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Atualizado e revisado por:

MARCIO RODRIGUES
Professor autor/conteudista:
EMERSON DA ROCHA
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ou terceiros, bem como o seu fornecimento para divulgação em
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pública, sob pena de responsabilização civil e criminal.


SUMÁRIO
Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4

1. Origens do termo ética . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5

2. Os valores e a existência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

3. O pensamento platônico: a supremacia da razão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24

4. A ética na obra Ética a Nicômaco, de Aristóteles . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33

5. A ética helenística: epicuristas e estoicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43

6. A ética moderna e o pragmatismo de Maquiavel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60

7. O pensamento de Nietzsche . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
7.1 Sócrates e Platão: os primeiros niilistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74

8. A liberdade em Sartre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81

9. Os valores no século XXI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86

Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87

Glossário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90

Referências bibliográficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92


INTRODUÇÃO
Caro aluno,

Este nosso trabalho pretende introduzi-lo no estudo da ética. Muitas vezes, em nosso dia a dia,
deparamo-nos com situações diversas nas quais somos impulsionados a tomar decisões. Também
assistimos notícias diversas que nos fazem tomar uma posição (crítica ou não) a respeito de
determinados assuntos. Falando desta maneira, parece que nosso estudo se pautará em problemas
metafísicos, o que não é verdade. Uma rápida observação da realidade nos permite estabelecer
uma relação entre a ética e as ações presentes em nosso cotidiano. Em outras palavras, a ética
está intimamente relacionada às nossas ações.

No entanto, devemos procurar as origens dessa palavra para verificar uma confusão que
comumente se apresenta no campo da ética e no campo da moral. Afinal, ética e moral são a mesma
coisa? Como veremos em nosso estudo, os dois termos possuem referências próprias, mas que o
seu entendimento caminha junto, isto é, são quase sinônimas.

Na literatura disponível a respeito deste assunto é possível perceber variadas interpretações a


respeito de ética e moral. Umas falam em senso ético e senso moral, outras mais particularmente
em moral e ética somente. Desta forma, o que nos interessa neste estudo é evidenciar como a
noção deste conceito foi se alterando no curso da história da humanidade.

Veremos, na história da filosofia, que o problema filosófico da ética foi concebido por vários
pensadores, desde os gregos clássicos antigos até os contemporâneos mais recentes. Aristóteles,
por exemplo, introduziu a concepção eudaimônica, associando-a às ações humanas, cujo objetivo
final era a felicidade. Os medievais reinterpretaram as concepções antigas e as transformaram
em um caminho até Deus, portanto, o fim último das ações humanas deveria ser sempre Deus. Os
modernos, tentando dar uma visão mais universal do assunto, postularam a racionalidade como
forma suprema de se encarar as ações cotidianas. Na contemporaneidade, por sua vez, a ética
parece pulverizar-se num contexto conturbado de individualização e hedonismo.

Dessa forma, o homem contemporâneo necessita de um norte, isto é, de uma direção segura
para motivar suas ações e, desta maneira, conseguir “sobreviver” comunitariamente num mundo
que o empurra para o individualismo. Mas como fazer? Que caminhos seguir? O que é certo e o que
é errado no mundo atual? Enfim, estas e muitas outras dúvidas serão levantadas durante nosso

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estudo. Esperamos que estas linhas gerais possam indicar quais horizontes são menos prejudiciais
ao homem e seu futuro.

Assim, nosso caminho será pautado a partir das principais formulações constantes na tradição
filosófica e na bibliografia existente sobre o tema, tais como: objeto da ética, essência, obrigatoriedade
e responsabilidade moral, determinismo e liberdade, entre outras, até mesmo as doutrinas éticas
fundamentais.

Não queremos elaborar um tratado sobre ética e moral, mas apenas levantar questões que
contribuam para o avanço e ampliação da discussão a respeito do tema. Portanto, caro aluno, não
espere encontrar respostas prontas ou um manual de ética com indicações fáceis e práticas. Você
verá que todo este conteúdo encontra-se na vivência diária do homem desde que se propôs a viver
em comunidade.

Boa leitura e bom estudo!

1. ORIGENS DO TERMO ÉTICA


Figura 1 – Nuvem de termos

Fonte: https://4.bp.blogspot.com/-zAwbuA0v8oM/WQPHCkoIJXI/AAAAAAAABnw/7i77f9Q5
oc819l5TsRc36KiwmTC2WC_EgCLcB/s1600/diferencas-entre-etica-e-moral-3.jpg.

Em nossos dias, diariamente, estamos assistindo na televisão ou lendo em jornais e revistas


notícias sobre escândalos políticos ou mesmo notícias sobre celebridades que têm determinadas
ações “estranhas” ao que padrão socialmente aceito. Também assistimos a propagandas com
pedidos de doações para entidades que ajudam pessoas, seja crianças ou velhinhos, animais ou
plantas, e muitos outros movimentos, associações ou ONGs que você mesmo pode enumerar. Vemos
cenas de fome, guerras, mortes e as comparamos com cenas de luxo, esbanjamento e abundância.

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Sentimos piedade de alguém que nos pede algo na rua, mas também sentimos repulsa quando
algo que deveria ser destinado à coletividade é desviado para outros fins. Da mesma forma, somos
sempre impelidos a tomar uma posição, a fazer um julgamento diante destas e de outras situações
que se apresentam em nosso dia a dia. Nosso julgamento baseia-se na ideia de bom, justo ou correto
e seu inverso. Ora, numa breve observação, percebemos que este julgamento vai nos impulsionar
a uma ação (protestar ou ajudar). Enquanto comunidade, a ação pode ser individual ou coletiva.
Estamos, portanto, diante de uma situação que envolve a moral.

Aristóteles, em sua obra Política, assume um papel de estudioso das origens das sociedades e
como o homem passa a ser “por natureza, um animal gregário”, diferentemente dos outros animais.
Diz ele:

Como costumamos dizer, a natureza nada faz sem um propósito e o homem é o único
entre os animais que tem o dom da fala. Na verdade, a simples voz pode indicar a
dor e o prazer, e outros animais a possuem [...], mas a fala tem a finalidade de indicar
o conveniente e o nocivo e, portanto, também o justo e o injusto; característica
específica do homem em comparação com os outros animais, é que somente ele tem
o sentimento de bem e do mal, do justo e do injusto e de outras qualidades morais,
e é a comunidade de seres com tal sentimento que constitui a família e a cidade.
(ARISTÓTELES p. 1985, p. 15).

Saiba Mais

Para a leitura complementar, recomendamos os livros:

ARISTÓTELES. Política. Tradução, introdução e comentários de Mário da Gama Kary. Brasília: Editora
UnB, 1997.

Ou

ARISTÓTELES. Política. Tradução de Roberto Leal Ferreira. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

Ora, como “animal gregário” vivendo em comunidade, o homem passa a agir no mundo de acordo
com valores apreendidos de seus antepassados e, desta forma, sua ação se dá a partir desses
pressupostos que chamaremos aqui de valores morais. Esses valores podem ser classificados
e hierarquizados a partir de suas noções de “justo” ou “injusto” ou ainda “bem” e “mal”. Esta
classificação só pode ser feita por seres racionais, participantes de um grupo ou comunidades e que
estejam inseridos num determinado tempo histórico. Simplificando: o ser humano é um ser moral

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que avalia e classifica sua conduta e suas ações a partir de valores morais construídos dentro de
um determinado tempo histórico.

Assim, diante daquelas situações propostas inicialmente sobre os escândalos políticos ou


doações a entidades assistenciais, somos levados a formular juízos morais a respeito das ações
nossas e dos outros. Cada vez que fazemos isso, estamos elaborando uma reflexão a respeito da
nossa própria conduta e da conduta alheia, isto é, dos outros. Portanto, se pudermos sintetizar,
diríamos que moral é um verbo que se conjuga no singular.

Mas nos propomos a formular um raciocínio a respeito de ética e moral. O que vem a ser ética?
O que vem a ser moral? O que são atitudes éticas e morais? A ética surge da moral ou a moral é
que dá condições para que a ética exista? Estas breves indagações motivam nossa busca pela
origem do termo.

Ao consultar o Dicionário de Filosofia de autoria de Nicola Abbagnano, temos duas definições


para iniciar nosso estudo. Diz ele:

Em geral (ética) é a ciência da conduta. Existem duas concepções fundamentais


dessa ciência: primeira, a que a considera como ciência do fim para o qual a conduta
dos homens deve ser orientada e dos meios para atingir tal fim, deduzindo tanto o
fim quanto os meios da natureza do homem; segunda, a que a considera como a
ciência do móvel da conduta humana e procura determinar tal móvel com vistas a
dirigir ou disciplinar essa conduta. (ABBAGNANO, 2012, p. 442).

Saiba Mais

Para uma leitura mais apurada e reflexiva a respeito do termo ética, recomenda-se consultar o
Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano (p. 442-451). Caso queira, também poderá consultar
este dicionário de filosofia online, de forma mais resumida, no link http://www.filosofia.com.br/vi_dic.
php?pg=7&palvr=E.

Também no dicionário de filosofia que acabamos de citar é possível encontrar uma definição
breve do termo moral. Diz ele:

Moral. Este adjetivo tem, em primeiro lugar, os dois significados correspondentes


aos do substantivo moral: primeiro atinente à doutrina ética; segundo, atinente à
conduta e, portanto, suscetível de avaliação moral, especialmente de avaliação moral
positiva. (ABBAGNANO, 2012, p. 795).

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Figura 2 – Moral

Fonte: jorgen mcleman / Shutterstock

A partir destas duas noções iniciais, ainda não é possível dizer o que é ética e o que é moral
em sua essência. Todavia, elas já nos dão algumas pistas do caminho a seguir em busca de uma
definição própria: ambas falam de “conduta humana”. É por esta trilha que iremos seguir.

Em uma rápida olhada na literatura existente sobre o tema, percebemos que este assunto não
é novo nem consensual. Isso nos leva a perceber que a reflexão ética é uma necessidade dos
tempos atuais. Embora ela esteja em variados campos do saber, é na filosofia que ela se encontra
como objeto específico de estudo, seja na metaética, na ética fundamental ou mesmo na ética
aplicada às atividades humanas. Mas por que ela é tão necessária em tempos atuais? A resposta
é simples: a sociedade contemporânea passa por uma grave crise de valores sem precedentes na
história da humanidade. Estamos diante de uma situação paradoxal: de um lado grandes avanços
do individualismo e, de outro, crise de valores. Por isso sua urgência.

Em outras palavras, estamos diante de uma formidável produção de bens simbólicos e materiais
nunca antes vista na história da humanidade. Esta produção crescente e cada vez mais veloz nos
afeta de forma a não mais podermos pensar e refletir sobre elas. Essa dinamicidade nos aponta para

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uma mudança de paradigma, isto é, percebemos que estamos passando de um mundo “natural”
para um mundo “cultural” e tecnológico. E é justamente nesse mundo cultural que se desenvolvem
as ações humanas denominadas éticas. O homem é um ser que cria cultura e, a partir dela, orienta
as suas ações.

Portanto, o homem cria sua própria cultura, seu mundo particular, organizado através de normas
também criadas que o orientam a um determinado fim que é sua autorrealização. É nesse dinamismo
de sua existência que a ética e a moral vão se desenvolver.

O professor Henrique Lima Vaz assim se expressa ao abordar o tema da ética no mundo
contemporâneo:

É do fundo desse paradoxo que se levanta a onda ética a espraiar-se hoje sobre o
mundo, cobrindo todos os campos da atividade humana. Ela parece significar como
que o sobressalto de nossa natureza espiritual em face das ameaças que parecem pôr
em risco a própria sobrevivência das razões de viver e dos valores de vida lentamente
e penosamente descobertos e afirmados ao longo desses três milênios de nossa
história. (VAZ, 2015, p. 8).

Parece emergir dessa urgência a reflexão ética. E nosso trabalho aqui é rememorar as origens
do termo para buscar respostas a estas urgências atuais. Dessa forma, buscaremos o conceito a
partir das contribuições histórias de diversos agentes, seus contextos e suas experiências, os quais
constituem o que chamamos de tradição filosófica. São estes grandes “modelos” de pensamento
ético, construídos no decorrer da história, que nos possibilitarão entender como a reflexão atual
se apresenta. Portanto, falaremos de uma ética geral e os fundamentos que dão sustentação ao
saber ético para que você, caro aluno, posteriormente, possa contribuir também com a reflexão.

Ao avançarmos na busca de uma possível definição do termo ética, encontramos, no mundo


atual, uma certa deterioração do termo – por isso nossa busca. Queremos voltar às origens para
encontrar o “verdadeiro” sentido do termo e, a partir dele, resgatar sua densidade e aplicabilidade
à realidade.

Segundo o professor Lima Vaz (2015, p. 11),

Um estudo sobre Ética que se pretenda filosófico deve dedicar-se preliminarmente a


delinear o contorno semântico dentro do qual o termo Ética será designado e a definir

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assim, em primeira aproximação, o objeto ao qual se aplicarão suas investigações


e suas reflexões, bem como a caracterizar a natureza e a estabelecer os limites do
tipo de conhecimento a ser praticado no estudo da Ética.

Assim, devemos nos aventurar em dois caminhos distintos a saber: um teórico e outro histórico.
Dessa forma, será possível estabelecer um caminho histórico no qual foi se desenvolvendo o sentido
do termo ética e, também, identificar uma literatura existente sobre o tema.

Ao voltarmos no tempo, encontramos as primeiras organizações culturais que produziram o


alfabeto, e delas, a relação semântica entre a palavra e o que ela caracteriza no mundo. O termo
aparece primeiramente em língua grega, caracterizada por um rico conteúdo semântico e que nos
chega através de uma tradição filosófica e de seus grandes sistemas ou modelos explicativos do
cosmo.

Assim, como verificamos anteriormente, ética e moral parecem andar de mãos dadas e possuir
um mesmo significado. Essa designação levanta dúvidas e passa a ser um problema que deve ser
resolvido. Problema este que deve ter surgido em tempos modernos, mais especificamente com
os estudos kantianos. Portanto, antes de Kant temos uma variante semântica a indicar um mesmo
caminho, isto é, ética e moral indicam conduta humana tanto social quanto individual. Depois de
Kant, o problema parece acentuar-se nos estudos hegelianos sobre o espírito objetivo e sua dialética.

De um modo geral, tomaremos os dois termos como sinônimos para iniciar nosso estudo, uma
vez que, no contexto atual, seu uso inadequado assim o tem apresentado. Note que nossa intenção
é demonstrar o objeto de estudo propriamente filosófico neste campo do saber, uma vez que a
separação semântica se dará mais tarde nos estudos de ética propriamente dita e de política, no
qual haverá uma separação entre a vida no espaço público e a vida no espaço privado.

Note que falamos que o termo ética surge primeiramente na Grécia Antiga. Seu uso foi evidenciado
pelos escritos de Aristóteles e designa um tipo de saber (ethike pragmateia), como indicado no Livro
II da Metafísica. Esse saber estava vinculado a um exercício da virtude, isto é, um estudo sobre os
costumes (ethea). Com o aprofundamento das reflexões e dos estudos, este termo passou a constituir
uma das três grandes áreas do saber antigo: a lógica, a física e a ética. Assim, percebemos que, na
língua grega, ethike se vincula ao ethos e que significa um conjunto de normas de um grupo social
e também ao comportamento do indivíduo nesse grupo.

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Figura 3 – Immanuel Kant

Fonte: Nicku / Shutterstock

Segundo o professor Lima Vaz (2015, p. 13),

Na língua filosófica grega, ethike procede do substantivo ethos, que receberá duas
grafias distintas, designando matizes diferentes da mesma realidade: ethos (com
eta inicial) designa o conjunto de costumes normativos da vida de um grupo social,
ao passo que ethos (com epsilon) refere-se à constância do comportamento do
indivíduo cuja vida é regrada pelo ethos-costume. É, pois, a realidade histórico-social
dos costumes e sua presença no comportamento dos indivíduos que é designada
pelas duas grafias do termo ethos.

Ora, partindo do pressuposto acima, podemos considerar a ética como uma ciência do ethos,
isto é, a ética vai passar a designar uma casa, uma morada ou local onde se aprimoram os costumes
através de uma práxis.

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Já o termo moral, cuja tradução foi feita a partir da língua latina, diferentemente da exposição
contida no Dicionário de Filosofia, vem de moralis e mos e passa a ter uma tradução semelhante ao
do ethos grego. Dessa forma, ética e moral passam por uma evolução semântica em suas traduções
posteriores, ambas “designando fundamentalmente o mesmo objeto, a saber, seja o costume
socialmente considerado, seja o hábito do indivíduo de agir segundo o costume estabelecido pela
sociedade” (VAZ, 2015, p. 14).

Saiba Mais

Para uma leitura mais apurada e reflexiva a respeito do termo moral, recomenda-se consultar o
Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano (p. 795). Caso queira também poderá consultar o
Dicionário de Filosofia Eletrônico, de forma mais resumida, no link http://www.filosofia.com.br/vi_dic.
php?pg=7&palvr=E

Portanto, como veremos em nosso estudo, a ética e a moral passam de sinônimas a conceitos
complexos, de simples ação individual e política à oposição entre a motivação e o agir humano,
segundo interesses estabelecidos por uma sociedade. Em outras palavras, o termo moral passará
a designar a práxis individual e o termo ética passará a designar a práxis social.

Saiba Mais

Para aprofundamento nesta questão, sugere-se:

TAYLOR, C. As fontes do self: a construção da identidade moderna. São Paulo: Loyola, 1997.

Dessa forma, pode-se vislumbrar uma primeira definição de ética para nosso estudo, visto que,
no âmbito da práxis, o termo não encontraria tamanha extensão linguística. É a partir do ethos
que se formula um pensamento racional normativo de regulação do agir humano num contexto
histórico-social determinado. Portanto, temos um ethos identificado na sociedade como lei (nomos)
e um ethos situado no indivíduo identificado com a virtude (areté). É neste contexto que Aristóteles
apresenta duas de suas importantes obras, isto é, a Ética e a Política, como partes de um saber
prático.

Retomemos o que diz o professor Lima Vaz:

Podemos, assim, propor uma primeira definição da Ética, de acordo com o conteúdo
semântico do termo. A Ética é um saber elaborado segundo regras ou segundo
uma lógica peculiar, pois o primeiro uso adjetivo do termo qualifica justamente, em
Aristóteles, uma forma fundamental de conhecimento, contraposta aos conhecimentos

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teórico e poiético. O objetivo da Ética é uma realidade que se apresenta à experiência


com a mesma evidência inquestionável com que se apresenta os seres da natureza.
Realidade humana por excelência, histórica, social e individual e que, com profunda
intuição das suas características originais, os gregos designaram com o nome de
ethos. A Ética, portanto, nominalmente definida, é a ciência do ethos. (VAZ, 2015, p. 17).

A partir dessa afirmação podemos concluir que, após as reflexões dos gregos antigos, temos
um objeto de estudo denominado ethos. Este objeto constitui-se num problema filosófico, cuja
reflexão e sistematização do conhecimento, a tradição vinculou-o à ética e à moral.

Assim, a ética nasce entre os gregos antigos como um saber vinculado a uma tradição cultural
que recebe atualizações simbólicas à medida que vai se exercendo na práxis, de maneira “normativa,
indicativa e prescritiva do agir humano”. Portanto, o saber ético é um saber que se vive na prática,
que é pensado na experiência e no hábito dos homens durante a sua construção histórica.

2. OS VALORES E A EXISTÊNCIA
Vimos anteriormente que nossas ações no mundo partem de um julgamento moral, isto é, da
nossa definição particular do que é bom, justo ou correto. Dessa forma, fazendo julgamentos e ações,
agimos no mundo a partir de certos “valores” apreendidos de gerações anteriores. Nos entanto,
estes valores não são fechados em si, quer dizer, o que aprendemos de nossos antepassados não
permanece rigidamente no tempo. Os conhecimentos de certos valores apreendidos passam por
“mudanças” durante o tempo histórico.

Assim, em determinado tempo histórico, o homem transforma os valores recebidos anteriormente


em algo mais prático para sua conduta, atualizando-os. Em outras palavras, elegemos sempre
nossas prioridades valorativas que nos impulsionam para a ação. Dessa forma, os “códigos morais”
vão se “atualizando” de acordo com o tempo histórico.

Esses valores ou códigos morais podem apresentar certa hierarquia para um indivíduo ou
grupo conforme suas noções de bem e de mal ou de justo e injusto, em um determinado momento
histórico. Simplificando, o ser humano é o único animal que consegue valorar suas ações e avaliá-
las segundo critérios racionais.

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Figura 4 – Existência

Fonte: Sonpichit Salangsing / Shutterstock

Como verificamos na história, as comunidades humanas constituídas e organizadas apresentam


variações tanto no espaço quanto no tempo. Assim, os valores também podem apresentar-se de
formas diversificadas em comunidades distintas, o que resultará em códigos morais diferentes.

Daí surgem questionamentos do tipo como devo agir? Que atitudes devo praticar? Que valores
devo seguir? E uma infinidade de outras perguntas que se apresentam ao sujeito pensante. Também
observamos que nessas comunidades os sujeitos fazem escolhas para suas ações. Assim, escolhem,
numa hierarquia de valores, comportamentos que são mais dignos ou mais “valiosos” em relação
a outros comportamentos menos dignos e menos “valiosos” sob o ponto de vista do grupo. São
comportamentos passíveis de louvor e admiração ou o seu inverso, condenação ou censura. Em
ambos, há o processo avaliativo do sujeito, isto é, o seu julgamento moral.

Comecemos, pois, pelo nascimento destas ideias lá no mundo antigo, mais especificamente
na Grécia. Foi lá que surgiu um tipo de pensamento chamado filosófico e que transformou toda a
civilização ocidental. Mas, antes deles, habitava naquelas terras um tipo de conhecimento religioso
que dava sentido à vida daquelas pessoas. Esse conhecimento baseava-se em histórias, às vezes
mirabolantes e fantasiosas, que ensinavam determinadas regras de conduta, ou virtudes, aos seus
ouvintes. São os famosos mitos. Portanto, falar de mitologia é falar do próprio povo grego que
imaginava seus deuses a partir de suas próprias características psicológicas e emocionais.

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O agir humano mesclava-se com o agir divino e, desta forma, propunha modelos de comportamento
que deveriam ser seguidos por todos. Esses modelos pautavam-se na ética e na moral, valores
construídos socialmente durante anos por uma tradição e estabelecidos como meios para se
chegar a um fim, isto é, para se ter uma vida feliz ou uma vida boa. Contudo, esses valores tinham
como pressupostos escolhas individuais que diziam respeito à própria existência e ao sentido que
a vida lhes dava. A busca por um sentido para a vida é que levou os gregos a formular histórias de
deuses poderosos que habitavam o Olimpo e que davam razões para as três perguntas basilares
da humanidade: quem sou eu? Onde estou? Para onde vou?

A partir destas três razões, os gregos formularam outras que estão relacionadas aos valores,
isto é, às escolhas que podemos fazer para se chegar a um fim, a uma vida boa. Dessa forma, esses
valores passam a ser instrumentos ou critério existenciais. Em outras palavras, quando falamos a
respeito do valor da vida humana, estamos falando de algo que é próprio do ser humano, o pensar.
Também é próprio do homem deliberar sobre sua própria existência e, dessa forma, as suas ações
são resultados de escolhas feitas. A partir dessas escolhas é que o homem pode encontrar caminhos
que lhe possibilitem viver bem consigo mesmo e em comunidade.

Assim, como estamos falando de escolhas e estas envolvem valores, comecemos estudando a
composição dos mitos na Grécia Antiga, mais especificamente, para nosso estudo, vamos entender
o mito de Prometeu e Epimeteu. Este mito passa a compor uma questão central para nosso estudo:
a ética.

O mito de Prometeu e Epimeteu, relatado pelo filósofo Platão em um de seus diálogos intitulado
Protágoras, fala da natureza humana e de suas limitações e da necessidade de criar valores para
“completar” o que a natureza não pôde oferecer. Desse modo, percebemos que o mito é um símbolo
com muitos significados, uma vez que se apresenta em forma de história que fascina. Também
é possível reconhecer no mito algo relacionado à nossa própria história e aí a relação fascinante
estabelecida entre o indivíduo que conta a história e a própria história.

Saiba Mais

O Mito de Prometeu e Epimeteu aparece numa palestra do Prof. Clóvis de Barros Filho que está
disponível no link https://youtu.be/mi3wv5dgNJo (acesso em 30 jul. 2017). Este mito também pode
ser encontrado nos versos do poeta Hesíodo, intitulado Teogonia.

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Comecemos, então, pelo mito. Narra a história platônica que num diálogo entre Protágoras e
Sócrates. Havia uma discussão sobre a virtude e se esta é possível ser ensinada, isto é, transmitida a
outros homens através da educação. Num primeiro momento, a discussão paira sobre a impossibilidade
de tal empreendimento. No entanto, enquanto os argumentos são colocados na discussão, surge
a ideia de que a virtude pode sim ser ensinada. Então Sócrates pede a Protágoras que conte aos
presentes, devido à sua grande experiência, como isto seria possível.

Protágoras então se dispõe a argumentar sobre o assunto, mas prefere contar um mito, como
forma de se fazer entender melhor. Ao narrar o mito, Protágoras assim se expressa:

Houve um tempo em que só havia deuses, sem que ainda existissem criaturas
mortais. Quando chegou o momento determinado pelo Destino, para que estas
fossem criadas, os deuses as plasmaram nas entranhas da terra, utilizando-se de
uma mistura de ferro e de fogo, acrescida dos elementos que ao fogo e à terra se
associam. Ao chegar o tempo certo de tirá-los para a luz, incumbiram Prometeu e
Epimeteu de provê-los do necessário e de conferir-lhes a qualidades adequadas a
cada um. (PLATÃO, 2002, p. 64).

Figura 5 – Deuses

Fonte: intueri / Shutterstock

No relato então aparece a figura do homem sendo criada pelos deuses. Seres mortais que
estariam à serviço dos desígnios dos deuses, ou, nas palavras de um antigo professor de filosofia,
“[...] os deuses criaram os seres mortais para acabar com o tédio que a vida sem as guerras havia
trazido”. Em outras palavras, para a mitologia, os mortais são resultado de uma “brincadeira” dos
deuses.

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Saiba Mais

Para se aprofundar no assunto, recomendamos a seguinte leitura:

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. Jaa Torrano. 6. ed. São Paulo: Iluminuras, 2006.

Continuemos com a narrativa:

Epimeteu, porém, pediu a Prometeu que deixasse a seu cargo a distribuição. Depois
de concluída, disse ele, farás a revisão final. Tendo alcançado o seu assentimento,
passou a executar o plano. Nessa tarefa, a alguns ele atribuiu força sem velocidade,
dotando de velocidade os animais mais fracos; a outros deu armas; para os que
deixara com natureza desarmada, imaginou diferentes meios de preservação: os
que vestiu com pequeno corpo, dotou de asas, para fugirem, ou os proveu de algum
refúgio subterrâneo; os corpulentos encontravam salvação nas próprias dimensões.
Destarte agiu com todos, aplicando sempre o critério de compensação. Tomou essas
precauções para evitar que alguma espécie viesse a desaparecer. (PLATÃO, 2002,
p. 64).

Desse relato, percebemos que as coisas e os animais criados pelos deuses exerciam uma função
específica na terra, também recém-criada. Ao incumbir a dois semideuses esta tarefa, Zeus coloca
“ordem” no mundo, isto é, procede a um ordenamento no cosmo. Porém, para o homem moderno,
cuja racionalidade o eleva a um status divino, passa a ser um tanto assustador ser criado por deuses
e também ser fruto de uma “brincadeira” divina.

A narrativa prossegue:

Depois de haver providenciado para que não se destruíssem reciprocamente, excogitou


os meios de protegê-los contra as estações de Zeus, dotando-os de pelos abundantes
e pele grossa, suficientes para defendê-los do frio ou adequados para tornar mais
suportável o calor, ao mesmo tempo que servissem a cada um de cama natural,
quando sentissem necessidade de deitar-se. Alguns dotou de cascos nos pés; outros
de garras, e outros ainda de peles calosas e desprovidas de sangue. De seguida,
determinou para todos eles alimentos variados, de acordo com a constituição de cada
um; a este ervas do solo, a outros frutas das árvores; a terceiros, raízes, e a alguns,
ainda, até mesmo outros animais como alimento, limitando, porém, a capacidade

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de reprodução daqueles, ao mesmo tempo em que deixava prolíficas suas vítimas,


para assegurar a conservação da espécie. (PLATÃO, 2002, p. 65).

Note que, pela narrativa feita por Protágoras, os deuses são seres bons que tudo proveem às
suas criaturas. O relato apresenta como as coisas e os animais apareceram sobre a terra e como
desenvolvem, cada um à sua maneira, os métodos de subsistência, próprio de cada espécie. Até
este ponto tudo parece perfeito. Cada um tem os meios necessários para manter a vida na terra,
reproduzir-se e perpetuar a espécie. No entanto, na tentativa de ser justo com todos, Epimeteu
distribuiu todos os dons entre as plantas e os animais. Quando Prometeu volta para verificar como
foi o trabalho de Epimeteu, nota que falta algo: dons para os homens. Não havia mais nada para
prover às criaturas, uma vez que Epimeteu tinha distribuído tudo.

Sabendo disso, e temendo a ira de Zeus, Prometeu roubou o fogo do palácio de Atena e o entregou
aos homens para que pudessem gerir a própria existência, caso contrário, seriam criaturas débeis
e sem defesas diante das hostilidades da natureza.

Vejamos como isso aconteceu no relato mítico:

Como, porém, Epimeteu carecia de reflexão, despendeu, sem o perceber, todas as


qualidades de que dispunha, e, tendo ficado em ser beneficiada a geração dos homens,
viu-se, por fim, sem saber o que fazer com ela. Encontrando-se nessa perplexidade,
chegou Prometeu para inspecionar a divisão e verificou que os animais se achavam
regularmente providos de tudo; somente o homem se encontrava nu, sem calçados,
nem coberturas, sem armas, e isso quando estava iminente o dia determinado para
que o homem fosse levado da terra para a luz. Não sabendo Prometeu que meios
excogitasse para assegurar ao homem a salvação, roubou de Hefesto e de Atena a
sabedoria das artes juntamente com o fogo [...]. Assim foi dotado o homem com o
conhecimento necessário para a vida, mas ficou sem possuir a sabedoria política
(PLATÃO, 2002, p. 65).

Portanto, partindo desse relato fica claro que a existência do homem foi obra de uma “brincadeira”
divina. Mas, se observarmos bem, a narrativa possibilita entender que muitas coisas passam a fazer
sentido a partir da “sabedoria” humana, isto é, da inteligência que o homem foi dotado para lidar
com as circunstâncias de sua vida. Uma delas tem a ver com a criação de valores que possibilitam
uma existência comum e também um objetivo comum, que é a busca pela felicidade. Sartre, mais à

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frente no período contemporâneo vai falar que o homem é “um ser faltado”, isto é, apesar de todas
as suas características, ainda lhe falta algo e é este algo que ele almeja alcançar para lhe completar.

Figura 6 – Existência humana

Fonte: agsandrew / Shutterstock

Na narrativa mítica percebemos que a criatura dispende de alguns dons, mas lhe faltam outros.
Por isso, necessita constantemente atualizar-se para melhor viver e, desta forma, encontrar o que
tanto almeja, a felicidade.

Também podemos fazer outras reflexões a respeito desse mito. Por exemplo, o professor Luc
Ferry apresenta duas maneiras atuais de associação à narrativa mítica. A primeira associada às
modernas discussões ambientais, uma vez que Epimeteu dotou todo um ecossistema com as
qualidades necessárias para manutenção de cada espécie. A segunda é associada às técnicas,
com as quais os homens passam a produzir bens e serviços para sua própria subsistência. Dessa
forma, o dom de criar, que era atributo essencialmente divino, foi entregue aos homens para que
pudesse conviver harmonicamente com as outras criaturas. Assim, passa-se a ideia de um cosmo
todo harmônico e organizado.

De fato, segundo o relato, é graças aos dons recebidos que o homem passa a diferenciar-se
dos demais animais pela possibilidade de fabricar objetos e produzir cultura, isto é, produzir bens
imateriais que dão sentido à sua existência. Entretanto, se compararmos o homem aos demais

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animais, perceberemos que não temos todas as características adaptativas dadas a eles. Por
exemplo, não temos um couro peludo para manter o calor corporal diante do frio; também não somos
adaptados à fuga, à defesa ou à caça; não somos velozes (como a lebre), não temos armaduras (como
a tartaruga), não temos coloração protetora (como o tigre); não temos asas (como os pássaros),
enfim, não temos bicos, garras ou acuidade visual. No entanto, o que nos falta naturalmente pode-se
criar artificialmente pela inteligência. Isso significa que somos seres culturais e que modificamos
o “estado de natureza”.

Dessa maneira, boa parte do comportamento animal está vinculada a reflexos e instintos,
portanto,condutas inatas. Agora, em alguns outros animais há a presença de algo a mais, isto é,
algumas reações mais reflexivas. Esta possibilidade dá ao homem o poder de criar uma linguagem
simbólica, ponto este que nos diferencia dos demais animais. Portanto, através da linguagem, o homem
cria cultura e, a partir dela, desenvolve modelos explicativos da realidade e de comportamentos.
Esses modelos visam uma ação individual ou comunitária e são chamados de comportamentos
éticos, baseados em valores criados a partir das circunstâncias em que o homem vive.

E, como vimos no início deste nosso estudo, o homem cria, através de hábitos e costumes,
uma série de normas que possibilitam a vida em comunidade e estas normas são a base deste
nosso estudo, ou seja, a ética. Note que, muitas vezes, esses valores não se encontram escritos
em nenhum lugar, mas são vivenciados pelos homens de maneira inconsciente.

Portanto, para que haja valores e, por consequências, atitudes e comportamentos éticos, é
necessário primeiramente que haja um sujeito consciente de si e dos outros; também é preciso que
haja vontade, isto é, uma capacidade de orientar os desejos e impulsos em conformidade com as
normas; também é preciso que haja responsabilidade, ou seja, reconhecer-se como autor dos atos
cujos efeitos e consequências recaem sobre si e sobre os demais, e por fim, é preciso liberdade
também, dando a si mesmo a possibilidade de autodeterminar-se diante das regras de conduta. Em
outras palavras, o homem passa a ser um “animal político” que age em conjunto com outros homens,
controlando seus impulsos e paixões e submetendo-se racionalmente às regras estabelecidas de
forma autônoma, ou seja, sendo um sujeito ativo e virtuoso no trato social.

Em resumo, se olharmos do ponto de ético, isto é, dos valores criados e aceitos por todos, veremos
como uma cultura e uma sociedade definem para si e para os outros os conceitos que julgam ser
bom ou mal, vício ou virtude e, desta maneira, aqueles valores que consideram virtuosos na medida
que melhor exprimem os seus sentimentos, a sua conduta e as suas ações. Dessa forma, a virtude

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passa a compreender não só uma coisa boa, mas algo excelente, isto é, uma maneira perfeita de
ser, sentir e agir. Dessa forma, a ética passa a constituir não somente uma ação no tempo, mas
visa transformar-se e adaptar-se para responder da melhor forma possível às exigências dos novos
tempos, das novas sociedades e da cultura, pois somos seres históricos e também culturais que
agem no tempo.

Na realidade, os problemas éticos emanam exatamente das muitas possibilidades de viver


a existência que compõem a natureza humana. Em outras palavras, as condições de existência
para os homens são infinitas e, consequentemente, lhes trarão inúmeras crises existenciais. Dito
de outro modo, você já percebeu que parte considerável do sofrimento humano tem uma ligação
maior com as múltiplas possibilidades de escolha do que propriamente com as consequências de
cada uma delas? Quem nunca sofreu por ter que escolher um caminho na vida e, por conseguinte,
deixar de lado inúmeros outros? Por exemplo, escolher uma profissão implica deixar de lado outras.
O mesmo ocorre na escolha dos parceiros nos relacionamentos, das cidades onde iremos viver,
entre outras. Alguns psicólogos chegam a afirmar que existe uma energia que é gasta em cada
uma das escolhas e que, em alguns casos, há uma estafa deliberativa. Ou seja, escolher o tempo
todo cansa e estressa.

O pensamento ético grego leva em consideração essas questões, a ideia de lugar natural, ou seja,
a convicção de que cada homem tem o seu lugar no cosmos e que esse cosmos funciona dentro de
uma ordem. Com isso, cada um que não se encontre dentro dessa ordem estaria prejudicando todo
o funcionamento cósmico. Dito de outro modo, encontre o seu “lugar natural” no universo e seja
feliz. Perceba que o espaço de cada um é dado pela natureza; sendo assim, não há possibilidade
de ir contra ela, uma vez que estaria bem acima das suas forças e possibilidades. Disso decorre a
noção de ordem cósmica. Manter essa ordem, ou seja, que cada um ocupe o seu lugar natural, é
fundamental para garantir a felicidade de todos os homens.

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Figura 7 – Pensamento grego

Fonte: Renata Sedmakova / Shutterstock

Para entender o pensamento ético dos gregos, é de fundamental importância ter claras essas
noções de lugar natural e ordem cósmica.

Como você percebeu, o valor nasce justamente da necessidade que os homens têm de escolher
a melhor forma de vida. Ou seja, trata-se de uma ferramenta que permite a eles conduzir a própria
existência. Neste curso, estamos estudando a história dos valores ocidentais, e a nossa forma de
pensar tem parte considerável dos seus fundamentos no pensamento grego antigo, cristão, europeu
moderno e contemporâneo.

No que diz respeito ao pensamento grego, começaremos com Platão e sua visão racional-dual
do cosmo, passaremos pelo pensamento aristotélico, em especial a obra Ética a Nicômaco. Num
segundo momento, estudaremos pontos relevantes do pensamento cristão. Finalmente, entraremos
em Nietzsche e Sartre. Na realidade, a ideia destas aulas será a de apontar caminhos do pensamento

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ético. Evidentemente, muitos autores ficarão de fora, uma vez que não é possível, no tempo da
disciplina, apresentar com profundidade todos aqueles que escreveram a respeito do tema. Mesmo
assim, o nosso curso dará linhas mestras para uma melhor compreensão dos fundamentos daquilo
que chamamos ética. Veja como o curso está estruturado:

Figura 8 – Delimitação do problema ético

Fonte: Elaborado pelo autor

Acredito que este quadro ajudará a ter um olhar completo da delimitação feita do problema ético.

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3. O PENSAMENTO PLATÔNICO: A SUPREMACIA DA RAZÃO


Como vimos na leitura anterior, os conceitos éticos e morais foram se transformando em diferentes
épocas e sociedades como forma de melhor responder aos problemas criados pelas relações
entre os homens. Vimos também que existe uma relação entre os conceitos morais e a realidade
socialmente construída e que está sujeita às mudanças ou atualizações das escolhas humanas. Em
outras palavras, quando a vida social muda, provoca uma crise nos valores existentes que exigem
uma reflexão e um novo aprofundamento, visando encontrar soluções para este problema. Estas
reflexões trazem atualizações das práticas que substituem as anteriores.

Vimos também que, na Grécia Antiga, o mito lentamente vai sendo substituído por um pensamento
mais racional e, desta forma, perde um pouco a sua importância. No pensamento racional, a
justificação para certas ações e comportamentos do homem passam pelo crivo do debate e da
discussão, formulando novas concepções de mundo, de ações e comportamentos.

Este é o caso que passamos a analisar a partir das contribuições feitas por Platão (427-347 a.C.).
Para efeito de recordação, Platão pertencia a uma das mais nobres famílias atenienses, portanto,
fazia parte de um grupo seleto de pessoas que tinham acesso aos mais variados bens e serviços.
Assim, teve contato com Sócrates, do qual foi discípulo e a quem tinha esmerada consideração por
achá-lo o mais justo e sábio dentre os homens de seu tempo. Também é fundador da Academia,
sua escola filosófica, que muito contribuiu para o avanço do conhecimento humano sobre os mais
variados assuntos, seja em pesquisas científicas, filosóficas ou políticas. Suas ideias transformaram
toda uma cultura e todo o ocidente.

Como sabemos, a maior parte do que nos chega dos estudos platônicos vincula-se ao pensamento
de seu mestre e predecessor Sócrates, tanto que seus famosos escritos em forma de diálogos são
feitos a partir da fala de Sócrates. A literatura existente chega a falar que “toda filosofia ocidental são
notas de rodapé a Platão”. Portanto, para entendermos bem o pensamento platônico, é necessário
retomar alguns pontos de seu mestre Sócrates.

Vejamos o que diz o professor Lima Vaz (2015, p. 94) sobre isso:

Numa perspectiva de história das ideias éticas devemos, sem dúvida, dar primazia
ao Sócrates platônico, pois foi este que Aristóteles reconheceu como iniciador da
Ética, título recebido por Diógenes Laércio e confirmado por Hegel, e é deste que
procede a grande corrente da Ética ocidental.

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Também sabemos que Sócrates foi o iniciador de um período que a tradição filosófica identificou
como antropológico. Desta forma, diferentemente de seus antecessores, os pré-socráticos, a
centralização do processo de conhecimento está no homem, e não mais na physis. Assim, um
estudo mais específico sobre a ética e a moral nasce quando o homem passa a fazer perguntas
para além das simples questões de costumes e hábitos. Ele busca compreender aquilo que se
identificou como caráter, como consciência moral individual. Sócrates, portanto, ao indagar sobre
tudo leva o homem antigo a questionar tudo também e a chegar a uma conclusão: interpretamos
o mundo a partir daquilo que aprendemos com nossos antepassados.

Ainda segundo Lima Vaz (2015, p. 94-95),

O ensinamento ético de Sócrates, transmitido sobretudo pelos primeiros Diálogos


de Platão, conhecidos justamente por “socráticos” (eles constituem a único modelo
completo que nos resta dos chamados sokratikoi logoi), apresenta duas características
fundamentais, uma metodológica e outra temática. A primeira, presente na forma
dialógica, estilizada magistralmente por Platão, mostra-nos a formação da doutrina
socrática sendo conduzida por meio de uma permanente inquisição (zetesisi),
avançando por perguntas e respostas, tendo por alvo a forma lógica que Aristóteles
denominará definição (horismos), mas detendo-se diante das aporias ou encruzilhadas
do discurso que a discussão faz surgir. A segunda, na qual se manifesta propriamente
a originalidade do ensinamento socrático, é formada pelos temas específicos que
a tradição reconhecerá como aqueles que compõem para a história a figura do
Sócrates moralista e de sua doutrina.

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Figura 9 – Sócrates

Fonte: markara / Shutterstock

Dessa forma, o Sócrates apresentado pelo professor Lima Vaz é, de certa maneira, o indagador
e o sophos. O primeiro visando obter respostas mais específicas sobre a realidade e as coisas e o
segundo aquele que está em constante busca pela sabedoria. Desse modo, como vimos anteriormente,
Sócrates concluir que aquilo que os gregos pensavam a respeito dos valores estava vinculado a um
aprendizado sobre as virtudes, geralmente transmitidas pelos mitos, como vimos anteriormente.
Portanto, os sentimentos, as ações, os comportamentos, as condutas são apreendidas socialmente
e são modelados historicamente. Há uma “recompensa” para quem os segue ou há uma “punição”
para quem os desrespeita. Em outras palavras, como sabemos que uma conduta é boa ou má?
Como julgamos uma ação virtuosa ou viciosa? Por que se valoriza a justiça e se combate a injustiça?

Dessa forma, percebemos nos escritos socráticos apresentados por Platão três grandes temas
relacionados à ética socrática. São eles: as reflexões sobre o homem interior que terá origem na
famosa frase conhece-te a ti mesmo, a verdadeira sabedoria e a virtude. Dessa triangulação, o
professor Lima Vaz faz a seguinte afirmação:

O cuidado do homem interior exige, antes de mais nada, o conhecimento de si mesmo,


ou seja, o exercício de uma razão voltada prioritariamente para o próprio homem e
para as “coisas humanas”. [...] Sem essa catarse preliminar, destinada a desfazer a
falsa imagem que cada um constrói de si mesmo ou a evidenciar a própria ignorância

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a respeito do que mais importa para a vida que é saber como devemos agir, a busca
da definição da virtude não poderia ter lugar. (VAZ, 2015, p. 96).

Note que, assim como Sócrates, nós também estamos fazendo perguntas e buscamos respostas
às nossas insatisfações. No entanto, temos de buscar as essências, aquilo que é próprio de algo,
aquilo que nos dá a possibilidade de conhecer algo. É o que estamos fazendo em nosso estudo,
buscando a essência da ética e da moral. E nosso ponto de partida para a busca de respostas está
no homem e seu comportamento, isto é, para que haja ações éticas e morais é preciso haver antes
uma consciência e um sujeito ético. Dessa forma, quem sabe o que é bem não pode agir de forma
contrária, e sim, agir virtuosamente. Esse tipo de conhecimento levou a ideias “[...] aparentemente
paradoxais: o homem sábio é necessariamente bom, e o homem malvado é necessariamente
ignorante, o sábio nunca faz o mal voluntariamente e somente o homem virtuoso é verdadeiramente
feliz” (VAZ, 2015, p. 96-97).

Retomando nosso estudo sobre Platão, fica fácil agora entender de onde partem suas ideias.
Platão, discípulo de Sócrates, também usa um método dialético para refletir e entender o seu
tempo. Nesse sentido, ao falar de ética, Platão parte de sua ideia política, isto é, é na cidade (polis)
que se desenvolvem as ações morais. Desse ponto avança-se para sua teoria das ideias. Esse
movimento dualista que concebe o mundo a partir de dois polos distintos: o mundo sensível e o
mundo inteligível, onde encontra-se a Ideia do Bem; também abarca a sua doutrina sobre a alma,
isto é, aquele princípio que anima e move o homem em direção a algo.

Em Platão, a razão deve conduzir a alma, mediante a contemplação do mundo das ideias, a uma
ação virtuosa. Essa contemplação conduz a uma libertação dos aspectos sensíveis e ilusórios para
o que realmente é importante, isto é, as Ideias eternas ou mais especificamente a Ideia do Bem.
Portanto, a estrutura do pensamento de Platão destaca-se pela valorização da razão em detrimento
das paixões (sentimentos).

Ora, partindo desta ideia, é possível perceber que, a todo instante, Platão tenta convencer seus
interlocutores de que é melhor agir pela razão do que pelas paixões. Em outras palavras, a vida
harmônica, cósmica e ajustada, para ele, é aquela que se vive pela racionalidade.

Retomemos o que diz Lima Vaz a este respeito,

A ideia diretriz do pensamento ético de Platão, na qual se entrecruzam a significação


ética e a significação metafísica, é a ideia de ordem (taxis). É ela que permite a

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unificação, sob a égide da teoria das Ideias, da Ética, da Política e da Cosmologia,


assegurando a justa medida da arete ao indivíduo e à cidade e guiando o demiurgo
na construção de um cosmos harmonioso. A ideia da ordem [...] será, portanto, uma
relação análoga que Platão irá estabelecer entre as partes da alma e suas virtudes,
entre alma e a cidade e entre alma e o mundo. (VAZ, 2015, p. 98).

Essa forma de pensar tomou conta do pensamento ocidental de tal forma que, quando nos
referimos à ação de alguém que foi correta, boa ou justa, dizemos que essa pessoa foi “racional”.
Dessa forma, agir impulsionado pelos sentimentos, na visão do pensamento platônico, seria nocivo
aos seres humanos e causaria desordem e desarmonia no cosmos. Por isso, a vida que vale a pena
ser vivida, em Platão, é aquela que é conduzida pela razão. Sendo assim, a felicidade dos seres
humanos passa pelo uso contínuo dela.

Ao observar nosso cotidiano, percebemos que constantemente somos chamados a fazer


escolhas que contrariam as nossas paixões. Mas, impulsionados por aquilo que chamamos de
“racionalidade”, decidimos tomá-las. Por exemplo, quando o nosso despertador nos acorda pela
manhã, somos tentados a ficar na cama para dormir um pouco mais, ou seja, o corpo implora pelo
sono, mas a racionalidade obriga-nos a levantar. Essa decisão é só o primeiro patamar de uma série
de outras que virão no decorrer do dia.

Em Platão, o tema das paixões é abordado sob diversos aspectos, mas, sobretudo, na sua teoria
do conhecimento. Segundo ele, a realidade é dualista, ou seja, possui duas dimensões: a primeira,
o mundo sensível e da aparência; a segunda, o mundo inteligível da razão e do real. Sendo assim,
os seres humanos passam toda a sua vida em uma dialética ascendente e descendente, ou seja,
eles devem elevar-se ao mundo da razão e descer ao mundo sensível a fim de ajudar aqueles que
não conseguiram subir. Tudo isso parece muito maluco, mas, na prática e na história, teve um efeito
tremendo. Ou seja, a tese de Platão a respeito da prioridade que a razão (mundo inteligível) tem sobre
os sentimentos (mundo sensível) ganhou força em parte considerável do pensamento ocidental.

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Figura 10 – Platão

Fonte: vangelis aragiannis / Shutterstock

Em muitos casos, como no de Platão, os sentimentos foram sempre colocados em oposição


à razão. Ou seja, há uma disputa entre razão e sentimentos pelo domínio das ações humanas. Por
outro lado, relendo a literatura existente sobre Platão, é possível perceber que essa oposição razão-
paixão foi, aos poucos, sendo transposta por uma outra oposição: aquela associada ao corpo e
alma. Novamente a sua teoria das ideias foi colocada em prática. Agora o corpo será o local das
paixões, do erro, do engano e, finalmente, com o cristianismo, do pecado e do mal, e a alma será o
local da razão que poderá contemplar as Ideias eternas. Em outras palavras, o corpo vai aos poucos
perdendo espaço para a razão no agir humano e, na maioria das vezes, atuar impulsionado por ele
significa entrar numa zona perigosa para o homem e para a comunidade.

Gostaria de usar como exemplo a letra de uma música dos compositores Arnaldo Antunes e
Alice Ruiz, intitulada Socorro.

Saiba Mais

No YouTube há um vídeo da música Socorro. Acesse: https://youtu.be/VDz879eNKNA.

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Acredito que a letra dessa música traduz em boa parte essa concepção de sentimento e
racionalidade. Essa oposição entre corpo e alma em Platão será considerada por Nietzsche uma
profunda e profana negação da vida. Dito de outro modo, de acordo com este autor, aqueles que
se opõem aos instintos estão em rota de colisão com a vida.

Então, o que seria uma vida boa para Platão? Como já aludimos, é aquela conduzida pela razão.
Mas qual é a relação existente entre razão e felicidade? De acordo com o filósofo, o comportamento
racional é o comportamento virtuoso, diferentemente da vida que é conduzida pelas paixões, a vida
viciada. É por esse motivo que ele salientou a importância da razão para a vida. Dessa forma, Platão
introduz uma visão dualista do mundo de modo a influenciar todo o pensamento ocidental. Nossa
vida, nosso pensamento, nossa visão de mundo parte deste princípio, tanto que o percebemos em
estudos e tratados posteriores relacionados ao idealismo/realismo, ao racionalismo/empirismo, à
salvação/danação, ao amor/ódio e assim por diante.

O pensamento dualista ganha ainda mais força com o cristianismo, como veremos mais adiante.
Na realidade, certas correntes cristãs acusam a filosofia de interpretar erroneamente algumas de
suas teses. Em outras palavras, na essência dessa religião não estaria o dualismo. Mesmo assim,
essa é a imagem que se tem do mundo cristão: o cristianismo dualiza o mundo entre Deus, o ser
perfeito, eterno e imutável que existe, sempre existiu e sempre existirá, em comparação à sua
criatura, imperfeita, finita e sujeita às vicissitudes da vida.

Portanto, assim como Sócrates, que busca um conhecimento essencial do homem como meio
de conceber uma moral universal, encontrando na sua alma racional o fundamento das normas
e costumes, Platão amplia esta visão para um racionalismo ético aprofundado pela sua doutrina
dualista.

Dessa forma, o corpo, por ser sede das paixões e dos desejos, tende a desviar o homem do seu
caminho contemplativo da Ideia do Bem. Desse raciocínio resulta a ideia de que o indivíduo não
consegue chegar à contemplação das Ideias eternas sozinho. Agindo racionalmente, o indivíduo
só alcança seu objetivo vivendo em sociedade e, portanto, na polis. Ora, um indivíduo que age na
polis visando o bem, sendo um bom cidadão, é também um ser virtuoso.

Outro ponto evidenciado por Platão em suas reflexões e que está intimamente associado às
ações éticas encontra-se numa conciliação entre liberdade e necessidade. A primeira tendo seu
vínculo com a virtude e a segunda vinculando-se à razão. Ora, se observarmos bem, na literatura
existente, não há uma teoria da liberdade propriamente dita nos escritos platônicos, como acontece

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na literatura moderna, mas é a partir desta experiência que Platão irá desenvolver todo um saber
ético, uma vez que é na polis que o cidadão exerce a sua liberdade, expressando-se e participando
da vida democrática.

Novamente o professor Lima Vaz nos ajuda a compreender o passado:

Mostrando-se, pois a liberdade historicamente como constitutiva da práxis do homem


grego, sua transposição ao plano da reflexão ética segundo a versão socrática faz
surgir necessariamente o problema da compatibilidade lógica a se estabelecer entre
essas duas proposições: ninguém é virtuoso sem ser livre e ninguém é virtuoso sem
ser sábio. Como o virtuoso, ou o homem bom e justo, sendo sábio, pode ser livre? Não
é excessivo dizer que toda a ética antiga irá girar em torno dessa questão, enraizada
profundamente no âmago da tradição cultural dos gregos, e que receberá na Ética
platônica uma primeira e, sob certo aspecto, definitiva resposta. (VAZ, 2015, p. 99).

As palavras do professor Lima Vaz nos indicam um caminho a seguir em busca da resposta ao
problema colocado pelos antigos. Contudo, não encontraremos na literatura platônica referências
pontuais a este respeito. Devemos, portanto, buscar na teoria platônica como um todo a resposta.
Por isso o conhecimento de Sócrates e da doutrina platônica se faz importante. Para efeito de
aprofundamento dessa ideia de liberdade e necessidade ou sabedoria que dão ordem a um pensamento
ético, prático e voltado para o exercício da cidadania, devemos consultar a discussão, no livro A
República, o diálogo sobre justiça. Este é considerado o documento de fundação da ética ocidental.

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Figura 11 – Escola de Atenas

Fonte: IR Stone / Shutterstock

Dessa forma, Platão busca uma definição daquilo que se concebe como justiça e isto passa a
ser um valor central na tradição ética antiga. É nesse ponto que Platão desenvolve a ideia de ordem
na cidade e no indivíduo que resulta num conhecimento do Bem. Partindo da experiência do uno
e do múltiplo, é possível chegar a um ordenamento do todo e, desta forma, evidenciar o lugar da
justiça e da prática individual e social

Recorrendo às reflexões do professor Lima Vaz, encontramos a seguinte afirmativa:

Sendo a práxis virtuosa ou a práxis segundo o bem, o objeto próprio do saber ético e,
por conseguinte, da Ética que é seu sucedâneo em termos de razão demonstrativa,
temos aí uma antropologia da práxis individual e política, uma teleologia da práxis
como ontologia do Bem e uma epistemologia da ciência do Bem, primeira antecipação
do que será a ciência prática de Aristóteles. Por outro lado, se aceitarmos que a práxis
virtuosa é, por excelência, uma práxis livre, a filosofia da práxis na perspectiva ética que
assegure sua estrutura e seus fundamentos segundo a razão, será necessariamente
uma filosofia da liberdade tal como nos aparece, não obstante certos lugares comuns
historiográficos, a ética platônica na República. (VAZ, 2015, p. 102).

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Ora, se levarmos em conta que todo caminho ético traçado por Platão se inicia na liberdade e na
razão, produto de suas reflexões dualistas, chegamos a uma resposta à nossa indagação primeira
do problema de conciliar estas duas noções. A necessidade do Bem emerge do discurso reflexivo
da razão e esta pressupõe uma liberdade dentro de um ordenamento, portanto, temos aqui diante
de nós uma ética platônica da liberdade que se constrói de forma dialética, na práxis, através da
razão em vista do Bem maior.

Esses passos serão aprofundados, refutados ou ampliados pelo seu discípulos e seguidor
Aristóteles, como veremos mais adiante.

4. A ÉTICA NA OBRA ÉTICA A NICÔMACO, DE ARISTÓTELES


Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão, também desenvolve um pensamento reflexivo sobre
ética. Nascido em Estagira, na Macedônica, foi sem dúvida um dos mais expressivos filósofos da
Grécia Antiga ao lado de seu mestre Platão. Na literatura há menção de que suas obras ultrapassam
uma centena de livros sobre os mais variados temas. Entretanto, o que nos chega são apenas 47
obras contendo suas reflexões sobre temas tão importantes para a vida humana, inclusive a ética.
Sua produção legou ao mundo ocidental um saber organizado, sistemático e lógico.

Diferentemente de seu mestre, Aristóteles desenvolve uma ética racionalista, isto é, uma reflexão
sobre as ações humanas mais próximas de um indivíduo concreto, sem a noção dualista anterior.
Muitos o consideram o iniciador do estudo sobre ética, justificando tal argumento pelo fato de esta
se constituir como uma ciência, isto é, como um campo do saber.

Entretanto, como discípulo de Platão, absorve muito dos seus ensinamentos para formular o
seu próprio. A riqueza e a profundidade do pensamento platônico é herdada e compartilhada pelo
estagirita, tanto que temas e problemas levantados por aquele será, de maneira totalmente original,
aprofundada por este. Seu pensamento inaugura uma “nova tradição”, isto é, uma nova maneira de
se pensar e conceber o cosmos, todo ordenado e classificado, constituindo um saber, uma ciência.

No campo do saber, Aristóteles trouxe importantes contribuições, tanto que as suas obras foram
divididas em dois grandes grupos: de um lado há os escritos exotéricos e de outro os esotéricos. O
primeiro destinado ao grande público e os segundos somente aos estudantes e professores do Liceu.

Entretanto, o que nos interessa para nosso estudo sobre ética é um texto intitulado Ética a
Nicômaco, no qual o estagirita apresenta um caminho para se atingir o bem último que é a felicidade

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(eudaimonia). O estudo da literatura existente sobre este tema apresenta dois textos de autoria de
Aristóteles a respeito da Ética. O primeiro seria destinado a Nicômaco (composta por dez livros) e
o segundo a Eudemo (composta por sete livros).

Vejamos o que o professor Adolfo Vázquez (2002, p. 272) diz sobre isso:

Aristóteles se opõe ao dualismo ontológico de Platão. Para ele, a ideia não existe
separada dos indivíduos concretos, que são o único existente real; a ideia existe
somente nos seres individuais. Mas, no ser individual, é preciso distinguir o que é
atualmente e o que tende a ser (ou seja, o ato e a potência [...]). A mudança universal é
passagem incessante da potência ao ato. Existe somente um ser que é ato puro, sem
potência: Deus. Também o homem deve realizar com seu esforço o que é potência,
para realizar-se como ser humano. O homem é, portanto, atividade, passagem da
potência ao ato. Mas qual é o fim desta atividade? Para onde tende? Com esta
pergunta já se entra no terreno da moral.

No texto acima percebemos que existe muitos fins, mas a pergunta que fixa é: qual é o fim último
do homem? Aristóteles responde de maneira direta: todos os homens tendem para a felicidade
(eudaimonia). Ora, se o fim último de cada ser humano é a felicidade, como ele faz para alcançá-la?
Nesse ponto temos muitas fontes da felicidade (prazer, riqueza, bens materiais etc.), mas, segundo
o estagirita, aquela que mais nos aproxima das essências é a da contemplação, isto é, uma vida
teórica guiada pela razão. Em outras palavras, como a vida não se realiza de modo intermitente,
isto é, às vezes sim e outras não, então só se pode atingir a felicidade através de certos modos de
agir que ele classificou como virtudes. Ora, as virtudes não são inatas, mas podem ser apreendidas
conforme o relato aristotélico em Ética a Nicômaco, que podemos acompanhar a seguir:

Sendo, pois, de duas espécies a virtude, intelectual e moral, a primeira, por via de regra,
gera-se e cresce graças ao ensino – por isso requer experiência e tempo; enquanto a
virtude moral é adquirida em resultado do hábito, doente ter-se formado o seu nome
[...]. Por tudo isso, evidencia-se também que nenhuma das virtudes morais surge
em nós por natureza; com efeito, nada do que existe naturalmente pode formar um
hábito contrário à sua natureza. (ARISTÓTELES, 1989, p. 67).

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Figura 12 – Sócrates

Fonte: Giannis Papanikos / Shutterstock

Assim, segundo Lima Vaz, a ética aristotélica distingue-se da platônica pelo seu método e pelo
seu objeto. Enquanto Platão abarcara o uno em sua teoria das ideias, Aristóteles prefere fazer uso
de um sistema mais adequado ao uso das ciências, isto é, preferia um método mais apropriado
a cada ciência que pudesse enriquecer o conhecimento sobre as mesmas, classificando-as e
organizando-as. É desse modo que o autor da Metafísica irá produzir, separar e classificar os tipos
de conhecimento em três grandes áreas, chamadas ciências, a saber: teoréticas (theoretikai),
práticas (praktikai) e produtivas (poietikai). A ética, juntamente com a política, encontra respaldo
nas ciências práticas.

Já que o fim último para o qual todos tendemos é a felicidade, cabe ao homem buscá-la através
do uso da razão. Dessa forma, uma vez que o homem encontra no plano contemplativo teórico as
essências das coisas, ou a essência da felicidade, ele pode realizá-la de modo consciente. Ora,
essa dedicação só é possível para o cidadão, tendo o homem comum (aquele que não tem como
dedicar-se a uma vida contemplativa) que agir corretamente na sociedade apenas pelo hábito. Ora,
agir corretamente segundo este pensador é exercer hábitos virtuosos e, portanto, mostrar que a
instrução teórica serve para influenciar a ação humana.

Vejamos o que Aristóteles fala sobre a virtude em sua obra Ética a Nicômaco:

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As ações virtuosas devem ser aprazíveis em si mesmas. Mas são, além disso, boas e
nobres, e possuem no mais alto grau cada um destes atributos, porquanto o homem
bom sabe aquilatá-los bem; sua capacidade de julgar é tal como a descrevemos. A
felicidade é, pois, a melhor, mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo, e esses
atributos não se acham separados como na inscrição de Delos: das coisas a mais
nobre é a mais justa, e a melhor é a saúde; mas a mais doce é alcançar o que amamos.
(ARISTÓTELES, 1989, p. 58).

Como vimos em nosso estudo até aqui, a Ética a Nicômaco é a primeira obra do Ocidente sobre
ética. Ela nasce das aulas que o filósofo ministrou no Liceu, ou seja, são anotações de aulas. Essa
obra não deve ser interpretada como uma composição de grandes princípios gerais a respeito da
vida. Nela, existe uma preocupação com a existência material dos seres humanos, uma vez que a
existência da ética somente terá algum sentido se a finalidade for a de melhorar a vida dos próprios
homens.

Nesse sentido, Aristóteles nos apresenta a sua ideia sobre virtude no seu texto Ética a Nicômaco,
como podemos ler:

A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente


numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio
racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. E é um meio-termo entre
dois vícios, um por excesso e outro por falta; pois que, enquanto os vícios ou vão
muito longe ou ficam aquém do que é conveniente no tocante às ações e paixões, a
virtude encontra e escolhe o meio-termo. E assim, no que toca à sua substância e à
definição que lhe estabelece a essência, a virtude é uma mediania; com referência
ao sumo bem e ao mais justo, é, porém, um extremo. (ARISTÓTELES, 1989, p. 73).

Ora, retomemos à ideia inicial apresentada por Aristóteles: todas as coisas têm uma finalidade,
ou seja, algo para o qual todas “as coisas tendem” (o bem). O mesmo ocorre com a vida do homem,
ou seja, ela está estabelecida dentro de uma ordem cósmica e com uma finalidade dentro dela.
Essa ordem é a mesma estabelecida pelas narrativas míticas da vitória de Zeus sobre os titãs.

Também se faz necessário entender o conceito de vida boa em Aristóteles, ou seja, de eudaimonia.
A tradução dessa palavra é confusa e, no decorrer da história do pensamento, causou inúmeras
controvérsias. A eudaimonia seria uma vida soberana, ou seja, perfeitamente de acordo com a
sua finalidade. Dito de outro modo, a vida boa é aquela na qual o ser humano encontra o bem

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supremo. Mas o que seria o bem supremo? É o modelo de vida que vale por ela mesma, ou seja,
que não é instrumental. Em outras palavras, a vida que vale a pena, para Aristóteles, é aquela em
que o homem não encontre fora dela o sentido para vivê-la. Por exemplo, a vida de estudante que
se prepara para o vestibular é uma vida eudaimônica? Respondo: não. Pois, nesse caso, a vida de
estudos não é uma finalidade em si mesma, uma vez que a finalidade dessa ação está na meta,
que é a aprovação no vestibular.

As ações da vida, de acordo com Aristóteles, não podem ser instrumentais. Dito de outra maneira,
as ações que não têm as suas finalidades nelas mesmas não fazem a vida valer a pena, portanto,
não são eudaimônicas.

Figura 13 – Ações da vida

Fonte: LuckyImages / Shutterstock

Voltando ao exemplo do estudante que se prepara para o vestibular. A existência dele somente
valerá a pena caso não coloque o motivo do seu estudo numa situação posterior, ou seja, o estudo
precisa valer pelo estudo.

Vejamos como Aristóteles desenvolve o conceito de eudaimonia em sua obra Ética a Nicômaco:

Já que, evidentemente, os fins são vários e nós escolhemos alguns dentre eles
(como riqueza, as flautas e os instrumentos em geral), segue-se que nem todos os

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fins são absolutos; mas o sumo bem é claramente algo de absoluto [...]; por isso
chamamos de absoluto e incondicional aquilo que é sempre desejável em si mesmo
e nunca no interesse de outra coisa. Ora, esse é o conceito que preeminentemente
fazemos da felicidade. É ela procurada sempre por si mesma e nunca com vistas
em outra coisa, ao passo que à honra, ao prazer, à razão e todas as virtudes nós de
fato escolhemos por si mesmos [...]; mas também os escolhemos no interesse da
felicidade. (ARISTÓTELES, 1989, p. 55).

Retomemos agora aquela ideia apresentada anteriormente sobre o sumo bem. Convém esclarecer,
de uma vez por todas, o que seria o sumo bem em Aristóteles. Para nosso estudo, apresentarei aqui
alguns graus de bem, a saber: ir ao bem pelo bem, ir ao bem com ajuda, ir ao bem com coação e
não ir ao bem. Para tal, vamos usar o exemplo do estudante.

Quando falamos ir ao bem pelo bem, referimo-nos ao sujeito que faz o bem pelo bem, ou seja,
sem motivação exterior. Por exemplo, o aluno que estuda por acreditar que o estudo é um bem em
si mesmo. Em outras palavras, mesmo que não existisse nenhuma utilidade dele em vestibulares,
concursos ou mestrados acadêmicos, ainda assim, esse estudante manteria a mesma postura. Já
quando nos referimos a ir ao bem com ajuda, estamos nos referindo ao sujeito que faz o bem com
algum motivo. Por exemplo, o jovem que estuda para passar no vestibular. Não deixa de ser um bem,
mas não é o bem supremo. Quando dizemos ir ao bem com coação indicamos aquele indivíduo que
faz o bem motivado pela obrigação. Por exemplo, é o caso do jovem que estuda impulsionado pela
coação dos pais, da escola ou da sociedade. Nesse caso, não deixa de ser um bem, mas essa vida
está ainda mais longe da vida boa de Aristóteles. Por fim, quando nos referimos a não ir ao bem
mesmo com coação, estamos a indicar que, nesse caso, haverá para esse sujeito a punição. Dito
de outro modo, se, mesmo depois de toda a coação social, o indivíduo não progride no bem, nesse
caso, ele será punido pela sociedade e, quem sabe, pela própria vida.

Ora, estes quatros exemplos de bem foram usados para elucidar e clarear o pensamento de
Aristóteles, ou seja, jogar luz em alguns conceitos aristotélicos a fim de facilitar a sua leitura desse
pensador.

Em resumo, para Aristóteles, uma vida perfeitamente ajustada à ordem cósmica, ou seja, dentro
da sua finalidade, terá como resultado o bem supremo – a eudaimonia. Mas como saber qual é a
nossa finalidade no cosmos? A resposta do pensador a essa pergunta tem a ver com o conceito
de virtude visto em parágrafos anteriores.

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Em resumo, a virtude em Aristóteles não é a virtude cristã. Mas o que ela é para esse autor? É
um talento natural atualizado, no sentido de ato e potência, na teoria aristotélica. O talento é um
sintoma, ou seja, um indicar da vida. Qual é a diferença entre a virtude em Aristóteles e a virtude
cristã? Esta, para os cristãos, é o uso bom que se faz dos talentos. No caso de Aristóteles, o próprio
talento já é a virtude. Em outras palavras, para ele, a vida boa e ajustada é fazer aquilo que você
faz bem, ao passo que, para os cristãos, o talento é um dom de Deus e, por isso, deve ser colocado
a serviço dos outros. No caso de Aristóteles, não existe conotação moral nesse uso, ou seja, age
moralmente bem quem usa os talentos.

Para o pensador, a virtude também será vista como a justa medida entre a falta e o excesso, daí
a famosa frase atribuída a ele: “A virtude está no meio termo”. Vejamos de forma resumida como
Aristóteles concebe uma ética do meio-termo baseada nas virtudes a partir do quadro abaixo do
professor Adriano Ferreira (2011),

Quadro 1 – Ética do meio-termo baseada nas virtudes

Paixão Excesso Falta Virtude

Prazer Libertinagem Insensibilidade Temperança

Medo Covardia Temeridade Coragem

Riqueza Avareza Prodigalidade Liberalidade

Fama Vaidade Humildade Magnificência

Cólera Irascibilidade Indiferença Gentileza

Vergonha Timidez Sem-vergonhice Modéstia

Fortuna alheia Inveja Malevolência Justa apreciação

Fonte: http://diogojacarezinho01.blogspot.com.br/2012/04/curso-de-etica-pos-em-filosofiagama.html

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Figura 14 – Atividade racional

Fonte: ESB Professional/ Shutterstock

Aristóteles também vai colocar na atividade racional a principal finalidade da existência. Em


outras palavras, quem pensa mais vive melhor, ou seja, vive bem quem pensa bem. Mas será que
todos conseguem usar e desenvolver plenamente o uso da razão? Para Aristóteles, nem todos chegam
ao pleno desenvolvimento das atividades naturais, e esse fato é natural, ou seja, a natureza não fez
os homens iguais. Nesse caso, justificam-se as afirmações da obra A política de alguns nascerem
para mandar, enquanto outros, para obedecer. Assim, a superioridade natural deve traduzir-se em
superioridade política, por isso, o tema da escravidão é natural em Aristóteles. Contudo, no que
tange à busca por uma vida eudaimônica, Aristóteles indica que o ideal de felicidade se realiza na
polis, isto é, numa vida social e política, não podendo levar uma vida moral isoladamente. Esta, por
sua vez, não é um fim em si mesma, mas condição para se alcançar a felicidade, que se realiza na
prática de uma vida contemplativa.

Desse modo, o professor Vazquéz nos ajuda a entender esse pensamento:

Para Aristóteles, essa vida teórica que pressupõe necessariamente a vida em comum
é, por um lado, acessível só a uma minoria ou elite, e de outro, implica uma estrutura
social – como a da antiga Grécia – na qual a maior parte da população – os escravos
– mantém-se excluída não só da vida teórica, mas da vida política. Por esta razão, a
verdadeira vida moral é exclusiva de uma elite que pode realizá-la – isto é, consagrar-
se a procurar a felicidade na contemplação – no âmbito de uma sociedade baseada

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na escravidão. Dentro desse âmbito, o homem bom (o sábio) deve ser, ao mesmo
tempo, um bom cidadão. (VAZQUÉZ, 2002, p. 273).

Segundo Barros Filho, a igualdade é um conceito introduzido pelo cristianismo na história do


pensamento ético. Para os gregos, a ideia de igualdade entre os homens chega a beirar o absurdo.

Gostaria de recapitular alguns aspectos do pensamento aristotélico até aqui trabalhados. Em


primeiro lugar, o conceito de eudaimonia, que alguns traduzem como felicidade ou vida plena.
Depois, de acordo com Aristóteles, a virtude é atualização de uma condição natural, ou seja, o ser
humano virtuoso é aquele que age em conformidade com a sua finalidade no cosmos. Dito de outra
maneira, a eudaimonia somente será alcançada quando esse lugar no cosmos (lugar natural) for
encontrado. É sobre o lugar natural que passo a falar agora.

Figura 15 – Conceito de eudaimonia e acrasia

Fonte: Elaborado pelo autor

Os conceitos de lugar natural e de finalidade têm um espaço importante na compreensão do


pensamento grego a respeito da ética e na teoria aristotélica.

De acordo com Aristóteles, toda ação deve tender para o bem supremo, ou seja, este é o fim
último das ações humanas. Nesse caso, existe a clara convicção de que o cosmos é organizado e
que todos os seres devem ajustar-se perfeitamente a essa ordem. Sendo assim, todos os bens que
fazemos devem ter como finalidade o bem supremo, uma vez que participam dele. Quando leciono
sobre esse assunto, procuro sempre usar uma figura que poderá ajudar aos alunos a compreender
melhor o tema: o Bem com “B” maiúsculo e o bem com “b” minúsculo. Em outras palavras, o Bem
é o resultado final da ação humana (é singular), ao passo que existem bens (plural). O próprio

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Aristóteles alude a esse tema no primeiro capítulo do livro I da Ética a Nicômaco. Vejamos: “Toda
perícia e todo processo de investigação, do mesmo modo todo procedimento prático e toda decisão,
parecem lançar-se para um certo bem. É por isso que tem sido dito acertadamente quem o bem é
aquilo que tudo anseia” (ARISTÓTELES, 2009, p. 17).

O que nos parece é que a visão ética de Aristóteles está fundamentada num conceito chamado
teleologia, ou seja, a noção de que as coisas no universo seguem uma finalidade, inclusive os
seres humanos. Aqueles que estiverem totalmente em desarmonia com a ordem cósmica estarão
num estado de acrasia (akrasia), ou seja, numa condição de falta de autodomínio que os levará,
consequentemente, à infelicidade.

Dessa forma, podemos verificar que, em Aristóteles, o conceito de eudaimonia refere-se à vida
que vale por ela mesma, ou seja, a vida feliz e em conformidade com a ordem cósmica. O conceito
de virtude remonta a uma atualização de uma qualidade atribuída pela natureza ao homem. A
virtude, portanto, está no meio termo. Já a sua visão teleológica indica que todas as coisas têm uma
finalidade cósmica. A felicidade (eudaimonia) é alcançada na medida em que os seres humanos
estão ajustados à sua finalidade.

Portanto, depois de toda esta leitura, chegamos a uma conclusão um tanto desafiadora: estudar
ética não é tão fácil como parece, uma vez que existem diversas fontes de pensamento. Dessa
forma, poderemos perceber a evolução do conceito ou das formas de pensar a ética. Passemos
agora ao estudo da ética no período medieval e, mais especificamente, no pensamento cristão.

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5. A ÉTICA HELENÍSTICA: EPICURISTAS E ESTOICOS


Figura 16 - Antal Strohmayer, O Jardim dos filósofos (1834)

Fonte: https://cdn-images-1.medium.com/max/599/1*J6PPIPUsi6FMH7mlPv_YtA.jpeg

Antes de entrarmos num estudo sobre a ética no período medieval na ética cristã, mais
especificamente, faz-se necessário rememorar alguns conceitos a respeito de uma ética helenística,
isto é, aquela desenvolvida no mundo antigo em meio à decadência da Grécia Clássica e início do
Império Macedônico. E por que é necessário lembrar desse momento histórico? A resposta se mostra
simples: são estes conceitos que retornarão no período medieval e serão relidos e reinterpretados
pelos pensadores cristãos. Assim, alguns desses conceitos, uma vez compreendidos, facilitarão o
entendimento da formulação de um pensamento ético cristão.

Cronologicamente, o período helênico caracterizou-se por um processo de influência e interação


entre as culturas grega clássica e a dos povos orientais conquistados por Alexandre, o Grande,
dando origem a uma mescla dos valores gregos com diversas outras culturas.

A decadência e a perda de autonomia das polis e de sua estrutura social fazem com que os
gregos busquem novas formas de agir na polis. Dessa forma, surgem várias correntes de pensamento
que irão mostrar um caminho, dar uma resposta às indagações dos homens nesse período. Como
veremos mais adiante, surgem grupos que irão dar pistas para o homem grego agir na sociedade a
partir da dominação macedônica. São eles os epicuristas, os estoicos, os pirronistas e os cínicos,

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entre outros. O objetivo central se pauta na questão moral ligada à física, isto é, ao mundo natural
e à ordem cósmica.

Nesse sentido, se observarmos o plano político, aquela liberdade que o grego tinha de debater e
discutir em praça pública já não existe mais. O espaço público deixa de fazer parte da vida do cidadão
com a dominação macedônica. O que resta é o espaço privado. Desta forma, também as reflexões
filosóficas deixam o espaço público e suas preocupações coletivas e entram na esfera privada,
abrindo espaço para uma reflexão mais individual. Portanto, a partir de agora, novos “modelos” de
vida, de ação e de relações interpessoais passam a preocupar o homem grego antigo. Em outras
palavras, os filósofos queriam proporcionar às pessoas, desorientadas e inseguras com o novo
contexto social, alguma paz de espírito ou alguma forma de alcançar a felicidade.

A partir de agora, nas palavras do professor Vazquéz, é necessário repensar a vida prática do
homem em vista a uma felicidade futura. Assim, o homem helênico não é mais um cidadão da
pólis, e sim do cosmos. Formam-se, assim, escolas que visam ensinar como bem viver na “nova”
sociedade cosmopolita. As mais célebres escolas desse período, além da Academia e do Liceu,
são a estóica e a epicurista. Entretanto, entrar numa escola significava uma escolha existencial,
um estilo ou modo de vida ou, ainda, um modo de ser e agir do indivíduo no mundo.

Nas palavras do professor Lima Vaz (2015, p. 130-131),

Convém lembrar que emerge, pela primeira vez na história, o indivíduo como um dos
protagonistas no grande drama da gestação de uma nova sociedade. [...] O indivíduo
helenístico como protagonista histórico apresenta-se quase imediatamente como
resíduo ou, se quisermos, como fruto da dissolução dos quadros institucionais de vida
na Grécia clássica. O indivíduo é o que resta do fim da polis como espaço envolvente
e absorvente do cidadão e de sua atividade política, social e cultural.

É neste contexto conturbado que o indivíduo passa a atuar e encontrará nas escolas emergentes
a forma mais adequada de reorganizar a sua vida e “[...] conduzi-lo à plena posse de si mesmo, à
sabedoria e à independência em face do obscuro Destino” (LIMA VAZ, 2012, p. 131). Em resumo,
os homens devem se dedicar à filosofia como organizadora da forma de vida, respondendo àquela
questão primeira: como devo agir? Assim, esse novo estilo de vida o impulsiona a discutir e buscar
solução para o novo modo de viver.

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Como dissemos anteriormente, duas escolas se sobressaem, oferecendo ao indivíduo um itinerário


seguro de vida: o epicurismo e o estoicismo. Estas duas escolas apresentam ao indivíduo um corpo
doutrinal coerente que lhe dão indicações sobre o que conhecer, como agir e o que esperar da vida
neste mundo. São estas ideias que, posteriormente, o grande filósofo alemão Immanuel Kant irá
reorganizar no período moderno em suas célebres obras Crítica da Razão Pura, Crítica da Razão
Prática e Crítica da Faculdade de Julgar, que veremos mais adiante em nosso estudo.

Por ora, o que nos interessa é perceber como as ações éticas vão se moldando nesse novo
modelo social e político. Comecemos então pelo epicurismo. Esta é uma corrente filosófica fundada
por Epicuro (341-271 a.C.) que tem por objetivo demonstrar que o prazer é o princípio e o fim de
uma vida feliz. Desde cedo já teve inclinação para a filosofia. Funda em Atenas a sua escola e
passa a ensinar os seus discípulos caminhando por um jardim junto aos muros da cidade. Daí a
denominação de sua escola como “O jardim”.

Curiosidade

Epicuro foi escritor fecundo, mas pouca coisa restou de sua vasta obra. A lista de seus principais
escritos e quase tudo que sabemos de sua vasta obra são encontrados nos escritos de Diógenes
Laércio e nos versos do poeta latino Tito Lucrécio Caro intitulado De rerum natura.

Para entender esse pensador, precisamos ter em mente a noção de physis – não aquela physis
dos pré-socráticos como elemento essencial, mas sim como toda a realidade. E, como escola,
adotou o sistema que começa a prevalecer naquele contexto, ou seja, uma divisão didática em
Lógica, Física e Ética. Vejamos o que diz o professor Lima Vaz a este respeito:

Essa divisão escolar da filosofia [...] permitia justamente organizar na forma do


sistema toda a fecundidade heurística do conceito de natureza sensível, explicando
por ele as formas de conhecimento e seu uso correto, a estrutura do universo e – o
que é mais importante – o sentido verdadeiro da busca humana da eudaimonia e os
meios e modos para alcançá-la e vivê-la. (VAZ, 2015, p. 135).

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Figura 17 – Raciocínio lógico

Fonte: Radachynskyi Serhii / Shutterstock

Dessa forma, de maneira bem didática, Epicuro desenvolve o seu sistema de ensino dividido
em três partes principais: a canônica, a física e a ética. O que nos interessa, nesse estudo, é a sua
reflexão sobre a ética. Claro que as três estão interligadas em seu sistema, mas, de forma resumida,
podemos assim concatenar as ideias. Na canônica, seu objetivo era introduzir a explicação sobre
a physis como atividade cognoscitiva; na física, tinha como pretensão fundamentar e aprofundar a
teoria do conhecimento analisada na parte anterior, isto é, na canônica, em vista de uma justificação
racional para a ética. Esta, por sua vez, obedece ao mesmo paradigma anterior, isto é, a busca de
uma verdadeira eudaimonia.

Segundo Epicuro, todo ser humano é capaz de ser feliz e, por isso, deve dedicar toda a sua
atenção para a obtenção desta eudaimonia. Portanto, cabe à Ética a busca do como ser feliz. Dessa
forma, ele propõe quatro remédios, os conhecidos tetrapharmakon, que ajudarão a discernir melhor
os caminhos para se chegar à felicidade. São eles:

1. A morte nada é para nós; o que se dissolve não sente mais e o que não sente não é
nada para nós. 2. O limite da grandeza dos prazeres é a supressão de toda dor; onde
está presente o prazer e por todo o tempo em que estiver presente, não há dor nem
tristeza nem ambos. 3. A dor não dura continuamente na carne, mas a dor extrema

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não está presente senão pelo menor tempo possível; a que excede de pouco o prazer
do corpo não dura muitos dias e as longas enfermidades são acompanhadas de
mais prazer corporal do que de dor. 4. Não se pode viver com prazer sem viver com
prudência, honestidade e justiça, nem viver com prudência, honestidade e justiça
sem viver com prazer; e a quem faltam as condições para viver com prudência,
honestidade e justiça, este não pode viver com prazer. (VAZ, 2015, p. 139).

Saiba Mais

Para efeito de aprofundamento sobre a ética epicurista, pode-se consultar a Carta a Meneceu (sobre
a felicidade) e as Sentenças capitais, nas quais ele menciona as quatro proposições ou quatro
remédios, ou ainda, os tetrapharmakon que constituem as verdades fundamentais da ética epicurista.

Ora, se Epicuro propõe estes quatro remédios para se alcançar a felicidade, é fácil perceber que a
sua ética está pautada numa vida virtuosa, entendida como vida no Bem. Assim, segundo o filósofo
do Jardim, “o bem deve ser feito e o mal evitado”. E é esta a ideia que os pensadores cristãos irão
se apropriar e que veremos mais à frente.

Note que estas indicações epicuristas podem ser associadas a um total hedonismo. No entanto,
é preciso ter cautela quanto a esta afirmação, uma vez que ela se mostra incompatível com os
remédios receitados.

Em resumo, a vida deve ser vivida pelo indivíduo na sociedade e no tempo histórico, respeitando
os centros de poder e eliminando os temores que mais preocupam o homem: a ira dos deuses e a
morte. Nesse ponto, o Jardim tem papel central, pois é justamente nele que se encontra a tranquilidade
ou ataraxia e a imperturbabilidade da alma, condição necessária para a prática da virtude e posse
da eudaimonia. Portanto, o Jardim passa a ser uma alternativa à pólis e à vida política em geral.

Outra escola que se desenvolve concomitante ao epicurismo é a estoica, cujo objetivo também
era buscar a felicidade. Fundada a partir das ideias de Zenão de Cício (336-263 a.C.) de que toda
realidade existente é racional e, portanto, deve-se viver de acordo com o Logos. Desse modo,
organiza-se como sistema escolar semelhante ao anterior, contudo, articula o discurso (Logos) ao
conhecimento do universo. Como não podemos alterar a ordem universal, devemos viver segundo
ela e, para isto, devemos conhecer e compreender, pela filosofia ou pela razão, qual é o melhor
caminho a seguir.

O professor Vazquéz assim define esta escola filosófica:

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A moral não se define mais em relação à polis, mas ao universo. O problema moral
é colocado sobre o fundo da necessidade física, natural, do mundo. Por isto, tanto
no estoicismo quanto no epicurismo, a física é a premissa da ética.

Para os estoicos, o mundo, o cosmos é um único grande ser que tem Deus como
princípio, alma ou razão, sendo aquele o seu animador ou coordenador. No mundo
acontece somente o que Deus quer e, assim, domina nele uma fatalidade absoluta;
não existe nem liberdade nem acaso. O homem, como parte deste mundo, possui
nele o seu destino. E, como tudo é regido por uma necessidade radical, a única coisa
que lhe resta é aceitar o seu destino e agir consciente dele. Esta é a atitude do sábio.
(VAZQUÉZ, 2002, p. 274).

Figura 18 – Sabedoria

Fonte: PHOTOCREO Michal Bednarek / Shutterstock

O trecho acima mostra muito bem como será o pensamento no período medieval, todo voltado
para os desígnios de Deus que o homem deve aceitar. Dessa forma, para os estoicos, o ser racional,
que conhece a sua realidade e sabe das consequências e responsabilidades, aceita o seu destino,
uma vez que não tem poderes para alterar ou modificar a ordem universal do mundo. Esta é uma
ética do dever que os cristãos irão se apropriar para dar forma aos seus argumentos e mostrar ao
homem medieval que ele tem o dever de obedecer à divindade.

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Outro ponto importante para nosso estudo é a visão estoica de uma vida austera e moral, isto
é, defendiam atitudes virtuosas diante das intempéries da vida, buscando a verdadeira ataraxia,
ou seja, um estado pleno de serenidade e imperturbabilidade. Somente assim, compreendendo e
aceitando os “princípios universais” do Logos e, portanto, o seu destino, é que o homem poderia viver
em harmonia com o cosmos e ser feliz. Dessa forma, o bem do todo deve ser buscado ou almejado
em vez do bem individual, dominando as paixões e se esforçando por controlar os pensamentos,
os quais fazem aflorar as paixões.

Em resumo, o bem supremo passa a ser uma vida controlada pelo destino, ou seja, aceitar e
viver de acordo com a natureza (razão) sem se deixar levar pelas paixões ou pelas coisas exteriores.
Somente aquele que conhece, isto é, o sábio é que vive corretamente de acordo com a razão e, por
isso, evita os excessos e as ilusões, aceita as exigências cósmicas e atinge a ataraxia.

Tanto estoicos quanto epicuristas tinham visões diferentes do modus operandi do ser humano,
isto é, traçam caminhos diferentes para se chegar a um mesmo objetivo, ou seja, a felicidade. Em
seus estudos, o professor Vaz Lima assim afirma:

O ponto de partida da Ética serão os modos com que a physis, ou seja, o Logos ou
a Razão se manifesta originariamente no ser humano. Esta manifestação se dará
plenamente na vida e na ação propriamente humanas que serão, então, no sentido
específico, vida e ação éticas. [...] Ao contrário do epicurismo, que descobria nessas
tendências a busca pelo prazer e a fuga da dor, o estoicismo as descreve como
tendências à autoconservação e à apropriação do próprio ser. (VAZ, 2015, p. 154).

Nesse ponto há de se considerar dois aspectos importantes a saber: os bens e os males. Ora,
sendo o homem dotado de razão, ele deve seguir o que o Logos determina e, desta forma, os bens
estão voltados para a satisfação da razão estabelecendo uma relação entre ação ética e a razão;
e os males referem-se a tudo aquilo que se opõe a este acordo. Dessa forma, temos a seguinte
correspondência: bem = razão = virtude = vida ética. Ora, é desta vida virtuosa que os cristãos
medievais vão se apropriar das virtudes conhecidas como cardeais e que os estoicos consideravam
como primárias (sabedoria, fortaleza, temperança e justiça), contidas inicialmente nos ensinamentos
socráticos-platônicos.

A ética antiga sofre um certo declínio com o movimento da história como o fim dos reinos
helenísticos e a consolidação de um poder romano, o que provocou demasiada mudança cultural
no mundo mediterrâneo. Nesse “novo clima cultural” surge um novo culto religioso denominado

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cristianismo e que mudará substancialmente a história desses grupos sociais e do ocidente como
um todo.

Figura 19 – Ideia de finalidade e vocação no pensamento cristão

Fonte: TijanaM / Shutterstock

A ética cristã desenvolve-se num mundo em mudanças que trouxe uma nova organização e
estruturação da vida social europeia. Em meio a estas tribulações, surge e se desenvolve um grupo
dissidente do judaísmo, cuja base encontra-se na figura de Jesus Cristo. Assim, o cristianismo,
após lutas, sofrimentos e perseguições, eleva-se à condição de religião oficial do Estado romano,
impondo seu domínio sobre quase todo o mundo conhecido.

Como dissemos, o cristianismo apresenta-se como uma “nova aliança”, isto é, um novo caminho
que conduzirá o homem à salvação eterna de sua alma. Nesse sentido, se apresenta como uma
corrente heterodoxa do judaísmo. Seu desenvolvimento se dá a partir de quatro eixos: 1) com os
primeiros seguidores de Jesus, os apóstolos; 2) com os seguidores dos apóstolos, que ampliaram
e difundiram o cristianismo pelo mundo (os primeiros padres chamados apologistas); 3) com o
movimento conhecido como patrística, cujo representante mais conhecido é Santo Agostinho e 4)

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com um segundo movimento de expansão chamado de escolástica, cujo representante ilustre é


São Tomás de Aquino.

Situemos nossa explicação a partir das palavras do professor Vazquéz em sua obra Ética:

Nesta sociedade, caracterizada também pela sua profunda fragmentação econômica


e política, devido à existência de uma multidão de feudos, a religião garante uma
certa unidade social, porque a política está na dependência dela e a Igreja – como
instituição que vela pela defesa da religião – exerce plenamente um poder espiritual e
monopoliza toda a vida intelectual. A moral concreta, efetiva e a ética – como doutrina
moral – estão impregnadas, também, de um conteúdo religioso que encontramos
em todas as manifestações da vida medieval. (VAZQUÉZ, 2002, p. 275-276).

Dessa forma, a ética cristã medieval parte de um conjunto de argumentos contidos nas escrituras
(Antigo e Novo Testamentos), que são verdades reveladas por Deus e que tratam das relações entre
Criador e criatura, bem como no seu modo de agir prático no mundo em vista da salvação.

Como veremos, a ética cristã vai se desenvolver principalmente nos ensinamentos de Agostinho
e Tomás de Aquino. São esses dois pensadores que irão dar as bases do modo cristão de agir na
sociedade terrena em vista de uma outra mais celeste. Eles trarão, de forma inédita, a associação
de uma ação ética pautada num dinamismo da vida onde aparecerá o conceito de liberdade que
será associada ao livre-arbítrio, rejeitando o determinismo estoico.

Lima Vaz, em sua obra Introdução à ética filosófica 1 assim se expressa com relação a esta
nova maneira de agir no mundo do homem medieval:

Acompanhando o definitivo triunfo político da Igreja a partir de Constantino, a ética


cristã pré-agostiniana desenvolveu-se em muitas formas, desde a generalizada
utilização de conceitos de origem filosófica, sobretudo os estoicos, até a proposição
de diversos caminhos, ainda aqui em consonância com a tradição helenística da Ética
como pedagogia. O alvo é, de acordo com a mesma tradição, a consecução do fim
(telos) da perfeição ou de uma eudaimonia ou beata vita, propriamente cristãs, segundo
o modelo do Cristo e de seu ensinamento, cuja plena realização, porém, se dará no
advento de um novo céu e de uma nova terra, numa nova vida na contemplação face
a face de Deus (1Cor 13,12-13). Essa estrutura teleológica acompanhará doravante

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toda a história da Ética cristã, mas significará, por outro lado, uma reformulação
radical do eudaimonismo da Ética antiga. (VAZ, 2015, p. 175).

Vejamos agora então como essa ética vai se desenvolvendo no pensamento medieval a partir
das ideias de Santo Agostinho. Como sabemos, Agostinho (354-430 d.C.) nasceu em Tagaste, na
África, numa família peculiar. De pai pagão e mãe cristã fervorosa, da qual recebeu grande influência
religiosa nos primeiros anos de sua vida. Sua conversão ao cristianismo acontece depois de
muito perambular pelo mundo. Nessas idas e vindas, teve contato com outras culturas e linhas de
pensamento. A história de sua conversão é narrada no livro de sua autoria As confissões, através
das pregações de Santo Anselmo. Também nesse livro encontram-se as influências recebidas
durante a sua vida através das leituras de Cícero, brilhante orador romano, do maniqueísmo, do
ceticismo e do neoplatonismo.

Uma vez convertido, passa a buscar um sentido para a vida nos ensinamentos cristãos. A partir
daí torna-se seu fiel defensor e distancia-se do pensamento antigo, propondo um novo caminho em
direção à Deus. Agora, não mais há uma concepção coletiva que visa um bem maior do conjunto, mas
uma concepção individualista na relação entre Deus e o sujeito. Isso muda substancialmente a visão
de uma ética voltada para a felicidade (eudaimonia aristotélica). Portanto, a partir de Agostinho e sua
teoria da iluminação divina, a vida ética do cristão não encontra sua autorrealização na sociedade,
mas sim por sua relação espiritual com Deus. O que antes tinha uma linha horizontal nas relações
sociais, agora essa linha passa a ser vertical, em comparação com a cruz.

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Figura 20 – Espiritual

Fonte: Kitja Kitja / Shutterstock

Dessa forma, duas ideias se sobressaem: fé e caridade. Estas, por sua vez são privadas, ou seja,
são próprias dos indivíduos e têm relação íntima com Deus. Ora, o bispo de Hipona traz também
uma ideia nova e singular cuja base é a vontade, que, em suas palavras, transformou-se em livre-
arbítrio. Esta ideia parte do princípio de que, pelo pecado original (o de Adão e Eva), o homem se
distanciou de Deus e, por isso, tem uma tendência natural para pecar. A liberdade está, então, na
escolha que o indivíduo faz entre o bem e o mal, aproximar-se ou afastar-se de Deus. Em outras
palavras, a vontade, a liberdade e o livre-arbítrio são manifestações humanas individuais e, dessa
forma, são manifestações subjetivas.

Ao retomar e reler as obras de Platão, Agostinho toma para si a ideia de dualismo, reinterpretando-
as e dando supremacia ao espírito sobre o corpo. Dessa forma, a alma deveria governar o corpo
e levá-lo pelo caminho reto e do bem. Já o homem, vivendo neste mundo imperfeito, teria o livre-
arbítrio para escolher qual caminho seguir. No entanto, como o homem inverte essa lógica, sua
tendência será escolher o mal, submetendo o espírito à matéria. É dever da Igreja, portanto, levar o
homem ao caminho de Deus e da salvação, mediante um esforço pessoal, caracterizado pela graça
divina. Assim, a verdadeira liberdade para o homem estaria no retorno harmônico de suas ações
associada à vontade de Deus.

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Dessa forma, o pecado distancia o homem de Deus, tornando sua natureza fraca e incapaz de
realizar o bem e as virtudes apenas por intermédio de sua vontade. Note que a noção de vontade
medieval é diferente daquela proposta pelos filósofos antigos. Para estes, a vontade era uma
faculdade racional capaz de nos levar a ações morais; já para os cristãos, a vontade carece de
intervenção divina para que haja ações morais. Dessa forma, cabe ao homem o dever de obedecer
aos preceitos divinos revelados nas escrituras sagradas. Em outras palavras, o homem virtuoso
é aquele que cumpre obrigatoriamente a lei divina. Por isso, dizemos que a ética medieval é uma
ética do dever.

É desta definição que derivam as vias ou os caminhos pelos quais o homem deve seguir os
preceitos divinos, manifestadas em três tipos de condutas, a saber: a conduta moral ou ética, a
conduta imoral ou antiética e a conduta indiferente à moral. A primeira tendo como referência o
princípio de igualdade, isto é, a conduta se realiza de acordo com as normas estabelecidas pelo
dever; a segunda realizando-se contrariamente ao dever, e a terceira, em situações que não se
relacionam com o bem ou mal, ou seja, quando não estão vinculadas às regras do dever.

Ora, este caminho ético introduz uma outra diferença bastante significativa entre o pensamento
antigo e medieval. Enquanto para os antigos a conduta ética, marcada por ações e atitudes visíveis,
tinha na vontade racional o julgamento das ações virtuosos e morais, para os cristãos medievais,
esta ideia transfere-se para a interioridade do sujeito e sua relação com Deus. Dessa forma, as
ações julgadas virtuosas não são apenas as exteriores, mas também aquelas invisíveis, ligadas
ao interior do homem.

Essa afirmação encontra seu respaldo o Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano, onde se lê:

O misticismo neoplatônico colocou como propósito da conduta humana o retorno


no homem ao seu princípio criador e sua integração com ele. Segundo Plotino, esse
retorno é o “fim da viagem” do homem, é o afastamento de todas as coisas exteriores,
“a fuga de um só para um só”, ou seja, do homem em seu isolamento para a Unidade
divina. (ABBAGNANO, 2015, p. 443).

Ora, como estudamos até aqui, a ética medieval concentra-se toda em cima desta visão e
todas as ações devem tender para este fim. É esta, portanto, a visão que prevalecerá no período
medieval, impregnando as teorias éticas e vinculado-as, de forma dependente, da fé. Isso só se torna
possível com a ampliação das escolas cristãs. Como bem sabemos, a Igreja detinha o monopólio
do saber nesse período e, desta forma, poderia ampliar os seus valores para a sociedade. E foi o

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que aconteceu no período conhecido como escolástica, cujo grande expoente é Santo Tomás de
Aquino, que passaremos a estudar a partir de agora.

Com este ideal de uma vida mais austera e ascética, a Igreja começa a ampliar o seu quadro
de colaboradores que encontram nos estudos da filosofia estoica um meio de transcender, isto é,
de se chegar até Deus. Vários mosteiros são erigidos em diferentes pontos da Europa, ampliando
os tentáculos religiosos por todo o mundo conhecido.

Dessa forma, junto com os mosteiros, nasce também uma nova “educação” ou um novo sistema
de ensino sempre pautado nos valores religiosos. É nessas escolas, portanto, que começam a ser
ensinadas as matérias que irão ampliar o saber humano. É um itinerário formativo que se inicia-
se pelo trivium e aprofunda-se pelo quadrivium, mas sempre subordinados à teologia. Foi nesse
ambiente cultural que se desenvolveu uma importante produção filosófica destinada a fazer frente
aos desafios do mundo medieval e aos pensadores considerados pagãos. Santo Agostinho faz uma
primeira tentativa de conciliação entre fé e razão, mas é em São Tomás de Aquino que esta junção
se dará por completo. Fé e filosofia (pensamento racional) se unirão para dar conta da realidade,
isto é, para explicar os entes reais e metafísicos, através dos estudos da lógica.

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Figura 21 – São Tomás de Aquino

Fonte: Zvonimir Atletic / Shutterstock

Mas o que nos interessa agora é encontrar um estudo sobre ética no pensamento de São Tomás
de Aquino (1226-1274). Nascido no seio de uma família nobre, em Roccaseca, reino de Nápoles, desde
cedo teve contato com a vida monástica. Desse contato resultou no seu interesse em ingressar
na vida religiosa. Após ingressar na Ordem dos Pregadores (mais conhecida como Dominicanos)
dedicou-se a uma vida de oração e estudos. Grande estudioso e tradutor das obras de Aristóteles,
desenvolve uma teoria peculiar muito realista. Em outras palavras, Tomás apropria-se de conceitos
aristotélicos para formular o seu próprio pensamento. Assim, escreve sobre vários assuntos e
apresenta um estudo de peso em sua Summa Theologica com objetivos claros: não contrariar a fé
e ainda convencer os incrédulos ou pagãos.

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Vejamos o que o professor Lima Vaz fala sobre isto:

As ideias éticas dos primeiros séculos medievais, hauridas de preferência nos escritos
de Santo Agostinho, de Boécio e de Gregório Magno florescem sobretudo no seio
da chamada “teologia monástica”, que foi até o século XII a expressão mais típica
da vida intelectual da primeira Idade Média. No contexto da teologia monástica, a
reflexão moral retoma a tradição ascética do monarquismo do fim da Antiguidade
que, porém, passa a vigorar num clima cultural e espiritual profundamente diferente
daquele que reinara nas últimas fases da cultura antiga. (VAZ, 2012, p. 201),

Portanto, é de se esperar que o tomismo comece a exercer sua influência em seguida do movimento
agostiniano. Uma vez estabelecido os princípios básicos para uma vida ética, onde o modo de agir
do homem deve estar voltado para o transcendente, cabe agora ampliar esta visão e consolidar o
monopólio do pensamento. Ora, a história está repleta de dados bibliográficos descrevendo este
período. O que parece, neste período, é que reina um certo determinismo, mesmo com as discussões
sobre vontade e liberdade. Parece que todos os atos estão determinados a retornar para Deus.
Dessa forma, o homem medieval encontra-se diante de um dilema: como devo agir?

As discussões agora giram em torno da moralidade, da vontade, da liberdade, da retidão, da


justiça, da intenção e, principalmente, da felicidade que só será encontrada em Deus na cidade
celeste. Esta vida, portanto, é uma vida do dever, isto é, o homem deve cumprir os seus desígnios
na Terra em vista da salvação e da vida pós-morte na cidade eterna junto de Deus.

Dessa forma, a recuperação dos textos aristotélicos e, como vimos anteriormente, o texto da
Ética a Nicômaco trouxeram nova motivação para os estudos sobre ética. Desenvolve-se, portanto,
duas frentes para o entendimento e compreensão da pergunta “como devo agir?”: de um lado, a
visão teológica, e de outro, a filosófica. Em outras palavras, o estudo da ética medieval mostra-
se voltado para uma compatibilização da ética aristotélica com os ensinamentos religiosos, mas
também para um retorno à ideia do estagirita de eudaimonia. Note que fé e filosofia anda mantêm
discussões e duelos públicos acalorados e que seus temas serão sintetizados pelo tomismo.

Vejamos como essa discussão se desenvolve. Dissemos anteriormente que um tema bastante
discutido nesse período relacionava-se com a ideia de livre-arbítrio e liberdade. Esse tema é muito
importante para o estudo da ética, cujas reflexões foram feitas por Santo Agostinho e Santo Anselmo.
Outro tema que também entrou em discussão foi sobre a consciência do sujeito moral, isto é, quais
são os princípios que regem uma conduta moral ou quais são as normas últimas dos atos morais.

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As discussões evoluem e entra em cena o tema da moralidade intrínseca, ou seja, quais são os
objetos do ato moral, independentemente da intenção do sujeito que o pratica. Outro tema que fará
São Tomás dedicar-se muito na busca de respostas é a lei, dividida em lei moral, lei eterna e lei
natural. É destas três leis que os estudos tomistas irão trazer grande contribuição.

Lima Vaz, grande estudioso da filosofia, em seu livro Introdução à ética filosófica 1, assim se
expressa:

Como a própria Ética medieval, também a Ética tomásica conheceu duas fases que,
no entanto, não estão separadas por nenhuma ruptura profunda, pois, mais do que
o de qualquer outro grande pensador, o pensamento de Tomás de Aquino avança
seguindo uma linha harmoniosa e contínua que culmina na sua última e maior obra,
a Summa Theológiaea. [...] É, pois, dessa integração da Ética a Nicômaco, ou seja,
de um dos textos canônicos do humanismo grego ao sistema da moral cristã que
confere uma importância decisiva na história do humanismo cristão à doutrina ética
de Tomás de Aquino na Summa Theologiae. (VAZ, 2012, p. 213).

Portanto, para se compreender o pensamento do aquinatense, faz-se necessário um estudo prévio


dos ensinamentos teológicos e também das reflexões filosóficas. Dessa forma, você conseguirá
entender alguns conceitos muito caros à filosofia tomista. Note que as reflexões de São Tomás
caminham na direção de uma continuidade e colaboração dos estudos anteriores, principalmente
os de Santo Agostinho, mas sempre como meta clara a defesa da fé. Dessa forma,

O Aquinatense não hesita em utilizar amplamente e profundamente a Ética a Nicômaco,


interpretando-a livremente segundo as exigências da moral evangélica, na grandiosa
construção intelectual de uma Ética cristã levada à cabo na 2ª parte da Summa
Theologiae. A Ética tomásica nos aparece, assim, na confluência de duas grandes
tradições que alimentavam a vida intelectual no século XIII latino: a tradição teológica,
sobretudo agostiniana, e a tradição filosófica, sobretudo aristotélica. (VAZ, 2012, p.
215).

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Figura 22 – Santo Anselmo

Fonte: Ovchinnikova Irina / Shutterstock

Em resumo, tudo que estudamos até aqui nos mostra que as reflexões éticas de Tomás de Aquino
abordam as indicações agostiniana-platônicas associadas ao novo momento histórico cristão e,
portanto, suas reflexões apontam para o caminho de uma ética da “perfeição e da ordem”. Ora,
estas noções serão relidas, no pensamento aristotélico, como ato que se realiza na ação humana.
Desse modo,

[...] todo ser, enquanto ato, é perfeito em sua ordem, ou seja, orientado para o seu
fim e agindo em vista desse fim”. Tal é a ação ética enquanto ato humano que deve
realizar, por definição, a perfeição do ser humano enquanto ser racional e livre. Bem
e fim ou perfeição e ordem são, pois, categorias metafísicas que subjazem à Ética
tomásica como ética filosófica e que devem ser levadas em conta a cada passo de
sua elaboração conceptual. (VAZ, 2012, p. 216).

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Em suma, é preciso ter claro no estudo do tomismo um ethos natural e um ethos cristão, pois
é desta diferenciação que surge uma práxis que leva o sujeito a agir no mundo em vista de um
ser transcendente, que é Deus. Esta só é possível a partir de uma ideia de beatitude, isto é, aquela
noção antiga de felicidade transformada pela revelação cristã que irá indicar os modos de agir do
homem no mundo. Sobre este assunto há uma imensa bibliografia disponível, mas que não é nossa
intenção esgotá-la aqui neste estudo. Passemos, pois, adiante, para mostrar como a ciência do
ethos que vimos logo no início transforma-se com as mudanças históricas ocorridas no mundo
europeu e que passam a ser conhecidas como período moderno.

6. A ÉTICA MODERNA E O PRAGMATISMO DE MAQUIAVEL


O século XVI marcou a quebra de uma hegemonia do pensamento cristão católico. Acontecimentos
ligados à Reforma Protestante, à revolução científica e ao próprio Renascimento colocaram em
cheque toda a tradição cristã. Falo da tradição cristã pois, na Idade Média, parte considerável do
pensamento grego foi cristianizado em Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Mesmo assim,
a ciência aristotélica também não foi poupada das críticas. Pelo contrário, foi alvo de intensos
“bombardeios” das novas posturas científicas dos séculos XVI e XVII.

É desse emaranhado de acontecimentos que surge uma nova postura ética no mundo dito
agora moderno. Note que a mudança de paradigma também acompanha uma mudança de postura
ética, isto é, o agir humano passa por transformações devido aos novos modelos existenciais que
se vislumbram no horizonte.

É bom lembrar que a ética moderna possui características bem diferentes e distintas daquela que
estudamos anteriormente. Assim, podemos dizer que temos uma ética pré-kantiana e uma mudança
no paradigma pós-Kant. E por que lembramos disso aqui em nosso estudo? Justamente para que
você esteja atento às mudanças sofridas pelo ethos nesses novos tempos. Já mencionamos que
o homem moderno está se distanciando daquele mundo medieval-cristão, portanto, deve buscar
novos modelos ou novo horizonte para onde seguir.

E essas mudanças acontecem justamente num período conhecido como Renascimento. Dessa
forma, no terreno da reflexão ética passam a germinar novas noções ou concepções mais voltadas
para um humanismo, diferentemente daquele projetado no período anterior cujo fim era Deus. Agora,
o centro está no homem e sua autonomia racional como fonte de orientação e conhecimento na
modernidade. Esta visão terá seu expoente máximo Immanuel Kant com suas reflexões sobre a
razão, faculdade legisladora capaz de conhecer as normas e, a partir delas, agir no mundo. O que

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nos interessa para nosso estudo é evidenciar o debate racionalizado entre ética e política. Note
que o período moderno tem dois grandes “modelos” éticos mais evidenciados pela tradição, que
é o aristotélico e o kantiano.

Portanto, a nova visão antropocêntrica se sobrepõe à antiga visão teocêntrica e medieval e,


desta forma, assenta-se sobre as grandes transformações pelas quais a sociedade, a economia,
a política, a cultura e também a ética estão passando, dando origem a um novo modo de pensar
mais científico.

Vejamos o que diz o professor Vázquez (2002, p. 280):

O homem adquire um valor pessoal, não só como ser espiritual, mas também como
ser corpóreo, sensível, e não só como ser dotado de razão, mas também de vontade.
Sua natureza não somente se revela na contemplação, mas também na ação. O
homem afirma o seu valor em todos os campos do saber: na ciência (pondo-a a
serviço de suas necessidades humanas); na natureza (considerando-a como objeto
de transformação ou produção humana); na arte (representando tudo – inclusive as
virgens – com olhos humanos). O homem aparece, portanto, no centro da política, da
ciência, da arte e também da moral. Ao se transferir o centro de Deus para o homem,
este acabará por apresentar-se como o absoluto, ou como o criador ou legislador
em diferentes domínios, incluindo nestes a moral.

É neste mundo em movimento que uma nova ética e uma nova moral irão se desenvolver a partir
da razão humana, de seu domínio sobre a natureza e da sua ciência, que trará novas respostas
a antigos questionamentos. O Renascimento passa a ser um contraponto com a antiga ordem
estabelecida, trazendo novos olhares, movimento, novas ideias e sensibilidades, retomando valores
e ideais da civilização antiga e ampliando o progresso nas ciências e nas artes.

A reflexão filosófica passa agora por profundas transformações e a ideia mestra passa a ser
a sapientia, isto é, uma nova reflexão sobre o homem, sobre o mundo e sobre a natureza. Dessa
reflexão surgem dois novos horizontes: um voltado para a dignidade do homem e outro revela-se
na universalidade e igualdade da natureza humana. É desta forma que se desenvolvem novos
paradigmas explicativos da realidade. Portanto, a ética também passa a ser pensada sob duas
frentes: a primeira com referência ao período anterior, cuja base assenta-se em Platão e Aristóteles,
enriquecida pelas discussões medievais, e a segunda, com os avanços iniciados pelos estudos
tomistas e que geraram um novo paradigma centrado na figura de um humanismo.

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Figura 23 – Maquiavel

Fonte: Goran Bogicevic / Shutterstock

Sobre estas ideias, o professor Lima Vaz (2015, p. 263) assim define este período:

Pela sua própria natureza e pelo espírito que a animava, essa forma de pensamento
ético não procurou exprimir-se na forma de sistemas ou a produzir grandes sínteses
comparáveis com as dos mestres medievais do século XIII. Trata-se de uma ética
gnômica, ou seja, feita de sentenças inspiradas na sabedoria antiga, e perceptiva,
com finalidades eminentemente práticas.

Paralelamente a estas transformações, desenvolve também uma reflexão sobre a moral na sua
concepção política, isto é, uma reflexão mais voltada para a prática política, em contrapartida àquela
concepção aristotélica, mais voltada ao poder, de legitimação e fundamentação filosófica. Maquiavel,
portanto, não quer desprezar os valores morais, antes quer romper com a moral eclesiástica cristã.

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Assim, desenvolve-se um discurso próprio a partir dos ensinamentos de Nicolau Maquiavel que
veremos a seguir.

Maquiavel (1469-1527), pensador político, foi um dos primeiros a separar ética, política e religião.
Para ele, estava muito claro que o agir humano (agir político) não deveria ter por fundamento conceitos
religiosos ou metafísicos. Dessa forma, foi um dos pioneiros a iniciar uma transição de um saber
ético voltado para o sujeito moral se transformar numa reflexão política, retirando dos atos ou do
agir humano os critérios de bondade ou maldade. Duas de suas obras são consideradas iniciadoras
desse processo: a primeira e mais amplamente difundida é conhecida como O príncipe (1517), e a
segunda, também importante, intitulada Discurso sobre a Primeira Década de Tito Lívio (1515-1519).

Saiba Mais

Para quem quiser se aprofundar nas leituras sobre Maquiavel e a obra Discurso sobre a Primeira
Década de Tito Lívio, recomendamos a seguinte leitura:

MAQUIAVEL, Nicolau. Comentários sobre a Primeira Década de Tito Lívio. 5. ed. Brasília: UNB, 2000.

Nascido no principado de Florença, da poderosa família italiana dos Médici, filho de pais pobres,
desde muito cedo dedicou-se aos estudos e ao trabalho. Foi secretário, copista e chanceler da cidade
de Florença. Em suas viagens a trabalho, como enviado especial da República de Florença, tomou
contato com diversos tipos de governo. Esta experiência lhe rendeu o seu estudo mais famoso,
conhecido como O príncipe.

O que faz de Maquiavel o pai do pragmatismo moderno para alguns? Segundo ele, uma ação
será boa na medida em que produz o resultado esperado, ou seja, não existe nada que seja bom ou
ruim em si mesmo, pelo contrário, é o resultado que determinará isso. Nesse caso, diferentemente
do pensamento grego e do cristão, a virtude estaria justamente na capacidade de atingir os fins
esperados.

[...] característica marcante do pensamento maquiaveliano é a rejeição completa do


legado ético cristão da Medievalidade e a constituição de uma moral laica de base
naturalista. Isto vai nos levar à secularização da política, movimento de ruptura
com o pensamento político medieval que vinculava política à religião, à Igreja. É,
por romper com estes laços da política com a religião que Maquiavel entrou para a
história como o fundador da ciência política. (AMARAL, 2012, p. 29).

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Saiba Mais

Márcia do Amaral é professora Doutora Adjunta da UERJ. Seu texto Maquiavel e as relações
entre ética e política pode ser encontrado no link <http://www.ensaiosfilosoficos.com.br/
Artigos/Artigo6/AMARAL_Marcia.pdf> (acesso em 3 ago. 2017). A leitura se faz importante
para desmistificar a figura de Nicolau Maquiavel que a tradição e seus opositores,
principalmente eclesiásticos, fizeram de seus escritos e de sua pessoa.

Figura 24 – Maquiavel e Borgia

Fonte: Everett Historical / Shutterstock

Para esse pensador, na vida, existem duas possibilidades: ser dominado ou dominar. Ele tem
uma visão agonística das relações humanas, ou seja, os homens estariam num eterno conflito de
forças. A disputa, para Maquiavel, é algo inerente à natureza humana. Com isso, surge a necessidade
de traçar para a vida estratégias que nos permitam perder o menos possível. Em outras palavras,
na vida, é preciso ocupar território. Para tal, os homens não podem fundamentar os seus valores
em princípios dogmáticos, uma vez que, se a vida é uma guerra, os métodos e as estratégias de
ação devem mudar constantemente.

Em síntese, a concepção moral maquiaveliana não admite existência de um Bem ou


um Mal preexistentes a definir os atos humanos, mas admite a existência de atos
bons ou maus conforme observem ou não o bem da coletividade. Portanto, a Moral

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em Maquiavel perde sua autonomia e sua transcendência e é integralmente absorvida


pela Política. (AMARAL, 2012, p. 34).

Perceba que, nesse caso, tanto o cosmos dos gregos quanto a vocação dos cristãos perdem o seu
espaço. Pois, se agir é lutar, para isso, é preciso buscar sempre novos caminhos que nos permitam
obter melhores resultados. Então, não é viável para a vida um modo de pensar que nos amarre a
princípios estagnados. No Capítulo III da obra O príncipe fica evidente como o comportamento
político deve estar ligado à questão do resultado. Assim como o príncipe deve se precaver de todos
os modos para não perder seu território conquistado, também se faz necessário a observância de
algumas regras básicas.

Saiba Mais

A obra completa de O príncipe pode ser acessada no seguinte link http://www.dominiopublico.gov.br/


pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=24134. Outro site bastante interessante em
português que se encontra disponível na web e que traz informações sobre este pensador é o www.
nicolaumaquiavel.com.br.

Note que sempre enfatizo durante as nossas aulas da importância de se dirigir às fontes. Nada
melhor do que ler diretamente na obra do pensador para beber de suas reflexões. Nosso trabalho,
como professor, é elucidar alguns pontos que porventura não ficaram claros. Cabe a você, leitor-
aluno, tomar contato direto com a maneira como o autor escreveu e somente depois partir para
seus comentadores.

Retomemos nosso raciocínio inicial a respeito do Capítulo III, do livro O príncipe. Destaco aqui
dois pontos que penso ser importante para iniciar nossa reflexão: 1) as dificuldades para conquistar
e manter o poder e 2) aceitação dos derrotados e a relação do governante com um idioma diferente
do seu. Com relação ao primeiro, percebe-se que o homem, seja em que tempo histórico viva, não
aceita de boa vontade a subordinação; já o segundo item apresenta duas dificuldades, isto é, uma
impositiva e outra de costumes, uma vez que o novo governante provém de um costume diferente.

Para esses problemas, Maquiavel propõe soluções de ordem bem prática, ou seja, pragmática.
Segundo ele, o governante deve ir habitar pessoalmente a região ou criar colônias, bem como
deve evitar alterar os costumes do povo. Na verdade, o que nos importa aqui é perceber o quanto
de praticidade existe no pensamento de Maquiavel, ou seja, a lógica do resultado, que receberá o
nome de ética consequencialista, na qual deve-se levar em consideração três pontos: a) cuidado
com os estrangeiros; b) o desejo de conquistar é natural; c) a ruína é a melhor forma de conquista.

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Maquiavel, com essa famosa obra, inaugura a ética pragmática. Esse modelo ético vai, entre
outros aspectos, valorizar a separação entre política e ética. O que significa isso? Entre outras
coisas, indica que as ações políticas não precisam necessariamente de um filtro ético. Na verdade,
importa a obtenção e a manutenção do poder.

Em suma, é possível notar que foi Maquiavel uns dos primeiros a quebrar a hegemonia da
moral cristã, ou seja, ele propõe uma moral sem Deus. Portanto, esse autor pode ser considerado
um divisor de águas no pensamento moral. Dessa forma, percebe-se que o pensamento político de
Maquiavel é sempre o mais exaltado pela tradição. No entanto, também há em suas reflexões um
pensamento ético que influenciou e muito os diversos pensadores que o sucederam.

7. O PENSAMENTO DE NIETZSCHE
Figura 25 – Friedrich Nietzsche

Fonte: Everett Historical / Shutterstock

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Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) nasceu em em Röcken (Baixa Saxônia). É talvez um


dos pensadores mais lidos do século XX e do século XXI, bem como um dos mais polêmicos no
que diz respeito ao pensamento ético. Certamente, em algum momento da sua vida você já ouviu
a expressão “filosofia a golpes de martelo”. É atribuída a este pensador esta nova forma de fazer
filosofia. Crítico ferrenho de uma tradição filosófica pouco adequada aos novos tempos ou mesmo
limitada a uma única visão de mundo, aquela socrático-platônica, recuperada e ampliada pelo
medievalismo cristão, procede a uma transvaloração dos valores.

E por que dizemos isso? Para constatar que este filósofo é aquele que, a partir do conhecimento
estabelecido pela tradição, contradiz tudo e todos para formular um novo homem para uma nova
sociedade, mais criativa, mais forte e mais crítica de si mesma. Ele contradiz a euforia positivista e
sua crença na razão, contradiz os idealistas e historicistas e suas crenças no progresso histórico,
contradiz os religiosos e sua crença numa outra vida. Em suma, Nietzsche foi um pensador que
incomodou muita gente. Talvez esteja aí o fato de suas obras serem aceitas em tempos atuais. Em
tom “profético”, ele proclama um novo homem para uma nova sociedade.

O professor Reale assim o apresenta:

A filosofia de Nietzsche, portanto, se propõe como inversão das ideias filosóficas


e dos valores morais tradicionais. A natureza dos temas tratados, a forte vontade
provocatória que se irradia nas direções mais disparatadas, o estilo aforístico e, por fim,
algumas vicissitudes ligadas à publicação da Vontade de Poder e do Epistolário fizeram
com que as interpretações de Nietzsche fossem as mais díspares e controversas.
(REALE, 1991, p. 422).

Portanto, ler Nietzsche não é tarefa fácil, uma vez que o seu estilo de escrita rebuscado e próprio
dificulta a leitura daqueles que tiveram um contato superficial com a filosofia. O seu estilo crítico
faz com que o leitor transite por diversas áreas da história do pensamento. Para tal, Nietzsche
percorre um itinerário que começa na mitologia grega, passando pelos pré-socráticos, Sócrates,
Platão, pelo pensamento cristão, entre outros.

Sendo ele autor de um pensamento amplo, não seria nossa intenção esgotar nossa aula com
suas reflexões. O que nos interessa é abrir caminho para que você possa transitar pelos escritos e
pelas reflexões deste importante pensador moderno e a partir daí traçar a sua própria interpretação
das palavras de Nietzsche. Portanto, estabeleceremos apenas indicações para a sua leitura deste
filósofo.

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Nietzsche, em linhas gerais, entende a história do conhecimento como uma coisa única, ou
seja, como história das ideias. De acordo com ele, a história do conhecimento teria sido vítima de
uma única interpretação da realidade: a socrático-platônica. O que seria isso? Segundo Nietzsche,
toda a história da filosofia estaria “contaminada” por uma única forma de ler e enxergar o mundo,
ou seja, o modo de pensar racional introduzido, sobretudo por Sócrates e Platão.

Nietzsche vai usar uma figura metafórica para falar da história do conhecimento: Apolo versus
Dionísio. O que seria isso? Apolo é o deus da razão e da ordem. Na hierarquia dos deuses da mitologia,
ele é um dos responsáveis pela manutenção da ordem cósmica, evitando que o caos estabelecido
pelos titãs retorne. Por outro lado, Dionísio é o deus do vinho e das bebedeiras. Ele está muito mais
próximo do caos dos titãs do que do cosmos de Zeus.

Na metáfora de Nietzsche, Apolo representa a razão, e Dionísio, os sentimentos. Quem venceu


essa guerra? Segundo ele, Apolo prevaleceu sobre Dionísio, e, por isso, o pensamento ocidental foi
condenado a uma visão deficitária do mundo e da realidade.

Nietzsche vai denominar essa forma de pensar de niilismo. O que significa isso? Na visão do
senso comum, o niilista é o sujeito sem nenhum escrúpulo, sem critérios morais para a vida. Em
alguns casos, ele foi visto como um sem-caráter.

Mas o que Nietzsche entende por niilista? Para ele, o niilismo é a negação da vida. Ou seja,
todos aqueles que negam as pulsões naturais da vida (dos sentidos) em nome da razão ou de uma
verdade metafísica são verdadeiros niilistas. Em outras palavras, este é um negador da existência,
uma vez que nega as inclinações naturais em nome de uma racionalidade abstrata. É a troca do
concreto da vida pelo abstrato da razão. Dito de outro modo, o niilista nega os sentidos em favor
da razão, o corpo em prol da alma, bem como a vida em favor da morte. Em resumo, é um negador
da existência e, portanto, uma ameaça aos seres humanos.

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Figura 26 – Moeda em homenagem Nietzsche

Fonte: Claudio Divizia / Shutterstock

Ora neste pequeno processo introdutório já podemos perceber que Nietzsche vai desafiar a
“ordem filosófica estabelecida”. Neste processo, ele nos desafia a pensar sobre a nossa forma de
agir no mundo, criticando nosso hábitos e valores. Portanto, é nosso dever refletir sobre nossas
condutas, hábitos e crenças e repensar nossa ação no mundo. Seu propósito foi o de fazer um
levantamento dos valores estabelecidos pela tradição e que não são questionados pelo homem. Em
sua obra Assim falava Zaratustra introduz essa ideia de valor e vai buscar a sua criação, isto é, em
todo tempo histórico não se questionou sobre o que é “bem” ou “mal”, mas apenas os transformaram
em valores essenciais.

E, como dissemos no início deste nosso estudo, ética é uma palavra derivada do ethos grego e
tem como origem casa/morada ou hábito/costume. Dessa origem, o termo foi se desenvolvendo e
se transformando de acordo com as mudanças históricas e sociais. Ora, em Humano, demasiado
humano, o filósofo do martelo vai buscar a gênese dos nossos valores atuais. Eles não existiam
desde sempre, isto é, em algum momento surgiram e foram aceitos como “bons”. Daí os seus
estudos serem voltados para a Grécia Antiga, mais especificamente nas histórias mitológicas de
Apolo e Dionísio.

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Saiba Mais

Para aprofundar os seus conhecimentos, recomendamos a seguinte leitura: NIETZSCHE, F. Humano,


demasiado humano. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
Coleção Companhia de Bolso.

O seu desenvolvimento se deu com as transformações históricas até chegar o cristianismo. A


religião cristã veio inverter aquela ideia original da supremacia do mais forte sobre o mais fraco. A
partir de agora, o “reino dos fracos e oprimidos” instaura-se sobre a terra e cria novos modos de agir
na sociedade, novos valores. Esta é a crítica de Nietzsche à religião: ela impede o homem de atingir
a sua potência natural, isto é, tornar-se aquilo que verdadeiramente é, em virtude da atenção ao
mais “fraco”. Para que haja um novo homem ou mesmo um “super-homem”, é necessário decretar
a morte de Deus e de toda religiosidade, como o faz a metáfora do homem louco em A gaia ciência.
Vejamos o que o próprio Nietzsche diz sobre isso:

O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. ‘Para
onde foi Deus’, gritou ele, ‘já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos
seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o
mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar
a terra do seu sol? Para onde se move agora? Para onde nos movemos nós? Para
longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para
a frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos
como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não
se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas
de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o
cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto!
Deus continua morto! E nós o matamos! (NIETZSCHE, 2012, p. 129, Aforismo 125)

Saiba Mais

Para aprofundar os seus conhecimentos, recomendamos a seguinte leitura:

NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras,
2012. Coleção Companhia de Bolso.

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Uma vez desmontada a torre sobre a qual se ergue a “doutrina” dos valores morais cristãos, cuja
base encontra-se na culpa, na má consciência, no altruísmo, no amor ao próximo etc., um novo homem
poderá erguer-se e, com criatividade, tornar-se o que é: o super-homem. Nessa linha de pensamento,
Nietzsche vai buscar inspiração em Montaigne, Pascal, La Rochefoucauld, Vauvenargues, Chamfort
e Sthendal, cujas reflexões giram em torno da conduta humana e da figura do homem como ele
é, e não pautado em moralismos religiosos ou em alguma lei divina. Por exemplo, Pascal, já no
século XVII, empreende reflexões sobre as ilusões que o homem cria sobre si mesmo e Chamfort,
no século XVIII, amplia essa pesquisa para o âmbito social. Stendhal, no século XIX, comparando
costumes de diferentes povos, acredita poder tecer considerações gerais.

Em Nietzsche, esses valores que aparecem individuais e tornam-se gerais e universais não
postulam tais universalidades. Em sua obra Genealogia da moral, traça um panorama histórico
social da ética e dos valores a partir da busca de um valor central que norteia e cria todos os
demais. Assim, é preciso encontrar um valor que não seja possível ser avaliado, qual seja, o valor
da vida. Assim, tanto a moral quanto a política, a religião, a arte e até mesmo a filosofia devem ser
submetidas à investigação genealógica, isto é, devem passar pelo filtro da vida.

Vejamos o que o professor Reale (1991, p. 430) fala sobre isso:

A crítica ao idealismo, ao evolucionismo, ao positivismo e ao romantismo não cessa.


Essas teorias são coisas “humanas, muito humanas”, que se apresentam como
verdades eternas e absolutas que é preciso desmascarar. Mas as coisas não ficam
nisso, já que Nietzsche, precisamente em nome do instinto dionisíaco, em nome
daquele sadio homem grego do século VI a.C., que “ama a vida” e que é totalmente
terreno, por um lado anuncia a “morte de Deus” e por outro realiza profunda ataque
contra o cristianismo, cuja vitória sobre o mundo antigo e sobre a concepção grega
do homem envenenou a humanidade. E, por outro lado ainda, vais às raízes da moral
tradicional, examina a sua genealogia e descobre que ela é moral dos escravos, dos
fracos e dos vencidos ressentidos contra tudo o que é nobre, belo e aristocrático.
(REALE, 1991, p. 430).

Viver, portanto, segundo Nietzsche em sua obra Para além do bem e do mal, é ser forte, dominar,
impor-se sobre o mais fraco. Ora, nesta perspectiva compreende-se por que ele insiste nesse
processo. Uma vez que a moral cristã instaura o reino do “oprimido e mais fraco” como único “bem”
a ser perseguido, impede o homem de realizar-se segundo a sua natureza, portanto, a religião passa
a negar a vida, a vitalidade do homem forte, dominador, realizador, criativo.

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Figura 27 – Figura de Zeus, concepção grega de Deus

Fonte: Barandash Karandashich / Shutterstock

Sob este ângulo, as reflexões do filósofo do martelo não trariam nenhuma possibilidade de
futuro. Pelo contrário, esse estudo possibilita também um norte, um futuro para este homem que
emerge das catacumbas cristãs e que tem na figura do filósofo o “médico” que vai dosar o remédio
para resolver o problema dos valores. Assim como Sócrates ou Jesus Cristo, Nietzsche vem para
inverter os valores em busca de novos valores, derrubando os ídolos e martelando os alicerces do
antigo edifício do conhecimento para fundar uma nova civilização de valores.

Vejamos sinteticamente como ele concebe estas ideias. Lá na Antiguidade, Sócrates, com
seu método dialético, inaugura uma ruptura entre os antigos deuses metafísicos e a realidade
do homem, transformando o conhecimento como uma esfera do homem, isto é, o mundo passa
a ser antropológico. O judaísmo procede quase da mesma maneira. Rompendo com as antigas
tradições politeístas, cria um único Deus, que foi amplamente difundido pelo cristianismo, e suas
falsas promessas de um outro mundo chamado reino de Deus. Ora, se pararmos para pensar, esses
conceitos instauram no mundo um certo niilismo. Segundo o professor Reale, em sua História da
filosofia, volume 3,

O niilismo, diz Nietzsche, é “a consequência necessária do cristianismo, da moral e do


conceito de verdade da filosofia”. Quando as ilusões perdem a máscara, então nada

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resta: o abismo do nada. “Como estado psicológico, o niilismo torna-se necessário,


em primeiro lugar, quando procuramos em todo o acontecimento um ‘sentido’ que ele
não tem, até que, por fim, começa a faltar coragem a quem procura”. Aquele “sentido”
podia ser a realização ou o fortalecimento de um valor moral (amor, harmonia de
relações, felicidade etc.). Mas o que devemos constatar é que a desilusão quanto a
esse fim é “uma causa do niilismo”. (REALE, 1991, p. 434).

Ora, se tudo está acabado, se não há mais para onde correr ou se esconder, então resta-
nos aceitar tudo como está? Claro que não. É preciso transvalorar esses valores, isto é, buscar
novas formas de se viver segundo a potência do homem novo. É preciso questionar tudo o que é
venerado como verdade até este momento e buscar as raízes de tudo o que foi desprezado, negado,
subestimado, escondido e trazer à luz os novos valores. E a solução é transformar o homem em
seu próprio legislador, isto é, em criador de valores, naturalizando-os, e não mais vinculando-os a
uma transcendência.

É desta visão que Nietzsche propõe um novo homem, criador-criativo, forte, valente, destemido.
Não é sua intenção criar um novo modo de viver e agir para o homem, mas sim levá-lo a compreender
que seu modo de agir deve ser pautado por valores relacionados à terra, ao corpo e à vida. O próprio
homem deve ser o autor e legislador de sua vida. Afinal, para que haja algo novo, é preciso negar
algo anterior.

Portanto, quando falamos de ética no mundo moderno, período muito conhecido pela euforia
no uso da razão e seus benefícios, veremos que alguns filósofos, inclusive Nietzsche, indicam um
certo abandono da tradição que concebia uma ética universal e racional, cujo ápice se dá no sistema
hegeliano, em vista de um retorno a uma ética mais individual e pragmática.

Dessa forma, pudemos perceber que Nietzsche torna-se um ferrenho crítico da tradição filosófica
e sua ética seguirá uma radicalidade nunca antes vista ao propor uma revisão dos valores. Ora,
o campo da ética e da moral é, por essência, o campo dos valores. Logo, será nessa seara que
Nietzsche irá desenvolver o seu raciocínio sobre a ética, “numa concepção geral da vida e da cultura,
dominada pela ideia de vontade de poder como força criadora de valores”.

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7.1 Sócrates e Platão: os primeiros niilistas


Segundo Nietzsche, é em Sócrates e Platão que encontramos a gênese do niilismo, uma vez que
estes dois pensadores teriam sido os primeiros e principais negadores da vida. Mas como chegamos
a esta conclusão? Vejamos. Sócrates é o primeiro a transpor o conhecimento do homem criador
e artista para o homem teórico, isto é, inverte a situação daquele homem poeta trágico mitológico
para um homem racional e conhecedor do mundo a partir de uma universalidade. Platão vai na
mesma linha ao propor uma contemplação do mundo inteligível de ideias eternas e imutáveis. Ora,
este homem racional cria valores a partir de uma produção teórica, ideal, pautado numa ideia de
“bem”, que o cristianismo medieval irá transformar em “bom” e “mal”.

Portanto, a ação do homem no mundo deve pautar-se sobre este paradigma ideal, e não mais
em seu aspecto criativo. Dessa forma, o homem criador deve dar lugar ao homem teórico. O homem
da tragédia, poeta, criador e criativo não faz perguntas de como deve ou não agir, mas apenas age
no mundo a partir das circunstâncias e da sua vida. Esta capacidade criadora é que é anulada e,
portanto, assume uma postura niilista.

Figura 28 – Força criadora

Fonte: ESB Professional / Shutterstock

Para nos ajudar nessa reflexão, vamos percorrer o caminho traçado pela filósofa Viviane Mosé
(2009) numa aula a respeito da relação entre Nietzsche e a linguagem.

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De acordo Mosé, Nietzsche entende que Sócrates e Platão foram os primeiros a quebrar a
diversidade do pensamento grego em prol de uma única explicação do mundo. Onde estaria essa
diversidade? Explico. Na mitologia grega, que era a forma fantasiosa e imaginária que os gregos
encontravam para explicar a realidade, a verdade não é o principal aspecto. Na realidade, a mitologia
não está preocupada com a verdade, ao contrário, as formas mitológicas de explicação do mundo são
maneiras de interpretar a realidade. Com Sócrates, surge a ideia de Verdade e, com isso, de acordo
com Nietzsche, nasce a tragédia na história do pensamento. A mitologia explicava a realidade por
meio da arte, ou seja, a interpretação do mundo era feita do ponto de vista da fantasia. Não podemos
afirmar que os mitos eram mentirosos, uma vez que a questão da verdade não se coloca para eles.

Na obra Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche dedica um capítulo o que ele chamou “o problema
Sócrates”. Transcrevo abaixo uma pequena parte do capítulo, o qual você poderá lê-lo acessando
o link disponibilizado no rodapé. Vejamos:

1. Em todos os tempos os grandes sábios sempre fizeram o mesmo juízo sobre a


vida: ela não vale nada... Sempre e por toda parte se escutou o mesmo tom saindo
de suas bocas. Um tom cheio de dúvidas, cheio de melancolia, cheio de cansaço
da vida, um tom plenamente contrafeito frente a ela. O próprio Sócrates disse ao
morrer: “viver significa estar há muito doente - eu devo um galo a Asclépio curador”.
O próprio Sócrates estava enfastiado da vida. O que isso demonstra? Para onde isso
aponta? (NIETZSCHE, 2010, p. 17).

Pela sua leitura do trecho acima e do capítulo todo constante no livro, fica fácil perceber como
Nietzsche considerava Sócrates e Platão os verdadeiros negadores da vida e da existência. Ora,
fazer uma afirmação de que em todo o tempo da história da humanidade sempre houve pessoas
que refletiram sobre a vida e chegaram à conclusão de que “ela não vale nada” já é um indicativo de
que do jeito que está é muito ruim viver. Contudo, para onde seguir se eu tenho apenas esta vida?
O que fazer neste mundo se não há como fugir? “Para onde isso aponta?”

Saiba Mais

Para aprofundar o seu conhecimento, sugerimos a leitura da obra, indicando: NIETZSCHE, F.


Crepúsculo dos Ídolos. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
Coleção Companhia de Bolso.

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Nietzsche continua a sua reflexão apontando para Sócrates e Platão como os iniciadores de
uma inversão de valores e negadores da vida pulsante e criativa do homem. Vejamos:

[...] Reconheci Sócrates e Platão como sintomas de declínio, como instrumentos da


decomposição grega, como falsos gregos, como antigregos (“Nascimento da Tragédia”
1872). Aquele consensus sapientium – isto fui compreendendo cada vez melhor –
não prova sequer minimamente que eles tinham razão quanto ao que concordavam.
O consenso demonstra muito mais que eles mesmos, esses mais sábios, possuíam
entre si algum acordo fisiológico para se colocar frente à vida da mesma maneira
negativa – para precisar se colocar frente a ela desta forma. Juízos, juízos de valor
sobre a vida, a favor ou contra, nunca podem ser em última instância verdadeiros: eles
só possuem o valor como sintoma, eles só podem vir a ser considerados enquanto
sintomas. Em si, tais juízos são imbecilidades. (NIETZSCHE, 2010, p. 18).

Ora, tais juízos sobre a vida “não podem ser estimados”, isto é, não podem ser feitos se não
houver uma reflexão mais profunda a respeito da própria vida. No entanto, o que de mais importante
podemos auferir desse parágrafo está na análise que o autor faz acerca da audácia dos sábios de
atribuir algum valor à vida, ou seja, como seria possível ao homem, na sua insignificância diante da
existência, atribuir-lhe valor, seja ele negativo ou positivo? Em outras palavras, como o ser humano,
que é parte da vida, pode falar dessa mesma vida na sua totalidade? A parte pode discorrer a
respeito do todo? Evidentemente que não, de acordo com Nietzsche. Sendo assim, Sócrates e Platão
propõem uma filosofia absurda ao valorar a vida e dualizá-la em verdadeiro (mundo das ideias) e
falso (mundo sensível). Continuemos:

3. Segundo sua origem, Sócrates pertence à camada mais baixa do povo. Sócrates
era plebe. Sabe-se, ainda se pode até mesmo ver, quão feio ele era. Mas a feiúra, em si
uma objeção, é entre os gregos quase uma refutação. Sócrates era afinal de contas um
grego? Muito freqüentemente, a feiúra é a expressão de um desenvolvimento cruzado,
emperrado pelo cruzamento. Em outros casos, ela aparece como desenvolvimento
decadente. Os antropólogos dentre os criminalistas dizem-nos que o criminoso típico
é feio: monstrum infronte, monstrum in animo. Mas o criminoso é um décadent.
Sócrates era um típico criminoso? Ao menos não o contradiz aquele famoso juízo-
fisionômico que soava tão escandaloso aos amigos de Sócrates. Um estrangeiro,
que entendia de rostos, disse certa vez na cara de Sócrates, ao passar por Atenas,
que ele era um monstro e escondia todos os vícios e desejos ruins em si. E Sócrates
respondeu simplesmente: “Vós me conheceis, meu Senhor!” (NIETZSCHE, 2010, p. 18).

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Figura 29 – a morte de Sócrates

Fonte: Everett – Art / Shutterstock

Depois desse trecho, se estivéssemos em uma aula presencial, eu pediria aos alunos uma
pausa para um café. Talvez fosse a melhor alternativa para nos acalmar. Mesmo assim, aconselho
que você tome um pouco de fôlego para continuar a leitura. O trecho no qual Nietzsche compara
a feiura de Sócrates com os aspectos de um criminoso demonstra que ele estava sob a influência
dos criminologistas do século XIX, que atribuíam aos criminosos traços físicos comuns.

5. Com Sócrates, o paladar grego transforma-se em favor da dialética: o que acontece


aí propriamente? Acima de tudo é um gosto nobre que cai por terra. A plebe ascende
com a dialética. Antes de Sócrates, recusavam-se as maneiras dialéticas na boa
sociedade: elas valiam como más maneiras, elas eram comprometedoras. Se advertia
a juventude contra elas. Também se desconfiava de todo aquele que apresentava
suas razões de um tal modo. As coisas honestas, tal como as pessoas honestas,
não servem suas razões assim com as mãos. É indecoroso mostrar os cinco dedos.
O que precisa ser inicialmente provado tem pouco valor. Onde quer que a autoridade
ainda pertença aos bons costumes, onde quer que não se “fundamente”, mas sim
ordene, o dialético aparece como uma espécie de palhaço: ri-se dele, mas não se
o leva a sério. - Sócrates foi o palhaço que se fez levar a sério: o que aconteceu aí
propriamente? (NIETZSCHE, 2010, p. 18).

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A dialética socrática é vista por Nietzsche como uma astúcia do escravo para subverter a ordem,
ou seja, a linguagem dialética é a única forma que o fraco encontrou para vencer o forte, é a moral
dos escravos contra a dos senhores. Na obra Genealogia da moral, o filósofo fala a respeito desse
tema. Para ele, não podendo o escravo se tornar senhor, cria a moral a fim de submeter a estes.
Nesse caso, o escravo torna-se senhor dos senhores por meio dos preceitos morais.

5. Só se escolhe a dialética, quando não se tem mais nenhuma outra saída. Sabe-
se que se suscita desconfiança com ela, que ela é pouco convincente. Nada é mais
facilmente dissipável do que um efeito dialético: a experiência de toda e qualquer
reunião na qual se conversa, o prova. Ela só serve como saída drástica nas mãos
daqueles que não possuem nenhuma outra arma. É preciso que se tenha de estabelecer
à força o seu direito: antes disto não se faz uso algum dela. Por isso, os judeus
eram dialéticos; Reinecke Fucks era dialético. Como? Sócrates também o era? [...].
(NIETZSCHE, 2010, p. 18).

Propositalmente pulei um trecho do texto citado acima para analisá-lo com mais calma:

4. Em Sócrates, a desertificação e a anarquia estabelecidas no interior dos instintos


não são os únicos indícios de décadence: a superfetação do lógico e aquela maldade
de raquítico, que o distinguem, também apontam para ela. Não nos esqueçamos
mesmo daquelas alucinações auditivas que, sob o nome de o “Daimon de Sócrates”,
receberam uma interpretação religiosa. Tudo nele é exagerado, bufão, caricatural.
Tudo é ao mesmo tempo oculto, cheio de segundas intenções, subterrâneo. – Procuro
compreender de que idiossincrasia provém essa equiparação socrática entre Razão
= Virtude = Felicidade: essa equiparação que é, de todas as existentes, a mais bizarra,
e que possui contra si, em particular, todos os instintos dos helenos mais antigos.
(NIETZSCHE, 2010, p. 18).

Saiba Mais

Recomendamos a leitura da obra completa:

NIETZSCHE, F. Genealogia da moral. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das
Letras, 2009. Coleção Companhia de Bolso.

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Creio que nesse trecho está o ponto-chave da nossa aula sobre Nietzsche, pois a principal
crítica desse autor ao pensamento de Sócrates e de Platão seria a de que a racionalidade é a porta
de entrada para a felicidade. Segundo Nietzsche, foram esses dois pensadores que determinaram
a vitória de Apolo sobre Dionísio.

Essa forma de pensar de Sócrates e Platão, segundo o autor, ao contrário do que se imaginava,
introduziu na história dos seres humanos uma profunda infelicidade. O homem, a partir de Sócrates,
de acordo com Nietzsche, passa a negar a vida e, por isso, deixa de obedecer aos seus instintos
vitais em nome de uma racionalidade.

Mas e a religião? Qual o papel do cristianismo na negação da vida? Para Nietzsche, o cristianismo
é uma popularização do platonismo, ou seja, os teólogos católicos e posteriormente os protestantes
cristianizaram, de acordo com ele, esse modo de pensar. O resultado dessa situação é a valorização
da alma em detrimento do corpo, mas, sobretudo, a ideia de verdade. A religião cristã encontrou em
Sócrates e Platão um terreno seguro para o problema da verdade. Nesse caso, para os cristãos, a
verdade é Deus, e todas as “verdades” participam dessa.

Figura 30 – Cruz, símbolo cristão

Fonte: leolintang / Shutterstock

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Nietzsche, ao contrário dos cristãos, vai se perguntar se a verdade é realmente necessária,


chegando a afirmar: “Morra a verdade – faça-se a vida!” Afirmação esta que indica um profundo
horror à negação dos sentimentos. Como é do senso comum, Nietzsche era ateu e tentou de todas
as maneiras atacar toda e qualquer convicção religiosa. Gostaria de destacar o aforismo 125 da
obra A gaia ciência, em que o autor fala a respeito da polêmica morte de Deus. Vejamos:

125. O homem louco – Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã
acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente:
“Procuro Deus! Procuro Deus!”? (...) “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi!
Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! (...) Não ouvimos o
barulho dos coveiros a enterrar deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina?
– também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o
matamos! (NIETZSCHE, 2012, p. 129, Aforismo 125).

Saiba Mais

Para ampliar o seu conhecimento, sugerimos a leitura da obra completa:

NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras,
2012. Coleção Companhia de Bolso.

Nesse trecho de A gaia ciência é possível observar como Nietzsche trata a questão de Deus. Se
Deus está morto, onde os valores devem estar fundamentados? Ou seja, o horizonte foi apagado,
não existe mais suporte seguro para eles. Nesse caso, o suporte e o critério para estabelecer valores
deverá ser o próprio homem.

Ao colocar o homem como fundamento dos valores, Nietzsche salienta a necessidade da


transmutação constante deles, ou seja, o homem deve a todo instante transmutar os seus valores,
criar a vida e novas formas de existência.

Em resumo, percebemos que Nietzsche é uma verdadeira máquina de destruição das formas
tradicionais estabelecidas de pensar. Em outras palavras, ele vai contra toda a história do pensamento
filosófico. O que restou após esse filósofo? Sobrou o século XXI. Onde conseguiremos uma plataforma
segura para apoiar os nossos valores? A sociedade grega tinha o cosmos, e a sociedade cristã
tinha Deus. Mas e a sociedade pós-moderna que se estabelece no século atual? Fica essa questão
sobre Nietzsche e a sua influência nas formas de pensar atuais. Em breve voltarei a essa questão
para finalizar o nosso texto.

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8. A LIBERDADE EM SARTRE
Ao adentrarmos no estudo sobre a ética na contemporaneidade, antes de falar do pensamento
sartreano, objeto deste estudo, convém aludir para uma visão geral das correntes éticas do século
XX. Como bem sabemos, depois de Gutenberg, a multiplicação dos livros aumentou e muito no
mundo. Assim, temos uma vasta bibliografia a respeito do termo ética. Como vimos também no
início deste nosso estudo, aquela “ciência do ethos” proposta modifica-se constantemente sempre
que o contexto histórico se altera. Essa mudança de paradigma manifesta-se na dinamicidade da
vida humana. Desta forma, grandes concepções éticas surgiram no mundo desde Sócrates e foram
se alterando dentro da cultura ocidental.

Assim, é importante frisar que, no século XX, vários foram os pensadores que tentaram traçar
panoramas e estudos éticos para o homem contemporâneo ou tentaram responder às necessidades
e aos desafios do mundo atual, haja vista que o último grande pensador que trouxe uma explicação
sistemática a respeito da ética foi Hegel. Os estudos posteriores passam a ser complementação
desse grande sistema hegeliano. Entretanto, no mundo contemporâneo, devido à variedade literária,
torna-se um problema o estudo da ética devido aos usos da linguagem, isto é, há uma variação
semântica muito grande em relação ao termo ética, que corre o risco de perder o seu significado
original.

Desta forma, faz-se necessário uma interpretação mais apurada das teorias éticas apresentadas
pelos diversos autores mais recentes. Nossa intenção é apresentar algumas linhas gerais, mas
sempre respeitando a origem semântica da palavra, que nos dará um respaldo intelectual para o
entendimento de uma ética contemporânea. Perceba que, no mundo atual, a ética poderá referir-se
ao bem, à razão prática, à consciência moral, à obrigação moral e à virtude, entre muitos outros
termos presentes na literatura. Esse aviso inicial é importante para que você possa prosseguir no
mesmo caminho e não se desviar para outros atalhos.

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Figura 31 – Ética

Fonte: DRogatnev / Shutterstock

Compreendemos isso a partir das palavras do professor Lima Vaz (2015, p. 420-421):

O fim do ciclo dos grandes sistemas propondo uma Ética de intenção e abrangência
universais pode ser interpretado, sob diversos aspectos, ao mesmo tempo como
causa e efeito de uma atitude intelectual que [...] generalizou-se e tornou-se um dos
ingredientes principais da mentalidade do homem ocidental no curso da expansão
mundial de sua cultura: o relativismo.

Portanto, segundo o professor Lima Vaz, a causa e o efeito dessa multiplicidade de interpretações
sobre o termo ética e sobre as ações do homem no mundo são decorrência desse relativismo. Não
podemos mais falar de um grande sistema ético, mas sim de variadas interpretações que tentam
dar conta dessa grande área do conhecimento humano chamada ética. Nesse contexto, podemos
visualizar três grandes paradigmas que procuram dar respostas aos questionamentos éticos
do homem contemporâneo. São eles: o naturalismo, o historicismo e o desconstrutivismo. Não

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vamos aqui discorrer sobre cada uma deles, mas apenas nos ater ao modelo apresentado pelos
existencialistas, cujo expoente será Jean-Paul Sartre.

Para esta nossa aula, seguiremos os passos das reflexões do professor Franklin Leopoldo e
Silva, da Universidade de São Paulo. Sempre procuramos fundamentar os nossos temas de aulas
em reflexões feitas por pensadores brasileiros de envergadura e especialistas no tema. E por que
fazemos dessa maneira? O motivo que nos leva a seguir os caminhos feitos por outros professores
é devido à imensidão do pensamento filosófico, o que torna impossível a alguém conhecer todos
os filósofos e doutrinas filosóficas nos seus principais aspectos.

O existencialismo sartreano é uma das formas recentes de pensar de forma coerente e engajada
a relação entre filosofia e vida. Sartre (1905-1980) é um pensador que viveu no século XX todos os
horrores da primeira metade do século XX, algo que não passa despercebido pela sua filosofia.
Nascido em Paris, chegou a estudar na Escola Normal Superior, onde pôde desenvolver um interesse
pela filosofia. Foi convocado para servir no exército, tornando-se prisioneiro dos alemães durante
a guerra. Retornando para França, funda um pequeno grupo de resistência intelectual. Viajou para
vários países, inclusive o Brasil, onde teve intenso contato com realidades diversas. Além de filósofo,
foi romancista, dramaturgo, roteirista, ensaísta e conferencista. Sua vida intensa lhe proporcionou
também a produção de uma vasta obra literária-filosófica. Uma personagem importante em sua
vida foi Simone de Beauvoir, com quem manteve um relacionamento mais íntimo.

A época moderna é quase sempre definida pelo humanismo, ou seja, a concepção de que o
homem é o centro e o autor da própria história. Isso quer dizer que há uma hegemonia do homem.
Com o humanismo, o homem está livre dos dogmas antigos e é responsavelmente moral. Em outras
palavras, é o próprio fundamento da sua ação. Nesse caso, não há cosmos para definir a finalidade,
e não há Deus para dar-lhe uma vocação. Vejamos o que diz o professor Lima Vaz (2015, p. 435)
sobre esse assunto:

Ética existencialista – sob essa epígrafe, aqui empregada apenas convencionalmente,


dada a profunda diferença entre os pensadores que sob ela se enumeram, lembramos
alguns filósofos que entre as duas guerras e no segundo pós-guerra fizeram da
existência humana o centro de sua reflexão e deram origem à moda filosófica
conhecida como existencialismo. Tanto por sua origem e formação como pelo
estilo filosófico que adotaram, os filósofos ditos existencialistas seguem caminhos
próprios e só a modulação, conquanto bem diferente, do mesmo tema da existência
e das perspectivas éticas que dele decorrem justifica reuni-los no mesmo grupo.

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Ora, partindo da análise do professor Lima Vaz, já é possível perceber que o século XX é um
século de rupturas, de descontinuidades, de contradições, o que nos leva a uma certa angústia,
pois não temos mais certezas sobre as coisas, tudo virou relativo. Ora, as ações éticas do homem
moderno também passam por estas preocupações e angústias. Como devo agir? Como devo
proceder diante do caos relativista que se instaurou no mundo contemporâneo?

As reflexões serão muitas, e as respostas, poucas. Entretanto, a filosofia moderna inaugura-se


como um esforço para designar a essência humana. Para Descartes, por exemplo, que é visto como
fundador da teoria moderna, o ponto fundamental da filosofia é a subjetividade. Ele define o homem
como uma coisa pensante, daí o “penso, logo existo”. A essência é vista pela filosofia moderna como
fator determinante do ser, é um fator fundamental. Essência é aquilo que faz com que um ser seja
o que ele é. Esta ideia irá fazer Heidegger escrever sua principal obra Ser e tempo, onde vai buscar
as origens do que é ser, ente e essência e da confusão gerada pela polissemia semântica do termo.

Sartre, indo buscar um entendimento sobre esse homem moderno, vai inverter a ideia cartesiana
ao dizer que a existência precede a essência, e não o contrário. O que isso significa? Significa que não
existe natureza humana, ou seja, primeiro o homem existe, depois ele vai aos poucos se determinando.
É a conduta humana, para ele, que faz com que o homem seja passível de conhecimento. Portanto,

O existencialismo sartreano, assim como o de Jaspers, é animado por uma profunda


intenção moral e em seu centro está a ideia de liberdade. Porém, a liberdade em
Sartre, definida pela absoluta espontaneidade e pelo irrealizável projeto da causa
sui e, segundo o próprio Sartre, uma transposição, no contexto de uma antropologia
atéia, da ideia cartesiana da liberdade divina para a liberdade humana, o que torna
o existente humano enquanto livre um ser contraditório movido, em sua finitude
essencial, pelo impossível projeto de ser Deus. (VAZ, 2015, p. 438).

No caso do homem, a realidade humana não se deduz de uma natureza preexistente. Nele, não
há essência, ou seja, o homem, antes de existir, é o nada. Com isso, podemos afirmar que, se ele não
possui uma essência definida, não está predeterminado a ser alguma coisa. Essa predeterminação
não pode ser colocada. Sendo assim, nem o cosmos e nem Deus determinarão o que o homem
deverá ser. Não existe essência. O homem não é um ser necessário, mas um ser contingente, ou
seja, não há uma razão para a sua existência. Ele foi jogado na existência. Nesse caso, a pergunta
a respeito do sentido da vida perde a sua validade.

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Figura 32 – Consciência humana

Fonte: lassedesignen / Shutterstock

A constituição do ser humano é de total responsabilidade dele mesmo, ou seja, o homem será
aquilo que vier a fazer de si. A tarefa do ser humano é a construção da própria existência. O professor
Reale, em sua História da filosofia assim se expressa sobre Sartre:

Escreve Sartre em O ser e o nada: “A liberdade não é um ser: ela é o ser do homem,
isto é, o seu nada de ser”. A liberdade é constitutiva da consciência: “eu estou
condenado a existir para sempre além dos moventes e dos motivos do meu ato: eu
estou condenado a ser livre. Isso significa que não se pode encontrar limites para a
minha liberdade além da própria liberdade ou, se assim se preferir, que não somos
livres de deixar de ser livres”. Uma vez lançado à vida, o homem é responsável por
tudo o que faz do projeto fundamental, isto é, da sua vida. E ninguém tem desculpas:
se falimos é porque escolhemos a falência. Procurar desculpas significa estar de má-
fé: a má-fé apresenta o desejado como necessidade inevitável. (REALE, 1991, p. 608).

A noção de liberdade nasce dessa visão existencialista, pois a origem do homem está nele
mesmo. Uma definição do ser humano para Sartre: o homem é liberdade. Nesse caso, a liberdade
não seria uma qualidade ou atributo do homem, como pensavam os clássicos, mas, ao contrário, a
única coisa que caracteriza o homem é a liberdade de ser homem. Isto é, a liberdade e a subjetividade
são idênticas. Portanto, não se pode associar liberdade a uma definição de homem, pois ele não

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pode fugir dela, ele é a própria liberdade. Daí resulta a sua a famosa frase: “O homem é condenado
a ser livre”.

Qual é o problema ético nesse caso? O problema ético do homem sartreano está justamente na
questão da liberdade. Liberdade é sinônimo de responsabilidade. Isso significa que o homem é o
único responsável pelas suas ações. Ou seja, ele não poderá atribuir essa responsabilidade a Deus
ou à natureza. Desse modo, Sartre conclui que o homem é um solitário, uma vez que os critérios
estão todos fundamentados na liberdade humana, que, em última análise, é o próprio homem.

Em resumo, Sartre elevará à enésima potência a responsabilidade dos homens ante os atos
morais. Ou seja, ele amplia a angústia do homem moderno, que, aos poucos, vai se percebendo
solitário e abandonado diante da existência. Por isso, o existencialismo é considerado uma espécie
de humanismo.

Saiba Mais

Sobre este assunto, vale a pena assistir uma palestra do professor Franklin Leopoldo e Silva intitulada
“O existencialismo é um humanismo” disponível no YouTube no seguinte link: https://youtu.be/B7PX0-
ER4go (acesso em: 3 ago 2017).

9. OS VALORES NO SÉCULO XXI


É usual, nas rodas do senso comum, ouvir as pessoas falarem que a sociedade atual está
desprovida de valores. Na realidade, existe quase um consenso de que os homens não se sentem
seguros com o mundo que eles mesmos construíram, ou seja, existe uma desconfiança sobre tudo
o que foi feito em relação à transformação dos valores. O que há de equívoco na afirmação da
ausência de valores na sociedade capitalista do século XXI? Na verdade, eles existem em número
elevadíssimo. O que pretendo com essa afirmação? A realidade é que há uma multiplicidade deles,
que, como vimos, são instrumentos para deliberar a respeito da vida. Sendo assim, o que há na
atualidade não é a falta. Pelo contrário, dada a quantidade de valores (instrumentos para deliberar
a respeito da vida) que é possível termos, a impressão é de que eles não existem.

A multiplicidade de valores dá aos homens a possibilidade de ler a realidade de muitos pontos de


vista, ou seja, é possível deliberar a respeito da própria existência de diversos modos. Por exemplo,
o capitalista lê o mundo com os olhos do mercado, enquanto o ambientalista vê no consumismo
apregoado por aquele um problema. Nesse caso, os critérios de escolha dos padrões éticos da
atualidade são diversos.

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Não gostaria de entrar no mérito de se essa multiplicidade de valores na atualidade é boa ou


ruim, bem como se ajudou ou não os homens a viverem melhor. O fato é que os seres humanos do
século XXI ainda estão se acostumando ao estilo de vida em “areia movediça” no que diz respeito
ao problema dos valores. Usarei uma metáfora para elucidar o que penso a respeito do assunto:
os seres humanos escolheram livremente construir a sua casa sobre um terreno arenoso e sem
sustentação.

Em resumo, o que fizemos nestas aulas a respeito do pensamento ético foi apresentar as
principais escolas filosóficas a respeito do assunto, bem como o seu impacto sobre a sociedade e
a vida das pessoas. Acredito que você percebeu o quanto a ética pode ser determinante na criação
de um ou outro modelo de sociedade. Em suma, com essas chaves, acredito ser possível encontrar
meios para debruçar-se sobre os principais filósofos, ou seja, o nosso curso foi apenas a porta de
entrada para esses autores.

CONCLUSÃO
Chegamos ao final de mais um módulo do nosso curso de filosofia. Neste módulo, aprendemos
um pouco mais sobre as noções de ética e de moral na Antiguidade, no período medieval, moderno
e contemporâneo. Vimos também a constituição de um conceito sobre ética como ciência do ethos
e como a reflexão filosófica foi se constituindo no decorrer do tempo histórico. Ora, pensar a ética
como lugar, morada, costume ou hábito nos dá a possibilidade de perceber como essas noções
variam no tempo histórico e como o homem vai transformando os seus hábitos e seus costumes
a partir da realidade vivenciada.

Nesses passos, seguimos para uma rememoração das grandes concepções que construíram
as noções básicas de ética e de moral nas reflexões filosóficas e que organizaram o pensamento
de forma racional.

Dessa forma, pudemos passar pelos pensamentos e reflexões de alguns dos mais importantes
filósofos que a tradição consagrou. Assim, vimos que o “problema” da ética tem seu início com as
reflexões de Sócrates, seguidas de Platão e Aristóteles em sua Ética a Nicômaco. Nesse contexto,
a ética tinha uma aura política, isto é, na vivência da cidadania e nas ações em prol da coletividade,
o sujeito poderia ser virtuoso e, por conseguinte, ético. Praticar a virtude, portanto, conduziria o
homem a uma ética do equilíbrio com vistas a um fim último, que é a felicidade.

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Figura 33 – Felicidade

Fonte: Subbotina Anna / Shutterstock

Ainda no período antigo, mais especificamente naquele conhecido como clássico e helenístico,
uma nova forma de pensar a ética começa a emergir na Grécia, devido à mudança histórica.
Deixando de lado a coletividade, o homem passa a perceber-se como indivíduo e sua vida privada
deve conduzi-lo à felicidade. São as reflexões propostas pelos epicuristas e estoicos. O objetivo
agora é a busca da ataraxia, isto é, a ausência de dor e a imperturbabilidade da alma.

Adentrando ao período conhecido como medieval, há um abandono daquela racionalidade


antiga em busca de uma subjetividade, isto é, a partir do seu interior, o homem pode ascender até
Deus. Desta forma, uma ética pessoal cristã passa a fazer sentido a partir da relação pessoal do
homem com Deus. Portanto, a felicidade agora só será alcançada quando o fim último é Deus. Aqui,
passamos a ver a ética como noção de liberdade e livre-arbítrio, esvaziando aquela noção grega
antiga de realização na pólis, ou seja, na coletividade e na vida política. A liberdade, agora, passa a
ter um caráter mais pessoal e subjetivo, ou seja, é mais voltada para o indivíduo.

Entretanto, é no período moderno, com seu humanismo renascentista que irá mudar a noção
de ética. Note que o contexto histórico está em mudança. A Europa vive agora uma série de
transformações na política, na economia, na sociedade e principalmente nos valores. A reflexão
ética agora centra-se numa autonomia do sujeito. A razão concentra as reflexões na formalização
das ações. O homem moderno, mais individualista, deve proceder a uma ação pautada na razão,
isto é, a liberdade do homem agora passa pelo crivo da razão, que legisla e cria normas universais.

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Já a reflexão no período contemporâneo intensifica a noção de uma ética mais centrada no


indivíduo concreto que pode criar valores e normas morais. Surge, então, a Declaração Universal
dos Direitos do Homem, que se torna a base de uma ação ética na sociedade contemporânea. Essa
nova visão traz uma noção de ética baseada em direitos pessoais que não prejudique os direitos
dos demais. Para tanto, constrói-se uma ética baseada no diálogo.

Esse diálogo se constrói na vivência cotidiana e na construção histórica do sujeito moderno,


que primeiro deve existir para depois se construir. É o famoso existencialismo, que dá as cartas
para esse sujeito que vive angustiado, já que não traz mais as certezas antigas. O seu mundo é o
das incertezas, dos antagonismos, das contradições. As perguntas que surgem agora são: como
devo agir? Que devo fazer?

Como você pode perceber, a ética contemporânea está em construção e está sendo desafiada
constantemente. Por isso, nossas aulas foram apenas traços indicativos de como a filosofia pensou
a ética e a moral. A partir de agora, cabe a você, estudante, elaborar uma nova concepção ética
para este novo mundo que vivemos.

Por isso, continue estudando, lendo, aprofundando nessa discussão e apresente reflexões que
possam nos ajudar na ampliação dessa noção de ética e moral e seus desafios para uma vida futura.

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GLOSSÁRIO

Ataraxia - (em grego antigo: Ἀταραξία ataraxia) traduz-se por “ausência de inquietude/preocupação”,
“tranquilidade de ânimo”. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ataraxia

Escolástica - “[...] (do termo latino scholasticus, e este, por sua vez do grego σχολαστικός [que pertence
à escola, instruído]), foi o método de pensamento crítico dominante no ensino nas universidades
medievais europeias de cerca dos séculos IX ao XVI. Mais um método de aprendizagem do que
uma filosofia ou teologia, a escolástica nasceu nas escolas monásticas cristãs, de modo a conciliar
a fé cristã com um sistema de pensamento racional, especialmente o da filosofia grega. Colocava
uma forte ênfase na dialética para ampliar o conhecimento por inferência e resolver contradições. A
obra-prima de Tomás de Aquino, Summa Theologica, é, frequentemente, vista como exemplo maior
da escolástica. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Escolástica

Estagirita - Refere-se a Estagira; a cidade é particularmente conhecida por ser o local de nascimento
do filósofo Aristóteles, que, por essa razão, é muitas vezes referido como “o Estagirita”. Fonte:https://
pt.wikipedia.org/wiki/Estagira

Eudaimonia - É um termo grego que literalmente significa ‘o estado de ser habitado por um bom
daemon, um bom gênio’, e, em geral, é traduzido como felicidade ou bem-estar. Fonte: https://
pt.wikipedia.org/wiki/Eudaimonia

Heterodoxia - Do grego heteródoxos, “de opinião diferente”, inclui “quaisquer opiniões ou doutrinas que
discordem de uma posição oficial ou ortodoxa”. Como adjetivo, heterodoxo é usado para descrever
um assunto como “caracterizado por desvio de padrões ou crenças aceites” (status quo). Fonte:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Heterodoxia

Logos - No grego, significava inicialmente a palavra escrita ou falada - o Verbo. Passa a ser um
conceito filosófico traduzido como razão, tanto como a capacidade de racionalização individual
ou como um princípio cósmico da Verdade e da Beleza. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Logos

Physis - “Natureza, mundo natural em grego. E daí vem a palavra Física, em português, denotando
que, por muito tempo, a filosofia e as chamadas ciências naturais – como a física – andaram juntas.
Filósofos e naturalistas, até meados do século XIX, compartilharam o estudo e o conhecimento do
mundo.” (PERES, M. N. Dicionário básico escolar de filosofia. São Paulo: Global, 2013. p. 222). Para

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se aprofundar mais sobre este assunto recomenda-se a leitura do Verbete Física no Dicionário de
Filosofia de Nicola Abbagnano (p. 536-539).

Quadrivium - (em latim: quadrivium; de quatro e via: caminho, ou seja os “quatro caminhos”) era o
nome dado ao conjunto de quatro matérias (aritmética, geometria, astronomia e música) ensinadas
nas universidades [helénicas] na fase inicial do percurso educativo, cujo ápice eram as disciplinas
teológicas. A educação era iniciada com o trívio (gramática, lógica e retórica), as primeiras três
das sete artes liberais, seguindo-se as restantes quatro, que formavam o quadrívio. Fonte: https://
pt.wikipedia.org/wiki/Quadrívio

Trivium - (em latim: Trivium, de tres: três e vía: caminho) era o nome dado na Idade Média ao conjunto
de três matérias ensinadas nas universidades no início do percurso educativo: gramática, dialética
e retórica. O trívio representa três das sete artes liberais, as restantes quatro formam o quadrívio:
aritmética, geometria, astronomia e música. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Trívio

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