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Emerson Benedito Ferreira


Mario Marcos Lopes Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser
reproduzida, transmitida ou arquivada desde que levados em conta os
(Organizadores)
direitos dos autores.

Emerson Benedito Ferreira; Mario Marcos Lopes (Orgs.)

Pesquisas em educação: escola, infância e sexualidade. São


Carlos: Pedro & João Editores, 2016. 298p.

ISBN: 978-85-7993-374-5

1. Educação. 2. Pesquisa e pesquisadores. 3. Formação de


professores. 4. Infância e sexualidade. I. Título
CDD – 370
Pesquisas em educação:
Capa: Hélio Márcio Pajeú
escola, infância e sexualidade Editores: Pedro Amaro de Moura Brito & João Rodrigo de Moura
Brito

Conselho Científico da Pedro & João Editores:


Augusto Ponzio (Bari/Itália); João Wanderley Geraldi
(Unicamp/Brasil); Nair F. Gurgel do Amaral
(UNIR/Brasil); Maria Isabel de Moura (UFSCar/Brasil);
Maria da Piedade Resende da Costa (UFSCar/Brasil);
Valdemir Miotello (UFSCar/Brasil).

Pedro & João Editores


www.pedroejoaoeditores.com.br
13568-878 - São Carlos – SP
2016

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RESSENTIMENTO E AUTONOMIA: UMA é, a partir delas mesmas –, são pouquíssimo
ABORDAGEM GENEALÓGICA DA consideradas ou até inexistentes.
Michel Foucault já havia alertado sobre esse
INFÂNCIA
assunto em vários de seus escritos, como no caso do
livro Vigiar e Punir, ao falar que “em qualquer
Paulo Rogério da SILVA1
sociedade, o corpo está preso no interior de poderes
Ana Paula PERUZZI2
muito apertados, que lhe impõem limitações,
proibições ou obrigações” (FOUCAULT, 2014, p. 126).
Essa afirmação não só desmistifica a aura formativa que
Introdução
orbita em torno das instituições sociais (família, escola,
exército, hospitais etc.), como também fomenta a ideia
Não é novidade que as instituições de Educação
da existência de uma microfísica do poder que interfere
Infantil, desde a mais tenra idade, introduzem nas
diretamente no corpo social, provocando
crianças uma produção de estereótipos que definem os
transformações nos indivíduos que o compõem.
elementos constituintes do ‘bom’ e do ‘mal’, do ‘justo’ e
Desta maneira, levando em consideração que o
‘injusto’ etc., bem como daqueles papéis sociais
poder não é apenas repressivo, muito menos
culturalmente aceitos, que modelam a economia
identificável em sua origem, cuja lógica do controle
psíquica com relação, por exemplo, à questão do
passa pelo adestramento de corpos dóceis e segundo
gênero, do mundo do trabalho, dos bons modos, da
estratégias institucionais de disciplinamento que se
cidadania, da moral religiosa etc. As práticas
tornam, historicamente, cada vez mais sutis, porém não
pedagógicas que permitem às crianças experimentarem
menos eficazes (FOUCAULT, 2014), refletir, portanto,
o diferente a partir daquilo que realmente as afeta – isto
sobre a padronização da infância na escola ajuda a
1Licenciatura em Filosofia (2003) e Pedagogia (2009). Mestre em reconhecer o adestramento biopolítico de papéis
Educação (2014) pela Universidade Federal de São Carlos esperados pelos adultos, que, sob a justificativa da
(UFSCar). Doutorando em Educação pelo Programa de Pós- preparação da criança para a sociedade, acaba tolhendo
Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos
(UFSCar), linha de Pesquisa “Educação, Cultura e Subjetividade”.
sua autonomia e experiência. Se a disciplina na
Membro do grupo de Pesquisa “Teoria Critica e Educação” Educação Infantil produz corpos submissos aos
(UFSCar) desde 2012. Professor de filosofia, história e educação na padrões sociais, que, por sua vez, reforçam um tipo de
Educação Básica e no Ensino Superior. comportamento ao qual se considera mais ajustado,
2Graduação em Pedagogia (2007). Especialista em Educação Infantil
então, educar para a experiência autônoma constitui o
pela Universidade Federal de São Carlos. Professora da Educação
Infantil da Rede Municipal de São Carlos-SP. principal desafio perante a normatização das

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construções sociais com relação à concepção de pela infância ‘adultizada’. Nas palavras de Guattari
infância. (1981, p. 50), “como evitar que as crianças se prendam a
É fato que atualmente muito se fala de infância. semióticas dominantes ao ponto de perder muito cedo
Mas de qual infância tratam os manuais de pedagogia e toda e qualquer verdadeira liberdade de expressão? ”.
as políticas públicas, por exemplo? Como tantos outros Para tentar responder essa pergunta, toma-se como
conceitos produzidos socialmente, a infância também é apoio o pensamento de Friedrich Nietzsche (1844-1900),
resultado de uma arraigada herança iluminista – que a em particular alguns escritos como Genealogia da Moral
tirou do extremo anonimato da antiguidade e da idade (2010), Crepúsculos dos Ídolos (1999), Além do Bem e do
média para diluí-la na lógica do mundo moderno Mal (1992), Verdade e Mentira no Sentido Extramoral
burocratizado. Uma troca histórica infeliz, motivada, (2001), entre outros textos. Considerado por muitos
sem dúvidas, por uma pedagogia ressentida: a infância autores como um dos “mestres da suspeita”3, para
deixou de ser invisível para atualmente não ser vista! Nietzsche, de modo geral, o universal nada mais é do
que o particular dogmatizado. A partir de sua
De Rousseau às comunas antiautoritárias de 1968, a atenção abordagem genealógica, não só apontaremos o modo
dos reformadores e revolucionários para com o ser humano como a tradição modela a hegemonia de certos valores
principiante resultou em pedagogia. Isto é, na tentativa de
colocar a formação da criança de acordo com o ideal de uma
em detrimento de outros, como também de que
sociedade mais justa. Deste modo, menosprezou-se a autêntica maneira aqueles valores salutares relativos à experiência
questão: extrair da própria experiência infantil critérios e infantil são socialmente reinterpretados como nocivos
conceitos capazes de iluminar ulteriormente as relações sociais pelo mundo escolar adulto.
e de produção, mas também esboçar a crítica. Invertendo a
perspectiva pedagógica, é da infância que é necessário esperar
instruções (VIRNO, 2012, p. 34). Um retrospecto: a genealogia da moral

O fato é que a infância nunca foi ouvida a partir Segundo o diagnóstico de Nietzsche, caminha-se
dela mesma, o que só reforça aqui um preconceito para uma cultura da decadência e do ressentimento.
socialmente produzido com relação ao mundo infantil Com relação à decadência, Nietzsche observa sua
que, ao mesmo tempo em que silencia suas origem na ética intelectualista de Sócrates, que ao invés
inquietações frente às instituições educacionais, cria um
conceito hipostático, padronizado e, por isso, falso de 3 Termo cunhado por Paul Ricoeur para indicar o pensamento
infância. Ou seja, a multiplicidade de vozes da infância, crítico de Nietzsche, Marx e Freud. “Esto es aún más cierto, sin
em sua vivacidade, é violada pela lógica amorfa da duda, en la escuela de la sospecha que en la de la reminiscencia.
unidade metafísica – a infância vivenciada é subsumida La dominan tres maestros que aparentemente se excluyen entre si:
Marx, Nietzsche y Freud” (RICOEUR, 1973, p. 32).

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de seguir a trilha da natureza imanente dos pré- subverteram o significado dos valores até então
socráticos (physis), preferiu negá-la em favor da vigentes5.
abstração do conceito. Essa escolha alterou não só o Frente a essas duas características da cultura
horizonte da filosofia grega, mas de toda a tradição ocidental, a crítica de Nietzsche tem uma marca
filosófica medieval e moderna – que se interessou predominantemente antidogmática, dirigida tanto à
muito mais pelo ‘ser’ das coisas do que pelos entes metafísica quanto à moral cristã. Para ele, ambas
materiais propriamente ditos4. No que diz respeito ao negaram a realidade imanente para afirmarem outra
ressentimento, sua origem encontra-se na cultura transcendental, falsa e, por conta disso,
judaico-cristã, que, através de suas apropriações ideologicamente produzida6. O resultado desta espécie
conceituais, legou historicamente ao cristianismo a de ficção não poderia ser outro senão a formalização
internalização de uma culpa moral, posteriormente dogmática de um discurso manipulador, que, através
dogmatizada como algo benéfico em si mesmo do esquecimento do signo – isto é, do esquecimento da
(NIETZSCHE, 2010). A partir de então, num contexto origem de um significado remoto – inverte os valores
de afinidades eletivas, metafísica e moral cristã relacionados à natureza humana. A argumentação
domesticaram a identidade da sociedade – básica desse tipo de discurso concentra-se na busca por
transformando-a em rebanho –, como também

5“Supondo que fosse verdadeiro o que agora se crê como ‘verdade’,


ou seja, que o sentido de toda cultura é adestrar o animal de
4 “Dei a entender com o que Sócrates fascinava: ele parecia ser um rapina “homem”, reduzi-lo a um animal manso e civilizado,
médico, um salvador. É necessário indicar ainda o erro que havia doméstico, então deveríamos sem dúvida tomar aqueles instintos
em sua crença na ‘racionalidade a todo preço’? – É um autoengano de reação e ressentimento, com cujo auxílio foram finalmente
dos filósofos e moralistas pensar que já saem da décadence ao liquidadas e vencidas as estirpes nobres e os seus ideais, como os
fazerem guerra contra ela. O sair está fora de sua força: mesmo autênticos instrumentos da cultura; com o que, no entanto, não se
aquilo que escolhem como remédio, como salvação, é apenas, estaria dizendo que os seus portadores representem eles mesmos
outra vez, uma expressão de décadence – eles alteram sua a cultura” (NIETZSCHE, 2010, p. 30).
expressão, não a eliminam propriamente. Sócrates foi um mal- 6 “Fabular sobre um ‘outro’ mundo, que não este, não tem nenhum

entendido; a inteira moral moral-da-melhoria, também a cristã, foi sentido, pressupondo que um instinto de calúnia,
um mal-entendido... A luz do dia mais crua, a racionalidade a apequenamento, suspeição contra a vida, não tenha potência em
todo preço, a vida clara, fria, cautelosa, consciente, sem instinto nós: neste último caso vingamo-nos da vida com a fantasmagoria
era, ela mesma, apenas uma doença, uma outra doença – e de de uma ‘outra’ vida, de uma vida ‘melhor’. [...] Dividir o mundo
modo nenhum caminho de retorno à ‘virtude’, à ‘saúde’, à em um ‘verdadeiro’ e um ‘aparente’, seja ao modo do
‘felicidade’... Ter de combater os instintos – eis a fórmula para a cristianismo, seja ao modo de Kant (de um cristão capcioso, em
décadence: enquanto a vida se intensifica, felicidade é igual a última instância) é somente uma sugestão da décadence um
instinto (NIETZSCHE, 1999, p. 374-375). sintoma de vida declinante... (NIETZSCHE, 1999, p. 376).

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padrões referenciais, isto é, por ‘essencialidades’, como quando afirma que a verdade é, portanto, uma
bem demonstra Nietzsche em Além do Bem e do Mal: interpretação que perdeu o status de circunstancial e,
no lugar, atribuiu-se um caráter eterno:
“Como poderia algo nascer do seu oposto?” [pergunta-se o
dogmático] por exemplo, a verdade do erro? Ou a vontade de O que é, portanto, a verdade? Uma multidão móvel de metáforas,
verdade da vontade de engano? Ou a ação desinteressada do metonímias e antropomorfismos; em resumo, uma soma de
egoísmo? [...] semelhante gênese é impossível; quem com ela relações humanas que foram realçadas, transpostas e
sonha é um tolo ou algo pior; as coisas de valor mais elevado ornamentadas pela poesia e pela retórica e que, depois de um
devem ter uma origem que seja outra, própria – não podem longo uso, pareceram estáveis, canônicas e obrigatórias aos olhos
desse fugaz, enganador, sedutor, mesquinho mundo, desse de um povo: as verdades são ilusões das quais se esqueceu que
turbilhão de insânia e cobiça! Devem vir do seio do ser, do são, metáforas gastas que perderam a sua força sensível, moeda
intransitório, do deus oculto, da “coisa em si” – nisso, em nada que perdeu sua efígie e que não é considerada mais como tal, mas
mais, deve estar a sua causa! (NIETZSCHE, 1992, p. 10). apenas como metal (NIETZSCHE, 2001, p. 13).

Todavia, a questão da imposição dogmática do Por conta disso, Nietzsche propõe uma genealogia
discurso não implica apenas na evidência de uma da moral, que não é simplesmente a busca do ponto
pretensa verdade, mas também no abafamento de inicial da questão do ressentimento, mas o mapeamento
outras possíveis verdades concorrentes. Nesse sentido, de uma configuração (ou jogo de forças) que, ao longo
pelo fato da visão unitária da moral e da metafísica da história, modificou o significado de um conceito e
colocar-se como correta, sua versão idealizada acaba assumiu, consequentemente, uma ‘protoidentidade’, no
imediatamente banindo todas as interpretações caso, ilegítima e inversa daquilo que era constituída em
restantes, rotulando-as como errada ou heréticas sua origem (NIETZSCHE, 2010, p. 12).
(NIETZSCHE, 2010; 1999; 1992). Prevalece assim, na No esforço de uma genealogia da moral, Nietzsche
formação da cultura ocidental, a questão do ‘dogma da observa que os conceitos de ‘bom’ e ‘mau’ tem no
essência’, usada estrategicamente para sufocar outras mínimo duas origens, simbolizadas pelas figuras do
concepções contrastantes de mundo7. No texto Verdade e ‘nobre’ e do ‘escravo’8. Na obra Além do Bem e do Mal
Mentira no Sentido Extramoral, Nietzsche é bem claro (1992), ele fala da existência de dois circuitos de forças

7 Na opinião de Rey, existe aqui a produção de uma “ocultação 8 No entanto, segundo a crítica nietzschiana, quando se fala das
dobrada” – primeiro, porque há a imposição de uma pretensa figuras do ‘nobre’ e do ‘escravo’ não se deve personificar os
verdade; segundo, porque, ao impor essa verdade, anula-se a elementos como se fossem os indivíduos em seus papéis sociais.
busca por outras –, consolidando assim o que ele chamou de As figuras são metafóricas e precisam ser interpretadas como
“logro da transparência dos signos”: a evidência de uma verdade ‘circuito de forças’, isto é, como forças impessoais que estão em
implica, ambiguamente, no ocultamento de outras (REY, 1981). constante tensão e conflito.

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que dão origem a dois tipos distintos de moral: a dos para Nietzsche, o ressentimento por uma experiência
senhores e dos escravos9. Porém, é na Genealogia da não vivida plenamente.
Moral (2010) que ele esclarece em que sentido esses
conceitos ganharam cargas positivas e negativas na A rebelião escrava na moral começa quando o próprio
história da racionalidade ocidental. ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento
dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e
Por um lado, o circuito de forças do ‘nobre’ define- que apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação.
se como ‘bom’ em si mesmo (gut), uma vez que parte Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si
de uma relação de afirmação perante os valores da vida mesma, já de início a moral escrava diz Não a um “fora”, um
e, apenas posteriormente, considera o outro (o escravo) “outro”, um “não-eu” – e este Não é seu ato criador. Esta
inversão do olhar que estabelece valores este necessário
como um mero e pálido contraste ruim (schlecht). Por
dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si é algo próprio
outro lado, o circuito de forças do ‘escravo’ somente se do ressentimento: a moral escrava sempre requer, para nascer,
define como ‘bom’ depois de desqualificar o outro (o um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto –
nobre) como mau (bose). Ou seja, enquanto o primeiro sua ação é no fundo reação. O contrário sucede no modo de
valoração nobre: ele age e cresce espontaneamente, busca seu
tipo de moral – a dos senhores – estabelece uma relação
oposto apenas para dizer Sim a si mesmo com ainda maior
autônoma de positividade perante seus próprios júbilo e gratidão – seu conceito negativo, o “baixo”, “comum”,
valores, o segundo tipo de moral – a dos escravos – “ruim”, é apenas uma imagem de contraste, pálida e posterior,
estabelece uma relação heterônoma de negatividade em relação ao conceito básico, positivo, inteiramente
com relação aos valores do outro, o que caracteriza, perpassado de vida e paixão, “nós, os nobres, nós, os bons, os
belos, os felizes!” (NIETZSCHE, 2010, p. 26).

9 Sobre a moral dos senhores, escreve Nietzsche: “No primeiro caso O problema é que, segundo Nietzsche, na história
[moral dos senhores], quando os dominantes determinam o
da civilização o circuito de forças do ‘escravo’ (mau)
conceito de ‘bom’, são os estados de alma elevados e orgulhosos
que são considerados distintivos e determinantes da hierarquia. O predominou sobre o circuito de forças do ‘nobre’ (bom).
homem nobre afasta de si os seres nos quais se exprime o Por esse motivo, conclui-se que a civilização ocidental é
contrário desses estados de elevação e orgulho: ele os despreza” fruto de uma cultura ressentida, isto é, de uma cultura
(NIETZSCHE, 1992, p. 172). Mais à frente, sobre a moral dos
reacionária, que apenas se compreende como
escravos, diz: “a moral dos escravos é essencialmente uma moral
de utilidade. Aqui está o foco de origem da famosa oposição ‘bom’ moralmente boa na medida em que nega a vivência dos
e ‘mau’ – no que é mau se sente poder e periculosidade, uma certa valores terrenos – entendidos como imorais. Trata-se
terribilidade, sutileza e força que não permite o desprezo. Logo não apenas de uma perda da autonomia, mas de uma
segundo a moral dos escravos o ‘mau’ inspira medo; segundo a derrota da humanidade perante si mesma, que
moral dos senhores e precisamente o ‘bom’ que desperta e quer
promoveu uma pseudocultura cuja função é a
despertar medo, enquanto o homem ‘ruim’ é sentido como
desprezível” (NIETZSCHE, 1992, p. 174-175). padronização das subjetividades ressentidas.

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Sujeitemo-nos aos fatos: o povo venceu – ou ‘os escravos’, ou ‘a imposto – intencionalmente subvertido – está
plebe’, ou ‘o rebanho’, ou como quiser chamá-lo se isto
definitivamente fora do campo de aceitação moral:
aconteceu graças aos judeus, muito bem! Jamais um povo teve
missão maior na história universal. ‘Os senhores’ foram
abolidos; a moral do homem comum venceu. Ao mesmo tempo, O caráter tosco da sua genealogia da moral se evidencia já no
essa vitória pode ser tomada como um envenenamento do início, quando se trata de investigar a origem do conceito e do
sangue (ela misturou entre si as raças) – não contesto; mas juízo “bom”. “Originalmente” — assim eles decretam — “as
indubitavelmente essa intoxicação foi bem-sucedida. A ações não egoístas foram louvadas e consideradas boas por
‘redenção’ do gênero humano (do jugo dos ‘senhores’) está bem aqueles aos quais eram feitas, aqueles aos quais eram úteis; mais
encaminhada; tudo se judaíza, cristianiza, plebeíza visivelmente tarde foi esquecida essa origem do louvor, e as ações não
(que importam as palavras!) (NIETZSCHE, 2010, p. 25). egoístas, pelo simples fato de terem sido costumeiramente tidas
como boas, foram também sentidas como boas — como se em si
fossem algo bom”. Logo se percebe: esta primeira dedução já
No entanto, para entender de que maneira e por contém todos os traços típicos da idiossincrasia dos psicólogos
que ocorreu essa subversão de valores, a genealogia ingleses — temos aí “a utilidade”, “o esquecimento”, “o hábito”
propõe analisar o idealismo e a metafísica. Com relação e por fim “o erro”, tudo servindo de base a uma valoração da
ao idealismo, Nietzsche afirma que ele carrega todo um qual o homem superior até agora teve orgulho, como se fosse
um privilégio do próprio homem. Este orgulho deve ser
inconsciente que determina o contexto e que,
humilhado, e esta valoração desvalorizada: isso foi feito?... Para
historicamente, influenciou a concepção de homem mim é claro, antes de tudo, que essa teoria busca e estabelece a
cristão ocidental através da subversão dos significados fonte do conceito “bom” no lugar errado: o juízo “bom” não
de ‘bom’ e ‘mau’. Ou seja, o idealismo retira o mau provém daqueles aos quais se fez o “bem”! Foram os “bons”
mesmos, isto é, os nobres, poderosos, superiores em posição e
contextual (isto é, histórico) – aspecto básico da vida
pensamento, que sentiram e estabeleceram a si e a seus atos
ressentida e próprio da ‘moral dos escravos’ –e como bons, ou seja, de primeira ordem, em oposição a tudo que
universaliza-o como se fosse Bem em Si, eterno e era baixo, de pensamento baixo, e vulgar e plebeu
atemporal, que deve ser seguido por todos, (NIETZSCHE, 2010, p. 16-17).
inquestionavelmente. O inverso também acontece:
aquilo que era circunstancialmente bom – afirmador da No que diz respeito à metafísica, Nietzsche
própria vida e, por isso, própria de uma ‘moral dos apresenta um diagnóstico não menos perturbador: ela é
senhores’ – é subvertido como se fosse um Mal em Si, o instrumento de esquecimento de determinados
uma lei herética, um pecado, que deve ser evitado pelo valores da cultura, pois, uma vez que se apresenta
rebanho. Em síntese, enquanto o mau (moral dos através de um discurso dogmático, ela tende então a
escravos) é idealizado substantivamente como o Bem, o camuflar os interesses de quem a formulou, fazendo
bom (moral dos senhores) ganha o status essencial de com que tais críticas fiquem obsoletas e esquecidas no
Mal. Com isso, aquilo ou aquele que não segue esse Bem tempo. Considerada como o grande desvio do

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Ocidente, a metafísica, ao longo da história, impõe também moral como causa, medicamento, estimulante, inibição,
veneno), um conhecimento tal como até hoje nunca existiu nem
como real aquilo que na sua origem não passa apenas
foi desejado. Tomava-se o valor desses “valores” como dado,
de uma versão idealizada da realidade; e ao fazer isso, como efetivo, como além de qualquer questionamento; até hoje
provoca, ao mesmo tempo, o esquecimento do signo, que não houve dúvida ou hesitação em atribuir ao “bom” valor mais
faz com que com que tal versão deixe de ser lembrada elevado que ao “mau”, mais elevado no sentido da promoção,
como interpretação para se tornar, enfim, um dogma. utilidade, influência fecunda para o homem (não esquecendo o
futuro do homem). E se o contrário fosse a verdade? E se no
Com isso, o questionamento cessa e a repetição da falsa
“bom” houvesse um sintoma regressivo, como um perigo, uma
ideia originária ganha o status de verdadeira, validando- sedução, um veneno, um narcótico, mediante o qual o presente
a culturalmente para as gerações futuras. vivesse como que às expensas do futuro? Talvez de maneira
mais cômoda, menos perigosa, mas também num estilo menor,
Na verdade, o homem esquece que é assim que se passam as mais baixo?... De modo que precisamente a moral seria culpada
coisas. Ele mente, portanto, inconscientemente, tal como de que jamais se alcançasse o supremo brilho e potência do tipo
indicamos, conformando-se a costumes seculares... e é mesmo homem? De modo que precisamente a moral seria o perigo
por intermédio dessa inconsciência, desse esquecimento, que entre os perigos?... (NIETZSCHE, 2010, p. 12).
ele chega ao sentimento da verdade (NIETZSCHE, 2001, p. 13).
É preciso, portanto, procurar os sintomas que estão
A partir desse ponto compreende a importância da esquecidos no inconsciente da sociedade, para assim
genealogia nietzschiana como instrumento purificador provar que o discurso metafísico-religioso não é eterno,
e crítico: primeiro porque não desconsidera, em seu mas pontualmente produzido num determinado
processo de análise, a mudança e a subversão dos momento da história e segundo interesses específicos.
sentidos e valores na história; segundo porque também Ao invés de procurar entender o que é a verdade, é
não separa essas novas significações conceituais dos preciso perguntar-se pelos valores que sustentam o que
interesses com os quais estavam ligadas na origem. se considera como verdadeiro. Ou seja, a solução
Assim, na medida em que a história segue o seu curso, encontra-se justamente na ‘transvaloração’ dos valores,
os sentidos metafóricos vão se amontoando e mudando ou seja, no retorno ao culto de Dionísio, opondo
conforme os interesses de determinados grupos. esterilidade da modernidade à fecundidade da vontade
de potência dos desejos e intuições: “Quem, realmente,
Enunciemo-la, esta nova exigência: necessitamos de uma crítica nos coloca questões? O que, em nós, aspira realmente à
dos valores morais, o próprio valor desses valores deverá ser ‘verdade’? – De fato, por longo tempo nos detivemos
colocado em questão – para isto é necessário um conhecimento
ante a questão da origem dessa vontade – até afinal
das condições e circunstâncias nas quais nasceram, sob as quais
se desenvolveram e se modificaram (moral como consequência, parar completamente ante uma questão mais
como sintoma, máscara, tartufice, doença, mal-entendido; mas

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fundamental. Nós questionamos o valor dessa vontade” Se assim é possível perceber – isto é, a mudança
(NIETZSCHE, 1992, p. 9). radical de valores que acompanha a caracterização
dessa ‘nobre função’ da escola –, a pergunta que
Um diagnóstico: a genealogia da infância propomos é a seguinte: o que faz o adestramento da
infância ganhar socialmente o status de formação? Ou
A criança sempre existiu, mas o mesmo não se então, que elementos corroboram para a identificação
pode dizer sobre a infância. Reduzida ao aspecto daquilo que é bom e próprio da infância tornar-se
cronológico-temporal, a infância é compreendida como culturalmente mau? Parte dessa questão já foi
o ‘não-formado’, o ‘não-educado’, o ‘primitivo’, que respondida com a genealogia da moral; o que falta agora
precisa ser lapidado em direção a um fim (telos) pré- é refinar os conceitos de Nietzsche e adaptá-los a uma
determinado pelo mundo adulto. Aquele indivíduo que possível genealogia da infância.
não internaliza os padrões estipulados pela cultura Analogamente à genealogia da moral, é notório
vigente é considerado o pária, o maldito, o anormal, o observar na educação infantil – e na básica, de modo
mal-educado. Por esse aspecto, o objetivo da escola é geral – a existência de dois circuitos de força: um
‘normalizar’ esses indivíduos, isto é, tirar-lhes a primeiro, o circuito de forças infantil, que é
possibilidade de seres autônomos e inebriá-los com compreendido como incompleto e nocivo, e um segundo,
subjetividades embotadas, esmaecidas, desfalecidas... o circuito de forças institucional-escolar, que é
Sem dúvida, esse desserviço prestado pela escola, no entendido, de forma sub-reptícia, como pleno e salutar.
final das contas, é identificado como o principal Essa polarização que frequentemente o adulto faz na
benefício prestado em favor da natureza humana, com educação infantil, ganha, inclusive, contornos
conotações quase messiânicas. Trata-se do próprio normativos – uma vez que eles padronizam ações –, o
“processo civilizador” – utilizando aqui um termo de que permite falar também em uma moral específica à
Norbert Elias10 – do qual participa a escola como peça experiência infantil e outra à realidade escolar:
ativa e fundamental. enquanto a infância é incapaz e bestial (mau), a escola é
competente e civilizada (bom).
10 “Mostramos como o controle efetuado através de terceiras pessoas é
convertido, de vários aspectos, em autocontrole, que as atividades
humanas mais animalescas são progressivamente excluídas do
palco da vida comum e investidas de sentimentos de vergonha, que sucessivas gerações como a finalidade da ação e do estado
a regulação de toda a vida instintiva e afetiva por um firme desejados, até se concretizar por inteiro nos “séculos de progresso”.
autocontrole se torna cada vez mais estável, uniforme e Ainda assim, embora não fosse planejada e intencional, essa
generalizada. Isso tudo certamente não resulta de uma ideia central transformação não constitui uma mera sequência de mudanças
concebida há séculos por pessoas isoladas, e depois implantada em caóticas e não estruturadas” (ELIAS, 1993, p. 193-194).

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Mas o que está em jogo quando se declara o caráter como modelos impostos ou identitários que a
positivo da escola em detrimento do aspecto negativo da determina ser alguma coisa: “infância é encontro do
infância? Não está presente, nesse caso, uma subversão que se transmuta permanentemente, incompossível na
de valores que, na condição de práticas sociais11, colocam permanência, co-possível na multiplicidade. O
em segundo plano o ressentimento e a inabilidade da indomesticado, selvagem. O caminho que vai se
escola em ser capaz de lidar com a infância pelo o que fazendo enquanto o imaginário devém” (KATZ, 1993,
ela realmente é? Não há aqui uma casca de verniz que p. 93). Nesse sentido, ao contrário do que se idealiza, a
não permite enxergar a infância como plenitude que se infância não se compreende como incompleta; pelo
faz na própria experiência, mas como condição ad contrário, ela é a própria positividade e completude
futurum que a julga como eternamente incompleta e perante seu mundo e possibilidades, semelhante ao
carente? Sem dúvidas, é preciso retirar essa crosta circuito de forças do ‘nobre’, que se define como bom
idealista que desfigura a infância: “por mim não são (gut) em si mesmo e de maneira autônoma.
erigidos novos ídolos [...]. Derrubar ídolos (minha Em movimento oposto, parece que algumas
palavra para ‘ideais’) – isso sim, já faz parte de meu práticas pedagógicas indicam que a escola precisa,
oficio. Privou-se a realidade de seu valor, de seu sentido, primeiramente, desqualificar a experiência infantil
de sua veracidade, no mesmo grau em que se mentiu um (bose), para somente depois se afirmar como adequada
mundo ideal” (NIETZSCHE, 1999, p. 411). (gut). Não estaria presente aqui uma dinâmica
Desfeita de suas idealizações, a infância pode ser semelhante à do circuito de forças do escravo?
compreendida como potência criativa e criadora, e não Obviamente que a escola possui objetivos importantes,
porém, uma vez que ela parte do pressuposto de que a
11 Por práticas sociais tomamos aqui a noção retirada de Paul Veyne, infância precisa ser negada para avaliar a qualidade de
em suas reflexões sobre a história em Michel Foucault. Ou seja, sua ação pedagógica, então sua prática caracteriza-se
não são as grandes ideologias que condicionam as práticas sociais, como reacionária. Nessa lógica, por um lado, a infância,
mas as próprias práticas, enquanto ações imediatas e não
conceituais da natureza humana, que formam as racionalizações
para ser boa, precisa ser contida, delimitada, modelada.
que definem as dinâmicas sociais. “A pratica não é uma instância Por outro, a escola que não domestica crianças para os
misteriosa, um subsolo da história, um motor oculto: é o fazem bons modos e para os papéis preestabelecidos – e, por
que as pessoas (a palavra significa exatamente o que diz). Se a sua vez, úteis para os interesses socioeconômicos –, só
pratica está, em certo sentido, ‘escondida’, e se podemos,
pode ser julgada como uma péssima instituição.
provisoriamente, chamá-la ‘parte oculta do iceberg’, é
simplesmente porque ela partilha da sorte da quase-totalidade de A infância não necessita da negação ou delimitação
nossos comportamentos e da história universal: temos, do outro para se afirmar; isso porque ela não é uma
frequentemente, consciência deles, mas não temos conceitos para
eles” (VEYNE, 1998, p. 248).

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lógica, mas uma experiência do devir12, que potencializa ‘Teus verdadeiros educadores, aqueles que te formarão, te
revelam o que são verdadeiramente o sentido original e a
sua existência, criando um mundo singular e autêntico,
substância fundamental da tua essência, algo que resiste
que não admite nem o certo nem o errado, e que está absolutamente a qualquer educação e a qualquer formação,
pleno em experimentação: “A criança não devém adulto, qualquer coisa em todo caso de difícil acesso, como um feixe
assim como a moça não devém mulher; mas a moça é o compacto e rígido: teus educadores não podem ser outra coisa
devir-mulher de cada sexo, como a criança é o devir- senão teus libertadores’. E eis aí o segredo de toda formação,
ela não procura os membros artificiais, os narizes de cera, os
jovem de cada idade” (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p.
olhos de cristal grosso; muito pelo contrário, o que nos poderia
73).A infância, dinamizada pela ‘moral dos senhores’ atribuir estes dons seria somente uma imagem degenerada
nietzschiana, desafia o mundo adulto a pensá-la como desta formação. Ao contrário, aquela outra educação é
essencialmente má, pois se a experiência da criança for somente libertação, extirpação de todas as ervas daninhas, dos
dejetos, dos vermes que querem atacar as tenras sementes das
compreendida como autônoma, o que pensar então da
plantas, ela é efusão de luz e calor, o murmúrio amistoso da
tarefa social da escola? Porém, a desesperada chuva noturna; ela é imitação e adoração da natureza no que
reafirmação da autonomia escolar perante a ignóbil infância esta tem de maternal e misericordioso, ela consuma a natureza
é, no mínimo, ambígua, pois uma autonomia que quando, conjurando os acessos impiedosos e cruéis, os faz
depende da negação de outra (autonomia), contradiz-se levar a bom termo, quando lança o véu sobre suas intenções de
madrasta e as manifestações de sua triste cegueira
a si mesma e passa a ser heterônoma. Logo, se a inteireza
(NIETZSCHE, 2007a, p. 141-142).
das ações escolares não decorre da positividade de sua
própria experiência pedagógica, mas da negação da
No entanto, a subversão dos valores e o
experiência do outro – sensível pelo adestramento
esquecimento do signo, denunciado por Nietzsche,
infantil –, então é a prática escolar que se torna
também encontram espaço para a discussão infância-
incompleta e, consequentemente, ressentida, uma vez
escola. Devido a interesses de inúmeros projetos
que se sente obrigada a reconhecer-se incapaz em ser
sociopolíticos, a infância precisa ser tolhida e ajustada
aquilo que a infância justamente precisa. Em trecho do
segundo as necessidades da sociedade 13. E para
texto Schopenhauer Educador, Nietzsche descreve qual
justificar esse projeto, passam a ser divulgados
deve ser a função de um educador:
discursos que tencionam formalizar uma idealização
estática e unívoca do conceito de infância, para assim
12 Para Katz (1993, p. 90), “o devir não é o vir-a-ser; o vir-a-ser já é
determinado antes de ser, inscrito num sistema determinista. ser possível a realização de projetos político-
Enquanto o devir não é necessidade, mas produto de encontros a
acasos. Inexiste algum caminho prévio e determinado que a 13 É perceptível essa ideia nas políticas educacionais, como por
criança devesse seguir a fim de se tornar um adulto. Assim a exemplo, na LDB: “A educação [...], tem por finalidade o pleno
criança não é apenas obedecer aos poderes, mas exercício desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da
imanente das potências”. cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 2013, p. 9).

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pedagógicos que incluam certas práticas e igualmente uma ideia a partir de diferentes perspectivas, em
excluam outras. Uma vez que a escola trabalha com um contraposição à pretensão e arrogância dogmática da
conceito de fixo de infância, todos os comportamentos metafísica, que age não pela inclusão, mas pela
que não estejam de acordo com a definição adotada, exclusão de pontos de vista contrastantes. O
passam a ser categorizados como indisciplinares, perspectivismo não muda apenas a forma de relação
nocivos, desajustados, anormais etc. com a verdade, mas também o seu conteúdo: a verdade
não passa de uma interpretação ou atribuição de
A nova educação deveria impedir que os homens cedessem a sentidos, sem jamais ser uma explicação da realidade –
uma propensão exclusiva e se tornassem órgãos, em relação à e conferir sentidos também é conferir valores e
tendência natural da divisão do trabalho. Trata-se de criar
seres soberanos capazes de abarcar o conjunto com um golpe
interesses determinados. Com isso, a tarefa da filosofia
de olho e assistir como espectadores ao jogo da vida, parceiros da educação passa a ser então a de interpretar os
tanto aqui como ali, sem estar muito violentamente engajados interesses e valores que estão escondidos trás das
(NIETZSCHE, 2007c, p. 224). verdades que se dizem eternas, bem como questionar que
sentidos atribuídos às coisas fortalecem a vontade de
Todavia, a abstração da experiência da infância é potência – o querer-viver – e quais a degeneram
apenas uma parcela da tarefa da ‘moral de escravos’; a (NIETZSCHE, 2001).
outra é motivada pela internalização de uma postura O problema é que, como já mencionado, ao colocar
ressentida, por parte da instituição escolar, que a ação sob a regência da abstração, valoriza-se mais o
transfere para a demonização da infância o elemento conceito do que as intuições da própria vida. Em
que lhe permite agir de modo seguro, conforme os substituição ao conceito, Nietzsche propõe o uso da
interesses sociais prescritos. Com isso, a oficialização de metáfora, que na sua opinião é o único modo de
um conceito de infância promove, portanto, a perceber as coisas no seu estado de devir permanente.
imposição de uma verdade (dogma), bem como, a Enquanto o conceito é definitivo e universal, a metáfora
partir dela, a subversão definitiva dos valores, intuitiva é individual, capaz de escapar da
transformando assim a autonomia infantil (bom) em contaminação dogmática do conceito. Desta maneira, a
algo mal por natureza (indisciplina, má-educação, infância não precisa ser entendida enquanto conceito,
anormalidade etc.) e a domesticação social (mau) em mas como metáfora! Segundo Nietzsche, a pluralidade
um bem em si. de ângulos da metáfora e da intuição é enriquecedora
É preciso, portanto, pensar em formas proativas na não porque leva o homem a conhecer o que as são
relação infância-escola. No texto Verdade e Mentira no coisas ‘em si mesmas’, mas por aproximá-lo cada vez
Sentido Extramoral (2001), Nietzsche propõe a sugestão
da tese do perspectivismo, que consiste em perseguir

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mais da complexidade da vida em seu movimento 14. experiência que acontece na incerteza, pelo devir,
Essa noção não só evita a estagnação do conceito e a impulsionada pela diversidade, que não está fadada a
padronização da infância, como também está mais seguir modelos preestabelecidos e temporalmente
próxima da infância como devir, completa e plena em determinados pela cultura hegemônica. A criança é o
seu modo de exercer a experiência autonomamente. próprio devir, de algo que ainda não se sabe o que é,
mas que se descobre na própria experiência e se
Considerações finais reinventa em sua criação, isto é, que não se prende a
um modo permanente, pois o seu valor está na
Ao falar de ‘infância’, sem dúvida, corre-se o risco invenção e na criação do novo, sem fundamento ou
de se chegar a dois tipos de reducionismos – para não finalidade previamente padronizada. O objetivo da
citar tantos outros, é óbvio: primeiro, a facilidade com escola não é fazer da criança um pré-adulto, mas
que se vincula a infância a um conceito universal e possibilitar a vivência dos afetos e das potências – que
uniforme; segundo, o modo imediato com que se são forças vitais que impulsionam o devir em direção à
identifica a infância a partir de uma noção cronológica e resistência e recusa daquilo que está prescrito por um
linear. O que tentamos enfatizar é que a infância não é determinado pacto social ou sistema.
um fenômeno único, muito menos limitado a uma Portanto, falar em infância(s) é pensar em
etapa temporal da vida (física ou psicológica), intensidades de afetos, que, na condição de imanentes à
remetendo-nos, enfim, a um reinado marcado por outra natureza humana (e não defeitos a serem corrigidos),
relação – a intensiva – como movimento. potencializam na criança sempre experiências
Neste constante processo, o tempo da infância não inovadoras, diversas e criativas – obviamente, à medida
é compreendido pela lógica do ‘chronos’, mas pela que vão se formando novos embates e novas
inventividade do ‘aión’ – termologia grega usada para constelações de afetivas. A solução à demasia da
definir um tempo não numerável15. Trata-se, assim, da racionalidade adulta e ao atrofiamento da infância não
deve vir de outras tantas compreensões ‘adulteradas’
14“Enquanto toda metáfora da intuição é particular e sem igual, da pedagogia, mas justamente de onde menos se
escapando sempre, portanto a qualquer classificação, o grande
edifício dos conceitos apresenta a estrita regularidade de um ou entre uma criança e outra criança, ou ainda entre uma
columbário romano, edifício de onde emana aquele rigor e frieza professora e outra professora possam abrir a escola ao que ela
da lógica que são próprios das matemáticas. Aquele que estivesse ainda não é, permitam pensar naquilo que, a princípio, não se
impregnado desta frieza hesitaria em crer que mesmo o conceito pode ou não se deve pensar na escola, e fazer dela espaço de
[...] acabasse por ser somente o resíduo de uma metáfora” experiências, acontecimentos inesperados e imprevisíveis, mundo
(NIETZSCHE, 2001, p. 14). do devir e não apenas da história, tempo de aión e não somente de
15“Quem sabe, um tal encontro entre uma criança e uma professora, chrónos” (KOHAN, 2004, p. 66).

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espera, isto é, da própria infância – exilada pelo adulto GUATTARI, Felix. Revolução Molecular: pulsações políticas
ao reduto da imbecilidade. Fazendo referência ao texto do desejo. Tradução de Suely Rolnik. 2.ed. São Paulo: Editora
O Sobrinho de Rameau, de Denis Diderot, para reaver a Brasiliense, 1985.
sanidade da razão, torna-se fundamental um pouco de KATZ, Chaim Samuel. Crianceria: o que é criança. Cadernos
de Subjetividade, Núcleo de Estudos e Pesquisas da
‘des-razão’, “é preciso saber situar, preparar e salvar as
Subjetividade do Programa de Estudos Pós-Graduados em
dissonâncias na harmonia social. Nada mais sem graça
Psicologia Clínica da PUC-SP, vol. 1, n. 1, p. 90-96, 1993.
que uma sequência de acordes perfeitos. É preciso algo
KOHAN, Walter Omar. A Infância da Educação: o conceito
espicaçante que separe o feixe e disperse os raios” devir-criança. In: KOHAN, Walter Omar (Org.). Lugares da
(DIDEROT, 1979, p. 76). Ou seja, uma dose de Infância: filosofia. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.
dionisíaco no apolíneo! NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm.Assim Falava Zaratustra:
um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo
Cesar de Souza, São Paulo: Companhia das Letras, 2011a.
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