era como um
‘selvagem’ no Novo Mundo. Pré-político, proto-social, despido de proteção
contra um inimigo, o homem natural requeria um contrato social com o monarca
para preservar direitos ‘naturais’ e liberdades” (Pease, 1995:268). Esta
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

interpretação parece-me floreada em excesso. O Novo Mundo, naturalmente,


solapou “humanismos” anteriores, a antropologia dominante, bem como
religiões eurocêntricas. Mas não cabe considerar o indígena como pré-político,
proto-social, livre, a não ser na visão da “pré-história” – só os povos
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eurocêntricos têm “história”. Possivelmente ainda mais decisivo foi o método
científico emergente (Shapin, 1998) que comandou revisão radical do que é
realidade, universo, ser humano, ciência etc. E isto colocou em alta o autor, não
mais como argumento de autoridade, mas como autoridade do argumento. O
termo “República das Letras”, embora sublinhando a literatura, indicava a
importância da autoria inventiva, alternativa, apontando para dimensões muito
diversas da sociedade que se imaginava desejável. De certa forma, isto
preconizava um sentido comum da autoria esperada, um pouco ou muito à
esquerda, questionadora, indomável, disruptiva, rebelde, como a própria ciência
crítica autocrítica (Demo, 2012). Ao fundo, porém, esta expectativa indicava que
a autoria da direita sempre predomina no autor mancomunado com o status quo,
badalando os poderosos, cultivando ideologias de mérito dos ricos etc. Com o
apreço em alta do gênio, de fato, houve um retorno do “auctor”, à medida que se
lhe atribuía uma liberdade criativa acima das constrições materiais, o que
qualquer análise mais circunstanciada científica não pode admitir. O gênio nasce
com dotações mais expressivas, mas precisa ainda “fazer-se” (Seagle &
Kristiansen, 2013), dependendo intrinsecamente dos contextos históricos e
sociais. A volta do “auctor” também se desenhou no surto da crítica literária que
passou a disputar a autoria com o autor, por vezes pretendendo entender a obra
mais que ele. Exemplo disso é o texto de Wimsatt & Beardsley (1954) (The
intentional fallacy). Barthes produz uma redefinição de literatura: “um jogo
discursivo sempre chegando aos limites de sua própria regulação, sem qualquer
autor que não seja o leitor (ou ‘escriba’ como ele chama), que é definido como
efeito do jogo da escrita que ele ativa” (Pease, 1995:272). No entanto, “enquanto
Barthes declara que o autor está morto, o texto pelo qual produz isso não fica
sem autor” (Ib.). Autor, de cadáver, passou a fantasma ou alma penada sempre
por perto...
Fhlathúin (1995) aponta para os perigos de despojar um autor de todo
poder de responder por sua autoria na leitura de seu texto, analisando “The
Satanic Verses” de Rushdie (1988). Alega que o credo estético de separar texto
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

e intenção nega ao autor o poder político para distanciar-se da atribuição de


motivos equivocados, blasfemos ou criminais. Os leitores são empoderados a
construir seu próprio sentido do autor a partir do texto, uma interpretação que é
muitas vezes usada para acirrar antagonismos ideológicos. Enquanto muitas
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teorias apostam na indeterminação do texto, nos confrontos da práxis a
incriminação pessoal vai ao paroxismo – pode-se linchar alguém pelo que
escreveu. A complexidade da condição autoral aflora exasperada: em parte,
muitos esperam que autores sejam exemplos, como no Evangelho, enquanto
outros distanciam o escrito do escritor – há canalhas que escrevem coisas
sublimes! A teoria da relatividade é válida universalmente, sem depender da
biografia de Einstein. Será mesmo? De um lado, tratando-se de uma lei
universal, não foi “criada”, mas “descoberta”; de outro, sem o ponto de vista do
observador, possível seria não termos até hoje chegado a esta teorização...
Autoria há que se ver com ironia! Na prática, a intenção de Rushdie já não conta,
nem mesmo quando alega que foi mal interpretado. “Por ironia reversa da falácia
intencional, o autor se torna a criação do texto” (Fhlathúin, 1995:277). Na visão
dos opositores maududistas o livro de Rushdie é pintado como “strip-tease
contínua, de pornografia leve para dura e mesmo mais dura”, desqualificando
como peça de mau comportamento. Alegam que Rushdie esperava ganhar o
Booker Prize outra vez, mas, não conseguindo, zangou-se e, de raiva, fez os
Versos Satânicos. Aproveitou-se das habilidades de escrita para montar o ultraje
e sacrilégio (Ruthven, 1991:93). Em fevereiro de 1989, uma transmissão em
Teerã moveu o foco sobre o caráter pessoal de Rushdie para seu suposto status
de representante da sociedade ocidental. “Materialismo e todos os tipos de
forças políticas... escolheram este método de ação – selecionando uma pessoa
supostamente vindo da Índia, aparentemente separada do mundo ocidental e
que tem nome falacioso... Tudo isso fala de um esforço organizado e
planejado... Isto é uma confrontação para quebrar a santidade do islã e tudo que
é sagrado no islã” (Appignanesi & Mailtand, 1989:85-86). Alan Yentob, numa
conferência de março de 1989 no Institute of Contemporary Arts, deu visão
totalmente contrastante, apresentando Rushdie como homem de ‘dedicação e
compromisso’ que trabalhou sobre seu livro ‘por cinco anos, bem antes de
tratativas de prêmios ou direitos do editor’. Dizia: “É também importante anotar
que Rushdie é homem que sempre se viu como parte de dois mundos e sempre
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

falou eloquentemente em favor da cultura imigrante que ele sente como parte
importante da comunidade” (Id.:196-197). Outros leitores acentuaram a
importância das intenções presumidas do autor e construíram-nas na base de
seu status atribuído familiar com o islã. Em carta aberta a Rushdie, S. Nomanul
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Haq acusa de ter deliberadamente mutilado a história: “A maior parte de seus
leitores ocidentais é incapaz de avaliar a agudez de seu golpe no próprio coração
da cultura subcontinental indiana. Não pode sopesar a seriedade da injúria, pois
não sabe a história do ofendido. Mas o Sr. sabe e por isso sente-se que previu,
pelo menos até certa extensão, as consequências” (Id:233). A mesma ideia foi
ecoada por Dahl, numa carta a The Times, caracterizando Rushdie como
“oportunista perigoso”. Ele teria “conhecimento profundo da religião muçulmana
e de seu povo, e ... deve ter tido consciência plena dos sentimentos profundos e
violentos que seu livro iria provocar entre os devotos. Em outras palavras, sabia
exatamente o que estava fazendo e não podia ser de outra forma” (Id.:217-218).
Evitando a menção à carreira de Rushdie, mas invocando, ao invés, seus
pensamentos mais íntimos, Independent on Sunday publicou um prefácio
editorial para seu ensaio ‘In Good Faith’ que avaliou o affaire inteiro sobre a
questão de suas intenções. “Mas tem sido o romance apenas lido
equivocadamente ou mal-entendido? Rushdie crê que foi” (Webster, 1990:89).
Como diz Webster, é surpreendente que o próprio autor deveria abandonar as
sutilezas do livro e retomar a ideia de que havia um significado que foi mal
apreendido. Rushdie de repente descobre uma fé ingênua nas intenções
conscientes do artista e parece crer que, se proclamar suas próprias santas
intenções em voz suficientemente alta, os resultados profanos da publicação de
The Satanic Verses seriam desfeitos ou neutralizados” (Ib.). Poder-se-ia, porém,
argumentar que a pessoa tem direito de postular que quem conhece suas
intenções conscientes é o próprio autor, mesmo que seu texto possa traí-lo ou
transcendê-lo. Este imbróglio será difícil de desatar. O texto é prova do autor! O
autor pode reclamar que foi mal interpretado. A teoria da despersonalização do
autor não o ajuda em nada; só serve para alimentar teorizações acadêmicas.
Quando explicita suas intenções, está também concedendo que há intenções
não explícitas ou não explicitáveis. O autor também não sabe bem quem é! Fica
a lição: é preciso tomar cuidado com o que se escreve...
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Rorty (1995), em seu “Taking Philosophy Seriously”, trabalha o


envolvimento de Heidegger com o nazismo, respondendo a evidências ulteriores
em especial da obra de Farias (1989). Longe de impugnar tais evidências contra
Heidegger, Rorty aceita plenamente o argumento da defesa do texto contra os
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efeitos de sua biografia. A filosofia de Heidegger continua relevante, mesmo
manchada pela vida pessoal. Ao mesmo tempo que uma coisa se vincula com a
outra, há também que saber separar. Para Burke, Rorty falha em dar conta da
relevância dos achados biográficos mais recentes que complicam ainda mais
sua condição de autor. Em 1933, ele era o filósofo mais admirado na Alemanha,
“um país que toma seus filósofos a sério” (Rorty, 1995:292). Hitler se tornou
chanceler em 30 de janeiro de 1933; o jovem Lowenthal e outros acadêmicos
judeus politicamente ativos não voltaram para casa àquela noite – buscaram sair
do país. Em 21 de fevereiro Thomas Man havia deixado o país e em 21 de março
Friedrich Ebert (o primeiro chanceler pós-Primeira Guerra) estava já num campo
de concentração. Em 7 de abril os judeus foram expulsos do serviço civil (que
incluía todas as posições nas universidades alemães). Em 16 de abril um
socialdemocrata que tinha sido eleito para o posto no ano anterior foi instalado
como reitor (oficial chefe administrativo) da Universidade de Freiburg. Foi logo
dispensado, por ordem das autoridades nazistas. Heidegger aceitou ser eleito
como sucessor em 22 de abril, entrando no partido em 1 o de maio. Em 26 de
maio, num comício em memória de um proto-nazista, Albert Schlageter, que
havia sido nomeado “o primeiro soldado nacional-socialista alemão”, disse
Heidegger aos estudantes que Schlageter tinha reunido forças para seu martírio
do granito da paisagem da Floresta Negra, a mesma na qual ele crescera. A 27
de maio, fez sua fala inaugural como reitor, tendo como tema “A
Autodeterminação da Universidade alemã”. Autodeterminação, no sentido por
ele usado, nada tinha a ver com “liberdade acadêmica”, noção que citou apenas
para fazer pouco caso dela (Rorty, 1995:292). Definiu autodeterminação como
“a vontade primordial e comunal da universidade de atingir sua própria essência”
e como “a vontade para Wissenschaft (mais ou menos: ciência e pesquisa),
concebida como a vontade de carregar sua missão histórica e espiritual do povo
alemão, um povo que realiza a autoconsciência através do seu Estado” (Id.:293).
Principal preocupação da fala reitoral foi rejeitar os sobretons cosmopolitas e
universalistas do termo Wissenschaft. Outra foi enfatizar a unidade de
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Wissenschaft e o papel do filósofo como pessoa que capta sua unidade: “Toda
Wissenschaft é filosofia”, dizia ele, “se quiser ou não”. Hitler e nazistas não são
mencionados na fala, embora haja muitas passagens que os estudantes nazistas
escutassem a gosto como ecos de sua própria retórica: por exemplo, “os
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estudantes alemães estão em marcha; procuram líderes através dos quais seu
próprio compromisso com a verdade sedimentada será exaltada”. Mas, os
nazistas escutaram mal, pois o tipo de líder que Heidegger tinha em mente em
sua invocação sempre reiterada dos “líderes e protetores do destino do povo
alemão” não era Hitler, mas ele mesmo, segundo Rorty. A fala indica, com
seriedade plena, a pretensão de que só a filosofia heideggeriana pode trazer as
universidades para o serviço do seu destino. “Não se pode exagerar o grau no
qual Heidegger tomou filosofia e a si mesmo a sério” (Id.:293).
Pelo resto de 1933, ele brigou como um leão para tornar-se o filósofo
oficial, o líder intelectual do movimento nazista – seu sonho era tornar-se o
cabeça do corpo governamental que iria reorganizar e, logo, controlar todas as
universidades alemães. Sua maior ideia era combinar estudo na universidade
com muitas caminhadas, camping, exercícios militares à la ROTC (Reserve
Officers’ Training Corps), trabalho do tipo WPA (Wood Protection Association)
nas florestas, e também com cursos de educação de adultos, para inculcar o
novo espírito nacional em não acadêmicos. Pretendia trazer os futuros líderes e
protetores do destino do povo alemão de volta para o enraizamento na paisagem
e flora (granito, florestas, trilhas da montanha) que os antigos gregos um dia
apreciaram. Por conta da cristandade e ciência moderna – duas coisas que ele
depreciava por terem contribuído para o “esquecimento do ser” – o mundo
moderno havia perdido seu enraizamento. Mas o movimento nazista era a
chance de resgate. Tudo andou bem até fins de 1933. Em novembro, uma
declaração mais desastrada apareceu: “Não deixem princípios e ‘ideias’ serem
regras de sua vida. O Führer, só ele, é a realidade alemã de hoje e do futuro. Ele
é a lei desta realidade... Heil Hitler!” Em dezembro estava auxiliando a organizar
a publicação em cinco línguas de um volume que mostraria aos pesquisadores
de outros países que a Wissenschaft alemã estava unida atrás de Hitler (Id.:294).
Entrando 1934, tudo, porém, se esboroou. Foi preterido por homens menores –
professores de filosofia mais propensos a lamber as botas e a eliminar judeus.
Embora tenha endossado subservientemente regulamentos do Ministério da
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Cultura contra judeus, envolvera-se na defesa de alguns, dando munição contra


ele. Em fevereiro, foi apeado, começando um pesadelo irreparável. Mesmo anos
após a Segunda Guerra, Heidegger foi acobertado (“caiado”) pela comissão de
desnazificação da Universidade de Freiburg, mas ficou ainda proibido de ensinar
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pela ocupação militar francesa. Isto foi ocasião para encenar um martírio do
velho professor, enquanto discípulos procuravam desqualificar a passagem
nazista como equívoco infeliz, nada a ver com a grandeza de sua filosofia (Ib.).
Em 1969 endossou esta versão numa entrevista (publicada post-mortem em
1976) – vista como testemunho definitivo na matéria, explicando que se
equivocou brevemente ao ver os nazistas como única saída alemã naquele
momento. Não lamentou o episódio; alegou o apreço extravagante para com
Hitler como “compromisso” necessário. Nunca fez referência ao Holocausto, mas
gastou bastante tempo vituperando ter sido preso pelos nazistas depois de 1934.
Questionado por ter apagado a dedicatória a Husserl (antigo patrono e amigo)
de algumas edições de “Being and Time” publicadas sob os nazistas, via como
reação óbvia para impedir que o texto não fosse mais impresso. A entrevista lhe
fez muito mal. Fez também muito mal a republicação (por Schneeberger, em
1962) de vários documentos escritos em 1933, incluindo o tributo a Hitler. No
entanto, discípulos e admiradores continuavam a pressionar pelo
reconhecimento de que Heidegger era basicamente bom caráter e pensador
profundamente original e relevante. Mas o livro de Farias (Heidegger et le
Nazisme) poria fim a tudo isso – mostrou que, como ser humano, ele era um
traste, covarde e mentiroso. Farias, professor de filosofia em Berlim, escavou por
anos a fio dados novos e escabrosos, o bastante para entender por que a família
se recusara a dar acesso a cartas. Explica também por que arquivos da
Universidade de Freiburg continuam lacrados..., vergonhosamente! (Rorty,
1995:295). Farias não conseguiu publicar seu texto na Alemanha; o fez na
França (Bhabha, 1994. Marx & Engels, 1973. Lukács, 1970. Wolf, 1981).
Agora todos sabem mais detalhadamente o quanto Heidegger foi mau
caráter, além de extraordinário filósofo. Mas – eis a pergunta que não quer se
calar – o que interessa o mau comportamento à sua filosofia? Interessa, em
parte, por conta da educação moral própria, retirando disso lições decisivas
pedagógicas. Impressiona, porém, que a vasta maioria, segundo Rorty, dos
acadêmicos alemães fechou os olhos. Mas não é razão satisfatória vincular o
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

caráter moral do filósofo à sua filosofia, linearmente. “Não ajuda, tal qual nosso
conhecimento do caráter de Einstein não ajuda a avaliar sua física. Podemos ser
um artista ou pensador de peso, original e profundo, e um completo canalha. Van
Gogh, Keats e Einstein foram gente boa. Wagner, Milton e Newton, não”
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(Id.:296). Entre filósofos, Russell foi gente decente (embora por vezes arrogante
como se fosse um duque), mas sacou a maior parte de suas boas ideias (como
opostas às ruins dos empiristas ingleses) de um grande fundador da semântica
formal e lógico matemático, Frege, um antissemita depravado e proto-nazista.
Tillich falava o mesmo jargão da “autenticidade” de Heidegger no “Being and
Time”, mas era honesto e bom socialdemocrata, além de, prudentemente, ter-se
mandado do país nos calcanhares de Lowenthal em 1933. Declara Rorty: “Não
há meio para correlacionar virtude moral com importância filosófica ou doutrina
filosófica. Ser filósofo original (como Heidegger foi um dos mais notáveis no seu
tempo) é como ser um matemático original ou micro-biólogo original ou um
mestre consumado de xadrez: é o resultado de algum click neuronal que ocorre
independentemente de outros clicks” (Ib.). Esta postura é questionada por Burke,
porque, não cabendo a vinculação linear, cabem as não lineares, porque seria
absurdo alegar que o bom exemplo não acrescenta nada na vida dos autores.
Filosofias tomadas a sério em excesso viram fundamentalistas – porque
fundamentalismo é burramente linear (Biriotti & Miller, 1993. Derrida, 1986; 1989.
Spivak, 1985; 1993. 1993a.).
A expectativa comum de que autores grandiosos sejam figuras morais
grandiosas se deve, para além da socialização reiterada da aceitação de
autoridades, ao vínculo linear. Tomando em conta o que Kurzban (2010) tão
provocativamente coloca – todos são hipócritas, menos eu! – a dissimulação nos
acompanha como a sombra da luz. Fica bem para um autor manter coerência
mínima entre o que faz e diz, mas como se diz nas igrejas – se fôssemos julgar
as igrejas por suas hierarquias, elas não subsistiriam – a fé precisa estar acima
disso. Ao mesmo tempo, esta expectativa, embora muito ingênua, põe um
desafio de seriedade extrema: enquanto as teorizações acadêmicas se divertem
“matando” o autor em nome de referências formalistas ou
inspirações/genialidades fora de controle, o autor, como mortal que é, deve à
sociedade satisfação pelo que diz e faz.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

1.9. LEI E ASSINATURA

Nesbit (1995) reconstrói a trajetória da legislação em torno do autor na


França desde antes da Revolução Francesa (1793), mostrando suas peripécias Página | 73
em torno do “droit d’auteurs” e que mais modernamente surgiria como lei do
copyright ou coisa assemelhada. Tomamos a França apenas como
exemplificação para elucidar que “autor” sempre foi também um imbróglio
conceitual e prático, por ser um feixe de dinâmicas disparatadas numa figura
eminente e comum, além de mutante. Olhando a “autopoiese” de Maturana
(2001. Demo, 2002), todos somos autores, porque “nos fazemos” de dentro para
fora, como todo ser vivo (alguns diriam hoje que isto também cabe à natureza
como tal – Deacon, 2012. Kuttner, 2008). O que entra na cabeça das pessoas,
entra por dentro, através da reconstrução biológica e mental, tal qual ocorre na
dinâmica evolucionária: de fora provêm infindos estímulos/pressões, mas o
desenvolvimento é dinâmica interna, o que tem sido relido como chão fecundo
da aprendizagem: a fala do professor não faz a aprendizagem, mas a condição
autopoiética do estudante (em duas dimensões, por sua biologia e estruturação
mental, e por sua iniciativa autoral). Autoria é dinâmica inscrita na natureza que
é “mãe” (Hrdy, 1999) – neste sentido “autores” são figuras que se destacaram
por alguma obra em particular (livro, escultura, liderança...), mas, na prática,
todos somos, mesmo quando parecemos ser “maria-vai-com-as-outras”.
Podemos não aproveitar a potencialidade da autopoiese, mas está lá em todos.
Complexidades e contradições da figura do autor podem ser apanhadas mui
concretamente em sua legislação (neste caso, a francesa), que em geral se
contorce para incluir tantas nuances e variações temporais, parecendo
impossível um dia termos uma lei minimamente razoável ou pacífica 5.
Em seu “What was an Author?” (1995), Nesbit começa citando uma
afirmação de Les Immatériaux (1985): “Todos Autores. Com a multiplicação de
processos reprodutivos e a complexidade das técnicas de criação, a identidade
do autor é mais e mais difícil de captar e definir. A paternidade de uma obra é,
então, indefinível?” (https://www.google.com.br/webhp?sourceid=chrome-

5Sobre as guerras do copyright, veja: Decherney, 2012. Alphen et alii, 2008. Woodmansee &
Jaszi, 1994. Rose, 1995. Patterson, 1968. Kaplan, 2008. Brown & Denicola, 2001. Patry, 2009.
Levine, 2012. Auferheide & Jaszi, 2011. Mazzone, 2011. Raustiala & Sprigman, 2012. Brauneis
& Schechter, 2012; Baldwin, 2014.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-8#q=les%20immat%C3%A9riaux) (Nesbit,
1995:247). No tempo, a definição francesa de autor foi ficando cada vez mais
vaga – a lei imaginava estar se aprimorando, mas o autor ficava mais aguado a
cada revisão. “O autor é um caso geral, um órfão, cadáver, dizem alguns. É
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definição difusa demais para ser útil; pior, acaba com o autor da distinção...” (Ib.).
O termo foi sendo invadido por uma plêiade de novos, músicos, fazedores de
mapas, construtores de software, projetores de maquetes, gurus..., cabendo aí
tudo, desde o mais kitsch até ao mais sofisticado. Dizia Mallarmé em 1895,
preocupado com tanta variação: “A obra pura implica o desaparecimento da voz
do poeta, cedendo a iniciativa às palavras mobilizadas pelo choque de sua
disparidade; iluminam-se mutuamente em reflexões recíprocas como um rastro
virtual de faíscas em pedras da gema, substituindo o respirar perceptível na
velha inspiração lírica ou direção pessoal e entusiástica da frase” (1945:366.
Nesbit, 1995:248). Olhando o autor de fora, como é o caso da lei, esta montou
definição fechada, seca e rasa: ao autor se dão direitos a um espaço cultural
sobre o que pode expandir e trabalhar; todos os autores compartilham o mesmo
espaço cultural; são definidos por sua presença lá, bem como por seus direitos.
Com ela podemos sopesar autor e obra, mesmo não sendo a resposta nunca
fácil, pois a lei que define, também arranja todas as confusões. Nasceu em 1793
e regulou droits d’auteur até 1957, quando foi revisada. Dava aos autores
privilégios que outros não desfrutavam: os autores de todo tipo de escrita,
compositores de música, pintores e desenhistas que gravavam pinturas e
desenhos, desfrutariam do direito exclusivo e por toda a vida de vender, deixar
vender e distribuir sua obra no território da República e ceder o mesmo in toto
ou em parte (Chabaud, 1980:II). Autores tinham os direitos de propriedade das
obras, mesmo depois de vendidas. Direitos aplicados a qualquer obra feita na
mídia designada, escrita, composição musical, pintura, desenho e escultura,
basicamente todas as mídias que podiam ser trabalhadas nas formas de alta
cultura, como poemas, sonatinas e rascunhos artísticos. A lei não tentou traçar
limites entre obra boa e ruim, nem erigir critérios de qualidade estética (Pouillet,
1908).
O campo cultural era vasto, dizia-se. Cobria kitsch, vanguarda, obra baixa,
alta, média com a mesma justiça. Autores não eram necessariamente artistas.
Acadêmicos e colunistas de jornais, professores universitários reclamaram,
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

insistindo em outras definições de cultura com gêneros, padrões, tradições,


regras. A lei havia incorporado o conformismo de correr atrás dos tempos, não
antecipar. Novas irrupções, sendo inevitáveis, sobretudo bem-vindas, seriam
acolhidas. A lei de 1793 passou a ser parte do Código Napoleônico e, entrando
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no século XIX, arranjou mais nuances nas cortes. Mas, historicamente, a lei
impôs um precedente inaudito que não mais se desfez. Suas definições de
cultura sobreviveram a todas: o colapso da hierarquia dos gêneros e a morte
lenta do salão não faziam diferença para ela; nem se elevava das formas de
produção em massa e impressas. A lei nivelou distinções acadêmicas, deixando
tudo raso. Na lei, autor não tinha marca distintiva, nem era profissão particular,
como poeta. Era só nomeada para distinguir um tipo especial de labor de outro,
o cultural do industrial. Esta era a distinção fatal, a essência, o germe, a crueza
profunda crucial. No entanto, pela lei, a forma privilegiada e cultural do labor
exibia certas qualidades; primeiro, tomava forma apenas na mídia certificada;
segundo, seu privilégio era justificado pela presença de uma inteligência,
imaginação e labor humano que eram legíveis na obra, significando que tal obra
era vista, um pouco cruamente, contendo o reflexo da personalidade do autor
(Dalloz, 1975. Aussy, 1911). No industrial, a personalidade o autor era apagada;
não valia, pois, como autoria. As formas culturais do trabalho podiam,
contrariamente, ser identificadas a partir do material usado e pelo carimbo da
personalidade do autor que seguiria do trabalho neste material. Essas duas
qualidades – do material e da personalidade refletida – se ajuntavam,
inseparavelmente. No século XVIII havia só uma exceção a este casamento de
matéria e espírito: desenho, dividido em dois porque desenho técnico tinha sido
comprometido – ou seja, produzido pela indústria, perdendo a graça original. Por
trás, porém, a indústria sequer queria autores em suas fileiras, porque
interessava o controle dos direitos de propriedade para toda a fase da produção,
desde desenho técnico até comodidade acabada. Em 1806, fabricantes de seda
de Lyon obtiveram esta distinção na lei cedida por Napoleão: teve o efeito de
exilar o desenho técnico do campo cultural e eximir seus fazedores dos droits
d’auteur, seu status foi daí para frente definido por outro conjunto de leis
protegendo o design industrial.
Ficava claro que a mídia autoral não era cultural naturalmente; via-se nela
o que se queria; recusava-se um autor auto-refletido no desenho técnico. Mais
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

tarde, em 1891, as cortes se negaram a ver o autor num pôster, mesmo


constando lá o nome de artista estabelecido (Pataille, 1894). Na França, bens
manufaturados, designs e objetos não podiam incorporar a personalidade de
seus fazedores ou os sinais do trabalho humano abstrato: não podiam desvelar
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qualquer evidência do fetichismo da comodidade (Edelman, 1979). Bens
manufaturados seriam magicamente simples, não autocentrados, nem se
suponha servirem a necessidades espirituais da comunidade como livros e
quadros. Davam conta de necessidades materiais e isto revelava limites da
cultura, inscritos na economia (tinham mercado), mas não mercadorias
cruamente. Cultura moderna existia como distinção econômica, um mercado
protegido que funcionava dentro da economia regular e o trabalho de autoria
entendia-se sempre como circulando no mercado, em geral sob forma impressa.
Isto já constava na lei de 1793, algo necessário de partida porque o mercado
para cultura precisava ser policiado. Mesmo assim, autores após 1793 eram
como outros trabalhadores: a lei lhes havia dado alguns direitos do seu trabalho;
apesar de penetrar na economia, sua obra permanecia sua propriedade. Assim,
a lei teve papel decisivo, embora não amplamente reconhecido, em definir a
cultura moderna. O tempo forçou a lei, mas até ao século XIX era sacrossanta;
numa série de modificações em 1844, 1854 e 1866, herdeiros ganharam os
direitos da obra por 50 anos após a morte do autor. Uma das maiores marcas da
lei foi distinguir o cultural do industrial. A lei de copyright regulava a economia de
mercado para a cultura, ao mesmo tempo que separava da economia regular. A
lei apenas negociava o movimento dialético entre as duas economias com o
máximo de simplicidade e eficiência; era funcional, embora servil, algo como um
mordomo. Mobilizava o aparato, de sorte que a cultura podia funcionar, mas tinha
buracos: por exemplo, não se podia esperar acomodar os hóspedes não
convidados que se intrometiam no cenário. Passaram a chegar no curso do
século XIX: novas tecnologias e novos materiais para palavra, som e imagem;
não demorou para que fotografia, fonografia e cinematografia se tornassem
candidatos ao copyright. E testaram os limites da lei de outro jeito, ao darem a
tais produtores o status de autores envolvidos, garantindo às novas tecnologias
(associadas à cultura de massa) o status dos materiais da cultura aristocrática
(chamada de alta).
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Mesmo procurando a lei ser elástica, não tinha como manejar tal demanda
da noite para o dia (Greenberg, 1961. Benjamin, 1969. Crow, 1984).
Curiosamente, o problema mais duro não estava com a ordem da lei da cultura,
mas com a natureza do labor envolvido, integralmente conectado com as
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máquinas. Imprensas eram uma coisa, câmeras bem outra; isto ajudou a que a
lei francesa garantisse aos autores tecnológicos seus direitos até 1957, bem
depois que a lei fosse modificada para incluir arquitetura e escultura (1902), bem
como uns 70 anos atrás da lei de outras nações industrializadas. Para dar conta
da avalanche das tecnologias, mudar era pouco; a lei precisava ser reescrita. O
padrão do fator humano sobrepondo-se ao industrial se mantivera (Rouillé, 1986;
1985). Lamartine ilustrou esta marca: inicialmente condenava a foto como abjeta,
plágio da natureza, sem alma; após ver a obra de Salomon, mudou de ideia e
escreveu uma retratação pública, explicando que a foto precisa ser vista como
resultado do labor particular do fotógrafo; isto já era típico, mas foi além: o
fotógrafo trabalha principalmente com a natureza, ou seja, o sol; mas deixou a
máquina fora inteiramente (Lamartine, 1858:411; 43). Já Taine contribuiu ao
debate mais pragmaticamente: “Obra fotográfica é propriedade; pertence ao
produtor sob o mesmo título que dá a escultura ao escultor, e, em ambos os
casos, a propriedade deveria ser protegida” (Bigeon, 1894:18). O que os
fotógrafos pretendiam era algo modesto: ocupar lugar na cultura e ter respectivo
mercado: “Tudo que estamos pretendendo é que a foto possa tomar um caráter
de criação pessoal. Não há questão aqui de sentimento; fotógrafos não estão
pedindo para serem assimilados às fileiras dos pintores mestres; nenhum deles
sonharia pedir que a lei os declare iguais a um Baudry ou Cabanel (pintores
franceses de renome)” (Bulloz, 1890:3. Potu, 1912. Vidal, 1896). Ao fundo,
emergia outra preocupação com o apequenamento crescente do autor, quando
ficava atrás de uma máquina, interpondo dicotomia cada vez mais imprópria em
nome de um eu idealizado já anacrônico. O debate acolheu grandes autores
como Mallarmé, Benjamin, Foucault e Barthes (Benjamin, 1977).
Tecnologias mais novas como TV, estavam chegando, impondo revisão
da lei. A lei de 1957 expandiu a definição do autor para incluir a quem trabalhava
em dança e pantomima, cinema e fotografia, tradução e mapas. Design industrial
e advertising não foram admitidos. O texto alongou-se também. “A disposição da
presente lei protege os direitos dos autores e cobre toda obra da mente, seja
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

qual for o tipo, a forma de expressão, o mérito ou o destino. O seguinte é


considerado trabalho da mente: livros, brochuras e outra escrita literária, artística
e científica; preleções, falas, juramentos, pleitos e outro trabalho desta natureza;
drama e teatro musical; coreografia e pantomima, quando o trabalho é gravado
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em escrita ou de outra forma; composições musicais com ou sem palavras.
Cinema e trabalho obtido por processo análogo; desenho, pintura, arquitetura,
escultura, gravura, litografia; foto artística e documental e trabalho obtido por
processo análogo; artes aplicadas; ilustrações, mapas; planos, rascunhos e
modelos relativos à geografia, topografia, arquitetura ou ciências. Os autores das
traduções, adaptações, transformações ou arranjos de obras da mente
desfrutam de proteção sob esta lei, sem prejuízo dos direitos do autor do trabalho
original. O mesmo segue para aqueles autores de antologias ou coleções de
trabalho diverso que pela escolha e arranjo do material fazem o trabalho da
criação intelectual” (Nesbit, 1995:253). Títulos eram protegidos, tanto quanto
obras e mesmo o nome do autor estava coberto. O autor desfruta do direito com
respeito a seu nome, sua qualidade e trabalho, vinculado à sua pessoa
(http://www.legifrance.gouv.fr/jopdf/common/jo_pdf.jsp?numJO=0&dateJO=195
70314&numTexte=&pageDebut=02723&pageFin). Autoria cobria ainda todos os
níveis da cultura, alta e baixa, mas agora havia se espalhado para muitas mídias
e significadores separados da obra autoral, como o título e o nome do autor. O
nome do autor sozinho podia sinalizar o corpo de seu trabalho tão efetivamente
que mesmo num estado ditatorial o nome estava coberto de direitos. Após 1957,
a autoria era identificada não só pela combinação feliz de meio e uma pessoa:
podia designar, ao invés, posição imaterial, reputação e bloco generalizado de
formas, estereótipos, marcas comerciais. Não era mais tão claro onde buscar o
reflexo do self do autor. Autoria admitia agora a reprodução do trabalho; havia
tomado muitas das características do comercial abertamente, produtos de nome
de marca; em muitos casos não havia um único original. A lei buscou cobrir todas
as situações possíveis, incluindo o trabalho colaborativo, como cinema, onde
não há autor único (Nesbit, 1995:254). Cinema, de fato, carecia de consideração
especial na lei. Concedia direitos de autor a diretores e desse modo apenas
serviu à politique des auteurs que fora mantada durante os 1950 por Cahiers du
Cinéma, mas também deu direitos a alguns dos outros membros da tripulação
do filme, notavelmente aos escritores e compositores, e deu controle sobre o
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

trabalho acabado à empresa de produção (Cahiers du Cinéma, 1984; 1981). Isto,


porém, negava a contribuição feita por quem trabalhava sobre a imagem em si
e teve o efeito de submeter todos os autores à vontade do produtor, redundando
num controle autoral pelo capital. A lei já reconhecia a exploração aberta do
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campo cultural pela indústria cultural; fez com que a propriedade cultural, junto
com o cinema fantasmagórico, usurpassem algumas das características do
trabalho ordinário, pedregoso, à la fábrica. Assim, a modernização da lei em
1957 começou a solapar a velha e clara distinção entre cultura e indústria
(Nesbit, 1995:254). Na verdade, havia resistido muito, mas, na ordem liberal, o
mercado liberal acaba se impondo como regulador maior (de tudo, ao final). Esta
corrosão invasora do mercado mercantiliza a cultura, impondo-lhe filtros
grotescos do que é ou não apreciado: a arte na obra de arte acaba sendo seu
preço de mercado! No cinema, o que vale, ao final, é a bilheteria, não a arte em
si.
A lei elevou o estresse para definir autor, entrando na mídia de massa,
incluindo o filme de Hollywood e fotos de notícia, mas deixando advertising de
fora, tornando a distinção legal entre cultura, indústria cultural e indústria como
tal mais arbitrária ainda. Tornou ainda mais difícil conceber uma única cultura de
massa. A nova lei não explicou adequadamente o que constitui trabalho criativo
ou o que separa trabalho em série. Não esclareceu a dinâmica privilegiada
econômica do campo cultural e encobriu que este campo é o santo dos santos
da indústria cultural. Não clareou que formas culturais podem ser produzidas
industrialmente. Não ajudou a distinguir nitidamente sujeito cultural e sujeito
industrial. No entanto, não se supõe que a lei desvende tudo isso; este esforço
ocorre em outro lugar, onde explicações surgiram de imediato, mas raramente
adequadas. A questão do autor se acirrou. Foucault questionou em 1969, no seu
“What is an Author?”, onde sequer cita a lei, circunscrevendo seu debate ao autor
de conhecimento e por que o autor já seria letra morta. As variações na autoria
foram assim descritas por ele: “Podemos concluir que, ao contrário de um nome
próprio, que se move do interior de um discurso para a pessoa real fora que o
produziu, o nome do autor permanece no contorno dos textos – separando um
do outro, definindo sua forma e caracterizando seu modo de existência. Aponta
para a existência de certos grupos de discurso e refere-se ao status desse
discurso dentro de uma sociedade e cultura. O nome do autor não é função de
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

um status civil do homem, nem é funcional; é situado na quebra, entre as


descontinuidades, que dá azo a novos grupos de discurso e seu modo singular
de existência. Consequentemente, podemos dizer que em nossa cultura, o nome
de um autor é uma variável que acompanha apenas certos textos à exclusão de
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outros: uma carta privada pode ter signatário, mas não tem autor; um contrato
pode ter um subscritor, mas não um autor; e, similarmente, um pôster anônimo
colado na parede pode ter um escritor, mas não pode ser um autor. Neste
sentido, a função de um autor é caracterizar a existência, circulação e operação
de certos discursos dentro de uma sociedade” (1977:123-124).
Nesbit questiona um pouco esta citação, porque Foucault separa autores
dos escritores, mas a visão dele vai além da legalista de Nesbit (autor é o que a
lei assim define), porque persegue as modulações de autorias variáveis nas
sociedades que acentuam ou diminuem o status de autor para os mais variados
textos e produtos. Nesbit pode ter razão ao criticar a não consideração do
mercado para definir o autor, já que Foucault se restringe ao mundo do
conhecimento. Em 1982, a legislatura francesa preocupava-se com outra
negociação entre as zonas de cultura e indústria, o imbróglio na fronteira
causado desta vez pelo aparecimento de materiais novos tecnológicos e um
estágio novo na produção industrial do capitalismo tardio. Superficialmente, a
nova lei de copyright de julho de 1985, parecia emenda da velha: direitos são
estendidos a alguns grupos esquecidos, os atores, incluindo circenses e
marionetistas, e designers gráficos, e as duas nova mídias, vídeo e software de
computador (Droit d’Auteur..., 1985). Certas clarificações no desenho de
contratos tornaram possível um tipo de copyright para advertising; mas a
extensão dos direitos é mudança cosmética comparada ao resto. A cultura
continuada pela lei é regulada por um grupo de seções longas sobre contratos
que estipulam procedimentos administrativos para o negócio cultural. Ou seja,
dentro da própria lei, a velha integridades das zonas, cultura e indústria, tinha
sido comprometida, incompreensivelmente invadia, na visão de Nesbit. Edelman
lamentou durante um colóquio sobre a nova lei: “O status do autor foi
profundamente abalado. Com efeito, não mais temos um ator único, mas
multidão deles, dos quais cada um representa seus interesses econômicos
próprios. Esta multiplicação do status vai carregar consigo a multiplicidade de
interpretações, de novo, conforme os interesses especiais – a indústria do
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

advertising, do cinema, da TV, da indústria da gravação, do negócio do


computador... Tenho pena dos juízes que ver-se-ão metidos na vigência de um
cadinho variado e terão de afiar as interpretações que são desde logo
heterogêneas e coerentes! Se quiser, acho que esta lei nos vai deixar perdidos
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no caminho para horizontes improváveis...” (Id.:168).
A definição francesa de autor se tornou tão vaga por uma razão: o
Ministério da Cultura, que sob Jack Lang foi responsável para gestar a nova lei
através da legislatura, viu a industrialização da cultura como parte de uma
modernização deliberada da França, movendo-se para o tempo em que a cultura
iria andar pacificamente, de braços dados, com Estado e capital. Nova cultura
oficial emergiu e um comunicado ministerial ofereceu um rascunho dele:
“Guardião do patrimônio cultural, promotor da cultura reconhecida e tradicional
(ópera, museu, música clássica, dança, teatro), o Ministério da Cultura
subitamente viu-se tomado pela emergência de novos movimentos (canção,
rock, jazz, mas também advertising, moda, design) nas novas tecnologias
(computador, cabo) e assumiu papel estratégico na renovação da indústria
francesa. Nesse ponto, o Ministério da Cultura se torna um tipo de ‘Ministério da
Indústria da Cultura’, no qual sua política se torna integrada na estratégia global
do governo francês” (Miège et alii, 1986:3). Eis aí as condições em geral ditas
pós-modernas para a cultura. Cabe, porém, interpretar. Jameson, em 1984,
dramaticamente reverte a leitura usual do cenário, onde a indústria se intromete
e o autor morre (1984. Dilnot, 1986). Onde outros viram a industrialização da
cultura, Jameson viu a aculturação da indústria, uma produção estética
invadindo violentamente a produção de comodidade em geral e não conhecendo
quaisquer limites. Cultura, ao contrário de se submeter à invasão, escapa
(Nesbit, 1995:257). Isto aparece no Beaubourg (Centro Georges Pompidou), à
sombra do senso eufórico jamesoniano da cultura, projeto lançado no verão de
1985 por Lyotard e Chaput na grande exibição, Les Immatériaux, patrocinado
por Centre pour la Création Industrielle do Centro Nacional de Arte e Cultura
Georges Pompidou. As novas tecnologias propiciam os materiais crus da
condição pós-moderna: devido à sua novidade, nenhum modelo regulador de
cultura está disponível, apenas categorias evasivas e ausência de limites;
mesmo o corpo humano é mostrado quebrando-se (gêneros induzidos
artificialmente e camadas de enxertos de pele eram parte da prova). As
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

diferentes confrontações entre o ser humano e as novas tecnologias foram


apresentadas num labirinto de salas, nichos e halls, cada qual dedicado à
exploração de certo assunto, como o cheiro simulado, o anjo, a segunda pele, o
comedor apressado, o homem invisível, a referência invertida, as palavras que
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são objetos, discurso vivo... (Ib.).
O papel do autor individual nessa desmaterialização complexa nunca foi
muito claro, embora Lyotard, como Jameson, heroicamente declarassem que o
colapso na vagueza seria sinal de liberdade. Corpo, mente e objeto foram
deixados soltos numa economia tumultuada libidinal como um passado e um
presente. Nos dias pregressos e modernos, pais tinham gêneros e autores
falavam usando o nome do pai. Pós-modernidade oferece outra ordem sexual
(significativamente a versão de Lyotard do Gênesis é destituída de pecado) e
potencial infindo para discurso (o mito da comunicação total) (1985a). Na
extensão em que havia uma economia paterna do moderno, era a economia de
mercado, mas Lyotard, na visão de Nesbit, escorrega para velhos clichês, em
especial naqueles onde a economia limita o conceito clássico de liberdade: o
quadro pintado em colaboração com a economia de mercado é entendido
simplesmente como prostituição. Como parte da exibição, 26 intelectuais
franceses foram instalados em frente a processadores de texto e solicitados a
suprir uma base de dados com o material para teclados, como um autor. Um
debate artificialmente induzido, mais para lacônico, foi transacionado por
microchip e publicado como tantas passagens fragmentadas na parte do
catálogo chamada Épreuves d’écriture. Derrida, em sua contribuição à definição
de autor, coloca: “Até que ponto somos os autores de nossos textos sobre o
autor? Submetemo-nos à necessidade de um conceito e à regra do jogo, a uma
lista de palavras também e de outros autores, através da qual o autor ao final
permanece bem indeterminado, desaparecendo. Há um autor nesse
empreendimento comum? Quem? Onde? O assim dito desaparecimento do
autor ainda passa talvez pela experiência de certo fator sociotécnico (o
processador de texto, um sistema de telefonia central anônimo etc.) que reflete
agora o que tem estado acontecendo no ‘mundo cultural’ há muito tempo. A não
ser que, através da máquina dos imateriais, perdendo tom e mão, renunciando
para sempre a nossos velhos espelhos, não procuramos de novo uma autoridade
suplementar, e oh autoridade tão simbólica, é verdade, de sorte que nem a
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

imagem, nem qualquer outra coisa viva alguma vez voltou para nós. Mas não
esqueçamos, tudo está ainda assinado, ninguém tem o direito de tocar o texto
do outro, nosso copyright está bem protegido tanto quanto nos bons dias velhos
da modernidade (séculos XVII a XVIII)” (1985:19). A lei ainda mantém a cultura
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como campo separado da indústria, mas os interesses industrias invadiram-na
definitivamente.
As obrigações contratuais dos autores variam excentricamente, mas dão-
lhes estrutura para o pós-moderno amorfo, já que regras prescrevem
procedimentos diferentes para diferentes saídas. O autor de romance, por
exemplo, pode exigir o que o autor de um filme ou de um jogo de computador
não podem; ao tratar-se de negociação concreta de contratos, os direitos dos
autores sempre são e, na prática atual ainda mais, variáveis, sujeitos ao
contratante, à empresa, aos interesses especiais como Edelman chama, o que
significa: no caso da cultura feita por novas tecnologias, seus interesses
industriais. Isto em parte não admira porque copyright sempre foi sensível à
invasão de outros interesses: artistas tinham de permitir a museus, por exemplo,
cobrar taxas de reprodução para trabalhos em sua coleção e, na virada do
século, abusos de copyright de artistas foram tão flagrantes que uma lei especial
teve de ser passada, declarando que autores não se desfaziam
automaticamente de seus direitos de reprodução, quando a obra era vendida
(Cooper, 1903). A nova lei reconhecia o potencial de mercados maiores a serem
explorados por vários meios, transmissão de satélite, a cabo, cassetes, discos;
tornou-se necessário, sobretudo mais rentável para todos, definir o autor
contratualmente como parte do esforço coletivo. Este embaralhamento de
contratos suscitou lei barulhenta, contorcida, mas excessivamente
discriminadora, que tem sido muito discutida, sendo que um deputado, Richard,
admitiu que, especialmente quando é o caso da legislação do software, havia
“cabelo na sopa” (Droit d’Auteur..., 1985:176. Nesbit, 1995:259).
Fica claro que, havendo que acomodar tantos e tamanhos interesses, a
lei tem cara de monstrengo, tornando coisa do passado a velha mediação
performativa. As seções do software estão tão repletas de exceções, que
parecem brigas de patente, mais do que copyright tradicional e unilateralmente
generoso. O autor de programa de computador escrito na condição de
empregado, no local de serviço, não tem direitos de qualquer sorte; o
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

empregador se torna autor, embora neste caso os direitos só se mantenham por


25 anos após aplicar o copyright. Esta parte da lei foi elaborada para abrigar os
desenvolvimentos recentes na lei internacional, notavelmente americana, e,
mesmo assim, cambaleia para todo lado. Os direitos de autor para ator não
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passam para herdeiros; os que trabalham com produção audiovisual podem
esperar que o produtor reparta o dinheiro dos direitos de acordo com as
convenções profissionais. Isto implicou grandes cortes para atores e escritores
bem conhecidos, ganhos menores para outros autores na equipe. A lei não é
clara sobre os direitos dos que realmente fazem a imagem para a peça. A
distinção autoral, agora, varia com os termos do negócio. Se lermos a nova lei
pela via dos contratos, a cultura não pode mais ser mapeada como a mesma
terra rasa anterior. A função de mediação, por conta de sua própria
complexidade, encobre desigualdades, desenvolvimentos desnivelados, hiatos
e novas distâncias preocupantes. Ainda assim, a lei lança luz na vagueza. O
objeto cultural pode ver-se como soma de infindos interesses e de intenso labor,
uma soma que indica a busca de boa recepção no mercado. Agora, o objeto
cultural é facilmente obra de grupo, exibindo tensões e lutas da colaboração.
Textos, imagens, astros, diretores e produtores, todos têm graus diversos de
poder, investimentos diferentes na peça, papeis diferenciados a desempenhar
que irão acomodar-se/acotovelar-se no próprio trabalho. Reduz-se a ilusão da
continuidade, à despeito da poderosa retórica em torno das novas tecnologias e
propõem-se papeis para o sujeito individual (Guillaume, 1982). Permite montar
uma política da lide cultural e imagina um coletivo de autores, indivíduos que não
se perdem quando trabalham entre si. Tudo assume a existência de autores que
deixaram seus espelhos em favor de posições mais responsáveis.
Principalmente, assume-se necessidade continuada de política cultural (Nesbit,
1995:260).
Burke analisa a “ética da assinatura” (1995c) como referência pertinente
para focar autoria reconhecida pelo autor e pelo leitor, sob a pressão da
pergunta: “Quem está falando?” Comenta que, de modos bem diferentes, os
casos de Heidegger num lado, e de Rushdie, de outro, mostram que nos
encontramos ainda longe da indiferença que Foucault recomendou como ideal
discursivo (Foucault, 1977:137-138). Na sociedade, facilmente nos deparamos
com interesse apaixonado, sincero e por vezes até selvagem em retraçar um
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

discurso para seu autor ou produtor, embora os princípios que regulam este
procedimento ainda estejam mal formulados. Isto põe o tema da ética da
assinatura (Kamuf, 1955. Derrida, 1986; 1987), que já apontou na condenação
do poeta de Platão no Fedro e na Sétima Carta (1973), uma das elaborações
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mais estudadas nos estudos literários. Para Platão, o fórum dialético (dos
diálogos orais) garante presença constante e vigilante de um autor do discurso
para sua audiência e por isso estatui o que podemos chamar de contrato de
assinatura baseado na performance. “Uma vez que uma coisa é encaixada na
escrita, circula igualmente entre os que entendem a questão e os que nada têm
a ver com isso; uma escrita não pode distinguir entre leitores aptos ou ineptos.
E se forem maltratados ou abusados desonestamente, sempre precisarão de
seus pais para seu resgate; é bem incapaz de defender-se ou ajudar-se” (Platão,
1973:275e. Burke, 1995c:286). Enquanto a presença dialética oral garante
responsabilidades e pode estabelecer uma coordenação interpretativa bilateral,
o que está escrito, mesmo tendo uma assinatura, pode ser falso e sempre ainda
mais complicado para a interpretação. Bastaria pensar como textos notáveis
como os bíblicos, marxistas, nietzschianos, pós-modernos são estraçalhados por
pontos contraditórios de vista. Na cultura gráfica, os textos circulam
independentemente da presença de seu sujeito, abandonando-se a estrutura
dialética da resposta e contra-resposta que supostamente garantiriam aos
discursos não serem mal apreciados ou irresponsavelmente interpretados. Uma
cultura regida por “sinais externos” abre abismo ético no qual nenhum sistema
de transmissão discursiva responsável poder ser instado em termos de recepção
do texto, apropriação, legados ou relações pedagógicas entre seus sujeitos e
audiência. Possivelmente Platão exagera no argumento (pois queria manter seu
negócio dos diálogos socráticos, embora também os escrevesse...), já que a
questão da interpretação é inerente à comunicação humana, oral ou escrita; mas
na escrita, os choques de interpretação se agravam exponencialmente.
No contexto pós-moderno a assinatura gráfica tem sido solapada, na
direção contrária de Platão. Este mantinha a oposição entre verdade objetiva e
assinatura subjetiva no interesse em não separar texto e sujeito, mas de
preservar sua união ideal e auto-presente antes da assinatura gráfica, enquanto
alguns teóricos pós-estruturalistas quiseram suspender a assinatura, de sorte a
aumentar a distância entre discurso e sujeito. Tal separação foi por vezes
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

justificada porque a noção de sujeito seria, de si, não ética. Parece irônico que,
num tempo em que a especificidade dos discursos é acentuada na crítica teórica,
a função da assinatura precisa ser revista; esta situação surgiu da confusão de
sujeitos genéricos e autorais, amalgamando noções autonomistas e
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universalizantes de subjetividade. Os argumentos mais comuns contra o sentido
ético da assinatura servem para uma função produtiva: em primeira instância,
para proteger o signatário dos efeitos do texto; em segunda, para proteger os
textos com os efeitos da assinatura. A primeira posição é mantida por Foucault,
quando propõe que “a discursos em livros foram atribuídos autores reais...
apenas quando o autor se tornou sujeito de punição e na extensão em que seu
discurso foi considerado transgressivo” (1977:124). Há certamente vantagens
éticas na remoção da função-autor e consequente circulação anônima do
discurso. Num mundo sem nomes próprios, a publicação do Le Monde de
Descartes não teria sido feita post-mortem (tratado sobre a luz -
http://en.wikipedia.org/wiki/The_World_(Descartes), nem Dialogues Concerning
Natural Religion, de Hume (exploração sobre se crença religiosa pode ser
racional - http://www.sparknotes.com/philosophy/dialogues/summary.html); nem
precisariam tantas mulheres escritoras dissimular-se por trás de pseudônimos
masculinos, nem teriam muitos autores enfrentado ameaça ou perseguição
concreta com base no que escreveram.
Todavia, anonimato põe questões éticas, no gargalo entre
responsabilização pelo que se escreve e imputação policialesca. Embora haja
espaços de uso ético do anonimato – por exemplo, em avaliações anônimas para
o avaliado de seus textos para publicação – em geral cheira à falcatrua ou está
muito próximo dela. No caso de autores perseguidos, anonimato não serve
propriamente como política de retaguarda, mas para assegurar que possa dizer
o que pensa sem represália: “pseudônimo e dissimulação, estando ao alcance
da maior parte dos autores, a liberdade de identificar a si mesmo como autor de
um discurso particular é comumente assumida como direito de cidadania”
(Burke, 1995c:287). Anonimato, porém, pode ser efeito do autoritarismo que se
combate; assim, anonimato e pseudônimo se recomendam não como demandas
éticas em si, mas como medidas provisórias. O segundo argumento contra a
vinculação do texto e signatário busca guardar-se contra leituras ad hominem:
quer proteger o texto contra violação da vida e crenças pessoais de seu autor. O
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

debate labora em extremismos: uns são inflexíveis no vínculo entre obra e seu
autor, em geral apelando para a moralidade do exemplo; outros separam por
completo. A informação pessoal pode ser valiosa para atestar a sinceridade e
transparência do autor, mas a leitura de seu texto não pode redundar em
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veredicto da sua vida pessoal. Ao invés de insistir em “avaliar” o texto, seria o
caso reconhecer o espaço natural de interpretação e pesquisa. Isto pode ser
objeto honesto de estudo, pois, embora não havendo vínculo linear entre obra e
vida pessoal do autor, há infindos outros não lineares e pertinentes.
Os debates sobre propriedade discursiva ou ética de permitir que fatores
biográficos influam a leitura só aparecem em momentos de grande crise ética,
como mostram casos de Heidegger e Rushdie. A inter-relação entre ética e
assinatura nasceu do efeito perturbador – precisa-se saber quem escreveu o
texto e suas responsabilidades. Claramente, um texto assinado implica questões
éticas, mesmo quando se busca distanciar a obra da vida pessoal do autor. No
caso de Heidegger, o trabalho biográfico de Farias (1989) foi muito elucidativo
para posições nazistas e antiéticas dele, enquanto no caso de Rushdie a
preocupação volta-se para preservar seu direito de expressão, num contexto de
confrontos delicadamente acalorados e agressivos. No espaço das novas
tecnologias a questão do anonimato se tornou candente, porque tem servido a
iniciativas mal-intencionadas (bullying e vandalismo, por exemplo), com seu
correlato oposto: exposição excessiva da intimidade (Lih, 2009. Rosen, 2010).
Como para entrar no mundo da web é necessário ter um email pelo menos, na
prática não há mais anonimato, embora muitas vezes comentários de blogs, por
exemplo, se aproveitem do espaço para espinafrar aleatoriamente, a título de
liberdade de expressão (Coleman, 2012). Por outra, em redes sociais, onde
usuários contribuem com aportes, informações, textos, imagens, sua autoria é
espoliada pela monetização desenfreada (Dijck, 2013. MacKinnon, 2012. Scholz,
2013). As legislações correm atrás dessas novidades, chegando naturalmente
atrasadas...
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

1.10. SELF DO AUTOR

Burke, ao final de sua coletânea, acrescenta uma parte dedicada às


metamorfoses do self (1995d). Para concluir esta primeira parte desse texto,
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analiso esta contribuição extremamente sui generis da autoria. O contexto é
claramente pós-moderno, no sentido da vivência do self fragmentado, disperso,
incompleto, angustiado, após o reconhecimento de que o self unitário sempre foi
fantasia ingênua. O ego unitário, esculpido na individualidade que se basta a si
mesma, é esquizofrenia mórbida, porque ignora a condição metamórfica da
construção infindável e naturalmente incompleta da personalidade. Autor é um
feixe de contradições também, o que não permite exarar linearidades autorais,
embora esta complexidade também tenha seus charmes, claro. O argumento
mais propriamente pós-moderno de cunho filosófico é a desconstrução das
essencialidades metafísicas, entre elas da autoria completa. Esta seria estória
inventada por quem aprecia apresentar-se como articulador sobranceiro de suas
façanhas, bravata que se esboroa na primeira esquina, porque, embora
habitando o mesmo corpo, tanto este, quanto a mente são nômades, sempre em
busca do que são, sem terem sido propriamente. Esta percepção alimenta,
naturalmente, concepções muito antigas do autor como raptado pela inspiração
(ou musa, ou Deus bíblico), interpondo separação entre o autor e seu texto, até
culminar na proposta de Barthes da morte do autor. Esta proposta é vista por
muitos como contraditória ou mesmo deslavadamente covarde, porque não se
pode matar o autor sem autor. Por mais fragmentada que seja toda autoria,
sempre resta pelo menos um fiapo do autor, suficiente para sabermos, mui
relativamente, “quem fala?”
Parte da desconstrução pós-moderna se volta contra os humanismos
auto-declaratórios, circulares e prepotentes. De fato, a emancipação
eurocêntrica implicou forte descentração humana, em especial quando se
descobriu o Novo Mundo, onde havia, entre outras novidades, gente diferente.
Religiões cristãs, por terem um deus humanizado (ama, sofre, fala, se torna
humano...), acentuam sumamente o ser humano como razão de ser da natureza,
a ponto de não fazerem sentido sem este vínculo totalizante. Ciência, porém,
embora mantendo a autoria como condição fundamental de sua produção, sacou
logo que precisava distanciar-se do objeto de estudo, porque o argumento de
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

autoridade é autoridade, não argumento, devendo-se preferir a autoridade do


argumento. O método científico caprichou enormemente na pretensão de tornar
o procedimento de pesquisa retestável por quem questione, na expectativa de
que seus formalismos poderiam deter validade universal, acima de cada autor
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individualizado e perecível. Na intersubjetividade que se ativa na comunicação
crítica autocrítica entre pares, todos morrem, mas ela fica como referência de
uma comunidade que, no indivíduo, se esfarela, mas, no todo, persiste como
signo da validade científica. Embora esta condição não possa – a meu ver –
produzir validações universais das teorias, a não ser em seus formalismos,
dignificou sumamente suas verdades relativas como as mais confiáveis em geral
na sociedade, por mais que esta pretensão desande facilmente no colonialismo
dos outros tipos de conhecimento (Harding, 2011. Taylor, Cranton & Associates,
2012). Enquanto isso, o ser humano foi destronado, literalmente. Por exemplo,
Latour (2005) reconstrói o “social” como rede de relacionamentos de tudo que
pode se relacionar, não apenas humanos (teoria do ator em rede) (Cerulo, 2011).
Esta percepção avançou enormemente no estudo do comportamento animal (ou
do ser vivo como tal), reconhecendo, entre outras coisas, sua “politicidade”
(Waal, 2000. Wilson, 2012. Wilson & Hass, 2014). Avançou mais ainda nos
estudos ambientais e do desenvolvimento sustentável, nos quais o ser humano
é visto como predador irresponsável, por achar-se superior e impune
ambientalmente. O planeta é literalmente uma “comunidade”, na qual os
humanos são um pedaço e em geral aparecem como malfeitores.
Claramente, estas críticas não desfazem o valor dos “direitos humanos”,
porque, tomando-se os humanos como tais, a capacidade de convivência na
tolerância das diversidades e direitos é chave, também para a democracia. O
que muda é que “direitos” não são coisa apenas humana. São de todos os entes,
em especial da natureza como tal. Principalmente, direito não poderia se
arquitetar à custa do direito de outrem, não só humano, mas da natureza.
Embora esta linguagem traia um tom humanizante, a noção mais correta seria
de desumanizar o discurso, tornando-o apto a abarcar as expressões de todos
os entes que compõem a natureza ou o universo. Temos aí um problema
epistemológico atávico: como não apreendemos a realidade a não ser do ponto
de vista do observador (Maturana, 2001. Demo, 2002), só conseguimos nos
expressar como humanos, humanizando inevitavelmente os cenários analíticos.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

O que se espera, não é superar esta contextualização (tida como estrutural


evolucionária), mas trabalhar o desconfiômetro suficiente para as autorias
dispersas e mesmo contraditórias, o que mais facilmente pode aparecer em
construções coletivas (como a Wikipédia, por exemplo), entrelaçando autorias
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individuais que culminam numa autoria coletiva apreciável (Demo, 2011c).
Acontece aí uma desumanização de individualidades, para fins de uma re-
humanização coletiva. Esta, porém, não pode ater-se apenas aos humanos, mas
atingir o nível planetário e da natureza como tal.
Para além da desconstrução pós-moderna, a pesquisa dispõe hoje de um
arsenal de teorizações e experimentos que mostram a fragmentação do self que
acaba mostrando alguma fluidez estruturada, mas tipicamente dinâmica,
enfeixando também contradições insolúveis. A neurobiologia ou a neurociência
descobrem a cada dia mais que o cérebro produz uma mente multifacetada,
construída aos pedaços evolucionários (alguns distinguem três camadas
cerebrais: reptiliana, límbica e neocortical) (Edelman & Tononi, 2000. Lewis et
alii, 2000) e que se ajustam e confrontam (célebre disputa entre razão e emoção)
(Damásio, 1996), numa plasticidade estonteante (Doidge, 2007. Dehaene, 2009.
Koch, 2012). Mora muita gente no cérebro, não só “eu”! Freud já iniciara este
trabalho de compartimentalização cerebral, ao distinguir três instâncias: ego, id
e superego, numa estruturação conflituosa. Embora todos tenhamos, em
condições “normais” a sensação de termos um self unitário, controlado,
apaziguado, domesticado, civilizado, na prática é um tumulto, no qual se
entrecortam dinâmicas desencontradas também. Assim como é impraticável
postular processo evolucionário ajeitadinho, onde tudo está no seu devido lugar,
não temos um self completo, nunca. Naturalmente, isto pode ver-se como
entrave para a autoria, quando pretendemos bravatear prepotências auto-
interessadas, mas pode-se também apreciar a riqueza da diversidade e a
abertura plástica para novas aventuras. Quem fala no autor é uma algazarra
incontrolável, ao final. Talvez sua voz, no meio de tantas vozes, seja a menos
relevante. No entanto, por mais que aguemos o autor, sobra ele ao final, para
responder pela bagunça, ainda que mui relativamente. A pessoa tem sua
estrutura relativamente unitária, tanto assim que reconhecemos isso sem
problemas: não vemos em ninguém a algazarra de vozes, mas sua voz, tão
própria que podemos reconhecer ao telefone, sem ver, só de ouvir. A
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

individualização também existe, não como queríamos antigamente, o que produz


a riqueza da diversidade e a originalidade da autoria.
Esta visão recomenda modéstia do autor, em especial nas autobiografias,
em geral uma produção de mau gosto, porque pretende ser “auto-escrita”.
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Quando o mesmo autor analisa o mesmo autor, temos o cenário perfeito para
todas as bravatas imagináveis. É melhor deixar isso para terceiros, em nome do
distanciamento científico salutar analítico, embora sem pretensões de
neutralidade/objetividade. Por exemplo, quando Nietzsche proclama que “é um
destino”, atirando para todas as direções (desconstruindo tudo à sua volta),
ficamos apreensivos como interpretar: será bravata, expressão de mente
enferma, autopropaganda, provocação?... Hoje valorizamos sua desconstrução
como precursora do pós-modernismo, mas à época foi um susto sem tamanho!
Algumas autobiografias se notabilizaram (Santo Agostinho, Rousseau,
Barthes...), mas em parte sua fama é o tributo ao tom analítico sereno do autor
que procura não individualizar seu caso, mas torná-lo exemplar e útil para
outrem. Ao final, a fragmentação do autor não o extingue, apenas o observa mais
de perto como dinâmica complexa e não linear, parecendo que isto corresponde
melhor a uma realidade que acaba escapando das prisões analíticas. Isto
também não elide o autor de suas responsabilidades, a mesma que a justiça
imputa aos criminosos, mesmo sabendo que ninguém tem consciência perfeita
do que faz. Podemos também extrair disso a importância de cuidar da autoria,
tanto para que assome, quanto para que não se torne predatória.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

SEGUNDA PARTE: AUTORIA E APRENDIZAGEM

Pode-se afirmar que todas as grandes teorias da aprendizagem são


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tipicamente “autorais”, no sentido de que preconizam a formação do aprendiz
como autor, uma figura dotada de autonomia produtiva, crítica autocrítica. Não
vou aqui refazer este percurso que fiz em outros lugares (Demo, 2014b), também
porque assaz conhecido. Autores como Piaget, Vygotsky, Maturana, Paulo
Freire se esmeraram em arquitetar ambientes de aprendizagem centrados na
autoria discente, tomando a sério a motivação da criança, seu desenvolvimento
autopoiético, a mediação docente, etc. Esta proposta não teve eco suficiente na
escola, que prefere, até hoje, aula instrucionista à autoria discente, por amor à
empáfia docente. O aporte desses autores é tão marcante que as novas
tecnologias assumiram-no in toto, reconfigurando-o naturalmente, na
perspectiva do scaffolding (metáfora do andaime – o estudante precisa ser autor
de proposta própria [prédio], tendo como apoio necessário a mediação docente
[andaime]), ou das “novas epistemologias” da Wikipédia ou da ciência aberta, da
construção de conhecimento próprio e educação científica e assim por diante,
sem falar no modismo da web 2.0 (Demo, 2009). Na prática escolar, porém,
predomina a domesticação instrucionista das novas tecnologias, na expectativa
de transpor, sem mais, para o mundo virtual a mesma apostila e a mesma aula.
Autoria ficou de fora, também no professor que, comumente, dá aula do que
nunca produziu, um plágio flagrante. Oferecem-se aulas – tudo é só aula – cada
vez mais, sem nexo explícito com aprendizagem que se supõe ocorra por
osmose, através da “magia” da fala docente. Literalmente postula-se que
aprendizagem se faça pela fala docente, considerada o núcleo central da escola.
No imaginário popular, “perder aula” significa não aprender; professor é
identificado com aula (porque nem ele, nem o estudante aprendem de fato). Isto
leva a outra noção estúpida: “anos de estudo” – quando se diz que alguém tem
9 anos de estudo, supõe-se que tenha completado o ensino fundamental e tenha
aprendido respectivamente, como ocorreria num país asiático; entre nós, longe
disso: pode-se chegar ao 9o ano praticamente analfabeto, mesmo tendo tido
“todas” aulas constantemente.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

A prática dos testes periódicos padronizados (tipo Ideb entre nós) também
é vista por muitos como entrave à aprendizagem autoral, não só porque afunila
o currículo em duas matérias (língua portuguesa e matemática), mas sobretudo
porque retoma o instrucionismo oficializado (memorização crua). O lado
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formativo some de vez (já não existia mesmo!), mantêm-se apenas repasse e
consumo de conteúdos, à revelia das habilidades esperadas na
sociedade/economia do conhecimento. Bastaria lembrar a mania atual dos
portfólios: neles as pessoas registram suas façanhas educacionais, cursos,
avanços, papers, mostrando sua atualização permanente, ou seja, não cabe
atestar anos de estudo apenas; é imprescindível mostrar o que se fez, o que se
está fazendo e pode fazer como autor. Embora isto tudo se imole no altar
vagabundo da empregabilidade (a pessoa se mata de estudar, mas o mercado
não tem qualquer compromisso), não retira o argumento de que esperamos hoje
da escola a formação de autores capazes de originalidade, criatividade,
autonomia. Nesta parte, vamos explorar algumas rotas de aprendizagem autoral
úteis para revolucionar a escola.

2.1. AUTORIA E EMANCIPAÇÃO

É tema recorrente em educação, em especial para educadores ligados ao


desafio emancipatório, em geral na esteira de Paulo Freire. Dentre movimentos
importantes recentes que assumiram esta direção está a assim dita
“aprendizagem transformadora” que tem em Mezirow seu maior guru e tem como
foco principal a educação de adultos. Começou com uma pesquisa sobre
mulheres que, após um tempo escondidas como donas de casa, descobriram
que podiam tomar o destino em suas mãos, em geral se separando dos maridos
e retomando os estudos (quase sempre universitários). Parecia ocorrer nelas
uma espécie de epifania, uma revelação marcante e que mudava suas vidas por
completo. Desta virada proveio o termo “transformador”, porque se imaginava
estar ocorrendo algo muito além de mudança usual ou mesmo marcante.
Mezirow, sociólogo de formação, ampliou muito o enfoque educacional,
aproximando-o de teorias emancipatórias, em particular freireanas, o que lhe
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

permitia valorizar a politicidade da aprendizagem. Visivelmente, uma das


dinâmicas mais salientes na transformação dessas mulheres era a
potencialidade de retomar o destino em suas mãos, tornando-se autoras de
projeto próprio, até certo ponto. A educação, dependendo de como se arquiteta,
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pode ter efeitos emancipatórios, em geral soterrados na escola sob os
escombros do instrucionismo, quando esta se dedica apenas ao repasse
copiado de conteúdos: professores não sabem aprender bem, muito menos seus
alunos. Sem propor qualquer fórmula pronta, Mezirow abriu uma dimensão
fundamental para a teoria e prática pedagógica capaz de realizar sua promessa
discursiva freireana. É comum a conversa sobre o poder transformadora da
educação, em parte por herança de teóricos como Paulo Freire, mas costuma
ser altamente hipócrita, porque nada tem a ver com a mudança da realidade,
com “conscientização” ou com a “leitura” questionadora da realidade. Ao som da
aula mais caduca, do repasse imbecilizante de conteúdo e das didáticas
tacanhamente reprodutivistas, postulam-se mudanças do arco da velha num
contexto de pura fantasia desvairada. Bastaria observar que, segundo o Instituto
Paulo Montenegro, apenas 26% dos brasileiros adultos são “plenamente”
alfabetizados em 2011!
(http://www.ipm.org.br/ipmb_pagina.php?mpg=4.02.01.00.00&ver=por).
Em torno de Mezirow foi se reunindo um grupo heterogêneo de
pesquisadores e interessados na noção da aprendizagem transformadora,
encontrando nele uma liderança francamente aberta. Escutou muita crítica, em
especial de feministas que sempre o acusavam de patriarca eurocêntrico ou
coisa parecida, de alimentar visão conservadora da sociedade e da economia e
viver de teorizações muito distantes da prática. Em geral com bom humor, tentou
responder a tudo, considerando os avanços do movimento mais relevantes que
vaidades pessoais (Mezirow & Associates, 2000. Taylor, Cranton & Associates,
2012). Resgatou energias dispersas em torno da pesquisa qualitativa (pesquisa
participante e assemelhadas) (Demo, 2004), procurando elevar seu nível
acadêmico, para evitar nivelamentos por baixo (educação pobre para o pobre)
(Popkewitz, 2001). Conseguiu reunir inúmeros interessados pelo mundo afora,
feministas também, educadores que lutam contra o colonialismo e analfabetismo
de países marginalizados, procurando em educação chances de
autoria/autonomia, como Paulo Freire preconizara (1997). O vínculo com Paulo
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Freire, embora quase sempre declarado, nem sempre tem efeito mais prático, já
que é comum em educação enfeitar discursos indolentes com citações
freireanas. No entanto, Paulo Freire, norteado pela práxis, via emancipação
como dinâmica extremamente complexa, com fluxos e refluxos, potencialmente
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reprodutivista e emancipatória. Do ponto de vista educacional, para contribuir à
emancipação dos marginalizados, urgia:
a) não oferecer ao pobre coisa pobre, como é o caso paradigmático nas
escolas públicas; uma escola de segunda categoria não poderia ser útil ao pobre,
porque teria a tendência praticamente incontornável de o empobrecer ainda
mais; observando que, ao final do ensino médio, apenas 10% dos estudantes
sabem matemática, a escola é clamorosamente coisa pobre para o pobre; muitos
professores continuam declamando a “educação transformadora” da boca para
fora, mas sua prática contradita-a ostensivamente; para grande parte dos
estudantes públicos escola é perda de tempo, marcantemente;
b) não oferecer o mesmo, porque só empata; a distância persiste; a
“mesma” escola faz o mesmo, não garantindo ao marginalizado qualquer
arranque, do qual precisa para sair do lugar, apressar o passo e aproximar-se
dos outros à frente; é neste sentido que a escola atual acaba consagrando a
marginalização, porque não oferece qualquer chance de mudança realmente
substancial, acenando com cenários garantidamente alternativos de
desenvolvimento pessoal e social;
c) oferecer algo ostensivamente melhor; em parte esta perspectiva foi
incorporada na Educação de Tempo Integral (ETI), agora redefinida como Escola
Integral (EI); Paulo Freire colaborou incisivamente com Darcy Ribeiro (era do
Conselho dos CIEPs), sob a expectativa de que a ETI viesse a incorporar seus
preceitos emancipatórios: uma escola pública de qualidade elevada para os
estudantes mais carentes; seria possível nela superar pechas como progressão
automática, reprovação e mesmo recuperação, porque se supunha forjar o
ambiente mais adequada para a criança aprender bem, sinalizando definitiva
mudança de vida.
A visão atual da EI ainda está a caminho no MEC e, em geral, está mal
posta, primeiro porque se fixa no modelo instrucionista atual alargado para o dia
todo – não é outra escola, mas a mesma esticada. Facilmente o Ideb será o
mesmo, porque o instrucionismo é inepto frontalmente. Segundo, porque não se
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

dá devida atenção aos professores – uma escola diferente se faz com professor
diferente – que continuam praticando a mesma aula de sempre, copiada para
ser copiada. A noção de EI, porém, é tomada a sério na proposta já bastante
conhecida de Pacheco (mentor da Escola da Ponte) (Pacheco & Pacheco, 2013):
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o “integral” nessa visão abrange a formação do ser humano como um todo,
acentuando-se na criança o lúdico, a motivação intrínseca, o encaixe comunitário
e local, o professor diferenciado, a didática do projeto (problematização),
aspectos assistenciais e envolvimento intenso familiar, etc. A escola não tem
anos/séries, a progressão continuada se dá por níveis de autonomia, a criança
aprende a estudar com autonomia, tendo no professor a orientação sempre à
mão. A criança fica mais de 8 horas diárias, e o ambiente inteiro se define como
laboratório de aprendizagem, o que também inclui amplas atividades discentes,
em especial de exercício da cidadania (assembleias, definição dos valores
básicos escolares, disciplina etc.). Parece uma perfeita bagunça, mas aí se pode
aprender extraordinariamente. A proposta não segue autores definidos, porque
aposta na qualidade docente de proposta própria, a partir dos autores preferidos,
desde que a criança aprenda bem. A escola é, no sentido mais pleno, uma
comunidade de aprendizagem (Demo, 2014c).
Pode-se alegar que a EI, neste caso, é emancipatória, tanto porque
capricha diariamente a autoria discente, em especial nos projetos de
estudo/pesquisa/elaboração, quanto porque se insere na vida estudantil com
visível construção de oportunidades alternativas. Educação não faz milagres
sozinha, mas este tipo tem potencialidade emancipatória nítida. Ao contrário do
que poderia parecer, que, estudando com motivação intrínseca, a criança acaba
se perdendo na improdutividade, a escola mostra que implicitamente tem
dinâmica produtiva extraordinária, à medida que acompanha, passo a passo e
individualmente, a progressão de cada estudante, com começo, meio e fim. A
experiência desvela ainda que emancipação não pode ver-se como epifania
intempestiva ou extraordinária, mas como processo diário de conquista da
autonomia. Não se seguem diretrizes oficiais consideradas retrógradas, como
alfabetizar em três anos, não só porque a escola assume alfabetização em
sentido bem mais amplo como formação continuada, mas porque as perícias
decodificadoras iniciais são resolvidas logo que possível, para que a criança se
sinta bem inserida e avançando naturalmente. A assim dita teoria dos ciclos
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

encobre a questão docente: o desafio maior é um docente bem apetrechado,


valorizado socioeconômica e pedagogicamente, para saber resolver as questões
profissionais educacionais, a começar pela alfabetização. Tendo este docente,
a proposta dos ciclos é letra morta; não serve para nada.
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A proposta emancipatória, então, muda completamente o enfoque da
aprendizagem, deixando o instrucionismo como atraso irreparável, e colimando
ambientes dinamizados por pesquisa e elaboração própria, iniciativa, projetos,
de sorte que o estudante aprende a produzir conhecimento próprio. Neste
sentido, emancipação e autoria se ecoam mutuamente, realçando a politicidade
da aprendizagem como queria Freire e calçando-se na melhor qualidade
possível do conhecimento produzido autonomamente. O que mais conta na EI
não é tempo integral (embora tenha grande significado, também assistencial
para pais que precisam trabalhar durante o dia), mas o ambiente de
aprendizagem montado adrede para os estudantes. Seria ainda muito importante
avançar no uso das novas tecnologias, tanto porque representam habilidades de
que todos precisam para a vida e mercado, cada vez mais, sem volta, quanto
porque podem abrigar ambientes virtuais de aprendizagem (AVAs) de sentido
eminentemente autoral, na esteira da web 2.0. A introdução de tais AVAs
deveria, porém, significar um salto para o futuro, não a modernização das
mesmas velharias instrucionistas, a começar por enfeitar a aula copiada feita
para ser copiada com “efeitos especiais”. Não cabe passar as mesmas apostilas
para o formato digital, porque a porcaria não muda. Em geral, as novas
tecnologias podem significar um acréscimo interessante na motivação das
crianças que tendem a gostar das engenhocas digitais, mas a importância
propriamente dita está na promoção da autoria em plataformas que facultam
contribuições individuais e coletivas, à la Wikipédia, por exemplo. Resistindo a
tendências também muito fortes instrucionistas, como plágio, recurso exclusivo
de certos sites, recusa de leitura mais longa e aprofundada (Dijck, 2013. Jenkins
et alii, 2013), é decisivo aprender a pesquisar e elaborar na web, participar de
sites autorais (tipo blog, por exemplo), publicar e receber feedback, inserir-se em
chances de ciência aberta (Cribb & Sari, 2010. Nielsen, 2012).
A contribuição de Freire, porém, não para na educação emancipatória.
Tomando a sério a ambiguidade natural de movimentos emancipatórios, o
desafio não se estanca em emancipar, mas alonga-se para acompanhar o
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

emancipado, tendo em vista evitar que se torne o novo opressor. A história está
coalhada de figuras que expuseram suas vidas para depor um tirano, mas, com
o tempo, chegando ao poder, se tornam os próximos tiranos, embevecidos pelas
benesses privilegiadas dos detentores do poder. É neste sentido que
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emancipação precisa haurir também da fonte socrática da crítica autocrítica, o
chão das “novas epistemologias” (Demo, 2011c): uma coisa – muito importante
por sinal – é criticar os poderosos; outra é – pela via da autocrítica – não
pretender tornar-se poderoso. Sócrates aplicava este cuidado ao conhecimento,
por perceber sua politicidade intrínseca: conhecimento só é bom se tiver
desconfiômetro, ou seja, se for, para além de crítico, autocrítico. Sua verve
autorrenovadora vem daí: sabe desconstruir-se e reconstruir-se indefinidamente.
Mantém os pés no chão. O emancipado que chega ao poder facilmente perde
este chão. Aí está um currículo formidável formativo: trabalhar a habilidade da
criança de, ao contraditar ideias de outrem, não ser menos severa com as
próprias. Ao invés do argumento de autoridade, um embuste epistemológico,
apreciar a autoridade do argumento que, prometendo apenas validades
relativas, faz delas a ponte da cooperação. Pois só pessoas incompletas se
complementam.
Emancipação, portanto, é jogo aberto de autonomias que se encontram e
desencontram, buscando equilíbrios frágeis e sempre renegociáveis/fraudáveis.
Não há como supor autonomia completa ou autoria perfeita, porque não há na
existência este ser completo/perfeito. Pode-se mesmo ver aí a maior “engenharia
pedagógica”: compor autonomias para que, mantendo-se autônomas,
entendam-se como estratégias de cooperação. Aprender a ceder, a apreciar
ideias alheias, a estudar autores divergentes, a sopesar teorias tão pertinentes
quanto sempre incompletas, fazendo as próprias também incompletas, pode
redundar em autorias que se mantêm aprendendo. É bem isso: ser autor é
continuar aprendendo mais que todos, não trajar-se das vaidades ilusórias de
quem já sabe tudo. É mais autor o eterno aprendiz.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

2.2. EDUCAÇÃO E CONHECIMENTO

É a dupla impagável da CEPAL (ONU), em especial na expectativa da


equidade e transformação produtiva, bem como no casamento entre educação
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e conhecimento como “eixo da transformação produtiva com equidade” (Cepal,
1992. Cepal/Orealc, 1992), reaparecendo no Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH), no qual educação indica a melhor alavanca para fazer e fazer-se
oportunidade, embora em praias neoliberais. Assoma também em autores que
buscam entender como países marginalizados poderiam sair da situação de
atraso e avançar para posições mais compatíveis, como Amsden (2009), em seu
texto provocativo sobre a “ascensão do ‘resto’”. Em certo sentido, buscam-se aí
chances de “emancipação de países” periféricos, perguntando-se por estratégias
mas alvissareiras. Tem sido costume acentuar rotas educacionais, em grande
parte porque educação se tornou alavanca mais efetiva (nunca única) de
formação e competitividade. Os Estados Unidos são obcecados com a
competitividade como fulcro central da escola, desde sempre, mas tornada
angústia americana oficializada desde a crise do Sputnik (1957): a dianteira
soviética foi logo interpretada como fracasso da escola. Desde então, montaram-
se programas federais, em grande parte ferindo a história federalista da
independência estadual em educação (A Nation at risk, 1983; No Child left
behind, 2001; Race to the top, 2009) (Ravitch, 2013. Lubienski & Lubienski,
2013). A história imponente da escola pública gratuita para todos foi muito
arranhada, em nome de invasões privatizantes expressas em programas como
charter school (escola pública posta sob gestão privada, com flexibilidade de
interferência), voucher school (pagamento pelo estado da escola de escolha da
família), home schooling (estudar em casa), na tentativa em geral muito mal
sucedida de pressionar a escola pública vista como decadente. Dados recentes,
no entanto, apontaram para a superioridade da escola pública (Lubienski &
Lubienski, 2013), em parte porque tem professores mais bem preparados.
Mais que nunca educação se tornou “fator de produtividade” e
conhecimento a energia da autorrenovação do desenvolvimento/crescimento
econômico, consagrando o que sempre fora tese sub-reptícia ou escancarada:
o valor da educação é econômico. O PISA, transformado em referência
obsessiva e dolorosa para muitos (também para os americanos), tem mostrado
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

resultados ambíguos (Ripley, 2013. Kouta, 2012): para uns, centrando o teste
sobre leitura, ciência e matemática, distorce o currículo, porque a escola
somente se dedica a esses conteúdos, sem falar que retoma o instrucionismo
mais raso, forçando a memorização como garantia de êxito no teste (Au, 2008.
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Nichols & Berliner, 2007. Hunt, 2008). Um dos exemplos mais questionados é o
modelo coreano, em geral bem sucedido em matemática, no qual os estudantes
chegam a “estudar” 15 horas diárias: de manhã até meia tarde vão para a escola
pública, onde o interesse é apenas relativo (muitos dormem, de cansaço); ao fim
da tarde vão para as “tutorias” privadas (custam uma fortuna) onde a
metodologia é instrucionista deslavadamente, forçando decoreba impiedosa.
Para outros, o PISA buscou montar outro tipo de teste, puxando para soluções
complexas e abertas, embora não admitindo ensaios propriamente por parte dos
estudantes, porque sabe que aprender implica autoria (Ripley, 2013. Sahlberg,
2010). Seja como for, o PISA é um teste de competitividade no sentido mais cru
do termo, razão pela qual a Ásia, desde 2009, tomou conta dos primeiros lugares
no PISA (Demo, 2014): a China ocupa o primeiro lugar em leitura, ciência e
matemática, em meio a polêmicas entre educadores – enquanto Zhao (2010)
(pesquisador educacional chinês nos Estados Unidos) afirma claramente que o
êxito chinês é tradicionalmente instrucionista, Schleicher (mentor principal da
proposta pedagógica do PISA) garante que a China descobriu aprendizagem
autêntica... Deixando de lado o bate-boca, não se duvida que a razão maior para
esta corrida “armamentista” é a competitividade que educação e conhecimento
podem garantir.
Tais cenários indicam que a questão da aprendizagem como autoria ainda
não está bem equacionada no mundo da educação, porque predomina a pressão
mercadológica e instrucionista do repasse de conteúdo como atividade crucial
da escola. Alguns sistemas conseguem certo destaque, em especial o da
Finlândia, não só por ter ocupado os primeiros lugares no PISA até 2009, mas
sobretudo por ser sistema público e gratuito, na contramão das reformas
americanas e neoliberais. Entre outras marcas finlandesas está a preparação
muito diferenciada dos professores e sua valorização inaudita profissional na
sociedade, exigindo-se no mínimo mestrado. Tendo o professor, no mestrado,
que elaborar uma dissertação, pratica pesquisa para aprender, descobrindo que
aprendizagem não passa pela aula, mas pela habilidade autopoiética de
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

reconstrução própria do conhecimento. Descobre que conhecimento que conta,


transforma, rompe não é o da apostila, da aula, mas aquele rebelde,
autorrenovador, aberto, discutível, em polvorosa. Tendo na escola um professor
pesquisador, torna-se bem mais fácil formular a expectativa de um aluno
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pesquisador. Por isso, o exame de fim do segundo grau a que são submetidos
os estudantes que desejam ingressar na universidade ocupa por volta de três
semanas, nas quais, com textos distribuídos aos candidatos, estes devem
pesquisá-los com o intuito de elaborar ensaios analítico-argumentativos, que
seriam bem mais condizentes com a avaliação da aprendizagem (Arum & Roksa,
2011). Avalia-se o que o estudante produz como autor, não o que memoriza.
A divergência mais aguda está em como se define educação e
conhecimento. Para muitos educar é transmitir conteúdo via aula, através, em
geral, de professores sem qualquer autoria, um procedimento mimético avaliado
pela prova também mimética. Mas outros acentuam desafios formativos,
autopoiéticos, autorais, num tirocínio no qual formação é autoformação, estudo
é auto-estudo, tendo o professor o papel maiêutico de “scaffolding” ou de
mediador na acepção de Vygotsky. Neste contexto, escola e universidade são
entidades que não são propriamente “educacionais”, porque aí não ocorre
formação, mas apenas treinamento ou domesticação. Quanto ao conhecimento,
muitos ainda consideram-no produto resolvido, definitivo, codificado na apostila
e no currículo, cabendo ao professor não mais que “transmitir” via aula. É este o
espetáculo macabro de todo santo dia na escola e na universidade: oferta por
atacado de aula. Com inconfessável má consciência, inventa-se “extensão”, um
lugar fora do currículo e da aprendizagem, para compensar o déficit clamoroso
de formação estudantil. Na escola apela-se para conteúdos transversais,
estudos sociais e outras complementações aparentemente formativas, mas não
valem para o Ideb. O conhecimento morto repassado aos estudantes não
impacta o futuro destes, porque, não sendo autorrenovador, crítico autocrítico,
não consegue colocar-se à frente dos tempos. Ao contrário é peça de museu,
como se fosse viável enfrentar guerra atômica com estilingue. Não cabe mais,
em hipótese nenhuma, reduzir o aluno a consumidor de trapos exumados de
conhecimento, como se professor fosse guarda de cemitério. O que lhe importa
é aprender a produzir conhecimento próprio, pois é a fonte maior das
oportunidades de vida e mercado.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Seria o caso recordar que uma das primeiras alegorias de que dispomos
sobre conhecimento, é o relato bíblico do Gênesis, onde aparece como “pecado
original”, por ter sido a estratégia da criatura para se confrontar com o Criador.
Descreve um jogo duro de autorias rivais, indicando que o caminho áureo da
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autoria é conhecimento, não o da apostila que é a cara da morte do autor, mas
o indomável, divino, transformador. Uma segunda onda aparece na Grécia
socrática e platônica, onde se estatui o que hoje chamamos de “novas
epistemologias” (Demo, 2011c) (anacronicamente na verdade) como voz da
sabedoria: esta sabe principalmente quão pouco sabe; conhecimento não é
apenas crítico, é mormente autocrítico, para poder renascer em seu processo de
reconstrução interminável. Não se constitui pelo argumento de autoridade, mas
pela autoridade do argumento: esta é procedimento de fundamentação tão
acurada, quanto aberta. Segue daí que teorias, mesmo as mais formalizadas,
são incompletas, porque não temos linguagem que possa dar conta da realidade
inteira em sua complexidade incontornável. São, na voz de Popper (1958. Demo,
2011a), “hipóteses” que devem manter-se abertas à falsificação empírica,
evitando dogmatizarem-se. A escola/universidade não entendem assim: exarado
na apostila, conhecimento se torna um cadáver exumado, inútil para o futuro do
estudante. Chama a atenção que, sendo conhecimento em geral reconhecido
como o critério maior do desenvolvimento dos países (os desenvolvidos
produzem conhecimento próprio; os em desenvolvimento “dão aula”), as
instituições educacionais o tomem como subproduto de aula, uma das
impropriedades mais comprometedoras dos tempos. Diria que, nas guerras das
mudanças (Barber et alii, 2008), a acomodação em práticas tão obsoletas de
conhecimento tem por razão maior evitar que se exija das entidades
educacionais devida coerência com conhecimento disruptivo: elas querem
“coordenar” as mudanças, não são, porém, objeto de mudança. Recuperando a
voz socrática da crítica autocrítica, conhecimento em geral questiona tudo, mas
abomina questionar-se. É por isso que a coerência da crítica está na autocrítica.
Não seria exagero, assim, afirmar que conhecimento autorrenovador é a
prova maior da autoria, desde que crítico autocrítico, o que pode manter a
pretensão de autoria num raio de modéstia sábia. Opondo-se ao argumento de
autoridade, derruba um tipo de autoria, para preconizar outra: aberta, de validade
relativa, dependendo da fundamentação e que nunca será última ou inamovível.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

A autoria científica tem esta peculiaridade: ao mesmo tempo que é cultivada


enfaticamente na academia, sua validação é intersubjetiva, ou seja, critérios
formais não bastam; os políticos acabam se sobrepondo, mas, assim se espera,
em contexto aberto, recíproco, igualitário. Nenhum autor é final, único, intocável;
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precisa fazer-se, com sangue, suor e lágrimas, disputando honestamente
espaço próprio, sabendo que precisa dividir o espaço. Pesquisadores são gente
muito autônoma, muito cônscia de seus feitos, mas são levados a perceber que
não há como reinar sozinho, porque seria reinado sobre ninguém. Ter de
fundamentar o que se diz com base na autoridade do argumento produz um tipo
de autoridade prestativa, solícita, cuidadosa, já que somente aprendemos de
verdade de quem discorda. A teoria que foge do questionamento não admite
autoquestionar-se e, com isso, deixa o palco do conhecimento. Volta para a
sacristia (Shapin, 1998). Quando o orientando defende sua tese, aprende, entre
outras coisas, que sua autonomia é arrancada de outras (do orientador, por
exemplo) e com outras deve conviver, num rito de passagem que o qualifica para
participar da intersubjetividade oficializada. Isto pode lhe subir à cabeça, como
pode também ser uma rota produtiva de aprendizagem permanente. A melhor
autoria é do autor que vive aprendendo, na dinâmica da autocrítica.
Sistemas de ensino mataram esta rebelião em nome da aula e da
acomodação docente, ignorando que conhecimento que precisa de patrono é
teologia. Hoje precisamos de sistemas de aprendizagem, comunidades de
aprendizagem, ambientes instigantes de aprendizagem, marcados pela autoria.
Em geral, teorias emancipatórias se fiam em algo como “conscientização”, para
retomar Paulo Freire, indicando que o marginalizado precisa, por si ou com
“intelectuais orgânicos”, cair em si, reconhecendo a marginalização como
historicamente produzida, sobretudo que, se salvação houver, o protagonista
central só pode ser o marginalizado. Mas só saber pensar não basta; a práxis
determinará as chances reais para um projeto alternativo, através do qual o
marginalizado toma as rédeas de seu destino, até onde possível, tornando-se o
artífice de sua emancipação. Muitas dimensões são aí cruciais, nesta dinâmica
tão complexa e desafiadora: mudar é, antes de tudo, mudar-se; precisamos da
ajuda de todos, porque somos frágeis, incompletos, além de marginalizados,
mas a ajuda precisa ser de tal ordem que o ajudado, aos poucos, a possa
dispensar, andando com pernas próprias (não pode ser bolsa-família para a
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

eternidade); a elaboração e conquista das condições de autonomia é algo


sempre relativo, porque não existe autonomia completa, que já implicaria o
extermínio da autonomia dos outros; o emancipado sempre corre o risco de
tornar-se opressor, em especial se chegar ao poder... Autocrítica não é fórmula
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mágica, mas iniciativa das mais saudáveis.

2.3. AUTORIAS DE SEGUNDA CATEGORIA

Quando emancipação não é tomada a sério, decai para procedimentos


empobrecidos que acabam colaborando no empobrecimento dos pobres. Em
algumas áreas acadêmicas menos “prestigiadas”, naturalmente fora das ciências
ditas “duras”, tem se tornado comum apelar para modos menos rigorosos e
formalizados de conhecer, postulando-se que isto facilitaria a vida dos excluídos.
No fim da primeira metade do século passado, entrou em cena um movimento
de educadores que, questionando, com justíssima razão, o positivismo, buscava
alternativas metodológicas, brandindo promessas “qualitativas” (Turato, 2003.
Minayo, 1996). Surgiram várias versões, com nomes aproximados: pesquisa
participante (Demo, 2004), pesquisa-ação (Thiollent, 1986. Brandão, 2003),
“grounded theory” (teoria que parte do chão, não de teorizações prévias)
(Strauss & Corbin, 1990), observação participante (já tradicional na
antropologia/etnografia) (Angrosino, 2008), fenomenologia (Moustakas, 1994),
hermenêutica (Thompson, 1995) e, mais recentemente, denominações mais
ousadas, como pesquisa militante, valorização do senso comum popular, para
indicar o compromisso ideológico explícito com causas populares. Nunca foi
intenção dos formuladores da pesquisa qualitativa rebaixar a epistemologia para
caber em cenários nivelados por baixo. Ao contrário, via-se pesquisa qualitativa
como necessária para dar conta de fenômenos marcados pela intensidade, e
menos pela extensão quantitativa (Demo, 2001. Thompson, 1995). Antropólogos
já haviam consolidado a maneira de pesquisar com observação participante,
construindo uma convivência cotidiana com o objeto de estudos (em geral povos
ditos “primitivos”), com a finalidade de entender por dentro. Com efeito, aplicar
um questionário fechado aos índios não traria grandes resultados, até porque
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

seria uma conversa de surdos. É preciso montar ambiente de confiança mútua,


a ponto de o pesquisador se tornar parte da rotina na aldeia. Feministas sempre
insistiram, com enorme razão, sobre “standpoint epistemology” (postura
epistemológica de entendimento do outro a partir do outro) (Harding, 1998), já
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que a opressão feminina pelo patriarcado multimilenário se devia, pelo menos
em parte, a uma convivência desigual que deturpava a condição feminina como
secundária, complementar, caudatária. Era posição de enorme complexidade, já
que entender o outro a partir do outro só pode ser boa intenção, e nisto
imprescindível, mas, na prática, a mente humana entende o outro autorreferente
ou autopoieticamente. Qualquer entendimento do outro é construído a partir do
ponto de vista do observador, mas pode ser extremamente melhorado com
posturas qualitativas que buscam privilegiar entendimento recíproco honesto. O
antropólogo, mesmo morando com os índios anos a fio, monta seu relatório do
seu ponto de vista, não dos índios, propriamente, embora se possa aceitar sem
sustos que será um relatório que busca reconstruir com veracidade possível a
condição indígena.
Esta maneira de pesquisar é mais “subjetiva”, uma ameaça aos reclamos
positivistas da neutralidade/objetividade, tipicamente “interpretativa” ou
hermenêutica, naturalmente envolvida ideologicamente (é conhecimento com
intenção de contrapoder quase sempre). Alguns pesquisadores, aproveitando a
brecha e, na animação do questionamento dos positivismos, exageram no
“subjetivismo”, esquecendo o compromisso metodológico de formalizar o objeto.
Consola certamente que neutralidade é coisa ainda mais subjetiva, porque
forjada manhosamente: não há como fazer ciência sem o ponto de vista do
observador que passa a fazer parte da realidade pesquisada. O uso de
formalizações impõe instâncias de controle técnico e intersubjetivo fundamentais
para a credibilidade científica que aposta em argumentos e “evidências
empíricas”, não em interpretações soltas ou voluntariosas. Também na ciência
mais rigorosa, tudo é, ao final, “interpretação”, porque esta é a maneira
reconstrutiva da mente de captar a realidade: não a representa diretamente, a
constrói como espaço de intervenção. Formalizações melhoram credibilidades e
validades, mas não apagam o observador. Toda teoria usa um discurso
ordenado, estruturado, formalizado, porque faz parte do método supor que o
entendimento da realidade exige seu ordenamento – não se estudam dinâmicas,
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

mas comportamentos repetidos das dinâmicas, cabíveis em leis e regularidades.


Esta expectativa é promovida pela linguagem matemática e pela seleção
direcionada de fenômenos quantificáveis. A pesquisa qualitativa não despreza a
quantificação – seria erro infantil – apenas reconhece que nem tudo na realidade
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tão complexa e mesmo misteriosa pode ser quantificado adequadamente, por
mais que tudo ao final possa ser medido (Hubbard, 2010), mesmo forçadamente
(por exemplo: no verso “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”, imaginamos
haver uma alma “pequena”!). O que é mais bem mensurável não precisa ser
mais importante. Por exemplo, no tema da felicidade, indicadores quantitativos
sempre cabem, mas nem de longe dizem muito sobre uma dinâmica que é
tipicamente intensa, profunda, subjetiva – ter mais amigos é bom, mas é bem
melhor ter bons amigos, mesmo sendo poucos.
Sem me alongar mais em tais questionamentos epistemológicos, o que
proponho para a discussão é a tendência comum de abusar da pesquisa
qualitativa, rebaixando a qualidade do conhecimento à coisa pobre para o pobre.
Tomemos o tema da “senso comum”, que, em epistemologia sempre foi motivo
para muito barulho, porque, na voz de Bachelard, ciência começa depois do
senso comum, ou, em outros termos, depois de se superarem as aparências.
Aparentemente, o sol gira em torno da terra, porque o vemos no horizonte subir
e descer. Os pesquisadores do início do modernismo sacaram que
conhecimento científico não poderia fiar-se neste tipo de conhecimento, por mais
útil que fosse para a vida comunitária, a identidade histórica, a comunicação
rotineira. Santos, achando que Bachelard fizera um corte epistemológico drástico
demais, propõe, com grande argúcia, um segundo corte que pudesse ver o
senso comum não apenas como lixo inaproveitável, mas como parte da
sabedoria das populações (2004; 2007; 2007), e, expressamente em nome da
reinvenção da emancipação social, como aporte da “epistemologia do sul”
(Santos & Meneses, 2009). Trata-se de obra de mérito bem reconhecido, em
particular porque, ao apreciar sabedorias africanas, por exemplo, não as
contrapõe ao conhecimento científico, porque não são rivais aí, mas são
manancial indispensável para qualquer proposta emancipatória que promove a
autoria.
No entanto, este posicionamento é por vezes mal interpretado. Quando
se busca valorizar o senso comum, o fazemos, não porque seria substituto do
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

conhecimento acadêmico, mas porque tem valor próprio antropológico e


epistemológico, como patrimônio comunitário e cultural. Em termos
emancipatórios, porém, senso comum não tem força suficiente para romper a
subalternidade, porque, na prática, é parte desta. Como não rompe as
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aparências, facilmente leva o oprimido a esperar a liberdade do próprio opressor,
sem jamais interpor o devido confronto que não vem da visão imediatista e
tradicional, por vezes cheia de crendices e magias, dos excluídos. O que rompe
com a postura subalterna tradicional é conhecimento acadêmico, formalizado,
analítico, crítico autocrítico e que os excluídos não sabem manejar, como regra.
Aí entra, quase sempre, a utilidade da pesquisa qualitativa participante, em geral
sob o patrocínio de Gramsci ou Paulo Freire, na posição de “intelectual orgânico”.
Uma comunidade que valoriza apenas o senso comum não encontra saídas da
opressão, porque é um discurso próprio do oprimido. Quando Paulo Freire fala
de “ler” a realidade, não tem em mente a leitura do senso comum, mas o
desvelamento do que está por trás dele, sobretudo o que se camufla aí. Por
exemplo, pela via do senso comum não se chega a postular que pobreza é
produto histórico imposto, em especial na sua dimensão política (Demo, 2007).
Dificilmente um beneficiário do Bolsa-Família atina para o efeito imbecilizante
que pode ocorrer na condição de mero beneficiário, quando o programa apenas
assiste, acomodando a pobreza, sem porta de saída efetiva. Ter o destino nas
mãos dos outros é a maior pobreza que existe. Mas não chegamos aí pelo senso
comum. Este mais facilmente vai engolir que pobreza é normal, desígnio divino,
má sorte...
Assim, a pesquisa qualitativa, além de valorizar os patrimônios culturais
da comunidade, precisa contribuir para a ruptura histórica, tal qual se modula na
“aprendizagem transformadora” à la Mezirow. O senso comum será útil como
ponto de partida, mas dificilmente como ponto de chegada, porque não
queremos mais chegar ao senso comum; queremos sair dele no que tem de
posicionamentos subalternos. No senso comum há sabedorias imprescindíveis
para a construção de proposta alternativa, evitando que, seguindo a sereia do
conhecimento científico, apenas troquemos de colonialismo ou aportemos em
positivismos manhosos. Embora seja sempre complexo definir conhecimento
científico, é fundamental que a pesquisa qualitativa não abandone esta
preocupação epistemológica, modulando alternativas que sejam de direito e de
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

fato emancipatórias, não acomodatícias da miséria vigente. Mutatis mutandis, é


como passar para um aluno pobre um resumo copiado de um texto, enquanto o
aluno rico se defronta com o texto inteiro e exercita aí sua autoria. O excluído
precisa das armas adequadas para sua luta, não de restos acadêmicos. A muitos
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pesquisadores qualitativos incomoda sobremaneira o colonialismo do
conhecimento eurocêntrico, tão bem questionado por Santos, que, sendo
português, é europeu e disto bem entende. Questionar esta epistemologia
prepotente que, a título de camuflagem objetiva e neutra, pratica todas as
barbaridades contra outros povos marginalizados, é crucial para montarmos
estilos de emancipação com devida autoria do real interessado, mas não
podemos ignorar que o conhecimento mais rompedor que temos é – para o bem
ou para o mal – o positivista vigente. Precisamos saber contornar o positivismo,
mas é importante aproveitar suas reais energias para permitir o confronto de que
os excluídos precisam para sacudir o jugo da história.
Culturas não são inferiores ou superiores; são diferentes. Sabedorias
africanas, por exemplo, possuem sua grandeza própria e não precisam de
“ocidentalização”. Em tese, porque na prática a luta tem mil outras diatribes, o
inimigo não é propriamente o africano, mas o ocidental. Segue que não dá para
se confrontar com o ocidental apenas com sabedorias africanas, porque as
armas daquele são satanicamente mais sofisticadas e efetivas. Se é para haver
confronto emancipatório, precisa-se, no mínimo, das mesmas armas, o que
implica esforço tipicamente injusto de penetrar os recônditos do conhecimento
científico, não para nele se enterrar, mas para com ele se confrontar. Como
Amsden (2009) espertamente anota, se o “resto” se apresentar ao comércio
internacional acreditando na conversa fiada do “mercado livre”, entra como
perdedor. É preciso romper este discurso ideológico, para armar devida contra-
ideologia que, por sua vez, não pode nutrir-se apenas do senso comum, mas
das artimanhas eurocêntricas de sua ciência. É interessante, sobretudo é justo,
que se façam pesquisas qualitativas, nas quais os populares são participantes
ativos, agregando informação própria, sabedorias locais, sensos comuns
rotineiros, discutindo alternativas juntos, mas não precisamos apenas disso para
a emancipação. Esta, se tomada realmente a sério, precisa indicar um corte de
profundidade decisiva, para afastar a libertação farsante que o opressor
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promete. Ao final, o que interessa é a autoria capaz de fazer do excluído o


protagonista da sua própria história.
Este tema pode ser abordado de outra forma, pela via da “educação
científica”. Um grupo de professores de ciência nos Estados Unidos e Israel (Linn
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& Eylon, 2011), dentro de um processo longo de pesquisa, em particular sobre a
utilidade da “aula”, pretendem promover a educação científica com base em
pesquisa e elaboração própria dos estudantes, começando no pré-escolar. A
pesquisa sobre aula concluiu que se trata de didática ultrapassada e
fundamentalmente equivocada, por ser instrucionista, ater-se ao repasse de
conteúdos inertes, manter passivos os estudantes, colocar o professor no palco
errado, não manejar teoria e prática adequada de conhecimento e assim por
diante; não vai desaparecer, porque ainda há funções supletivas, como no caso
de uma palestra, aula magna, ou procedimentos expositivos úteis
complementares. A proposta toma a sério a noção comum nas teorias da
aprendizagem de que ciência se aprende, fazendo ciência. Desde cedo a criança
se familiariza com método científico, linguagem acadêmica, experimentação,
laboratório e passa a conversar sobre o desafio da produção própria de
conhecimento. Ao lado de trabalhar a questão formal do conhecimento, a
proposta insiste no cultivo da questão política formativa, promovendo a criança
como protagonista da sociedade do conhecimento. Trata-se, não só de mostrar
as maravilhas do conhecimento, mas igualmente suas ambiguidades,
problemáticas, colonialismos, para burilar habilidades formativas fundamentais
para a vida: o lugar da autoridade do argumento, a superação do argumento de
autoridade, o trabalho em equipe, a elaboração própria, individual e coletiva, a
escuta atenta dos argumentos do colega, a contra-argumentação civilizada, a
fundamentação tão cuidadosa, quando sempre incompleta, a crítica autocrítica.
Ou seja, o desenvolvimento da cidadania que sabe pensar é ponto dos mais
altos da proposta. E tudo sem aula. Esta é afastada porque induz ao equívoco
tradicional do instrucionismo docente e da subalternidade discente (McCreery,
2010).
A par disso, cultivam-se ambientes virtuais de aprendizagem (AVAs),
porque são fundamentais para desenvolver na criança perícias do tempo atual,
como literacia digital de cunho autoral. Foi montada plataforma específica para
se aprender ciência sem aula, cujo acrônimo sugestivo é WISE (Web-based
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Inquiry Science Environment): nela pode-se praticar a autoria científica em alto


estilo, inclusive experimentação sem riscos físicos (Slotta & Linn, 2009). O uso
de novas tecnologias tem como finalidade explícita o cultivo da autoria discente,
em ambiente lúdico, produtivo, coletivo, de novo agitando qualidade formal e
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política da educação científica. Assoma, então, a convicção bem mais comum
em países como os Estados Unidos de que ciência é uma das bases mais
promissoras emancipatórias, porque mais próxima da constituição do sujeito
autoral. Por certo, na cabeça de muitos educadores agitam-se pretensões
competitivas, preparando a sociedade para disputar a globalização feroz, mas o
acento maior e condigno é o lado formativo da criança que precisa saber apreciar
no conhecimento científico a chance de criar oportunidades, sobretudo de se
fazer oportunidade. É fundamental o desenvolvimento da habilidade crítica
autocrítica, por ser uma das maiores glórias da autoria mais bem posta.
Consentâneas com esta teoria e prática da educação científica, apareceu
em 1993 no Museu de Ciência de Boston, o experimento “Computer Clubhouse”
(Kafai et alii, 2009), como resultado de uma exposição de robótica educativa do
MIT. Alguns adolescentes latinos foram visitar e ficaram encantados, voltando
todo dia. Quando a exposição expirou, ficaram rondando o prédio, à busca de
alguma chance, até o zelador considerá-los em atitude suspeita. Foi quando um
grupo de educadores resolveu montar alguma coisa para eles, ao invés de
criminalizá-los. Numa sala grande foram apostos uns 25 computadores potentes,
com três cadeiras de rodas em cada um, tendo uma mesa ao meio. Não há
professor, aula, prova, currículo. Há mentor, um adulto que coordena o espaço,
orienta, sobretudo mantém algumas regras de jogo, como todo projeto é coletivo,
aceitação simpática de novatos, prazo para ficar na casa, estar matriculado em
escola (a atividade se dá após a escola) etc. Algumas atividades principais são:
animação digital, música digital, robótica, videogames, edição avançada, coding
etc. Os estudantes montam seus projetos coletivos e os levam em frente,
buscando o maior desenvolvimento possível, chegando a condições avançadas
de profissionalização, a ponto de não se interessarem mais pelo estudo (uma
dimensão certamente menos aceitável). De um lado, o experimento mostra que
emancipação é bem possível, fazendo de cada adolescente um autor imponente,
independente e cooperativo; mostra chance não formal de educação (fora da
escola), que rivaliza frontalmente com as instituições formais (Richardson, 2012.
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Rheingold & Weeks, 2012. Peters, 2010). De outro, mostra também riscos da
emancipação competitiva, quando a relação com mercado de trabalho passa a
se sobrepor. De todos os modos, o ponto alto do experimento é a produção e
uso de conhecimento de qualidade elevada, fugindo completamente da tentação
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tão comum de oferecer ao pobre coisa pobre... (Pentland, 2014. Ito et alii, 2009.
Ito, 2009. Hutchinson, 2007).

2.4. DO IT YOURSELF

“Fazer por si mesmo” é uma velha máxima educativa de famílias e


culturas. Em tempos mais remotos tínhamos a prática do “agregado” – que em
inglês se chamava “apprenticeship” – um jovem que passava a viver na casa de
um experto, para, observando-o e praticando sob supervisão dele, tornar-se
profissional em certo ramo (November, 2012. Michalko, 2011). Era um estilo de
educação não formal, não certificada oficialmente, mas, em geral, extremamente
formativa, aliando perícia técnica com práticas de cidadania. O tutor era visto
como alguém que tinha importância não apenas profissional, mas igualmente
sociopolítica. Nos Estados Unidos, “do it yourself” é parte da ideologia liberal de
mercado (Kamenetz, 2010. Knobel & Lankshear, 2010) que cultiva expectativas
do “self-made man” (homem que se faz a si mesmo) no “American way of life”
(modo de vida americano) ou “American dream” (sonho americano). A imigração
clandestina atesta até hoje tais atrações que o país exerce, em especial em
outros de populações amplamente marginalizadas (como México, por exemplo).
Para muitos o “sonho americano” está mais para pesadelo, porque as condições
econômicas se deterioram expressivamente, sem falar nas crises recentes
financeiras (Piketty, 2014). Deixando de lado esta face sombria do modo
americano de vida, exploro aqui apenas o lado “emancipatório e autoral” desta
“pedagogia”.
O “apprentice” (aprendiz) se encostava num experto para trabalhar
chances de montar sua própria autonomia, tornando-se visivelmente autor de
sua profissionalização. Funcionava a expectativa da maestria, construída à
sombra de um mestre, na convicção de que apenas imitar não valia; era preciso
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
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tornar-se mestre. Era costume familiar que o jovem (masculino), completando 18


anos devia sair de casa para se auto-sustentar, correspondendo isso a uma
etapa crítica da formação para a vida. Tinha de achar alguma ocupação
remunerada para, através do salário, construir vida própria, preparando-se
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assim, entre outras coisas, para casar, tendo já amealhado meios próprios. Sair
do aconchego familiar para se auto-sustentar era visto como procedimento
altamente pedagógico (hoje temos o contrário: os filhos ficam na casa dos pais
até quando possível!). Entendia-se que o chefe de família tinha de saber lidar
com tudo que diz respeito à sua sobrevivência, “fazendo tudo por si mesmo”,
sem depender de ninguém. Era parte da economia doméstica, bem como da
profissionalização. A noção sempre teve forte tonalidade competitiva,
considerada normal no mercado, onde a sobrevivência é armada contra a
sobrevivência do outro. Mercado é deus.
Apesar dos lados sombrios desta pedagogia agressiva e mesmo
destrutiva, tem pontos altos importantes para a questão emancipatória. O
acolhimento de um “agregado” implicava compartilhar habilidades, para além da
ferocidade competitiva, porque se aceitava fazer parte do profissional de estatura
elevada e bem reconhecido abrir oportunidades para aprendizes. Um mestre
evolui melhor num ambiente de mestres, onde a emulação pode ser positiva. A
“ideologia” mais forte por trás, porém, é a sugestão de que assistência cabe, se
necessária; preferível é não precisar dela. Vigia uma noção emancipatória mais
nítida da ajuda, que aparece no conceito mal posto de “autoajuda”, já que este
capricha na dependência de fórmulas prontas, provocando atrelamentos
infantilizantes. Assistência inteligente é aquela que instiga a inteligência do
assistido, a ponto de não precisar mais de assistência. O contrário do Bolsa-
Família: este é fundamental como política assistencial – quem não consegue
auto-sustentar-se, tem direito democrático e republicano à assistência – mas, ao
não sinalizar com nada emancipatório, acaba não superando a pobreza, mas
acomodando-a, incidindo no agravamento da pobreza política (Demo, 2014a).
Como anota sarcasticamente O’Connor (2001), o conhecimento da pobreza
aumentou na proporção inversa das soluções tecnocráticas do problema – pobre
é pesquisado por todos os lados, sabe-se muito dele hoje em dia, mais que ele
dele mesmo, mas a questão continua grave no capitalismo, como sempre.
Principalmente, ignora-se o lado da pobreza política, que aponta para a condição
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de massa de manobra, tendo o destino regulado pelos outros. A parte mais grave
da pobreza é esta face “intensa”, embora a pesquisa se dedique apenas ao lado
extenso (Campello & Neri, 2013).
É preciso, porém, levar em conta que nos Estados Unidos, por conta da
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obsessão liberal de mercado, assistência tende a ser mal vista, porque pobre é
preferencialmente estigmatizado como incompetente – quem trabalha, arranja-
se, pois isto é parte crucial do “sonho americano”. Pobreza como processo
histórico de marginalização intrínseca do próprio mercado capitalista é algo
ignorado, em especial por partidos da direita (Republicano em especial). Espera-
se olimpicamente que o mercado resolva isso por seus próprios mecanismos, há
muito tempo descritos como cultivo do autointeresse de tal sorte que redunde
em bem comum! Um milagre que nunca aconteceu. O mercado seria uma forja
sui generis capaz de, privilegiando autointeresses individualistas, acabar
montando um ambiente que atende a todos igualitariamente. Esta balela já foi
desfeita inúmeras vezes e cada vez mais não se acredita nela, em especial após
as últimas crises financeiras, que foram, em parte, debeladas ao arrepio da
ideologia liberal: pela intervenção do Estado e usando também recursos
públicos! (Beinhocker, 2007. Benkler, 2006. Bakan, 2004). Os Estados Unidos
abrigam cifras muito elevadas de pobreza (enquanto a Finlândia tem perto de
5% de crianças pobres, os Estados Unidos chegam a 30%) (Ravitch, 2013).
Com tal pano de fundo, não é fácil defender a noção do “do it yourself”,
porque aponta para uma perspectiva em grande parte lunática para os
marginalizados. Estes teriam uma chance na escola, caso fosse “emancipatória”
– como regra, sendo decadente, pode até reforçar a miséria (Au, 2009.
Popkewitz, 2001). No entanto, isto não desfaz o argumento, sadio em si: a
importância da assistência está em facultar a emancipação, não em substituí-la,
como é o caso do Bolsa-Família. O ideal de auto-sustentação continua de pé e
faz parte da expectativa do pobre: consta que mais de 70% dos beneficiários do
Bolsa-Família consideram o programa como provisório, ou seja, imaginam que
terão um dia que viver com meios próprios. E isto é visto como parte da dignidade
pessoal e familiar. Na prática, o maior argumento em favor desta pedagogia é a
educação familiar, desde sempre. Também sob o manto da evolução
autopoiética dos seres vivos, as famílias entendem que precisam “criar” os filhos,
colocando aí o esforço sistemático e rotineiro de montar condições para a
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
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autonomia. O amor aos filhos combina-se com o desejo de vê-los capazes de


andar com pernas próprias, até sair da família para constituir a própria. É
absolutamente decisivo que os filhos se preparem para conduzir seu destino
autonomamente, tendo a família como retaguarda, mas não como asilo. Assim,
Página | 114
podemos ver a educação familiar bem posta como exercício continuado de
autoria e emancipação, na qual gente experiente cuida que novatos se tornem
experientes, a ponto de poderem disputar suas chances autonomamente.
Esta expectativa sempre esteve presente na política educacional, em
especial na constitucionalmente obrigatória (Gee, 2013), porque se postula que
todos têm direito ao quinhão necessário educacional para poderem arquitetar
proposta própria de vida e trabalho. Embora a argumentação sempre tenha sido
mais propriamente “econômica”, não formativa, abrigava a expectativa formativa
da montagem própria das oportunidades. Educação não só descortina
oportunidades, principalmente torna a pessoa sua maior oportunidade, desde
que devidamente formada e em constante processo de formação (Belfield &
Levin, 2007). Como vimos acima, educação na escola é parceira do
conhecimento, esperando-se deste também impactos emancipatórios, embora a
proposta da escola pública, em geral, tenha decaído para coisa pobre para o
pobre. Hoje temos maior clareza que para sair da pobreza não basta só
educação, porque é uma empreitada bem mais ampla e complexa; assistência
também é fundamental, mas é apoio circunstanciado e que, tornando-se
definitiva, vira antipedagogia. Temos sobretudo maior clareza sobre qual
educação poderia ser emancipatória, não certamente a instrucionista.

2.5. AVAs E TECNOLOGIAS DIGITAIS

Consta que os fundadores do computador e da internet sempre sonharam


que suas instrumentações eletrônicas deveriam reinventar a educação/escola,
não apenas reconfirmar as velharias vigentes (Coleman, 2012). Os hackers
(Levy, 2010), até hoje, são a imagem viva desta agitação emancipatória, em
meio também a peripécias liberais duvidosas, porque novas tecnologias são
extremamente ambíguas (Morozov, 2011). Grande parte do uso das novas
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tecnologias continua instrucionista, enfeitando a aula caduca e digitalizando


apostilas mortas (Demo, 2009). Persiste também a expectativa excessiva sobre
elas, como se aprendessem por nós, substituíssem o professor e facilitassem
sem mais nossas vidas, quando, para a aprendizagem, são apenas
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“instrumentais”, como o livro. Podemos transformar o livro numa alavanca autoral
– ler um autor para se tornar autor – como podemos apenas usar para copiar
texto alheio. Novas tecnologias vão, certamente, muito além de serem meros
meios, porque viraram também “literacia”, ou seja, habilidades digitais mais
intensas, analíticas, autorais são hoje fundamento inescapável da preparação
para a vida e o trabalho. Tornaram-se ubíquas, invadindo também os ambientes
de aprendizagem. Por conta de plataformas que facultam geração de conteúdo
próprio (web 2.0), a assim dita “read/write web” (web para ler e escrever) (West
& West, 2008. Bain & Weston, 2012), novas tecnologias digitais entraram no
espaço da autoria com ímpeto inaudito.
Porque vemos redes sociais usadas tendencialmente para entretenimento
(Ito, 2007), nem todos acreditam que daí possa emergir aprendizagem autoral.
Mas Facebook pode perfeitamente, como um moodle, ser usado para montar um
grupo de estudo, uma pesquisa coletiva, uma produção textual multimodal
compartilhada etc., construindo o que se tem chamado de “comunidade de
aprendizagem” (Smith, 2006). O lado do entretenimento viria como lucro
importante, porque, mesmo não cabendo a veleidade de que só aprendemos
com prazer, pois a vida pede também esforço e sofrimento como referências
formativas, em especial para crianças a motivação interna é mais que crucial,
além de ser a única realmente legítima (Pink, 2009). O experimento mais
convincente atualmente é a Wikipédia, por conta de sua imponente pedagogia
autoral. Cercada de outros problemas angustiantes (entre eles, dificuldade cada
vez maior de mantê-la pública e gratuita, burocratização crescente institucional,
vandalismos constantes, propensão tacanha de vê-la como capaz de substituir
as outras enciclopédias impressas, mania escolar de usá-la como fonte única
etc.) (O’Neil, 2009), aponta para uma comunidade vívida de aprendizagem,
tipicamente autoral e que trabalha com afinco impressionante o lado
emancipatório do conhecimento. Embora, em especial no início, se dizia que
“todos podem editar” (Lih, 2009. Dijck, 2013), para acentuar seu intento de
democratização do conhecimento, desde logo erigiram-se algumas regras
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
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metodológicas para a feitura dos textos: são três básicas – fazer texto “neutro”
(logo explicado que isto apenas significa um texto decente, que mereça ser lido
e tomado a sério); não usar dados pessoalmente amealhados, porque ficariam
sem controle público; ser verificável todo conteúdo editado. Essas regras são
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incipientes, por certo, mas indicam um caminho proveitoso e que eleva a
qualidade científica dos textos, evitando a pecha tão comum de que, tratando-se
de esforço coletivo aberto, qualquer coisa serve, nivelando tudo por baixo.
Hoje a Wikipédia rivaliza bem com as outras enciclopédias, embora não
as substitua, algo mostrado no entrevero notabilizado com a Britannica (Gilles,
2005), quando Nature, fazendo uma comparação (quanto a textos da área de
ciências exatas e naturais), concluiu que se saía muito bem, aprimorando-se a
cada dia, por conta da atividade constante dos wikipedianos de atualização
incansável (Grinnell, 2009. Boylan, 2009. Firestein, 2012. Fields, 2011. Bennett,
2013). Ficava claro que não se tratava de ciência de segunda categoria, para o
populacho e do populacho, mas de um esforço de democratização da ciência
comprometido com suas potencialidades emancipatórias. Ainda vale que “todos
podem editar”, mas acabou acolhendo um “elitismo”, criticável e inevitável, que
conhecimento de qualidade mais elevada solicita. Na prática é o mesmo
“elitismo” do intelectual orgânico que, suprindo a imperícia dos excluídos,
pretende falar por eles, mesmo sem mandato formal. Pode virar tecnocracia
manipuladora – talvez já ocorra isso no Bolsa-Família – porque falar pelos outros
é sempre um imbróglio arriscadíssimo. Mas pode ser um gesto de nobreza
elevada, tal qual supunha Gramsci que deu sua vida pela causa. O elitismo
científico (mais propriamente eurocêntrico) incomoda a muitos educadores
populares, com inteira razão. A cura disso, todavia, não está no nivelamento por
baixo – não ajuda em nada aos excluídos, antes confirma a exclusão tanto mais
– mas no confronto inteligente capaz de usá-lo em favor dos excluídos, pela via
do uso das mesmas armas. Este elitismo aparece candidamente na
nomenclatura da “educação superior”, postulando que outros níveis são
“inferiores”. No confronto cru da vida, são sim, porque não bastam para pleitear
luz ao sol, por mais que esta denominação seja abjeta.
A Wikipédia é exemplo pertinente, também porque, sendo empreitada no
fundo americana, ainda não perdeu o desconfiômetro da pedagogia pública e
gratuita de elevada qualidade. Tenta equilibrar delicadamente a exigência
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metodológica sofisticada que afasta a massa despreparada com o impacto da


democratização, não menos necessário em face dos direitos humanos. Ciência
democrática, no entanto, não pode ser a rebaixada, para os pobres. Este
democratismo – definindo como uso tão chulo da democracia que a torna não
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recomendável – ao invés de colaborar com os excluídos, sacraliza ainda mais a
exclusão. Algo similar vale para o que estamos chamando de “ciência aberta”
(Nielsen, 2012. Cribb & Sari, 2010), abrigando a participação de todos
potencialmente, mas dentro de expectativas de elevação da qualidade científica.
Não substitui a ciência tradicional, nem individualista, embora tenha o charme de
fomentar ambientes coletivos de produção científica. Excluídos precisam de
emancipação cheia, não pela metade, caricatural, ou sarcasticamente invertida!
Na prática, AVAs abrigam como mensagem maior a aprendizagem como
autoria, reforçando o legado das teorias da aprendizagem mais reconhecidas
hoje. Não reinventaram a aprendizagem, até porque podemos perfeitamente
aprender bem sem elas, como sempre fizemos antes. Tem muitos charmes,
como a interatividade, a possibilidade de contato com cientistas de outros países,
montagem de projetos coletivos globais entre estudantes, publicação na web
com feedback de pares ou de peritos, uso de ambientes de videogames que
instigam a construção da autonomia e a pesquisa sistemática, etc., mas o
charme dos charmes é autoria, individual e coletiva. Como vimos no experimento
do Computer Clubhouse (acima), é possível montar chances realmente
emancipatórias, em geral de cunho não formal, nas quais a autoria aparece
nitidamente. Em parte, as tecnologias digitais levam em frente o que as
tecnologias como tais sempre prometeram: emancipar o ser humano das
constrições externas e internas, aumentando seu grau de autonomia (Arthur,
2009. Kelly, 20110). Esta é uma história prometeica, mancomunada com a
ciência modernista, através da qual a criatura se confronta com o Criador,
buscando-lhe tomar o posto. Está escrito isso garrafalmente na engenharia
genética, nas grandes obras de engenharia, no projeto GENOMA, cirurgias
estéticas, etc., onde o ser humano exercita seu potencial criador. Embora
estruturalmente limitado – não criamos propriamente, mas reconstruímos
incansavelmente as condições dadas externas e internas – é suficiente para lhe
subir à cabeça e brincar de deus. Certamente, comparando nossa condição de
hoje com a condição dos primeiros humanos sobre a terra, há diferenças
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astronômicas, pelo menos nas materialidades, ainda que noções de progresso


sejam em geral questionadas, em especial no plano espiritual (Dupas, 2006.
Wright, 2000). No entanto, uma das maiores tecnologias do espírito foi o método
científico (Shapin, 1998), através do qual o mundo eurocêntrico deslanchou uma
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rota de progresso econômico e técnico majestoso e não menos destrutivo,
consolidando sua “superioridade” civilizatória. Alguns périplos das novas
tecnologias também ilustram esta voracidade emancipatória (exemplos da
Microsoft com Gates ou do Facebook com Zuckerberg), que, explorando em
termos capitalistas mananciais públicos do conhecimento e engenharia, se
tornaram fortunas incalculáveis num piscar de olhos.
O ser humano, desde sempre, não se conforma com sua situação dada
evolucionária. Ao dotar-se de consciência mais avançada (Koch, 2012), abriga
aí também o desejo incontornável de superar seus limites, transformando-os em
desafios. Sabendo-se muito limitado, a começar pela morte implacável como o
outro lado da vida, faz de conta que tudo pode, usando para isso certos
expedientes como educação, conhecimento, tecnologia... Como diria Nietzsche,
a vontade de poder devora o ser humano, tornando-o incansável na busca da
emancipação. As tecnologias digitais, para além de suas especificidades,
retomam esta saga da autoria que se quer ilimitada!

2.6. POLITICIDADE DA AUTORIA

Reconstruo a noção de politicidade da aprendizagem, como imaginava


Paulo Freire (1997), em especial como rota da autonomia em sua “pedagogia da
autonomia”. Politicidade (Demo, 2002a) refere-se à propriedade autopoiética de
conquista de espaço próprio, no confronto com pressões/limitações de fora e de
dentro. Trata-se de prerrogativa evolucionária natural dos seres vivos que se
apresentam dotados de energias intrínsecas de autodesenvolvimento como
resultado não só de empurrões externos, estímulos ou cerceamentos, ou de
limitações dadas internas (por exemplo, dos sentidos, da mente, do corpo etc.),
em termos do raio de iniciativa própria possível. É o fundamento da construção
da autonomia, sempre também limitada, mas infindamente aperfeiçoável. Na
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Hipótese, 2016.

contramão disso está pobreza política (Demo, 2007) ou a dificuldade/inabilidade


de cultivar a autonomia, na condição de massa de manobra, coibição de história
própria ou atrelamento do destino nas mãos de outrem 6. A pesquisa sobre
pobreza, seguindo propensões positivistas/empiristas, trabalha apenas o lado Página | 119
socioeconômico (material), deixando de perceber sua dialética de produção
histórica, na qual a exclusão é fabricada. Mais grave que a destituição material
é a destituição política, porque, tornando o pobre objeto de assistência material
apenas, nega-se-lhe a capacidade de reagir como sujeito de história própria
(O’Connor, 2001). Sem desprestigiar políticas assistenciais necessárias para
enfrentar pobrezas extremas (Campello & Neri, 2013), o que mais importa para
o pobre é deixar de ser excluído, o que não pode vir como prêmio dos
opressores, nem mesmo como boa intenção tecnocrática, mas como conquista
própria, ainda que venha a necessitar do apoio de aliados na condição de
“intelectuais orgânicos” ou coisa parecida. Como dizia Paulo Freire, enquanto o
oprimido esperar a libertação do próprio opressor, não tem qualquer chance.
Precisa livrar-se do opressor, por mais que, na dialética da politicidade, o liberto
possa tornar-se facilmente o novo opressor. Em outras palavras, pobre precisa
de oportunidade de autoria.
Quando falava de politicidade da aprendizagem, Paulo Freire tinha em
mente um tipo de educação voltado para a construção da cidadania, mais
especificamente para o que podemos chamar de “cidadania que sabe pensar”,
ou seja, que se aproveita das energias emancipatórias do conhecimento bem
feito, para poder chegar à “conscientização” e à outra “leitura” da realidade,
redundando em projeto alternativo do qual seja autor fundante e fundamental.
Jamais esteve na cabeça dele forjar esta saída por vias degradadas e
degradantes de uso de conhecimento apequenado, ao nível do mero senso
comum, ou de projetos mal enjambrados, ou de propostas apenas assistenciais
ou assistencialistas, como se fosse suficiente para o pobre uma escola pobre
(Popkewitz, 2001). Pobre precisa das armas mais efetivas, não de miséria; esta
ele já tem, sobrando. Não faz sentido propor, por exemplo, que seja alfabetizado

6 Devo aqui fazer um auto-reparo ao livro de 2002 sobre Politicidade, vista como “razão humana”.
Não é o caso aplicar esta noção apenas aos humanos, tanto porque a autopoiese é própria de
todo ser vivo (Maturana, 2001. Demo, 2012), quanto porque alguns diriam que é propriedade do
universo. Latour (2005), por exemplo, aplica a noção “social” a todos os objetos que se
relacionam, não apenas às sociedades humanas (Cerulo, 2011).
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

em até três anos, porque é claramente coisa pobre para o pobre – os filhos
menos pobres não seguem este receituário, porque se alfabetizam logo que
podem, amealhando vantagens sobre vantagens. Os filhos dos professores que
defendem esta ideia insana também não a seguem com seus filhos – só serve
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para o pobre. A questão da alfabetização, claramente, não se restringe à
iniciação escolar, devendo ser vista como “letramento” (Soares, 2004) ou
formação para a vida toda. Mas não é só disso que se trata na escola. A criança
aí precisa resolver, na brevidade possível, esta iniciação, para não ir ficando para
trás e ser enredada na progressão automática sem volta. Na visão de Paulo
Freire, em especial em seu tempo de colaboração com Darcy Ribeiro no
Conselho dos CIEPs no Rio de Janeiro, a escola que poderia levar o excluído à
cidadania que sabe pensar seria aquela de Tempo Integral, hoje mais bem posta
na noção de Escola Integral. Ficar o dia todo na escola era sonho importante,
embora não seja o centro da proposta, por mais que muitos pais vejam nisso um
objetivo imediatista fundamental. O centro da proposta era, finalmente, poder
aprender bem, com professores diferenciados, valorizados, que ficassem o dia
todo na mesma escola e cuidassem da aprendizagem de cada aluno com
atenção individualizada. Deveria também ser escola voltada para o
desenvolvimento da criança, fortemente lúdico, com ostensiva motivação
intrínseca, mantendo a curiosidade infantil e adolescente em alta através de
pedagogias autorias calcadas em projeto, problematização, pesquisa,
elaboração própria... A criança precisa ser vista “integralmente”, como um todo
– o foco na aprendizagem implica cuidar dela obstinadamente. Não vale, como
contraexemplo, de manhã repassar conteúdos curriculares de modo
instrucionista usual e de tarde “entreter” os estudantes ou assistir apenas.
Aprendizagem precisa perpassar todas as atividades, porque o desafio formativo
é que vivifica a escola de alto a baixo. As crianças precisam de ocasião para
exercitar sua cidadania, fazendo assembleias participativas e produtivas,
constituindo sua organização política democraticamente, estabelecendo seus
valores fundamentais escolares e da vida, dialogando com o estafe e docentes,
para cultivarem o senso de autonomia que a politicidade da aprendizagem
implica. A participação da família e da comunidade é vital, porque a escola não
pode ser um “lugar separado”, artificial, mas uma extensão comunitária e familiar.
Os professores precisam de preparação específica, porque, se continuarem os
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

“mesmos”, vai sair a “mesma” escola, apenas com mais “aula”. Este tipo de
proposta ainda é muito estranho entre nós, mesmo na versão atual da EI do
MEC, que aposta no sistema atual de ensino, completamente caduco. (Demo,
2012a). Em geral, o que se acrescenta são aula e trejeitos assistenciais,
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velharias que em nada contribuem para a formação da autoria discente. Temos,
porém, alguns ensaios importantes vinculados à proposta de Pacheco (Pacheco
& Pacheco, 2013), no eco da “Escola da Ponte”, onde se pode apreciar o que é,
de fato, uma EI, sem aula, sem anos ou séries, sem ciclos, com base na
pedagogia de projeto, com os estudantes avaliados pelo nível de autonomia, e
com Ideb 10. Inacreditável!
Muito da proposta se funda no auto-estudo, ou no fomento da iniciativa do
estudante para estudar, pesquisar, elaborar, sob orientação devota dos
professores, sempre disponíveis, mas não dão aulas ou fórmulas prontas. Para
evitar posturas exageradamente individualistas e competitivas, fomentam-se
projetos cooperativos, nos quais se tecem redes colaborativas de aprendizagem,
sob a égide da ideia de “comunidade de aprendizagem”. Comprova-se aí que
todos carregamos dentro de nós o ímpeto autopoiético evolucionário e biológico,
desde que acolhido no ambiente adequado. As crianças podem gostar da escola,
de estudar, de enfrentar projetos desafiadores, também em matemática e
ciência. Parte do esforço dedica-se a superar a escola como prisão, separação,
disciplinamento, na visão pejorativa de Foucault (1977a), para transformá-la num
espaço de desenvolvimento espontâneo e cuidado da criança. À primeira vista,
pode-se ter a impressão de algo largado, espontaneísta, mas na prática, a
presença sempre de perto dos professores indica que tudo tem seu ritmo e tudo
está dentro de metas perseguidas com afinco e respeito ao ritmo de cada qual.
A avaliação por nível de autonomia pode dar a impressão leviana de “avaliação
nenhuma”, porque, não havendo provas ou “notas”, foge-se de avaliar. É todo o
contrário na realidade: avalia-se tanto mais rigorosamente através do que os
estudantes produzem, fazem, escrevem, ou seja, avalia-se a autoria crescente,
observada sob a noção de nível de autonomia. Perfeito!
Na escola tradicional, o lado formativo é caricatural, não só porque não se
sabe onde colocar na “grade” curricular que só tem aula, mas principalmente
porque o próprio repasse de conteúdo é tão mesquinho e enganoso, que mais
parece “deformação”. A politicidade só aparece pelo avesso: como pobreza
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

política da escola, do estafe, dos professores, dos estudantes – somando tudo


que se faz na escola, chegamos facilmente a zero: nada de aproveitável para o
futuro dos estudantes, em especial nada que fomente sua
autonomia/emancipação. O drama, na verdade, começa de cima. Professores
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são, como regra, muito mal formados, porque se “deformam” em cursos de
pedagogia e licenciatura que facilmente são os piores da universidade e sua
profissão está entre as mais rebaixadas – professor facilmente é encontrado
entre profissões com nível médio “auxiliares” (Demo, 2014b). Em sua trajetória
profissional nunca foram exigidos como “autores”, ou gente emancipada,
marcada para enfrentar a vida em condições muito mal postas e com
oportunidades apertadas. É uso (ou vício) dar aula sem autoria, porque na
faculdade era isso a regra. Uma das prerrogativas pertinentes do modelo
finlandês é exigir nível de mestrado como condição mínima para a docência
escolar e que, segundo muitos autores (Sahlberg, 2010. Ripley, 2013. Darling-
Hammond & Lieberman, 2012), seria a chave principal do êxito pedagógico: no
mestrado exige-se uma dissertação com pesquisa própria, o que faz “cair a
ficha”: o docente nota que não aprende com aula, mas pesquisando/elaborando,
produzindo conhecimento próprio e em ambiente de aprendizagem permanente.
Em nossa escola, não há rastro de autoria docente, o que leva a não existir
também entre os discentes que são tratados à aula e prova, nada mais. A
politicidade comparece aí pelo avesso, como imbecilização.
Contudo, é indispensável entender politicidade em seu devido lugar. Há
dois vícios sobretudo em seus exageros e mal-entendidos. O primeiro é
“politização” (aparelhamento) da escola como centro de doutrinação partidária,
entendendo-se formação como evangelização ou coisa parecida. A politicidade
própria da escola não é “politicagem” típica dos politiqueiros, mas aquela
devidamente instrumentada pela autoridade do argumento, da fundamentação
acurada e aberta, do conhecimento discutível dotado de validade relativa, crítico
autocrítico. Isto pode aparecer quando a greve se torna “curricular”, organizada
de cima para baixo por grupos aparelhados, em geral por professores pouco
afeitos à sua profissão formadora dos estudantes, também porque a adesão aos
sindicatos ainda é mínima (menos de 20% do professorado). É bom lembrar que
na Finlândia praticamente todos os docentes se sindicalizam e os sindicatos se
arrolam sempre entre as instituições de apoio às reformas pedagógicas. É
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

fundamental a participação sindical docente, porque, sendo cidadania ativa


ponto alto da formação estudantil, esta precisa aparecer gloriosa no professor.
O que questiono é o aviltamento da greve como apelo rotineiro apenas para
justificar a cúpula sindical. Embora dificilmente exista uma greve imprópria ou
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injusta no meio docente, dada sua condição de miserabilidade encardida (com
poucas exceções) de trabalho, profissão e qualidade de vida, greve não pode
virar penduricalho costumeiro ou recurso para qualquer coisa. O segundo vício
é o que chamo de “politicalha”, conotada pelos democratismos que fazem
chacota da democracia, induzindo a que não valeria a pena. Vejo isto, por
exemplo, na proposta de “gestão democrática” do atual Plano Nacional de
Educação (Demo, 2012a) que, despreocupado com a aprendizagem na escola,
pretende “gerir” o atraso. Vejo isto também no rebaixamento das pedagogias e
licenciaturas, em políticas que nivelam por baixo, como a teoria dos ciclos, ou
como a condenação de cursos “não presenciais” na formação docente, ou no
silêncio sobre as universidades que são as mães da miséria docente escolar.
Vejo isto ainda em apelos forçados de participação do estudante na eleição do
diretor da escola, como se fosse um ambiente de prefeitura da política
tradicional, a um passo de colocar para votação em assembleia se ainda vamos
ficar com matemática no currículo. Existem questões técnicas que não passam
pela votação popular, como mérito técnico, por exemplo: não vale fazer uma
assembleia no avião para eleger um piloto, porque piloto não se faz via
assembleia... Creio que diretor de escola precisa, sim, ser “eleito”, também para
que exercitemos cidadania de verdade na escola, mas sua eleição precisa
também prever algum teste de sua competência técnica, não apenas de angariar
votos à la politicalha.
Politicidade precisa ser devidamente bem feita para não ser tiro pela
culatra, ou seja, politicagem, politicalha. Para tanto, é fundamental saber
conjugar elegantemente educação e conhecimento, no diapasão da qualidade
formal e política. Uma não se faz à custa da outra, mas em contexto de
cooperação e confronto. A ideia é fazer educação no conhecimento e
conhecimento na educação, tal qual é o projeto dos professores de ciência citado
acima (Linn & Eylon, 2011). Se levarmos em conta a proposta do “educar pela
pesquisa” (Demo, 1996), trata-se de combinar ambos os termos no mesmo
processo: educar pela pesquisa e pesquisar para formar melhor. Primeiro, não é
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

o caso separar os termos, como se faz na escola e na universidade. Por exemplo,


extensão, vendida como lugar da formação cidadã na universidade, é
procedimento externo, voluntário, eventual; não é curricular, não é parte
intrínseca da vida do estudante e do professor. Segundo, ao unir ambos os
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termos, é preciso fazê-lo compondo as dinâmicas integrais, não prejudicando a
qualquer lado. Educar é formar; formar é educar; conhecer é educar; conhecer
é formar. O aluno se forma pesquisando, o que denota que pesquisa não vale
só como procedimento metodológico formal de fabricação de conhecimento, mas
como ambientação formativa: no próprio contexto da fabricação do
conhecimento deve ocorrer o processo formativo (Bok, 2007. Arum & Roksa,
2011; Wagner, 2008; 2012). Quando o estudante aprende a preferir a autoridade
do argumento, a fundamentar sem fundamentalismo, a apreciar a força sem
força do melhor argumento (Demo, 2011c), a ouvir com atenção o outro, a aceitar
que suas ideias sejam discutidas, contestadas e mudadas, não faz só ciência;
está construindo a cidadania que sabe pensar. Por outra, no processo de
formação acurada implica saber produzir conhecimento próprio do melhor
quilate, para aproveitar dele tanto mais o potencial emancipatório. Uma das faces
mais formativas é o desafio da crítica autocrítica para preservar a politicidade
como jogo de ideologias abertas que continuam aprendendo entre si, contra si,
para si.
Na verdade, a grande descoberta do conhecimento científico não foi a
crítica, mas a autocrítica, que hoje vem empacotada sob o epíteto de “novas
epistemologias” (Demo, 2011c), embora tenham origem socrática. A exigência
hoje tão atual de conhecimento “autorrenovador”, que se reinventa ao se fazer,
mantendo-se sempre aberto à reconstrução sem fim, como é o caso tão vívido
da Wikipédia ou da assim dita ciência aberta (Nielsen, 2012) que tem como fonte
mais específica a habilidade de autocrítica – toda crítica honesta começa pela
autocrítica para que o crítico não tenha o desgosto de ter de engolir que o
primeiro a ser criticado é o crítico em pessoa! A cidadania que sabe pensar não
precisa vociferar, ofender, machucar, fraudar; precisa “argumentar” com dose
máxima de autocrítica. Ao mesmo tempo, este posicionamento leva ao concerto
complexo das validades relativas, sem serem relativistas: toda argumentação
vale por seus fundamentos, não pelas autoridades que a cercam, que têm
validade apenas relativa; esta pode ser muito aperfeiçoada, dependendo da
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

“pesquisa”, mas nunca será peremptória. O bom pesquisador é modesto. O


ignorante é fátuo.

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2.7. AMBIGUIDADES DA AUTORIA

Nosso estudo sobre metamorfoses da autoria indica que se trata de


dinâmica extraordinariamente ambígua, tendo nisso também uma das faces de
sua riqueza exuberante. É um feixe excitado de energias vibrantes,
contraditórias, perdulárias e desiguais. Num sentido bem concreto,
principalmente evolucionário, somos todos autores natos, por conta da
autopoiese, uma dinâmica reconstrutiva de dentro para fora que todos os seres
vivos possuem (talvez se aplique ao próprio universo como tal). Não só humanos
são autores ou atores (Latour, 2005. Cerulo, 2011) – este humanismo do próprio
umbigo não vale mais – todas entidades que evoluem, o fazem movidas por
dinâmica intrínseca que pode (precisa) de empurrões externos, mas se realiza
internamente, como autoria. Neste sentido cósmico, o universo é gesto bilionário
de autorias que combinam e se defrontam, provocando uma forja inaudita de
reconstruções retumbantes. No ser humano, autoria se torna ainda mais aguda,
porque em parte se torna autoconsciente, para o bem e para o mal. A linguagem
comum e mesmo científica ainda descreve tais dinâmicas como “reprodutivas”,
porque se fixa numa visão evolucionária parada, linear, sequencial. Como a
biodiversidade não pode ser negada, é explicada por falhas no código da vida e
da natureza, ao invés de apreciar a estonteante habilidade de combinar códigos
repetitivos com a sofreguidão pela inovação, ironicamente. Por trás da música
há um código de notas e escalas (12 semitons), restrito, pequeno e dele
emergem todas as melodias até hoje inventadas, numa profusão e variedade
incalculáveis, indicando que os códigos são essenciais para estruturar a
criatividade sem com isso comprometê-la necessariamente. O alfabeto também
é limitado, assim como a notação matemática decimal, como qualquer algoritmo
(Berlinski, 2000). Mas permite a poesia que, de certa forma, brinca com códigos,
rompe-os, mistura-os, confunde-os, porque a criatividade supõe indisciplina,
fundamentalmente.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

Quando se fala de autoria, porém, não se tem em mente este plano


genérico da autoria coletiva de todas as entidades autopoiéticas, mas as autorias
rivais em sociedade, num jogo constante, em geral também sujo, de usurpação
de espaços de poder e influência. Esta percepção também é vista na evolução,
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em especial em sua versão competitiva, inspirada no mercado liberal:
sobrevivência do mais apto. Alguns matemáticos contestam esta visão, porque,
trabalhando com modelagens formalizadas, não seria difícil perceber que
cooperação supera, como regra, o individualismo agressivo/destrutivo (Nowak,
2011) – é mais fácil sobreviver cooperativamente, ainda que cooperação deva
ser entendida “dialeticamente” como composição sempre conflituosa de
autonomias ativas (Wilson, 2012. Boehm, 2012). Não deixa de ser irônico que
logo a ciência mais formalizada, quase um código ambulante, a matemática, se
preste a mostrar o lado não linear, complexo da realidade, contraditando o
reducionismo obcecado do método científico usual. Assim, quando falamos de
autoria, temos quase sempre em mente seu desafio em sociedade e,
consequentemente, modos de promovê-la, desde a criação em família, até aos
espaços formais e não formais da educação e conhecimento. Aí, autor não é
qualquer um, mas quem se destaca. Autoria não destacada, não “distinta”, como
diria Bourdieu (1984), não vale. Certamente, autoria sempre anda próxima ou
mesmo se confunde com competitividade, em particular no mercado liberal.
Educadores precisam saber distanciar-se disso, sem ignorar esta realidade, já
que, na práxis, retiramos o sustento do mercado, não de “filosofadas”.
Com tais cautelas em mente, podemos arrolar algumas dimensões da
complexidade autoral, entre elas:
a) não existe o autor consumado, último, completo; se autoria pressupõe
um movimento de elevação infinda através de seu cultivo constante, também
precisa admitir que não se chega à perfeição; é aperfeiçoável, nunca perfeita; a
tese da “morte do autor” exagera na dose, mas tem sua provocação cabível, ao
indicar que, sendo sempre fundamental na produção dos textos, nem sempre
precisa ser a peça mais importante; na autoria inspirada divinamente, o autor era
figura bastante irrelevante para os crentes, embora para exegetas a vigência de
gêneros, estilos, alocuções, gramáticas indique que o lado autoral (mundano)
conta muito; no romantismo, a expectativa de autoria se exacerbou, também
impulsionada pela ciência modernista que exigia, para substituir o argumento de
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

autoridade (agora invalidado) pela autoridade do argumento; subsistia uma


“autoridade”, mas aquela do argumento aberto, tão bem fundamentado, quanto
sempre falsificável; autor não é deus, semideus, ser superior, embora possa ter
luz própria inconfundível;
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b) autorias possuem tipicamente validades relativas; como são mortais,
os autores, mesmo quando muito renomados e incrivelmente criativos (digamos
um arquiteto como Niemeyer, para falar de alguém de nosso tempo) expressam
suas virtudes e limitações; não são propriamente “criadores”, porque do nada
vem nada, mas reconstrutores, em sentido tipicamente autopoiético: todo ser
novo vem de outro ser prévio; disto não segue que se trate apenas de
“reprodução”, mas sempre existe, em qualquer processo criativo, um trecho
também reproduzido; embora entre autores de renome rolem imensas vaidades,
é comum ouvirmos que grandes obras só foram possíveis por conta de
contribuições anteriores (Newton falava de sua inventividade por conta de poder
estar nos ombros de gingantes anteriores; também Einstein); assim, nenhum
autor inaugura a autoria do nada, sem precedentes, como se surgisse do além;
nem sempre é agradável a autores admitirem-se mortais, em especial quando
são badalados em público e movimentam massas e fundos; validade relativa é
facilmente confundida com relativismo, inadequadamente: em termos
existenciais não há validade absoluta (a não ser em dimensões formais,
possivelmente), porque todos os autores vão até certo ponto, onde são
continuados por outros, e assim indefinidamente; validades relativas valem sim,
como uma dia música clássica valeu enormemente, e hoje, um pouco ou bem
menos;
c) autoria é um feixe de autores; esta é maneira de expressar que autores
não dominam sua autoria, porque todos temos motivações inconscientes, que,
aliás, predominam; usamos a linguagem já dada, teorias já feitas, expressões
usuais, obras disponíveis para delas sacar nossa autoria que pode tornar-se
vistosa, desde que não se imagine solitariamente válida; quando se alega que é
a linguagem que fala, alude-se ao lado impessoal da autoria, sequer percebido
pelo autor que, ao exarar, por exemplo, um texto, usa mil suportes já dados e
que reconstrói a seu modo; o autor plenamente consciente não existe, porque
não é condição humana; dificilmente sabemos indigitar influências específicas,
justificar gostos concretos, embasar preferências que se perdem nos recônditos
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

inconscientes; cada autor dá voz a uma algazarra de vozes; muita gente habita
cada autoria; ainda, torna-se, quando criativa, inconfundível: lendo um texto, já
sabemos, muitas vezes, quem é o autor;
d) não se mata o autor; todo texto – para usar o exemplo do texto – tem
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autor, pois não existe texto que caia do céu por descuido, nem mesmo quando
é psicografado; embora exista um espaço para o anonimato, por vezes até
mesmo como direito civil, em geral é subterfúgio duvidoso ou criminoso,
agredindo o que Burke chama de ética da assinatura; para matar o autor urge
um autor, o que flagra a contradição de Barthes: enquanto escrevia sobre a
morte do autor, o fazia como autor; deixando de lado, porém, o charme da
expressão provocativa, o que nela sobressai é que há tantos modos de autoria,
maiores e menores, necessários e supérfluos, instigantes e rotineiros, que o
autor perfeito é impensável; o que se mata é a vanglória, só; a provocação
conclama a refletir sobre a importância de autores cooperarem entre si, ao invés
de se matarem por ciúmes (como na academia), produzirem ambientes de
rivalidades ainda sadias e complementares, sobretudo lembrando que, formada
toda autoria de legados prévios, ficará também como legado;
e) autoria não deveria ser propriedade; inventou-se o copyright para –
assim se diz – proteger autores e, no capitalismo, para incentivar a criatividade,
mas até hoje muita gente se subleva conta esta pretensão, em especial os
hackers (Coleman, 2012); tomando como referência a cultura popular vigente,
muita criatividade é feita a partir dela, sob o formato de remix (Lessig, 2009) ou
coisa parecida; ou seja, vem de algo público que não poderia virar objeto de
privatização; “propriedade intelectual” e mesmo patentes são instituições
fundamentais para a competitividade, mas nem sempre para a criatividade, já
que – reza o credo liberal – produtividade protegida tende à mediocridade; por
conta de abusos do mercado (não só), existe sempre a pirataria, porque,
enquanto um CD pode custar R$100,00, uma cópia pirata pode custar apenas
R$10,00; quando o Google anunciou que iria digitalizar todos os livros do mundo,
acenando com um espaço de acesso público, a reação francesa foi explícita
(Jeanneney et alii, 2007), porque viu aí uma artimanha da privatização; esta
questão se aguçou nas redes sociais que, transitando aí contribuições de
milhões de usuários de forma voluntária e gratuita, acaba sendo privatizada pela
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

via da monetização dos acessos; um dos argumentos mais cogentes,


possivelmente, é que autoria não é algo privado nem no autor...;
f) autoria mais estratégica é a que se faz para continuar aprendendo; ao
invés de ver autor como sumidade acabada, é mais realista tomá-lo como
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aprendiz exemplar; autoria é menos produto do que processo contínuo, através
da qual vamos nos fazendo, refazendo, recomeçando, aperfeiçoando, sem
terminar; é desta prerrogativa que advém a noção de aprendizagem como
autoria ou autoria como aprendizagem, indicando a marca autopoiética ativada
em diapasão maior; o que um autor diz, outro pode desdizer; o que um acha que
concluiu é apenas começo para outro; em nenhum a história começa ou acaba,
apenas continua; autoria aberta é aquela que se expõe, busca complementação,
coopera, rivaliza, para ter, além do proveito individual, utilidade pública;
g) autoria mais inteligente é crítica autocrítica; para se tornar autor, urge
questionar autores e, sempre que possível, ultrapassá-los; no entanto, como
autocrítica é a coerência da crítica, autoria autocrítica é que se renova
constantemente, tendo na autorrenovação sua glória maior; não existe a menor
chance de ser o “mesmo” autor uma vida toda, até porque, quem diz a vida toda
a mesma coisa, não é autor de nada; é como quem dá a vida toda a mesma aula:
faleceu e sequer viu; o movimento permanente de reinvenção da autoria é
propriamente o que há de mais original na autoria;
h) autoria implica emancipação; autor mais destacado é quem supera os
outros, principalmente se auto-supera; pressupõe, pois, disputa por espaço,
prestígio, posição, oportunidade, o que se pode fazer aniquilando ou mesmo
inventando adversários, ou em ambiente de relativa cooperação e conflito;
quando, porém, se trata de excluídos, o desafio da emancipação é extremo,
exigindo armas compatíveis, que não podem ser niveladas por baixo; não
adianta nada apelar para conhecimento desqualificado, educação empobrecida,
treinamentos amesquinhados; é grandioso observar que excluídos possam
tomar o destino em suas mãos, após transes doloridos de confronto e luta, ao
perceberem, em geral com auxílio de parceiros intelectuais orgânicos, que
precisam fazer-se protagonistas centrais do projeto emancipatório;
i) autoria é facilmente soberba; quem luta contra o poder pode acabar
gostando de poder; autoria acarreta em geral a experiência de orgulho pessoal
pela conquista da autonomia, podendo evoluir para pretensões excludentes,
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

quando, se chegar ao poder, se dá conta de que, amealhar espaço próprio


implica reduzir o do outro; o mais perturbador dessa virada pelo avesso é
observar que a hipocrisia dos posicionamentos: tudo que se criticava antes no
poderoso agora não vale para o novo poderoso; antes se dizia que o poder fora
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usurpado, agora é mérito; como poder é traço estrutural da sociedade, não há
propriamente cura, mas há prevenção, como na severa autocrítica;
j) autoria abriga contradições por conta de sua complexidade; em grande
parte, não nos damos conta delas, porque habitam os arcanos da inconsciência;
embora a muitos pareça que viver em contradições seja algo mórbido, pode
também ser saudável, porque somos, sim, um todo partido, em formação e
deformação, com altos e baixos; como sugere Ariely (2012), desonestidade é
apenas a outra face da mesma honestidade; nada é mais desonesto do que
apresentar-se como modelo de honestidade; por isso, assim como não cabe
linearmente vincular obra e vida pessoal do autor, achar contradições na obra é
algo normal, talvez mesmo animador, porque mostra que a autoria continua em
elaboração; Firestein (2012) mostra como ignorância é alavanca fundamental da
autorrenovação da ciência – quem imagina saber tudo já sucumbiu; autoria é
também um imbróglio sem fim, porque assim somos, na vida real.
k) autoria se manifesta em qualquer iniciativa possível; embora autoria
que realmente interessa seja a que se destaca e marca o contexto, há autores
de todo tipo e calibre – entre as invenções da humanidade contam-se desde
artefatos materiais (tecnológicos sobretudo, em especial máquinas) até grandes
descobertas espirituais, como religiões, não violência, democracia,
espiritualidade, etc.; a autoria de livros é talvez a mais assinalada, por conta de
sua prática acadêmica e literária, mas hoje, no mundo virtual, as autorias se
esparramam em outros ambientes e suportes: no YouTube se fazem vídeos, no
Facebook “amigos”, no Second Life vidas vicárias, nos videogames grandes
vitórias etc.; o mais notável na web é que seria possível vê-la como cenário
infinito das autorias (como diz Weibnerger, too big to know – grande demais para
se conhecer) (2011), embora, na contramão, seja também o lugar dos plágios
infinitos;
l) são infindos os matizes da autoria; internautas gostam do termo remix
(Lessig, 2009), para indicar que na web nada se cria, tudo se recria (alguns vão
dizer “se copia”!); remix, porém, admite gradações infinitas, desde produtos
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

quase copiados ou pirateados, até um imponente texto da Wikipédia; autores


são de grandezas incrivelmente diversificadas, desde vacas sagradas quase
inatingíveis, como os detentores de prêmios (em particular Nobel), até os simples
mortais que se agregam no séquito comum; muitos autores são “amadores”, dos
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quais grande número apenas “chuta”, mas há aí também inovadores notáveis;
em blogs, as autorias também variam desesperadamente: alguns blogueiros
apenas armam um contexto para comentário, valendo qualquer coisa; outros
esmeram-se em cenários acadêmicos, exigindo autorias bem desenvolvidas;
embora cada autoria tenda, com o tempo, a encontrar seu estilo próprio, se
metamorfoseiam constantemente, sugerindo que suas tonalidades são híbridas,
não únicas, lisas, transparentes;
m) autorias mais pretensiosas buscam provocar mudança; espera-se de
autor que se preze que seja questionador, pelo menos um pouco para a
esquerda, para servir de indicação de alternativas; é certo que, muitas vezes,
este gesto é “teórico”, não gerando nada prático, o que lembra a velha crítica de
Marx a quem fica pensando a revolução, mas não suja as mãos (Manifesto
Comunista); mas existe aí uma imagem importante do autor aproximado de
“inovador”, mais bem visível nos inventos tecnológicos; tecnologia, num dos
sentidos mais cruciais na história humana, significa a insatisfação com o que
existe e poderia ser melhorado, superado, mudado (Kelly, 2011); toda tecnologia
nova leva em frente outras que ficam para trás; a nova é apenas a próxima, será
logo superada por outros autores; ressoa aí traço evolucionário formidável
autopoiético que é fazer o lado inventivo superar o reprodutivo, gerando a
biodiversidade como obra prima da natureza; autores mais pontiagudos são
revoltados, indicando ser portadores das dores dos excluídos, assumindo
facilmente o papel (também ambíguo) de “intelectuais orgânicos”;
n) autores são mais descobridores do que criadores; Newton descobriu a
lei da gravidade, não a criou; mas um poeta cria sua mensagem mais
literalmente, ainda que não seja criação do nada, porque esta não existe na
natureza conhecida; Popper, por isso, falava de “lógica da descoberta científica”
(1958); certamente se for processo lógico apenas, será só descoberta; para ser
algo criativo, precisa saltar a lógica, combinar o incombinável, manufaturar
contradições, sair faísca; criação como tal não nos é acessível, porque está fora
do alcance da “criatura” (evolucionária); mas é possível ser “criativo”, dentro das
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

validades relativas da existência concreta; quando inserimos um estudante no


Pibic, para que exercite pesquisa sob orientação de um pesquisador
experimentado, não esperamos que mude a face da ciência, mas que inicie um
roteiro promissor de autoria que vai se aprimorando; mais que resultados
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científicos imponentes, queremos que o estudante pesquisador se forme melhor
(Calazans, 1999);
o) o autor eurocêntrico tem pretensões patriarcais; assim como a ciência
eurocêntrica pretende ser a única forma válida de conhecimento científico, assim
também o autor eurocêntrico se propõe como ápice da emancipação; como diz
Santos com sua expressão “desperdício da experiência humana” (2004) ou
Bauman com a noção de “vidas desperdiçadas” (2005), a autoria eurocêntrica é
prepotente, colonialista e destrutiva de outras autorias, nisto também fazendo
eco ao sistema de mercado liberal competitivo mortal; ficam de fora autorias
femininas, de povos “primitivos”, de regiões marginalizadas, de subalternos, de
pobres, de culturas alternativas, de gente alternativa...; a ONU encarna à risca
esta farsa, começando pelo nome: “nações unidas” é o que lá no existe, a
começar por um punhado de países com direito a veto, seguindo-se a força ainda
inexpugnável de um país como os Estados Unidos e de outros blocos poderosos,
como a União Europeia e, aos poucos, a emergência do poder econômico
asiático (com destaque para China); a grande maioria do mundo não é “autora”,
porque tem seu destino nas mãos de poucas nações desenvolvidas que
consomem quase tudo no Planeta e o estão levando para o esgotamento;
p) autores tendem a exagerar sua autoconsciência; em geral levados pelo
efeito possivelmente emancipatório da autoria, autores fantasiam poderes para
além do cabível no mundo evolucionário (Koch, 2012); autoconsciência em geral
é vista como um dos ápices evolucionários mas igualmente das bravatas
humanas; a evolução, em si, é uma dinâmica inconsciente, do nosso ponto de
vista pelo menos, e nem por isso menos potente; a autopoiese em geral age
imperceptivelmente; autores apregoam-se, em geral, como críticos iluminados,
mas nem sempre com autocrítica suficiente, para se dar conta de que ninguém
consegue estar alerta de tudo ou ver tudo; assim como não nos conduzimos por
completo, ou temos o destino completamente sob comando, não produzimos
nada completo;
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

q) autorias virtuais sinalizam outras metamorfoses; destacam-se


modalidades de autoria coletiva, agora mais possíveis por conta de plataformas
aptas como wiki (sobre a qual se inventou a Wikipédia), participação maciça de
amadores e interessados, formação de comunidades de aprendizagem, e, no
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centro dessa praça sem fim, todas as manobras de plágio, de um lado, e, de
outro, a apropriação capitalista (Jenkins et alii, 2013) da produção
voluntária/gratuita de usuários das redes sociais; a web virou a apostila como
tal, destronando as apostilas impressas, com pelo menos uma vantagem: o que
está na web corre o risco de se atualizar todo dia, o que está no impresso fica
para as baratas; na web está tudo (ou quase), muitas vezes numa apresentação
muito mais pertinente e cativante que qualquer aula, dispensando o “auleiro”,
não, porém, o professor pesquisador/formador; desde cedo, crianças podem
interagir globalmente, entre si, mas igualmente com outros professores pelo
mundo afora, sinalizando modos inovadores de cidadania planetária; ao mesmo
tempo, interações virtuais não substituem as reais (Turkle, 2011. Rosen, 2010).
A metamorfose autoral ganha, no chicote plangente das tecnologias,
novos horizontes todo dia, alguns fantasmagóricos e temerários (Eliot, 2013). As
ambiguidades (Weisbrode, 2012) incluem coisas do arco da velha. Por exemplo,
intervenções cirúrgicas no corpo, em especial as assim ditas “estéticas”, já não
sabem o que inventar, tendo-se pela frente o desejo cada vez mais explícito de
programar os filhos, sua aparência, cor dos olhos, tamanho, sexo etc. Com o
advento do “casamento gay”, as distinções sexuais que, antigamente, tendiam a
ser duas, agora admitem a estas como dominantes, mas lá pelo meio uma
infinidade de matizes. A “definição” sexual era antes dada, definitiva, necessária;
agora nem tanto, valendo hibridezes estonteantes. De fato, a evolução demarca
naturezas dadas (não somos uma tabula rasa) (Pinker, 2002), mas sem
determinações peremptórias, de tal sorte que uma versão invade a outra,
naturalmente, não como erro genético, como antigamente se imaginava, mas
como capacidade de misturar para reinventar. Quem sabe, um dia poderemos
passar um tempo como mulher, outro como homem, outro como aí pelo meio e
assim por diante... Quem sabe, um dia vamos mudar o formato básico do corpo
humano, acrescentando um braço, ou mais um olho, ou mais um pulmão, ou
eliminando coisas que perderam o interesse como menstruação, cabelos ou
calvície etc. Quem sabe, um dia viveremos 300 anos, bem, com boa qualidade
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

de vida. Quem sabe, um dia poderemos programar a morte, assim como o


nascimento, como direito natural...
Plasticidade é filha da ambiguidade, ramificada, dissimulada, insidiosa,
esparramada. Não podendo a criatura virar criador stricto sensu, aproveita-se da
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ambiguidade para reinventar-se. Autoria, tipicamente ambígua, mesmo sabendo
que é limitada intrinsecamente, pode brincar de criador, não só no campo das
tecnologias materiais, mas sobretudo espirituais. Como somos, a rigor, uma
tecnologia da natureza, uma prótese bem sucedida, cabe lembrar que o autor
também é produto de outras autorias, sujeito e objeto ao mesmo tempo. Quando
falamos de Inteligência Artificial (Kurzweil, 2005), uma área onde ainda
predomina a propaganda enganosa (Kember & Zylinska, 2012. Fuller & Goffey,
2012), inevitavelmente antevemos um futuro no qual as máquinas que
inventamos irão nos inventar, na mesma blague do Gênesis: Adão e Eva queriam
ser como deuses, conhecendo o bem e o mal. Se as máquinas se tornarem “mais
inteligentes” que nós, o computador talvez venha a ser, na ironia de Christian
(2011), o “humano mais humano”. Autoria é signo de inteligência, mas esta pode
ser apenas esperteza. O que seremos no futuro, se o gênero humano sobreviver
por alguns milhares de anos, é algo muito imprevisível, precisamente por conta
do jogo travesso das autorias tão ambíguas. Poderemos ter desaparecido, sem
mais, porque estamos “investindo” nisso sofregamente através da destruição
ambiental; poderemos ser “outros”, bem outros, irreconhecíveis para nós hoje...
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

CONCLUSÃO: APRENDIZAGEM COMO AUTORIA

Após o percurso desse texto, pode ocorrer a alguém que aprendizagem


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como autoria virou tumulto sem fim. Sendo termo tão ambíguo e escorregadio,
embora muito apreciado em nossa história, parece mais aguar aprendizagem do
que conduzi-la a bom termo. É impressão prematura, porque temos de
aprendizagem ainda visão muito linear, como a da aula instrucionista. Alguém
fala (em geral sozinho); alguém escuta (em geral sozinho); e nesta ligação
linearizada o “conhecimento” de um passa para a cabeça do outro. Isto se
imagina possível (é impossível, inclusive biologicamente) porque nenhuma
autoria foi aí inserida. Um dos lados pertinentes da aproximação entre
aprendizagem e autoria é tomar a complexidade das dinâmicas a sério. Podemos
sugerir que não teremos, nunca, definição completa de aprendizagem ou de
autoria, porque não cabem em delimitações discursivas simplificadas. Qualquer
teoria é uma entre outras, pode ser útil, mas é intrinsecamente incompleta, como
qualquer aprendizagem e autoria. Definir é por limites, porque achamos que
dominamos melhor o que tornamos menor – uma covardia epistemológica,
embora cômoda. É isto que recomenda à escola não assumir teóricos
específicos como patronos, primeiro, porque a necessidade de patrono atrapalha
a autoria, e, segundo, porque autores existem em educação para instigar novos
autores, ou seja, os professores precisam construir proposta própria cuja virtude
maior não é ilustrar as glórias próprias, mas garantir aprendizagem adequada do
estudante. Alfabetizar pode ser feito de mil maneiras, até mesmo de modo
tradicional, desde que dê certo. A regra maior nesse contexto é partir do
estudante, não de teorias prévias, modelos acabados, posicionamentos
intocáveis. Outra regra é ver como a família se comporta: tendo noção em geral
clara de que cria filhos não para si, mas para o mundo, investe tudo que pode na
autoria dos filhos, para que possam, cada dia mais, tomar o destino em suas
mãos. Toda ajuda é fundamental, mas mais fundamental é a ajuda que torna o
ajudado capaz de dispensar a ajuda.
Esta ideia guarda a expectativa de que na escola não queremos
discípulos, mas novos mestres. A glória de um professor é ver seu aluno
ultrapassá-lo. Professor não está aí para disciplinar, coagir, controlar, limitar os
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

estudantes, mas para ajudar a crescerem as asas do voo próprio. Isto não o
torna supérfluo; ao contrário, supérfluo – completamente – é o professor
instrucionista que fantasia poder transpor conteúdos da sua cabeça para a do
estudante, passivamente. Em certo sentido, aprendizagem realmente ocorre
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quando o estudante consegue ir além do professor: este não é limite, mas limiar.
Na prática, porém, a formação da autoria implica idas e vindas, altos e baixos,
bons e maus dias, sangue, suor e lágrimas, ao lado de uma das maiores
satisfações na vida: a sensação de que podemos pilotar nossos destinos, ainda
que relativamente. Realizamos aí, com iniciativa estratégica, nosso destino
autopoiético.
Aprendizagem como autoria não reinventa a roda. Apenas realça
dinâmicas que podem ter ficado adormecidas nas grandes teorias, mas sempre
existiram. Primeiro, todas as grandes teorias têm por trás autores formidáveis
que pressupõem outros, indefinidamente; segundo, todas reconhecem que
aprender é conquista que pressupõe e insufla a autonomia, a voz própria, o lugar
de destaque; terceiro, todas desenham ambientes igualitários, nos quais somos
convidados a nos desenvolver com liberdade, riscos, responsabilidade. A morte
do autor, para além de uma provocação útil, esparge a expectativa de que
poderia haver autor irresponsável, porque sempre manietado a forças
impessoais que não domina. Assim como não podemos nos compatibilizar com
autor pleno, acabado, não podemos igualmente ficar com autor nenhum, porque
não há, autopoieticamente falando, esta figura viva. Viver é autoria,
caracteristicamente. Por isso também é aprendizagem, marcantemente. Apesar
das ambiguidades da autoria, ainda somos relativamente responsáveis pelo que
inventamos ou deixamos de inventar.
Fazer de um estudante um autor é a maior glória do educador autor.
Demo, Pedro. Metamorfoses, glórias e incompletudes do autor. São Paulo: Edições
Hipótese, 2016.

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O AUTOR

Pedro Demo nasceu em Pedras Grandes, Santa Catarina, em


1941, de pais agricultores (viticultores), onde fez a escola primária. Página | 156
Com nove anos entrou no Seminário dos Franciscanos em Rodeio,
SC, e depois em Rio Negro, PR, para, a seguir, cursar até ao
segundo grau em Agudos, SP (até 1960). Cursou Filosofia na
Faculdade dos Franciscanos, Curitiba, 1961-1963. Três anos de
Teologia em Petrópolis e estudo de Música (1964-1966).
Doutoramento em Sociologia, Alemanha, 1967-71. Defesa de tese
em 28/01/1971. Nota máxima, premiada, publicada em alemão em
1973, na Editora Anton Hain, Meisenheim (Herrschaft und
Geschichte – Zur politischen Gesellschaftstheorie Freyers und
Marcuses). Pós-doutoramentos na Universität Erlangen-Nürnberg
(Nürnberg-Alemanha), março a junho de 1983, com Prof. H.-A.
Steger, e na University of California at Los Angeles (UCLA), agosto
de 1999 a abril de 2000, com Prof. Carlos A. Torres.

Regressando ao Brasil em 1971, trabalhou no Centro João XXIII


(Rio de Janeiro), dos Jesuítas, assessorando os Bispos do Brasil
(CNBB). Ao mesmo tempo, foi professor da Universidade Federal
Fluminense, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e do
IUPERJ (Pós-graduação em Sociologia da Universidade Cândido
Mendes). No Centro João XXIII, elaborou/publicou textos sobre a
realidade socioeconômica brasileira, para mostrar aos Bispos as
condições de vida do povo brasileiro, sob a orientação de Pe. Ávila
e Pe. Paulo Menezes. Em 1975 foi contratado pelo IPEA (Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada - Ministério do Planejamento), em
Brasília, para atuar na área social desta instituição. Aí pode
conhecer o país como um todo, ao mesmo tempo que lhe foi
permitido manter sua vida acadêmica (era professor de tempo
parcial na UnB), permanecendo até 1994, quando se aposentou.
Em 1976 ingressou na UnB, departamento de sociologia, onde
tornou-se professor titular em 1982. Passou um tempo no
departamento de Serviço Social, para colaborar na pós-graduação
em Política Social, por ser esta uma área de preferência de atuação
acadêmica e prática. Em 2003 retornou ao departamento de
sociologia, onde se aposentou em maio de 2008. Em dezembro de
2009 foi nomeado Professor Emérito da UnB.